domingo, 30 de setembro de 2012

O DOM QUE NÃO EXISTE >> Whisner Fraga

É preciso que as pessoas se conscientizem que a escola não é o único ambiente de aprendizagem que existe, bem como os lugares consagrados à exposição da arte não detêm a exclusividade na produção ou divulgação da técnica. Exemplos não faltam de ideias bem sucedidas em ambos os campos. Então, como compreender que a escola insiste em manter seus alunos trancafiados, que os teatros ainda fecham suas portas para novas experiências, que os cinemas só inovam em efeitos especiais?

É necessário também que percebamos que ninguém é portador de todo conhecimento, de modo que não existe alguém imune a ele. Os professores devem notar que não entram em sala de aula para ensinar, mas para compartilhar experiências, para permutar informações. Assim, talvez um tenha maior afinidade com determinado conteúdo, outro goste de um assunto diferente, mas todos têm condições de se instruir, bastando que haja um espaço para o diálogo e a mediação.

Na arte ocorre fato semelhante. Não precisamos acreditar em dom ou em talento como fatores determinantes e exclusivos da criação artística. Qualquer pessoa é capaz de conceber um texto literário, um quadro, uma escultura, de interpretar, de cantar, bastando, para tanto, que treine, que aprenda os fundamentos de cada manifestação, que não descanse enquanto não obtiver algum resultado satisfatório.

Assim, para o aspirante se tornar escritor, basta que leia e escreva. Que leia muito e que escreva muito. Que quanto mais ler e quanto mais escrever, mais se aperfeiçoará na escrita. Não há segredo. E a inspiração? Não sei se existe semelhante problema. Para mim, a literatura é como outro trabalho qualquer. Cumpro meu horário, sento-me à frente do computador todos os dias, durante quatro horas e saio dali com algum texto. Não há nada de subjetivo nisso. Não há nada de superior ou de divino.

O mesmo ocorre com a docência. Pessoas nascem com um “dom” para ensinar? Depende do que se entenda por “dom”. Posso até concordar com o termo, desde que não esteja carregado de qualquer intenção sacralizante. Aliás, o fato de se compreender o magistério como doação, entrega, faz com que não seja necessário que a profissão tenha uma remuneração adequada. Portanto, é urgente que se acabe com esse conceito.

As pessoas devem assumir que podem ser capazes de qualquer ato, bastando esforço e persistência. Quando entenderem isso, deixarão de aceitar que existem homens superiores aos outros, que existem homens que são ungidos por algo sobrenatural e outros não, que é normal que uns se submetam a outros.

Partindo desse pressuposto, que todos são capazes de qualquer ato, a fábrica, o shopping, o boteco, a praça, o terreno baldio, a igreja, as casas, a Internet, passam a ser ambientes de criação e aprendizagem. É importante que deixemos nossos preconceitos para trás e evoluamos rumo a uma sociedade em que a diversidade seja respeitada e a violência banida.

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sábado, 29 de setembro de 2012

ARTE E CULTURA: REALIDADE DOS VALORES [Heloisa Reis]


Admito que não escapo à sensação de que estamos perdendo terreno em matéria de Cultura,  privilegiando apenas o consumo - mesmo que cultural –  m  frenética ânsia em busca de não se sabe bem o que para logo em seguida nos colocarmos em busca de outra coisa qualquer.

Mas a  Cultura – sim, com letra maiúscula –   densa, vem de gerações, carrega valor, é lenta... E compreende muitas de nossas atividades – todas, na verdade.

Mas será que estamos considerando a palavra  c u l t u r a devidamente?  Será que achamos que só consumimos cultura quando assistimos a um concerto ou a um filme importante, ou quando nos interessamos por um livro ou por uma exposição de arte? E nossos hábitos e tarefas diárias, fazem parte de nossa Cultura? Claro que sim.

Cultura é, na verdade, todas as atividades que desenvolvemos em nosso viver, em nosso espaço e em nosso tempo. É um tesouro que devemos  preservar, estimular e valorizar, cultivando-o.

Contudo, a cultura de um povo é ao mesmo tempo  dinâmica, influenciável, maleável, mutável, e interferências vindas dos contatos com outras culturas sempre podem ser bem vindas – lembremo-nos da nossa ancestral cultura greco-romana. Porém, a importância da preservação dos valores e tradições locais são inegáveis como bens ideais .
 
Com base em acontecimentos históricos já se sabe que se não se cuida, se perde. Assim, vemos como a cultura dos caiçaras, habitantes da orla do Brasil, vem se perdendo com a urbanização crescente e com o advento das comunicações instantâneas.  A pesca artesanal – culturalmente transmitida  de pai para filho  antes necessária como forma de conseguir alimentos,  está sendo substituída por outras atividades, agora relacionadas com a forma do desenvolvimento desses lugares .

Por outro lado, quem ainda não ouviu contar que em acontecimentos mais recentes, bairros e regiões urbanas desvalorizadas por sucateamento ou abandono, transformaram-se ao serem  ocupados por artistas? Conhecemos a história do SoHo  em NY, ou de Vila Madalena em São Paulo, que passaram para um estagio muito mais  valorizado quando artistas ocuparam  antigos imóveis e levaram à região um alento só possível em razão de que a valorização desses pontos vêm do  forte valor simbólico da arte – atividade capaz de promover a integração entre os habitantes de um lugar. 

Esse  aumento da auto estima local  forma laços entre os moradores, e consequentes  benefícios econômicos  muito além do consumo puro e simples.


imagem: Muro de pedras  em Freixinho, foto de Nancy Yasuda


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sexta-feira, 28 de setembro de 2012

MINHA TÃO GRANDE CULPA
>> Zoraya Cesar


Bom dia, Padre Tércio, sou um pecador, vim me confessar.

Meu Deus, eu me arrependo de todo coração por vos ter ofendido, porque sois tão bom e amável. Prometo, com a vossa graça, nunca mais pecar. Meu Jesus, misericórdia! 
(Pequeno Ato de Contrição)

Escolhi-o para ser meu novo confessor porque o senhor é um homem de estudos e também de ação. Sei que trabalhou nos seringais, defendeu índios e desvalidos, foi ameaçado de morte... O senhor sabe o que é a vida real, longe das novelas e dos filmes, a vida real está nas sombras que as pessoas comuns não veem. Eu conheço o senhor. Eu já salvei a sua vida.

E agora vou lhe contar a minha história.

Sempre fui um ativista, Padre, sempre participei de ações sociais e políticas em prol dos pobres, dos abandonados pelo poder público. Mas nunca me senti realmente satisfeito, achava que fazia pouco. Era católico praticante, observador dos preceitos, dizimista, mas hoje venho confessar que violo o primeiro dos mandamentos.

