quarta-feira, 29 de maio de 2013

O TOM >> Carla Dias >>


A vida é assim...




Quando menos esperamos, faz com que esbarremos em uma situação, ou encontremos pessoas que, ainda que estejamos no nosso momento mais egocêntrico, diminuto no quesito gentileza, despertam-nos para um cenário inexplorado por nós, mas que certamente carece da atenção, até mesmo, ou talvez principalmente, dos distraídos de plantão.

Hoje eu teria vários assuntos para alimentar esta crônica: corre-corre danado no trabalho, problemas para me comunicar com os atendentes de clientes do plano de saúde, desejo gritante por cappuccino e pão de queijo, os episódios finais de temporada das minhas séries preferidas, receber a notícia de que talvez a Dave Matthews Band se apresente no Brasil, em dezembro.

Acontece que, ontem à noite, às voltas com a minha insônia de estimação, e passeando pela internet, li um post de um amigo de um amigo, de quem conheço um pouco do trabalho como compositor e cantor. O post, por si só, já me comoveu e me fez pensar em poesia. Porque eu tenho dessa... Vou poetizando tudo que me toca a alma. Mas então, ainda tinha o vídeo, e ao assisti-lo, adotei, afetivamente, o Tom. Permiti-me envolver, dessa vez sem distrações, pela jornada do menino e daqueles que o amam.De todos os Toms e de todos aqueles que os amam.

Porque brincar de esconde-esconde é coisa pra pessoa de coragem. Sabe como? Não, é quando... Sabe quando? Quando a brincadeira é a delícia do dia, do nosso dia de infância. Ou quando adultos, e nos divertimos ao vermos as nossas crianças se esbaldarem na brincadeira, misturando o prazer que sentimos ao vê-las felizes às lembranças de nós mesmos sendo felizes há tantos anos que parecem décadas. Mas e quando a brincadeira brinca de esconde-esconde, de jeito que a criança não consegue agarrá-la? Então, o quando do adulto se sintoniza novamente ao quando da criança, e a brincadeira volta, mas desta vez como uma conquista, uma alegria daquelas.

Tom é um menino autista de três anos. No post sobre o qual falei, seu pai contava sobre a grande alegria de, por dois dias consecutivos, brincar de esconde-esconde com ele. E de como era gratificante conectar-se ao filho, e apreciar suas gargalhadas, os olhos nos olhos. O simples que é de imensa importância.

O vídeo traz um olhar muito especial sobre como somente com o diagnóstico e a intervenção precoces essas crianças podem evoluir e ter um futuro. Além do alerta, do aprendizado do qual qualquer um pode usufruir ao assistir ao vídeo, há essa bela declaração de amor ao Tom, e a celebração de todos os semitons que permeiam a sua existência.

Então, a minha crônica foi tomada pelo desejo de que o Tom e seu pai brinquem mais vezes de esconde-esconde, que possam trocar olhares como se fosse uma longa conversa, e que gargalhem juntos, feito uma canção. Das preferidas, claro.




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terça-feira, 28 de maio de 2013

EU FARIA ISSO? >> Clara Braga


Outro dia estava conversando com uns amigos e um deles contou sobre um lugar, não me lembro qual, no qual as pessoas quando chegam cedo no trabalho, estacionam distante da entrada, afinal, chegaram cedo, têm tempo para caminhar tranquilamente e chegar sem pressa. Dessa forma, as vagas próximas da entrada ficam vazias para as pessoas que chegam atrasadas, então elas estacionam perto e não precisam caminhar muito, apenas entram e já começam a trabalhar.

Claro que o comentário geral foi: nunca que isso aconteceria aqui em Brasília. Poderia até acontecer em algum lugar no Brasil, mas em Brasília, que já não tem vaga em lugar nenhum e você tem que improvisar estacionamentos? Jamáis!

Realmente, tá difícil algo do tipo acontecer por aqui, mas eu fiquei pensando que a gente tem mania de dizer que seria ótimo se algo desse tipo acontecesse, mas nunca vai acontecer, mas não pensamos no porque esse algo nunca aconteceria. O que precisamos mudar para que isso aconteça? Nós podemos fazer nossa parte?

A primeira pergunta que temos que nos fazer é: nós estaríamos dispostos a parar distante pelo conforto do outro? Sejamos sinceros, a maioria de nós não está e os motivos são os mais diversos, e nem sempre estão ligados a grande questão do egoísmo que já tomou conta de nós! No meu trabalho, por exemplo, quem estaciona longe tem que parar no barro. Não só o carro fica imundo como o caminho que você percorre a pé até a porta do prédio também é de barro, o que faz com que muitas vezes você chegue com o pé e com a barra da calça toda suja.

Tudo bem, alguns podem achar que esse primeiro motivo é um tanto fútil, então vamos seguir para o próximo. Falta de segurança nos estacionamentos distantes! Muitas vezes esses estacionamentos são isolados, improvisados e sem luz. Mais uma vez utilizando o meu trabalho como exemplo, dois colegas que estacionaram o carro no estacionamento mais distante foram vítimas de roubo. Um deles teve o porta-malas do carro aberto e levaram o step, e o outro encontrou o carro no chão, sem as quatro rodas. Isso sem falar dos roubos de som. E nem pensem que colocar um som ruim vai adiantar alguma coisa, minha tia uma vez trocou o rádio com CD pelo toca fitas para não ser roubada e... surpresa! Foi roubada da mesma forma!

Outra questão importante é: em uma cultura como a brasileira, na qual estamos acostumados a marcar um evento para às 20h porque sabemos que as pessoas só vão chegar às 21h, como definir quem chegou cedo e quem está atrasado? Somos todos, de forma generalizada, um monte de atrasados, a verdade é que precisaríamos de um estacionamento gigante de vagas próximas! E chegaríamos todos mais ou menos na mesma hora, correndo esbaforidos! Para nossa sorte existe cinema em Brasília, o único evento que ainda começa na hora e nos faz lembrar de olhar para o relógio!

Percebem? Muita coisa ainda precisa mudar para começarmos a estacionar longe em prol do conforto de alguém. Infelizmente, hoje em dia, o conforto do outro pode significar um grande perigo para você.

Ah, mas vale ressaltar que isso não é desculpa para que comecem a usar as vagas de deficientes e idosos por ai hein, pelo amor de deus, ai já é questão de educação! 


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segunda-feira, 27 de maio de 2013

AMÊNDOAS DOCES (CONTINUAÇÃO) >> André Ferrer

A primeira parte foi publicada em 13/05/2013. ACESSE. Boa leitura!

Diante da janela, tendo desejado que o sol perfurasse as densas e escuras nuvens exatamente como acontecia, Dolores Pilar se lembrou de que todas as mulheres da sua família descendiam de uma personalidade natural da Espanha, uma velha bruxa moura nascida no califado andaluz de Granada, último reduto árabe na Europa. Feliz, Dolores Pilar repetia consigo mesma: “Eu consegui!” Triunfante, concluiu que cada uma das peças necessárias tinham sido movimentadas com regularidade e perfeição. Inclusive a chuva que, a princípio, ela julgara um imprevisto, acabou se transformando no toque especial de toda a história; sem a chuva, o visitante ficaria na empresa, retido pelo verdadeiro cão de guarda que era Vilma, a esposa.

Dolores Pilar tinha conseguido.

