segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

OS AMORES DA PREPOSIÇÃO >> Albir José Inácio da Silva

Quem vê assim tranquilamente fundidos os “as”, não imagina quanta polêmica essa união já provocou. A preposição sofreu humilhações e vitupérios quando se apaixonou pelo artigo.

O preconceito dizia que era inaceitável esse tipo de relação entre palavras do mesmo gênero. De nada adiantaram os argumentos de que “a” era comum de dois gêneros, assim como Itamar ou Alcione.

O preconceito é cego. Já não viam com bons olhos a fusão entre classes diferentes, mas isso - mesmo sexo - era abominação. Aceitavam que a preposição encontrasse outros termos, mas fundir-se não.

Determinada, a preposição “a” não abriu mão do artigo de mesmo nome e, contra todas as dificuldades, vencendo, inclusive, a timidez do artigo, que não resistiu aos seus encantos, fundiu-se com o amado. Contaram com a conivência de alguém muito sério, e por isso respeitado, o acento grave, que legitimou o “ crasamento”, para desespero dos moralistas.

Resolvida essa questão burocrática, gostaríamos de terminar dizendo que foram felizes para sempre, o que não deixa de ser verdade, mas não de forma tão simples.

Quando tudo parecia apaziguado, a insaciável preposição - desavergonhada, diriam as más e quiçá invejosas línguas - aprontou mais uma, um verdadeiro atentado.

Três pronomes demonstrativos que ela sempre encontrava pelo texto chamaram a atenção da moça: aquele, aquilo e aquela. Além de belíssimos, a inicial “a” dos trigêmeos sugeria-lhe novas e emocionantes fusões.

E confusões. Claro que os guardiães da libido alheia não podiam se conformar. Engoliram o artigo ‘A’, mesmo desconfiados de homoafetividade. Mas poligamia era demais.

A preposição argumentou razões de estética e o desconforto em se dizer, por exemplo, “ele se referiu a aquilo”. Defendeu com unhas e dentes seu novo amor, ou melhor, amores.

Acontece com bigamia e poligamia um fato social muito interessante. Todos se sentem no dever de condenar alto e bom som, em conversas, discursos e leis, o caráter deletério desse comportamento. Mas na surdina, por trás das portas, a meia-boca, sem cartórios e sem proclamas, essa variedade amorosa é até bem tolerada. Diria até bem frequentada.

Ofensas foram atiradas contra a messalina, indignações proclamadas, mas, aos poucos, reconheceu-se, aqui e ali, a irreversibilidade do fenômeno. Mesmo sob protestos, e por influência da fala, que acabava fundindo as palavras, a crase virou regra, que a lei tornou obrigatória.

E todo mundo já sabe e usa corretamente a crase de preposição mais artigo “a” e preposição com pronome demonstrativo, e seus plurais. Ou quase todo mundo. Alguns ainda têm dificuldades.

Não se desesperem, mas fiquem atentos porque, como diz Ferreira Gular, a crase não foi feita para humilhar ninguém.

Talvez escandalizar.


Partilhar

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

AMIGOS COM BLUETOOTH >> Mariana Scherma

Eu nunca sei quando me tornei amiga dos meus amigos. Quando digo amiga, estou me referindo àquela relação de poder ligar a qualquer hora, de pedir um conselho sabendo que você vai ouvir a verdade (goste ou não do que vier) e, principalmente, de sacar o que ele está pensando só no olhar. Aliás, acho esse último item o mais importante numa amizade. É a intimidade que você não consegue forçar, precisa de um tempo de amizade pra existir. Amigos com Bluetooth, sabe?

Fico encanada de não saber quando meus amigos viraram tão essenciais na minha vida porque, oras, tenho bem poucos. Os “amigos” são vários, mas os amigos sem aspas que decifram meus pensamentos só pela covinha ou pelo olhar torto cabem na palma da mão, talvez uma mão especial com mais do que cinco dedos. E eu faço a eles a mesma pergunta sempre: você se lembra de quando a gente virou amigo pra valer? Nunca chegamos a nenhuma conclusão. A gente se lembra de quando se conheceu, de quando achou que seria amigo, mas não aquele momento “virei amiga de verdade do fulano”. Pensando melhor, talvez porque essa sacada não exista. É como aquela frase (sei lá quem é o autor, só sei que não sou eu) “a gente não faz amigos e, sim, reconhece-os”.

Esse momento de virar amigo de alguém acaba sendo abstrato. Pra mim, pode ser quando eu ouvi uma piada besta dele ou dela, que não fez ninguém rir, só eu e meu novo-reconhecido amigo. Já para o meu amigo, eu posso ter entrado pra sua lista seleta quando olhei nos olhos dele e prestei atenção em cada palavra da sua história. O fato é que a gente se vê amigo e pronto. O resto do tempo anterior à amizade vira uma sombra, no maior estilo “por que a gente não se conheceu antes?”.

E o mais legal nesse nível de amizade é que você vira íntima de uma pessoa com todos os “apesar de...” e não “por causa de...”. Meus amigos são-paulinos, palmeirenses e santistas gostam de mim mesmo com o meu lado corintiano fanático que, apesar de ser um baita defeito pra eles, é deixado em segundo plano e vira motivo de piada. E só sendo meu amigo MESMO pra eu relevar uma piada do Timão. Eu, hippie de alma, sou muita amiga de uma galera que precisa pensar na roupa bem antes de sair de casa e que sabe usar delineador e andar em cima do salto 10 com destreza. Amizade forte se constrói com as diferenças. Você entende, aceita, faz piada e fica ainda mais próximo. Se você perde o amigo depois da piada, não adianta: ele não era tão seu amigo assim, vai por mim.

A ideia dessa crônica nasceu depois de algumas cervejas num boteco com alguns dos meus amigos, na véspera das festas de fim de ano, época em que a gente acaba se reunindo mais e comemorando bem mais. Ainda bem que existem esses dias (beijo, Papai Noel!). Nunca entendo por que, na correria do ano, a gente deixa de se reunir ou prefere falar dos problemas a reviver as alegrias. Mas os amigos de verdade estão com você também na hora das reclamações. Quanta sorte a minha (e a sua) de ter amigos que aguentam o tranco da chatice diária! É por isso que prometo, em 2014, sentar mais vezes na mesa do boteco e falar de coisa boa com meus amigos queridos. Taí uma promessa que vou cumprir com gosto e dedicação.


Partilhar

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

PARA COMPARTILHAR >> Carla Dias >>


Um verbo que anda fazendo um sucesso estrondoso é o compartilhar.

Quando pequena, era de praxe ter de compartilhar uma série de coisinhas com as minhas irmãs e irmão, com minhas primas e primos. Aprendemos, assim, que basicamente nada nos pertence, mesmo quando temos certeza da posse. Aliás, certeza é das coisas mais flexíveis que conheço.

Com o passar do tempo, esse compartilhamento se estendeu a outros departamentos: lanche da amiga na hora do recreio, sonhos, roupas da mãe, fofocas da escola, maquiagem da tia, corações partidos, sapatos das irmãs, a vida se tornou praticamente um brechó familiar com direito a sacolé + bate-papo.

Até aí, compartilhar tem a ver com a forma como somos criados, as condições às quais somos submetidos e a pais que compreendem a importância de ensinar aos filhos como se colocar o verbo em prática. A partir do momento em que nos tornamos autossuficientes para assumir a autoria das nossas escolhas, compartilhar se torna bem mais complexo.

Por exemplo, tem gente que adora compartilhar reclamações. Eu sou a favor da reclamação. Há dias em que uma bela sessão de reclamações a um amigo pode funcionar melhor do que várias de terapia. Para mim, reclamar tem função de desopilação. Mas quando vejo que estou passando da reclamação para a autopiedade, finalizo a sessão e vou tomar um café. Compartilhar preocupações e dúvidas não significa que a sua vida é a única com altibaixos, mas sim que alguém que lhe quer bem topou ser seu terapeuta por algumas horas.

Na teoria, compartilhar ganha um toque romântico que, às vezes, sobrepõem-se à importância do feito. Todos nós compartilhamos algo com alguém, isso é fato. Mas então, entra nessa equação a forma como o fazemos, se com o desejo de oferecer ao outro parte da própria boa sorte, ou se apenas para cumprir o dever para aparecer bem na foto publicada nas redes sociais.