O senhor levou um susto, Padre, sei que não esperava algo tão grave.

Vou resumir a história, que essa vai ser uma longa confissão, e, creio, a primeira de muitas. Um dia, almoçando com uma amiga, começamos a conversar sobre o Bem e o Mal, sobre ajudar e proteger os bons e pacíficos, os mansos e os inocentes, e ela me convidou a conhecer conhecer uma empresa, uma ONG dedicada a isso. Ora, Padre, eu conheço várias ONGs, sou um ativista, conforme lhe falei, mas dessa eu nunca ouvira falar.

Enfim, fui conhecer a tal ONG, uma sociedade secreta mantida por um dos homens mais ricos do mundo, que a mídia e o mundo não conhecem, e do qual seus sócios e parceiros comerciais nem desconfiam. Essa sociedade treina homens e mulheres para investigar, perseguir e entregar à polícia pessoas que roubam, matam, traficam ou prejudicam a sociedade de alguma forma. Ninguém jamais desconfia da sua atividade, seus familiares e amigos pensam que você trabalha numa grande empresa comercial, por conta da qual você viaja muito. E você escolhe o ramo em que quer atuar. Tem gente que investiga tráfico de pessoas, outros investigam políticos ligados a redes de corrupção e há os que, como eu, escolhem como alvo caçadores, desmatadores, perseguidores de ativistas ambientais com pouca proteção.

O senhor sabe, até porque já foi pároco nos confins do Mato Grosso, já participou de um grupo de defesa ao pantanal, eu estudei sua vida, Padre, não o escolhi à toa. O senhor sabe que lá no mato a lei é outra, muitas vezes a polícia é conivente com as caçadas, o desflorestamento, a expulsão de populações pobres para que os poderosos ocupem o terreno. Nesses casos, Padre, a gente não prende nem entrega à polícia.

Então é isso, Padre, eu mato gente. São caçadores de animais pelo simples prazer da caçada, pela maldade. É gente que tocaia e mata outros seres humanos por encomenda. Já vi uma dupla dessas matar toda uma ninhada de onça, Padre, só por matar. O senhor precisava ver a onça lambendo os filhotes mortos, e a dor dos biólogos que a monitoravam. E eu não pude fazer nada, não tive como impedir. E, naquele grotão de fim de mundo, mesmo que os levasse à polícia, quem acabaria morto de emboscada era eu. Levei o caso aos meus superiores. E fui orientado a fazer o que fosse necessário.

Da segunda vez em que passei por uma situação semelhante, não hesitei. Mirei e atirei nos quatro assassinos contratados para matar um ambientalista. Era o senhor, Padre. Não hesitei, não pestanejei. Depois, tremi e chorei a noite inteira. Aqueles eram também meus irmãos em Cristo, e a Lei diz “não matarás”.

Por isso vim aqui, Padre. Porque minha atividade é perigosa e eu posso morrer a qualquer momento, e não quero morrer em pecado, sem me confessar. Por isso voltarei aqui a cada término de missão. Porque, Padre, estou me consumindo em culpa, mas vou continuar trabalhando e fazendo o que eu achar necessário, e sei que isso contraria as leis que o Mestre nos ensinou.

Padre, confesso minha culpa, minha tão grande culpa, pequei contra Deus e contra meus irmãos. Mas vou continuar a fazer o meu trabalho, a cumprir a minha missão até que a culpa ou a Luz Divina me tragam de volta para a Igreja. Não sei se sou melhor do que aqueles que mando para outra vida. Misericórdia.



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quinta-feira, 27 de setembro de 2012

TAN TAN TAN TAN >> Fernanda Pinho




Sempre me emocionei com a Marcha Nupcial. Aquele “tan, tan, tan, tan” inicial me arrepia da cabeça ao dedão do pé em qualquer circunstância. Até em casamento de novela. Não por um acaso, uma das primeiras decisões que eu tomei assim que fiquei noiva foi a de que eu não abriria mão da execução da Marcha Nupcial no meu casamento. Ok. Quem eu estou querendo enganar? Sejamos francos, já que estamos entre amigos. Eu tomei essa decisão muito antes de conhecer aquele que seria meu noivo e marido. Isso foi há tempos, quando eu tinha, sei lá, cinco ou seis anos de idade.

Desde então, minha imaginação, romântica como poucas, trabalhou em um milhão de cenas minhas entrando numa igreja. Nos meus delírios, tinha me pai me levando ao altar, um buquê amarelo, minha mãe, minha irmã, meus amigos me olhando caminhar sobre o tapete vermelho. E, claro, tinha a Marcha Nupcial. A única coisa que não constava era o noivo, que sempre aparecia no meu sonho como um espectro. Até eu conhecer a única pessoa que, de verdade, despertou um mim o desejo de transformar o sonho em realidade.

E, vocês sabem, realizar sonhos emociona, a Marcha Nupcial emociona, o amor emociona e, por tudo isso, meses antes do casamento, comecei a desenvolver estratégias para não entrar na igreja vertendo litros de lágrimas e perdendo toda a minha superfaturada maquiagem de noiva.  Foi então que eu criei a modalidade de choro pré-pago. Todo dia eu me imaginava entrando na igreja e chorava, como chorava. Mas essa era a ideia. Chorar tudo o que eu tinha direito previamente, para não ter tanta vontade na hora exata. Também decidi eleger um ponto fixo e olhar só para ele.  Estava claro para mim que eu não poderia olhar para ninguém, porque as pessoas choram em casamentos e vê alguém chorando para mim é convite a fazer o mesmo.

Só faltava decidir o que fazer com meus pensamentos. Aliás, o que pensam as noivas a caminho do altar? O que eu pensaria naquele momento? Pensaria nos outros casamentos em que estive presente e me emocionei acreditando que, apesar dos meus sonhos, aquilo nunca me aconteceria? Pensaria naqueles caras babacas pelos quais desenvolvi alguma paixonite e quase me fizeram desacreditar no amor? Pensaria nas pessoas que estavam ali presentes e nos momentos deliciosos e desastrosos que elas haviam dividido comigo? Pensaria na minha história com aquele homem que me esperava no altar? Ou deixaria os sentimentos de lado e simplesmente me preocuparia em caminhar com elegância e tentar captar se as pessoas estavam ou não gostando do meu vestido?