Antes de acordar, ela já sabia. Todas as medidas a serem tomadas eram do seu pleno conhecimento e a manipulação dos elementos que a cercavam, enfim, tinha funcionado. Cada passo na rua e no térreo, no salão do café, deixava-a ciente do mundo a ser induzido. Enquanto acordava, cada movimento lá fora e lá embaixo possibilitava que Dolores Pilar respondesse da maneira mais adequada à perfeita indução do mundo. Enfim, cada uma das peças tinha o seu tempo e lugar. Às dez para as oito, a sirene da troca de turno tocou do outro lado da rua. Ela sabia que a empregada e o novo ajudante logo estariam apurados no serviço do desjejum dos operários da Fundição Ribamar. Havia fregueses no balcão e nas mesas. Lígia tilintava louças na pia. Cláudio, pouco à vontade ainda, abria e fechava a portinhola rangedora da cozinha. Trocara o trabalho em frente, na fundição, pelo café sempre movimentado e pela massagem na patroa nos dias em que ela estivesse com a coluna travada e não aparecesse cheia de ordens logo de manhã. Exatamente como naquele dia frio e chuvoso; dia de inegável triunfo, aliás, para a tão humilhada Dolores Pilar! Exatamente! Conforme a patroa e suas queixas de artrose preparavam gradativamente, peça por peça, nos últimos dias, o novo ajudante subiria para aplicar a massagem com bastante óleo e vigor. A visita, sempre pontual, encontraria então o jovem sobre um dorso nu e besuntado de mulher. Tinha conseguido. A chuva e a tristeza expulsadas da fundição e das casas. Sobre os telhados, a luminosidade mais quente e merecida.

Lá de cima, ela percebeu quando os ombros escuros de Ribamar apareceram. Jamais se acostumaria com a imagem daquele homem atravessando a rua para voltar apenas uma vez por mês só pela obrigação de levar o dinheiro. Na época dela, quando Maria era pequena, o homem, que também era mais novo, retornava inúmeras vezes por dia para um lar feliz e completo. A fundição instalada no outro lado da rua não passava de uma modesta serralheria.

Logo atrás, apareceu Cláudio. Aonde iria o rapagão? Ela gostava particularmente dos braços. Ainda que parecessem desengonçados, àquela distância, a se enroscarem no guarda-chuva fechado. Enquanto isso, à direita, na frente do escritório da fundição, Vilma esperava Ribamar; as duas mãos aplicadas na cintura, batia os pezinhos numa possa d'água. Depois, ela disse alguma coisa chorosa, enlaçou o empresário que chegava e arrastou-o até o carro. “Inacreditável!”, disse Dolores Pilar na janela. Simplesmente não acreditava na tolerância daquele homem em relação ao controle exercido pela segunda esposa. Bem feito! A chuva, por sorte, atrasara Vilma nos afazeres domésticos na mansão que Ribamar construíra depois do divórcio. Casa elegante, localizada longe daquele bairro industrial. Tão logo a serralheria cresceu e se transformou em fundição, Ribamar planejou e construiu a casa dos seus sonhos num bairro nobre. Uma vez por mês, Vilma tentava impedi-lo de ir pessoalmente entregar o dinheiro da mensalidade de Maria. Inventava obrigações e passeios. Persuadia-o a enviar um mensageiro.

Vendo o carro partir, o corpo inteiro de Dolores Pilar ganhou severidade. Todas as articulações doíam. Sisuda, ela resmungou: “Vão passar o dia no campo?! É o quê veremos! É o quê veremos!”

Dolores Pilar tinha ficado muito tempo em pé, diante da janela, enrolada na toalha. Vendo o carro dobrar a esquina, lembrou-se de um tipo de boato reincidente no balcão e nas mesas do seu café. Uma das operárias amiga de Vilma tinha contado a sua empregada Lígia sobre os passeios que o casal vivia fazendo na zona rural a fim de encontrar uma chacarinha com piscina e pomar. Conversas assim, todo santo dia, era demais! Tinha suportado muito por muito tempo! Dolores Pilar achava que adiara demais a reanimação daquele poder ancestral.

“Eu devia ter começado há muito tempo!”, disse a mulher enquanto se afastava da janela.

Sentada na cama, fixou os olhos numa nesga de nuvem negra que logo se juntou a outra, também negra e pequena, e a mais outra e a outra e a outra construindo, assim, uma grande e carregada sombra.

“Cláudio fez muito bem de ter levado um guarda-chuva.”


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domingo, 26 de maio de 2013

O VALOR DAS COISAS >> Whisner Fraga

Uma mulher que caminha de saltos altos em seu apartamento, incomodando o morador do andar de baixo. Um senhor que briga muito com a esposa, acordando a criança no quarto de cima. Isso tudo em um prédio de classe média-alta de uma cidade na grande São Paulo. A história acaba assim: dois assassinatos e um suicídio e um bebê de um ano e meio chorando sem ter ideia do que acontecera.

Um rapaz vem do curso noturno que frequenta em uma universidade. Está perto de casa e fala ao celular. De repente um homem de capacete se aproxima e lhe pede o telefone. Ele entrega o aparelho e logo em seguida leva um tiro fatal. A moto está aguardando o criminoso, que foge calmamente da cena, certo da impunidade.

Fatos assim são rotina nas grandes capitais: São Paulo registra dez latrocínios todos os dias. Os motivos, muitas vezes, são banais. “Um dia de fúria”, comenta o delegado a respeito do primeiro caso. Diante das notícias que fazem o prazer dos jornalistas, temos medo de sair de casa. Na rua Guyanazes, depois das nove da noite é possível testemunhar o vaivém de centenas de viciados, que tomam a rua e andam daqui prali abraçados a seus cobertores, como se fossem zumbis esperando a chegada da próxima pedra de crack.

Outro dia a novidade: a droga chega aos canaviais. Cortadores de cana se entorpecem para suportar o dia de trabalho e os capatazes aceitam calados. Se proibirem o uso, correm o risco de perder o funcionário. E as usinas não podem dispensar esse tipo de trabalhador. São Paulo se tornou uma cracolândia: não há um quarteirão da cidade que não tenha sua dúzia de viciados. Não vou fazer o papel de moralista, porque ele não me cabe. Cada um sabe o que faz de seu corpo. Mas há o velho ditado: o seu direito acaba onde começa o meu.

O problema é que a droga não é de graça e nem sempre o viciado consegue trabalho para saciar sua vontade. O resultado todo mundo sabe: ele vai para o crime. A vida, já disse outras vezes,  não vale uma picada de fumo. Não posso afirmar que em outras épocas tenha tido um valor maior, uma vez que o ser-humano é isso mesmo: um depósito de egoísmo e perversidade, salvo, evidentemente, raras exceções.

É mentira quando dizem que estamos vivendo uma guerra civil. Porque, quando há batalhas, ficamos sabendo. E mais: os uniformes nos entregam os times. Podemos discernir de que lado estamos e fugir do inimigo. Mas e hoje? Quem é o inimigo? Há, realmente um ou as coisas estão acontecendo tão aleatoriamente que não podemos mais explicar quase nada?

Tenho minhas teorias, mas não acho que caibam em uma crônica. Este pequeno texto é só para denunciar a minha inquietação e serve como um desabafo, um depoimento sobre um companheiro que me acompanha há mais de quarenta anos: o medo. Vivemos a era do medo, ele nunca foi tão poderoso, tão onipotente e onipresente. A certeza é que quanto menos vale a vida mais temos receio da morte.

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sexta-feira, 24 de maio de 2013

ERRO DE CÁLCULO >> Zoraya Cesar

Cidinha era apaixonada pelo patrão - assim como todas as demais empregadas da firma, que sonhavam em conquistar Dr. Roberto, com seus ombros largos, sua voz profunda e grave, um sorriso de anúncio de pasta de dentes. Caráter, esse ninguém conhecia direito. Se comia de boca aberta, se tomava banho todos os dias, se atropelava ciclistas, se jogava lixo no chão, ninguém sabia. Mas que era rico, bonito e mais importante que tudo, solteiro, ah, isso todo mundo sabia. 

Ela sonhava com o dia em que o Dr. Roberto a convidaria para ir à sua sala e a tomaria em seus braços, declarando-se perdidamente enamorado. Mas Cidinha tinha noção de que o chefe era muita areia pro seu caminhãozinho. Aliás, ninguém ali, em sua opinião, teria condições de amolecer o coração dele; nem mesmo a gerente, D. Sonia, que, apesar de fina e elegante, de falar línguas e ter o 3º grau completo, já passara há algum tempo dos 40 e usava óculos, estava fora do jogo. E Cidinha, definitivamente, não queria ficar solteirona como a pobre da D. Sonia.

