segunda-feira, 31 de março de 2014

EI, VOCÊ NÃO É SHELDON COOPER! >> André Ferrer

Revi alguns episódios de The Big Bang Theory (TBBT). Voltei à primeira temporada e consegui tirar uma teima.

Sheldon apresenta, sim, algumas características da Síndrome de Asperger. Isto é inegável. Trata-se, no entanto, de uma sitcom e Sheldon é plano tanto quanto é possível a um personagem ser plano nesse gênero de entretenimento. Até mesmo o Charlie (Sheen) Harper de Two and a half men (Dois homens e meio) apresenta algumas curvas no seu design psicológico.

Para quem não lembra ou não sabe, personagens de narrativas podem ser classificados como planos ou esféricos de acordo com a sua complexidade. Em geral, os personagens dos grandes romances são esféricos, o que dificilmente acontece nas novelas e nas séries de TV.

A Síndrome de Asperger é um problema que traz muito sofrimento às pessoas desde a infância. Encontrei comunidades na web onde fãs de TBBT se dizem “aspies” enquanto comentam as peripécias do Sheldon e sua turma! Um absurdo motivado por modismo e ignorância. Insisto, portanto, neste conselho para quem acha o Sheldon o máximo: leia um artigo ou assista a um vídeo sobre os aspies. Aprender com os problemas de quem realmente tem problemas conduz à reflexão. Muita gente amadurece e abandona o papel adolescente de “poser” (imitador inconsequente) queixoso.

Como eu ia dizendo, procurei um site para fazer o download da primeira temporada da série. Queria me certificar de que Sheldon era mais caricato e dramaticamente pobre do que Charlie Harper, o compositor beberrão, mulherengo e chauvinista que hospeda o irmão e o sobrinho em Malibu. Revi, cuidadosamente, o início de TBBT e, para ser exato, empreguei uma amostra de três episódios. Descobri, então, que já era o bastante.

Eu não encontrei nenhuma profundidade em Sheldon e, novamente, perguntei a mim mesmo: o que, afinal de contas, justificaria tanta badalação ao redor de TBBT?! Por que tantos jovens se autoproclamam fãs número um de um sujeito como aquele? Ora, uma pessoa como Sheldon, no mundo real, faria e seria tudo o que qualquer jovem simplesmente não desejaria fazer e ser nem por duas horas nas suas vidas sensacionais, ou seja, estudar muito (sim, até os gênios precisam estudar!) e ter um comportamento esquisito. Agora, eu pergunto: alguém seria assim por escolha? Claro que não.

Para os jovens fãs e imitadores (que, aliás, ficam ainda mais planos que o original), Sheldon é como aqueles aparelhos vibradores que prometem “exercício físico e perda de calorias sem o menor esforço”. Sintam-se geniais! Basta fazer de conta que é o Sheldon sem ser um equivalente real do Sheldon porque, agora, existe a modinha de ser nerd sem ser nerd. Porque simplesmente capitalizaram em cima da rica e profunda figura do pária (excluído). Como se a existência do nerd tivesse alguma coisa a ver com popularidade e “espírito descolado”.

Um pedido: respeite quem não tem escolha. Não imite nem se divirta com caricaturas de gente que só pode ser como é.


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domingo, 30 de março de 2014

DOMINGOS EM CASA >> Whisner Fraga

Era final dos anos 1980 e as bandas de rock nacional despontavam como ícones adolescentes e eu ouvia todas. Claro que as duplas sertanejas começavam a tomar seu espaço, mas ainda assim com um pé no clássico: guitarra era palavrão para elas. Os discos de vinil eram uma grande diversão, embora cara. Íamos a uma loja, ficávamos a tarde inteira escutando músicas, até nos decidirmos a levar um álbum para casa.

Naquela época, meus pais acabaram por comprar um aparelho Polivox, que devia ter uns 40 Watts de potência, mas resolvia razoavelmente o problema da falta de música no lar. Como éramos seis convivendo em uma frágil harmonia, cada um devia ter seu horário junto ao toca-discos. Eu geralmente aproveitava a noite, e, enquanto todos assistiam às novelas, ajeitava o fone de ouvido para escutar minhas músicas prediletas.

Quando criança, lembro-me de minha mãe lavando nossas roupas. Ao lado do tanque, um pequeno rádio estava sintonizado em uma AM qualquer da cidade. Foi assim que conheci Raul Seixas. Tenho quase certeza que minha mãe não curtia o rock daquele sujeito, mas não desligava o aparelho, pois vivia com as mãos ocupadas.

Ultimamente o som havia perdido espaço aqui em casa. Eu só escutava meus compositores preferidos no carro e geralmente no trajeto até o trabalho. Ou seja, durante meia hora. Mas parecia que faltava algo, não estava satisfeito. É sempre muito ruim quando temos de estacionar e silenciar uma canção antes de seu fim. Como nosso minisystem é muito grande, ficou encaixotado desde nossa mudança, há um ano. Aqui em São Paulo, espaço é algo valioso.

Então me desfiz do trambolho e comprei outro menor, bem menor. Um microsystem. Assim, tirei das caixas a coleção de música clássica para crianças e estamos, eu, Helena e Ana, curtindo, neste momento, um pouco de Verdi. Que maravilha! Desde ontem a família se reúne para estes momentos de encanto. Ana, uma pianista aposentada, conta as histórias das composições para Helena. Eu mesmo me arrisco a falar sobre o Lago dos Cisnes, já que Tchaikovsky é meu compositor predileto.

Eu acredito que a música é algo primordial para o ser-humano. Tenho convicção de que somente a arte teria o poder de salvar a humanidade de suas próprias garras. Todavia, arte é o que menos encontramos nas casas brasileiras. Música de baixa qualidade, subliteratura, blockbusters de Hollywood, novelas imbecilizantes, o dia-a-dia de nosso povo é cercado de lugares-comuns, que apenas contribuem para a formação de cidadãos apáticos e despreparados para o exercício da compaixão. E acho que isso não mudará durante os próximos mil anos.

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sábado, 29 de março de 2014

DAS NOVAS AVENTURAS >> Cristiana Moura

De cara encantei-me com as entrelinhas da nova aventura, conferindo-me a possibilidade de respostas inusitadas a perguntas comuns.

— Cris, o que você vai fazer amanhã?
— Depende do vento.

Às vésperas dos meus quarenta e dois anos, descobri uma nova paixão — o kitesurf. Para quem desconhece, é aquele esporte aquático que empresta ao azul do céu cores diversas com suas pipas. A pessoa, em cima de uma prancha, é levada pelo vento através da tal pipa multicor.

Ontem me preparei toda para mais uma aula. Logo cedinho choveu e em seguida abriu um solão. Ah, mas logo depois de chuva, isto eu desconhecia, não tem vento. Ontem não velejei. Primeiro aprendizado: depende do vento. Essa ausência de controle trouxe ao meu cotidiano uma leveza-verdade tal. Porque me vejo, tantas vezes, tentando controlar a vida em gestos vazios de excessiva prudência. Esse tal controle da vida, além de cansativo, é ilusório. Minha ilusão foi levada pelo vento.

Antes da ausência do vento de ontem eu já havia experimentado outras aulas. Primeira aula: montar o a pipa e aprender a controlá-la no que eles chamam janela de vento. Olha aí o tal controle de novo! É estupendo! Preciso controlar a pipa através do que não controlo, o vento. Para que dê certo, preciso ser amiga do tal vento, usá-lo a meu favor e deixá-lo me levar. Para minha surpresa, o manejo da pipa não requer força, pelo contrário, é composto de movimentos leves e sutis. Se colocar força, ou a pipa cai ou ela me derruba.

À medida que sinto o vento na minha pele, consigo senti-lo melhor na pipa. Segundo aprendizado deste novo esporte: é preciso base, enraizamento. É a mesma base que se fala nas artes marciais e terapias corporais. É quando a gente diz: "Fulano tem os pés no chão". A pipa é montada e descolada na areia, com os pés bem firmes no chão e o os braços leves. Eu, fora de forma e bem acima do peso, fiquei me sentindo, em meio aos homens musculosos sendo derrubados na areia. Nos últimos vinte e quatro anos essa tal base é o que mais tenho aprendido nas terapias por onde ando.

No encanto das novas experiências, preciso aprender a manter-me firme na água, este chão que se move. É, a tal segurança, tantas vezes confundida com controle, ilusão levada pelo vento, não está no outro, não está no chão no qual piso, está em mim mesma. E vou, agora, começando a aprender a sustentar-me em um chão de ondas.

Há dois meses, meu filho entrou na universidade. Fiquei cheia de orgulho e com uma sensação de missão cumprida. Mais ou menos duas semanas depois do início das aulas, eu sentia-me meio vazia por dentro, digo mesmo melancólica. Não reconhecia que tais sentimentos vieram junto com a estranheza da nova vida de mãe de adulto — meu chão havia mudado sem que eu me desse conta.

