domingo, 31 de março de 2013

OUTROS TEMPOS >> Whisner Fraga

O legal naquela época era morar a cinco quadras da escola, poder andar de bicicleta pela rua sem temer um atropelamento, conhecer todos os vizinhos da mesma faixa etária, sumir durante uma tarde inteira sem que isso preocupasse nossas mães e, naturalmente, ter a sensação de que o bairro inteiro era uma grande família. Uns ajudavam os outros, uns se metiam na vida dos outros, uns controlavam as ações dos outros e no final da noite todo mundo sabia qual marido se esbaldava no puteiro. A vida era boa.

Então importaram algumas pragas: o shopping center, o condomínio fechado, o playground do prédio, as prestações a perder de vista e a violência. No fundo todos sabiam que não dava para viver de Toddynho a vida inteira. No interior imaginavam que as coisas iam bem, que isso era coisa da capital, mas era evidente que uma hora o mercado se saturaria e a caravana seguiria para as cidades pequenas. Daí para o sequestro relâmpago e os assaltos a mão armada acontecerem em uma minúscula cidade do Triângulo Mineiro foi só questão de marketing.

Para piorar a situação, os Datenas se espalharam pelas sucursais das grandes emissoras e os jornais descobriram no sensacionalismo a chave para a sobrevivência, de maneira que hoje não sabemos separar o boato da notícia. Temos medo de sair de casa, de chegar em casa e tudo que sabemos é que Fulano, do Bairro Não Sei das Quantas foi abordado por um malandro. Por outro lado, eu mesmo já presenciei motoqueiros apontando armas para motoristas parados no engarrafamento. A verdade é que não conhecemos as estatísticas e pode ser que a imprensa acabe dando ideias para um ou outro bandido.

De forma que sair da capital deixou de ser uma opção atraente. A globalização está aí para isso. A situação é a seguinte: escapamos da dengue para cairmos na gripe A, fugimos do sequestro para sermos pego pelo assalto. Ainda há como fugir, é evidente. Bastam um pouco de sorte e um curso de defesa pessoal. Mas eu falava da infância e, sim, trata-se do mais puro saudosismo. As crianças e os adolescentes de hoje se adaptaram aos tempos e aproveitam a juventude como fazíamos nos anos 1980: do jeito que podem.

E havia também o futebol das manhãs de sábado, hoje substituído pelo futsal das quintas, das onze à meia-noite. Isso em qualquer lugar, porque todo brasileiro é um craque e é obrigado a mostrar suas habilidades numa quadra em que vinte e dois ou vinte e três garotos de meia-idade se revezam em cena para aguentar os sessenta minutos de correria e bate-boca. Naquele tempo, rachávamos uma coca-cola depois das peladas e hoje ninguém é de ferro para atravessar a semana sem uma cervejinha ou um chopp antes e após o racha.

Parece que atualmente a tendência é que as pessoas se isolem. Só que na hora do vamos ver, notamos que o outro pode ser importante. Outro dia mesmo senti umas dores nos rins e mal conseguia andar com aquela maldita pedra querendo abandonar o corpo. Como morava sozinho, mesmo não tendo nenhum contato com meu vizinho, fui obrigado a recorrer a seus socorros. Não digo que precisemos da convivência forçada, mas quero crer que a cordialidade e o aperto de mão sempre terão seu lugar de honra diante da banalização da existência e da correria da sociedade moderna.

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sábado, 30 de março de 2013

RITO E TRANSFORMAÇÃO [Heloisa Reis]

“Ascender ao espírito em sua forma de idéia é entregar-se ao imutável na eterna e permanente transformação.” (Goethe)

Nosso vínculo com o mundo em que vivemos manifesta-se das mais diversas maneiras e diferentemente em cada ser, mas a natureza humana é sábia e o ser humano é na verdade tri-membrado em corpo, alma e espírito.

O  corpo é  o instrumento com o qual interagimos nesta esfera terrena, enquanto com a alma  elaboramos e criamos um mundo interno, pleno de interações  que trazem desconfortos, afinidades, repulsas, atrações,  sem que nem nos demos conta... O espírito é a ligação entre corpo e alma e traz as sensações que levam a mudanças e a diferentes vivências.


A sociedade moderna – principalmente a Ocidental – costuma reagir negativamente à importância de determinados rituais – que na verdade são  “pequenos ritos de passagem”. É como se demarcássemos nossos territórios internos – de acordo com a passagem do tempo ou de fatos -  afirmando que transcendemos um estado e passamos para outro.

Da mesma forma como muitas vezes médicos e  nutricionistas  recomendam  dietas alimentares  para nos livrarmos de excessos  de peso,  as  práticas  feitas a partir de uma ótica espiritual e universalista  têm como objetivo a libertação de pesos emocionais  desnecessários  e dos  sofrimentos psíquicos decorrentes.


Instalação “Do Barro ao Rito”, Heloisa Reis
Um pedido de namoro pode parecer ultrapassado nestes tempos de “ficar”, mas carrega um forte simbolismo na expressão do querer e do aquiescer com o início de uma relação  que pode vir a se tornar consistente. Cerimônias de formatura,  noivado, batizado ou casamento prestam-se ao mesmo importante papel  afirmativo de confiança no futuro de um momento de definição.  Nosso subconsciente é muito sensível a estímulos e por isso os rituais são importantes.

Antigos rituais nada mais eram que uma forma de atrair as formas celestes  para o nível da alma, atravessando o espírito e chegando ao corpo. Hoje, temos a tendência de afastar essa natureza intrínseca para dar lugar ao sedutor sentido da visão com o agravante de tender a se fixar apenas nas aparências.

Quando trazemos ao consciente outras dimensões  em datas comemorativas religiosas, cívicas ou pessoais, estamos  abordando  fronteiras  daquele reino das diferentes dimensões da consciência e da inconsciência através da vivência.

A modernidade trouxe o afastamento dos mitos tratando-os como se fossem ilusões da mente criativa do homem , mas felizmente neste início de milênio têm-se recuperado a noção de sua  importância  por sua função, como disse Joseph Campbell, de "levar adiante o espírito humano ".

Ao imortalizar arquétipos, os mitos promovem nossa eterna transformação. E a Arte, assim como a Filosofia, podem desempenhar esse papel de religar o homem às suas origens e à sua ancestralidade, talvez mais do que qualquer Religião.


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sexta-feira, 29 de março de 2013

A AMANTE >> Zoraya Cesar

D. Tidinha era da época em que, uma vez casada, sempre casada. Assim fora criada, assim crescera e assim casara. O noivo, Aristeu, era de família tradicional, funcionário de carreira do Banco do Brasil, dez anos mais velho, um partidão, para os padrões da época.
Mas o tempo revelou que, como marido, Aristeu era um safardana. Aristraste, falava D. Tidinha (Matilde, para os não íntimos) com seus botões, com as panelas, as paredes, o berço dos filhos.
Sim, filhos, porque no mundo em que vivia D. Tidinha uma mulher não podia se furtar aos deveres conjugais. E se Aristeu era chegado às jogatinas, bebidas e farras, era chegado também ao corpo de D. Tidinha, que, mesmo depois de dois filhos, continuava impecável, com sua cinturinha de vespa. Aliás, falemos logo, para não deixar dúvidas, D. Tidinha era mesmo – e o foi a vida inteira – muito bonita.
E, para dar ao Amigo Leitor um quadro ainda mais realista, revelamos que Aristeu jogava tanto quanto perdia. Não poucas vezes D. Tidinha recebeu a visita sempre desagradável de cobradores, ou teve de vender as poucas jóias para fazer frente às contas atrasadas.

