quinta-feira, 31 de maio de 2012

SER ESTRANGEIRA >> Fernanda Pinho


Eu que sou filha, irmã, amiga, jornalista, libriana, atleticana, mineira, tenho mais uma pra minha lista. Agora sou estrangeira. Amanhã faz dois meses desde que cheguei e já foi o suficiente para eu criar alguns novos conceitos, enxergar novas percepções, descobrir novos sentimentos. Muda nosso ponto de vista padrão, muda tudo.

Estou, por exemplo, mais tolerante. Descobri em mim uma incrível capacidade de autocontrole. A Fernanda impulsiva saiu de férias devido à minha falta de léxico para explodir quando me sinto irritada. Ainda não aprendi a brigar em espanhol, o que faz de mim uma pessoa estranhamente doce e serena.

Essa falta de intimidade com o idioma faz de mim também uma pessoa mais atenta. Nunca me disperso quando alguém fala comigo. Vou me familiarizando com os sons, registrando novas palavras. A atenção, aliás, é minha companhia mais constante. Nada me passa despercebido. Tudo é computado. Ando no supermercado admirando as embalagens, dou ouvidos para conversa de estranhos, leio (em voz alta) todas as placas nas ruas. Me dedico a entender as ruas, o trânsito. Talvez seja um sentimento de autoproteção, evitando que eu me perca numa cidade que não é a minha. Na minha cidade nunca me preocupei com isso. O que justifica o estranho fato de em dois meses de Santiago eu ter desenvolvido um senso de direção muito mais apurado que em 28 anos de Belo Horizonte.

Tudo está mais apurado. Dos sentidos aos sentimentos. Me descobri uma completamente apaixonada pelo Brasil. E olha que estou num lugar que muito me agrada. Mas se tem uma coisa que muda a cabeça da gente é quando o banal se torna um privilégio. Comer feijão preto ou ouvir alguém falando português ao meu lado deu pra me emocionar, olha que coisa! E quando me perguntam sobre o Brasil? Só consigo me lembrar de coisas boas e elas são tantas. Já me peguei elogiando até os planos de saúde brasileiros, pra vocês terem uma ideia.

E que não ousem falar mal do Brasil perto de mim porque se falar... bom, não vai acontecer nada por enquanto. Mas deixa só eu aprender a brigar em espanhol!

www.viveremportunhol.blogspot.com

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quarta-feira, 30 de maio de 2012

EU QUERO SER TIM BURTON! >> Carla Dias >>


“Sabe o que é estranho? É que sempre me achei normal quando era criança. Depois de um tempo,você começa a pensar que é maluco, porque todo mundo te chama assim. Aí os anos passam e você se dá conta de que eles estavam certos, você era louco mesmo.”
Tim Burton


O que você quer ser quando crescer?

Pergunta recorrente na vida de qualquer criança, acaba sempre recebendo respostas sazonais. Há dias em que se quer ser herói, em outros, professor, bombeiro, astronauta, ou colecionador de gibis, filho da mãe e do pai e não de um extraterrestre, porque isso dá medo e afasta os amiguinhos. Não há limites para o que se pode ser quando crescer sendo criança.

Eu quis ser muitas coisas quando criança. Apesar de a minha memória infante depender das minhas irmãs para funcionar, lembro-me de duas coisas que queria ser quando crescesse: freira e aconselhadora para apaziguar alma. Crescendo, percebi que as pessoas não gostam quando nos metemos em seus assuntos com um punhado de conselhos que não pediram, eu não gosto. E que ser freira é um chamado que eu nunca estive realmente a fim de atender.

Então, fui sendo.

Se me perguntassem hoje, mas com a mesma intenção de quando eu era criança, o que eu seria quando crescesse, mesmo aos quase quarenta e dois anos de idade, eu responderia com a paixão da menina: o Tim Burton!


O mundo criado pelo menino que se achava normal, enquanto rotulado louco, que se tornou, depois do sucesso, um rotulado excêntrico, é de uma perspicácia aguçada. Sei que a maioria de nós teve uma infância regada às alegrias de ser criança, às brincadeiras, aos planos do que ser quando crescer e que isso é bom e saudável. Só que também há aquelas crianças que, desde sempre, existem de um jeito diferente. Se houvesse um Tim Burton na minha escola, quando eu era menina, talvez tivéssemos nos tornado grandes amigos com roupas esquisitas, ar taciturno e silêncio imperante, porque ao começarmos a conversar,  ele contando sobre os personagens que lhe inquietavam a alma, eu me deslumbraria de vez, e não haveria quem pudesse me tirar daquele universo que ele me permitiu visitar. Talvez, se eu tivesse conhecido um Tim Burton quando criança, desde lá eu já desejaria ser ele quando crescesse.

O universo de Tim Burton me fascina. Seria incapaz de criar algo tão profundo, melancólico e de uma beleza dissimétrica tão encantadora. O artista dos desenhos, da poesia e dos filmes, de tantos talentos, é uma inspiração para mim. Os personagens que traz à vida, bom, alguns estão mortos, mas tudo certo! Continuam interessantemente construídos e contando histórias envolventes.

Frankenweenie

Na verdade, escrevendo a respeito, percebo que cometi uma gafe existencial. Não é que eu realmente queira ser Tim Burton quando crescesse...

Se inventarem um jeito de se voltar ao passado - e que não tenha nada a ver com o Marty McFly tentando voltar para o futuro -, quando voltasse a ser criança eu gostaria de conhecer um Tim Burton na escola. E que ele me permitisse ser sua amiga independente das nossas esquisitices. E que ao me contar sobre os lúgubres e sublimes personagens que lhe habitassem a alma eu finalmente pudesse exercer a função de aconselhadora para apaziguar alma, mas sem ofender ou ultrapassar limites.

Quando eu crescer quero ser.






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terça-feira, 29 de maio de 2012

SERÁ QUE É IMPORTANTE? >> Clara Braga

Às vezes eu fico com a impressão de que as pessoas prestam atenção nas coisas erradas. Pode ser que seja eu também, que eu esteja prestando atenção em coisas que não deveria enquanto coisas muito mais importantes acontecem, mas não sei, ainda tenho essa minha impressão.

Hoje em dia tem tido muitas marchas, reivindicações, apelos, etc. pelos direitos da mulher. Acho mais do que justo, tem que ir pra rua fazer barulho mesmo, a mulher não pode ser feita de objeto, as pessoas não podem justificar o abuso sexual contra a mulher por causa da roupa que ela usa que é provocante, ninguém pode espancar uma mulher (nem qualquer outra pessoa, de preferência), etc.

Concordo com todas as colocações que vêm sendo feitas e assino embaixo. Porém, enquanto nós estamos lutando por tudo isso, a Rede Globo está colocando em suas novelas e seriados várias mulheres que são feitas de gato e sapato por vários homens e tudo bem, fica por isso mesmo.

Em uma novela o cara tem três esposas e fica conciliando o tempo que passa com cada uma dando a desculpa de que tem que fazer muitas viagens a trabalho. E o mais absurdo: duas das esposas são amigas, choram as mágoas uma para a outra e, apesar de morrerem de vontade de conhecerem os maridos uma da outra, nunca descobrem que são casadas com o mesmo cara. Será que só eu acho isso surreal?

Depois, tanto nessa novela quanto em outros programas, aparecem várias mulheres superconformadas com o fato de que são traídas por seus maridos, afinal “qual o homem que nunca deu uma escapadinha?”. Olha, não sei de que planeta saíram as pessoas que escrevem esses textos para a Globo, mas se quiserem a gente pode marcar um encontro e eu apresento vários homens que eu conheço que nunca deram uma escapadinha.

O que me preocupa é o fato de saber que a Globo dita moda, cria padrões, decide qual o assunto da vez que vai estar na boca do povo e, exatamente por isso, daqui a pouco as pessoas vão achar que é normal o cara trair a esposa , namorada, ficante, sem maiores problemas, e a besta da mulher tem que ficar lá só olhando, afinal, é normal.

Claro que existem mulheres que querem conviver numa boa com isso, que realmente não acham isso problemático, e tem até mulheres que também fazem isso, mas chegar ao ponto de tornar isso padrão da forma como a televisão tem feito, colocando a mulher como a coitada que tem que aceitar o marido assim, é um pouco demais, não?

E enquanto essas coisas rolam de forma nada sutil, mas a gente vai absorvendo sem grandes problemas, a Globo decidiu que o assunto da vez seria a Xuxa, Rainha dos Baixinhos, declarando que sofria abuso até os 13 anos de idade, e agora, enquanto várias outras coisas acontecem no mundo, as pessoas ficam discutindo se de fato a declaração é verdade ou não. Será que isso é tão importante assim a ponto de por mais de uma semana ser o assunto da vez?

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domingo, 27 de maio de 2012

MANIFESTO >> Whisner Fraga


Estudávamos, eu e meus irmãos, no período da manhã, o que equivale a dizer que devíamos acordar às seis da manhã ou pouco menos, o que era muito penoso, porque todos nós gostávamos (e acho que ainda gostamos) de dormir. Depois, brigávamos entre nós para ver quem buscaria o pão e quem faria o café e o chá. Geralmente os mais fracos perdiam – eu ia até a padaria e minha irmã preparava o leite e companhia. Com o tempo, meu irmão, mais parrudo do que nós outros, percebeu que podia dormir até mais tarde, já que, para se encaminhar para a escola, só devia vestir o uniforme, ajuntar os livros e se deliciar com o café da manhã preparado por nós.

A sorte é que o Polivalente, escola que frequentávamos, era perto de casa. Uns quinze minutos a pé ou cinco minutos de bicicleta. Minha irmã, mimada como era, cursava um colégio chique, que ficava mais distante de nosso bairro, o que não representava problema nenhum, já que tinha carona todos os dias. A Escola Estadual Antônio de Souza Martins era disputada, todos queriam estudar lá nos anos 1980. Tínhamos aula de Artes, Educação para o lar, Práticas agrícolas, era um negócio inconcebível em um país que escapava de uma ditadura militar. Então havia um vestibular, que era tão concorrido quanto os quase extintos vestibulares para ingresso nas boas universidades públicas de nossa pátria.

Enquanto escrevo, acabo por me lembrar de uma história interessante. Ao lerem o ocorrido, por favor, não me tomem como arrogante, porque não sou de jeito nenhum. Não chego ao cúmulo de ter algum complexo de inferioridade, mas também não cultivo qualquer sentimento de superioridade com relação ao que quer que seja. O fato é que prestei o tal vestibulinho para ingressar no colégio e aguardava ansioso a resposta. Se fosse reprovado, teria de ir para uma escola inferior e, pior, longe de casa. Na manhã do dia acertado para divulgarem o resultado, uma amiga de minha mãe liga para ela: não tinha visto meu nome na lista. Desesperada, minha família corre para a 16, pois o resultado estava afixado nos muros de entrada do Polivalente. Claro, todo mundo começou a procurar lá no fim da lista de uns quatrocentos nomes e veio rumo ao início. Entre os primeiros colocados estava lá: Whisner Fraga Mamede. Eu tinha tudo para ter uma baixa auto-estima, não?

