quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

SEM PRESSÃO, POR FAVOR
>> Fernanda Pinho

Considerando os resmungos generalizados, acho que acontece com todo mundo.  Você está solteira, querem te fazer namorar. Você está namorando, querem te casar. Você está casada, querem te engravidar. Estou sentindo isso na pele especialmente depois de ter me casado. Desde então, escuto todos os dias (TODOS OS DIAS!) alguém me dizer que eu tenho que ter um filho. E, gente, eu estou casada há apenas nove meses (NOVE MESES!).

O assunto dá pano pra manga, colarinho e bolsos. Poderia falar sobre a necessidade das pessoas de tentarem organizar a vida alheia ou sobre como a sociedade acredita que se você não está seguindo determinado padrão (Padrão? Eu falei padrão? Que ano é hoje?) tem alguma coisa errada com você. Mas nem é o caso. O que me traz ao desabafo é como esses conselhos imperativos me incomodam. Primeiro porque, definitivamente, eu quero fazer o que eu quero, não o que os outros querem que eu faça. Segundo porque esse tipo de comentário acaba provocando efeito contrário em mim. 

Seja em casos específicos, como o supracitado, ou em situações genéricas. Pressionou, desanimo. Quando falo em situações genéricas me refiro às frases feitas que ouvimos toda hora e que chegam a me gelar a espinha. Quer coisa mais enervante do que alguém mandar você relaxar? Se alguém me manda um “relaxa” quando estou tranquila, fico automaticamente nervosa. Se eu já estou irritada, beiro o ataque de nervos. A intenção pode até ser boa, não duvido. Mas o efeito é contrário, e tenho certeza que não é só comigo.

Exatamente como acontece quando entramos despretensiosamente numa loja e a atendente te manda ficar à vontade. “Fique à vontade”, a frase mais detonadora de espontaneidade e acolhimento que já inventaram. Você sabe que estão te observando, você sabe que estão te pressionando e você sabe que não está, em nenhum nível, à vontade.

Outra que eu odeio? “Se cuida”. Ou odiava, porque, graças a Deus, faz tempo que não ouço mais.  Essa é a preferida dos homens com pretensões de ter algum tipo de relação com você. Eu, que já tive uma fase de ser tonta, achava até bonitinho quando um cara falava isso pra mim. “Que fofo, ele se preocupa comigo”.  Depois eu aprendi. Não é fofo, é até bem cafajeste, porque faz parecer fofo. A relação que esses homens pretendem é, de preferência, bem superficial, porque ao mandar você se cuidar ele já está automaticamente tirando o corpo fora. E, bom, nós sabemos que temos que nos cuidar, não precisa ninguém dizer.  Nos últimos tempos da minha vida de solteira, “se cuida” já estava virando critério de eliminação.  Felizmente encontrei um que nunca me disse isso. “Eu cuido de você”, foi o que ele me disse e era o que eu precisava. Aí eu relaxei, fiquei à vontade e decidi ter um filho.

Mas quando nós dois quisermos. 


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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O QUE VOCÊ QUER SER QUANDO CRESCER?
>> Carla Dias >>

"Do lugar onde estou já fui embora."
Manoel de Barros


Um amigo está passando por uma fase pela qual, eventualmente, todos nós passamos. Conversando com ele, por meio de mensagens, acho que me empolguei e, durante a insônia da vez, fiquei pensando que talvez seja hora de prestar mais atenção em como me intrometo na vida dos amigos.
Intrometimento intelectual...

Existencial...

Intrometimento.

Fato é que, após lhe escrever uma mensagem sobre como o acho merecedor de cada conquista, de cada oportunidade de ser feliz, de quão talentoso ele é (tudo verdade!), em vez de finalizar a mensagem com o tradicional “beijos”, eu o fiz com uma pergunta que, fora do contexto mais poético que realista, quando feita a um adulto, não cai muito bem:

O que você quer ser quando crescer?

Para um adulto, em busca de seu lugar no mundo, essa pergunta pode soar um tanto ofensiva, como se a pessoa que ele tem sido e as conquistas que vem realizando não tivessem valor, como se a sua fase adulta estivesse embrulhada em buscas infantes.

Apostando no lado poeta do meu amigo, desapeguei-me das explicações. Só que a insônia veio, e ela nos faz pensar nas coisas de uma perspectiva bem diferente da usual.

Então, decidi me explicar com meu amigo como qualquer pessoa faria. Escrevendo uma crônica. Essa crônica.



Meu amigo,

Tenho de lembrá-lo, caso não tenha atentado para o fato, de que sou tia e muito apegada aos meus sobrinhos. Acostumei-me, então, a escutá-los, mais do que escuto a muitos adultos tidos como responsáveis e empreendedores. O que aprendi com eles - já que não me lembro de alguém ter me questionado dessa forma quando eu era criança - é que se há uma pergunta que devemos carregar pela vida, e fazê-la, vez e outra, quando adultos, é essa. “O que você quer ser quando crescer?” é uma das perguntas catárticas que um adulto tem de responder para compreender a importância.

Quando se pergunta a uma criança o que ela quer ser quando crescer, essa criança se apega a um desejo baseado no mais puro prazer que determinada função representa para ela naquele momento. Não há lógica, responsabilidade ou julgamento na forma que ela enxerga o que quer fazer, quem deseja ser quando adulto. Por isso ela garante, com a certeza mais verdadeira, que quando crescer será pedreiro para construir sua própria casa, ou uma professora, também dona de cachorro,  jogador de futebol. Pode até ser que se torne um astronauta, só para poder abraçar uma estrela. Quer ser piloto de carro e de avião e de ônibus, ser dono de fábrica de doce, só para comer todos os doces que quiser, e cobrador de ônibus, personagem de quadrinhos, pianista, gente grande. A variação sobre esse tema é de uma riqueza ímpar e completamente livre do medo de ser quando se trata de uma criança.

Sendo assim, meu amigo, quando lhe perguntei o que queria ser quando crescer, o fiz com o desejo de que você olhasse para si com o desprendimento de uma criança. Que, adulto que é, pudesse pensar em algo que fizesse seu coração bater mais forte, porque poucas coisas podem fazer um adulto feliz como aquela criança descrevendo quem será quando crescer. E que assim a ousadia infante lhe oferecesse a resposta que precisa para se jogar na vida, sem rede de proteção, com todo direito à felicidade.

Ainda hoje, e com mais frequência do que você possa imaginar, eu me faço essa pergunta. Às vezes, me vem à lembrança respostas que recebi das crianças que questionei, incluindo meus sobrinhos. E teve quem desejasse ser inventor de alegrias, uma árvore, o Gasparzinho, motorista de caminhão, bailarina, pipoqueiro...

Hoje em dia, quando me faço essa pergunta, adulta que sou, acesso a ousadia natural de uma criança ao respondê-la. Não há medo, obstáculo, limite que detenha a minha resposta. E então, compreendo que caminho eu devo seguir para voltar a pertencer a mim mesma. Para retomar quem sou com todas as possibilidades de ser.

Desarranjar as certezas.

Correr o risco à risca.

Então, meu amigo, o que eu quis perguntar, traduzindo para a linguagem adulta, é o que faz seu coração bater mais rápido, o que faz sorrir ao pensar a respeito?

E se alcançar a resposta, seja...

Beijos,
Carla.

Imagem: sxc.hu

carladias.com



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terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

PENSANDO BEM... >> Clara Braga

Eu sempre gosto de acompanhar a premiação do Oscar. Nem sempre consigo assistir inteiro, afinal, não é sempre que dá pra ficar acordada até 2 horas da manhã de uma segunda-feira. Mas gosto de acompanhar quando saem os indicados, tento assistir a maior quantidade de filmes possível antes da entrega dos prêmios, e participo de algumas promoções dando meus palpites dos vencedores, afinal, vai que em uma dessas eu ganho um ano de cinema grátis, né? Não custa tentar.