Aristeu não chegava a cair de bêbado, infelizmente, pois se caísse poderia bater a cabeça no paralelepípedo e... esse não é um pensamento cristão. Chegava em casa alterado e agressivo. Destratava as crianças, empurrava Tidinha para o quarto e vocês podem imaginar o resto.

E por que não separava, perguntam as mulheres modernas. Porque não era tão simples assim. D. Tidinha não teria como se sustentar nem às crianças, mulheres desquitadas eram discriminadas. E ela sabia que, sozinho, aí mesmo Aristeu perderia as estribeiras e também o cargo no Banco do Brasil, já ameaçado. E perder a segurança da pensão do banco era impensável, depois de tanto sacrifício.

De forma que agüentava tudo estoicamente, inclusive as farras do respeitável Aristeu. Aliás, essa era a melhor parte, pois sempre que ele se enrabichava por uma sirigaita passava alguns dias fora de casa, para alívio geral.
Mas nem tudo era amargor, D. Tidinha freqüentava o clube do BB, tinha suas amigas. E foi no aniversário de uma delas que encontrou Lucrécia, a exuberante, independente, rica, a loura Lucrécia. Viúva, não tinha peias nem pejos, mas possuía o que as gentes da época chamavam sex appeal. Por onde passava, atraía olhares e desejos. Diziam ser fútil, inconseqüente, egoísta. Tudo o que não se poderia dizer de D. Tidinha.

Ainda assim, as duas mulheres ficaram amicíssimas, pareciam irmâs, de tão unidas. Tanto que Lucrécia jantava constantemente na casa de D. Tidinha.

Bem, não vou fazer pouco da sua percepção, Amigo Leitor, sei que você já concluiu o óbvio: Aristeu se apaixonou e fugiu com Lucrécia, deixando tudo para trás, menos o emprego.
D. Tidinha, com a elegância que sempre lhe fora peculiar, não se abalou. Continuou sua vida e, a bem da verdade, a família nunca passou necessidade. Talvez por não terem de pagar dividas de jogo ou contas atrasadas. Talvez.
Algumas semanas depois, recebem a notícia de que Seu Aristeu e Lucrécia haviam morrido juntos, acidentalmente asfixiados pelo gás que escapou do banheiro. D. Tidinha, para surpresa de todos, chorou copiosamente por muitos dias, e nem saber que receberia toda a pensão do Banco do Brasil pareceu consolá-la.

Nessa época, estava para ser avó – uma ainda jovem e linda avó, diga-se de passagem.

Chamou a filha e o genro no canto e comunicou, sem meios termos:
- O menino vai se chamar Lucrécio. E eu serei a madrinha.

A filha ficou quieta, mas o genro ainda tentou argumentar. O olhar da sogra – e o fato de ela ajudá-los financeiramente – fizeram-no calar-se. Apenas pediu, tímida e respeitosamente, para colocar um segundo nome na criança, que tal Lucas, D. Tidinha? Ela assentiu. Lucrécio Lucas era um nome sonoro e forte, todos ficaram satisfeitos.

Apaziguada a questão, restou a curiosidade. Por que batizar o neto com o nome da amante do marido? E porque estava tão deprimida, afinal, livrar-se do estorvo não era o que ela queria? D. Tidinha ouvia as perguntas sorrindo como uma Gioconda e igualmente enigmática.

Uma dia, D. Tidinha recebe um envelope lacrado enviado por um escritório de advocacia. Ela se trancou no quarto, acendeu uma vela, tirou o retrato de Lucrécia do fundo de uma gaveta e colocou-o no altar, junto com seus santos de devoção.

"Minha Amada Tidinha, não fique triste. Você sabe que eu estava desenganada e que jamais me permitiria morrer definhando.
De forma que ajeitei tudo para partir de maneira rápida e indolor.
Deixo em testamento todos os meus bens para você, e levo o que te atormenta. Aristeu vai comigo.
Vivo, ele nunca te daria sossego, você é gentil demais, ele iria te deixar na pobreza.
Adeus, minha Querida Amiga, você foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida.
Lucrécia”

D. Tidinha chorava e ria ao mesmo tempo, sabendo o que ninguém desconfiava: que, naquela história toda, o grande corno sempre fora o marido.


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quinta-feira, 28 de março de 2013

PÁSCOA ME LEMBRA >> Fernanda Pinho




Páscoa me lembra o jardim de infância e os coelhos mimiofragados que a gente decorava com algodão. E me lembra particularmente um dia em que eu deixei o coelho com um olho de cada cor – mais por desatenção do que por estilo – e, diante da vergonha de mostrar para  minha mãe que eu tinha cometido tal erro, exibi pra ela o desenho sem desgrudar o dedão de cima de um dos olhos.

Páscoa me lembra cheiro de sinteco. Em algum momento da minha infância, meu pai resolveu reformar a casa durante a Semana Santa e nós tivemos que ficar na casa da minha avó. Mas, no dia da Páscoa, fomos à nossa casa buscar os chocolates e eu saboreei um bombom de morango enquanto quase tinha alucinações por causa do cheiro forte do verniz que estava sendo aplicado no piso.

Páscoa me lembra maçã do amor. Todos os anos, vendedores da guloseima aramavam suas barraquinhas na frente da igreja do bairro onde eu morava para saciar a gula da criançada após as longas celebrações da Semana Santa. Eu já saía de casa pensando na maçã do amor que comeria depois da missa.  E nem conseguia prestar atenção quando o cheiro do melado subia a escadaria.

Páscoa me lembra o caso do roubo do chocolate. Uma vez eu ganhei um ovo com formato de coração e levei para a praia. Estávamos na casa com pessoas com as quais não tínhamos o hábito de viajar. Na manhã de Páscoa, fui pegar meu ovo em cima da geladeira e só encontrei o papel. Nunca soube quem foi o meliante chocólotra. Nem nunca saberei.

Páscoa me lembra as celebrações organizadas pelo colégio onde eu estudava. Nessa época do ano, realizávamos alguns atos de ação de graças e também alguns gestos concretos. O que mais me marcou foi quando cada aluno ganhou a incumbência de enviar para um presidiário um chocolate e uma carta. Ainda me lembro o nome do rapaz a quem eu deveria escrever: Caio. Depois de um tempo, descobri que minha carta nunca chegou às mãos dele. Foi interceptada porque eu escrevi nela meu endereço para que pudéssemos nos corresponder.

Gosto de Páscoa. Gosto de dias festivos em geral. Há quem prefira repudiar o fato de as datas especiais serem amplamente propagadas por razões comerciais. Eu prefiro agradecer por ter nas datas especiais um porto para ancorar minhas lembranças. 

Imagem: sxc.hu


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quarta-feira, 27 de março de 2013

CANÇÕES >> Carla Dias >>

Infinito meu
agora que a lua sola
eu amanheço a noite em sua hora

"Infinito meu", Gero Camilo


Eu estava escutando uma canção linda, linda, composta pelo maravilhoso Gero Camilo e interpretada belamente pelo extraordinário Rubi. Eu sei, são adjetivos positivos demais para uma frase só, não?

Não.

Infinito Meu é uma canção especial mesmo. As pessoas envolvidas no feito, então... Artistas capazes de nos virar ao avesso por meio de suas crias.

Escutando a canção, peguei-me questionando o que em mim posso considerar infinito e meu. Separando as palavras, dá-se um novo sentido ao dito. Um infinito meu nem sempre está de acordo com o que é infinito e o que é meu.

