segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

LIMITES DO TEMPO E DA RAZÃO >> Albir José Inácio da Silva

Sob o olhar espantado de uma velhinha, eu falei sozinho na rua. Não estou maluco, embora reconheça que tal afirmação não prove saúde ou lucidez de ninguém. Não é a primeira vez que acontece. Há meses percebo que as pessoas me olham na rua com um interesse quase científico. Mas isso vai mudar.

Não gosto quando me chamam atenção por isso. No início não acreditava e dizia que louco era quem me acusava. Mas tive de reconhecer. Além de vários testemunhos, chegaram até a filmar um de meus solitários discursos. Mas continuo não gostando. Por que não se metem na sua vida? Vida deles, quero dizer, não se ofenda leitor, isso não é com você que nunca me viu ou acusou de falar sozinho.

Claro que a minha fala não é para ser ouvida, se fosse eu falaria com alguém. Geralmente é na rua que falo mais porque em casa fazem muitas perguntas. As pessoas admitem tudo, menos que alguém fale sozinho. Ora, se eu quero, ou preciso, conversar comigo, com quem devo falar? Ou não devo conversar comigo?

E há coisas que não posso falar pra ninguém, a timidez me impede. Outras, não devem ser ouvidas. “Nem todas as verdades são para todos os ouvidos”, diz Humberto Eco. Se eu fosse os engraçadinhos que andam por aí me sacaneando, pensaria duas vezes. Tenho certeza de que não gostariam que eu falasse em público um décimo do que ando falando sozinho.

Falar sozinho tem suas vantagens. Ninguém nos interrompe só porque se lembrou de uma bobagem qualquer e nos deixa de boca aberta durante longos minutos para depois pedir que continuemos quando já esquecemos até o próprio nome, como se fosse fácil retomar, sem prejuízo, um raciocínio brilhante. Por que fingem nos ouvir se é tão desinteressante o que dizemos?

Falaram sozinhos todos os grandes mestres e pacifistas que já pisaram neste planeta. E como eles sou incompreendido. Não que eu tenha coisas interessantes pra dizer. São coisas comuns, do homem comum que sou. Mas o fato de, como eles, não ser ouvido, sugere que eu também seja grande.

Até um terapeuta já consultei pela insistência das pessoas de que isso não era normal e que estava piorando, que falar sozinho é indício de coisa mais grave, que quando eu me desse conta já não poderia controlar, e outras ameaças que ouvi por um hábito tão ingênuo.

Ele disse que eu precisava me ocupar com outras coisas. Substituir essa fala solitária por outras atividades, e conversar mais... com as pessoas. Que devia me policiar porque esse comportamento deixa as pessoas confusas e que isso as afasta de mim.

Nos últimos meses, um agravante: gestos têm acompanhado a minha fala. Isso tem despertado maior atenção dos passantes. Agora não só me olham, riem também. Quando falam as pessoas não gesticulam? Por que deveria eu falar só com a boca? E o que há de engraçado nisso?

É tempo de renovação, de avanços e de curas. Acabou o ano e o que ele teve de bom foi usufruído, mas o que não funcionou precisa ser mudado. Já incluí entre as metas pro futuro evitar atitudes constrangedoras como essa. Já sinto alguma melhora. Estou seguindo o conselho do terapeuta. Substituição é a palavra, e escrever tem me ajudado muito. Em vez de falar, estou sempre escrevendo. Não observei ainda que efeito isso tem sobre as outras pessoas, mas sigo escrevendo. Na rua, no ônibus e até em casa.

Essa crônica mesmo, que depois tenho de digitar, está sendo escrita no ar com o indicador da mão direita. E não poderia ser diferente, já que sou destro desde que me entendo por gente.


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domingo, 30 de dezembro de 2012

O ANO QUE VEM. EXISTE? >> Sílvia Tibo

 

Superada, enfim, a fase de especulações acerca do fim do mundo, que se tornou assunto obrigatório em qualquer mesa de bar nas últimas semanas e objeto das mais enfadonhas piadas, é tempo de nos concentrarmos na chegada do "ano que vem".

Esse período sempre provocou em mim certa melancolia. Nada que me impedisse de colocar um vestido novo, sair de casa e participar de uma festa ou outra que aparecesse, ao lado de pessoas queridas. Nada que me impedisse, também, de brindar o início de um novo ciclo. Mas a minha alegria, lá no fundo, era sempre menor e mais contida do que aquela que exalava das outras pessoas, que pareciam sempre mais eufóricas do que eu.

Nunca entendi muito bem isso e sempre me perguntei por que diabos meu espírito nunca foi capaz de acompanhar o brilho dos fogos de artifício que enchem os céus nessas ocasiões. Ou o barulho gostoso que exala das rolhas lançadas das garrafas de espumante, anunciando a virada.

Pra completar, geralmente, o sono teimava em dar o ar da graça antes da meia noite. E eu, então, era obrigada a lutar contra ele por mais algumas horas, vestida em uma daquelas roupas brancas que nunca me agradaram e desejando imensamente estar em casa, assistindo a um bom filme debaixo dos lençóis.

“Deixa de ser sem graça!”, pensava eu, com os meus botões. “Este não é um dia como outro qualquer! Trate de se animar, celebrar e de se manter de pé até o fim da festa, como todos à sua volta”.

Mas nada como o tempo, esse senhor tão bonito, para nos revelar algumas coisas sobre nós mesmos. E também sobre os outros.

Hoje entendo que, na verdade, nada tenho contra as festas de fim de ano, os fogos de artifício, as garrafas de espumante ou mesmo as roupas brancas que invadem as vitrines das lojas nesse período. O que me incomoda é tão somente a expectativa, o romantismo que se cria em torno da chegada do ano novo, como se fosse preciso esperar por ele para dar início a alguns projetos, abandonar determinados vícios e mudar certos comportamentos.

Que bom seria se o espírito do Ano Novo, com todo o seu vigor, estivesse entre nós também nos dias comuns, em situações corriqueiras, como parte de nossa rotina. Numa reunião de trabalho, na volta pra casa, na fila do supermercado. Nos congestionamentos de trânsito, nas repartições públicas, nos ônibus lotados.

Talvez ele nos ensinasse que a vida acontece também ao longo dos outros trezentos e sessenta e quatro dias do ano. E que não é preciso esperar tanto tempo para cultivar bons sentimentos e distribuir sorrisos, abraços carinhosos e votos de prosperidade por aí.

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sábado, 29 de dezembro de 2012

2013 — MUDANÇAS NO AZUL >> Claudia Letti

Saturno, o Senhor do Tempo e do Karma, é o regente astrológico do ano que vem chegando aí. E vem pedindo responsabilidade nas mudanças que pretende provocar. No signo de escorpião, nada escapará deste planeta severo. Sabe aquela sujeirinha, aparentemente inofensiva, que foi varrida pra debaixo do tapete? Levanta, sacode a poeira e não poupe na faxina geral para não ter que passar por constrangimentos logo mais. Saturno também promete boas colheitas para quem soube plantar. Ainda não plantou? Melhor começar seu cultivo sem demora e com desapego. E siga o ano com paciência, (outro mote de Saturno), que os frutos podem estar onde menos se espera.

Entrar o ano de Azul, na virada, pode ser uma ótima ideia, dizem os entendidos em Feng Shui. Não por acaso, Azul também é cor de Yemanjá, a Rainha dos mares, que junto com Obaluayê, vai reger o ano de 2013. Tudo azul para as mudanças e transformações com sinal verde para a cura de muitos males e epidemias. E mesmo que o tom soe otimista, não podemos esquecer que mudanças nem sempre acontecem sem alguns desapontamentos nas reorganizações/reciclagens que provocam. Bem, podemos encarar como parte daquela faxina sugerida por Saturno, certo?

Para os românticos e que ainda esperam por um grande amor, este pode ser "o" ano. É o que promete a Serpente que rege o ano no Horóscopo Chinês: sorte certa no amor. Desde que -- será que ela sabe dos desígnios de Saturno? -- se tenha paciência e planejamento. Romance para os solteiros e estrutura para os comprometidos -- para aqueles que tiverem calma e não se deixarem levar por arroubos. Parece complicado se adaptar a um temperamento tipo blasé? Relaxe. Com a ajuda do 6, o número maestro de 2013 e que dá a tônica para os assuntos do coração -- amor, família e amigos --, tudo deve correr mais fácil.