Voltando à época em que era criança, lembro-me de que nem sempre compartilhar era fácil. Afinal, que menina quer abrir mão de sua boneca, mesmo enquanto não brinca com ela, para que outra menina se divirta? Com o tempo, isso se tornou fácil, porque aprendi, assim como a criançada companheira da minha infância, que para compartilhar é preciso participar da alegria do outro, o que, se permitirmos, pode nos fazer muito bem.

Como eu disse, compartilhar é um verbo que está na moda, principalmente por conta da sua função nas redes sociais. E o que realmente eu quero dizer, compartilhando essas palavras com vocês, é que ele tem um alcance e importância muito maiores do que a ele creditamos. Sendo assim, tome conta dele, aplique-o -  nas redes sociais e fora delas - de forma legítima, por acreditar no bem que esse compartilhamento possa fazer. Por acreditar no que está compartilhando, seja pelas suas ações ou pelo seu conhecimento, seja pelo desejo de espalhar sabedoria ou de cultivar alguns sorrisos.

Nesse dia, em que celebramos mais do que as compras que conseguimos fazer com bons descontos, compartilhar me parece um verbo perfeito. Use-o com sabedoria, hoje e sempre.

Imagem: sxc.hu

carladias.com



Partilhar

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

FELIZ NATAL! >> Clara Braga

Mal piscamos e chegamos na véspera de natal! Hoje é dia de recebermos e enviarmos diversas mensagens desejando felicidade, prosperidade, alegria e paz à diversas pessoas. Amigos, familiares, namorado, colegas de trabalho, todos recebem nossas mensagens de carinho.

Percebi que em todo esse tempo que escrevo no crônica do dia, dividindo esse espaço com diversas outras pessoas que de alguma forma fazem parte da minha vida, apesar de muitas delas eu nunca ter tido a oportunidade de colocar um rosto nas suas palavras, nunca lhes desejei um feliz natal!

É engraçado, pois quando não conhecemos alguém pessoalmente é difícil dizer que conhecemos essa pessoa de fato. Mas como negar que nos conhecemos através das histórias que compartilhamos aqui semanalmente?

Então hoje, dedico essa crônica para todos os escritores do crônica do dia, que podem não ter um rosto para mim, mas tem alma, palavras doces, pensamentos, questionamentos, histórias, alegrias e tristezas que fazem questão de compartilhar comigo e com todos que passam por aqui diariamente.

Obrigada por me permitirem compartilhar esse espaço com vocês, a todos um natal repleto de alegria!


Partilhar

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

O TIOZINHO DE MARVELS >> André Ferrer

Uma das forças dos Evangelhos é o foco narrativo. Quem contou a vida de Cristo não era apenas contemporâneo do herói, testemunha dos acontecimentos, mas cúmplice. Afirma-se, ainda, que os evangelistas eram homens de posse e cultura limitadas. Com exceção de Lucas, médico, os apóstolos eram gente simples, o que fortalece as narrativas produzidas por alguns deles a respeito do nazareno.

Há infinitas maneiras de contar a mesma história. Por mais fantástica e inacreditável ela seja, sempre haverá um jeito capaz de torná-la convincente e, neste aspecto, o ponto de vista é mesmo decisivo.

Na Literatura e no Cinema, as histórias fantásticas ganham mais força quando contadas a partir de gente honesta e comum. Trata-se de uma velha estratégia. Sua eficiência nunca é menosprezada pelos melhores contadores de história - seja nas páginas dos livros ou nas telas dos Multiplexes. Também nos quadrinhos, a chamada Arte Sequencial, o ponto de vista é imprescindível.


Imagine, então, as aventuras do Tocha Humana e do Capitão América contadas por um homem comum, um fotógrafo caolho, magrinho, pai de família, calvo, chamado Phil Sheldon!

Em Marvels, graphic novel publicada em 1994, o grande barato é seguir este cidadão Manhattan adentro. Vê-lo desviar-se dos destroços, entre arranha-céus, indefeso, simplesmente não tem preço. Sheldon, por sua vez, o tiozinho de Marvels, corre o tempo todo atrás dos heróis ou “maravilhas”, como ele diz, e também dos supervilões. Nem sempre, é claro, o leitor pode assistir aos embates entre o Homem-Aranha e o Duende Verde. Fica-se, então, com os fragmentos e uma estranha noção de inacreditável realidade! Enfim, não é possível enxergar as batalhas como acontece nos outros quadrinhos. Afinal, o leitor se move no tempo e nas limitações humanas de Phil Sheldon. Evidentemente, ambos chegam atrasados. Com muita sorte, avistam a sombra de Namor, o Príncipe Submarino, contra as vidraças do Empire State Building.

Se o roteiro de Kurt Busiek traz toda essa força, o desenho de Alex Ross não deixa por menos. Como a ambientação dos quatro volumes abrange o período de 1939 a 1974, Ross tem um material dos mais interessantes a ser explorado e, sem dúvida alguma, consegue explorar e com muito bom gosto. Para quem é apaixonado por aquele pedaço do século XX, o deleite está garantido enquanto lê e aprecia Marvels.

Quando abri o volume e comecei a ler tive uma grata surpresa. Um dos quadrinhos, logo no início da primeira parte, homenageia o pintor estadunidense Edward Hooper.

Na cena (imagem acima), Sheldon e alguns dos seus colegas jornalistas conversam, à noite, num típico diner. A pintura é Nighthawks (“Falcões da Noite” – assista ao vídeo abaixo), considerada uma das principais obras do artista que viveu entre 1882 e 1967. Mal bati os olhos no quadrinho, reconheci a homenagem. Um livro de contos de Norman Mailer, publicado no Brasil, traz Nighthawks como estampa de capa.


Em 1994, ano de lançamento da graphic novel, li algumas resenhas a respeito, mas não adquiri um só exemplar, importado ou editado no Brasil. Naquele tempo, apesar de me interessar bastante pelo mundo das narrativas e não estar nem aí para o Tetracampeonato, passou batido. Recentemente, adquiri um volume da Editora Salvat (Coleção Marvel Graphic Novels), que traz as quatro partes de Marvels, e pude conhecer essa verdadeira obra-prima dos quadrinhos.

Há muita cultura e História ao redor de Phil Sheldon. Ele é um jornalista à moda antiga, um intelectual comprometido com a qualidade da informação a ser transmitida para a sociedade, um filtro dos movimentos e contrapartidas. Vejo-o na posição de alguém que luta para ser justo em um mundo em transformação. Um planeta em vias de se transformar numa massa de cinzas embaixo dos pés de Galactus ou, pior, prestes a se transformar em um lugar sem heróis, com raros jornalistas que não dão a mínima para celebridades, enfim, a Terra prestes a se tornar o mundo que nós conhecemos.



Partilhar

sábado, 21 de dezembro de 2013

DE MÃOS DADAS COM BATMAN [Ana González]

Ele ia seguro de si. Uma de suas mãos segurava a da mãe. A outra mão colocada na imagem de um morcego, na altura do peito, talvez se certificasse de que ela estava lá porque era parte importante de sua vestimenta especial. Ela parecia estar com pressa e ele, em seus quatro ou cinco anos, a seguia com dificuldade.

Talvez sua mãezinha estivesse com o pensamento em diferentes questões que as dele, que vivia um momento quase solene. Era a primeira vez que colocava a roupa. Seus olhos não enxergavam a realidade, a rua e os passantes apressados, as vitrines cheias de bolas de Natal e enfeites coloridos. Nem percebia os buracos pela calçada e as buzinadas desnecessárias do congestionamento. Nem a poluição ou corrupção se misturando à luz do sol e às nuvens macias. Talvez vissem apenas o que só ele poderia descrever. Ninguém mais. Seria impossível perceber o quê. Naquele momento, ele incorporava seu herói. Batman, sem a máscara. Era o espírito que interessava. E talvez ele não tivesse os detalhes da Gotham City, o ambiente soturno das aventuras, os motivos de seu herói. Não precisava.

A roupa de um super herói o transformara em um deles. Como criança podia se fazer de herói quantas vezes quisesse, da forma que quisesse. Usufruía do ídolo a ser imitado, um modelo com que sua imaginação sonhava. Exercício de plágio inocente. A espontaneidade dessa fase não questionaria verossimilhança ou outros critérios tão presentes na vida adulta.