Pragmática, deu as costas às fantasias e mirou no contador-chefe, Jefferson, uma figura deveras desinteressante aos olhos dos colegas, mas que tinha uma carreira sólida e ganhava muito bem. Sempre sério, era totalmente diferente do animado e alegre Dr. Roberto. A vida ao lado do insosso Jefferson iria mesmo ser muito sem graça, suspirava Cidinha, mas o importante era casar. Não adianta me perguntarem o porquê dessa fixação de Cidinha em casar a qualquer custo, aliás, isso é da conta dela, não da nossa, que somos muito enxeridos. Ela queria casar, e o pálido, tímido e desenxabido contador-chefe, no qual ninguém prestava muita atenção, era um alvo possível.

E Cidinha, bonitinha, espevitadinha e casadoira, deu início à campanha, denominada, entre as amigas, de “caça ao chuchu”, de tão sem graça era o coitado do Jefferson. E tanto fez que fez que, em pouco tempo, marcaram um encontro, só os dois.

Mas, paixão é paixão, e, numa terça-feira chuvosa, antes que o encontro se concretizasse, Cidinha caiu em tentação e aceitou o convite do Dr. Roberto para assistir um vídeo da escalada que ele fizera no Chile. Depois do expediente, obviamente. Cidinha quase desmaiou de excitação. Claro que iria. Mas como, sem despertar suspeitas?

Ao final do expediente, Cidinha desceu junto com todo mundo, mas, alegando ter esquecido o guarda-chuva, despediu-se de Jefferson, e voltou, o coração na boca. E já encontrou o Dr. Roberto a esperá-la, sem gravata, sem paletó, sem blusa e... sem calças! Não era bem assim que ela sonhara o primeiro encontro, mas, pensou, o importante era que Dr. Roberto a queria. O sorriso reluzente dele desfez os últimos resquícios de pensamento coerente de Cidinha, que acedeu ao apelo físico e foi em frente.

E, surpreendentemente, se ele gostou da experiência, o mesmo não se pode dizer de Cidinha, que, além de decepcionada com a falta de romantismo, achou Dr. Roberto mais entediante que horário eleitoral. E, digamos, não muito bem dotado, se é que vocês me entendem... Pior, no dia seguinte, o ocorrido ficou tão evidente, que Cidinha se viu obrigada a abrir o jogo com Jefferson, terminando qualquer possibilidade de namoro, quanto mais de casamento.

E com Dr. Roberto, como ficou? Na verdade, ele só queria uma carne macia e um ouvido atento, que acolhessem suas intermináveis viagens ao redor do próprio umbigo. Tão indiferente era Dr. Roberto ao bem estar de Cidinha que, alguns dias depois, ele foi embora sem nem mesmo perguntar se ela queria uma carona. E chovia...

Cidinha voltou para casa arrasada, decidida a acabar com aquela situação. Daquele mato, concluiu, não sairia nem pulga, quanto mais cachorro. E, quem não tem cão, caça contador-chefe. Voltou a procurar Jefferson, dizendo-se arrependida e querendo uma nova chance. Achava-o, agora, até interessante. Ouvira, um dia, D. Sonia dizer que ele era um cavalheiro, atencioso, e muito culto. E que atrás daquela reserva toda havia um homem decidido e auto-confiante, era faixa preta em caratê, quem diria?

Jefferson tentou interrompê-la, mas ela não deixou, verborrágica, ansiosa por reconquistar o território perdido. Confiava muito em seu poder de sedução, era a mulher mais bonita da firma (não à toa, pensava, o intragável Dr. Roberto se aproximara). Quando ela terminou, Jefferson, generosamente, disse que não havia o que perdoar, mas que reatar seria impossível, ele estava comprometido. Como?, engasgou Cidinha, com quem?

D. Sonia, respondeu ele, singelamente, com um brilho apaixonado no olhar.


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quinta-feira, 23 de maio de 2013

SOBRE AMAR O MAR >> Fernanda Pinho



Eu não sei quando eu me dei conta de que amava o oceano Atlântico. Mas arrisco dizer que o amor veio no DNA, já que tanto meu pai quanto minha mãe são apaixonados pelos mar (a ponto de quando eu era pequena acreditar piamente que nas madrugadas das férias de verão minha mãe virava sereia).

Não é espantoso, portanto, que eu sempre tenha sido tão devotada a essa imensidão azul. Eu amo mergulhar no mar, dentro das minhas possibilidades de quem nunca aprendeu a nadar. Amo o cheiro salgado do mar e o sal impregnado na pele após o mergulho. Amo a eletricidade que percorre o corpo após o primeiro toque de uma maré nos meus pés. Amo olhar para o mar, de preferência à tarde quando está tudo quente e dourado e meu único compromisso é navegar pelas minhas ideias.  Amo a vibração alegre e relaxante que o Atlântico estende sobre as cidades que têm o privilégio de serem banhadas por ele.

Amo e estou me sentindo culpada. É que depois de quase três décadas desse amor exclusivo acho que estou amando o Pacífico também. É verdade que já rolava um flerte desde que eu o conheci. Mas eu vinha me mantendo na defensiva. Como se permitir a um amor que não faz a menor questão de disfarçar seus perigos? Me sentia acuada quando ao concluir minha observação panorâmica de uma praia eu descansava minha vista numa placa com alerta de tsunami. 

Mas o amor sempre teve essa relação louca com o perigo. Quanto mais você se afasta, mais você se aproxima. Quanto mais tentava menosprezar minha relação com o mar do lado de cá, mais eu me perdia nessa personalidade intrigante. Como pode ser tão sereno, ter um azul tão royal, atrair as aves mais lindos que eu já vi e, de uma hora pra outra, se revoltar como que para provar que de pacífico só tem o nome?


Intrigante e apaixonante. E eu me dei conta de que estava irremediavelmente apaixonada ao observá-lo numa tarde. Mais pra cinza que dourada. Mais pra fria do que quente. Não de um quiosque, mas de um café. Não escutando uma música baiana boa ou ruim, mas o crepitar das chamas de uma lareira. Não tomando água de coco, mas uma xícara de chocolate quente. Amo com um amor fresco e saboroso, como os mariscos que só dão aqui. Um amor hipnótico e entorpecente, como o sono que pesa sobre meus olhos cada vez que me aproximo. Um amor não-correspondido e platônico, já que ele faz questão de se apresentar da forma mais gélida possível, para que eu não ouse dar um mergulho sequer.  E isso, de certa forma, apesar de frustrante, alivia minha culpa. Pois quando eu voltar a mergulhar no Atlântico ele saberá que continua sendo o único a possuir meu corpo.


Fotos: Osvaldo Castro, em Valparaíso e Algarrobo (Chile)


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quarta-feira, 22 de maio de 2013

DO COMEÇO AO FIM DE NÓS >> Carla Dias >>


Começa simples, ainda na infância das emoções, quando as brincadeiras são realmente divertidas, porque a nossa capacidade de dialogar com o sorriso ainda não está presa às amarras dos acontecimentos da vida adulta, e ele acontece quando quer. Não que, com o tempo, tenhamos de perdê-la de vez, essa percepção que nos permite sorrir porque é bom, brincar porque o corpo tem de se divertir para alegrar a alma. É apenas uma questão da vida que acontece: na infância as emoções são soltas, permite-nos a ousadia espontânea, até mesmo a ousadia de amar sem julgar. E antes de nos apresentar às prisões da vida adulta, elas nos ensinam a arquivar sensações para que, quando nos faltar vocabulário emocional, revisitemos o início de nós mesmos e nos reconheçamos capazes de mais gentilezas do que andamos distribuindo.