Estive recentemente em Ituiutaba e, como sempre faço, visitei o Polivalente. Mais uma vez voltei triste para casa. Não condeno, de maneira alguma, os gestores atuais da escola, nem tampouco seus professores, que, estou certo, fazem o possível. Vi o capim invadindo o que já foi uma pista de corrida, vi as quadras e mesmo o campo, sem manutenção, abandonados, vi parte do prédio fechada, pois não tem mais condições de uso. O edifício de hoje é somente uma sombra do que foi há trinta anos. Conheço a realidade da educação, pois também sou professor e posso dizer que os diretores, os docentes não têm culpa. Sabemos que a educação no Brasil nunca foi prioridade e se há o mito que havia mais dinheiro para esta área anos 1970, é porque poucas pessoas iam para a escola, o que barateava todo o processo. O orçamento não conseguiu crescer na mesma proporção que o número de alunos que ingressam no sistema. O que podemos fazer? Deixar de enxergar a educação pública, gratuita e de qualidade como um favor e começar a percebê-la como um direito de todos. Assim que isso acontecer, podemos ir à luta.


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sábado, 26 de maio de 2012

POR AMOR OU POR DINHEIRO
>> Maria Rachel Oliveira

Outro dia, aliás li no site da BBC uma matéria sobre os resultados de uma pesquisa realizada por cientistas americanos sobre o que atrai mais as mulheres num homem, se aparência ou dinheiro. O estudo, que foi publicado no Journal of Personality and Social Psychology (Jornal de Psicologia Social e Personalidade), conclui que, no final das contas, a aparência é o que conta mais para ambos os sexos na hora de escolher o parceiro amoroso. Balela. Discordo enormemente. Pra começar, fizeram a pergunta errada quando elaboraram o tal estudo. Rico ou pobre realmente é secundário quando se trata de um encantamento que pode vir dum jeito de olhar, de uma certa gargalhada, ou até mesmo de uma falha nos dentes. Gosto é pessoalíssimo - e insondável, aliás.
Eu, por exemplo, já amei feios. Já amei duros. Já amei ricos e já amei bonitos (esses últimos quando não são narcisistas são ótimos, mas isso é exceção, o que não os torna tão bons partidos quanto aparentam à primeira vista). Porém, pães-duros jamais. Não tem nada mais deprimente do que um primeiro jantar em que a conta 'deu 32,50 pra você e 45,27 pra mim, porque eu tomei uma taça de vinho a mais'. Esse cara merece ser capado e seu instrumento oferecido em sacrifício aos pombos da Cinelândia. O que os homens não entendem é que as mulheres querem que eles paguem as contas. Isso mesmo. Pro inferno essa de igualdade de sexos, a gente quer ser paparicada. Ponto. A gente quer ser tratada como mulherzinha; sim senhores, t-o-d-a-s, talvez até principalmente as mais metidas a independentes!
Claro, existe uma diferença, uma enorme diferença entre a mulher que quer ser paparicada e a mulher que quer dar o golpe do baú e ficar de boreste enquanto o sujeito se esfalfa todo pra ela poder quedar-se a fazer nada. E é a falta total de percepção dessa sutil diferença o ponto em que as relações se lascam. Terminam trocando os pés pelas mãos e acabam parando nas mãos das dissimuladas, que fingem muito bem até ter o poder necessário para depená-los (ou vocês acham que aquela bunda dura delas e aqueles amigos 'personais' todos é porque elas trabalham seriamente feito umas cornas o dia inteiro?).
Eu já fui jantar em restaurante baratex e me senti uma rainha quando o sujeito se recusou terminantemente a dividir a conta. E era um duro, só pra constar. Impressionou muito mais do que aquele cara mauriceba que te leva num restaurante cheio de guéri-guéri e escolhe o vinho que vai tomar pelo menu da direita (pra quem não entendeu a piadinha, pelo lado em que estão os preços). As mulheres querem cavalheirismo. Sim, isso quer dizer: que vocês paguem SEMPRE a conta do restaurante e que abram a porta do carro pra gente, quando nos convidarem pra sair. Mas não se iludam que a ‘boa mulher’ vocês diagnosticam facilmente. No início, todas queremos a mesma moleza, mas, se vocês fizerem a opção certa, verão que, conforme ela for pegando intimidade, a ‘certa’ – a que só quer ser paparicada e não a sanguessuga – retribuirá na mesma moeda, e não economizará em surpresinhas (que podem ir desde pequenas ou grandes viagens a presentes pessoalíssimos e inesquecíveis) que certamente o farão muito feliz.
E sim, a gente acha muito justo dividir contas – quando isso implica em morar debaixo do mesmo teto e as tais ‘contas’ em questão são de telefone, luz e por aí vai. E achamos que o justo é que as contas sejam pagas na proporção da remuneração de cada um, independentemente de quem ganha mais.
O pai de uma amiga de uma amiga tem um conselho sábio. Nem para isso, nem para nada mais (como cultura e outras questões relevantes) a gente deve se envolver com alguém que não se enquadre na regra dos 30%. Não pode ser mais de 30% mais ou menos em qualquer quesito. Claro que há exceções, oras. Mas nesse caso, os dois olhos - e não um só - abertos, sîl vouz plaît.

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sexta-feira, 25 de maio de 2012

AS CARTAS NÂO MENTEM >> Zoraya Cesar

O rapaz magricela de boné com a aba virada para trás resmungava e ouvia funk ao mesmo tempo em que distribuía os folhetos, nos quais se lia:
Saiba o que vai acontecer e esteja preparado. Madame Cora não erra jamais.
Ao lado da imagem um pouco borrada da dita madame, um número de telefone e um grave aviso:
Só atendo com hora marcada. Não se desespere, procure Madame Cora.
Ele estava ansioso por distribuir todos os folhetos do dia e começar a longa jornada para casa. Se soubesse rezar ou acreditasse em qualquer coisa, rezaria para alguém procurar Madame Cora levando o folheto, para ele ganhar uma comissão. Minguada, mas comissão.  Duas moças passaram por ele e uma delas pegou o folheto, para espanto da outra, você acredita nessas bobagens? imagina, respondeu, só peguei por curiosidade, e seguiram seu caminho.
Jessica não pegou o folheto por curiosidade, mas por estar à beira do desespero, faria qualquer coisa para Anderson largar a mulher por ela, a amante apaixonada. Mas, depois de um ano de idas e vindas, a coisa estava desandando, ele já não parecia tão disposto a sair de casa, estava dividido, a mulher não estava bem de saúde, essas histórias mais antigas que o tempo. 
É disso que eu preciso, pensou Jessica, lendo o folheto. Eu sei que ele quer ficar comigo, aquela vaca deve estar fazendo macumba. Eu também posso fazer.
E se bem o pensou, melhor o fez (li essa expressão em algum lugar, adorei, finalmente pude usá-la). Ligou para Madame Cora, deu uma desculpa no banco onde trabalhava, pegou duas conduções e lá chegou. Uma adolescente vestida de branco, cabelos bem penteados, ofereceu-lhe um copo de água, fluidificada, disse, abre os canais de comunicação com o Além, Madame Cora já vai recebê-la. Jessica tomou, obediente, e a moça sinalizou para ela entrar por uma porta entreaberta nos fundos da sala.
Madame Cora aparentava jovens 50 anos, bem vestida como as ciganas de Hollywood, unhas sem esmalte, o rosto sem maquiagem. Olhou para Jessica e suspirou, mais uma boboca querendo o marido das outras. Mas vamos ao trabalho.
As cartas de Madame Cora foram cruéis. Disseram que Anderson não tinha intenção alguma de largar a mulher, e que Jessica deveria se afastar o quanto antes, pois ele não estava destinado para ela. Jessica insistiu, mas não tem nada que eu possa fazer para mudar isso? Não se deve mexer com o destino, falou Madame Cora, severa. Jessica chorou, mas eu gosto dele, tem de ter alguma coisa, eu quero, eu quero, eu quero.
Madame Cora pensou, amargurada, que essa gente não aprende, a maioria vem aqui assim, querendo mudar os rumos do plano Divino a seu bel prazer, em vez de aproveitar os avisos. No entanto, ela também não podia interferir no destino alheio. Se a cliente estava pedindo e ela, Madame Cora, sabia o que fazer... bem, cada um recebe o que pede. Ditou a Jessica uma série de instruções, nomes de ervas, fases da lua, invocações (não posso dizer quais, nem adianta pedir, Madame Cora me mata!) e um aviso de amigo: pense bem, minha filha, as cartas não mentem, você terá de agüentar as conseqüências até o efeito passar, não se deve mexer com o livre arbítrio dos outros, ele é casado.
Jessica saiu confiante. Não seria uma cartomante moralista que haveria de convencê-la a desistir do seu amor. Danem-se os avisos.
Ela fez tudo conforme o prescrito e, coincidentemente ou não – depende da crença de cada um -, o fato é que Anderson largou a mulher e mudou-se para a casa de Jessica.
Foi um desastre. Ele começou a beber e fazer cenas de ciúme absurdas, Jessica nunca mais teve sossego nem para sair com as amigas. Eram três infelizes, um por ter saído da casa que nunca pretendera largar; outro, por ter perdido o amante em troca de um marido ciumento e raivoso; e o terceiro por ter sido abandonado sem explicação.
Jessica continuava desesperada, não mais para ficar com Anderson, mas para se livrar dele. E também da ex-mulher, que vivia fazendo ameaças de mortes, surras, escândalos. Quanto tempo aquilo ia durar? Até passar, resignava-se a pobre Jessica, que ainda pensou em procurar Madame Cora, mas desistiu. Jamais voltaria a se misturar com magias e destinos novamente.
Do outro lado da cidade, Madame Cora tomava calmamente um chá da erva-doce colhida no seu quintal. As pessoas ou não acreditam em coisa alguma, ou acreditam apenas no que querem, o que dá no mesmo: em infortúnios, filosofava. E se preparou para atender o primeiro cliente da tarde, uma mulher que havia sido abandonada pelo marido por causa de uma bancariazinha muito da sirigaita.


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quinta-feira, 24 de maio de 2012

A PESSOA SEM VIDA >> Fernanda Pinho




A pessoa sem vida é uma espécie não muito rara que conseguiu sobreviver à evolução graças à sua capacidade de camuflagem. Ela se camufla em meio a seres generosos e prestativos e se aproxima da presa demonstrando uma quase exagerada capacidade de ser útil.

A pessoa sem vida utiliza-se de vários mecanismos para deixar clara suas boas intenções. "Qualquer coisa que precisar, é só falar". "Eu vou com você". "Eu faço pra você". "Eu sei de um lugar ótimo". "Deixa comigo". São exemplos de frases recorrentes no vocabulário dessa espécie, sorrateiramente furtadas do linguajar dos bons de verdade.

