quinta-feira, 31 de outubro de 2013

QUEM TEM PENA DOS HAMSTERS? >> Mariana Scherma

Beagles sofrendo, com um dos olhos faltando, vivendo em ambientes sujos, maus tratos (aparentemente) descarados... Impossível não se comover e tentar invadir um lugar no qual bichinhos tão inofensivos e fofos (gente, o Snoopy é um beagle!) para salvá-los desse mundo cruel. Tomados por esse espírito heróico, diversos ativistas invadiram o Instituto Royal no interior de São Paulo. Ok, eles deram liberdade aos bichinhos, tanta que alguns ficaram até perdidos na rua. Qualquer pessoa com um mínimo de sensibilidade saberia que bichos criados sempre fechados se perderiam na rua. A expressão “mais perdido que cachorro caído da mudança” não existe à toa. E foi isso que me fez questionar a boa vontade desse grupo ativista. Eles queriam vender a causa com uma promoção excessiva ou cuidar dos beagles?

Não, eu não fui contra essa manifestação. Quer dizer, não fui totalmente contra porque detesto excesso de violência. O fato é que testes em animais, infelizmente, ainda são necessários e são permitidos por lei. Agora, o sofrimento dos bichos é proibido (eu só fico pensando em quem fala a língua deles pra saber se uma vacina-teste está agredindo ou não o animalzinho, mas enfim...). O fato é que a maioria de nossas vacinas precisa ser testada em animais para, depois, se mostrar eficiente em nós, humanos. E eu sou totalmente a favor do homem – e da saúde dele. Se a ciência ainda não é capaz de lançar um medicamento confiável sem testes em animais, por mais que doa o coração, que sejam feitos esses testes. Mesmo porque vai doer mais saber que alguém da minha família ou algum amigo corre algum risco porque um ratinho que eu nem conheço foi poupado. É o preço da ciência.

O que sempre me deixa indignada é a fúria que esses manifestantes demonstram: quebrando o que veem pela frente e invadindo como se estivessem em guerra. Era necessário tudo isso? E as pessoas que se revoltaram ao ver o sofrimento dos primos do Snoopy pela tevê, jornais ou posts do Facebook? Será que elas foram atrás de se informar sobre os testes em animais? Um pouco mais fundo: será que os manifestantes de redes sociais que recriminaram ao extremo os maus tratos do Instituto Royal têm certeza de que não possuem nenhum batonzinho ou blush que seja testado em peludinhos? Sim, porque há diversas marcas de maquiagem que ainda usam animais como cobaias. E para o make nosso de cada dia não é necessário fazer testes em bichos, já existe tecnologia suficiente para ficarmos com nossas bocas em tons de vermelho, coral e roxo sem que nenhum animal seja sacrificado. Será que todos esses manifestantes foram atrás dessas listas que encontramos rapidinho na internet. Espero que sim, espero de verdade que não tenham ficado só esbravejando via teclado, sem se dar conta de que pequenas atitudes também ajudam (e muito).

Se toda a revolta e quebradeira serviram pra conscientizar as pessoas de pedirem por formas alternativas de testar medicamentos que não sejam em animais, ok, dá pra ver um lado positivo nisso tudo. Agora, se a maioria já voltou pra sua vida normal sem se importar com aquilo que não está no raio de circunferência do próprio umbigo, haja paciência com os ativistas de butique e seus discursos decorados... Mas o que mais me deixa intrigada é que eu nunca vi nenhum manifestante invadindo laboratório pra salvar hamsters – e olha que eles são bem simpáticos. Pra mim, tão simpáticos quanto beagles.


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quarta-feira, 30 de outubro de 2013

ÀS VEZES... >> Carla Dias >>


Vendo os dias passarem, feito criança com cara encostada no vidro da janela do ônibus, cantando uma canção inventada, que fala a respeito de como elas dançam sobre nuvens e se dependuram em uma corda formada por gotas de chuva. Cantando uma canção inventada para um público formado por transeuntes, dos quais às vezes enxerga apenas o vulto. Nos quais às vezes se reconhece.

Dias em que a imaginação age feito antisséptico sobre mágoas em carne viva, fazendo as dolências se tornarem apenas o que já deveriam ser: passageiras.

Sentindo os dias passarem, imaginando formas plausíveis de torná-los amparo, desnutrindo-os da capacidade de arrefecer sonho que, hora sim, hora não, rouba-nos o fôlego. E donos plenos da nossa respiração, os tais desatam os nós da nossas gargantas, sopram delírios nas nossas cabeças. Delírios estes que agem como relaxante muscular para esse nosso coração sempre apressado, estressado, batendo além da velocidade máxima, em busca destemida pelo momento de bater, mas não em falso. Para que tudo se enlanguesça de um jeito bonito, o alívio capacitando verdades a viverem em paz dentro de nós, ainda que despolidas, vestidas inadequadamente, antiaderentes.

Dias ruidosamente descuidados, induzindo-nos aos tropeços. Às vezes, os tropeços são extremamente delicados, levando-nos a cairmos nos braços de outro, e de maneira bem-vinda, em forma de abraço. Às vezes, entorta a nossa alma e nos lança aos abismos. Durante a queda: alma exposta, medos por um fio, um grito engolido com um gole de silêncio imposto.

Feito criança com a cara encostada no vidro da janela do ônibus, observando os garis varrerem as calçadas, e pensando que não há gesto mais dedicado e afetuoso que aquele. Que quando crescer, ela fará questão de ir até lá, a rua onde nasceu essa certeza de que no mundo há quem cuide, e a varrerá, abrindo alas para os olhares de crianças que passam de ônibus pelo seu corpo concreto. E a criança pensa que, certamente, irá chorar nesse dia. Porque todo mundo chora no dia em que realiza um grande sonho.

Vendo esses dias passarem, feito aquela criança, a imaginação de uma bondade sem fim ao enxergar o mundo, nós, adultos e cansados das horas gastas nos ônibus, no antes e depois do trabalho, agarramos a imaginação. E adormecemos, em nossas camas, embalados por uma canção inventada, dando braçadas em um mar de nuvens, saindo de abismos por meio de cordas-gotas.

Às vezes imaginando levezas.

Às vezes imaginando fugas.


Imagem: sxc.hu

carladias.com



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terça-feira, 29 de outubro de 2013

FAVOR COMPARTILHAR ATÉ CHEGAR NA BEYONCÉ (PARTE II) >> Clara Braga


Mrs. Carter ou Beyoncé,

sim, sou eu de novo. Depois de escrever aquela primeira carta para você, senti que precisava te dar um retorno sobre como seria o show do Aerosmith. Como o show foi semana passada, aqui estou eu novamente para te dizer que, apesar de ter dito que eu espero que você volte à minha cidade, talvez seja melhor você esperar um tempo - um bom tempo - antes de vir novamente a Brasília. Pelo visto, construíram um local para que grandes shows viessem para cá, mas não prepararam pessoas para trabalharem nesses grandes eventos.

O som estava consideravelmente melhor, dessa vez eu consegui ser uma das pessoas que interagiam e cantavam junto. Mas como disse na carta anterior, dessa vez eu fui na pista, não sei como estava o som para as pessoas da arquibancada. Inclusive, acho que vou tentar descobrir, pois talvez seja o caso de também escrever uma carta para o Steven Tyler. Ainda assim, mesmo estando melhor, ainda estava ruim, um pouco abafado e embolado, não sei se existe um termo técnico para definir isso. Inclusive, teve um momento que não conseguimos reconhecer uma das músicas que foram tocadas, então decidimos usar nossa imaginação e concordamos que naquele momento ele estava fazendo uma homenagem a você cantando uma versão exclusiva de All the Single Ladies.