Depois da infância, aos poucos, vamos perdendo essa capacidade. Ou necessidade. Para que serve um herói? Também a adolescência hoje em dia não comporta mais heróis. Tal panteão foi esvaziado. Não existe mais espaço para grandes gestos e ações generosas. José Junior, coordenador da AfroReggae, disse: “Os heróis de Cazuza morreram de overdose, os meus morreram de tiro”. Tal constatação põe em evidência o contexto em que vivemos.

O pensamento mágico que possibilita o trânsito para o terreno dos deuses e heróis se perdeu, se diluiu. Por onde andam nossos heróis? Às vezes, resistem no cinema. Quem sabe andam encurralados em recantos de um mundo duro que insiste em expulsá-los. Maltratados, alguns até claudicam, outros manquitolam. Porém, só eles podem nos salvar da maldade e da dor. Sua proximidade pode nos resgatar para o sonho e a imaginação de um mundo melhor. Junto deles, somos poderosos. Eles carregam a imagem que suporta nossas faltas e nos ajudam a tolerar a realidade. Para eles transferimos nossas aspirações, mesmo que, muitas vezes, na idade adulta, eles permaneçam escondidos, em alguma dobra de nosso ser.

Nenhuma dessas observações cabe no pensamento de nosso pequeno herói. E talvez, em um momento futuro, no mundo adulto, já sem esse tipo de anseio, seu super-herói terá desaparecido de sua mente ou coração. Não conseguirá mantê-lo como anelo de perfeição a ser mais desejada do que alcançada.

Volto meu olhar para o pequeno vestido a caráter. E ele sequestra minha imaginação. Sem tempo a perder, trazida da memória de minha infância longínqua, reencontro a Mulher Maravilha, que brota desse baú trazendo-me as botas de cano longo, o cinturão que marca o corpo, com as estrelas na tiara da testa e na saia curta. O cabelo curto se transforma em largo ondulado escuro.

Vou libertar essa criança - esse meu Batman preferido - de sua mãezinha para carregá-lo a um passeio. De mãos dadas, saímos voando entre as nuvens e nos perdemos em uma amplidão transparente. Rimos entre as visões das montanhas tão distantes e das estrelas tão mais próximas. Voltamos sem temor ao planeta em que habitamos preparados para a aventura. Temos o poder. Ele tem habilidades especiais e o gesto que salva. Eu alivio com o pó de perlimpimpim os esquecidos, os oprimidos, os doentes de toda a miséria humana. Somos uma dupla imbatível.

Não duvide desse intervalo dentro da realidade. É só uma fresta na vida, outra perspectiva. Coisa rápida, mas indispensável. Curativa. Vestir-se de herói é promessa de mudança. Traz a esperança. Aproveite a ideia. Além do mais, é Natal - e a magia do amor pode até ser encontrada no ar.



Partilhar

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

ESTRANHAS CENAS DE NATAL >> Zoraya Cesar

CENA UM - Estava muito bem vestido, o senhor que entrou na Igreja logo cedo da manhã. A postura ereta, o andar ritmado e o modo de colocar as mãos poderiam levar a pensar que se tratava de um militar, e não estariam errados os que assim concluíssem. 

Aproveito o momento para avisar que este é um caso real, mas, como tudo na vida, acredite apenas se quiser. Não forçamos a nada, você sabe.

Pois bem, entrou, e a primeira impressão nem foi das melhores, a Igreja estava meio escura - ou ele, mais acostumado à luz natural, não estivesse enxergando direito; ou talvez a revolta pelo afastamento, depois de 30 anos como combatente de montanha do Exército também estivesse colaborando para a sua má vontade. Pode parecer bobagem, pois a aposentadoria é o destino dos que estão vivos –mas cada um sabe onde lhe aperta o sapato e não estamos aqui para julgar o nosso amigo, e sim contar o que lhe aconteceu.

Virou-se para ir embora e, nesse movimento, vislumbrou a delicada luz azul que brilhava no fundo da Igreja, quase perto do altar. A curiosidade o levou até o Presépio mais estranho e bonito que já vira.

Em vez de estábulo, o cenário era um quartel, pois todas as figuras masculinas usavam algum tipo de veste militar e carregavam instrumentos de música ou construção (claro que não havia armas, que idéia, a sua!). Encantado, ele chegou mais perto, atraído pela imagem de um dos pastores, o próprio São Judas Tadeu, padroeiro de sua unidade de combate, usando mochila, cajado e uniforme.

Se tudo aquilo não era estranho o suficiente, ele teve a nítida impressão de que as figuras conversavam entre si. A imagem de São Judas voltou-se para ele e cumprimentou-o com a cabeça.

Ele se assustou tanto que quase teve uma síncope; procurou os mecanismos, caixas de som, pilhas ou fios elétricos que explicassem o mistério, mas nada encontrou. Enlouqueci, concluiu. E deve ter concluído certo, pois, em vez de se sair correndo atrás de um psiquiatra – o que qualquer militar sensato faria - sentou-se, para apreciar o pequeno espetáculo que sua loucura proporcionava, aproveitando para conversar com São Judas Tadeu Montanhista.

Conversaram sobre a alegria de fazer resgates em montanhas, a tensão dos combates, a bênção de nunca ter matador outro ser humano e, por fim, ele, que chegara ali tão amargurado, agradeceu por ter sido montanhista uma vida inteira de serviço à pátria e à humanidade (talvez nós não entendamos esse sentimento, mas tenho certeza que militares, socorristas, médicos sem fronteiras, bombeiros entendem perfeitamente).

Agora, o final ainda mais inacreditável dessa história toda, mas se você veio até aqui, fique mais um pouco para saber o que aconteceu. Tão logo ele se levanta, recebe uma ligação do 11º Batalhão de Infantaria de Montanha, informando-o que o Exército vai montar um curso de combatentes de montanha na cidade e o Comando o queria como organizador e instrutor. Ele aceitava?

Deixou uma doação na caixa de ofertas de São Judas, prometendo voltar em breve, e saiu correndo, logo ele, uma pessoa tão contida.

O Velho Padre aproximou-se do Presépio. Que coisa, hein, São Judas, quase mata o coitado de susto. O Santo piscou para ele, hoje é um dia de alegria, não é? E o Menino achou engraçado...

CENA DOIS – Entrar, ela entrou, mas já se perguntando o que estava fazendo ali, desde quando rezar resolve alguma coisa? Envergonhada por ter cedido a um momento de fraqueza, só não saiu porque foi atraída por uma leve luz azul no canto da Igreja.

Era, como vocês já adivinharam, o mesmo Presépio que, algumas horas antes, encantara o militar. Na verdade, não exatamente o mesmo. Talvez o Velho Padre passasse o dia trocando as imagens, pois agora, em vez de um quartel, o cenário era o de um parque, repleto de representações femininas e infantis. 

Cansada e nervosa, a mulher sentou. Não quero essa criança, revelou, não planejada nem desejada, logo agora que recebi uma promoção, não tenho quem me ajude, meu salário não é lá essas coisas, o pai da criança não assumiria nada, enfim, não posso e não quero ter esse filho.

Por todos os anos de vida que lhe seguiram, ela juraria que vira a Mãe e o Menino se moverem em sua direção. Talvez o choque a tenha levado a ouvir Nossa Senhora confidenciar-lhe do susto que levara ao saber que teria um filho, ainda solteira, e naquela época!; do medo, da falta de recursos, da fuga, de todas as dificuldades, e que nunca, nem um momento sequer, ela cogitaria em fazer nada diferente se lhe fosse dada a oportunidade.

Santa Maria deve ter um grande poder de convencimento, pois o fato é que a mulher saiu da Igreja já com o nome da criança escolhido, enviando para a família mensagens de que teria uma novidade para contar na ceia de Natal.

O Velho Padre perguntou à Nossa Senhora se ela contara sobre todas as estripulias que o Menino aprontara quando pequeno, mas Nossa Senhora riu, e saiu correndo atrás de Jesus, que teimava em engatinhar para fora do Presépio.

CENA TRÊS – Durante todo aquele dia, as pessoas saíram da Igreja melhor do que entraram. O Velho Padre trabalhou tanto que a noite chegou sem que ele percebesse e, apesar da idade avançada, sentia-se como um jovem recém-ordenado.

