terça-feira, 31 de julho de 2012

APELOU PERDEU... >> Clara Braga

Quanto mais eu observo, mais eu percebo que não tem jeito, tudo que é bom tem um lado ruim e tudo que é ruim tem um lado bom, o que a gente faz é só medir as coisas. Se na medição o bom vence o mau, então a gente diz que algo é bom, e vice-versa. E quando dizemos que algo é sensacional é porque o lado ruim fica tão pequeno perto do lado bom que nem o consideramos, mas ele está lá.

Faz dois dias que comecei um estágio. A vaga é sensacional! Seis horas de trabalho variável, não vai prejudicar a faculdade e, o melhor de tudo, o que eu tenho que fazer é assistir filmes e dar a classificação indicativa dos filmes. Para uma cinéfila, não podia ser melhor. Mas devo dizer que para chegar até aqui não foi tão tranquilo assim.

Para mim, a pior parte de arrumar um emprego ou um estágio novo é o processo seletivo, principalmente se no meio do processo inventam uma dinâmica de grupo. Me desculpem as pessoas que gostam de dinâmica, mas eu acho que não podia existir nada pior para avaliar um candidato. Eu mesma nunca passei em nenhuma vaga que tinha dinâmica de grupo no processo seletivo, eu sempre fico mais calada, mais na minha e deixo os outros se matarem para conseguir falar ou resolver algo, ou seja, ninguém vai com a minha cara.

Nessa vaga de agora a primeira etapa era uma prova escrita, tudo que eu mais gosto, me dou melhor mesmo com a palavra escrita. Mas acabou que eu consegui passar na prova e precisei fazer uma entrevista. Foi exatamente como eu esperava, me deu branco, quase que eu não consigo responder o meu nome. Mas alguma coisa certa eu devo ter dito, afinal, consegui a vaga.

E então passei para uma outra etapa que também pode ser um pouco sofrida, que é conseguir toda a documentação e ainda correr atrás das assinaturas dos coordenadores do curso que estão de greve. Mas para mim isso nem é o pior, acreditem ou não. A pior parte de juntar a documentação é tirar a maldita foto 3X4.

Na boa, acho que alguém deveria fazer uma tese e pesquisar por que diabos ninguém consegue ficar bem em uma foto 3X4. E o pior de tudo é que essa última que eu fiz eu nem tinha achado tão ruim assim, achei aceitável, até a hora em que a moça que fez a foto olhou para as que já tinham sido reveladas, deu uma risadinha e disse: “É, não tem jeito mesmo né, a gente sempre fica horrível nessas fotos!”

Posso estar enganada, mas isso é comentário que se faça para quem vai pagar pelo seu serviço? Acho que não! E agora, toda vez que eu olhar para o crachá que mandaram fazer para mim com essa foto, eu vou lembrar desse maldito comentário sem noção.

Bom, tudo pronto, toda documentação certinha, é hora de começar. Vamos assistir filmes. E então o universo me lembra de que eu não sou tão sortuda assim. Até agora só vi filmes de pessoas mutiladas, corpos decapitados, rostos sem olho, pessoas sendo queimadas etc. Chegou ao ponto de ter uma cena em que o cara comia o próprio dedo e foi aí que meu estômago revirou.

É, de fato esse estágio é maravilhoso, não tenho dúvidas, mas acho que eu tinha esquecido do detalhe de que eu não vou assistir só a filmes de que eu gosto, vou ter que ver de tudo. Mas tudo bem, agora que já estou avisada vou começar a selecionar melhor o que eu como no almoço.

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segunda-feira, 30 de julho de 2012

MINHA FILHA VAI SER
>> Albir José Inácio da Silva

Assisti à reunião da escola preocupada com a hora. A gerente já avisou sobre os meus atrasos. Ainda tenho que chegar em casa, tomar banho e viajar durante duas horas até o trabalho. Mas não deixo de ir às reuniões. A escola me emociona. Principalmente quando falam da minha filha.

Nunca esqueço de como foi difícil reconquistar a guarda de Mariana, das coisas que ouvi na audiência, da vigilância até hoje, com visitas da assistente social e entrevistas no fórum. Cheguei a ficar sem ela por mais de um mês depois de tudo que inventaram sobre mim.

Assim que Mariana nasceu, tentei trabalhar como doméstica. Chegaram a me aceitar, mas não durou uma semana. Além do choro, que irritava a patroa, eu não conseguia completar as tarefas, tinha de amamentar e cuidar do bebê.

Além da juras de amor e das promessas de antes, o pai de Mariana nunca deu nada. Tinha mulher, filhos e uma militância religiosa que não podia ser manchada por filhos fora do casamento. No início pediu silêncio e prometeu ajuda material, desde que fosse em segredo. Durante três anos vivemos de doações porque a ajuda não chegava ou era insuficiente. Como eu telefonava pedindo ajuda, ele passou às ameaças e chegou a me agredir.

Com o escândalo, não havia mais aparências morais ou religiosas a proteger e o distinto mas vingativo senhor resolveu me tirar a filha. Uma farsa foi montada com depoimentos de várias pessoas que garantiram meu envolvimento com drogas e a presença de pessoas suspeitas na minha casa. Mariana, aos berros, foi entregue ao pai na sala de audiência.

Eu quis me matar mas não deixaram. Vivi de choro, calmantes e crises por um mês. Mariana também chorava, não falava e não comia. Depois não abria mais os olhos. O pai levou ao médico, que disse que ela ia morrer se continuasse assim. Ele voltou ao fórum e desdisse as mentiras. Fui chamada e me devolveram Mariana.

A pensão era uma miserável parcela de um miserável salário-mínimo, que foi quanto o pai disse que ganhava. A comida acabava ainda no início do mês. Foi quando vi o anúncio no jornal. Desconfiei do anúncio — muito dinheiro. Desconfiei, mas fui.

Não posso reclamar do trabalho. Agora Mariana não passa mais fome, tem roupa, tem escola e um sorriso lindo. Ruim é a gerente. Ela não trabalha mais, só manda. Parece que nunca trabalhou, persegue as meninas, e multa. Qualquer atraso nosso ou reclamação de cliente, é multa. Alguns clientes não são ruins. Conversam e me tratam como gente.

No trabalho tenho outro nome — um nome de trabalho. Não. Não foi isso que sonhei. Eu queria ser professora. Mas minha filha vai ser.

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domingo, 29 de julho de 2012

ESCREVA BONITO
>>Eduardo Loureiro Jr.

Àqueles que me ensinaram a escrever

Minha relação com a escrita não começou de forma promissora. Embora eu fosse um ótimo aluno nos tempos de colégio, minhas duas únicas notas abaixo de cinco, em toda a minha história escolar, foram justamente em Português, Redação, Ditado, ainda no 4º ano primário.

Alguns anos depois, quando o professor Tavares me devolveu uma redação com um 10 no topo da página, fiz uma cara de tanta surpresa que acho que ele pensou em reconsiderar a nota. Não faço a  mínima ideia do que escrevi ou de como escrevi algo merecedor da nota máxima. Naquela época meus interesses eram voltados principalmente para Matemática e Geometria.

A principal responsável pela minha aproximação definitiva com a literatura foi uma namorada, Giovana, que estudava no mesmo colégio que eu. Além de me apresentar àquele que, ainda hoje, é meu escritor favorito, Fernando Pessoa, Giovana tinha o hábito de me escrever pequenos bilhetes, aos quais eu respondia. Os bilhetes foram se transformando em poemas, alguns até em canções. Estava nascendo ali um escritor, embora eu não desconfiasse disso.

Logo que entrei na faculdade — de História, já que não me ocorreu fazer Letras —, fiz uma pequena oficina de contos e poemas com os escritores Isa Magalhães e Dioguinho. Durante aquela rápida semana, aprendi duas coisas importantes: que é possível melhorar um texto para além da inspiração e da emoção que o originou; e que a convivência com outros escritores ou aprendizes de escritor contribui para a quantidade e a qualidade de nossos textos.

Foi a convivência com um escritor, na época "apenas" um amigo, hoje um verdadeiro irmão, que causou o maior impacto em minha vida literária. Fabiano dos Santos, meu caro amigo Fabiano, me fez provar o gosto que as palavras têm por meio de versos como "Você passou / e feito pluma / jogou / um beijo em mim / me deixando assim / feito criança / quando ganha brinquedo. / A pluma bateu / no meu vidro / quase quebrando / o meu medo". Fabiano, meu mestre em poesia, me mostrou, por A mais Z, que é possível escrever bonito.

Quatro anos depois, já formado Professor de História, tive minha primeira "aluna" de escrita, coincidentemente uma namorada, Andréa. Meu método consistia unicamente em fazer Andréa escrever, já que ela tinha um talento natural para o ofício. Mas minha amada aluna, que morava em Brasília enquanto eu morava em Fortaleza, escrevia pouco, não preenchia sequer uma página inteira de bloco de carta. Impus a ela um acordo: eu escreveria para ela tantas linhas quanto recebesse dela em sua carta anterior. Querendo ler mais o que eu escrevia, Déa passou a escrever mais. Ganhamos os dois.

Nos anos subsequentes, publiquei meus primeiros livros: uma coletânea de cartas (em parceria com Fabiano, Déa e outr'Os internos do pátiO) e dois livros para crianças. Também fundei o Crônica do Dia, que há 14 anos agrega tantos escritores talentosos. No compromisso de escrever crônicas semanais, desenvolvi para mim mesmo vários exercícios de estimulação da criatividade e de refinamento do texto.

Mas só passei mesmo a me sentir escritor, com mais segurança, após fazer uma formação em Dramaturgia com duração de um ano e meio. No Instituto Dragão do Mar de Arte e Indústria Audiovisual, aprendi muito com mais de uma dezena de professores e com outros tantos colegas tão inspirados quanto dispostos a trabalhar sobre seus textos.

Após novos livros — infantis, acadêmicos e de crônicas — resolvi ministrar uma oficina de escrita criativa em Fortaleza há dois anos. Naquela semana também muito rápida, creio que ensinei uma ou duas coisas importantes a meus alunos. Até pessoas que não moravam em Fortaleza manifestaram o interesse de fazer a oficina.

E cá estou hoje, escrevendo minha crônica de domingo, sempre na batalha por colocar um pouco de formosura em minhas palavras, e às vésperas de iniciar, finalmente, uma nova oficina, dessa vez online, e com um nome mais adequado à beleza que sempre admirei em meus queridos professores de escrita. Faz inverno na minha barriga pouco antes de iniciar a Oficina de Escrever Bonito.

Assim a vida segue, e seguirá, até que, como escreveu Leminski, "vai vir o dia / quando tudo que eu diga / seja poesia".