De qualquer forma, fiquei extremamente feliz de ter ouvido ao show além de visto, Aerosmith é realmente uma das melhores bandas de rock que existem e o show deles é maravilhoso. Aliás, você conhece o Steven Tyler pessoalmente? Acho que seria interessante um encontro entre vocês para trocarem figurinhas, ele revelaria o segredo para manter aquela voz incrível aos 65 anos de idade e você daria umas dicas sobre como obter e manter um corpo um pouco menos mirradinho… nada contra, mas o Joe Perry parecia ter saído diretamente daquele filme Convenção das Bruxas, já assistiu? Toda vez que ele tirava o colete, ou o chapéu eu lembrava daquela cena na qual as bruxas se reunem e começam a tirar as perucas, as máscaras e realmente se transformam em bruxas! Terrível!

Bom, mas deixando isso tudo de lado, deixa eu explicar porque o pessoal de Brasília não está preparado para shows grandes. Você acredita que em um estádio daquele tamanho, com diversos portões, eles limitaram a entrada de cerca de 25 mil pessoas a um portão? Claro que na hora que a banda de abertura começou a tocar uma grande parte do público ainda estava parado do lado de fora sem poder fazer nada. E o que mais dói o coração é que a banda de abertura não era uma banda qualquer, era Whitesnake!! Pense em um público que estava revoltado!

Isso sem contar que eles divulgaram que seria um show muito seguro, que as pessoas não precisavam se preocupar, mas na entrada tinha mais ou menos de 8 a 10 seguranças apenas revistando essas 25 mil pessoas, vai me dizer que não estava fácil fácil para alguém entrar com uma arma ou algo do tipo? Ninguém se quer abriu minha bolsa e meu namorado, para entrar, teve apenas que levantar a blusa! 

Bom, mas realmente pareceu ser um show seguro, não posso negar, não tiveram grandes ocorrências de roubo ou atos parecidos, a única coisa que assusta é que a única pessoa que eu vi comentar ter sido roubada, posteriormente encontrou o aparelho celular sob a posse de um dos policiais que fazia a segurança do lado de dentro do show, parece até mentira né?

Agora, sabe o que mais dá medo? É que se foi essa confusão com 25 mil pessoas, imagina a confusão que não vai ser na copa! Você não está pensando em vir, está? Se estiver, recomendo repensar a ideia. Eu estou pensando em fazer uma viagem para fora do país nessa época e ficar bem longe de toda a confusão, alguma dica?

Bom, mas vamos torcer para que até lá as pessoas já estejam mais preparadas para lidarem com grandes eventos, eu mantenho contato e assim que as coisas melhorarem por aqui eu te aviso, ai você marca um novo show, um show onde todos vão te ouvir, vão participar, vão conseguir entrar com calma e vão poder de fato se sentirem seguros lá dentro.

Enquanto isso, Brasil, vamos tentar manter em mente aquela pequena frase que ficou estampada em todos os telões do show durante a apresentação do Aerosmith quando eles mostraram a bandeira do Brasil: Ordem e progresso! Mesmo que para alcançar a ordem seja preciso, antes, causar a desordem.


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sábado, 26 de outubro de 2013

CARROS ANTIGOS OU "O PASSADO" [Ana Claudia Vargas]

O passado, mais ou menos fantástico, ou mais ou menos organizado, posteriormente, age sobre o futuro com um poder comparável ao do próprio presente. (Paul Valéry)

Era só um evento desses que acontecem Brasil afora nos quais carros das décadas passadas são expostos para que (hoje) possam ser vistos com vagar, como peças de museu, como outros sobreviventes de um  tempo que se foi. Na grande praça central da cidade do sul das Geraes, as pessoas vão chegando animadas e sorridentes porque o dia ensolarado e luminoso torna tudo agradável.

Ver os carros antigos sob o manto de folhas das árvores frondosas é um afago na alma: lá estão os carros, dezenas deles, parados em meio à sombra dessas árvores e é como se eles ‘soubessem’ que são alvos de admiração.

São como modelos na passarela, aquelas mulheres que imolam suas existências para serem apenas objetos de desejo e que quando envelhecem, por exemplo, são imediatamente substituídas por outras mais frescas, mais de acordo com o presente. Mulheres que existem de verdade apenas quando paralisadas em fotografias ou em personagens do cinema ou da TV.

Pois os carros antigos também são assim e como não haveria de ser? Eles só existem agora como objetos de adoração porque há uma aura de que o passado sim, é que foi bom, em torno deles.

E olha que as previsões para eles não eram das melhores, uma dessas pessoas que falam frases para a posteridade, disse que carros eram invenções fadadas ao fracasso.

Nem vou me alongar aqui senão vou engatar a falar sobre congestionamentos, aquecimento do planeta por causa do gás carbônico e até a morte dos ciclistas vai ser assunto e não é por aí que quero ir.

Fico olhando é para o passado que se evoca quando se vai numa singela exposição de carros antigos: lá estão eles, enormes, opulentos – um tinha até madeira em sua estrutura, chiquérrimo e ecologicamente correto – tão bonitos – porque foram devidamente embelezados por seus orgulhosos donos – e brilhantes; que resplandecem e adquirem algo de mágico. Nessa hora são quase mitificados e se parecem com os personagens fabulosos de lendas ou daquelas historias que tem deuses ou fadas como protagonistas.

Cada um é mais belo que o outro: Galaxies, Maveriks, Opalas, todos grandes e lentos demais para a velocidade desse começo de século 21 em que vivemos; todos naquelas cores de sonho que só podem existir de verdade no passado: azul celeste, vermelho claro, azul piscina, amarelo ovo... Parece que antigamente o mundo era mais criativo e colorido, parece que as pessoas que trabalhavam na indústria (não só automobilística, certamente) não tinham medo de ousar e experimentar desenhos mais elaborados, curvas mais espiraladas, cores variadas...

E está tudo lá, tudo o que aconteceu na história humana há mais ou menos 50 anos, está lá, nas linhas desses carros que circulavam nas ruas do mundo nas décadas passadas: o jeito contido de um comportamento humano que existiu até a década de 1950 – a época das saias rodadas e das mulheres envergonhadas - a ousadia nascente da década de 1960, quando os carros foram ficando coloridos e enormes – pois aquela foi a década da expansão cultural, social e outras mais -  a psicodelia exagerada dos mitificados anos 1970 com seus carros ainda grandões, mas já perdendo as caudas longas porque aqueles também foram os tempos de muitas tomadas de consciência e a questão ambiental foi uma delas.

Na década de 1980 – como tudo mais daquele tempo – carros de tamanho médio, mas de linhas chamativas fazem com que a gente se lembre de tudo de ruim daquela década: Madonna, bandas new wave, cabelos com topetes e o pior de tudo, o crescente consumismo que hoje a gente sabe muito bem o que nos custou.

Mas os carros, coitados, foram só produto das mentes criativas, geniais ou doentias daquelas épocas, hoje eles estão aqui e são apenas representações simbólicas de fases específicas da história humana. Hoje eles têm permissão para serem fantásticos, magníficos, belos e acima de tudo, admiráveis. 

Representam somente o passado, esses carros, são como aquelas fotos de atrizes belíssimas da década de 1950 e 1960 que a gente recebe por e-mail e ao vê-las a gente finge que esquece que hoje todas já se foram ou envelheceram ou estão tentando deter o tempo com mil aplicações de botox.

Não há como deter o tempo, ele sempre será a nossa enigmática esfinge e todos esses carros enfileirados sob o sol levemente luminoso do inverno, parecem imagens idealizadas dos sonhos daqueles que os criaram. Penso que eles gostariam de vê-los desse jeito: era esse o ideal que buscavam.