Isso não havia como prever ou programar. Só havia um jeito: respirar fundo e ir. Foi o que eu fiz, ao descer do carro e ir ao encontro do meu pai que me esperava na escada da igreja. Nessa hora, quase duvidei da eficiência do choro pré-pago. Ao me ver, os olhos do meu pai encheram de lágrimas e seu queixo começou tremelicar. Apesar do nó que se formou na garganta, consegui dizer: “não chora, pai”. Foi a última coisa que eu disse antes de caminhar sobre o tapete vermelho, com meu pai de um lado, o buquê amarelo de outro, minha mãe, minha irmã, meus familiares e amigos me observando.  Tudo como eu sonhei, conforme pude ver nas fotos depois. Porque na hora, eu não vi nada nem ninguém. Só ele. Ao contrário do sonho, na realidade ele foi a única imagem que eu consegui visualizar. Também não ouvi nada, além do “tan, tan, tan, tan”, o tiro de largada que acelerou meu coração. Sobre os pensamentos, não tive nenhum daqueles que imaginei. Nem nenhum outro. Não vi, não ouvi, não pensei. Não sei nem se caminhei. Acho que flutuei e senti, pela primeira vez na vida, uma sensação de plenitude.   


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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

É MAIS ALÉM >> Carla Dias >>

A lua metafísica na poça de lama,
Ponteiros que disparam
Ao contrário das horas
Hora de saber o que mudou em você,
Que olha no espelho e não vê ninguém
É mais, é mais, é mais, é mais além
"Mais Além", de Lenine, Lula Queiroga, Bráulio Tavares e  Ivan Santos

Eu não sei contar horas, sou dissoluta e redundante quando se trata de contabilizar minutos. Esmaeço, a palidez enobrece o impossível ato de memorar segundos. Eu não sei fazer hora, porque me atropelam tantos pensamentos que nem sei quantos, e acabo correndo porque necessito de vento na cara, de mudança de cenários.

Certa vez me chamaram desagrado, porque teimava em não concordar com o definido, que era mesmo um pensamento padronizado dando cabo do destino de algo maior, muito mais humano, aquém das horas, dos minutos, dos segundos. Algo que não cabia em respostas preparadas, em decisões ancestrais, na geometria das certezas. Percebi, então, que desagrada a muitos o fato de ser preciso pensar o ser humano também como indivíduo, indo além das estatísticas e dos manuais.

Ir além pede dedicação e parcimônia, mas vale a pena. Quem vai além descobre o que realmente importa. Eu sei que o planeta é enorme, assim como os problemas que se abatem sobre ele, que não há como sermos próximos de todos os seres que nele habitam. Só que existe a empatia, ela nos ajuda nisso, colabora para nos conectarmos com pessoas do outro lado do mundo, com aqueles que jamais encontraríamos, dos quais jamais saberíamos se não fosse pelo despertar desse sentimento. A empatia alimenta as conexões necessárias para melhorar a vida de muitos. Há aqueles que se enveredam em nossas vidas simplesmente porque pensaram em nós como pessoas, como indivíduos, não como nomes em listas de espera, números de identificação, protocolos.

Às vezes, é preciso deixar de lado os relógios, os indicadores de que não há tempo para se pensar no outro com a atenção que ele merece. Na verdade, é preciso tratar-se com o mesmo esmero, reconhecer a importância que há nesse gesto, para então tratar o outro da mesma forma.

Em horas, minutos, em segundos a vida da gente pode mudar drasticamente. Tudo pode ser tirado do lugar e nos fazer sentir sem chão. Muito pode ser modificado de forma a tornar a vida mais interessante. E mesmo para os que têm pressa, que não sabem contar tempo, que vivem à mercê dos muitos pensamentos pipocando ao mesmo tempo, uma coisa é certa: às vezes é preciso parar, respirar e começar de novo.



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segunda-feira, 24 de setembro de 2012

NÃO >> Albir José Inácio da Silva



As goteiras deixaram no chão do barraco uma lama em que afundavam os pés. Duas velhas portas de armário formavam ilhas no barro, e era aí que elas estavam sentadas. Conceição contava o assédio de uma colega pelo chefe.


- Mãe, ele é capaz de cumprir. Não tem nada a perder. E ela precisa trabalhar.


Não tinha mesmo nada a perder. Era o encarregado, e ameaçava com demissão por justa causa quem ousasse “dizer calúnia”, que significava contar qualquer coisa que ele fizesse. E em voz baixa ameaçava também as que não fossem boazinhas.


Conceição chegou há um mês na fábrica, ele ainda não tinha proposto nada, mas seu olhar a intimidou desde o primeiro dia. Sabia, pela conversa com as outras, que sua vez chegaria. No trabalho ela se destacava, aprendeu todas as funções, terminava rápido e ajudava as colegas. Era seu primeiro emprego. Antes ajudava a mãe com a roupa e com a faxina na casa dos outros. A mãe doente não podia mais, e esse trabalho parecia a salvação. Talvez por causa do seu desempenho, ele demorou a incomodá-la. Agora era isso, curto e grosso, dá ou desce. E descer era ficar sem emprego.


Mas pra mãe ela contou diferente. A saúde frágil não podia sofrer abalos. Disse que era uma colega. Precisava desabafar e as palavras da mãe eram a única coisa que a consolava nesses momentos. A mãe desconfiou, mas não perguntou nada. Só disse que nenhuma mulher devia ser obrigada a fazer essa escolha, e contou a história de uma avó, Filisbina. História que vinha sendo repetida, não sabia há quantas gerações.


Filisbina nasceu no porão do navio que trouxe quase toda a tribo, no momento mesmo em que ele aportava no Rio de Janeiro. Sua mãe teve sorte e, apesar da barriga, chegou viva com seu moleque de oito anos. Metade dos cativos foram para o fundo do Atlântico por causa da peste, da falta de água e comida. Filisbina desceu para o cais no colo da mãe, que ainda sangrava e arrastava o outro filho.


Quando chegaram à fazenda em Vassouras, Sinhá teve pena e botou a mãe na cozinha, onde podia trabalhar e cuidar do bebê. O outro filho foi pra senzala, mas estava sempre por ali, fazendo mandados e, de alguma maneira, protegido. Filisbina cresceu no quintal da Casa Grande sob o olhar carinhoso da mãe.


Mas outros olhos acompanhavam Filisbina, que ainda era uma menina mas já tinha jeito de mocinha. A Bíblia diz que o diabo pode assumir qualquer forma. E os escravos diziam que ele, às vezes, era um moço bonito. Sinhozinho voltou da Corte, onde tinha ido estudar e não estudou, gastou dinheiro e se meteu em confusões. Quando ele viu a menina crescida, achou que era hora de dar o bote.


(continua em l5 dias)


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domingo, 23 de setembro de 2012

PROCURA-SE UM CRONISTA
>> Eduardo Loureiro Jr.