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sábado, 28 de julho de 2012

REPENSANDO CONCEITOS
E FORMAS DE VIVER
[Heloisa Reis]


Quando estudei História na escola e me foram apresentadas as Guerras  - a do Paraguai, a do Peloponeso, a de Waterloo (claro que não nessa ordem) -  já me incomodava saber o quanto os humanos eram (ir)responsáveis por matarem-se uns aos outros. A explicação que eu intimamente aceitava era a de que  a n t i g a m e n t e  os homens eram assim, e que agora, após a 2ª Guerra Mundial, tinham finalmente aprendido.

Hoje neste novo período de nossa História, com o desenrolar da revolução  das comunicações, com o desenvolvimento tecnológico/científico, continuo perplexa não apenas com as guerras que já se tornaram rotina nos noticiários, mas também com o afastamento que vemos acontecer entre os humanos.

Enquanto o planeta todo é praticamente coberto por um único sistema técnico, vemos tornarem-se cada vez mais indispensáveis ações que aproximem os seres humanos de sua essência. Para isso precisamos todos de um certo distanciamento de um valor que vem predominando: o consumo.

Claro que todos os seres humanos têm direito a casa, conforto, saúde, transporte, trabalho, e o crescimento do consumo que vemos acontecer por aqui, nas classes que antes não tinham acesso a ele, é muito louvável. Não entro no mérito dessa questão. 
Reflito sobre a globalização e os supremos estágios da indução ao consumo como se este fosse o único responsável por trazer felicidade. Sim, porque ao mesmo tempo que vemos o seu aumento, vemos a diminuição dos espaços públicos vitalizados, o decrescer da importância atribuída  às artes e à cultura do social. Calçadas para quê? Os carros não andam nelas... Árvores? Precisamos de seu espaço para a construção de shopping centers, ruas, rodovias, condomínios.

Não. Não sou contra o sistema capitalista e muito menos contra o sistema da livre-iniciativa. Acho que as oportunidades devem estar abertas a TODAS as pessoas empreendedoras e principalmente àquelas que querem  melhorar seu estilo de vida.

Aí chego ao meu ponto: que estilo de vida é esse que prioriza apenas o “desenvolvimentismo” deixando os valores humanos apenas nos discursos e propagandas quando deveriam ser o norte de qualquer projeto?

O mundo inteiro está envolvido em todo tipo de troca: técnica, comercial, financeira e cultural, mas toda essa atividade está freneticamente voltada para a emergência do lucro em escala mundial e algumas  poucas empresas globais são hoje o verdadeiro motor da atividade econômica  que, feliz ou infelizmente, vem se mostrando autofágica. Temos assim o quadro de um mundo transformado em global, onde já se disse que o bater das asas de uma borboleta pode provocar conseqüências como um furação do outro lado do mundo.

Milton dos Santos em “O País Distorcido” – cuja leitura eu recomendo - nos mostra como essa concorrência superlativa na economia – a competitividade – é danosa para todos os seres. A ilusão de vivermos num mundo onde a prioridade é  competir e passar por cima de valores éticos para ter sucesso está por um fio.  E as grandes e poucas organizações que regem os nossos destinos estão ameaçadas pelo despontar de uma nova tendência: a de um mundo solidário, que deseja e trabalha por desenvolver um tecido social coeso, forte e irrigado, sem drogas, sem enormes lucros, sem enormes distâncias, sem globalizações perversas,  apenas com Boa-Vontade, Prosperidade,  Paz e, principalmente, sem guerras de qualquer espécie.

Eu torço e rezo por isso.

*Ilustração: Obra da Autora: “Mãos Postas”, Acrílicas sobre tela


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sexta-feira, 27 de julho de 2012

RASTROS DO ÊXODO >> Leonardo Marona

FRISSON – SP – (1)

no fundo escrever é o nosso principal sexo, a perfeita comunhão com o corpo.
mas, sem estragá-la com os excessos da pele,
teremos parâmetro suficiente para reconhecermos
a sua perfeição?

FRISSON – SP – (2)

Nossa primeira discussão mais séria foi acerca de um pedaço de pão e restos de um queijo ruim e caro. Você come bastante, acabou com tudo, ainda bem que sobraram esses farelos. Emburrou-se e fechou a cara durante toda a manhã. Nada se quebrou, embora exista agora um copo bem na beirada da mesa. Nunca mais tentar ser engraçado. Quando sentir vontade de sê-lo, ser sério. Aí está a origem do riso. Ela tem mil tipos de riso, e não precisa pensar em nada engraçado para emitir nenhum deles. Projeto ambicioso: tentar catalogar as variações de riso. Ser sério e tentar desvendá-los. Sem pressa. Nunca mais escrever nada que não leve ao desespero qualquer homem apressado. Isto é uma frase de outra pessoa, agora é minha. No fim me angustiou pensar que eu não era capaz de reconhecer minha própria graça. Desejo de voltar a dormir imediatamente. Mas ela dorme, ronca baixinho, é incrível que uma pessoa tão pequenina ronque, mesmo que baixinho. Acordar depois dela seria, portanto, uma compensação ilustrativa. Pensar é o preço de não saber. Lembrar disso no fim do dia. Não dançaremos hoje à noite.

FRISSON – SP – (3)

São Paulo é uma cidade onde os bancos se parecem com lanchonetes e as lanchonetes se parecem com bancos. E onde uma loja Marisa se parece com um banco que acabou de se tornar uma lanchonete. Devemos estar mesmo nos entendendo bem: paramos horas ao sol para observar uma senhora de uns 90 anos toda de branco e com um lenço azul claro que estava em pé com uma bolsa preta esperando algo na esquina justo em frente às Oficinas MC. Duas pessoas observando uma senhora, o que ela fará, o que estará a senhora esperando do movimento do mundo naquele exato momento, aquilo era a realidade suspendendo-se diante de nossos olhos recém chorados. A velha encostou-se ao automóvel esporte vermelho e eu jurava que estava prestes a entrar numa girada sinuosa de corpo, soltar o lenço na cabeça branca e sair com o lenço esvoaçante arrancando com o automóvel esporte vermelho. Sua filha chegou – mas quem disse que era a filha afinal? – minutos depois, abriu o carro, a senhorinha entrou. Mas tínhamos sido crianças por quase dez minutos.

FRISSON – SP – (4)

Em nosso último – ou terá sido o primeiro? – dia havia finalmente começado a chover; São Paulo resplandecia. Acordamos silenciosos, nos olhamos por um longo tempo, mas em variações de tempo invertidas. De modo que nos olhamos sem nos olharmos, como nos filmes sobre a burguesia italiana do pós-guerra. É preciso fé para abrir os olhos, ela disse enquanto estalava as costelas e eu comia um resto de ovo de páscoa. Na rua chovia, era um belo dia de sol. Andamos por uma avenida gigantesca, mas eu até esqueci o nome dela. Um banho por ora, depois morrer um pouco. Por ora um abraço, me avisa mais tarde. Andamos apartados e nos olhamos depois de metros, no mesmo instante. Um dia bom para filmes. Fui ao museu. Ela comeu bacalhau. Chegou a noite e me deprimi. Era importante suportar alguma violência em toda aquela notícia súbita de que estávamos na história das coincidências fotográficas. Pensamos que aquilo era apenas um bom presságio. Cruzei os dedos enquanto me afastava. Atravessou a cidade a pé.

FRISSON – SP – (5)

Deu-me o diário de Maria Gabriela Llansol. O rastro do êxodo. Boa ideia para um título. Frase para poema: perdi meu chafariz na tua fonte sem sombra.

FRISSON – SP – (6)

Acordamos exaustos e famintos, talvez com algum receio de termos gastado precocemente o nosso contato. Comemos numa padaria cheia e cara, mas muito bonita, apesar de parecer irreal. Ela pediu dois cafés expressos e dois pães de queijo. Normalmente não gosto de ver as pessoas comendo. Observei o ambiente. Ela terminou de comer e foi ao banheiro. Uma família italiana se aproximou. Um garoto com as têmporas suadas apoiou-se no balcão e gritou para que uma velha italiana típica sentasse ao meu lado. Creio que usou inclusive a expressão mamma ou nonna, o que, confesso, emocionou-me. Ela voltou e pareceu espantada por eu não ter cuidado do seu lugar. Impossível, eu disse. É uma mamma ou nonna italiana legítima. A mulher do caixa riu muito conosco, de nós. Não me lembro se ela me deu a mão ou o braço e saímos rápido, mas acho que sim. No caminho, entramos sem querer no meio de uma procissão judaica. Havia um velho com uma perna da calça maior do que a outra e um terno que lhe cobria os braços. Um personagem do expressionismo alemão, e resolvemos segui-lo, enquanto ele desceu uma galeria que vendia roupas em geral muito feias e, em sua maioria, femininas. Ficamos desapontados quando descobrimos que ele queria apenas ir ao banheiro. Lembrei da senhora na esquina das Oficinas MC e ri por dentro.

FRISSON – SP – (7)

Apontei algumas fachadas horrorosas de edifícios no intuito explícito de deixar claro: venho para viver. Mas velada havia uma vontade quase súplice de que ela virasse de repente, dada a feiura desoladora daquelas fachadas, e dissesse: podemos achar um lugar mais bonito para nós. Não devemos velar tanto, concluí, ou devemos ao menos velar tudo. Uma fachada em especial, no centro pobre, me chamou atenção. De massa cinzenta, como um velho fumante, toda pichada, lembrava ternamente meu próprio coração, arrasado mas, pelo menos, de longo uso. Com relação a este edifício, você chegou a erguer a cabeça no que pensei “Grécia, Florença?”, mas limitou-se a sorrir. Tive a impressão de que um sorriso seria um bom espaço para se viver dentro dele. Pensei em seguida: com um lenço amarelo, de seda algodão viscose, preso a um prego naquela varanda, seria possível quem sabe ser feliz, ou pelo menos alegre.

FRISSON – SP – (8)

Ao deitarmos na mesma cama fiquei inquieto com dois sentimentos complementares, inimigos: sofrimento e esperança. Tocar ali era matar a esperança, e a esperança, ao contrário, era pela morte do sofrimento. De todo modo, fui inábil, falei demais, bebi. A esperança queria ganhar de qualquer jeito e por isso fez acordo com o sofrimento. Pegamos no sono de mãos dadas, acho que ela chegou a se deitar no meu peito. Posso ter sonhado. Seria um milagre. Mesmo assim não morremos, éramos já outros. Acordamos curiosos e assustados em saber quem éramos agora. Com o correr do dia, aceitamos nossos novos outros como se aceita um tio inconveniente que chega para se hospedar em nossa casa. Apesar de tudo, é um parente. Havia já a casa, mas lá estava também o tio.