Esse ano não foi diferente, acompanhei a festa inteira, consegui ficar acordada até o final e achei interessante reparar que dessa vez não tinha nenhum filme que eu tivesse detestado, mas também não teve nenhum que eu amei de paixão, ou seja, no geral, gostei de todos. Mas claro, tinha meus prediletos em cada categoria. Inclusive, minha predileta para melhor atriz era a Emmanuelle Riva. Não só ela como eu, particularmente, achava que todas as atrizes que estavam concorrendo na categoria mereciam mais do que a Jennifer Lawrence. Não tenho nada contra ela, não me levem a mal, pelo contrário, acho que é uma boa atriz, mas acho que as outras mereciam mais, tendo em vista o papel pelo qual estavam concorrendo.

Comecei a perceber que muita gente compartilhava dessa minha opinião, e então comecei a montar a minha teoria sobre o tombo dela: com todo mundo agourando, é difícil mesmo ficar em pé! E para aqueles que não lembram, ela também subiu para receber o globo de ouro com o vestido se desfazendo! É, alguém ainda duvida que olho gordo pode abalar a pessoa? Segurar inveja alheia é difícil mesmo, não há vestidos nem pernas que aguentem.

Agora, mais difícil do que segurar esse mico todo e ainda fazer piada com o acontecido, foi eu acordando atrasada na segunda-feira pós-premiação, sair correndo de casa toda descabelada, perder a aula, ir para o estágio com a blusa furada e não perceber, esquecer de passar desodorante e ter que ficar torcendo pro calor não me deixar fedendo e então pensar: é, eu ri da Jennifer Lawrence porque ela caiu e pagou o maior mico, e ainda assumo que na hora achei até um pouco bom, já que estava com raiva dela ter sido a vencedora. Mas, no final das contas, ela pagou mico usando nada mais nada menos do que um belíssimo vestido Dior, viu ninguém mais ninguém menos do que Hugh Jackman correndo em sua direção para ampará-la, e tudo isso porque estava subindo as escadas de um belíssimo teatro para receber o maior prêmio do cinema e sendo aplaudida de pé por atores e atrizes maravilhosos. E eu? Eu estava tendo um dia corrido, não podia me dar ao luxo de chegar atrasada a lugar nenhum, nenhum fotógrafo estava interessado em tirar uma foto minha e, ao final do dia, eu ia ser a única batendo palmas para mim mesma por ter conseguido evitar o mico de ficar fedendo e todo mundo sentir. É, acho que vou pensar dez vezes antes de rir da desgraça alheia.


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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

DE MAIAS E DE PAPAS
>> Albir José Inácio da Silva

Em vez de arranjar um trabalho que lhe complementasse a aposentadoria, como vive sugerindo sua mulher, Micaelo fica por aí solucionando os grandes problemas da humanidade. Não gosta de assuntos menores, calçamento, coleta de lixo, posto de saúde. Gosta dos grandes temas mundiais.

Micaelo foi um dos que acreditaram na previsão maia do fim do mundo em dezembro passado. Mas ao contrário dos outros, que se decepcionaram ou comemoraram no dia seguinte, ele pensou: não seria o começo do fim? E o noticiário se apressou em confirmar-lhe as suspeitas.

Muitos meses depois da aprovação da lei da ficha limpa, um processado, acusado e renunciado para escapar à punição, assume a presidência do Senado brasileiro. Não é o fim do mundo? — pergunta Micaelo.

O meteoro de que se tinha medo só passa perto da Terra, sem maiores conseqüências, mas um outro, inesperado, faz um estrago na Rússia com centenas de vítimas e milhões de rublos em prejuízos. Micaelo suspeitou que fosse um míssil da OTAN e que a hecatombe nuclear esperada desde os anos sessenta finalmente tivesse começado. Enganou-se com o meteoro, mas não desistiu do fim do mundo.

Interessado mas confuso, Micaelo ouve notícias de Bento XVI. Não morreu, como costumam fazer os papas, renunciou. Desde a Idade Média que isso não acontecia. Graves denúncias teriam desestabilizado a saúde e o ministério de Ratzinger. E vocês acham que isso não tem nenhum significado? Para Micaelo é o fim dos tempos. Mas, ainda da terra dos césares, Micaelo soube também que Berlusconi pode voltar.

Já disse que Micaelo gosta dos grandes temas. Mas ele às vezes fica confuso com essas questões geográficas e de soberania, envolvendo Vaticano e Roma, uma dentro da outra, e primeiro-ministro e papa. E, ao contrário do que pensa do presidente do Senado no Brasil, ele sempre teve grande simpatia por Silvio Berlusconi. Sempre o achou um injustiçado.

É por isso que agora Micaelo prega a eleição de Berlusconi para a cadeira de São Pedro. Pode não evitar o fim do mundo, que já começou, mas seria um choque de moralidade. Acabava-se a pedofilia, a corrupção, o financiamento de armas, e resgatava-se a santidade e o celibato. Os arquivos do Vaticano seriam finalmente abertos, não mostrariam nada demais (afinal, o que de mais poderiam mostrar?), e lançariam luz sobre a história na Idade Média.

Berlusconi viria à Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro. Perdoaria o cozinheiro do Copacabana Palace pelos alimentos impróprios para consumo. Confessaria seus próprios pecados, inclusive o meteorito na Rússia, que nada mais era do que uma grande pedra incandescente atirada por uma catapulta gigante que ele, Berlusconi, desenvolvera secretamente com algum financiamento do Vaticano. Os russos, convertidos, não retaliariam.

A Igreja estaria pacificada consigo mesma e com o resto do planeta. A juventude da Jornada nem se revoltaria por não poder envelhecer. Renan beijaria a mão de Berlusconi, seu ídolo, o que deixaria Micaelo um pouco confuso. Mas o mundo acabaria em paz.

Acho que a mulher de Micaelo tem razão, ele está mesmo doido. Sai por aí, sem o menor pudor, espalhando esses delírios. Devia arranjar um trabalho.

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domingo, 24 de fevereiro de 2013

OUTROS (E PRÓXIMOS) CARNAVAIS
>> Sílvia Tibo


Certa vez me disseram que não há quem consiga se manter fiel por muito tempo a uma mesma fase da vida. Há períodos, por exemplo, em que tudo o que se quer é agito, balada, vida social intensa. Em outros, a prioridade é o crescimento profissional e financeiro e para atingi-lo trabalhamos incansavelmente, convencidos de que todo o resto é resto e, portanto, deve ser deixado em segundo plano. E há, ainda, aqueles em que só nos interessam boas noites de sono e tempo livre para fazer aquilo de que realmente gostamos, ainda que isso signifique ganhar um pouco menos no final do mês.

 
Humanos que somos, vivemos mesmo em um processo de mutação constante de sentimentos, preferências, valores e perspectivas, que se transformam de tempos em tempos, muitas vezes para a nossa própria estranheza e perplexidade.
 
Há poucos dias, senti na pele essa coisa toda acontecendo comigo.
 
O carnaval sempre esteve entre minhas festas prediletas. Nos tempos da faculdade, passava meses planejando o que faria e para onde iria entre a tão esperada sexta-feira e a quarta de cinzas, numa empolgação que, de tão grande, nem sei de onde vinha. Sequer cogitava a possibilidade de desperdiçar esses dias preciosos dentro de casa ou fazendo o programa que fosse na cidade onde moro.
 
As viagens, de preferência, deveriam ser para lugares que oferecessem, no mínimo, uma rodinha de samba, o barulhinho de um batuque ou um trio elétrico movido a música baiana. E se o destino escolhido, além de tudo isso, contasse com um pouco de sol, areia e água salgada (essa combinação irresistível para qualquer mineiro legítimo e que se preze), tanto melhor.
 