Questões existenciais e questionamentos sobre o universo e o ser humano são infinitos. Livros de cabeceira, CDs constantemente no player, filmes que já assisti nem sei quantas vezes são meus. O amor que sinto pelos meus sobrinhos, definitivamente infinito. Os personagens dos meus livros, meus, mas apenas até criarem vida própria.

Minha versão de um infinito meu ainda é incógnita, talvez assim o seja eternamente... Ou infinitamente? Ou possessivamente de tão meu?

Canções como essa me fazem trafegar por sensações que não são rotineiras. Não é medo, não é a insegurança, não é a felicidade efêmera de quando se consegue realizar algo, aqueles minutos em que sorrimos como se fosse a única coisa a ser feita. Elas me abarcam com sentimentos que nem sei se aprenderei a sentir, que acessam partes do meu dentro que desconheço.

Canções como essa me levam a revisitar cômodos vazios, lacunas, a olhar pelas frestas, a observar trincaduras, a reivindicar atenção minha a mim mesma. Permite-me pensar sobre outros, a mergulhar em empatia, a aceitar contradições com a leveza necessária para não mancomunar com culpas. Porque sou hábil com as culpas, e as crio debaixo da barra da saia dos meus melindres. Eu as alimento com esperas, silêncios, asperezas que é para mantê-las em plena forma. Afiadas.

Às vezes, canções como essa me colocam em modo choroso, levando-me a um estado de concentração em distrações. Abstenho-me do mundo, das suas exigências, e ainda que dure por pouco tempo, é como se tivesse tomado uma garrafa de alívio sozinha, no gargalo. E tudo faz um sentido organizado de um jeito que não sei bem como explicar, mas me permite retomar o fôlego, levantar de tombos. Depois, passa.

Passo.

Infinito meu é esse lugar onde encontro a mim, antes de me jogar à vida. Onde me perco, constantemente, de mim. E pressionada pela incapacidade de caber aqui e ali, amoldo-me ao ensejo da sua bondade em me permitir ficar.
Aninho-me, jogo-me ao infinito que é meu somente quando ele decide ser.

Ou quando escuto canções como essa.


INFINITO MEU - RUBI



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terça-feira, 26 de março de 2013

O QUE VOCÊ VAI SER? >> Clara Braga


Acho que descobri porque os adultos perguntam tanto para as crianças o que elas querem ser quando crescerem. É porque depois que você de fato cresce é bem difícil responder a essa questão, então quem sabe uma criança com sua genialidade não ajuda a encontrar a resposta!

Quando eu era pequena já quis ser muita coisa. Me lembro especialmente de querer ser astronauta, porque gostava das estrelas, como se ser astronauta fosse o único jeito de estudar o céu. Lembro também de uma vontade curiosa de uma colega minha que disse que queria ser aposentada, pois percebia que suas tias que eram aposentadas tinham bastante tempo para leva-la para passear, então essa “profissão” devia ser bem bacana.

Não importa o quão absurda era a resposta, os adultos sempre se divertiam com os sonhos e desejos das crianças. Acredito que conforme fui crescendo meus sonhos e desejos cresceram comigo, hoje em dia é mais fácil eu dizer o que não quero ser do que o que eu quero. A diferença é que ninguém acha isso bonitinho e divertido, hoje em dia isso é no mínimo preocupante, como você vai começar uma carreira se não sabe nem o que quer da vida?

Sabe o que quero da vida? Passar o resto da vida fazendo diversas graduações, quero fazer dança, quero ser musicista, quero fazer cinema, quero estudar publicidade, quero ser escritora, quero estudar letras, quero tirar férias apenas para ler, escrever e ouvir música, quero estudar isso tudo e depois ensinar isso tudo também. Depois, quero me especializar em misturar cada uma dessas coisas com a outra. Quero estudar fotografia para cinema, escrever roteiros também, quero ser coreógrafa, quero compor músicas para espetáculos, quero ter uma banda de sucesso, quero escrever as letras das músicas para banda, quero fazer cartazes de shows, de filmes, enfim... quero criar! Ah, e depois ainda vou fazer especializações disso tudo em diversos lugares do mundo, vou morar em Paris e em Nova York, isso só para começar.

Com certeza se eu respondesse isso quando criança todos achariam lindo ou talvez um pouco demais para uma criança, mas tudo bem, afinal, é só uma criança. Mas agora que sou adulta todos dizem: é, você tem que escolher uma coisa só, não dá para ser tudo. Mas eu quero ser tudo. Mas não dá!! E agora, depois de grande, tenho que, mais uma vez, escolher o que quero ser... acho que vou ser astronauta mesmo...



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segunda-feira, 25 de março de 2013

MEMÓRIAS NÃO REVELADAS VÃO AO BORDEL I >> Albir José Inácio da Silva

- Posso pedir um uísque?

- Pára de palhaçada, garota, que você não bebe uísque. É capaz de passar mal.

Arrancou a rolha e encheu dois copinhos com a cachaça amarela que estava na mesa. Ela provou, fez uma careta desnecessária e exagerada e virou o líquido num copo de coca choca que tava segurando. Depois sorriu e tratou de agradar:

- O que é que o senhor vai querer? Por esse preço a gente pode fazer muita coisa.

- A gente sempre pode fazer menos do que gostaria, moça.

O sorriso dela ia e vinha sem saber se ficava. Examinou o freguês: paletó velho, colarinho puído e relógio parado, com algum esplendor de um tempo que já foi. Mas parece que não há risco de não pagar. Nem de ser violento. Parece aperreado, o que não facilita o trabalho, mas também não empata. Dasdô se orgulhava de sustentar qualquer prosa. E a noite só começava.

- O meu nome é Maria da Dores. E o seu?

Ele olhou através dela.

- Nicolau, como o santo. Dizem que a sua profissão é a mais antiga do mundo, mas eu duvido que a minha não tenha a mesma idade.

- E o quê que o senhor faz? Deve ser muito distinto pra usar essas roupas.

- Faço justiça, moça, ou melhor, fazia. Já não faço nada.

- O senhor é polícia?

- Muito mais que isso, minha filha. Eu fiz coisas que a polícia não sabe fazer.

- E por que parou?

- Parei não, me pararam. Fiquei desnecessário. Virei incômodo. De vez em quando recebo uns trocados e umas ordens para me esconder que o círculo está se fechando. Estão com medo que eu abra a boca. Sou, como eles dizem, um arquivo, um perigo. Temem que eu seja reconhecido por alguém “trabalhado” por mim na época. Agora estão desesperados com uma tal de “Comissão da Verdade”. É um milagre que eu ainda esteja vivo.

Reparando na cara dramática do freguês, Dasdô, profissional, quis puxar o decote até quase o umbigo, mas não ficou sexy por causa do estômago alto. Ela desistiu.

Nicolau percebeu que aquela coisinha burra e desengonçada à sua frente não estava entendendo uma palavra do que ele dizia. Mas precisava falar, estava enlouquecendo. Houve um tempo em que todos o ouviam, pediam conselhos, sugestões, como se ele fosse um deles. Houve um tempo em que admirava seus superiores. Seria capaz de morrer por eles. Agora sabe bem o que são: uns covardes, incapazes de executar eles mesmos o serviço sujo. Então vinham os elogios: “ninguém fica calado com o Doutor Nicolau, ele é o melhor!”. Esse codinome recebeu porque era devoto do santo do mesmo nome, mas, humilde, não se achava merecedor. Não era santo, era só um funcionário dedicado. Dedicado demais, avalia agora.

Mas a coisinha burra desistiu da conversa e resolveu trazê-lo de volta ao programa por bem ou por mal. Nicolau ainda regurgitava bílis e ressentimentos quando a mão pousou-lhe no joelho. E subiu pelas coxas.