FRISSON – SP – (9)

Ganho dela três livros:
um Pavese
um Andreiev
uma Llansol

Sinto como se eu fosse Andreiev, ela Llansol (porque no livro havia ainda por cima suas anotações, inclusive cortes de alguns trechos do original, com retoques, insights, teoremas) e Pavese fosse o filho da nossa fricção matizada por uma cor ainda inexistente. Um bebê fraquinho, sem leite, mas cheio de talento e reprovação. Ponho na cabeça que preciso começar por Llansol. É tudo muito agradável, mas terminal. Ela cita João da Cruz, Hadewijch da Antuérpia, Müntzer e o Mestre da Culpa. Imagino feições estranhas e fantasmagóricas para suas imagens. Concluo que Llansol não me faz bem. Uma forma também de ter essa mulher de cujo ventre saiu meu Pavese, nostro piccolo cesare. é gostando deste livro. Repito cem vezes para meu coração: eu gosto deste livro. Com a repetição, aceito: eu tenho essa mulher.

FRISSON – SP – (10)

Talvez eu não saiba mesmo explicar, leoa, porque me incomoda tanto o suicídio de Cesare Pavese. Sua carta contra os fofoqueiros, sua serena superioridade, sua privilegiada ausência de tudo. Talvez eu não saiba mesmo explicar e por isso talvez eu saiba que deveria de alguma forma estar aqui para poder tentar te explicar porque me incomoda tanto o suicídio (com soníferos!) de Cesare Pavese e mesmo assim olhando para o chão enquanto você que é sua imagem livre de mim finalmente apresenta os olhos imensos vitrais de igreja gótica e sua boca roxa de uma noite de vinho e os cabelos que você disse meu irmão não admite que eu pinte de outra cor que não seja loiro mas loiro resseca o cabelo e dá muito trabalho é preciso ir ao cabeleireiro e eu detesto cabeleireiros você viu só aquele casal a menina sentou e pediu que o menino esperasse enquanto ela pintava as unhas da mão você já viu alguma coisa parecida? Eu disse não mas eu diria qualquer coisa porque o acontecimento de uma imagem fere a face de deus e glorifica o homem então eu tentei fazer uma omelete dos ovos sobre os quais pisávamos tentando segurar nas pontas dos dedos as nossas frágeis expectativas e fiquei feliz porque ela era menor do que eu imaginava e me senti mais confiante porque ela comentou é bom ver a pessoa ao vivo porque existem detalhes que aumentam a gama de possibilidades de mistério de uma pessoa já que nos detalhes às vezes quase imperceptíveis do rosto estão as fugas e encontros com fantasmas que nos fazem chorar sem mesmo fechar os olhos e apertamos tenho certeza o coração ao sabermos a tragédia da vida e como bebemos e como andamos estupefatos acachapados com as chances de destruição e anulação de que somos todos capazes e não existe talvez vida em equipe amor sem etapas é preciso muito sentimento para rompermos a couraça, leoa, e muito mais cafuné para não pensarmos serão necessários quantos soníferos ou cartas pirateadas de ilhas longínquas para interrompermos essa gagueira ensandecida que nos une e em nosso sofrimento talvez possamos compreender o nosso nobre laço eu não posso aceitar infelizmente ou falar sobre os motivos pelos quais me incomoda tanto o suicídio de Cesare Pavese sua desistência histórica seu charme kamikaze e talvez eu nunca consiga e faça algumas vezes o papel de vitima do inominável mas oh cigana podemos falar o que quisermos e andarmos quilômetros quase em silêncio ou de braços dados porque não me importo em te oferecer o braço como se fosse a mulher protegida do casal. Importante controlar os ânimos.

FRISSON - SP - (11)

Cheguei e fizemos fora do combinado. Disse para meu coração: amém. Uma coceira pelo corpo me fez não querer esperar mais nada. Saí, impressionado com como havia batido forte a porta. Talvez Julia tenha acordado. Seria bom se acordasse a tempo. Não aconteceu. Saí. Você me mandou uma mensagem dizendo onde devo encontrá-lo? Respondi apenas só conheço onde fica o MASP, estarei ali no laguinho. Peguei no sono forçadamente, como quem espera um dilúvio sem teto. Gostei de estar desamparado. Adormeci imediatamente, como quem ouve o câncer. Em minutos, no entanto, em sobrevida, despertei num salto. Havia ao meu lado uma reunião de mendigos muito elegantes em torno de uma lata que fazia fogo. Conversavam animadamente, mas com semblantes sérios, o que me pareceu algo raro e incrível. Fiquei feliz que minha presença não os tenha incomodado, senti como se me oferecessem com os olhos uma ponta de cigarro. Aceitei mentalmente, e me afastei para o outro laguinho. Pensei o que você acharia quando me visse junto aos mendigos elegantes que riem falando sério. Pensei em Nietzsche, senti-me aliviado. Pobre Nietzsche, não teve a mesma sorte. Finalmente, na horizontal, vi você atravessando a rua. Fingi estar dormindo, mas, sem os mendigos em volta, a cena não fazia mais sentido. Senti-me excluído do convívio dos risos sérios. Você parecia apressada, sorria como um dos mendigos elegantes, seriamente. Senti-me excluído ao quadrado. Por isso voltei a dormir. Assim que me levantei, pretendi estar desnorteado. Uma infantilidade e uma limitação voluntárias. Queria pretender (ou seja, fazer ser o que não é) aquilo que já era. Assim que você chegou minhas palavras me pareceram ser eu estava fingindo que estava dormindo. Por que fiz isso, nunca saberei. Demoramos uma tarde para darmos finalmente as mãos. Na hora do sono, tive pesadelos. Você me deu a mão outra vez. Sua mão era mais quente que a minha e suava enquanto você dormia. Imaginei que tínhamos vários corações dentro do corpo, um deles na mão. Depois dormi melhor. Você dormiu de bruços e de lado, e disse que sonhou com pessoas cujos rostos iam ficando gradativamente pretos, até desaparecerem. Eu disse que deveria ter algo a ver com os sonhos do Kafka, que você estava lendo. Parecia a voz de uma outra pessoa que disse isso por mim. Discutimos por causa do pão e do queijo. Tive um prenúncio de forte amizade, com chuvas.

FRISSON – SP – (12)

No bar, choramos em muito pouco tempo. O que se dá nisso é que o corpo junta-se finalmente com a emoção e não se aguenta. E quando o corpo não se aguenta, é a primeira vez que vemos o corpo. Espantados com nossas graves diferenças (eu ando em linha reta até a beleza arruinando-a ou ao menos devendo-a em sangue - você contorna a beleza de modo a mantê-la intacta em seu mistério / eu dionísio - você apolo / você olhos grandes - eu pequeninos / narizes idem) planejamos intimamente uma guilhotina onde pudéssemos descansar por minutos as nossas cabeças.

FRISSON – SP – (13)

Sentamos numa praça, observando as pessoas em volta. Uma família espanhola, aparentemente mãe/avó/filhinho, estava à nossa frente, brincando com bonecos de super-heróis. Ficamos calados, como se nossos barulhos, inclusive os estomacais, pudessem afetar negativamente o desempenho dos atores. O filhinho distribuiu três bonecos. A avó seria o Batman, a mãe o Super-Homem, ele próprio o Homem-Aranha. Voavam com os bonecos como se fosse a nós perfeitamente plausível manter asas. Num dado momento, lutaram. A mãe disse ao filhinho hay que luchar, ao que ele respondeu em automatismo de coisa bruta luchar para que? Todos ficaram mudos e creio que nos olhamos, o menino inclusive virou-se para você. Tinha um rosto de mil anos. Não estamos, nós adultos, preparados para responder perguntas de crianças. As perguntas que fomos quando crianças tornaram-se nossa pele vaga, porque já não se fazem mais as perguntas às quais não é possível responder. A mãe começou a voar com seu boneco, o que deixou o filhinho pasmo, excitadíssimo. Na hora acrescentei que, se fôssemos namorados, estaríamos nos beijando, ou fazendo pequenos carinhos, e perderíamos a cena. Você concordou apenas depois, quando entendeu o que eu quis dizer. Por enquanto estamos soltos mas ainda não livres. Isto foi incluído posteriormente. Viver quase a sós atrai, pouco a pouco, os absolutamente sós. Isto também. Mantivemos um pouco mais de silêncio, como quem tira a roupa das horas. Pensei se estávamos realmente ali. Acho que sim, você disse sem mexer a boca.

http://www.omarona.blogspot.com/

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quarta-feira, 25 de julho de 2012

O HOJE DE CADA DIA >> Carla Dias >>



Numa arrancada súbita, ela se deslocou quase solene em direção à porta; logo freando porém o passo. E parou. Fazemos muitas paradas na vida, mas supondo-se que aquela não fosse uma parada qualquer, não seria fácil descobrir o que teria interrompido o seu andar.

Raduan Nassar em "Hoje de Madrugada"


Na literatura eu encontrei algo que me salvou de mim mesma. Na poesia, a ideia de rimar e depois desarrimar as rimas, de dizer muito com poucas palavras. O drama e a leveza caminhando de mãos dadas a cada verso. Na prosa, a poesia ainda presente, poder reinventar histórias e até mesmo se atrever a criar algumas.

Minha jornada, até aceitar ser chamada ‘escritora’ ao invés de ‘alguém que escreve’, passou por momentos que guardo com carinho. Para a menina que não fazia saber amigos, de uma timidez que a fazia gaguejar na hora de responder a chamada na escola, os rabiscos no caderno eram um alívio intraduzível. A vida passava a fazer mais sentido quando eu mergulhava nas palavras. Para a adolescente, e a sua primeira paixão, os poemas dedicados ao sentimento que lhe assaltou foram devidamente registrados em palavras, e assim ela aprendeu que amor é coisa para se levar a sério, porque somente assim é possível viver a sua leveza.

Tornar-me uma escritora realmente me salvou de mim mesma. Poder criar cenários, incutir personalidade em personagens, alinhar tramas, enfim, criar um universo com a minha imaginação, tirou-me da estática, atirou-me à vida, ainda que seja à alimentada por folhas em branco, sentimentos necessitando ser escritos.

Porém, há algo muito maior do que ser uma escritora. Obviamente, é poder ler um escritor. Um dos grandes prazeres oferecidos a um leitor é a liberdade de se embrenhar ao que lê, e de uma forma que o permita se sentir ali, entre as páginas 40 e 65. O que vivi – e ainda viverei – por meio dos livros, é o que me permite viver na realidade do cotidiano sem perder a fé na humanidade, sem me distrair a ponto de não perceber as sutilezas da existência.

A literatura é uma fazedora de esperança.

E mais, muito mais do que a gratidão de ter me tornado apta a ser considerada escritora, existe o prazer imenso de ser uma leitora, de conhecer escritores fantásticos, pessoas que me ajudaram a me salvar de mim mesma. Que me ajudam com isso, diariamente, a cada página.