O mesmo número 6 no Tarot é representado pela carta do Enamorados/Amantes que, confirma as nuances para o ano e, se dispensa maiores explicações, também adverte: decisões precisam ser tomadas com (muita!) responsabilidade, sob pena de cometermos rupturas prematuras. Rupturas devem fazer parte daquela faxina citada lá no início e não podemos esquecer que a vida vem em ondas, como diz a canção. Mas podemos perseguir o alívio e não a dor como consequência de qualquer ruptura que desejarmos fazer. Pra isso, paciência (olha ela aí de novo!) e planejamento operam milagres.

E pra não dizer que não falei das flores, a pedida para 2013 nesses assuntos em que Saturno dá o tom e os Enamorados a direção, um bom floral é Holly de Bach, que promete trabalhar os tais arroubos amorosos, dissolvendo mágoas e medos pra deixar o amor irradiar. Para as opções que precisam ser feitas, o floral campeão é o Scleranthus, também de Bach, que vai ajudar a escolher sem oscilação, especialmente se for entre duas alternativas. Quem garante é a floralista Angela Scott Bueno, que indica ainda o floral Spreading Phlox, uma ajudinha no ano da Serpente para se aproximar do seu amor -- 'spreading phlox' é conhecido como o floral da alma-gêmea --, o floral Impatiens que traz paciência e calma mental necessárias para o qualquer planejamento e o floral Borage para "equilibrar as forças de Saturno na alma, transformando pesar em luz e força para o coração". Lindo, né?

Tudo isso -- e muito mais que isso! -- pode dar o tom do seu ano, se você acreditar, é claro. O importante mesmo é que somos uma tela onde cada dia é uma nova pincelada e a mistura das cores com o estilo de cada um, é que faz da nossa vida uma obra de arte. Pulando 7 ondas, usando as cores do ano, jogando arroz pra Yemanjá, brindando com o melhor champanhe ou com o mais despretensioso refrigerante, o que importa é andar com fé -- esta sim, não costuma e não pode falhar.

Um ótimo 2013 para todos nós. Com tudo Azul!

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quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

A FICÇÃO DO PASSADO >> Mariana Scherma


Pra não ficar refém das reprises dos canais a cabo nem dos especiais de Natal da tevê aberta, todo fim de ano eu me cerco de filmes – e da forma antiga, diga-se, indo até a locadora. E neste ano, Tarde Demais Para Esquecer estava esperando por mim num canto empoeirado da loja. Foi meu milagrezinho de Natal: de todos os romances clássicos, era esse que faltava ganhar um OK na minha lista de assistidos. Não falta mais.

Eu amo os filmes antigos, principalmente os romances, por vários motivos: a classe dos personagens, a trilha sonora imponente, a educação no jeito de tratar as pessoas, os vestidos que nunca saem de moda das protagonistas, a falta de malícia (ou seria a malícia discreta?) nos diálogos, o colorido desbotado das cenas... A verdade é que hoje todos esses motivos fazem os clássicos do cinema virarem a maior ficção improvável. Em dias de Facebook, Instagram, Twitter e 3G, um roteiro como o de Tarde Demais Para Esquecer jamais seria escrito dessa forma.

Explico. Pra quem nunca viu, o filme conta a história de Nickie Ferrante (Cary Grant), um playboy que não trabalha e ama a vida boa, e Terry McKay (Deborah Kerr), uma ex-cantora que também ama a vida boa (and the pink champagne). Os dois se conhecem num navio e se apaixonam, mas, como são comprometidos, não podem escancarar o amor com medo de que a noiva de Nickie e o namorado de Terry descubram. O ano era 1957 e, nessa época, o futuro casal poderia passar horas conversando no navio tranquilamente (se não fosse a consciência pesada que dela). Quem estivesse a bordo até poderia comentar, maaas... cadê provas? Ainda mais quando Terry joga o filme da máquina do fotógrafo chatão (ou será insistente?) em alto mar. Perdeu, paparazzo. Em 2012-quase-2013, a primeira conversa dos dois iria direto para o YouTube, com fotos reveladoras no Instagram.

Quando se despedem, eles combinam que vão trabalhar pra conseguir se sustentar sozinhos e, em seis meses, se o sentimento continuar o mesmo, eles se encontram no topo do Empire State Building. Imagine se hoje haveria esse mistério. Rá! A Terry de 2012 já teria criado um site com todos os seus vídeos pra que alguma gravadora assinasse com ela. No perfil do Facebook, mais de dez atualizações diárias com suas novas músicas. E, claro, um blog falando de cada dia sem Nickie. Ou um livro chamado 50 Tons de Um Oceano, os contos inspirados em Nickie.

Enquanto isso, o Nickie da atualidade continuaria pintando seus quadros, mas, diferente do personagem de 1957, ele assinaria as obras sem medo nenhum de aparecer. E se nada disso funcionasse, sempre é tempo de escrever para Luciano Huck ou Ana Maria Braga, eles têm os contatos pra patrocinar um amor. E pagar a festa de casamento.

E (perdão pelo spoiler) na cena final, quando Terry e Nickie vão ao Empire State, ela provavelmente já teria colocado no Insta sua foto com o look do encontro e, depois, mais uma dentro de um táxi com a legenda: indo encontrar meu amor, #agoravai! Nickie já estaria lá esperando, com uma equipe de tevê “escondida” pra gravar tudo e fazer um documentário. Ou uma matéria para o Caldeirão do Huck. Afinal, poucas coisas podem nos surpreender atualmente.

E só pra deixar claro: não, eu não tenho birra das redes sociais e das ferramentas que mostram passo a passo do dia de uma pessoa. Tudo isso é válido quando a notícia é fato mesmo. A verdade é que, nas vésperas do próximo ano, esse foi o melhor jeito de eu desejar a todos sentimentos e momentos incríveis, desses que nunca poderão ser resumidos a 140 caracteres. Ou desses que fazem a gente esquecer tudo ao redor, inclusive de postar nas redes, porque, oras, o momento já foi gravado com os olhos e arquivado na memória com gigabytes ilimitados.




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quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

COMO TEM DE SER >> Carla Dias >>


Sentiu fome, então engoliu duas bolachas de água e sal, repetindo, mentalmente, que manteiga está fora da lista dos alimentos saudáveis. Minutos depois, enquanto aguava as plantas, o seu estômago reclamou que a fome era maior e duas bolachinhas de água e sal não tapariam a sua boca. E a boca do estômago é desaforada. Sempre foi. Quase sempre atazana a gente por causa do que sente o coração. Então, recorreu ao micro-ondas, porque o tempo urge, lembrando-se, como se pescasse uma história muito importante do seu passado, do remédio para diabetes. Engoliu os comprimidos com refrigerante, tentando se convencer de que estava a um passo de se tornar alguém com um ritmo de vida mais saudável. A sensação durou os cinco minutos que levou para devorar a mini pizza, porque depois foi a culpa que tomou conta.

Tomou um banho demorado, daquelas demoras de quem não quer sair de debaixo do chuveiro nunca mais. De quando a água abafa o zumbido da realidade que já não se consegue conduzir com o mesmo esmero de quando se é jovem o suficiente para que os sonhos ainda façam sentido, mesmo os mais improváveis. A água morna espancando seu corpo com a delicadeza das gotas massageia seu espírito esportivo. Declama, aos ausentes, que vai ficar tudo bem.

Senta-se defronte à tevê e sintoniza no programa preferido. Abre a revista e começa a ler notícias das celebridades, enquanto cantarola uma música da qual nem mesmo gosta, mas decorou por desgosto, e está sendo tocada no apartamento de cima... E bem alto, como se o baile fosse no bairro. Repreende o repórter do programa preferido por ter feito pergunta idiota. Critica as notícias publicadas na revista. Diz “cruz-credo-ave-maria” ao tentar tirar da cabeça o refrão da música da qual não gosta. E em um lampejo compreende que raramente sai de casa, que se tivesse de sair agora, não faz ideia de aonde iria.

Só que a sua imaginação segue a um passo a frente.

Vai para Marte, dá uma passadinha em Júpiter, compra um colar de estrelas. Na sua viagem, alimenta-se de silêncios, porque não é preciso dizer em lugares como esses. Basta sentir, pensar. Volta para a Terra  sendo atraída pelo grito da campainha. Hora de pagar o aluguel, discutir um tantinho com o senhorio sobre as providencias que precisam ser tomadas, já que o encanamento do prédio está de matar de desgosto qualquer inquilino. Fecha a porta, a voz aguda do senhorio ainda reverberando na sua cabeça, vai direto até a cozinha. Vinho tinto... Uma taça, duas, três, a garrafa.

Languidez, embriaguez, desvario. Esparrama-se sobre a cama king size, relembrando como imaginou ali, a lhe servir mil e tantos carinhos, o vizinho do apartamento 57. Um sujeito inventado, porque o seu prédio tem apenas 3 andares, 6 apartamentos. Um sujeito oculto, porque para ele não conseguiu imaginar um rosto. Um sujeito que não oferece qualquer perigo a sua realidade.