Aí, ao buscar manobrar a pipa de dentro d’água, entendi que quando o chão muda eu tenho que mudar também. Porque se não mudo, eu caio. E vou caindo e aprendendo.

No começo se entra no mar com a pipa , mas sem a prancha. No primeiro dia, depois de alguns minutos na delícia de ser levada no mar, perdi a pipa. Não soltei a barra de manejo quando deveria e ela se desprendeu de mim. No segundo dia, já manobrando a pipa um tantinho melhor, a vida havia se transformado em uma brincadeira entre a pele e a água, uma montanha russa no mar, com direito a sorrisos, gritos e frio na barriga. No meio do prazer aquático — a certeza da nova paixão.

Terceiro dia: subir na prancha. Numa mão a barra de manobra e a pipa presa pela cintura, na outra a prancha. Há primeiro que se passar as ondas, o que não é assim tão fácil. Vai, volta, vai, volta, vai, passei! Agora é dividir o peso do corpo entre a água, a pipa e os pés se encaixando na prancha. A prancha escorrega. Mais uma vez. E outra. Acertei! Respiro fundo com o coração já acelerado.

Por fim, é juntar este controle na ausência de controle na amizade com o vento e o equilíbrio sobre a água. Tibum! A queda. Cair na água tem uma felicidade infantil que, na boca da minha avó, chamava-se fazer arte. Tibum! Outra queda. Tibum! Tibum! Tibum!

Posso ouvir a voz da minha mãe atravessando os tempos:
— Baixa o facho, Cristiana, parece que tem fogo no rabo!
— Baixo não — sussurro em pensamento.

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sexta-feira, 28 de março de 2014

O GATO - PARTE I >> Zoraya Cesar

Nenhum clichê se aplicava ao caso, até então. Não chovia, trovoava ou relampejava assustadoramente. Não era noite cerrada, não havia corujas piando em troncos queimados, a hospedaria não caía aos pedaços, e os hóspedes não andavam de cabeça baixa, sussurrando segredos inconfessos.

Quando ele chegou era plena luz do Sol, e o calor, refrescado por uma suave aragem, que trazia cheiros de mato e água corrente; pássaros cantavam aqui e acolá se viam algumas borboletas; a casa, de estilo colonial, bonita e bem cuidada, era cercada por mata exuberante, os hóspedes pareciam felizes. E, como em qualquer lugar do mundo, examinaram — discretamente, diga-se — o recém-chegado. 

Examinaram, mas logo perderam o interesse. Cabelos na altura dos ombros, brinco na orelha e tatuagem já não são marcas registradas de comportamento rebelde há algum tempo; suas roupas eram simples e ele parecia muito cansado. Ou seja, em breve foi absorvido pela paisagem local e devidamente esquecido. Até porque o tal recém-chegado, embora gentil, era de poucas palavras e talvez fosse um tanto antissocial, pois sempre se sentava calado e sozinho às refeições e passava o dia a explorar a floresta. 

Um dia, porém, chegou sorridente para a dona da hospedaria, e perguntou-lhe onde estava o gato cinzento que vira naquela manhã.

A mulher, bonita, de uns quarenta anos indefinidos, olhos verdes e redondos como os de uma serpente, convulsionou o rosto tão fortemente que apagou o meio-sorriso que trazia sempre pronto para todas as ocasiões. Essa reação estranha demorou um átimo de segundo, e, inteiramente recomposta, com toda a calma e o meio-sorriso de volta, ela afirmou, categoricamente, não haver e nunca ter havido qualquer gato por ali.

A certeza dela o desnorteou e ele creditou a alucinação ao cansaço e ao estresse. 

No dia seguinte, entretanto, o tal gato estava, qual esfinge, a esperá-lo no início da trilha, gracioso, cinzento e, positivamente, tão real, que o rapaz espirrou seguidas vezes, comprovando não só a existência do felídeo como também a ironia do Destino: era alérgico a gatos, seres imprescindíveis a seu oficio. Deitou-se ao Sol, para descansar, Deus, como precisava descansar. O gato deitou-se também e ficaram os dois a dormitar boa parte da tarde, apenas percebendo o canto dos pássaros, a azáfama incessante das formigas e o cheiro de terra úmida perto do córrego.

À noite, mais relaxado, foi dormir se indagando por que a hospedeira mentira. Dormia profundamente, como há muito não conseguia, quando, no meio da madrugada, mais exatamente às 3 horas, acordou sobressaltado, com o barulho de miados insistentes e lamurientos. Levantou, olhou pela janela e sentiu arrepios tão violentos que seu corpo todo tremeu. O felino cinzento miava em direção ao quarto da hospedeira, porém, mesmo sob a forte luz de uma lua cheia, não havia sombra alguma projetada no meio do gramado onde o gato estava sentado. 

Ele correu escadas abaixo, as pernas ainda bambas. Ao chegar no jardim, porém, o animal já não estava. Ainda procurou em volta, mas não viu, literalmente, nem sombra do gato. Todas as janelas continuavam fechadas e um silêncio não quebrado nem pelos bichos noturnos ou pelo vento se abatia pesadamente no lugar. Voltou aos seus aposentos, desolado. Ou ele estava, definitivamente, tendo um ataque de nervos — o que, na sua profissão significava aposentadoria — ou, também definitivamente, algo muito bizarro estava acontecendo ali, e envolvia a hospedeira de olhos de serpente e o gato sem sombra. E agora, ele também.

No dia seguinte, não encontrou a hospedeira, nem ouviu qualquer referência, nas conversas do café da manhã, aos acontecimentos noturnos, ou sobre a existência de um enorme gato cinzento que, aparentemente, só ele via e ouvia. 

Saiu em direção a uma das trilhas. Como previra, o gato estava lá, quietamente a esperá-lo. Embrenhou-se no mato, pensando, um pouco incoerentemente, que era melhor o bichano saber o caminho de volta, ou ele nunca mais conseguiria sair dali. 

Chegaram a uma clareira, no fundo da qual se escondia um poço, já meio carcomido pelo abandono, invadido pelas heras. Ele se aproximou, cautelosamente, como a experiência lhe ensinara, e viu que o poço estava aterrado, não havia água. Sentiu algo estranho, mas não conseguiu precisar o quê, e resolveu voltar. Já entardecia, o trajeto era longo e a última coisa que desejava era ficar perdido na mata fechada — seus nervos não estavam firmes o suficiente e o gato sumira. Bicho idiota, pensou, vou acabar perdido aqui nesse ermo. 

No entanto, seu senso de direção continuava impecável — outro atributo necessário ao seu trabalho — e ele conseguiu encontrar o caminho de volta. Quase no final do percurso, ouviu uma espécie de canção que lhe pareceu familiar. Esgueirando-se silenciosamente, viu, às últimas luzes do crepúsculo, o que seria a cena mais extraordinária de sua vida, não fosse sua própria vida já tão extraordinária.

A hospedeira, trajando uma túnica inteiramente negra, cavava perto de uma árvore, entoando uma cantiga em língua morta. O buraco aberto era pequeno, mais parecia uma cova e, de repente, ele teve uma intuição do que a mulher procurava. Procurava saber se o gato cinzento continuava enterrado onde fora colocado.

Continua no dia 11 de abril, a partir das 10h, a hora da Roda da Fortuna, da lei dos sucessivos começos...


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quinta-feira, 27 de março de 2014

A BRIGA NÃO COMPENSA >> Fernanda Pinho


Estávamos eu, minha mãe, minha irmã e meu marido no carro. Minha mãe ao volante. Cerca de oito horas da manhã, num dos principais corredores de acesso de Belo Horizonte. Não é difícil imaginar que havia muitos carros e o trânsito estava lento. Não existia pressa da nossa parte pois havíamos saído com antecedência para nosso compromisso, exatamente por saber de cor e salteado a situação do trânsito naquela hora, naquele local. Não parecia ser, porém, a situação da senhora que estava atrás de nós que, do nada, desembestou a buzinar.

Não fizemos nada, afinal não havia o que fazer. Ela, por sua vez, não se intimidou em nos cortar pela direita e passar por nós buzinando e apontando o dedo do meio. Nossa primeira reação foi cair na gargalhada. Depois, morri de pena. Pena porque nem precisa ser muito inteligente para saber que a ultrapassagem não adiantou em nada e ela continuou empacada no trânsito, como estávamos todos. Pena porque ela rumaria a um compromisso importante (acredito eu que algo muito importante a esperava) carregando toda aquela energia negativa.  E, principalmente, pena porque ela tomou tal atitude achando que nos prejudicaria de alguma forma e a única prejudicada foi ela. Nós seguimos rindo do episódio e ela amargurada e isolada em sua mundinho onde as coisas têm que funcionar ao seu modo.

