sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

VIÚVA NEGRA >> Zoraya Cesar

Elza sempre fora chamada de Elzinha, e não poderia ser diferente. Tão magra que mais parecia um daqueles gravetinhos que caem ao chão à mais leve brisa, e fazem crec-crec quando pisados. Era uma frágil donzela, sempre doente, tímida e feia. Não feia horrenda, mas feia feinha, sem graça e sem jeito. E esquisita também, vivia falando em magia negra, mortos-vivos, feitiçarias do Além. Acreditem em mim, Elzinha era desprovida de encantos outros que não sua inteligência e delicadeza – parecia incapaz de fazer mal a quem quer que fosse, nem carne comia. Seu destino, comentado à socapa por toda a família, era o de morrer solteirona - isso se vivesse muito, diziam.

No entanto, Elzinha tinha um encanto bastante sedutor: era rica.

E, como era de se esperar, acabou encontrando quem quisesse casar. Afinal, beleza não põe mesa, mas dinheiro sim. E porque Marcos Patrício iria se importar com o constante estado adoentado de Elzinha, seu olhar meio parado, seus dentes fora de ordem, suas manias? Ela era doce e compreensiva, divertida, até, com aquelas ideias estapafúrdias de vida além-túmulo e invocação de almas penadas. Marcos Patrício era um bon vivant que não acreditava em nada que suas mãos não pudessem tocar e queria mais era largar a profissão de salva-vidas alheias para salvar a sua.

Pois bem, casaram-se, e Marcos Patrício tratou logo de gastar o dinheiro da esposa em carros, viagens (às quais ela nunca podia ir, sempre doentinha, sempre cheia de achaques e restrições médicas), jogatina e, eventualmente, algumas noitadas com mulheres. 

E como Elzinha encarava essa faceta da vida de casada?

Com a maior naturalidade. Dizia que o coitado do marido era jovem e bonito, não podia passar todos os dias de sua vida cuidando de uma criatura tão enfermiça quanto ela. Ademais, durante o tempo em que ele ficava em casa, tratava-a muito bem, era meu amorzinho pra cá, meu bem-querer pra lá, e sempre cumpria seus deveres conjugais regularmente, cada vez que Elzinha tinha vontade. Claro que não vou entrar na intimidade do casal, mas Elzinha, a doce e recatada e esquisita Elzinha, era voraz.

Dizem que o casamento é mais proveitoso ao homem que à mulher. E até um ano depois do casamento, parecia que essa premissa era verdadeira.

Até que Marcos Patrício caiu doente de uma enfermidade desconhecida, que nem os melhores médicos que o rico dinheiro de Elzinha podia comprar conseguiram diagnosticar. Ele foi enfraquecendo, perdendo a vontade de farrear, emagrecendo e assim foi até não sair mais da cama. Exangue, lasso, derrotado. Passava os dias deitado, olhando fixo para o teto, sem forças nem para comer, era alimentado pelo mingau que Elzinha carinhosamente lhe dava na boca todos os dias.

Que horror, dirão vocês, um casal doente, que falta de sorte.

E eu direi, não sejam apressados, as aparências enganam.

Porque, enquanto Marcos Patrício definhava irremediavelmente, Elzinha resplandecia. Engordava, fortificava-se, não mais caía doente a toda hora. Dia a dia ficava mais irreconhecível, quase bonita, de tão saudável.

Alguns meses se passaram e então os médicos foram taxativos: Marcos Patrício não ia se recuperar, a não ser por milagre. Viveria naquele estado vegetativo, morrendo em vida, cuja duração dependeria muito dos cuidados que recebesse.

Elzinha não se perturbou. Garantiu que seu amado teria sempre do bom e do melhor. E toda noite sentava ao lado dele, dava-lhe o mingau energético que ela mesma preparava, segurava sua mão ossuda e cantava estranhas canções. Depois, acendia velas pretas e aspergia no corpo inerte do marido uma água arroxeada. Se alguém lhe perguntasse o que era tudo aquilo, Elzinha explicaria que eram simpatias de cura, aprendidas com uma rezadeira das antigas.

Das Antilhas, melhor dizendo, e do Haiti, mais exatamente. Pois o que Elzinha fazia era tudo, menos desejar a melhora do marido. E depois de envenená-lo, todos os dias, com uma erva entorpecente, acender as velas e invocar espíritos sem luz com as orações cantadas em crioulo haitiano e derramar poção sugadora de auras no corpo de Marcos Patrício, Elzinha começava a conversar com ele. Contava o quanto estava feliz por tê-lo encontrado, tão forte, tão saudável, como fora fácil roubar-lhe a energia vital, passando-a para seu próprio corpo, dia a dia, cada vez que faziam sexo. E, cinicamente, agradecia-lhe por tudo, pois, agora que estava bonita e saudável, seria ainda mais fácil encontrar mais um trouxa para sugar a energia. Viveria eternamente, às custas da  vida alheia. E dizia que achava tudo muito justo, afinal, ele não vivera às custas de seu dinheiro?

- Então, meu amor, você pensou que eu morreria cedo e te deixaria com minha fortuna. Vou te dizer uma coisa, meu bem: quem vai morrer é você, lentamente, até que eu esteja forte o suficiente e não te reste um pingo de vitalidade. Aí eu te deixo descansar em paz. E reze para eu estar de bom humor e não lembrar das suas traições, ou posso deixar sua alma presa nesse corpo inútil para sempre...

E rindo, dançava ao redor da cama, cantando aquelas estranhas invocações.

(A alguns quilômetros dali, Lucrécio Lucas, caçador, consultava, em sua tábua Ouija, se havia algum feiticeiro vodu na cidade que tivesse de ser eliminado. O dedo mexeu-se lenta, mas resolutamente: sim)




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quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

PELO DIREITO À CERVEJINHA >> Fernanda Pinho


Meu marido não toma bebida alcoólica. Refrigerantes? Gosta de poucos. Geralmente opta pelos de laranja ou por suco. Eu também vivo tranquilamente sem álcool, mas não resisto a uma cervejinha gelada num dia quente ou a uma tacinha de vinho num dia frio (usar o clima como desculpa. Quem sempre?). Foi assim que a cena se tornou um clássico em nosso relacionamento: temos o hábito de apenas um dos dois fazer o pedido quando chegamos a um bar ou restaurante. Poder ser ele, pode ser eu. Depende da disposição de cada um.  Sem saber quem pediu o que, o garçom invariavelmente faz a mesma dedução: o chopp pra ele e o suco de abacaxi com hortelã pra mim (eca! Odeio abacaxi com hortelã). A gente ri e destroca os copos, sempre com o cuidado de fazê-lo diante dos garçons. Adoro ver as caras envergonhadas.