(Continua daqui a 15 dias)

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domingo, 24 de março de 2013

UM NOVO PAPA? OU NADA ALÉM DE UM PAPA NOVO? >> Sílvia Tibo




Depois de muita fumaça preta ter ecoado nos ares do Vaticano, teve fim o conclave destinado à escolha do novo representante da Igreja Católica. 

Embora eu não me inclua entre seus seguidores, reconheço a grandeza do acontecimento, que, aliás, ganhou destaque (e quase exclusividade) em todos os meios de comunicação nos últimos dias, a ponto de se tornar, inclusive, um assunto cansativo pra grande parte dos ouvintes e telespectadores. 

Mas a repercussão do fato não poderia mesmo ser pequena. Afinal, pela primeira vez, elegeu-se um latino-americano para ocupar o posto máximo dentro da hierarquia da Igreja Católica, que é, sem dúvida, uma das instituições mais sólidas do mundo. Sem falar que isso aconteceu logo após a primeira renúncia de um pontífice em quase seiscentos anos. 

Confesso que achei positiva a novidade, assim como (acredito eu) a maior parte dos brasileiros, a despeito da famigerada rivalidade que mantemos com os nossos vizinhos argentinos, da qual até nos orgulhamos. 

Pode ser que, depois da boa nova, as atenções do mundo se voltem um pouco mais para o nosso Continente, o que já representa alguma mudança e é, sem dúvida, algo positivo. Mas não creio que as transformações irão muito além disso. 

A escolha de um papa não europeu representa apenas um pequeno sinal de abertura dentro da Igreja Católica, que, ao que parece, não se flexibilizará a ponto de romper com certos dogmas que já não guardam qualquer coerência e pertinência com o mundo contemporâneo. 

“Habemus Papam”! Ok. Mas será que, a partir de agora, teremos mesmo um novo papa? Ou nada além de um papa novo, com os mesmos ideais e valores dos que o precederam?

Torço para que eu esteja enganada, mas custa-me acreditar que a eleição do novo pontífice (que, de cara, já se declarou contrário, por exemplo, ao uso de anticoncepcionais e à união entre pessoas do mesmo sexo) venha a representar a mudança dos rumos da Igreja, com a redefinição de sua missão e a adequação de seus preceitos.  

Apesar da descrença, sigo fantasiando dias melhores, em que a Igreja se preocupe menos com o tipo de anel a ser usado por seu novo representante ou com a cor do traje a ser vestido na primeira missa por ele celebrada e passe a despender suas energias e seus recursos financeiros no sentido de pregar (com menos arrogância e mais simplicidade) o respeito às liberdades individuais e às diferenças, quaisquer que sejam elas. 

Já que a palavra pontífice vem do latim “pontifex”, que significa “construtor de pontes”, espero ansiosa pelo dia em que o representante máximo da Igreja comece efetivamente a cumprir a função que lhe foi (literal e originalmente) atribuída, derrubando os muitos muros de intolerância que o afastam da realidade e erguendo, em seu lugar, caminhos que o aproximem dos fieis.    



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sábado, 23 de março de 2013

EXPERIÊNCIA DE LEITURA [Ana González]

Eu gostava de ir á biblioteca da escola na época em que eu frequentava o segundo grau. As lombadas dos livros me diziam pouco de tudo o que eles guardavam. Eu ia, então, à descoberta. Era uma enormidade de dados, uma quantidade imensurável que estaria para sempre inalcançável à minha curiosidade.

Assim, visitando as estantes de uma sala grande e quadrada com algumas janelas também  grandes – e isso é o máximo que minha memória consegue resgatar - descobri as biografias. 

Elas me mostraram aspectos insuspeitados de personagens conhecidas. Foi assim que Maria Antonieta e Lincoln me acompanharam por muito tempo desde que eu os conheci tão de perto. Tinham ganhado estatura de pessoas. Não eram mais referências históricas. O fato de ser pelos olhos de outra pessoa não fazia diferença para mim. Sim, era  uma interpretação pessoal, mas esse aspecto não tinha importância. Era um detalhe que não cabia no repertório de minhas preocupações. E eu literalmente me perdi em meio a essas vidas e suas particularidades.

Só tive ideia clara do impacto dessa experiência de leitura quando visitei o Lincoln Memorial em Washington muito tempo depois. À frente da estátua de quase seis metros me senti menor ainda do que já sou realmente. Estarei exagerando? Talvez não. Eu era uma pessoa apaixonada por ele desde aquela leitura.  Então não me constrange dizer que chorei. Eram lágrimas sem dor. Era alegria de um reencontro, me deparando com essa pessoa que me servira de reflexão, admiração e respeito por muito tempo.

O filme de Steve Spielberg agitou a memória já apaziguada. A saudade foi vivida em tom maior, pela insatisfação que eu carrego ante a banalidade do que está á nossa volta seja nas personagens da política ou outros tipos de celebridades que servem ao imaginário coletivo. A partir desse contexto, o reencontro com a  experiência adolescente foi mais significativa.

Estando eu a salvo de ideologias que pudessem me impedir de apreciar o filme ou a figura do estadista e seu trabalho realizado, refiz o caminho daquela época em que o conheci, quando me embrenhei na sua luta pela abolição da escravatura. Hoje identifico aspectos diferentes em sua vida como as dificuldades em relação aos meandros da política. Em mais duas de suas biografias, me afundei de novo em sua vida. Descobri seu lado pisciano, melancólico e poético, o contato cético e saturnino com a realidade e com as questões materiais.

Esses dados acrescentados mudaram um pouco a impressão da primeira leitura. Hoje o personagem é menos guerreiro, embora ainda guarde tons heroicos. Eu confesso que ainda preciso de heróis. Sem seu apoio, sustentar a realidade fica difícil. Foi assim, que tenho constatado que a figura de Lincoln guardou sua magia desde aquela leitura inaugural.  Sou-lhe grata por manter esse raio de esperança dentro de mim, por ainda me emocionar. Gratidão também à biblioteca com todos os segredos de cada um de seus livros, ali, a espera de alguém que os mobilize. Ela me alimentou fornecendo-me inspiração. Ainda hoje.

Experiências de leitura são assim, uma maravilha. Elas podem ligar épocas, sentimentos. São como parcerias que marcam momentos inestimáveis, que podem ser reacendidos sem aviso prévio a qualquer momento. São presenças vivas para a graça e manutenção da vida. 


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quinta-feira, 21 de março de 2013

EXPECTATIVA BOA>> Mariana Scherma


Não sei se mais, talvez seja tanto quanto. Quero dizer, tanto quanto viajar gosto da expectativa de viajar. Se tem algo que me deixa feliz é abrir um mapa e começar a sonhar. Eu já viajo nessa hora. Em pensamento, tô sempre viajando. E no momento tô mode on e no volume máximo, curtindo essa expectativa das férias que se aproximam. Acho tão saborosa essa espera que não sei se quero que maio chegue logo ou não, porque uma coisa é certa: depois que chega, já começa a acabar.

Em 2010 fiz meu primeiro mochilão sozinha. Um dia antes de embarcar, nem dormi. Meus pais sofreram de me ver partir. Seriam três semanas curtindo o Velho Mundo, mas mais parecia que eu estava viajando também no tempo e indo, sei lá, pra Segunda Guerra, direto para um campo de concentração. Entendo o medo dos meus pais. Eu senti medo, mas o medo bom, que empurra pra frente e joga você dentro do avião. Meu medo passou assim que entrei na sala de embarque, com o coração dolorido por estar feliz e ver meu pai e minha mãe chorando. O combinado em casa era que eu ligasse pelo menos a cada dois dias. Cumpri o acordo e era engraçado, eu ouvia minha voz cada vez mais estridente de alegria (eu sou bem aguda, confesso) e eles, cada vez mais tranquilos. Eles diziam saudade e eu dizia, queria vocês aqui comigo. O problema de fazer o primeiro mochilão é que você vicia, como se provasse uma droga do bem (se é que existe droga do bem). Você se sente tão pequena num mundo tão gigante. Percebe que seus problemas (os meus, pelo menos) cabem numa caixa de fósforo. A sensação é de que o mundo é grande, você tem pernas e vamos lá, desbravar cada pedacinho desse planeta.

