quinta-feira, 28 de novembro de 2013

AS LEIS DO AMIGO-SECRETO >> Mariana Scherma

Adoro brincar de amigo-secreto, na minha opinião essa deve ser uma das melhores coisas da época de fim de ano. Quase digo "obrigada, comércio". Todo ano é a mesma coisa: sempre tento adivinhar quem tirou quem (e principalmente quem me tirou), mas o mais sensacional é ver que as certezas vão por água abaixo já na primeira revelação da noite. Surpresa é a chave de um amigo-secreto divertido. O problema da brincadeira, assim como o problema do mundo, são algumas pessoas. Aquele tipo que entra no grupo sem a mínima vontade de brincar (por que entra, né?). Pensando nisso, listei algumas sugestões pra você, que entrou na brincadeira, seguir. Ou não, ué. Você é quem sabe...

Não participe do amigo-secreto pensando no presente. Quer muito um livro, uma blusa ou qualquer outra coisa? Compre você mesmo. Esperar muito do presente é o tipo de expectativa complicada de criar porque, ora bolas, tem muita gente que guarda perfume fedido que ganhou no amigo-secreto do ano passado esperando essa data pra se desfazer do “presente”. É cruel, mas é verdade. É a tradição da brincadeira e são esses momentos que vão render história até a próxima revelação.

Mande recadinhos. Sei lá se você criou um grupo on-line ou é via pote de bilhetes mesmo. Mas a intenção da brincadeira é brincar (redundância necessária, desculpe aí), se você não tem tempo pra escrever, por que mesmo entrou nessa?

Dar vale-presente é frio demais, é como ir à Sibéria só de biquíni. A impressão que dá é que você estava com preguiça de pensar ou perguntar o que seu amigo queria e foi na opção menos trabalhosa. Vale-presente só é aceitável se: 1. seu amigo pediu ou 2. se o que você comprou não chegou ainda (nesse caso, dê o vale com um chocolate ou um agradinho). Eu já ganhei vale-presente porque minha amiga achou melhor – e ela ainda me deu um valor bem menor do que estipulado. Ok, não estava nessa pelo presente, mas o bom senso mandou um beijo, não acha?

A hora da revelação precisa de uma brincadeira, a não ser que no seu grupo tenha 1.258 pessoas, aí fica meio impossível. A que eu mais gosto é “se meu amigo fosse um país, um sapato, um feriado...”. É ótimo ver como os outros nos veem (bom, eu acho, não sei você). Mas confesso que já participei de amigo-secreto em que a pessoa saiu chateada porque não se considerava o que pensavam que ela era. Da máxima: não sabe brincar, não desce para o play!

Cuidado com as gracinhas via mensagens anônimas. Até porque todos partimos do princípio de que toda brincadeira tem um fundo de verdade. O xaveco ou a “indireta do bem” (ela existe mesmo?) precisa esperar, caso contrário você vai virar o/a mala da brincadeira. Ainda não é o momento de você falar tudo o que pensa de alguém. Deixa isso pra hora da revelação, qualquer coisa que sair errada, tem sempre o álcool pra levar a culpa por você.

Se você quer muito NÃO tirar uma pessoa como seu amigo, repense se vale a pena participar da brincadeira. É que de acordo com as Leis de Murphy (e disso eu entendo!), as chances de você tirar o dito-cujo são de 101%. E aí, ao tirar alguém não desejado, toda a diversão da brincadeira pode acabar pelo ralo. Lembre que é Natal, e o espírito dessa data tem tudo a ver com fingir que gosta de alguém só pelo bem da festa, do vinho e da cerveja!


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quarta-feira, 27 de novembro de 2013

UMA BOA LEMBRANÇA NÃO BASTA >> Carla Dias >>


Uma única lembrança pode embalar dias, e dependendo do poder que ela exerce sobre o individuo que possui, tem efeito de eco, e o vai transformando – situações e sentimentos – aos poucos. Como a lembrança que ele remói neste instante, enquanto equilibra-se em ônibus lotado de hora do rush. Aquela que lhe invade, às vezes para amansar delírios, em outras, para inspirar endoidecimentos.

Só que preciso lhes contar, confessadora de tormento alheio que sou, que ele carrega a lembrança e o esquecimento a tiracolo. Ele acessa lembranças, e as mantém vivas, porque aprecia a própria habilidade de ativar o esquecimento, de desfazer-se delas quando bem entende.

Hoje, por exemplo, ele se esqueceu de que era quarta-feira, dia dele de levar as guloseimas para o café da manhã dos funcionários da agência de empregos onde trabalha. Esqueceu-se por escolha, e completamente, até colocar os pés no escritório, adiantar-se até a copa e os cinco o encararem. E a mágica sempre acontece no momento certo, feito deixa de um ator entregando ao outro o desfecho de uma cena de cinema, digna de Oscar. Ele joga os braços ao ar, se aceita como o culpado que assume a culpa, o que lhe atribui mais um atrativo a ser considerado pelas moças presentes, que não há como não apreciar o fato de ele ser palatável aos olhos, um assediador habilidoso de corações desabitados pelo amor. Então, insinua que irá sair para buscar os artigos de luxo de um café da manhã de escritório: bolos, sanduíches e o que mais eles quiserem. É quando acontece o que mais lhe apraze o espírito: em comum acordo, todos eles o liberam da obrigação. Sacrificam-se pelo seu esquecimento voluntário.

Só que esse é o tipo de prazer que dura pouco, e que por mais pungente que seja, esvai-se justamente quando é necessário. Como agora, quando seu olhar se nega a se encontrar com os dos outros, seus ouvidos não se atêm ao que é dito a sua volta, e ele é tomado pela urgência de não pertencer à própria realidade.

Uma única lembrança, quando alimentada pelo sentimento de que nada mais fará sentido após ela ter sido gerada, pode se tornar o cativeiro emocional de uma pessoa. No caso dele, a lembrança, além de algoz, é inventada, que a vida deu de lhe negar acontecimentos dignos de serem revisitados, de rarear conquistas capazes de fazer a roda girar. E como ele não é pessoa que aceita o vazio, por não tolerar mentiras, fez virar verdade esse único momento não acontecido. Essa lembrança, tão bem pontuada por ações críveis e palavras significativas; essa cena na qual ele pensa, antes de dormir, também é a primeira que habita seus pensamentos, logo que acorda.

Preciso lhes contar, esclarecedora de segredos que sou, que ele se acha muito esperto por ter resolvido seu problema de vazio, e que lembrança como a que teceu – com detalhes tão bem definidos, clareza no desempenho das emoções -, é capaz de alimentar seu dentro, diariamente, em uma repetição que ele ainda não entendeu, mas é letal à felicidade.

Basta-se nessa rotina de espera pelo momento em que se sentará em frente à tevê, mastigando o sanduíche disponível, bebendo da latinha do que tiver: cerveja, refrigerante, suco, energético. Assistirá ao programa qualquer, em canal que não importa, e depois, feito prefácio do adormecer, irá se lembrar da lembrança inventada, que é, de fato, o que há de mais real em sua vida.

Devo lhes contar, confeccionadora de lembranças que sou, que ele não sabe, esse pobre homem no ápice da preguiça de ser, que até mesmo a lembrança não vive só. É preciso criá-las, diariamente, porque sem companhia, essa uma, essa importante lembrança, não passa de uma prisão.

Imagem: sxc.hu

carladias.com



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terça-feira, 26 de novembro de 2013

MAIS REFLEXÕES SOBRE A NOVELA DAS 20H QUE PASSA ÀS 21H >> Clara Braga

Aparentemente eu não era a única incomodada com o fato da novela Amor à vida tentar ser politicamente correta demais. Depois que escrevi a crônica da semana passada, falando sobre os diversos temas polêmicos que a novela tenta abordar, resolvi assistir ao capítulo de ontem, para ver se encontrava mais algum tema proposto pela novela.

Tirando o fato de a cada três cenas as personagens aparecerem lendo um livro que é sempre muito bom de um autor muito interessante que todos deveriam ler, eu levei um susto. A impressão é que eles receberam muitas críticas das pessoas que estavam acostumadas com os barracos da Carminha ou com a Cláudia Raia matando todo mundo com aquela seringa e resolveram dar mais ação pro público e menos "lição de moral".