Sei que é assim, por experiência própria. Já fui uma pessoa muito boa para briga e geralmente eu me saía muito bem nos meus argumentos e na imposição do meu ponto de vista. E o que eu ganhei com isso? Como a diz a música do Pato Fu: “Das brigas que ganhei, nem um troféu, como lembrança, pra casa eu levei. Das brigas que perdi, essas sim, eu nunca esqueci”.

Aprendi que toda briga, no fim das contas, é derrota. E, por isso, tenho abandonado algumas antes de entrar. Semana passada fui expulsa da academia onde malhava. Sim, expulsa. Reclamei que as esteiras não estavam funcionando e a dona não gostou da minha reclamação. Expliquei para ela que eu estava reclamando pois todos os dias acontecia alguma coisa (ou era a academia que fechava para reforma sem avisar, ou eram os ventiladores que não funcionavam, ou a mensalidade que subia sem comunicado prévio). Insatisfeita com minha opinião, ela me convidou aos berros de “some daqui” para que eu me retirasse do recinto, que ela não precisava de aluno insatisfeito. Eu tentei articular alguma defesa, mas fiquei chocada demais com a reação extrema da mulher. Eu que nunca fui expulsa de lugar nenhum, sendo enxotada só porque reivindiquei algo pelo qual eu havia pago. Meu marido, que assistiu a tudo chocado, e é uma pessoa que não suporta briga, registrou uma queixa na polícia em minha defesa.

Quando cheguei em casa, logo depois do episódio, só conseguia chorar de nervoso. Desabafei  com algumas pessoas e recebi algumas orientações sobre o caso. Mas, sabe, decidi deixar pra lá. Resolvi meu problema andando mais dois quarteirões e me matriculando em outra academia. Coisa, aliás, que já era um plano nosso. Estávamos apenas esperando o fim do mês.


Quanto à moça que me expulsou, coitada. Não pode sair do seu corpo e se matricular em outra existência. Está fadada a conviver com ela mesma. Com sua intolerância às críticas, com seu mal humor, com sua impaciência, com sua arrogância, com sua dificuldade em gerir seu negócio e as pessoas nele envolvidas. Quem sou eu para fazer alguma coisa contra ela. A vida já fez.


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quarta-feira, 26 de março de 2014

SEM DESTINATÁRIO >> Carla Dias >>


Eu não sei quem você é. Você não sabe quem eu sou. Não sabemos se temos algo em comum: desejos, discos, comida, partido político. Não fazemos ideia se, dia desses, estaremos em um mesmo lugar, na mesma hora.

Por nada saber sobre você, eu imagino com a imaginação desenfreada. Lembra-se de quando pintávamos desenhos na escola? Era pato azul, margarida verde, pele laranja. O preceito desse meu sentimento em relação à imaginação é o mesmo. Trata-se da mesma liberdade daquela época, de quem ainda não decorou a verdade absoluta sobre isso e aquilo. De quem ainda não desaprendeu a desconfiar de qualquer verdade absoluta.

Absolutismo me dá preguiça. E pra você? No que dá?

Ah, sim, a vida urge e a telecomunicação anda muito mais rápida e rasteira do que no tempo dos classificados em revistas de novelas em quadrinhos, as velhas, porém interessantes, fotonovelas. Nelas, parecia que o tempo era mais largo, não? As pessoas conversavam sem pressa, e suas feições eram congeladas pelo sentimento transmitido em palavras flutuando em balõezinhos.

Eu não sei se você é cientista, bancário, catador de silêncios ou criador de caso. Qual é o signo, a sina, a rua onde mora, a infância que lhe batizou, e a bebida preferida. A minha é chá de camomila, mas disso você não sabe. Com algumas gotinhas de limão, para enfeitar o paladar.

Outro dia, eu lhe disse palavras escritas, em mensagem que mandei para mim mesma, por e-mail. Como aquelas pessoas que, necessitadas de serem escolhidas pela atenção de alguém, mandam buquês de flores a si mesmas, no trabalho, que é para que todos testemunhem o apreço, ainda que falseado.

Debaixo das pálpebras das tantas formas de comunicação de hoje em dia, descansa o desejo dos olhos nos olhos, que somos bichos que necessitam de espreitar, no decorrer do apaixonamento. E apesar de tentarmos o contrário, preferimos, ainda, conhecer pessoas a mergulharmos em perfis. Uma dose de tempo, outra de acaso.

Se o universo ainda não lhe contou, eu gosto de tomar chuva, de andar descalça pela casa, de escutar discos no último volume. Prefiro a noite, a exuberância das emoções fora do tom ao conluio das certezas. Saiba que, o que não cai bem no meu currículo, desfila bonito na minha vida. Sou nada profissional quando a conversa é fiada no sentimento.

Eu não conheço você, tampouco você sabe sobre mim, o que não lhe impede de pensar sobre mim, que a vida, com a diversidade de meios de nos comunicarmos, de nos achegarmos, ainda depende da aposta do destino. E o espírito, que renega amarras, viaja na velocidade desconhecida dos milagres. A geografia pode estar contra nós. A metafísica pode ser nossa aliada, assim como a aspereza pulcra que habita os poemas de Bukowski. O que não nos impede de chegar ali, naquele mesmo lugar, no momento: o mesmo.

Podemos ser crônica ou comicamente incompatíveis. Podemos, até, concordar com isso. Talvez sejamos a combinação exata dos ingredientes da imperfeição. Agora, é nos encontrar para ver... Aqui ou acolá, Porto Alegre ou Uberlândia. Londres ou New Orleans. Haiti ou Frankfurt. Seja lá onde for.


Imagem: sxc.hu



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terça-feira, 25 de março de 2014

DESCULPA POR NÃO AJUDAR >> Clara Braga

Tudo começou com o tal garoto que ficava em cima de uma mala morrendo de chorar, na beira de uma rua, em um meio fio. Então alguém comovido para, conversa e entende a situação do pobre garoto que só quer reencontrar a família, mas não tem dinheiro para voltar para sua cidade. Eis que a pessoa vai até o banco, saca uma alta quantia e dá para o garoto, que logo arruma outro meio fio para chorar e arrancar dinheiro do povo que, como eu, se comove fácil.

Depois teve a tal ligação desesperadora, com alguém gritando atrás enquanto a pessoa diz que sequestrou um parente seu. A ligação é tão real e os bandidos falam tão rápido que a vítima não consegue nem raciocinar. Consequência, já vi gente que nem tem filho se desesperar com a tal ligação que dizia que ia matar o filho dela caso um depósito não fosse feito.

Ai tem as ligações falsas de banco e operadoras de celular que falam que você precisa refazer algum cadastro e, quando você menos espera, está com o cartão clonado. Os SMS falsos dizendo que você foi premiado com uma casa ou uma viagem, o golpe dos perfis falsos das redes sociais que fazem você acreditar que encontrou o amor da sua vida, o pai desesperado porque a filha caiu da escada, está muito machucada e ele não tem dinheiro para levar ela para um hospital. E esses só só alguns exemplos dos vários golpes que vêm acontecendo por ai.

Aparentemente, os golpistas já entenderam que é muito mais comum as pessoas pararem para ajudar mulheres em situações complicadas do que homens, então agora foi anunciado um novo golpe. A mulher para no meio da rua com o capô do carro aberto e uma cara de desespero. Supondo que algo aconteceu com o carro, as pessoas param para ajudar e são surpreendidas por outros homens que estavam escondidos dentro do carro. Eles sequestram a pessoa de bom coração que só queria ser útil, levam para o banco, mandam sacar todo o dinheiro que a pessoa tiver e, dependendo dos bandidos, liberam a pessoa. E a pessoa que é liberada ainda tem que dar graças a Deus, porque hoje em dia bandido que te solta sem ser extremamente violento está sendo muito bonzinho com você e quase garantindo para ele um lugar no céu.

Se antes não deveríamos aceitar nada de estranhos, hoje não devemos nem olhar os estranhos no olho. Sei que é complicado, afinal, todo mundo pode um dia ficar parado no meio da rua com um carro estragado. Quem, diante dessa situação, não gostaria de receber uma ajuda?

Por isso, estou aqui para fazer um pacto. Caso você não seja da minha família ou alguém que eu conheço pessoalmente, entenda que se eu passar por você na rua, não vou te ajudar. Sei que soa egoísta, mas no final das contas é bem isso, temos todos que prezar pela nossa segurança, então, desculpa por não te ajudar, mesmo você não sendo um bandido. Eu não tenho como saber quem tem boas e quem tem más intenções. Mas não se preocupe, caso eu esteja parada na rua com o carro estragado, vou ligar para um parente ou para o seguro do carro e aguardar socorro. Prometo que não vou xingar você nem a sua família por você estar sendo um egoísta e não ter a bondade de me ajudar. 

Então o pacto é esse, vamos todos entender que, quando se trata da nossa segurança, vamos todos ser um pouco mais egoístas, mas não vamos nos culpar por isso, combinado? 