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sexta-feira, 25 de outubro de 2013

O ESTRATAGEMA - PARTE II >> Zoraya Cesar

Síntese da Parte I - Lucio mata a ex-mulher, que o estava atormentando e tentando perturbar seu novo casamento, e  que, não menos importante, sabia de todas as falcatruas que ele perpetrava na empresa. Para ler a íntegra de O Estratagema, parte I, clique aqui

Lúcio saiu, e, verdade seja dita, um pouco nervoso. Era a primeira vez que matava alguém. E já que a verdade é para ser dita, vamos esclarecer que seu nervosismo era antes excitação que propriamente arrependimento. Afinal, pensava, aquela louca estava infernizando sua vida. Agora, quem estava no inferno era ela, concluiu, rindo. 

Somente ao chegar à segurança de sua garagem Lucio percebeu a dor no estômago, os olhos esbugalhados e o suor que encharcava sua camisa, apesar do ar refrigerado ligado ao máximo. E se o tivessem visto? E se Violeta deixara alguma carta incriminando-o? E se ela falou a alguém sobre o encontro? E se ele não tivesse álibi? Ele respirou fundo e tratou de tirar a fita adesiva que adulterava a placa do carro. Decidiu que nada contaria à doce Cristiny, para não envolvê-la nessa coisa tão sórdida. 

Algum tempo se passou e ele voltou a se sentir no paraíso. Diferentemente de Adão, no entanto, Lucio foi sendo expulso do Eden aos poucos. Primeiro, ao ler, num pé de página de um jornal de R$0,50, que a polícia havia encontrado o corpo de uma mulher que, pela descrição, ele sabia ser o de Violeta. Depois, ao receber um email cuja mensagem dizia: “Oi Querido, tudo bem? Não se esqueça de mim. Violeta”. Muitos outros se seguiram a esse, sem que ninguém descobrisse como ou de onde vieram. 

Quando um investigador bateu à porta de sua casa, informando sobre a morte da ex-mulher e fazendo perguntas embaraçosas, Lucio sentiu-se às margens do rio Estige. Resolveu contar a verdade ao Dr. Miltinho, seu advogado, que lhe aconselhou a não revelar à polícia sobre os emails post mortem, quanto menos eles soubessem, melhor. Ele iria contratar o hacker para apagar quaisquer vestígios de comunicação com Violeta, estivesse ela morta ou não. Aconselhou-o também a revelar tudo para Cristiny, e esta - como ele esperava - disse que seria seu álibi. O amor é lindo. 

Nada encontrado que ligasse Lucio à misteriosa morte da ex-mulher, a polícia começou a afrouxar o cerco. E, nessa época, alguém posta no you tube o vídeo em que ele aparece - sem sombra de dúvidas ou de montagens - sufocando Violeta com o travesseiro. 

Lucio foi preso, lógico, e levado a júri popular. Dr. Miltinho não conseguiu provar que seu cliente agira sob o efeito de forte emoção, pois a morta estava ameaçando a paz de seu lar – todos os indícios haviam sido apagados pelo hacker, menos a troca de emails marcando o encontro. Avisados por uma denúncia anônima, a polícia encontrou, no carro de Lucio, a fita adesiva que adulterava a placa ali, no mesmo lugar de onde ele tirara no dia fatídico. As câmeras de segurança das ruas fizeram o resto. A tese de que Lucio atraíra a emocionalmente frágil Violeta para um encontro e a matara, sem chance de defesa, foi bem aceita pela mídia e pelo público. Jamais conseguiram saber quem tinha feito o vídeo, então esqueceram esse detalhe. 

Sua única chance era o álibi a ser fornecido por Cristiny. Ela chegou, linda, loura. Lucio sentiu-se comovido, nenhuma mulher era tão maravilhosa quanto sua Cristiny. Ela sentou-se no banco de testemunhas e, antes de afirmar que Lucio chegara cedo e passaram a noite juntos, o jovem assistente do Dr. Miltinho levanta-se e grita: 

- Não, meu amor, você não vai mentir por esse assassino, ele não te merece. Eu conto tudo. Nós somos amantes e passamos até tarde daquela noite juntos. Ela chegou em casa pouco antes dele. Posso provar. 

E provou, por A mais B, que dizia a verdade. Lucio teve uma crise, foram necessários três guardas para impedi-lo de pular em cima do sujeito. Cristiny chorava, repetia desculpa, meu amor, gritava para o amante que ele não deveria ter feito aquilo, Dr Miltinho pedia calma, calma, o juiz atarantou-se, as pessoas se levantaram, a imprensa fez uma festa de flashes espocantes, formou-se um pandemônio. 

As provas, irrefutáveis; o álibi, inexistente. Lucio foi condenado a alguns anos de prisão num manicômio judiciário, pois não conseguia entender o que acontecera, e isso foi demais para ele. Surtou. 

Esses estabelecimentos estão lotados, e eu não vou deixar que você, Amigo Leitor, tenha o mesmo destino do malfadado Lucio. Contarei a verdade que ele ainda está tentando descobrir – tanto mais que está sempre sob o efeito de sedativos. 

Cupidez e luxúria explicam os acontecimentos. 

Dr. Miltinho, como advogado de Lucio, participava de todas as suas falcatruas empresariais, e via que a má gerência de seu cliente o faria perder muito dinheiro. Tinha de dar um jeito de tirar Lucio de circulação e ficar com os negócios só para si. 

Quando conheceu Cristiny e percebeu o tipo de mulher que ela realmente era, Dr. Miltinho - que sempre tivera uma queda por jovens louras - apaixonou-se perdidamente. E os apaixonados, vocês, sabem, são muito criativos. Convenceu-a (muito facilmente, é verdade) a fazer-se passar por Violeta, mandando presentes, emails, cartas. A recolocar a fita adesiva no carro de Lucio. A telefonar anonimamente à polícia e falar da placa adulterada. A fazer todo o teatro necessário ao plano. 

Violeta confiava muito em Dr. Miltinho, pois fora ele quem convencera Lucio a dar-lhe uma boa pensão, que gastava quase toda em bebidas e remédios – estava a caminho de ficar na sarjeta mesmo. Foi, portanto, fácil ao bom causídico embebedá-la e dopá-la, levando-a para aquele local ermo, esquecido até pelo Diabo, que dirá por Deus. Instalar uma câmera no quarto foi moleza. Se Lucio não tivesse matado Violeta naquele momento, Dr. Miltinho teria pensado em outra coisa para incriminá-lo e ficar com seus negócios e com Cristiny. Pagou um bom dinheiro a seu assistente para se fazer passar pelo amante e, assim, desmontou a última chance de Lucio sair livre. 

Dr. Miltinho e Cristiny estão casados e muito felizes. Ele, apaixonadíssimo por sua alma gêmea, sexy e loura. Ela, planejando como se livrar daquele velho chato e ficar com seu dinheiro... e com seu assistente.

(Enquanto isso, Felipe Espada, veterano investigador policial, relendo o caso, começa a achar estranho que nenhum dos presentes ou cartas mandados por Violeta tivessem carimbo dos correios...)


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quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O QUE TEM EM BELO HORIZONTE >> Fernanda Pinho



Quando percebem que sou brasileira, a primeira coisa que os chilenos me perguntam é: “de que parte do Brasil?”. Eu digo Belo Horizonte e daí, geralmente, é das duas uma: ou eles ignoram a informação por não ter o que dizer e contam que já viajaram/ou gostariam de viajar para Florianópolis ou Búzios, ou perguntam se Belo Horizonte fica perto do Rio de Janeiro ou de São Paulo. Ok. Não posso ser injusta, neste um ano e meio morando aqui houve uma meia dúzia de bem informados que retrucou o dado perguntando se eu torcia para o Atlético ou para o Cruzeiro (normalmente, fanáticos por futebol que, por conhecerem todas as equipes, conhecem todas as cidades. Depois ainda dizem que futebol não é cultura).

