sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

UM DIA DEPOIS DO OUTRO DEPOIS DO OUTRO >> Zoraya Cesar

De segunda a sábado, chovesse ou fizesse sol, com ou sem greve dos transportes públicos, Jocineide não faltava ao trabalho. Limpava, passaava, lavava e arrumava para seis patroas diferentes, uma para cada dia da semana. Patroa não, corrigia ela, cliente. 

Jocineide tinha classe. Falava em voz baixa, era discreta, vestia-se, em qualquer ocasião, como quem iria a um compromisso social importante. Os cabelos jamais estavam em desalinho e só andava cheirosa. Era um capricho só com a própria aparência, com as casas nas quais trabalhava e com tudo em que pusesse as mãos – cujas unhas estavam sempre pintadas e bem cuidadas.

As clientes pagavam-na regiamente, pois preferiam a morte a perder uma diarista de confiança, competente, e que jamais as deixava na mão. Guardar algum dinheiro, ela até guardava, a duras penas, mas nunca sobrava o suficiente para arrumar seu barraco e sua vida do jeito que tanto queria. 

Jocineide nasceu princesa num ambiente plebeu. A começar pelo marido, que era porteiro de um condomínio de luxo, mas perdera o emprego dois anos depois de casados, por dormir em serviço e chegar bêbado ao trabalho. Chegar bêbado em qualquer lugar, aliás, era a rotina dele. Chegar bêbado em casa, arrancar o dinheiro que ela ganhara, gastar com bebida, cartas, mulheres, não necessariamente nessa ordem,. 

No lugar onde viviam a vida já era dura o suficiente com marido, bêbado ou não. Sem um homem – por pior que fosse – para dar um respeito, era impossível manter a distância dos inconvenientes. Jocineide não via muita saída, até porque temia que o marido jamais a deixaria em paz, iria persegui-la e matá-la, caso ela se separasse. 

E assim vivia, um dia depois do outro, depois do outro,depois do outro, nossa elegante e sofrida Jocineide. 

Exceto aos domingos. Domingo era o único dia da semana em que sua cansativa rotina era quebrada, ou, antes, levemente arranhada por uma brisa de sossego. Era o dia em que o marido nem aparecia em casa, sumido desde sábado à noite, com o bolso cheio do dinheiro que Jocineide ganhara durante a semana. 

Domingo era o dia de Jocineide arrumar a própria casa, fazer as unhas, o cabelo, cuidar-se. Era seu dia de madame, conforme dizia. Um dos momentos especiais do dia era bater um bolo para tomar com café, a mesa posta com toalha limpa, louça fina que uma das clientes lhe dera, flores no jarro. Fazer esse ritual era um verdadeiro êxtase para ela. 

Depois de limpar a casa toda até deixá-la brilhando de doer os olhos, cheirosa de dar água na boca, e arrumada de enternecer, ela, elegantemente como era seu jeito, sentava-se no sofá, esticava as pernas e pegava um romance para ler, desses comprados no jornaleiro – tinha toda a coleção da Barbara Cartland. No momento em que contamos sua história, Jocineide lia Explosão de Prazer, de Seraphine O'Donnel, sua nova autora preferida. O domingo também era para isso, ler e sonhar. 

Sim, porque Jocineide sonhava. Sonhava com o dia em que se veria livre do marido, com o dia em que viajaria pelo Brasil, com o dia em que teria uma casa em perfeito estado, com o dia em que encontraria um grande amor; sonhava em ser como as heroínas dos romances que lia, sonhava.

Domingo era a única válvula de escape da rotina estafante e tensa em que vivia. Domingo era o dia em que acreditava que todos os sonhos eram possíveis, em que ela se sentia quase feliz.

Tão acostumada estava a recarregar suas energias desse jeito, que praticamente entrou em estado de choque quando, inesperadamente, o marido apareceu, bem na hora em que, terminada toda a limpeza e assado o bolo, ela se preparava para o ritual de sentar para tomar café.

Bêbado, como sempre, exigindo dinheiro para pagar dívidas, sujando de poeira, lama e sem-vergonhice o chão que Jocineide deixara imaculado. Derrubou o café na toalha limpa e jogou o vaso com as flores no chão, pisoteando tudo num sapateado grotesco e assustador. Esbravejava contra ela, contra Deus e o diabo, ameaçando-a fisicamente – ameaça que, algumas vezes, já concretizara.

Jocineide ficou quieta, sabia, por dolorosa experiência própria, que reagir era pior. Depois de gastar energia nesse teatro dos horrores, o marido, finalmente, estando literalmente bêbado de cair, derrubou-se no sofá, afundando naquele profundo estado de torpor sonolento em que os muito embriagados ficam, como que desmaiados.

A amargura encheu sua boca de bile e fel. Ela vomitou ali mesmo, no chão da sala já imundo, antes resplandecente, de tão limpo. Vomitou até sair a alma.

Seu domingo perfeito irremediavelmente maculado, sua válvula de escape para sempre quebrada, chorou por mais de uma hora, até se esvaziar por completo.

Então, ainda trêmula, pegou o material de limpeza e começou a limpar tudo. Tudo mesmo, inclusive o marido inconsciente.

Trocou a toalha, ajeitou a mesa, arrumou tudo, tudo mesmo, inclusive o marido inconsciente.

Passou álcool em tudo. Tudo mesmo, inclusive no marido inconsciente. 

Fechou todas as portas e janelas, abriu o gás, acendeu o cigarro dele e deixou cair o fósforo aceso no sofá onde ele estava.

Saiu, fechou a porta e partiu, sem olhar para trás. 

Explosão de Prazer,  pensou, quando ouviu sua casa ir pelos ares. 

Nada, nunca mais, iria estragar seus domingos perfeitos.



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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

SOBRE DIÁLOGOS, CONVERSAS, BATE-PAPOS E AFINS >> Fernanda Pinho



Tem uma frase que diz que devemos nos casar com alguém com que gostamos de conversar, e o texto segue dizendo que tal característica será muito importante quando a juventude tiver se esvaído e restar apenas bons momentos de conversa.

Eu sempre gostei muito desse texto e foi determinante perceber, logo quando conheci meu marido, o quanto eu gostava de conversar com ele. Claro, separados por uma distância de mais de três mil quilômetros, o único que nos restava - ainda que com muita juventude e todas as vontades inerentes a ela - era conversar. E como conversávamos. Teve uma fase que eram praticamente umas 16 horas por dia. Sério. Só não falávamos um com o outro enquanto estávamos dormindo, obviamente. Mas todas as outras atividades conseguíamos conciliar com os diálogos apaixonados, repletos de planos e revelações entusiasmadas. 