Na hora de pedir os pratos, a cena se repete. Eu  gosto é de carne e massa e, por mais que eu tente ousar nas minhas escolhas vez ou outra, é uma pizza com borda recheada de catupiry que faz meu coração bater mais forte. Ele não. Especialmente à noite, que é quando costumamos sair para comer e beber, meu marido tem predileção por grelhados, peixes, saladas. E os pratos, tcharam!, vêm trocados.

Se você duvida, te convido a jantar um dia com a gente. Se você compreende a lógica utilizada pelos garçons, tenho uma notícia pra te dar: você é machista (e não está convidado para o jantar).

Há algumas semanas, um amigo do Maranhão postou em seu Facebook a foto de um out-door que convidava para um happy hour num determinado shopping. A peça publicitária era porcamente ilustrada com a foto de uma caneca gigante de chopp e dois homens sorridentes. E não precisa nem muito esforço para imaginar que se a campanha fosse de liquidação nas lojas teríamos mulheres no cartaz.

Triste. E mais triste ainda pensar que essa mentalidade não está apenas na cabeça dos garçons brasileiros (e chilenos, e argentinos) nem dos publicitários maranhenses. É uma lógica arraigada tão profundamente na cabeça de todos que que o machismo acaba virando o óbvio, a dedução natural.

Mulher que bebe é sem modos. Mas se beber, que faça uma dieta. Não vá pedir uma pizza num restaurante porque barriguinha boêmia só é charmosa em homem. Desse jeito, não vai encontrar nada que te sirva na liquidação do shopping.

(E fica esperta. Marido que pede suco de framboesa? Não sei não...)



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quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

ATÉ QUE A VIDA NOS AMPARE >> Carla Dias >>


Tire os sapatos, desarrume os cabelos dançando pela sala, desarrume a casa com a sua alegria, descanse olhando o mundo pela janela. Lançar-se à felicidade não se resume a sorrir para a foto, a posar para a situação, a fazer de conta que está bom como está. Lançar-se à felicidade é, primeiramente, um desafio que demanda ousadia.

A ousadia de considerar a felicidade quando tudo anda meio mais ou menos.

Como lhe deixa mais ou menos não ter o emprego que gostaria, e por isso você acumula horas de reflexão sobre como seria bom estar em outro lugar, fazendo outra coisa, sendo outra pessoa. Só posso lhe dizer o seguinte: dê uma segunda chance a um disco que você ganhou e do qual não teve coragem de escutar mais de uma música. Permita-se deslumbrar pela beleza de um fim de tarde, mesmo que o observe da janela do escritório. Beba um café fresco, porque ele sempre deixa o dia mais animado. E saiba que, talvez, seja hora de descartar a sensação de estar no lugar errado e começar, se não a aceitar que o lugar é certo - o que pode ser -, começar a procurar uma nova casa para seus projetos de vida.

Se eu fosse você, abraçaria aquela pessoa pela qual sente um apreço danado, e abraçaria demorado. Eu sei, eu sei... O mundo é complicado, a vida, às vezes, faz a gente girar feito pião, desorientando-nos. O sapato aperta, a roupa esquenta muito, a comida não é a preferida, cai o sinal do celular, da tevê a cabo, temos de chegar na hora em lugares os quais nem gostaríamos de conhecer.

E sei que dá medo, porque abraço demorado pode finalizar platonice, de acordo com o olhar lançado após o feito. Mas o máximo que pode acontecer é você perceber que ali não haverá segundo abraço. E quem, afinal, se contentaria com afeto com edição limitada?

Afeto a gente solta no mundo, e ele sempre nos traz algo positivo de volta. Em dias mais inspirados, traz alguém que vem para ficar.

A gente sofre um tanto pensando estarmos no lugar errado, vivendo as situações erradas, lidando com as pessoas erradas. Mas a verdade é que, quando se trata da vida, nada está errado. Tudo apenas está. É possível mudar ao tirar os sapatos, despedir-se dos incômodos, esvoaçar cabelos no secador de mãos do shopping, desarrumar o dentro de alguém por pura alegria, inspirar o olhar lançado pela janela. Assim, é possível que o abraço vingue, rendendo companhia para a vida.

Que se lançar à felicidade é descartar fórmulas, e orientar-se pelo desvario das possibilidades.

Imagem: sxc.hu

carladias.com



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terça-feira, 28 de janeiro de 2014

SORRIA, VOCÊ ESTÁ SENDO FILMADO EM FULL HD >> Clara Braga

Muita gente talentosa vive no anonimato enquanto outros, não tão talentosos assim, são pessoas extremamente idolatradas e famosas. Vocês diriam: é Clara, a vida não é justa. E de fato não é, hoje em dia não necessariamente é reconhecido quem é bom, mas sim quem vai vender mais. Mas não é exatamente sobre isso que eu quero escrever. O que eu quero dizer é que me preocupa o fato de que pessoas aleatórias estão se tornando referência para crianças e adolescentes.

Esse final de semana, enquanto assistia ao jornal, passou uma longa reportagem sobre a prisão de Justin Bieber. Já fiquei impressionada com o tamanho da reportagem, mas o que mais me chamou a atenção foi o depoimento de uma adolescente que chorava enquanto dizia: o que mais dói é saber que a pessoa que você ama está sofrendo e você não pode estar ao lado dela para segurar sua mão e dizer coisas bonitas.

Bom, eu já fui adolescente e tive minha época de "fanatismo musical". Mas meu fanatismo chegou apenas ao ponto de saber quanto os Hanson mediam, qual as cores prediletas deles e escrever uma carta de aproximadamente 3km com os dizeres: minha paixão pelo Hanson não tem tamanho, para participar de uma promoção que eu nunca cheguei perto de ganhar, pois a carta mais longa tinha 12 km.

