quinta-feira, 28 de junho de 2012

O PEDIDO >> Fernanda Pinho




O pedido de casamento começou a se desenhar quando ele ligou para minha casa e me disse que precisava falar com a minha irmã. É claro que minha intenção era perguntá-la depois qual era o assunto. Mas o destino parece torcer para o romantismo pois fez com que um primo meu chegasse na minha casa justo nessa hora, de modo que fui atendê-lo e me esqueci por completo do telefonema. Como é fácil fazer surpresa pra gente lerda. E como é fácil quando se tem uma cúmplice sagaz como minha irmã que, sei lá porque cargas d'água, sabia com precisão o número do meu dedo (eu, por minha vez, nem sabia que dedo tinha número).

Três semanas depois ele desembarcou no Brasil, com o anel e duas horas de atraso. Só quem já namorou à distância sabe o que duas horas de atraso significam. A sensação que se tem é que vai chegar seu aniversário de 80 anos e seu amor não terá desembarcado. Tamanha ansiedade fez com que, ao ler "avião no pátio" no painel do desembarque eu fosse acometida por uma vai-ser-inoportuna-assim-lá-longe dor de barriga. Pensei em esperá-lo antes de correr para um banheiro, mas logo constatei que se o fizesse encenaria uma situação extremamente constrangedora, se é que vocês me entendem. Não teve jeito, lá fui eu, suando frio, pro banheiro do aeroporto.

Claro! Foi a conta de eu entrar no banheiro e ele aparecer, segundo me contou minha mãe, que estava me acompanhando. Primeiro ele levou um susto ao não me ver, depois ouviu a explicação da minha mãe e riu, achando aquilo bem "típico de mim". Quando saí do banheiro, o vi de longe. Ele também me viu. Corremos em slow-motion para os braços um do outro, os sinos badalaram, tocou Every Breath You Yake, e todas as pessoas do aeroporto desapareceram. Menos os pais dele que estavam logo atrás. "Uai, seus pais também vieram?". "Vieram te fazer uma surpresa". Eu entendi que a surpresa era exatamente aquela: a presença dos dois ali. Mas não era bem isso, o que eu só fui entender à noite.

Havíamos planejado de, na primeira noite dele no Brasil, sairmos para jantar, só os dois. E assim teríamos feito se eu soubesse que devemos colocar água no carro. Pois é, eu não sabia e o carro deu tilt no meio do caminho. Alguns transeuntes tentaram nos ajudar, minha irmã e cunhado vieram em meu socorro, mas nada adiantou. Tivemos que chamar o reboque que demorou cerca de duas horas pra chegar. Já eram quase meia noite e ainda estávamos eu, minha irmã, meu cunhado, meus pais (que resolveram ir atrás) e ele (com o pedido de casamento no bolso) morrendo de frio numa rua erma de Belo Horizonte.

Quando, enfim, conseguimos voltar para minha casa, fomos surpreendidos por uma faixa na fachada do prédio. Era uma homenagem da minha mãe para minha irmã, que colaria grau no dia seguinte. Eu já estava começando a achar que tudo era um sonho. Daqueles confusos, em que eventos desconexos como diarréia em aeroporto, reboque de carro, homenagem pra irmã e o amor vindo com os pais de outro país só pra ter ver convivem naturalmente.

Se era um sonho, a melhor parte ainda não havia chegado. Quando, enfim, conseguimos nos sentar no sofá da minha casa para conversar (enquanto todos da família já haviam ido dormir), ele me fez um pedido. Não, ainda não era esse. Ele me pediu um copo de água. "Vem comigo, vou pegar pra você". "Ah, busca pra mim, eu fico aqui". "Não,você tem que pegar a água. Não quero você com frescura aqui em casa". "Por favor, pega pra mim. Tenho preguiça". "Ok, ok. Mas é a primeira e última vez que faço isso, tá?". Lá fui eu, tosca e reclamona como sempre.

E então eu voltei com a água. Voltei para a sala, mas não precisamente para o planeta Terra. Fui subitamente transportada para uma outra dimensão ao vê-lo me estendendo a mão com uma caixinha. O misto de choque com miopia me fez levar uns bons segundos para entender o que estava acontecendo. Precisei dar um zoom com a visão naquela caixinha preta e ainda não foi suficiente. Era necessário que ele dissesse alguma coisa. E ele disse:
- Casa comigo.
Minha boca disse sim. E minha alma, precipitada que só ela, casou-se com ele ali mesmo, naquele instante.

Dois dias depois o pedido foi formalizado entre famílias. Os pais dele foram até a minha casa pedir minha mão aos meus pais como, em pleno 2012, ainda manda a tradição chilena. Bom, eles chamam de "tradição chilena", eu chamo de compromisso, respeito, seriedade, hombridade e amor.

Pedido feito, pedido aceito. Meus pais não poderiam dizer "não" para uma pessoa que eu, tenho certeza, disse "sim" antes mesmo de nascer. 

Imagem: sxc.hu


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quarta-feira, 27 de junho de 2012

DOZE ENCANTAMENTOS >> Carla Dias >>

Minha crônica de hoje é, na verdade, uma lembrança.

Em 2004, uma amiga perguntou se eu poderia escrever  doze textos curtos para compor um calendário, como se fossem poções preparadas por uma bruxa. Eu escrevi os textos, mas como encantamentos, porque apreciava mais a ideia de evocação do que preparação.

O projeto não aconteceu, mas ao encontrar os textos nos meus arquivos, senti-me compelida a dividi-los com vocês pela leveza e simplicidade do sugerido.

Então, bom encantamento a todos!


Encantamento 1 – Para fazer amigos
Primeiro, coloque nesse caldeirão que é o seu coração, uma porção de afeto. O afeto é um ingrediente muito importante para se fazer amigos, pois ele nos deixa preparados para aceitar a empatia e nos ajuda a perceber a nossa sintonia com as outras pessoas.  Depois, adicione algumas pitadas de atenção, pois a distração em excesso pode lhe transformar em um solitário e os amigos precisam da companhia uns dos outros. Para finalizar, um pouquinho de paciência. Há muito poder na paciência, pois ela nos permite conhecer novas pessoas para, depois de algum tempo, reconhecer nelas verdadeiros amigos.

Encantamento 2 – Para matar saudade
Escreva o nome da pessoa da qual sente
falta em um pedaço de 
papel que lhe agrade os olhos. Em seguida, deixe cair sobre o papel as palavras que lhe vierem à cabeça, finalizando o ritual com uma gota de um perfume que desperte a lembrança da presença de quem você sente saudade. Depois, dobre o papel e o coloque em um bonito envelope, ou o cole na parede, ao lado da foto da pessoa, ou mesmo leia a carta, em voz alta, nos momentos em que a saudade apertar. Se preferir, faça um aviãozinho e arremesse a carta pela janela, desejando, de coração, que a mensagem chegue ao destino dela. Respeite a saudade, pois ela é capaz de sinalizar a importância que cada pessoa tem nas nossas vidas.


Encantamento 3 – Para fotografar sorriso
Antes de tudo, esteja certo de que o sorriso em questão muito lhe interessa. Não há encantamento que dê certo sem a certeza do sentimento que o conduzirá. Estando a certeza confirmada, aproxime-se da pessoa da qual deseja fisgar o sorriso e, sem que ela perceba, passe a observá-la com mais atenção. Compreenda os destemperos dela, ofereça a sua presença como consolo nas horas mais difíceis e compartilhe das conquistas dela.  Então, quando você menos esperar, ele será despertado: o sorriso. E para fotografá-lo, basta não deixá-lo cair no esquecimento. É preciso preservar na alma as imagens que, em algum momento das nossas vidas, retrataram um dos muitos motivos para acreditarmos na felicidade.

Encantamento 4 - Para festejar a vida
Cante aquela canção que você levou meses para decorar só para poder lembrar determinado momento da sua vida. Dance no meio da sala, da rua, não tenha medo de se entregar aos rompantes da alegria. Dê atenção à companhia do dia, pois ela pode se tornar a companhia de uma vida. Invista nos sonhos. Através deles é que as grandes invenções do homem têm ganhado vida. Adote a sabedoria da simplicidade, reconhecendo o valor de cada gesto e sentimento que alguém venha a lhe oferecer. Às vezes, dê-se ao luxo de amanhecer com o dia, passar a noite na vigília das estrelas, gastar horas a escutar o som do mar.

Encantamento 5 - Para esquecer uma mágoa
Lembre-se de que a vida é uma dádiva e a ela podemos dar a forma que os nossos sentimentos queiram. Então, não se deixe levar pela insistência em manter viva uma mágoa. Cultive alegrias em dias cinzas. Porque o que deve realmente viver dentro de nós é o calor da compreensão e a capacidade de perdoar e aceitar o perdão quando se magoa alguém. Concentre-se nos acontecimentos positivos e nas companhias amigas e fiéis. Dê ao que é simples e verdadeiro a chance de fazer parte da sua biografia.

Encantamento 6 - Para aprender a escutar
É preciso um pouco de boa vontade neste encantamento, pois quem não gosta de ter alguém que o escute, seja nos momentos alegres ou nos tristes?Porém, é preciso também aprender a ser um bom ouvinte. Escutar o que as outras pessoas têm a dizer pode não só ajudá-las com problemas ou coma excitação das boas novas, mas também nos ensinar muito. É prestando atenção no que outros têm a dizer que adquirimos parte da sabedoria que nos conduzirá pela vida.