O casal homossexual que estava adotando uma criança não é mais um casal. Misteriosamente, um deles encontrou a "mulher certa" e, aparentemente, o que todo gay precisa é de uma mulher muito boa de cama para fazer ele se "curar" e se tornar hétero. Já consigo até ver o Feliciano criando o mais novo remédio do mercado: Amarilis, tome e encontre a cura.

Depois teve a gordinha que tinha mostrado para o mundo que não importa se você é ou não gordinha, o que importa é encontrar alguém que te ama do jeito que você é. Com o tempo, o marido dela foi mostrando que não é bem assim, você aceita até casar, depois você insiste para a pessoa fazer uma dieta, critica as comidas que ela come, apoia as dietas malucas que fazem ela parar no hospital e faz ela se sentir a pessoa mais feia do mundo. Resultado disso tudo, lá está a gordinha triste e sozinha, de novo.

Tenho medo do que vai acontecer depois, daqui a pouco a menina autista vai estar trancada dentro de um quarto e o casal de idosos vai tentar ter uma relação sexual e vai acabar enfartando!

Brincadeiras a parte, fiquei realmente impressionada com algumas mudanças. Mas como todos nós sabemos, logo tudo vai voltar ao normal para chegarmos ao tão famoso felizes para sempre. Ou será que estaríamos prestes a presenciar a primeira novela que não tem um final feliz? Acho que não... 


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domingo, 24 de novembro de 2013

SERVIÇO DE RECADOS >> Whisner Fraga

Minha irmã tinha o hábito de sintonizar a Rádio Cancella FM enquanto fazia as tarefas domésticas que nossa mãe terceirizava. Naquele dia, ela estava cismada comigo e acho que queria aprontar alguma. Desse modo, em certo momento, ela gritou meu nome e todos corremos para ver o que acontecia. Parecia tudo muito simples: ela ouvira um recado para mim, que alguma menina da cidade tomara o cuidado de enviar.

Toda a família, em torno daquela afirmação, quis dar sua opinião. É evidente que ela não escutara direito. Como é que podia alguém deixar um recado para mim? Quem é que faria tamanha loucura? E assim por diante. A mais enfática foi mesmo a mãe: Deixa de besteira, para de iludir o menino. Meus pais sempre tomaram o cuidado de minar nossa auto-estima, sob a justificativa de nos tornar fortes para o mundo.

Costumo brincar, e até com certa frequência, que quem me educou foi a escola. Há uma meia verdade nessa lógica. Como eu passava boa parte do dia na casa do meu amigo João Dib, ou na biblioteca, ouso afirmar que bastante de minha educação devo à obrigação familiar e o outro tanto ao meu mundo, que consistia em andanças pelas casas dos amigos e internações em bibliotecas da cidade.

Assim, é fato que minhas notas, somadas a uma certa habilidade com o raciocínio, balancearam a auto-estima, tornando-me, certamente, menos amargo e mais tolerante. No quesito beleza, sempre me achei um fracasso, o que, hoje, não me deixa mais abatido. As espinhas da adolescência sempre me prejudicaram e o fato é que contei com a ironia para minimizar as infindas outras deficiências que detectei ao longo desta curta vida.

Não sei se essa metodologia é uma boa para ser utilizada com os filhos, mas é certo que me dizem com frequência que os limites devem ser postos dentro de casa e que o mundo é um padrasto muito mau. Educar ainda é um mistério e acredito que todos falhamos e falharemos por um bom tempo. Incentivar a ilusão ou mostrar a realidade, sem retoques? Os limites que impomos não podem castrar o ser-humano, visto que dependem de um sentimento moral, de uma época e de uma certa sociedade? Essas questões são apenas o começo do problema. De minha parte, sou sempre a favor do sonho: acho que não faz mal em nenhuma circunstância.

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sábado, 23 de novembro de 2013

A GRANDE DAMA [Ana González]

Quando acordei, depois de duas ou três horas de sono, a realidade parecia um pesadelo. Mas era verdade: ela fora embora deste mundo. Eu não poderia ficar mais tempo na cama, mesmo sabendo que a espera pela chegada de seu corpo seria longa. Minha mãe não desfrutaria da verde paisagem da serra que percorreria até sua última morada.

Olhei a roupa do armário com cuidado. O que vestir? Teria que ser algo escuro, de preferência. Não que eu respeitasse a questão do luto como há tempos se fazia: roupas discretas e reclusão. Isso mudou ao longo das décadas. Na verdade, o luto é principalmente dentro, na intimidade do ser. Assim seria.

Escolhi um conjunto preto de calça comprida e blazer. Fazia frio. Aquela bota de salto pequeno para o conforto dos pés. Não cabia outro adereço. Eu não ia a uma festa. Tratava-se de um ritual triste.

Olhei o espelho: está bom. Embora os olhos não desmintam a presença da morte, ela gostaria de me ver assim, tentando simplesmente ser elegante. Ela sempre me perguntava: “Já preparou a roupa para o jantar de aniversário?” Ou então, “Com que roupa você vai ao casamento?”.

Na verdade, essa sempre foi uma diferença entre muitas outras que nós tivemos que experimentar. Eu, distraída da vaidade, enquanto ela a tinha como elemento constituinte de sua natureza. Cabelos arrumados, pele tratada, unhas com seu desenho harmonioso em tom de goiaba. Mãos de quem não tinha que lavar louça, nem limpar casa. Ao longo da vida, tivera o privilégio de ser assessorada como uma rainha. Assim meu pai gostava de vê-la. E assim ela celebrava as comemorações de aniversário, de jantares ou festas para a família, ou nas situações de hospedagem na casa de campo em que recebia muita gente. Sempre se esmerou em eficiência, em seus movimentos pessoais ou acompanhando as andanças de meu pai.

Era uma linda mulher. A foto de quando ainda era jovem mostrava os cabelos escuros na altura dos ombros e o rosto com pouca pintura. A boca de lábios finos, bem delineada com um batom vermelho, o nariz reto e fino. Uma espanhola delicada. O meio corpo meio de lado, olhando por sobre os ombros. Uma posição de artista de cinema dos anos quarenta.

São muitas as lembranças e imagens que se misturam em minha cabeça cansada. As diferenças que vivêramos não têm significação neste momento. Mesmo os momentos de crise e de dor, de raiva e de exclusão. Tudo irrelevante. Depois, talvez eu possa fazer uma retrospectiva de nossa vida, em um quadro sem mentiras em que se coloquem nossas fraquezas e grandezas. Que eu possa revisitar, então, nossa história de forma generosa, oferecendo-me alguma verdade de nós mesmas.

Pudemos sobreviver aos desencontros. Aconteceu uma janela. Uma oportunidade de nos olharmos através do amor que chegara devagar como as ondas do mar escorregando mansinho pela areia. A massa pesada de água imensurável acabando em espumas brancas na praia. Algo findava e também chegava a um novo lugar. No branco da areia algo se alargava.

Ela foi envelhecendo. E também adoecendo. Enquanto seu desejo de viver não a abandonou, esteve carregando com altivez os anos de sua longa existência. Com saudável amor à vida. Essa talvez tenha sido a maior lição que recebi de sua presença. Amar-se e experimentar a vida com um respeito e intensidade inquebrantável e resistente. Sou muito feliz pela oportunidade de tê-la tido como exemplo, ainda que tal sensação me parecesse tão difícil em tempos atrás. Ela foi uma grande dama.

Hoje este ritual pode ser vivido em paz porque ele tem um significado especial. É com respeito e amor que a acompanho até sua nova casa. Ao final de seu tempo, a ordem se restabeleceu em nosso contato. Refez-se a hierarquia das funções familiares. Tendo-me colocado a seu lado, pude ser filha. Ser filha ao lado minha mãe. De minha velha e linda mãe.



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sexta-feira, 22 de novembro de 2013

PRAGAS >> Zoraya Cesar

Jamais gostei de vizinhos. Barulhentos, chatos, inconvenientes, fofoqueiros; a lista seguiria infindável, se eu não tivesse mais o que fazer. Vizinhos, no entanto, parecem nunca ter mais o que fazer que não tomar conta da vida dos outros. Se pudesse, eliminava todos os meus, um por um. 