Que todo dia seja dia de inventar histórias, de colher poesia. 

Que todo dia seja dia de aprender, de dentro para fora, as matizes criadas por esses construtores de sonhos, arquitetos de rendições, biógrafo dos sentimentos – dos seus e dos alheios.




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terça-feira, 24 de julho de 2012

SE EU PUDESSE EU SERIA...
>> Clara Braga

Vamos brincar de imaginar... Imagine que hoje você acordou e ganhou um prêmio. Esse prêmio nada mais é do que a chance de viver um dia como a personagem de qualquer filme que você queira e ainda por cima contracenar com todos aqueles atores que fazem parte do filme.

Não saberia nem por onde começar, mas com certeza gostaria de ser a Sarah vivida pela Jennifer Connely em Labirinto – A Magia do Tempo. Sei que ela já fez papeis muito mais fortes do que esse como em Réquiem para um Sonho, Casa de Areia e Névoa ou até mesmo em Uma Mente Brilhante, mas em nenhum desses ela pôde abraçar o Ludo, contracenar com o David Bowie e curtir uma trilha sonora genial, tudo ao mesmo tempo, como em Labirinto.

Amaria ser Amelie Poulain! Nada como viver em um mundo supercolorido e ver poesia nas pequenas coisas. Por falar em poesia, seria ótimo ser a Alice de Tim Burton, imagina como deve ser maravilhoso viajar nas fantasias loucas de Tim Burton e ainda, de quebra, contracenar com ninguém mais ninguém menos do que Johnny Depp. Tudo bem, é difícil dizer que ele está bonito no papel do Chapeleiro Maluco, mas não importa, é o Johnny Depp!

Agora, se fosse para matar a minha vontade de trabalhar em um musical eu seria a Christine de O Fantasma da Ópera! Eu sei, eu sei, as músicas são maravilhosas, mas quase impossíveis de serem cantadas por qualquer mortal, mas eu também não sou nenhuma estrela de Hollywood, então se é pra brincar de imaginar, vamos imaginar direito. Sei também que O Fantasma da Ópera já foi adaptado para o cinema mais de uma vez, mas eu escolheria atuar na última adaptação, a que teve em 2004, sabem por quê? Porque eu não perderia a oportunidade de ser assombrada pelo fantasma do Gerard Butler;

Outro musical que seria muito legal de participar é o Moulin Rouge. Adorei as versões que eles fizeram das músicas. Só sendo muito sagaz mesmo para criar diálogos cantados com pequenas partes de músicas completamente diferentes uma das outras. Quem já viu o filme entendeu o que eu estou querendo dizer...

Bom, e já que estamos imaginando, vou escolher contracenar também com um ator e trabalhar com um diretor que já morreram, até porque no mundo da imaginação tudo é permitido, até ressuscitar pessoas.

Para diretor, sem dúvidas eu escolheria o Hitchcock, mas apesar de Psicose ser o meu filme favorito dele, acho que eu escolheria trabalhar em Um Corpo que Cai. Trabalhar em Psicose não seria muito vantajoso, a Marion Crane morre muito no início do filme, não ia dar nem para curtir o momento.

E para ator eu escolheria contracenar com Heath Ledger. Ele fez muitos papeis interessantes, mas acho que eu escolheria contracenar com ele em 10 Coisas que Eu Odeio em Você. Eu sei que é um filme superbobinho, bem típico de Sessão da Tarde, mas aquela cena dele cantando I Love you, Baby é linda demais! Tudo bem, em questão de atuação ele realmente deu um banho fazendo o Coringa, inclusive, na minha opinião, foi a melhor atuação dele, dá vontade de escolher o Coringa como personagem por um dia, mas convenhamos, com tantas personagens geniais para escolher ser, para que eu escolheria justo o Coringa? Para sair matando um monte de gente sem motivo nenhum? Ah, tô fora, isso sim é muita falta de criatividade.

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segunda-feira, 23 de julho de 2012

A ÚLTIMA >> Kika Coutinho

O último beijo. O último pedaço do doce, o último par de sapato (no marrom, 37), a última gravidez, o último amor. Todos os últimos carregam consigo alguma melancolia. Até a última bolacha do pacote, ainda que esteja um pouco mole, posso apostar, terá sempre outro sabor. Tem impressa naquele final algo um pouco simbólico, como se ali cerrasse uma oportunidade; ali cravamos um momento único, porque ainda que outro pacote esteja na prateleira — é outro pacote. Aquela era a última. Há sempre certa dor no último, certa melancolia no final, muitas lágrimas na despedida, muita tristeza no que se acaba, mesmo que os dois tenham escolhido seguir caminhos alternativos. Quem não chorou numa separação, por mais amigável que tenha sido? Quem não sentiu os lábios trêmulos ao dizer adeus, ainda que a escolha tenha sido acertada, quem é que não engoliu em seco quando fechou a porta, um aperto fino no peito, uma moleza súbita nas pertas, o coração se esfacelando contido, em mil pedacinhos. Um estouro silencioso dos vidros internos, uma dor sem nome, é a vida, sempre se acabando quando recomeça...

Foi num dia de calor quando o Eduardo, dono desse site, me convidou a escrever aqui. Senti um orgulho indisfarçável, flutuei de alegria, talvez por dias consecutivos, como se uma névoa de afeto me carregasse. De lá pra cá foram muitas, inúmeras crônicas até que, alguns dias atrás, enfim, pedi ao Eduardo que disponibilizasse esse espaço para algum dos tantos talentosos escritores que ele conhece. Não foi sem dor que o fiz, ao contrário. Como numa separação, senti-me um pouco bamba, um bocado sem fôlego, a voz embargava quando pensava no assunto e, ainda assim, tinha a convicção de que me era necessário fazê-lo. Nada de dramático aconteceu, nenhum sinal no céu, nenhum armagedon — como diria Gil. Não, é apenas a vida, o tempo, as escolhas, o foco, a idade, a dieta, os filhos, o marido, o calor, o trânsito, um bocado de cansaço e o trabalho. Ah, o trabalho...

Abandono este espaço cheia de gratidão, cheia de saudade e certa de que não caibo mais aqui, não caibo mais na escrita, talvez ela nunca tenha sido pra mim, mas uma transbordamento irremediável mantinha minhas mãos teclando, semana após semana, como se disso fosse feita a vida, de palavras que, bem agrupadas, faziam um texto. No entanto, não é. A minha vida é feita do trabalho que me sustenta, da minha família, de tijolos e cimento, uma casa como aquela segura, a do terceiro porquinho.

Essa é a minha última crônica e não terminarei a minha fugaz carreira de escritora com adeus, com tchau, nem mesmo com o batido “até logo”. Bem eu que sou tão apegada às palavras, aos sinônimos e ao vasto vocabulário de nossa língua, agora vejo-me quase vazia porque tenho muito pouco, pouquíssimo, quase nada a dizer. A verdade é que, de repente, noto que a única palavra que me vem em mente ao despedir-me desse espaço, desse tempo, e dessa sensação, é simples, tola, quase que usual, mas posso assegurar, poucas vezes a usei com tanto significado e verdade: Obrigada. Profundamente, obrigada.

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domingo, 22 de julho de 2012

UM DIA DE SORTE >> Whisner Fraga


Não sou pescador, nem profissional nem amador, mas gosto de uma pescaria, mais pela tranquilidade de uma sombra à beira-rio do que pelo prazer de fisgar um peixe grande. Naquela época, tempo era o que eu mais tinha para gastar, daí que combinei com meu cunhado de irmos à fazenda de sua mãe, próxima ao Córrego do Açude, entre Ituiutaba e Capinópolis.

Fomos, em seu Chevette 74 (estávamos em 1999, mais ou menos), na esperança de pegar uns bons bagres ou uns mandis que não nos fizessem passar muita vergonha. O carro sofria para vencer os cinquenta quilômetros de terra até a sede. A região é fértil em barbeiros e foi dormindo em casebres de pau-a-pique que este cunhado contraiu Chagas e assim seguiu desta para melhor ou pior, mas essa é outra história.

Chovia forte naquele primeiro dia, o rio encheu e não pudemos testar nossas iscas. No dia seguinte, o sol voltou com tudo, catamos algumas minhocas e rumamos para o barranco. Pegamos vários mandis, que não nos ferroaram naquele dia. Toda vez que tirávamos o peixe do anzol, tomávamos cuidado. Dizem que para que a dor de uma picada de seu esporão passe logo, o melhor a fazer é arrancar os olhos do infeliz e esfregá-lo rapidamente no machucado, mas não precisamos testar o método.

Na volta, o Chevette carregava uns sobrinhos a mais, uns cocos, umas mandiocas, umas melancias e assim por diante, de forma que o carro ia com as línguas de fora e os pneus arriados. No meio do caminho tinha um posto da Polícia Rodoviária e, como era raro eles pararem alguém, viajávamos calmamente. O negócio é que rolava uma blitz naquele dia. “O documento está em dia?”, questionei, preocupado. “Claro”, foi a resposta. Beleza. Naquele tempo era comum toda família ter um carro velho para as pescarias, com a documentação toda vencida há décadas, o que não tirava o sono de ninguém, mas mesmo assim não convinha facilitar com a lei. Hoje as coisas mudaram, o Brasil se tornou um país rico e é comum filas de Hilux até o rio mais próximo.

Vendo aquele carro apinhado, era razoável que nos parassem. Foi o que fizeram. Ninguém estava de cinto de segurança, o que não seria problema nenhum, pois o uso ainda não era obrigatório, eu acho. E, se fosse, ninguém estava nem aí, de qualquer maneira. O policial se aproximou e pediu para que ele desligasse o motor. Ouvi meu cunhado argumentar que não era uma boa ideia, uma vez que a bateria não estava lá essas coisas. “Nem pensar, desliga isso aí”, foi o golpe.

É, os documentos do carro estavam certinhos – até o IPVA estava em dia. O problema era que a habilitação do motorista vencera havia anos, o Chevette estava sem extintor de incêndio, sem chave de roda, sem macaco, sem pneu de estepe, com a luz de freio queimada e assim por diante. Eram umas vinte irregularidades, no mínimo. O correto seria prender todo mundo, para nos dar uma lição de como não andar com um carro na rodovia. Mas o policial deve ter imaginado que qualquer punição não resultaria em nada, olhou para as crianças, alheias no banco traseiro, catarrentas, embirradas, encarou nossos semblantes ainda sujos da pescaria, vermelhos de sol e decidiu que o melhor seria nos deixar partir: “Moço, vá devagar, tenha juízo, o senhor está com crianças aí.”

Queríamos ir embora logo, antes que ele mudasse de ideia, só que, ao tentar a ignição, nenhum barulho, nada. A bateria estava mesmo ruim. Então, não acreditei no que aconteceu. Meu cunhado desce do carro e grita que precisa de ajuda com o Chevette. Quando dois policiais estavam bem próximos, ouvi meu parente repreendê-los: “se vocês não tivessem parado a gente, não precisariam empurrar.”