E há ainda alguns poucos que nunca ouviram falar de Belo Horizonte mas, diante da oportunidade, querem saber mais. E aí vem uma outra pergunta recorrente: “O que tem em Belo Horizonte?”. Interrogativa normalmente seguida de outra: “Tem praia?”. Eu digo que não, não tem praia. Mas tem montanhas e na falta do mar é possível apreciar as maravilhosas cachoeiras de cidades vizinhas. Conto que tem minério, mineradoras, dois milhões e meio de pessoas e paro por aí.


Não adianta muito tentar explicar o que realmente tem em Belo Horizonte para quem não tem uma relação sentimental com a cidade. Em Belo Horizonte tem um povo que vai te oferecer ajuda se o pneu do seu carro furar ou se você for roubada. Seja quais forem as circunstâncias. Em Belo Horizonte tem um boteco em cada esquina, prontos para servir quem é de cachaça ou quem é de cerveja gelada (sempre com tira-gosto). Em Belo Horizonte tem pão de queijo em qualquer padaria (e Mate Couro também). Em Belo Horizonte tem gente que sente fripadaná se o termômetro chega aos 20 graus. Em Belo Horizonte tem ruas confusas com retornos que te fazem sair da cidade. Mas tem gente disposta a te ajudar a encontrar o caminho, ainda que com uma explicação mais confusa que o trânsito em si. Em Belo Horizonte tem um céu com um azul que não existe em nenhum outro lugar do mundo. Uma profusão de cheiros que só existe no Mercado Central. Uma mistura de gente que só se vê na Feira Hippie. Em Belo Horizonte, às seis da manhã, o mundo já está em plena atividade. Em Belo Horizonte tem gente que lava a calçada (ou melhor, lava o passeio) com a mangueira enquanto conversa com o vizinho do lado. Tem mangueira, e jaboticabeira, e goiabeira. Em Belo Horizonte tem canudinho de doce de leite, frango caipira e feijão tropeiro. Em Belo Horizonte, tem gente que olha deslumbrada quando vê um estrangeiro. Em Belo Horizonte tem mineiro, mineirês, Mineirão e Mineirinho. Em Belo Horizonte tem um charme discreto, sossegado e despretensioso. Não é conhecida pelo mundo todo. Mas é inesquecível para quem conhece.

Foto: Osvaldo Castro, um desses forasteiros que se apaixonou.


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quarta-feira, 23 de outubro de 2013

PORTA DA ESPERANÇA >> Carla Dias >>

Apesar de a minha memória ser seletiva, e nem sempre colaborar comigo, lembro-me claramente de quando minha avó, a Dona Anita, na época em que comecei a estudar música, costumava dizer, com toda seriedade, que iria escrever para a Porta da Esperança.

Você se lembra da Porta da Esperança?

Minha avó amava esse quadro do Programa Silvio Santos. Na época, ela morava conosco, sendo assim, todos assistíamos ao quadro. E nem era a coisa mais difícil do mundo, porque ver pessoas recebendo algo do qual precisavam, mas não podiam custear, ou apenas tendo seus desejos realizados era bem animador, apesar do merchandising de programa de auditório, que me parecia irritante já na infância.

Eu e minhas irmãs ficávamos inventando o que ganharíamos (até parece que não queríamos mesmo ganhar!), como se fôssemos as escolhidas da vez. E sim, às vezes dizíamos “Vamos abrir as portas da esperança”, junto com o Silvio Santos, em coro.

Claro que me incomodava profundamente não entender o motivo de ele dizer “vamos abrir as portas da esperança” se o programa se chamava Porta da Esperança. Mas ok.

A verdade é que minha avó me botava o maior medo. Já pensou eu ter de ir ao programa do Silvio Santos, algo que eu realmente não queria, e esperar que uma porta se abrisse e que lá estivesse um kit de bateria? E se ele me pedisse para tocar, que eu estava apenas começando e era tão, mas tão tímida, que acabaria pagando o maior mico. Pior! E se a porta se abrisse e tivesse nada lá?

Durante anos, minha avó me cutucou com essa história. Às vezes, eu achava mesmo que ela tinha escalado uma das minhas irmãs, das minhas tias ou a minha mãe para escrever uma carta bem chorosa para a produção do programa. Eu ficava imaginando a cara do produtor lendo as palavras de uma avó escolada na linguagem Porta da Esperança, pedindo que atendesse a netinha dela, tão dedicada a estudar bateria que não parava de batucar nas irmãs e no irmão. Em determinado momento, acho que minha avó percebeu que eu teria um colapso nervoso se tivesse de comparecer ao programa, transformando o real desejo dela em uma brincadeira entre nós, do tipo “é melhor você fazer um almoço bem gostoso ou vou escrever pra Porta da Esperança”.  E sempre funcionava, porque acabávamos caindo na gargalhada.

Minha avó era uma mulher a se desvendar. Ela teve uma vida sofrida e um senso de humor que não era fofo, como imaginamos para as avós, mas era muito mais legal. Ainda assim, vivia pregando peças e fazendo cócegas nos netos. Como a televisão fazia parte da rotina dela, em determinado momento, depois de um par de anos estudando bateria, ela decidiu que já estava na hora de eu aparecer na televisão, porque era o que acontecia aos artistas. Seguiram-se assim alguns outros anos com ela ameaçando mandar cartas para uma série de programas que descobriam novos talentos. Mais medo de que ela o fizesse, misturado às muitas gargalhadas que dávamos ao imaginar a mim na televisão, carinha lavada, escutando lerem a carta da lindeza da minha avó.

Ser baterista já havia se tornado outra coisa na minha vida.  Depois do lançamento do meu primeiro livro, o Azul, eu fui entrevistada pela Cristiane Neder para um quadro sobre livros do programa Viva Show, da CNT/Gazeta. Enfim, eu pude dizer a minha avó que, finalmente, eu havia aparecido na televisão.

Abrir a porta da esperança é meio isso, também. Alguém que lhe cutuca porque acredita que você merece determinada coisa, mantendo a vista da janela promissora. Na verdade, para mim já estava de bom tamanho saber que eu merecia uma avó como a Dona Anita, com quem dei boas gargalhadas nessa vida, só porque ela encanou que eu merecia que a porta da esperança se abrisse para mim.