Depois da última Missa fechou as portas da Igreja, e foi preparar a ceia, com a ajuda providencial de Santa Marta, pois ele era um pouco desajeitado. E agora, você, que sabe ser essa vida uma sucessão de fatos estranhos, não vai se surpreender ao ver o templo feericamente iluminado, os Santos andando de um lado para o outro, alvoroçados e felizes, Menino Jesus brincando com o gato preto que vivia na Igreja, enfim, uma festa só.

O Velho Padre, enquanto esperava mais alguns convidados, aproveitou para entabular uma profunda conversa com Santo Agostinho, sobre os prazeres da vida e sobre o fato de ser o Natal  uma festa muito estranha mesmo, na qual é o aniversariante quem dá os presentes.


Partilhar

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

OS EGOCÊNTRICOS >> Fernanda Pinho

Semana passada virou notícia a história de um mestre de obras que lascou cimento nas rodas de um carro que havia sido estacionado em local proibido. Talvez o cara tenha sido um pouco radical, realmente, mas eu achei bem feito. Em uma conversa sobre o assunto defendi com veemência o pedreiro explicando que não suporto gente egocêntrica. E para mim, esse folgado que estacionou o carro na calçada é isso: um egocêntrico que acha que o mundo inteiro precisa se adequar a necessidade dele, e não o contrário.

Depois, numa análise mais racional da minha própria fala, percebi certa leviandade da minha parte ao afirmar que não suporto gente egocêntrica. Se assim fosse, eu estaria isolada numa bolha, com ódio de todas as pessoas (inclusive de mim mesma). Somos todos egocêntricos em diferentes níveis (e aqui preciso deixar claro que estou usando o termo “egocêntrico” sem nenhum compromisso com a psicologia, apenas por falta de termo melhor para definir “pessoa que se acha o centro do universo”).

A pessoa que sempre chega atrasada é egocêntrica. Pois em algum lugar do seu íntimo ela acredita que o mundo inteiro precisa estar à disposição de sua falta de horário. A pessoa que mente compulsivamente é egocêntrica. Afinal de contas acredita que o outro realmente se abalaria com a verdade (e há uma grande possibilidade de o outro estar se lixando). E por falar no outro, as pessoas que estão sempre preocupadas com a opinião alheia, essas que acham que está todo mundo observando seus gestos, suas roupas, suas falas são doentiamente egocêntricas. Combinemos uma coisa: essa entidade chamada “o outro” tem mais o que fazer além de fiscalizar sua existência.

Quem “finge de bobo” é egocêntrico. Pois acha que só ele é esperto. Quem acha que botar defeito é o mesmo que participar é egocêntrico. Pois acredita mesmo que sua opinião é indispensável e precisa ser manifestada, ainda que não acrescente nenhuma contribuição.  O professor que dá um trabalho cabeludo na semana de provas é egocêntrico (e sádico). Não quer dividir o ira dos alunos com mais ninguém.  Quem faz pouco caso do problema alheia, seja ele qual for, é egocêntrico. Se o problema não é meu, não é importante.

Quem não respeita a cultura alheia é egocêntrico (e ignorante). Acredita que existem verdades absolutas que são, claro, aquelas com os quais ele foi acostumado. Quem posta tudo o que faz no Facebook é o egocêntrico moderno. Já pensou que tragédia seria para a humanidade se você não postasse uma foto do seu almoço de hoje? Quem tem sempre um caso mais emocionante para contar ao ouvir absolutamente qualquer história (você diz que foi abduzido por extraterrestres e ele vai dizer que foi abduzido por extraterrestres, mordido por um vampiro e enfeitiçado por uma fada) é um egocêntrico, que, caramba que chatice, acha que a vida é uma competição de contadores de história. Aliás, no geral, quem gosta muito de competir é egocêntrico. Ninguém entra por vontade própria em competições para mostrar que é pior, ora essa.  


Quem estaciona o carro em cima de uma calçada é egocêntrico. E quem detona o cara sem nem procurar saber sobre o que aconteceu, apenas para defender que não suporta gente egocêntrica, não deixa de ser também.  


Partilhar

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

EU QUERIA DIZER NADA, MAS JÁ QUE A VIDA INSISTE... >> Carla Dias >>

Furar pé com prego enferrujado faz chover no fim da tarde de sol. Dizem que sol e chuva é indício de casamento de viúva, mas tenho certeza de que eles se combinam somente quando menino levado da breca fura o pé com prego enferrujado, e mãe coloca pó de café lá, porque crê, assim como costumavam crer os seus pais, que é o melhor jeito de curar ferida do tipo.

Para mim, que sempre fui desconfiada das crendices, pé furado com prego enferrujado pode – e deve! – ser curado somente com sol e chuva. E abraço de pai e mãe.

Um dia, eu furei o joelho com prego enferrujado. Minha mãe até tentou, mas não fui tomar injeção, porque apesar de ela ser adepta das crendices e da alopatia, com a teimosia que me acompanharia pela vida afora, consegui que ela se apegasse mais às benzeduras e ao Merthiolate.

Saí dançando pelas ruas uma canção que acabara de aprender e soava de uma lindeza de aprumar felicidade. Era sexta-feira de manhãzinha, e na noite anterior, eu havia também aprendido a perder pessoa amada, daquelas que não há quem traga de volta em três anos, quiçá em três dias. Em três dias a canção trouxe a mim de volta à vida, o espírito pronto para se enveredar por novos desafios.

Meu avô disse que perder pessoa amada é o preço que se paga por nos jogarmos à vida, permitindo que ela opere seus milagres dentro de nós, e nos faça achegar aos que desejam e merecem nosso afeto. Eu achei o dito bem bonito, mas também de doer. E doeu de estalar algumas vezes durante a minha vida. Se há uma coisa certa, de acertamento dramático, é que ninguém traz de volta quem não quer voltar.

Balanço não é só coisa de balançar, mas também de misturar pensamentos, que quase ficamos de ponta-cabeça, às vezes até giramos feito pião. Em outras: bailarinos. Nossos pés vestidos em chinelos comprados no mercadinho, terceira geração de tiras coloridas, que já passearam pelo campo, caíram no rio, pisaram em pedras. Há muitas histórias que cabem em pares de chinelos. Há clareamento de ideias que acontece durante os passos dados com esses chinelos. E até diversão, há.

Amor silente alimenta abismo entre a verdade e a invenção. Chega uma hora em que tudo se mistura e surge uma terceira coisa: a necessidade de que ele passe. Amor silente se transforma em saudade do desconhecido, do intocado, do mistificado. Alimentá-lo é dar de comer ao desconforto, de um jeito que só deixa de opção...

Antes de resumir amor em uma opção que nem me agrada, calço os meus chinelos com tiras coloridas. Eu queria dizer nada, mas já que a vida insiste - que a tarde é de sol e chuva, que o balanço está vazio, lá no quintal, que a vida também não traz de volta quem nunca partiu -, quebro o silêncio.

E silêncio quebrado abre alas para música, não apenas para confissões.

Disco girando na vitrola em tempos de tecnologia descolada é comportamento vintage de moradora do século XXI. E na vagabundagem desse meu coração acostumado a ver de um tudo, escolher o que bem entende, levar-me para onde for, sigo. Às vezes, silente. Outras vezes, falante.




Partilhar

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

O QUE VOCÊ FARIA? >> Clara Braga

Se você pudesse encontrar um ente querido que faleceu, o que você diria a ele? Já pensou nisso? Eu sempre achei que não conseguiria falar nada, morro de medo dessas coisas de ver gente que já morreu, isso não é comigo. Minha família provavelmente acha isso vergonhoso, já que eu sou espirita, mas todos os espíritos que já tiveram a oportunidade de ouvir uma oração minha sabem muito bem: aparecer para mim jamais!

Outro dia eu sonhei com o meu falecido avô. Um sonho muito bonito, ele estava entre todas as pessoas da minha família, observando a gente conversar. Posso dizer que o sonho trouxe um certo conforto, uma vez que meu avô estava muito bem e muito feliz. É sempre bom quando as pessoas do nosso sonho passam essa tranquilidade de quem está feliz, principalmente quando a pessoa é alguém que a gente ama. Parece até que a pessoa aparece no nosso sonho de forma proposital para avisar que está bem.

Porém, como nem tudo são rosas, no sonho eu era a única da família que via meu avô, justo eu, a medrosa. Então, eu começava a chorar emocionada e falava para todos que ele estava entre nós. Foi só eu falar isso que começou a pressão familiar para eu falar com ele, perguntar algo, dizer algo, qualquer coisa, mas tentar contato.