Todos, a não ser a velhinha que se mudou para o segundo andar há algumas semanas. Ao contrário dos outros condôminos, ela era suave, gentil, falava baixo e não se metia na vida alheia. Era tão franzina, que dava a impressão de que um vento mais forte, uma palavra menos delicada, um gesto mais brusco poderiam quebrá-la em pedaços irrecobráveis. Fiquei apaixonada, seria a primeira vez que não execrava um vizinho, essa raça de víboras. 

Encontrava-a às vezes, à noite, quando coincidia de eu chegar do trabalho e ela voltar do passeio com o cachorro, um blood hound idoso, cego de um olho e doente. Ela sempre tinha um comentário gentil e interessante e eu me deixava ficar (logo eu, que mal cumprimentava o resto da gentalha) alguns minutos, trocando idéias. Num desses encontros casuais, ela me chamou para tomar chá com bolo. Aceitei na hora. Como recusar? Adoro tudo o que ela tinha a me oferecer: chá, bolo, cachorro e conversa interessante. Mas tinha algo mais, eu sentia isso.

Seu apartamento seria quase ascético, não fossem o vaso de cristal com gérberas, por sinal, minha flor preferida; a almofada do velho cachorro e uma estante repleta de discos e CDs de música clássica, a maioria de Chopin, e algumas outras de Henryk Goregki. E uma urna esquisita perto da janela. 

Para tudo tem uma primeira vez, dizem, e eu, que nunca havia entrado no apartamento de qualquer vizinho, passei a visitar D. Malgorzata Grzeszczaczka uma vez por semana. Seu nome estranho me fez apelidá-la de D. Velhinha, e ela, aceitando de bom grado a brincadeira, me serviu mais um pedaço da torta com sementes de papoula, makoviec, típica de sua terra. D. Velhinha era polonesa, viúva de um crápula violento cujo único gesto de bondade na vida fora morrer de apoplexia fulminante. Ela misturou suas cinzas malditas numa fórmula para matar ratos, baratas e outras pragas, que encontrara no diário de sua avó, perdido dentro de um dos baús guardados na fazenda onde moravam, ainda na Polônia. 

Isso tudo foi me sendo confidenciado aos poucos, durante nossos serões semanais, ao som de Chopin, regados a chá e bolo. No dia do meu aniversário ela me presenteou com um pequeno vidro no qual repousava uma camada fina de um pó quase branco, dizendo em voz baixa: 

- Para o caso de você encontrar pragas no caminho... 

Ri comigo mesma, pensando que dificilmente faria uso de tal presente (não gosto de fazendas e minha casa é imaculadamente limpa), enquanto acariciava os pelos ralos do cachorro.

Que foi, afinal, o pivô de tudo o que se seguiu. 

O síndico, aquele desgramado, filho de uma ratazana, que sempre tentara me conquistar e só recebia desprezo, viu no meu afeto por D. Velhinha uma chance ignóbil, como seu caráter, de vingar-se. E convocou uma assembléia extraordinária para discutir a expulsão de animais do prédio. Minha amiguinha ficou tão estressada quando soube, que caiu doente. Aquele sujeitinho ordinário mexeu com quem não devia. Comigo. 

Foi durante essa reunião que reparei seu o hábito pouco higiênico de molhar o dedo na língua para melhor folhear as páginas do livro de atas do condomínio. Minha mente se desligou de tudo ao redor e começou a divagar, divagar, até encontrar o que, inconscientemente, procurava. 

Ao final da assembleia, sem que nenhuma decisão tivesse sido tomada, pedi-lhe o livro emprestado, comprometendo-me a entregá-lo mais tarde. “Bem mais tarde”, sussurrei dentro daquelas orelhas cabeludas, de modo que só ele ouvisse. O síndico deu um sorriso, confiante que eu cederia às suas investidas em troca de deixar minha D. Velhinha em paz. Homens são mesmo tontos. 

Em casa, polvilhei meu presente de aniversário cuidadosa, meticulosamente, nas pontas das páginas do livro, ainda meio úmidas. E às 11 da noite bati em sua porta - sempre gostei das onze da noite, nunca entendi esse fascínio que as doze badaladas noturnas provocam nas pessoas. Ele abriu, dei-lhe meu mais lindo sorriso e pedi-lhe que me mostrasse alguns artigos da convenção. Como que hipnotizada, a respiração suspensa, fiquei assistindo o ritual: ele molhar o dedo na língua, colocá-lo no canto da página imperceptivelmente cheio do pó anti-pragas, virar a página, colocar o dedo na língua, no canto da página, virar a... 

Depois de algumas folhas viradas, simplesmente dei as costas e fui embora. Nada mais tinha a fazer ali. Alea jacta est.

Dormi o sono dos justos, e somente na noite seguinte, ao chegar em casa, recebei a notícia de que o síndico havia morrido. De apoplexia. Fulminante.

Sou loura, linda e tímida, um conjunto perfeito de atributos para os que acreditam em estereótipos, e me vêem como loura-burra. Sou, portanto, um disfarce perfeito, ninguém desconfia de mim. E, no entanto, tenho doutorado em Física, li O nome da rosa e, decididamente, não gosto de vizinhos. 

Essa foi a primeira vez que dei conta de uma praga. Estou ansiosa, esperando a próxima oportunidade.



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quarta-feira, 20 de novembro de 2013

PARA RESPIRAR >> Carla Dias >>

Tem esse exercício, no qual tento me especializar, mas sem sucesso, e que ainda assim faço, constantemente, teimando mesmo, que é o de encontrar em situações equivocadas, em frases ditas com a intenção de ferir, e na própria violência cometida homeopaticamente, algo que remeta ao bem. Mas não justificando, que justificar se tornou verbinho mal aplicado pra dedéu. Sabe quando um fotógrafo clica uma imagem que registra a tragédia, e ao vê-la nós dizemos, a comoção à flor da pele, “que linda”?

Não se trata de citações de autoajuda, manter pensamento positivo à exaustão, tampouco tem a ver com implantação na alma da certeza torta de que somos melhores que o outro, quando o que podemos realmente esperar é nos tornarmos melhores do que nós mesmos, a cada dia um tantinho.

Esse exercício é dos duros, mas tem me ajudado a não ser injusta com as pessoas, nem comigo mesma. Porque cometemos injustiças, é fato, defeitinho que vem com o pacote da humanidade. Mas o que vem depois, a forma como lidamos com o feito, é que nos define.

Sendo assim, eu posso me sentir muito, mas muito mesmo desapontada com o ser humano, até falando sobre ele como se eu não fizesse parte da raça, sabe como? “O ser humano é fogo! Só faz besteiras!”, coisa do tipo. Posso me sentir extremamente infeliz com o ocorrido. O que não posso, e mesmo quando significa sofrer um tanto por isso, é deixar a injustiça se apossar do meu espírito, como se não houvesse mais saída, ser catequizada pelo “Eu sou fogo! Só faço besteiras!”.

Eu faço besteiras, um monte delas, mas isso não me tira a capacidade de acreditar no “fundo do poço, bato a mão e subo, respiro e volto à luta”. Ando extremamente sensível à falta de educação das pessoas no lidar com o outro no cotidiano. Falta de educação com requintes de preconceito, egoísmo extremista, preguiça concentrada. E, definitivamente, não tenho talento para construir seja o que for - de casa à reputação - à custa de quem não sou, do que não acredito. E sensível, acabo vítima em algumas situações que batem de frente com a minha fé de que há, até mesmo em momentos difíceis, algo de bom no que me agarrar.
Mas a desolação só faz sentido por alguns segundos. Então, eu sigo em busca do que realmente importa.

Eu sei que, talvez, você que decidiu passar por aqui nesta quarta, esperasse encontrar algo que remetesse ao feriado de hoje. Eu nunca fui boa em escrever sobre comemorações de calendário, até mesmo sobre as históricas. Mas posso lhe dizer que eu acredito, e plenamente, que o exercício de ser sem ofender, compreender que é um erro reivindicar direitos que não são devidos, e que não há quem seja o ponto pelo qual orbitam todos os outros seres humanos, nos tornam capazes de bater a mão no fundo do poço e voltar, o que não depende de cor, etnia, política, religião. E espero que, em algum momento, não seja necessário que uma data no calendário nos lembre de que o que nos difere serve para que possamos, com alegria, reconhecer a igualdade.