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sexta-feira, 20 de julho de 2012

ESPERTO TODA VIDA >> Zoraya Cesar

Quando D. Lindinha morreu, a família entrou em desespero. À tristeza pela perda da matriarca, juntou-se o medo de que Seu Nestor morresse logo em seguida. Foram mais de 40 anos de casados e, nos últimos tempos, Seu Nestor dependia de D. Lindinha para tudo.

Sempre trêmulo, apesar de não ter Parkinson; sempre com palpitações no coração, apesar de não ter problemas cardíacos, qualquer esforço parecia lhe custar anos de vida. Para poupá-lo, D. Lindinha amarrava-lhe os sapatos, passava manteiga no pão, enxugava-o após o banho. Cozinhava também, pois seu Nestor só aceitava comida feita por ela e, de preferência, comida fresca. "Lindinha, minha filha, preciso disso, estou com vontade daquilo", e ela se desdobrava para atender às necessidades do marido, abnegada e amorosa.  “Não vivo sem minha Lindinha” era o bordão de Seu Nestor.

Ela dizia, toda orgulhosa, que Seu Nestor poderia arranjar uma lambisgóia qualquer, 20, 30 anos mais nova, mas não, fazia questão que ela, ela mesma, Lindinalva, cuidasse de tudo. Ele, por sua vez, dizia amá-la demais e agora, no fim da vida, não a deixaria um minuto sequer.

Não foram poucos os que choraram ao ouvir o discurso de um ou de outro. 

Tal dedicação ao “meu Nestorzinho” exigia, claro, alguns sacrifícios.  Veleidades como fazer as unhas, pintar o cabelo, sair com as amigas, jamais. Ela fazia questão de esclarecer que tinha vaidades sim, mas se desapegava delas em nome do amor. Viajar, nem pensar, seria muito cansativo para ele. Seu Nestor até que insistia para ela “dar uma voltinha”, mas sempre que estava para sair, já toda arrumada, ele parecia tão frágil, tão trêmulo, que ela desistia e voltava da porta. Até a uma festa de aniversário do neto ela deixou de ir, porque ele preferiu ficar em casa.

(Essa união despertava  inveja e admiração em todos, inclusive em mim, que sempre criticara o comportamento um tanto rascante de minha mãe, pessoa muito amorosa, mas que jamais, em tempo algum, pegara sequer um copo de água para meu pai, estivesse ele doente, cansado ou ocupado. A vontade de minha mãe era lei. Dinheiro? Todo, todinho na mão dela. O que sobrava para ele era contado).

Mas, por uma daquelas velhacarias do Destino, D. Lindinha morreu, como vocês já sabem, e morreu antes de Seu Nestor, contrariando todas as expectativas (aprendamos de uma vez: qualquer previsão é inútil). E, como vocês também já sabem, a família se preparou para a morte próxima do patriarca.

Oito meses depois do enterro, voltei à cidade para visitar meus pais, vizinhos desde sempre do casal, cujas casas dividiam o muro coberto de buganvílias. Subi ao terraço para ver o que teria acontecido ao terreno de Seu Nestor e D. Lindinha, tão abandonado nos últimos anos, que mais parecia baldio, um espólio de guerra.

Tive um choque. Aquilo se transformara em um exemplar de Casa e Jardim, pronto para servir de cenário para filmes de gente rica. Muito rica.

Talvez o Eike Batista tenha comprado a casa, pensei, mesmerizada pela enorme piscina, que, até a morte de D. Lindinha, nunca existira.

Então ele apareceu. Musculoso, ereto, pele bronzeada. Seu Nestor, 20 anos mais moço, e que moço! Deu um mergulho olímpico e nadou como um esportista. Um homem que nem amarrava os próprios sapatos! Estão pasmos? Tem mais: pouco depois, surgiu uma mulher loura, meia idade e cheinha, mas com tudo no lugar, bonita mesmo, de biquíni, pulseiras douradas, chapéu de abas largas e toda sorridente. Deitou-se languidamente na chaise à beira da piscina. Seu Nestor foi ao encontro dela e trocaram um longo e lascivo beijo.

Quase caio do terraço, em choque.

Mais tarde, minha mãe explicou-me a cena insólita. Já no enterro da mulher, Seu Nestor conhecera Janete, assistente do tabelião da cidade, e passaram a se ver constantemente, por conta do inventário. O corpo da falecida nem esfriara e o inconsolável viúvo, aquele que dizia não viver sem sua Lindinha, entrou na academia, reformou a casa e, três meses depois de enviuvar, chamou Janete para morar com ele.

A nova consorte veste-se muito bem, vai ao salão de beleza toda semana e não mexe uma palha dentro de casa, pois as recém-contratadas cozinheira e arrumadeira cuidam de tudo. O casal sai quase todas as noites. E Seu Nestor, que nunca levara D. Lindinha nem à cidade ao lado, vai viajar com Janete para os Estados Unidos. Os filhos se afastaram, revoltados, mas, minha mãe, sempre prática, garantiu que o dinheiro aproxima as pessoas, e logo logo aquela situação não tardaria a mudar.

E se deu ao luxo de me alfinetar:

— Tá vendo por que não dou mole pro seu pai? Depois eu morro e todo o dinheiro que ele não gastou comigo vai parar nas mãos de uma loura esperta.

Nunca mais critiquei minha mãe. Não mesmo.



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quinta-feira, 19 de julho de 2012

LISTA DE LISTAS >> Fernanda Pinho




Começou com minha mãe fazendo uma lista de possíveis nomes para mim. Franciane, Cristiane, Paloma, mais uns outros pra garantir, e, por fim, Fernanda que no fundo era o que ela queria desde sempre. Antes ou depois disso deve ter existido uma lista de itens para meu enxoval. O que será mais caro: uma lista de enxoval ou uma lista de material escolar? Porque não demorou e veio essa também. A primeira de muitas. Com a lista de material escolar veio a lista de aprovados para entrar no colégio onde eu estive até sair numa lista de aprovados para o vestibular. Anos a fio respeitando a supremacia da lista de chamada.

Não contentes com as listas que já chegam prontas pra gente, ainda insistimos em fazer outras. Na adolescência, eu tinha verdadeira fissura por elas: lista dos meninos mais bonitos da escola, lista de coisas a fazer, lista dos atores de cinema com quem eu me casaria, lista das bandas/músicas preferidas, lista das pessoas que conheço em comum com minha melhor amiga, lista dos livros lidos, lista dos filmes vistos, lista dos livros e filmes a serem lidos e vistos, lista de coisas a fazer, lista das coisas que odeio. Esta última era atualizada frequentemente e extremamente eclética. Em que outra circunstância a Regina Duarte e picolé de groselha figurariam numa mesma lista?

Na vida adulta, outras listas. Algumas mais elaboradas, outras nem tanto. Lista de "o que levar na mala" em qualquer viagem, lista de contatos (jornalisticamente chamada de mailing), lista de o que fazer antes dos 30, lista de coisas a fazer, listas de espera (sempre aborrecidas, pois nada mais são que filas virtuais), lista negra (para quem tem passado), lista de compras, lista de contas a pagar, lista dos livros lidos, lista dos filmes vistos, lista dos livros e filmes a serem lidos e vistos (e pensar que alguns estão lá desde a adolescência), lista de coisas a fazer e a inacreditável lista de listas que foi o ponto caótico em que eu me encontrei nesse preciso momento, ratificando a natureza humana de complicar o que foi criado para simplificar.
- Lista de convidados.
- Lista de comidas.
- Lista de bebidas.
- Lista de salões de beleza.
- Lista de hotéis.
- Lista de lojas de sapatos.
- Lista de presentes.
E a famigerada e vitalícia lista de coisas a fazer, que atualizarei agora, dando "ok" na crônica da semana. 


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quarta-feira, 18 de julho de 2012

O DESPETALADOR DE FLORES >> Carla Dias >>


Inspirado na canção JÁ NÃO TENHO MEDO,
de KléberAlbuquerque.


O BENQUERER
Despetalar flores requer o desejo escancarado de que o bem-me-quer-mal-me-quer dê jeito no destino, fazendo com que ele confesse, delicadamente, os desfechos dos próximos capítulos da nossa biografia. Também é um dos preferidos prazeres dos poetas, eles que adoram passar tempo sonhando jardins. E diferente do que se pensa por aí, despetalar flores exige coragem. E da desprovida de pudores. 
Despetalar flores é ofício para destemidos.
Por isso observo o feito de longe.
O despetalador de flores, esse herói desconhecido, com seu charme de quem corre risco, quem carrega o desejo pungente de que o seu ofício dê sempre no benquerer, é uma pessoa que carrega esperança nas pontas dos dedos.
Quem bem me quer, quer isso mesmo?
E se mal me quer? Como superar as malquerenças?
Bem me quer a liberdade...
Mal me quer a intolerância...
Bem me quer o café quente em tardinha fria, a chuva dançando nos telhados, o abraço para curar saudade, a porta sendo aberta. E a distância sendo amparada por chegadas. Os filmes em preto e branco, arco-íris.
O mistério no olhar.

A SOLIDÃO
Não tenho a coragem do despetalador de flores.
Ando em círculos, passos cadenciados, numa dança desengonçada que sente falta da coreografia dos afetos, ela que envolve presenças, gestos, provocação dos sentidos e palavras descabidas cabendo direitinho no desejo de se saborear companhia.
Dá trabalho ser sozinha.
Intercalo a euforia por saber dos desfechos com experiências desbotadas, numa busca pelo equilíbrio do sentir, o que não deixa de ser uma ironia, já que as mais significativas experiências pelas quais passei são filhas do destempero.
Iludo minhas vontades com o sabor agridoce do desinteresse, enquanto faço, secretamente, o inventário de curiosidades que certamente me darão trabalho, logo mais. Mas a enganação sempre dura pouco. Basta tocar uma das minhas canções preferidas ou alguma notícia me despertar o interesse e pronto!
O equilíbrio que se dane.
E eu sinto, ainda que brevemente, o desejo de sair e me misturar ao mundo.
Trançaria os cabelos da solidão, ela se deitasse no meu colo para uma conversa sobre importâncias. Mas ela me mantém distante, não abre a boca, somente aponta os seus planos, estampados no quadro negro das revelações. 
Há tempos que a solidão não me faz companhia. Apenas me pirraça.
E eu a contemplo, a alma encolhida num canto de mim.