Em alguns momentos houve um certo temor, ao menos da minha parte, de que faltasse assunto durante nossos encontros no mundo real. Que nada. Quando duas pessoas gostam de conversar e se interessam pelo que o outro tem a dizer, nunca faltará assunto (ainda que, a princípio, ambos apenas arranhem o idioma do outro). 

A única coisa que eu mudaria, portanto, no texto que me trouxe a essa crônica, é que a necessidade do bom papo não surgirá apenas quando a velhice bater à porta. Dependendo da dinâmica do casal, pode vir a ser fundamental bem antes. Em relacionamento a distância, por exemplo, se não tiver conversa, não tem relacionamento.

São as conversas que irão preencher as horas numa longa viagem de carro, o tempo de espera num aeroporto ou numa fila de supermercado, o tédio de um domingo à tarde, a agonia de esperar um resultado, a ausência de outras pessoas. E sempre, sempre haverá o que dizer.

Outro dia eu e meu marido inventamos um jogo. Bem, eu inventei um jogo e ele embarcou. Consistia em cada hora um dizer uma palavra aleatória e o outro ter que contar alguma lembrança de sua vida que remetesse àquela palavra. Quando ele me deu a palavra “muro”, descobriu como eu me senti quando subi no muro da casa que eu morava quando criança e uma lagartixa se agarrou na minha perna, gerando o pavor que, até hoje, eu tenho do animal. Quando eu o dei a palavra “chave”, descobri como ele se sentiu adulto quando, aos 16 anos, ganhou a chave de casa dos pais. Poderíamos fazer bodas de diamantes sem conhecer essas pequenas histórias um do outro. 

Mas essa não é a graça. A graça é continuar praticando a conversa mais e mais e, quando for da vontade de um dos dois - ou de ambos - passar horas em silêncio, sem nenhum tipo de incômodo, no mais absoluto conforto. 


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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

ONDE CABE A ALEGRIA >> Carla Dias >>


Alegria deslavada é essa, de atenuar lonjuras, pacificar inquietações, embarcar nas nuances de comédia romântica dos anos trinta. É alegria própria dos colecionadores de esperança, que mesmo diante de tragédias, não se curvam, como se ser esperançoso fosse profissão delegada pelos deuses.

Alegria boba, injustificada, que entrega sorrisos à toa ao florista, ao jornaleiro, ao vendedor ambulante, à mulher emburrada, ao menino travesso, ao homem do tempo, ao colecionador de saudade, a todos os passantes, e até mesmo aos invisíveis, eles sempre escondidos atrás do medo de serem escolhidos para frequentar vitrines.

Alegria é um tipo de dança, que a sentimos borboletear no estômago, sapatear nos pensamentos. Não há consumidor de alegria, apenas o assumidor, pois ela nos coloca na posição de nos tornarmos, ainda que somente durante a sua duração, bobos da corte. Em estado de seriedade, rareados de alegria, essa ideia nos mete medo.

Há alegria em coisas cotidianas, que passam despercebidas ao mergulharmos em uma rotina severa. Reaprendermos a enxergá-las é reavermos o paladar emocional. Às vezes, até ultrapassamos o limite dessa simplicidade, e daí que tudo fica mais suave: pés descalços no piso frio da cozinha, abraço de primo distante, com quem dividimos infância e ao qual oferecemos esquecimento na maioridade. Pintar quadro sem ter a menor noção sobre arte, criando aquela imagem que lhe atiçará o divertimento quando olhar para ela. Escutar vento. Ler placas. Adaptar-se à previsão do tempo vigente, com o assentimento de que ela pode estar equivocada.

Pode chover em dia que é para ser de estiagem.

Podemos nos equivocar, como a previsão do tempo.

Tem alegria que arrepia pelo encontro: mãos, barrigas, pernas, bocas. Dessas que nos tiram o sono, fazendo travesseiro se tornar confidente de desejos verbalizados somente uma vez, em momento de nudez de alma sussurrando sensações ao corpo. Amor sem alegria é um equívoco, pois como seriam sustentadas as gargalhadas intrusas, as que fogem da gente em momentos que deveríamos nos render aos dramas? Mas que alegria também é dramática, que faz abraço durar um sem tempo, inspira declarações de amor irreverentes, dá trela ao improviso – digno do jazz – quando necessitamos de companhia.

Alegria é o que nos ajuda a suportar as tragédias. E pede pelo exercício, que nem sempre sabemos aceitá-la, ou mesmo reconhecê-la. Como agora, neste instante em que lhe escrevo, quando me vem esse silêncio.

Que alegria cabe nesse momento?




Imagem: Cena do filme "Aconteceu Naquela Noite" (It Happened One Night/1934), de Frank Capra.



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terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

REDENÇÃO DA GELEQUINHA >> Clara Braga

Lembrei de uma vez que me peguei pensando em coisas. Tá, tudo bem, todo mundo pensa em coisas a todo momento. Eu me peguei pensando nas coisas, literalmente. Pensando nas cadeiras, nas mesas, nas mochilas, nos carros, nos sapatos etc.

Lembro de pensar que deveria ser muito difícil ser um sapato. Imagina, pisar no asfalto quente todos os dias, caminhar na brita, escorregar na lama, ser afogado na água em dia de chuva, pisar em dejetos de animais etc… E ser uma cadeira? Nossa, não sei nem por onde começar…

Foi então que lembrei de um dia, quando ainda era criança, que ganhei aquela gelequinha de presente. Não sei se lembram, mas era uma gosma que grudava em alguns lugares, principalmente no nosso cabelo. Junto com a geleca tinha um manual de instruções, que era a própria gosma explicando que ela gostava de ser puxada, de ser jogada na parede para grudar e descer escorregando devagar, gostava de ser repartida para que várias pessoas pudessem brincar com ela. Mas não gostava de ser colocada na boca, não gostava de ser guardada no sol e também corria de água.

Depois de lembrar desse manual, pensei: é, as coisas de fato são felizes e se realizam sendo aquilo que elas foram feitas para ser. O sapato deve amar um dia de sol escaldante, no qual protege o pé de seu dono, só não gosta mais do que dias de chuva, que é quando pode tomar aquele banho e ainda manter o pé do dono livre da água e do chulé. A mochila ama quando fica bem cheia e a cadeira deve adorar ser a oportunidade que algumas pessoas têm de relaxar um pouco.

É, as coisas são assim, felizes porque não tentam ser o que os outros querem que elas sejam. Uma cadeira sabe do seu valor, e, mesmo apreciando a função da mochila, as duas sabem que é a cadeira que, em algumas situações, livra a mochila de ficar jogada no chão, então elas se respeitam sem julgarem quem é melhor, mas sim ajudando uma a outra.

