terça-feira, 30 de abril de 2013

MALDITAS EXPECTATIVAS >> Clara Braga


Essas novas tirinhas do Armandinho estão fazendo o maior sucesso no facebook, toda vez que abro o meu me deparo com uma tirinha nova! Me divirto com ele, tem um humor no estilo Mafalda de ser, gostei! Na verdade nem sei se as tirinhas são tão novas assim, eu é que sou meio desligada dessas coisas, mas pelo menos são novas para mim!

A última que eu vi deu o que falar, todo mundo estava postando e fazendo comentários sobre um assunto que dá pano pra manga, expectativas. Na tirinha, Armandinho diz para sua mãe que já entendeu que ela está chateada, mas que não entende porque ela está chateada com ele, uma vez que foi ela quem criou as expectativas. Pelo que eu vi, a maioria das pessoas que comentavam a tirinha diziam que a culpa é mesmo de quem cria a expectativa, e o melhor é não ter expectativas em relação a nada, pois se alguém faz algo que você não estava esperando, então você está no lucro, mas se a pessoa não faz algo que você esperava que ela fizesse, ai você se frustra, e ninguém gosta de frustrações.

Confesso que ainda não consegui ter uma opinião formada sobre o assunto, talvez até por isso tenha decidido escrever sobre isso, para organizar melhor minhas ideias e também para esperar por comentários que possam me fazer pensar por diferentes pontos de vista. Mas até o momento, penso que sempre tem os dois lados, existem sim pessoas que criam expectativas descabidas, sem fundamento, mas em qualquer relação eu acredito que seja quase impossível não criar expectativas, afinal de contas, a pessoa te dá motivos para que essas expectativas sejam criadas. Por exemplo, se você vai para uma entrevista de emprego com um currículo impecável, com diversas experiências, atende a todas as exigências da vaga e se mostra uma ótima profissional na entrevista, como seus empregadores não vão criar expectativas em relação ao seu trabalho caso você seja aprovada? Ou então, pensando pelo outro lado, você está nessa entrevista de emprego e os avaliadores te elogiam muito, dizem que você possui o melhor currículo entre os participantes, que você é muito articulada e que sua experiência na área é fantástica, como não criar a expectativa de ser chamada para essa vaga de emprego?

Não sei, pode ser que eu esteja chamando de expectativa algo que tenha outro nome, mas para mim, acho que criar expectativas em relação às coisas e às pessoas é normal, principalmente se essas coisas e essas pessoas fizeram algo que gerou essa expectativa em você. Compreendo o lado ruim, que é a frustração, mas convenhamos, frustração faz parte né?


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segunda-feira, 29 de abril de 2013

LEITURAS DE OUTONO E INVERNO >> André Ferrer

O calorzinho na superfície da lã que vestimos. Ao nosso redor, os vapores da terra, que se desprendem e sobem à medida que o sol aparece. É aconchegante uma caneca de café, em casa, depois da caminhada. Sempre que posso, capricho no ritual. Raros tesouros acontecem na vida e só podem, mesmo, acontecer de um jeito. Carecem da época certa para acontecer.

Um ianque na Itália sitiada pelos austríacos. Uma odisseia nas ruas de Dublin. Um médico reduzido a faxineiro. Hemingway. James Joyce. Kundera. Livros que li entre abril e agosto de anos diversos.

Adeus às armas tinha o amargo do café e a saturação doce do leite condensado. Antes de inspecionar ambulâncias, o herói, tenente Frederic Henry, bebia a mistura. Os canhões, à distância, entre o Piave e as montanhas ao redor de Gorizia, pareciam adiar a ação e o drama inevitáveis. No romance e na vida, doce e amargo tratariam de colocar homens, garotos e vaidades no seu devido lugar.

Depois, conheci Leopold Bloom, que combinava com algumas faixas de Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band. Naquele outono, eu descobri a fragilidade de elementos consolidados. Tanto na literatura quanto na música, surgiram trincos nos alicerces aristotélicos que eu conhecia. Em 1994, eu caminhava sobre os dormentes e a o aço ainda úmidos de manhãzinha. Pouco importava o tetracampeonato. Eu caminhava debaixo de um sol mortiço antes de voltar para casa e para Bloom e para os Beatles e para o dia hermético e interminável. Antes, contudo, eu apreciava o vapor enquanto as pedras, a madeira e os trilhos da ferrovia se libertavam do choro da madrugada.

Por que Milan Kundera é o mais machadiano de todos os expatriados? Ora, por causa do gosto ensaístico e irônico da sua arte. No outro ano, comecei a ler Kundera pelos Amores risíveis. Em março, eu devorei A brincadeira bem como A imortalidade. Sim, novamente, foi em julho que conheci outra obra exemplar: A insustentável leveza do ser. Eu morava em Santa Catarina. O mar e as ressacas. Um banco a flutuar nas águas turvas e invadidas e proibidas e sitiadas. Um Escobar cíclico eternamente afogado numa praia.

Ernest Hemingway. James Joyce. Milan Kundera. Expatriados e geniais. Apesar de toda a expatriação, jamais agiram como renegados. Apesar de toda expatriação, que a vida inteira a mim também perseguiu, eu precisava ser mediano. Sim, a despeito da falta de pátria e de patrícios, pelo menos mediano.

Tanta impressão de que não pertencia a este mundo me dominava naqueles anos de formação. Com estoicismo e sem autopiedade. Cavando masmorras à hipocrisia, eu precisava voltar para casa e me contentar com a lembrança da névoa, em plena alvorada, pairando sobre a ferrovia e o vale.


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domingo, 28 de abril de 2013

UMA HISTÓRIA INCOMPLETA >> Whisner Fraga

Hoje estivemos, Ana, Helena e eu, visitando Araras, uma pequena cidade do interior paulista, que está investindo muito em educação. Fui à inauguração de um polo da Universidade Aberta do Brasil, que reúne sete ou oito renomadas instituições de ensino, que estão apostando na educação a distância. Não vou discutir, neste momento, questões pedagógicas ligadas à qualidade da formação, mas adianto que sou a favor desta modalidade de aprendizagem e que acredito que ela pode ajudar a sociedade brasileira a se tornar mais igualitária.

Fato é que houve muitos discursos, uns protocolares, outros comportados demais e ainda alguns bastante chatos. O espaço que abriga o polo recebeu o nome de Dirçon Kammer, um famoso educador da cidade, professor de metade das celebridades do município, de maneira que boa parte dos presentes havia sido aluna do saudoso mestre.

Em uma fala emocionada, o prefeito, que também tinha sido discípulo de Kammer, relatou um fato que lhe ocorreu. Quando tinha quatorze anos, o pai o chamou para uma bronca: todos os irmãos trabalhavam, de modo que ele já passara da época de trazer um dinheirinho para casa. Escola era luxo, a família precisava primeiro de comida. Não ficou muito claro, mas nos pareceu que o prefeito teve de abandonar a escola por um tempo. Acontece que Dirçon ministrava aulas de Artes e o seu querido pupilo deixara um quadro por terminar.