Encantamento 7 - Para cultivar um sonho
Pegue o seu desejo mais intenso, aquele que você costuma guardar a sete chaves, e comece a falar sobre ele. As palavrastêm um poder incontestável e, assim que você começar a ouvir a si mesmo descrevendo o que de bom há neste desejo, perceberá que ele é um sonho e que todo sonho têm direito a se transformarem projetos de vida. Lembre-se de que grandes descobertas nasceram dos sonhos de pessoas comuns, como nós. Pessoas que apostaram naquele desejo mais intenso.

Encantamento 8 – Para contemplar lua cheia
Procure, entre as suas lembranças, aquela que lhe faça sentir o aconchego: abraço de mãe, brincadeira de rua, bolinho de chuva, sorriso do pai, visita dos primos, um bilhete do amigo de escola, o poema preferido, o perfume das flores... Seja qual for a lembrança, que ela possa abrir as portas da sua alma para o agrado e interceder a favor do seu bem-estar. Depois, sente-se na varanda, abra a janela, pare na calçada, volte os olhos para o céu... Não importa quando ou onde, sintonize  a satisfação em observar a beleza da lua cheia (redonda como as bolas de gude) coma emoção de uma lembrança agradável. 

Encantamento 9 – Para reconhecer a verdade
Não desperdice seu tempo ou imaginação com a mentira. Tendo vontade de inventar histórias, torne-se adepto da arte! E invente sem ofender, sem prejudicar. Crie personagens, coloque-os em prática nos palcos do teatro, nos contos e romances. A imaginação, quando aplicada de má fé, transforma-se em perigosas mentiras e é preciso que tenhamos consciência disso. Porém, quando aliada à arte, pode criar verdadeiras obras-primas. Para reconhecer a verdade, basta deixá-la fazer parte da sua vida e exercê-la no seu cotidiano.

Encantamento 10 – para salvar o dia
Levar as dificuldades com bom humor ainda é o melhor remédio para os dias mais complicados. Inclua no seu dia a dia uma pitada dele que seja, e não deixe que ele se perca de você, nem mesmo se ele quiser acompanhar a sua já esgotada paciência. A disposição em estar bem é essencial Para se salvar o dia... O diariamente. Não é fácil manter o bom humor, mas isso não significa que tenhamos de abandoná-lo totalmente. Apegue-se ao que de melhor acontecer no seu dia para salvá-lo e aproveitá-lo melhor!

Encantamento 11 – Para escrever uma história
Não são somente os escritores que criam histórias. A todo o momento, você também cria uma, a sua própria, e ainda influencia as de outras pessoas. Cada um de nós tem o poder de sinalizar ao destino o caminho que percorreremos e podemos influir diretamente na trama por meio das escolhas que fazemos todos os dias. O desfecho depende da nossa conduta, de como decidimos viver as nossas vidas. Portanto, mais do que qualquer coisa, é preciso ter a ciência do rumo que queremos seguir. Depois, é só assinar a autoria da história.

Encantamento 12 – Para apanhar sentimento
Não se desespere logo no primeiro instante. Feche os olhos, escolha as palavras, as que soarem mais ternas, musicais. Busque no seu dentro o que deseja que fique exposto no seu fora, pois muitos hão de ler nos seus olhos o que o seu coração ditar, e ele deve ser alimentado por vivacidade, candura, discernimento no momento de viver a emoção. Chorar? Pode. E que, sempre que possível, seja impulsionado por sentimentos que traduzam a alegria. Quando não der para ser, transforme-os em esperança, essa mão delicada que nos acolhe sempre que precisamos de paz de espírito.






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terça-feira, 26 de junho de 2012

SEGUINDO EM FRENTE >> Clara Braga

“Clara, quando seus antigos namoros terminaram, como você fez pra esquecer seus ex-namorados?” Essa foi a pergunta que um amigo meu me fez esses dias depois de terminar um namoro de quatro anos! O que eu respondi? Um monte de coisas que eu não sei se vão ajudar de alguma forma. Coisas como: Tenta não pensar nisso, arruma alguma coisa que você possa fazer para ocupar a cabeça, essas coisas que a gente fala, mas que sabe que são fáceis de serem ditas e difíceis de serem executadas. Mas, por favor, atire a primeira pedra quem não acha difícil ver um amigo nessa situação e não saber o que dizer, porque se é que alguém tem uma boa resposta para essa pergunta não hesite em me contar!

A verdade é que a melhor resposta que se pode dar, na minha opinião, é: Não tem nada que você possa fazer. Mas quem vai falar isso para uma pessoa que está sofrendo? Não dá, quando você vê um amigo nessa situação você só procura falar coisas que possam ajudar a amenizar a dificuldade do problema, mas volto a dizer, amenizar sim, ter a solução eu duvido!

Acredito que mesmo que o único jeito seja esperar o tempo passar fazendo com que você se acostume com a ausência da pessoa, acho que tem coisas que é bom a gente evitar fazer, por exemplo, acho que é bom evitar fica tendo notícias da pessoa, entrando no facebook, a gente sempre acaba descobrindo coisas não agradáveis, como saber que a outra pessoa já te superou e está em outro relacionamento enquanto você ainda está tentando se recuperar. Nossa, isso é ruim!

Ou então pensar que a única forma de esquecer o/a ex é se relacionando com a primeira pessoa que passar pela sua frente, ocupando a cabeça com uma nova paixão para solucionar tudo. Porém, como você ainda não esqueceu aquela pessoa de quem você realmente gosta, você começa a comparar as duas, a cobrar que a pessoa tenha atitudes que a outra tinha e assim o seu novo relacionamento também não dá certo. E o pior é que você começa a achar que você é o problema e que nunca vai encontrar alguém pra ficar ao seu lado.

Enfim, tem muitas coisas que você deve evitar fazer e outras tantas que você deve fazer para ocupar a cabeça e ser mais fácil passar pela situação. Mas fórmula mágica, algo que é certeiro e não falha, isso não tem, e qualquer conselho que qualquer amigo possa dar, na hora em que você está mal, parece besta e impossível de ser seguido, mas a verdade é que esses amigos só estão buscando uma forma de te verem menos triste. Se fosse possível, todo bom amigo teria aquele aparelhinho do MIB que apaga a memória e eliminaria os momentos ruins de um outro amigo para que ele pudesse então seguir em frente.


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domingo, 24 de junho de 2012

PEDRA NO CAMINHO >> Whisner Fraga


Vovô e família moravam em um sítio beirando o Rio Tijuco. Os filhos, lógico, estudavam em uma escola rural, mas não sei ao certo onde ficava, porque os detalhes das histórias que ouvi me escapam. Não tive muito contato com parentes, confesso que não me apeguei a primos e tios e os considerava “pessoas de fora”. Tenho a impressão que o desdém era mútuo, pois eram raras as visitas que nos faziam. O que não quer dizer que estou me lixando para as pessoas. Não. Valorizo a amizade como poucos.

Então, os dois meninos acordavam de madrugada, se arrumavam com a ajuda de minha avó, tomavam um leite, e seguiam, embirrados, sonolentos, para a escola, palco de suas diabruras. Experimentavam de tudo para cabular a aula, para tirar sarro dos colegas e da professora. Coitada, se soubessem mais a respeito de sua vida, de seu salário, de suas dificuldades, talvez fossem mais condescendentes. Ela ralhava, ameaçava, enviava bilhetes aos pais, mas a trégua era momentânea. Memória de moleque é bastante curta.

Não havia banheiro na escola. O que existia era um mato mais alto, uma árvore mais encorpada e era agachar atrás de uma moita mais densa e rezar para tudo dar certo. Se fosse o número um, a coisa ia bem, era simples, rápido, limpo. Mas se tivessem comido algo estranho na noite anterior, se um milho, uma canjica ou um feijão caísse meio torto na janta, então o negócio podia complicar. Não havia papel higiênico, não havia jornal, e, dependendo da sujeira, seria um Deus nos acuda.

A professora era esperta, lógico. Já imaginou se deixasse duas crianças irem ao mesmo tempo ao banheiro? E mesmo que não fosse ao mesmo tempo. Controlar a saída delas em meio à balbúrdia, à agitação, às lições de álgebra e geografia, era uma tarefa complexa demais para qualquer pessoa. Daí que ela achou a solução: uma pedrinha, que ficava em sua mesa e, para ir ao banheiro, o garoto ou a garota devia levá-la. E ai de quem a perdesse. Se o objeto não estivesse ao lado dos livros, do apagador, já sabia: alguém estava fazendo suas “necessidades”. Era preciso esperar este voltar para que outro pudesse ir. Mesmo que o aperto fosse grande.

Meus tios haviam degustado umas pamonhas no dia anterior. Exageraram, claro. Ambos suavam no fundo da sala. O mais apertado levantou a mão e, antes que a professora autorizasse, saiu correndo, pegou a pedrinha e se enfurnou na vegetação vizinha. Os alunos tinham um medo terrível de perder a pedra, então, assim que a tocavam, arremessavam-na para o fundo da boca. Daí que o moleque fez uma baderna danada com sua dor-de-barriga. Esparramou sua diarreia terra afora. O cheiro avançava e até os bichos fugiam, impressionados. Enquanto isso, o irmão passava apurado na sala. Rezava para que a pedra ressurgisse logo.

Parece-me que esses tios eram uns capetas. Ninguém os segurava. Daí que, após se aliviar, o menino teve uma ideia: lambuzou a pedrinha na pasta marrom que depositara ali, perto dos pés e voltou para a sala. O irmão, desesperado, nem teve tempo de pedir licença, saiu atropelando cadeiras, arrancou a pedra da mão do outro e, como de costume, a lançou na boca. Durante os segundos de correria, sentiu um gosto estranho se alastrando pela língua, mas a afobação era tanta que nem se importou.