Procura-se um cronista que escreva aos domingos e que seja acordado assim pela Palavra: "Quer fazer sexo comigo?"

Procura-se um cronista que mergulhe fundo no mar para saciar a sede dos sonhos que teve ao madrugar.

Procura-se um cronista que escute intensamente em seu ouvido a música cujo ritmo seus dedos irão seguindo — "lá vem a santa maldita euforia, que me alucina, me joga e me rodopia".

Procura-se um cronista corajosamente indignado com tudo que não presta e, ao mesmo, ingenuamente esperançoso de que tudo — do bom e do melhor — está à espreita.

Procura-se um cronista que esteja descansado para falar palavras sobre as coisas sem jeito que traz em seu peito — e que eu achava tão bom.

Procura-se um cronista que faça, para si mesmo e para seus leitores, um macarrão de letrinhas simples e bem intencionado, tão saboroso de comer quanto fácil de lavar os pratos.

Procura-se um cronista que — mesmo que não tenha sono — se deite após o almoço, e que sinta a paz profunda de ser quem é sem remorsos.

Procura-se um cronista contente que possa ligar pra família e pros amigos queridos, falando o que lhe vier à cabeça, em diálogos descontraídos.

Procura-se um cronista que torça por um time que — perca ou ganhe — joga bonito; um cronista que tenha a sorte de assistir a um 4 x 3 no meio da tarde de um domingo.

Procura-se um cronista que vá na direção do crepúsculo, correndo e pedindo ao sol que se ponha — porque é bonito —, mas que não se vá de todo — porque ficaria desolado e aflito.

Procura-se um cronista que soe seu violão e sue seu corpo, fazendo samba e amor até mais tarde; que abrace como quem arranja música, que beije como quem faz arte.

Procura-se um cronista que leia num livro, antes de dormir, uma história tão encantadora quantos as que sua avó o fazia ouvir.

Procura-se um cronista assim e assim — sem tirano nem pó — para substituir este envelhecido cronista que passou, passou, passou...

Não é preciso currículo ou carta de recomendação. Basta apontar para alguns textos que saltaram na rede feito peixes inocentes. E em que se possa ler, nas entre-escamas, todo o oceano percorrido. Os candidatos — aqueles que, ao lerem isto, se sentiram cronistas procurados — enviem mensagens engarrafadas para a Redação. Processo seletivo simplificado: NÃO ou SIM. Imediata admissão.

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sexta-feira, 21 de setembro de 2012

o nascimento alheio o nascimento de si o nascimento de si no alheio e do alheio em si >> leonardo marona

Aconteceu uma coisa e não consigo me desvencilhar de pensar nela o tempo todo, desde que aconteceu. Algo foi gerado dentro de um corpo enquanto eu também estava dentro desse corpo gerando a mim mesmo, “ganhando vida”, como se diz nos bosques queimados. Portanto, algo foi gerado dentro de um corpo enquanto eu mesmo me gerava dentro dele. Ciúmes do algo gerado, porque esse algo gerado foi gerado dentro, por forças de fora; seu estado é, portanto, de dádiva pura, aparição, profecia, milagre da existência divina. Já no meu caso, fui gerado a mim mesmo dentro do mesmo corpo, mas esse corpo não me gerou, não se trata, portanto, de aparição; a situação é  mais sofrível, pois parte da falta de escolhas, mas da impossibilidade de não escolher. Fui eu que me gerei nesse corpo e, apesar de responder por isso em pessoa, porque eu fui até esse corpo pessoalmente, ou seja, uma pessoa fez isso por mim, no meu lugar, como que substituindo o eumesmo mais crítico e inatingível, que, este sim, através de um movimento pessoal, cometido por alguém que não sou eu mesmo no meu lugar, mas sou eu porque quero sempre pensar que eu seja eu, o eumesmo mais crítico e inatingível permitiu-se rasgar mais uma vez pelo comportamento de um corpo que não o pertence, mas que ele habita, e habitando nesse não pertencido o eumesmo só pode se gerar no outro corpo, o que o coloca bem mais numa situação de pedinte, como quem grita “ei, deem-me um lugar para que eu possa me gerar!”. E isso tudo me difere daquele ainda outro corpo, este sim, terceiro, gerado exteriormente, num movimento de fora para dentro, que resulta em vida plena, chance, estrada. Minha falta de convicções me atribui espaços alheios como próprios, e só posso gerar a mim mesmo muito ocasionalmente, quando uso um corpo alheio para me fazer sentir gerado, mesmo estando na posição de gerador, o que causa muita confusão e disritmia. Mas dessa vez estive gerado, dividindo o espaço com outro corpo não ativo que manifesta um poder geograficamente mais forte do que eu neste corpo em que me gero. Algum dia gerarei algo além de mim mesmo, nalgum corpo, que nunca tenha sido eu? Algum dia poderei ver um pedaço de mim funcionando com maior prestígio num campo alentado para sua chegada e providência? Sou irmão do corpo gerado externamente e com o qual divido espaço no mesmo corpo em que me gero. Fomo-nos gerados, isso basta. Tenho um irmão que posso ver, que não sou eu, de uma diferente constituição, mas ocupamos a mesma caverna e, apesar das diferentes formatações, somos vias anacrônicas de uma mesma tragédia, formada do espaço que fica entre o que é gerado e o que se gera em si mesmo através disso. Mas uma coisa é certa e, talvez por isso, fique na cabeça: fui-me gerado ao saber que, no deserto da minha geração, havia outro gerado, senão dentro de mim, ao menos ao lado, usado da mesma substância aleatória, a que podemos aos prantos – porque no fundo não sabemos – chamar de amor ou vibração de mistérios.


www.omarona.blogspot.com


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quinta-feira, 20 de setembro de 2012

MIMIMI NÃO É PROBLEMA >> Mariana Scherma


Eu ando meio invocada com a expressão que virou praga moda nas redes sociais e, consequentemente, na vida real: o mimimi. Primeiro, quase gostei, achei simpática. Depois, cansei, peguei birra. Por um motivo justo, vai: (quase) todo mundo postava reclamações nas redes sociais e, por fim, acrescentava #momentomimimi, como se ficasse engraçado ou justificasse encher a timeline alheia de chateação.

