sexta-feira, 31 de agosto de 2012

TODOS MAIS OU MENOS IGUAIS
>> Zoraya Cesar


Finalmente, depois de muito esforço, reza forte, pequenas patifarias, Carlos Wilson conseguiu casar com a filha do dono da agência de automóveis e chegar a gerente, cargo pelo qual teria dado a vida. Como não lhe pediram a vida, deu apenas a própria integridade, que saiu mais barato. 

Vocês sabem, quem nunca comeu melado, quando come se lambuza; quem nasce pataca, nunca chega a vintém. E quem... chega, vamos à história. Logo no primeiro dia ele cortou gratificações aqui, distribuiu-as ali, e deslocou D. Vanda, secretária mais antiga que a própria firma, para o fundo do salão. Proibiu os mecânicos de almoçarem no mesmo refeitório com a equipe de vendedores, imagina, cada macaco no seu galho, dizia, a boca cheia de importância.

Em pouco tempo já era considerado um perfeito pulha. Apenas uma coisa ele fez que agradou a todos: contratou Glorinha.

Glorinha era... era... como descrever Glorinha sem reduzi-la a um estereótipo? As roupas apertadas, decotes audazes, saltos altos, vestidos curtos, Glorinha era um sopro de alegria e cor naquele ambiente pesado. Não sabia fazer nada, era seu primeiro emprego, mas era bonita e gostosa (Meninas, não sou eu quem o diz, são os Rapazes), e isso bastava.

A vida seguiu. E Carlos Wilson perseguiu seu intento de sair com Glorinha, que não dava moleza. Ou vocês pensaram que, pela descrição feita, Glorinha era biscateira? Nada disso, ela era menina de família, pessoa direita, trabalhava para pagar os estudos de técnica de enfermagem.

Mas, sabem como é, água mole em pedra dura... acaba convencendo, e pior, com aquelas velhas promessas de sempre: minha mulher não me ama, meu casamento está acabado, vou me separar... Acreditem, tem mulher que ainda cai nessa. E se o sujeito tem um cargo importante, trata bem, dá presentinhos, parece apaixonado... tem mulher que acredita.

Carlos Wilson resolveu jogar pesado: disse que estava tão apaixonado que sairia no meio do expediente, só para ficar um pouco mais com ela. Glorinha deve ter achado romântico, porque pagou para ver e aceitou.

Nosso anti-heroi correu para ordenar que Denilson, o chefe dos mecânicos, deixasse em ponto de bala o carro esporte vermelho caríssimo, que um cliente deixara para revisão. Era hoje que ele se daria bem. Enquanto esperava, aproveitava para contar vantagens, dizia que Glorinha comia ali, ó, na sua mão. A cabeça girava de satisfação, vendo a inveja dos homens na oficina. Ele era o máximo.

Tudo correu como planejado, ele pegou o carro, pegou Glorinha, pegou a Av. Brasil, e nessa, que é uma das mais movimentadas da cidade, passa de tudo, passa boi, passa boiada. Só não passa um determinado carro esporte vermelho, que, enguiçado, parou no acostamento.

Carlos Wilson entrou em desespero. Esbravejava contra o destino, contra o carro, contra Denilson. Mas, afinal, qual o problema, perguntava Glorinha, o carro não era dele? Ele não era o patrão? A esposa já não sabia de tudo?

Não, sua burra, berrava ele, histérico, minha mulher não sabe e o pai dela é o meu patrão, esse carro é de um cliente, sua idiota, nem parece que trabalha lá, e acorda, vê logo se eu, um gerente, vou me apaixonar por uma qualquer... Ele arrancou uns tufos de cabelo, e se algum conhecido passasse bem naquela hora? E se batessem no carro? E se não conseguisse falar com o Denilson? Ele queria morrer. Ou matar Glorinha, a grande culpada de tudo, que chorava, desconsolada,  bem à vista de quem passasse, aquela troncha, já não disse para ela se esconder dentro do carro?

Finalmente, conseguiu falar com o chefe dos mecânicos. Explicou a situação, deu-lhe as coordenadas e esperou. O reboque chegou logo depois, trazendo Denilson, e o patrão! Que sai do carro, vai direto para Carlos Wilson, e não perde tempo:

- Você está despedido, cachorro, e sem mulher, que filha minha não quer pilantra por marido. Vou dar queixa na polícia por roubo, desgraçado. A sua sorte é que já estou velho, ou eu acabava com sua raça, bufava o velho.

Carlos Wilson não acreditava no que estava acontecendo, seu futuro destruído por... pelo que, mesmo?

Pela secretária humilhada, que não se fizera de rogada em contar ao patrão todos os detalhes sórdidos do comportamento do genro; pelo chefe dos mecânicos, que almejava a gerência e tinha interesse em Glorinha.

E pela própria Glorinha, que não era boba nem nada e estava cansada de ser assediada por aquele chato, mas não queria perder o emprego.


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quinta-feira, 30 de agosto de 2012

UM PULINHO EM CÓRDOBA
>> FERNANDA PINHO




Córdoba era uma frustração em minha vida porque eu detesto "quase" e certa vez quase estive lá. Eu estava no nordeste a trabalho, de onde deveria seguir para a Argentina, mas o evento que eu cobriria foi cancelado e a viagem nunca aconteceu. Uma frustração que pairava no ar sempre que a Córdoba era mencionada, o que não era raro já que tenho um amigo que morou por lá e é um verdadeiro entusiasta da cidade.

Mas então, semana passada tivemos uma ideia. Vamos pra Córdoba? Vamos. Quando? Sábado. E fomos. Com uma mala, uns mapas toscos que eu imprimi do Google, algumas dicas do amigo entusiasta e nenhum planejamento.

Qualquer viagem que parte daqui de Santiago já começa bem com o espetacular cruzamento da Cordilheira dos Andes que, a essa altura do ano, está branquinha como montanhas de embalagem de chocolate. Não demorou muito e chegamos ao nosso destino. Voo rápido. Como de Belo Horizonte a São Paulo, me apressei em dizer (acho que estou ficando um pouco chata, para tudo tenho uma comparação com o Brasil).

A simpatia e educação do taxista que nos pegou no aeroporto já acabaram de cara com o preconceito que nós brasileiros (e os chilenos também) temos com os argentinos. Foi a primeira das agradáveis surpresas.

Quando começamos a caminhar pelo centro histórico, a cidade fazia sua habitual sesta. Mas, aos poucos, museus, cafés, igrejas, palácios e simpáticas lojinhas de alfajores iam ficando de portas abertas para nós. A cada lugar que visitávamos, nos sentíamos gratos por termos nos proporcionado essa viagem de sopetão. E nos sentíamos cada vez mais encantados pelo povo (o taxista era regra, não exceção). Percebemos que, além da educação, eles carregam uma tranquilidade revelada pela fala lenta. Ouso a dizer que Córdoba é a Bahia da Argentina. Uma Bahia sem axé, mas com tango. Nunca pensei em sair para jantar e me deparar com vários casais de todas as idades dançando tango em plena praça pública.

A dança foi a entrada para um jantar dos deuses. Aliás, todas as refeições eram dos deuses. Defensores dos animais, tenham compaixão de mim. Mas aquele entrecorte, hummmm, é de

 arrancar uma lágrima de emoção (e muitos litros de saliva) só pela lembrança. As carnes, os pães, os doces, o tradicional Chorripan (pão com linguiça), tudo delicioso e sempre servido em locais aconchegantes. Na nossa última noite, aliás, fomos a um restaurante (chamado Mandarina, se um dia você for a Córdoba não deixe de conhecer) que nos recebeu ao som de Gilberto Gil. Aí eu não tive dúvidas, é mesmo a Bahia da Argentina. E onde é Bahia, só pode ser bom.

Córdoba foi promovida de quase-viagem para viagem-surpresa-incrível e eu adquiri novas figurinhas para meu álbum de boas lembranças.



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quarta-feira, 29 de agosto de 2012

NASCIDA FEITA >> Carla Dias >>


Minha crônica de hoje é dedicada, porque calhou de ela acontecer no mesmo dia em que uma amiga muito querida faz aniversário. Essa crônica é dedicada à Drika Bourquim, pessoa que, mesmo quando fica brava comigo, respeita meu jeito bicho do mato de ser. Sem contar que tem um coração de ouro e uma energia boa que só. Feliz aniversário, Drikota!

Tem gente que nasce feita. Sabe como? Já se sabe, assim, de cara, que ela será isso ou aquilo quando crescer. Conheci uma menina que nasceu feita, tudo muito certinho. Seu rosto era lindo, lindo, aqueles olhos grandes e gentis comoviam até o mais durão dos homens, uma coisa. Ela podia tudo, porque seu caminhar era digno de enfeitiçar olhares, como se desfilasse a nossa frente uma entidade detentora do conhecimento maior sobre o ser humano. Que carregava em sua bolsinha de crochê cor lilás as respostas para perguntas cruciais:

Quem somos? A que viemos? Para onde vamos?

Aquela era a bolsinha de crochê cor lilás mais cobiçada de todo o planeta.

Obviamente, a menina nasceu feita no universo que dividíamos. Mais tarde, aprendi que o mundo não girava somente em torno da bolsinha de crochê cor lilás dela, ou se resumia ao bairro onde vivíamos. Descobri que aprender com a vida nos oferece as respostas que precisamos, mas não todas. Algumas perguntas nasceram para ser mistério.

Essa menina, filha de gente muito importante, andava pelo bairro sorrindo miúdo. Eu nunca gostei de sorriso miúdo. Na verdade, se um sorriso é miúdo, para mim não é sorriso e sim uma tentativa de sorrir. E quer coisa mais triste que tentar sorrir e não conseguir? 

Durante dias, enfiei a cabeça – sem sucesso – entre as grades do quintal dela e a observei: cândida, caminhando entre bem-me-queres, a bolsinha lilás balançando, cadenciadamente. Vestidinhos floridos, sapatos branquinhos, meias, bom, até eu, menina de tudo, pobre de doer os dentes na hora de morder pão velho, já achava aquelas meias um tanto fora de moda. Aquilo era coisa de adulto brincando de boneca.