O professor então terminou a pintura do menino e correu à sua casa para entregá-la a ele. Eu não sabia como a história terminaria e, para minha decepção, ela não acabou mesmo. Depois que o quadro foi entregue, não se soube de mais nada. O que queria dizer isso? Que o tutor quis dar algum tipo de lição? Que ele teria alertado o rapazinho que se não tivesse desistido da escola, ele mesmo poderia ter finalizado a obra? Que as próximas pinturas teriam de ser arrematadas pelo próprio autor? Que alguém está sempre completando algo por nós? Talvez nunca venha a saber.

Depois, fiquei imaginando o velhinho, de bengalas, chegando com dificuldade ao consultório médico de seu ex-aluno. Sim, porque o menino se tornou um renomado doutor. E, ao adentrar o prédio, pedir ao homem de branco para ver aquela antiga pintura, certamente dependurada ao lado de vários diplomas, num espaço de honra. Mas não soube se isso acontecera. Não soube, no dia de hoje, o sentido daquele enredo.

O que sei e que posso dizer é que o discurso foi emocionado e emocionante. Vi várias pessoas da plateia chorando. O tom de voz não era para menos: estávamos na presença de alguém que domina a prática de falar com público. Eu, que gosto de histórias, fiquei parcialmente decepcionado. Parcialmente, porque é sempre interessante escutar alguém que conhece os segredos da oratória. Mesmo que ele falasse em mandarim, língua que ignoro por completo, eu apreciaria seu discurso.

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sexta-feira, 26 de abril de 2013

KARMA >> Zoraya Cesar

Loura, magra, fatal, existem homens que são irresistivelmente atraídos para mulheres desse tipo. Que tipo, perguntarão vocês: loura, magra, fatal? Não, o tipo cínica, egoísta, sedutora e mortal. O tipo, tão invejado pelas outras mulheres, que fazia dos homens o que queria. 

Sheila tinha um talento natural para a conquista e sedução, com a grande vantagem de não se apegar. Amava apenas a si mesma, achava que merecia tudo do bom e do melhor, e não media esforços para isso. A Mãe de Santo tentava alertá-la contra sua ambição desmedida, mas Sheila só pensava em seu futuro. Daí que ela conheceu Arnaldo, que tinha 36 anos a mais que os vinte dela, duas filhas e uma esposa meio adoentada, meio chatinha, meio gasta. E um posto de gasolina. 

Sheila podia ser a mulher mais encantadora do mundo. Arnaldo largou a mulher, as filhas, só não largou o posto, e casou. Mas, sabem como é, um homem já não tão novo, sedentário e fumante, preguiçoso e caseiro... e Sheila só tinha vinte anos. Foi tão fácil convencê-lo de que o cigarro estava com gosto e cheiro estranhos porque ela fizera uma simpatia para acabar com o vício. Ele acreditou piamente, claro, todo homem acredita em mulheres como Sheila. 

Ao cabo de alguns meses, ele morreu, sem que nenhum médico descobrisse a causa da estranha doença que o acometera, e deixou tudo para a amada Sheila. A ex-mulher e as filhas nada puderam fazer, a não ser ver navios. Sheila ficou bem de vida, mas não o suficiente para seu agrado. Miami, bolsas de grife usadas pelas atrizes das novelas, motorista particular. Era muito gasto para uma Sheila só. 

Mulheres assim sempre encontram homens assado - não existe homem esperto o suficiente para uma mulher como Sheila -, e dessa vez a vítima foi um tabelião. Ela poderia ter sossegado com esse, afinal o dinheiro da herança que recebera do infeliz Arnaldo somado à pequena fortuna do futuro infeliz Soares era suficiente para a mordomia de qualquer mulher normal. Mas Sheila não era uma mulher normal. E começou a planejar uma maneira de se livrar do atual marido. 

Soares era supersticioso. Não tinha religião, mas era supersticioso e estava apaixonado, além de ser cardiopata, condições das quais Sheila se aproveitou magistralmente. Começou por convencer Soares que a casa estava empesteada de maus espíritos, que ouvia vozes e que ele proferia estranhos sortilégios durante a noite. O pobre suava frio, mandava rezar Missas, chamava Pais de Santo, e nada. Sheila continuava a dizer que tinha algo estranho. E ele acreditava. 

Soares, confiante, entregava-se totalmente nas mãos de Sheila, que passou a trocar o remédio do coração por uma vitamina qualquer, que ele tomava sem de nada desconfiar. E esperou. Algumas semanas depois dessa dieta de assombrações e remédios falsos, Sheila decidiu que chegara a hora. 

Por volta das três horas da manhã, estando os dois sozinhos em casa, ela simulou estar possuída por algum demônio apavorante, tão convincente, que, literalmente, matou Soares de susto. Mulheres louras sempre alcançam seus desígnios mortais. Ninguém desconfiou de nada (nem nosso policial de plantão, Felipe Espada, porque ele não faz parte dessa história), e Sheila deu inicio a mais uma etapa de viuvez, preparando-se para mais um casamento, o definitivo, para deixá-la rica o resto da vida. 

Mas o destino tem vida própria, não é mesmo? Sheila, agora bem mais rica, ficou insone, mesmo tomando todos os tipos de remédio, nem assim dormia. Resolveu procurar a Mãe de Santo, mas esta recusou-se a recebê-la e mandou dizer-lhe que, por ter roubado o o karma de duas pessoas, agora teria de cumprir o destino de uma delas para que se restabelecesse o equilíbrio do universo. Um dos karmas roubados era ser atingido por um ônibus e perder as pernas, o outro era morrer dormindo. Mãe Cotinha não sabia qual lhe caberia, nem queria saber. 

Sheila sentiu medo, mas mulheres como ela não se rendem facilmente. Resolveu que estava na hora de arranjar outro otário rico e foi se embelezar no salão. Entrou, fez o que tinha de fazer e, mais tranqüila, pagou a conta e despediu-se. Só não conseguiu sair, pois um ônibus desgovernado subiu na calçada, adentrou o salão e...


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quinta-feira, 25 de abril de 2013

O MERGULHO >> Fernanda Pinho




Eu sempre acreditei em paixão à primeira vista. Mas não em amor. Sempre mesmo. Sustento essa teoria desde quando eu não tinha muita experiência para falar sobre uma coisa nem outra. Porque, sei lá, eu acho que a primeira vista oferece informações que só alcançam um nível mais superficial, que seria o da paixão. Um nível delicioso, de causar frio na barriga, tremor nas pernas e taquicardia mas, ainda assim, superficial como flutuar em águas rasas.