O AMOR
O despetalador de flores conhece o caminho dos toques. Ele quebra silêncios com suspiros que antecedem a revelação.
Será da benquerença esse despetalamento todo?
Observando esse homem - pétalas das flores aos seus pés -, espreguiço verdades. Observo bem de longe que é para não me embaraçar no sentimento dele.
Observando o despetalador de flores eu construo labirintos. Ergo muros e neles colo cartazes que são listas de apaixonamentos: plantas de estimação, livros, irmãos, discos, pais, horizontes, filhos, fotografias, amigos, balas de hortelã, amantes...
O amor quando é amor que se ama amando pode nos partir ao meio.
E por mais valentes que tentemos ser, quando ele nos abraça, damos um passo para trás, mantendo a distância que garanta a preservação do nosso coração.
Porque parti-lo é fácil... De uma facilidade impressionante.
Mas então vem o desejo pelo salto, pela queda livre e sem rede de proteção. Quando nem asas os anjos nos dão! Eles que se sentam em nuvens para rirem de nós, os que caem facilmente nas armadilhas do amor.
Eu amo girassóis e as manhãs de quarta-feira de inverno. Perfume de jasmim, o cheiro da terra depois da chuva e os pés tocando as paredes, enquanto leio um livro. E o alvoroço em dia de festa. Quando as luzes do cinema são apagadas, avisando que é hora de filme. Papelaria, colo, suspiros. Amo as gargalhadas das crianças em manhãs de domingo.
E clipes coloridos juntando folhas de sulfite brancas. Cobertores perfumados por amaciante. Eu amo as heranças em forma de badulaques e a honestidade, ainda que ela doa. Amo de paixão a poesia das coisas, dos sentimentos, das pessoas.
E o abraço das mãos, a palavra dita por outro dentro da minha boca. Pernas trançadas dançando desejo.
E amo as pessoas que me amam. E as que me odeiam eu amo de birra, de longe, mas amo. 

AS PRISÕES
O despetalador de flores não teme rótulos, não se importa se o enxergam ao avesso. Ele é um entusiasta da vida, despreocupado com as manias do ser humano de se apegar ao menos importante.
Não sei se invejo ou reverencio o despetalador de flores.
Não sei se o abraço ou me afasto dos seus feitos.
Sinto dizer, mas eu coleciono prisões...
Há quem diga que nossas prisões particulares são a bagagem de uma vida. Mas bem me lembro de tê-las, desde sempre. E com o passar do tempo, elas têm sido redimensionadas, adaptadas, estilizadas, mas ainda são prisões.
Tenho segredo pra contar... Quer ouvir?
Tenho medo do escuro, do escárnio, da indiferença. E também das sextas-feiras entranhadas em engarrafamentos. Falta-me o ar nesses dias. E se alguém me perguntar a que venho, certamente endoidecerei de temores diversos, antes de desengasgar a minha justificativa. E temo ficar só para o resto da vida, tão só quanto nasci e até aqui vivi. Só de silenciar tão profundamente que, dia desses, não saberei pronunciar uma palavra sequer.
Sinto-me estagnada em sentimentos que não compreendo.
Um amigo de uma amiga me disse que um amigo da amiga dela tem um tio que tem um filho que tem uma esposa que é especialista em identificar quem não consegue sair do lugar. Quem caminha, realiza tarefas, conclui projetos, mas não sai do lugar. Sente-se vazio, como se não houvesse o que fosse capaz de preencher este espaço.
Eu até liguei para marcar uma hora com a especialista. Mas na noite anterior eu sonhei um daqueles sonhos catárticos e amanheci com os pés despregados do chão.

JÁ NÃO TENHO MEDO
O despetalador de flores encerrou o seu turno. Também ele necessita de descanso. Adormeceu entre as flores de um jardim bem cuidado, segurando a última pétala ainda a ser despetalada.
Será que é de bem me quer ou mal me quer esse desfecho?
O gosto é outro na minha boca. Sentimento outro passeando na minha alma. Sinto-me apta a descartar infortúnios, a me desfazer das desculpas. 
Já não tenho medo, tenho é desejo por descobertas.
Essa jornada que inicio tem a ver com conquistar presenças. Se bem me quer ou mal me quer, se por um tempo ou para a vida. Se devo seguir só, que seja. Mas fato é que não temo mais a pessoa que escolhi ser. Não ignoro minhas imperfeições ou renego minhas qualidades.
Sinto-me estranhamente inteira.
Quem sou pode não parecer certo, não caber no entendimento de muitos. Posso não ter a resposta, certamente vou estragar vários projetos importantes e voltar atrás em escolhas definitivas. E o que mais me fascina nessa pessoa que me tornei é a compreensão de que a vida é uma coleção de experiências. 
O despetalador de flores, acordado, mas sonolento, me lançou um olhar dolente, depois o recolheu, alegando que só queria que eu experimentasse do que ele não queria me dar. Disse que jamais alimentará de pena a minha incapacidade de ser livre do autoflagelo. E no bem-me-quer sorriu aventuras. Pude ver a mim já não mais cercada por grades, enfiada em prisões emocionais, perdida em devaneios amestrados.
Senti o desapego pelo relógio, pela lógica, pela busca que não é minha.
Berrei gritos aprisionados. Chorei lágrimas represadas. E dancei ao som dos boleros, a liberdade de par.
E então a madrugada me colocou para dormir.
E eu sonhei possibilidades.
Porque já não tenho medo...




Imagem: sxc.hu



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terça-feira, 17 de julho de 2012

EM BUSCA DO MEU BEST SELLER!
>> Clara Braga

Pronto, já me decidi! Tenho novas metas, vou emagrecer e escrever um livro. Tudo bem, emagrecer não é uma meta tão nova assim, já que eu tento fazer isso desde que eu descobri o que é dieta. E querer escrever um livro também não é novidade, mas emagrecer e escrever um livro sobre como emagrecer, isso sim é novidade.

Recentemente, vi uma reportagem sobre o novo best seller que está fazendo sucesso inclusive entre os artistas de Hollywood: um livro que tem dicas incríveis e inovadoras que te fazem emagrecer muito e em pouco tempo. Isso sim é o que todo mundo quer, emagrecer, ficar lindo/linda e, o melhor de tudo, em pouco tempo, afinal, ninguém tem tempo a perder.

Segundo a reportagem sobre o tal livro milagroso, uma das dicas inovadoras e infalíveis é que na primeira semana você corta o carboidrato e come só proteína! Depois mantém uma dieta onde a base principal são verduras, legumes e grãos... Corrijam-me se eu estiver errada, mas acho que eu já ouvi algo parecido com isso em algum lugar... ou seria em alguns lugares?

Tirando essas dicas como parâmetro, acho que meu livro não iria fazer muito sucesso nem entre a minha família, que dirá entre as estrelas de Hollywood. Não quero falar mal do livro, até porque eu não li, então não posso falar, e também não duvido que quem seguir a risca realmente vai emagrecer muito e rápido, mas eu fujo de toda e qualquer dica desse tipo.

No meu livro, no lugar da introdução, eu colocaria bem grande assim: Quer emagrecer? Você pode, mas não é fácil e é preciso muita disciplina e força de vontade. Só com isso eu já perderia muitos leitores, ninguém quer algo difícil para si. Mas infelizmente é verdade, não adianta se matar de malhar durante a semana e sair pra tomar todas no final de semana, uma latinha de cerveja equivale a um pão francês.

Também não adianta não comer carboidrato, você precisa de energia para trabalhar, para malhar, para resolver problemas da vida e essas coisas, e outra, quem tira o carboidrato de vez quando alcança o peso que queria e volta a comer carboidrato engorda em dobro.

O que você precisa é largar a preguiça de lado e arrumar um tempo, sei lá onde, para fazer exercício e fazer uma reeducação alimentar. Ou seja, vai demorar um pouco mais para você emagrecer, mas depois que você se acostumar a comer direito, não vai ganhar o peso todo de novo depois que parar com a dieta.

E digo mais, nós, que estamos com sobrepeso, não estamos assim à toa, estamos assim porque gostamos de comer. E é exatamente por isso que nunca vai ser fácil emagrecer enquanto isso significar que temos que cortar coisas gostosas da nossa dieta.

E, pra terminar, dou a dica final do meu livro: corra de toda e qualquer dieta que faça sucesso entre as estrelas de Hollywood, pois essas estrelas têm dinheiro para pagar os melhores nutricionistas do mundo, têm dinheiro para pagar pessoas que cuidam da vida delas enquanto elas gastam o tempo que for preciso malhando muito e, melhor ainda, com os melhores personal trainers que já existiram no mundo. E se tudo isso não adiantar para elas, elas resolvem na base da faca.

Acho que meu best seller vai ser um fracasso...

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segunda-feira, 16 de julho de 2012

CORDEL DO QUASE DA VÓ BARANDINA >> Albir José Inácio da Silva

Eu quase que não nascia,
de força que me faltava,
não fosse a mão da parteira
que bem forte me puxava.


Eu quase que não vingava,
não fosse uma reza forte
da sogra da minha tia,
que brigou muito com a morte.


Eu quase que não falava,
não fosse uma tamancada
que me fez ver as estrelas
e vomitar as palavras.


Eu quase que não crescia,
não fosse a mãe tarimbada
arranjar carne de rã,
misturar com papa dágua.


Eu quase não estudava
não fosse o relho de burro
que na mão do professor
minhas costas trabalhava.


Eu quase não fico virgem
tão pura como nasci
não ganhasse na corrida
do filho do fazendeiro
saltando cerca de arame
pulando que nem saci.


Eu quase que não casava
com o meu Bento safado,
não fosse na última hora
um trabuco enferrujado.


Eu quase que não chegava
aos noventa, ano passado,
se não tivesse vencido
trabalho, patrão e marido,
mais tísica e maleita,
que não sou tipo que deita
para esperar pela sorte.
De pé eu brigo com a vida,
de pé pelejo com a morte.



Não devo nada pra dita
nem ela me deve nada.
Quase que eu não vivia,
é verdade, mas só quase,
que eu sou muito
mas é danada.

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domingo, 15 de julho de 2012

SUA VIDA EM CANAIS >> Eduardo Loureiro Jr.

Quando a gente passa muitas horas seguidas dentro de um estúdio de gravação de áudio, como tem sido o meu caso nesses derradeiros dias, começa a ouvir música de maneira diferente. A canção ouvida no rádio não é mais um ser único, indivisível, mas um conjunto formado por uma série de camadas.

A gente percebe o som só do violão, e só da guitarra, e do violão e da guitarra juntos, e só da percussão, e só do violão e da percussão, e só da guitarra e da percussão, e do violão, da, guitarra e da percussão juntos, e só do baixo, e só do baixo e do violão, e só do baixo e da guitarra, e só da percussão, e do baixo, do violão e da guitarra juntos... numa extensa combinação de instrumentos e de conjuntos de instrumentos. A música se revela para a gente não como algo milagrosamente pronto, mas como uma construção canal por canal, linha melódica por linha melódica. Cada instrumento, ou voz, é gravado separadamente no estúdio, para só em seguida ser combinado, mixado, com os demais. Quando, no dia a dia, a gente ouve uma canção de quatro minutos de duração, raramente se dá conta de que, para que os artistas pudessem gravá-la, levaram horas ou, mais frequentemente, dias.