A pessoa sem vida, porém, ao contrário dos bons, não estão apenas oferecendo ajuda ou sugestão. Trata-se de uma tentativa quase sempre ineficaz de impor o que, na verdade, ela quer. Ineficaz porque lhe falta a naturalidade dos bons. Diante de uma negativa da presa deixam escapar vestígios de sua verdadeira personalidade.

A pessoa sem vida, uma vez fora de controle, perde os escrúpulos, a educação e a compostura. A cara amarrada passa a ser seu uniforme. Coloca-se como uma pobre injustiçada, que "só queria ajudar". Lança mão do poder de camuflagem para fazer a vítima. Faz chantagem, drama, teatro. E pode até arrancar um sentimento de culpa da presa, caso esta ainda não tenha sido vacinada.

A pessoa sem vida pode manifestar esse seu desvio ainda na infância. São crianças que só ficam felizes se puderem usar a caixa de lápis de cor do coleguinha, ainda que a sua tenha mais cores. Tornam-se mulheres obcecadas pelo cabelo, o corpo e o marido da outra. Tornam-se homens que se metem em relacionamentos sem nunca oferecer à outra parte uma vida decente (afinal, ele não tem vida). Tornam-se colegas de trabalho sempre à espreita para te dar uma rasteira. Por que? Ora, porque querem seu lugar ou porque, simplesmente, sente-se mais confortável diante da infelicidade alheia.

A pessoa sem vida quer sugar sua energia. Seu ânimo. Sua força. Quer sugar a vida que ela mesma não tem.

Imagem: www.sxc.hu
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quarta-feira, 23 de maio de 2012

MORAR EM UM OLHAR >> Carla Dias >>

Acredito que perceber mais claramente as coisas difíceis que acontecem a nossa volta, às outras pessoas, também seja parte de uma fase, assim como a fase em que colecionamos objetos só para nos lembrarmos de alguém, daquele alguém que desejamos ter por perto durante as vinte e quatro horas do dia. Objetos que a pessoa tocou ou desejou, palavras que disse sem notar a mudança que inspirava em quem lhe queria mais do que qualquer benquerença seria capaz de traduzir.  Ou a fase dos suspiros longos, pesados de tão carregados de sentimentos que não sabemos identificar. A fase da indiferença, do desejo pungente de comprar a loja inteira ou de ficar fula da vida com a vida porque não consegue ser pontual nos compromissos, tampouco parar de exagerar no carboidrato. Fase de sonhar em ter carro, casa, em ficar suficientemente endinheirada para poder pagar todas as contas e sobrar dinheiro para o cinema, sem que o gasto desestabilize a contabilidade de apertos do mês. E até mesmo aquela em que a única – porém insistente – preocupação é com a própria saúde.

Fases são providenciais e a lua não me deixa mentir, vide o affair que mantém com as marés, apenas para citar o caso mais popular.

Há também a fase em que refletimos sobre as fases da vida, quando todas as outras, exceto a atual, a que nos faz mergulhar na experiência do questionamento, são vítimas de uma tirania que somos capazes de cometer somente com a gente mesmo. A fase de falar mal de si, o tempo todo, trazendo à tona todos os adjetivos com os quais, até então, fomos alvejados. E não falo dos apaixonados, dos sinceros, dos agradáveis e sim de todos aqueles adjetivos que aguaram aquela sementinha de mágoa fecundada em desalento.  Antes eu acreditava que essa fase era a da autopiedade em frenesi, só que não penso mais isso, porque passar por ela, sem danificar a alma de vez, pede uma coragem que a autopiedade não oferece.

A autopiedade estagna a alma e a veste em tormentos, mas essa fase, a do mergulho interno, ela despe a alma e a deixa em carne viva antes de oferecer a oportunidade do desvelar verdades, de reconhecer quais são as mentiras, para que possamos desacreditá-las e seguir adiante.

A fase da percepção sobre as dificuldades do outro nos deixa um tanto atormentados. Quando olhamos para o lado e nos deparamos com pessoas passando por situações que não seríamos capazes sequer de imaginar para as nossas vidas, em um exercício de tudo é possível, a sensação de impotência faz com que nos coloquemos no lugar delas, a empatia brota. E a impotência pode se tornar um sentimento regedor, procrastinador da nossa capacidade de perceber que sim, há certos acontecimentos que não podemos mudar e nem mesmo tornar menos cruéis para o outro ou para nós mesmos.

Então, vem a fase de debulhar a fé em entretons. Acreditamos que a moça do café irá nos tratar bem e oferecer o mais quentinho, porque necessitamos que o espírito seja aquecido. Temos fé que caminharemos pelas ruas e não seremos assaltados, nem mesmo que passaremos fome ou sede, que o mar jamais engolirá nossas casas. Temos fé que a nossa fé seja capaz de nos ajudar a lidar com tudo, mesmo sabendo que ninguém é capaz de lidar com tudo. Tudo é muito, demais da conta. Tudo é mais do que podemos suportar, seja de tragédias ou alegrias, não importa.

Tudo excede a nossa capacidade de ser.

E há essa fase... A das fases acontecidas, quando fazemos um balanço do que saboreamos com gosto e com desgosto, e melindramos o passado dolente, celebramos o passado das alegrias vitais que se estendem ao presente e ao futuro, como sermos filhos dos nossos pais, amantes dos nossos maridos e esposas, pais dos nossos filhos, amigos dos nossos amigos. A fase das varandas e horas sendo gastas na observação da paisagem, como se com essa contemplação déssemos de comer à alma. É quando Deus vem e vai da nossa percepção, quando em um minuto o saudamos e em outro nos aceitamos ateus, para logo mais entoarmos um mantra, tocar as contas do terço. A fase em que as fases se misturam e desejamos, silenciosamente, com o desejo impregnado da magia do sonho, morar em um olhar, aquele que consiga enxergar todas as camadas da nossa existência, tornando-nos capazes de lidar, com sabedoria, até mesmo com os avessos.

A fase da paz de espírito que só nos visita quando moramos em um olhar distraído das rendições e do medo. Um olhar desbravador de significados.


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terça-feira, 22 de maio de 2012

CAROS PORTADORES DE CNH... >> Clara Braga

Dirigir é bom demais, não é verdade?

Me lembro bem da sensação boa que tive quando tirei minha carteira. Você se sente uma pessoa mais livre, não depende mais dos pais para te levarem nas festinhas, não fica em casa sem poder encontrar os amigos só porque seus pais já tinham programa e não vão poder te levar, e esses tipos de coisa.

Mas o tempo vai passando, a novidade passa a não ser tão nova assim, você começa a perceber que colocar gasolina no carro custa muito caro e que o trânsito das 18h é um inferno.

Ultimamente tenho percebido que com o passar do tempo as pessoas vão esquecendo também de serem cautelosas e esquecem das aulas de trânsito que tiveram, tanto práticas quanto teóricas. Parece que depois que o medo de ser reprovado na prova do Detran passa, as pessoas esquecem também uma coisa essencial chamada SETA!

Caros motoristas, por que é tão difícil dar seta?

Seta, para aqueles que não lembram ou que nunca souberam, é aquela alavanca que fica do lado esquerdo do volante, se você coloca a alavanca para cima significa que você vai virar para a direita, se você coloca para baixo significa que você vai virar para a esquerda, e assim todas as pessoas que estão no trânsito com você ficam sabendo para onde você vai e podem saber se devem parar para você passar ou se podem continuar seus caminhos sem risco de colisão.

Uma vez que você não dá a seta o risco de colisão é alto e, pode acreditar, a dor de cabeça que você vai ter para concertar o carro é muito maior do que a microforça que você precisa fazer para abaixar ou levantar a alavanca.

E para aqueles que por acaso ainda não sabem do que eu estou falando, eu estou falando daquela alavanca que quando vocês mexem nela um ícone começa a piscar no painel, e esse ícone, pasmem, tem o formato de uma seta e não é mera coincidência.

Então, caros motoristas, pensem bem nisso sempre que estiverem dirigindo um carro, seja ele seu ou não, pois a tecnologia pode ter avançado bastante, mas ainda não se chegou ao ponto de desenvolverem bolas de cristal para que os outros motoristas possam descobrir qual caminho você vai seguir.

Obrigada!

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segunda-feira, 21 de maio de 2012

REQUENTADO PARA MATINÊ
>> Albir José Inácio da Silva

Os sustos infligidos a Tânia, e as gargalhadas às suas custas, tinham sido insuficientes para cobrar a empáfia e a arrogância de primeira aluna, de queridinha dos pais, professores, parentes e vizinhos. Era preciso alguma coisa maior e definitiva para apagar aquele ar de superioridade que se escondia atrás da candura do sorriso e dos gestos.

Essas considerações eram feitas por Cleide, irmã de Tânia, para convencer o namorado Gilson a ajudá-la nessa empresa. Contavam com o que lhes parecia o pavor de Tânia por tudo que se referia ao sobrenatural. Contavam também com o grande motor das ações humanas, a inveja.

Não era gratuita a rejeição de Tânia às coisas do além. O que inicialmente foi identificado como medo acabou se revelando muito mais forte que isso. Tremia sim e se agitava diante de fenômenos estranhos, mas era mais que medo. De alguma maneira sentia que participava e até controlava essas coisas. Não foram poucas as vezes em que previu situações ou mudou com o pensamento acontecimentos que pareciam inevitáveis.

Descobriu que não tinha medo dos acontecimentos, tinha medo do envolvimento que acabava tendo com esses assuntos, mesmo sem querer. Fugia porque, presente, acabava interferindo. Felizmente conseguiu manter tudo isso fora do conhecimento das outras pessoas. E todos interpretavam sua reação como incontrolável pavor diante do sobrenatural.

Tânia jamais imaginaria aquelas maquinações de sua irmã. Gostava de todos, ajudava a todos nas tarefas, nos estudos e nos problemas pessoais. Encarava com bom-humor as brincadeiras destinadas a assustá-la, e depois as gozações decorrentes dessas brincadeiras. Nunca achou que passassem disso. Nunca passou por sua cabeça o rancor que secretamente, disfarçadamente sua irmã lhe dedicava.

A oportunidade surgiu numa noite sem lua que ameaçava chover. Tânia foi facilmente convencida da necessidade de ir à casa da avó morta há alguns meses, que permanecera fechada. A maioria das pessoas tinha medo de ir ali, mas por isso mesmo o lugar se revelou perfeito para o que Gilson e Cleide tinham em mente.

Deixada no meio da sala grande, enquanto o casal se dirigia aos quartos para procurar o que tinham ido buscar, Tânia olhou os móveis cobertos de poeira e teias de aranha. O cenário, aliado a algumas preparações da dupla, seria capaz de assombrar qualquer corajoso. Ainda mais, pensaram, uma medrosa como Tânia. Com auxílio de uma corda que chegava ao quarto onde Gilson estava, ele bateu a janela três vezes e arrastou caixas e correntes no forro da casa.

Coincidências acontecem – embora algumas pessoas não acreditem em coincidências - e a chuva que ameaçava cair desabou no exato momento em que a janela batia. O vento sacudiu as velhas e empoeiradas cortinas. Um casal de gatos em lua-de-mel no telhado contribuiu com gritos e gemidos aterradores.