Ah, não... Nunca invejei a riqueza da menina, e juro por tudo quanto é sagrado. E o que me enternecia nela era algo muito diferente do que fascinava a tantos. Havia um momento que sempre acontecia longe dos olhares deslumbrados das pessoas que queriam não apenas ficar próximos a ela, mas também desejavam estar no lugar da menina. E esse momento era quando ela baixava o olhar, os cabelos escondendo seu rosto. Enquanto as pessoas a sua volta diziam como ela era linda e por isso nascera sendo, enquanto essas pessoas se distraiam com seus discursos invejosos, era possível, para o observador – e eu sempre fui uma ótima observadora – perceber toda a solidão que a menina sentia. O corpo dela relaxava de um jeito desolado, os bracinhos caiam soltos ao lado do corpo, do jeito de quem desiste da batalha, o caminhar, sempre tão cadenciado, atrevia-se a aderir aos tropeços. Só que era somente por um momento. Depois ela voltava ao quase sorriso, aos apetrechos de menina domesticada.

Compreendemos, em algum momento, que pessoa não nasce feita. Ela pode até nascer com a situação feita, escolher alguma, mas ela não nasce sendo. Ela aprende a ser, ela se permite construir durante a vida. Mesmo aquela menina, de inteligência que alisava os brios dos intelectuais em busca de conexão com a herança dela, que sabia falar outros idiomas e tirava gargalhadas idiotamente surpresas de empresários interesseiros ao conversar com eles em mandarim, e sobre assuntos que deviam caber somente aos adultos, mesmo ela, com a infância arranhada pelo rótulo de ter nascido feita, sabia disso.

Alguns fatos só não conhecem aqueles que escolhem não conhecê-los.

Como não nasci feita, batalhei até para criar uma realidade digna de mim. Na lembrança, o dia em que minha mãe estava doente, teve de ficar no hospital, e meu pai, sem ter com quem me deixar, me carregou para o trabalho dele. Ele era da equipe de limpeza do teatro mais chique da cidade, e como não podia ficar comigo enquanto trabalhava, deixou-me no banheiro feminino repetindo a ordem para que não me esquecesse dela: não sair daqui de jeito nenhum.

Sentada em um sofá - coisa que nunca tinha visto era sofá no banheiro -, brinquei horas com a Miranda, minha boneca de pano, feita pela minha mãe e que eu adorava. Miranda já tinha sido miss, atriz de cinema, policial, dona de casa, professora, até cantora de ópera, quando ela entrou, impecavelmente vestida, os cabelos perfeitamente alinhados e olhou diretamente para mim, fiquei pasma, assustada com o azul dos olhos dela tendo como palco a mais alva pele que eu já vira. Só que o susto passou logo, que nunca fui de congelar por causa dele. Aproximei-me dela, que me lançou um sorriso miúdo. Um tanto bravinha, estiquei os lábios dela com os dedos: vê se sorri com vontade, esbravejei. Achando graça, ela sorriu com vontade. E sem o menor pudor, abracei a menina, como desejara várias vezes, enquanto a observava pelo portão da casa dela. E disse a ela: você não nasceu feita. Até a Miranda, que foi costurada e tudo, não nasceu feita. Sabia que hoje até professora de matemática ela foi?

Claro que a mãe da menina entrou, descobriu que eu estava lá, fez um polido escarcéu e meu pai acabou perdendo o emprego. Mas sabe aquele sorriso que a menina sorriu de verdade? Então, ela estava com ele quando me colocaram para fora do teatro.

Como não nasci feita, eu venho me construindo, e descobri que bolsinhas de crochê cor lilás são acessórios bem interessantes, e que jamais vou aprender mandarim, porque sou distraída demais para outros idiomas e dialetos. Aprendi que o ser humano nem sempre está certo, que certa sempre esteve a Miranda, que mesmo sendo feita, transformou-se.

Imagem: sxc.hu





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segunda-feira, 27 de agosto de 2012

SOLDADOS >> Albir José Inácio da Silva

Dentre os personagens que embalam nossa imaginação na infância, destaca-se o soldado. O garbo de seu uniforme, a altivez de seu porte e a coragem de suas ações encantam crianças desde sempre. Do soldadinho de chumbo sofremos os apuros nas histórias e temos ciúmes do pequeno exemplar que nos enfeita o armário. Nas brincadeiras, marchamos com chapéu de jornal e espada de madeira pelos campos de batalha e quintais inimigos.

Na adolescência a história nos ensina sobre os soldados egípcios, que ficavam honrados em morrer por seu faraó; dos soldados romanos com seus chapéus imponentes que dominavam o mundo; dos heróis gregos na guerra de tróia; e de todos os guerreiros que varriam os campos e conquistavam as cidades. Na idade média os soldados defendiam castelos, conquistavam reinos e salvavam donzelas. Os templários eram soldados que conquistavam a terra sagrada. Sagrada também para outros, mas que deveria ser só deles.

Depois os soldados participaram dos grandes descobrimentos. Estavam nos navios e nos fortes do novo mundo. Os nativos, soldados que ali já estavam, lutaram bravamente mas não conseguiram impedir o massacre e a destruição de seus povos.

Com a modernidade, os soldados deram a vida para defender seus soberanos e, depois das revoluções, para garantir a nova ordem. Não enriqueceram com os reis nem com a revolução. Eram soldados. Garantiam o que era dos outros. E assim, ganhando ou perdendo, amados ou odiados por quem ganhou ou perdeu, os soldados atravessaram os anos até a carnificina das duas guerras mundiais que quase destruíram o planeta no século passado.

Quando adultos podemos ser soldados, com as honras e os sacrifícios que essa escolha impõe, ou podemos nos emocionar com seus dramas nos livros e filmes que contam guerras e sacrifícios dos combatentes, para defender interesses nem sempre muito nobres.

No Brasil, depois de vinte e cinco anos de ditadura, eles acabaram simbolizando o lado negro da força, o inimigo. Tal generalização acaba sendo inevitável. Para o oprimido a roupa do opressor é intolerável. Mas não podemos esquecer que em certas circunstâncias o opressor é também oprimido. Na segunda guerra, soldados ucranianos eram obrigados a torturar e matar judeus sob pena de serem eles próprios assassinados pelos nazistas.

A maioria dos soldados brasileiros não tinha qualquer noção do que acontecia nos porões. Mesmo quando investiam contra seus irmãos em cargas de cavalaria, acreditavam combater o inimigo.

Claro que esse tipo de inocência não se aplica a torturadores e assassinos que, por sadismo ou profissão, mancharam de sangue a memória do país. Aqueles que agora seguem impunes por conta de uma autoabsolvição, prévia e ilegítima, que conseguiram acochambrar na legislação ao perceber que a história não os perdoaria.

Hoje, ao contrário do que acontecia naquele tempo quando as comemorações eram impostas, as homenagens ficaram restritas aos quartéis. Comemoração tímida para os heróis da nossa infância.

Neste vinte e cinco de agosto, nossas homenagens. Parabéns aos soldados que nos rincões deste país levam comida, remédios e proteção aos brasileiros ainda excluídos da cidadania. Parabéns aos que, em missões internacionais, ajudam a reconstruir a vida de povos destroçados pelo fratricídio que um dia também nos assolou.

A você soldado, homem de boa-vontade, que em qualquer fileira serviu à humanidade. A você soldado, do latim solidarius - aquele que é pago para servir - que está reconquistando o lugar que merece no coração da pátria. A você que povoou na infância a nossa imaginação, a nossa homenagem.


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sábado, 25 de agosto de 2012

CAFONA [Carla Cintia Conteiro]

Quando ela começou a discorrer sobre a cafonice alheia, meus olhos imediatamente escanearam o seu modelito escolhido para a ocasião. Mais uma vez, absolutamente desfavorável ao seu tipo físico, concluí. Sempre relevei sua falta de tino para se vestir, porque imaginava seus cuidados intelectuais e espirituais, que me faziam admirá-la tanto, ocupando todo seu tempo, não deixando espaço para esse tipo de mundanice. Ouvi-la argumentando porque Fulana e Beltrana eram cafonas me fez ratificar a impressão de que cafona mesmo é falar da cafonice dos outros. Afinal, infelizmente, nosso próprio rabo nos é invisível e atribuir-lhe adjetivos é tarefa absolutamente subjetiva.

Já reparou que as canções do estilo de música de que você não gosta sempre soam iguais umas as outras, suas estruturas harmônicas e versos tão previsíveis e repetitivos e, se não isso, são apenas enfadonhas e incômodas? Pois pergunte para alguém que não gosta dos gêneros que você curte o que acha da sua música e ele vai dizer que acha exatamente a mesma coisa. E você responde que o outro não aprimorou o gosto musical; que sua música não é repetitiva, é trance inducing, não é incômoda, é instigante; que a cultura precisa ser respeitada. De respeitar a cultura alheia ninguém se lembra. E tome etnocentrismo! Muita gente “da zelite” ainda com a síndrome de colonizador, se achando no direito de definir o grupo do outro segundo seus princípios e valores, de classificar as manifestações alheias como ruins e esquisitas e, pior de tudo, inválida, portanto indigna de existência. Ninguém é obrigado a ter no seu player a música de que não gosta, mas consideração é bom e todo mundo gosta.

Também observo nas redes sociais, excelentes laboratórios para o estudo do ser humano, pessoas reclamando sobre a chatice das publicações das outras pessoas. E aí publicam sobre como isso é chato. Será que não percebem o quão chatas são essas reclamações? Será que eu não percebo o quão chato é falar da chatice de quem reclama de quem os chateia? Essa chateação não tem fim.

Sempre procuro me lembrar de algumas regras simples. Em primeiro lugar, no Facebook, se eu permito que alguém publique na minha linha do tempo ou veja o que eu publico, por definição eu perguntei sua opinião, portanto o conteúdo nas duas mãos é responsabilidade minha. Um bloqueio é uma coisa fácil, indolor e higiênica, quando o que não agrada supera as razões para manter o contato. A reclamação, nem sempre é tão inócua. No mundo dos átomos, não se agenda o próximo encontro, sem confrontos, sem maiores crises. A menos que a inconveniência esteja no prato mais alto da balança. Ou se tenha um pé no masoquismo.
Sempre cafona, chato e desagradável é invadir o espaço alheio, impondo-se. Um perfume forte ou doce demais, sua música vazando para ouvidos que não pediriam por ela, sua opinião emitida como verdade incontestável.

Assim vamos seguindo todos pela vida, meio inconscientes do quanto é obeso o nosso perispírito. Enquanto ele esbarra, empurra e invade o espaço alheio, nos queixamos de quem nos pisa o pé. Apontamos o mau gosto alheio e nos esquecemos do ensinamento de quando éramos crianças: apontar é feio.