Posso estar errada, mas não é um pouco demais dizer que ama o Justin Bieber e sofrer querendo estar ao lado dele dando apoio em uma fase difícil? Tudo bem amar as músicas dele, mas amar ele? Será? E o pior é que essas pessoas podem chegar ao ponto de serem influenciadas de tal forma que vão começar a dizer que dirigir bêbado, fazer racha, portar drogas e saí nas ruas de um outro país pichando os muros não é problemático.

Sim, isso pode ser só fase e eu também tenho vontade de voltar para minha fase de adolescente as vezes, na qual eu dizia que não tinha tempo para fazer os deveres de casa, mas na verdade ficava ouvindo CD's das minhas bandas prediletas e discutindo com as minhas amigas qual dos Hanson era o mais bonito. E sei que também não posso comparar, hoje em dia é muito mais fácil ter acesso a vida do ídolo e de fato se sentir mais próxima dele, mas isso não deveria ter um limite?

Não sei, mas acho que essa mania de participar demais da vida dos outros, de querer viver em um Big Brother, está fazendo com que a gente deixe de viver nossas próprias vidas e perca alguns valores, estou exagerando? Essa menina não devia estar achando que ama o cara que senta duas cadeiras na frente dela na escola ou sofrendo porque está correndo o risco de ficar de recuperação em matemática? Nossa, perdi as contas de quantas vezes eu chorei por causa de matemática, sou traumatizada até hoje!

E quanto a essa reportagem, só espero que essa menina logo perceba que amor é que ela sente pelo pai e pela mãe dela, que agora devem estar pensando: se o Justin Bieber vier fazer show no Brasil de novo, como vamos dizer para ela que ela está proibida de ir sem que ela nos odeie?


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segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

INVEJA E MALEDICÊNCIA >> Albir José Inácio da Silva

A inveja tem me levado à maledicência, numa combinação de pecados que muito provavelmente vai me conduzir às profundas do inferno.

Minha cara encarquilhada e minha boca murcha não param de denegrir rostos luzidios e lábios grossos, chamando-os de caras de empada e beiços de gamela, como se fossem crimes os milagres estéticos com que a modernidade nos presenteia. No fundo me consome a inveja da coragem com que esses intrépidos enfrentam os procedimentos com agulhas e bisturis, além da inveja óbvia pelas diferenças alcançadas.

Se me virem falando mal de alguém, podem procurar porque lá no fundo vão descobrir a acidez da inveja. Sou, de regra, bonachão, compreensivo, perdoo quase tudo, faço discurso bonito de compaixão. Mas se me pica a inveja, qualquer sucesso alheio vira vexame e qualquer nobreza, escândalo.

Mas minhas inveja e maledicência não se limitam às decepções estéticas que sofro no espelho. Alcançam assuntos mais sérios, como administração pública, de que eu deveria manter respeitosa distância, recolhendo-me à bagatela, em vez de sair por aí reclamando de coisas que deveria aplaudir, como os trens, por exemplo.

Para quem não é do Rio, devo informar que os ônibus não são melhores que os trens. Ambos transportam pessoas como se fossem gado, com temperaturas de forno crematório, em carros velhos, sujos e perigosos, que não respeitam horários nem pessoas. Mas os empresários desse setor contam com poderosos lobbies que se infiltram nas casas legislativas, impedem comissões de inquérito e garantem a continuação do descalabro. São intocáveis em seus lucros, mas sempre perdoáveis em seus desatinos.


Diga-me, leitor, existe ato de maior coragem para um administrador público, candidato às próximas eleições, que declarar alto e bom som que “está muito satisfeito com a Supervia”, um serviço que ele deveria fiscalizar, que maltrata e humilha centenas de milhares de eleitores todos os dias?

É preciso ter muita fibra. Porque seria mais fácil fiscalizar, punir, descredenciar, cassar, proscrever da contratação com o poder público, já que assim contaria com apoio do povo, teria respaldo legal, cumpriria com o seu dever e, sobretudo, atenderia à moral e à dignidade. Mas não. Ele faz o mais difícil.

E são esses gestos assim, ousados, grandiosos e despojados - ele não pensa nem na própria eleição - que deflagram minha inveja e maledicência. Maledicência de que esta crônica é exercício, como você já percebeu.

Tive cólicas com a coragem demonstrada pelo senhor vice-governador ao vir a público defender a incompetência e elogiar quem deveria punir. Sempre ouvi que suicídio é pecado e covardia. Por isso, só de mim pode partir a sugestão pusilânime para que o ilustre governante se desculpe à moda japonesa nos casos de desonra: o haraquiri.

Mas o verdadeiro, o de faca nas tripas. Porque o político ele parece que já tentou.


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domingo, 26 de janeiro de 2014

A FARSA >> Whisner Fraga

Como em toda república, devíamos respeitar as regras aprovadas em assembleia: jamais se envolver com a diarista, não comer o último bife da panela, obedecer os mais antigos de casa, divulgar as festas do dia, não filar as guloseimas do próximo e não apelar com as brincadeiras sacanas dos colegas. É claro que honrávamos uma ou outra, de acordo com o humor do dia, e isso não causava grandes atritos. A norma mais complicada de acatar era a que dizia respeito aos doces alheios.

Íamos para casa: Ituiutaba, Caçapava, Ribeirão Preto, com certa frequência e, como todos sabem, as mães são muito parecidas umas com as outras, mudando apenas, como dizem, de endereço. Também é sabido que elas não gostam de ver seus filhos passarem fome. Assim, nada mais natural que voltássemos de casa com as malas cheias de petiscos.

A questão que surgia nos dias seguintes era angustiante: dividir a lambiscaria com os amigos ou esconder tudo e aproveitar sozinho? Vejam bem: é mais do que uma questão moral, é uma questão de sobrevivência. Como repartir um pote de doce de leite com sete marmanjos? Difícil. Fato é que certa vez o Baiano voltou de Feira de Santana com um punhado de doce de dar inveja a qualquer um.

Cada um tinha seu esconderijo, que ficava, invariavelmente, dentro do guarda-roupa. Como nossa criatividade de futuros engenheiros estava em ebulição, não pensem que isso tornava o segredo algo fácil de ser descoberto. Quando o Baiano chegou com aquele saco de iguarias, ficamos loucos. Até matamos aula para procurar onde é que ele as abrigava. Eu, pelo menos, posso afirmar que não achei o local e, consequentemente, não comi nenhum daqueles doces.