Gilson e Cleide voltaram à sala prontos para a gargalhada. Gargalhada que, entretanto, fica presa na garganta. Tânia está calma. A janela que Gilson já parou de movimentar à distância continua batendo. As correntes continuam sendo arrastadas. Os gatos uivam como lobos. A situação já lhes fugiu do controle.

Tânia continua impassível, olhando a janela e o teto. No rosto, um quase sorriso. Levanta uma das mãos em direção à janela rebelde, que para de bater. O vento para de sacudir as cortinas. Já não se houve a chuva nem os trovões, e os raios param de ofuscar a vista. Talvez porque tivessem mesmo que parar em algum momento. Com a outra mão Tânia aponta o teto; as correntes no forro silenciam e os gatos cessam toda atividade amorosa, talvez por exaustão. Só então ela percebe que a irmã e o cunhado estão em choque.

- Não tenham medo, já passou!

Cleide sai da catatonia num choro convulso, olhos arregalados e o rosto banhado em lágrimas. Uma tremura sacode o corpo e a alma de Gilson. Ele também está molhado, mas não de lágrimas.

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domingo, 20 de maio de 2012

VOLCANO E HURRICANE
>> Eduardo Loureiro Jr.

Seu nome era Hurricane (Furacão). Ela era um boxeador negro americano dos anos 60. Sua carreira foi interrompida por uma acusação de assassinato pela qual foi condenado. O movimento civil não conseguiu retirá-lo da prisão. Ele chegou a ganhar uma canção de Bob Dylan com seu nome, mas não ganhou a liberdade. Dezenove anos depois, um terceiro julgamento o declarou inocente. Furacão havia sido vítima de uma armação policial de caráter racista.

A prisão de Furacão começou com 90 dias de solitária por ele ter se recusado a usar o uniforme de presidiário. Depois disso, ele criou sua própria solitária, dormindo durante o dia e passando as noites acordado. Aprendeu a lidar com seu desejo frustrado de liberdade recusando o próprio desejo. Usou seu tempo para manter sua forma física, ler e... escrever sua biografia, que foi publicada.

Um dos velhos exemplares de seu livro foi comprado por um jovem estudante, também negro, que estava sendo educado por uma família, um grupo de amigos, no Canadá. Impressionado com a biografia, o jovem escreveu para Furacão, que respondeu. Começou uma grande amizade que culminou com a mudança do grupo para os Estados Unidos com o objetivo de libertar o amigo. Reentrevistando testemunhas do processo, o grupo de canadenses conseguiu encontrar evidências que permitiram a absolvição de Furacão.

Eu não sabia de nada disso até anteontem, quando vi o filme Hurricane, de 1999.

Também eu já fui um boxeador. Minha irmã, um ano e meio mais nova que eu, diz que, quando éramos crianças, eu a chamava para brincar de boxe. Sim, eu sei que deveria procurar alguém do meu tamanho e do meu sexo, alguém que eu só encontraria alguns meses depois, quando me envolvi em minha primeira (até onde eu me lembro) e única briga de rua. Bati, apanhei. Apanhei, bati. E decidi parar por aí. Externamente.

Por volta dos 8 anos, desisti de uma promissora carreira de Hurricane para me tornar um Volcano. Troquei o calor da luta pelo frio das cordilheiras. Virei um vulcão inativo coberto de neve. Coisa bonita de se ver. Recebo mesmo muitos cumprimentos por minha calma, suavidade, gentileza, mansidão, paciência... a lista é longa. But that's not me. Não sou eu inteiramente. Quando os outros estão despertos, eu estou dormindo. Só quando eles — incluindo você, caro leitor — pernoitam, eu acordo.

Eu não precisei de uma conspiração policial para ser aprisionado. Eu encarcerei a mim mesmo. Vivo em uma solitária, num pequeno mundo só meu. Neste mundo, eu continuo aplicando meus golpes: jabs, diretos, cruzados, ganchos, uppercuts. Luto comigo e com os outros em pensamentos nocauteadores. O rosto da minha mente tem narizes quebrados, olhos roxos e até orelhas mordidas. Eu guardo, guardava, em segredo meu corpo mental mutilado. A fala é íntima do pensamento. Ela pode revelar seus segredos. A boca fala do que o coração está cheio. Meu coração está cheio de inconformação, ódio, rancor. Eu decidi ficar calado.

Substituí a fala pela escrita. A escrita aceita borracha. A escrita aceita BACKSPACE. Criei um delay, um retardamento, em minha comunicação. Coloquei as mãos, os dedos, os dígitos, entre a palavra e o coração. Tentei escrever como convém, sem querer ferir ninguém. Minha biografia não é livro impactante, é crônica dominical de sangue cansado após percorrer caminho tão longo do coração até o teclado.

A escrita me trouxe muitos novos amigos: visitas cheia de graça em minha prisão de segurança máxima. Eles — vocês — são minha esperança de que a fúria destrutiva da lava não seja a única forma de conquistar a liberdade. As palavras de Furacão para seu jovem amigo talvez possam um dia ser ditas por Vulcão: "O ódio me pôs na prisão. E o amor vai me tirar".




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quinta-feira, 17 de maio de 2012

TUDO QUE EU QUERIA DIZER PARA MARTHA >> Fernanda Pinho




Estimada Martha,

tudo bem? As palavras que te escrevo agora soarão como uma carta, mas sabemos que não é. Primeiro porque não tenho seu endereço. Segundo porque, vamos combinar, quem escreve carta em pleno 2012? Mas posso começar fazendo uma confissão? Sou meio démodé. Não fosse o primeiro motivo, eu esqueceria o segundo e te mandaria uma carta do jeito que uma carta deve ser: a próprio punho, quiçá num envelope com tarjinhas em verde e amarelo. Digo, acho que o envelope seria vermelho e azul. Às vezes ainda me pego surpresa com as pessoas falando espanhol ao meu redor. Tenho lapsos de esquecimento de que não estou no Brasil. Estou vivendo em Santiago do Chile.

É, como você também. Li em algumas crônicas suas que viveu aqui por um tempo. Gostou? Eu estou adorando. Não lembro se nas crônicas que li você manifestava sentimentos bons ou ruins sobre ter vivido aqui. Também não lembro em qual livro li isso. Não sou esquecida, como posso ter dado a impressão. Sou apenas um pouco confusa.

Lembro, por exemplo, de todos os livros seu que li. Não foram tantos, é verdade. Primeiro foi o "Doidas e Santas". Eu já havia lido a maioria das crônicas por aí, mas você há de concordar comigo que ler todas reunidas no formato de livro tem um sabor especial. Ao menos para mim, que ainda tenho vontade de ler e escrever cartas.

Depois li o "Fora de Mim". De uma tacada só. E foi um trauma. Li numa manhã de sábado e na noite do mesmo dia passei por um término de relacionamento muito próximo ao que você relatava no livro. Martha, cheguei a pensar que você tinha me dado azar. É que além de confusa sou um pouco supersticiosa. Fiquei meses fugindo dos seus textos, como o diabo da cruz.

Até que no natal do ano passado, resolvi aproveitar o espírito natalino e as promessas de renovação para me desprender dessa bobagem. Pedi dois livros seus num amigo oculto (ou secreto, se preferir). Claro que como pessoa que ainda aprecia as cartas e que tem preferência por ler crônicas reunidas em livros, também sou o tipo que acha sem graça esse negócio de dar sugestões de presentes para o amigo oculto. A surpresa do presente deveria ser o charme da brincadeira. Mas, ok, assim não corremos o risco de levar um presente-bomba para a casa. O que levei, nesse dia, foi o "Feliz Por Nada" e o "Tudo Que Eu Queria te Dizer". E é exatamente o "Tudo O Que Eu Queria te Dizer" que me traz aqui hoje.

Que espécie de pessoa sou eu que deixo o assunto principal para o final? Sou uma espécie meio confusa, démodé, supersticiosa e também ansiosa. Tanto que te escrevo sem sequer ter terminado a leitura. Ah, tem isso também. Ganhei os livros em dezembro e só fui ler em maio, porque ainda andava cismada com você. Mas suas cartas, até onde li, dissolveram a cisma, me esquentaram a alma (e é difícil alguma coisa me esquentar no frio que faz aqui), me amoleceram o coração. Tenho lacrimejado na leitura de cada uma delas, graças à sua capacidade sutil de nos fazer se sentir na pele de remetentes e destinatários tão diversos.

O que eu queria te dizer é: obrigada, Martha. Por se dedicar a escrever cartas e crônicas que deixam a vida mais bonita. E romances também, vai. Eu sei que a culpa não foi sua.

Sem mais para o momento.

Fernanda

Imagem: www.sxc.hu


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quarta-feira, 16 de maio de 2012

SÉTIMO CAPÍTULO - FINAL >> Carla Dias >>



Eles se conheceram em um bar. Ela estava com amigos, comemorando o aniversário de um deles. Ele estava sozinho, bebendo o último drinque da noite antes de voltar para casa, para a realidade do silêncio com o qual ela o recebe há anos, e que é sempre quebrado, lindamente, pelos blues de B. B. King.

Flertaram como homens e mulheres flertam desde sempre. O que mais o agradava era que ela nada sabia sobre ele, sendo assim, não havia motivo para temê-lo. Porém, quando ele se juntou ao grupo de amigos, recebendo dela o direito à intimidade das mãos dadas, ao escutá-la dizer palavras com a voz que não combinava com ela, mas de um jeito tão bonito que o fez imaginá-la crooner de uma orquestra de delírios, não tardou a começar a perceber as coisas como a sua profissão determinava.

Profissionais da área dele descobrem seu dom no dia de aniversário de 34 anos. A partir daí, tudo muda em sua realidade. No mesmo dia, eles fazem as malas e mudam de país, para garantir que não haja contato com a família, o que poderia colocar em risco um trabalho que depende da sutileza, da percepção apurada.

Ignorando a profissão dele, em algumas horas de conversa ela o definiu poeta. A cada vez que ela sorria, ele padecia da tristeza de quem deixara de ser o homem desejando o romance para se tornar o profissional a executar sua função.

Um interpretador de olhares até poderia ser um poeta, mas a sua poesia jamais seria autoral. É um profissional que lida com o que há de mais secreto, com o que o ser humano não diz em palavras e esconde em gestos, mas que está sempre lá, em seu olhar. Sendo assim, a profissão exige o esmero na tradução do que dizem os olhares. E tais significados são utilizados pelos profissionais não tradicionais na lida, ampliando a percepção deles ao executar suas funções, garantindo que eles façam o melhor.

Ele tem 34 anos há duas décadas. O profissional de sua área tem data de validade. Após se descobrir interpretador de olhares, ele começa uma jornada de 77 anos de trabalho, sem envelhecer, mantendo-se tão ágil e lúcido quanto aos 34 anos de idade. É como se o tempo parasse para ele. E então, no dia do seu aniversário de 111 anos, ele se deita para dormir e não acorda.