Bater a mão no fundo do poço, voltar à superfície. Respirar.





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terça-feira, 19 de novembro de 2013

AVALANCHE DE TÓPICOS TRANSVERSAIS >> Clara Braga

Ultimamente tenho lembrado muito das minhas aulas de filosofia da escola. Sempre achei muito interessante estudar filosofia no ensino médio, mas lembro de não gostar da forma como a aula era ministrada. O professor teve uma boa ideia, trabalhar tópicos transversais, mas queria esgotar a discussão sobre o tópico em uma aula de 50 minutos. E ainda assim não usava os 50 minutos todos para discussão. Para discutir tínhamos que fazer uma roda, então eram 10 minutos no início da aula para arrumar a sala, concentrar e começar a falar sobre liberdade, ou aborto, ou gravidez na adolescência, ou drogas, enfim, sempre assuntos polêmicos para adolescentes. Depois, tínhamos os 10 últimos minutos para arrumar a sala toda novamente antes de começar a outra aula. Ou seja, discussão mesmo eram 30 minutos. Quem esgota uma discussão sobre aborto em 30 minutos?

Pra ganhar a atenção dos alunos, o professor aproveitava para comentar alguns casos que apareciam nas novelas. Era só falar daquela menina de Malhação que tinha começado a fumar para o assunto fluir. Aí, conforme íamos ficando mais velhos, fingíamos que não gostávamos mais de Malhação e passávamos a discutir sobre o que era mostrado nas novelas das 20h. E nenhuma novela é melhor do que Amor à Vida para comprovar que novela pode sim tratar de assuntos transversais. Pode, inclusive, tentar tratar de todos eles ao mesmo tempo e quase queimar o HD do nosso cérebro.

Imagino que se meu antigo professor de filosofia ainda estiver lecionando para o ensino médio, esse deve ser o ano mais feliz da vida dele. Ele nunca deve ter tido tanta cena para mostrar e estimular um debate. Só para falar assim de cabeça, só nessa novela ele pode tratar sobre o bullyng contra as gordinhas, pode falar sobre relacionamentos homossexuais, pode falar sobre casais homossexuais que querem adotar uma criança, sobre relacionamento na terceira idade, sobre Judeus e Palestinos, sobre barriga de aluguel, sobre espiritismo, sobre a vida afetiva de pessoas com deficiência, sobre câncer de mama, enfim, esses foram os tópicos que eu consegui lembrar de cabeça e assistindo à novela de vez em quando, mas com certeza tem mais coisa.

Não acho ruim que a globo esteja se esforçando para atingir diversos - e põe diversos nisso - públicos. Mas assim como o meu professor, duvido que eles consigam esgotar tudo que podem falar sobre cada assunto. Cada tópico desses daria uma outra novela! E não adianta dizer que essa novela é puro entretenimento e que a intenção não é gerar debates, nenhuma novela que é puro entretenimento trata de tantas coisas assim ao mesmo tempo. O problema é que quando a gente começa a refletir sobre o fato do César tratar o Félix com abjeção, já temos que correr para a mãe Google e relembrar porque mesmo Judeus e Palestinos são rivais! A verdade é que quando a novela termina todo mundo dá graças à Deus e vai morto para a cama dormir, não tem cérebro que resista a tantas reflexões!


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quinta-feira, 14 de novembro de 2013

COMIDA, AMOR E PAVOR >> Mariana Scherma

Sempre amei comida. Primeiro, porque é gostoso, mata a fome e deixa a gente feliz. Segundo, porque quando é bem-feita, desperta sensações e lembranças que estavam em uma gaveta da memória fechada há tempos. Eu volto a ser criança com cheiro de brigadeiro, só acordo de verdade com o aroma de café e me sinto protegida de qualquer coisa ruim quando o cheiro do feijão da minha mãe invade meu espaço. Isso é poder pra caramba.

Mas agora ando meio broxada (a palavra é feia, mas nenhuma reflete melhor meu estado de espírito) com esse excesso de blogs e matérias em revistas de beleza ensinando jeitos e jeitos de acelerar o metabolismo, o que não comer jamais, dicas pra fazer um detox, quantos trinta litros de água você precisa por dia... Por mais que ame comida, na hora de comer, vou com moderação e alterno as gordices com minhas frutinhas, meus biscoitinhos integrais e meu prato GG de salada (se bobear, até mais amados que um brigadeiro), porque, afinal, adoro comida, mas gosto muito de mim também. Só que sempre fui assim, fui educada desse jeito, nunca precisei de uma blogueira que ama postar suas pernas torneadas no Instagram me dizer o que é certo e o que errado. E também nunca precisei sair redes sociais a fora divulgando isso.

Essa onda fitness me apavora. Bastou uma fulana avisar que toma água com vinagre pra todas aceitarem essa dica como se fosse natural. Nunca soube do poder científico disso. Comida é uma coisa linda, comida não deveria causar pânico na gente, comida é puro amor – não tem nada de maligna. Dá um pouco de dó das pessoas que vivem contando calorias, aliás, como é desagradável gente que faz conta das calorias em voz alta na mesa com os outros – e porque vivem sob uma autoimposição surreal de calorias/dia, acha que você também é assim e olham torto para o seu apetite. O mais irônico é que esses que vivem de dieta são os que mais falam de comida, principalmente de chocolate, pizza e coisas fritas, como se o prazer de falar substituísse a delícia que é comer. Uma verdade: não substituí. Jamais.

Nesse momento em que viver de maçã e chá verde é o que há de descolado, agradeço por ter sido criada pelos meus pais, que gostam de tudo e cozinham tudo. Eu como todos os vegetais do mundo, arroz, feijão, frutas variadas... Até língua de boi eu como. E gosto. Não tenho chatice com alimentação, tenho uma relação de carinho e prazer toda vez que sento pra tomar café, almoçar e jantar. E ao mesmo tempo que acho ridículo ficar divulgando a meio mundo as poucas calorias que você ingere num dia, tenho profunda pena de quem faz isso. Essas pessoas nunca vão ser felizes após um almoço de domingo em família. Será possível alguém ser feliz de fato sem um prato de arroz e feijão ou qualquer outra comidinha caseira, exalando aquele aroma mágico de carinho?

Ser saudável, ok. O problema é vender essa alimentação saudável 28 horas num dia. Tratar a farinha branca, o glúten e a carne vermelha como os maiores vilões do universo. Divulgar o vegetarianismo como a salvação dos nossos dias. Fazer com que o carboidrato simples seja crucificado em praça pública. Será mesmo?! Deram um fim ao equilíbrio? Só vale ser radical agora? Fico cada vez mais com a impressão de que muita gente anda infeliz dentro do próprio corpo, querendo virar uma versão photoshopada de si mesmo. Vai ver os zumbis da realidade são os fitness-enlouquecidos, que olham tudo ao redor com olhos de fome infinita...


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quarta-feira, 13 de novembro de 2013

CONSTRUINDO A FELICIDADE >> Carla Dias >>

Disseram-me que falar sobre a felicidade anda fora de moda, melhor não se meter com esse tema batido! Só que, mesmo em dias em que não sinto a menor inspiração, felicidade me parece um tema no seu frescor. Afinal, não corremos atrás dela o tempo todo?

Não há pergunta mais complicada de se responder do que você é feliz? Primeiro, porque você deve considerar o fato de que felicidade não é uma constante, que ela acontece em doses homeopáticas, abusa dos hiatos, mas também pode se alastrar pela nossa existência. A felicidade sentida em um momento crucial das nossas vidas nos acompanhará sempre. Ainda assim, acredito que a pergunta deveria ser você está feliz?

Estar feliz não é tarefa fácil, mesmo para aquela pessoa, que você acredita, nunca está triste. Ter uma personalidade inspirada na felicidade não significa ser feliz. Definitivamente, nós estamos felizes quando a felicidade acontece. O que podemos fazer é oferecer a ela mais oportunidades para se apresentar.