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quarta-feira, 22 de agosto de 2012

UMA CANÇÃO SOBRE SENTIMENTOS USADOS >> Carla Dias >>


Você sabe que a pior escolha é esperar para ser a melhor pessoa possível em um futuro que julga próximo. Diferente das contas dos carnês, com parcelas com vencimento em 5 de agosto, 5 de setembro, 5 de outubro, 5 de novembro, até 5 de dezembro de dois anos adiante do vigente, entende que depois de quitado o sonho se transforma em lembrança para ser desfiada em dia de jantar em família. 
E que flores em vasos são impacientes e partem adiantado, e isso em nada tem a ver com o fim da primavera. 
Compreende a solidão dos almoços em dia de trabalho, quando seu olhar reconhece as feições dos estranhos mastigando comida e se alimentando de urgências: pegar a roupa na lavanderia, escrever para o diretor, comprar laranja lima, pedir o divórcio, colocar o analgésico na bolsa. E sempre alguma urgência se destaca, roubando-lhe a atenção entre uma garfada e outra, às vezes distraindo tanto que a sua comida acaba no prato no final da hora do almoço.
Como aquela urgência reconhecida no homem de cabelos brancos que só, que se curvou sobre a bandeja e se fez de interessado pela comida, mas que na verdade, enquanto esparramava o arroz pelo prato, chorava copiosamente. A sua vontade foi sentar-se com ele, perguntar por que, o que e como, agir como o ouvidor da confissão da tristeza dele.
Porém, você também é sabedor de que não há como estancar as dores de outra pessoa. Não de pessoas que tiram a hora de almoço para visitar suas emoções, e então voltam ao modo trabalhador cinco minutos antes de bater o cartão.
Você sabe que caminhar pela cidade faz bem à saúde, ainda que a qualidade do ar não esteja lá essas coisas, de acordo com o telejornal. Só que é lugar fora de quatro paredes, tem sombra e ao sol você quara seus pensamentos, aquece a rotina. Porque está fora de quatro paredes, diferente do quarto, quando você deita a cabeça no travesseiro e ela acha que é hora de trabalhar, transformando a sua noite em uma orgia de ilusões e quês de realidade.
Entende que amar não é para todos, ser amado é para poucos, apesar de os adeptos do positivismo exagerado relutarem em aceitar o fato. Por isso se permite ser amado sempre que possível, na forma mais ampla do amor, recebendo até mesmo os amores instantâneos, que são aqueles que algumas pessoas sentem por você depois de conhecê-lo em uma festa, ou durante o jantar que deveria ser somente para amigos íntimos, mas recebe estranhos. 
E também durante as canções. Permite-se ser amado por melodias e poesia, abraçando o significado de algumas para traduzir alguns dos seus próprios momentos.
É que você sabe que é pessoa, e que nessa condição, experimentará de tudo um pouco, e que nem sempre será no futuro próximo. E canções cabem até mesmo no daqui a pouco. Mesmo as velhas canções sobre um sentimento novo, quase inédito, digno de ser urgência para quem conhece um bom repertório para abrandamentos.


Imagem: sxc.hu



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terça-feira, 21 de agosto de 2012

SÓ PARA OS QUE NÃO TÊM NOJO >> Clara Braga

Há um tempo, publiquei uma crônica aqui falando a respeito de um livro que estava fazendo sucesso por contar um novo segredo para o emagrecimento. Disse que não concordava com o livro, e hoje venho por meio desta mostrar mais um argumento que defende a minha ideia de que de inovador esse livro não tem nada! Bom, o tal livro não é inovador pelo simples fato de que eu tenho a mais nova descoberta do milagre do emagrecimento. Não sei se é tão nova assim para todo mundo, mas para mim, pelo menos, é.

Antes de revelar a minha descoberta, queria avisar às pessoas que têm estômago fraco e que estão próximas do horário de alguma refeição, que talvez seja melhor deixar para ler esta crônica em um outro momento.

Bom, então vamos lá. Estava eu em mais um dia de estágio, assistindo a filmes e classificando. Como a maioria das estagiárias não curtem muito filmes de ação, acabou sobrando para mim um desses filmes que são adaptações de histórias em quadrinhos. Eu não tenho o menor problema com isso, muito pelo contrário, a maioria que eu assisti até hoje eu gostei.

Porém, dessa vez fui pega desprevenida. Achei que o filme seria mais leve, mas estava muito, muito enganada. Não vou contar qual era o filme para não estragar a história para ninguém, mas digo que de em minuto alguém morria, e não eram mortes tranquilas, eram pessoas jogadas pela janela, esmagadas por portas de aço, pessoas que levavam tiros que explodiam a cabeça e o cérebro ia parar lá do outro lado... e daí para pior!

Acreditem ou não, esse é o ponto chave para você que está querendo emagrecer. A combinação de um filme bem nojento que lembre a comida que você vai comer logo mais. Depois de ver pedaços de cérebro espalhados por vários locais, fui para o restaurante almoçar e adivinhem qual era o prato principal desse dia... ALMÔNDEGAS AO MOLHO DE TOMATE. O que almôndegas ao molho de tomate lembram? Pedaços de cérebro ensanguentados!

Resultado, minha fome sumiu e eu mal almocei. TAN TAN! Foi assim que descobri a grande dieta forçada que pode te fazer emagrecer muito em pouco tempo, só depende da quantidade de filmes nojentos que você for capaz de assistir por dia. E esse é um ponto bem importante da dieta, tem que ter força de vontade, porque eu mesma devorei um balde de pipoca inteiro sozinha depois que cheguei em casa. Pipoca, até o momento, não me lembra nada nojento!

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segunda-feira, 20 de agosto de 2012

JÁ NÃO EXISTIA >> ANDRÉ FERRER

Finalmente, o trabalho na farmácia ajudou-me a descobrir um texto. Foi na quarta-feira. Lembrei-me, então, da necessidade de entregar esta crônica (parece-me, no entanto, que não deixei de pensar na urgência da redação um minuto sequer na última semana) e o texto começou a nascer enquanto eu atendia àquela senhora.
Ela devia ter uma casinha humilde e bem arrumada. Tricô e crochê no dormitório. Um nicho no corredor — o espaço dos boletos bancários, das queixas e da Nossa Senhora. Na sala de estar, entretanto, não devia faltar o paganismo kitsch e suburbano. Um diligente deus Hermes, um comboio de elefantes hindus coloridos e, entre outras cerâmicas, um galinho do tempo disposto à direita do televisor ligado. Para cada bibelô, uma história dividida com o marido. Há quase trinta dias, ela o visitava no hospital.
— Hoje, meu velho, eu vou à tarde. Logo depois do almoço.
Ao prestar atenção na entrevista, ela parecia fazer esquecer o próprio drama. Indiferente, a velha devia ter o hábito de assistir a todos os programas de televisão que pudesse, desde o amanhecer, como uma espécie de aquecimento para as novelas. Mas até que a psicóloga estrábica, a entrevistada naquele talk show matinal, falava de coisas interessantes a respeito da vida moderna.
— Então era isso?! A felicidade está nas perguntas e praticamente nunca está nas respostas!
O velho ranzinza já não existia por causa da doença. Do mesmo modo, conforme a mulher tinha percebido anos atrás, o marido trabalhador e viril já não existia. Por quê? A vida não passa, mesmo, de uma brincadeira de mau gosto? A vida não é mais que uma sacanagem muito bem urdida?
— Ora, se eu tenho medo de perguntar, imagina de responder!
O namorado criativo e sensível já não existia. Por causa do quê? Do cansaço? Da rotina? Da maturidade? De quem, então, era a culpa? O culpado era ele? Ou a jovem mulher que se empenhara tanto na conquista de um noivado?
— É, doutora, a vida não admite respostas.
De acordo com a psicóloga na TV, a vida moderna e veloz era feita de respiração e perguntas. Nada mais. Enquanto avançava, ela prescindia de solução. As respostas a inviabilizavam.
Nove horas da manhã e a velha caiu em si.
— Eu preciso fazer compras antes da visita — ela devia ter dito ou, pelo menos, foi assim que eu supus (ou a imaginei dizendo) a partir daqueles pedaços de vida que, na quarta-feira, rapidamente, passaram ao largo do meu espírito impressionável e observador.
O balcão da farmácia onde eu trabalho é como a proa de um navio quebra-gelo. Homens, mulheres e crianças trazem aquele aspecto frio e indistinto. As pessoas chegam e, só depois que a brancura monótona encontra a quilha do navio, estala e se fende, alguma coisa aparece a respeito delas. Não há chance, bem entendido, para qualquer detalhe em profundidade. Todo o resto deve ser suposto ou imaginado.
— Eu preciso comprar um barbeador para o velho.
A senhora, enfim, notou que era tarde. Olhou para um retrato na estante. O deus Hermes, o comboio de elefantes coloridos, o galinho do tempo.
A psicóloga era estrábica, mas tinha razão.
Ninguém precisa temer as perguntas se as respostas, boas ou ruins, não guardam qualquer importância.


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domingo, 19 de agosto de 2012

COMO ME TORNEI PALMEIRENSE
>> Whisner Fraga


Outro dia vi que o Boa Esporte está brigando de igual para igual na segunda divisão do Campeonato Brasileiro, o que me deixa muito contente. Sempre que vou a algum lugar e tem uma televisão transmitindo os jogos da segundona, falo, cheio de orgulho, que aquele time é da minha cidade. Tudo bem que atualmente eles estão instalados em Varginha, mas essa situação logo vai mudar, pelo que ando vendo sobre a construção do nosso estádio, em Ituiutaba.

Quando vim para São Paulo, me perguntavam para qual time eu torcia. Meus alunos tinham essa curiosidade também. Então eu respondia que era cruzeirense. Pronto, o assunto acabava ali, pois os paulistas não conhecem outro time que não seja do seu estado. Uma pena, porque era uma boa chance de me aproximar dos pupilos. Acredito firmemente que, para que haja aprendizagem, é necessário um envolvimento social. E para que aconteça a amizade é necessário que existam paixões partilhadas.

Então conheci minha atual esposa e com ela vieram as viagens para a casa do sogro. Era um martírio ter de me sentar no sofá da sala e viver alguns momentos de silêncio com os pais dela. Tímido que sou, não conseguia vencer aquela barreira, porque, sob minha ótica, não tínhamos nenhum assunto em comum, restando-nos apenas os olhares acanhados e um mal-estar contínuo. Até que o vi pegando um rádio de pilha no canto da copa e sintonizando um canal esportivo. Pronto, descobri que era um fanático por futebol.