Pena que a gente ainda não entendeu que com o ser humano também pode ser assim.


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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

TÁ LIGADO? >> Albir José Inácio da Silva

Embora não tenha a menor ideia do que seja isso, Uélito acordou estremunhado. Braço dormente embaixo da cabeça, barriga que dói e pescoço duro. A mãe já o sacudiu duas vezes, enquanto se veste pra trabalhar. Parece que ela está falando há horas na cozinha, no banheiro, às vezes bem pertinho, no quarto que também é sala:

- Levanta logo, menino, vai pra escola que tu já faltou ontem e eu acabo perdendo o bolsa-família de novo. Pede pra diretora te deixar entrar, que hoje eu não posso ir, mas eu vou falar com a patroa pra ver se dá pra ir amanhã. Toma leite do Juninho que eu peguei ontem no Posto e tá em cima do fogão, não sai sem comer que tu tá magro que nem pau de virar tripa. Toma também água da garrafinha que eu trouxe da igreja pra te curar dos vício e te livrar daquele processo na Vara da Infância. Ainda bem que só foi uso, mas da próxima vez a mulher já falou que tu vai assinar artigo 33 de tráfico. Tu precisa tomar rumo na tua vida, se não vai morrer de tiro que nem teu pai, teu tio e teu irmão.

Não para de falar mais nunca, já está no beco e ainda se escuta a voz. Ele levanta meio arrastado e pega a camisa da escola que a mãe deixou na cadeira, não vai pegar água nenhuma pra tomar banho, não vai tomar leite nenhum que está enjoado, vai sem meia mesmo que não sabe onde está, tira remela com água da chaleira. Agora é a irmã que fala, fala não, grita com Juninho que não deixa botar roupa pra ir pra casa da vizinha que toma conta de crianças. Barulho de tapas e Juninho chora mais alto, não quer ir pra casa de ninguém, quer ficar com a mãe que já está atrasada pro emprego de babá e a patroa tem que sair pra trabalhar. Uélito não gosta que bata no moleque e grita da janela pra Rachele:

- Quero ver se você bate assim nos filho das madame.

A irmã se irrita mais:

- Toma conta da tua vida, oh... chincheiro!

Uélito sai pelo beco meio cambaleando que já é mesmo o seu jeito de andar. Tem que dar a volta pela rua de cima porque não pode passar pela “boca”. Depois da escola vai até lá desenrolar aquela parada de ontem que deu ruim. Levou um bote e perdeu a carga praquele PM nojento que está de olho nele há muito tempo. Não gosta de vender, mas, sem dinheiro, pegou dez pra passar sete e ficar com três. Dessa vez rodou com tudo, bagulho e dinheiro, e o polícia ainda disse que queria mais. Por isso ficou injuriado e foi procurar o Birro lá na contenção porque precisava dar dois pra se acalmar. A erva tava malhada, devia ser quase tudo bosta de burro. Agora a cabeça dói e as pernas ficam bambas.

No portão da escola tinha que estar aquela vaca gorda que não gosta dele:

- Todo dia, né, Uélito? Qual a mentira de hoje?

- Mentira não, tia, meu sobrinho acordou com febre e eu tive que ir lá em baixo comprar remédio.

- Quem não te conhece que te compra. Por mim tu voltava pra casa. A culpa é da diretora que passa a mão na cabeça de vagabundo.

Na sala, a professora até que gosta dos alunos, faz dinâmica, pergunta a profissão dos pais. E tem muito motorista, mecânico e pedreiro, mas Uélito diz que o pai era bandido e já morreu, e todo mundo ri, e a professora briga porque não se pode rir da profissão de ninguém, ela mesma teve um tio que era bandido antes de se converter na igreja. Mas agora queria falar do futuro, - O que é que vocês vão ser quando crescerem?

Uélito tinha que passar na “boca”, mas a polícia está lá embaixo. Melhor não ficar na rua. Amanhã vai. O gerente é marrento, mas foram criados juntos, dá pra desenrolar. O problema é que ele anda bolado porque está a fim da Raquele e ela fica fazendo doce. Sinistra essa Raquele, dá de graça pros moleques do surf e faz jogo duro pro cara que podia fortalecer o irmão dela.

Os fogueteiros avisaram que os homens estão subindo. Daqui a pouco começam os tiros. A mãe já forrou as cobertas no chão e todo mundo fica deitado - o que é uma bobagem porque tijolo não segura bala de fuzil - mas ninguém pode fazer nada mesmo, o jeito é ver televisão com chiado e chuvisco.

Juninho acorda assustado com os fogos e Raquele grita porque ele está chorando. Uélito pega o menino antes que ele apanhe e põe em cima da barriga. Ainda soluça muito, mas vai se acalmando. Suspira e suspira. Uélito também suspira, a vida está uma droga e ele está contristado, acachapado, acabrunhado, embora não tenha a menor ideia do que seja isso.

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domingo, 23 de fevereiro de 2014

ENTRE O PORTÃO DA GARAGEM E O SOFÁ DA SALA >> Sílvia Tibo



Nunca fui o tipo pessimista. Aquela espécie de gente abominável, que só enxerga nuvens no céu, por mais claro que esteja o dia. 

Ao contrário, quem me conhece um pouco sabe que reclamar das coisas não é meu passatempo preferido. A despeito de suas tortuosidades, penso que a vida tem sempre um lado bom. A gente é que, na pressa, nem sempre consegue enxergar. 

De uns tempos pra cá, porém, está cada vez mais difícil me manter fiel a essa filosofia do “tudo bem”. À medida em que o medo entra pela porta, parece que a fé em dias melhores tem saído pela janela, sentindo que já não há mais lugar pra ela. 

Há pouco mais de duas semanas, mataram um rapaz na porta da academia que frequentei durante meses, há poucas ruas do apartamento onde morei por mais de um ano, no momento em que ele tirava o carro da vaga onde, certamente, também já estacionei o meu. 

Soube, dias depois, que um conhecido fora vítima de roubo em um dos semáforos que dá acesso ao meu bairro, quando voltava do trabalho, numa tarde qualquer. Levaram celular, carteira e relógio, além de sua dignidade e sua paz de espírito. Por sorte, deixaram-no vivo para concluir o percurso até sua casa, bem semelhante, aliás, ao que eu costumava fazer. 