Benzeu-se duas vezes, para garantir que não errou os sinais da primeira. Jogou búzios, cortou as cartas do tarô, mergulhou nos significados das runas e confiou seu amanhã ao caminho apontado pelo I Ching. Sentou-se no meio da sala, posição de lótus, meditou, entoou mantra, imaginou como seria uma boa conversa com uma divindade, meditou e no meio da meditação fez as contas do supermercado. Pediu desculpas aos deuses pela distração mundana, tentou se concentrar e, sem sucesso, desfez a posição de lótus, esticou-se no tapete, espreguiçando-se até sair um som de sua boca que mais parecia uma breve canção arranhada sobre o prazer. Pensou novamente no vizinho do apartamento 57. Talvez, seja hora de se mudar para um apartamento em um prédio que tenha o número 57.

Dormiu, não sonhou, pulou da cama. Banho, café e duas bolachas água e sal, e logo depois algumas colheradas de sorvete de creme. Conferiu se o gás estava desligado, a torneira bem fechada, a janela com cadeado. Parou no meio da sala, olhou a sua volta, respirou fundo, repetiu para si mesma que a vida que tem é a que merece. Antes de sair, benzeu-se uma vez – porque é dia de exercitar a confiança em si mesma. Só que, depois de trancar a porta e ficar um bom tempo parada do lado de fora, abriu-a novamente, entrou no apartamento, verificou se desligou o ferro da tomada, se as luzes estavam apagadas. Antes de sair, benzeu-se três vezes: uma a mais para garantir e outra de penitência por não ter se benzido duas vezes da primeira vez.

carladias.com


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terça-feira, 25 de dezembro de 2012

FELIZ NATAL! >> Clara Braga

Que beleza, o natal caiu numa terça! Nada melhor do que ter esse espaço para desejar um natal iluminado para todos. Sem contar o gostinho especial que esse natal tem, afinal, o mundo não acabou, como muitos temiam.

Na verdade, o mundo não acabou para a gente que ainda está aqui, mas de fato, como muito bem disse minha mãe, esse ano parece que Deus tomou bastante ômega 3 e lembrou de levar para perto dele umas pessoas que não queriam ir tão cedo. Começou pela Hebe, depois teve Niemeyer, que resistiu até seus muito bem vividos 104 anos, e hoje, aos 105 anos, Deus levou pra ficar com ele Dona Canô!

Todos esses merecem muito mais do que apenas uma homenagem, pelo legado que deixaram para quem ficou e teve a sorte de não ver o mundo acabar, mas, com certeza, Niemeyer deixa uma saudade a mais para quem é de Brasília, já que é quase impossível transitar pela cidade e não se deparar com uma de suas grandes construções!

É bem verdade que alguns brasilienses já andavam um pouco chateados com o arquiteto, convenhamos que as últimas declarações dele sobre a cidade não foram lá tão amigáveis. Mas não podemos deixar de reconhecer seu talento e admirar o trabalho de uma das únicas pessoas que conseguiu dar plasticidade ao concreto! E ainda vou além, é claro que é horrível ouvir alguém que nem mora na sua cidade falar mal dela, mas acredito que Niemeyer andava meio revoltado com a cidade e dou razão a ele, afinal, ele acompanhou de perto a construção desse local onde a justiça deveria ser feita, onde as pessoas deveriam olhar mais para o próximo, perceber que é importante ajudar quando ajudar for possível, local onde não deveria haver roubo, local que deveria servir de exemplo aos demais, e na verdade não é exatamente isso que encontramos aqui.

É por isso que eu queria aproveitar esse clima natalino, onde as pessoas são tomadas por um sentimento de fraternidade, de amor ao próximo, de alegria e de paz, para desejar a todos que esse sentimento que nos toma no final de todo dezembro possa nos acompanhar ao longo de todo o ano de 2013, que a gente lembre que durante todo o ano a gente pode fazer mais, tanto por nós mesmo quanto por aqueles que nos cercam! Feliz Natal a todos!

P.S: não vou desejar feliz ano novo pois o primeiro dia do ano também cai em uma terça-feira!

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domingo, 23 de dezembro de 2012

O MITO DA IGUALDADE >> Whisner Fraga

O mito da igualdade racial no Brasil sempre vem à baila quando os políticos resolvem tomar alguma medida para tentar minimizar as injustiças sociais que reinam em nossa sociedade. Recentemente, pudemos acompanhar a aprovação de uma lei que prevê uma reserva de 50% das vagas nas universidades federais para alunos oriundos do sistema público de ensino. Há bons argumentos de ambos os lados e os que são contra defendem que o ideal seria investir mais na educação básica, que a aplicação da lei provocará uma distorção muito grande no acesso ao curso superior, que todos somos iguais perante à lei, que os ricos pagam muitos impostos e só porque seus filhos estudam em escolas particulares, não podem perder o direito ao ensino de qualidade, encontrado, hoje, principalmente nas faculdades públicas.

Do lado favorável, há o reparo de desigualdades que se acentuam cada vez mais com o fato de que os pobres não têm acesso à educação de qualidade, a esperança de que, com esse incentivo, os alunos carentes valorizem sua formação, se esforçando para ser bons profissionais, a melhora do nível de conscientização e cidadania da sociedade em geral, uma vez que uma parte marginalizada da população começa a ter um acesso a um bem que sempre lhe foi negado (o absurdo de que pobre deve ter educação para pobre), estudos de pesquisadores renomados atestando que o nível de qualquer curso não cai com a chegada desses novos alunos.

Há bons motivos de ambas as partes, mas é claro que eu fico com os que são favoráveis à medida. Há poucos dias também, a nova Ministra da Cultura, Marta Suplicy, andou cutucando a presidente para que ela olhasse com mais carinho a questão dos negros. Acho que foi uma das pouquíssimas coisas boas que Suplicy fez. É necessário que se criem cotas para os negros sim, que foram privados, pelos brancos, do contato com os bens culturais da humanidade. Não só culturais, evidentemente. Assim, em breve, teremos ações políticas que garantam financiamento de projetos culturais de negros. Editais exclusivos para negros: palmas para a Ministra.

Outra notícia rondou os jornais esta semana e eu fiquei muito contente com o fato. Dilma sancionará, logo, uma lei que prevê cotas para negros em concursos públicos. Perfeito! Acho que é muito pertinente a medida e necessária. Da mesma forma, existem bons argumentos contra e a favor, mas uma coisa é certa: muitos do que são contra, escondem por trás da ação o preconceito. Isto é, negro pode fazer papel de empregado em novela, pode vender água na praia, pode engraxar sapatos pelos bairros, mas não pode vestir um paletó de advogado ou um jaleco de médico e exercer uma profissão “de branco”, que já acham que a sociedade está perdida. Ou seja: é evidente que não existe igualdade racial no Brasil e que os brasileiros são preconceituosos.

São poucos os que não se assustam quando veem uma negra beijando um branco. Quem é que não ouve piadas sobre negros quase cotidianamente? Outro dia fiquei horrorizado, quando um senhor, ao ver um casal se abraçando (ele negro, ela branca), comentou comigo: não é que eu seja racista, mas que isso aí é feio é. Como se a frase “não é que eu seja racista” bastasse para que o sujeito deixasse de ser intolerante.

A questão é interessante e não se esgota em uma crônica, é lógico. Mas eu queria deixar registrado que sou a favor de qualquer política de cotas e que me sinto muito à vontade para discutir o assunto com qualquer pessoa. Está na hora de mudar este país, de torná-lo um lugar mais justo, com pessoas que convivam (de fato) com harmonia com todas as diferenças que encontram por aí.

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sábado, 22 de dezembro de 2012

OS DOCES CHEIROS DO NATAL [Maria Rita Lemos]


Acredito que um de meus sentidos mais aguçados é o olfato - e isso desde que eu era muito pequena. Prova disso é que tenho gravados, num cantinho do cérebro, odores familiares que me remetem de volta ao passado, a momentos amargos ou felizes da minha vida. Bons ou maus momentos, mas sempre embrulhados na mesma forte emoção.