Um dia, Baiano marca uma reunião geral e não divulga a pauta. Começa explicando que o volume da sua sacola diminuíra drasticamente e ele não tinha estômago para comer tanto assim, de modo que a conclusão era óbvia: alguém estava roubando sua comida, o que era uma clara afronta aos princípios norteadores da boa convivência naquela república. Até aí tudo bem, todos éramos caras-de-pau o suficiente para ficarmos quietos e calados.

Só que Baiano não era trouxa, tinha dez anos ou mais de experiência em inúmeras moradias estudantis e não ia deixar a coisa passar barata. Em determinado momento, nos pega de surpresa ao afirmar que sabia quem tinha subtraído seus petiscos. E apontou o dedo para o Gordinho: foi você, seu filho da mãe. Assustado, acuado, Gordinho tenta se explicar: mas eu nem gosto de cocada, como é que pode ter sido eu? Baiano começou a gargalhar: estava contente por ter descoberto o ladrão. Como ninguém entendia o motivo do riso, ele explicou: como é que você sabia que era doce de coco, seu malandro, se nunca disse a vocês o sabor, se não tinha nenhum rótulo no vidro e se eu não tinha dado nem uma colher para ninguém daqui?

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quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

O PODER DA FOFOCA >> Mariana Scherma

Ser jornalista, ter perfil em redes sociais e o simples fato de morar no planeta Terra são os principais fatores que me fazem estar sempre por dentro de algumas notícias de celebridades. Por mais que eu não queira saber, eu sei. Por mais que eu não queira comentar, de repente, solto algumas fofoquinhas e meu pai vem com uma exclamação “como você sabe desses assuntos, né?”. É, pai, eu sei. E eu também sei que ele não fica superorgulhoso desse meu tipo de sabedoria popular, enfim...

Mas vamos à questão. Como jornalista, desconfio de todas as fofocas e também acredito que onde há fumaça pode ter um show de reggae, quer dizer, pode ter fogo, sim. Por isso, quando fizeram todo aquele anúncio sobre o caso Cauã Reymond, Grazi e Isis Valverde, eu desconfiei de que era nada a ver e, depois, achei que tinha tudo a ver. Porque só porta não muda de opinião, né? Quando vi que a minissérie se chamaria Amores Roubados, achei piada pronta. Mas aí suspeitei de um complô pela boa audiência. No fundo, eu sou dessas que vê conspiração em tudo. Adoro, ué. Uma coisa é certa: enquanto não ler uma declaração de um dos envolvidos, vou seguir acreditando e duvidando, mas sem alarde. SEM alarde.

Ufa, cheguei na parte onde eu queria. Desculpa levar dois parágrafos do seu dia pra isso. Mas o que mais me chama a atenção nessas pseudonotícias de celebridade é como o povo ama uma traição. Pra muita gente, ver o circo pegar fogo entre casais é tão bom quando uma final de Copa do Mundo, tipo Brasil X Argentina. E sempre que eu vejo as pessoas eufóricas com essas fofocas, não consigo deixar de me perguntar o que eles ganham com isso. Muita gente vestiu a camisa da Grazi e chamou a Isis de tudo o que é nome feio. O que essa galera ganha com isso? Ainda comparando ao futebol, vestir a camisa do seu time e ser campeão é uma emoção boa, mas no caso de traição (ou não), é uma emoção vazia.

O poder da fofoca é uma coisa incrível mesmo. Também mobiliza multidões, como um esporte, mas, às vezes, tenho a impressão de que sempre rola uma torcida grande pela infelicidade alheia, principalmente se você é bonito e aparece na tevê. Como se isso já fosse sorte o suficiente. Algo como: “tá na Globo? Ah, merece um chifre!”. É por isso que eu admiro artistas que não falam um “a” sobre sua vida privada. Se você gosta do trabalho dele, não precisa saber sobre seus romances, sobre suas preferências no café da manhã... Aprecia o trabalho e pronto, ué. Confesso que fico até mais fã de artistas que não possuem perfil em redes sociais, isso conserva o mistério.

Fofoca é uma coisa louca mesmo. Você sabe, veste uma camisa e sai xingando um dos personagens da fofoca como se fosse um juiz de futebol (não que o juiz mereça os xingamentos). Fofoca dá às pessoas um poder de juiz soberano, todo mundo tem um julgamento pronto pra soltar. Pobre de quem vira alvo. E vamos combinar, pra virar alvo de fofoca não precisa nem ser celebridade.


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quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

PODE NÃO PARECER, MAS ESSA É UMA HISTÓRIA DE AMOR >> Carla Dias >>


Pede que lhe ensine essas coisas, que hoje está com apreço pelo aprendizado amplificado. Insiste para que lhe revele a origem da pergunta certa para a resposta exata com a consequência perfeita. Disseram-lhe que bastava que ficasse aqui, mantendo cabeça e coração abertos, que talvez lhe tirassem essa dúvida, que há tempos tenta descobrir o nascedouro dessa armadilha onde se misturam adjetivos aos quais não credita importância: certo, exato, perfeito?

Parece-lhe certo, mas sem certeza, pedir algo tão importante a alguém tão diferente dele, que sempre foi cuidadoso para não pisar em devaneios, tampouco embarcar neles. Não esperava esbarrar em criatura tão silente, capaz de lhe causar um barulho interno que preferiu chamar de canção. E se admirava, a cada olhar, pela forma gentil com que conduzi as poucas palavras ditas, mesmo quando o tema era dolente.

Vem esbarrando em questionamentos, desde que seus desejos deixaram de definir certezas, que suas escolhas decidiram pela inexatidão e a perfeição da justificativa sobre os sonhos cultivados ficou embaralhada. Fez-se de desinteressado em si, permitindo ser levado pelas decisões alheias. E não tardou até se sentir ocupado somente por dúvidas e esperas.

Disseram-lhe para não duvidar do dito, que havia nela a capacidade indubitável de desvendar abismos particulares. Por isso tentou acessar a tranquilidade quando ela se curvou sobre ele, para lhe assoprar palavras no ouvido: “um pouco de paciência pode aquietar algumas urgências”. Só que o coração desembestou a bater em um aceleramento daqueles que faz uma pessoa pensar que todos estão escutando a batucada.