O problema da academia foi fácil de resolver. Aderi à concorrente, que oferece aos alunos estacionamento e vigia. Encontrei, também, uma nova opção de acesso ao bairro. Gastando o dobro do tempo (e da gasolina), vou pra casa sem passar pelo malfadado semáforo, na ilusão de que estou segura. Como se não existissem tantos outros sinais vermelhos no meu caminho. 

Mas, afinal, o que é a vida sem um pouco de ilusão?

É assim mesmo que a coisa funciona. Num dia, muda-se de academia. No outro, evita-se passar por esta ou aquela rua, dizendo pra si mesmo que não custa nada rever conceitos e que, aliás, a novidade é o tempero da vida!

De repente, percebe-se que o ideal mesmo é ficar dentro de casa, na própria zona de conforto. Pra que jantar fora quando se tem disposição e espaço suficientes para receber os amigos?

Liberdade de ir e vir? Só se for entre o portão da garagem e o sofá da sala. Até o momento em que invadem, também, a nossa sala. Mas aí, sejamos realistas, já nem importa mais que nos tirem a vida. Afinal, já a perdemos faz tempo, no mesmo instante em que nos tiraram o direito de sair de casa. 

Numa sociedade que se diz (ou, ao menos, pretende ser) livre, justa e solidária, tão essencial quanto respirar e comer é o direito de ir a qualquer lugar, assim como a certeza de poder dali retornar. 


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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

MEDITAÇÃO >> Carla Dias >>

Tentei de um tudo, mas confesso que de um tudo nem tão tudo assim, que a cabeça sempre vence o corpo. Fico exercitando pensamentos como se estivesse fazendo esportes radicais. Dentro de mim, as ideias e percepções se movimentam alucinadamente. Então, quando vem um pensamento mais manso, é assim, como se conseguisse dormir oito horas por noite, sem acordar nenhuma vez, sem me lembrar de sonho que tive.

Desde sempre, meu hard-disc-drive-cuca-nada-fresca faz estoque de urgências. Mesmo quando a coisa é para daqui a um tempo, fico esbaforida por causa dela, até chegar ao então. Procurei na astrologia a resposta para esse comportamento sem noção, mas depois de ler várias menções aos escorpianos, quase todas não assim tão positivas, decidi parar com a leitura, antes de desejar assumir de vez o meu ascendente.

Mas preciso dizer que disfarço bem a minha ansiedade. Não sou de, por exemplo, mandar mensagem por e-mail às 18h30 e ligar às 18h31 para a pessoa, para saber por que ela ainda não me respondeu. Porém, fico doida da vida quando fazem isso comigo. E, acreditem, sou vítima das pessoas que não sabem aguardar retorno.

Em fato, sou daquelas que têm um talento vistoso para lidar com a sofreguidão das esperas. Meu relacionamento com o tempo é bem bagunçado. Já esperei anos por respostas que eu merecia receber em dias, e mesmo tendo essa inquietude interior me consumindo, pratiquei a paciência – tumultuada, mas ainda paciência - com a maior classe, em vários momentos da minha vida. Mas isso porque compreendi, e logo, que minhas urgências não são urgentes aos outros.

Acontece que cheguei a esse momento, esse agora em que meus pensamentos praticamente tomaram conta. Enquanto escuto o que me dizem, pipocam opções na minha cabeça, reflexões, opiniões, nada verbalizado, tudo muito bem engavetado na secreta morada dessa pessoa que vive em mim e sou eu, mas só que um tanto mais histriônica. Um amigo ou outro acaba sofrendo os efeitos dessa minha existência desandada, que às vezes preciso verbalizar as minhas maluquices, mas todos passam bem. Obrigada pelo interesse em saber deles. E quando não me aguentam mais, apenas me mandam catar coquinho ou escrever poema, sonhar acordada, sabe?

Sei...

Vou... Por que não?

Portanto, quero que saibam que, se dia desses vocês me encontrarem por aí, assim, tentando fazer minutos se transformarem em dia, vestida com sorriso escancarado e chapéu de palha, falando comigo mesma, mas de fato, não por estar no celular e usando fone, os pés despidos dos tênis All Star, saibam que, finalmente, aprendi a meditar.

Pois é... Coisa de milagre.




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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

CRIME PERFEITO >> Zoraya Cesar

Sou muito bom no que faço, admito sem falsa modéstia, pois não gosto de hipocrisia. Sou bom. Pronto.

Há poucos como eu por aí, reconhecidos, admirados, invejados. Confesso que isso mexe com meu ego, mas, e daí? Integrar uma força especial do Departamento de Homicídios e ser um dos mais eficientes policiais em campo não é para qualquer um. E eu gosto muito do que faço - o jogo de inteligência entre mim e os assassinos me excita. Saibam que, para cada crime perfeito, existe um policial perfeito, que descobre a rachadura no muro de concreto aparentemente intransponível que nos separa da verdade. 

Muita coisa pode ser observada nas vizinhanças de um crime. Rotas de fuga, câmeras de segurança, velhinhas fofoqueiras, o pipoqueiro da esquina. Assim aprendi com um dos melhores investigadores, e nunca falhou. 

Ele também me ensinou a subir sempre de escada, não importava quantos andares acima - o exercício clareava a mente e tornava o raciocínio mais rápido. Corre uma lenda no departamento que esse meu professor desvendou um caso após ter encontrado um chiclete nos degraus que levavam à cena do crime.

Dessa vez, porém, não fiz nada disso. Entrei direto no prédio, peguei o elevador e cheguei ao apartamento onde encontraram o corpo.

Que estava, claro, exatamente lá, onde eu o deixara pela manhã. 

O cenário que eu planejara e montara tão meticulosamente para que parecesse suicídio estava um primor, modéstia a parte. Eu sabia que seria o investigador responsável, e ninguém ousaria contestar um laudo assinado por mim. Sentia-me plenamente seguro, pois nem a imaginação mais fértil conceberia que eu matara um colega para receber uma homenagem em seu lugar. 

Como eu, Claudio Romano era um dos melhores policiais do país - trabalhamos nas sombras, nem os jornais nem o grande público nos conhecem.  Ao contrário de mim, no entanto, não era vaidoso nem fazia questão de homenagens. E ainda assim a Corporação votou nele para receber uma importante comenda, deixando-me em segundo lugar. Mas onde a vida não é justa, a gente dá um jeito de fazer justiça. Foi o que fiz. 

Na verdade, eu lhe fizera um grande favor, salvando sua Alma. Ele era tão depressivo que mais dia menos dia acabaria por se matar. Não dizem que os suicidas ficam num limbo e nem em solo sagrado podem ser enterrados? 