Muitos brasileiros são loucos por esse esporte e não há que recriminá-los. Eu, que depois de ver a melhor seleção do mundo perder a copa de 82, quando era fã de Zico, de Leandro, de Júnior, de Eder e de Sócrates, acabei por me desiludir e não acompanhava mais nenhum jogo. Em minha cabeça o futebol era um jogo de azar, o que significa que somente aqueles que têm sorte é que vencem. Ainda não abandonei totalmente essa concepção, mas, por exemplo, observando as diversas modalidades nas Olímpiadas de Londres deste ano, concluo que todos os esportes contam um pouco com o acaso. Espera-se que o melhor vença, mas não é sempre que isso ocorre.

Então esse meu sogro é palmeirense. Como eu tinha muita simpatia pelo time, porque meus amigos Joãozinho, Merched e Dib torciam para a seleção do Palestra Itália durante minha infância, decidi que torceria também pelo Palmeiras. Com isso veio uma mudança radical em minha vida: comecei a conversar cada vez mais com meu sogro, nos tornamos muito amigos e melhorei o relacionamento com meus alunos. Quando me perguntam hoje qual meu time favorito e respondo Palmeiras, não importa se são adversários, se adotaram outra equipe, tudo vira brincadeira e tiração de sarro.

Assim, conversando com o pai de minha esposa, descobri também que minha sogra escreve lá seus versos e assim fomos descobrindo mais coisas em comum. Hoje não vejo a hora de ter a companhia deles. Foi preciso o futebol para que eu me aproximasse dos dois. Disso concluo que, se queremos realmente partilhar e conviver, é preciso que descubramos uma fresta entre aquela aparente falta de interesses comuns, por onde deixaremos passar nossas afinidades.

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sexta-feira, 17 de agosto de 2012

TIN MAN >> Zoraya Cesar

Quando era mais novo, tão mais novo, meu Deus, que ele sentia dor só de pensar, seu grande barato (pela gíria, dá para inferir a idade do nosso amigo) era tirar umas musiquinhas no violão.

A música lhe trouxera muitas alegrias, amigos, namoros, festas, às vezes até uns trocados. Na verdade, nem era grande coisa, mas dava para o gasto e, melhor que tudo, fazia-o entrar em contato consigo mesmo, sentir-se inteiro. 

Mas todo adolescente um dia vira adulto, as festinhas de violão, sexo, drogas e rock n’roll um dia acabam, e eis que a vida adulta chegou como um roldão: entrou na faculdade, conheceu a mulher da sua vida, começou a trabalhar e largou o violão. Largou? Sim, largou no fundo do armário, de onde só o tirava para as festinhas de família ou, quando sozinho em casa, para mexer os dedos, não perder a prática. 

E agora cabem algumas explicações. O título, por exemplo, por que Tin Man? Porque nosso amigo era fã de carteirinha (essa história está repleta de arcaísmos, não reparem, é a geração do nosso protagonista) do America, aquele grupo de folk-rock americano. Ao ouvir Tin Man pela primeira vez, ele sentiu uma felicidade tão estranha, que hoje, mais de trinta anos depois, ele ainda não sabe explicá-la. Aquele riff inicial dava-lhe arrepios. Dizia que, no dia em que conseguisse tocá-lo de ouvido e com perfeição, sua vida seria perfeita.

Então, perguntam vocês, por que largou tudo?

Há pessoas assim, que não têm forças para juntar, numa mesma vida, os sonhos e a realidade, o prazer que vivifica a alma e a luta pela sobrevivência. Uma coisa ou outra. Casamento, trabalho, responsabilidades, tudo isso foi demais para o nosso amigo. E, cá entre nós, a mulher dele não ajudava muito, pois, para ela, tudo o que não resultasse em dinheiro era bobagem. Cada vez que ele ensaiava algumas notas de Tin Man (ou qualquer outra música), ela dizia que a música era dificílima, ele nunca iria conseguir. E ele acreditou.

A essa altura, tenho certeza que vocês estão revoltadíssimos.  Como ele pôde ser tão fraco? Ou ela tão insensível? Mas o que sabemos nós? Ele a amava profundamente, era a mulher de sua vida, e o coração tem razões que a razão desconhece, já dizia sabiamente a Vovó.  E não são tantas assim as pessoas que têm forças para se opor ao mundo, que conseguem nadar contra a corrente, ou se ver com os próprios olhos. Aposto que algum de vocês também já caiu nessa armadilha.

As pessoas abrem mão de si mesmas para se adequar ao nhém-nhém-nhém de cada dia, achando que assim têm o controle sobre tudo. Mas a vida é cheia de som e fúria e..., desculpem, não vamos shakespearizar, vamos voltar ao nosso Tin Man, que foi abandonado pela mulher.

O quê? Como assim?, admiram-se vocês.  Saber, ninguém sabe ao certo, mas ela disse que estava cansada, ele era um chato, que não lembrava em nada o homem sensível e interessante com o qual havia casado! E deixou-o para viver com o professor de inglês, que jogava tênis e praticava esportes aquáticos.

Desnecessário dizer - mas direi assim mesmo, para não deixar dúvidas - que nosso amigo ficou arrasado, entrou em depressão, largou o trabalho. Passava os dias largado no sofá, olhando para o nada. Vendeu todos os móveis, à exceção da geladeira, armário e sofá, nem a cama escapou. Livros, discos e Cds, encaixotou-os todos. Mas o violão ficou. E o aparelho de som também. Vá entender o inconsciente das pessoas.

É assim que vai terminar? Largou o violão, renegou a si mesmo, foi traído e abandonado pela mulher que adorava e... e agora?

Calma. A história não acaba assim não.

Dias, talvez semanas depois, em mais uma madrugada vazia e insone, nosso Tin Man pôs-se a andar pela casa escura, e quem sabe por isso, ou por estar ainda desacostumado com a nova geografia desnuda do apartamento, tropeçou no aparelho de som largado no chão.

Foi então que algo muito estranho aconteceu. Não terei pejo em contar somente porque sei que a vida oferece acontecimentos aparentemente surreais para a nossa vã filosofia, mas o fato é que, com o impacto, o rádio ligou. E no dial marcado estava um programa dedicado ao folk americano. E o módulo era do America. E estava tocando exatamente Tin Man. Acreditem, essas coisas acontecem.

Ouviu a meia hora que restava do programa ali mesmo, em pé, no meio da sala escura. Foi ao quarto, pegou o violão e tocou Tin Man do jeito que sempre sonhara tocar.

O dia mal nascera e ele já estava ligando para a ex, dizendo que sentia muitíssimo terem ambos perdido tanto tempo em suas vidas. Pegou uns classificados antigos e procurou um professor de violão.

Abriu as janelas.




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quinta-feira, 16 de agosto de 2012

MORAR E VIVER >> Fernanda Pinho




Morar todo mundo mora. Até os moradores de rua moram. Ao longo da vida a gente costuma morar em vários lugares. Lugares bons até. Mas alguns, não bons o suficiente para que o morar seja promovido ao viver. E ser um lugar bom para viver (e não simplesmente morar) nada tem a ver com dinheiro e outras superficialidades. Tem gente que mora em mansão. Tem gente que vive em favela.

Morar é estar num eterno desejo de mudança, ainda que não existam planos concretos para sair dali. Viver é construir o quarto para quando vier o bebê, ainda que não existam planos para uma gravidez.

Para o lugar que a gente mora compramos um vaso de planta para o hall de entrada que orna com a cor da parede. No lugar onde a gente vive plantamos uma palmeira que vai demorar dez anos para crescer.

No lugar onde a gente mora descobrimos um restaurante superbacana na rua de trás. No lugar onde a gente vive,temos uma panela de pedra guardada no armarinho lá de fora que é perfeita pra fazer o frango com quiabo igual o da vovó.

No lugar onde a gente mora chamamos o eletricista porque a água do chuveiro ficou gelada de repente. No lugar onde a gente vive temos uma gambiarra na instalação do chuveiro que é só dar um toquinho que a água sai pelando.

Morar é adorar viajar. Viver é amar voltar pra casa (de preferência, cheios de bugiganga para a decoração). Morar é visitar os amigos constantemente. Viver é querer ser o anfitrião. Morar é manter os livros antigos eternamente encaixotados. Viver é encher a casa de prateleira, com livro pra todo lado.

A casa onde você mora é uma gentil conhecida. A casa onde você vive é a amiga íntima. Morar numa casa é caminho. A gente mora com o cérebro. A gente vive com o coração. Viver numa casa é chegada. Morar é ter vizinhos. Viver é ter parentes mais próximos. Sobre a casa onde moramos, contamos casos. Morar é economizar para o futuro. Viver é não conseguir dar uma volta na rua sem adquirir um novo apetrecho para a casa. Sobre a casa onde vivemos, contamos histórias. Você mora em uma casa. Você vive n'A casa. Morar é estar satisfeito (mas nem sempre). Viver é estar feliz (sempre).

Imagem: sxc.hu

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quarta-feira, 15 de agosto de 2012

OS MESMOS >> Carla Dias >>

Tem gente que sente fome de tempo, e vive lutando com a vida para garantir um direito inexistente, o de manter-se o mesmo. Isso não é direito, parece-me até meio torto, porque manter-se o mesmo remete à canção de melodia descuidada, ao verso em loop, à repetição. Manter-se o mesmo não é direito, mas vai contra o direito nosso de nos construirmos a cada dia, porque a vida nos influencia de tantas formas, e nem sempre nos damos conta de tais inspirações.

Ainda ontem, a vida cochichou algo em meus ouvidos. Meu corpo - há anos acostumado ao ritmo de quem trabalha sentada por quase doze horas ao dia, contemplando o horizonte da tela do computador - lembrou-se de alguns tombos que levou quando eu andava de carrinho de rolimã e brincava de queimada com as irmãs e as primas. E das vezes em que sonhou, escondido e baixinho, em ter coragem, como tinham suas tias e mãe, de pendurar no cipó da mata que ficava no fundo do quintal. De balançar com o vento. Isso eu não fiz, faltou-me coragem.

Não nasci para os esportes radicais de quintal.

Mas eu nasci para a vida, assim como nasce cada ser humano. Ao longo de sua jornada, a pessoa aprende que a transformação não é apenas natural, mas também rica em entendimento. Nem todos acreditam no espírito que habita o corpo e que pode continuar sua jornada após a morte, e eu respeito tal crença. Só que seria, para mim, imensamente doloroso imaginar uma vida que termina com o corpo. Porque mesmo este que já brincou em balanços de cordas penduradas em árvores, que carregou baldes e mais baldes de água, escada acima, para fazer comida, tomar banho, lavar louça e chão, que já encarou horas dançando na sala com as amigas, apesar de hoje estar fragilizado pela sua condição de sedentário, ele compreende a importância de ser casa da essência. Templo do que nos inspira, nos magoa e nos alegra, do que nos faz aquele que compreende que não há como manter-se o mesmo, e alcança o alívio.