A forma como se apoiou em seus ombros apenas serviu para agitá-lo ainda mais interiormente. Tentou pensar nas tardes que costumava passar com seus sobrinhos, jogando bola e conversa fora, rindo de bobagens dóceis. Por um instante, abraçou aquela lembrança, emocionou-se com ela. Embarcou na melancolia dos que arquivaram os melhores momentos em um lugar tão escuro de si mesmos, que eles pareciam inventados. Mas só até ela lhe tocar a face, de jeito que pudesse olhar nos olhos dele. Daí o batuque voltou ainda mais cheio de energia, escandaloso na sua alegoria. E ela sorriu, e ele sentiu uma agonizante vergonha, certo de que ela escutara tudo que seu coração dissera.

Nesse tudo, ele sabia que cabiam os dias em que desacreditou, quase que absolutamente, a importância da sua existência. Para que servia um homem que não tinha a habilidade das construções, que se arrastava à sombra da felicidade de outros? Um homem tão certo de que merecia muito da vida, enquanto fazia tão pouco por ela. O centro, o ponto nevrálgico, o absolutismo, a intensidade desmedida estrangulando a leveza.

Disseram-lhe que seria assim, um despertar que reviraria meu dentro. Uma jornada interessante para um homem desinteressado pela vida. Interessante e repleta de nuances, que suas mãos tremem quando ela as segura entre as dela, enquanto entoa uma canção da qual ele não entende uma palavra. Sua voz é miúda e desafinada, ainda assim, evoca a beleza dos que cedem tempo e sorrisos ao outro, ao necessitado de presença e alegria.

Ela conta a ele uma breve história, da qual ele não entende muita coisa, ocupado que está a passear o olhar da boca aos pés nus dela. E sente um prazer inédito ao percebê-la lhe oferecer sabedoria e diligência – o que ele estava ali para receber -, enquanto ele só pensa em como seria se pudesse aninhar seu corpo no dela, em um abraço desancorado do tempo, que poderia durar a tarde toda, esbarrar na noite, atravessar a madrugada, esticar-se pela eternidade.

Imaginar é arte que para ele andava adormecida. Agora desperta, ela faz com que ele sinta, pela primeira vez em muito tempo, que vazio é para ser preenchido, e de preferência com a felicidade.

Se ela conseguiu desvendar seu abismo particular, ele realmente não sabe. Mas com certeza ela saltou nele, voltando à superfície com possibilidades que ele não saberia identificar sozinho. Disseram-lhe que muitos a procuram buscando ajuda para curar seus desesperançados espíritos. O dele ainda carece de remendos, mas ele não se assusta mais com isso. Amanhã ele voltará para escutar o que ela tem a dizer. E mesmo com o olhar indócil, e um tanto deslumbrado com a sinuosidade do amor, agradecerá aos deuses e aos mestres, enquanto a deseja cada vez mais tempo ao seu lado.





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sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

VOU DE TÁXI >> Zoraya Cesar

Ser passageiro de táxi às vezes pode ser a solução; ser motorista, nem sempre. 

TÁXI UM – El Bigodon 

Há fases na vida de uma mulher em que ela se descuida da aparência. Maria Tereza estava deprimida por conta da associação maligna entre uma hérnia de disco extremamente dolorosa (que a obrigava a usar um colar cervical deveras desconfortável), um término de namoro e a conta bancária no vermelho. A última de suas prioridades, no momento, era a vaidade. As olheiras, provocadas pelas noites insones, estavam tão azuis quanto seus olhos; e seus cabelos louros, mechados de impertinentes fios brancos, que, aproveitando-se do estado mental da cabeça que habitavam, nasciam aos magotes.

Dizem que nada está tão ruim que não possa piorar, e que, quanto mais você reza, mais assombração aparece...

Dizem muita coisa por aí, nem todas devem ser levadas a sério.

Pois o fato é que Maria Tereza, impossibilitada de pegar transporte público, só andava de táxi. E eis que, num dia em que estava especialmente mal ajambrada e baixo astral, ela pega um motorista gentil. Conversa vai, conversa vem, o trajeto era longo o suficiente para estabelecer aquela intimidade que só existe entre taxistas e cariocas. E quando ela revela que passaria o Ano Novo sozinha, ele se revolta:

- Por isso não! A senhora, se me permite a audácia, é muito bonita pra ficar sozinha.

Maria Tereza demora alguns segundos para voltar à realidade. Bonita, eu? Com essa aparência lastimável?

Ele continua:

- Olhe, tome meu cartão. Sou  homem direito, não tô na vida de brincadeira não. Eu te pego, levo pra casa dos meus parentes e te trago de volta, no maior respeito. Me dá uma chance.

Maria Tereza saltou do carro felicíssima. Mesmo mal cuidada daquele jeito, havia chamado a atenção de um homem, e que homem! Másculo, decidido, gentil...

Maria Tereza ligou? Não. Porque ele tinha bigodes que lembravam os do Mario Bros, e era policial de profissão, o táxi era complemento de renda. Tem amiga que até hoje não fala com Maria Tereza, de raiva por ela não ter dado uma chance a El Bigodon.

TÁXI DOIS – Terra de homem bom

Agora, vejam como são as coisas. Dizem que homem é artigo em falta no mercado. Mas, repito, nem tudo que dizem por aí deve ser levado a sério.

Pois Fátima e uma de suas amigas pegaram táxi juntas e, assim que se instalaram, começaram a conversar sobre a vida, concordando, ambas, que namorado até dava para arranjar, mas homem de verdade não estava dando sopa. Homem de verdade sendo aquele que cuida da parceira, abre a porta do carro, leva para conhecer a família, paga um cinema, tem pegada (talvez os rapazes não saibam que esse termo se refere a homens que transmitem virilidade e segurança. Se não sabem, aprendam, que já vi mulheres fazendo loucuras por um homem assim, mas isso é outra história. Conto depois).

Esses caras da Zona Sul, da chamada parte nobre da cidade do Rio de Janeiro só querem saber de academia, carro importado, roupa de grife, não sabem mais como tratar uma mulher, queixavam-se.

- Mas você mora na Penha, no subúrbio tem homem bom, não arranja namorado porque não quer - diz Fátima à amiga.

Ao que, para grande surpresa das duas, o taxista se intromete:

- As senhoras me dão licença, mas é isso mesmo, no subúrbio é que tem homem bom. Eu moro em Cascadura e lá a gente gosta de mulher, trata com respeito.