Devo dizer que passei carnavais deliciosos nesses lugares, com direito a abadás, shows assistidos de camarote e até um “tchauzinho” da Ivete Sangalo e da Claudinha Leite, direcionado à multidão, claro, mas que meu subconsciente, teimoso e cheio de si, jurava que havia sido dado exclusivamente pra mim.
 
Fui fiel a essa fase baladeira da vida por tantos anos que, realmente, achei que o compromisso entre mim e o carnaval fosse eterno e inabalável. Desses que não se desfazem ou sequer se estremecem ao longo do tempo, a despeito das tentações e novidades que a vida oferece.
 
Mas eis que, neste ano, traí o carnaval, esse meu velho e bom companheiro de longa data. A princípio, a situação foi estranha. Estava insegura sobre como seria, pela primeira vez, deixá-lo de lado, justamente no feriadão de fevereiro, única época do ano em que efetivamente nos encontramos. Para a minha surpresa, ao final, senti um prazer enorme em praticar essa infidelidade, que me proporcionou dias deliciosos, num lugar até então desconhecido e com companhias adoráveis.
 
Pra começar, dessa vez, eu (que usualmente já na quarta-feira de cinzas torcia e me programava para a chegada do carnaval seguinte), simplesmente me esqueci de sua existência. Assim, naturalmente, sem qualquer culpa ou dor na consciência. 
 
Pela primeira vez, não planejei ir a lugar algum durante o carnaval. Não pesquisei hotéis e pousadas para a hospedagem, não reservei passagens aéreas com meses de antecedência, não providenciei a compra de abadás ou passaportes para shows. E, pior, sequer me imaginei curtindo uns dias de praia, com uma cervejinha gelada a tiracolo e a garantia de renovação do bronzeado (que, aliás, andava - e anda - bem defasado).
 
Foi então que recebemos (meu quase marido e eu) um convite pra passar o carnaval em Brasília.
 
Embora eu tivesse total ciência de que a cidade não se incluía entre as mais “carnavalescas” do país, aceitamos prontamente o convite de nossos três adoráveis e animados anfitriões, convictos de que qualquer lugar e programa se tornariam agradáveis na companhia deles.
 
E, de fato, a recepção e a estadia na capital federal foram tão prazerosas que, durante os dias em que lá estivemos, sequer me lembrei de que estávamos em pleno feriado de carnaval.
 
Dessa vez, o som dos trios elétricos e o batuque dos tambores deram lugar a passeios por belas e verdes paisagens, por avenidas largas, planas e bem cuidadas, da Asa Norte ao Lago Sul, passando pela Terceira Ponte, com direito a tigela de açaí às margens do Paranoá, paradinha na Praça dos Três Poderes, caminhada pela Esplanada dos Ministérios e uma espiadela no Memorial JK. Entre um ponto de parada e outro, o privilégio de ver (pela primeira vez ao vivo) as muitas e estonteantes obras de arte deixadas por Oscar Niemeyer.
 
Ao final das visitas, uma pausa para o filme que estreara no cinema, outra para dar andamento à leitura do livro de cabeceira que andava abandonado por falta de tempo e, ainda, outras e outras paradas para simplesmente jogar conversa fora, sem pensar em nada. E até pra pegar naturalmente no sono, sem recorrer aos comprimidinhos dos quais me tornei refém nos últimos tempos. Ou às letrinhas miúdas das legendas dos canais de TV por assinatura (se bem me entendem os leitores da crônica anterior).
 
Não bastasse, almoço de despedida à base de tutu de feijão, arroz branco e costelinha, em plena segunda-feira, preparados por mãos carinhosas e no fogão de casa, em homenagem à nossa mineirice, de que, aliás, tanto nos orgulhamos.
 
Ao final, voamos de volta pra casa, onde a rotina nos esperava, afoita, já na quarta-feira após o meio-dia. E sentimos, então, o ano finalmente começar, satisfeitos, descansados e já com saudades das belezuras que vimos em Brasília e das pessoas queridas que por lá ficaram.
 
Não sei o que me espera em outros (e próximos) carnavais. Pode ser que eu tenha recaídas e não resista à tentação dos camarotes e trios elétricos, honrando o sangue baiano que, por herança materna, corre também (e felizmente) em minhas veias.
 
Mas o fato é que, a partir de agora, estou aberta a novas estratégias e possibilidades para o carnaval. Então, o máximo que poderei oferecer a esse meu velho companheiro, para os anos seguintes, é um relacionamento leve, sem cobranças e promessas de amor eterno. Como, aliás, devem mesmo ser os bons e verdadeiros relacionamentos.


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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

MEU DIA DE INCRÍVEL HULK
>> Mariana Scherma

Tem gente que morre de pânico de ficar sozinho, já reparou? Chega em casa e entra na internet, liga pra alguém e liga a tevê também. Tudo ao mesmo tempo. Tudo pra passar a impressão fake de estar bem rodeado. Talvez seja a falta de preparação pra morar sozinho. Medo de ficar na sua própria companhia e ouvir seus pensamentos, eu acho.

Pra mim, morar sozinha tem um quê de mágico. Todo dia me sinto numa HQ de super-herói (no masculino, porque odeio falar super-heroína, soa como uma droga megapesada) com poderes semibestinhas, como fazer um café melhor que o de ontem e conseguir tirar uma mancha da camiseta branca. E todo dia também sou obrigada a controlar minhas variações de humor quando algo sai errado dentro de casa (equilíbrio, faça o favor de me visitar dia desses...). Isso é superpoder pra caramba, meu amigo!

Domingo passado, eu estive cara a cara com meu arqui-inimigo mais temível: uma barata. Não uma baratinha, uma dessas cascudas, grandes e com aquelas antenas de meio metro (ok, exagerei 10cm no tamanho da antena). Eu odeio barata. Senhor, que terror! Elas são nojentas, cabem em qualquer frestinha, voam (Deus dá o poder de voar pra cada bicho, né?) e – o pior de tudo – podem sobreviver a um ataque nuclear. Eu, você, meus pais fofos, meus amigos queridos, o Johnny Depp, o Ryan Gosling, todos viramos pó num ataque, mas elas sambam na cara da sociedade que nem existe mais. Foi essa minha sede de vingança de um bicho que sobrevive a quase tudo que me fez correr na direção dela, gritei o mais alto que pude, joguei o chinelo e ela sumiu. Fiquei me achando por tê-la assustado no grito, pensando que ela voou longe do meu apê.

Caramba, eu sou inocente. Achando que ela tinha ido embora, fui pra cama com meu livro e comecei a escutar barulhinhos, tipo tsc, tsc. Jurei que eram coisa da minha imaginação (quem vive sozinho também precisa controlar alguns medinhos, sobretudo à noite), voltei pro livro até a hora de me entregar ao sono. Quando decidi largar, dormir pra valer, vi a barata se dirigindo ao banheiro (a cascuda devia querer algum hidratante meu) e aí virei uma versão de 50 quilos com pijaminha fofo do Incrível Hulk. Urrava de raiva, medo e adrenalina e jogava minhas havaianas como o Hulk poderia bem fazer, talvez com menos graciosidade. Matei tanto a bicha que na próxima encarnação ela já chega morta. Depois de lavar meu chinelo e dar descarga na barata, fui dormir com a minha autoestima nas alturas. Sim, eu me livrei de uma fulana que sobrevive a ataques nucleares. Eu vinguei um pouco a raça humana. Me enrolei no lençol fingindo que era minha capa de super-herói e dormi com a sensação de dever cumprido.

Morar sozinho tem muito dessas pequenas vitórias. Você X a barata. Você X o chuveiro que anda pifando. Você X a lâmpada que queima justo à noite. Você X a geladeira vazia. Você X a maldita rolha do vinho que não quer sair. E principalmente: você X você. Seus pensamentos, seus medos, suas paranoias, suas ansiedades... Claro que dá pra chamar amigos quando quiser, brincar com o gato da vizinha, bater papo com a vizinha, ouvir música no volume máximo permitido. Mas na hora de fechar as portas, é só você. E às vezes uma barata pedindo pra ser exterminada. Domar seus medos nessa hora é o grande teste pra virar super-herói. Um teste feito todo santo dia.