Na condição de não ser mais a mesma que era há alguns segundos, de permitir-me transformar pelas pessoas que me cercam, pelas situações que eu vivo, pelas ambições modificadas, pelos sonhos descontinuados e pelos renascidos. Na condição de pessoa, ser humano de espírito mais desbravador que sua casca, pensamentos mais livres que seu corpo, em horário comercial, digo, a quem estiver disposto a me ouvir, que pode até parecer que não aos que me observam de longe - torcendo seus narizes ao visualizar o que reza o meu currículo e questionando por que o que sabem sobre mim não bate com o que enxergam – que sim... Eu existi ontem, existo hoje, amanhã... Quem sabe?

Eu existo e sou uma e outra e outras tantas a cada dia, a cada hora, a cada instante. E todas que sou moram em mim, nem sempre em plena harmonia, mas certamente em paz por jamais serem as mesmas.




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terça-feira, 14 de agosto de 2012

NÃO LEVE A SÉRIO >> Clara Braga

Estava assistindo a umas entrevistas com escritores diversos, e eles respondiam, em ocasiões diferentes, o que é escrever e o que os motiva a escrever. As respostas foram das mais diferentes e interessantes possíveis, mas duas me chamaram mais a atenção, não por serem melhores, mas porque me identifiquei com elas.

Um deles dizia que escrever é colocar uma palavra após a outra, depois outro complementa dizendo que, após colocar uma após a outra você começa a lapidar a fim de chegar até o ponto que te interessa, da forma que mais te interessa. E o outro dizia que escrevia para tornar a vida dele mais interessante. Tem resposta mais genial que essa?

Eu adoro colocar uma palavra atrás da outra, principalmente para falar sobre coisas que me aconteceram ou sobre coisas que eu penso. Mas não dá para falar de qualquer jeito, pra contar algo a gente tem que mudar nosso olhar sobre as coisas. Não dá para ver todos os acontecimentos como simples acontecimentos do cotidiano e contar como coisas bobas, que acontecem com qualquer pessoa. Tem que enxergar os acontecimentos como momentos únicos, momentos realmente interessantes, tão interessantes que você não pode nem guardá-los para si, você sente a necessidade de compartilhar isso com muitas outras pessoas.

E acredito que o que torna esse fato sobre o qual você resolveu escrever ainda mais interessante seja o fato de outras pessoas lerem e também acharem interessante, aí sim chegamos ao nosso objetivo e a missão foi cumprida.

É bem verdade que às vezes, para que seja realmente interessante contar e ler algo, a gente precisa aumentar um pouco a história aqui, um pouco mais ali, sem que se torne uma mentira, até porque, como diria Maria Gadu, “quando mentir for preciso, poder falar a verdade”, e se você mente sobre algo tornando isso interessante, quando descobrirem a verdade, já era, a história perde totalmente a graça.

Mas acho que é isso, todo mundo que escreve é um pouco mentiroso, não porque mente de fato, mas porque aumenta um pouco aqui e um pouco ali. Por isso, a todos que gostam de me ler, digo que acreditem em tudo que eu digo, mas não me levem muito a sério.

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segunda-feira, 13 de agosto de 2012

A HERRANÇA >> Albir José Inácio da Silva

Bertinho voltou a Paracambi depois de três dias no Rio, segundo ele, procurando trabalho. Estranhou os olhares curiosos. Curiosos? Não, ele podia jurar que eram respeitosos. Isso nunca aconteceu antes e tratou de aproveitar. Estufou o peito e foi retribuindo os cumprimentos, que também sabia ser educado.

Não que fosse maltratado, afinal aquela cidade o vira crescer. Mas era mantido a meia distância. Tinha fama de não gostar do batente, pedia muito e pagava pouco. Rolava as dívidas para quando arranjasse trabalho, mas nenhum lhe servia.

Essa sua ida para o Rio tinha deixado os vizinhos revoltados. Conseguiu desfalcar, choramingando, a pensão de uma pobre viúva: tinha que viajar para fechar um ótimo emprego na Barra da Tijuca. Agora voltava reafirmando sua má sorte. O trabalho já era seu, mas na última hora o patrão deu pra trás.

Mas, para sua surpresa, dessa vez a desculpa não provocou a indignação de sempre.

- Não ligue não, Seu Bertim, Deus sabe o que faz. – consolou a viúva desfalcada, com apoio dos outros vizinhos – Quem sabe o senhor não precisa mais trabalhar?

Alguma coisa estava errada. Ninguém o espinafrou, ainda era chamado de senhor e consolado. Os cumprimentos continuaram. As pessoas apertavam sua mão, perguntavam pela saúde, pela mãe e despediam-se com sorrisos e tapinhas. Não queria perguntar, mas provocou o carroceiro:

- Tudo bem, seu Zé? Alguma novidade.

- Eu que pergunto: o que o gringo queria?

- Que gringo, seu Zé?

- Inda não sabe não? Desde ontem anda por aí, debaixo de uma sombrinha, um branquelo suando muito e falando enrolado que ninguém entende. Queria falar com você. Deve tá lá no hotel se abanando.

Bertinho não achou o gringo no hotel, mas viu, no Bar do Chico, copos levantados em sua homenagem. Entrou aplaudido, enquanto Chico dava brilho numa mesa e segurava a cadeira pra ele.

- Moela pra tira gosto, Seu Berto, que eu sei que o senhor gosta. E essa cerveja tá queimando de gelada!

Ora, ora, ora! Alguma coisa estava acontecendo. Não que não se achasse merecedor daqueles mimos. Tinha sido incompreendido durante a vida toda. Mas o que é que abriu os olhos dessa gente.

Chico esqueceu os outros fregueses e ficou por ali, paparicando.

- Oh Chico, que mal lhe pergunte, eu sei que você é uma pessoa gentil, mas por que está me tratando desse jeito?

- Ora, Seu Berto, está na Bíblia: “Dai a cada um o que lhe é devido: a quem tributo, tributo; a quem temor, temor; a quem honra, honra”! A gente tá sabendo que agora o senhor entrou na nobreza, vai virar Conde, e pode comprar até a cidade se quiser.

Sempre bajulando, explicou que o gringo veio lá do estrangeiro procurar o sobrinho e herdeiro de uma condessa de nome esquisito, que morreu e deixou riqueza que não dá nem pra contar.

Bertinho não entendia, mas entendia. A cabeça rodava. Faltou ar e ele fazia caretas pra respirar. Abriu a boca mas a voz não saiu. Seu coração sacolejava. Sempre soube que tinha alguma coisa de nobre. A prova era a inveja que sempre lhe dedicaram. Agora a justiça divina se cumpria.

À frente de umas quatro pessoas, entrou no bar um louro cansado e vermelho com uns papéis na mão. Foi direto à mesa de Bertinho:

- A senhorr é a Senhorr Perreira?

- Sim, senhor. Alberto Pereira, às suas ordens!

Já com a carteira de Bertinho na mão, o alemão balançou a cabeça.

- Ah não! Não é a senhorr. Não escreve igual esse. Procurro a senhorr Parreira, Humberto Parreira – e levantou o papel.

Chico retirou o prato, a cerveja, os copos. E rosnou:

- Não esquece que a senhorr já tem uma pendurra, seu Perreira. Há seis meses!


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domingo, 12 de agosto de 2012

UNS VERSOS >> Junoca

Meu pai me pediu uns versos...

Primeiro pensei em fazê-los de fumaça, saindo em espirais suaves de dentro de meus dedos.
Mas eu não fumo, não sei como fazê-los.

Depois pensei em fazê-los de símbolos gravados em cartas ou em tabuleiro.
Mas confesso que me chateia jogar com meu pai e nunca ter como vencê-lo.

Pensei até em fazê-los de água — ardente — descaradamente embriagadores.
Mas meu pai não bebe mais, e eu também não bebo.

Talvez pudesse fazê-los de estampado tecido, perfeitamente arranjado em gravata.
Mas não aprendi com meu pai a dar nó em pescoço.

Poderia fazê-los da saliva de histórias repetidas à exaustão em encontros de família.
Mas não sou bom de memória, e da próxima vez preciso estar mais atento.

Poderia mesmo fazê-los de silêncios, tão perfeitos quanto os de meu pai me acolhendo.
Mas meu pai me pediu uns versos, e preciso fazê-los.

Faço, então, meio sem jeito,
versos de todos os momentos,
— até aqueles de que não me lembro —
em que meu pai me carregou nos braços,
me levou pela mão,
me conduziu pela palavra,
me inspirou pelo exemplo,
me comoveu pela tristeza
e me guardou no peito.

Esse poema
— mesmo assim desajeitado —
é seu, meu pai,
É do ar do Pai.



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sábado, 11 de agosto de 2012

A TIA [Ana González]


Em meio a esta viagem de volta a minha casa chega a notícia já esperada. Ela se foi. Depois de uma cirurgia, quinze dias de UTI e a batalha entre diagnósticos controversos e notícias às vezes esperançosas. 

Ela foi referência em minha vida, como são todas as pessoas de que guardamos importantes lembranças, marcas de tempos que foram bons. Permanências que provocam um calor dentro de nós e que são fáceis de carregar.


São de outra espécie as lágrimas que correm dentro de mim, em forma de memórias se desenrolando lentamente num cenário interno acinzentado. Assim cinza é o meu choro começando a escorrer devagarzinho dos meus olhos que seguem as paisagens rápidas se movendo na janela deste ônibus que me leva. Eles não estão mais secos como estavam no tempo da espera. Espera do fim, do inominável. É começo de noite e a lua –imensa e cheia - despeja um clarão suave sobre meu colo. Prata líquida.

Foram muitas as férias na infância no interior de Minas, com queijos na casa em estilo anos cinqüenta, beleza inesperada na pacata cidade. A sobremesa com bolachas, creme e cobertura de chocolate. Lembro-me de uma das primas recém-nascida no berço. E a tia ainda tinha espaço para visita.

Na adolescência, a cortina na janela avisava que o almoço estava pronto. Hora de sair da praia. O mexido mineiro de arroz e feijão com ovo. A lasanha, o pudim. Tudo rápido. Ela tinha jeito especial para fazer as coisas. O humor sempre pronto a resolver todas as questões. A vida era leve a seu lado. Era a tia das férias.