Isso mesmo, chateação. A verdade é que existe uma multidão de personalidades dentro de nós mesmos: tem a versão chorona, que assiste secretamente a comédias românticas bestinhas. A versão revoltada com os abusos da política e com a palhaçada (sem graça, claro) que virou o horário político. A hipocondríaca que, ao ficar com a boca seca, não acredita que a causa é o tempo seco, mas sim uma provável diabetes. Uma superlotação em nós mesmos. E o grande desafio de ser uma pessoa agradável é juntar todas essas facetas, fazer uma média e liberar ao mundo a parte boa de tudo isso. Mais ou menos como ser o maestro de todas as vozes dentro de si: cabe a você se vai fazer uma sinfonia suave ou uma barulheira enjoativa. Sério, eu não acho que o universo e todos os seus habitantes precisam saber que alguém ficou 1h30 minutos na fila do Poupatempo pra resolver um problema. A vida é cheia de dias ruins e bons, paciência se você está num dia terrível. Amanhã as coisas invertem, ué. Ou depois de amanhã, vai saber.

O que mais me chateia é que mimimi não é problema. Ok pedir ajuda a um amigo por conta de um problema, ok soltar seu problema nas redes sociais e ver quem pode ajudar. Problemas têm solução e são resolvidos graças a cabeças que pensam juntas. Mimimi, não. Mimimi é só sua lamentação, é egoísmo. Dias ruins são o obstáculo da nossa corrida diária, é melhor pular e deixá-los pra trás. Mas tem gente que faz dele um drama, funciona assim: você, que está no pior dia da semana e aí se sente no direito de cobrar pedágio dos outros que seguem vivendo felizes. Reclamações não aliviam seu estresse. Reclamação é diferente de desabafo. Quando você desabafa, fica mais leve. Agora, quando você reclama, quer continuar reclamando, é uma bola de neve que não derrete nunca.

Eu andei cheia de mimimi numa época estressada. Mas quanto mais eu reclamava, mais eu queria reclamar. Pessoas com mimimi são repetitivas, cansam a amizade. Ter uma fase é aceitável, vai... (mesmo porque eu acabei de ter, hehe). Agora, ser sempre assim... Opa! Aí não. Isso faz todo mundo tomar uma certa distância de você. Eu não sou perfeita, mas toda vez que uma reclamação chega na ponta da língua, penso duas vezes se libero a dita-cuja ou se guardo pra mim. Tenho medo da fama de reclamona, é o tipo de fama que segue sempre ao seu lado (conheço ex-galinha, ex-fumante, mas não conheço nenhum ex-reclamão...). Às vezes, o mimimi sai sem você perceber, mas na maioria das vezes você consegue guardá-lo pra si só. Minha dica aos cheios de mimimi é não colocá-los pra fora toda hora. Engula suas reclamações, no fim do dia você pode nem se lembrar mais dela. Agora, se a reclamação ficar martelando na cabeça, coloque-a num papel (ou num arquivo de texto no seu computador) e guarde. Releia mais pra frente e você vai ver que nem faz mais sentido.

Você pode dizer que “vai continuar reclamando porque os amigos verdadeiros o aceitam do jeito que é”... Bom, é uma forma de pensar. Pra mim, amigo de verdade não enche o outro com suas besteiras. E besteira é diferente de problema. Eu acredito que se você der seu melhor ao mundo, recebe o melhor de volta. E não é porque mimimi é uma expressão da moda que reclamar esteja em alta nesta estação. Nem na próxima, eu espero.

P.S.: vai ver eu ando cheia de mimimi sobre o mimimi!







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quarta-feira, 19 de setembro de 2012

EU NÃO SOU UM CURRÍCULO >> Carla Dias >>

De alguns anos pra cá, tornou-se complicado se apresentar ao outro. Na minha cabeça moram lembranças de quando minha mãe me apresentava para as pessoas: essa é a Carla, minha filha. A partir daí, era dever do novo conhecido descobrir a pessoa que eu era e vice-versa. Levávamos certo tempo para descobrir o outro e isso era positivo.

Quando comecei a trabalhar, percebi que não bastava ser a pessoa que era. Profissionalmente, o currículo adianta o expediente, aponta o necessário, resume nossas habilidades.

Na minha compreensão, o trabalho exigia currículo e a vida pessoal exigia tempo e boa vontade para se permitir conhecer e conhecer ao outro. Era algo simples, que funcionava muito bem, que fazia sentido. Mas isso mudou.

O primeiro sinal de que seria necessário mais que um “muito prazer” para começar um relacionamento com outra pessoa, foi quando um amigo me apresentou a um amigo dele assim: “essa é a Carla, ela é baterista, toca em uma banda de Blues, junto com três caras, mora em São Paulo, é poeta, trabalha em uma escola de bateria e está escrevendo um romance.”. Tudo se complicou a partir daí.

Por mais que eu entenda que a maioria das pessoas espera por esse tipo de apresentação, esse imediatismo em saber sobre o outro, sinto-me extremamente desconfortável quando isso acontece no terreno pessoal. Profissionalmente, eu entendo. Pessoalmente, prefiro fazer perguntas a outra pessoa, a pensar nesse primeiro momento como uma reunião de aprovação de relacionamento.

É diferente quando nos apresentam a alguém e destacam algo em comum, como “Essa é a fulana e ela também gosta de cinema”, caso seja apresentada a algum cinéfilo ou alguém que escreva sobre filmes, por exemplo. A grande questão é que destacarem uma habilidade ou um gosto em uma apresentação, é uma coisa, dizer o seu currículo de cor, antes que você consiga dizer “tudo bem?”, é outra.

Além de tudo, é preciso lidar com os revezes do currículo que não bate com a fantasia criada pelo outro. Quando o currículo é apresentado sem a sua presença, como uma premissa do que será essa apresentação, as coisas podem ficar bem complicadas. Perdi as contas de quantas pessoas, que se relacionaram primeiramente com o meu currículo, passaram os dez minutos que dedicaram a minha pessoa, na apresentação presencial, questionando: “você toca mesmo bateria? Olha... Escreve poesia? Que coisa, né? Seu cabelo é enroladinho... Olha... Pensei que fosse ruim, mas até que é macio.”. Os outros cinco minutos eram de desculpas para ir embora. E sim, não sei por que, mas as pessoas adoram pegar no meu cabelo pra conferir se ele é ruim e se admirar por ele ser macio.

Resumindo: nem sempre o seu currículo descreve a pessoa que as outras pessoas esperam que você seja.

Eu realmente aprecio conhecer as pessoas com tempo. Sei que, mesmo em um mundo no qual a internet colabora em deixar claro o que fazemos da vida, nosso currículo não precisa ser a parte principal da nossa apresentação. Ainda há espaço para o café, para aquele show, para o jantar na casa dos amigos, para o bom e velho “e o que você faz da vida?”.

O currículo é somente um resumo de quem estamos nos tornando, por isso o atualizamos. A vida que vivemos é que carrega o potencial que temos de sermos pessoas queridas por outras, apesar do nosso currículo.