O cheiro da terra quando recebe as primeiras gotas de chuva; o doce perfume da “dama da noite” - esse especialmente me leva a um jardim em Belo Horizonte, na primeira vez que lá estive com meus pais. Quando entro em lojas de tecidos, recordo-me de um vestido cor de rosa de organdi, cheio de babados, que aos seis ou sete anos minha avó costurou para mim, e eu amava vestir. Aliás, vovó tinha uma compoteira de bico de jaca, na qual ela colocava o doce de ambrosia (ah, que saudade de saborear esse manjar dos deuses)!. É por isso que sempre que sinto cheiro de doce de leite ou de ambrosia, a mesma compoteira cor de mel chega de forma intensa à minha mente. O aroma forte das coroas de flores me conduz àquele dia triste de um agosto distante, quando dei o último adeus ao pai de minhas filhas, que partia desse mundo. Já o perfume de rosas vermelhas me encontra, emocionada e linda, na cama da maternidade, sentindo o cheiro doce de minha primeira filha, recém-nascida.

Falando em filhos e filhas, é deles que me vem a saudade de odores familiares: leite azedo, impregnando quase todas as minhas roupas, naquele gostoso momento do abraço para “fazer arrotar”. O cheirinho de cocô, conhecido de todas as mamães, que sempre lambuza os dedos quando a gente desconfia - enfia a mão na fralda para testar e confirma. Realmente, é cocô.

Entre todos os aromas, entretanto, jamais esquecerei o cheiro próprio que o Natal tinha, na casa de minha infância e juventude. A cozinha era o centro de uma confusão de odores: peru assando, chester, tudo se misturando ao cheiro da boneca que ganhei aos oito ou nove anos. Eu achava, ainda, que Papai Noel havia trazido, afinal fui criança num tempo em que a infância durava o tanto que deveria durar.

Lembro tanto dessa boneca! Chamei-a, de Marily, o nome de uma colega querida que nunca mais vi. Marily era loura, tinha o vestido de tule azul claro, e dizia “mamãe” quando era debruçada... O cheiro dela na caixa simbolizava, para mim, toda a magia do Natal. Ali, eu respirava avidamente o assado no forno, o presépio cheio de luzes que mamãe fazia questão de montar numa peça longa, na sala de jantar, a árvore alta de bolas vermelhas.

Eu revivia, nessas noites mágicas, o sorriso maroto de meu Pai, nosso eterno Noel, e a voz de mamãe, repreendendo os mais afoitos que chegavam à mesa antes da hora aprazada.Durante todo o ano, muitas vezes eu voltava ao cheiro daquela boneca, evocando as emoções que acompanhavam aquela viagem.

Confesso que jamais senti aquele cheiro outra vez, depois que a infância acabou e Marily quebrou, não sei como nem quando. Em cada noite de Natal, no entanto, eu fecho os olhos e recordo a magia e a inocência da infância. É o momento em que consigo ressuscitar a menina que fui e a esperança que ainda tenho, depois de tantos anos, intocada, inquebrável, teimosa que ela é.

O Natal vem chegando outra vez; falta muito pouco. Desejo a você que haja, em seu lar, um brilho mágico de Amor, uma centelha que seja de fé. Não importa se sua mesa vai conter um banquete ou uma macarronada gostosa: que haja, nela, o perfume inesquecível da Esperança. Que Jesus Menino se faça presente em seu Natal, para que ele seja muito, muito feliz.



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sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

MINUETOS DE NATAL >> Zoraya Cesar

Minueto, do francês menu (pequeno): dança de gestos delicados. Como a vida, muitas vezes.

1° Minueto – um instante de compaixão

O homem sentou-se pesadamente em frente à luzinha vermelha que, sabia, sinalizava a presença do dono da casa. “Ele” morreu tão sozinho quanto estou agora, pensou amargurado, chorando silenciosamente para dentro.

Tanta gente no mundo, tantos conhecidos de trabalho, uma agenda repleta de telefones e absolutamente ninguém com quem passar o Natal. Olhou em volta e viu que o velho Padre, andando pela Igreja e desfiando um Rosário, parecia também muito só, além de um tanto empobrecido, a batina muito limpa meio surrada, sapatos gastos. Coitado, pensou o homem, talvez passe necessidade, gostaria de fazer algo por ele, eu bem gostaria que Deus fizesse algo por mim...

E, podem acreditar, nesse breve instante de compaixão pelo velho Padre, o celular toca, e o primo, com o qual brigara e não falava há quase um ano, chama-o para fazerem as pazes, passarem o Natal juntos, eram os únicos parentes vivos na família, que deixassem de bobagens.

Ele se levantou e saiu correndo, mal acreditando no milagre, sem saber o que fizera por merecê-lo.  Antes de chegar à porta, porém, deixou na caixinha do Presépio quase todo o dinheiro que tinha, que não era pouco. Talvez, pensou, isso compre uma batina nova. E pediu a Deus que o Padre não passasse sozinho o Natal.

Foi a compaixão que o fez merecedor, explicou um Anjo a Santo Antonio. E continuou a abanar Menino Jesus, pois fazia muito calor naquele dia.

2° Minueto – de mulher para mulher

Ela chegou desconfiada, pronta para fazer escândalo, caso alguém a mandasse embora. Estava acostumada a escândalos, mais um, menos um, não faria diferença.

Mas o velho Padre sorriu-lhe e continuou a andar pela Igreja, murmurando.   Então, espantou-se, ele não ia mandá-la embora? Dizer que sua roupa curta e decotada era inadequada? Criticar sua maquiagem exagerada e agora borrada pelos excessos da noite?

O silêncio do lugar e a discreta acolhida do Padre encheram-na de um sentimento bom que ela não soube explicar.

A mulher aproximou-se do Presépio. Era muito bonito, rico, até, contrastando com a simplicidade quase ascética da Igreja. Alguém teve um cuidado muito especial em montar a cena de adoração ao Menino Jesus. Ela se comoveu. Lembrou de como seu filho era pequenininho ao nascer, da alegria que sentiu quando o segurou nos braços a primeira vez, apesar de a condenarem por não ter abortado, mãe solteira, sem emprego, sem nada.

Olhou para Nossa Senhora, e imediatamente sentiu-se compelida a conversar com Ela, contar de sua vida, seus pecados, suas dores, do filho e da mãe que a rejeitavam, dos Natais longe da família, das noites mal dormidas, das más escolhas, da falta de escolhas. E Maria contou-lhe também da pobreza, da fuga, do medo, da tristeza, em tantas coisas suas vidas se pareciam, admirou-se a mulher. Só que você é uma Santa, e eu, uma pecadora, disse, chorando, chorando, até Nossa Senhora acalmá-la novamente. 

Agradecida pelo enorme alívio que sentia, a mulher desfez uma de suas pulseiras, cheia de badulaques, e começou a colocá-los, delicadamente, no manto e aos pés de Maria, um sininho, um peixe, um cofre, um coração, todas as pérolas.

A campanhia do seu celular ecoou pela Igreja, interrompendo estridentemente seu colóquio com a Santa, mas talvez o velho Padre fosse um pouco surdo, porque não chamou sua atenção, nem mesmo quando ela deu um pequeno grito, ao ouvir o convite do filho e da mãe para passarem o Natal juntos.

Antes de sair desabalada, a mulher ajoelhou, beijou os pés de Nossa Senhora, deixou parte do dinheiro arrecadado na noite na caixinha do Presépio.

O velho Padre ajeitou alguns dos enfeites recém-colocados. Ficou mais bonito mesmo, hein, Santíssima? Maria sorriu e desdobrou uma das pregas do manto, estava realmente muito quente.

3° Minueto  - acontece todo dia

O velho Padre, na verdade, nunca estava só – os Santos lhe faziam companhia; nem se sentia sozinho – sempre tinha muitos afazeres; e felizmente não passava necessidade, apenas levava uma vida simples.

Terminado o Rosário, agradeceu os pequenos milagres do dia, fechou a Igreja, foi para seus aposentos, nos fundos, e levou um prato de comida para o vigia da rua, com o qual conversou por um bom tempo, amigos de longa data que eram. 

Ao voltar, não fosse ele um homem acostumado ao extraordinário, teria tido uma síncope.

A porta que dava para a Igreja agora estava aberta e, junto a ela, um enorme gato preto desenhava no ar, preguiçosamente, delicados arabescos com a cauda.

Como se fosse a coisa mais natural do mundo, o Sacerdote acompanhou o intruso até o Presépio. E ali, daquela maneira mágica que só os gatos possuem, o felino deitou-se sem derrubar uma só imagem, sem desfazer um só enfeite, envolvendo o berço de Menino Jesus com o corpo e as patinhas abraçando Nossa Senhora.
 
O velho Padre sorriu. Decididamente, o Natal era uma data muito emocionante.