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sábado, 23 de junho de 2012

O RIO E O AMIGO [Ana González]


Quantas vezes não ouvimos histórias diferentes sobre uma mesma situação, por exemplo, sobre uma festa? Uma pessoa adorou, outra detestou. Pessoas passam por experiências semelhantes de maneira diferentes. Recentemente vivi uma situação dessas com um amigo.

Estávamos em um congresso de astrologia em New Orleans e aproveitávamos o tempo livre para um passeio pela cidade numa tarde ensolarada e quente. Fomos ao cais em que se encontrava um grande barco para o passeio pelo Mississipi, o longo rio de franceses, espanhóis, ingleses, índios e africanos e inúmeros cenários de guerras e trocas de governo, lutas. Tudo o que sempre fez a região interessante a meus olhos na distância. Mas, confesso que minha imaginação sempre se fixou nos navios e nos barcos a vapor andando pelo rio, portador de histórias cheias de mistérios e casos especiais.

Estávamos no cais vendo os passeios disponíveis. Eu não tinha tempo para o cruzeiro desejado que o amigo iria fazer no dia seguinte. Então, ele sugeriu que entrássemos em outro barco que estava saindo naquele exato momento. Que tal o ferryboat, perguntou? Não deu para responder. Ele saiu correndo e me puxou. Fui.  Logo pude sentir o barco se soltando e indo pelas águas. Sensação de navegar.

À medida que íamos saindo do cais, fui olhando a margem que ficava para trás. E a cidade foi se desenhando no horizonte, cada vez mais bonita com o perfil dos prédios misturados a sombras. Agora, o nosso destino era o outro lado, outro bairro. Algo a descobrir.

Mas, em certo instante, talvez no meio da travessia, enquanto ambas as margens me pareceram igualmente distantes, entrei em uma emoção estranha. Era algo relacionado com aquele desejo de estar no barco pelo Mississipi, naquela viagem que eu não poderia fazer. Apareceram, então, imagens, talvez frutos de minha imaginação, talvez informações antigas que surgiam e conversavam entre si de forma instintiva. Desde que acordadas, se instalavam com familiaridade: as histórias que eu ouvira, os filmes a que eu assistira. Tudo estava lá naquele instante em que eu me debruçava no parapeito do barco, para olhar o horizonte e a cidade se afastando. O sol era forte. Muita luz ainda nos esperava naquele verão de dias compridos.  Muito calor.

E eu entrava em um mundo só meu carregado de memórias e sensações. Tentei falar a meu amigo sobre isso, mas acho que ele não entendeu em que parte do meu trajeto eu estava. Ele continuava no ferryboat a caminho da outra margem enquanto eu viajava num mundo de histórias e fantasias construídas pelos desejos de um rio só meu, com seu passado, seus fantasmas e toda a história da Louisiana.  Uma aventura pelo Mississipi.  Assim, criei um mundo inteiro, uma realidade própria.

Mas, ainda tive energia nessa noite para refazer com gestos e caras o mundo de minhas fantasias, quando eu recriei o espírito que me acompanhara à tarde. Talvez o impulso para essa cena de comédia tenha vindo da vontade de contar para o amigo sobre minha experiência. Foi uma cena um tanto cômica, uma encenação que se realizou para ele.

Foi um gesto de gratidão por seu companheirismo e entusiasmo que provocaram o passeio, me presenteando com a oportunidade.

Não tenho certeza de que ele tenha entendido o relato da experiência, mas, com certeza, ele adivinhara  meu desejo inicial me levando a cruzar o rio. Foi muita delicadeza, dentro de um comportamento intencional em que pude notar a sua correta e contínua discrição. Toda sua. Foi singelo, foi humano demais.

Acredito que a isso se pode chamar amor. 


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sexta-feira, 22 de junho de 2012

MICOS >> Zoraya Cesar

Aquele que ri de si mesmo é, antes de tudo, um iluminado. Se tem coragem de contar aos amigos, então, é quase um avatar. Em homenagem aos amigos miquentos, conto algumas de suas aventuras – deles, apenas, que não sou tão iluminada assim.

I – Distraída - Estava pronta para sair e mais atrasada que o Coelho Branco, só faltava a calcinha, onde mesmo botara a calcinha, meu Deus? A pressa era tanta que ela desistiu de procurar, vestiu outra e saiu correndo. Parou rapidamente para conversar com o porteiro sobre a falta de água no prédio, pediu informações ao guarda do metrô e, muito ciosa de seus saltos altos, da roupa elegante e dos olhares que recebera desde que saíra de casa, desfilava tranquilamente pela plataforma da estação. Encontrou o chefe na recepção, com quem trocou algumas palavras inteligentes, entrou no elevador e só então, ao se olhar no espelho, descobriu, horrorizada, onde estava a calcinha perdida: pendurada no cinto do vestido preto, a calcinha, vermelha, acenava escadalosamente para o mundo.

II – Preto no branco – Val de Ogun labutou como cambono em um Centro Espírita Umbandista durante um ano antes de lhe ser permitido incorporar um Preto Velho. Na noite que antecedia à sua estreia, exausto após os rituais preparatórios, chegou em casa, arrancou a roupa quase pela cabeça e dormiu.
No dia seguinte, vestiu a mesma calça da noite anterior e foi para o Centro. O templo, imaculadamente branco do chão ao teto, estava repleto e a energia pulsava fortíssima. Aos primeiros toques do atabaque a Entidade de Val de Ogun desceu sem nem esperar a ordem do chefe do terreiro e o fez dançar sozinho, no centro da roda.
O médium incorporado perde o controle mas não a consciência. Val percebia que algo escorregava pela sua perna, por dentro da calça, e, agoniado, dançava ainda mais freneticamente. A “coisa” foi escorregando até que, depois de um movimento mais brusco, a cueca que ele, na pressa e no cansaço, esquecera dentro da calça, voou para fora num looping perfeito e pousou, visível, preta e indiscreta na frente de toda a audiência, de todos os outros médiuns, do Pai de Santo, do mundo, bem no meio da roda.

III – Carnaval – Sem dinheiro, mas criativo, Lico B. colou uma cartolina com papel laminado em formato de foice num cabo de vassoura e vestiu-se todo de preto. Depois de beber todas e mais algumas, resolveu visitar a Tia, que morava pertinho de onde se concentrava o bloco.
Encontrando a porta aberta, entrou gritando a plenos pulmões, “eu sou a Morte e vim lhe buscar, venha, veeeenhaaaa...”, e dançava como um derviche bêbado no meio da sala. A pouca sobriedade que lhe restava dizia que algo estava errado, mas ele só se deu conta quando a Tia, morta – não literalmente, claro – de vergonha, puxou-o para fora do apartamento. Não o dela, que ficava em frente, mas do vizinho, que recebia o apoio dos parentes por conta de seu filho, que acabara de ser hospitalizado algumas horas antes, em estado grave.
(Não se preocupem, o rapaz se recuperou. Lico B., não).

IV – Roupa nova - A dieta, tão sacrificante, finalmente mostrara os resultados, e Lucia, orgulhosa, resolveu se dar uma roupa nova para comemorar. Não demorou muito e seu olhar acutíssimo (ah, esses superlativos) encontrou a minissaia mais querida do mundo: cor de rosa, rendada, eu juro que não queria usar esse adjetivo, mas não tenho saída: fofa.
A vendedora olhou para ela e foi taxativa, ia pegar o tamanho P. Foi a glória! Lucia quase se ajoelhou, de puro êxtase.
No corpo, a roupa se revelou uma microssaia curtíssima, cujo tecido deformável fazia com que Lucia parecesse ter sido embalada a vácuo por uma máquina com defeito. Chamou a vendedora, que olhou para ela e quase teve uma síncope:
- O que a senhora ‘tá fazendo? Isso não é uma saia, é uma mini blusa! Estragou toda...
Lucia fechou as cortinas, tirou a roupa já deformada, molenga e amarfanhada, deixou-a no balcão e saiu correndo.

V – Impaciência - O salário famélico e o desinteresse dos alunos levaram a intolerância de Walmir a níveis quase folclóricos.
Durante uma aula, ao dar o clássico exemplo de trocar o feminino pelo masculino, ouviu a seguinte barbaridade:
- Não to entendendo nada. Como é que eu digo? Vou ao praio? (sic, sic, sic, pelo Amor de Deus).
Na turma subseqüente, última da noite, havia uma menina que, em todas as aulas, olhava fixamente para ele, sempre ostentando um sorriso de lábios fechados, permanente e imutável. O tempo passava, Walmir falando, falando, e a aluna ainda sorrindo. Aquilo foi dando nos nervos já não muito equilibrados do nosso amigo, até que ele explodiu, vociferante:
- ‘Tá pensando que eu sou palhaço? Que estou aqui de brincadeira? ‘Tá rindo de quê?
Silêncio. Sempre sorrindo, mas com os olhos cheios de lágrimas, ela explica, envergonhada:
- Não professor, desculpe. É que eu sofri um acidente, sabe e fiquei assim...

V - Ainda tem mais, muito mais. Tem o amigo que tomou todo o mescal que encontrou no México e se perdeu num banheiro; o estômago da amiga roncando altíssimo durante a Missa; o flato (ficou elegante isso, hein?) que escapuliu barulhentamente durante uma reunião de trabalho...

Assim que os personagens dessa crônica pararem de me ameaçar eu conto mais. Você tem alguma história pra me emprestar?


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quarta-feira, 20 de junho de 2012

LIKE CRAZY >> Carla Dias >>



Vivemos em processo de idealização e desapontamento. Não há como negar que, sempre que possível, criamos versões para desfechos sobre os quais não temos qualquer poder de mudança, esperando sempre pelo melhor para nós mesmos e para quem amamos.