Ah, e um P.S.: comentei com minha mãe por telefone do quanto me senti Incrível Hulk ao matar a barata. Ela me disse que, como toda essa minha força, tô mais pra Incrível Rúcula. Achei que era eu a responsável pelas piadas e trocadilhos bestinhas entre meus pais, poxa vida.


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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

NOTAS DE QUEM SABIA >> Carla Dias >>




No fundo, sempre soube, assim, desse jeito de criança que observa o futuro, feito criatura que se mistura às idades que ainda não completou. Como quando se sentava em frente de casa, roçando o pé na grama, observando o sereno chegar e com ele o silêncio que só cabe nas tardes serenadas. De enquanto era pessoa que não sabia que pessoa se tornaria dali duas, três décadas. Aliás, pensar em décadas era muito complicado, dava em dor de cabeça quase como aquela que chegava depois de observar o céu por horas, tentando entender onde terminava o universo. Porque flertar com o infinito lhe parecia perigoso. Por isso imaginava futuro com auxílio da tabuada: daqui 2 x 3 anos, 4 x 2, 3 x 3.

Sempre soube, feito a menina desamparada de presença, que nem se importava em passar quase todo o tempo na própria companhia a dobrar roupas, varrer o chão, cuidar do jantar. Tampouco temia o silêncio que antecipava as tempestades. E calçava os chinelos por conta dos relâmpagos, porque temia que eles lhe entrassem no corpo rastejando pelo chão e alcançando seus pés. Que cobria os espelhos por conta dos relâmpagos, porque acreditava que, se estivesse observando seu reflexo, um relâmpago poderia roubá-lo, e ela nunca mais se reconheceria. Que trancava as portas por conta dos relâmpagos, porque nunca quis que eles entrassem em sua casa, sentassem em seu sofá e discutissem a vida com ela. Não apreciava a filosofia dos relâmpagos que teimam em mudar o curso da vida das pessoas. Ainda assim, confessa a si, em um arrastar as palavras, que adora observá-los de longe.

Soube muito antes de os desejos borbulharem no seu dentro, alguns confusos e outros tão certos de seu alvo, o que não lhe impediu de aceitar que se tornaria uma pessoa capaz de mudar a cada vez que a vida pedisse sentido, quando lhe faltasse amparo, prumo. E apesar dos planos, e das falseadas certezas que consumiu enquanto tentava evitar o sopro das mudanças.

Como sempre soube, ainda que evitasse a consciência de que sabia, comportava-se como quem jamais a alcançaria. E assim viveu muito bem, obrigada, por tanto tempo, tantas tabuadas. E aquela fisgada, a sensação recorrente do que fazia falta, mas não se sabia do quê, a acompanhou e a ensinou a ser muitas: a que batalhava pelo direito de comer, beber e vestir, a que se arriscava em projetos fadados ao fracasso, mas que, às vezes, davam certo. Aquela que aprendeu, de maneira nada fácil, que benevolência quase sempre é via de mão única, e que certamente a receberemos não daqueles a quem a oferecemos, mas de outros, dos transeuntes, dos seres humanos que mais parecem personagem em passagem breve pelas nossas vidas. E que se pode ter o amor de uma vida a cada vida que se vive.

Mudou-se, então, para dentro de si e para a rua arborizada de um bairro diferente. Mudou-se para as sombras dessa rua, para as peculiaridades do bairro, para a experiência de caminhar pelo futuro que nunca imaginou. E também para a correria das crianças, as calçadas como testemunhas de suas brincadeiras. E para os céus do verão desnorteado, que oferecia, em um mesmo dia, céu azul, azul e então cinza, cinza.

Qual não foi sua surpresa ao se pegar sentindo o mesmo sentimento de quando era ela quem brincava de ser tantas, nas calçadas de sua infância.

Sempre soube - de um jeito escondido, misterioso, temido até - que a vida aconteceria de modo a lhe ensinar as levezas. Só que nunca imaginou que, para aprender a existir, sem o peso do mundo nos ombros, teria de conhecer as suas asperezas, reconhecer suas dolências, apreciar sua psicologia inversa. E que demoraria tanto para alcançá-la assim, a vida em festa, musicalmente aprazível como a gargalhada do menino que brinca nas calçadas da vida, sem nada saber além de que, naquele momento, a vida é alegria.

Imagem: sxc.hu

carladias.com



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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

MUNDO VULGAR
>> André Ferrer

Em 1986, assisti ao “De volta para o futuro” no cinema. Tinha então 13 anos e já se instalara em mim aquela estranha nostalgia relacionada a uma época não vivida que, no meu caso, era os anos de 1950 e 1960.

Em 1987, eu estava na oitava série (na época, o último ano do fundamental) e a minha turma precisava ganhar algum dinheiro para a viagem de formatura. Lembro-me do comércio de bolos e doces no intervalo e, também, de um hilário bazar de roupas usadas que montamos numa praça da cidade. Lembro-me, especialmente, das sessões em VHS que promovíamos na escola. “De volta para o futuro” foi uma das principais atrações.

Outro dia, eu trocava lembranças com um amigo daqueles tempos via Facebook e, algumas horas mais tarde, enquanto eu aguardava a fornada das 15 horas na padaria do bairro, comecei a ter uma ideia intrigante.

Na época da oitava série, a minha mãe fazia o bolo de laranja campeão de vendas nos intervalos. A cobertura era uma mistura simples de açúcar de confeiteiro e suco de laranja. Depois de seca, essa calda se transformava numa casca finíssima e quebradiça. O efeito azedinho-doce atraía os fregueses.

­— Meia dúzia?

— O que foi? — perguntei atordoado de volta para o presente. — Ah sim! Meia dúzia de pães, por favor.

Enquanto pagava o dono da padaria, eu ainda observei a textura de um pedaço de bolo exposto atrás do vidro.

— Embrulhe um desses aqui. Tudo bem? É de laranja?

Não era. Mesmo assim, levei um pedaço de bolo para casa e também a esperança de que uma mordida tivesse um efeito ainda maior. Equivalente, quem sabe, ao de uma arrancada no famoso DeLorean movido a plutônio. Não teve. Descobri que a imagem daquela fatia de bolo era muito mais eficiente como gatilho de recordações. Um bolo de coco, definitivamente, não conseguia descarregar aquela energia pessoal dentro da minha cabeça. Duas ou três mordidas depois, engoli e olhei o que restava do bolo no prato. Sequer o aspecto, agora, fazia-me viajar. O delicado mecanismo envolvido estava quebrado.

A ideia que me intriga ocorreu logo a seguir.

Há dois tipos de gatilhos capazes de desencadear viagens no tempo: sensações públicas e sensações privadas. Quero crer na ideia de que as sensações privadas (um gosto de laranja, um cheiro de mofo, a visão de uma nuvem contra o azul celeste) ainda se reproduzam e afetem a Geração Y que é tão mais ligada às novas tecnologias e à realidade virtual do que as gerações anteriores.

A geração dos meus avós e dos meus pais recorda determinadas épocas da vida baseada em datas marcantes (no dia em que Getúlio se matou, por exemplo, e a notícia ecoou no rádio, eu estava neste ou naquele local), mas também nas memórias olfativas, visuais, táteis e auditivas (embaixo daquela mesa existia um cheiro perdido de Manteiga Aviação). Ora, se a minha geração já desenvolveu uma inquestionável dependência da Indústria Cultural, o que ocorrerá com a memória das futuras gerações? O ponto crítico, a meu ver, reside no uso intenso da tecnologia, o que filtra a vivência, padroniza e despersonaliza as sensações. Um mecanismo tão delicado! Em termos bem simples: gatilhos vulgares para lembranças vulgares. Num futuro próximo, será que teremos um mundo ainda mais vulgar?