Então, transforma-se... Transforma-nos a partir do nosso olhar. Sentimos o que enxergamos, mas nem sempre o olhar desnuda verdades. Às vezes, o olhar pinta por cima da verdade, como se lhe vestisse em panos capazes de servirem ao momento: que seja máscara, rede de proteção, lençol sobre a cama, agasalho, que seja abraço, que seja. Desejamos e nem sabemos o que, mas o fazemos como se tudo dependesse desse sentimento estrangeiro, que rouba a nossa capacidade de definir, de nos orientar, que nos tira o chão e nos oferece precipícios. E a vida segue, alimentando-nos com urgências, com questionamentos, amplificando esse grito interno que reivindica a compreensão sobre a própria existência. Em meio a esse emaranhado de emoções, lapida-se esse sentir, esse farol a iluminar encantos, esse lugar nenhum na escuridão.


Daí que nos escondemos dele, mergulhando em uma segurança falseada, vivendo como se nada pudesse atrapalhar os nossos planos. Conquistando espaço, cargo, rotina, rótulos, aprendendo o jogo, situando-nos na organização necessária para manter a alma em silêncio, porque a alma fala demais quando queremos é colocar ordem na vida. E nos nos à solidão assistida, adotamos frases feitas como aprendizado divino. Graduamo-nos em sabedoria de botequim para tratarmos importâncias, comungamos com o voluntariado de ocasião e nos entregamos ao convencimento de que a falta que sentimos pode ser preenchida ao gosto do freguês que somos da existência. Só que não... A vida, na sua sabedoria - que não é regada à happy hours e bônus, tampouco a promoções -, na legitimidade do seu poder, entorta-nos, até percebemos a fragilidade de quem somos. A necessidade de o sentirmos.


Assim, retrocedemos, procuramos abrigo no ventre do desconhecido. Aquecemos o coração com abraços imaginados, porque a vontade é de encontrar um lar que não seja na rua tal, número aquele, no bairro assim. O lar que desejamos vai além das paredes das casas, não é firmado em chão, sobe ao telhado para beber da chuva. Ele nos abriga inteiros, da cabeça aos pés, dos erros aos acertos. E quando nos observamos nesse momento, doendo isso, celebrando aquilo, nem sempre meio a meio, sentimos a saudade do começo de quem fomos, da criança que sorria, que ousava com graça e leveza.


Apossa-se de nós, às vezes escravizando, em outras libertando. Tudo o que tínhamos por certo é desacertado com o intuito de nos fazer desanuviar os olhos da alma, para enxergarmos a beleza que se esbalda nas diferenças. Passamos a perceber detalhes: cabelos revoluteados pelo vento, pés intranquilos sobre o sofá, o perfume, o gesto de carinho, a presença nos momentos importantes. O nome soando em outra voz, a capacidade tamanha de cometer o prazer: ancas dançando ao som da respiração em dueto. Mãos a tatearem a forma do sentimento, em um desejo indiscreto de descobrir labirintos e libertar suspiros. 


Às vezes, ele acaba, nem sempre nasce. Há quem saiba correspondê-lo e aqueles que ainda estão aprendendo a fazê-lo. Às vezes, ele acaba no muro da cidade, enfeitando o desejo secreto de muitos em experimentá-lo, em outras, nos direitos entoados por líderes que defendem os direitos daqueles aos quais é permitido o cumprimento somente dos deveres.


O amor é tapete estendido do começo de quem somos ao fim de quem nos tornamos.

Imagens © Aninha Apolinário: contatohumano.blogspot.com.br

carladias.com

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terça-feira, 21 de maio de 2013

MUITO CUIDADO!! >> Clara Braga


         Para a alegria de muitos e revolta de outros tantos, CNJ aprova o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Para mim, o Brasil deu um grande passo positivo. Reconheceu que não pode ser contra a felicidade das pessoas. Mas muito cuidado, muito cuidado mesmo, com o que vocês forem ler daqui para frente. Principalmente aqueles que não estão muito a favor do que foi decidido.

         Ninguém vai ser obrigado a casar com pessoas do mesmo sexo! Atenção!!! Você, que quer continuar casado ou quer casar com pessoas do sexo oposto, você ainda é livre para fazer isso! Se você não quiser ir ao casamento de pessoas do mesmo sexo, você também não precisa, pode ficar em casa, assistindo televisão e ninguém baterá na sua porta te questionando o porquê de você não ter ido. Ah, melhor do que isso, ninguém vai te bater na rua, brigar com você, te ameaçar de morte, te olhar torto ou te fazer nenhum mal por você manter o seu casamento heterossexual.

          Pode parecer absurdo eu estar dizendo essas coisas, mas tenho certeza que não vai demorar muito para surgirem comentários “esquisitos” sobre essa decisão do CNJ. Esquisitos para não dizer absurdos... a criatividade do ser humano é algo que me assusta. Então, é por isso que volto a dizer, é mais simples do que qualquer pessoa possa imaginar. Pessoas do mesmo sexo, agora vão poder casar no civil! E as pessoas do sexo oposto? Também!!! Ou seja, o que mudou para os casais homoafetivos? Antes não podiam casar no civil, agora podem! O que mudou para os casais heteros? Cuidado, a resposta pode ser assustadora: NADA! Pasmem!!!


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quinta-feira, 16 de maio de 2013

X-TOUCINHO >> Mariana Scherma


Dia desses estava fazendo hora numa livraria e resolvi abrir um livro com “300 palavras em português – para estrangeiros”, a ideia do livro era facilitar a vida dos gringos ao falar “por favor”, “obrigado”, “quanto custa”, essas coisas de turista. Acreditei nisso até chegar ao bacon. Sabe como o livro ensina o pobre gringo a falar bacon? Toucinho. Isso aí, toucinho, sendo que bacon funciona muito bem no Brasil. Eu nunca pedi um x-toucinho. Você já? Foi aí que percebi que zombar o bem-intencionado turista era a função mais certa pra definir o livro.

Na hora, me lembrei de uma amiga que foi fazer intercâmbio em Sidney, na Austrália. Quando os amigos, cada um de uma parte do mundo, peguntavam como se dizia “oi, tudo bem?” em português, minha amiga explicava que era “e aí, o que que tá pegando?”. Obviamente, depois ela passava mal de rir ao recordar eles tentando falar essa expressão que, nossa, a gente usa todo dia... Só que jamais. Está um pouco no DNA do brasileiro fazer graça, contar piada de argentino, português e cia. Não acho isso errado e confesso que já contei muita piada (minhas amigas japonesas não me deixam mentir) e morri de rir do o-que-que-tá-pegando da minha amiga. É uma questão cultural, o Brasil é o país da piada fácil, do riso solto, do bom humor. Até aí, ok, tudo certo.

Mas depois fiquei pensando... Logo menos, receberemos turistas aos montes. Copa das Confederações, do Mundo, Olimpíadas, sem falar no tanto de turista que chega todo dia e feliz da vida pra conhecer nosso país. Imagina se todos eles decidirem pedir um x-toucinho pra matar a fome. Vai ser o maior bullying da história. O que vai ter de brasileiro rolando de rir e o que vai ter de gringo com cara de interrogação... Uma loucura! Primeiro porque ninguém pede x-toucinho, segundo que para um estrangeiro dizer toucinho vai ser complicado. Nosso nh é um dos maiores mistérios da humanidade, mas que vale a pena ser trabalhado – pra pedir caipirinha, não toucinho.

Eu, que até o dia em peguei o livros das 300 palavras em português, não sabia ao certo o que viera fazer no mundo e suspeitava que o motivo da minha existência andava meio preguiçoso duvidoso, descobri nesse dia. Vou espalhar a todos os gringos que bacon continua sendo bacon por aqui. Toucinho é uma palavra engraçadinha, mas que pode bem ser substituída. Se a gente quer explorar o turismo brasileiro, tem que melhorar o relacionamento. Vamos guardar as piadas de portugueses, argentinos e japoneses pra nós mesmos, é nosso tesouro interno. Mesmo porque, pra eles nem tem graça. Vamos parar com o bullying contra o gringo, ele já é castigado pelo nosso sol tropical, pelas camisetas floridas que teima em usar por aqui e pelo nh da caipirinha. Para eles, vamos exibir a simpatia e o jeito amigo brasileiro. Eu, você, minha amiga do que-que-tá-pegando e o livro das 300 palavras em português. Sou brasileira e o toucinho não me representa. Sem mais.