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segunda-feira, 24 de março de 2014

PERSEGUIÇÃO >> Albir José Inácio da Silva

Pedro olhou pro relógio quatro vezes nos últimos cinco minutos. O ônibus não estava atrasado ainda, mas podia se atrasar. Mexia-se, mão no bolso, coceira na perna, na cabeça. Abre bolsa, fecha, confere a marmita. Não vazou, já tinha visto isso.

Uma estudante percebe a angústia. Pedro foi pouco à escola, mas sabe que se pode chegar atrasado lá. No máximo fica de castigo. Ele, não. Não pode se atrasar. A menina não se contém: “Calma, moço, o ônibus já vem”.

O ônibus podia chegar mais cedo, pelo menos hoje. Nada pode ser pior do que atraso hoje. Quer dizer, o pior aconteceu ontem, botaram o Jorge como encarregado. Tanta gente pra escolher. Tinha que ser o Jorge. Jorge que nunca gostou dele. Jorge que o perseguia, humilhava, antes mesmo de ser encarregado. Imagina agora, o que não vai fazer.

Deve ser coisa de santo que não cruza, essa ojeriza desde o dia que Jorge chegou na fábrica. Cabelo esquisito, manga dobrada pra mostrar que é forte, nariz pra cima e voz gritada. Pedro detesta voz alta. O olhar é de zombaria. Tudo é motivo de gozação quando vê o Pedro: roupa, marmita, sapatos e até o santinho de sua devoção. Aquilo é um demônio.

Quando o Seu Nicolau anunciou o novo encarregado, Jorge sorriu um sorrisinho amarelo e olhou pra ele. Por que olhou pra ele? Lá vem perseguição. Pedro não dá motivos, mas quem disse que precisa. Quando o diabo quer, ele arranja o motivo.

O ônibus chegou na hora, mas nada acalmava o coração de Pedro. Gastou a viagem sofrendo pelo que se transformaria sua vida daqui pra frente. No portão, teve vontade de não entrar. Estava no horário, mas teve medo de atraso no seu relógio. E quem estava perto do escritório? Jorge.

O novo encarregado viu quando Pedro entrou e foi na sua direção. Pedro se armou: não ia aturar desaforos, que se danassem os quinze anos de casa, tinha vergonha na cara, trabalho não falta pra quem é honesto. Suportou aquilo tudo porque era na conta de brincadeira de colega, mas não ia aguentar humilhação de chefe. Levantou o queixo e desafiou Jorge com o olhar, mas ele nem percebeu:

— Seu Pedro, eu queria falar com o senhor. Eu sei que a gente tem nossas diferença. Acho que o Senhor não gosta de mim. E até com razão. Eu tenho umas brincadeira meio esquisita. Mas isso era antes. O senhor me desculpe qualquer coisa. O Seu Nicolau disse pra mim arranjar um homem de confiança pra ajudar nessa coisa de encarregado. Eu sei que o senhor conhece bem o serviço, tá aqui há mais tempo que eu, e se o senhor quiser trabalhar comigo, eu vou ficar muito sastifeito. Tem uma coisinha a mais no salário e o batente não é tão pesado. Pensa direitinho, depois o senhor me fala.

Jorge apertou a mão de Pedro e se afastou. Pedro ficou olhando a mão ainda esticada. Pigarreou, piscou com força duas vezes, fungou e sacudiu a cabeça para espantar uma bobagem que lhe deu no peito – isso de bobagem não é coisa de macho.

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domingo, 23 de março de 2014

VIDA E MORTE DE UM TRAUMA
Eduardo Loureiro Jr.

Trauma é quando uma coisa muito ruim acontece e aquela coisa continua acontecendo dentro da gente mesmo que já tenha parado de acontecer do lado de fora.

Quando eu fazia a 2ª série e tinha oito anos, deu vontade de fazer cocô no meio de uma aula. Pedi licença à professora e fui ao banheiro. Só depois que me aliviei é que descobri que não havia papel higiênico. A solução que encontrei foi me limpar com a cueca. Acho que ninguém na sala percebeu que eu estava sem cueca nem a zeladora reparou numa cueca escondida no cesto de lixo, mas, daquela manhã em diante, eu nunca mais saí de casa sem fazer cocô antes. Com vontade ou sem vontade, eu sentava no vaso de casa o tempo que fosse necessário para expelir alguma coisa. Estava criado meu trauma, que, por anos e ânus, me trouxe minutos diários de leitura no banheiro, muitos frascos de elixir paregórico e hemorroidas.

Décadas depois, por uma questão de saúde, tive que desfazer, minuto a minuto, gota a gota, fibra a fibra, o meu hábito. E eu até me julgava curado do trauma, mas o destino resolveu fazer comigo a prova dos nove...

Ontem, 35 anos após a traumática caganeira no colégio, eu estava confortavelmente sentado à janela do 363, na altura da Avenida Francisco Sá, quando, entre um sacolejo e outro do ônibus, senti aquele terremoto abdominal. Numa situação dessas, o sujeito, no caso eu, passa pelos mesmos estágios de alguém que é diagnosticado com uma doença fatal e irreversível: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação.

NEGAÇÃO. Não, isso não está me acontecendo. Foi só um leve ajustamento das placas tectônicas intestinais. Já vai passar. Mas as minhas tripas, atentas ao meu diálogo interior, se contorceram em discordância.

RAIVA. Puta merda! De novo? Já fiz cocô duas vezes hoje. Não sei pra que agendei esses atendimentos para hoje. Devia estar em casa pra cagar em paz!

NEGOCIAÇÃO. Tudo bem, calma. Vamos fazer o seguinte, meu intestino querido. Você se segura aí até eu descer do 363, depois faz com que o Circular 1 passe rapidinho e não fique parado muito tempo no final da linha. Aguente até eu chegar à Praça Portugal, depois mais uns 10 minutinhos de caminhada até o Varanda Mall... Não, tudo bem. Se você não aguentar tanto, nós vamos logo no Shopping Aldeota, assim que descermos do Circular 1. Meu intestino me respondeu que talvez pudesse aguentar uns dois minutos, mas nunca quarenta, e deu uma remexida altamente sonora.

DEPRESSÃO. Meus Deus, por que isso está acontecendo comigo? “Ó vida, ó dor de barriga, ó azar da moléstia!” Eu vou me cagar nas calças, todo mundo vai sentir o cheiro e vão mangar de mim. Vou ficar conhecido como o cagão do 363. Eu quero morrer antes de me cagar. O intestino, compreensivo, deu uma acomodada, mas eu sabia que não duraria muito.

ACEITAÇÃO. Ok, se é pra se cagar, vamos cagar com dignidade. Tem um supermercado a uns duzentos metros daqui. Levantei do assento, puxei a cordinha e, dois semáforos depois, agradeci ao motorista (será que ele estranhou eu ter descido cinco ou seis paradas antes do meu ponto tradicional?).

Caminhei até o supermercado o mais rápido que pude sem abrir demais as pernas em cada passo. Entrei no supermercado tentando parecer um cliente normal. Tentei procurar eu mesmo pelo banheiro, mas o intestino deu aviso de que não poderia esperar pela minha vergonha.

Tinha um zelador passando pano no chão. Me controlei para não dizer “meu senhor, eu tô me cagando nas calças, onde é que fica o banheiro?”, e falei educadamente:

— Boa tarde.

— Boa tarde — disse o zelador, desencurvando o corpo.

— Vocês têm banheiro aqui?

O homem, muito solícito, resolveu responder nos mínimos detalhes:

— Sim, o acesso é pelo lado de fora da loja. Você pega a rampa...

O resto eu não ouvi (o intestino falava mais alto). Agradeci já me virando na direção da entrada da loja e da rampa.

Ô rampa longa! E ainda fazia uma curva e tinha mais rampa longa. Se eu apressava o passo, o intestino mexia. Se eu ralentava o passo, a barriga doía. No subsolo do supermercado, estava a tão esperada porta com a placa “Banheiro Masculino”. Logo abaixo dela, um cartaz de papelão amarelo, desses bem chamativos usados para promoções de última hora. Letras garrafais pintadas com pincel atômico em duas cores: “INTERDITADO”.

Revivi os cinco estágios pré-morte em um único segundo. “Isso não está acontecendo comigo”, “puta que o pariu!”, “dá pra segurar mais um pouco, intestino?”, “perdi, vou me cagar”, “quais são minhas alternativas?”.

A verdade é que eu tinha três alternativas: o banheiro feminino, o banheiro masculino para deficiente e o banheiro feminino para deficiente.

Para o leitor pode parecer uma escolha simples, mas para mim não foi. Porque, quando estou dirigindo, eu não estaciono em vaga de deficiente. Mesmo em ônibus, eu não sento em vaga de deficiente, mesmo que seja o único assento livre no ônibus. Então não havia por que eu usar um banheiro para deficiente.