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A vida, nossa vida, talvez também seja assim: uma mixagem de muitos canais, mas muitos mesmo, de família, amizade, trabalho... Cada maneira com que nos relacionamos com uma pessoa específica é uma linha melódica diferente que tocamos. Essas linhas se combinam na tentativa de compor uma harmonia que podemos chamar de felicidade. Às vezes, ficamos muito satisfeitos com o resultado de determinada linha melódica, mas quando a ouvimos em combinação com outra linha, o resultado não é muito bom para os ouvidos. Assim como em um estúdio, poder ouvir cada canal separadamente é, ao mesmo tempo, uma bênção e uma responsabilidade: um canal mal tocado não pode ser coberto, oculto, escondido por outro canal bem tocado. É preciso identificar onde está o erro do canal mal tocado e corrigi-lo, concentrando-se só nele por algum tempo, até poder retornar à combinação com os outros canais.

Quem já passou pela experiência de um estúdio de gravação sabe que o prazer de fazer música pode ser tão cansativo quanto os dias mais chatos da vida. Mas, assim como na vida, o resultado final da dedicação de trabalhar canal por canal é um conjunto mais harmônico que compensa todo o tempo e todo o esforço empregados na tarefa.

Quem canta, seus males espanta. Quem grava, seus males destrava.

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sábado, 14 de julho de 2012

O Resgate do Samba [Carla Cintia Conteiro]

Sou daquele tipo que fica com os cabelinhos da nuca arrepiados ao ouvir sobre o resgate de alguma coisa no contexto cultural. Não é por nada não, só que concordo com quem diz que se alguma manifestação cultural está desaparecendo é porque perdeu seu significado, sua representação simbólica para o grupo que a praticava. Vale registrar como documentação histórica, mas movimentos como revitalização da tradição por quem não foi criado nela me soa como triste pantomima, lamentável pastiche. Ou, como bem definiu Oswald de Andrade, macumba para turista.

Então observo com interesse cético essas rodas de samba nos morros recém-pacificados da Zona Sul carioca. É sempre bom ver que as fronteiras se dissolveram e que o sobe e desce agora é fluente, mas a juventude bem intencionada da PUC me parece equivocada ao achar que está incentivando o “resgate” do samba nas comunidades “corrompidas” pelo funk, forró universitário, tecno brega e outros ritmos fora do rótulo de genuíno ou cult.

Esses moços esquecem, talvez, que os morros da Zona Sul têm uma história diferente da daqueles do Centro e da Zona Norte do Rio. Estes foram ocupados por negros e mulatos que não tinham para onde ir depois da Abolição da Escravatura, do Bota-Abaixo do prefeito Pereira Passos ou no retorno dos soldados de baixa patente da Guerra do Paraguai, entre o final do século XIX e início do XX. Ali inventaram ou geraram quem inventou o samba urbano como o conhecemos hoje, fundaram as primeiras escolas de samba, enfim criaram a base do ziriguidum contemporâneo. Antes que algum leitor baiano se manifeste em protesto, sim, devemos muito às tias baianas e suas festas seminais.

Entretanto, na Zona Sul, os morros foram ocupados, ao longo do século XX, primordialmente pelos migrantes nordestinos que precisavam ficar perto das suas fontes de renda no asfalto sempre muito valorizado nas proximidades do Oceano Atlântico. Aqui e ali, surge uma exceção para confirmar a regra, como a São Clemente e a Unidos da Rocinha, mas escolas de samba, por exemplo, nunca foram uma tradição da região litorânea da cidade. Excluindo um núcleo forte em Botafogo, conhecido como a área mais suburbana da Zona Sul, onde surgiram nomes como Paulinho da Viola, Walter Alfaiate, Beth Carvalho e outros bambas, pouco se tem notícia da tradição sambista por aquelas bandas.

Assim, não entendo o desalento da juventude universitária diante dos estilos populares que se ouvem nas vielas. Faz tempo que o samba é classe média, cultuado dentro de um saudosismo do que seja a pureza da cultura nacional. O Brasil de gosto duvidoso não é considerado autêntico. Não vou me estender sobre esse assunto, Antonio Prata já falou disso lindamente em sua crônica “Bar ruim é lindo, bicho!” 

Portanto, subamos o morro, cantemos, dancemos e confraternizemos, mas não vamos nos iludir. Não estamos entregando o filho samba há muito sequestrado por vilões anti-cultura popular pura a pais saudosos na comunidade. Estaremos compartilhando nossa cultura com irmãos brasileiros de cultura diferente, de história diferente, de formação diferente da nossa. É bem provável que eles gostem e incorporem o “samba de raiz” ao seu vasto repertório de estilos. Contudo, apesar da extemporânea e escandalosa vigência da Resolução 013, que sujeita a realização de bailes funk e, consequentemente, qualquer atividade festiva e cultural à aprovação prévia da Polícia, este e outros sons considerados menos nobres continuarão agradando o povo das comunidades.

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quarta-feira, 11 de julho de 2012

HOJE NÃO >> Carla Dias >>


Minha sobrinha está apaixonada por cavalos, quer dizer, pelos cavalos que conseguiu domar em um jogo de computador. Falando sobre eles, até parece que ela está cavalgando em animais de verdade, de tanta beleza que ela enxerga nessas criaturas, de tanta aventura em correr em vastos campos-pixels. Uma dessas criaturas, em especial, recebeu o nome de Bronze, por causa da sua cor. É um cavalo, mas esse vem de um lugar no qual as meras cercas não delimitam. Bronze é cavalo alado, tem asas e trará minha sobrinha até minha casa em dia de domingo. Pousará na minha área de serviço, sobre a máquina de lavar e voltará mais tarde para buscá-la, porque Bronze não gosta de tetos, então prefere esperar do lado de fora da casa, dando carona aos passarinhos preguiçosos.

Quando me apaixonei pelo pôr do sol, ainda era menina. Naquela época, não sabia dizer imaginação como as crianças de hoje. Eu fui uma menina de imaginação aguçada, mas de boca calada, que revirava realidade e escondia dela minhas invenções. Porque até um dia em que ninguém morreria eu decretei. Ninguém que eu conhecia, ninguém que me era estranho, ninguém do bairro, da cidade, do país, do mundo. Ninguém ninguém morreria nesse dia, e nem passarinho, nem lagartixa, de jeito nenhum galinha morreria. Para tanto, bati papo com a morte, eu sentada num tronco de árvore morrida – mas antes desse dia – e ela escorregando sobre as nuvens, olhar manhoso, de quem sente solidão, então vive a roubar companhia da vida. Só que não nesse dia.

Para alcançar o meu propósito - e era dia de sol quente e sombra de árvore -, esperei até que um silêncio profundo se apossasse da tarde. Então, subi na árvore, pendurei-me nos cabelos embaraçados da morte e sussurrei doçuras no ouvido dela. Lembrava-me de quando era pessoa que andava em colos de mãe, pai, tios e tias, avôs e avós, e como não sabia dizer palavras, bastava resmungar que já vinha alguém para me dizer doçuras. Naquela época, as pessoas me pareciam muito mais gentis e entusiasmadas com a vida. Trabalhei duro para não perder algumas das doçuras que recebi e sabia que o trabalho todo valeria a pena um dia. E valeu, nesse dia em que decretei que a morte tiraria folga e ninguém morreria, mas nem girino, papagaio, plantinha, nem membros da família, tampouco amigos. Promessas não morreriam, tampouco sonhos. E a vida bancou a fanfarrona rebordosa e mergulhou na eternidade de um dia.

A doçura dita escorregou pela alma em vida da morte, que me encarou com olhos esbugalhados e lábios apertados. Fiquei pasma com o momento, jamais imaginei a morte fragilizada por um par de doçuras. Pensei somente que ela atenderia ao meu desejo só para que eu a deixasse em paz, porque, antes das doçuras, eu tentei acabar com a paciência dela cantando, bem alto, todas as canções alegres que eu conhecia e com direito às coreografias mais animadas. Mas a morte ficou miúda, miudinha, e deitou sua cabeça cansada no meu ombro miúdo, miudinho. E quando soluçou pela primeira vez, meu corpo ficou tenso, eu não conseguia me mexer. E quando suas mãos macias e geladas seguraram o meu rosto, e ela precisava que eu a olhasse nos olhos, aconteceu o dia em que nenhum tipo de alguém morreu, nem lambari, tatu, árvore, nem mesmo formigas, gatinhos ou girassóis. Havia tanta vida naquele olhar, vida acumulada pelas colheitas da morte. Havia alegria, tristeza, doçura, amargura, mágoa, perdão, era uma mistura insana do tudo que, por mais que nos esforcemos, jamais conseguiremos decifrar. E a morte, comovida com as doçuras que lhe ofertei, permitiu-me ter esse dia, o dia em que ninguém morreu, nem o alguém-estrela, sorriso, promessa, nem mesmo os sonhadores, nem os solitários.

Nem mesmo o dia morreu. A noite chegou a pleno dia, tomando um pedaço do céu para pintar sua presença, colocando lado a lado o sol e a lua. E a morte, desprovida da frieza necessária para ser a ceifadora da vida, adormeceu nesse dia nos braços do tempo, pedindo que ele a acordasse quando fosse hora de voltar para a lida.






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terça-feira, 10 de julho de 2012

A RAIZ DO PROBLEMA >> Clara Braga

Antes de começar a ler essa crônica tem três coisas que eu gostaria que todos soubessem e que a princípio elas não vão fazer sentido, mas lá no final vocês vão entender tudo! A primeira coisa é que eu tenho provas de que o mundo ainda tem muitas pessoas indelicadas, a segunda é que eu moro no mesmo lugar há 18 anos e o vizinho de baixo é o mesmo desde que chegamos aqui no prédio, e para terminar saibam que essa é uma crônica/explicação, pois vou aproveitar para explicar a minha falta aqui na semana passada!

Bom, tudo começou depois que eu terminei um agradável almoço com meu namorado e estava voltando para casa pensando nas coisas que eu tinha que fazer naquele dia. O sinal fechou e eu parei, pois eu achava que era isso que significava o sinal estar vermelho, mas pelo visto não significa a mesma coisa para todas as pessoas com carteira de habilitação no mundo!

Já estava parada, eu e todos os carros que estavam ao meu lado, e enquanto olhava para o sinal esperando que ele abrisse... POW!! A pessoa que vinha atrás de mim pelo visto não percebeu que todos os carro a frente dela estavam parados e bateu em mim. Ou então sofre de daltonismo, mas como era mulher é pouco provável, pois segundo uma das poucas aulas que eu lembro de biologia, é muito raro mulheres serem daltônicas!