Desde que as profissões não tradicionais foram reveladas e as pessoas comuns passaram a identificar os seus profissionais, ele foi chamado de vampiro tantas vezes quanto jamais será chamado pelo nome. Nos primeiros anos de trabalho, tentava explicar que não era um morto-vivo sugador de sangue, mas um ser humano com uma habilidade especial. Depois desistiu de se explicar e se adaptou, adotando a solidão como companheira.

Invejado por aqueles que buscam a eterna juventude, odiado pelos pragmáticos e pelos temerosos que o julgam uma aberração e não compreendem a importância da sua profissão, ele teve de aprender a aproveitar a uma hora que antecede a interpretação de um olhar.  A uma hora em que lhe é permitido se relacionar normalmente com uma pessoa. E então, quando essa uma hora passa, tudo muda. Como agora, quando ele sente a mão dela afrouxar o toque, seu corpo estremecer e percebe sua boca ficando seca. E tudo se aquieta, as pessoas ao redor parecem personagens de filme mudo. O silêncio - o mesmo que o recebe em sua casa e que ele desafia ao tocar os blues de B. B. King - os abraça, interpretador e cliente.

Ela já não sorri, não há euforia em seu semblante. Na verdade, há uma tristeza profunda no lugar do usual medo. Ela toca a face dele, os olhos aguados, e assim o interpretador de olhares, antes de se dedicar ao feito, diz: não chore, porque você é das raras pessoas que podem nos ajudar a apurar a percepção humana quando é preciso encarar promessas descumpridas, aceitar que é hora de partir deste mundo, para que as mágoas não ecoem eternamente, e que corações possam se recuperar, após desapontamentos. Você é colaboradora para que os suspiros ganhem significados e os desfechos sejam justos.

O interpretador de olhares acarinha-lhe as faces. Ela sabe que não se lembrará dele, depois de concluída a interpretação. Sabe que aquela hora tão significativa habitará a sua alma e ecoará como uma das faltas que sentirá do que jamais viveu. Ele sabe que, depois do feito, não a encontrará novamente, o que torna a ação mais difícil. Só que ele é um profissional com responsabilidades que não pode renegar como um trabalhador comum poderia. Não há como pedir demissão, começar de novo. Ele é o que é.

Aproxima seu rosto do dela, tão perto, até seus narizes se tocarem. Olhos nos olhos, ele pede que ela não chore e aos poucos ela se acalma, para de chorar. Em alguns minutos, ela se desvencilha dele e volta para a festa, para os barulhos de comemoração, sorrindo e falante, sem se lembrar do que acontecera antes.

Sabe que a vida depende de profissionais como ele para fluir mais harmoniosa. Compreende a importância de liderar os profissionais não tradicionais, de mantê-los cientes da importância do que fazem. Só que é praticamente impossível de se negar - porque eles são humanos como os outros, apesar de detentores de habilidades especiais – que para esses profissionais a vida também é mais solitária, desafiadora e melancólica.

(primeiro capítulo) Mensageiro de promessas descumpridas
(segundo capítulo) Acompanhante de almas
(terceiro capítulo) Abrandador de mágoas
(quarto capítulo)   Remendador de corações
(quinto capítulo)   Semeador de suspiros
(sexto capítulo)    Orquestrador de desfechos

Imagem "De onde viemos" © Rodrigo Scott - rodrigoscott.com




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terça-feira, 15 de maio de 2012

VIVA A POSITIVIDADE! >> Clara Braga

Um dia desses eu estava lendo uma reportagem em que uma escritora, uma psicóloga, dizia que está positivamente “emburrecendo”. Isso significa que ela prefere deixar de ler alguns jornais e revistas e ficar um pouco fora dos assuntos, sem conseguir participar de algumas rodas de conversa por não saber do que as pessoas estão falando, a ler e se tornar uma pessoa negativa devido à quantidade de notícias negativas que essas revistas e jornais mostram.

De fato parece que essa atitude dessa psicóloga está se tornando cada vez mais comum. As pessoas já têm seus próprios problemas, suas preocupações, seus dias difíceis no trabalho, seus problemas de família e quando chegam em casa para relaxar e descansar são bombardeadas com notícias ruins.

É normal que algumas pessoas realmente prefiram deixar de saber as últimas notícias e “emburrecer” um pouquinho, pois são raros os casos de pessoas que veem essas notícias e saem ilesas delas, realmente só se informam e fingem que nada aconteceu depois. Acredito que na maioria dos casos as pessoas se tornam um pouco medrosas mesmo, em alguns casos chegam até a ficar um pouco paranoicas, com medo de sair de casa, preocupadas demais com quem sai de casa e não volta cedo e essas coisas. Se for pra ficar paranoico, é melhor não saber de algumas coisas mesmo.

A escritora ainda propõe, para aqueles que talvez duvidem da quantidade de notícias ruins que se pode achar em um jornal, que pegue um jornal ou revista semanal ou que assista a um noticiário e classifique as notícias que leu ou assistiu em positivas e negativas e tire suas próprias conclusões.

Eu fiz isso e realmente a maioria esmagadora é de notícias negativas, poucas, muito poucas são positivas. E foi por isso que eu decidi propor então que se você também está cansado de só ler notícias ruins por aí, que de agora em diante a gente leia o que tiver que ler, mas só vamos reproduzir as notícias que forem positivas. E para começar eu vou reproduzir uma das poucas notícias positivas que eu encontrei:

Uma menina de dez anos teve um tumor de três quilos, do tamanho de uma bola de futebol, retirado de seu abdômen e teve sua vida transformada! O tumor era benigno, mas estava crescendo de forma muito rápida e acabaria matando a menina por conta do seu tamanho. Palmas para a notícia positiva da menininha que teve sua vida salva!

E se você tiver com dificuldades de encontrar notícias positivas para compartilhar, faça como a escritora da reportagem, leia os cadernos de cultura e ciência, esses, segundo ela, são os cadernos mais positivos do jornal. Mas é bem verdade que eu encontrei algumas notícias negativas até no caderno de cultura, afinal, para mim não tem nada pior do que saber que a Britney Spears e a Demi Lovato são as novas juradas do The X Factor! Sério, como o Simon Cowell aceitou isso?

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segunda-feira, 14 de maio de 2012

A MULHER MÉDIA >> Kika Coutinho

A culpa é das capas de revistas. Claro, também das atrizes, das estrelas, dessas loucas que engordam 9 kg na gestação e depois perdem 12. Dessas que estão sempre combinando, até quando descombinam...

Por anos eu tentei ser uma delas. É verdade que não com muito afinco, porque quando soube que teria fazer hidratação no cabelo toda semana, tomar banho meio friozinho e passar maquiagem todas as manhãs — pior, tirar tudo todas as noites — ai, já não queria tanto. Mas junto com os pés de galinha, o bigode chinês e a queda dos peitos, vem também uma lucidez clara, tal como uma lâmpada dessas brancas que, embora não tenha muita estética, ilumina mesmo o que está diante de nós. E, com tudo visto, resolvi decretar: quero ser a mulher média. Me parece óbvio, aliás que, se quero filhos normais, marido normal, vida normal, também deva simplesmente ser uma mulher normal.

Ah, como é difícil encontrar normalidade hoje em dia. Gente normal, sabe? Dessas que às vezes dão uma gafe, dessas que se vestem meio inapropriadamente porque acharam que era mais ou menos chique do que era. Dessas que nem sempre conseguem passar corretivo, rímel, e que cedem à sapatilha ou ao tênis mesmo que não fique tão bom. Dessas que comem arroz branco, feijão, uma macarronada se for sexta, tá bom, se for terça também. Não estou falando da mulher desleixada, da glutona, da que sai de pantufas e crocs — ok, de vez em nunca tudo bem — mas falo da mulher média, que se arruma, se cuida, passa creme até, mas que, quando pode, prefere um all-star a um salto 10, da mulher que reconhece que praia e base não combinam, que gosta de uma novelinha, talvez até Big Brother — e daí? Gente viva que reconheça o valor de um bom banho quente, o valor do sol no rosto, o valor da saúde, o valor incontável do dolce far niente, saca? Não quero ser a chata que só lê os russos nem a tosca que recita Michel Teló. Uma mulher média, dessas que costumam andar com a mesma bolsa, aquela bolsa normal, da Corello, Arezzo ou Standcenter que, no final, dá mais ou menos na mesma. Uma mulher dessas que tem uns dois casacos bons e liga mais para a cor do sapato do que para a cor da sola do sapato, afinal. Claro que deve ser bom estar sempre impecável, ter sempre a pele de pêssego, quem não quer? Ah, eu queria, claro, não estou dando uma de rogada, me fazendo blasé, bem eu que adoro um produtinho milagoroso, imagine, longe de mim. Eu realmente queria se fosse grátis, mas descobri que não é. Além de ser caro, financeiramente, é opressivo e — o pior — te desfoca.

A busca da perfeição, pra mim pelo menos, que adoro um banho pelando, e que odeio, leia-se ODEIO tirar maquiagem, é muito opressiva. Talvez seja porque tenho menos tempo, talvez seja a metade da vida que se aproxima muito velozmente, talvez sejam as minhas filhas virando meninas grandes diante de mim, não sei, mas hoje o foco mudou e sinto-me libertada por não precisar fazer a unha meticulosamente toda semana. Veja, isso não é uma apologia ao descuido e ao relaxo, não. Muito menos uma conversa esquerdista, dessas antigas. Nem tem tanto a ver com dinheiro quanto se pensa. Conheço, de fato, mulheres riquíssimas, ricas de dinheiro mesmo, sem essa balela de que são ricas de espírito, não, mulheres cheias da grana, bufunfa rolando no banco que, acreditem, portam-se como mulheres médias. Estão arrumadas, são bonitas inclusive, elegantes na sua normalidade, chiques no seu conforto. Mas são médias porque permitem-se um ou outro erro, comemoram os acertos e, sobretudo, valem-se deles para sentirem que, assim, na libertadora e inconveniente maturidade, é que se encontra a alegria — não da chegada — mas da doce caminhada. Ufa.

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domingo, 13 de maio de 2012

REUNIÃO DE FAMÍLIA >> Whisner Fraga


Há um clichê que diz que “reviver o passado é sofrer duas vezes”. Quem criou essa bobagem devia estar com uma insanável dor-de-cotovelo. Porque há várias situações em que reviver o passado pode ser muito divertido. Nem vou falar da aprendizagem, porque a crônica não é pedagógica, mas existe esse fator aí também, que é considerado, por alguns, algo positivo. Sabemos que o passado costuma se tornar um negócio complicado, só que não precisamos ser tão pessimistas assim.

Toda vez que viajo para ver minha família, no Triângulo Mineiro, quando nos reunimos para churrasco, o que mais fazemos é nos lembrar do passado. E contamos a mesma história mais uma vez. Por “a mesma história”, entendam que ela não muda com o passar dos anos e que todos a conhecem de cor. Só que o egocentrismo, a cerveja e o ambiente deixam os causos mais interessantes a cada visita. Uma dessas fábulas não pode ficar jamais de fora e sempre me agrada particularmente, de forma que vou relatá-la a seguir.