No leito do hospital, ela estava desfigurada e com as marcas de um  sangue coagulado pela face, a tingir os dentes em sua boca entreaberta. Ela não parecia a mesma pessoa. Viva? A vida e a morte assim tão próximas nos ensinam que a medida do nosso tempo é inexorável. Somos muito pouco, quase pó. Somos pó.Na idade adulta, ela tinha outro diálogo comigo. E ouço ainda seu conselho:  “Cuide de você. Vive a sua vida, filha.” Eu não posso imaginar qual seria o discurso implícito que haveria atrás de suas palavras. Mas havia muito amor, com certeza.  


Os últimos momentos que vivi com ela não parecem se enquadrar nessa história de alegrias e de muito afeto. A velhice doente, o corpo desfigurado na cama de um hospital, os olhos fechados, a boca muda. Mas, talvez este texto possa ser uma resposta para a perplexidade da morte. Talvez ele seja uma espécie de salvação. Quem sabe possa também diminuir o luto e a tristeza.


Passo minhas mãos pela sua cabeça. Procuro sua mão pequena que apresenta uma pele macia e delicada. Manchas roxas pelos braços me contam de uma dor que ela não sente mais. Uma dor impossível de ser medida. 
Mesmo assim ainda tento conversar com ela, nessa que foi a última visita, como se fosse possível uma linguagem compreensível na escuridão da inconsciência. Posso ouvir com clareza o som de sua voz, posso compor o tom e o ritmo de sua fala, posso acompanhar sua risada. Sim, sua risada clara a brincar com a vida e a presença de seu humor. Imagino que ainda posso rir com ela.

Obrigada, tia.


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sexta-feira, 10 de agosto de 2012

NÃO SEJA UM CHATO HOJE À NOITE
>> Leonardo Marona

eram dez da noite de um domingo nevoento e fresco, estranho à natureza da cidade, e eu estava prostrado numa cama rangente assistindo a ridículos programas de auditório e pensando serei despejado mas não consigo me mexer, estou paralisado pela ansiedade quase infantil quase entusiasmada de não ter finalmente casa e ser apenas pele em movimento apocalíptico mas também com muito medo e eu então pensava preciso me apaixonar ou será o pior fim já que tanto o desespero quanto a paixão levam à mesma ruína mas antes morrer de paixão porque assim ao menos escreverei pequenas cartas e quem sabe assim as coisas não ficariam mais tranquilas ou pelo menos desimportantes e foi justamente nessa hora quando na TV dois travestis disputavam um quiz show de perguntas e respostas no programa do Silvio Santos que você que nunca liga telefonou com o simples convite de vamos até a Praia do Arpoador? e eu disse não estou em casa e nem me sinto bem mas você estava tão animada extremamente animada acho até que pude escutar pequenas risadas que espirravam feito molho de tomate em roupa branca risadas de efusão lírica tão típicas de algumas divas cantoras mas não você em geral que provavelmente ria do meu mau-humor ou da minha depressão porque de fato, pensei, eu era uma pessoa totalmente risível e talvez fosse este o meu único e irremediável charme minha única cartada mas eu não usaria isso agora com você eu diria qualquer coisa como não seria perigoso ir à praia a essa hora? ou será que eles têm uma iluminação apropriada? e com muita ousadia para o seu comum estado de espírito você diria te apanho em dez minutos não seja um chato hoje à noite e muito bem, pensei enquanto te esperava, vestirei aquele short curto demais mas eu sabia que você havia apreciado minhas coxas de siciliano matuto e eu até escovei os dentes porque a tristeza cheira a morte dentro das bocas que se negam a aceitá-la e quando você chegou eu estava no lugar errado havíamos combinado em frente aos bombeiros mas você estava no lugar errado e eu pensei sempre estivemos nos lugares errados e alguns rapazes que bebiam na esquina inclusive assobiaram fazendo pouco caso do meu short curto mas eu não dei bola porque essa é a sorte de se estar deprimido ficamos delicados e indiferentes e todos dizem oh como você esteve agradável aquela noite e eles mal sabem o quanto preferiríamos gritar grosseiramente e escarnecer os céus com uma felicidade abrasadora de todo modo ali estava você com seus antológicos dentes separados e suas pernas brancas muito finas e seus seios quase pequenos mas que encheriam as mãos de um anãozinho e seus cabelos que, você disse, cortei meus cabelos veja eu raspei os cabelos aqui do lado e ainda me ofereceu biscoitos antes de darmos a partida pelo que eu disse detesto biscoitos de qualquer tipo e você disse minha mãe os comprou na feira da Glória e por isso eu comi um deles e eram realmente maravilhosos biscoitos de champanhe com recheio de doce de leite e eu lembrei pela primeira vez no dia com carinho de alguém e este alguém era sua incrível mãe a quem eu sempre me declaro mas nunca a ela e sempre a você como uma forma um tanto idiota de declarar-me a você mesma e de alguma forma eu acho que você entendia a mensagem e nós saímos e meu deus como você dirige mal e brutalmente avança diante dos carros e dos pedestres e quase sempre perdia a direção do veículo e eu dizia cuidado por deus podemos morrer e você justificava dizendo a minha mãe trocou os pneus do carro e não balanceou pelo que eu imediatamente perdoei tudo como era meu dever e minha função quando alguém dizia minha mãe fez isso ou aquilo porque eu sempre perdoei as mães na verdade de qualquer abuso e antes que morrêssemos num acostamento qualquer chegamos à praia e eu disse ainda antes que estacionássemos eu ia te ligar hoje mas desisti e nessa hora você teve um lampejo de você mesma ou a você mesma que eu sempre imaginei dizendo ora você poderia ter guardado isso para si e eu disse mas somos amigos e os amigos podem falar qualquer coisa e você aceitou dessa vez calada e quando eu perguntei se tomaríamos banho de mar você falou eu trouxe meus patins e eu disse não sabia que você tinha patins e você disse comprei os patins recentemente e sempre andei de patins mas já faz tempo que não e eu falei patins não são como bicicletas pode ser muito perigoso e você disse mais uma vez não seja um chato hoje à noite pelo que eu me calei um pouco porque já li em muitos livros grandes escritores dizendo devemos falar o mínimo para colher as coisas sem culpa mas você estava falante e andamos na areia um pouco e na areia havia muitos casais gordinhos namorando e eles mal conseguiam se abraçar com suas barrigas protuberantes mas era tão bonito aquele romantismo difícil que tive vontade de te puxar pelos cabelos e beijar tua boca mas me contive porque já não sou mais tão gordinho para me manter romântico e você afinal é bem magra então comecei a fumar cigarros e você comentou como você fuma e eu disse eu detesto cigarros mas fico tão charmoso fumando etc e você disse você é a única pessoa que fuma no meu carro sem pedir permissão e eu disse somos amigos afinal e você riu e eu pensei eu preciso me apaixonar ou será o pior fim mas não havia brechas éramos como policiais vigiando os casais gordinhos que começaram a abotoar as camisas e fechar as calças enquanto começamos a rir da nossa patrulha aos gordinhos amorosos e ao mesmo tempo você começou a recolher tampas de garrafas e sacos de biscoito e disse é um trabalho inútil mas eu falei seria útil se você fizesse todos os dias e finalmente voltamos para o asfalto quando você disse triunfante agora você vai ver meus patins novos e eram realmente belos patins, eu disse, mas você estava triste de repente porque havia perdido um par de meias e disse são minhas meias preferidas e eu não sabia muito bem o que dizer afinal nunca tive meias bonitas só meias cinzas pretas brancas encardidas mas você ficou visivelmente frustrada e disse que frustrante enquanto eu roía as unhas e jovens mais jovens do que nós ouviam música eletrônica dentro de um fusca quando eu disse você vai mesmo andar de patins a essa hora? não era melhor de dia? pode ser muito perigoso e se você cair? e você disse você pode se juntar àqueles idiotas dentro do fusca mas eu disse apenas tome cuidado vou estar aqui te observando e lá foi você com um só par de meias vestindo seus patins e explicando com orgulho comprei esses patins apenas porque eram muito bonitos e eu perguntei onde você os comprou e você disse no shopping chão ou algo do gênero e eu perguntei o que diabos é o shopping chão e você se inflou, me lembro, para dizer que era uma feira de rua na Glória onde os mendigos vendiam velhas bugigangas e com uma meia apenas lá foi você com seus patins equilibrando-se muito mal até a pista expressa e de lá saiu patinando como alguém que tinha feito cocô nas calças mas eu não ri apenas disse você deve trabalhar o movimento dos braços junto com o das pernas para não perder o equilíbrio e você respondeu cacete eu não patino há anos e você me diz isso mas eu falei eu disse apenas para você se sair melhor e você mesmo contrariada fez o que eu disse e eu vi com a cabeça apoiada e algum sono você desaparecer pela pista expressa e pensei meu deus ela ainda precisa voltar e fiquei vendo uma loira abraçada com um gordinho e pensei os gordinhos ainda vão dominar o mundo até que depois de algum tempo você voltou entramos no carro e fomos embora em silêncio e você me deixou em casa e a coisa mais linda me esperou entrar porque afinal aquela era uma área perigosa e eu pensei espero que ela encontre a outra meia e no dia seguinte você me ligou aos gritos dizendo encontrei a outra meia você foi muito agradável é um milagre e eu pensei preciso me apaixonar mas a verdade é que não precisava mais.


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quarta-feira, 8 de agosto de 2012

FASCINAR-SE É PRECISO >> Carla Dias >>

Com que clareza verbaliza delícias, com palavras dedicadas ao auxílio necessário à realidade, para incrementá-la com o fantástico de experimentar fascínios. Fascinar-se é coisa séria, por vezes difícil, delicada no sentido que nos faz temer a incapacidade de realizar essa busca efêmera. Porque o fascínio, quase sempre, chega e passa com a velocidade de uma noite bem dormida. Porém, quando se estende para a eternidade daquilo pelo qual nos apaixonamos, bem, o fascínio ultrapassa a duração e se eterniza na gente.

Como o meu fascinar, que é de moça despreocupada com o zelo emocional, que sai sentindo sem pedir permissão a si mesma, dando pouca importância ao quanto pode doer o próximo tombo. A julgar pela facilidade do meu sentir, diria o poeta do bairro, a empunhar copo americano cheio de destilado, lá no boteco da esquina, que sou uma devassa emocional, uma meretriz desavergonhada e de unhas cravadas no sentimento. E por meio da poesia do poeta bêbado, meus sentimentos se tornariam embaraços, pecados, delícias submersas por falseado pudor.