Apenas um homem poderia encontrar a rachadura no muro de concreto, e esse, conforme investiguei cuidadosamente, estaria fora do país, ministrando um curso de nome estranho para um leigo, mas que faz todo o sentido para nós: “Conversando com o Cadáver”. 

Por isso fiquei, pela primeira vez em minha vida, totalmente aparvalhado e sem ação. O que meu professor, o grande Felipe Espada, estava fazendo no apartamento?

- Trocaram a data do curso para que eu pudesse participar de um workshop na Rússia – respondeu ele daquela maneira simples, que enganava os desavisados – Aproveitei para ficar por aqui mais uns dias e acabou que o delegado me chamou para dar uma olhada, sabendo que Claudio foi meu aluno.

Sim, pensei com raiva. Romano fora um de seus alunos preferidos, embora não chegasse a meus pés, por melhor que fosse, mesmo tendo sido o escolhido para ganhar o prêmio que eu tanto queria. No entanto, mantive o controle - Felipe Espada era um intuitivo, não podia me dar ao luxo de transparecer nervosismo. 

Ele continuou a xeretar pelo apartamento por mais meia hora e foi embora,  dizendo-se cansado e que aguardaria meu laudo. 

Depois que ele saiu, fui ao banheiro vomitar. Amava aquele investigador desgraçado que me ensinara praticamente tudo o que sei, e que poderia desvendar meu plano tão bem urdido. Mas eu faria um relatório perfeito, impecável. O aluno superaria o mestre.

(Felipe Espada leu e releu o relatório de seu ex-aluno e continuou sem entender como um policial tão experiente deixara passar tantas pequenas e sutis evidências de que algo estava muito errado com aquela morte.  Por exemplo, não havia qualquer menção ao fato de o pescoço de Claudio Romano estar virado de uma maneira quase anti-anatômica; nem ao suave cheiro de clorofórmio que havia no quarto. 

Ele não conversou com o cadáver, nem atentou aos detalhes, como eu ensinei, pensou. 

O veterano investigador conhecia cada policial a quem ensinara, e também os meandros escuros da Alma humana, o poder devastador que a vaidade exerce sobre determinados caracteres. 

Teve um pressentimento horrível, e tomou uma decisão: iria contestar o relatório e assumir o caso.)



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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

OLHA QUE OLHAR ESTRANHO TEM O ESTRANHO QUE ATRAVESSA A RUA DO MUNDO DA LUA >> Carla Dias >>


Olha que olhar estranho tem o estranho que atravessa a rua do mundo da lua. Ele que sabe de cor o verso e o esconde do mundo por medo de o tempo lhe roubar a clareza do sentimento.  Que estranho esse estranho de olhar estranho atravessando a rua dos sentidos e dos ressentidos. Suas largas passadas tão lentas, maratona em slow motion.

O infinito lhe angustia de um jeito, que só lhe resta apertar o passo para alcançar quem lhe queira, ainda que estranho de olhar estranho e ainda mais estranho destino. Quem me quer? ele berrou no meio da rua do mundo da lua, em tom esganiçado, em dia de desespero descarrilado. O silêncio ecoou fascinado por ele, o estranho de olhar estranho, de andar estranho, de mãos enveredando pelos cabelos do vento, pensamento tentando catar explicação para essa solidão de homem de olhar estranho, que almeja afeto que lhe ofereça beijo.

Mas veja que o olhar estranho do estranho que atravessa a rua do mundo da lua, busca palavra no muro que lhe salve da solidão, que ele nunca foi bom em lidar com ecos, ou cômodos vazios, mesa posta para um. Nunca foi bom nessa matemática da solidão, que permite que ele fale sobre si somente a si mesmo, que faça visitas recorrentes apenas às próprias lembranças, que são muito leves de tanta falta de vida experimentada, feito o figo que, ainda outro dia, viu a moça morder, lá na feira da rua da lua, onde passou às largas passadas, um estranho em slow motion em meio a rotina de outros.

O estranho deu de conversar com si mesmo, por falta do escambo de palavras. Quem passa, por mais que tente lhe recusar atenção, acaba dizendo: olha que olhar estranho tem o estranho que atravessa a rua do mundo da lua, esbarrando na vida da gente! Não sabe o quem que esse olhar nem tem par, que o estranho perdeu uma das vistas em um horizonte proibido, quando aprendeu a enxergar o inteiro nas metades. E como não é surdo, anima-se todo o estranho quando escuta o quem lhe notar a presença, mas a conversa nunca progride.

O olhar estranho do estranho que atravessa a rua do mundo da lua se distrai, e acaba por se atracar ao olhar forasteiro. O olhar do estranho, acostumado ao desvio - que nunca o queriam contemplando com tal estranheza, tampouco o estranho desejava que seu olhar causasse indisposição emocional em quem fosse -, crava-se no olhar outro de um jeito doce, que não há critério, apego ao equivocadamente perfeito que provoque no olhar outro a vontade de ignorá-lo. O estranho, por dentro, naquele silêncio robusto que só aceitara, até então, ser quebrado por pensamentos sobre si mesmo, enche-se do que jamais sentira antes. Visita-lhe o peito o aperto, a cabeça, a zonzeira. As mãos suam mares e as pernas bambeiam como se ele estivesse caminhando em corda fina, o abismo à espera de sua queda, e ainda assim, ele se sentisse corajoso em sua jornada.

Outros passam por eles e não se contêm: olha que olhares estranhos têm esses estranhos que estão feito gente plantada na rua do mundo da lua. O olhar do estranho não dessintoniza do olhar outro. Nesse encontro, o estranho reconhece no olhar outro a metade que lhe falta. Agora tem as duas vistas, e ainda enxerga inteiro em metades, mas também horizontes.

Que o olhar outro chegou barulhento, arrancando do estranho o estranhamento, comendo-lhe o medo, devorando-lhe a solidão. Enxergando no olhar do estranho a sua outra vista, beijando-lhe a alma, fazendo-se presente, fazendo com que o olhar estranho do estranho que atravessa a rua do mundo da lua se tornasse inteiro.

Imagem: sxc.hu

carladias.com

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terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

PREPARANDO A TELA >> Clara Braga

Todos os dias, quando acordo, me pinto de branco para começar a pintar o dia. É com uma frase mais ou menos assim que começa o espetáculo Corpo sobre tela. Ao longo da performance, acompanhamos, entre outras coisas, a angústia do ator em encontrar aquela cor que o representaria, aquela que seria a sua cor.