E passou-lhes o cartão, garantindo que, se ligassem, ele apresentaria aos amigos, pegava em casa, levava de volta...

A amiga se virou lá pela Penha mesmo; Fátima tratou de ligar para o rapaz, porque uma oportunidade dessas não aparece todo dia.

TÁXI TRÊS – Na falta de dinheiro...

E chegamos ao último caso, bem diferente dos anteriores. Não há mulheres envolvidas e é melhor tirar as crianças da frente da tela.

Seu Paulo pegou o rapaz no Centro da cidade, final de expediente. Rapaz bem vestido, terno, gravata, pasta. O passageiro deu o endereço e, ao chegarem, pediu que o carro parasse no sopé de um morro bastante conhecido como ponto de tráfico de drogas.

- O senhor me espera, que eu já volto.

Seu Paulo ficou incomodado, o lugar era perigoso, mas como deixar um cliente na mão? A pasta ficara no carro, Deus o livrasse de ser acusado de roubo, não podia largar a pasta no chão e ir embora. Antes, porém,  de chegar a qualquer conclusão, o passageiro voltou.

Voltou ligeiramente alterado pelos efeitos do pó branco, cujos vestígios ainda podiam ser vistos na aba do seu nariz. O taxista nem pergunta coisa alguma, mal ele entra, e Seu Paulo parte correndo para o mesmo ponto onde o pegara. Ao saber o valor da corrida, o passageiro demora um pouco para responder:

- Meu dinheiro acabou, mas o senhor pode ficar com meu corpo, eu sou limpo e gostoso...

Seu Paulo apenas abriu a porta do carro. Há dias fáceis e dias difíceis, a sabedoria da vida está em saber aceitá-los.


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quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

VIDA PERFEITA #SQN >> Fernanda Pinho

Acordou atrasada e poderia ter atribuido à pressa o fato de a saia lápis 38 ter rasgado quando tentou vesti-la. Mas seria injusto com a pressa. Já havia se pesado secretamente e sabia que as festas de fim de ano lhe haviam trazido quatro quilos de volta. Optou por uma calça de cintura alta 40. A primeira que viu pela frente, já que não havia tempo para a escolha. Tudo bem. A calça também fazia um belo par com a blusa amarela de seda que estava usando pela primeira vez. Primeira e última, conforme lhe passou pela cabeça quando, ao chegar no escritório, sentiu o calor do café da mocinha do almoxarifado inundar sua barriga depois de um esbarrão inesperado. Diante do incidente, aceita emprestada de um colega uma camisa branca de malha, sem graça e masculina. Melhor que passar o dia melada de café. Tenta se concentrar no trabalho, mas sabe que não irá render enquanto não fizer aquilo. Vai ao banheiro e liga. Ele demora, mas atende. Ela despeja tudo o que havia ensaiado durante a noite de insônia. E coloca um ponto final. Mais um. Já foram tantos que virou reticências…

Enxuga as lágrimas, retoca o corretivo, passa duas fases no Candy Crush e já é quase hora do almoço. No restaurante de sempre, lembra-se do episódio da saia rasgada e pede uma salada. Come a salada. Lembra-se do episódio do telefonema e pede um prato executivo com picanha, farofa e batata frita. Come a picanha, a farofa e a batata frita. E um brigadeiro, já que foi almoçar sozinha e ninguém viu. Tudo certo. É a primeira vez em que sente alguma satisfação naquele dia.

Consegue até reunir alguma energia para passar a tarde analisando entediantes planilhas no Excel. Com fones de ouvidos devidamente ligados, uma vez que não suporta o ruído que o colega da mesa ao lado faz ao mastigar chicletes.

Antes do happy hour com as amigas, decide encarar a academia. A culpa pela picanha na hora do almoço ainda não foi digerida. Ignora solenemente a existência de alguns aparelhos e resolve que é dia de caminhar na esteira. Correr, só amanhã.

Como era de se esperar, o encontro com as amigas é revigorante. gargalhadas até a terceira dose de tequila que desce junto com as primeiras lágrimas, descumprindo a promessa feita quinze minutos antes de que não choraria mais por ele.

E chorou até a cama, onde encerrou aquele diazinho besta. Ou não tão besta. Ao menos, postou a foto do look do dia feita no elevador, escreveu no Facebook uma indireta em forma de frase atribuída ao Caio Fernando de Abreu, contribui com a imensa coleção do Instagram de fotos de saladas e pessoas na academia, contou pra todo mundo que estava ouvindo U2 durante o expediente, e deu check-in no bar onde esbanjou felicidade com as amigas.  




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quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

BARULHO >> Carla Dias >>


Sempre foi de ficar de longe, percebendo arredores, contemplando gestos que, na correria do diariamente, passavam despercebidos. Ficar de longe, não se enturmar com o acontecimento é praticamente sua profissão, mas também já lhe rendeu apelidos não muito amáveis, que finge não terem lhe ferido da forma tão profunda que o fizeram.

Do que gosta mesmo é de dia de feriado no meio da semana. As pessoas dormem até mais tarde, e a cidade fica vazia por mais tempo que uma quarta-feira comum permitiria. Quarta-feira que é feriado faz com que pule cedinho da cama, para escutar o silêncio em dia de semana que, normalmente, berra buzinas e aforismos.

Foi em uma quarta-feira de feriado que saiu para um passeio às seis horas da manhã. Sabia que teria tempo para um longo passeio, antes que a cidade acordasse de vez e fizesse barulho de feriado. Porém, bem lá no fundo, sabia que queria mesmo era espiar. E assim o fez: ponta dos pés, muita cautela para não ser descoberto, um pouco de força para se segurar na beirada da janela.

Todos na cidade reclamavam da moça, que estava nem aí para eles, e começava seus estudos logo cedo, enquanto eles estavam se preparando para o café da manhã, antes do trabalho, já equilibrando celular e mamadeira de filho, o rádio sintonizado nas notícias sobre situações bem ruins, porque as boas sempre chegam depois. Mas a moça não se importava com a incapacidade deles de amanhecerem mais brandos, como uma quarta-feira de feriado. Todos os dias, ela coloca música e dança por horas, o som aumentando conforme aumentam os barulhos da cidade.