Minha avó foi uma mulher e tanto. Para ela, escrevi um poema sobre as lembranças infantes, construídas à base de um bom cuidar, perfume de feijão sendo cozido no forno à lenha, do café fresco, das muitas novelas, do Zé Bettio e da Ave-Maria.



conversa entre menina e mulheres
para minha avó, anita

antes de a ave-maria
sair do rádio am
o perfume do feijão sendo cozido
invade a sala
onde assisto
a emília deixar sem graça
quem não sabe sorrir
quem nunca quis ter um tantinho
de pó de pirlimpimpim
minha avó
fogão à lenha
ela cozinha o jantar
ela reza tão baixinho mas eu escuto
sempre escuto o que ela não quer contar
tenho acesso ao seu coração partido
à religiosidade dos seus pedidos de proteção
àqueles que aprendeu a amar
ave-maria cheia de graça
eu que a chamo para dançar
ao lado das garças que brincam entre elas
no sítio imaginário
dos prédios em construção
que invadem o céu
e abafam a beleza da lua
ave-maria cheia de graça
eu a convido à minha casa
para jantar feijão e reza
e me contar sobre os milagres engavetados
benzer a água
exorcizar a água do pecado
dar de beber a minha avó
o bálsamo
que ela busca nas preces
eu lhe emprestarei um dos quartos
e você pode ficar ave-maria
vou chamar você para uma conversa
de menina injuriada com a tristeza
que vê no olhar de quem a conforta
nos finais de tarde da infância
e a ensina a ter piedade
essa menina que já sente falta
sem saber do quê
que se comove com quem não sabe ver beleza nos quintais
e não corre por eles
alimentando a imaginação de deuses
e anjos
e flertando com árvores carregadas de frutos
bendito é o fruto do vosso ventre
e bendita é a paz
dona maria
ave e anita
que a gente sente
um pouco antes de o sonho acabar
quando ainda há uma réstia de esperança
de não deixar para trás a lembrança
como se ela fosse filme
guardado para ser assistido mais tarde
e minha avó deixa que eu experimente
do feijão e do sorriso dela
não me lembro dos seus olhos
mas não esqueço da companhia
dona ave-maria
emília e anita me ensinaram
a cortejar a felicidade
e hoje
mulher nem sempre adulta
filha da pungente saudade
enamoro a magia da poesia
crio minhas próprias fantasias
mas sei quem existiu feito benção
na vida de menina que nasceu pronta
para se jogar com intensidade às redenções
benditas são entre as mulheres
emília
ave-maria
anita

carladias.com



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sábado, 19 de outubro de 2013

MI BUENOS AIRES QUERIDA [Ana González]

Viajar é exercício de imaginação. Imagens e desejos que se adiantam ao deslocamento físico me capturam e me provocam. Foi assim dessa vez. O destino era Buenos Aires.

Logo após a chegada ao hotel em San Telmo, fui ao café da manhã duas quadras à frente. Aconchego em lugar antigo de histórias a serem adivinhadas. Enquanto bebericava o chá com leite e comia as torradas negras com um tipo de queijo cremoso, percebi que em dois ou três ônibus que passaram pelas janelas que davam para a esquina, grupos barulhentos agitavam bandeiras verde-brancas. Seria manifestação política?

À procura do centro, saí pelas ruas do bairro histórico e boêmio, andando por seu esquadrinhado geométrico de ruas estreitas e casas com portas de bandeira alta. Eu olhava os janelões fechados, com vontade de saber o seu interior. Alguns quarteirões depois encontrei o que buscava.

Enquanto isso, grupos de homens a pé com bandeiras verde-brancas iam à mesma direção. Curiosa, seguia ao lado deles. Ao longo do caminho fui me dando conta da enormidade do movimento que se armava. Essa era a Buenos Aires da mídia impressa atual e dos telejornais. Mas, não era a da minha fantasia.

À frente, em um cruzamento de grandes avenidas, uma pequena multidão se reunia, agitando bandeiras maiores e organizando o som de bumbos. Não brinquei com a sorte. Decidi subir a avenida em frente, mudando um pouco o itinerário planejado.

Foi assim, com uma surpresa não pertencente a roteiros turísticos, que iniciei o ritual da Buenos Aires que me coube. Durante os dias da estada não pude esquecer esta experiência, apesar dos parques verdes e dos museus de Palermo. Apesar da visita guiada no Teatro Cólon, em que tentei inventar um rosto para o terceiro arquiteto que finalizou sua construção. Outros dois, falecidos antes do projeto concluído, como fantasmas saíam detrás das colunas a me assombrar enquanto a guia descrevia a sala em estilo francês para as sutilezas de uma elite rica, com mocinhas em idade de casar sendo apresentadas para a sociedade. Très chic, sans doute.

Lá fora, vi pessoas mexendo nas caixas de lixo na rua, vi mendigos dormindo em praças. Vi sinais de uma situação econômica questionável, com a moeda do país dividida entre a oficial e a outra, ilegal. O dinheiro sumido do bolso das pessoas, o cambio furando as regras do governo controlador. Desgaste dos tempos atuais. Os dados novos da realidade não diminuíam o desejo por essa cidade. Mas, havia enorme distancia entre a fantasia e a realidade, entre a memória e a presença.

Em cafés apreciei delícias pecaminosas e a postura discreta das pessoas a folhear livros e jornais. Nas inúmeras livrarias que se multiplicam, me consolei da pobreza ledora brasileira. Sinais do passado reverberando na elegância dos casacos, nos gestos lentos, nos vitrais coloridos. Ou no desenho das praças e dos museus. Ou no perfil dos prédios e quarteirões de arquitetura grandiosa. Era dia de sol aberto e vento gelado que cortava a pele enquanto os olhos se alongavam largamente por onde o ônibus aberto passava. Tratava-se de uma linda cidade pequena o suficiente para em três horas se entregar ao viajante.

Nas fotos de Evita, espalhadas em bancas e casas de comércio, as saudades do povo. Clima de tango, intenso, emocional. Outras fotos de Guevara e do casal Kirchner apareciam aqui e ali.

Mas a iniciação da manhã do primeiro dia se mesclava a esses e a outros tempos e espaços, em flashes que se multiplicavam. Eu estava desconfortável como um turista mal agradecido, que rejeita o que lhe é oferecido. Traição. Tentei me desculpar. Será tremendo engano frustrar-se.

Recolho-me ao hotel em estilo colonial. Ao abrir a porta da entrada, os dois cães se aproximam mansos. Encontro a máquina de costura na sala de entrada, perdoada em sua velhice por não mais cerzir nem fazer as costuras de camisolas. Os vasos pelo corredor até o meu quarto me recebem e me fazem recordar o belo. Um cachorro latindo na vizinhança. E pergunto à pequena e barulhenta geladeira: Vou poder dormir?

Há nostalgia e um presente que não se quer. Resistência vã, luta inglória. A cidade é tudo o que eu percebo dela, inclusive (ai, principalmente) a realidade. Portanto, desisto e enquanto tento dormir olho o madeirame no teto.

Repasso as lembranças de uma cidade desejada de forma quase obscena. Volto aos corredores do Teatro Colón. Os dois fantasmas lá estão. Em seguida, reconstruo da primeira manhã o momento inaugural de uma estranha iniciação. Então, vindos detrás das muitas colunas, surgindo pelas escadarias atapetadas, me deparo com outros fantasmas. São muitos, vindos de teatros de outras cidades amadas do mundo. Em festa, em profusão. Não portam bandeiras, mas movimentos leves. Envolvo-me nessa transparência. Não reclamam, mas convidam-me. Sem surpresa, com alívio, entro na festa. No tapete vermelho aveludado, todos dançamos um tango.

www.agonzalez.com.br        

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quarta-feira, 16 de outubro de 2013

CONTEMPLADORA DE ALÉM >> Carla Dias >>


Quando criança, eu já era absorvida por assuntos que pescava das conversas dos adultos. A vida me preocupava profundamente, mesmo quando estava metida com as brincadeiras infantes. E não era uma preocupaçãozinha aqui e outra ali, não. Menina de tudo, eu já colecionava preocupações diversas, e a maioria delas não tinha a ver comigo, mas com pessoas a quem dedicava meu afeto.

Obviamente, isso não significa que eu não tenha me divertido muito – e brigado muito, também – com o monte primos e com as irmãs e irmãos, lá no quintal de casa.

O fato é que eu percebia coisas nos adultos que meus companheiros de infância não percebiam, porque estavam entretidos com as brincadeiras, ou seja, estavam fazendo o que deviam fazer: sendo crianças. Essa habilidade em mergulhar profundamente no que não me cabia espiar, levou-me a ser ótima contempladora de além, e péssima em compreender situações realistas e diretas. Até hoje, com quase quarenta e três anos, minhas irmãs me surpreendem com revelações sobre nossa infância e adolescência. Acabei por compreender que me distraí completamente da realidade nua e crua, da conversa direta da vida, especializando-me em profundidades. E por mais que isso me caiba bem melhor do que a outra opção, às vezes não faz sentido algum aos que me cercam.