Claro que nada impede que a paixão à primeira vista evolua para um amor criando a romântica ilusão de que desde a primeira troca de olhares os agraciados em questão se amaram. Mas na prática, a teoria é outra coisa.

Porque a gente se apaixona por palavras ditas com intenção de causar efeito, por uma voz sedutora ao telefone, por um sotaque, por olhos puxados, pelo cheiro da pele, por um aperto de mãos firmes, por um beijo (ou pela promessa de muitos beijos), por um toque eletrizante e, nessa empolgação, você pode até soltar um “Eu te amo”. Eu fiz isso e, agora, revendo aquele momento, eu sei que ali eu estava era muito apaixonada. Amar, eu amo agora.

Tenho certeza que é amor quando diariamente eu recolho as roupas dele espalhadas pelo quarto e diariamente me pergunto como alguém é capaz de espalhar tanta coisa num espaço tão pequeno.  Tenho certeza que é amor quando me esforço para dormir em meio a ruídos de gritos e tiros, para que ele não precise desligar o videogame. Tenho certeza que é amor quando sinto minha cara queimando diante da tranquilidade dele em fazer qualquer tipo de pergunta a qualquer pessoa. Tenho certeza que é amor quando me vejo (eu, que até ontem não sabia fritar um ovo) reinventando receitas para agradar a um paladar tão diferente do meu. Tenho certeza que é amor quando ele teima comigo em alguma coisa e eu, igualmente teimosa, me vejo tentada a ceder. Tenho certeza que é amor quando ele costura o trânsito com o som do carro em último volume tocando Fear Factory (e se você não sabe o que Fear Factory, procure no YouTube e você também terá certeza de que é amor). 

Porque à primeira vista não tem roupa espalhada no chão, videogame, perguntas indiscretas, gosto estranho pra comida, teimosia e Fear Factory (nem minha TPM, minha mania de ler até de madrugada com a luz acesa, minha memória doentiamente boa e minhas oscilações repentinas de humor) . À primeira vista é só você, ele e todas as mensagens que seu corpo consegue emitir para despertar no outro uma paixão. E se tudo der certo, é guardar fôlego e preparar para o mergulho. O amor é muito mais profundo. 


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quarta-feira, 24 de abril de 2013

PERSPECTIVA >> Carla Dias >>

Vai que você passe, arrastando seu passado escandaloso, recheado de tropeços e amores, arraigado em sorrisos e desaforos. Que dance a dança dos mistérios, e investigue a história dos soluços, alimente universos paralelos, e ameace o choro se ele acontecer sem consentimento.

Com sentimento...

Vai que você reze por medo, desbrave o mundo com elegância, desça do salto da esperança, só para encarar o derradeiro. Grite por ajuda ou brincadeira, gargalhe diante da fatalidade. Revire gavetas, procure tesouros escondidos em bocas alheias, venda paixões imaginárias a troco de nada e redenção. Que mude tudo de lugar só para garantir tropeço.

Caia aos pés dos recomeços.

Vai que você passe, exalando o perfume das tragédias, trançada em panos da comédia, fazendo-se de vítima da felicidade. Das obras tortas da felicidade. Da indecência da felicidade. Da sagacidade da felicidade. Da falta que faz a felicidade.

Quando ela se perde da gente.

Vai que você cometa crime, mate o dó e o ressuscite lágrima, deságue mares no chão da sala, assista chuva cair nos telhados. Deite-se no chão para alcançar o céu, varra a casa para pagar o aluguel do tempo gasto com nada. Colha segredos dos que lhe dão confiança. Cozinhe a comida para a fome das crianças que não teve, more em varandas, em quintais, em cativeiros.

Em prisões que lhe provocam medo.

Vai que você quebre a banca, as regras, a cara amarrada de quem lhe fere. Fale com o espelho sobre a imagem de quem ama. Negue ao espelho a imagem que lhe cabe. Core diante da palavra afeto, sonhe secretamente com a palavra alento, refestele-se na palavra vento. Engula palavras em verso, cuspindo-as em ritmo de tantra.

Assanhando o consentimento...

Que lhe conceda o direito de habitar meus pensamentos, de abraçar meu coração com as mãos, criar silêncios no meu dentro. Tecer a si na minha memória. Fechar a casa e ir embora.

Deixando-me a ver navios e horas... Que não passam.

Imagem: sxc.hu

carladias.com

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segunda-feira, 22 de abril de 2013

MEMÓRIAS NÃO REVELADAS VÃO AO BORDEL III >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação)

Dasdô olhou para Nicolau e viu que ele viajava. Nem a conversa tava rendendo. Não gostava disso, era honesta, queria dizer que ele estava jogando dinheiro fora, mas tinha medo que ele se aborrecesse de novo.

De fato, Nicolau penetrara no escuro de seus próprios pesadelos. Enquanto eram noturnos, ele os aguentou bem. Dormia mal, acordava pior, olhos inchados, adoecia, mas aguentou. Aí começou a vê-los acordado. Estavam em todos os lugares, às vezes com os mesmos rostos retorcidos daquela época. Podia ouvir-lhes a voz, os gemidos, as súplicas. Outras vezes enxergava-os já de cabelos brancos, andando pelas ruas com filhos e netos, como se um programa de computador os tivesse envelhecido. Ele fugia, entrava numa loja, mas lá estavam eles. Pareciam reconhecê-lo. Sorriam como se tivessem vencido, como se fosse ele o torturado. Como se soubessem do seu abismo. Não o olhavam com ódio, não o condenavam. Pareciam se divertir. Pareciam tranqüilos, como Dasdô ali em frente. Como o olhar de Dasdô. Ás vezes pensava que já conhecia aquele olhar.

Percebeu que Dasdô também cismava sozinha, mas era melhor assim, calada ela funcionava melhor. O que é que uma putinha de quinta poderia saber sobre problemas tão complexos? Voltou às suas dores.

Seus pesadelos não eram remorsos. Se fez alguma coisa errada, se exagerou, se cometeu alguma injustiça foi por que é humano. Humanos erram. A vida não é justa. A justiça não é justa. A história não é justa porque escolhe seus bodes expiatórios para fingir que faz o que não faz, que compensa o dano, para parecer que tudo se equilibra. Não é nenhum monstro só porque eventualmente ressuscitou alguém para obter mais informações. Informações às vezes imprescindíveis para a recuperação da ordem, da decência e da moral. Isso é cumprimento de dever, e cumprimento de dever não pode ser crime.

Reparou que Dasdô ficou deprimida depois que falou de solidão, pesadelos e pecados. Ela não tinha culpa dos seus problemas, e ele se esforçou:


- Não reclame não, Maria das Dores, vocês estão cada vez mais valorizadas. Formam associações, têm representantes nos parlamentos, reivindicam direitos trabalhistas. Algumas trabalham em lugares luxuosos com cachês cada vez maiores.