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domingo, 17 de fevereiro de 2013

DOIS ENCONTROS
>> Whisner Fraga

Ano passado, pouco antes do Natal, fui a Ituiutaba, a convite do meu amigo Anésio, para uma mesa na UFU, que compartilharia com Gazy Andraus e Tina Curtis. Durante o evento, li um trecho de um conto inédito e aproveito para pedir desculpas à minha mãe, atenciosa na plateia. O pedido se justifica pelo fato de que o texto é bastante forte, quase pornográfico, e não pega bem para uma senhora de setenta anos ficar escutando essas indecências. Findo o bate-papo, saímos à procura de um hotel. Não me preocupei em fazer reservas, pois a cidade sempre foi sossegada, ainda não tinha ouvido falar em falta de um canto para pousar. Só que estava sendo inaugurado um grande supermercado naquele dia, erguido sobre as ruínas de um prédio histórico, devidamente demolido para dar passagem ao progresso. E, evidentemente, pensões e hotéis estavam lotados para o acontecimento. Como não tínhamos escolha, resolvi colocar o carro na estrada e rumamos para Uberlândia.

Como estávamos com fome, eu e minha mãe resolvemos parar num posto, engastalhado na quina de um trevo que distribui rodovias para quatro cantos de Minas e Goiás. Ainda na fila dos pastéis, ouvi um grito: Wisley. Wisley. Por via das dúvidas, olhei ao redor: ninguém acenava. Então, um sujeito veio caminhando em minha direção. Como eu não me recordava da figura, continuei no meu canto, fingindo um interesse anormal por uma coca-cola zero. É evidente que o cara iria disparar algo do tipo: você se lembra de mim? Não, não, nada. Por sorte, os ituiutabanos não se deixam vencer tão facilmente, não desanimam diante de uma cara fechada e assim ele prosseguiu.

Sou o Eliseu. Tá, e...? O negócio é que essa apresentação não ajudou muito. O Eliseu, do Polivalente. Bom, eu precisava de mais dados, porque minha memória é terrível: o curso de Engenharia fez o favor de trucidá-la. Aí foi me contando. Ele era o menino que todo mundo usava como saco de pancada. Estava esquentando, mais um pouco e eu saberia com quem falava. Como não há nada melhor para avivar a lembrança do que uma boa história, ele mandou a dele.

Que vinha da roça, que era inocente, um bicho do mato, que morava com o tio, que fora para a cidade para estudar e que jogava bola com a gente todos os sábados, na quadra do colégio Polivalente. Aos poucos fui me inteirando e fui conectando aquele rosto infantil ao semblante maduro, de quem já passou um pouco dos quarenta. Fiquei ponderando a respeito do encontro: como pode acontecer? Como alguém passa quase trinta anos sem encontrar um colega e, assim que o vê, já sabe de quem se trata? Invejo gente com essa capacidade.

Daí que ficamos conversando e degustando frituras até tarde. Falamos dos colegas, contamos algumas histórias do nosso tempo de estudantes do primeiro grau. Perguntei sobre os mais chegados e ele me deu notícias de vários. Gente sobre a qual eu não ouvia falar há décadas. Como acontece, alguns estão bem, outros nem tanto, mas são coisas da vida. Evidentemente, trocamos telefones, combinamos um almoço para breve, consideramos que seria interessante se conseguíssemos organizar um encontro da turma, do tipo 25 anos depois ou algo semelhante. Nos despedimos contentes, sabendo que provavelmente não cumpriríamos nenhuma promessa. Mineiro é assim mesmo, polido, faz convites somente por educação.

Chegamos de madrugada a Uberlândia, atravessamos uma chuva violenta nesse meio tempo, mas, ao abrirmos a porta do apartamento de minha mãe, nos sentíamos contentes, de bem com tudo. É bom rever amigos, é bom ter um dia de surpresas. Dormi em paz, sabendo que o dia seguinte seria difícil e que a realidade me chamaria de volta à rotina do esquecimento e que, daqui a um ou dois anos, eu já não me lembraria mais de Eliseu e de sua polidez exemplar.

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sábado, 16 de fevereiro de 2013

MUITO ALÉM DA SIMPLES TAPIOCA
[Ana González]

A primeira vez que eu comi tapioca foi em Recife, na frigideira com recheio. Depois, conheci a baiana, doce no café da manhã com leite de coco. Fiquei com as duas na memória, pois era uma delícia que não era comum em São Paulo naquela época.

Até que um dia, numa esquina do meu bairro, fazendo a feira semanal, vi uma mulher jovem, moça do povo, séria, contida em seus movimentos à frente de um fogareiro de uma boca em uma mesa improvisada. Saia colorida, cabelos longos presos na nuca em um rabo de cavalo.

Ela estava fazendo tapioca, sim, aquela que eu desejara por muito tempo. Seria nordestina? Experimentei e virei freguesa dessa cozinheira de esquina inventando moda na grande capital.

Daí em diante observei seu negócio crescer. Ela incrementou seus recursos, pouco a pouco. Melhorou o fogão e a panela em que fazia a roda de farinha, que é a base da guloseima. Foi mudando detalhes importantes, mas a farinha branca — alvíssima — e os recheios continuavam os mesmos.

Até que um dia vi um homem por lá, a seu lado, com cara de português, um galego alto, de pele clara e olhos castanhos apertadinhos, cabelos curtos. Seria um namorado? A presença contínua me mostrou que era também um parceiro do negócio. A família e os negócios iam bem, obrigada. A barraca na feira se expandiu e o comércio incluía, então, também mandioca descascada e acondicionada em pacotes com água. Apareceram também os pacotes de farinha e o bolo de tapioca, vendido em pedaços quadrados, generosos. Depois vieram os limões e as mangas.


Os anos continuaram a passar até que um dia vi uma garota ajudando na banca. Filha? Bem clara, cabelos também castanhos claros. Perguntei e soube que ela tinha quinze anos — e era filha. Carregava os traços do pai.

Até que no outro dia, na conversinha que se estabelece às vezes na hora da compra, o marido e sócio me confessou que tinha nascido um neto. Era como se ele precisasse me contar. A família crescia. Não, não era o primeiro, havia outros netos maiores. Aí aconteceu a maravilha. Além de eu ter recebido a notícia de presente, ele fez questão de me mostrar fotos em seu celular. Um bebê de bochechas cheias. Olhei para o avô. Babão, havia refletido em seu sorriso, o orgulho do mundo. Fiquei tão feliz que parecia serem da minha família: avô e neto.

E, eram de certa forma. Ou passaram a ser, de certa forma, naquele momento. Sem querer, me liguei a eles, desde que uma pessoa me ofereceu o prazer de comer tapioca numa esquina do meu bairro. Àquela senhora, que continua exatamente a mesma, talvez um pouco mais suave, o que não é o mais normal acontecer — em geral, o sofrimento da vida não dá folga e as pessoas endurecem. E agora, seu companheiro me ganhou com a espontaneidade de um gesto de avô. A foto no celular tão inesperadamente colorindo o meu dia com risos de bebê, de comemoração em família e esperança. Quiçá esperança para o mundo.

No espaço urbano em que sermos invisíveis é o natural, ainda podemos encontrar momentos de calor e de alegria. Ganhamos presença uns para os outros. Ganhamos até imagens de fotos. Sem nada de original ou transcendente, uma feira semanal pode ser transformada em um recanto especial, com tapioca, pedaços de bolo, amor que se faz família, surpresa, inclusão e contentamento.

www.agonzalez.com.br

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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

TERAPIA ANIMALANÍMICA
>> Zoraya Cesar

Hoje, com a variedade de terapias ao alcance de qualquer freguês, só os muito renitentes continuam a carregar o peso de suas inseguranças, diziam os amigos. E tanto insistiram que ele, cansado de sua própria personalidade fraca, de nunca ser notado, de ser sempre o preterido, resolveu fazer terapia.