Contempladora de além acaba escutando mais do que o outro gostaria de dizer. Não que eu invente sentimentos para outras pessoas, ou reescreva a biografia delas - que não sou revista de celebridades, e que para exercitar inventamento eu uso os livros que escrevo. É somente um prestar atenção que segue adiante, que não se satisfaz apenas com o que é oferecido.

Obviamente, ser contempladora de além me ensinou a ser escritora, que escrever sempre foi necessidade pungente de dizer coisas que não cabem em lugar nenhum que não na imaginação. Ainda assim, eu me pego invejando, de leve, aqueles que sabem viver a realidade como ela é, sem poesia para servir de bálsamo ou para atinar dor só porque a palavra rima com amor. Com a poesia apenas nos livros ou nas tarefas da escola. Porque contempladora de além não nasceu para o somente, mas para se jogar nos braços das tempestades, mesmo quando, exteriormente, a paz pareça reinar.

Imagem: sxc.hu



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terça-feira, 15 de outubro de 2013

FELIZ DIA, PROFESSOR! >> Clara Braga


Eis que o dia do professor também cai em uma terça! Engraçado como ultimamente as datas comemorativas vem caindo nas terças, até meu aniversário caiu em uma. Mas, o que teria para se falar de um dia tão importante como hoje? Talvez a primeira coisa a se dizer seja que hoje deveria de fato ser muito importante para todo mundo, deveria ser o dia que cada um lembraria de valorizar o trabalho de um bom professor e a educação que recebeu. Aos poucos, essa valorização seria tão comum que nem precisaria mais de um dia, todos os dias seria o dia do professor e aí sim a gente ia ver quantos bons professores também iam começar a surgir.

Eu sou suspeita para falar, optei por seguir a carreira inspirada na minha mãe e na minha madrinha. E ao longo dos meus estudos, consegui perceber que o melhor professor é aquele que nunca para de estudar e que, principalmente, não tem medo de aprender com seus alunos. Tem que ter humildade para assimilar o conhecimento que hoje em dia vem de todos os cantos e de todas as pessoas, até aquelas que a gente acaba julgando não saberem de nada.

Ontem mesmo eu estava assistindo televisão e vi a história de uma menina que morreu após esperar muito tempo por um transplante de rim. Tirando o fato dessa história ser extremamente triste, principalmente por ela ser muito jovem - aliás, aproveito para acrescentar que pessoas muito jovens e idosos não deveriam NUNCA ter que passar por certos tipos de situação - tem também um lado muito bonito. Carol, a menina, já estava com a audição comprometida, então, com a ajuda do programa, pediu a doação de um aparelho auditivo, pois sua família não tinha condições de comprar um. Ela ganhou o aparelho, mas não parou por aí, pediu para que outras clínicas, que também estavam se disponibilizando a doar o aparelho, que doassem para outras pessoas que também estivessem tão necessitadas quanto ela.

Uma jovem, no auge de uma doença que ela sabia que poderia leva-la à morte, e levou, que não foi ajudada por pessoas que talvez pudessem doar um órgão para ela, pensou em ajudar tantas outras pessoas que ontem, após terem confirmado sua morte no programa, foram vistas recebendo seus aparelhos auditivos e tendo a oportunidade de uma vida melhor.

Eu amo artes, mas muito mais do que ensinar artes eu quero ser uma professora que ensina seus alunos a serem pessoas como essa Carol, que pensam no próximo, que ajudam quando podem. Não estou falando que todo mundo tem que comprar um aparelho auditivo para doar, ou tem que ser doador de órgãos mesmo não achando que essa é uma boa ideia. Eu to falando que as vezes a pessoa que está logo ao nosso lado está precisando apenas desabafar e a gente, muito ocupado com os nossos próprios afazeres, acaba virando as costas. 

Professores que dominam suas respectivas disciplinas e transmitem o que sabem para seus alunos, eu sei que tem aos montes. O que eu sinto falta são professores e pessoas interessadas em ensinarem os jovens a serem humanos!

Feliz dia do professor!


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segunda-feira, 14 de outubro de 2013

À NOSSA! >> André Ferrer

Um compilador do conhecimento. Trabalhou em Alexandria, na famosa biblioteca que virou cinzas. Euclides estava no centro do Universo e, afinal, soube tirar proveito. Em Os Elementos, o mais importante dos seus escritos, reuniu toda a Geometria conhecida. O livro influenciou diversas culturas ainda na antiguidade. Os árabes, por exemplo, descobriram a obra em torno do ano 760 d. C.

– Euclides, então, é uma homenagem ao sábio!

– Nada consta. Meu pai era fã do Euclides da Cunha.

– O corno...

– Maldade sua meu amigo... “Aquilo que pode ser afirmado sem provas também pode ser negado sem provas.”

Tais palavras eram de Euclides. O geômetra grego. Não o repórter de O Estado de São Paulo que cobriu Canudos.

Euclides bebeu a cerveja do seu copo. Apanhou o cigarro e franziu os olhos quando houve fumaça.

Ele repetiu:

– “Aquilo que pode ser afirmado sem provas também pode ser negado sem provas.” Euclides de Alexandria.

Prosseguiu:

– Sempre que leio ou escuto essas palavras do meu xará, penso na angústia daqueles doutores da Igreja. Agostinho, Tomás de Aquino, enfim, todos desesperados! Afinal de contas, era preciso arranjar todo um esquema de invenção de provas.

Euclides – o meu interlocutor – era bipolar.

Terminou de rir. Eu pedi outra cerveja. Ele voltou à melancolia. O pau quebrava perto de onde estávamos e o “Clidão” ali, passivo, irreconhecível, excessivamente preocupado consigo mesmo, ainda que lá dentro ele continuasse enforcando o último padre nas tripas do último imperador.

– O que foi agora?

– O tal exame de fundo de olho diz que o diabetes vai me cegar dentro de pouco tempo.

– Tenha fé – provoquei.

O velho anarquista sequer me xingou. Levantou os olhos para a TV logo acima da cabeça do dono do botequim.

– Onde estão agora?

– Perto. Sabe aquela agência bancária na frente do farol? Então, daqui a pouco, vamos ter que abaixar as portas. Puta que pariu!

Euclides ficou em pé. Tremeu. Era flexível e altivo como uma palmeira imperial. Quase disse isso para o velho, mas, em tempo, descobri o mau gosto. “Clidão” acendeu os grandes olhos azuis além da catarata e de camadas e mais camadas de pálpebras. Aquelas rugas bem como as chibatadas com que a polícia moldara aquele ser, imediatamente, comoveram-me. Sim. Eu sabia. Mas ainda assim perguntei:

– Aonde vai?  

– Eu preciso ver antes que seja tarde.

Enquanto Euclides dobrava a esquina, pensei nos doutores da Igreja e na infinidade de provas que se acumulava desde então.

No topo dessa montanha de "entulho teológico" está a fé das pessoas. Mas isso não é o problema. O problema está no desconhecimento da História e da existência da tal "fábrica de provas".

– À nossa “Clidão”!


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domingo, 13 de outubro de 2013

A ARTE DE FICAR À TOA >> Sílvia Tibo


Acordei sem inspiração alguma para a crônica de hoje. Talvez porque a semana tenha sido atribulada, o que significa que estive imersa em um milhão de coisas pra resolver e de obrigações a cumprir.  