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quarta-feira, 15 de maio de 2013

DO TOCA-DISCOS ÀS RUAS >> Carla Dias >>


Escutando Gracefully, do Vintage Trouble, no repeat.


Disseram-lhe, tantas vezes que não houve como não decorar, que essa coisa de gostar anda démodé, não rende futuro ou prazer. Que o ser humano nasceu para deflorar oportunidades, esbaldar-se em projetos concretos e definitivamente importantes para a evolução. E quanto mais essa evolução envolver poder, melhor.

Como seus pais cansaram de lhe dizer – aos berros e safanões – essa busca dele é tão tola. Se já o era quando ele ainda era menino, e tinha direito à ingenuidade, agora lhes parece um escandaloso atestado de incapacidade. E a vergonha que seus familiares alimentam por ele já não dói como doía quando ele era mais jovem, inexperiente em se valer da indiferença para proteger o que sempre lhe foi mais caro.

Quando começaram a chamá-lo destrambelhado das ideias, ele aprendeu que as pessoas sentem certo prazer em definir o outro, ainda que estejam completamente enganadas, que nada saibam sobre ele. Mas não se rendeu à tristeza que nasce da injustiça das palavras alheias. Ao contrário, encheu-se de coragem para defender o que acreditava.

Um amigo, bêbado de carteirinha, mas pessoa indiscutivelmente sensível e culta, disse-lhe, certa vez, que o que ele procurava era insana e deliciosamente improvável. Que o método dele era, no mínimo, uma doidice, mas que por isso lhe parecia tão aprazível. Que apesar de sua profissão ser marceneiro, ele deveria repensar isso, que a sua loucura poderia lhe render bons trocados.

Não que não tenha falhado, porque falhou e muitas vezes. Houve dias em que acreditou ser tudo o que as pessoas diziam, que os seus pais diziam. Mas o que lhe rendia o espírito se mostrou muito mais forte, propagando-se em seu dentro, revitalizando sua busca.

Um amigo de seu avô, a quem chamava tio desde sempre, presenteou-lhe com alguns discos antigos, quando ele era menino de tudo, ainda estava aprendendo a ler. Ensinou-lhe a escutá-los em um vitrola, sentado no sofá, quieto, misturando-se com a música, mergulhando nas letras. Enquanto crescia, dividia os assuntos da escola com horas à mercê do ritual do tio, que se tornou o dele. A mesma vitrola, herdada após a morte de seu mentor, espalha a música pela sala de sua casa, nos dias de hoje. E o violão, no qual aprendeu a tocar aquelas canções, também lhe faz companhia, agora como relicário, que está muito velho e ele se nega a reformá-lo para não perder a clareza da lembrança de seu tio a lhe ensinar notas, a alimentar música.

Lembra-se da historia que seu tio lhe contou, e que lhe marcou tão profundamente, que ele trouxe para a sua realidade aquele sonho, aquela vida inventada. Enquanto escutavam os discos, seu tio falou sobre um livro que leu, no qual o personagem, um homem sem rumo e infeliz, certo dia acordou com a certeza de que encontraria o amor de sua vida, e que ela seria uma mulher capaz de despertar nele a capacidade de identificar e sentir felicidade. Para tanto, ele teria de ir para as ruas, todas as noites, se sentar na calçada e tocar seu violão, cantar canções de amor aos passantes, embelezando o coração deles com a possibilidade com a qual o próprio flertava, até que ela, distraída com seus pensamentos, passasse por ele e fosse fisgada pela música, e depois, pelo olhar dele.

No livro, o homem, depois de semanas, e de se afundar na certeza de que jamais encontraria aquela mulher, fisgou seu amor com uma canção de autoria própria, a única que compôs em sua vida. Na realidade dele, já se vão aí alguns anos de busca, e entre imaginar essa mulher e conhecê-la, já compôs tantas canções de amor que não se importa se as pessoas as peguem emprestadas para servirem de trilha sonora para seus próprios romances. E todas as noites, quando se senta na calçada, toca seu violão, canta suas canções, as pessoas o cercam, um público cativo o acompanha pelas ruas da cidade. Alguns torcem por ele, outros, como seus pais, acham que ele é um tolo com um sonho tão tolo quanto, um homem desprovido da capacidade de ser um vencedor, cercado pela inabilidade de acabar com busca tão ridícula.

O que não sabem é o que o tio lhe revelou, pouco antes de se render à morte. Não sabem que o livro não era livro, o personagem não era personagem. Era vida, a dele, e esse toque de realidade só fez lhe aguçar o desejo de viver aquilo.

Então, pode ser démodé pensar como ele, sentir como ele, buscar o que ele busca. Mas não é desperdício de tempo, não é loucura elaborada. E se ainda não chegou ao fim dessa história, sabe que seu desenrolar jamais o desapontará. Porque, vejam só quantas canções já nasceram, quantas declarações de amor foram feitas com elas servindo de trilha sonora. Não foi preciso o amor de sua vida chegar para despertar nele a felicidade. Quem sabe, nessa história, seja dele esse papel.

Quem sabe...

GRACEFULLY - VINTAGE TROUBLE
Imagem: sxc.hu



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terça-feira, 14 de maio de 2013

ELES ESTÃO ENTRE NÓS >> Clara Braga


Semana passada, na minha crônica de terça, disse que não acreditava que vidas inteligentes viriam me buscar e me levar para um lugar com pessoas mais evoluídas do que as doidas que estão nos cercando nesses últimos tempos. Mas só para garantir, estava pensando em deixar sempre uma malinha prontinha só com utensílios de necessidades básicas, para seguir com eles, caso necessário. Eis que essa semana chegou até mim, para meu conhecimento, um vídeo muito curioso, e como eu não acredito em coincidências, decidi compartilhar esse momento com vocês.

O vídeo está disponível no youtube para aqueles que quiserem uma informação mais completa sobre o assunto, e se trata de um relato do ex-ministro da defesa do Canadá, afirmando com toda convicção que já existem mais de quatro espécies de alienígenas vivendo entre nós. E isso não é tudo, ele afirma saber que grandes poderosos do governo norte americano trabalham e tomam suas decisões com o total auxílio desses seres extraterrestres.

Minha preocupação é, esses seres estão trabalhando para que os tais poderosos tomem decisões mais corretas e, com isso, salvem o planeta do aquecimento global e etc, ou estão pouco se lixando para nossa situação e querem mais é ver o oco??? Caso eles queiram explodir a terra de vez, será que antes de fazerem isso vão levar aqueles que se comportaram bem com eles? Essa é uma questão muito importante, e cada vez me convenço mais de que é melhor você começar a deixar sua malinha pronta também!!

Logo depois de saber sobre esse tal vídeo, também comentaram comigo sobre uns tais de reptilianos, que também seriam seres extraterrestre que estão entre nós. E, pasmem, sabe quem seria uma reptiliana? Ninguém mais, ninguém menos do que a diva Beyoncé!! Parece até mentira que tantas informações sobre extraterrestres tenham surgido assim para mim do nada depois da crônica passada com essa temática, quem sabe eles não estão mandando um sinal? Haha! Piadas a parte, confesso que essa notícia da Beyoncé ser uma reptiliana me deixaria muito mais tranquila caso fosse verdade, nunca mais me perguntaria porque pessoas como ela tem aquele corpo enquanto eu fico morrendo de malhar na academia, faço dieta e mesmo assim engordo. Isso acontece simplesmente porque ela não é desse planeta, caso fosse, com certeza teria uns culotes a mais!