Chego à conclusão de que muito do que acreditamos ser felicidade necessita de construção, de cuidado. Felicidade não é sinônimo de gratuidade. O que existe são pinceladas dela, as que nos permitem compreender a vida com mais leveza. E para que possamos detectá-las e senti-las, precisamos estar em sintonia com as nossas emoções.

Sabe quando mãe diz que felicidade é ver o filho feliz? Então, o filho diz que felicidade é o videogame preferido, alguns anos depois, é conseguir o emprego almejado, logo adiante, é encontrar o amor que lhe inspire, e por aí vai. Felicidade de mãe é ver filho se tornando uma pessoa com muitos motivos para ter uma vida tranquila, recheada de bons acontecimentos, cercada de bons amigos.

Construção.

Felicidade pode ser considerada tema batido para muitos, mas espero que não para a maioria. É por meio dela que compreendemos a importância da delicadeza, enquanto nos construímos, durante a vida. E a delicadeza é matéria-prima da percepção sobre o que realmente buscamos para nós, sobre o que realmente importa para estarmos felizes.

E você? Está feliz?


FELICIDADE - AS CHICAS




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terça-feira, 12 de novembro de 2013

APENAS UMA OPINIÃO >> Clara Braga

Confesso estar um pouco receosa sobre essa crônica, pode ser uma daquelas crônicas que você escreve e depois as pessoas vão entender de qualquer jeito e você leva a fama de malvada. Mas de qualquer forma, gostaria de compartilhar algumas angustias minhas.

Ontem eu vi um homem fazer a propaganda de um filme que me deixou um pouco pensativa. O filme se chama Blodd Money - Aborto Legalizado, e, segundo algumas sinopses que eu li, mostra fortes situações relacionadas ao aborto nos EUA após 40 anos de legalização. Só o tema em si já é polêmico, quer esquentar uma discussão é só falar de religião, política ou aborto. Mas o que me deixou pensativa foi a forma como o cara fez a propaganda. Ele dizia, de uma forma até um pouco alterada, não só que todos deveriam assistir ao filme, como também deveriam divulgar o filme e convidar pessoas para assistirem, pois só assim nós estaríamos revelando a realidade sobre o aborto e poderíamos, então, lutar pela vida dessas crianças que estão para nascer e acabam tendo suas vidas interrompidas. 

Esse comentário dele me fez lembrar de um texto que eu li e de um comentário que uma amiga minha fez sobre a situação dos ativistas que invadiram o laboratório para libertarem os beagles. Eu não sou a favor do teste em animais, também gostaria que esses testes fossem realizados de uma outra forma, mas querendo ou não, existem os testes fúteis e existem os testes que podem salvar vidas de pessoas. Bem como existem pessoas que são contra os testes, mas que precisam trabalhar com isso para sustentarem suas famílias.

Bom, enfim, antes que alguém comece a pensar que eu sou a favor do teste em animais, vou direto ao ponto que interessa. Se estamos nos tornando, finalmente, tão ativos para reclamar, lutar pelos nossos direitos, expor situações ilegais, clamar pelo fim da corrupção, insistir no direito dos animais, abrir os olhos do mundo para a situação da diversidade, entre outras coisas, não seria a hora de olharmos uns para os outros e lutarmos também pelas pessoas que estão vivas e que passam por situações absurdas de miséria, de falta de informação, de fome e diversas outras situações?

Se vamos ser humanos para lutarmos pelos animais, porque não podemos ser humanos para ajudarmos as pessoas que, agora, estão sem seus empregos e passando por situações financeiras difíceis? Se vamos lutar para que os beagles possam viver em paz, porque não podemos protestar para que exista um financiamento para pesquisas que desenvolvam outras formas de se fazer testes que não usem animais, seja esse animal um beagle ou um rato, não interessa! Se vamos lutar contra o aborto, pois já chega de interromper a vida de crianças que estão para nascer, porque não separamos um pouco do nosso dinheiro ou um pouco dos nossos pertences que nem usamos mais para doarmos a uma família que optou por não fazer o aborto, mas que agora está dando uma vida de miséria para aquela criança? Se vamos ser a favor da diversidade, porque não cuidamos de certas atitudes nossas que as vezes, até inconscientemente, são um pouco preconceituosas?

Sei que é polêmico e sei que agora muitas pessoas podem estar querendo me matar, mas acredito que toda história tem mais de um lado, e quando lutamos por algo temos que estar cientes de tudo que envolve esse nosso ato. Por isso, mais uma vez, faço questão de dizer que não disse em nenhum momento que sou a favor dos testes em animais ou a favor do aborto! O que estou dizendo é que as vezes acho que somos muito humanos para muitas coisas, mas pouco humanos com o humano ao nosso lado.


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domingo, 10 de novembro de 2013

CADA COISA COM SUA GRAÇA >> Sílvia Tibo


Andava à espera da nova coletânea de crônicas de Martha Medeiros, de quem sou fã, mais do que de carteirinha.

Correndo os olhos pelas estantes da livraria, antes mesmo de abrir o livro, me encantei com a originalidade e sutileza do título que lhe foi dado: "A Graça da Coisa".

Na capa, onde predominam tons de preto, cinza e branco, um detalhe colorido chama a atenção, na intenção de mostrar ao futuro leitor, logo de cara, que há sempre alguma graça nessa coisa maluca que chamamos de vida, por mais nebulosos que pareçam os caminhos pelos quais ela nos leva.

A obra de Martha me lembrou o “jogo do contente” sempre presente nas histórias de Pollyanna, clássico da literatura infanto-juvenil publicado originalmente em 1913 e que li tantas vezes quando criança. 

Aliás, crianças, em geral, são ótimas na tarefa de achar a tal graça da coisa. Ao contrário de nós, adultos, que arrumamos sempre um jeitinho de complicar a vida, reclamando do que somos e do que não somos, do que temos e do que não temos. 

Quem não tem carro, reclama por ter que andar de ônibus. E quem tem, reclama por perder horas no trânsito. 

Quem mora de aluguel, reclama por não ter casa própria. E quando finalmente compra o primeiro apartamento, em pouco tempo, passa a achá-lo pequeno e a sonhar, então, com uma casa grande, com direito a quintal e piscina. 

Quem não tem trabalho, reclama por estar desempregado. E quando consegue a desejada vaga de emprego, diz que trabalha muito e que o chefe é chato. 

Com o tempo, reclamar vira hábito. E daí para se tornar vício é um pulo. E vício, como se sabe, é um negócio difícil de curar, sobretudo quando não se tem consciência dele, caso em que nem o melhor dos tratamentos é capaz de fazer efeito. 

Para queixosos crônicos, não há remédio melhor do que passar a enxergar, em doses diárias e progressivas, a graça da coisa, desapegando-se de atitudes e visões negativas, na certeza de que cada coisa, por pior que pareça, tem sua graça. 



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sábado, 9 de novembro de 2013

RAROS PRAZERES [Sandra Paes]

Nessa manhã sou sacudida por raios e trovões. Havia um arrastar de pedras e torrentes de águas pesadas arrastavam tudo. Uma dor de cabeça rara se iniciou bem no centro do cranio. O redemoinho do furacão era lá. Um epicentro único a refazer todas as memórias e todos os recantos de uma cabeça, já nem sei mais de que cor.

Sim, gosto das tempestades. A força da natureza ali manifestada dessa forma sempre me acorda e me faz lembrar minha própria natureza, presa, contida em um corpo que parece limitar meu espirito que gosta de voar e navegar em tantas paisagens jamais vistas.

Ah, o descortinar do invisível, do intangível, o ousar tocar... Isso... A busca fremente do desconhecido, é da ordem da fé ou do que se chama de divino.

A vida ali oculta me chama, hoje - sempre... Acho que flerto com a morte porque ela, guardiã de portais de transições, vem brincar comigo. Vira meus sonhos de perna pro ar, me mostra fatos ainda por vir, e sussurra docemente em meu ouvido cada vez que leva alguém consigo pra esse outro mundo, do outro lado de outros horizontes.

Sim, tudo alem do alcance da vista comum, ocupada por papeis ridículos, documentos que nada documentam, e toda essa forja nada plutônica que a burocracia do mundo ainda insiste em sustentar como regra maior de convívio entre os homens e suas culturas.