 

 


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quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

UMA CRÔNICA ANTES DO FIM DO MUNDO
>> Fernanda Pinho




Meu marido ajusta o relógio no pulso para ir trabalhar. Minha amiga que está hospedada aqui em casa escova os dentes com minúcia.  Da janela, vejo uma mulher regando vasos de plantas em uma varanda do prédio da frente. Em outra varanda, há um senhor lendo jornal com os braços apoiado no parapeito.  Eu sigo de pijama e na cama, de onde pretendo sair depois de postar a minha crônica.  Provavelmente, depois de sair da cama, colocarei relógio, escovarei os dentes, regarei um vaso de plantas, lerei um jornal.  Como todo mundo, como todo dia.

Nem parece que amanhã é o grande dia. Nem parece que depois de tantas teorias, conspirações, interpretações e debates chegamos, enfim, às vésperas do fim do mundo.  Não sei se encaro como coincidência ou como missão o fato de que o último dia do mundo – e, portanto, o último dia de Crônica do Dia – tenha caído justo numa quinta-feira. Na minha quinta-feira. Estaria eu recebendo a missão de deixar uma mensagem para o mundo pós-apocalíptico? Alguém teria acesso a essa mensagem depois  que tocarem as trombetas? A internet sobreviverá junto com as baratas? Ou será que nada disso faz sentido?

Não seria a hora de mandar às favas dilemas cronísticos, relógios, escovas de dentes, vasos de plantas e jornais para, enfim, responder na prática a questão que sempre martelou em enquetes, entrevistas de celebridades, cadernos de perguntas e canções: “o que você faria se só te restasse um dia?”?

Eu, para ser bem sincera, não tenho muito o que fazer. Não faço parte do grupo que  só compra presente de natal no dia 24 e que esperou esse momento  para dizer que ama,  para revelar um segredo, para pedir perdão, para perdoar, para sair da dieta, para pular de paraquedas, para provar uma comida exótica,  para fazer uma tatuagem, para pegar estrada sem destino. O que eu quis fazer eu fiz e o que eu não fiz não era tão importante assim. Detesto deixar pendências para última hora.  Ou para o último dia, como queiram. E muito menos acredito que hoje seja o último dia, a véspera do fim. Embora eu torça secretamente para que seja mesmo.

Que amanhã seja o fim de um mundo com gente que não dá passagem no trânsito, com gente que não dá bom dia, com gente que grita ao telefone, com gente que maltrata os animais, com gente que julga pela aparência, com gente que deixa seus idosos em asilos, com gente que se acha dona da verdade, com gente que não respeita o trabalho dos outros, com gente que complica. Quero compactuar com aqueles que acreditam no fim seguido de um novo começo de era, de preferência, com gente fina, elegante e sincera.  

Que venha o fim.


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quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

NADA A PERDER >> Carla Dias >>



Quando não se tem nada a perder, cala-se diante das palavras alheias. Das ideias e das ideologias então, nem lhe conto. E infiltra-se em um universo em que o som embrutece, soa como se andássemos com fones de ouvido desplugados. Como realidade abafada e sonho tiranizado.

Os pés parecem blocos de concreto, então se passa muito tempo parado, às vezes até contemplando parede, pensando que aquela seria uma ótima tela para uma péssima obra, e que pena que você não tem pincel e tinta, pois desenharia esse profundo nada a perder nesse painel que, no momento, ilustra apenas cotidianos abandonos.

Não ter nada a perder lhe oferece as lentes do dane-se, vandaliza com a sua capacidade de desejar bálsamo, enquadra a sua percepção na inabilidade de observar e absorver e compreender e criar opinião a respeito. Torna-lhe um promissor algoz das emoções fundamentais para não se enxergar a vida como se ela fosse absolutamente nada.

Nada a perder, por ironia deslavada, oferece uma coragem gritante a sua cria. E quando seu títere, em movimentos ainda incertos, dá o primeiro passo ao cumprimento do desfecho ao qual é induzido, o nada perder se espreguiça, sorri se deliciando com a sua nova conquista.

Quem tem nada a perder não caminha, arrasta-se pelo tempo em que passa a ruminar nem sabe o quê, já que nada é uma grande metáfora para um tudo que, após parecer definitivamente importante, parte-se em mil e tantos pedaços, então se perde dentro de nós. E há ainda as lonjuras construídas com telefonemas não retornados, e-mails não respondidos, contas não pagas, desejos recorrentes que, de repente, escorregam pelos vãos do esquecimento.

Dizem que quem tem nada a perder se torna cruelmente indiferente. Alguns cometem mágoas aos seus afetos, outros se tornam itinerantes, desapegando-se definitivamente das suas raízes. Há os que se esbaldam no esquecimento e quase conseguem inventar para si uma nova história, das bem simples, que não exija sentimentos demais, buscas demais, planos demais, e que lhes permita boiar em uma existência flat.

E há aqueles que abraçam uma ideia, uma ideologia, colocando ali toda a sua imaginação e energia, ligando pontos que não deveriam se encontrar, gerando deduções que não fazem o menor sentido, e chamando esse nada a perder de “minha religião” ou de “meu patriotismo”.

Sempre há algo a se perder, mesmo quando parece tão certo que já se perdeu tudo, até a si mesmo. Pode até ser que para quem tem nada a perder, quem tem esse sentimento lhe conduzindo, o que fizer, por mais bizarro ou insano que pareça, não chegará aos pés do vazio que lhe engole. Mas a verdade é que as ações de alguém nessa posição sempre se tornam consequência para os que estão a sua volta. O nada nunca existiu, meu caro. É sempre tudo que se coloca a perder quando se assume o posto de quem tem nada a perder. O tudo próprio e o de outras pessoas.

Melhor, então, não ficar de bobeira, esperando a vida lhe oferecer o que você espera dela. Melhor correr por aí, braços abertos e disposição para abraçar todos os tudo que você puder. Porque tudo também não existe, meu caro. Não na amplidão do sentido da palavra. Tudo é uma metáfora para todas as possibilidades que nos são oferecidas para nos tornarmos alguém que não precisará chegar ao ponto de ter nada a perder.

E assim, não se perde a graça, o amor, o desejo, a habilidade de ser gentil, de compreender a diferença, de aceitar que suas opiniões não são únicas ou definitivas. E de se respeitar com o respeito de verdade, que não se mistura com rótulos ou preconceitos, que é livre do egoísmo destrambelhado. E se ganha um tudo... Dois tudo... Três, quatro...

Imagem: sxc.hu

carladias.com



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terça-feira, 18 de dezembro de 2012

PALMAS PARA O THE VOICE BRASIL >> Clara Braga

Nesse último domingo foi a grande final do The Voice Brasil, e pela votação em massa deu para perceber que as pessoas se mobilizaram para ver a final desse programa que salvou a programação televisiva do final de semana! Brasília estava especialmente ligada torcendo pela maravilhosa Ellen Oléria, que após surpreender a todos com apresentações de arrepiar, foi presenteada como a vencedora do programa!

Eu já conhecia o trabalho dela há um tempo. Fui a diversos shows aqui em Brasília, incluindo o show de lançamento do seu primeiro CD, o qual eu super recomendo a todos que gostaram de sua performance no programa. O trabalho da Ellen é cheio de personalidade, assim como ela, e é impressionante como ela consegue passar através de sua voz o carisma que ela mostrou ter no palco do programa, fazendo com que sua vitória fosse mais do que justa.

Porém, além de usar esse espaço para fazer uma homenagem merecida a artista, gostaria de compartilhar um fato sobre o qual fiquei pensando após conversar com uns colegas de trabalho. Logo após o anúncio da vitória, as redes sociais se encherem de comentários como "toma sociedade, ela é negra, gorda, lésbica e vitoriosa!". Toma sociedade? Qual foi a sociedade que reclamou do fato dela ter ganhado? Posso estar pouco antenada, mas não vi nenhum comentário preconceituoso a respeito da vitória de Ellen, muito pelo contrário, o que eu vi foram mais de quatro milhões de pessoas votando a favor dela.

Concordo que ainda vivemos em uma sociedade muito preconceituosa, e o fato de Ellen ser negra, gorda e lésbica com certeza faz com que ela passe por situações desnecessárias por causa de pessoas recaucadas. Mas se nem essas pessoas estavam falando nada, será que era necessário dizer que a sociedade estava tomando na cara?

Recentemente um vídeo do Morgan Freeman falando sobre racismo fez um mega sucesso nas redes sociais, e nesse vídeo ele dizia que o racismo só vai acabar quando pararmos de falar sobre ele, quando pararmos de ter essa necessidade de chamar o outro de negro ou de branco, ou seja, quando pararmos com essa mania besta de querer rotular tudo. Ellen ganhou porque é batalhadora, canta muito, tem presença de palco, é uma grande compositora, ou seja, uma artista completa. Ela ganhou porque fez por onde, correu atrás, foi humilde, e agora está colhendo os frutos de um trabalho honesto, isso sim tem que ser falado. Se ela é negra ou lésbica tanto faz, isso não faz ela cantar melhor ou pior. Se a sociedade tomou ou não na cara, tanto faz, deixa quem é preconceituoso se morder de raiva até não aguentar mais. O que temos que aplaudir é o trabalho da Ellen e o fato do resultado ter sido justo, como poucas coisas no Brasil são.