Eu não sou um currículo. Você também não é um currículo para mim.

Muito prazer!



Imagem: sxc.hu

carladias.com

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terça-feira, 18 de setembro de 2012

UM ÓTIMO LIVRO! >> Clara Braga

Dizem que um gesto diz mais que mil palavras. Tudo bem, concordo que um gesto diz muito, mas vai dizer que se esse gesto vier seguido de um cartão com lindas palavras de carinho, o ato como um todo não vai ficar mais bonito?

Não entendo esse medo que as pessoas têm da palavra. É bem verdade que nos últimos tempos tem ficado difícil acreditar só nas palavras, as pessoas tem falado muito e feito pouco, mas também não precisa exagerar né, as palavras não tem culpa de nada, a culpa é de quem não sabe usá-las direito.

Não me dou muito bem com as palavras faladas quando elas precisam ser ditas em público, mas contar histórias, para mim, é uma arte, e escrever é uma satisfação! Descobri que sou uma apaixonada por palavras e que isso não é ruim, por mais que eu seja criticada por pessoas que acham que palavras não significam nada, essas pessoas é que não sabem o que estão perdendo!

Descobri essa classificação, apaixonada por palavras, no livro homônimo de Paulo Pimenta, que escrevia aqui no Crônica do Dia e com quem eu tive a honra de estar no dia do lançamento do Acaba não, mundo aqui em Brasília.

Em seu livro, Paula diz que é indescritível a sensação de ler um texto e se identificar totalmente com as palavras do escritor. Ao ler seu livro, tive essa mesma sensação que já havia tido com outros escritores, a sensação de não querer mais parar de ler. Agora, fico esperando ela contar como é ser a escritora com quem as pessoas se identificam totalmente, com certeza é mais uma dessas sensações indescritíveis! Mas de fato, é inevitável não se identificar com suas histórias!

Assim como ela, também aprendi a amar crônicas lendo Martha Medeiros, mas graças ao Crônica do Dia eu estou tendo a oportunidade de me deliciar com um belíssimo livro de crônicas que, se não fosse esse espaço, talvez eu não tivesse conhecimento. Parabéns Paula, com certeza você ganhou mais uma leitora! E para quem ainda não leu e está a procura de um bom livro, Apaixonada por palavras está mais do que recomendado!


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segunda-feira, 17 de setembro de 2012

ACONTECE >> André Ferrer

Há tempos, um fragmento de texto ocorreu-me. Chamei-o, logo, de O baile fantasma. Procurei um vídeo de uma canção antiga no YouTube (Guitar Man do Bread foi a escolhida). Insatisfeito, não só publiquei no Facebook como também no Google Plus.
Neste sábado, a estranha sensação que me fez escrever, ilustrar e publicar O baile fantasma de uma forma tão impulsiva reapareceu. Ela sempre volta. Acontece, a miúde, em diversos locais e ocasiões.
Dessa vez eram as notícias da crise portuguesa e, num dos artigos que eu lia, encontrei uma foto clássica dos anos de 1970, emblema da Revolução finalizadora do salazarismo. A garotinha diante de um fuzil. Os braços erguidos. Um cravo que acabava de entrar no cano da arma pelas mãos da pequena.
Ocorreu-me, assim, a certeza de que da imagem da flor, há muito batida, já era difícil extrair poesia no século passado. Nos dias que avançam, pior ainda! Um poeta não deve buscar a sua arte nas coisas triviais, ainda que belas, e sim no deslocamento dessas coisas. Não existe mais arte na flor do que no estranhamento da flor.
A nostalgia de um fato não presenciado, mas que marcou a minha juventude reacendeu naquele instante. Procurei O Baile fantasma e, em cerca de três horas, desenvolvi-o. Sem, no entanto, chegar àquilo que acreditava ser a expressão verdadeira do sentimento.
Na ocasião anterior, bem que eu tentara definir. Chamei de saudade. Não era. E também de nostalgia. Não era. Então, a palavra sehnsucht apareceu numa postagem no Facebook e, instintivamente, percebi que havia encontrado o cano de fuzil perfeito aonde depositar o meu cravo.
Na Língua Alemã, trata-se da palavra que mais se aproxima da nossa saudade. Sehnsucht, entretanto, expressa um tipo inespecífico de saudade, ou melhor, um tipo de saudade cujo objeto é inespecífico. Por exemplo: ele pode ser uma época ou evento não presenciado. Ele pode ser alguém que sequer conhecemos. Ele pode servir, diante do enfraquecimento das flores, como arremate de um conto inacabado.


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domingo, 16 de setembro de 2012

EDUCAÇÃO MINEIRA >> Whisner Fraga


Eu era nerd, todo mundo sabia, e meus pais desconfiavam. Pais têm a tendência de achar que filho é a última bolacha do pacote, né? Os meus eram muito rígidos e davam mostras de não valorizar muito o que fazíamos. Acho que só fui ouvir um elogio deles quando passei dos vinte e um e foi algo do tipo: “é, não tá de todo ruim não.” Caramba, uma vez fui chamado à sala, aquele clima de puxão de orelha e tive de escutar: “é, meu filho, e esse nove aqui, o que aconteceu?” Entenderam? Não aceitavam que eu tirasse menos de nove e meio.

Aí eu ponderava que podia haver algo errado. Acho que as famílias ituiutabanas são um pouco incoerentes. Ou será um privilégio dos mineiros? Eu rebatia: “uai, mas o meu irmão só tira vermelho e ninguém cobra um nove e meio dele!” Cada um dentro das suas capacidades, argumentavam. Ou seja: se eu começasse a vida estudantil só no quatro, quatro e meio, ninguém ia discutir. A partir dessa época, comecei a achar que a história de gostarem do mesmo tanto de todos os herdeiros era balela.

De modo que não recomendo a educação mineira como referência para a formação de uma auto-estima adequada, de bom-tom. Feito esse preâmbulo, posso começar o assunto da crônica. Eu era nerd. Imaginem o Leonard, do seriado “The big bang theory”. Nunca viram, né? Recomendo. Eu era mais ou menos aquilo, tirando a inteligência, lógico, que a minha sempre foi mais fruto do esforço do que um presente da genética. O que não quer dizer que não me interessava pelas garotas, evidentemente. A diferença é que elas eram, naquela época, algo como a mecânica quântica, ou seja, inatingíveis.