Procuro pelo abraço longo e estreito, o colar de corações que ardem e clamam por mais.Anseio pelo sorriso inevitável  mostrado em encontros de tão longa data esperados. Quero todos os brindes com vinho e champanhe no dia a dia, porque guardam sempre  um sabor a mais do que o cotidiano trivial e desculpado pela falta de tempo. 

Todo tempo é meu, todo beijo é sempre seu, porque sela de forma especial o amor que nem reconhecemos. Sim, porque amor não se encontra, se reconhece. E isso é o maior de todos os prazeres - reconhecer o amor, que como a morte, brinca de viver com você  comigo, e nos testa na ousadia maior da vida: pegá-los!

Essa tempestade que se anunciou  pra mim,  pra mim mesmo ou para aqueles que a desejam tanto, se deu somente dentro de mim, no mundo de meu sentir.

Há lá fora um sol que brilha aquém das nuvens que ocultam os mistérios que em mim querem se fazer nus. Há o mesmo corredor entre as portas. O mesmo ar soprando pelas ventanas do teto. Há um instante de sei-la-o-que, silencioso como o olho do furacão que se revela poderoso  pra quem o contempla sem medo.

E isso é o que me fascina, sempre. Esse instante mudo onde tudo se passa e onde todas as moléculas se cruzam a fecundar outra galáxia. Não tenho dúvidas sobre a sexualidade cósmica. É a mesma que se passa dentro de ventres férteis. A vida se renova a cada tempestade prenunciada, e seu jorro é orgásmico e orgânicoNova vida se anuncia e fui avisada. E agora ?

Em nosso céu la nave vaEspera... A bonança está pra chegar em breve. Prazeres raros sempre se dão entre raios que até se passam entre neurônios que nem sabem o que fazem. Esse o mistério do viver: muito prazer! Encantada!


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sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O JOGO >> Zoraya Cesar

A cidade estava cheia. Turistas de diversos lugares vieram apreciar a beleza outonal que a fizera famosa e também acompanhar as últimas etapas do torneio de xadrez que a movimentava desde algumas semanas. O dia estava cinzento e um tanto nublado, embaçando a claridade da tarde que caía lentamente, trazendo consigo uma aragem fria e úmida, prenúncio certo de que a temperatura iria abaixar dali para noite.

Ainda bem que viera agasalhado, pensou ele. Devia estar chegando aos 30, aquela idade em que os homens ainda são jovens o bastante para serem audazes, e já maduros o suficiente para serem cautelosos. Era quase bonito, os cabelos pretos, o porte atlético, o ar juvenil. Apenas os olhos eram um pouco estranhos, opacos, e estavam em constante movimento. No mais, não tinha qualquer característica singular, passava despercebido; e não chamar a atenção sobre si mesmo era muito importante em seu ofício.

Caminhando em direção a uma mulher de longos cabelos louros desmazelados, encostada na amurada do lago, o homem divagava, fechando o zíper de seu casaco. Mais uma da espécie Feminae horribilis; porque sempre me colocam para trabalhar com mulheres que parecem hippies da década de 60 que esqueceram de tomar banho? Seguia com esses pensamentos, aplicando um dos métodos de relaxamento que lhe ensinaram no segundo ano do curso. Seus movimentos eram casuais e despreocupados, totalmente naturais. Diminuiu o passo ao chegar mais perto da moça, encostou-se na amurada e despendeu alguns segundos para admirar a paisagem, lembrando de seu professor, que dizia serem os ocidentais muito apressados. Aproveitem, dizia durante as aulas, para apreciar o entorno enquanto reconhecem o terreno, de que adianta percorrer o mundo sem admirar sua beleza? E sorria, fazendo aparecer tantas rugas ao redor de seus pequenos olhos amendoados que sua face redonda mais parecia um pergaminho velho e molhado.

Dirigiu à mulher uma frase banal, à qual ela respondeu com a senha correta. Num átimo, cessaram as divagações, toda sua concentração estava focada na tarefa a ser realizada. As técnicas tinham funcionado. E ele sabia que, enquanto seguisse os procedimentos, maiores suas chances de viver, e, um dia, sair do trabalho de campo para também dar aulas, como o velho professor chinês, mestre dos assassinos.

O casal começou a conversar, animados, sorridentes, ele brincando com os cabelos dela, dando instruções simples e checando se ela tinha entendido o que deveria fazer. Ninguém podia ouvi-los, mas quem os visse poderia jurar, de pés juntos, que eram amigos de longa data, quase namorados, passeando inocentemente. A maioria de nós, pelo menos, pensaria isso.

A poucos passos de distância, vários turistas escolhiam suvenires no quiosque em frente, entre eles um homem de meia idade, que parecia indeciso entre comprar um ímã de geladeira ou um pôster da cidade. Misturado à pequena multidão barulhenta, ele notou que a mulher parecia muito tensa, o sorriso forçado, mais parecendo um esgar; e que seu parceiro, embora carinhoso, olhava para tudo ao redor, sem se fixar nela. O olhar do rapaz parou por alguns breves e quase imperceptíveis instantes no homem, que, imediatamente, comentou algo com uma turista ao seu lado que a fez rir. Os olhos continuaram seu percurso, e o homem sentiu um frio na espinha. Aquele um, pensou, pelo jeito de andar e proceder, era bastante perigoso. A Agência costumava treiná-los desde cedo e os professores não brincavam em serviço. Vai ver ele até recebeu aulas do lendário professor chinês.

E a moça? Seria novata ou inocente útil? Inocente útil, concluiu. Assassinato não era para calouros, eles não arriscariam um agente em treinamento. Assim que ela cumprisse o acordado – o que teriam prometido dessa vez? Dinheiro? Tirar a família da uma vila pobre dominada pelas milícias de traficantes? Drogas? Uma carreira na Agência? – ela sofreria algum tipo de acidente fatal. Uma peça descartável, como os peões do jogo de xadrez.

Enquanto comprava algumas bugigangas, o homem pensava na ironia da situação. É senso comum que enxadristas são pessoas calmas, alheias às vicissitudes do mundo, concentrados unicamente nas jogadas que os levariam à vitória. Ledo engano. O xadrez é um jogo de guerra, e seus combatentes são seres ferozes, cuja vaidade pode levá-los a extremos de conduta. O mundo do xadrez profissional era tão violento quanto o mundo empresarial, e espionagem, sabotagens, guerra psicológica, tudo era válido para ganhar o troféu da vitória, a admiração do público, a inveja dos demais jogadores. E o prêmio em dinheiro. Tudo era válido. Até morte por encomenda.

O rapaz falou mais algumas coisas com a mulher e partiu lentamente, as mãos nos bolsos da calça, sem que ninguém mais lhe prestasse atenção. Profissional.

O homem tinha poucos segundos para decidir a quem seguiria. Considerou a periculosidade do jovem, que, possivelmente, já o notara ali no quiosque. Considerou que a moça era o elo mais fraco do esquema e que deveria saber pouca coisa de interesse. Mas, ainda assim, peões fazem parte do jogo, pensou.

Além de treinar assassinos, meu professor preferido escolhia alguns poucos alunos e lhes dava, graciosamente, aulas de estratégia – para seu prazer intelectual, dizia. Eu também tive aulas com o velho Chang, o Excelente, meu rapaz, e tenho muitos anos mais de experiência que você.

E seguiu a mulher. 


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quarta-feira, 6 de novembro de 2013

A PERCEPÇÃO E SUAS PORTAS >> Carla Dias >>


"Vivemos, agimos e reagimos uns com os outros;
mas sempre, e sob quaisquer circunstâncias,
existimos a sós."

Aldous Huxley


Na segunda passada, assisti ao Roda Viva, na TV Cultura, com o psiquiatra Valentim Gentil Filho, e achei a entrevista muito bacana. Devo confessar que fiquei meio apaixonadinha por ele. Não, não desse jeito que você tá pensando...

Para mim, é muito bom quando alguém que entende de algo, que é especializado em assuntos complexos (cérebro está no topo da lista), fala com os leigos de maneira simples, que fica impossível não entender o que ele diz. O doutor disse e eu entendi. Isso é apaixonante, não?