Não acho isso errado, contanto que saibamos lidar com os possíveis – e frequentes – resultados diferentes e, às vezes, até mesmo contrários aos esperados. É preciso saber desapontar-se.

Like Crazy (2011) aborda bem o tema da idealização, mas de uma forma quase hipnótica, porque, neste caso, o idealizado aconteceu, mas se perdeu nos acontecimentos.

No filme, uma jovem britânica conhece um jovem americano em uma faculdade em Los Angeles, nos Estados Unidos. Eles se apaixonam, ficam juntos durante o tempo que resta da faculdade e então o visto dela expira. Ela tem de voltar para a Inglaterra para fazer a renovação, mas vislumbrando o tempo que teria de ficar longe do seu namorado, decide adiar a viagem, perdendo o prazo para renovação do visto. Quando tenta entrar nos Estados Unidos, com visto de turista, descobre que aquela infração a impedia de entrar no país. A partir daí, Anna e Jacob passam a viver um relacionamento a distância.



Separar duas pessoas completamente apaixonadas por continente é lançá-las ao inesperado. Ainda que nelas sobreviva a noção de que o amor é tão grande que não há como se dobrar à situação, na prática a vida ensina que essa expectativa é das mais traiçoeiras. E quanto maior o amor, mais a falta talha desamparo no espírito desses amantes.

Like Crazy é um filme que lida com delicadeza das emoções mais facilmente decifráveis às que surgem quando o desejo não é atendido, mas sem perder a tensão quando acontecem. O diretor e corroteirista Drake Doremus fez um ótimo trabalho, o que ajuda a destacar as atuações dos protagonistas Felicity Jones e Anton Yelchin. Eles estão ótimos para um filme que dá destaque à atuação e com diálogos muito bem escritos.

É muito interessante a forma como o desfecho do filme é apresentado. Todas as situações que antecederam aquele momento apontavam para ele. Ainda assim, o diretor conseguiu chegar a ele de uma maneira peculiar. É possível enxergar, na cena final, o quanto somos movidos a expectativas que não estamos preparados para descartar, quando a não realização delas instala um vazio incapaz de ser preenchido com outra história, até aceitarmos que sim, a distância modifica relacionamentos.

E o Like Crazy que dá título ao filme é uma das coisas mais bacanas nele.



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terça-feira, 19 de junho de 2012

CORRENTE DO BEM >> Clara Braga

Sei que já disse isso aqui antes, mas vou repetir mesmo assim: não acredito que exista alguém que saiba de fato lidar com a morte de algum ente querido. Sei que tem os que lidam melhor, outros que lidam pior e tem até os que surtam de vez, mas alguém que tenha uma fórmula mágica e diga: É assim que se deve lidar com a morte, nisso eu não acredito!

Falo isso pois outro dia fiquei muito feliz, e por que não dizer emocionada, com a atitude de uma colega e sua família. Faz um ano que ela perdeu o irmão em um acidente de carro. Não entrei em detalhes, não sei como foi o acidente nem nada do tipo, mas isso também não vem ao caso. O fato é que ela e a família arrumaram uma forma muito bonita de tentar de alguma forma amenizar a dor que é perder alguém que você ama, principalmente de uma forma brusca e inesperada.

É muito comum perceber em qualquer pessoa que acabou de perder alguém que ama um sentimento de urgência. Parece que cai a ficha e todo mundo percebe que a vida é muito curta, que não se pode deixar as coisas para depois, pois a verdade é que não sabemos quanto tempo nós temos para fazer tudo que queremos fazer. Mas nessa minha colega bateu também um outro sentimento, o sentimento de precisar fazer o bem ao próximo.

Uma vez ela disse que o irmão dela era uma pessoa que estava sempre pronta para ajudar, sempre preocupado com as pessoas, sempre buscando o bem. E por não ser uma característica que se encontre fácil em qualquer pessoa, alguém precisava suprir essa vontade que ele tinha de fazer o bem. Então ela e a família começaram uma corrente do bem pelo facebook e todos os dias há um ano eles postam sugestões das mais simples até as mais complexas de coisas que qualquer pessoa pode fazer para ajudar o próximo ou simplesmente para fazer com que os nossos dias sejam um pouco mais leves.

Por ter ficado tocada com a atitude dessa família que tinha tudo para ficar pelos cantos se lamentando ou achando que o mundo não é justo, que eu peço para todos que lerem essa crônica hoje que procurem também propagar o bem. Pode ser dando um simples sorriso para uma pessoa que passar por você, ou desejando bom dia para as pessoas, ou então dando um prato de comida para alguém que está com fome. Não precisa ser difícil, pode ser apenas oferecendo o ombro para aquela amiga ou amigo que está passando por um momento difícil, ou mandando um e-mail para aquela pessoa com quem você não fala há muito tempo e dizer que sente saudades, não interessa o que você vai fazer, interessa apenas que faça sua parte para que nossos dias e nossas relações com aquelas pessoas com quem convivemos sejam mais leves.

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segunda-feira, 18 de junho de 2012

AMOR A JATO >> Albir José Inácio da Silva

Virgílio virgulava a manchete com palavrões, e a indignação dos outros o acompanhava num jogral que era também comemoração. Cidadão de bem fica feliz de ver na cadeia ladrões, corruptos, estelionatários e outros espertos. Comemoravam a prisão do sacerdote que prometia trazer em três horas a pessoa amada, em troca de módica contribuição para agradar as entidades.

Mas não havia consenso. Daniel, ativista de defesa do consumidor, exasperava-se:

- Seus métodos de cobrança são um absurdo!

Espumava com as ameaças de que Lúcifer em pessoa se encarregaria das punições espirituais se não fosse entregue a seu preposto o justo pagamento pela imediata devolução da amada. Pagamento antecipado ainda por cima. Se não bastassem tais pressões, Pai Brutus saía em campo para cobranças mais dolorosas. O contrato tinha de ser cumprido, mesmo modificado unilateralmente com acréscimo de parcelas, porque não estava sujeito à lei dos homens.

Tânia, intelectual que recuperara um namorado com a ajuda de uma cigana, ponderava:

- Talvez na ânsia de fazer justiça por defraudações sofridas, o povo aplaude, com afoiteza e alguma injustiça, o enquadramento pela polícia de um bem intencionado cupido que passa a vida a reunir amantes desgarrados.

Ela desfilou injustiças praticadas por agentes públicos e privados: o cidadão paga à Companhia de Águas e Esgotos por água que nunca bebeu e por manilhas que só lhe esgotam a paciência; paga por saúde e previdência, mas morre na sala de espera e antes de se aposentar; paga por milagres que nunca vê em prestações a perder de vista; vota em representantes que se especializaram em fraudar o erário; paga por segurança e recebe espancamento de quem deveria garantir-lhe a integridade. E acrescentou:


- O que é uma cobrançazinha a mais que nem é para ele, é dos santos? Quem garante que ele não traria no prazo, completado o arranjo? Quem sabe se as entidades não pediram sucessivas oferendas que o obrigaram a pedir mais dinheiro? E por que a versão da polícia é melhor que a dele?

Geraldo, romântico que até então não tinha posição na contenda, pendeu para o lado de Tânia.

- Muita gente traz o amor em três dias e recebe aplausos. Por que querem puni-lo por trazer em três horas? Pode parecer pouco tempo, principalmente se o amor estiver no Acre ou no Japão, mas pensem comigo: alguém que consegue transformar um coração para fazer amar o que já não ama e consegue fazer voltar o que partiu, que dificuldade teria para providenciar um simples teletransporte?

Virgílio amassou o jornal e Tânia concluiu, intelectual e vitoriosa:

- É a punição da eficiência.

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domingo, 17 de junho de 2012

CRÔNICA DE FADAS >> Eduardo Loureiro Jr.

Escrevo para os noivos, em sentido amplo. Para aqueles que estão se casando, querem se casar ou intencionam continuar casados como se fossem personagens de um conto de fadas. À parte as solteironas e os solteirões convictos — e as crianças ainda não flechadas pela seta do cupido —, escrevo para todos.

Os votos de casamento podem assustar algumas pessoas: ser fiel, amar e respeitar na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza todos os dias da vida em comum pode parecer um projeto ousado. Paracantarolando Belchior, eu acalmo o noivo leitor e a noiva leitora: não se preocupe, meu amigo, com os horrores que eu lhe digo, isso é somente uma crônica, o casamento realmente é diferente, ao vivo é muito pior.

Cada um, no casamento, tem uma ideia diferente do que seja respeitar, amar e ser fiel. Isso já faz uma grande diferença nos (des)acertos. Um cônjuge desavisado pode avaliar o outro cônjuge com base em sua própria maneira de amar, respeitar e ser fiel. E aí é que a aliança aperta. Mas isso não é tudo, caro leitor, cara leitora. Um casal em convivência intensiva está sujeito a coisas que desafiam até mesmo a imaginação de um cronista fantasioso como este que vos escreve.

Você pode descobrir, num dia qualquer de seu enlace matrimonial, que a coisa mais natural do mundo — para você — constitui uma ameaça para a sua cara metade. Imagine-se conversando com seu amor, talvez até discutindo a relação — que Deus nos livre! —, e o fluxo da conversa é interrompido porque (e aqui eu deixo o leitor imaginar e escolher por si mesmo):

a) Você peidou, em baixo volume e sem grandes impactos olfativos, mas definitivamente um peido.
b) Você tirou meleca do nariz e ficou secando a catota com um movimento circular do polegar e do indicador.
c) Você bocejou, chegando a emitir um quase inaudível som ao expelir o ar.

Se você respondeu a), eu digo que não desanime. Seu cônjuge pode interpretar que você está "cagando para ele", mas conheço o caso de pelo menos um casal que fez seu "batismo" de intimidade num peido conjunto embaixo do lençol.