Quando voltei, voltei diferente. Não voltei com excesso de bagagem porque viagem faz isso comigo: me deixa num estado tão louco de felicidade que percebo que não preciso de nada material. Voltei com a alma mais leve, com o sorriso mais largo, com saudade e com vontade de voltar logo. Desde então fui guardando uma graninha. Guardei mais ou menos o suficiente e aí me deu aquele medo: vou gastar tudo pra viajar? Acho melhor não... “Mas não foi pra isso que você estava guardando?”, minha mãe me disse, essa sábia. Foi. Aí pensei, pensei e abri a mão. Lembrei que, mesmo mais pobre, sempre volto mais rica das viagens. Minhas lembranças não têm euro ou real que pague, não. Viajar faz eu me apaixonar pela vida e pelo mundo. Ôh delícia!

A você, que perdeu uns minutinhos lendo essa crônica, peço mil desculpas, mas eu sou toda expectativa no momento. Com as outras pessoas, eu me forço a conversar sobre outros assuntos pra não ser cansativa. Mas, durante essa crônica, fomos eu mesma e o computador. Nós dois juntos somos uma eterna busca pela passagem mais barata, pelo hotel mais legal (e mais barato, óbvio). Estou curtindo a espera mais ou menos como uma mulher grávida. Pode parecer exagero, mas, depois que acabar a viagem de férias, nasce uma nova Mariana, mais feliz, mais em paz, muito mais dona e companheira de si mesma. Eu me transformo na Mariana que tem dó de piscar e deixar uma paisagem passar. Eu viro aquela que sorri tanto que parece apresentadora de programa infantil. Eu fico loucamente feliz.

E se puder dar uma dica a você que leu tantas linhas de expectativa, aí vai: fotografe com moderação e só depois de enxergar bem o lugar (olhar com seus próprios olhos é muito melhor). Tente deixar o tablet ou o notebook no hotel (leve no máximo um bloco de papel pra anotar suas sensações). Sorria para os desconhecidos (a gente faz amizades incríveis assim, do nada, só porque está mais feliz). Viaje ao menos uma vez na vida sozinho (você precisa se tornar o melhor companheiro de viagem pra si mesmo, acho que só assim vira um companheiro nota dez aos outros). Olhe para o céu, acho mágico como cada cidade tem o mesmo céu com cores diferentes. Cada tom de azul é único. E, claro, não viaje com excesso de bagagem e tente não voltar com excesso de bagagem, opte pelo excesso de boas memórias, são sempre o melhor souvenir.






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quarta-feira, 20 de março de 2013

ENTÃO, JÁ FOI >> Carla Dias >>


Morte é uma consequência da vida, que é complicada de se aceitar sem dramas, ainda que sejam dos interiores, dos escondidinhos. Penso assim porque acredito que a morte faz mais sentido para os que ficam. Porque apesar de amarmos a pessoa, de ser fato que sentiremos falta dela, que vai ser muito difícil lidar com a ausência dela, depois da notícia do seu falecimento, passamos a pensar em nós mesmos. Prova disso é que, um dos primeiros pensamentos de quem recebe a notícia do falecimento dos seus afetos costuma ser o que será de mim sem essa pessoa?

De alguns anos para cá, tem sido mais complicado receber a notícia da passagem de alguns. Isso porque, quando crianças, adolescentes até, ao sabermos da morte de alguém, lidávamos com isso sem detalhes. Era como se a pessoa simplesmente parasse de nos visitar, ou tivesse se mudado de casa, deixando uma saudade a ser desfiada durante os encontros familiares e os muitos álbuns de fotografia.

Não estou diminuindo a importância das pessoas, mas sim assumindo que a morte alheia é um estopim para refletirmos sobre a nossa própria vida.

Quando adultos, a morte vem com as experiências de quem se foi misturadas às nossas. Não é mais a sensação de sala vazia, de alguém não pode mais nos visitar. A partir daí, já sabemos onde e por que a pessoa nos deixou. Viu só? Uma das formas de falarmos sobre alguém que morreu é “ele/ela nos deixou”.

Minha mãe tem uma forma muito peculiar de dar a notícia sobre a morte de alguém. Invejo a forma como ela lida com a morte, porque me parece muito mais tranquila, com a aceitação real de que a morte é o que tem de ser, independente do como aconteceu. Do ano passado para cá, foram algumas vezes que ela me ligou e disse: Sabe fulano? Então, já foi.

Já recebi a notícia sobre a morte de algumas pessoas e de diversas maneiras. Quase sempre, esse momento veio carregado de uma comoção que, em alguns casos, nem mesmo eu compreendia. Eu que fico prestando muita atenção, que me esforço para entender, mas que não consigo compreender como reagem, diante da morte de alguém, aqueles que nunca foram respeitosos ou amáveis com essa pessoa. É como se a morte permitisse uma consideração que, em vida, era inviável.

Até me voltar ao que acredito: a morte do outro faz com que reflitamos sobre a nossa vida. A empatia chega tardiamente.

Para mim, a forma como minha mãe dá a notícia é das mais justas. Quando escuto o já foi, acabo sempre imaginando a pessoa indo mesmo para um lugar mais aprazível, mala, cuia e tranquilidade. Automaticamente, acabamos falando sobre ela, sobre coisas bacanas que ela fez, mas sem esquecermos que, como qualquer ser humano, ela também tinha lá seus defeitos, seu acúmulo de escolhas que deram em consequências ruins. Morte não apaga biografia. Pensamos na pessoa como ser humano que é, deixando para mais tarde o mergulho em nossos insights sobre a morte e a fragilidade da nossa própria existência.

No tarô, a carta A Morte nos dá outra dimensão dessa passagem. Ao contrário do que parece aos que não conhecem o oráculo e os significados das cartas, imagina-se a morte como a que presenciamos cotidianamente, como o fim. Muitos sábios, valendo-se ou não de oráculos, concordam que a morte mantém significados muito mais profundos. Que a morte não é o fim, mas uma continuação. No caso da carta de tarô, ela significa renascimento, ainda que mediante um fim necessário.

De qualquer forma, escolho pensar a morte assim, como essa ponte pela qual aqueles que já foram passam, reunindo-se logo adiante para um cafezinho. Gosto de pensá-la poeticamente, ainda que as circunstâncias da partida não tenham sido das mais compatíveis com a tranquilidade que todos desejamos neste momento. E que isso inspire a pensar sobre mim, sobre o que precisa morrer para me permitir renascer em paz com alguns aspectos da minha própria existência.

O dia em que alguém disser Sabe a Carla? Então, já foi., espero que seja um dia em que alguém me imagine carregando malas cheias de livros, discos e filmes, e todos os desenhos-rabiscos que meus sobrinhos desenharam para mim quando crianças, e as cartas que guardei com muito carinho, as fotografias dos que amei nessa vida.