Ah, e vamos aplaudir também a rede globo, que finalmente fez valer a pena ligar a televisão em um domingo a tarde.



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segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

VADE RETRO >> Albir José Inácio da Silva

Joca tinha sim as suas superstições, mas não admitia. Pior, sentia vergonha delas, negava-as. Mais que isso, fazia inflamados discursos contra as crendices que o cercavam. Por isso fingia que aquele número pendurado no peito não o incomodava.

Treinara com afinco e dedicação. Economizara para a inscrição às vezes com prejuízo do jantar. Nunca ia esquecer o vexame da última corrida com cãibra, queda e atendimento médico na frente de todos. “É falta de potássio”, disse alguém. “Falta de alongamento”, declarou outro especialista. E o maldito do João Pedro: “Foi o espelho que ele quebrou ontem na mudança de Dona Mercedes”.

Desgraçado! Na verdade a culpa tinha sido dele, João Pedro, que ficou na frente com o espelho, enquanto Joca tentava carregar sozinho a penteadeira. Mas nem por isso o cretino deixou de anunciar aos quatro ventos: “O Joca quebrou o espelho!”. Teve ganas de lhe quebrar a cara, mas fingiu indiferença. Não faria mais esses biscates. Era um atleta.

Depois, na corrida, o mesmo João Pedro, além de saborear sua derrota, ainda divulgava aquela infâmia no momento em que ele se contorcia de dor.

Desta vez seria diferente. Evitou espelhos, escadas, gatos de qualquer cor, e só saía de casa para os treinos. Todo cuidado era pouco. Não que acreditasse nessas coisas, mas não queria dar argumento aos ignorantes. Precisava ganhar. Precisava do dinheiro e de chamar a atenção de Mariana. Precisava mudar de vida.

Como não se arriscou com biscates e favores remunerados nos últimos dias, o dinheiro da inscrição veio do Seu Manuel e de algumas economias em notas pequenas e moedas. A moça contou com má vontade e lhe entregou um crachá. Os números enormes para pendurar no peito revelaram que sua inscrição era a de número 666.

Sentiu um calafrio, pensou em protestar, exigir outro número, mas a cara da moça não encorajou. “Não sou supersticioso”, fez questão de declarar para que ela ouvisse. Mas às quatro da manhã ainda não tinha dormido. E tinha que correr no dia seguinte.

Às sete horas, a largada. Joca está nervoso, sem dormir, as pernas pesam muitos quilos e o crachá muitas toneladas. Os que saíram mais atrás acabam de passar por ele. Pelo jeito vai ser mais um vexame. De que adiantou tanto treino e dedicação. É agora que Mariana vai rir dele.

Ainda tem de ouvir piadas: “Esse já ganhou!”, “Melhor não ganhar ou vai ficar devendo”. Joca tenta não pensar, acelera o passo. Surpreende-se: vai deixando os retardatários pra trás, um a um.

Ziguezagueia, costura, só assim consegue ultrapassar a multidão que corre sem ritmo ou cadência. Mais à frente pista livre, passou a turba de aventureiros. Vê os batedores, não deve estar longe do pelotão de elite. O que está acontecendo? Continua acelerando, não sente dor nas pernas e sua respiração é tranqüila.

Os batedores olham com admiração quando ele alcança os corredores da frente. Estes se entreolham querendo saber quem era aquele. E não tem perdão. A poucos metros da chegada ele ultrapassa um desesperado favorito e rompe a fita.

Aplausos, gritos, flashes e o coração aos pulos. Esta vitória foi o que sempre desejou. Mas está nervoso, não consegue saborear a conquista. No podium balbucia um obrigado e ensaia um sorriso que não sai. Evita quanto pode os cumprimentos e se manda com o prêmio, a medalha, e sabe-se lá mais o quê.

Nunca correu daquele jeito. Sente um calafrio ao imaginar que podia não estar sozinho naquela corrida. Mas isso é bobagem. Mera coincidência aquele número horroroso e a vitória inesperada. Não é homem de se assustar com coincidências. Ganhou porque treinou e mereceu. Alguém tinha que ganhar e ele ganhou. Simples assim. Respirou fundo e preparou-se para enfrentar o mundo, as contas, as amizades e até as invejas.

O primeiro que bateu na porta foi seu Manuel, de quem emprestara uns trocados para pagar a inscrição. Joca já se preparava para saldar a dívida quando:

- Não precisa me pagar não. Fica de presente pelo teu esforço e sucesso. Parabéns e continue assim.

Antes que pudesse protestar o outro foi embora. Nunca lhe tinham perdoado dívidas. O que era isto agora? Estremeceu. Mas o português voltou:

- Ó Joca, tu não estás querendo trabalhar. Tenho lá na mercearia uma vaga, passa lá pra gente conversar.

Epa! Agora também um emprego. Joca está assustado. Onde foi o seu azar? Em vinte e quatro horas ganhou corrida, dinheiro, perdão de dívida e emprego. Agora só falta Mariana.

E é ela quem bate na porta, cheia de dengo, parabéns e chamego. Os beijos espantam os maus pensamentos e Joca só desperta com o oficial de justiça. Tem de ir a Cuiabá. Sua tia morreu e ele precisa assumir terras, bois e cavalos. Mariana ainda comemora quando vê o desespero na cara do Joca.

Ele corre até a praça e joga no chão a medalha e o dinheiro do prêmio. “Vade retro”, grita para a assustada Mariana. “Vade retro”, e joga uma pedra no carro do oficial de justiça. “Vade retro”, esbraveja para o espantado Seu Manuel na porta do estabelecimento.

Depois esmurra a porta da igreja chorando por exorcismo. Não aguentou tanta coincidência.


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domingo, 16 de dezembro de 2012

CONFISSÕES DE UMA GEMINIANA >> Sílvia Tibo

 
Sempre duvidei um pouco daquelas previsões e definições astrológicas, que são publicadas em jornais e revistas para cada um dos signos do Zodíaco. E minha descrença aumentou depois de ter ouvido o amigo de um amigo dizer que, durante os meses em que foi o responsável pela edição desses textos num jornal de razoável circulação, era ele próprio, muitas vezes, quem tinha que “criar” o que ali se dizia, embora nada entendesse do assunto.

Mas devo admitir que, ao menos no meu caso, o horóscopo não mente. Confirmando todas as descrições da Astrologia, sou a típica (e assumida) geminiana. A inquietude em pessoa, pra resumir o assunto.

Desde que me entendo por gente, tento compreender, aceitar e administrar toda essa minha agitação. Essa mania de querer abraçar o mundo, como se ele fosse mesmo acabar em poucos dias, cumprindo uma dessas profecias apocalípticas.

Imagine, por exemplo, alguém que não consegue terminar um livro inteiro antes de dar início à leitura de outro. Ou, ainda, que não consegue assistir a um programa de televisão, por uma hora que seja, sem pesquisar, nos intervalos comerciais, alguma outra coisa qualquer na internet. E, pior, que se mudou de endereço sete vezes nos últimos doze anos, dentro da mesma cidade, apenas pelo prazer que a novidade lhe proporciona.

Há quem veja todo esse frenesi como algo positivo: sinal de eficiência, agilidade, produtividade e facilidade de adaptação! Tudo muito lindo, mas só na teoria. Como legítima representante da espécie geminiana, posso dizer, com convicção, que não é bem assim (com esse romantismo todo) que a coisa acontece.

Ao menos no meu caso, tanta agitação, na prática, tem resultado em muitas e muitas noites em claro e até em algumas doses de ansiolítico, em situações extremas. Sim, porque há dias (e noites) em que só eles conseguem apaziguar meus neurônios, que parecem estar sempre em festa, cantando, dançando, soltando fogos de artifício. Bem ali, dentro da minha caixa craniana.

Definitivamente, não há como pegar no sono com milhões de projetos fervilhando simultaneamente na cabeça. É muita informação (e barulho) para um cérebro só!

É claro que, no final das contas, só consigo colocar parte de todos esses planos em prática. Sobretudo porque, em geral, alguns são totalmente opostos a outros e, então, seria mesmo inviável realizar todos eles ao mesmo tempo.