Achei isso tudo um tanto poético, afinal, será que não podemos interpretar essa questão como uma metáfora para uma angústia universal? O que faz nossos olhos brilharem? O que nos faz feliz? O que nos move? Qual é a nossa cor? Estamos sempre nos perguntando isso. E quando não somos nós nos perguntando, os outros se encarregam de fazer isso. Aposto como você perdeu as contas de quantas vezes respondeu à pergunta: o que você quer ser quando crescer? Essa pergunta nada mais é do que uma forma mais direta de perguntar quase a mesma coisa.

Acredito que os adultos fazem essa pergunta pois na resposta encontram a inocência e a sinceridade que já não se dão ao luxo de ter. O que não percebem é que ao fazerem isso, estão fechando portas que não precisavam estar fechada.

As pessoas buscam sua cor, mas estão cheias de padrões que as vezes não lhes permitem enxergar a beleza de uma cor mais opaca. Porque todas as cores têm que brilhar? Porque têm que ser cores primárias? Qual o problema de uma boa mistura? E se ficar feio, porque não pintar de branco de novo? Vai ficar manchado? E quem disse que uma manchinha aqui e outra ali não tem o seu charme?

São tantas questões, dúvidas, medos, que as pessoas esquecem de um detalhe, que pode ser só um detalhe, mas que muda tudo: para pintar o mundo e se pintar, você tem que preparar sua base antes, ou seja, nunca se esqueça de se pintar de branco todos os dias. Se permita dias mais coloridos e seja a cor que você quiser. Uma vez me disseram: você pode ser o que quiser, desde que seja sincero. E eu acreditei.


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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

IRMÃOS, GATOS E OUTROS BICHOS >> Albir José Inácio da Silva

Quando viemos para o Rio de Janeiro, ficaram na roça os bichos. Cavalo, papagaio, cachorro, gato, coelho e outras espécies que se revezavam na nossa vida. Pai e mãe só trouxeram os filhos, e as trouxas.

Eu não gostava do motivo pacientemente repetido de não haver espaço no trem. - Por que não levar os bichos e deixar as trouxas? – perguntava.

Na cidade compreendi o que era falta de espaço. Mal cabíamos os quatro mais as trouxas no lugarzinho que chamavam de casa. Eu, acostumado à largueza do mato, tentava entender porque é que as pessoas vivem assim.

Cezinha com cinco anos podia esperar, mas eu já tinha sete, e na roça não havia escolas. A cidade era inevitável. Apertada mas obrigatória.

Cães ficam se forem convidados e bem tratados. Mas não são assim os gatos. Não pedem licença, ocupam seus lugares, dispõem dos espaços e dos súditos, como suseranos. A gata chegou magrinha e se instalou. Recebeu leite e outras refeições a que tinha direito. Engordou, engordou, engordou e teve cinco gatinhos.

Se não havia lugar para um gato, como ficar com seis? Na reunião de família, sem muitas palavras, decidiu-se que os filhotes seriam doados. Numa conversa lá com a mãe, Dona Penha se candidatou e recebeu seu gatinho, que seguiu miando para sua nova casa na vila do lado.

Muito provavelmente com invasão de domicílio, Cezinha providenciou o resgate do bichano, alegando maus-tratos. Dona Penha ficou bicuda por semanas, e teria dito que “não queria mais o gato nem com um pedaço de ouro amarrado no rabo”. Em defesa dessa senhora é preciso dizer que, a menos que ela tivesse saído lá de casa já batendo no bichinho, não houve tempo hábil para maus-tratos. Mas essa questão nunca foi esclarecida.

Depois a gata-mãe morreu, os gatinhos cresceram, ficaram insuportáveis dentro do pouco espaço e foram distribuídos. Dessa vez para endereços que não permitiam a fiscalização do meu irmão.

Então nasceu Silvinha, depois também chamada de “jilozinho”, que apesar da falta de espaço foi conservada, talvez por pertencer à mesma espécie que nós. Acho que todas as espécies são egoístas.

Numa outra casa, herdamos um cachorro chamado Sultão, que não primava por hábitos muito civilizados. Ficava esparramado no chão atrapalhando nossos passos, mas, à simples menção da palavra “banho”, desaparecia por horas para outros quarteirões.

Pela vida a fora fomos arranjando um gato aqui, um cachorro ali, lá uma calopsita. Talvez na esperança de mitigar a saudade dos bichos deixados na roça, mas sem muito resultado.

Eu desisti. Agora moro num apartamento sem bichos de qualquer espécie. Mas o Cezinha continuou na defesa dos animais. Foi morar num sítio onde não faltam esses viventes.

E ele, é claro, não vende porque não lhe pagam o preço justo. Não troca porque não acredita na qualidade da contraprestação. Não empresta porque não acredita no mutuário. Não dá porque é dele, quem quiser que tenha o seu. E não deixa ninguém ficar olhando por muito tempo – embora seja capaz de jurar que não acredita em mau-olhado.

Acho que assim ele redime a família dos traumas pelo abandono de bichos no passado.


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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

MAIS HONESTIDADE, SOLTEIROS >> Mariana Scherma

Porque não é fácil ser solteira e porque é superdifícil encontrar alguém legal, o mundo anda cheio dos aplicativos pra facilitar esse caminho. Não sei bem se facilitar é a palavra, mas talvez tornar a busca um pouco mais divertida, um pouco mais cheia de história pra contar. Eu sempre desconfiei de quem apela pra internet pra encontrar alguém, quem fazia isso pra mim até então eram pessoas tipo o personagem Raj, de The Big Bang Theory, bem nerd e bem incapaz de conversar com quem lhe interessa. Mas depois que tive preguiça de sair de casa (a idade sempre chega) e algumas amigas me estimularam a baixar o tal aplicativo, arrisquei ué. Não tinha nada a perder mesmo.

No primeiro momento, você acha que resolveu sua vida amorosa foi resolvida. Sim, chove caras interessantes e interessados em você. Aí você checa as afinidades, vai conversando e se enche de esperança. Tipo uma bexiga de aniversário bem gordinha. Até que sai pra uma cervejinha ou cinema e descobre o quanto os gostos em comum podem ser forçados e mentirosos. Imagine alguém espetando sua bexiga de esperança com um alfinete de honestidade. Pois é... Cadê um órgão tipo Procon pra fiscalizar isso? Sim, porque eu dou um voto de confiança até que me provem o contrário. Mas talvez tenha que mudar esse conceito de dar sempre um voto de fé ao ser humano solteiro à procura.