Isso era o que mais doía nele. Até as prostitutas tinham a sua dignidade. E eles? Desempregados, humilhados, perseguidos. A humanidade resolveu que não são mais necessários, são uma mancha na sua história. Esquecem-se dos serviços prestados durante a santa inquisição em defesa da fé, da justiça e da verdade. Esquecem-se de quem os defendeu, neste país e na América Latina, dos comunistas que ameaçavam a pátria, a família, a religião e a livre-propriedade. Esquecem-se de que, ainda hoje, esses trabalhos são necessários para salvar reféns e desmontar quadrilhas. Trabalho que tem de ser feito clandestinamente em salas à prova de som nas delegacias. Mesmo os governantes que reconhecem a importância dessa atuação, quando há denúncias, negam, dizem que vão punir e que não admitem tais práticas. Hipocrisia é a palavra de ordem do momento!

Dasdô voltou a segurar sua mão. Dessa vez ele não puxou. Olhou-a nos olhos e só não conseguiu sorrir. Tirou do bolso umas notas amassadas que colocou sobre a mesa. Ambos miseráveis. Levantou-se. Ela ainda lhe segurava os dedos.

- Não some não, Seu Nicolau, que eu vou ficar aqui tentando me lembrar de onde eu conheço o senhor.


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domingo, 21 de abril de 2013

ENTRE PANELAS, PRATOS, TALHERES E MÚSICAS >> Sílvia Tibo

Fiquei feliz demais quando fui aceita aqui no Crônica do Dia. Embora escrever esteja entre minhas grandes paixões (do que, aliás, só me dei conta há pouco tempo), não me imaginava incluída em um grupo de escritores de verdade. Desses “propriamente ditos”, se é que alguém me entende.

Mas, a despeito da alegria de ter sido tão bem recepcionada por aqui, uma coisinha, lá no fundo, me preocupou assim que vi meu pedido sendo aceito pelo Edu, nosso editor. A famosa “pulga atrás da orelha”. Daquelas que coçam, coçam e coçam. Sem parar e sem sair do lugar (com o perdão da rima pobre, óbvia e sem graça).

Pensava eu, com meus sempre inquietos e ansiosos botões: onde é que vou arrumar assunto pra tanta crônica? Afinal, o compromisso assumido era de um texto por quinzena, aos domingos, e sem data pra acabar, o que (pensava eu) seria muito pra quem não escreve por profissão, mas tão somente por pura e despretensiosa paixão. 

Para a minha tranquilidade, desde então, cheguei a todos os domingos (dias gentilmente reservados pelo Edu para as minhas publicações quinzenais) com um texto mais ou menos preparado. Afinal, sou a “programação” em pessoa. E como tal, detesto (ou pelo menos evito ao máximo) ter que resolver qualquer tipo de problema ou cumprir qualquer obrigação que seja na última hora. A não ser aquelas que chegam de surpresa, sem aviso prévio, às quais não há mesmo como se antecipar. No mais, vivo sempre com uma programação em mente. É assim no trabalho. É assim em casa. É assim com a família, incluindo aqui o quase-marido, os amigos do coração e o filhote de quatro patas.

Retomando o caso, o fato é que até ontem à tarde, euzinha aqui (a mesma “programada” do parágrafo anterior) simplesmente não havia encontrado, nas muitas pastas do computador, qualquer texto mais ou menos pronto ou quase acabado que pudesse ocupar hoje a página do Crônica do Dia. Talvez pela emoção e pela desconcentração diante do casamento que se aproxima. Talvez pela expectativa de, na ocasião, rever pessoas queridas. Talvez, ainda, pelos dias de férias e descanso tão esperados que virão em seguida. E certamente por tudo isso, junto e misturado. Muita coisa pra uma só cabeça e um só coração. Sobretudo quando esse coração é daqueles que se derretem com facilidade.

Mas, para a minha surpresa, eis que, em pleno sábado à tarde, depois de um franguinho ensopado (bem à mineira, com o tempero de casa) e ao som da banda preferida, as palavras surgiram, enquanto a louça ia sendo lavada, o quase-marido cochilava no tapete e o cachorro se distraía com o novo brinquedo adquirido. 

Às vésperas da união das escovas de dente, as palavras ignoraram a falta de concentração desses neurônios aqui, assim como a emoção e a ansiedade desse coração já derretido. E assim, elas realmente vieram. Foram surgindo aos poucos, naturalmente, no caderno velho que há tempos me acompanha, enquanto eu fazia um balanço da vida, na cozinha, entre panelas, pratos, talheres e músicas.

Pensei no que foi. Pensei no que está por vir. Algumas experiências frustradas, como é natural (e acontece até nas melhores famílias). Muita saudade guardada, porque a vida assim o quis. Mas, ao mesmo tempo, a vontade imensa de trilhar novos caminhos, com o companheiro escolhido, partindo do zero e sem ponto de chegada. Tantos desejos, tantas pretensões, tantos projetos para o resto da vida. Da vida que, agora, será compartilhada e dividida. Mas também que, acima de tudo, será somada.

São desejos e pretensões de felicidade, na acepção mais pura da palavra. A felicidade que vem das pequenas coisas, dos minuciosos detalhes. E que surge não só pelo que se recebe, mas sobretudo pelo que se dá, pelo que se oferece.

Ao final das reflexões, repito as palavras que escrevi ao Edu, quando solicitei a concessão de alguns dias de férias aqui do Crônica do Dia: Espero, do fundo da alma, que as escovas de dente se encaixem direitinho. Com falhas, buracos e percalços, como é inevitável (e bem sabem os já efetivamente casados). Mas, acima de tudo, com a disposição e a vontade de preenchê-los e superá-los.


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sábado, 20 de abril de 2013

ROUBOU-ME DE MIM [Ana Maria González]


A aula terminara antes e eu teria um tempo a mais. Mas, antes de me por a caminho do ponto de ônibus, saí em busca de uma pessoa que eu tinha mantido na memória durante o tempo da aula. Uma personagem inesquecível.

Pela rua de apenas duas quadras, o movimento era grande, talvez ainda maior do que quando eu chegara. Os passantes tinham que disputar espaço entre os jovens estudantes espremidos nas calçadas. Não havia aula? Parecia que a população das faculdades estava toda lá sob o céu claro de uma noite de clima ameno. As salas estariam vazias? A opção de ficar fora das salas de aula era um gesto próprio dessa geração, uma rebeldia? O exercício da liberdade?

Eram jovens com copos nas mãos e cigarros nas bocas, tão semelhantes nos olhos, nas roupas, em seu momento de vida. Alguns com camisa de escritório, a maioria com camisetas coloridas e tênis. Aquele com tiara escura a se misturar nos cabelos alisados com algum creme. Muitas mochilas às costas. As mulheres com sapatilhas, saias curtas e cabelos longos e lisos. Todos permaneciam em pé ou sentados em alguma mureta, encostados onde fosse possível. Estavam em grupos, mas de certa perspectiva era uma multidão ao longo da rua.