Agora, como escolher entre o extenso cardápio de ofertas? Terapia do inconsciente, das vidas passadas, presentes e futuras, astrológica, lacaniana, dos cristais... Acabou por aceitar a indicação do cunhado do primo de um amigo.

A terapia animalanímica – esse era o nome – consistia em ativar a memória atávica da época em que, muito antes da civilização, homens e bichos viviam em harmonia, e despertar o animal interior cujas qualidades faltavam à personalidade do paciente. Daí o termo animalanímico, de animal e anímico (relativo à alma), explicava a entusiasmada terapeuta, garantindo que o método, criado por ela mesma, era infalível, rápido e duradouro, nada de ficar dez anos no consultório do analista. Ou seja, nosso amigo começou escolhendo bem.

Mas não sejamos preconceituosos, pois a verdade é que, depois da primeira sessão, durante a qual entoou 81 vezes seguidas o mantra “sou um leão” – que deveria ser repetido a cada quatro horas, inclusive de madrugada – sentiu-se um aventureiro, arrojado e destemido. Estava disposto a ocupar o lugar de honra que lhe cabia no mundo, pegar a melhor fatia de carne, passar à frente de todos. Leões não pedem. Tomam.

O rei da floresta começou a treinar suas recém-descobertas garras. Agradeceu com um grunhido ininteligível ao rapaz que abrira a porta, e entrou no elevador, altaneiro e confiante. “Ei, você não tem educação?”, perguntou o rapaz, apontando para uma velhinha que ficara do lado de fora do elevador lotado. O que fazer, desculpar-se, com altivez, ou ignorar? Afinal, o mundo era dos fortes e... tão rápido quanto uma cobra dando o bote, o rapaz arrancou-o para fora, e, num momento cinematográfico, entrou, juntamente com a velhinha. O senhor das savanas ainda ouviu, enquanto a porta fechava, as hienas rindo lá dentro.

Suas pernas tremiam, mas o mantra, 81 vezes repetido em voz alta, sustentou-o, "eu sou um leão, eu sou um leão".  E, afinal, o que pode, mesmo o animal mais poderoso, contra tantas hienas? E foi-se o nosso felino, em busca de um novo momento em que pudesse pôr em prática sua leonice.

A segunda chance não demorou a aparecer, pois, sabemos todos, quem procura, acha. O peito estufado, a juba meio escassa balançando ao vento, nosso Panthera leo entrou na enorme e tensa fila do banco. Concentrado em repetir o mantra, acariciando-o como o Tio Patinhas à sua preciosa moedinha número 1, mal ouviu um senhor idoso, mas ainda rijo, pedir-lhe, educadamente, para dirigir-se à outra fila. Ligeiramente irritado por ter sido interrompido em seu devaneio, o leão rugiu que havia chegado primeiro e dali não sairia. Sentiu um assomo de orgulho por si mesmo, ah, se a Jessica, do escritório, pudesse vê-lo agora! Ainda bem que ela não viu, pois o tal senhor ergueu-o pelas lapelas do terno, tão facilmente quanto pegasse um gatinho, e praticamente o jogou nos braços do segurança, que acudira correndo. O banco inteiro aplaudindo um, apupando outro, o leão desnorteado, o velho era maluco e ele é quem estava errado? Do lado de fora, o segurança passou-lhe um sermão acachapante, era vergonhoso ver um homem jovem fazer escândalo na fila dos idosos.

Nosso amigo estava desconsolado, quase desistindo de assumir sua verdadeira personalidade leonina. Respirou fundo e repetiu o mantra mais 81 vezes. A vida na selva não era fácil, mas ele haveria de vencer.

No dia seguinte inscreveu-se numa aula de karatê, convencido de que seu leão interior precisava de uma ajudinha para despertar a autoestima. Já sonhava em ser faixa preta sênior, mas não durou nem a aula inteira. No primeiro treino, ele se complicou na coreografia ensinada e por duas vezes socou, primeiro, a parede, depois o olho do colega.

Porém felinos não desistem facilmente.

Decidiu sair com alguns amigos para a noitada e, querendo expor sua virilidade leonina, agarrou uma das mulheres do bar. Ela, que não entendia absolutamente nada de leões, reagiu indignada, assim como os companheiros da ingrata, que o expulsaram do recinto de maneira deveras humilhante. Os amigos ficaram atônitos, nunca o tinham visto agir de forma tão tresloucada.

Dia seguinte, a família internou-o, pois ele, numa crise nervosa sem precedentes, passara a noite rugindo e berrando "sou um leão, sou um leão"...

A terapeuta está sendo processada.


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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

TODO FILME É BOM NO TRAILER
>> Fernanda Pinho




Acabei de chegar do cinema. Foi mais um caso daqueles de trailer engraçado, dinâmico, emocionante e filme monótono, sem graça, fraco, que parecia não ter fim.  Todo filme é bom no trailer. Claro.  O trailer é exatamente um compacto das melhores partes que têm o objetivo de vender o produto. No caso, convencer as pessoas a assistirem aos filmes. 

E, olha, nem temos o direito de acusar os produtores de cinema de propaganda enganosa. O tempo todo forjamos trailers de nós mesmos. Num primeiro encontro, nenhuma mulher é ciumenta, insegura, chorona e doida pra casar. Nenhum cara é pão duro, tem pânico de relacionamento sério ou está obcecado por uma mulher que seja perfeitamente igual à sua mãe.  Numa entrevista de emprego, ninguém assume ser do time “chega logo, sexta-feira” ou que detesta realizar tarefas em equipe  ou que se aproveita das reuniões intermináveis para desligar a mente e pensar em tudo, menos no que está sendo dito no recinto.  Aquele que está tentando se enturmar num potencial grupo de amigos não vai pedir dinheiro emprestado no primeiro programa juntos ou fazer piada com o tamanho do nariz de um dos colegas ou ficar reclamando de tudo o tempo inteiro. A pessoa que vai jantar pela primeira vez na casa dos sogros, não avisa logo de cara que não suporta intromissões na sua vida e que nunca vai abrir mão de passar o Natal com os pais.

O que todos nós temos – não por mal, mas por sobrevivência – é uma série de trailers que revelam o que temos de melhor, para exibirmos quando for oportuno. Superficialmente, somos todos seguros, bem-resolvidos,  desprendidos, proativos, conectados, adequados, flexíveis, compreensivos, engraçados, inteligentes e dotados do bom e velho desconfiomêtro.  Se colar, colou. Alguém vai ser convidado a assistir o filme inteiro.

O negócio é que a vida de ninguém está sendo dirigida pelo Almodóvar, pelo Scorsese, pelo Spielberg ou pelo Tarantino. Somos nós mesmos, atores e diretores, sem roteiro, experiência ou ensaio. Encarregados de conduzir uma história interessante, não por uma hora e meia, mas por uma vida inteira. E numa vida inteira,  tem certas coisas que são inevitáveis.

A convivência é um filme repleto de momentos de tédio, lentidão, rotina e uma série de outras falhas de roteiro não previstas no trailer. Ficando insuportável, existe a opção de mudar de filme, por que não? Mas não mude de filme esperando que todos os seus problemas sejam resolvidos. O cinema pode até ter produzido filmes perfeitos. Mas vidas perfeitas é um produto que ainda não foi inventado.

Se bater uma vontade de trocar de canal, pense bem nas paixões que te impulsionaram a ver aquele filme. Cogite a possibilidade de mudar, não o filme, mas a forma como ele está sendo dirigido. Lembre-se das suas motivações, investigue as coisas boas. Elas ainda estão lá. Porque o cinema pode até ter produzido filmes medíocres do início ao fim. Mas vidas inteiramente medíocres também é um produto que ainda não foi inventado.