Quem me conhece sabe que eu sou caxias, CDF, cu de ferro... É isso! Cu de ferro! Essa é a lição final do trauma. Toda a rigidez de horário, todo o metodismo, todo o controle sobre cada pequeno fato da vida... tudo tentando controlar o mundo pelo cu. Eu que sempre tentei fazer o certo agora entendo por que as pessoas fazem as coisas erradas: estacionamentos em fila dupla, desvios de verba, todas as incivilidades, todas as trapaças, todas as regras de boa conduta estão sendo quebradas por que a pessoa está com algum tipo de caganeira e o banheiro certo está interditado. Caganeiras físicas, caganeiras mentais, caganeiras emocionais. Todo mundo cagando para as regras porque o intestino não está para  brincadeira. Abri a porta do banheiro masculino para deficiente gritando empolgadamente por dentro: Viva o jeitinho brasileiro!

Mas minha empolgação durou pouco. A primeira visão que tive do banheiro foi um tubo amarronzado em cima da caixa do vaso. Não havia papel higiêncio. E o vaso estava todo mijado. Aquele tubo amarronzado voltou a acionar os cinco estágios: “Não pode ser. Não, não, não!”, “Onde está Deus numa hora dessas? Deve estar morrendo de se abrir”, “Tem certeza que não dá pra aguardar até eu ir ao banheiro feminino de deficiente, ó intestino”, “além de me cagar, vou pegar alguma doença usando esse vaso”, “ok, vou ter que me virar, quais as minhas alternativas?”.

Ao pendurar a mochila no basculante, lembrei de “uma camisinha para vaso” que eu havia comprado por pura curiosidade, uns meses antes. Compra daquelas de impulso, feita na beira de um caixa de loja de miudezas. Bendito seja o consumidor compulsivo que mora dentro de mim. Vesti a tampa do vaso, desabotoei e baixei as calças, sentei no vaso.

Silêncio. No princípio, era o nada. E, um milésimo de segundo depois, a grande explosão que deu origem ao universo...

Enquanto as partículas se espalhavam pelo espaço do grande vaso cósmico, duas pessoas tentaram abrir a porta do banheiro. Dois deficientes que não puderam exercer seu direito de ir ao banheiro porque eu, em pleno gozo de minha saúde, aliviado e desenfezado, estava cometendo uma grande e prazerosa transgressão.

Depois que relaxei foi que me lembrei que havia resolvido o problema do vaso sujo, mas o banheiro continuava sem papel. Olhei ao redor. Havia uma ducha, mas o leitor não se anime muito, não, porque a ducha não tinha cabeça ou seja lá como se chama aquela parte da ducha que a gente aperta para sair água. Se eu fosse o zelador daquele banheiro, teria fechado a chave sem chance de abertura daquela ducha, para evitar que algum deficiente ou mesmo algum eficiente molhasse inadvertidamente todo o banheiro. Então girei a chave de água, na base da ducha, sem nenhuma expectativa, sabendo que dela poderia não sair gota alguma de água. De todo modo, posicionei a ducha corretamente e girei a chave...

Sim, havia água. Havia água suficiente para me deixar limpinho sem necessidade de papel higiênico. Eu era um homem feliz. Fechei a ducha, tirei um pouco a bunda do vaso e dei uma balançadinha para tirar o excesso d’água. Esperei mais um tempinho para secar um pouco e, quando estava apenas úmido, levantei de vez e vesti a cueca e a calça. Dei descarga, retirei a camisinha do vaso e coloquei no lixo. Não havia sabonete, sólido ou líquido, mas eu tinha álcool gel na mochila.

Saí com um sorriso no rosto e dei de cara com um não deficiente de cara feia, só esperando a porta se abrir para entrar. Subi a rampa e ainda pensei em parar na farmácia do supermercado e comprar um elixir paregórico, talvez uma fralda geriátrica também, mas apenas sorri diante do pensamento, que passou como uma nuvem budista grande e gorda. Um anjinho tocou uma trombeta e o outro anunciou: “Ele passou no teste. Está curado”. Um coro de anjos entoou o refrão: “Aleluia! Aleluia... Aleluia, aleluia, aleluia!

Para não chegar atrasado ao meu compromisso, peguei um táxi em vez de um ônibus. Após indicar o destino ao taxista, fiz uma pequena oração pelo meu trauma, morto e enterrado no cruzamento da Sargento Hermínio com a Padre Anchieta: “Que descanse em paz”.

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sexta-feira, 21 de março de 2014

LERO-LERO >> Paulo Meireles Barguil

Lero-lero, conforme o Houaiss, significa conversa vazia, inútil, vã. Essa expressão deriva de léria – lábia, fala astuciosa que visa iludir, enganar outrem – e lereia – conversa inútil, estéril, oca, sem nenhum resultado prático; conversa fiada, conversa mole.

Em meio a tantas conversas, é natural que, vez por outra, a gente entre em uma sem futuro. Até mesmo porque, não se sabe, a priori, o resultado dela, a não ser que pelo menos uma pessoa intencione enganar, em virtude de seus objetivos...

Nem sempre a verdade é dita, seja porque algo pode comprometer alguém – na maioria das vezes, o próprio falante, como é o caso da maioria daqueles que exercem o poder e desejam com ele permanecer – e implicar em mudança da realidade, seja porque a pessoa sabe que ignora – um professor, por exemplo, que, em pleno século XXI, tenta manter a máscara de que conhece tudo e, em vez de reconhecer seus limites e dizer que vai pesquisar, prefere falar difícil e manter a pose.

Rogério Cardoso interpretou com maestria Rolando Lero personagem da Escolinha do Professor Raimundo, criada por Chico Anysio – que, em virtude dos parcos saberes, tentava, com muita criatividade, acertar a resposta da pergunta feita pelo mestre, mas sempre falhava!

O que poucos sabem é que a verdade nunca é dita, pelo simples motivo de que ninguém é onisciente. Nesse sentido, Gibran, em O Profeta, sabiamente nos alerta: "Não digais: 'Encontrei a verdade'. Dizei de preferência: 'Encontrei uma verdade'".

A Ciência expressa o esforço da Humanidade para decifrar os infinitos enigmas da natureza e, assim, contemplar a verdade. Nos últimos milênios, várias teorias foram do céu ao inferno, enquanto outras fizeram o caminho inverso. Há, também, as que ficaram um tempo no limbo, também nomeado de purgatório. E, finalmente, aquelas que, embora paridas, nunca fora apresentadas...

Todos somos convidados a expiar as falhas, os pecados, as omissões derivantes dos nossos sentimentos, pensamentos, palavras e ações... Não estou fazendo um discurso religioso, no sentido estrito, mas uma reflexão espiritualizada, no sentido lato, pois estou me referindo a todas as áreas da nossa vida.

No caso da Ciência, o purgante de uma Teoria é outra Teoria, que, muitas vezes, sem qualquer cerimônia, pisa no pescoço da outrora reinante, toma-lhe a coroa e o trono, passando a receber a adoração dos súditos.

De modo geral, a constituição do conhecimento é um processo é lento e demorado, recheado de hipóteses e fracassos, onde o acerto é a exceção...

Assistimos no ambiente acadêmico a uma corrida maluca, tal como aquele desenho animado do final dos anos 1960, em que muitos, desde renomados pesquisadores a estudantes da Educação Básica, tentam encontrar atalhos alguns lícitos, outros nem tanto... para alcançar o sucesso ou cumprir a missão com o menor esforço possível.

No final do mês passado, a Nature revelou que mais de 120 artigos publicados nas revistas científicas Springer e IEEE, entre 2008 e 2013, foram removidos pelas respectivas editoras. O motivo? "Elas descobriram que cada um deles era jargão sem sentido, todos gerados automaticamente por computador.". Eles são os lero-leros da Pós-Modernidade!

Há de se perguntar: "Mas os artigos não eram revisados por pareceristas ad hoc?". Se sim, como eles não perceberam isso? Teriam ficado com vergonha de dizer que não entenderam ou que não concordaram? Se não, quer dizer que existe Comitê Científico de fachada?

Ainda bem que não estou na Idade Média e não corro risco de ser queimado naquele tipo de fogueira, por isso eu lhe indago, fulgurante internauta: "Será que, muitas vezes, a produção acadêmica mundial não é um grande 'leriado'?".


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quinta-feira, 20 de março de 2014

OS EX-AMIGOS >> Mariana Scherma

Porque as pessoas mudam, porque o mundo dá voltas numa quantidade suficiente pra deixar a gente com tontura e porque sentimentos não são estáticos. É por isso que eu acredito que as amizades não são eternas. Se nem casamento, com juras perante a padres e juízes de paz, é forever and ever, que dirá as amizades, que, se possuem algum tipo de juramento, muitas vezes acaba sendo feito após vários copos de cerveja em um boteco ou de whisky e energético em uma festa open bar.