Se você respondeu b), cuidado. É um pecado venial, mas não o repita. Seu cônjuge pode interpretar que você tem mais interesse — até físico — no seu próprio excremento nasal do que no outro corpo humano que está à sua frente. Mas vá lá, desde que você lave as mãos o quanto antes e em seguida toque seu amor com dedos de lavanda.

Agora... se você respondeu c), você é o leitor ideal desta crônica. Você entrou no casamento tão ingênua e espalhafatosamente quanto uma drag queen em uma celebração eucarística. Porque seu cônjuge irá interpretar que você não está nem aí para ele, que você não lhe dedica atenção e que preferia estar dormindo, que você não lhe está sendo fiel, que você não o ama e não o respeita.

Não, não se espante. A terceira guerra mundial — que Deus nos livre, mas só depois que nos livrar das discussões de relação — começará por algo tão aparentemente simples quanto um bocejo. Pode ser um resto de fio dental deixado na bancada do banheiro, pode ser não fechar o olho completamente (escondendo a pupila, mas deixando a parte branca à mostra), pode ser a oleosidade do cabelo em uma almofada. Pode ser qualquer coisa insignificante para você, caro leitor — até mesmo um silêncio —, que significa uma verdadeira declaração de animosidade para o seu cônjuge.

Mas não encarne rapidamente o papel de vítima, caro nubente. Porque o outro também tem suas naturalidades: roncar, acordar e fazer barulho antes do sol nascer, brigar e ficar de bem num intervalo de 37 segundos — e vice-versa —, não escolher por si um filme para assistir, deixar o cesto de lixo transbordar por dias seguidos, encontrar mau cheiro até em coisas recém-lavadas, entulhar objetos que não usa em cômodos e armários, falar alto, falar muito, guardar os problemas para si (tudo bem, sobra um pouquinho para você também, caro leitor cônjuge), esmaltar nas unhas, aplicar tintura no cabelo, passar batom, só comemorar o Natal na casa da mãe.... Essas coisas, que são naturais para o outro, podem lhe atormentar a alma. É lá e cá! Bateu, levou. Alisou, leva mais ainda. A interação — e a relação entre causa e consequência — num casamento é mais errática que bêbado voltando para casa de madrugada e é impossível prever a trajetória do cambalear. Esses detalhes tão pequenos de vocês dois podem ser coisas muito grandes pra esquecer e ficam morando em sua memória feito uma visita indesejada, à moda de um parente — mãe, irmão, sobrinha — de sua alma gêmea.


Então o leitor e a leitora estão por mim avisados. Conto de fadas não tem só princesa e príncipe. Tem também bruxa e lobo mau. E quase nunca vem facinho o tal final feliz.




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quinta-feira, 14 de junho de 2012

EU, DONA DE CASA >> Fernanda Pinho



Dizem que a maternidade traz para a mulher dois brindes, além do bebê: o primeiro é a plena compreensão de todas as atitudes de sua própria mãe. O segundo, um instinto que se abre como um pára-quedas de emergência, revelando nela um desconhecido dom para proteger e cuidar. É como eu me sinto no momento. Não estou grávida, mas agora tenho uma casa e as sensações me parecem semelhantes.

Hoje faz uma semana desde que eu e meu noivo estamos vivendo só os dois. Sem a minha mãe, sem a mãe dele. O que me configura na prosaica categoria de dona de casa. E o que posso dizer depois de uma semana é que estou impressionada.  De repente, todas as manias da minha mãe começaram a fazer total sentido. A de limpeza principalmente. Estou assustadoramente igual a ela. Pensamentos do tipo "preciso lavar umas calças de jeans" me assaltam no meio do trabalho (e o fato de eu trabalhar em casa, só agrava a situação). Separo o lixo para a coleta diariamente, mesmo que sendo duas pessoas não produzamos tanto lixo. E não consigo dormir se tiver um garfo sequer sujo na pia. Que TOC é esse desenvolvido em uma semana? De onde saiu isso?

Outra surpresa: mais que fazer, estou fazendo bem. Eu jurava que minha empreitada no comando de uma casa renderia crônicas cheias de trapalhadas e confusões, mas sinto decepcioná-los. Até o momento, não quebrei nada, não esqueci de nada na lista de compras, não queimei nenhuma roupa, não deixei nenhuma comida passar do ponto. Pois é, estou até cozinhando e o resultado é até comível. E digo mais: desde que nos mudamos, não comi fast-food nem comida congelada. Meu sonho de criança de que quando eu tivesse uma casa só pra mim almoçaria todos os dias no MC Donalds e encheria minha geladeira de Danoninho simplesmente desapareceu.

Eu, que até dois meses atrás não sabia cuidar nem do meu guarda-roupas, agora estou cuidando. Da casa. Dele. De mim. E mais que cuidar bem, estou gostando de cuidar e concluindo que cuidar de uma casa e de outra pessoa é um excelente estágio para a maternidade.

Agora deixa eu ir porque tem panela no fogo!


Imagem: Divulgação TV Globo


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quarta-feira, 13 de junho de 2012

SOBRE ONTEM À NOITE >> Carla Dias >>

Passei no supermercado, ontem à noite, porque já era tarde e eu não queria cozinhar o jantar, precisava do “pronto para consumo”. Fiquei mais de vinte minutos na fila do caixa até dez volumes. Vai entender... Nem sempre menos significa economia de tempo.

Entretanto, algo me chamou a atenção de um jeito de quando vemos a cortina subir e revelar o palco. O supermercado estava cheio de namorados e namoradas ainda desencontrados dos seus respectivos afetos. As mulheres, quase todas e minoria, com garrafas de vinho nas mãos. Os homens, a maioria no supermercado em dia de afirmação de amor declarado e assumido, seguravam vasos e buquês de flores. Alguns deles também abraçavam garrafas de vinho.

Um olhar meu captou a visão colorida de uma sequência de quatro caixas nos quais repousavam, sobre a esteira, vasinhos de begônias. Nunca vi begônias dispostas dessa forma, principalmente à beira das nove horas da noite do Dia dos Namorados. Em outra fila, um moço segurava um vaso de margaridinhas, entre outros dois que seguravam vasinhos com begônias. Parecia um jardim de beira de caixa de supermercado.

Há uma variedade de comerciais nos educando a pensar que o carro tal, a roupa tal, a casa tal e outros tantos tais são o que fazem o amor valer a pena. Se a visão que tive ontem no supermercado fosse um comercial, bom, as begônias se transformariam no produto mais valioso e capaz de mostrar amor de todos os tempos. O vinho já é celebridade.

Quando estava saindo do supermercado, avistei a banca das flores. Dois ou três vasinhos de begônias ainda estavam lá, prontos para serem abduzidos pelo amor de dia de namorar contando com a benção do calendário. Dois ou três mocinhos praticamente os sequestraram. Pensei no rapaz das margaridinhas... Acho que ele foi o sortudo que comprou o último vasinho.

O mais interessante foi a visão alcançada logo após a esse pensamentos sobre begônias e margaridinhas. Em pé, defronte à bancada das flores quase vazia, alguns moços estavam prostrados. Um alisava o cavanhaque, olhar soturno. Outro coçava a cabeça, uma feição meio desesperada. O outro estava, definitivamente, aborrecido. Todos eles observavam o que sobrara na bancada das flores: orquídeas. Os atrasados tiveram de gastar um pouco mais para a felicidade das suas moçoilas. E sem desmerecer as begônias ou as margaridinhas.

Atravessava a rua e então escutei uma voz afinada, bonita. Em um dos carros aguardando que o sinal abrisse, estava um moço cantando para a moça, sentada ao lado dele, uma canção de amor... E bem alto. Desculpem-me, mas apesar de o gesto ter sido bonito, a música não era. Então, escolho não citá-la, assim cada um pode escolher a sua trilha sonora para a cena.

Enquanto jantava a comida pronta, confesso que não conseguia parar de pensar em algo que um amigo me disse sobre como é difícil presentear uma mulher em um dia desses, como se somente ela fosse a parte celebrando a data. Se ele tivesse visto a popularidade das begônias de supermercado, da dedicação dos moços em mantê-las bonitas até chegarem ao seu destino, às mãos e ao coração de suas moças, talvez ele pensasse diferente. É claro que muitas de nós adoram ser paparicadas, que esperam ganhar presentes fantásticos, mas a maioria fica feliz com demonstrações de afeto, com presentes-begônias e até bilhetes de amor escritos em post-it.

Não me apego ao calendário para celebrar meus afetos. Para mim, todo dia é dia de. Isso não significa que eu não respeite e aprecie a celebração alheia. Ontem, especialmente, compreendi que não há nada de negativo em um pouco mais de alegria, de jardins particulares, de vinhos diversos, de canções cantadas nos semáforos, de supermercado abarrotado de amantes atrasados para seus encontros.

E que as orquídeas são flores dos mais atrasados.



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terça-feira, 12 de junho de 2012

FELIZ DIA DOS NAMORADOS! >> Clara Braga

12 de junho, Dia dos Namorados. Dia esse que pode ser tão bom quanto controverso. Me divirto observando as diferentes atitudes das pessoas nesse dia que tem tudo para ser apenas mais um dia comum. Digo dia mas poderia facilmente dizer semana, pois desde a semana passada já podia ver pessoas celebrando e pessoas reclamando da data que estava para chegar, mas a verdade é que é difícil encontrar quem seja indiferente a essa data, mas por que será que ela é tão controversa assim?