Depois de muita conversa, um dos candidatos via aplicativo me levou ao cinema. Segundo as informações, ele gostava de rock como eu. E pelas nossas conversas, ele parecia entender de cinema. Ok! Entrei no carro dele e começou a tocar música country dos EUA. Meu cabelo arrepiou num princípio de terror (parênteses necessário: nada contra quem ouve country. Mas assuma isso no perfil do aplicativo, por favor). Segundo sinal de que a coisa já estava afundando: ele prefere ver filmes dublados. Meu pânico só aumentava. Depois, descobri que ele detesta ler (jornais, revistas, gibi, bula de remédio, livros...). Como uma pessoa pode odiar ler? Ok, a vaca, que dizer, o boi foi mesmo para o brejo em dois momentos: primeiro, quando ele disse que a única coisa que ele lia era legendas de filmes (mas como o fulano prefere filmes dublados, a frequência não é das maiores, não). Com certas coisas, não se faz piada. Simples assim. E segundo, quando disse que o filme que mais o marcou foi Jamaica Abaixo de Zero. Atenção ao diálogo:

_ (ele) Tenho vontade de conhecer a Jamaica, de verdade. Por causa de um filme que assisti e me marcou demais.
_ (eu já sem meias palavras) Ai, não vai me dizer que foi aquele tosco, Jamaica Abaixo De Zero.
_ (ele) Esse mesmo! Mas é ótimo, você viu?
_ (eu com cara de “socorro, mundo”) ... (não disse nada, só pensei comigo mesma, vou processar o Tinder (o aplicativo) por perder meu domingo à tarde.

Mas eu não fui a única com histórias engraçadas. Uma conhecida encontrou um cara que adorava conversar sobre discos voadores, parece até que tinha sido abduzido, segundo ele. E provavelmente tem um tantão de gente aí que poderia acrescentar umas pérolas a essa crônica. Eu sei que sou exigente, mas nem teria dado chance ao groupie de Jamaica Abaixo de Zero se ele tivesse sido honesto e falasse de cara que não lia, ouvia country music e preferia filme dublado. Tudo o que eu detesto. Falta um pouco de honestidade nesses aplicativos, quer dizer, na vida mesmo. Pra que vender uma imagem que não corresponde nadinha à sua realidade?

Eu fugi do encontro assim que deu, nem dei beijo de tchau no rosto porque não queria criar vínculos. E o mais engraçado é que quando o cara não interessa mesmo é que você é mais você. Sem se importar se vai agradar ou não, você agrada. Isso, o tiete de música country continuou me procurando, mas já cortei porque estava na cara que não ia dar em nada. Sartre disse que o inferno são os outros. O inferno desses aplicativos são as pessoas que não assumem sua verdade. Resumindo, continuo solteira e que venha o próximo. Uma hora dá certo! 


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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

PODE SER QUE EU LHE MANDE UM BUQUÊ DE GIRASSÓIS >> Carla Dias >>


Uma amiga me perguntou, ainda outro dia, sobre aquele moço. Antes dela, um amigo comentou que sempre pensa naquele moço.

Eu já escrevi uma crônica sobre o moço, há tantos anos, que nem me lembro de quando. Mas diante das menções a ele, a lembrança veio inspiradora.

O moço em questão era atendente da videolocadora que eu frequentava. Pense em alguém com ar de tristeza... Era ele. Um moço alto, bonito, mas com essa feição triste que me cortava o coração.

Eu gastava um bom tempo na videolocadora, que eu adorava ficar conferindo os filmes, lendo sinopses. Decidir quais cinco filmes eu levaria para casa era algo que me aprazia. Como eu assistia a muitos filmes, às vezes eu pedia indicações aos atendentes da videolocadora. E desde que o moço começou a trabalhar lá, era ele que me atendia. Não houve filme que ele me indicou que me desagradasse. Sendo assim, concluí, em poucas locações, que o gosto daquele moço e o meu eram perfeitamente compatíveis.

Mas ele não sorria. Era educado, conversava comigo sobre os filmes, mas não sorria, e isso me deixava maluca. Quando não estava atendendo cliente, ele ficava em pé, perto de uma prateleira que dava espaço para se enxergar o lá fora pela janela. Perdia o olhar no lá fora, parecia hipnotizado pelo lá fora.

Os donos da videolocadora, assim como os outros atendentes eram jovens, cheios de energia. Eles adoravam um bate-papo com clientes e sorriam bastante. Em um cenário como este, o moço era destaque, um representante de primeira da melancolia.

A minha mania de me meter na melancolia alheia me levou a enviar para ele alguns girassóis, com um bilhete tão solar quanto à flor. Para mim, não há quem consiga esconder o sorriso de um girassol. Eu esperava que o gesto, completamente anônimo, que não queria perder a oportunidade de voltar à videolocadora, pudesse, ainda que por alguns instantes, afagar-lhe a alma.

Voltei algumas vezes à videolocadora, mas o moço continuava melancólico, mergulhado em si. De um jeito atravessado, apenas cultivei curiosidade sobre se, ao receber os girassóis, ele sorriu, ou os jogou no lixo... Não, disso eu duvido. Ele era mesmo gentil.

Gestos como este não são raros em minha história. Eu gosto de colaborar com a felicidade dos meus afetos. E quando eles estão tristes, ensimesmados de um jeito não muito bom, acabam recebendo um agrado diferente, de flores ao bolo de fubá para o café da tarde.

Alguns meses depois, a videolocadora fechou. Há algumas semanas, passei pelo moço, lá na rua de casa. Ele continua com aquele olhar triste, mas ao menos desta vez, em vez de admirar o lá fora pela janela, ele faz parte dele.

carladias.com

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terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

DESCULPEM, MAS VOU FALAR SOBRE O ÚLTIMO CAPÍTULO DA NOVELA >> Clara Braga

Acredito que as redes sociais tenham possibilitado que mais e mais pessoas possam se expressar. Tornou a questão da denúncia e do debate mais democrática, já que agora é mais fácil colocar a boca no mundo. Porém, devido a essa facilidade, muitas pessoas estão esquecendo de digerir as coisas, refletir sobre, pensar, para só então expressarem suas opiniões. Resultado disso tudo: muita besteira rolando pela internet!

Entendo a angústia das pessoas que gostariam que o mundo assistisse menos televisão e se informasse mais, fosse para as ruas lutar pelo seu país e todas essas coisas, mas acho que nós não podemos tirar o "mérito" que a televisão, por exemplo, tem. Sabemos que a globo em muito ajuda para alienar as pessoas. Mas se ela tem esse poder de alienação, ela também tem poder de ditar padrões, ou seja, uma vez que ela usa esse seu poder para o bem, todos nós podemos ser beneficiados.