Tem quem culpe a distância por tornar grandes amigos ilustres desconhecidos. Não concordo. Acho que a distância apenas potencializa o que há de acontecer nas amizades. Se é uma amizade que vai durar, ela dura mesmo com quilômetros e oceanos entre duas pessoas. Agora, se a relação já está capengando e vem uma estrada (enorme ou não) no meio do caminho, ih, pode esquecer. Tenho amigos que moram distante e toda vez que nos vemos é como se tivéssemos nos encontrado no dia anterior. Muito assunto, as piadas internas seguem firmes e fortes, a gente continua se entendendo em um levantar de sobrancelhas. O problema é quando grandes amigos do passado se encontram e perdem a sintonia...

É triste, mas é a vida. E eu juro que não sei como agir. Veja bem, sou dessas que leva a vida sem ostentação. Não preciso ficar medindo minha felicidade em promoções de trabalho, salário de namorado nem  closet cheio. Minha felicidade é medida por sorrisos, viagens, livros lidos, saúde, carinho, ar puro e o conforto de chegar a pé no trabalho, sem trânsito e sem buzinaço. De repente, me pego tentando entender o que aconteceu entre mim e essa pessoa que precisa medir tudo em salários e roupas de grife. Sabe quando alguém deprime você e a faz questionar: “fui eu ou foi ela quem mudou assim?”. Na verdade, eu sempre fui assim e ela, desse jeito. O problema é que, quando convivíamos, a gente passava por cima das diferenças. Com a distância, o tempo e os amigos novos que surgiram, essas diferenças se tornaram colossais (pelo menos pra mim) e perdeu completamente o sentido insistir numa amizade que não é mais amizade.

O que se faz nesse momento? Se fosse em períodos sem redes sociais e a gente só se falasse por telefone, essa amizade já entraria na lista do: “o que será que aconteceu com o fulano mesmo?”, “nossa, verdade! Éramos tão amigos...”. Mas em tempos de Facebook, Instagram, WhatsApp e cia., essa amizade fica agonizando eternamente. Pode parecer cruel da minha parte, mas não consigo insistir numa relação que não acrescenta nada (ou acrescenta só depressão). Todo mundo fala dos fins de namoro, casamento e noivado, mas os fins de amizade são igualmente tristes, ainda mais quando parece ser só você que vê o pôr do sol da relação. A vida acontece e chacoalha as pessoas, reorganiza o coração, as prioridades e as afinidades, alguns percebem de cara, outros, não. Pra quem acha difícil dizer “não amo mais você”, experimenta tentar falar “não sinto mais amizade nenhuma”.


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quarta-feira, 19 de março de 2014

O CROONER DE RESTAURANTE >> Carla Dias >>


Quando menino, daqueles que preferiam escutar um disco do Supertramp a dar estilingadas por aí, descobriu o que a maioria de nós sabe: há canções que dizem exatamente o que desejamos dizer naquele momento em que as palavras fazem a diferença. Para a maioria que somos nós, isso é algo interessante, e até costumamos pegar emprestados versos de canções para declarar sentimentos àqueles que nos fazem calar com sua graça.

Mas o que ele, menino dos que preferiam dublar, faixa a faixa, um disco inteirinho dos Beatles, usando o controle remoto como se fosse microfone, a sair por aí, integrante de turmas de moleques loucos por futebol, o que esse menino compreendeu e aceitou é o que o difere de nós.

Ele não sabe dizer sentimentos profundos. Ele só sabe cantá-los.

Ele se tornou um adulto conhecido no circuito dos restaurantes mais bacanas de sua cidade. Muito bem vestido — mas nem sempre de terno e gravata, meus caros, que o figurino depende do cenário e da história a ser contada com versos emprestados —, ele passa por tais lugares e canta as canções preferidas dos homenageados. Já cantou para dizer sentimento de amor romântico, fraterno, até para esclarecer mágoas e declarar oficial o desapego de um pelo outro. Sua voz, que ele sabe como modular ao tom do que é celebrado, e dependendo do olhar de quem oferece a homenagem, é seu instrumento oficial de comunicação com estranhos que têm história pra contar.

Mas fora do trabalho, olha lá... O menino, daqueles que preferiam assistir a um bom show a participar de uma partida de futebol, vive em um pequeno apartamento onde sol não bate, onde o tudo é o mínimo, e o conforto passa longe. Além da cama improvisada, há quase vinte anos, tem esse sofá perto da janela, onde ele se senta, enquanto fuma um cigarro ou lê um livro. O fogão elétrico de duas bocas dá conta do recado, assim como os ganchos no qual pendura suas roupas e a companheira indispensável: uma boa garrafa de uísque. Seu universo se tornou, por ironia das suas escolhas e dos passos do destino, um lugar silencioso.

Não que tenha se esquecido do menino que foi, ou da alegria que era cantar sentimento. Ter se tornado crooner de restaurante não tirou isso dele. Quando assume o momento, faz dele o mais importante. Por isso se tornou tão popular, e tem sido procurado por pessoas que nem mesmo conhecem os restaurantes onde trabalha. Já lhe ofereceram a oportunidade de cantar sentimento em outros tipos de eventos, como festas de aniversários, casamentos, eventos corporativos, mas ele nunca aceitou, porque acredita que, sentadas à mesa, frente a frente, olhares grudados no do outro, as pessoas possam compreender melhor o sentimento cantado.

E se fora do circuito de restaurantes ele é apenas “o cara do apartamento 7, acho que ele é mudo”, como já escutou, e mais de uma vez, seus vizinhos cochicharem sobre ele, bom, como toda figura ensimesmada ele tem o seu segredo. Não é segredo grande, de enormidade capaz de mudar a vida de muitos. É segredo porque não soube compartilhar, e, de repente, se conseguisse fazê-lo, haveria mais nele do menino que foi.

Dentro da gaveta do criado-mudo, ele guarda um caderno surrado, onde muitas canções que compôs, desde menino, estão registradas. Canções sobre pessoas imaginadas, acontecimentos que, ele acredita, são impossíveis lhe acontecer, conquistas imaginárias. E sobre tristeza, mágoas, decepções, coisinhas de fundo do baú da felicidade, mas que fazem parte da vida de uma pessoa.

Assim, desse jeito que a vida o leva e ele leva a vida, considera-se uma pessoa inédita, como as canções no seu caderno. Pensou, e mais de uma vez, em cantar seus sentimentos para alguém, mas desistiu no meio do caminho, deixando passar possíveis amores, amigos, afetos.

Ainda ontem, cantou sentimentos de um jovem empresário ao seu pai, um homem de feição dura, que chorou feito criança depois do feito, abraçando as mãos do filho, entre as suas. É essa capacidade de colaborar com o outro, a fim de despir as pessoas de suas armaduras, inspirá-las a aceitar que há quem lhes queira bem, mesmo ao exigir explicações e soltar alguns desaforos, que faz com que o menino - que é daqueles que preferem comprar um disco do Alceu Valença, para escutar a noite inteira, a ir para a balada com os amigos —, seja feliz lá do seu jeito.

O que o homem do apartamento 7 espera, cultivando sua mudez improvisada, é que, dia desses, apareça alguém em sua vida que torne impossível ele não cantar uma de suas canções. Que o faça cantar os próprios sentimentos. Até lá, ele pode muito bem ajudá-lo a cantar os seus.



MY KIND OF LADY - SUPERTRAMP


Imagem: sxc.hu



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terça-feira, 18 de março de 2014

DO CONTRA >> Clara Braga

Ao longo do tempo percebi que as crianças não leem mais as revistinhas da Turma da Mônica como liam antigamente. E se leem, são aquelas nas quais a turma já é adolescente. Nunca li uma dessas, puro preconceito, eu sei, mas acho que Turma da Mônica de verdade é aquela com eles crianças.

Também não se assiste mais Chaves, como pode? Chaves é tão bom! Lembro de uma amiga minha que disse que não permitia que a sua filha de 2 anos assistisse Chaves porque toda vez que ela assistia queria bater nas pessoas, ou seja, Chaves é ruim para a formação de uma criança. Será? Se fosse assim, como pode as crianças não lerem Turma da Mônica e serem iguaizinhas ao personagem Do Contra?

Comecei a dar aula de artes para crianças em uma escola e, pelo visto, criança hoje em dia é assim. Você diz "vamos falar baixo para ouvir o colega", então eles começam a berrar e fazer sons tão estridentes que eu tenho certeza que só os cachorros escutam, porque eu já fiquei surda! Você diz "não pode correr, você vai machucar as crianças que estão no corredor", então eles correm mais rápido que The Flash, embora também nunca tenham ouvido falar dele. Você diz "agora não vamos usar o caderno, vamos fazer uma brincadeira e depois estudamos a lição do livro", eles prontamente abrem o livro e começam a fazer a atividade. Você fala "ok, então se vocês querem livro, todos pegando os livros, vamos fazer as atividades juntos", e eles rapidamente respondem: "aaah nããão, Tiiia, a gente quer brincar!" Quem entende?