Eu hoje levantei supercedo para poder fazer uma surpresa para o meu namorado, assim como minha mãe que também acordou cedo para entregar um presente para o meu pai antes dele sair para o trabalho e tomar café da manhã junto com ele. Já meu pai foi apressadinho, entregou o presente ontem, só não foi mais apressado que meu namorado que entregou o meu quinta-feira passada. Enquanto isso meu irmão está agora no shopping comprando um presente de última hora.

Aqui em casa todos estão mobilizados pela data, cada um à sua maneira, mas todos achando bom o dia, com esse sentimento bom de poder celebrar o fato de ter uma pessoa que você ama ao seu lado. E posso dizer que aqui sempre foi assim, até mesmo quando não se tinha com quem comemorar a data.

Eu, dos quatro que moram aqui, fui a que menos tive alguém comigo nessa data, mas nunca deixei isso abalar o meu dia. Quando era menor, aproveitava o dia que foi inventado para fazer com que os casais saiam da monotonia da rotina e demonstrem amor e carinho um pelo outro para sair da rotina também. Juntava minhas amigas solteiras em casa, comprávamos sorvete, chocolate, pipoca, balinhas, só coisas gostosas que não engordam quando você come solteira no Dia dos Namorados, e passávamos a tarde assistindo a filmes românticos e fazendo a mesma coisa que os casais fazem, suspirávamos por amor, que não era o nosso, mas não tinha problema.

Nos divertíamos sem problema algum, sem criticar ninguém, sem achar ruim a data. E ainda tínhamos coragem de admitir que sentíamos uma pontinha de inveja daquela menina que recebeu um buquê de flores. E para mim, com todo respeito a quem não gosta dessa data, mas admitam, essa atitude de ficar criticando para quem quiser ouvir, colocando no facebook que não passa de uma data para o comércio lucrar, não é um pouquinho de inveja de quem está curtindo o dia apaixonado? Vai dizer que quando você tiver alguém ao seu lado você também não vai comprar um presentinho legal?

A verdade é que Dia dos Namorados é igual a Dia dos Pais e Dia das Mães, é dia de celebrar e comemorar o amor, o amor único de uma mãe, o amor único de um pai e o amor único de uma paixão. Mas acreditem, com certeza é muito pior não ter mãe ou pai no Dia dos Pais ou no Dia das Mães do que não ter namorado no Dia dos Namorados, até porque se você não tem namorado hoje, ano que vem pode ser diferente, já mãe e pai não é bem assim e nem por isso ouvem-se tantas reclamações nesses dias... Pensem nisso antes de reclamarem de datas comemorativas. Quem não gosta é só ser indiferente e viver o dia como outro qualquer, ou inventar sua própria forma de comemorar. Usem a criatividade e tenham um feliz Dia dos Namorados.

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segunda-feira, 11 de junho de 2012

FAMÍLIA >> Kika Coutinho

É no cotidiano que assisto às minhas duas filhas se tornando irmãs. Já são, desde sempre, irmãs. Mas a mágica da intimidade, do afeto e do desafeto, dos ciúmes e do amor encantado dos irmãos, se faz na rotina cotidiana, aqueles dias repetidos, quando tudo parece igual. É nesses dias, cheios de simplicidade e ócio, que se forma a mágica, o milagre da construção de uma família. Quando as assisto às minhas filhas se descobrindo, quase rio ao pensar que um dia elas terão amigas sinceras, amizades fortes, que construirão na escola, na vizinhança, ou não sei onde; e a essas dirão que são como irmãs. Irão declarar amor eterno, contato eterno, juras e mais juras de que serão para sempre amigos, porque são irmãos escolhidos, algo assim. E eu juro que vou assistir calada, por mais que me tente a avisá-las que irmãos, irmãos mesmo, são esses que de bebezinho se conheciam. Irmãs com intimidade, que sabem onde uma tem pinta, onde a outra tem cócegas, do que é aquela cicatriz que ela tem na testa e aquela que a outra fez quando caiu da bicicleta. Irmãos são esses que sabem as histórias mais antigas de um e de outro, conhecem os detalhes dessa família da qual fazem parte, sabem os orgulhos e as vergonhas escondidas, aquelas que não ousamos partilhar nem mesmo com o espelho, os irmãos as sabem... É tão imensamente gratificante assistir às minhas meninas tornarem-se isso. Tornam-se, conosco, uma família. Não sou simplesmente parte de uma família, sou a forma de uma família, porque a crio e recrio, todos os dias, a cada despertar. E quando penso no que posso ofertar a elas de melhor, como mãe, não vem à minha mente as melhores escolas, nem as mais incríveis viagens, nem mesmo o maior amor do mundo, ainda que isso seja verdade. Quando penso no que de melhor posso ofertar-lhes, penso em ofertar-lhes uma à outra simplesmente. Porque é esse o legado que deixarei a vocês, minhas pequenas. Se Deus for bom como tem sido, se a vida for honestamente justa, se eu continuar dando a sorte que dei, é isso que terei lhes deixado daqui a muitos anos, uma família. Portanto, minha torcida é por coisas miúdas, quase bestas, que se engrandecem quando feitas diante dos meus olhos encantados de mãe. Torço para que vocês cochichem seus segredos mais íntimos, dividam a boneca, ainda que seja a ridícula da Barbie, não há de ser nada, não me importarei nem mesmo se se tornarem peruas, desde que possam compartilhar dos escarpans (ai Jesuis!) e das piadas internas, que possam se consolar quando um babaca qualquer partir o coração de uma de vocês, talvez até das duas (se vocês acharem dois babacas, vou te contar hein?). Mas, meninas queridas, se, depois disso tudo vocês ainda se reunirem ao redor de uma mesa, rirem e tomarem uma garrafa de vinho juntas, quem sabe possam desfrutar dos filhos uma da outra e, enfim, dar continuidade àquilo que chamamos de família, àquela baboseira de sobrenome, e etc. e tal, se vocês partilharem isso e as lembranças antigas dessa velha família à qual pretendo dedicar a minha vida, pronto, está feito. Que o milagre prossiga, portanto, nessa segunda-feira fria, e todos os outros dias.  

www.embuchada.blogspot.com

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domingo, 10 de junho de 2012

ÉRAMOS TODOS LOCUTORES >> Whisner Fraga

Meu pai trabalhava em uma Agropecuária, que tinha seu escritório em um edifício no centro de Ituiutaba, no Triângulo Mineiro. Todas as férias, eu também virava funcionário da empresa, pois era consenso na minha família que não poderíamos jamais ficar à toa. Eu adorava o emprego, por vários motivos: por causa do salário, que me permitia renovar o velho par de tênis, porque a sala tinha duas ou três máquinas de escrever, que eu usava para passar a limpo meus primeiros contos, por causa da revista Visão, que eu lia de cabo a rabo.

O fato é que eu atuava como office boy, responsável por algumas tarefas que não me agradavam totalmente, como ir ao Banco realizar uma série de transações comerciais para a Agropecuária. Às vezes meu pai viajava com o patrão para gerenciar uma venda de gado ou a vacinação anual, para uma fazenda em Goiás ou para outra em Mato Grosso e eu ficava sozinho, tomando conta do escritório. Com aquela idade eu não tomava conta nem de mim mesmo, mas era bom fingir ser importante. Para saber o que deveria fazer durante o período em que estavam fora, precisava falar com meu pai todos os dias, pelo rádio amador.

O rádio amador era uma brincadeira à parte, um enigma para o menino de doze ou treze anos. As duas fazendas se comunicavam com Ituiutaba por meio daquele aparato eletrônico, sempre às sete da madrugada. Em Mato Grosso, quem pilotava bem o aparelho era a mulher do caseiro, a Fátima, mais versada em novas e antigas tecnologias. Recapitulando: eu, na pequena cidade mineira, sonolento, desanimado, me posicionava em frente à caixinha de ruídos, esperando alguma onda que me trouxesse notícias de outros estados.

Conhecia ambas as fazendas e gostava daquele cheiro de capim orvalhado mesclado à bosta de ruminantes. Adorava também um córrego que beirava a sede, onde eu fisgava lambaris, enquanto sonhava com peixes maiores. Se permitissem, eu podia passar a vida ali, só pescando, só atocaiando piaus, eu e minha varinha de bambu, curtindo nossa insignificância. Eita, vida boa. Ser nada, ser confundido com um tufo de capim ou com uma varejeira sobrevoando o pasto era a melhor coisa do mundo. Ficava esquecido, eu e minha lata de minhocas no barranco de um riacho.

Até que me chegava o rumor trocista, condescendente do pecuarista, em Goiás. Eu, naquela época em que a voz me embaraçava, em que a voz, do nada, desafinava em um agudo estridente, para depois recuperar seu porte de masculinidade, em que a voz não se decidia, entre fina e grossa, me deixando a preferir o silêncio. Só que o silêncio não depende somente de nós, mas também do mundo, que nos atormenta e nos cobra sempre uma palavra.

O velho perguntava se havia alguém em Ituiutaba ou em Barra do Garça. Meu coração golpeava desesperado o tórax. Eu tinha medo, tinha medo de tudo, e olhava para o chão, buscando uma força que me livrasse daquilo. Respondi o patrão: “Ituiutaba ouvindo, câmbio”. Vocês têm ideia do que é aquele negócio, não? É um som lá no fundo tentando vencer a barreira de chiados, de forma que só se compreende a essência das frases, o genérico, do que depreendo que o Sr. Bete tenha entendido somente o “câmbio” da minha frase. Daí que pouco depois me veio, nítida (a vergonha é sempre assim, clara), a resposta: “Alô, Fátima, é você? Como estão as coisas aí no Mato Grosso? Chuva? Câmbio”. Se eu levasse adiante o engano, teria de ouvir gozações a semana inteira e um tímido não suporta tanto bullying. Então desliguei o equipamento, saquei uma revista Visão das gavetas da escrivaninha e comecei a ler, enquanto pensava numa boa desculpa para não ter ligado o rádio aquele dia.