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segunda-feira, 13 de maio de 2013

AMÊNDOAS DOCES >> André Ferrer

Ribamar ficou quieto. Ele costumava reclamar durante a visita mensal. Agitava-se todo enquanto falava da empresa, do baixo desempenho nos últimos trinta dias e da dificuldade que era manter uma filha na universidade. Naquela manhã, calou-se. No horário previsto, ficou onde estava, pálido e surpreso, metido num terno cinza; terno elegante, escurecido nos ombros por causa da chuva. Ele tinha sofrido um súbito impedimento depois que abriu a porta. Como de costume, entrou de uma vez no quarto da dona da casa, prendendo-se, naquela manhã, entre um jovem rapaz que ele jurava ter visto antes e Dolores Pilar.

“Este é o Cláudio. Lembra-se dele? Cláudio trabalhava na sua empresa. Muito bem. Agora é o meu ajudante aqui em casa e lá embaixo no café. Como já te falei: o valor da mensalidade aumentou.”

Ribamar observou o rapaz, tirou a carteira do bolso e apanhou o dinheiro em silêncio.

Deitada de bruços, o dorso à mostra, Dolores Pilar sorria. Estava feliz de verdade. Sinceramente feliz e relaxada em cima da cama. Com um braço esticado, empregava os dedos da mão direita para checar o verdadeiro alcance de uma toalha de banho que, apressada e suspeita, cobria-lhe minimamente as nádegas e o início das pernas.

“Como já te falei”, continuou. Estava prestes a levantar o corpo da cama. “Eu preciso que você reforce a mesada de Maria.”

Olhava direto para Ribamar neste momento e, logo atrás dele, avistou um pedaço de Cláudio que, constrangido, ainda segurava com toda a força do mundo o frasco vazio de óleo de amêndoas doces. Ele apertava o resistente gargalo desde a chegada de Ribamar. Ainda estava paralisado no mesmo canto para onde saltara logo que se viu flagrado no quarto da patroa.

Dolores Pilar transbordava felicidade. Desde o primeiro momento, convencera-se de que via raiva e ciúmes na surpresa do visitante. Desde o primeiro minuto, imaginou as profundezas daquela manhã. Sim, aquela manhã tinha um ventre! Aquela manhã tinha milhares de possibilidades entranhadas. Um jogo imprevisível de peças ligadas entre si. Cada casa daquela cidade bem como seus moradores e objetos pessoais representava uma peça. Um pequeno acidente doméstico. Uma dona de casa e o seu marido. A chuva! O exato momento em que o aguaceiro começava a cair e, providencialmente, atrasava a pessoa certa em relação à outra. Tudo e todos, enfim, constituíam peças fundamentais no ventre daquela manhã! “Desde o primeiro momento!”, ela repetiu consigo mesma e jogou as pernas para fora da cama. Içou a toalha bem devagar sobre o drapeado de pele que surgia nas axilas e ocupava as laterais do seu dorso. Ela cobriu as costas e, finalmente, sentada no colchão, encolheu os ombros embaixo do tecido felpudo.

Em pé, Dolores Pilar girou o corpo, voltou as costas para os dois homens e caminhou até a janela. Fazia silêncio e do silêncio brotavam os pequenos ruídos do café. Dolores Pilar sorriu mais ainda por causa da sinfonia de minúsculas trivialidades que, segundo acreditava, possibilitava o mágico ajuste entre a sua vontade e um universo docilmente moldável. Depois, olhou para fora. No exato momento em que a indução do mundo chegava ao ápice, a chuva parou de cair. Os telhados da fábrica e das casas vizinhas ficaram iluminados. A mulher também se descobria misteriosamente iluminada. Dias como aquele, de fato, tão cheios de coincidentes revoluções, compensavam todas as suas dores físicas e espirituais, principalmente a solidão causada pela distância da filha que, na capital, fazia faculdade de advocacia.

Completamente mudo, Ribamar depositou o dinheiro na penteadeira e se foi, logo depois de encarar de novo o rapaz.

“A senhora quer?”, disse Cláudio, aturdido, ainda sob os efeitos de uma seca batida de porta. O ajudante tinha acabado de descobrir que não havia mais óleo para a massagem de Dolores Pilar quando a visita inesperada — a seu ver, pelo menos, que era novo na casa — aconteceu. “Peço desculpas. Vou correndo até a farmácia. Peço desculpas. Nem mesmo a Lígia reparou que o óleo estava no fim! Peço desculpas.”

Dolores Pilar estava enlevada. Sequer escutou a informação do rapaz de que iria, então, adquirir outro frasco. Ela sequer notou o alívio e a ligeireza com que Cláudio saiu do quarto e desceu a escada.

“Amêndoas doces” continua no dia 27/05/2013. Obrigado. Até lá! ACESSE AQUI. 


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domingo, 12 de maio de 2013

A BLITZ >> Whisner Fraga

Como se diz em Minas, não vamos nomear os bois. Até porque alguns bovinos, ao contrário do que atesta a ciência, falam e, como era de se esperar, escoiceiam. Não digo que não aumentarei, caluniarei ou mesmo inventarei alguns trechos do episódio, mas tudo é com uma intenção razoavelmente boa: a de melhor divertir meus leitores. Não sei se o autor das peripécias que relatarei lê jornais ou blogs e se esta crônica chegar aos ouvidos dele, já peço desculpas antecipadamente por qualquer melindre e se o texto agradar, peço ao amigo que me ligue para que eu possa lhe confidenciar o número de minha conta, para uma gorjeta qualquer.

Digamos que voltasse de uma festa que ocorrera nas cercanias de um sítio, em Uberlândia. Havia tomado umas tantas e outras mais. Ao todo, o volume de álcool lançado para dentro do estômago devia ser suficiente para tontear uns quatro cachaceiros de profissão. Não acho nem um pouco bonito o que ele fez, aliás recrimino veementemente essa atitude, mas o fato é que ele pegou a chave da pickup Ranger e foi para a estrada. É de conhecimento geral que bêbado é idiota e ele não fugia à regra. Para sorte dos motoristas que trafegavam pelo local, existia uma polícia rodoviária no meio do caminho. E uma blitz.

É evidente que meu amigo foi parado: a polícia é treinada para farejar culpados. Isso foi antes da lei seca, o que, em termos legais, foi interessante para o sujeito. Desceu do carro e conseguiu se explicar. O problema é que ninguém entendeu. O homem da lei lhe preparou um banho de mangueira, um café forte e um recinto trancado a nove chaves para passar a noite. E a noite passou, é evidente. Amanhecendo, reconheceu a besteira que fez. Tinha uma vaga ideia do que acontecera e temia pelo carro, que não era seu.

O guarda lhe trouxe um recado: pretendia deixá-lo ali enquanto acionava alguém que entendia de leis. Meu amigo perguntou se podia esperar fora da cela. Podia. Ficara sozinho no escritório, porque o outro foi tratar da vida ou da morte, não se sabe. Sentou-se na mesa enorme, desorganizada. Testou o telefone: nada. Tentou acender a luz: nada. Gritou pelo fardado: nada. Como era engenheiro e já trabalhara com energia elétrica e telefonia, além de ser hiperativo, não quis ficar à toa. Não fazia bonito para ninguém, apenas atendia a um chamado maior do cérebro. A linha voltou a seu monótono chiado em menos de meia hora. E nem notícia do policial.

Saiu para contar a novidade e não encontrou ninguém. Viu a Ranger inteira e se sentiu melhor. Faltava a luz. Desmontou o aparato e concluiu que havia qualquer coisa queimada por ali. Procurou por perto e achou um depósito, onde descobrira dezenas de peças sobressalentes: fios, fontes, disjuntores e o que mais precisasse. Estava em pé na mesa, acabando de montar as lâmpadas quando o outro retornou. Nenhum dos dois se abalou, acostumados a ver de tudo e mais um pouco. Meu compadre desceu, caminhou calmamente rumo ao interruptor e gritou: “Fiat lux!” E houve luz.