Sempre que isso acontece, o resultado é o mesmo: as palavras desaparecem da minha mente e é um custo trazê-las de volta ao lugar de onde escapuliram.  

Por sorte, este foi um domingo leve. Desses em que não há nada pré-agendado. Como, aliás, deve ser um domingo verdadeiro e que se preze. 

Houve um tempo em que os domingos eram dias terríveis pra mim. Ao contrário de todo mundo, torcia para que eles não chegassem e, da mesma forma, vibrava assim que ouvia a despedida do Fantástico. 

É que, nessa época, meus domingos, na verdade, nada mais eram do que segundas ou terças-feiras disfarçadas. Como os demais dias da semana eram insuficientes para que eu cumprisse as mil e uma atividades a que eu havia me obrigado, o domingo era sempre o último dia que restava para concluir um trabalho da faculdade ou terminar a leitura do último capítulo de um livro jurídico essencial para que eu fosse bem num concurso que faria no mês seguinte, por exemplo. Isso quando ele não era integralmente consumido em aulas e aulas de cursinhos preparatórios. 

A partir de quando decidi fazer apenas aquilo que está ao alcance das minhas energias e reais aspirações (e, também, dos dias da semana), os domingos passaram a ser cada vez mais esperados, até se tornarem verdadeiros dias de descanso, cumprindo exatamente o papel que alguém um dia lhes conferiu. 

Desde então, tenho aproveitado cada minuto de cada domingo, para fazer exatamente (e apenas) aquilo que me dá vontade, a meu modo e no meu tempo. O que, em muitos casos, significa passar horas e horas em casa, sem fazer absolutamente nada. E como é bom não fazer nada, depois de uma semana em que se fez um pouco de tudo. 

Num mundo movido pela pressa, momentos de desaceleração são preciosos e essenciais. Aliás, desocupação nem sempre é sinônimo de preguiça. No final das contas, tinha razão o velho e conhecido pensador: são os ociosos que transformam o mundo, já que os outros não tem tempo algum. 


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A COMPANHIA DOS HOMENS >> Whisner Fraga

Fomos a um pet shop hoje. Nunca vi loja igual. Enorme, é um shopping devotado a artigos para todos os animais que dividem casa com humanos. Lá tem desde qualquer artigo para qualquer pet que imaginarmos, bem como tudo o que um gato ou cão precisa: de salão de beleza a farmácia e clínica veterinária. Caminhando pelo local, lendo orientações em embalagens, observando os peixes, os pássaros, um ramster, comecei a pensar em algumas frases que ouvi vida afora.

Uma delas é que em vez de acolher um pet, deveríamos adotar uma criança, já que há tanta passando fome. Poucas vezes ouvi um clichê desse naipe. Primeiro, quem disse que quem tem uma calopsita, na verdade queria ter era um bebê? Vamos lá, a questão do preço, só para começar a discussão: um gato ou cachorro custa, segundo especialistas, uns duzentos reais ao mês. Manter uma criança de quatro anos, filha de uma família de classe média, não sai por menos de um mil e quinhentos a dois mil reais nesse mesmo período. Convenhamos que são valores muito diferentes.

Desconsiderando essa questão financeira, já que todos alegam que quem tem um pet tem grana saindo pelos ralos, poderíamos pensar que um bebê requer algumas centenas de vezes mais atenção, cuidado e dedicação. Todos sabem que alguns animais são bastante independentes, o que está longe de acontecer com uma criança. Nesta mesma linha, se você tem um pet em casa e quer viajar, existem hotéis especializados, existem vizinhos dispostos a ajudar e assim por diante, mas com quem deixar a guarda um filho? Sim, há geralmente a família e pode-se recorrer a ela, mas o assunto rende pano para a manga.

Depois, há aqueles que já tiveram suas crias, já estão em outra fase da vida e desejam, nesta altura, a companhia de um animal. É mais comum do que supõem. Vamos tolhi-los, simplesmente porque existem muitas crianças passando fome? Ora, a questão da fome é muito mais complexa e passa pela injustiça desse capitalismo que apregoa e cultua o egoísmo e o egocentrismo. Vamos tolhi-los, simplesmente porque algum casal resolveu perpetrar sua irresponsabilidade em forma de um bebê, que nada tem a ver com a bagunça alheia e foi lançada em alguma calçada para aprender a respirar sozinha?

Por fim, o ponto mais chato dessa história: muita gente não quer mais a companhia de mais gente dentro de casa. O homem não anda bem, anda falso, egoísta (como disse no parágrafo anterior), mal-educado, belicoso, prepotente, mau, injusto e por aí vai. Dá gosto verificar a lealdade de um cão – coisa rara na espécie humana. Dá gosto ver a sinceridade felina – quase um milagre no ser-humano. Posso até ser acusado de pessimista (e até darei certa razão aos acusadores), mas está complicado defender o mundo de hoje. Está cada vez mais complicado defender uma criança no meio dessa sociedade consumista e armada. Por isso não acuso ninguém que prefere a companhia de um animal.

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sexta-feira, 11 de outubro de 2013

O ESTRATAGEMA - PARTE I >> Zoraya Cesar

Depois de muito esforço e de concordar em pagar uma boa pensão,  Lucio finalmente conseguiu que Violeta saísse de casa, assinasse a separação e parasse de aborrecê-lo com seus recados carinhosos, seus emails, presentinhos, bilhetes, declarações de amor. Violeta era um grude, já entrara na meia idade e Lucio não a agüentava mais. 

Em menos de dois anos ele se apaixonou novamente e - tem homem que não consegue ficar sozinho - casou com a meiga, compreensiva e loura Cristiny. Alguns dias após a cerimônia, chegou o primeiro sinal de que Violeta não murchara nem fenecera na poeira do tempo. O presente de casamento foi parar diretamente nas mãos de nova esposa, acompanhado de um cartão gentil e meloso, e Lucio se preparou para a grande cena de ciúmes. Suou frio.

Cristiny, no entanto, teve uma reação totalmente inesperada: achou tudo muito civilizado e delicado da parte de Violeta e colocou o presente na sala. Lucio só faltou chorar de alívio, finalmente encontrara uma mulher sensata (Caros Leitores, não se zanguem comigo, essa é a opinião dele). 

Violeta continuou a dar sinais de vida. De tempos em tempos, em intervalos cada vez mais curtos, escrevia cartas a Cristiny, como se fossem velhas amigas, contando pequenos segredos e intimidades de Lucio (“nunca lhe ofereça chá, ele diz que é coisa de doente; quando ele acordar mal humorado, nem chegue perto; ele ‘funciona’ melhor de manhã...”), e falava de seus próprios erros, alertando Cristiny que não os repetisse... Lucio ficava louco de ódio, mas a esposa achava interessante alguém ainda usar cartas e disse entender a posição de Violeta, afinal, era difícil se conformar em perder um homem como ele. 

Lucio começou a ficar realmente exaltado quando passou a receber mensagens de Violeta em seu email particular, ao qual pouquíssimas pessoas tinham acesso. As mensagens, carinhosas, lembravam os velhos tempos, incluíam detalhes picantes e recordações românticas. Aquela mulher não tinha noção? Estava querendo destruir seu casamento, isso era óbvio. Até onde iria a tolerância de Cristiny com os desvarios da ex-mulher? Desativou seu email, trocando-o por outro. As mensagens continuaram chegando, misteriosamente, quase lhe causando um ataque de nervos, pois, por mais que pesquisasse, não conseguia rastrear o paradeiro de Violeta. 