Imagem: sxc.hu


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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

BUKOWSKI, JANSEN E FANTE
>> Carla Dias >>

Charles Bukowski


Eu terminei de ler a biografia de Charles Bukowski, depois de iniciá-la várias vezes. Sempre havia algo que me fazia dar um tempo na leitura, mas dessa vez foi de uma tacada só, ou seja, da melhor forma de se ler um livro: abri-lo e só fechá-lo porque não há mais o que ser lido.

Vida e loucuras de um velho safado, de Howard Sounes, é um livro interessante porque apenas cita os fatos. O autor não impõe a própria opinião sobre o escritor, o que é bem difícil, já que Bukowski sempre foi semeador de opiniões desencontradas sobre a sua pessoa e a sua obra.

Pouco antes da leitura, eu assisti ao documentário Born into this, de John Dullaghan, e repeti a dose assistindo, mais uma vez, um dos meus filmes de cabeceira: Barfly.

Sim, foi uma overdose de Charles Bukowski.

Eu nunca tinha assistido a uma entrevista de Charles Bukowski, e me admirei com a clara timidez do autor. Com a leitura da biografia, soube que essa timidez se transformava em violência verbal e até física, após ele beber muito, como de costume.

A obra de Bukowski é essencialmente biográfica, ainda que gostasse de mudar, nas citações da própria realidade, algumas coisas para torná-la mais atrativa. Ela é calcada no seu relacionamento com as mulheres de sua vida, exceto em Pulp, que apesar de trazer uma e outra característica biográfica, é essencialmente um livro de ficção, o último que escreveu.

A escrita dele é direta e ácida, calcada em situações cotidianas de personagens nada glamourosos, e no peso de seu relacionamento com os pais, principalmente com o pai. Bukowski tinha uma facilidade imensa em ofender aqueles que o amavam e que o ajudaram na sua jornada como escritor. Seus primeiros escritos, quando não publicados em folhetins independentes, foram lançados por admiradores de sua obra, que investiram seu tempo e seu dinheiro para que o “velho safado” ganhasse o mundo. Prova disso é a sua relação com a editora Black Sparrow, de seu amigo e apreciador de sua obra John Martin.


Logo após a última página da leitura, eu resolvi assistir a um filme. As palavras (The Words/2012) conta a história de um escritor, Rory Jansen (Bradley Cooper), tentando publicar um livro, mas sem sucesso. Os agentes não se interessam por ele, tampouco os editores. E só quem já recebeu algumas cartas de rejeição de editoras, quase todas padrão, sabe o peso que elas têm. Jansen tem um bom primeiro trabalho, mas não um livro capaz de ocupar as prateleiras de best-sellers.

Rory Jansen (Bradley Cooper) - As palavras

Na sua lua de mel em Paris, Jansen e sua esposa visitam uma loja de antiguidades. Lá ele encontra uma pasta que sua esposa decide lhe dar de presente. De volta aos Estados Unidos, ele encontra naquela pasta algumas páginas datilografadas. Jansen começa a lê-las e se encanta pela história. E se encanta tanto que decide digitá-la, palavra por palavra. Daí para ele publicar o livro como seu é um pulo.

O sucesso do livro torna Jansen um dos mais conhecidos escritores. Em determinado momento, ele é abordado por um senhor que pergunta o que ele lê. Trata-se de “Pergunte ao Pó”. De John Fante. O senhor diz que conheceu John Fante.

Pergunte ao pó era o livro preferido de Bukowski. John Fante era o autor que ele mais admirava, ao lado de Ernest Hemingway. Conhecera o livro por meio da biblioteca pública e jamais se esquecera da importância desse achado. Bukowski conheceu Fante, quando ele estava internado, as pernas amputadas e já perdendo a visão. Foi um dos grandes acontecimentos de sua vida, apesar do medo que Bukowski tinha de que Fante percebesse que ele “roubara” uma de suas técnicas literárias, a de capítulos curtos e com muitos diálogos.

Jansen é um personagem muito bem interpretado por Bradley Cooper. As Palavras é um filme muito especial. Jeromy Irons marca presença como o velho autor da obra. A forma como a história é contada, em camadas, em tempos diferentes, torna a trama consistente. E o espectador só percebe o real papel do escritor Clay Hammond (Dennis Quaid) no final.

Bukowski teria chamado Jansen por algum nome feio, tivesse a oportunidade de assistir ao filme. Mas Bukowski não gostava da pompa do cinema hollywoodiano, apesar de ter feito amigos como Sean Penn. Bukowski teria achado Jansen um bobo por se sentir mal por ter aproveitado a oportunidade de acontecer. Ainda assim, jamais traiu a relação que mantinha com a literatura, nem mesmo ao escrever para revistas pornográficas. Ele era mais poeta do que qualquer coisa. E assim como Jansen, foi extenuantemente rejeitado. Produziu muito, mas nem tudo era bom. Só que, o que era bom, era bom mesmo. Foi amado e odiado, e amado com ódio, dependia muito de como andava a relação dele com a pessoa.

John Fante

Quanto ao Fante, terei de ler o livro. Assisti ao filme (Ask the Dust/2005), dirigido por Robert Towne, e confesso que adorei. Não sabia que era baseado em um livro. Mas o que posso concluir, após Bukowski, Jansen e Fante, é que escritores adoram ler livros sobre escritores.


Parte do documentário feito por Barbet Schroeder, quando
tentava levantar dinheiro para a realização do filme Barfly.





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terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

NÃO ESTÁ FÁCIL
>> Clara Braga

É, não deve estar fácil para ninguém mesmo. E, diferente do que você deve estar pensando, eu não estou falando isso por causa da renúncia do papa, apesar de achar que querer que as pessoas assumam cargos para o resto de suas vidas em uma época em que estamos vivendo demais — algumas pessoas até mais do que o necessário — é sacanagem, até para um papa. Não vou entrar nesse assunto.

Eu estou me referindo à questão financeira dos moradores de Brasília! Carnaval por aqui significava cidade mais do que vazia. Os que gostam de carnaval saíam daqui correndo à procura de um lugar onde de fato tivesse carnaval para curtir. E os que não gostam, procuravam um lugar tranquilo apenas para descansar no feriado.

Eu, particularmente, gosto de carnaval, mas aprecio ainda mais ter uns dias de folga para não fazer nada além de ler uns livros que estavam parados por falta de tempo e assistir a alguns filmes, principalmente faltando pouco tempo para o Oscar. Ou seja, Brasília era o lugar mais do que adequado para essas atividades nessa época. Cidade vazia, tranquila, e com sessões de cinema à vontade. Engano meu...

Fui ao cinema achando que seria muito fácil achar uma sessão, como todos os anos é, e, para minha surpresa, todas estavam lotadas, até as que começariam muito tarde. O que será que deu nas pessoas que não quiseram ficar em casa assistindo ao desfile das escolas de samba? Bom, o jeito foi ir a um restaurante e jantar. Fila de espera. Mas todas as pessoas que não viajaram ou não ficaram em casa assistindo às escolas de samba estavam no cinema, como pode um restaurante estar lotado?

Após um bom tempo de espera, consegui jantar. Da minha mesa, via a fila de espera aumentando cada vez mais. Ao ir embora, no caminho para casa, passei pela rua principal daqui, que estava fechada por causa de um bloco de rua que estava passando. E não é que o bloco estava lotado! Não acreditei, normalmente esses blocos de Brasília até são animados, mas não dá para esperar que estejam lotados, afinal nunca tem muita gente na cidade, principalmente as que gostam de carnaval.

Não sei explicar que fenômeno aconteceu, não sabia que Brasília tinha habitantes suficientes para lotar restaurantes, cinemas e blocos de rua no carnaval. Ou o número de habitantes triplicou e ninguém me avisou, ou então a vida não está mesmo fácil para ninguém, a começar pelo papa.


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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

ESSE MENINO!
>> Albir José Inácio da Silva

— Onde você pensa que vai, João Leno? — perguntou a mãe sem querer saber coisa alguma, e menos ainda os pensamentos do filho, antes querendo dizer “não vai a lugar nenhum!”.