A moça dança bonito, mas o que mais lhe chama a atenção é a capacidade dela de ignorar aqueles que tentam despir sua vontade. Sabe que, em breve, ela estreará no balé da cidade, que muitos já juraram que não irão ao teatro assistir à estreia, de tão bravos com o barulho dela que andam.

Mas o barulho dela é música, embalando uma dança ora suave, ora inquietante. Assim, ele não compreende como as pessoas aguentam os barulhos de telefones tocando, buzinas, falatório de multidão, bronca de chefe, briga em família, entrega de mercadoria em supermercado, campainhas, telejornais e sofrem para aceitar o som, aquele que nada pede, que tudo oferece.

Foi passando pela rua dela, em dia de quarta-feira de feriado, que ele escutou a música e se sentiu curioso sobre de onde ela vinha. Foi assim que, contrariando a importância que dá à privacidade, ficou na ponta dos pés e espiou pela janela. A música se misturou com a imagem da bailarina, da moça que oferecia o melhor barulho para quarta-feira de feriado.

Ele já suspeitava, que como aquele que se mantém distante, é o olhar de fora, a distância que alumia o óbvio. Muitos dos que juraram ausência estavam lá, na estreia da moça que os incomodava com a beleza da música, a mesma que não podia ser identificada por tantos por conta de tanto barulho cotidiano ao qual davam mais atenção. E por quase duas horas, eles silenciaram suas reclamações, dedicando-se – olhar e coração – a admirar a moça no palco. A música no alvo.

Imagem: Torso of a dancer © Edga Degas





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terça-feira, 14 de janeiro de 2014

TEM GLITTER NO CÉU >> Clara Braga

Na noite de ano novo, durante a queima de fogos, ouvi uma menina comentar com alguém da família dela: uau, parece até que o céu está cheio de glitter! Acho muito interessante observar esse poder mágico que as luzes, sejam as dos fogos ou as de natal que enfeitam as cidades, tem sobre as pessoas. Ficam todos encantados, observando cada momento e aplaudindo aquele em que um dos fogos estourou e clareou o céu de uma forma que mais parecia glitter mesmo.

É bem verdade que, como tudo na vida, não dá para generalizar. Tinham uns espertinhos que se aproveitavam desse momento de concentração das pessoas para atirarem cabeções perto delas e assustá-las com aquele barulho horroroso que te deixa um pouco surdo por um tempo. E tem também aqueles que se aproveitam desse mesmo momento para roubarem os pertences dos mais distraídos. Realmente, existe uma parcela um pouco menos sensível que não vai se encantar com o céu e nem com nada, mas a grande maioria, eu garanto, estava com o pensamento bem próximo do da menina.

Acho que esse encantamento de final de ano causado por esse excesso de luz, e por outros fatores também, claro, é que faz as pessoas ficarem mais acreditadas e empolgadas, esperando por mudanças. O que não falta nessa época são pessoas dando dicas de como fazer com que você não esqueça essa vontade de mudança e siga com o foco nas tais resoluções que a grande maioria gosta de fazer. Sei que todos já estão cheios dessas dicas, mas mesmo assim vou arriscar a falar sobre uma que eu aprendi há um tempo, pois acho importante que a gente nunca perca essa vontade de mudar e estar sempre melhorando.

Bom, fui apresentada a essa ideia em um curso sobre planejamento de projetos, que apesar de não tratar sobre projetos da vida, não tem problema a gente adaptar um pouco. É o seguinte, você começa pensando onde gostaria de estar daqui há um tempo estipulado por você mesmo. Por exemplo, onde/como quero estar daqui há dois anos. Digamos que você quer estar trabalhando em uma outra empresa, quer estar morando em um novo local e quer estar pesando menos 8kg. Então você começa a fazer o caminho contrário, ou seja, para conquistar isso em dois anos, onde eu tenho que estar daqui há um ano? E para alcançar esses novos objetivos, onde tenho que estar daqui há seis meses? E daqui há cinco? quatro? três? dois? um? (nossa, parece até uma nova contagem de ano novo) voilá, você encontra quais as suas reais resoluções de ano novo!

Não sei vocês, mas quando me apresentaram essa ideia fiquei com a sensação de que o céu estava cheio de glitter! Parece que seus objetivos ficam mais concretos. Claro, isso se você não se imaginar com menos 10kg daqui há um mês, ai complica. Mas a verdade é que essas dicas nada mais são do que dicas. Cada pessoa tem que encontrar aquilo que funciona para si mesma. Inclusive, não ter resoluções pode ser uma boa resolução. No final, com fogos ou sem fogos, o que importa é manter sempre a sensação de que o céu está cheio de glitter.


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segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

A FILHA DA MÃE >> Albir José Inácio da Silva

Jerusa posa de quem cumpriu o seu papel. Não que tenha se dedicado ou acarinhado a velha, mas tinha representado bem. Isso a deixa confortável, quase alegre, quando a última pá de terra é jogada. Óculos escuros escondem olhos secos, que passeiam pelos presentes a perscrutar-lhes os pensamentos, enquanto a voz simula emoção adequada à ocasião.

Foram doze anos aturando o mau humor e as reprimendas por causa de namorados, porque abandonou a escola e não parava em nenhum emprego. Doze anos ouvindo que gastava demais e não ajudava nos trabalhos da casa. Doze anos escutando ameaças de que tudo seria vendido e o dinheiro entregue a instituições de caridade.

Agora acabou o tormento. Já ia tarde. Dava-lhe nos nervos há tempos aquele monte de ossos entortados, aquela pele rançosa, aquele cheiro de mofo. Dali já avistava a saída do cemitério. Acabava de enterrar seu passado. Era vida nova. Sua vida e seus bens.

Um pouco à frente do cortejo percebeu olhos que a encaravam. Era Tica, a filha da vizinha. Não gostava da garota. No início sua presença na casa tinha até sido bem vinda. Fazia companhia pra velha, deixando Jerusa livre para os bordejos. Mas, com o tempo, passou a ser uma perigosa testemunha de sua impaciência, uma ameaça à imagem de boa filha que, a duras penas, tentava preservar.