Com certeza eu não fui a melhor escolha para trocar uma ideia com o vovô. Após pensar muito no que dizer, tudo que saiu foi: "Vô, eu amo muito o senhor, mas, por favor, nunca mais aparece pra mim, tá bom?"

E assim acabou meu diálogo com meu avô onze anos depois dele ter partido. O que não faltou foi tempo pra pensar no que dizer, mas na hora "h", isso foi tudo que saiu… Seria trágico, se não fosse cômico… 


Partilhar

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

CALEM-ME, POR FAVOR! >> Albir José Inácio da Silva

- Sai daqui! O senhor sai daqui, agora! Tira esse homem daqui!


Foram esses gritos que nos deixaram paralisados, e levaram nosso chefe correndo à sala do diretor. O chefe voltou trazendo pelo braço um Domício em estado de choque. Ainda pudemos ver, na porta, o diretor vermelho, agitando os braços e dizendo coisas que não entendíamos – o gringo esquecia completamente a língua portuguesa quando nervoso.


Depois de água com açúcar, Domício foi melhorando numa cadeira e explicou como pôde o acontecido. O chefe complementou porque sabia dos antecedentes ao gabinete. Mais ou menos assim: por umas questões urgentes envolvendo família, cartórios e advogados, Domício precisava ir a Minas Gerais. Seria uma coisa rápida, viajaria naquela mesma noite e estaria de volta na noite seguinte. O chefe disse que não tinha poderes pra dispensá-lo, mas que ele falasse com o diretor, marcasse com a secretária, que o gringo era gente boa.


E lá foi Domício confiante e relaxado pra diretoria. A secretária o anunciou, e ele respondeu ao sorriso da autoridade com um boa tarde, emendando numa fala sem respiração. Enquanto falava o sorriso do outro se fechava, o semblante ia se avermelhando e as sobrancelhas ruivas se juntando:


- É o seguinte “Mister”, eu vim aqui dizer pro senhor que eu tenho um problema urgente pra resolver em Minas e por causa disso eu não posso vir amanhã. Se o senhor quiser pagar o dia, paga, se não quiser, não paga, que eu não vou nem ligar.


Seguiram-se os gritos que deram início a essa história.


Talvez por ser mais amigo de Domício, compreendi logo o significado de seu discurso suicida. A viagem era tão importante pra ele, envolvia tantas pessoas e dinheiro, que o salário de um dia de trabalho era irrelevante, não lhe faria falta. O que ele precisava era da dispensa, da concordância, para ficar bem com os chefes e com a empresa. Queria fazer tudo certinho, o coitado.


Levou muito tempo até que o chefe convencesse o diretor de que Domício era um bom homem, ótimo funcionário, embora pouco hábil com as palavras. Mas logrou êxito, como dizem os policiais, e o diretor voltou a sorrir, inclusive para Domício.


Numa reunião meio técnica, meio motivacional, o diretor falava da importância de se dizer a verdade, de se assumir as responsabilidades no momento mesmo em que as coisas acontecem porque mais cedo ou mais tarde os fatos se revelam. Quando menos se espera, as nuvens se desfazem e trombamos com a realidade. E para provar que falava muito bom português e conhecia as coisas do Brasil, o ianque citou uma notícia do dia anterior em que o jornal revelava a convicção de que Juscelino foi assassinado. “A morte aconteceu em mil novecentos e setenta e seis, há quase quarenta anos”, repetia, corado e espumante, “nada fica encoberto para sempre”.


- E digo mais: qualquer dia saberemos quem foi o assassino do ex-presidente. Portanto, repito, vamos assumir a responsabilidade por nossos atos. É melhor que ser descoberto depois como covarde.


Para encerrar, o diretor pergunta se alguém gostaria de dizer alguma coisa. Domício levanta-se, brandindo a cédula de identidade, olha para o diretor e para os colegas.


- Pois não, Sr. Domício, pode falar.


- Eu só queria dizer que em mil novecentos e setenta e seis eu nem era nascido.


Partilhar

domingo, 15 de dezembro de 2013

QUE PERDURE! >> Sílvia Tibo

Na semana em que o mundo parou para se despedir de Nelson Mandela, a crônica deste domingo não poderia deixar de fazer referência à causa por que ele lutou, tamanha a sua beleza e relevância.

Por diversas vezes já me peguei imaginando a razão pela qual, num dado momento da História, pessoas de pele branca passaram a se considerar superiores às de pele negra e, sob tal convicção, atribuíram-se o direito de instituir normas destinadas a restringir seus direitos, privando-lhes do acesso a serviços públicos como saúde e educação em condições idênticas às oferecidas à população branca.

Há pouco tempo, li a obra de Kathryn Stockett, que, em Português, recebeu o título de “A Resposta”. Meses depois, assisti ao filme “Histórias Cruzadas”, que teve origem no livro.

Para aqueles que, como eu, fazem parte de uma geração de adultos que não assistiu a grandes episódios de segregação racial, como os que se deram durante o regime do Apartheid, entre os anos de 1948 e 1994, a história narrada em “A Resposta” pode parecer mera ficção. Mas o fato é que, embora os personagens ali apresentados sejam fictícios, as cenas criadas pela autora, desenroladas nos idos de 1960, na cidade norte-americana de Jackson, estado do Mississipi, basearam-se em fatos reais, que marcaram uma época de racismo extremo nos Estados Unidos.

É repugnante imaginar que, em plena década de 60, há pouco mais de cinquenta anos, negros não podiam frequentar escolas, bibliotecas, hospitais e supermercados de brancos, única e exclusivamente em razão da cor da pele.

As coisas melhoraram, sim, desde então. Afinal, ao menos já não se editam leis segregacionistas, nem se admite a existência de políticas que promovam, abertamente, a separação racial. Ao contrário, atitudes dessa natureza foram alçadas à condição de crime e, ao menos sob o aspecto formal, são punidas como tal.

Mas não é preciso andar muito por aí para que se dê de cara, ainda hoje, com atitudes meio disfarçadas, mas não menos infundadas, de intolerância e desrespeito, deflagradas através de expressões pejorativas ou de olhares tortos de preconceito e desaprovação.

Para além dos aplausos e reverências prestados à figura de Nelson Mandela, meus votos são de que seu legado permaneça vivo, forte, latente, norteando o comportamento desta e das futuras gerações.  Que ele perdure no tempo, que se faça presente, tanto quanto se fizer toda e qualquer atitude de discriminação.

Partilhar

sábado, 14 de dezembro de 2013

ADVENTO [Maria Rita Lemos]

Já é dezembro. De repente, a gente se dá conta de como o tempo está passando depressa! Seja como for, dezembro sempre traz aquele toque mágico, com o Natal se fazendo anunciar em todas as esquinas, nas lojas, nos olhares. Tudo nos chama à bondade, a trocar cartões desejando boa sorte, boas festas, isso tudo apesar de sabermos que os votos não valem muito além da intenção de quem os envia, do desejo de que todo mundo seja feliz e se dê bem, o que nem sempre acontece, infelizmente. Também enviamos votos pensando em ser politicamente corretos; seja como for, a vontade é grande de nos fazer presente aos ausentes, apartados que estão de nós pelo tempo ou espaço, ou ambos. Queremos dizer aos que amamos, ou aos somente conhecidos, que outro Natal está chegando e que vale a pena compartilhar esse momento outra vez.

Já podemos ver os papais noéis de sempre, nos shoppings, nas portas das lojas, na maioria das vezes cansados, suados, com suas roupas feitas para o inverno, algumas até bem surradas, mas ganhando seu valioso biquinho, complementando a aposentadoria. Acho interessante a variedade de papais noéis que são vistos, nessa época, por toda a cidade. Alguns são sorridentes, bem de acordo com seu personagem, parecem estar gostando muito de seu papel. Outros, no entanto, parecem querer apenas que o Natal chegue bem depressa, para eles tirarem aquela roupa quente e com o dinheirinho extra ainda terem tempo para ver um presente para os netos e um assado para a família almoçar no dia maior da cristandade.