E que, por favor, lá tenha café.

carladias.com

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terça-feira, 19 de março de 2013

CONVERSAS DE ELEVADOR >> Clara Braga


Quem nunca teve problemas de relacionamento que atire a primeira pedra! Até quem nunca teve um relacionamento amoroso já teve problemas de relacionamento com os pais, com os irmãos ou com os amigos, não adianta! E digo mais, pode apostar que se você estiver em um recinto cheio de pessoas, a probabilidade de pelo menos um grupo estar conversando sobre relacionamentos é muito grande.

Outro dia estava no trabalho esperando o elevador para subir até minha sala, e ouvi uma mulher reclamando do seu relacionamento para a amiga. Elevador é uma droga mesmo, principalmente o do meu trabalho, que quando não está quebrado demora um século para chegar, então você fica ali, ao redor daquelas pessoas que se aglomeram esperando o elevador e reclamam de seus relacionamentos, como no caso dessa mulher.

Ela reclamava para a amiga que não estava recebendo a atenção merecida de seu companheiro, e isso a estava deixando irritada. Então, de uma forma muito madura, ela resolveu tratar o rapaz com a mesma frieza que ele a estava tratando, ao invés de conversar com ele sobre o que a estava incomodando. O resultado disso tudo foi que eles tiveram uma briga feia, e, segundo palavras proferidas por ela mesma, ela soltou os cachorros em cima dele e cada um foi para sua casa. O que mais estava incomodando a mulher é que desde o dia anterior a noite, momento da briga, até aquele momento, ele não havia ligado para ela para se desculpar e resolver as coisas. Então sua amiga, em uma tentativa de consolar a mulher, disse: mas amiga, você mesma disse que depois da briga vocês foram cada um para sua casa, ele é casado né, você sabe muito bem que quando ele está em casa não pode ligar para você!!!!!

Eu queria ser muito cara de pau nessas horas, mas infelizmente meus pais me ensinaram a não me meter na conversa quando essa não me envolve, apesar de que uma conversa de elevador é sempre compartilhada com todos aqueles que estão dentro do ambiente. Sério que ela estava reclamando que seu companheiro, que no caso era um homem casado, não estava lhe dando a atenção que ela achava que merecia? E que tipo de atenção ela esperava de um relacionamento que já começou com seu companheiro demonstrando ser um cafajeste que engana a mulher para estar com ela? Não sei quem é pior nessa história, o cara que trai ou a mulher que aceita se relacionar com um homem casado e ainda se sente no direito de cobrar alguma coisa!

Mais uma vez, sei que posso estar parecendo muito antiquado para esse mundo moderno onde muitas pessoas acham normal serem as amantes e muitas esposas não se incomodam de não serem as únicas, mas se eu fosse a amiga dessa mulher eu nem perderia meu tempo ouvindo as reclamações, quer reclamar do seu relacionamento tudo bem, como disse anteriormente, todos os relacionamentos tem seus problemas, mas pelo menos arruma um relacionamento que tenha começado bem, e não um que já tenha começado na base da mentira e desconfiança, né? Nem conheço essa mulher e já não tenho paciência para ela, acho que estou me tornando uma pessoa muito intolerante, só não sei dizer até que ponto isso é bom ou ruim...


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segunda-feira, 18 de março de 2013

O SUBVERSIVO DO KANGOO >> André Ferrer


Bruno!

− Suzane!

− É... – disse comigo mesmo. − Onde estará o Mizaelzinho?

Fila de cinema. Cercado de adultos notavelmente mais interessados no filme do que os pequenos a tiracolo. Alice. Branca de Neve e o Caçador. João e Maria. O apelo infantil, nos dias de hoje, atrai e convulsiona a mais insuportável espécie de homens e mulheres: pais e mães “adultescentes”. Enfim, o bom senso aconselha-me a nunca mais fazer aquilo.

− Pa-pa-i-quer-pi-po-ca.

Pronto: o raio da minha imaginação logo abriu os trabalhos. Começou a pintar um bestiário para Hieronymus Bosch nenhum botar defeito. Bruno, 10, Suzane, 14, e Mizael, 3 – este, naturalmente, ficara em casa com a babá – nasceram rápido demais. Ninguém esperou que o papai e a mamãe amadurecessem. Malvados.

Enquanto a fila se arrastava, questionei o meu suspeito interesse naquele conto de fadas transformado em arremedo de Tarantino. Django tinha sido ótimo uma semana antes. Eu precisava assistir àquela história cercado daquela gente? O fanfarrão agarrou os ingressos. Ele vestia uma indiscreta camiseta vermelha. Na frente, o rosto batido de Che Guevara. Nas costas, os dizeres: “Yoane, ¿por qué han traicionado a su gente?”

Como um dos demônios do pintor holandês, o sujeito levantou os braços e gritou:

− Partiu blockbuster!

Che Guevara chorou. A fina flor dos diabretes o escoltava para um dos enormes buracos abertos no chão onde havia uma placa: “Joint-ventures e bom senso nunca são demais”.

Ma-mã-e-quer-coca-zero.

Até hoje, estouro de rir quando penso que o sistema deve ser um monstro cheio de ex-rebeldes enfiados nas entranhas.

Ma-mã-e-ven-de-Ma-ry-Kay.

Sim, é o caso dos ‘adultescentes’. Quando há um delay entre as idades mental e cronológica, a rebeldia ganha comicidade.

− Ma-mã-e-va-i-sa-ir-da-di-e-ta-por-que-é-sá-ba-do.

Tubinho rosa-shocking. Correntinha dourada na bolsa “Luli Vison”. Ligeiros golpes de vista sobre o referido acessório produziam a seguinte ilusão de ótica: lu-vuitton-L-V-louis-vi. Um insight e, pronto, as palavras “Galeria Pajé” chegavam para dissipar o embuste.

Outra vez, o raio da minha imaginação recriou o desembarque dos diabretes no estacionamento do shopping. No interior do Kangoo, as crianças preveniam os adultos a respeito de guloseimas e birra. Imprescindível comportarem-se bem.

− O senhor?!

Indeciso, perguntei à bilheteira se Django ainda estava em cartaz em alguma outra sala.

− Não – disse a mulher incrédula.

Na minha nuca, a outra família respirava como um dobermann hidrofóbico. Senti-me, assim, pressionado a entrar e, na próxima hora, descobriria se um casal de irmãos exterminava bruxas tão bem quanto a incrível Sigourney Weaver liquidava organismos extraterrestres. Entrei. Obriguei-me a pensar no silêncio da nave Nostromo. E havia um gato juntinho daquelas pernas estonteantes. Imagens assim afastam maus pensamentos. A câmara criogênica, os coxões da oficial Ripley, a tanguinha e a blusinha colada nos pequeninos peitos.

− Papai!

Logo eu pensei: − Que mancada! Perto demais.

− Mamãe! Papai! Fiquem quietinhos. O filme já começou. Nós também queremos assistir.

Hieronymus Bosch pintou o inferno para sobreviver. Eu fechei os olhos. Uma vez mais, do fundo do meu coração, desejei ser o gato entre as pernas da matadora de aliens.


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domingo, 17 de março de 2013

UM ASSUNTO DELICADO >> Whisner Fraga

Outro dia fui almoçar num shopping de São Paulo e vi dois homens subindo a escada rolante de mãos dadas. Fiquei pensando na coragem daqueles sujeitos, porque todos andam acompanhando que a coisa anda feia para o lado dos homossexuais. Infelizmente, é lógico. Achei muito bonita a atitude do casal, o carinho que demonstravam um pelo outro, mas ao mesmo tempo fiquei com receio por eles. Em todo lugar há gente belicosa, disposta a bater, a atirar, para defender seus preconceitos.