Porém, aqui estou. Trabalhando no meu emprego desde sempre, fabricando artesanalmente e vendendo velas pelas ruas da cidade, acreditando completamente que há importância na minha labuta. Porque o religioso necessita da iluminação para espiar os seus pecados, algumas donas de casa, depois de esquecerem ou não poderem pagar as contas de luz, precisam alumiar a casa, antes de colocarem os seus rebentos na cama. O intelectual, decidido a levar uma vida humilde que lhe ensine a ser rico por dentro, precisa das velas para ler seus livros, rabiscar seus pensamentos.

Apesar da luxuriosa vida emocional que levo - porque sinto tudo de jeito aumentado, amo e odeio com a força dos que vivem dos temporais -, o que procuro achei onde não devia. Só que me fascinei e depois de feito não há quem ou que desate esse nó. Eu me esparramo na vida, mergulho no sentimento e me permito experimentar, sem zelo, o tudo do quase nada que recebo. E só porque me chamou de “aquela que traz a luz”, roubando a minha atenção. Porque assim me ofereceu a iluminação que não cabe às pessoas que nasceram para o quase nada, feito eu, a contraventora que não engoliu o destino que a escolheu e se atreveu a fascinar.

Minha mãe sempre maldisse o amor. Cresci aprendendo o quanto esse sentimento fragiliza, imbeciliza, aprisiona. A missão dela se tornou desacreditar o sentimento, enquanto se afundava em um, só que dos que não oferecem alegrias, em meio aos desapontamentos. A mágoa toda era por ter sido abandonada, e mulher abandonada, isso aprendi sozinha, pode ser cruel com aqueles que querem amá-la e principalmente consigo mesma. A amargura de minha mãe, ao contrário do que ela insistia em me fazer aceitar, só fez crescer em mim a necessidade de me fascinar. Só fez moldar o meu espírito para aceitar o pouco oferecido e não renegá-lo.

Sou o projeto de minha mãe que deu errado.

Eu já me fascinei de tantas formas, e tantas vezes, que a cartomante, na última leitura que fez para mim e que me custou cinco velas, mostrou-se preocupada comigo, porque “exagero, moça, essa coisa de fascinar tão fácil é malandrice do coração, cuidado!”.

Contei ao poeta de boteco sobre a leitura da cartomante, e por duas velas, ele fez um poema para mim sobre meu coração malandro, minha ousadia emocional, minha fascinação atual. O dono do boteco, violonista autodidata, sentou-se conosco à mesa, empunhou seu violão e musicou o poema. Em algumas horas, minha fascinação se tornou canção. E enquanto a garçonete cantava as palavras do poeta e se embrenhava na música do dono do boteco, meus olhos continuavam acampados naquela vista.

Do outro lado da rua, pela janela da casa simples, eu o observo sentado de frente à bancada, as mãos se movendo como se fossem dançarinas de balé. Na cidade, ele é conhecido como fazedor de fugas, porque seu ofício é criar barcos à vela que levam embora aqueles que jamais voltam. Passei muito tempo imaginando por que também ele não se aproveitava de seu talento e partia daqui, em busca de uma vida com mais sabor e oportunidades. Mas isso foi até o dia em que, depois de lhe vender dez velas, saí de sua casa e parei à porta, o coração acelerado, o olhar ainda encharcado com o gesto atencioso dele em abrir a porta para que eu saísse da casa. Enquanto esperava meu corpo se acalmar e minha alma se embrenhar em mais uma fascinação, eu escutei seu tio, e também assistente, perguntar-lhe por que ele não ia logo embora da cidade, por que não mudava a sua vida para melhor e deixava para trás esse fim de mundo. Lembro-me do silêncio que se seguiu, breve, mas significativo. E o fazedor de fugas disse, a voz entrecortada pela emoção do afeto, que ele acreditava mais nas velas que iluminam do que nas que abraçam o vento para concluir partidas. O tio resmungou, entendendo nada do que o sobrinho dizia. Eu sorri, caindo de vez no abismo da fascinação.

O poeta rancoroso e descrente diz que eu sou uma desmiolada, onde já se viu se permitir fascinar desse jeito?  Que minha mãe tinha razão ao me educar como educou, mas que deseducada que sou, aprendi tudo errado. E que agora eu trago para a minha realidade o que deveria ser apenas poesia. Mas se engana o poeta, ele que não conhece bem o próprio dom. A poesia nasce do que já existe, mas ainda não sabemos explicar. Nasce do que desejamos, mas não bastam as mãos para pegá-lo. Nasce do outro, para o outro, pelo poeta. Nasce antes, durante e depois. Nasce da contemplação do que poderia ser, que talvez nunca seja, mas a simples ideia de sua existência alimenta a alma de vontades.

Fascinar-se é possível, pode ser bom, ainda que seja um risco. 

Fascinar-se é preciso. 

Imagem: stock.sxc.hu 




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terça-feira, 7 de agosto de 2012

VAMOS INVESTIR NOS PSICÓLOGOS!
>> Clara Braga

Eu sei que as olimpíadas ainda não terminaram, mas vamos pensar longe. Daqui até as próximas olimpíadas, nós temos 4 anos, e isso é tempo mais que suficiente para nos prepararmos.

Os atletas vão se preparar acertando as coisas que deram errado nessa olimpíada, vão treinar bastante enquanto outros vão se aposentar, já deram tudo que podiam. E nós vamos nos preparar psicologicamente para recebermos as olimpíadas aqui no Brasil. Alguns vão se preparar apenas para torcer, mas outros vão se preparar para trabalhar — parece que muitos empregos serão gerados...

Eu acho que, diante dos resultados dessas olimpíadas, nós devíamos pensar em investir mesmo nesses novos empregos. Investir em preparar pessoas para falar diversas línguas, inclusive libras, preparar as pessoas para dar informações nos aeroportos, preparar os hotéis e assim por diante. Mas confesso que acho que tem uma profissão na qual deveríamos investir com força: nos psicólogos.

Não que eu ache que vai ser tudo tão conturbado e complicado que todos vamos precisar de psicólogos para passar por essa fase. De fato, acho que vai ser uma confusão, no bom sentido (ou não), mas quem realmente precisa de psicólogos são os atletas brasileiros.

Vamos analisar algumas performances. A equipe feminina de futebol sempre começa jogando muito, surpreendendo todo mundo, mas quando chega a fase em que não se pode mais perder parece que elas se sentem pressionadas. Mesmo jogando melhor que o outro time, elas perdem e voltam para casa. Vai dizer que não é um caso dos bons para um psicólogo?

A ginástica também é um caso complicado. Parece que só ganha quando ninguém tem expectativa nenhuma em relação a algum ginasta. Diego Hypólito é um caso seriíssimo! Falou que são as olimpíadas e parece que ele se treme todo e pronto, vai pro chão. Sei que a pressão de estar em uma olimpíada deve ser grande, mas gente, se ele passar 4 anos treinando e também se tratando com um psicólogo, acho que ele consegue ficar em pé. E, se possível, seria bom passar essa dica para a irmã dele também.

Mas a pior desse ano foi a história do vento de Fabiana Murer. Alguém lá no céu não foi muito com a cara dela e só na hora em que ela foi pular mandou um vento muito doido? Confesso que não entendi...

Bom, mas sem querer ser crítica demais, acho realmente que vale a pena investir em um psicólogo, afinal não deve ser fácil esperar por algo durante 4 anos e ser impedido de chegar ao seu objetivo por causa do vento...

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domingo, 5 de agosto de 2012

EM NOME DO PAI >> Whisner Fraga


Vivíamos numa penúria danada, à base do feijão com arroz dia sim dia não, do tipo que brincam por aí: vendendo o almoço para comprar a janta. Não tanto por culpa nossa, pois tínhamos uma casinha alugada, o que nos garantia um bife de vez em quando. Só que o inquilino não pagava o aluguel há três meses e minha mãe, divorciada, não sabia mais o que fazer.

Ela já havia tentado um diálogo, mas a coisa empacara. O sujeito argumentava que não ia pagar o aluguel porque não. Boa justificativa ele trazia. Então, como um dos homens da casa, resolvi correr atrás e ligar para o sujeito, cobrando. Atendeu a filha do malandro, na maior calma do mundo, me perguntando o que eu desejava. Disse que queria falar com o pai dela. Qual o assunto? Respondi: É particular, só com ele mesmo. Ela rebateu: sendo assim, não vou chamá-lo. Claro que ela não falou com essas palavras, até porque seu português era bastante limitado. Mas foi mais ou menos isso.

Tive de adiantar o assunto: que ligava para cobrar três aluguéis atrasados. Então, a surpresa, ela começou a soltar uma série de impropérios, que iniciou assim: você sabe quem é meu pai? Eu e mais de metade da cidade sabíamos, pois ele era um político de carteirinha, mas não era por aí que conseguiria algo. Nas cidades pequenas, provincianas, isso acontece: uma família ganha fama, um sobrenome adquire importância, principalmente por estar ligado, em algum momento da história, a dinheiro e poder, e se utiliza disso sempre que pode.

O fato é que honestidade é honestidade e estavam querendo nos passar a perna e, ali, uma arrogantezinha me perguntava se eu sabia quem era seu pai. Eu brinco com meus amigos que a raça humana não merece nenhuma chance não, tinha de ir para o beleléu o mais urgentemente possível. A coisa mais linda do mundo é alguém em seu “leito de morte” percebendo o verdadeiro alcance de sua força.

Eu não sou vingativo, de vez em quando xingo alguém, me revolto, mas no mais das vezes adoro ficar calado no meu canto, observando a vaidade dos homens. Acho que dão muito valor a essas bobagens. O que é um sobrenome senão uma fantasia herdada independentemente da nossa vontade? Eu achei muito injusta aquela atitude, mas hoje sei que é a vida. Não à toa presenciamos constantemente o quanto ela vale hoje, essa vida, nas cenas de violência nos jornais nacionais por aí.

Não fui totalmente justo ao dizer que essa história de família é prioridade do interior. Nas capitais isso acontece também. Daí que, quando me perguntam por que tirei um sobrenome do meu nome artístico (meu nome completo é Whisner Fraga Mamede e meu nome artístico é Whisner Fraga), eu acho a pergunta tão despropositada, que nem sei o que responder. Foi só uma escolha sonora, se eu for ponderar. Mas imagino que se eu me chamasse João das Oliveiras, não faria diferença alguma e gostaria de ser lembrado pela minha luta cotidiana para me tornar um ser-humano digno e justo. E nisso, eu poderia me tornar até folclore. O resto seria até preferível que esquecessem.