Então começaram um boato: tinham escutado meu nome na FM. Alguém me dedicava uma música. Isso afirmavam amigos, fofoqueiros e irmãos. Lógico que era armação, evidente que haviam combinado tudo entre si. Não me abalei e decidi ver o resultado daquilo. Tá, tá, tá, não ouviram Wisley em vez de Whisner? Pô, eu nem gosto de Air Suply e assim por diante. Olha só, convenhamos: as mineiras não agem assim, não são de se atirar e de oferecer o que quer que seja em público. Não sei se hoje tudo mudou, mas naquela época elas eram, de modo geral, dissimuladas.

De qualquer maneira, fiquei também com uma pulga me enchendo o saco: e se fosse verdade? Não era, claro, mas e se fosse? Um nerd só passa a ter sentido para as mulheres quando elas passam dos trinta e começam a encarar a formação de uma família e a subsistência confortável da vastíssima prole como prioridades. Antes disso, importam os bíceps bem trabalhados e os rostinhos bonitos. Não sei se hoje eu enxergo pelo lado bom, ainda não examinei o assunto minuciosamente, mas foi minha mãe que pôs um ponto final em qualquer possibilidade de recado em uma rádio, com o coerente e irrebatível esclarecimento: “claro que é mentira, menino, onde já se viu alguém se interessar por você?”


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sábado, 15 de setembro de 2012

O LEILÃO [Ana González]

Será uma espécie de leilão. A casa vai ser desfeita. Quem vai ficar com o quê? E as pessoas que vão comprar o que sobrar, quem são?

Despeço-me dos objetos. Não, não sou apegada tanto como pode parecer e eu nem morei lá. É que tudo tem uma história. A cristaleira cheia de copos e a sopeira na mesa da sala de jantar. Aquela estante de livros com portas de vidro do escritório.

Dói. Se eu tirar fotos dos cantos consigo segurar o que há por lá? Pensando bem, isso nem seria justo comigo. Para quê, depois de tantas crises? Mas que família é diferente disso? Vejo famílias como caldeirões do inferno. Essa imagem é forte e um tanto caricata, mas não longe da verdade. Tá bom, há também um pouco de paraíso: o cheiro do bolo da mãe, as risadas, a comida fumegante. Risadas? Quando mesmo?

A tapeçaria comprada em viagem. As peças em metal dourado com desenhos lindos e os elefantes cravejados de pedras coloridas. Um pouco de mim ficou lá longe, testemunhando na distância. Um muito de mim ficou nesses objetos em cima da mesa de canto, ao lado do sofá grande e fofo. Lugar conveniente para uma espécie sutil de fuga.

Fotos? Não sei ao certo o que precisaria registrar. Talvez fotos de mim mesma, deste pedaço de mim que encravou nessas peças e naquele tempo em que meu pai e minha mãe eram meu pai e minha mãe. Depois foi ficando tudo estranho enquanto as paredes foram amarelecendo. De que cor são as paredes agora? Parece que a casa emudeceu.

A coleção de slides dos museus do mundo. A enciclopédia em inglês. Os cinzeiros de cristal e o par de ânforas azuis. As largas cortinas da sala pesando no chão.
A máquina fotográfica poderá me ajudar? Qual será o truque para guardar numa imagem a intensidade do momento, aquele décimo de segundo que diz tudo? Não, não há salvação. Tudo será perdido com o tempo. Sobrará a memória confundida com pedaços de minha imaginação.

Talvez eu saiba o que dói. Em poucos dias, duas ou três semanas, tudo irá embora. As experiências, todas as dores e alegrias. É como ter de largar um pedaço do meu tempo de vida, da minha história, que está mudando.

O que virá depois? O que será que vai acontecer quando sobrar o vazio do que foi habitado? O que pode conter o vazio de um apartamento? De um tudo continuará pairando no ar em nível imponderável. Quando os objetos e móveis forem embora, haverá ainda muito.

Quando o vazio chegar, ficará à mostra a solidão daquelas paredes, que hoje estão cheias de vida, de quadros, de cadeiras encostadas. Ficarão as sombras das pessoas, de risos e de gritos sussurrados de angústia.

Amanhã será a ausência plena, um vazio perturbador. Poderá ser diferente disso? Talvez se eu olhar para a janela enorme da sala, eu possa ver o verde das árvores do jardim. Será um espaço aberto com céu à mostra. Poderei olhar para fora, à frente, tentando vislumbrar o futuro, depois do ontem, depois do hoje. Essa imagem traz um alívio. Mas ainda surgem sensações vagas, medo, ansiedade. Depois de um vazio, o outro vazio quem sabe o que será?

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sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O PORTEIRO >> Zoraya Cesar