Criança também tem uma habilidade impressionante de mudar de humor. Você leva eles para a sala de artes e eles parecem que vão derrubar a sala. Correm, gritam, pulam, arrastam cadeira, se jogam no chão, entre outras coisas. Ai você dá uma bronca e diz que desse jeito eles vão acabar se machucando. Eles fazem aquela cara de arrependidos, tristes, aquele olhar baixo de quem sabe que fez besteira. Em dois segundos, eles estão pulando, gritando, se jogando etc, como se nada tivesse acontecido. Eis que, como avisado, um se machuca. Aé vem a fase manhosa, você sabe que nem machucou muito, mas eles fazem aquela cara de dor e dizem: "Tiiia, fulaninho me machucou, tá doendo. Tiiia, olha meu braço!" Você olha e não vê nada, mas para ser legal entra na manha e diz que ele pode ir na coordenação pegar gelo. Aliás, gelo é o remédio mais milagroso do mundo. O aluno volta com o gelo, com aquele olho ainda meio molhado de quem estava chorando na coordenação, então entra na sala e participa da atividade durante 5 minutos. Em seguida já não se sabe mais onde está o gelo e a dor da criança nunca existiu, pois lá está ela de novo correndo, gritando, jogando etc.

O engraçado é que quando você pergunta o que eles gostam de fazer, todos respondem em alto e bom som: "JOGAR VIDEO GAME, TIIIA!" Mas video game não precisa de concentração? Eles conseguem ficar sentados por mais de 2 minutos seguidos olhando para o mesmo lugar? Duvido! Ou então esse é exatamente o problema, passam tanto tempo sentados na frente da televisão que ficam com energia acumulada, ai resolvem gastar tudo na minha aula.

Estou pensando seriamente em mandar uns recadinhos na agenda dos alunos, avisando aos pais que, como tarefa de casa, eles têm que, a cada dia da semana, levar seus filhos para brincar na rua e ensinar uma brincadeira que eles tinham na infância deles. E se não adiantar, na próxima aula, ao invés de papel crepon e giz de cera, eu vou levar aquelas arminhas de tranquilizantes!


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segunda-feira, 17 de março de 2014

NA BARBEARIA >> André Ferrer

Quem nunca foi ao barbeiro e, durante a espera, teve que aturar um tiozinho que, triunfante, afirmasse: "no tempo da ditadura, vagabundo não tinha vez"? Daí essa história de Marcha da Família ou coisa que o valha não constituir nenhuma surpresa para mim. Cedo ou tarde, os tiozinhos da barbearia mostrariam a cara.

Não pense, contudo, que eu seja de esquerda. E como simplesmente repudio qualquer manifestação do maniqueísmo, corra para bem longe de mim se você acha que eu e os saudosistas do DOPS nutrimos alguma simpatia uns pelos outros. Acredite: é possível não ser marxista e não desejar uma intervenção militar neste país.

Ocorre uma paranoia na sociedade, que se reflete nas redes sociais. Graças à preguiça mental, as pessoas tendem a colocar a esquerda e os militares em lados opostos, como se os roteiros maniqueístas de Anos Rebeldes e O que é isto companheiro? reverberassem ad aeternum nas suas cabecinhas afetadas pela maior emissora de televisão do país. Ora, todas as ditaduras de esquerda, cara-pálida, são também militaristas.

Voltemos à barbearia. Invariavelmente, o barbudo local também estará presente e atento. Não, ele dispensa a navalha e a opinião imperialista dos outros. Ele é professor ou advogado, não importa. Vive bem, mas apara os grisalhos da cabeça com parcimônia e de forma igualitária. Ele discute. Pede que lhe perfumem as barbas de sr. proletário e provoca. Enquanto a conversa esquenta, os tiozinhos escanhoados torcem o nariz.

Positivo. É legítima, a luta contra a opressão. Ótimo! Planejaram a instalação de um regime comunista na época da Guerra Fria, nos anos de 1960 e 1970, e vá lá, uma ideia até razoável. Péssimo, caro sr. proletário, é cogitar, mesmo que de maneira remota, um regime comunista "hoje em dia"!

Por quê?!

Porque chega a ser de um anacronismo e de um cinismo violento. Ora, os despojos da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas infectam a Europa exatamente como as famílias sicilianas o fizeram desde o Renascimento. A transformação do socialismo em um estado de terror e corrupção na URSS deixou o seu legado para o mundo: a máfia russa, liderada por ex-agentes da KGB e ex-membros do "Partido".

Absurdo! E o legado libertário da esquerda? A proteção ambiental? O Greenpeace, por exemplo, não existiria sem a luta de classes.

O Greenpeace, para mim, é uma franquia. A propósito, não passa de uma franquia bem resolvida e honesta. Começou "esquerdinha" com aqueles barbudos do meio-oeste americano e do Canadá. A contracultura e o movimento hippie criaram esses pioneiros (arautos da era romântica do ativismo ecológico) que, logo, brigaram entre si: uns queriam instalar pregos nas árvores para assassinar operadores de motosserra, outros queriam abraçar as sequoias gigantes, cantando odes às deusas da natureza. Ou seja, a mesma dinâmica de sempre: a minha verdade é melhor do que a sua. O Greenpeace e a maioria dos partidos bolcheviques têm uma diferença: o Greenpeace saiu do armário. É uma franquia bem resolvida. Seus ativistas capitalizam até os átomos do corpo ou você não viu quem sairá na próxima capa da Playboy? Ora, as pessoas capitalizam em cima de tudo. Nenhuma ideologia fica livre da máquina registradora.

Infelizmente, havia mais tiozinhos escanhoados do que barbudos no recinto. O professor ou advogado, pouco importa, não acreditava. De onde vinham tantos “reaças”? Um veterano da FEB, no seu andador, atravessava a rua naquele instante.

Daí eu pergunto: socialismo e/ou comunismo é/são opção/ões no mundo de hoje?!

Claro que sim!

Balela! O "castrismo" e o "chavismo" (que náusea!) mete o folclore socialista goela abaixo de todos e controla a opinião pública com mecanismos tão criminosos quanto aqueles empregados por aqui nos anos de 1960 e 70. Na Venezuela, os jornalistas têm duas opções: ou se transformam em inimigos proscritos do regime ou se convertem em títeres (fantoches). Antes de o fracasso mundial do socialismo aparecer externamente à "cortina de ferro", a ideologia de fato empolgava. Agora, a teoria de Marx e Engels e, claro, as suas diversas formas regurgitadas com sangue e poder estão a serviço de exploradores da boa-fé! Agem como parasitas de multidões pouco ou nada instruídas. Vivem do oportunismo de pessoas instruídas e sedentas pelo seu lugarzinho ao Sol no sistema de poder e corrupção possível, como ocorre na Venezuela. Sob o pretexto de "dividir o pão", controla-se a padaria toda e, em pouco tempo, só há farinha na mesa da elite política. O resto, nesse abjeto socialismo, é propaganda mentirosa, "cortina de ferro", corrupção e uma imprensa feita por jornalistas biônicos.

Boa tarde.

Em silêncio, todos esperaram a marcha do veterano da FEB que, apoiado na sua trêmula armação de metal, cruzou o salão na minha direção. Levantei-me, ofereci a cadeira, inventei uma desculpa e caí fora daquele mundo sufocante e dividido.

Enquanto respirava o ar fresco da rua, uma ideia me ocorreu. Com extremo pesar, pensei naquele universo de pessoas que não diverge e tampouco reflete. Os eleitores desqualificados. Aqueles que votam a troco de programas sociais. Não. Não apenas por isso! Claro que não! Existe um messianismo idiota, sincretismo de cristianismo, folclore político, banzo (melancolia afrodescendente), ressentimento social, mil coisas desse tipo, enfim, que clama por uma salvação milagrosa. Nesse caldeirão, qualquer força mal-intencionada, militarista ou bolchevique (as duas coisas também acontecem simultaneamente, vide Cuba, Venezuela e China, três ditaduras militares socialistas) pode se travestir de "Salvador, Messias, Paladino" (lembra o Collor, caçador de marajás?). Para essas pessoas, o mundo fica mais fácil quando dividido entre o bem e o mal.

A essa fraqueza se dá o nome de maniqueísmo. O maniqueísmo é a forma mais reles de pensamento. Dividir a diversidade do mundo em duas categorias únicas é um desrespeito à inteligência de um rato. Preto e branco, homens e mulheres, direita e esquerda. Isso é tudo? E as nuanças? A faixa do cinza?

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Imagem: Capa do livro “Gangue da Chave Inglesa” de Edward Abbey, ilustrado por Robert Crumb. Narrativa das ações de um grupo de ecoterrotistas em Utah, Estados Unidos. Clássico dos anos de 1970.