Estudávamos todos no período da manhã, eu e meus três irmãos. A vida não era fácil, mesmo sendo pré-adolescentes, sem responsabilidades a não ser tirar boas notas e com todas as refeições garantidas, dia após dia. Não era fácil porque tínhamos de 9 a 17 anos, os três homens. Minha irmã não faz parte dessa conta. Mimada, tinha a vida mais tranquila. Não era fácil porque minha mãe era muito rígida e nos impunha horários para tudo. Daí que podíamos curtir a noite, frequentar baladas, desde que estivéssemos em casa até, no máximo, meia-noite.

Descíamos para a rua vinte e seis, eu e Joãozinho, e lá ficávamos, de pé mesmo, olhando as meninas desfilarem na calçada. Às vezes íamos ao calçadão tomar sorvete, dependendo da boa-vontade de meu pai, que normalmente não liberava uns trocados para tanto. Nosso programa era muito barato: o custo de uma lavada de camisa e de uns milímetros de solado de sapato. Saíamos sexta, sábado e domingo e não nos enjoávamos. A partir das onze e trinta, o movimento rareava, pois os mais abonados iam para a boate. Acho que minha ojeriza por casas noturnas começou nessa época.

O fato é que era domingo, eu tinha 15 anos e meu irmão mais novo 9, e todos tínhamos de acordar às seis da matina, para preparar o café e tocarmos para o colégio, tendo feito a lição ou não, tendo estudado para a prova ou não. Era o jogo. O fato é que eu era responsável, CDF e regressara às vinte e três horas. Onze da noite, como diziam. Em casa, ainda não estava com sono e minha cabeça vazia era não uma oficina, mas uma indústria do diabo. Fui ao quarto em que dormíamos os três, o caçula já estava no terceiro sono, raptei sorrateiramente o despertador, ajustei para tocar dali a quinze minutos e o devolvi na cabeceira da cama do meu irmão mais novo.

E fiquei esperando o resultado. Dali a pouco eu só testemunhava o menino reclamando, chateado, que a noite tinha sido curta. Como a noite é sempre curta para tanto sonho e a de domingo parece mais breve ainda, não havia novidade. Vestiu o uniforme, calçou os sapatos e rumou para o banheiro. No caminho, trombou comigo. Assustado, comentou que devia estar muito atrasado, porque minha cara aparentava uma vivacidade surpreendente e eu já estava vestido. Aí não aguentei e desatei a rir. Ele, sem compreender, correu para lavar o rosto e eu continuei a me divertir por alguns minutos. Depois, notei que não adiantava muito tentar explicar o ocorrido e fui para a cama. Mais cedo ou mais tarde ele ia entender tudo.


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MÃE, MUSA E MÚSICA >> Eduardo Loureiro Jr.

Ao entrar na barriga, vi você
à linda luz da sua branca alma.
Mãe, o mundo todo era você.
Eu era um peixinho em sua água.

 Minha mãe, minha musa, minha música.
 Minha mãe, minha musa, minha música.

Ao sair da barriga, vi você.
O mundo então cabia em uma lágrima.
Você não era eu, era você;
eu era um peixe vivo fora d'água.

 Minha mãe, minha musa, minha música.
 Minha mãe, minha musa, minha música.

Eu cresci sempre perto de você,
na barra da sua saia ou da sua calça.
Tudo que eu queria era você.
Melhor que a viagem, era a casa.

 Minha mãe, minha musa, minha música.
 Minha mãe, minha musa, minha música.

Em todas as mulheres, vi você:
a força, a fé, o amor e o cuidado.
Mãe, Deus deve ser como você:
envolve a gente por todos os lados.

Por onde quer que eu vou,
eu levo sempre a bênção de minha mãe.
Levarei sempre a bênção de minha mãe
aonde quer que eu vá.


Quem quiser fazer coro comigo, essas palavras têm uma melodia que está aqui:
http://patio.com.br/maze60anos/MaeMusaMusica.mp3



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sábado, 12 de maio de 2012

ÀS MÃES QUE NÃO LEMBRAMOS
> Maria Rachel Oliveira

Ser mãe não é só bom. É ruim também. Muitas vezes. Apesar de tudo o que se diz não é fácil quando o peso da responsabilidade de escolher por outra pessoa é mais tenso do que ‘divertido’. Quando, por exemplo, proferimos uma punição por alguma coisa errada que os filhos fizeram e nos arrependemos no momento seguinte. Manter essa proibição, e a angústia do arrependimento em ter errado a mão, é uma das coisas mais difíceis que a maternidade proporciona. Há, é claro, um sem número de alegrias que acompanham este status. Infinitas. Gostosas. Lindas. Divertidas. Emocionantes. Mas dessa parte boa todas as campanhas publicitárias nos lembram – em prol de um incremento nas vendas das datas comemorativas. E amanhã, dia das Mães, por mim, por elas e por todos os pais que também são mães, avós, avôs, tios cachorros e papagaios queria lembrar, e agradecer à toda a rede de suporte que ajuda nessa parte difícil. Ao médico que sabe dizer à uma mãe, com jeito, que sua filha tem um par a menos de costelas, mas “isso faz parte da evolução da espécie”, evitando um ataque de pânico. Àquele professor, que mesmo no primeiro ano do ensino médio, cobra por capricho e atenção, não tornando a vida deles – nem dos nossos filhos – mais fácil ou superficial. Às madrinhas de fé, emprestadas e avós que, nos dias em que estamos “duras demais” sabem dar aquele carinho que nossa cria precisa, nos substituindo, momentaneamente, com doçura. Aos pais que não se acomodam e exercem sua função com a dificuldade que a mesma se apresenta – e, por isso mesmo, merecem todo o nosso reconhecimento. E a todos aqueles outros, que ao invés de atrapalhar, ajudam. Os bons conselhos, os bons papos – a que não temos acesso... ser mãe não é ser heroína. Mulheres maravilhas não existem. Mas é certo que seria muito mais difícil se não fôssemos cercadas de algumas pessoas maravilhosas que nos ajudam nessa caminhada. Feliz Dia das Mães a cada um(a) de vocês também. E, obrigada por tudo. Até por aquilo que não lembramos.

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MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]


Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.

Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas mães alheias, nas amigas mães.

Quase – e o ‘quase’ aqui novamente é por conta de que nenhuma generalização procede - todas elas são pessoas encantadas e encaixam-se com perfeição na metáfora da poeta Cecília Meireles: aprender com as primaveras a deixar-se cortar e voltar sempre inteira.

Mães são aqueles seres que nos conhecem profundamente: nos atormentam e salvam. Sabem, através de um rápido olhar, se estamos bem ou se algo está errado; identificam no nosso tom de voz a melancolia e a alegria e são capazes de sentir nossas sensações a quilômetros de distância.

Mães são os personagens que traduzem, literalmente, o significado de amor incondicional: AMAM – contudo, todavia, portanto, além e apesar de. São a irradiação profunda do sentimento supremo, do aconchego, daquele tipo de paz e segurança que moram em nossa memória infantil e que, não raro, tentamos resgatar para a busca do equilíbrio cotidiano.

Mães têm humildade, esperanças, paciência, sabedoria, compaixão. São virtuosas, algumas vezes excêntricas, eventualmente exageradas. Entendem de perdão como ninguém e o praticam por antecipação. Suas lembranças são sempre vívidas e dentro delas somos eternas crianças.

Mães, curiosamente, guardam muitos segredos e um poder de superação que resiste ao revés com coragem e determinação imbatíveis - pois detêm uma força que elas próprias, muitas vezes, desconhecem. 

Mães são senhoras da beleza de um jeito especial e único. Mulheres puras na imperfeição – porque têm, em primeira mão, a remissão do que chamam divino. Afinal, são Mães - as nossas. 

E a elas nossa gratidão, o respeito, todo amor. Todos os dias.

 
Foto: Rogério Voltan
Up Date: Certamente, alguém que lê a doçura embutida nesse texto, vai pensar nas mães que jogam seus bebês em latas de lixo, os abandonam pela estrada, naquelas que os renegam, nas que, por temperamento difícil (próprio e/ou dos filhos) mantém relações distantes. Mesmo a essas, dou o benefício da dúvida e/ou da loucura: para algumas mulheres, lidar com a maternidade pode ser algo acima de suas limitações emocionais.


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sexta-feira, 11 de maio de 2012

VOLTA POR CIMA >> Zoraya Cesar

Nunca antes pensara Suzana em abandonar a vida de solteira sem laços, sem lenço, sem documento, por ninguém. Até encontrar Antonio Carlos, o grande amor de sua vida.

Estar com ele, fazer planos, viajar, andar de mãos dadas, dormir abraçadinhos, dava um sentido todo especial à sua vida. Suzana estava feliz. Pela primeira vez soube o que era amar e ser amada. Era uma boa pessoa, o Antonio Carlos, ajudava nas contas, dava apoio nos momentos difíceis, e também a amava.

Tudo lindo, não? Mas sempre tem um “mas”, que vem logo a seguir, tenham calma.

O amor em Suzana crescia e o tempo passava - pois o tempo passa, até para os amantes – e, com ele, o tic-tac de seu relógio biológico começou a bater forte, qual um carrilhão numa sala vazia. O amor, que a fez sossegar o facho (ainda se usa isso?), também a fez não caber em si mesma.

Ela sentia necessidade de dividir esse amor todo com mais alguém. Ela queria filhos. Queria ser mãe. E mãe dos filhos dele, o seu amado. Sendo assim, decidiu-se. E, saltitante de amor, foi conversar com Antonio Carlos.

Saiu arrasada.

Ele nem pensava nisso, estavam bem daquele jeito, filhos? Como nunca falaram a respeito, achava que ela, tão independente, sem horário para nada, jamais iria querer ficar presa a uma criança. E finalizou o golpe dizendo que ele, Antonio Carlos, estava dispostíssimo a casar com ela sob quaisquer condições, desde que não tivessem filhos.

Por quê?, desesperou-se Suzana. Porque eu não me sinto preparado, seria um péssimo pai e não gosto de ficar preso nem ter ninguém dependendo de mim, respondeu ele.

Suzana voltou para casa se arrastando pelo chão. E agora? Ficar com o homem da sua vida, e nunca ser mãe, ou largá-lo e partir em busca de alguém com quem ela quisesse criar uma família? A única hipótese inaceitável, para Suzana, era engravidar à revelia do amado. Seria desonestidade em estado bruto, pensava.

Vendo que corria o risco de perder a namorada, Antonio Carlos correu atrás do prejuízo e  pediu-lhe para não ser precipitada, dizendo que, por amor, poderia até mudar de idéia, era questão de tempo. Ela aceitou. Afinal, porque não dar um pouco de tempo para o seu amado? Filho era mesmo coisa séria.

O tempo estendeu-se por mais alguns anos, durante os quais Antonio Carlos era cada vez mais amoroso, e ai, a pobre Suzana cada vez mais apaixonada.