A coisa toda foi tomando proporções maiores, Violeta agora mandava presentes, todos relacionados às coisas que faziam enquanto casados. DVDs dos filmes que assistiram juntos e que ele gostara; lançamentos dos autores que ele admirava; até uma geléia de limão italiana que ele adorava, caríssima (“não reparem, encontrei numa promoção, não pude deixar de lembrar o tempo de vacas magras, quando tínhamos de dividir um milk-shake”). Lucio tinha tremores de ódio com a intrusão inconveniente, mas Cristiny continuava tranquila, e ainda brincava, Amor, não sabia que você era fã de Piratas do Caribe, vamos ver juntinhos? 

Ele não achava a mínima graça, conhecia Violeta, devia estar armando alguma. A essa altura, vocês devem estar se perguntando por que Lucio não procurou a polícia ou um advogado para dar um fim à perseguição. A verdade é que, enquanto estavam casados, Lucio se envolveu em algumas falcatruas pesadas, e Violeta de tudo sabia. E se vocês me perguntarem por que uma mulher possessiva como Violeta não denunciou o marido, movida pela dor de cotovelo, eu não saberia responder. Talvez ela não quisesse perder a pensão. Talvez o amasse de verdade. Quem sabe? 

Mais algumas semanas se passaram até que Lucio resolveu dar um basta naquilo por conta própria e, respondendo a um dos emails de Violeta, pediu um encontro. Lucio tinha um plano. E uma arma não registrada. 

No dia marcado, às nove horas da noite, ele subiu as escadas apodrecidas de um prédio velho e mal cuidado, num subúrbio distante, sem porteiro, sem vigilância. Um lugar tão pobre que nem traficantes havia. Paredes pichadas, cheiro de gordura e comida velha, sons de televisão no último volume, vozes iradas, crianças chorando. Uma pocilga. Como Violeta podia estar morando ali, com o dinheiro que recebia da pensão? Mas ela podia morar no inferno se quisesse, desde que o deixasse em paz. 

A porta estava aberta. Ele entrou cautelosamente e encontrou Violeta estendida num sofá velho e rasgado, cercada de bebida e comprimidos. A louca, lembrou Lucio, é diabética, não podia beber. Violeta respirava com dificuldade, os olhos fechados. Ele se aproximou um pouco mais e pensou em todos os segredos que a destemperada guardava, no perigo que representava à sua carreira e ao seu novo casamento. Se um dia ela enlouquecesse de vez e abrisse a boca... Lucio pegou uma das almofada jogadas ao chão e fez que nem nos filmes de bandidos, encostou-a no peito de Violeta e atirou, uma única vez, no coração. 

Saiu com a almofada debaixo do braço e teve o cuidado de não tocar em nada. Olhou para os lados enquanto se dirigia para a motocicleta, mas não havia ninguém – não que ele visse. 

CONTINUA NO DIA 25 DE OUTUBRO,  A PARTIR DAS 10H.


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quinta-feira, 10 de outubro de 2013

GRACIAS, ATACAMA >> Fernanda Pinho



Nunca tive um desejo particular por conhecer o Atacama até vir morar no Chile, quando comecei a olhar com mais atenção para o sul gélido e para o norte árido do país. A realização do desejo de subir ao deserto, no entanto, só aconteceu há duas semanas.

Desembarcamos no aeroporto da cidade de Calama numa sexta-feira, às oito da manhã, depois de duas horas de voo, saindo de Santiago.  De Calama, tomamos um transfer até San Pedro de Atacama. No percurso de pouco mais de uma hora, apenas uma sensação: a de que eu estava no meio do nada. De um lado e do outro da estrada, apenas uma imensidão de um nada arenoso, vez ou outra interrompida por geradores de energia eólica. Começou bem. Era exatamente o que eu esperava de uma viagem ao deserto.

A chegada ao hotel foi uma grata surpresa. Além do local ser encantador, fomos extremamente bem recebidos. O povo do norte do Chile nos marcou com uma excelente primeira impressão, que ficou. Mas a viagem era curta. E embora recarregar as energias também estivesse no plano, tínhamos que aproveitar. Conhecer o povoado de San Pedro do Atacama era nossa primeira missão. Missão que, dado o tamanho do povoado, poderia ser cumprida em dez minutos. Mas correria era palavra proibida naquele fim de semana e havia muito o que apreciar. As casinhas feitas de adobe, a igreja branquinha reluzindo no cenário cor de terra, o vulcão Licancabur nos olhando lá de longe, os cachorros, os tantos cachorros enormes e peludos que renderam à cidade o simpático apelido de San Perro de Atacama. E o céu, outra imensidão que nos engoliu. Nós, tão pouco acostumados a estar num local onde praticamente nenhuma construção ultrapassa os três metros e meio de altura.

Nessa primeira volta de reconhecimento, almoçamos – sendo que a fome foi o único critério para a escolha do restaurante – e fechamos um pacote turístico para mais tarde: Valle de La Luna e Valle de la Muerte.

A chegada ao Valle de la Muerte é relativamente tranquila e de assustadora só tem o nome. Para o Valle de la Luna já é um pouco mais complicado. Ou talvez tenha sido complicado para  nós, duas pessoas em estado atual de sedentarismo e com 1.80 metro de altura. Desbravar os terrenos íngremes nem foi o mais puxado. Difícil  e inesperado foi ter que passar pelas cavernas de sal que, em algumas partes, tem menos de um metro de altura. Mas, olha, só me resta recorrer ao velho clichê: valeu a pena. As paisagens que apreciamos nesses passeios são de outro mundo. Literalmente. O Valle da Luna é o ambiente terrestre mais parecido com Marte e, por isso mesmo, frequentemente utilizado pela Nasa para experimentos . Ali apreciamos o espetáculo de cores do pôr-do-sol mais famoso do norte do Chile e voltamos para San Pedro com aquela sensação plena de “será que eu mereço tudo isso mesmo?”.

Encerramos aquele primeiro dia apreciando uma saborosíssima pizza feita em forno de barro, como não poderia deixar de ser. Por falar em comida, ser mais criteriosos para o restaurante do almoço no dia seguinte também estava entre os planos. Como estávamos com mais tempo livre na manhã de sábado, caminhamos até encontrar um restaurante que combinasse com nosso estado de espírito atual. Encontramos um de comida natural que nos convenceu, inclusive, a voltar no dia seguinte.

Para a tarde de sábado, tínhamos agendado com a mesma agência do dia anterior o programa mais esperado por mim: a Laguna Cejar. Eu estava empolgadíssima com a possibilidade de flutuar na lagoa que tem altíssima concentração de sal. Tanto que, mesmo a água sendo a mais gelada da vida, me joguei. Me joguei na medida do possível, pois a gente flutua mesmo! Não bastasse essa sensação ímpar e essa limpeza da alma, o cenário é deslumbrante. Os tons de azul de todas as lagoas incluídas nesse passeio, entre lagoas doces e salgadas, são de deixar até os mais brutos arrepiados. Para arrematar, um brinde de pisco sour diante de mais um pôr-do-sol inesquecível. Mais chileno impossível.

O fim da noite, porém, ainda reservava mais. Quando chegamos de volta a San Pedro de Atacama – lembrando que todos os passeios ficam a poucos quilômetros do povoado – a pequena cidade estava sem luz. O jeito foi jantar à luz de uma bela fogueira escutando a psicodelia de um grupo local chamado Cangrejos Ancestrales.


No domingo, já completamente relaxados, decidimos nos livrar de horários e agências e desfrutar: da oportunidade de pedalar por uma cidadezinha tão gostosa, da feirinha de artesanato local (sempre tem uma, para minha alegria!), do nosso já eleito restaurante preferido da cidade e, principalmente, do prazer de dividir uma experiência tão mágica com uma pessoa que você ama. Gratidão eterna.

Mais fotos AQUI.


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