Imaginei minha personagem ainda no lugar em que o havia visto ao chegar para a aula. Não, não estava lá. Não o vi mais. Era um anjo encostado em um vão entre uma parede e a porta fechada de uma loja. Um jovem cristo de olhos de água. Alto e magro, de cabelos claros levemente cacheados, longos, quase nos ombros. Com um copo na mão, olhava para a rua e pude perceber não mais do que quatro acordes de uma malevolente toada de jazz que ele cantarolava (ou chorava?). Quisera de novo o som de sua voz, a melodia interrompida. Quisera de novo a doçura de sua figura que brilhava nessa hora escura da noite. Ele tomara de mim a respiração, a mente e a visão que ficara empanada.

Entre os quepes de todos os tipos, calças de todos os modelos, havia fumaça com cheiro de maconha a céu aberto. Havia bitucas lançadas no chão. Havia um trânsito intenso. Era uma quarta feira e fogos de artifício anunciavam algum jogo de futebol. Bandeiras do time do coração, pelas janelas de um carro, promoviam um espetáculo: o exibicionismo da paixão. Acontecia um jogo de cartas na esquina com quatro senhores de idade, sentados em banquinhos. À sua volta, uma pequena audiência, por certo fiel, observava. Dando palpites ou apenas torcendo?

Mas, faltava aquela pessoa saída de uma página amarelecida pelo tempo, quiçá de um filme dos anos cinquenta, que permanecia em minha memória, quiçá para sempre instalada em um desejo inenarrável.

Quando me percebi, quase extasiada, vi que o conjunto da cena havia me roubado de mim. Era um palco e muitas sensações. Eu balançava entre a memória de meu personagem e os pensamentos dos jovens, os gestos vazios, as palavras ao léu, as baforadas e tragadas de cada um dos cigarros. Carregava a ansiedade dos torcedores nos carros, sua alegria e o colorido dos símbolos. Sentia curiosidade pela próxima carta de baralho a sair do monte de um jogo de esquina. E a personagem central, ele, arrebatara meu coração como se eu o amasse assim de repente para todo o sempre, sem possibilidade de happy end.

De mim sobrava quase nada, apenas um vazio sem importância perante a riqueza daquele pedaço urbano. Eu era o barulho, as formas, as figuras daquela rua, eu era só isso. Eu era naquele instante fugidio uma rua com a extensão de duas quadras e toda a sua população. Roubara-me os sentidos, a identidade, a alma. Era uma presença física experimentando sensações de que não poderia nem queria fugir. Eu era aquelas personagens, com os olhos claros de água e melodia de quatro compassos em voz de anjo, na grande cidade em uma noite clara de clima ameno.



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quinta-feira, 18 de abril de 2013

O CAFÉ FICOU MAIS TRISTE LÁ NA CASA DOS MEUS PAIS >> Mariana Scherma


Carla Vilhena, ex-apresentadora do Bom Dia São Paulo, deixou, quer dizer, foi destituída do cargo. Se você acorda depois das 7h20 da matina ou não vive no estado nem se deu conta e continuou vivendo normalmente, tomando seu café, comendo seu pãozinho com manteiga, seu mamão papaia... Mas, assim que soube do acontecido, tomei um soco no estômago. Não conheço a Carla pessoalmente, mas conheço uma pessoa que está amargando uma saudade absurda dela todo dia no café da manhã: meu pai.

Não, meu pai também não conhece a Carla pessoalmente. Mas a admiração que ele sente por ela fez com que minha mãe e eu também gostássemos da Carla como se fosse da família, como se estivesse sentada à mesa conosco tomando o café deliciosamente forte da mamis. Quantas vezes meu pai deixou o café esfriar pra ver a Carla nem ele próprio sabe. "A Carla é imponente. Ela não tem o sorriso fácil, aí quando sorri fica até mais bonita". "Olha só, até as repórteres ficam inibidas diante da postura da Carla. É uma rainha". “A Carla é corintiana, olha o sorriso dela ao falar do Corinthians”. Eram frases desse tipo que entoavam o café da manhã da casa dos meus pais. E nem pense que meu pai é um safadão, é o tipo de elogio com zero interesse, é admiração mesmo. Meu pai é muito feliz com a dona Neide, que também tem olhos azuis, é imponente, bem gatona e tão segura de si que sente zero ciúme da Carla.

Vendo o interesse do meu pai, fiz uma busca sobre a jornalista e descobri que ela era botafoguense. Meu pai fez que não acreditou e disse que ela tinha simpatia pelo timão porque “olha o sorriso dela, é diferente quando a vitória é do Corinthians”. Assim como um esquimó sabe diferenciar tons de branco, o seu Antonio diferencia os variados tons do sorriso da Carla. Eu nem discuti. Quando eu era adolescente, tinha adoração por Johnny Depp e só acreditava no que minha cabeça ordenava quando o assunto era ele.

Meu pai é uma figura. Se eu não nascesse filha dele, teria que encontrá-lo por aí só pra ser amiga (e juro: morreria de ciúme dos seus filhos). Ele é inteligente e sabe de tudo sem precisar jogar no Google. Ao mesmo tempo, é um sujeito puro, íntegro, acho que o homem mais honesto que já cruzou meu caminho. Mas como todo sujeito puro tem essas admirações platônicas e agora está sofrendo. Carla Vilhena é o topo de todas elas. Por isso, fiquei engasgada ao contar pra minha mãe e pedi que ela desse a notícia com calma. Foi mais ou menos como jogar uma bomba lá em casa. Em pleno café da manhã.

Na hora do exagero, papis disse que agora não tem mais motivo pra acordar cedo, a direção de jornalismo da Globo acabou com a graça das manhãs dele, ele vai boicotar a Globo. É, família meio exagerada mesmo, ah se não fosse o equilíbrio da minha mãe... Mas eu entendo meu pai. A sensação dele foi mais ou menos como a minha, quando soube que Kurt Cobain nunca mais cantaria Come As You Are. Depois de um tempo, a gente volta ao normal e ouve Come As You Are com nostalgia ou, no caso dele, vê as futuras reportagens dela para o Fantástico (papai vai ter que assistir ao Fantástico...).

No fundo, essa admiração toda do meu pai pela Carla me fez relembrar que eu abandonei minhas paixões platônicas da adolescência e fiquei meio indiferente a tudo. Vou tratar de recuperar essa admiração pura. É ela que deixa a vida mais divertida. Gostar sem esperar nada em troca... existe sentimento mais puro? Ah, meu pai seguiu levantando cedinho, ninguém consegue ficar na cama com o cheiro do café da minha mãe. E que eu saiba, ainda não rolou boicote a Globo. Bom, mas se rolar acho que não significa a falência da emissora, né?