Uma noite, porém, em pleno jantar à luz de velas, ela se descontrolou. Não aguento mais, esperei até o último minuto, nem sei se ainda consigo engravidar... e encharcou a toalha, aguou o vinho e a sobremesa com suas lágrimas.

Me perdoe,  murmurou ele, a cabeça baixa, não sei se posso, se quero, não me sinto... ele tossiu violentamente, quando o vinho jogado por ela entrou por sua boca, olhos, nariz.

Cretino, gritou Suzana enquanto derrubava a mesa, pratos, garrafas e comidas pelo chão, pisoteando tudo, completamente alucinada. E por que, gritava, só agora me diz isso? Ele ainda tentou responder que não queria perdê-la, que estava inseguro, essas coisas que as pessoas falam quando são covardes demais para assumir suas responsabilidades. Apenas tentou, pois Suzana parecia um animal enfurecido.

Ela saiu cambaleante de dor e lágrimas, até hoje não sabe como conseguiu chegar em casa, carregando no peito aquele vazio enorme. Sem o amor de sua vida, sem filhos, sem família, sem perspectivas. E sentindo-se uma idiota.

O tempo, senhor da História, nos permitiu chegar ao final dessa.

Antonio Carlos nunca se casou. Não encontrou outra mulher que o aturasse ou o amasse como Suzaninha. Mas não ficou sozinho não. Sua mãe, receosa de que ele empedernisse em irrevogável misantropo, comprou-lhe um poodle. E como ela viaja muito para visitar a filha nos EUA, ele é obrigado a cuidar do cachorro. E também a passear, levar ao veterinário, e fazer companhia, pois não tem coragem de sair de casa e deixá-lo sozinho. Logo ele, Antonio Carlos, que sempre detestara a idéia de ter algum ser vivo dependente dele, hahahah, ria-se Suzana, de longe.

Ah, sim, nossa amiga Suzaninha adotou um menino, e faz questão de ensinar que homem decente não é o que tem um bom emprego, é o que não enrola uma mulher. Está felicíssima.

O final é esse, mas a moral, cada um escolhe a sua: mulher que anda na linha o trem passa por cima? O melhor amigo do homem é o cachorro? Homem é tudo farinha do mesmo saco? Vingança é um prato que se come frio? Outras?

Quem nunca amou e foi enganado na vida, que atire a primeira pedra.


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quinta-feira, 10 de maio de 2012

A MINHA É DIFERENTE
>> Fernanda Pinho




Doraléia Maria.
Esse é o nome da minha mãe. Dizem que mãe é tudo igual e a controvérsia já começa daí. Que outra mãe chama Doraléia Maria? Dizem que foi invenção do meu avô esse negócio de Doraléia, e que não existe homônima. Ela odeia. Diz sempre que é bonita demais pra ter um nome estranho assim. Daquele seu jeito espontâneo. Único.

Dizem também que meu avô foi um homem muito inteligente. E não me resta dúvida disso. Ao batizar minha mãe com uma de suas invenções ele inaugurava um ser humano singular. Só ela é Doraléia Maria. Só ela é do jeito que ela é. As outras mães que fiquem à vontade para serem iguais. A minha não.

E se o nome a torna única, também a define (o senhor era demais mesmo, vô). Dora, do grego, significa "presente, dádiva". Léia, do hebraico, é "abrigo, resguardo". E, Maria, ah Maria! A mulher que ocupa o primeiro lugar. A mãe de Cristo e a minha também.
Um presente de Deus. Uma dádiva para mim e para a Paula, filhas. Mas também para meus avós, seus pais. Meus tios, seus irmãos. Meus primos, seus sobrinhos. Meu pai, seu marido. E para todo aquele que tem o privilégio de entrar em seu seletíssimo grupo de amigos. Sei. Muito suspeita a opinião de quem mantém com ela uma relação desde o útero. Mas quem a conheceu ontem pode dizer o mesmo. Onde está a Dora, a alegria comanda.

E onde está a Léia, eu tenho meu porto seguro. Ainda que eu ande longe, sei que ali mora meu refúgio para qualquer coisa. É para seu colo que sei que posso voltar sempre. Isso me encoraja, me faz forte. Nada como ter a certeza de que, aconteça o que acontecer, Léia-leoa vai me defender.

Me defenderá com garra, com raça. Como Maria que é. Como progenitora. Como aquela que passa as filhas na sua frente e continua em primeiro lugar. E não vou nem dizer que depois de Doraléia Maria no nome dela vem Flores porque aí já é sacanagem com as outras mães. Esse exagero de significados. Esse exagero de coração.

Você é única, Doraléia Maria Flores. E seu nome é lindo como você. Mas nada que se compare à maravilha que é chamá-la de MÃE. 



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quarta-feira, 9 de maio de 2012

QUE ME PERDOEM OS FILÓSOFOS
>> Carla Dias >>




Eu não sei filosofia. Tive um professor de filosofia no colégio, há mil tempos, mas não me lembro de um nada do que ele ensinou, porque a dele era uma filosofia despedaçada. E olha que eu era boa aluna. Nada naquelas aulas me surpreendeu a ponto de permanecer.

Alguns amigos sabem filosofia, não do jeito que os filósofos a sabem, eu creio, mas de um jeito literário-panfletário, com direito a marcador de texto em mãos, a colorir tudo o que irá parar nas mensagens pessoais ou que será citado em status de rede social.

Talvez o meu problema seja a mania insistente de transformar tudo em poesia. Alguns dizem que faço isso para estragar a seriedade dos assuntos, mas não! Jamais alvejaria seriedades com descaso. Digo em poesia porque sou ignorante, não sei dizer de outro jeito. Não sei o jeito que é para poder dizê-lo.

Assisti a um programa de tevê no qual um filósofo – que não gosta de ser chamado filósofo – estava sendo açoitado com perguntas sobre a filosofia entremeada à política. Não que ele desgostasse da inquirição, pois é figura que a provoca sem medo, só que me pareceu que ele queria ir além, apesar de cercado pelo tema. Lembro-me de ter dito, para a televisão mesmo, como se ele pudesse me escutar: filosofia é e ponto ou é além? 

Na minha condição de ignorante, posso perguntar o que quiser sem medo de errar, porque errar vem no pacote com a ignorância. E não estou fugindo responsabilidade de eventualmente aprender, mas é que a liberdade que a ignorância oferece é dos melhores prefácios para o aprendizado. Talvez eu nunca compreenda a complexidade da filosofia, mas jamais deixaria de perguntar sobre ela.

No meio do alvoroço, alguém decidiu falar sobre os livros do filósofo. Foi então que o filósofo - que não gosta de ser chamado filósofo – poetizou.

Quando ele citou a arte, fazendo referência ao juízo estético, citando a imagem pictórica, ele me fez acreditar novamente no poder da ambiguidade, no bem e mal, certo e errado, feio e bonito, os contrários no mesmo balaio, o olhar do aceite. Não reconheci certos termos, que devem ser coisa de filosofia mesmo, mas ele falou de um jeito de poeta que não é poeta, mas sim filósofo que não gosta de ser chamado filósofo. Além do mais, há algo que parece que, também na filosofia, anda fazendo falta: aqueles que atinjam um alto nível de conhecimento, que realmente tenham se dedicado a aprender, e não apenas a citar a bibliografia dos que nasceram há séculos, e que popularizem essa sabedoria sem imbecilizá-la. Já que, infelizmente, popularizar tem feito par com o imbecilizar, como se fossem um casal que jamais recorrerá ao divórcio, porque isso não é coisa que se faça.

Posso não saber filosofia, e talvez nunca a aprenda como se deve, tornando-me apenas uma entusiasta do tema, quem certamente terá dificuldades em se lembrar dos nomes dos célebres filósofos de todos os tempos, até mesmo do nosso. No entanto, adoro o verbo, o significado amplo que ele abarca, no Aurélio mesmo. É que filosofar sobre pedras criando círculos na água, ou sobre os lábios se preparando para o beijo. Sobre o que dói e o que alegra, assim como o que é claramente percebido e o que depende da atenção do distraído. Filosofar é se esbaldar em uma poesia de sentidos aguçados.

Que me perdoem os filósofos. 

Imagem © Rodrigo Scott - rodrigoscott.com



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terça-feira, 8 de maio de 2012

CRIATIVIDADE ROMÂNTICA >> Clara Braga

Quando eu era pequena assistia a desenhos animados com finais felizes, brincava de Barbie e as histórias eram sempre felizes, a Barbie sempre estava com o Ken que ela queria estar, e sei que na brincadeira das minhas amigas as coisas também aconteciam dessa forma bem simples e bonita.

Depois eu fui crescendo, já não brincava mais de boneca, brincava de queimada na escola, gostava de jogar Handball, fazia ballet, colecionava papeis de carta e essas coisas. Mas ainda tinham algumas brincadeiras que os meninos não faziam com as meninas, eram umas brincadeiras que a partir de uma contagem x a gente descobria com quem a gente ia casar, com quantos anos, onde e como ia ser, era impressionante, a gente sabia de tudo em questão de segundos e nem precisava de nenhum tipo de cartomante ou algo assim.

Então crescemos mais, passamos pelo primeiro amor que a gente jura que é o cara das nossas vidas e hoje não sabemos nem se ele está vivo ou morto, e passamos também por aquela fase de idolatrar meninos bonitinhos de alguma banda, que nem sabem da nossa existência, mas que a gente jura que um dia vão saber e vão cair de amores por nós.

Depois, quando ficamos adultas, caímos na real, percebemos que relacionamentos podem ser complicados, que contos de fadas são mesmo coisas da Disney, e percebemos também certo machismo nas coisas. Se a mulher fica sozinha até uns 30 e poucos anos, então vai ficar para a titia, o homem só está aproveitando a vida. E esse é só um dos vários exemplos que eu poderia dar.

Mas deixando a questão do machismo de lado, a diferença entre homem e mulher existe desde cedo, pelo menos no meu círculo de amigos foi assim. Enquanto nós mulheres estávamos lá observando os meninos da turma, vendo quem era o mais bonito e quem não era, eles só estavam preocupados em jogar bola. Nos filmes de desenho animado eles estavam mais interessados na ação do filme e não na história de amor. Depois, quando idolatrávamos os meninos bonitinhos de bandas, os meninos só olhavam as mulheres de bandas ou da televisão mesmo, achavam bonitas e pronto, não chegavam em casa e sonhavam com o dia que iam conhecer suas musas e elas iam se apaixonar por eles. De fato eles sempre foram bem mais desencanados dessa coisa de amor.

Devo confessar que acho que eles estão certíssimos, tem idades em que não temos mesmo que nos preocupar com essa história de gostar ou não de alguém, temos que viver a vida, jogar bola, brincar e deixar essa coisa de relacionamento para quando tivermos idade para entender o que é e o que deixa de ser gostar de alguém, se é que algum dia a gente aprende. E não pensem que estou dizendo que as meninas da minha época de infância não aproveitaram a vida, só acho que tem certas preocupações que devem vir com o tempo.