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sexta-feira, 3 de agosto de 2012

ESCOLHAS >> Zoraya Cesar


Um casamento desfeito, tentativas malfadadas de namoro e um certo comodismo resultaram em seis anos de vida sedentária e vários quilos a mais. Sozinha em casa, devorando um enorme prato de macarrão, ela, mais uma vez, repetiu a si mesma que aquilo não era vida. Preciso voltar a sair, pensou, conquistar novos espaços, ir audaciosamente onde nenhuma mulher jamais esteve.

Como sabemos todos, quem pede recebe. Mal terminara de comer o pudim, e uma amiga telefona, oferecendo um convite para a festa de encerramento de uma campanha política, naquela noite mesmo. Ela vibrou. Suas preces tinham sido atendidas.

Isabelinha estava confiante de que iria roubar corações, arrasar quarteirões, arrebanhar solteirões (desquitados e até casados também serviriam. Depois de anos incubado, o monstro conquistador despertara nela, rugindo, querendo alimento).

Ela precisava comprar sapatos, roupa, fazer as unhas e... esperem. Façamos uma pausa, para conversar com os rapazes, a fim de que eles entendam melhor o drama de Isabelinha: quase tão difícil fazer tudo isso sem hora marcada quanto a vizinha gostosona de vocês bater à sua porta para conversar um pouquinho. 

Amarrotada e cheirando a suor alheio, devido à alta densidade demográfica do ônibus que pegou, Isabelinha finalmente encontrou o vestido perfeito para seus sonhos e seu orçamento. A vendedora, porém, sutilmente, deu-lhe a entender que ela não poderia experimentar antes de comprar. Isabelinha olhou-se no espelho: descabelada, a roupa amarfanhada grudando no seu corpo suado, os calcanhares sujos, para fora dos chinelos. Uma desolação, de cima a baixo. 

Dando toda razão à vendedora, não experimentou o vestido e o levou assim mesmo. Haveria de ficar bom, pensou, é o meu número, o vestido é lindo e tudo vai dar certo. 

Resolvida a não passar por outra humilhação, entrou no banheiro e lavou os pés na pia. E, num mecanismo compensatório que as mulheres conhecem tão bem, comprou as sandálias mais caras que viu: saltos finos e altos, enfeitadas por correias douradas. Vou parecer uma dominatrix, pensou, exultante. 

Então, a etapa final: cabeleireiro, coiffeur, hair stylist. 

Isabelinha, precisava de um milagre. Se quem pede recebe, quem procura acha, pois ela encontrou um salaozinho simpático, e foi atendida no lugar de uma cliente que passara mal e desmarcara.

Relaxada, fechou os olhos e cochilou. Há quanto tempo não se cuidava! Já nem lembrava como era bom ouvir o barulho do secador, sentir o cheiro dos esmaltes, do laquê. Laquê? Isso ainda existe? Ela abriu os olhos. 

Em volta, as clientes eram todas senhoras de avançada idade, os cabelos penteados em forma de capacete, tão duros pelo excesso do produto que pareciam impermeáveis. Algumas tinham o olhar meio baço, outras, dormitavam, uma tinha o cabelo azul. Provavelmente a cliente faltosa em questão morrera, por isso não estava ali. Seu cabelo estava igual ao delas e suas unhas, descoloridas por um bege mortiço, cor de carne morta, em vez do vermelho sedução que pedira. Não tinha essa cor e a senhora estava dormindo, resmungou a manicure. Essa é a cor da moda, completou. Isabelinha quase chorou. Aquilo não era um salão de beleza, era uma sala mumificadora.

Não havia mais tempo, o jeito foi seguir em frente. 

Ainda cheia de esperanças, sentindo-se antecipadamente irresistível, Isabelinha colocou o vestido, que deveria cair como o manto real sobre a princesa. Mas este envolveu-a num abraço apertado e plebeu, revelando todas as – muitas - pelanquinhas, e uma redonda barriga que, até então, Isabelinha jurava que não estava lá. Apelou para uma daquelas meias modeladoras que transformam qualquer gordinha desavisada numa sílfide, mas dificultam um pouco a respiração. Mero detalhe.

O desconforto estava quase insuportável, mas ela ficou esbelta, e toda mulher, no fundo, é uma estóica. Como desconforto pouco é bobagem, as lindas e caríssimas sandálias, que calçaram tão bem na loja, faziam seus pés escorregarem para a frente e para os lados, forçando Isabelinha a andar como um pato bêbado. Tudo bem, pensou, não preciso dançar, o importante era ir à festa. 

Que estava ótima, mas ela mal pôde perceber. A meia modeladora agora lhe provocava uma leve cãibra nas pernas e ela estava se sentindo a última das mulheres. E, para terminar, o único homem que lhe dera alguma atenção agora estava sendo abduzido por uma loura tipo capa de revista.

Voltou para casa, desconsolada, arrasada e dolorida. Jogou no lixo sandálias, vestido, meias, tudo. Não conseguia entender o que dera errado.

Sentou-se na frente da televisão, para assistir, mais uma vez, a um filme romântico. Um dia, pensou, comendo pudim entre grandes goles de refrigerante, vou estar magra e bonita e tudo vai dar certo. Confortavelmente reinstalada em sua vida anterior, Isabelinha desistiu de bater, já que a porta não se abrira da primeira vez, e colocou o monstro conquistador para dormir. 



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quinta-feira, 2 de agosto de 2012

NÃO ENCHE, ESTOU COM FRIO - O RETORNO >> Fernanda Pinho




Se você é um leitor fiel deste blog e com boa memória, talvez se recorde que, há dois anos, eu publiquei aqui uma crônica onde manifestava todo o meu desprezo pelo clima frio (se você é um leitor infiel, desmemoriado ou novato, pode ler tal lamento aqui).

Agora, exatos dois anos depois, venho me retratar humildemente e dizer que aquele texto não passa de um delírio inocente. Não, meus caros. Não fui flechada por um cupido de neve e acometida por um amor súbito pelo inverno. O que acontece é que minha nova realidade me fez constatar que aqueles 4554 caracteres não passavam de pura difamação, calúnia, injúria (algum advogado que possa me ajudar a diferenciar uma coisa da outra?) contra o ameno e, por isso, agradabilíssimo clima de Belo Horizonte.

Eu passava frio? Um friozinho besta talvez, na hora de entrar pro banho ou escovar os dentes. Aliás, naquele saudoso  e quente tempo, minha relação com a água se restringia às minhas atividades de higiene pessoal. Agora não. Agora sou uma dona de casa, vivendo em Santiago, cercada por uma linda, mas gélida cordilheira.

O difícil não é botar as roupas pra lavar, manter a cozinha em ordem e o banheiro impecável. O difícil é fazer isso com frio. Como é difícil também fazer exercícios físicos, sair para fazer compras, levantar da cama, pensar! Sim, porque no frio eu não penso. No frio eu traço estratégias. Estratégia para sair do banho e não sofrer um choque térmico, estratégia para colocar um casaco sobre o outro sem ficar parecendo um mascote de loja de colchão, estratégia para ficar o dia todo com a cara na estufa sem me constipar quando sair na rua, estratégia para a roupa secar sem ficar com cheiro de murrinha (o que é murrinha, gente?).

Óbvio, nem tudo é tragédia. A cidade está, de fato, muito linda, mesmo com cara de inverno. E assim é Santiago, com as estações bem definidas. Já a vi com cara de verão, cara de outono e agora, cara de inverno. A Cordilheira dos Andes branquinha de neve, parecendo paisagem de embalagem de chocolate suíço. Isso, do lado de fora. Aqui dentro, tenho o melhor cobertor de orelha do mundo, que me aquece a alma. Me deixa mais tranquila, menos reclamona e mais verdadeira. Verdadeira a ponto de confessar que só escrevi esse último parágrafo por medo de a vida me dar mais uma lição e me mandar pra Antártida no próximo inverno.


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quarta-feira, 1 de agosto de 2012

O TEMPO DO OUTRO >> Carla Dias >>

Posso me distrair em muitas áreas da vida, e essas distrações causarem mais mal do que bem, mas não quando se trata de reconhecer o que outras pessoas me oferecem, e não falo de coisas materiais.

Até a adolescência, minha mãe costumava costurar a maioria das minhas roupas. Lembro-me de que não entendia muito bem por que ela se dedicava tanto a algo que era somente para mim. Independente de ser minha mãe, e isso me garantir o cuidado na minha criação, ela também era uma mulher com uma vida corrida, um trabalho complicado e quatro rebentos pra criar sozinha. Ainda assim, ela encontrava tempo para costurar minhas roupas e fazer os devidos agrados às minhas irmãs e irmão. Cada um de nós recebia dela um tempo para usufruto próprio.

Acredito que foi assim que aprendi a importância do tempo que uma pessoa dedica a outra, não importa o quanto ou a situação. Talvez por isso seja meu hábito agradecer as pessoas pelo mínimo de tempo que gastam comigo, seja pelo entretenimento ou pelos reveses da vida. Também compreendo que, nem sempre, esse tempo é gasto na presença, o que não diminui a importância dessa oferenda.

Com a aproximação do lançamento do meu livro, o Estopim, decidi que faria uma divulgação diferente. Apesar de saber que marketing é a alma do negócio, fazer a coisa virar como eu queria tinha mais a ver com a minha admiração por determinadas pessoas do que pela divulgação do livro. Eu queria mesmo é que as outras pessoas conhecessem esses meus afetos e suas criações, seus olhares, a sensibilidade de sua arte. Obviamente, uma coisa resultaria na outra, mas dentro de mim a canção era sobre o tempo que essas pessoas que admiro profundamente dedicariam a me ajudar a contar um pouco da história do livro. Sendo assim, relutei em pedir a elas que me dessem esse tempo, ciente que estava – e sempre estarei – da importância que há em receber o tempo do outro.

Por um momento, achei-me extremamente sem noção por pedir algo do tipo a eles, apesar de serem amigos, pessoas que sabem da minha admiração por elas. Porém, depois de pensar muito, de me dar conta de que também ofereço meu tempo ao outro, decidi arriscar. E o resultado é um vídeo lindo que, apesar de ser classificado “de divulgação do livro”, é mesmo um tempo que ganhei de presente, belamente tecido por quinze pessoas muito bacanas.

Agora estou providenciando o segundo vídeo, e a experiência tem sido agradabilíssima. E também há a apresentação musical que haverá no dia do lançamento do livro.

A cada fase, surpreendo-me mais com a generosidade das pessoas. A honra de tê-las como companheiras nesse feito, e a gratidão que sinto por elas, são assim, como a honra que sentia ao ver minha mãe se sentar em frente à máquina de costura por mim. A gratidão que sentia por ela dedicar a mim um pouco do seu precioso tempo.



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