— Na casa do meu colega. — respondeu o menino, mas sem querer significar coisa alguma porque, apesar de parecer um colega determinado, podia ser qualquer colega ou colega nenhum; podia ser uma rua, uma esquina ou a favela mais próxima. Colegas iria encontrar, mas não sabia quais nem pra quê.

— Se você sair de casa, eu vou contar pro seu pai! — insistiu a mãe, sabendo que não iria contar coisa alguma porque o pai lhe enche muito mais a paciência por causa do menino do que o menino com suas escapulidas. Sabendo que o menino iria de qualquer jeito, como todos os dias, mas cumprindo o dever de proibir coisas perigosas, como sabia serem perigosos os passeios dele. Ou não sabia mas imaginava. Ou nem imaginava, mas era melhor prevenir porque não faltavam ameaças do pai caso acontecesse alguma coisa com o menino.

João Leno tinha pele de índio, e um cabelo louro que contou com a aprovação da mãe, mas lhe custou uma surra do pai que não quer filho maricas de cabelo pintado. Esse filho desceu a Ladeira Saint Roman e em minutos estava na Avenida Atlântica. Outro menino louro subia e pulava dos bancos de cimento em frente aos prédios de luxo. Leno começou a imitar o outro que lhe lançou um olhar indiferente. Alguém, incomodado com a socialização e mistura de classes, chamou o louro branco para o outro lado da grade.

Nesse momento, um carro subiu a calçada de pedras e parou ao lado de João Leno. O carona saltou correndo.

— É este?

— Deve ser — disse o motorista — ele falou “um moleque louro que brinca em frente a este número”.

O garoto foi jogado no porta-malas e o carro saiu cantando pneus. O porteiro ligou pra polícia porque, afinal de contas, era um menino. Leno chegou a ouvir sirenes em perseguição mas, com o trânsito daquela hora, foram se distanciando.

O menino chacoalhava no porta-malas, batendo cabeça, costas, braços e pernas. Depois de uma eternidade, o carro parou e uma lanterna iluminou seu rosto. O chefe ficou possesso.

— Onde é que vocês arranjaram esse ET? Isso tem cara de filho de industrial? Passa esse moleque e desova longe daqui.

O porta-malas foi fechado de novo, mas outros dois sequestradores vieram de dentro da casa.

— Chefe, não dá pra fazer isso não. O Sem-perna reconheceu o moleque. Ele é filho do Marimbondo, da cinquenta e cinco DP de Belford Roxo. Se passar o menor, eles vêm atrás de nós. Melhor devolver ele pro mesmo lugar.

E João Leno foi deixado na praia de Copacabana. Tinha ainda o peito acelerado e as pernas frouxas quando entrou em casa. A mãe se benzeu em agradecimento por ele ter chegado antes do pai.

— Mãe! Eu fui sequestrado!

— Garoto, vê se não me amola que eu tenho mais o que fazer.

Ele contou toda a história de um fôlego. Ela escutava sem ouvir quando viu o corte na testa, bem próximo do cabelo louro.

— Você brigou na rua outra vez, Leno?

— Não, mãe! Isso foi na mala do carro! Eu juro!

A conversa foi interrompida pela chegada do pai. A mãe, que não costumava fazer queixas porque acabava sobrando pra ela, não se conteve:

— Esse menino, além de todos os defeitos, agora está ficando mentiroso.

— A culpa é sua, que não dá educação pra ele. Sorte se ele não virar bandido.

João Leno suspirou. Até que o dia não acabou tão mau. E mentiroso não é a pior coisa de que já foi chamado. Deu um beijo na mãe, e saiu pelas vielas da comunidade para contar sua história a ouvidos mais crédulos.

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domingo, 10 de fevereiro de 2013

SOBRE NOITES DE INSÔNIA E CANAIS DE TV POR ASSINATURA
>> Sílvia Tibo

Depois de anos sobrevivendo apenas com os canais abertos, finalmente resolvi contratar um pacote de TV por assinatura. Dentre os muitos planos que me foram oferecidos, fiquei com o intermediário, certa de que jamais conseguiria assistirpor cinco minutos que fossem, pelos próximos cinco anos, a cada um dos quinhentos e tantos canais disponíveis nos planos mais “avançados”.

Afinal, passar horas em frente à televisão nunca foi um dos meus passatempos prediletos. Há sempre um ou outro programa que me agrada e que eu procuro acompanhar. No mais, dou uma fisgada diária nos telejornais pra saber o que anda acontecendo no mundo e nada mais.
Por isso, sempre achei que os tais canais fechados não fossem ter grande utilidade pra mim, que vinha sobrevivendo bem sem todas aquelas opções de sériesjogos de futebol, programas de entrevistas e documentários que existem por aí. Quanto aos filmes, embora eles estivessem entre os meus programas favoritos, sempre preferi a tela grande do cinema à TV de casa. Até porque eu jamais consegui preparar no forno de microondas pipocas tão cheirosas, saborosas e suculentas quanto aquelas que são vendidas nos stands dos shoppings, com aquele copo enorme de refrigerante de máquina cujo sabor também não se encontra nas latinhas ou garrafas plásticas que guardamos nas nossas geladeiras.
Mas o fato é que, há alguns meses, estava em busca de um novo plano de internet e, enquanto pesquisava algumas opções, me deparei com um combo irresistível, desses que incluem telefone fixo com não sei quantos minutos de ligações de graça e acesso a uma infinidade de canais de televisão, por um preço bem razoável.

Decidi, então, fazer a assinatura, movida muito mais pela promessa (e pela necessidade) de ter internet rápida, ilimitada e sem falhas de sinal, a qualquer hora do dia, do que propriamente pelas dezenas de canais que estariam à minha disposição a partir de então."Esses canais eu nem vou usar", pensei. "Mas tudo bem, faz parte do pacote", complementei.

Superando as minhas expectativas, em poucos dias, os novos canais demonstraram ser de grande serventia. Afinal, conseguiram pôr fim a um problema que vinha me perturbando e sugando minhas energias há uns bons meses: as noites mal dormidas!
Acreditem, houve um tempo (do qual, aliás, tenho grande saudade) em que eu tinha tanto sono que era capaz de apagar até falando ao telefone, por mais interessante que fosse o papo ou a pessoa que estivesse do outro lado da linha. Mas de uma hora pra outra, por razões que ainda desconheço, passei a contar com a presença assídua e maçante de uma tenebrosa insônia. 

Foram muitas as tentativas de expulsar das minhas noites essa companheira inconveniente e metida a besta. Por diversas vezes, lutei para mostrar que era mais forte e esperta do que ela: lá pelas onze, tratava de apagar as luzes, preparar o cobertor, fechar a porta e as janelas do quarto e correr para a cama, na tentativa de marcar o território e mostrar quem mandava ali, antes que a danada da insônia resolvesse dar o ar da graça. Mas, por mais que eu me apressasse, ela se antecipava e ali permanecia, dentro do meu quarto, esparramada na minha cama, sem a menor cerimônia, firme no propósito de me manter acordada (e acabada no dia seguinte), o que vinha conseguindo com êxito, noite após noite.
Contratada a TV por assinatura,  meus problemas acabaram. Em pouco tempo, descobri que basta passear pelos muitos canais disponíveis durante alguns minutos da madrugada para que o sono volte a ocupar o posto de onde jamais deveria ter saído. 

Os especialistas no assunto que me perdoem, mas não há inquietude e ansiedade que resistam ao movimento constante das legendas miúdas surgindo na tela da televisão. Sei que a minha teoria não tem qualquer fundamento científico, mas o fato é que as tais letrinhas têm sido antídoto certo e eficaz no combate às minhas noites em claro, colocando no chinelo qualquer floral à base de camomila, dose de calmante ou sessão de acupuntura.


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