Sabe aquela história do “casar ou comprar uma bicicleta”? É mais ou menos nesse ritmo aí que gira a cabeça de um geminiano. Com mais algumas dezenas de itens além desses dois, é claro. Algo do tipo: “casar, comprar uma bicicleta, fazer uma segunda faculdade, abrir uma microempresa, estudar para um novo concurso público, começar uma pós-graduação, construir uma casa...”. De preferência, tudo ao mesmo tempo. 

Comparando a mente de um geminiano a uma tela de computador, é como se nós, membros dessa atormentada espécie, vivêssemos com várias janelas abertas simultaneamente. E alternássemos entre elas o tempo todo, num “alt+tab” sem fim.

Por todos esses motivos, é impossível para um legítimo geminiano viver sem um caderninho de anotações diárias ou coisa que o valha. São tantos os problemas a serem resolvidos num mesmo (e curto) espaço de tempo, que não há como se lembrar de todos eles assim, de cabeça. A programação tem que ser registrada por escrito, senão já era. E os projetos também, sob pena de serem substituídos no dia seguinte, por outros totalmente diversos, e com a maior naturalidade do mundo. Afinal, novidades são essenciais para a sobrevivência de um nativo de Gêmeos e tédio é uma palavra que não faz parte de seu vocabulário.

Deixar para amanhã aquilo que poderia ter sido feito na semana passada? Hã? Como assim? Essa é uma possibilidade que não costuma fazer parte da rotina daqueles que nascem entre 21 de maio e 20 de junho.

O resultado? Insônia, alguns fios brancos que teimam em aparecer precocemente, certas crises de enxaqueca e um belo par de olheiras, que nem o melhor dos corretivos é capaz de disfarçar.

Fico imaginando quão tranquila deve ser a mente de um sagitariano, já que, de acordo com os astrólogos, Sagitário é o signo oposto ao de Gêmeos no Zodíaco. Será que é assim que a coisa funciona?

E pensar que bastava eu ter nascido uns seis meses antes. Ou uns seis meses depois...

Brincadeiras à parte, a verdade é que já sofri demais (e perdi boas noites de sono) com tanta aceleração. De uns tempos pra cá, tenho realmente me empenhado em fechar algumas janelas. Ou, ao menos, em abrir uma por vez.

“Viva um dia de cada vez!”, eis o dever de casa que me vem sendo passado, há anos, pelo psicólogo. Sei que estou longe de conseguir cumpri-lo com nota máxima. Afinal, não é simples mudar aquilo que somos. Mas, valendo-me de uma das principais características de Gêmeos (justamente o gosto por mudanças), estou me empenhando para cumprir com êxito a lição. Meus neurônios (agitados, alegres e saltitantes) não perdem por esperar: dias mais calmos virão.


Imagem: www.poemadoceu.com/tag/lua-em-gemeos/

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sábado, 15 de dezembro de 2012

DE SORRISOS E LUZES DE NATAL [Ana González]


Eu estava sentada esperando a vez para ser atendida numa loja dos correios. Antes de sentar, olhei à volta e cumprimentei as pessoas com quem pude trocar olhar.

Não percebi quando uma senhora sentou-se ao meu lado e se dirigiu a mim. “Será que eu poderia ser sua amiga?”; o inesperado da situação me surpreendeu. Pensei:  “Como?, é isso mesmo o que eu ouvi? Um pedido para ser minha amiga?” Essas e outras mil perguntas aconteceram nesse momento dentro de mim. O que dizer? O que fazer?

Era uma figura discreta em meio a um grupo ansioso e também discreto. Blusa e calça comprida pretas. O rosto limpo de pele tratada, o cabelo escuro puxado atrás da nuca. Na faixa dos cinqüenta - talvez sessenta? - tinha a expressão do rosto calma. A voz era clara.

Em seguida, ela continuou a conversa, tirando-me do primeiro susto. O objetivo foi diretamente colocado, explicando-me tranquilamente o motivo da abordagem. “Você me sorriu e eu estou muito só”, disse-me. Daí então falou mais. Mudança de cidade, de bairro, situações que todos temos na vida.

Mas e a coragem para ir a alguém desconhecido e fazer o pedido, de onde veio? Será assim grande o tamanho da solidão que justificasse esse movimento? Sim, porque elas são de vários tamanhos e tipos. Quantas histórias de solidão conhecemos? Pessoas que a vida abandonou e que não têm onde se apoiar? Estar só como num balão ao léu ou num barco à deriva. Em um deserto sem fim. Mas, há também a solidão que, em vez de doer, nos oferece a alma.  Aquela que é amiga. Na verdade, há muitos  tipos de solidão.

Talvez a solidão não tenha sido o motivo desse gesto. Ela mesma me disse a razão. Era o sorriso que naquele dia estava disponível para o exterior de mim. O poder de um sorriso, só isso. Nem parece tanto. Mas foi ele que de dentro de minha própria solidão clareou de algum modo os desvãos de uma pessoa que se sentia só. Eu estava aberta ao mundo com ele na face e um contato se fez. 
Este acontecimento fortuito me mostrou como se resolve uma carência que, às vezes, parece até um abismo.

No entanto, eu posso enumerar coisas – pequenas - que me fazem bem nos momentos de solidão. São detalhes que me fazem sentir acompanhada em um contentamento justo. São simples e acordam minha alma. Às vezes, são palavras em uma mensagem ou um telefonema, um recado deixado na secretária. Até as luzes de Natal podem ter essa função e me colocam um sorriso no rosto.

Embora haja quem as tome por artimanha do comércio, esqueço essa possibilidade. Procuro na memória a imagem daquelas luzes que desenham o elegante perfil das árvores à volta do lago do Parque Ibirapuera.  Elas me tiram da distração do cotidiano e fazem meu corpo vivo. Simplesmente eu, acompanhada de mim mesma, com um sorriso, em uma solidão feliz.

E, de repente um deles, um sorriso distraído, teve essa função de trazer alguém para um contato. Ele acordou uma pessoa, promessa de amizade. Naquele dia, lhe disse: "Sim, obrigada pelo convite. Eu gostaria muito de ser sua amiga."

Será bom se isso puder ser verdade. E agora mesmo, outro sorriso brota em minha face que de tão grande valeria até uma risada por imaginar que faço um contato com você, que me lê e que, com sorte, também tem um sorriso nos lábios ou ainda desenha em sua memória imagens de outras luzes de Natal.



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quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

A TORCIDA MAIS LINDA É FIEL>> Mariana Scherma


Vendo a festa dos corintianos no Japão, eu não me segurei e liguei para o meu pai só pra avisar que a maior herança que ele me deu foi o amor pelo Corinthians. Já peço desculpa aos outros torcedores e aproveito pra dizer que esse texto é puro amor pelo timão, quer dizer, pela torcida do timão. Sei que tem muita gente que torce o nariz para os corintianos e sei também que nenhum fanatismo faz bem. Mas não posso deixar de admirar um bando que vai junto acompanhar o embarque do time do coração, que faz churrasco no meio do caminho e vira amigo de infância de qualquer um que tenha a marca alvinegra no coração.

Nem me importo tanto se o Corinthians ganha ou não do Chelsea no domingo, mas isso eu digo por mim – sei que minha vida vai continuar igual. Agora, pela torcida, sei que vou roer a unha, sei que vou andar de um lado para o outro durante o jogo, sei que vou sofrer um pouco. Ou muito. Porque eu detesto assistir aos corintianos sofrendo. Independentemente da conta bancária, corintianos acabam sendo iguais no amor – e isso posso falar por mim: é um dos amores mais bonitos, mais fiéis, mais engraçados. Milhares de brasileiros foram ao Japão pra ver, pra dar força, pra fazer o papel de 12º jogador e, se não fosse o excesso de casacos por conta do frio, eu poderia jurar que o Japão era o Pacaembu mesmo. No Chelsea X Monterrey, os corintianos gritavam timão-ê-ô. É lindo.

No fundo, aposto que todos nós corintianos sabemos que a derrota nesse domingo pode acontecer. Tem 50% de chance, aliás. E se vier, quer apostar quanto que todo esse amor vai continuar intacto? Ou até maior... Ser corintiano é o único casamento eterno. Ninguém pede divórcio do Corinthians. No máximo, o Corinthians provoca divórcios.

Uma vez, um vascaíno sem graça me disse que o Corinthians nunca ganharia uma Libertadores. Era a sina do timão, segundo ele, ser zoado eternamente por não ter essa taça. Na hora fiquei quieta, hoje penso: rá pra esse vascaíno! A chateação que eu senti quando ouvi isso da boca dele foi por mim e por mais 30 milhões de loucos apaixonados. Felizmente o Corinthians me vingou, quer dizer, a felicidade de 30 milhões de pessoas foi a melhor vingança. É só que acho errado torcer contra tanta gente, tanta gente apaixonada. Não se ri nem se roga praga num amor tão grande.