Nas lojas, cheias de gente apressada e mistura de sons, felizmente parece que aposentaram aquelas harpas paraguaias; árvores enfeitadas e luzes, tudo para vender presentes para todos os bolsos, que não se pode esquecer de ninguém, mesmo que estourando o cartão de crédito... Quem há de resistir à tentação daquele celular em oferta, ou do mais moderno celular ou tablet, tentador como uma maçã proibida?

Quando a noite chega, tardia nesse horário de verão, as pessoas saem do trabalho e as ruas parecem explodir de gente carregando pacotes, dos sons das músicas, das cores e cheiros. No formigueiro humano, a cada noite mais compacto e apressado, as pessoas algumas vezes se encontram e seguem em frente, em meio a crianças cansadas, atônitas diante de tantos apelos ao consumo, de tantas possibilidades, a maioria delas impossíveis.

Como todo mundo, eu também tenho gente para presentear, cartões a mandar e receber, compras a fazer, afinal o Natal vem chegando em minha vida, como na de todo mundo. Mas o tempo vai passando, onde poderei estacionar, com esse trânsito tão maluco? Os semáforos parecem enlouquecidos, em meio à chuva fina de verão, amarelo, vermelho, verde, atravessa depressa, menina, senão o sinal abre de novo, não chora porque não adianta, aquele brinquedo é muito caro, se quiser presente escolhe um mais barato... Ah, celular? Ta pensando o que? Você é muito pequena para ganhar celular, bem que o padre falou na missa de domingo, para a gente pensar mais no Menino Jesus e menos no Papai Noel, mas como fazer isso, com a TV berrando que Natal é presente? Quando a noite já vai dando sinais de cansaço, as ruas começam a ficar desertas, e pouco a pouco as lojas vão fechando, com os trabalhadores do comércio partindo para o descanso merecido. As pombas de sempre voltam à gruta, e outro povo começa a aparecer na noite. É a vez das (dos) profissionais do sexo, dos moradores de rua, é o momento deles chegarem e ocuparem os espaços, que o Natal também deveria existir para eles...

Saudade de minha infância, quando papai nos levava à missa do galo, e só depois a gente vinha cear e abrir os pacotes. Meu pai, enquanto viveu nessa terra e em lucidez, sempre foi nosso eterno Noel. . Ele distribuía os pacotes, tudo personalizado carinhosamente, nada muito caro. O melhor é que ele anunciava cada nome, esperando abrir para ouvir as vozes de admiração... e como o admiramos, a vida toda, esse nosso inesquecível pai! Também não faltavam as preces, feitas antes da troca dos presentes, diante do presépio.

Papai fazia a oração e nós cantávamos “Noite Feliz”, rindo sem saber que um dia choraríamos de saudade, enquanto mamãe entrava na sala trazendo solenemente nas mãos o Menino Jesus, que deitava na palha até então vazia, coberta com os papeizinhos onde escrevíamos os sacrifícios feitos no período do advento.

Enfim, o Natal sempre foi, em minha infância e adolescência, um ritual mágico e renovado a cada ano com muitas luzes, cores, muita gente. Com a partida de nossos pais para o andar de cima, cada descendente passou a comemorar com suas respectivas famílias, tentando reproduzir o melhor possível os nossos Natais da infância, trazendo agora, para filhos e netos, aquele espírito de bondade e paz que marcava nossa noite de luz. Apesar da nostalgia, entretanto, a vida continua. O vento do final de noite anuncia a madrugada. Há algo de mágico no ar, algo indefinido, e que só existe nos finais de ano... . A cidade é a nossa, é a mesma, mas ao mesmo tempo é diferente, modificada pela cara e pelo jeito do Natal que vem chegando.

Partilhar

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

O SISTEMA NÃO PERMITE >> Carla Dias >>

Ando apoquentada com tudo o que acaba em desculpas que descambam no sistema. Primeiro, porque me preocupa quando pergunto a alguém sobre algo que requer reflexão, e esse alguém me responde, sem esclarecer, que “o sistema não permite”.

O sistema se tornou um sujeito oculto com poder imensurável. Não assumimos a própria incapacidade de encontrar soluções para questões mais complicadas. Pior, quase sempre não nos damos nem mesmo ao trabalho de tentar encontrá-las. Vamos logo sacando da nova moda, afinal, a culpa é do sistema.

O sistema, que já é sujeito oculto com poder imensurável, também se tornou a desculpa esfarrapada perfeita para pegar consumidor de jeito. Na hora de angariar clientes, as empresas lidam com o ser humano. É um vendedor, sorridente e atencioso, quem o convence que tal produto é perfeito para ele. Na hora dos problemas, o cliente lida com o SAC (Serviço de Atendimento ao Consumidor), e a resposta, em qualquer negociação, esbarra quase o tempo todo em “o sistema não permite”.

Reclamamos, frequentemente, sobre como as coisas, no geral, andam mal. Algumas, realmente, andam nada bem das pernas. Porém, muito do que nos aflige vem desse sistema, esse algo criado e que quase nunca compreendemos. Esse sistema que atende, exclusivamente, aos seus criadores.

Pense assim... Se meu chefe pedisse para eu fazer uma ligação importante para ele, e eu respondesse “o sistema não permite”, antes de me demitir, com certeza ele iria querer saber que sistema seria esse, e qual a serventia do dito. Quando a resposta é apenas essa, “o sistema não permite”, e ao insistirmos em uma explicação sobre do que se trata esse sistema nos é oferecida somente a repetição da resposta, é sinal de que o sistema é falho.

E não vamos nos enganar... A maioria dos sistemas - na diversidade na qual o sistema cabe, principalmente quando se trata do lidar com o ser humano - não cumpre a função de ser engrenagem para um bom funcionamento do que é planejado. Serve apenas como resposta pronta de quem não está preparado ou com vontade de responder adequadamente as perguntas apresentadas. De quem quer estancar dúvidas.

“O sistema não permite” se tornou uma das frases mais irritantes para mim.  Ela soa como “não adianta insistir, você não vai conseguir mais do que ofereço, e não há espaço para negociação”, quando o meu direito é mais. É frase tirana, indigesta.

Permitir é algo a se considerar. Permitir a clareza no lidar com o coletivo, que pessoas sejam tratadas como seres humanos, mesmo depois que números, protocolos, estatísticas, SAC, e por aí vai, entrem no modo no qual cabe um belo “o sistema não permite”.




Partilhar

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

WELCOME TO THE JUNGLE >> Clara Braga

Outro dia assisti a um vídeo no qual canadenses falavam a respeito do que eles sabiam sobre o Brasil. Claro que samba, futebol e mulheres bonitas estavam entre as respostas de uma grande maioria. Quando foram questionados sobre a capital, muitos diziam Rio de Janeiro, outros poucos sabia que era Brasília.

Mas o mais engraçado não eram as respostas dos canadenses, mas sim os comentários dos brasileiros revoltados, dizendo que era muita ignorância deles só falar de samba, futebol e mulher bonita. Mas convenhamos, o que você sabe sobre outros países? Eu confesso que pouco sei, inclusive, espero que canadenses não decidam perguntar o que nós brasileiros sabemos sobre o Canadá, pois eu mesma não sei quase nada.

Sinceramente, acho que o Brasil tem sim muito mais coisas para serem lembradas do que carnaval, mulher bonita e futebol, mas estamos precisando aprender a mostrar essas qualidades. Prefiro mil vezes que os estrangeiros olhem para a gente e lembrem de nós como um país feliz, de pessoas alegres, do que de um bando de vândalos que vão a um estádio, brigam e batem em pessoas até deixarem elas em coma.

Não me envergonha ter um time de futebol que é considerado um dos melhores do mundo, assim como não me envergonho de saber que os estrangeiros admiram as mulheres brasileiras. Agora, me envergonha muito ver diversos jornais pelo mundo noticiando aquela selvageria, sim, foi essa a palavra que eles usaram e que representa exatamente o que aconteceu essa semana.

Lembro que há um tempo a cantora Alanis Morrisette causou polêmica, pois após confirmar que faria shows no Brasil, ela disse que não estava muito animada para vir para cá, pois aqui era uma selva.

Parabéns Alanis, parece que você não estava de todo errada. Se notícias como essa continuarem repercutindo pelo mundo, para a copa nós já podemos colocar faixas nos aeroportos com os dizeres: welcome to the the jungle. Mas claro, faixas padrão fifa!