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sexta-feira, 8 de junho de 2012

UM DIA DA CAÇA - OUTRO, DO CAÇADOR
>> Zoraya Cesar

O ídolo dos amigos. O Papa-Todas, o Irresistível, o Pegador eram alguns dos epítetos do nosso protagonista de hoje. Vamos chamá-lo de Luizão, porque o nome verdadeiro é confidencial. Objeto de inveja dos amigos casados, que não tinham condições de viver vida tão excitante, e dos solteiros, que, por mais que tentassem, não chegavam nem perto do sucesso numérico de Luizão, que açulava essa inveja contando todos os detalhes sórdidos de suas aventuras.

Mas suas conquistas eram de qualidade, dizia. Não se dava ao trabalho de seduzir qualquer uma não, a graça, para ele, era fazer com que mesmo as mais astutas e experientes caíssem em sua teia. Aos quase 40 anos, solteirão convicto, jamais se apegara a qualquer das vítimas enganadas. Gabava-se de poder conquistar a mais empedernida ou séria que fosse, fazê-la se apaixonar perdidamente, para só então levá-la para a cama (ou carros, praias, escadarias de prédios comerciais, banheiros públicos ou privados... a cidade era cheia de opções) e descartá-la como de um lenço de papel assoado. Seu prazer era a conquista, a estratégia, as dificuldades e a vitória final, a entrega do corpo apaixonado da mosca, digo, moça, aos prazeres da carne. Um predador moderno: elegante e amoral.

Esclarecido o caráter de Luizão, não percamos tempo com análises ociosas. Vamos aos fatos.

Um dia – como costumo dizer, sempre tem “um dia” – Luizão chegou com os olhos brilhando de excitação (sei que é um chavão dos mais repetidos, mas não pude resistir): por intermédio de Maurício, um dos amigos de sempre, conhecera Ivonete, dona de salão de beleza, que estava de casamento marcado para dali a alguns meses, apaixonadíssima pelo noivo – assim mesmo, no superlativo. O alvo perfeito, babava.  A estratégia aplicada para fazer Ivonete trair o noivo antes do matrimônio já estava preparada: far-se-ia (uau, uma mesóclise!) passar por coitado largado pela noiva no altar, mulheres adoram coitados.

E Luizão contava os avanços, os recuos, o lento mas gradual envolvimento de Ivanete, que agora aceitava um pouco menos recalcitrantemente os agrados e presentes de Luizão, ouvia-o emocionada falar da noiva ingrata, compadecia-se de seu falso sofrimento.

Até que Luizão anunciou, a boca cheia do riso canalha, que no dia seguinte ela iria à sua casa. E lá encontraria jantar romântico, velas, champagne (de Champagne mesmo, Luizão não economizava para alcançar seus intentos), presentes e, claro, declarações de amor e lençóis de linho. "Semana que vem eu conto", prometeu, "mais um capítulo da vitória da experiência sobre a virtude".

Na semana seguinte àquela que seria a noite memorável, Luizão não apareceu nem deu notícias. O celular só caía na caixa postal, seu perfil sumira das redes de relacionamentos. Os amigos chegaram a pensar que o noivo traído descobrira tudo e armara uma vingança.  Maurício, no entanto, o único que não parecia preocupado, ao contrário, sorria misteriosamente, como se soubesse de alguma coisa muito engraçada e particular, tranquilizou a todos, afirmando que Luizão estava muito bem e que, no dia seguinte, iria encontrá-lo na hora do almoço.

Assim dito, assim feito. Maurício encontrou nosso protagonista sozinho, cabisbaixo, olhando para a comida sem tocá-la.

– E aí, amigão, você sumiu...

Luizão olhou para ele, com raiva, os olhos fundos, a pele baça.

– Você sabia, não é? Fez de propósito – respondeu, a voz sumida dentro da boca.

Mauricio riu.

– Que Ivanete era um travesti? Claro que sabia! – e ria de chorar. – Achei que seria engraçado um travesti enganar um garanhão experiente que nem você. Mas não se preocupe, ela é perfeita demais, engana todo mundo, eu também embarquei nessa – Mauricio agora gargalhava. – Não leve tão a sério, cara, faz parte da vida, é mais uma historia pra contar...

Luizão continuava de cabeça baixa, enquanto o outro falava e ria. Então, num movimento brusco e violento, agarrou Mauricio pelo colarinho:

– Imbecil, você estragou minha vida, vou te matar, estou apaixonado, entendeu? Apaixonado pela Ivanete. E ela me dispensou, não quer nada comigo – gritava em pleno restaurante, cuspindo raiva no rosto de um aparvalhado Mauricio, que começava a ficar ligeiramente azulado.

(Termino a história aqui, creio que não há mais nada a dizer. Conclusões, lições de moral, se a vida vingou-se de Luizão, se cada um tem o Maurício que merece, tudo fica a cargo do Leitor. Afinal o amor, quando acontece, é inexplicável, e sabemos nós que todo mingau tem seu dia de araruta. Mas, se você ficou curioso em saber o que aconteceu depois, é só perguntar, prometo que conto.).


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quinta-feira, 7 de junho de 2012

BOA COMPANHIA >> Fernanda Pinho


Um dia desses uma amiga desabafava comigo dizendo que, cada vez mais, tem gostado - e mais que gostado, preferido - sair para se divertir sozinha, em vez de acompanhada. Ela se sentia estranha por isso, e me perguntava o que eu achava. O que eu acho é: se ela é estranha, eu também sou.

Por não gostar de depender de ninguém, por ter meu próprio ritmo acelerado, por trabalhar em casa, por ter estado muito tempo solteira, eu me habituei a fazer muitas coisas sozinhas. E, assim como para minha amiga, o hábito se tornou preferência em determinadas situações.

Trabalhar sozinha, por exemplo. Claro que estou o tempo todo conectada com as pessoas que trabalham virtualmente comigo mas, fisicamente, estou sempre só. E acho uma maravilha. Nada me desconcentra, otimizo meu tempo pois não tenho com quem jogar conversa fora e não preciso dar explicações a ninguém sobre a desordem dos meus materiais de trabalho. Na minha bagunça silenciosa me encontro. E só a mim. Já nem sei mais se consigo produzir de outra forma.

Nem malhar. Malhar só funciona se eu estiver sozinha ou acompanhada de desconhecidos, o que, para mim, é o mesmo que estar só. Porque malhação só existe com música e música me exige demasiada concentração. Viajo, crio histórias. visito o passado e o futuro, a depender da trilha sonora. Quando estou embalada pela música sou incapaz de dar ouvidos a alguém.

O mesmo acontece com os filmes, o que me faz ter particular predileção pelas sessões de cinema na minha própria companhia. Adora a liberdade de poder gargalhar e chorar sem nenhum constrangimento. De poder ficar cinco minutos num silêncio embasbacado depois de um final de filme chocante. De poder comer toda a pipoca ainda no trailer, sem parecer mal educada aos olhos de ninguém.

E a essa listinha somam-se outros pequenos prazeres individuais: fazer compras, almoçar, me locomover de um local ao outro, fazer qualquer tipo de arrumação. Tarefas que me fizeram descobrir em mim uma ótima companhia. E só depois dessa descoberta, só depois de entender que o bem que eu me fazia ninguém mais poderia me fazer, é que encontrei em mim também uma ótima companhia para oferecer a outra pessoa.

Outra pessoa com quem, hoje, eu tenho o prazer de dividir absolutamente tudo. Sem neuras, preocupações ou constrangimentos. Posso gargalhar, chorar, fazer minhas bagunças ou ficar 40 minutos em silêncio. Está tudo bem. Como se ele fosse eu. Ou como se eu fosse ele. Já nem sei. 



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quarta-feira, 6 de junho de 2012

SAM ESCOLHEU SUAS ARMAS >> Carla Dias >>


"C'mon get up, get dressed
The world is spinning
Full of kindly beings
The one you love will love you back
And no-one's spoiling anything
Everything's just right
It makes you want to fill your lungs and sing
And ooh ...You silly pretty little thing"
Bob Geldof, da canção Silly Pretty Thing


Acordei pensando sobre esse filme que assisti semana passada. Acordei pensando como se o tivesse sonhado, sabe?  Ele tratava da história de um homem que chegou ao fundo poço, aos cafundós do abismo, ao fim do fim da linha por causa das drogas. Então, um dia ele pensou ter matado um homem e decidiu aderir à religião da esposa, que enquanto o marido estava na cadeia, deixou de ser stripper e foi cuidar da vida e da filha. 

O mais interessante é que, em determinado momento dessa aceitação de Deus, ele resolveu construir uma igreja que recebesse a todos os que as outras não aceitavam. Porque se Deus deu uma chance a ele, como não daria às prostitutas e aos drogados, aos bandidos em busca de salvação? Deus pode sim ser o aceitador de tudo e todos, mas não os homens. É diferente converter bandidos, enquanto eles estão na cadeia, de aceitá-los, ainda em processo de compreensão da sua expiação espiritual, ou seja, ainda detentores do cargo de marginais. 

A igreja vingou, mas nenhum pastor quis participar dela. Foi assim que o criminoso se apossou da palavra.

Mas não é a religiosidade desse homem que me inquieta. O que ele fez, depois de se estabelecer e se tornar dono de uma empreiteira, é que me fez repensar alguns causos. E isso acabou no continente africano, no Sudão, para ser mais exata.