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quarta-feira, 17 de abril de 2013

FIM DO MUNDO >> Carla Dias >>

Essa coisa sutil, vestida em panos esvoaçantes, representada pelos sorrisos enquadrados na beleza do cometimento. Nós flutuamos e solícitos de que para hoje já basta de arremedos e remendos. E os pés oferecendo a dança, à mercê da espontaneidade que só existe na ausência das amarras.

Mesmo que venha até nós esse ser labiríntico, vestido de pesos e medidas, arqueado de tão cansado que anda. Mesmo que ele se arraste até nós, e cochiche em nossos ouvidos por pura crueldade abastadamente alimentada, que isso é provisório, vai passar e deixar só o pó com seu peso quase nulo, sua capacidade férrea de remeter às solidões. Ainda assim, escolheremos o aconchego da esperança que mora na possibilidade de acontecer diferente. Um diferente capaz de inspirar felicidade. Porque o mundo já anda repleto de algozes com suas técnicas requintadas de fazer sofrer, de ceifadores de sonho alheio, divulgadores do ódio.

Por que não vivermos margeando algo menos apocalíptico? Desligar a tevê quando o programa usar a dor de alguém para melindrar sua necessidade de aumentar ibope. Não permitir que comentários grotescos ganhem poder ao repeti-los, ainda que em tom de censura. Prestar atenção ao que dissermos, porque às vezes é preciso um toque de doçura que endosse o nosso ponto de vista. Há uma linha tênue separando o direito ao pensamento livre, à liberdade de expressão, e essa linha é o direito do outro de fazer o mesmo. Para que ele entenda esse direito sendo respeitado, e o respeite de volta, é preciso não se impor quando a situação pede troca.

Jamais nos livraremos do limite. O que aprendemos é a não limitar o que nos é de direito, de viver, de ser.

Tudo bem pensarem que somos seres vivendo sob a batuta da ingenuidade. Que nosso alvoroço interno nada mais é que material para poesia ruim, declamada por ébrios para desiludidos. Porém, quem ousa experimentar dificilmente se sentará todos os dias à mesa do fracasso e da dor. Haverá essa fome por delicadezas, por respeito, pela alegoria dos silêncios provocando as palavras, incitando-as a libertar benquerença.

Porque viver sendo ladeado, o tempo todo, pela imbecilidade que catequiza os extremistas, pela descortesia dos que se intitulam dignos de um poder absoluto e inquestionável que não existe, amém. Pela falsidade do amor do “eu te amo” para roubar do outro a dignidade, o dinheiro, às vezes até mesmo a vida. Porque viver assim, submisso ao medo de que, dia desses, tudo se torne um fim previsto, catalogado nos livros sagrados, cuspido pelos governantes, ditado pelo medo de mudança, não é viver.

Talvez não lhes interessem saber, mas para nós as entrelinhas têm valor. As frestas iluminam e no raso quaramos profundidades. Diferenças constroem igualdade, lonjuras operam o milagre de criar diversidade. Lonjuras são belamente apreciadas porque alimentam a pluralidade cultural. Em outros casos, melhor concluir proximidades ao tom dos abraços. E cada dia é uma chance de nos desapegarmos do constantemente funesto.

Não que o mundo vá se tornar um eterno parque de diversões. Sempre haverá com o que nos condoermos, porque nascemos isso e aquilo, e isso significa que erraremos e muito, durante a nossa jornada. Mas podemos fazer melhor do que nos sentarmos e assistirmos o mundo sofrer de descaso. Porque o fim do mundo acontecerá se o deixarmos de lado.

Fim do mundo é estagnarmos diante do que nos afronta e fere.

Fim do mundo é não viver.


PROCURA NO GOOGLE - KLEBER ALBUQUERQUE
 
Atividade realizada com os alunos do 4º ano A - 2013 da EMEF Prof. Francisco da Silveira Bueno - DRE Ipiranga São Paulo, projeto didático: A Comunicação Escrita Através dos Tempos: das Cartas de Paulo de Tarso aos e-mails pessoais e pesquisas no Google.



Imagem: sxc.hu



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domingo, 14 de abril de 2013

HISTÓRIA DE PESCADOR >> Whisner Fraga

Gosto muito de pescar, acho até que já escrevi isso aqui outras vezes. Não que eu saiba a isca adequada para cada tipo de peixe ou seja perito em luas, marés, cardumes e anzóis. Meu negócio é jogar a linha na corrente e esperar que algo aconteça. Enquanto isso, os ruídos da natureza me acalmam. O rio Tijuco testemunhou
muitos desses meus pensamentos e de seu leito tirei muito piau e cascudo.

As pessoas não acreditam muito, portanto, quando eu digo que não gosto de água. Certa vez, eu trocava uma chumbada às margens deste rio que banha minha cidade natal, quando escutei alguém gritando. Era um moço que estava sendo arrastado pela correnteza. Eu vi que o sujeito submergia e voltava, os braços erguidos, tentando respirar. Várias pessoas o seguiam pelo barranco, alguns ensaiavam palavras de ânimo, mas percebi que a coisa estava feia. Ninguém podia fazer nada pelo rrapaz. Se não encontrasse nenhuma pedra pelo caminho, teria chances de sobreviver. Mas achou uma danada, bateu o peito na rocha e foi ancorar morto uns dois três quilômetros abaixo. Foi uma coisa chata de se presenciar.

Não sei se o ocorrido contribuiu com meu temor, mas evito nadar em piscinas muito fundas, em oceanos ou rios. Mineiro é espécie desconfiada e minha parte venho tentando fazer para não dar sopa ao azar. Mineiro é bicho contador de história e o ouvinte escolhe o tema: basta alguém prestando atenção para que a noite seja curta para tanto causo. Eu tenho quase certeza que estou me repetindo. Tenho a impressão muito nítida de ter tratado de todos esses assuntos. E mais: estou quase certo que o relato a seguir já foi narrado em algum outro momento. O jeito é tentar contá-lo de uma maneira diferente. Vou tentar.

Uma vez que estamos neste assunto, voltávamos do rancho, eu, meu cunhado e mais dois ou três amadores. Todos sabem que mineiro tem dois carros: um para a pescaria e outro para ficar na garagem. O primeiro é, normalmente, um veículo bem antigo e o segundo nem tanto. Vínhamos, portanto, em um Chevette 1976, o que significava, na época, 150 mil quilômetros rodados e vinte e poucos anos de uso. Havia um trecho curto de rodovia estadual a percorrer, de modo que a lei e a ordem não eram grandes problemas para nós. Mas neste dia um policial inexperiente resolveu nos parar. Descemos, para que ele pudesse inspecionar o veículo. É claro que faltava, desde o extintor de incêndio até o farol traseiro. Conversa vai, conversa vem, e ele chegou à conclusão que era melhor nos liberar para que não causássemos maiores problemas. Prometemos ir a setenta quilômetros por hora e juramos que faríamos uma revisão no Chevrolet no dia seguinte.