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domingo, 16 de março de 2014

DE JOVENS E MOTOS >> Whisner Fraga

Em 1959, Emilinha Borba lançava a música “Corre, corre, lambretinha”, que fez um sucesso danado no carnaval daquele ano. A letra, “Hoje tudo está mudado, mudou tudo, sim, senhor, e eu tenho uma lambreta para ver o meu amor”, arrancava suspiros de marmanjos. Quem não queria ter sua própria condução? Meu amigo Enio Eustáquio pode ser que se lembre dessa canção, embora eu ache que, naquela época, ele ainda não frequentava os bailes da cidade.

Um contemporâneo dele, meu pai, um ousado pivete de treze ou quatorze anos, inspirava-se na musa e imaginava-se com sua própria lambreta. Enquanto isso, o irmão, meu tio Tião, uns dez anos mais velho, já realizava o sonho da Vespa-própria e zanzava motorizado por Ituiutaba, para inveja de todos os moleques.

Reza a lenda que este tio, um belo dia, chegou em casa um pouco alegre com as cervejas a mais que bebera naquela noite. Louco por uma cama, mal desce da Vespa e pede ao primeiro que vê pela frente para guardá-la. O primeiro, por sorte, era meu pai. Não precisaria nem escrever que ele não guardou imediatamente o veículo e, se o faço, é por causa de algum leitor desatento ou inexperiente.

Quem já possuiu uma moto sabe que há poucas coisas melhores do que perambular com uma, seja pela cidade, seja por uma rodovia. O vento afagando o rosto, o raro sentimento de liberdade e assim por diante. É claro que tudo isso é potencializado quando falamos de um garoto de quatorze anos.

Meu pai andava se engraçando com uma menina dois anos mais nova e, se não entrego o nome da dita-cuja, é por respeito à coitada, que poderia ler essa crônica e se zangar à toa. Catou a lambreta e rumou para a casa da garota. Não sei se naquela época as ruas eram designadas por números e não por nomes e também não quero pesquisar e correr o risco de descobrir a verdade e acabar com essa sensação gostosa a que chamam devaneio, de modo que escreverei simplesmente que ele ia por uma das avenidas principais de Ituiutaba, em busca do rosto da namorada.

Ela, por seu turno, estava, como de resto estavam todas as meninas casadoras, grudada no parapeito da janela. Ao avistar o rosto fresco, a carne púbere, papai esqueceu-se do mundo. Esquecendo-se do mundo, não mais prestou atenção ao trânsito ou ao fato de que estava no selim de algo motorizado e, portanto, perigoso. Só tinha olhos para os outros olhos, negros, preocupados, da amada. E foi, a lambreta se dirigindo, quase sem a necessidade do motorista. Até que, como se estivesse mirando, foi bater na parede da casa da moça.

As garotas da redondeza riram muito e meu pai, envergonhado, catou os restos da Vespa e seguiu, debaixo de troças sem fim, para a pensão de meus avós. Como o irmão abusara da bebida, sabia que ainda tinha algum tempo para arrumar uma desculpa e não receber uns tabefes por ter arruinado a lambreta. No dia seguinte, não precisou fazer nada: o irmão, confuso, ao ver a situação, virou-se para todos e disparou: merda, isso que dá beber e dirigir!

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sexta-feira, 14 de março de 2014

DICIONÁRIO DA CONDESSA ANNABELLE CHOSEDELOC >> Zoraya Cesar

Vagando pelos jardins, ouvindo a cantilena monótona de Mlle. Fleur du Cactus, dei-me, repentinamente, por entediada. Ela não parava de falar do jovem tenente por quem caíra de amores e que estava tentada a largar a confortável vida de casada para viver uma aventura. Mon Dieu, como são parvas essas jovens. 

Cresceu em mim uma generosa – minha principal característica, juntamente com a modéstia – e irreprimível vontade de ensinar às jovens inocentes e incautas o que realmente é a vida. Confesso que o desejo de ter o que fazer também me mobilizou. Comecei então a elaborar um dicionário, no qual revelo a verdadeira natureza dos objetos que nos cercam, na esperança de ajudá-las a entender os perigos do mundo  e como tirar proveito da vida. Esses são os primeiros verbetes:

RELÓGIO

Substantivo masculino e, portanto, praticamente inútil. Criado com o específico fim de infernizar as mulheres, a palavra deriva do latim horologium, conhecimento da hora. Para quê? São sempre horas de fazer alguma coisa, geralmente enfadonha e estéril: hora de pegar os remelentinhos na escola; de receber a insuportável família do marido barrigudo; de se reunir com as amigas para jogar bridge e ouvir todas as mazelas íntimas de suas vidinhas medíocres; de visitar a sogra rica e pão-dura, incapaz de servir um chá decente... Soube que daqui a alguns séculos as mulheres queimarão sutiãs para simbolizar sua liberdade. Mon Dieu! Como são tolas! Deveriam queimar os relógios, pois é com eles que a sociedade nos controla. 

Um relógio não passa de um mostruário macabro no qual você vê que, a cada segundo, está mais velha, mais feia, mais próxima da viuvez – se tiver sorte de ainda estar casada, se nenhuma coquette 30 anos mais nova não tiver roubado seu marido e ficado com todos os bens, fazendo com que aqueles anos de sacrifício nos quais você aturou o careca rabugento de seu esposo fossem em vão. 

Mulheres pontuais são a coisa mais irritante da face da Terra, mais até que o latido do poodle de Mme. de Pompadour. Não à toa essas inglesas são tão non-charmantes! O uso do relógio não deixa desculpas para ficarmos um pouco mais ao léu, para chegarmos atrasadas àquele chá entediante, para aproveitarmos um pouco melhor o amante. Ah, encontrei uma utilidade para tal objeto. Saber a hora certa de o marido chegar. Isso, claro, deveria ser preocupação do amante, não nossa, mas, enfim, o mundo é injusto com as mulheres.

ESPELHO

Do latim speculum, mas, mon Dieu, mulheres que citam latim são tão aborrecidas que deveriam ser confinadas ao claustrum. Outro substantivo masculino que, sem sombra de dúvidas, foi criado para nos torturar. É descrito como uma superfície polida, com capacidade para refletir a luz. 

Vamos revelar a verdade. Não é uma superfície polida, mas, ao contrário, mal-educadíssima, pois é de uma sinceridade acachapante, e sabemos nós, mulheres vividas e sábias, que toda sinceridade acachapante é uma monstruosidade social. O espelho reflete, impiedosamente, que a maquiagem carregada não esconde mais as rugas; que os cabelos brancos agora crescem nas narinas e descem pelo nariz afora; que os seios perderam a luta contra a gravidade; que os braços, antes roliços, agora viraram um depósito de gordura balouçante, que nos faz usar vestidos de manga comprida mesmo num calor senegalês.

Não ousem dizer que “polida” se refere ao estado da superfície e não às maneiras sociais, ou serei obrigada a mandá-las pentear os bigodes do Marechal. Sou uma mulher culta, sei o que “polido” quer dizer. Mas o dicionário é meu e é melhor as senhoritas aprenderem logo as lições que passo, antes que seja tarde. Olhem o relógio, olhem-se no espelho. Vocês já não são tão novas quanto há alguns dias. Seus maridos já não as olham com o mesmo interesse, mas sim à mais nova debutante apresentada na Corte, ou, segundo ouvi dizer, à última mulher-fruta aparecida no mercado (oh tempora, oh mores). 

Um espelho não reflete a luz. Reflete a verdade, e a verdade é a mais cruel das criaturas.

DIAMANTE

Deriva do grego adamas, invencível. É a mais dura substância do planeta. (Soube que, daqui a mais alguns séculos, um sujeito norte-americano, essa raça esquisitíssima, degenerada dos ingleses, claro, criou uma espécie de ser com estrutura de adamantium, dotado de poderes especiais. Que falta de criatividade! Muito mais plausível um herói, talvez um gaulês, que, tendo caído num barril de poção mágica, adquiriu uma força extraordinária e... Nós criamos isso? Ohhh, como é bom ser francês... ).*

Diamantes, uma poderosa arma contra os relógios, as horas e os espelhos, pois essa pedra deixa até a feiíssima Mme. Mathilda Air du Velhuscosée bonita. E, numa época de vacas magras (me perdoem a expressão camponesa), podem ser vendidos por bom preço, permitindo que sua possuidora mantenha as aparências. 

A mulher que possui diamantes é invencível, e, para consegui-los, ela pode e deve se transformar na substância mais dura do planeta; nenhum estratagema é suficientemente ilegal, imoral ou engordativo para se conseguir um diamante.

No próximo tomo falarei sobre outro substantivo – masculino, claro – de crueldade inexcedível, o tempo. 

E aproveitarei para ensinar como não beber, por engano, o chá especialmente preparado por você para a sogra pão-dura, e morrer no lugar dela, como uma burguesa desmiolada qualquer.

*sou fã do Wolverine, a Condessa é que é um pouco rabugenta...


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