Vocês já devem ter entendido aonde eu quero chegar com esse papo. Sim, no beijo gay do último capitulo daquela novela que tentou tratar de todos os assuntos polêmicos existentes na face da terra de uma só vez. Vi muitos comentários críticos a respeito dessa cena, como: enquanto as pessoas estão alienadas com o último capítulo da novela, muitas outras estão roubando dinheiro público. Ou então: um beijinho sem graça desse não adianta de nada, se a globo achou que ia fazer história com esse beijo, se enganou.

Bom, concordo que o beijo foi singelo, mas gente, vamos lá, estamos em pleno século XXI e nunca uma emissora de televisão tinha mostrado um beijo entre dois homens. Entre duas mulheres sim, mas entre dois homens não! Será mesmo que isso não significa nada? E digo mais, eu acho que as pessoas que são alienadas e preconceituosas, na pior das hipóteses, agora podem estar pensando: bom, se a globo diz que é normal e não tem problema, vai ver é normal mesmo. Será que passou pela cabeça das pessoas que esse singelo beijo pode ser o começo para que situações como homossexuais sendo espancados até a morte diminuam?

Se você assistiu e não se chocou, achou mais do que normal, parabéns! Isso é sinal de que você já está inserida no século XXI e entende que amor é amor, independente de quem se ama. Agora, com certeza, muitas pessoas ainda estão indignadas com a cena. Quem sabe esse não é o momento desse digimom refletir, debater sobre o assunto com os amigos e familiares e então, finalmente, evoluir?

Eu mesma critiquei a novela por ela tentar tratar de muitos assuntos e acabar não tratando de nada com seriedade, porém, fiquei sabendo do caso de uma mãe que assistia à novela com seu filho e ele perguntou se quando crescesse ia beijar outro homem ou uma mulher? E então a mãe disse: você vai beijar quem você amar, independente do sexo dessa pessoa! Palmas para essa mãe maravilhosa, que com uma atitude fez valer esse tão polemico beijo! Se essa criança crescer sem nenhum preconceito, entendendo que a única vontade das pessoas é ser feliz, esse beijinho de nada já cumpriu sua tarefa.

E quer saber, que venham mais novelas com pessoas com deficiência casando, gordinhas sendo felizes gordinhas, beijos gays, idosos mantendo relação sexual e tudo mais que foi tratado na novela, que de tanta coisa eu já nem me lembro mais! Antes uma novela que permite o questionamento e o debate, do que Ronaldos e Pelés fazendo comentários infelizes sobre a copa.


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domingo, 2 de fevereiro de 2014

A TAL DA BICICLETA >> Sílvia Tibo


Quando se tem entre dezesseis e dezessete anos, não há nada que se deseje mais do que entrar de vez na casa dos dezoito e, então, fazer os testes para conseguir a carteira de motorista. Ou, para os mais corajosos e aventureiros, de motociclista. 

No meu caso, a carteira de habilitação não veio aos dezoito. Nem aos vinte. Nem aos vinte e cinco. Nessa idade, pensava eu que de nada adiantaria ter a tal da CNH sem um emprego com remuneração razoável, capaz de cobrir, com folga, ao menos o valor do seguro anual, do combustível e do IPVA. 

Decidi, então, que não era tempo de pensar em carro, mas de estudar e conseguir um trabalho. E quando o trabalho chegou, decidi que era hora de sair do aluguel. E quando saí do aluguel, decidi que era preciso reformar a casa nova (já que, afinal, ela não era assim tão “nova”). 

O fato é que, durante um bom tempo, o projeto-carro esteve no finalzinho da minha lista de prioridades e desejos. Aquela que se faz a cada virada de ano...

Nessa época, cogitei várias vezes a possibilidade de, no lugar do carro, comprar uma bicicleta. Embora a topografia de Belo Horizonte não fosse (como não é) exatamente favorável à minha ideia, acreditava que, se eu adquirisse alguns itens de segurança, como capacete, buzina, farol e retrovisor, a bike poderia ser um excelente meio de locomoção. Daria pra ir de um lugar a outro com rapidez e baixo custo, sem falar na facilidade para estacionar. De quebra, daria uma forcinha para o meio-ambiente e queimaria milhões de calorias diariamente, abandonando de vez as entediantes corridinhas na esteira ergométrica da academia. 

A despeito de toda essa lista de vantagens, no final das contas, não sei bem como nem por que, acabei passando mais alguns anos a pé, sem bike e sem carro. Nas emergências, ônibus e táxis estiveram sempre ao meu dispor. 

Essa história toda me meio à mente num dia desses, enquanto fazia, de carro, o percurso entre um consultório médico e a minha casa, por volta das 18h de uma sexta-feira. Tive tempo de sobra pra me lembrar de tudo isso nos quase sessenta minutos em que permaneci imprensada entre dezenas de carros, todos tentando chegar ao fim de uma rua que, se já não dispunha, originalmente, de espaço suficiente para acomodar a quantidade de automóveis que por ali trafegam todos os dias, tornou-se ainda mais estreita de uns meses pra cá, desde que alguém teve a ideia de retirar uma das (poucas) faixas a eles destinadas e construir, em seu lugar, uma ciclovia. 

Palmas para esse alguém, o mentor do projeto-ciclovia. Sem dúvida, a ideia de reservar, nas vias públicas, faixas destinadas à circulação exclusiva de ciclistas é nobre, politicamente correta, digna de aplausos e reverências. E teria tudo pra dar certo em algumas partes do mundo. Como, aliás, já deu em muitas! 

Mas... opa! O detalhe é que estamos e continuamos em território brasileiro. 

Por aqui, como se sabe, nem de carro blindado se consegue circular com segurança atualmente. E, a despeito da Lei Seca, motoristas insistem em dirigir depois de se entupirem de álcool. Saem, então, como loucos, atropelando o que encontram pela frente, inclusive bicicletas que circulam no espaço que lhes é de direito. 

Sem falar que, ao menos em Belo Horizonte, as ciclovias abrangem uma parte ínfima da cidade, de modo que, no final das contas, levam nada a lugar nenhum. Entre uma e outra, o ciclista não tem outra opção a não ser se arriscar transitando entre ônibus, carros e caminhões. E aí, o negócio é rezar pra chegar ao destino vivo e sem nenhum arranhão. 

Com tantos obstáculos, físicos e culturais, não é de se estranhar que, por aqui, as ciclovias estejam, em sua maioria, às moscas. 

Num país em que se corta o IPI para compra de automóveis ao invés de se investir em metrô, a inversão de valores e prioridades é generalizada. E então, vê-se de tudo um pouco nas ciclovias: desde pessoas fazendo suas caminhadas matinais a barraquinhas de vendedores de frutas e legumes. Só não se vê, mesmo, a tal da bicicleta. 


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