O problema foi na hora em que meu cunhado tentou virar a chave. Nada. Nem um barulhinho sequer. A bateria entregava os pontos. Chamamos o guarda e comentamos que se deixássemos o automóvel ali, dificilmente retornaríamos para resgatá-lo. Pedimos, com educação, que nos ajudasse a empurrar a máquina. Solícito, o representante da lei e da ordem veio em nosso auxílio e, ao ver que sujava as mãos, o uniforme e as botas, desabafou: antes não tivesse parado vocês.

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sexta-feira, 12 de abril de 2013

ACREDITAR OU NÃO, EIS A QUESTÃO >> Zoraya Cesar

Era um incrédulo, um incréu, um infiel. Não chegava sequer a ser um agnóstico, mas chegava às raias do deboche. Não viessem ter com ele conversas moles sobre religião que Otavio, com argumentos cortantes e definitivos, expunha a pessoa ao ridículo.
 
Desconstruía o interlocutor camada por camada, até demonstrar que o coitado tinha apenas uma pátina de religiosidade e, no fundo, nenhuma fé.
 
Não fosse ele também – ah, as contradições humanas – um homem sensível e caridoso seria um chato insuportável.
 
Sim, Amigos, vocês leram direito. Otávio era um homem caridoso. Ajudava campanhas de auxílio aos pobres, era motorista dos amigos que, de madrugada, serviam sopa aos moradores de rua. E por aí vai.
 
Mas, nesse mundão de meu Deus, além da esposa Vilminha, cardecista de carteirinha, não havia mais ninguém que Otávio respeitasse? Havia sim, e pasmem, era o cunhado. Ah, dirão vocês, também um tantinho incrédulos, o cunhado? Sim, e digo mais, o cunhado era umbandista, incorporava entidades diversas. Pior, para aumentar o espanto do nosso amigo ateu, o cunhado era cientista famoso, especialista em fractais (nem ouso explicar o que é isso). Que Deus é esse, brincava Otávio, que me colocou numa família de malucos, onde uma recebe mensagens de gente morta, e outro recebe gente que não existe.
 
Um dia, porém (torno a repetir, tem sempre um dia que...), Otavio acordou todo troncho, curvado, só conseguia andar meio que manquitolante. Pegou um táxi, mas, quando parou na porta do hospital, tudo passou, ficou novinho em folha. Praguejando, aproveitou o táxi para ir ao trabalho. No meio do caminho, a boca entortou, as pálpebras caíram, o tronco caiu novamente. Ele começou a suar frio, tinha uma reunião importantíssima, como chegar desse jeito? Do espelho do retrovisor, o taxista assistia àquelas transformações dignas de O Médico e o Monstro e balançava a cabeça.
 
Chegando ao destino, Otavio voltou ao normal. Deve ser estresse, pensou. O taxista se despediu dizendo:
 
O senhor tá com encosto, doutor, procura um centro espírita, fazer um descarrego desses irmãozinhos perdidos. – Não vou dizer o que Otávio pensou sobre a progenitora do motorista.
 
Ao final do dia, Otavio começou a se comportar e a falar de maneira esquisita. Era “izimifio” pra cá, “suncê” pra lá, o corpo novamente meio curvado. A sorte, a sorte mesmo, é que o pessoal achou que era mais uma das pândegas de Otávio desfazendo religiões.
 
De lá mesmo correu para uma emergência. Quando lá chegou, claro, já estava normal. O doutor ouviu tudo, pediu três tomografias, duas ressonâncias, quatro páginas de exame de sangue, fezes, urina, outros, receitou um tarja preta, deu o telefone de um colega psiquiatra e mandou Otavio para casa.
 
Onde chegou com uma enxaqueca de derrubar poste. Dizem que a enxaqueca, quando muito forte, provoca estranhas reações nas pessoas. Talvez por isso Otavio vislumbrou vultos andando pela casa e pensou ouvi-los conversando. Começou a chorar. Estou ficando maluco ou vou morrer de derrame. E, de repente, passou. Tudo. Aliviado, ele decidiu que era hora de pensar em tirar férias.
 
Infelizmente, nos dias seguintes a situação se repetiu, corpo torto, cabeça meio caída, andar sofrido, fala esquisita, e, de repente, tudo normal. E, ao final do dia, a mesma enxaqueca, os vultos, as vozes. Os exames nada demonstraram e o psiquiatra, logo na primeira consulta, cogitou em internação. Otávio já estava mesmo apavorado de ficar assim o resto da vida. Até que, cansado de ver vultos, ouvir vozes e das insistências de Vilminha, ele sucumbiu e resolveu conversar com o cunhado.
 
Este, por sua vez, não conversou. No dia seguinte pegou o renitente Otávio e o levou ao centro espírita. Não obstante todas as coisas estranhas que vinham lhe acontecendo nas últimas semanas, os exames médicos inconclusivos e o psiquiatra parecer doido de atirar pedra em avião, ainda assim Otavio sentia-se desconfortável em estar ali. E se alguém o visse? Logo ele, o ateu incorrigível? O destruidor da fé alheia? Sentia-se também um tanto ridículo. Em que aquela gente esquisita poderia ajudá-lo, quando nem os maiores especialistas tiveram sucesso? Deixei-me levar pela histeria, pensava, devia ter saído de férias, isso sim.
 
E começou a ficar rabugento e inquieto. Onde estava o cunhado? Queria ir embora. Sentou-se sob uma árvore, mais uma vez se perguntando como pessoas inteligentes se prestavam a esse tipo de comédia. E lançou um desafio ao ar: se um homem grisalho, um olho vesgo, carregando um gatinho no colo, passasse por ali, ele acreditaria no inacreditável.
 
 
Bem, Amigos, agora a escolha é de vocês. Acreditar ou não é sempre uma opção. Pois o fato é que, mal terminara a frase, um senhor exatamente igual à exigência de Otavio passou por ele, parou, sorriu, e disse:
 
- Acredita, agora? Pode ir para casa. – E foi embora.
 
Alguns minutos depois, o cunhado o encontrou conversando animadamente com um dos diretores do centro. Levou-o de volta para casa espantadíssimo, nunca vira alguém se livrar de obsessores sem antes passar pelo descarrego.
 
Otávio chegou em casa, chamou Vilminha e disse: - Separa todas as minhas roupas brancas e desmarca o churrasco da semana que vem. No próximo sábado temos trabalho no centro do seu irmão.
 