Como é sabido, mineiro não se apega a picuinhas, de modo que o guarda reconheceu estar perto de um sujeito trabalhador. Fez o sermão, mostrou algumas fotos de corpos estraçalhados, de veículos retorcidos e liberou o meu amigo. Abria a porta da caminhonete quando o policial gritou: passe quando quiser por aqui, será bem-vindo, o prédio sempre precisa de reparos, mas prefiro que da próxima vez venha sóbrio, porque não serei tão bonzinho como fui desta vez.

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sábado, 11 de maio de 2013

FLORES PARA UMA MULHER [Ana Gonzalez]

Quando a moça subiu as escadas da porta de entrada do ônibus, perturbada, não sabia o que fazer. Como passar pelas pessoas que se acotovelavam pelo meio do corredor? Ela tinha nos braços um grande maço de flores.

Daí que quando me propus a segurar o ramo, ela gostou porque teria tempo para resolver o que fazer. Enquanto eu o segurava, ela foi falar com o cobrador. Desceria pela frente do ônibus? Não haveria outra solução melhor ou possível. Insistir em ir por lugar tão cheio seria prejudicar as flores. Seria incomodar e provocar reações insuspeitadas nas pessoas já bastante apertadas entre si. Mais um ramo de flores? Nem pensar.

Quando me vi estava, no balanço do ônibus, equilibrando um buquê generoso de beleza e amor. Eram rosas vermelhas e pelo meio delas, folhagens e outras flores pequenas e brancas. Foi assim que durante o longo percurso até o destino da dona, mantive o ramo no colo. Agradável sensação de leveza e perfume. Deu tempo para conversar um pouco. Chegando pela manhã ao local de trabalho ela tivera essa surpresa. Não era nenhuma comemoração especial, fora apenas mais um gesto delicado do namorado. Suspeitei que era um relacionamento novo. Não me enganara.


O longo trajeto e o trânsito abriram espaço silencioso para lembrar as flores que eu também ganhara pela vida. Essa suspensão no tempo despertou memórias de outros ramos. De flores variadas, todas especiais, muitas das quais permanecem despetaladas e secas em meio às páginas de livros e, ainda assim, mágicas quando libertadas desse esquecimento. É privilégio ter esse tesouro, que agradeço aos homens que me maravilharam e souberam abrir um sorriso na boca e nos olhos preparando o caminho para meu coração. E deram argumento para eu acreditar no amor e nos relacionamentos. 

Talvez hoje em dia eu seja menos romântica e mais pragmática por acreditar que as relações se sustentam menos por flores e mais por razão e boas decisões na vida cotidiana. A vida me tornou menos crédula na força das flores, a despeito dos significados que elas possam evocar em nossa cultura, certamente todos em um plano maior de nossa experiência,

Temi pelo que poderia acontecer com a alegria daquela moça tão jovem, quase menina, bem vestida para o trabalho, com cabelos tratados, unhas polidas, portando aquele meio sorriso nos lábios ao olhar para seu presente.  Eu adivinhava a esperança que iria dentro dela. Os pensamentos e as imaginações de romance. A promessa de amor e tudo o que alguém de sua idade deseja. Da sua idade? Na verdade, tudo o que todos nós, em qualquer idade, desejamos em relacionamentos. Aquele clima de confiança que modifica a cara do mundo e nos tira o medo de atravessar as esquinas da vida.

Talvez ainda haja em algum desvão de mim aquela mulher que ganhou tantas flores. Ela está viva. Com os mesmos desejos de flores e promessas de amor. Cúmplice, pensei tudo isso observando a mulher que merecera o gesto poético. E apesar do leve temor que se levantou dentro de mim pelo futuro desse relacionamento, desejei que ele não caísse no ramerrão do cotidiano e que se mantivesse para sempre em patamar de celebração do encontro.

Como nos contos de fadas. E me senti, então, com o dom de fada madrinha. Desejei firmemente que o namorado-amado-amante continuasse esse homem delicado e afeito a comemorar as qualidades de uma mulher e dos espaços de romance.

E disse a ela, também firmemente, antes que ela descesse do ônibus: “Seja sempre uma mulher que merece flores. Há muitos homens por aí à procura de uma delas para presentear, na intenção de manter a chama do encantamento e da esperança.”


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sexta-feira, 10 de maio de 2013

O GOSTOSÃO >> Zoraya Cesar


Sempre que Kleber mirava-se no espelho suspirava de satisfação com sua própria imagem, qual Narciso desavisado. Via músculos trabalhados e fortes, cabelo cortado seguindo a última tendência da moda entre os jogadores de futebol, peito largo, sorriso de dentes brancos e reluzentes. Como resistir a tamanha beleza?

As poucas rugas e o leve grisalho nas têmporas davam o tom certo de respeitabilidade que as mulheres mais jovens procuram em homens mais velhos, segurança, força, estabilidade financeira. Ele transpirava isso tudo, as mulheres farejavam. Andavam atrás dele como perdigueiros atrás da lebre, dizia o irresistível Kleber aos quatro ventos, um verdadeiro galã de novela das oito, acreditando-se um Tarcísio Meira (sei que existem novos galãs, que Tarcísio Meira sequer trabalha em novelas atualmente, que a maioria de vocês nem o conhecem, nunca o viram mais gordo, mas não me culpem. São as palavras e impressões do Kleber, não minhas).

Dizia fazer sucesso com mulheres de todas as idades e, a bem da verdade, ele não tinha preconceitos. Feias, bonitas, novas e nem tanto, se caíssem em sua rede eram tratadas como a mais fina iguaria e devidamente degustadas. Era um apreciador do belo sexo e costumava dizer aos amigos que nenhum homem deveria casar, a fim de ter tempo suficiente para todas as mulheres que passassem em sua vida. Um verdadeiro Don Juan. Auto-confiante em seu poder de sedução, Kleber não economizava nos trejeitos, maneirismos e cavalheirismos à moda antiga.

Mas era Wanessa Cristina o seu sonho de consumo. Coxas grossas, barriga tanquinho, piercing no umbigo, que ficava à mostra mesmo nos dias mais frios, pois de que serve um piercing se não for visto? Wanessa Cristina nasceu com os cabelos mais negros que os de Iracema e suas madeixas cor da asa da graúna, mas era mais loura que a sueca mais loura do mundo (que eu não sei quem é, mas é sueca e é loura, pronto). A natureza fora extremamente generosa e se havia alguma coisa que Wanessa Cristina jamais precisaria fazer na vida era implante de silicone nos seios - se bem que, depois de certa idade, mulheres de seios muito fartos precisam dar uma calibrada e... pura maldade feminina, inveja, inveja. Até porque, enquanto a idade não chegava, e estava bem longe de isso acontecer, Wanessa Cristina fazia questão absoluta de ser tão generosa quanto a natureza e usava decotes mais profundos que os de uma aspirante a atriz de filme pornô.

Falta alguma coisa para completarmos a figura impactante do objeto de desejo de Kleber – e, a bem da verdade, de todos os homens da circunvizinhança? Sim, faltou esclarecer que trabalhavam juntos na mesma empresa e que seus lábios carnudos nunca se abriram num sorriso sequer para Kleber e seus olhos nunca se fixaram nele mais que dez insignificantes segundos.

Kleber, como todo conquistador, era persistente. Aparecia do nada na sala de sua musa apenas para dizer oi, perguntar se ela precisava de alguma coisa, fazia-lhe elogios, e, vocês sabem, conversa mole em barriguinha dura tanto bate até que ele consegue seu intento de levá-la para o abatedouro. Perdão, perdão, que expressão mais chula e desagradável, mas vocês entendem, era o que ia na mente dele, não na minha. Deixe-me tentar ser mais sutil. Ela a levou para uma noite das Arábias. Também não está bom, esta expressão já está mais que ultrapassada. Passaram, acordados a noite inteira, fazendo exercícios físicos em dupla. Ah, assim está um pouco melhor, vamos deixar por aqui. 