E só um recado a esse vascaíno e a todos os outros anticorintianos: vocês podem duvidar da vitória e têm todo o direito de rir num caso (bate três vezes na madeira) de derrota. Só não duvidem de que isso possa tirar o orgulho de ser corintiano. Se a administração Dualib e a segunda divisão não tiraram, não vai ser uma mera derrota nesse domingo que diminuirá o amor. Talvez porque ser louco pelo Corinthians tenha a ver com genética, né, pai? Boa sorte pra gente! 


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quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

RELEVÂNCIA >> Carla Dias >>


A senhora passa declamando o acontecimento na cadência de dialeto de quem tem preguiça de pronunciar todas as letras, como se as engolisse ao dizê-las. Só que os palavrões são praticamente gritados. O pipoqueiro, que atende em frente ao cinema, sente-se traído pela novidade e praticamente engole um pacote de pipoca doce para tapar o buraco no estômago causado por ela. Não adiantou, ele se dá conta, enquanto planeja uma seção de exercícios para queimar as calorias extras.

O moleque, com boca cheia de biscoito esfarelado, eficazmente afanado da cozinha do amigo e quase sob o olhar de braveza da mãe dele, jura pelos santos que o pai idolatra que é isso mesmo. Engasga a secura do biscoito, a mãe do amigo o acode com uns tapinhas frouxos nas costas. O apresentador do programa de variedades desata o nó da gravata e se senta, desprovido dos modos dos apresentadores de televisão, em um degrau do cenário. Está extasiado e temente ao acontecimento, pensando que, talvez, seja hora de evoluir e abraçar o desejo de se tornar cineasta.

O financista se sente extremamente incomodado ao saber de tudo. Muitas são as perguntas que pipocam na sua cabeça, mas ainda assim a lógica prevalece, e ele começa a questionar os envolvidos sobre o impacto de tal coisa na coisa que é a vida de cada um. Qual será o parecer dos especialistas do mercado financeiro? Como reagirão os líderes religiosos? Será que sua esposa o deixará, finalmente, passar as férias sozinho? Qual a porcentagem de bondade e de maldade o ocorrido pode despertar?

Há muita gente apostando que tem a ver com o uso indevido de prazeres, como o de tornar coletivas informações sobre as próprias preferências de higiene ou do desejo incontrolável de comprar isqueiros, mesmo não sendo fumante. A mulher deixaria de falar em dialeto para solicitar sais de banho, porque gosta da ideia de como eles acalmam a pele, de acordo com o anúncio na revista sobre os próximos capítulos das novelas. O pipoqueiro voltaria a fumar escondido, só para poder usar um Zippo Lucky Ace novamente. O moleque engoliria a bolacha rapidinho ao se dar conta de que poderia ter roubado o xampu que anda faltando na sua casa. O apresentador de programa de tevê se deslumbraria, numa piscadinha, pelo isqueiro com a foto de Marilyn Monroe estampada nele. O financista calcularia o lucro sobre a venda dos produtos.

A moça - que ainda confabula com si mesma sobre ter colocado como senha do seu cartão de débito a data de nascimento daquele a quem ama em segredo - vê-se profundamente tocada pela revelação. Seus músculos se retesam, a pele se arrepia, as pernas bambeiam, os olhos marejam, e assim que ele se aproxima dela – ele, o moço que é o amor secreto da moça -, perguntando por que ela está tão pálida e chorosa, ela permanece alguns segundos em silêncio, encarando-o. Então, ele coloca a mão sobre o ombro dela, lançando-lhe a eletricidade da urgência e despertando na moça a coragem dos que não têm nada a perder.

A moça se joga nos braços do moço e lhe beija os olhos, como se lhe roubasse horizonte. A moça segura o rosto do moço entre as mãos e lhe diz a própria data de nascimento. O moço comenta que adora o mês em que ela nasceu. A moça beija os lábios do moço como se lhe furtasse a existência. Beijo digno de filme de cinema, que deixa zonzo o moço, sempre tão contido, e os transeuntes, abobalhados. Alguns também ficam invejosos. A moça conta tudo ao moço ao pé do ouvido, enquanto roça os dedos na nuca dele. O moço fica pasmo, pasmando muito enquanto a puxa pela cintura, querendo é mais proximidade, esquecendo disso e daquilo, criando novas lembranças.

Todos olham para a moça e para o moço como se eles fossem personagens de cena final de filme romântico. E enquanto eles se abraçam e se beijam sem previsão de fim, a mulher engole o dialeto e os palavrões, os olhos lacrimejantes ao se lembrar de quando era ela naquela cena. O pipoqueiro sorri largo e fecha seu carrinho, para ir cedo para casa e assistir Casablanca. O moleque promete a si que irá moderar na afanação de biscoitos da casa do amigo. Quer ser adulto decente para conquistar uma mulher bonita. O apresentador pensa em um enquadramento que possa beneficiar o roteiro que nasce, neste momento, inspirado pelo moço e a moça. E o financista decide voltar para a casa, mesmo que ainda seja cedo, só para namorar um pouco, antes de mergulhar novamente nos desafios da Bolsa de Valores.

Muitos acham que esse tempestuoso fato está ligado à falta de fé do ser humano. Que Deus está dando uma dura nas suas crianças, fazendo com que entendam que ele está cansado de levar a culpa pelo o que eles fazem. Já eu acho que tem a ver com atenção. A não darmos tanta atenção ao que realmente não importa.

A moça sorri para o moço que lhe sorri de volta.

Imagem: sxc.hu




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segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

AS IRMÃS ENIGMÁTICAS >> André Ferrer


Nos últimos dias, releio “A hora da estrela” e “A convidada do casamento” para tirar uma teima que, há pelo menos duas décadas, incomoda-me. Clarice Lispector (1920-1977) e Carson MacCulers (1917-1967) nunca me enganaram. Têm almas gêmeas. A forja que as moldou é a mesma.

Contemporâneas, fizeram a recriação literária do pós-guerra só que, ao contrário da maioria dos autores da época, de dentro para fora. Seus personagens representam a barbárie do século XX através da solidão e de uma autoconsciência devastadora. Macabéa e Frances, protagonistas das obras que releio, têm absoluta certeza da sua condição de excluídas.

Na década de 1990, quando descobri MacCullers, eu já conhecia Lispector. Assim, as primeiras páginas de “A balada do café triste” pareceram-me familiares. Uma sensação que, a partir do instante de reconhecimento daquela irmandade de espíritos, passei a recordar e realizar com o impacto de uma epifania.

Epifania é uma palavra difícil. Inadequada, nesta era esquematizadora, à leveza de uma crônica. Pois bem, para o benefício da clareza, ameacemos um pouco a brevidade do texto. Epifania é uma súbita sensação de realização ou compreensão da essência de algo.

Sendo assim, quando duas pessoas dividem a mesma epifania, ocorre uma aliança agradabilíssima que, irresponsavelmente, vou chamar de comunhão estética. Fenômeno cada vez mais raro.

A comunhão estética é uma reação em cadeia. Depende muito de uma fagulha inicial, a resposta do outro ao primeiro estímulo. Assim, de acordo com esse critério, a comunhão estética poderia ter cinco níveis de classificação (trata-se, naturalmente, de uma invenção subjetiva minha):

(4) o outro usa detalhes, elementos significativos e emotividade na exposição;

(3) o outro reage com alguns elementos significativos e alguma emoção;

(2) o outro usa elementos superficiais e alguma emoção;

(1) o outro reage com elementos óbvios;

(0) o outro não reage.

O que, afinal de contas, epifania e comunhão estética têm a ver com a minha releitura de Lispector e MacCullers?

Também nos anos de 1990, escrevi um texto a respeito da enigmática irmandade dessas duas escritoras. Eu esperava que o único leitor (sim, único, pois não mostrei para mais ninguém) daquele artigo atingisse, pelo menos, o terceiro nível da escala. Ficou no primeiro. Disse lugares comuns a respeito de “literatura feminina” e, ainda por cima, interpretou o meu texto como um libelo contra a brasileira que eu acusava de imitar a norte-americana. Um horror de distorção.

Esta semana, descobri um interessante paper na web. Além de comparar as duas autoras, o trabalho emprega “A convidada do casamento”, de MacCullers, para explicar semelhanças.

Epifania: Clarice Lispector traduziu para a Língua Portuguesa a versão dramática de "A convidada do casamento" (um romance de 1946, que a própria MacCullers adaptou para o teatro)!

Conforme eu desconfiava.


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