Agora, talvez seja o ponto em que você está pensando que será muito chato ouvir falar, mais uma vez, sobre as necessidades da África. E que não tem mais paciência para ver aquela foto da criança sendo observada pelo abutre, nem mesmo ouvir falar em mais um Live Aid by Bob Geldof. Eu adoro o Bob Geldof... Ótimo músico e, principalmente, um verdadeiro humanitário.

Redenção (Machine Gun Preacher/2011), que é estrelado por Gerard Butler e baseado na história de Sam Childers. Sim, ele existe, e ao ouvir falar, na igreja que frequentava, sobre a situação da África, decidiu se voluntariar para um programa de reconstrução de casas em Yei, no Sudão do Sul, em 1998, em plena guerra. A partir daí, não houve quem tirasse a África de Sam. Ele voltou ao Sudão, construiu uma clínica e depois um orfanato em área de risco, mas que somente ali atenderia quem realmente precisava dele. A milícia rebelde estava matando e sequestrando as crianças. 

Sam Childers

Houve um momento em que Sam se sentiu muito perturbado com a história que assistia no Sudão. Ele chegou a hipotecar a casa e a vender a sua empresa para conseguir dinheiro para o trabalho voluntário, criando uma situação difícil para a esposa e a filha. Ele era diferente de um pastor convencional, porque amante que era das armas, ele as empunhava para defender as pessoas, e principalmente para reaver as crianças órfãs sequestradas. E são essas crianças, a forma como elas são agradecidas a ele e compreender a dor, que ele retomou o seu caminho. Sem abandonar as armas, claro. 

É verdade... A miséria não ronda somente a África. No Brasil, há pessoas que não têm o básico para viver, crianças que necessitam lidar com a fome e com o descaso. Mas a questão que me faz pensar que pessoas como Sam Childers e Bob Geldof sejam necessárias, pessoas que olham para além das fronteiras de seus países de origem, é que há lugares, como o Sudão e a Etiópia, em que somente a política bem aplicada e os projetos sociais efetivos não podem resolver o problema. Onde a bondade, o humanitarismo e a coragem de estrangeiros de trafegar por lugares em guerra fazem toda a diferença.

A foto do abutre e a criança foi registrada pelo fotógrafo sul-africano Kevin Carter, em 1993. Foi publicada pelo jornal New York Times e  ganhou o Pulitzer, em 1994. A menina sudanesa estava tentando chegar a um posto de alimentação. É uma das imagens que mais tocaram as pessoas sobre a situação da África. Bob Geldof continua a sua batalha humanitária e não se esqueceu da África, assim como Sam Childers. O orfanato que ele construiu continua na ativa.  

Bob Geldof

Hoje eu acordei com esse filme na cabeça, mas talvez eu tenha sonhado sobre o assunto. E o que experimento agora é a sensação de que, apesar de saber que ainda falta muito para a situação da África se acertar, ainda há esperança. Graças a Sams e Bobs e Ghandis e Betinhos e Martins e a mim e a você que, na pequeneza do que podemos fazer, sonhamos o mundo melhor. 



Sam Childers / Machine Gun Preacher - machinegunpreacher.org





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terça-feira, 5 de junho de 2012

O VERDADEIRO CAMPO MINADO >> Clara Braga

Troquei de academia! Essa foi minha última tentativa de me autoestimular a fazer algum exercício. A academia em que eu estava antes era uma daquelas em que você vai, faz o circuito de meia hora e volta pra casa feliz, alegre, contente e saltitante. O único problema é que para mim não estava dando muito resultado, não sei se pela academia ou pela preguiça de ter que pegar o carro e ir lá para longe em um lugar onde nunca tinha vaga para estacionar.

Agora, na nova academia onde eu estou malhando, além de ter todas aquelas aulas de exercícios aeróbicos, tipo bike indoor e essas coisas que te fazem suar muito e ter a sensação de que você é “o cara” da academia, fica na comercial da quadra onde eu moro, e quem mora em Brasília sabe que isso significa que com uma caminhada de 5 minutos eu estou na academia, já é o aquecimento!

E foi justo essa caminhada/aquecimento de 5 minutos até a academia que me motivou a escrever essa crônica. Quem mora em Brasília ou já esteve aqui por qualquer motivo deve ter percebido que aqui é uma cidade onde não dá para caminhar a pé, ou você tem carro ou conta com a boa vontade do transporte público, ou então é melhor ficar em casa mesmo. Além de ser tudo muito distante, a impressão que fica é de que não temos calçadas suficientes para uma caminhada até um lugar um pouco mais distante.


Por sorte existe calçada do meu prédio até a porta da academia, posso até cortar caminho por baixo de um prédio ou outro, tropeçar em uma calçada um pouco desnivelada, mas não posso dizer que ela não existe. E de vez em quando bate até um saudosismo, pois o caminho para a academia era um dos que eu fazia com o meu cachorrinho quando ele era vivo.

Claro, quando eu passeava com meu cachorro eu ia pela calçada e ele pela grama, e é isso que acho que falta para alguns moradores da minha quadra entenderem. Sei que em Brasília não somos acostumados a andar, mas algumas pessoas ainda se aventuram ou realmente precisam caminhar por não terem outro meio de transporte. Então você, dono de um cachorrinho lindo que só usa a calçada para passear com o cachorro, todo o resto você faz de carro, entenda uma coisa: a calçada da quadra já é estreita, mal passam duas pessoas uma do lado da outra, ao redor dessa calçada tem uma grande área verde, onde as pessoas não passam, pois é feio pisar na grama. Ou seja, as necessidades fisiológicas do seu cachorrinho lindo vão ficar melhor na grama, onde elas ainda podem servir de adubo, do que na calçada, onde todos estamos tentando caminhar tranquilamente, mas se não ficarmos atentos vamos acabar chegando ao nosso destino com um belo cocô de cachorro grudado no sapato.

Eu não sei quando as leis mudaram, não sou ligada nessas coisas, mas na minha época dono que não tirava o cocô que o cachorro fez da calçada era multado! Lembro que na época achei exagero, não achava que era necessária uma lei para isso, achei que as pessoas, já acostumadas a viver em sociedade, iam pensar no próximo e evitar que a calçada virasse um verdadeiro campo minado. Bom, me enganei feio.

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segunda-feira, 4 de junho de 2012

O EMPREGO >> Albir José Inácio da Silva

Foi o último a chegar, assustado, não, desamparado. Todos conheciam sua ojeriza por assuntos de morte: enterros, capelas, cemitérios. Parava de freqüentar uma casa quando sabia que alguém tinha morrido lá. Mas nesse velório não teve como não ir. Felício era amigo de infância. Os outros até respeitavam sua aversão, mas não dessa vez: quando pretextou reumatismo, ameaçaram ir buscá-lo.

Se Alfredo – troquei o nome porque ele não me perdoaria – se desesperava só com essas conversas, imagine o leitor como estava se sentindo diante da materialidade da morte. Sofreu a vida toda com esse tema, que parecia ser o preferido de seus amigos. Não sei se gostavam mesmo ou se, sádicos, se divertiam com o sofrimento dele. Não perdiam oportunidade para falar da “indesejada das gentes” – poetizavam - enquanto Alfredo se contorcia. Felício, o agora velado, era o mais entusiasmado.

Alfredo também sofria de desemprego há quase um ano, com contas atrasadas e aviso de despejo. Há dois dias Felício chegou no bar com um sorriso e uma novidade: emprego, bastava procurar aquela pessoa naquele endereço, e entregou-lhe o papel. A tarde podia ter terminado assim, mas bastou uma distração e o tema morte estava na mesa.

Alfredo ia se levantar, mas sentiu no bolso o papel de emprego. Resignou-se. Sofreu. Felício, megalomaníaco, falou das vantagens de se morrer na zona sul, da dignidade com que se morre lá, do choro contido, sem escândalos. Lembrou os trajes elegantes e o mais importante: enterro no São João Batista, entre as celebridades. Enfim, já que se tinha que morrer, que fosse ali.

Beto da Muda discordou. O melhor lugar para se morrer era a Tijuca, com suas igrejas e seminários, suas tradições e seu ambiente familiar. A morte de um ente querido na Tijuca não era sentida só pela família, mas por todo o Bairro. Felício replicou. Na religiosa Tijuca morria-se com culpas e arrependimentos. Sempre se está em pecado naquele lugar de penitência e confissão. Eu não me pronunciei porque não havia um único lugar em que eu desejasse morrer.

Mas o garçom, íntimo e apressado, não entendeu o “morrer bem” e disse que o melhor lugar para isso era a Baixada. Lá morria-se fácil, sem médico, sem saneamento, com chacinas e epidemias. Difícil era para quem ficava e tinha que encomendar o morto. Mas os políticos ajudavam. Sempre se conseguia uma cesta básica de enterro. Ninguém teve paciência nem tempo de explicar porque outra mesa já reclamava o garçom. Não suportando mais, Alfredo conseguiu gemer um agradecimento pelo emprego e saiu.

Agora ali estávamos para a última homenagem a Felício. A cerveja, que fazia os outros mais falantes, mais emocionados, parecia mergulhar Alfredo em mais depressão. O tijucano da Muda não o perdoou.

- Tá certo que isso aqui é um velório, não é pra ninguém ficar alegre. Tá certo que você não goste de enterros, muita gente não gosta. Mas dá pra melhorar essa cara? Parece que tá aqui obrigado. Nem a viúva você cumprimentou. Que falta de consideração! Principalmente com Felício. Ele não era teu amigo? Não te ajudou tantas vezes? Agora mesmo ele não te conseguiu um emprego?

Como se estivesse no próprio enterro, Alfredo balbuciou:

-É, conseguiu!

E tirou do bolso um crachá de ajudante de necrotério do IML.

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