Na mesma noite, resolvi clicar em um link de um vídeo do TED, esse site americano muito bacana, que conta com palestras curtinhas e inspiradoras. O vídeo era de 2010, e a palestrante uma pesquiadora chamada Brené Brown. O título da palestra era The power of vulnerability (O poder da vulnerabilidade), e como eu acredito que a vulnerabilidade seja mesmo poderosa, resolvi conferir.

Depois de uma hora e meia escutando Valentim responder perguntas casca grossa sobre depressão, diagnósticos, a situação dos dependentes químicos na Cracolândia, fumar ou não fumar maconha, com a maior elegância e propriedade, Brené caiu feito uma luva no meu estado de espírito. Uma pessoa acostumada às estatísticas, a tratar assuntos que ligamos diretamente às emoções com lógica, reconhece, de forma muito bacana, a importância da vulnerabilidade. O poder dela.

Valentim comentou sobre um livro que ele acha muito bom, que deveríamos ler, quando falava sobre a utilização da maconha medicinal, defendendo que as componentes da droga são importantes, não a droga em si, que acha que tudo bem se usar drogas para recreação, desde que se saiba muito bem o que se está fazendo. O livro era As portas da percepção do escritor e pensador Audous Huxley, e de pronto, bateu-me a informação de que eu tinha esse livro em casa, que o havia lido lá nos anos oitenta, e de que eu não me lembrava muito bem da leitura.

Na terça, eu tinha uma consulta médica. Saí de casa às seis da manhã para uma viagem de ônibus e de metrô, carregando o livro comigo. Eu estava curiosa sobre o meu esquecimento. Quando abri o livro, ainda no ônibus, lembrei-me de que fora uma leitura bem difícil, porque eu não fazia a menor ideia do que era mescalina e ainda não tinha me embrenhado na literatura de Carlos Castañeda, ou seja, também não fazia ideia do que era peiote. Ah, e naquela época não havia como dar uma procurada no Google.

As portas da percepção é um ensaio sobre o uso da mescalina, alcalóide extraído do cacto mexicano peiote, muito usado pelos xamãs indígenas da região, o primeiro do autor sobre as drogas como modificadores da percepção. O segundo livro é o Céu e Inferno, e por isso mesmo, o que eu tenho é, na verdade, a reunião desses dois.

Se me perguntarem como foi a consulta, posso dizer que deve ter sido boa, já que o médico não deu receita nenhuma de remédio, e até acho que ele sorriu várias vezes, durante os minutos que estivemos na mesma sala. Agora, se me perguntarem sobre o livro, posso dizer que não me lembrava do conteúdo porque realmente não tinha compreendido aonde ele queria chegar, não tinha condições há vinte e muitos anos, porque era jovem e não sabia lidar com a pluralidade da percepção.

Entre ônibus, metrô e sala de espera de consultório médico, debulhei páginas e mais páginas, mergulhada na percepção do Sir Huxley. Distrai-me apenas por um momento, pensando no Sergio Miguez, que adora fotografar pessoas que leem no metrô, e de quem eu adoro as fotos de pessoas que leem no metrô. Depois voltei ao fazimento da leitura.

Esqueci-me das drogas, do experimento, permitindo-me fascinar pela forma como ele enxergava as coisas naquele momento. Quando as flores no vaso, as dobras das roupas, as pernas da cadeira se tornaram poesia. Obviamente, a minha percepção deve ser diferente de muitos que leram o livro.

Na verdade, essa minha entrega à percepção de Huxley se sincronizaram a um momento de um livro que estou escrevendo, que pensei que soaria meio maluquice, mas e daí? Eu já havia escrito a passagem quando comecei a ler o livro. A personagem, acostumada a se perder em paisagens, entrega-se completamente ao deslumbre de contemplar um céu azul, como ela nunca vira antes. Em determinado momento, ela se sente tão pertencente ao céu que para de respirar. Ela morre por algum tempo.

A percepção é algo de importância inquestionável nas nossas vidas. Perceber pessoas, suas questões, perceber-nos, as nossas questões, isso pode levar aos propensos aos devaneios poéticos, mas a todos nós pode levar às principais escolhas das nossas vidas.

Manter as portas abertas à percepção pode melhorar o que Valentim deseja: o modo como lidamos com as doenças mentais. Também pode melhorar as conexões humanas, como disse Brené, por meio da vulnerabilidade. Pode fazer a minha personagem perceber que a vida que viveu, durante quase trinta anos, não era assim tão feliz como ela acreditava. E pode, com certeza, fazer com que pessoas escutem o que pessoas têm a dizer, e escolham a melhor forma de usarem essas informações para viverem de bem com elas mesmas.

E foi assim que uma entrevista, uma breve palestra e um livro inspiraram minha percepção a atravessar aquelas portas e se lançar ao mundo.


RODA VIVA -VALENTIM GENTIL FILHO (bloco 1)
Para assistir ao programa completo:
http://tvcultura.cmais.com.br/rodaviva/transmissao/valentim-gentil-filho-4


BRENÉ BROWN – THE POWER OF VULNERABILITY


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terça-feira, 5 de novembro de 2013

OVERDOSE DE JORNAL >> Clara Braga

Cá estou eu estudando para um concurso de professora da Secretaria de Educação. Um dos tópicos que cai na prova é atualidades. Então, como recomendado pela professora do cursinho, aumentei minha dose diária de telejornais. Diante dessa experiência, vou dizer uma coisa: achei um tanto desnecessário aumentar a dose, a verdade é que depois de assistir DFTV Primeira Edição, Bom dia Brasil, DFTV Segunda Edição, Jornal Hoje - que é o mais legal de todos -, Globo News, Jornal da BAND e Jornal da Record, até eu apresentaria o Jornal Nacional. E digo mais, apresentaria sem precisar ler aquele teleprompter. Até as entrevistas das reportagens são as mesmas, não muda nada! 

Mas além da repetição, outra coisa me chamou a atenção. Estou começando a achar que jornalistas e policiais subestimam a inteligência de traficantes, assaltantes, ladrões, seqüestradores e etc. Outro dia, foi noticiado em todos esses jornais que eu citei uma nova operação super eficaz utilizada pelos policiais de Brasília para prender traficantes. Na reportagem, os policiais comemoravam o fato de já terem prendido traficantes perseguidos há tempos enquanto os jornalistas mostravam a operação completa, como os policiais agiam, onde se escondiam, o que faziam, qual era o código usado entre eles, enfim, detalhavam a operação o máximo possível. 

Na mesma hora eu pensei: gente, hoje em dia só não tem televisão quem não quer! E assaltante tanto quer que rouba algumas, então, qual a lógica de informar aos assaltantes, traficantes e afins a operação detalhada da polícia? Concordo que a ideia para pegar traficantes (que eu não vou falar qual foi para não me contradizer) foi ótima, mas convenhamos, foi a primeira e a última vez que ela funcionou, porque agora todos os traficantes estão super ligados nas táticas policiais! 

Logo pensei que esse tipo de notícia não para por ai, quando noticiam, com os mesmos detalhes, esses atentados que acontecem nos E.U.A, todo mundo esquece que Brasileiro adora copiar um norte americano! Lá vai o jornal noticiar a história daquele garoto que não oferecia perigo a ninguém, que se revolta por ter sofrido bullyng em uma época em que bullyng nem existia. Então, ele decide que é no mínimo justo entrar na antiga escola dele e matar um monte de gente que nem sabe quem ele é, mas alguém tem que pagar pelo sofrimento que ele teve. A reportagem mostra vídeos, especifica as armas utilizadas, fala onde o cara comprou a munição, enfim, especifica tanto que só falta a Ana Maria Braga aparecer dando a receita da bomba caseira que o cara usou. 

Depois de um tempo o que acontece? Lá vai o brasileiro lembrar que também já sofreu bullyng e acha que pode se vingar! Oh povinho sem criatividade, vai lá, entra na escola e mata um monte de criança que acaba pagando por um ato que nem cometeu. E o mais curioso de tudo é que depois noticiam que os ladrões estão ficando cada vez mais espertos, estão usando artimanhas que está enganando a polícia. Ou então fazem uma longa matéria condenando o uso desses malditos video games que mexem com a cabeça da criança, deixando ela transtornada e com vontade de matar todo mundo. Será mesmo que de repente os ladrões e traficantes se tornaram super dotados e todas as crianças que sofreram bullyng passam horas na frente dos video games por nunca terem feito amigos e acabam surtando? 