Não sabia que tanto tinham para conversar, uma menina de doze anos e uma velha de mais de setenta. Enviando uns rótulos que a velha juntava, Tica inscreveu-a num sorteio anunciado na televisão, e Dona Honorina ganhou um celular. As duas passavam o dia todo mexendo no aparelho. Era um celularzinho vagabundo, mas com essas novidades de hoje: tira fotos, grava voz e faz até ligações. O que mais divertia Dona Honorina era ouvir a própria voz gravada. Dava gostosas e desdentadas gargalhadas.

Agora ali estava Tica com aquele olhar atrevido. Ainda bem que não teria mais de aturar aquela pirralha. Jerusa olhou de novo e viu, ao lado de Tica, a mãe de Tica com o mesmo olhar desafiador. Deu de ombros, não devia nada a elas.

Já via os carros do lado de fora, mas as pessoas andavam devagar. Tinha de acompanhar o cortejo, mas a vontade era de correr logo dali. Lembrou-se de ontem. A velha estava naquele fala, grava, ouve e ri, quando sentiu a dor no peito. Ainda bem que Tica não estava lá.

A SAMU chegou mais depressa do que Jerusa desejara, mas não teve jeito, a velha empacotou. E não havia surpresas, a velha era doente mesmo, era velha mesmo, e não poderia durar muito mesmo.

Envolvida lá com seus planos e pensamentos – a casa valia uma fortuna, havia outros imóveis e ainda ficava livre daquele traste - Jerusa nem se preocupou com aquela porcaria de celular. Tivesse lembrado e impediria Tica de levá-lo, nem que fosse para atormentá-la.

E é o que deveria ter feito. Sentada no sofá, ao lado da mãe, Tica vasculhou o aparelhinho, examinando melhor o que já considerava sua propriedade. Foi então que ouviram a voz sufocada de Dona Honorina: “... o remédio... aquele ali... embaixo da língua... depressa...”. Em seguida, nítida e forte, a sentença de Jerusa: “Não! Chega! Você já tomou remédios demais. É melhor descansar de uma vez, que assim descansamos todos”. E as imagens desse diálogo foram facilmente adivinhadas pela vizinha.

A última vez que Jerusa viu aquela maquininha do inferno foi na cama desarrumada, quando a mãe foi levada para o hospital. Mas agora, sob o pórtico do cemitério, reconheceu o celular na mão do homem que lhe barrou os passos.

“A senhora é a Dona Jerusa? Vire-se, por favor!”


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domingo, 12 de janeiro de 2014

UM OLHO NO AZUL DO MAR. E O OUTRO NA CARTEIRA. >> Sílvia Tibo


Quando o Brasil se candidatou a sediar a Copa do Mundo de 2014, torci muito para que fosse o escolhido, na esperança de que, em razão do compromisso assumido, nossos líderes políticos fossem obrigados a promover melhorias significativas na infraestrutura do país, o que, em médio prazo, repercutiria diretamente na qualidade de vida da população. 

Na minha mente maluca e ingênua, se, ao longo da História, pouco ou quase nada se fez por aqui, agora não restaria ao poder público outra saída. Dessa vez, nem que fosse pra posar de bonito para o mundo, o Brasil, invariavelmente, teria que evoluir. Afinal, pensava eu, país nenhum quer fazer feio num evento dessa estirpe. 

Passados mais de seis anos desde que fomos nomeados anfitriões da Copa de 2014 e a apenas cinco meses de sua abertura, o fato é que quase nada de novo (e proveitoso) se vê por aqui, além da reforma ou construção dos estádios onde ocorrerão as partidas de futebol.

Há poucos dias, na virada do ano, enquanto andava, de férias, por Salvador, dei de cara com a Arena Fonte Nova, que, se nas visitas anteriores à cidade me passou quase despercebida, dessa vez, prendeu toda a minha atenção por alguns minutos. 

O estádio, sem dúvida, está lindo! Finamente reformado, estrategicamente posicionado sob o sol contagiante e esplendoroso da Bahia, a uma distância curtíssima da areira do mar. Prontinho, enfim, para recepcionar, com todo o requinte que se espera, os jogos importantes que ali ocorrerão. 

Mas o turista que, como eu, resolver estender o trajeto pela cidade, indo além da visita à Fonte Nova e chegando até o Centro Histórico, para encher os olhos com o belo artesanato vendido no Mercado Modelo, vai se espantar com a situação de abandono em que se encontra a maior parte dos prédios da região, que é um dos principais pontos turísticos de Salvador. 

Se, não satisfeito, o turista corajoso optar, ainda, por pegar a (desorganizada) fila do Elevador Lacerda, dirigindo-se à Cidade Alta, será, sem dúvida, premiado com uma vista estupenda do mar. Mas, para apreciar a bela paisagem, precisará, de algum modo, cerrar as narinas, a fim de suportar o mau cheiro que exala por todos os lados. E é bom também que mantenha um olho no azul do mar e o outro na carteira, pelo bem de sua saúde financeira. Afinal, o que não faltam por ali são espertinhos de plantão, prontos a atacar gringos distraídos, enquanto os convencem a tirar uma foto com a moça fantasiada de baiana. E quando não os atacam diretamente, avançando sobre seus bolsos, dão um jeitinho de agir de outras formas, triplicando, por exemplo, o preço da água mineral, que, se para um nativo custa dois reais, para o branquelo de olhos azuis e língua enrolada não sai por menos de seis. Extorsão explícita!

Não tenho intenção alguma, aqui, de denegrir a imagem da Bahia, Estado em que, por sinal, passei a maior parte da minha infância. Até porque cenas como essas não acontecem apenas em Salvador. 

O descaso com o patrimônio público, a violência direta ou disfarçada e o desrespeito ao turista são problemas que, em maior ou menor grau, existem em todo o território brasileiro e, inclusive, são noticiados frequentemente em rede nacional. 

Que o Brasil foi agraciado com belezas naturais, sol estonteante na maior parte do ano e gastronomia incrível não é novidade pra ninguém. Mas daí a querer varrer pra debaixo do tapete toda a sujeira que assola o país, passando para o mundo a falsa imagem de que por aqui vivemos bem e felizes, e, ainda, de que estamos aptos a receber o turista com educação e decência, é outra história.  

Pra mim, felicidade rima com dignidade. Que não rima, mas combina com segurança, com escola, com hospital, com metrô, com estradas transitáveis, com o uso adequado do dinheiro público. E não tem nada a ver com suntuosos estádios de futebol, que, em si mesmos, não representam qualquer benefício social.  


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