O pior de tudo foi o susto e a cabeça que acabei batendo! A visão apagou e eu fiquei tonta e enquanto isso a mulher que bateu em mim simplesmente teve a maravilhosa atitude de nem sair do carro pra ver se estava tudo bem (o que explica o fato de terem pessoas indelicadas no mundo). O carro mesmo não amassou, o impacto não foi forte o bastante, mas como eu me senti mal resolvi ir ao hospital!

Infelizmente ir ao hospital fazer exames de tomografia e raio-x significa que você vai passar o dia inteiro no hospital até saber se está tudo bem (o que explica o fato de eu não ter conseguido escrever semana passada). Mas o que interessa é que está tudo bem, só o médico que deixou uma recomendação curiosa: “Lesões na cabeça podem aparecer até três semanas depois da batida, então fiquem atentas (eu e minha mãe que estava me acompanhando), se ela começar a parecer meio dispersa, ter perda de memória, e a não falar coisa com coisa, voltem aqui para que a gente faça outro exame, ok?”

E depois que saímos da sala minha mãe solta a piada: “não falar coisa com coisa? Essa vai ser difícil, mais do que você já fala?” E começou a rir! Bom, pelo menos ela esperou sair do consultório para fazer essa piada, mas não adiantou muito, pouco tempo depois eu tive minha vingança!

Minha mãe tem déficit de atenção, ou seja, é dispersa, ela é a pessoa mais sem memória que qualquer pessoa da minha família já conheceu, e quando estávamos chegando em casa um rapaz estava saindo da portaria e segurou a porta para a gente entrar. Agradecemos e entramos. Como o apartamento ao lado do nosso foi vendido, minha mãe me perguntou empolgada enquanto subíamos: “Será que esse moço é o nosso vizinho novo?” E nessa hora eu tive vontade de dar meia volta e voltar ao hospital, pois com certeza quem precisava urgentemente de uma tomografia era minha mãe!

O moço que abriu a porta para a gente é o mesmo vizinho que nós temos e convivemos há 18 anos (o que explica eu dizer o tempo que moramos no mesmo lugar)! Bom, não sei se vão concordar comigo ou não, mas nesse momento eu fiquei bem tranquila, se eu tiver algum problema em não falar coisa com coisa as chances do problema ser genético são muito mais altas do que ser por conta da batida, não é mesmo mãe?

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domingo, 8 de julho de 2012

A CONCORRÊNCIA NO 155 >> Whisner Fraga


As linhas telefônicas eram caras e poucas pessoas tinham uma em casa. Em Minas, havia uma empresa que dominava todo o mercado, a CTBC, que oferecia um serviço de chat. O número era 155. Bastava teclar a sequência para se ter acesso a uma sala em que dez ou quinze pessoas gastavam seu tempo trocando amenidades e insinuações. Às vezes todos falavam de uma vez e era um caos. Eu gostava de ligar para o 155 para ouvir sobre o que as pessoas conversavam, para aprender algumas cantadas (pois era um ambiente de azaração) e para me divertir, lógico.

Meus pais ficavam chateados com a conta telefônica no final do mês, mas como os quatro filhos utilizavam o serviço, era difícil encontrar um culpado. Negávamos tudo, evidente, e era um milagre que tantas horas de 155 viessem parar na fatura, ao final do mês. O telefone antigamente era uma coisa estranha. Como não havia celular, lembro que minha irmã não deixava ninguém se aproximar do aparelho e ela mesma não se desgrudava dele, pois sempre estava esperando uma ligação importante de algum candidato a paquera.

O 155 era o Facebook da época. Em vez de selecionar a melhor foto, os participantes escolhiam a melhor voz. Todos mentiam sobre tudo, como nas redes atuais. Uma balconista virava médica, um estudante se tornava empresário e assim por diante. Era a sobrevivência naquela selva, que estava em jogo. E às vezes alguém se apaixonava por algum timbre, por algum sussurro, por alguma nuance e a coisa era tão platônica como precisava ser.

No 155, as pessoas tinham de se fazer inteligentes, espirituosas, para chamar a atenção, para fisgar alguma pessoa igualmente pretensiosa. Já viram no Facebook, quando postam uma foto da Clarice Lispector e, abaixo ou ao lado, uma frase que ela jamais teria coragem nem capacidade de escrever? Pronto, um exemplo: “Quantas estrelas necessitam do sol para brilhar etc. etc.” Clarice humilhada. No 155, era a mesma coisa, alguém sacava um clichê espirituoso e pronto, ao final acrescentava: é do Vinícius de Moraes, você gostou?

Era comum a gente engatar um papo legal, encontrar uma voz suave, bem feminina versando sobre futebol, sobre o último jogo do Cruzeiro, sobre o artilheiro do campeonato e a empolgação tomar conta, a gente já imaginando um encontro no Paiol ou no Pilão, bares tradicionais da cidade, ela tomando uma coca-cola, ele sacrificando o salário de office-boy em troca de uma mão nas coxas ou de uma ilusão do mesmo naipe e, de repente, no meio daquele sonho, um susto: a gargalhada máscula, o grito rouco e o sujeito do outro lado entregando: ou, idiota, caiu nessa? Era um homem se passando por mulher.

Mudam-se os suportes, mas a humanidade é a mesma e o brasileiro curte (para usar um termo do Facebook) mesmo é uma cerveja, um futebol aos finais de semana e o conforto possível de um teto. As meninas adoram uma maquiagem, um shopping, um cabeleireiro, uma música sertaneja e uma roupa nova. Isso em termos gerais, claro. Sempre há o risco de se achar um oásis nesse deserto de lugares-comuns.



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sexta-feira, 6 de julho de 2012

DIA DE MARCINHA >> Zoraya Cesar

Sem mais nem menos, do nada, resolveu arrumar a bagunça da casa. Começou pela estante de livros. E lá em cima, na última prateleira, encontrou uma coletânea de cronistas mineiros, como Fernando Sabino e outros. Cansada antes mesmo de começar a limpeza, desceu da escada, sentou-se no sofá e abriu o livro, aleatoriamente. 

Caiu na história de uma mulher que, ao ouvir do marido que ser traído era a menor de suas preocupações, pois ela já não era nenhum brotinho (linguagem da época), propõe-lhe um passeio, durante o qual provaria o quanto estava errado. Mas ela passa inteiramente despercebida e, ante as provocações do marido, sugere andarem separados, argumentando que a presença dele estava inibindo as aproximações masculinas. Ele caminha atrás dela e vê, espantado, que, realmente, diversos homens olham persistentemente para sua esposa, alguns até viram a cabeça para trás. O que ele não vê são as grotescas caretas que ela faz para chamar a atenção e fingir ser paquerada.

Marcinha ri, nem se lembrava dessa crônica. Ao reiniciar a arrumação, porém, ela sente algo estranho, uma espécie de melancolia mal identificada. Olha-se no espelho, a melancolia transformando-se em susto. Esta sou eu?, duvidou. Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil: Em que espelho ficou perdida a minha face?, perguntou-lhe Cecília Meireles.

Largou a bagunça para trás e arrumou-se linda, maquiada, bem vestida, uma mulher, pensou e não um pano de chão usado. Bateu a porta da casa e saiu para o mundo, disposta a provar a si mesma que ainda era capaz de chamar a atenção, sem precisar de artifícios careteiros ou outros truques desenxabidos.

Andava lentamente, para ver o efeito que sua beleza causava, mas nada acontecia.  Era como se fosse invisível, pior, como se não existisse. O que estava acontecendo, meu Deus? Estou velha, feia, o que tenho de errado? Há quanto tempo isso vem acontecendo sem eu perceber? Começou a chorar, borrando a maquiagem, inchando os olhos, agora mesmo é que vou parecer um monstro, e chorava ainda mais. Um porteiro ofereceu-lhe uma cadeira, a vendedora da loja ao lado deu-lhe um copo de água, alguns passantes diminuíram o passo, abutremente curiosos. Ela aceitou a ajuda, agradecida. Ainda havia gente boa no mundo.

E ali, largada como uma boneca de trapo numa cadeira de plástico, bebericando uma água com gosto de ferrugem, filosofou que o mundo girava rápido demais, ninguém tinha tempo de notar quem passava ao lado. É isso, pensou aliviada, não sou eu o problema. E preparava-se para levantar, quando toda sua teoria do mundo que gira cai por terra, estrondosa e pesadamente, ao ver que uma menina (ou mulher, hoje em dia é tão difícil distinguir uma da outra) de short curtíssimo e pernas grossas atraía a atenção dos homens que passavam; uma outra, de saltos altos e cabelos ao vento, também.

Marcinha voltou a afundar na cadeira, a se afogar na água, a se consumir por dentro. O problema era com ela. O porteiro pediu licença e foi atender o interfone. A vendedora entrou na loja, a gerente estava chamando. Cada um voltou para o seu papel na vida. Menos Marcinha, que não conseguia se mexer.

Fiquei velha, concluiu. Ouviu claramente a voz da Tia Belinha, querida e morta, afirmando que “A mulher sabe que ficou velha quando deixa de chamar a atenção na rua”.

Arrastou-se de volta para casa, carregando pensamentos sombrios, como fazer plásticas rejuvenescedoras e hidroginástica, associar-se ao clube de velhinhas das vans, morrer amargurada em plena idade madura. Que injustiça, chorava, logo agora que sou independente e livre, pronta, prontinha para sair arrasando por aí, fiquei velha. De que adianta ser bem cuidada, linda, maravilhosa, se ninguém me olha? E se afogava em lágrimas.

Marcinha finalmente chegou em casa, onde misturou-se resignadamente à desarrumação geral. Estou no lusco-fusco da existência, pensou, antes de entorpecer.

Essa história tem dois finais, e, excepcionalmente generosa que me sinto hoje, apresento-as ao Amigo Leitor, para que faça a sua escolha. Mas, ainda generosamente, lembro que o dia da Marcinha chega para todos.

Você estará preparado?

Para os otimistas incorrigíveis, Marcinha deixou de bobagens, deu início a uma nova fase da vida e tratou de ser feliz. Eu poderia revelar que ela arranjou um garotão, mas aí já seria invasão de privacidade. Não conto não.

Para os pessimistas irremediáveis, vulgarmente conhecidos por realistas, Marcinha deixou de bobagens, assumiu que a idade chega para todas, melhor isso que estar morta, e, afinal, se queria tanto chamar a atenção, que pendurasse uma melancia no pescoço. Deixasse de ser assanhada, isso sim. Eu poderia revelar que, com esse comportamento, Marcinha arranjou uma baita de uma artrite, mas isso seria burlar um segredo médico. Não conto não.

Qual o seu final?

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