Não questiono a importância do jornal, mas será que não existe um pontinha de culpa deles nesses atos? Pode ser que eu esteja pensando demais sobre algo que nem acontece de fato, mas será que isso faz sentido para mais alguém?


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domingo, 3 de novembro de 2013

A MENINA DOS MAPAS >> Whisner Fraga

Quando criança, eu gostava de símbolos. Se colocarmos na balança, acho que ainda gosto. A diferença é que, naquela época, eu levava essa coisa a sério. Hoje, nem tanto. Então, estava eu na sala do Colégio Polivalente e a aula estava chata o bastante para que eu não conseguisse me concentrar no que a professora dizia. Comecei a rabiscar desenhos com as iniciais do meu nome, até que cheguei a algo bem interessante. Aí, a minha colega do lado, cujo nome não me recordo agora, mas que estudava mapas astrais e derivados, brincou: e aí, criando uma marca para o seu gado?

De fato, o que eu havia bolado se parecia com um ferrete, o que, honestamente me deixou chateado. Eu já havia visto um boi sendo marcado e o negócio todo não foi nada engraçado, a começar pelo cheiro de carne assada e a terminar pelo mugido sentido e pelo levantar de pernas que me pareceu, para ficar no mínimo, dolorido. Ademais, eu sabia que, mesmo que viesse a ser rico algum dia (fato que eu achava pouco provável), não lidaria com esse tipo de negócio. Abandonei o que parecia ser um dom mais ou menos sólido, para voltar às trivialidades matemáticas que a “tia” desfiava no quadro.

Como desistisse do sonho de produzir meus próprios símbolos, que certamente influenciariam gerações, parti para a ignorância. Assim, havia uma brincadeira corrente à época e que consistia em se colocar a mão em cima de uma folha em branco e, com uma caneta, contorná-la. Desenhada a palma no papel, a preenchíamos com imagens daquilo que curtíamos. A da minha amiga, a mesma que desdenhou do símbolo que criara com as iniciais de meu nome, trazia uns coqueiros (julguei que ela queria estar em uma praia), um anel (evidente, o sonho matrimonial de toda garota da época), um bolo (aniversário? Festa de casamento?) e alguns outros desenhos que escaparam da minha memória.

Ainda estava magoado, é evidente, de modo que não me fiz de rogado: comecei a pintar vaquinhas por toda aquela mão, até que não se pudesse ver nada que não fosse ruminante. Aproveitei a ida de minha colega de classe ao banheiro para realizar tal proeza. É evidente que ela não gostou nada. Eu me assustei um pouco com a reação exacerbada (ela chegou a puxar meus cabelos), mas não pude me conter: arrematei a obra com o símbolo que criara dias antes.

A amizade, naqueles dias, talvez fosse algo mais duradouro do que é hoje, de modo que, em poucos dias eu estava lá, pedindo desculpas. Nunca tive problema com isso, o que considero uma das minhas principais virtudes. Quando reconheço um erro que cometi, reconheço logo e peço que me perdoem. Alguns veem nisso uma fraqueza, fazer o quê?, não podemos agradar todo mundo. Ouço por aí que nem Cristo conseguiu, de forma que, convenhamos, é tempo perdido tentar.

Ao longo desses trinta anos, revi pouca gente daquela sexta série. Seria bom se o colégio organizasse, de alguma maneira, um encontro entre ex-alunos. Quando acessava o Orkut, cheguei a fazer parte de uma comunidade dedicada àqueles que fizeram parte da comunidade da escola Antônio de Souza Martins, mais conhecida como Polivalente. Enviei algumas mensagens, mas ninguém me respondeu, o que achei uma pena. Eu gostaria muito de me reunir com meus ex-colegas, para ter a oportunidade de me desculpar, outra vez mais, com aquela menina dócil e inteligente.

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sábado, 2 de novembro de 2013

É FÁCIL SER FELIZ NO FACEBOOK [Maria Rita Lemos]

Tomando um café entre amigas, falávamos sobre o universo virtual, quando uma delas disparou essa pérola: “é tão fácil ser feliz no facebook... difícil é na vida real!”

A observação me fez parar para pensar, e, daí para escrever é,  quase sempre, ato contínuo, então ali nasceu minha matéria  para este domingo. Será que podemos chamar de amigos e amigas todas as pessoas?, Aparentemente, todas são felizes, realizadas, plenas de saúde e têm uma luz interior que em lugar algum pode ser encontrada. Têm solução para tudo, palavras de conforto e estímulo para qualquer tipo de problema... será isso realidade, ou um “Shangri lá” que nos dá uma falsa sensação de vivermos num país onde reina o prozac virtual?


No país chamado facebook podemos ser quem quisermos: brancos, negros, homens ou mulheres; podemos ser revolucionários ou acomodados, defender causas possíveis ou impossíveis, enfim, tudo é possível ao cidadão feicibuquiano.  Não há uma pessoa, sequer, que seja  ou esteja infeliz nesse território. Quando alguém se arrisca a mostrar um ângulo mais nostálgico, ou mesmo a declarar um luto , real ou não, há uma multidão de “amigos” disposta a consolar e mostrar que não é necessário nem desejável estar ou ser triste, não cabe gente assim nesse território. Aliás, tristezas e realidades nem tão festivas assim chega a incomodar ali, onde tudo são flores...

Então, mostra-se, na terra do Facebook, apenas o que se quer que seja visto. Quanto aos amigos e amigas, você tem em mãos o controle total sobre tê-los ou dispensá-los, se não forem  tão divertidos ou se não corresponderem ao que se espera. Inclusive, nem é preciso qualquer tipo de esclarecimento, explicação ou despedida, basta clicar em “desfazer amizade” e  - pluft – por um passe de magia, aquele amigo ou amiga não mais existe em seu céu feicebuquiano. Simples assim. Não há necessidade de enfrentar situações desagradáveis, resolver mal entendidos, sofrer por despedidas ou algo assim. Basta clicar no local certo.  



As pessoas, ou melhor, os “amigos e amigas” são sempre ótimos, simplesmente porque temos esse poder de deletar as que não o são. Seria excelente um mundo assim, se não fosse perigoso e irreal. O alerta vem de especialistas em comportamento que têm se aprofundado em estudos sobre os relacionamentos virtuais, e que apontam para o cuidado que se deve ter para não se desligar totalmente da realidade, não se afundar de cabeça na virtualidade. Principalmente os adolescentes, que são o maior público do mundo virtual e especialmente do Facebook, podem ser também as vítimas desse mundo de faz de conta, onde tudo é possível, inclusive sermos quem não somos e podermos fazer e comprar tudo, inclusive amigos. Como podemos, também jogar fora, descartar pessoas por um simples toque.  O problema é que a pessoa, fascinada pelo facebook e vivendo mais no mundo virtual que no real, corre o risco de não saber mais como enfrentar as relações de sua vida diária, os conflitos a que todos nós somos submetidos.

O cidadão feicibuquiano, aquele que acorda e dorme, passando horas na frente de seu laptop, pode desligar-se tanto da realidade que não se importa com as pessoas de carne e osso que o rodeiam, e que com certeza sentem sua falta, preocupam-se com ele e sofrem com seu distanciamento.  Aliás, nessa mesma conversa com amigas e colegas, tomando um café real com gente muito querida, uma de nós comentou que sua filha adolescente e as amigas estavam em sua casa, dia desses, em profundo silêncio: cada uma com um laptop no colo, comunicando-se uma com a outra, e com outras amigas e amigos... sem qualquer contato real, a não ser o compartilhamento do espaço físico! É o mundo virtual... até onde podemos chegar, sem nos alienarmos totalmente, sem nos mudarmos para o país mágico do Facebook, onde tudo é possível e todo mundo é feliz?

Enfim, e já concluindo, tudo é bom, desde que não haja excesso. Usar o computador para comunicar-se com os outros é bom. Esconder-se atrás de uma falsa identidade não é bom. Atualizar-se, fazer novas amizades é ótimo. Deixar de encontrar-se com amigos reais ou desistir de um churrasco com amigos ou amigas para ficar atrás do computador  não só não é bom, como pode ser sinal de alerta.


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