Partilhar

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

PONTO DE VISTA >> André Ferrer

Nas redes sociais há muitas postagens sobre a nova queda de audiência da poderosa Rede Globo. Acontece todos os anos. É sazonal. Os heróis da resistência e toda sorte de revolucionários fazem a festa porque a emissora é um dos símbolos da dominação. Sendo boato ou verdade, qualquer pista de que as estruturas do império balançam torna-se um grande acontecimento para trotskistas e macrobióticos.

A última onda de êxtase originou-se da queda de audiência no período vespertino. A emissora teria planos de extinguir a clássica Sessão da Tarde.

Tudo isso, no entanto, é impreciso. Alguém já te visitou em casa e instalou um daqueles aparelhos de medição atrás da TV? Cabeça de bacalhau. Quem acredita naqueles números? Anunciante? Publicitário? O IBOPE ainda não se adequou à Era Digital. Outras modalidades de pesquisa praticadas pelo próprio instituto são exemplos de precisão e utilidade pública. No caso da audiência, parece-me que o instituto ainda usa a mesma tecnologia da época das válvulas e do Assis Chateaubriand.

Nas redes sociais, chega a ser irritante a argumentação de alguns macrobióticos (leia, caso prefira, “de alguns trotskistas”). A qualidade caiu ou o povo ficou mais culto e seletivo? Okay, vamos descascar o arroz. Cuidadosa e delicadamente, por favor, para não desperdiçar aquela película milagrosa e quase invisível.

A qualidade caiu. Faz tempo. Agora, mudemos para a segunda hipótese. Aliás, quero crer na segunda hipótese! Na verdade, sou tarado pela segunda hipótese: “O povo ficou mais culto e seletivo”. Quero crer, muitíssimo, ainda que o projeto educacional do PT tenha alguma coisa a ver com isso. Afinal, tirar as pessoas do analfabetismo e colocá-las na posição de analfabetos funcionais já é uma grande coisa.

Tudo bem, escrever o próprio nome muda o ponto de vista de um telespectador. Agora, se ele conseguisse ler e entender os editoriais de todos os principais jornais do país e, dessa leitura distanciada e analítica, pudesse tirar suas próprias conclusões! A educação tem que libertar o cidadão. Países em que não há educação libertadora sequer merecem a classificação de emergente. Países assim chafurdam na lama de uma gerência corrupta e totalitária. Não passam de cativeiros. Qualquer país emergente também possui um exército de novos letrados, uma tropa crítica, uma brigada de livres-pensadores emergindo das trevas.

Dessa vez, tudo começou por causa da Sessão da Tarde. A semana inteira, macrobióticos e trotskistas comemoraram e vomitaram fibras e frases feitas por toda parte. Verdade? Boato? Será que nos horários das novelas e dos programas mais idiotas e vazios da emissora o mesmo também acontece? As pessoas mudam de canal, apertam off, abrem um livro? À tarde, no entanto, ainda é preferível rever filmes como Ghost, Uma linda mulher ou Aquamarine pela milésima vez do que assistir aos programas das outras emissoras. Tirando os cortes, não se consegue interferir no conteúdo dos filmes. O lixo de que se fala está na programação “caseira”, seja do SBT, Band, Record ou da Globo. Sônia Abraão ou Caça Fantasmas? Daí o corte fica por nossa conta.


Partilhar

domingo, 8 de dezembro de 2013

GENOCÍDIO >> Whisner Fraga

Naquela época morávamos, eu e meus dois irmãos, em Uberlândia. Muito tijucano debandava para aquela cidade, fosse para cursar uma universidade, fosse para trabalhar. Hoje não há necessidade dessa emigração, uma vez que Ituiutaba possui excelentes faculdades, particulares e públicas, e até mesmo um instituto federal. Acredito também que as oportunidades de emprego aumentaram com a chegada de novas empresas, o que garante ao cidadão a permanência em sua cidade.

Dividíamos uma casa no bairro Nossa Senhora Aparecida, perto do câmpus da Educação Física, da Universidade Federal de Uberlândia. Tínhamos um amigo, cujo nome não revelarei, mas que atende pelo apelido de "Peixinho", que tinha um Pet Shop na minha querida cidade natal. Penso que seja dono de tal estabelecimento até hoje, pois é um excelente negociante e gosta de bichos. Pois bem, este nosso amigo fazia compras em alguma cidade do estado de São Paulo e passava sempre em Uberlândia para nos visitar. Passava também porque os animais que trazia consigo precisavam descansar do estresse de uma longa viagem.

Ele costumava levar peixes artesanais para vender em sua loja, mas naquele dia aterrissou com um bando de hamsters. O bichinho estava na moda naquele tempo e não havia criança que não queria ter um em casa. Peixinho deixou as três gaiolas na sala e foi jantar com meu irmão mais velho. Meu irmão mais novo, o Weslei, trabalhava no setor de compensação de um banco, de modo que só voltava no final da noite, por volta das cinco da madrugada, de modo que nem desconfiava da presença do nosso amigo em casa.

Como é de hábito para pessoas normais, fomos dormir, eu, meu irmão mais velho e nosso amigo, antes da chegada do meu irmão mais novo. Nesse meio tempo, os hamsters que estavam em uma das três jaulas armaram uma rebelião e conseguiram abrir a porta da cadeia em que se encontravam. Mas ficaram ali em volta, não se deram ao trabalho de uma fuga maior: talvez sentissem medo desse mundo novo e preferissem a segurança do que já conheciam, mesmo que o que conhecessem não lhes agradasse muito.

Imaginem como chega em casa uma criatura após seis horas de trabalho noturno compensando cheques, um trabalho extremamente maçante. Imaginaram? Meu irmão mais novo, zumbi, abre o portão da garagem por volta das cinco e pouco da manhã, com seu fusca amarelo possante acordando toda a vizinhança e, quinze minutos mais tarde, já pode se dar ao luxo de estar na sala de nossa república.

O negócio é que a sala de nossa república estava tomada por um enxame de ramsters e nenhum de nós se deu ao trabalho de avisar o meu irmão mais novo da presença desses visitantes. Ou seja: o zumbi não entende nada do que está acontecendo e se desespera, achando que nosso habitat está sendo invadido por ratos. Ele se arma com uma vassoura e inicia a matança. Peixinho acorda do seu justo sono, talvez intuindo um enorme prejuízo para sua pequena receita, e sai gritando "pelamordedeus não faça isso com meus bichinhos, eu preciso deles, são meu ganha-pão". Mas àquela altura já era tarde.

Partilhar

sábado, 7 de dezembro de 2013

MORRO DO FERRO: a cidade (das memórias) do meu pai [Ana Claudia Vargas]

Porque temos a tendência de olhar para baixo quando estamos no topo? Porque geralmente fazemos isso quando subimos até o último andar de um prédio ou quando alcançamos o topo de uma montanha? Será que olhamos lá para baixo para que confirmemos a nós mesmos que sim, conseguimos? Sim: fomos capazes e por aí afora?

Será?

Pois o meu pai que fará 92 anos em Dezembro tem andado assim: ele fica quase sempre olhando lá para trás ou para baixo - será que o passado seria isso? Algo ‘abaixo’ do presente? - lá para o passado mais distante, aquele que é quase invisível de tão longínquo... E então ele vai contando seus causos: de quando tinha sete anos e gostava de ouvir a avó contando... causos (e a vida não é mesmo um ciclo retorcido, deslumbrante e sempre surpreendente?), de quando o padre da cidade em que nasceu fez com que uma árvore centenária se partisse ao meio porque ficava em frente da igreja e ocultava o esplendor da dita cuja, de quando ele caçava passarinhos pelos campos, despreocupado como a gente só consegue ser na infância (quer dizer em tempos de politicamente correto, nem na infância).

E assim ele vai desfiando nomes de pessoas que já partiram pra cidade dos ‘pés juntos’ (como ele chama o cemitério) há muito tempo. Tanto tempo que ele, um senhor quase centenário, era um menino vivendo nos confins das Gerais. E sim: ele só se lembra de pessoas que se foram quando ele sequer tinha 20 anos de idade e todos vivem nas memórias dele como se fossem os adultos admiráveis que sua visão infantil construía.

Mas do que ele mais se lembra é das paisagens da cidade em que nasceu, um lugarzinho como centenas de outros que existem em Minas. Um distrito de nome meio poético que se chama Morro do Ferro e fica na região sudoeste do estado.