Mas gostaria de dar uma opinião sobre o assunto, acho que o fato dos meninos, pelo menos os que eu conheço, terem sido mais desligados dessa coisa de gostar ou não, fez com que eles crescessem um pouco sem criatividade romântica. Sei que não posso generalizar, mas ultimamente, os amigos que eu tenho chegam ao nível de levar a namorada para jantar cheetos no posto de gasolina. Se ela ainda está com ele é porque com certeza ele tem outras qualidades, mas que passam longe da habilidade de elaborar um jantar romântico.

Já nós mulheres, crescemos, aprendemos muitas coisas, mas muitas de nós continuamos a nos deliciar assistindo a filmes de comédia romântica. E então vem um homem e pergunta: Porque você gosta tanto desses filmes? Não sei o que você vê neles!

Bom, respondendo aos homens que não conseguem entender, nós vemos homens apaixonados que não tem medo de demonstrar o que sentem e que são exageradamente românticos, e achamos isso bonito. Mas entendam, diferente do que vocês pensam, achamos bonito no filme, na vida real o exageradamente romântico pode ser extremamente chato, mas ser romântico, levar para jantar em um lugar legal de vez em quando, fazer uma surpresa uma vez ou outra, dar flores e outras coisas não mata ninguém né?

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segunda-feira, 7 de maio de 2012

OS PECADOS DE CLARA
>> Albir José Inácio da Silva

Os olhos lambiam a vitrine toda, mas sempre voltavam às empadas. Clara apertava os lábios, que sumiam dentro da boca e apareciam a intervalos, como se estivesse em transe. Nesse estado não tinha como não se assustar com a voz da filha, que fazia de propósito, entendendo que o susto tinha melhor efeito repressivo sobre o apetite da mãe.

- Mamãe, você sabe que não pode!

Não era só a empada não, mas era principalmente a empada. A vitrine devia somar milhões de calorias em forma de salgadinhos, doces e uma infinidade de provocações que, na cabeça de Clara, partiam da gula e chegavam à luxúria.

Para o médico ela não ligava mesmo. Tinha oitenta e três anos, a maioria dos quais contrariando conselhos e proibições alimentares. A questão do pecado, sim, ainda a deixava pensativa. Mas só depois que passava. No ato mesmo, na hora H, não se preocupava com nada. Nem o medo do inferno fazia Clara desistir da empada. Depois a consciência pesava. Pedia perdão, mas sabia que o arrependimento só duraria até o próximo deslize.

Os outros pecados até que administrava bem. O problema do sexo, por exemplo, se resolvia com o casamento. Depois da bênção do padre, podia-se pecar à vontade, virava sacramento. A ira, outro pecado de que às vezes era acometida, resolvia com a reconciliação. Era boa nisso. Deixava passar um tempo, que também não era boba pra engolir depressa os desaforos, e perdoava.

Enquanto Clara cismava essas coisas, e atendendo a um cochicho da filha, o garçom trouxe um copo cheio de um líquido verde e grosso e uma torrada de pão integral. Pacificada a consciência quanto ao dever de vigilância, a filha explicou que estaria no Banco ali em frente, pra adiantar, que a fila estava muito grande. Clara sorriu e a filha, distraída, só viu doçura no sorriso.

Mas o sorriso continha mais que isso. Enquanto a filha ainda atravessava a rua, Clara puxou com a bengala a lata de lixo que estava no canto. Com a mão esquerda empurrou a torrada e com a direita derramou o líquido verde que lembrava “O Exorcista”. Depois, com voz firme e determinada, disse para o garçom assustado:

- Duas empadas e um capuchino grande, moço. Não, três empadas!

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domingo, 6 de maio de 2012

PIPOCANDO ALEGRIA >> Eduardo Loureiro Jr.

Pedi a Deus alegria, e Ele veio pipocando poesia...

"Deus, me dê alegria...", pedi assim, meio envergonhado por estar pedindo coisa que talvez não se peça porque não pode ser dada à toa. Com a cabeça encaraminholada de culpas e ultrarresponsabilidades, refiz o pedido, já quase sem o ardor do coração: "Deus, me ensine o caminho da alegria".

Minha carência de alegria era graúda, alimentar. Eu tinha fome de alegria. Fome já sem forças de plantar, comprar ou roubar. Fome fraca, sentada em via pública, braço estendido e apoiado sobre a perna em V invertido, boné na mão. Fome andarilha, esfarrapada mendiga:

— Um'alegria pelamordedeus!

Fome minha, quando eu tenho, e eu tenho todo dia, eu sacio com pipoca, quem me conhece sabe. Não armazeno arroz, feijão, farinha... armazeno milho. Não vou pagar um real, um e cinquenta num saquinho. Pipoca eu e faço e como é de bacia. Fome assim tão grande quanto fome de alegria.

Perambulando de fome foi que me vi numa calçada de Pirenópolis, a 145 quilômetros de casa, num sol de 3 da tarde. Foi quando o pipoqueiro parou, aproveitando a sombra que, não fosse eu tão pobre, chamaria de minha:

— PAROU, PAROU, PINTOU POESIA! — gritou assim o pipoqueiro em seu megafone.

Eu olhei para ele como quem não tem coragem de pedir um saquinho de alegria.

— FALE UM VERSINHO E GANHE UM SAQUINHO — quase ordenou o pipoqueiro, como se respondendo aos meus pensamentos.

Três meninas, crianças ainda, retardaram o passo com três sorrisos.

— Querem pipoca? — perguntou o pipoqueiro.

— Não sei poesia — respondeu uma das meninas.

O pipoqueiro enfiou a mão no bolso de seu avental verde e trouxe de lá um livrinho do Mário Quintana.

— Pode escolher.

A menina do meio acolheu o livro, desembaraçou as páginas e trouxe bem isto, boca no megafone:

TODOS ESSES QUE AÍ ESTÃO
ATRAVANCANDO O MEU CAMINHO
ELES PASSARÃO
EU PASSARINHO

Poesia veio, pipoca foi. As outras meninas se animaram a ganhar os seus saquinhos. Poesias vieram, pipocas foram. Três meninas, leitoras agora, retomaram o passo com três sorrisos.

Depois vieram moços e moças, velhos e velhas. PAROU, PAROU, PINTOU POESIA! E eu vendo e ouvindo o pipocar de poesias, ainda descrente de que fosse assim tão fácil.

Uma mulher aproximou-se de mim. Ajeitei o boné em minha mão frouxa. Não veio moeda, veio um pedido:

— Eu não sei verso nenhum. Você poderia dizer um poema ao pipoqueiro por mim?

O pipoqueiro PAROU, PAROU, PINTOU POESIA e colocou o megafone em meu boné. Fiz força para receber o peso da esmola:

— Não sei, não posso, não vou.

A mulher e o pipoqueiro insistiram com o olhar. Eu, fraco, obedeci:

— Sabe lá...

— No megafone — o pipoqueiro ordenou.

Continuei obedecendo:

SABE LÁ O QUE É NÃO TER E TER QUE TER PRA DAR?
SABE LÁ, SABE LÁ
NOS ARREDORES DO AMOR
QUEM VAI SABER REPARAR
QUE O DIA NASCEU?

— Obrigada, moço — agradeceu a mulher, com seu saquinho de pipoca já na mão.

— Quer pipoca? — perguntou para mim o pipoqueiro.

— Quero — respondi miúdo, disfarçando meu QUERO megafônico.

E o pipoqueiro ficou esperando até que eu me lembrasse de uns versos tristes de Ronaldo Marcos Simões Moreira:

NÃO DEIXAREI DE SONHAR CONTIGO
E EM CADA INSTANTE OPORTUNO DA VIDA
QUEIXAR-ME-EI AO CUPIDO
ESSE LOUCO DONO DO AMOR PROIBIDO
A QUEM TODOS RECORREM COM ENFADO
E FALAM DO AMOR COMO SE TIVESSEM MORRIDO

O pipoqueiro estendeu para mim o saquinho de pipocas e, como eu pedisse sal em pensamento, derramou uma lágrima sobre as pipocas.

Fácil como vieram para as minhas mãos, as pipocas se foram para o túnel escuro e longo de minha fome.

— Quer mais? perguntou o pipoqueiro.

Respondi-lhe em versos de Fabiano dos Santos:

VOCÊ PASSOU
E FEITO PLUMA JOGOU
UM BEIJO EM MIM
ME DEIXANDO ASSIM
FEITO CRIANÇA QUANDO GANHA BRINQUEDO
A PLUMA BATEU NO MEU VIDRO
QUASE QUEBRANDO O MEU MEDO

O pipoqueiro sorriu um saquinho de pipocas para mim. Minha fome agora tinha um tamanho quase comível.

— Mais? — quis saber o pipoqueiro. E eu me perguntei se era a minha fome de pipocas ou se era a fome dele de poemas.

Saciei-nos com um poema de Manu Kelé:

AS ESTRELAS DE LUZ MANSA
E A LUA A DORMIR
CÁ NA TERRA A ESPERANÇA
DE VIVER PERTO DE TI
TE AGRADAR COM SENTIMENTOS
VERDADEIROS SEDUTORES
E TE DAR MUITOS MOMENTOS
DE EMOÇÕES E DE AMORES
ABRANDAR TODO O TEU MEDO
ADORNAR TODO O TEU SONHO
COM AS ESTRELAS DE LUZ MANSA
E A LUA A DORMIR

O pipoqueiro suspirou um terceiro saquinho de pipocas para mim. Com o que me levantei, coloquei o boné na cabeça, agradeci e passei a caminhar pela cidade, cantando uns versos de Wilson Pereira. Tanto caminhei e cantei que outros cantaram e caminharam comigo até que, completando a volta perfeita do círculo, chegamos em multidão à sombra do pipoqueiro PAROU, PAROU, PINTOU POESIA.

Inspiramos todos o cheiro quente da pipoca recém-pipocada, e cantamos juntos:

O AMOR É UM TREM DE DESEJOS
TREM ANTIGO
ANTIGO DEMAIS
VEM CARREGADO DE SONHOS E DE QUEIJOS
LÁ DE MINAS GERAIS

Saquinhos, saquinhos e mais saquinhos de pipoca o pipoqueiro entregou para cada um de meus acompanhantes. Quando chegou a minha vez, ainda havia bastante pipoca mas não havia mais saquinhos. Voltei a sentir uma pontada de fome de alegria. O mundo parou a sua dança.

O pipoqueiro, feito Deus fosse, apontou para a minha cabeça. Eu sorri, estendendo o boné com braço e mão firmes. E o pipoqueiro encheu minha bacia de poeminhas brancos em flor.

Deus me deu alegria, e ainda ensinou o caminho:
PAROU, PAROU, PINTOU POESIA.
DIGA UM VERSINHO E GANHE UM SAQUINHO.
Grato, Sr. Pipoqueiro.


*

SERVIÇO — Meu pipoqueiro na verdade foram três: Marcelo, Maria e Manuela. Eles realizam o projeto Pipocando Poesia, que eu tive a alegria de conhecer, receber e comer enquanto participava da 4ª FLIPIRI.





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