Aí o pensamento debandou para os lados do Vaticano. É claro que a igreja católica não aceitará tão cedo a união gay. Para que a admitisse, seria necessária uma edição revista da Bíblia, que em vários pontos condena o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Esperar que um Papa dê sua benção sobre este assunto, portanto, é bobagem. Mais fácil seria que os homossexuais desistissem dessa história de religião e focassem em Deus, que, se existir, deve ser um ente livre de intolerâncias.

Eu mesmo já participei de missas e vi muitos padres gays professando a fé nos ensinamentos cristãos, como se a doutrina pudesse livrá-los da homossexualidade. Tenho minhas dúvidas, como de resto todas as pessoas deveriam ter. Para não espalharem que falo sem conhecimento de causa, tenho dois queridos amigos que tentaram refúgio na sacristia e voltaram desolados, porque não conseguiram “se curar”.

A violência, como qualquer criatura que tenha estudado o mínimo de história sabe, é um mal da humanidade. O homem é violento por natureza e não há o que se fazer para modificar isso. O que as pessoas rotuladas como “boas” fazem é tentar bloquear sua essência por meio de palavras e, algumas vezes, ações. Mas quando a coisa esquenta, pode ser um santo, que se o gatilho estiver ao alcance, ele o pressiona. Depois basta o arrependimento para chegar ao perdão.

Conheço o estrago que as religiões produzem em nossa sociedade, mas quem não estiver por dentro, pode dar uma lida no livro “Deus não é grande”, de Christopher Hitchens. Bom, mais uma vez me pergunto: que importância tem para os homossexuais a aprovação da igreja? Não sejamos ingênuos, é claro que o reconhecimento de uma entidade tão poderosa seria interessante. Bastaria uma palavra e certamente algo mudaria na cabeça dos cristãos.

Vejam bem: não acho errado que uma pessoa exerça seu poder de escolha religiosa, mas o velho ditado ainda é válido: seu direito termina onde começa o meu. Não gosto que me abordem para tratar de um tema de natureza tão íntima, quanto é a crença em algum Deus. Não aprecio que pessoas sofridamente preparadas venham tentar me convencer que existe um paraíso fora daqui e que, quanto mais eu sofrer neste mundo, mais certamente terei acesso a ele. 

Mas estou tratando de um assunto delicado. Fato é que toda manifestação de carinho é um negócio muito bonito, de maneira que, ao ver os dois homens de mãos dadas no shopping, senti que meu dia melhorava, que as agruras da manhã se dispersavam diante daquela alegria que chegava, sorrateira. Haverá um dia em que não será mais proibido expor em público o afeto que um ser humano sentir por outro.

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sábado, 16 de março de 2013

A IDADE FATAL [Debora Bottcher]

Revistas e programas femininos nunca se cansam de falar sobre as mulheres acima dos quarenta anos. Estão sempre às voltas com dicas e cuidados da pele, do corpo, e sobre a alma a ideia é que estejamos preparadas para a idade da loba: os conflitos, a resignação, as mudanças.

Então, quando cheguei aos 40, tratei de espreitar além das brechas para compreender o que me esperava de tão tenebroso - sim, porque o tom de advertência é assustador. É como se fôssemos abandonar totalmente um tipo de vida e começar outro - muito pior, diga-se de passagem.

Isso sempre me remeteu ao pensamento sobre as datas de validade de produtos alimentícios: o que acontece com uma lata de feijão à meia noite do dia que a data de sua validade expira? Começam os feijões a saltar no escuro, a batucar, enlouquecer por uma saída? Assim às vezes olhei para os 40 anos: como se à meia-noite de completá-los, as mulheres perdessem sua data de validade.

Há alguns anos li uma entrevista com Maitê Proença em que lhe foi perguntado o que aconteceu quando ela cruzou essa barreira. A resposta me arrancou um sorriso: "Fica tudo mais mole!" E ela também foi taxativa: "A partir de agora, serão obrigados a enxergar além da minha beleza." Parece muito justo.

Envelhecer deve ser mais terrível para as mulheres vaidosas, que ao se olharem no espelho e depararem-se com suas rugas, só conseguem ver sua pele - naturalmente um pouco mais opaca -, esquecendo do quanto de vida angariaram, aprenderam e mora em seus olhos.

Só que talvez o que realmente assombre a todos não seja a idade, mas a inevitável constatação de, ao completar 40 anos, admitir que já se viveu metade de uma vida e que restam mais quarenta ou menos - raramente mais. O que na verdade apavora - e ninguém fala - é a morte, que, a partir de então, passa a apresentar-se com sua sombra mais presente, na forma do inevitável e iminente, cada vez mais próxima.

Mas aos 45 anos entendo que, de fato, pouca coisa mudou no macro. A vida vai seguindo seu curso. O que percebo, de concreto, são micro alterações. Por exemplo, a questão de que não tenho mais tanta vitalidade e que coisas que antes eram fáceis de realizar, vão ficando mais difíceis. Também mudaram meus focos, os sonhos ficaram só no âmbito do efetivamente possível, e eu já não penso em conquistar o mundo - seja lá o que isso queira dizer.

Compreendo e reconheço minhas limitações - sei, por exemplo, que já não me cai bem aquela minissaia que descansa no guarda-roupa como símbolo de aventuras distantes. Também me percebo um pouco mais lenta na realização de algumas tarefas e, por vezes, falta-me atenção. Minha memória fotográfica para números (eu sabia de cor o telefone de todas as pessoas que conheço) também se dispersou - às vezes, preciso checar o telefone da minha mãe! E, eventualmente, luto pra me lembrar de ocorrências antigas - a mente, definitivamente, já me trai... Fisicamente, ficou mais difícil de perder peso e meus cabelos brancos se multiplicam - mas considerando que eu os tenho desde os 20 anos, isso não é propriamente um problema. Também descobri, outro dia, que marcas antigas - por exemplo, de um acidente de carro que sofri aos 19 anos - vão reaparecendo e ficando evidentes.

Pode-se dizer que, avaliando essas considerações, me encaixo na citação da cantora Sandy sobre seus 30 anos: "sou jovem pra ser velha e velha pra ser jovem." Isso, efetivamente, faz muito sentido pra mim - aos 45, não aos 30, porque aos 30 eu me achava bastante jovem.

A verdade é que não há nada que se possa fazer. Não é possível estancar o tempo, muito menos fazê-lo andar de costas, e o contrário de envelhecer, já sabemos, é morrer jovem. O que nos resta, portanto, é aproveitar a vida como ela é. Tentar não olhar pra trás com sensações de perdas, perdoar-se pelas escolhas erradas, não ficar adivinhando como seria 'se...', pois tais exercícios gerarão angústias impertinentes - e ninguém precisa disso enquanto envelhece. 

Aceitação me parece a palavra para se adequar às transformações. Sem rebeldia ou ansiedade, para que se possa chegar naquele lugar que tanto buscamos, de paz e plenitude internas.