Morro do Ferro: desde criança tenho vontade de conhecer esse lugar de pouco mais de mil moradores, tenho vontade de andar por suas ruas de casas simplórias, subir ladeiras que quase sempre vão dar em igrejinhas pintadas de azul e branco ou não (porque como você sabe, o que há em Minas são igrejas e montanhas e montanhas e igrejas), me sentar nos bancos das pracinhas humildes que contornam essas igrejas... e conversar com o povo que passa por ali – o ‘seu’ Antônio ou a dona Francisca – e saber da vida deles... 

Ter, enfim, aquelas conversas tão interioranas e ingênuas que quase sempre são motivo de ironias para certo tipo de gente que acha que Brasil é só Rio e São Paulo até hoje, em pleno século XXI.

Pois eu penso que deveria descobrir Morro do Ferro a partir desses colóquios que teria com as pessoas que moram lá. Quem sabe assim eu não saberia mais sobre aqueles que já partiram, há muito, há tanto tempo que o meu pai – que como disse fará 92 (!) em Dezembro – era um menino de calças curtas e nunca, mas nunca mesmo, poderia saber que a vida dele seria o que foi e é e está sendo.

Meu pai agora está no alto dessa montanha e ele olha lá para baixo, e ele tenta identificar na vegetação do passado antiquíssimo – que deve ser como aquela massa verde clara ou verde escura que vemos da janela do avião – uma árvore mais familiar; aquele rio que ele atravessou na companhia do João ou do José ou do Antônio... Mas ele só enxerga nuances, imagens desfocadas e por isso (penso) ele precisa falar do que passou e precisa contar o mesmo caso muitas vezes para se certificar de que aquilo não foi invenção.

Sim: é para dizer para si mesmo que aquela viagem, aquele dia naquela fazenda ao pé da Serra dos Alemães, aquela pessoa que foi simpática ou foi rude ou indiferente lá nos dias de sua infância... que tudo isso, enfim, realmente existiu e não é só uma recordação apagada, vaga e sem vida.

Pois é, eu tenho certeza que Morro do Ferro é um lugar diferente, especial e colorido de um jeito suave como são as pinturas de paisagens do século 18 ou as telas do Guignard. Eu sei que lá (como todos os lugares desse mundo) tem problemas*, mas quero imaginá-la somente como um lugar bom de viver, habitada por  gente amigável e sincera que anda pelas ruas, que se cumprimenta e sorri.

É assim que ela existe quando meu pai fala dela, então é assim que ela se mostrou para mim e é desse modo que ela existe na minha imaginação.

* Morro do Ferro não é um sonho róseo, longe disso, com um nome desses só poderia ser uma região rica, claro, em ferro. Acontece que tiraram tanto ferro de suas entranhas que seus campos agora estão cheios de crateras e isso sim, é triste até não mais poder. Se quiser saber mais veja aqui. http://www.dcs.ufla.br/morrodoferro/MPrincipal.htm

·     Agora para ver o lado ‘poético’,  andei colocando  fotos de lá nesse link http://www.flickr.com/photos/geraesdeminas/ (e outras de Minas). Quem quiser ver, será muito bem vindo!


Partilhar

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

BIOGRAFIA NÃO AUTORIZADA >> Zoraya Cesar

Você passa por dezenas, talvez centenas de pessoas diariamente, e tão absorto está com seus próprios pensamentos, seu celular, seu tablet, seu qualquer coisa, que, mesmo que sua vida dependesse disso, você seria incapaz de descrever qualquer uma delas. 

Mas tem uma hora, e sempre tem uma hora, que você relaxa e olha em volta. Nem sempre nota algo que se destaque em meio à infinidade de informações que chegam sem pedir licença. É a televisão no restaurante, barulho de pratos, gente falando alto; são as mensagens que não param de chegar ao telefone; é a agenda eletrônica que não para de piscar avisando compromissos que você sabe que não cumprirá a metade; é o vai-e-vem no ponto de ônibus, onde as pessoas se atropelam umas às outras, tentando entrar antes de todo mundo e ver se pegam um lugar para sentar. 

Ponto de ônibus. Final do expediente. Só agora você, já cansado de processar tanta informação e de receber tanto estímulo sonoro e visual durante o dia, se dá ao luxo de passear os olhos em volta.

E vê os mais variados tipos, em pleno centro da cidade do Rio de Janeiro, universitários, mulheres bem vestidas, mulheres mal vestidas, homens de terno e homens de bermuda, rapazes com jeito de office-boys (ainda se usa esse termo?), e moças com ar exausto. 

Tais moças pareciam todas ter saído da mesma linha de produção de uma fábrica chinesa: os cabelos, mesmo os já naturalmente lisos, haviam sido ainda mais esticados por meio dessas novas técnicas de alisamento que deixam as mulheres permanentemente arrumadas; maquiagem tipo escritório; sobrancelhas marcadas; bolsas grandes, e roupas bem comportadas (variações em cima do mesmo tema, saias ou calças escuras, blusas sociais creme, branco, bege, nenhuma outra cor mais abusada que o rosa claro).
 
No meio dessas mulheres com aparência de bonecas de vinil, uma delas chama a sua atenção, em particular, você não sabe bem por quê. Talvez por ser muito loura, num tom quase branco, de tão claro; talvez pelo jeito delicado e pequenino, que a fazia parecer uma fada de contos infantis; talvez por ser a única a usar saltos altos, demonstrando que ela ainda não havia chegado àquela idade em que as mulheres são sábias, e os deixam no escritório e transitam apenas de saltos baixos, para o melhor conforto. Mas, olhando bem, essa tinha todo o jeito de sentir-se plenamente confortável em cima de saltos a qualquer hora do dia. 

Deixemos então nossa personagem calçar os sapatos que tem vontade e passemos à sua vida. A essa altura, você, com seu incrível senso de observação, tem certeza de que, só de olhar, pode adivinhar, melhor, pode saber, quem ela é, o que faz, qual será seu destino.
 
Sendo tão comuns essas meninas, você conclui que todas as que carregam algum Código de Processo Penal ou Civil na bolsa ou nas mãos teriam mais ou menos a mesma biografia , mesmo a menina com aspecto de fada: estudante de direito, estagiária em um escritório de advocacia, vinda de uma cidade do interior para crescer na cidade grande, papai e mamãe sentiam saudades, ajudavam como podiam a filha exemplar. 

Seu caminho, pensa você, estava traçado no mesmo mapa das outras: ela faria concurso público na área, um dia seria até magistrada, sonhava o pai. Encontraria um bom homem, de carreira militar, de preferência, casariam e me dariam netos, fantasiava a mãe. A moça era boa filha, boa amiga, boa estudante e excelente estagiária. Discreta, avessa a festas, raves, bebedeiras. Quase um modelo de perfeição. E não é que você está de parabéns? Acertou tudo. Teria ganhado o prêmio de mentalista do ano, nao fosse um pequeno detalhe.

Não fosse sua vida real, vida essa que, nem mesmo você, com toda sua imaginação e poder de observação, poderia conceber ao olhar para a pequena fada. Ela jamais faria concurso público, queria mesmo ser uma grande advogada; não encontraria um militar nem muito menos se casaria ou teria filhos com outro homem que não Paulinho. 

Paulinho, seu amado, seu primeiro homem, sua razão de viver. Depois que o conheceu, seus estudos melhoraram tanto e sua eficiência aumentou de tal forma que os sócios do escritório de advocacia no qual estagiava iriam efetivá-la. 

Conheceram-se na praia, único lugar público que ela suportava. Ele se sentiu atraído por sua beleza suave; ela, pelas tatuagens e jeito de bad boy dele. Em menos de um mês já estavam morando juntos, sem os pais dela saberem. Ele tirava um ganho traficando pequenas quantidades de drogas – maconha, crack, ox – e ajudava nas despesas de casa. Tratava-a como uma princesa dentro e fora da cama. Ela criava estratégias para ele vender sem correr riscos e o deixava assistir ao futebol e ao MMA em paz. 

Magistrada? Promotora Pública? Nada disso. A menina com aspecto de fada, loura, delicada, fala mansinha, pretendia ser a melhor advogada criminalista do país, defenderia assassinos, ladrões, corruptos e corruptores, todos os desviados da lei, excetuando os traficantes. Apenas um ela defenderia. Paulinho, seu amor, sua vida, sua biografia não autorizada.



Partilhar