O prédio era antigo, estilo art déco, grandioso, decadente, e Valdo se apaixonou por ele no instante quem subiu o primeiro degrau. Sentiu como se nunca mais fosse sair dali. Quem o recebeu foi o zelador, a quem iria substituir.
— E aí, tudo bem? Preparado pra pegar no batente? — perguntou o chefe dos porteiros, olhando-o de alto a baixo. Valdo era pintosão, cara de paraíba macho, daqueles que falam pouco, forte e caladão. Era o tipo certo, pensou. — Entende de encanamento, serviço de pedreiro, essas coisas? Esse prédio é velho, vive dando encrenca.
— Sei sim senhor, respondeu Valdo, sem mentir, olhando embasbacado a beleza em volta.
Poucos dias depois, antes de se despedir, o zelador segurou no braço de Valdo, olhou bem pra ele e sussurrou: o segredo para ficar no emprego é a síndica, rapaz, ela tem de gostar de você, entendeu? Ela tem de gostar de você!
Valdo estranhou, é claro que a síndica tinha de gostar dele, era a patroa! E foi tratar da vida. Já conhecia todos os moradores, menos ela. E numa tarde de sábado, morna e mofenta, a luz vermelha do interfone começa a piscar. Era a síndica. Valdo fica nervoso. Será que tinha feito algo errado?
Uma voz roufenha, saída de uma garganta acostumada ao cigarro, dá-lhe boa tarde e pede para ele subir um instantinho, por favor. Valdo abandona a portaria e corre para atender ao chamado, o primeiro de sua verdadeira patroa.
Ele encontra a porta semiaberta e para, confuso.
— Entra, diz a voz, que fez o coração de Valdo bater tão forte que ele teve medo de vê-lo saltando pela boca.  A sala, ampla, quente, pesada, cheia de brocados e veludos encheu-lhe os olhos e o coração. Sentiu-se bem ali, como se estivesse em seu próprio corpo. Mas nada era tão lindo quanto a mulher recostada em um dos sofás.
Ela tinha os peitos fartos, impacientes por saltar do decote ousado, um corpo rechonchudo apertado num vestido de oncinha, as pernas roliças de joelhos redondos cruzadas numa pose que Valdo achou a coisa mais sexy do mundo. Assim como as unhas compridas e vermelhas, o grande anel de pedra, os cabelos pretos de tinta soltos pelos ombros, a pintura carregada dos olhos e da boca. Uma perua sessentona, ainda bonita, exuberante, excessiva, que encheu Valdo com sua presença. Ele teve ímpetos de se ajoelhar ali mesmo, beijar aqueles joelhos, apertar aquele corpo cheio de carne e vida. Essa é uma mulher de verdade, gritou sua alma.
— Por favor, veja se o encanamento do banheiro está em ordem, sinto cheiro de gás.
Valdo foi, trêmulo. Examinou todo o encanamento, estava tudo em ordem, disse. Ela sorriu e dispensou-o.
O dia seguinte, ele passou consumindo-se de desejo, de ansiedade, rezando para que a Síndica, a Patroa, o chamasse para qualquer serviço, qualquer um, que lhe permitisse olhar para ela, vê-la por uns instantes, nem que fosse faxinar a casa, limpar os vasos, beijar-lhe os pés.
Nessa noite, a luz vermelha do interfone pisca novamente. Ele nem atende, sobe correndo os dez andares e entra esbaforido no apartamento. O que será que ela queria? Ele faria qualquer coisa.
A porta estava escandalosamente aberta. Ele foi entrando, procurando-a, ansioso. Valdo achava o apartamento lindo. Não mais lindo, no entanto, que a dona de tudo aquilo, que estava no quarto, encostada no espaldar de uma cama enorme, vestida com um roupão frouxo, que deixava à mostra pedaços de carne branca de aparência macia.
— O encanamento, roufenhou a voz, estou sentindo cheiro de gás.
Valdo foi ao banheiro, verificou o gás e os encanamentos, tudo em ordem. Voltando ao quarto, deu conta do serviço, e, sem pensar em nada, avançou naquela carne, naquela boca vermelha, naquela brancura toda.
Ela não disse nada, pegou o cigarro, o fósforo, e sorriu.
Noite após noite, durante alguns meses, aquela cena se repetiu, até que, de repente, a luz do interfone deixou de piscar. Ele ficou alarmado, teria acontecido alguma coisa? Ligou. A voz o atendeu e, rispidamente, disse que só a procurasse quando chamado.
Ele não se sentiu humilhado, mas desesperado. É claro que ela era a Patroa, quem mandava era ela, e ele obedeceria a tudo o que ela dissesse, faria tudo o que ela quisesse, o problema era como viver sem ela, sem sua boca faminta, suas curvas, seus peitos grandes e generosos?
Desde então ele não dormiu mais. Virou um sonâmbulo em constante estado de alerta, não sentia sono, cansaço, nada, na verdade, parecia estar ligado numa tomada cuja corrente elétrica jamais oscilava.
Somente após três semanas ela o chamou de novo. Dessa vez, ele subiu calmamente. Encontrou a porta, como sempre, aberta. Encaminhou-se para o quarto, e lá, mais uma vez, a voz de cigarro que dobrava Valdo de joelhos disse que o encanamento devia estar com problemas, pois sentia cheiro de gás.
Repetindo a cena tantas vezes ensaiada, ele vistoriou encanamentos e aquecedores, dessa vez abrindo-os todos.  O barulho do gás escapando parecia o de uma locomotiva a vapor que ainda estava distante da estação. Não daria para ouvir do quarto. Ele voltou, e, mais uma vez, deu conta do serviço.
Ao final, ela pegou o maço de cigarros e o fósforo. Valdo sorriu.




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quinta-feira, 13 de setembro de 2012

OS DO CONTRA >> Fernanda Pinho



Há anos me dedico à análise de um tipo não muito incomum: os do contra. Quis o destino que essa linhagem de gente que tanto me intriga sempre estivesse presente em minha vida, de modo que tenho uma boa amostragem para minha análise.

Claro, antes de assumir uma postura analítica, o que os do contra despertavam em mim era uma forte irritação. São, antes de tudo, chatos (ainda que para alguns departamentos da vida possam ser pessoas adoráveis). São chatos porque não te permite compartilhar nada. Os do contra inibem nas outras pessoas o desejo de partilhar a descoberta de um restaurante legal ou de um filme genial. Porque mesmo sem conhecer o restaurante, mesmo sem conhecer o filme ele já vai rechaçar sua opinião e dizer que sabe de outro restaurante ou outro filme muito melhor. São chatos porque são inconvenientes. Quem nunca presenciou um
do contra vendo um trabalho de outra pessoa pronto e alfinetando com  um "é, até que ficou bom, mas ficaria melhor se...". Se nada! Queria ajudar? Que desse opinião antes. Não adianta botar defeito depois que outra pensou já desprendeu seus esforços em alguma tarefa. São chatos porque confundem os outros. Eu, em algum momento de insegurança em minha vida, quase mordi a isca dos do contra, chegando a cogitar: "será que eu só falo besteira?".

Eles são como os donos da verdade, mas com um plus: desde que a verdade seja diferente da do outro. Verdades que mudam ao sabor da conversa, vale dizer. Se eu digo hoje que o amarelo é o mais bonito, ele vai fazer de tudo para me convencer de que o azul é A Cor. Mas se depois de amanhã eu apareço toda de azul, ele vai dar um jeitinho de dizer "sei lá, de amarelo talvez você fique melhor". Ih, já cansei de fazer essas pegadinhas com seres dessa espécie e me divirto.

Sim, porque depois que passei a aceitar os do contra (eles são assim, e eu que não sou do contra não posso contrariar) passei a me divertir com eles. Observando os esforços que lançam para manter a postura de nunca, jamais, concordar com que o outro diz. Dá até uma certa pena, porque os do contra não relaxam nunca. Numa conversa, nunca podem se render e soltar um despretensioso e libertador "é mesmo". Precisam contrargumentar ou serão sufocados pela opinião alheia. Com o tempo, também passam a ser deixados de lado. Para quê pedir a opinião de alguém que sempre vai discordar de você? Ok. Não devemos buscar concordância sempre. Mas o do contra não tem credibilidade, pois é sabido que sua opinião só tem um sentido: o oposto.  

Já tentei, em vão, compreender de onde vem essa necessidade de remar contra a maré. O mais próximo que cheguei de uma conclusão foi a hipótese de que, talvez, a ideia de ser invariavelmente discordante venha do desejo de chamar atenção. E dá certo. Olha eu aqui dedicando minha humilde crônica a eles. Uma crônica para ninguém, convenhamos. Pois se você não é do contra, não vai se identificar.  Se é, não vai concordar comigo. 


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