Como disse, acreditar é sempre uma opção. Nem todos a escolhem, porém.


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quinta-feira, 11 de abril de 2013

PEQUENAS GUERRAS FRIAS >> Fernanda Pinho




De repente, você faz um comentário aleatório e uma pessoa do seu círculo de convivência tem certeza de que foi uma indireta e fica ofendida. Você não sabe de nada até encontrar a tal pessoa e receber um tratamento um tanto quanto frio. Mas você não leva desaforo pra casa e decide esfriar do seu lado também, não sem antes soltar umas farpas por aí. Farpas estas que podem se encaixar na situação. Ou não. E quando pensa que não, você tem praticamente um inimigo, sem nem saber o motivo.

Eu, que já passei por situações de, sem ter a menor ideia do porquê, notar algumas pessoas reagindo à minha existência como se eu fosse o Jason na sexta-feira 13, sou adepta do ir direto ao ponto. Chego e pergunto qual é o problema. Normalmente, as coisas se esclarecem. Porque sempre que cheguei ao ponto de botar a roupa suja pra lavar foi com alguém por quem eu tenho alguma consideração. Se não tenho nem consideração, tô nem aí para como a pessoa reage à minha existência.

Acontece que nem para todo mundo é fácil encarar a situação de frente. Existe trauma, existe timidez, existe vida sem graça (pra quê esclarecer a situação se esse é o único assunto que movimenta meus dias?). E aí, na maioria das vezes, fica o dito pelo não dito. E o não dito, quase sempre, é um mal entendido monstro. Porque se não foi dito, podemos imaginar qualquer besteira. E assim somos, 90% dos humanos: por que eu vou canalizar minha imaginação escrevendo livros, produzindo filmes ou fazendo descobertas fantásticas para a ciência se eu posso usar toda ela para especular o que os outros conspiram sobre mim? Estamos sofrendo de carência, estamos sofrendo de mania de perseguição, estamos achando que tudo é feito de caso pensado para nos atingir e por isso produzimos mal entendidos em larga escala.

Sobretudo agora, com o aval das redes sociais. A pessoa escreve “o pica pau é mau” e vai ter pelo menos uns dez pra pensar “hummm...acho que esse pica pau sou eu”. E assim é dado o primeiro ponto para tecer essa rede de guerras não declaradas que – eu já vi acontecer – pode até destruir amizades. Por isso eu sou a favor da criação de um tribunal das pequenas grandes causas. Cada uma das partes apresenta suas versões, suas defesas, seus sentimentos envolvidos e o juiz absolve todo mundo da angústia de não saber onde a relação se perdeu.

Mas, como o tribunal é só mais um fruto da minha imaginação equivocadamente aproveitada, pensemos em soluções alternativas. A pessoa falou que ia te ver e não foi? Talvez ela esteja doente, trabalhando ou tenha ficado presa no engarrafamento. Ou, quem sabe, nem tenha percebido que você a convidou para ir na sua casa. Seja mais convincente na próxima. Você ligou três vezes e a pessoa não atendeu? Já ouviu falar que celulares estragam? A pessoa não reagiu com euforia a um presente que você deu? Não julgue. Você nunca vai ter certeza do que acontece no fundo do coração do outro. A pessoa escreveu que o pica pau é mau? De repente ele só está falando do desenho e não lembra que você existe há um mês. Acho que usar um pouquinho da nossa imaginação para o bem, com o perdão da rima, não faz mal a ninguém.

(Atenção: O conteúdo acima é uma opinião pessoal e intransferível sobre situações genéricas. Não devendo ser considerado como indireta para ninguém).


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quarta-feira, 10 de abril de 2013

SOBRE ACUMULAR PESSOAS >> Carla Dias >>

Minha mãe disse, em uma dessas conversas em que concluímos a mesma com alguma frase que resume tudo, que “a vida é isso... um acúmulo de pessoas”. Tenho de concordar com ela, até porque falávamos sobre o nascimento da sua bisneta (ok, sim... tornei-me tia-avó), em uma família tão grande que há primos que nem conheço.

Fiquei pensando sobre esse acúmulo de pessoas, que não é apenas de familiares, mas também de amigos, de colegas de trabalho, de companheiros de jornada ocasionais. Eu sei... Você acumula coisas, cargos e não pessoas. É isso o que você vai pensar ao ler esta crônica. Vai dizer que imaginou um monte de pessoas apinhadas num canto da sua sala, coisas do tipo. Mas a verdade é que acumular faz parte da essência do ser humano.

Talvez não seja a palavra mais palatável para descrever o que quero dizer, mas acredito que seja a certa para o assunto. Pense no seu perfil em redes sociais. Quantas pessoas fazem parte dela? Com quantas você realmente mantém um relacionamento? E não digo pessoalmente, porque muitos de nós mantemos sincera amizade com pessoas que só conhecemos virtualmente. Quantas são apenas lembranças de momentos agradáveis em alguma viagem? Quantas você não faz ideia de quem sejam? Quantas acabaram ali por causa do trabalho?

Nós acumulamos pessoas, e não apenas as redes sociais mostram isso. Algumas vezes, melhor, em determinados momentos, dependendo da nossa necessidade emocional, tratamos quase desconhecidos como amigos de longa data. Convidamos para nossas festas pessoas que talvez se tornem mais que conhecidas do ponto de ônibus. E isso é válido e normal, tem a ver com o nosso desejo de nos conectarmos. Com a loteria que é conhecermos pessoas que estarão por perto durante toda a nossa vida. 

Agora, pense sim no sentido claro da palavra. Acumular gera um problemão, porque esgota qualquer um. Em determinado momento, respirar fica difícil, a gente se sente preso nesse universo em que tudo parece exagerado, em que temos de lidar com problemas com pessoas que nem fazem parte da nossa história.

Chegou a hora de desapegar.

Desapegar não é fácil, ao menos para mim. Eu sempre fico com a sensação de autora de abandono, de que não estou fazendo o melhor para aquela pessoa, sendo a melhor pessoa para aquela pessoa. Os meus desapegos, frequentemente, chegam acompanhados de algum evento nada bacana, um daqueles desfechos em que você para e diz: por que estou perdendo meu tempo dessa forma?

Eu entendo o que minha mãe disse, e no contexto da conversa, foi mais bonito do que parece. Com a família grande que temos, chegamos àquele ponto em que fica difícil estar ali sempre para todos. Lamentamos, mas ao mesmo tempo compreendemos. Neste caso, o desapego é pela ideia de que é possível estar presente na vida de todas as pessoas as quais queremos bem.

Eu sei que ainda chegarão muitas outras pessoas, que a acumulação será digna de show de diva pop. E que haverá sessões de desapego até. Assim como compreendo que esse é o jeito de a vida nos fazer escolher não apenas o nosso caminho, mas aqueles que seguirão conosco.

carladias.com

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