O importante é deixar registrada a performance amorosa apresentada naquela noite, que deixaria Sir Richard Francis Burton corado de vergonha: nenhuma das posições do Kama Sutra que ele trouxe ao Ocidente se comparava às imaginadas por aqueles dois, finalmente entregues aos braços um do outro – e também às pernas, às bocas, às mãos e às outras partes do corpo que, tenho certeza, não preciso esmiuçar para vocês. 

Incansável, Kleber explorava a pele macia, com a qual tanto sonhara, perdia-se nos cabelos compridos da sua adorada, pedia para ser mordido por aqueles dentes perfeitos, maravilhava-se de poder ver de perto o piercing que alucinava suas noites insones. Insaciável, Wanessa Cristina exigia cada vez mais vigor, e um pouco mais e outra vez de novo, desse jeito agora, daquele jeito mais uma vez, pedia para ele fazer assim que ela gostava assado e os corpos se misturavam e se separavam e se juntavam e se sobrepunham num incessante jogo de peças humanas, o suor porejando abundantemente, os olhos redondos de Wanessa Cristina bem abertos por mais de dez segundos, dentro dos olhos dele, fechados por mais de dez segundos apenas para o êxtase, sua boca constantemente entreaberta em sorrisos de prazer, ai, Kleber, como você é forte, como você é gostoso, como você é...
...
Ahhhhh, uhhhhh, D. Adileia acordou de novo, como em todas as noites, com os gemidos lascivos do marido entremeados por seu ronco altíssimo, que mais parecia um trem agonizante. 

Velhusco, barrigudo, careca, flácido, desdentado, cabelos no nariz e pobretão. Vida ingrata, reclamava D. Adileia com as vizinhas, quando casamos ele era bonitão, agora está um bagulho. Com o que será que essa besta sonha tanto, vivia ela a se perguntar, pra se mexer desse jeito enquanto dorme? Traste inútil, se tivesse a mesma energia para o trabalho que tinha para roncar e se revirar durante o sono, a gente não vivia nesse miserê com o salário de faxineiro de 3ª classe...



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quinta-feira, 9 de maio de 2013

PRIMOS DE PRIMEIRA >> Fernanda Pinho


Reconheço, com humildade. Afinal, acontece até com os escritores de verdade, porque não haveria de passar comigo que apenas brinco de escrever? Fiquei sem ideia. Passei bons minutos olhando a tela branca e o cursor piscando e a única coisa que me ocorreu foi que eu deveria começar a anotar as coisas que eu penso. Juro pra vocês. Nas últimas duas semanas pensei em vários temas para minhas crônicas que, agora, simplesmente me escapuliram.

Desisti do computador e fui para o celular conferir minhas mensagens, especialmente o chat que eu, minha irmã e alguns dos meus tantos primos estamos mantendo. Como eles me matam de rir o dia inteiro, porque são espirituosos, criativos e cheios de sacadas terríveis (no bom sentido) achei que seria bom recorrer a eles. E assim começou a nascer minha primeira crônica interativa.



Lucinha foi a primeira a se manifestar: “Eu posso ser o tema”. Claro que pode, Lu. Aliás, não é de hoje que te devo uma crônica. Tenho tanto para fala sobre você. Poderia ser sobre seu desprendimento com as coisas materiais, seu ombro amigo, a beleza que você está irradiando nessa nova fase da sua vida. Poderia ser sobre seus filhos. Dudu, meu melhor amigo. Bê, meu afilhado. Poderia ser sobre o fato de você ter sido o cupido do meu casamento. Ou sobre tantas outras coisas mais que nós compartilhamos. Olha, se eu fosse te recompensar por tudo em crônica, passaria o resto da vida escrevendo.

Daí veio o Fernandinho e sugeriu que eu falasse sobre o amor. Amor mesmo. Eu sei. É o seu tema preferido do momento. E, devo confessar, que isso me deixa levemente assustada. Até ontem você era o Neno que falava que queria “coate blanco” (chocolate branco). E agora, chamar você de Fernandinho é apenas força do hábito. Você já me ultrapassou em uns dez centímetros e “meio que está namorando”. Sério, que mundo é esse onde as pessoas nascidas na segunda metade da década de 90 já estão “meio que namorando”? Eu sei, o mundo em que eu estou ficando velha.

Eu ficando velha e a Marina ficando magra. Porque, claro, levando em conta que ela estava suando numa esteira na hora que eu mandei a mensagem, emagrecimento foi o que veio imediatamente à sua cabeça. Aliás, é um assunto que tem pautado muitas de nossas conversas. Dieta, academia e sopas com misturas duvidosas estão sendo consideradas por nós, que já fomos uma família magra. Mas depois de tanta coisa pra comemorar, tanta festa, tanto churrasco era natural que ficássemos um pouquinho mas rechonchudos.  Sabe, Marina, não temos gorduras localizadas. Temos resquícios de momentos felizes. Mas se emagrecer vai te deixar mais feliz, estamos com você para o que der e vier.

Estamos com você e estamos com o Gu. Que não respondeu à minha enquete mas nem precisa.  O Gu é meu primo-gêmeo. Nascemos no mesmo dia, 25 de setembro (e, a partir de agora, fica combinado uma nova versão oficial de que nascemos no mesmo ano também, ok?). Por isso, ele nem precisa me falar muito sobre como ele se sente. Eu sei. Somos iguais. Versão masculina e feminina. A diferença é que eu estou um pouco adiantada. Eu já vivi esse capítulo que você está vivendo agora. Mas eu te garanto, essa pode não ser a melhor parte do livro, mas tem páginas incríveis por aí. Acredite em mim. Eu sei que você acredita.

A gente acredita muito um no outro e isso é muito legal. É muito legal ter uma família como a minha. E eu agradeço todos os dias. A Deus por me dar a honra de viver essa vida com vocês. E à tecnologia, por permitir que estejamos perto, mesmo agora eu estando fisicamente e temporariamente distante. Então eu quis falar sobre isso. Sobre como estamos de tantos modos conectados. Como é incrível chorar de rir como se vocês estivessem do meu lado.

Eu decidi que queria escrever sobre isso. A Kaká leu meu pensamento e deu a sugestão. Eu e a Kaká sempre temos pensamentos parecidos. Somos mais ou menos da mesma idade e herdamos a sequência mais tinhosa do DNA Pinho. Minha lembrança mais remota da nossa relação é de quando eu tinha quatro anos e ela cinco. E eu a invejava por isso porque achava que ter cinco anos era a coisa mais legal que podia acontecer na vida de uma pessoa.

E com essa lembrança tenho tantas outras guardadas. Como o dia em que eu, Paula, Marina e Karina ensaiamos exaustivamente Os Três Porquinhos, para encenar para outros primos e a Marina desistiu de última hora de fazer apresentação. Como o Fernandinho com, sei lá, um ano de idade oferecendo “cafezinho quentinho” para todos que chegavam na sua casa. Ou o dia em que eu quase fiz o Gu desmaiar obrigando-o a cheirar amônia. Ou ainda o dia em que eu cortei o cabelo da Lucinha, para desespero da Vó, que tinha feito promessa para Nossa Senhora de não cortar o cabelo da menina. E a Vó, e todas as lembranças que compartilhamos dela.

Definitivamente, é um absurdo ter uma família como essa e se achar sem assunto para escrever, ter primos como os que eu tenho e não se sentir inspirada a cada minuto. Dizem que os primos são nossos primeiros amigos. Acho que é por isso que escolhi tão bem os amigos que fiz depois, porque logo de cara já ganhei amigos top de linha.  

E tenho certeza que a Paula (que é minha irmã e por isso não entrou nessa crônica, mas já mereceu e merece outras só pra ela) assina em baixo em tudo o que eu estou dizendo e no que vou dizer agora: amo meus primos, os que estão no chat, na crônica e os tantos outros que não estão aí, mas estão no coração. Graças a Deus são muitos. Muitos e bons. 


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