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sexta-feira, 15 de março de 2013

OS CAÇADORES >> Zoraya Cesar

O anúncio era bem simples, quase pobre: “Alugo casa em vila, bairro nobre, rua **, preço abaixo do mercado. Procure o proprietário no local após as 19h”. O papel estava colado em um poste, igual àquelas propagandas que prometem trazer o amor de volta em três dias. Não tinha desenhos, cores, qualquer tipo de chamariz. Era mais um anúncio grudado num poste, que, assim como centenas de outros, passava totalmente despercebido. Totalmente? Não. Havia dois tipos de pessoa que, não por acaso do Destino (que este senhor não acredita em acasos), lia a mensagem.
Uma velha senhora, sem parentes, sem amigos e sem cachorro; um estudante de filosofia, vindo do interior, tímido demais até para perguntar as horas (quanto mais morar numa república cheia de gente desconhecida); um professor aposentado, viúvo e sem filhos. Pessoas que passavam mais despercebidas que o anúncio, que não faziam falta a ninguém, e a quem a chance de morar numa vila, em condições tão vantajosas, não podia ser desperdiçada.
Não sabemos de outros, mas estes, com certeza, procuraram o proprietário para fechar negócio. Uma vez instalados na vila, de lá não mais saíram.
Vamos ao segundo tipo de pessoa que percebia aquele anúncio em particular, em meio a tantos outros: Lucrécio Lucas quase não acreditava em sua sorte. Era exatamente o que procurava há meses! Uma vila. Um aluguel barato. Um encontro após o anoitecer.
Ele não ficou exatamente feliz, mas excitado e apreensivo. Muito. A situação exigia uma preparação severa e astuciosa. Se algo desse errado... era melhor não pensar nisso. E Lucrécio Lucas – cujo nome fora dado pela avó em homenagem à amante do marido (mas isso é outra história) - estava no ramo há alguns anos, tinha uma certa experiência. E até então nunca fora pego.
Mas não havia tempo a perder, por isso, na mesma noite, bateu no endereço anunciado. A porta abriu. E Lucrécio Lucas sobressaltou-se. O serviço seria mais difícil do que imaginara. Oxalá não fosse mais difícil do que se preparara.
Ela era um camafeu, de tão delicada, o cabelo branquinho, branquinho – e agora o chavão se faz inevitável – como algodão fofo e muito, muito velhinha mesmo. Se colocasse uma touca, seria a personificação da avó da Chapeuzinho Vermelho.
A voz suave da avozinha convidou-o a entrar. A sala parecia ter saído direto de um livro de contos de fadas, e imediatamente ele se sentiu aconchegado, relaxado, quase sonolento. Como sabia que aconteceria.
A doce velhinha serviu-lhe um chá, cujo inconfundível aroma de papoula deixou Lucrécio em alerta. Foi então que ela sorriu, e o coração dele bateu mais forte. Dentes naturais, perfeitos, que contrastavam com a decrepitude do resto do corpo.
Ele saltou para a frente, desembainhando a curta cimitarra de prata que trazia escondida e tentou arrancar-lhe a cabeça. Numa rapidez surpreendente, ela desviou-se e imediatamente contra-atacou. O golpe cortou profundamente o rosto de Lucrécio e atirou-o para longe.
A situação tornara-se crítica: ele, ferido e envenenado pelas garras da velha; ela, incólume.
Lucrécio Lucas cambaleou, trôpego, até a porta, mas a velha correu para impedir-lhe a fuga, colocando-se entre ele e a saída. Era o que Lucrécio queria. Endireitou o corpo e, num único golpe semi-circular, decapitou-a.
Já tonto, tirou do bolso uma ampola e dela bebeu um estranho e viscoso líquido verde, urgia cortar o efeito do veneno fatal.
Não havia sangue escorrendo pela sala, mas a cabeça, mesmo separada do corpo, gorgolejava terríveis maldições e ameaças macabras. Lucrécio Lucas teve ímpetos de chutá-la, mas era um profissional. Segurou-a pelos cabelos, cuidando de não ser pego pelos dentes mortíferos e colocou-a num saco de veludo negro, cheio de sal grosso e eucalipto. A boca emudeceu.
Andou pela casa, esperando encontrar alguma das vítimas ainda viva, mas, infelizmente, todas estavam irremediavelmente mortas. A velha vampira não guardava para comer depois.
Ele ligou para um dos integrantes do Grupo.
- Oi, sou eu. Encontrei aquela amiga de longa data que estávamos procurando. Estou bem, mas preciso de mais dois de nós aqui. E chame o Padre Tércio. Temos algumas Almas para encomendar e uma confissão para arrancar.
Ele desligou e esperou, cansado. Sentiu pena das vítimas. Nessa luta não havia um dia da caça, outro do caçador. Os dias eram sempre dos caçadores. De um lado do Caminho ou do outro.


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quinta-feira, 14 de março de 2013

QUATRO ESTAÇÕES, QUATRO MESMO >>
Fernanda Pinho




Os termômetros marcaram a temperatura mais alta do ano essa semana, em Belo Horizonte. Foi o que eu li por aí, pois não estou lá (infelizmente). Poderíamos especular que é o verão despedindo-se em grande estilo, já que em duas semanas entramos no outono. Poderíamos, se esse negócio de quatros estações já não tivesse saído de moda há tempos no Brasil. Em Belo Horizonte, pelo menos, o que eu percebo é um verão de 12 meses, com ocasiões bem pontuais em que faz frio, garoa, venta. O que eu não julgo ruim, pois como eu não perco a oportunidade de dizer, me sinto muito bem quando faz calor.

Porém, pela primeira vez na vida, estou tendo a chance de apreciar de verdade as quatro estações do ano, cada uma em sua peculiaridade. O mais próximo que eu já tinha estado dessa realidade havia sido por aquelas folhinhas de antigamente (ou calendário, se você não for tão de antigamente) em que fotos que remetiam a cada estação ilustravam o mês em que elas supostamente começavam.

Santiago é exatamente como essas folhinhas. E agora já posso falar com a experiência de quem está completando um ano morando aqui e que, portanto, já viu as quatro estações acontecerem. O cenário que temos agora, de fim de verão, é esse: dias ensolarados, com brisa leve no fim da tarde, e uma paisagem começando a adquirir tons de sépia. Começo a notar que muitas árvores (muitas mesmo, pois a cidade é lindamente arborizada) já estão com folhas secas, prestes a cair. O que, a depender da organização climática daqui, só deve ocorrer mesmo quando o outono chegar.  Aí, os parques e calçadas ganham a cobertura de um convidativo tapete de folhas. Caminhar sobre elas escutando o “creck-creck” sob os nossos pés ou simplesmente deixá-las passar por nós ao sabor do vento é uma experiência bucólica e quase cinematográfica. É bem isso. Me sinto como num filme.  Como em Outono em Nova Iorque. Só que em Santiago. 

O inverno, por sua vez, me tira da tela de cinema e me transporta para a embalagem de um chocolate da minha infância – que agora não me ocorre o nome – na qual aparecia o desenho de uma montanha coberta de neve. Eu odeio o frio, mas a paisagem é tão linda que chega a compensar. Especialmente depois das noites de chuva. Pois é, aqui chuva é propriedade do inverno e ela vem (geralmente à noite), limpa a poluição atmosférica e vai embora deixando um céu azul e uma cordilheira espetacularmente branca.  Eu quase começo a gostar de tomar um café, enrolada num cobertor. Quase.

Porque em setembro a primavera chega implacável me lembrando que branco e azul pode até ser bonito mas é pouco pra mim. Eu gosto de amarelo, vermelho, laranja, lilás e cores que a gente nem sabia que existia e, de repente, nos saltam aos olhos em uma florzinha nascendo no meio do nada. É incrível como as flores nascem por toda parte por aqui e em tantas espécies. Mas com a educação de só exibiram todo o exagero de suas belezas na estação que lhes corresponde.  As flores são delicadas e gentis. Por isso nem ousam disputar espaço com o sol quando a estação é dele.

E quando a estação é dele já nem se vê vestígio de neve na cordilheira (não do ponto de vista da cidade), centenas de fontes de água umedecem praças e esquinas, as chilenas abandonam a moda da sobreposição de roupas e eu posso, enfim, sambar minha brasilidade de Havaianas por aí. Até a próxima página do calendário ser arrancada e cair como uma folha seca de outono. 


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