segunda-feira, 30 de abril de 2012

VELHICE << Kika Coutinho

Eu devia ter uns doze anos quando resolvi que ia gostar de futebol. Armada de uma camisa do Corinthians, uma dezena de opiniões fraquíssimas sobre o assunto, e uma dose de rebeldia, cheguei ao Pacaembu para um clássico daqueles. Era uma tarde quente de verão e, ao meu lado, torcia o São Paulino fanático, inimigo da partida, rival dos grandes, sentávamos lado a lado. Ele xingava, eu também, meu pai também, meu irmão mais ainda, os amigos dele idem. Era uma barbárie aquilo, mas, uma bárbarie em paz; quem diria? Depois de uma curtíssima temporada no assunto, guardo lembranças divertidas dessa época, e chego a duvidar que era assim. Perguntei outro dia para um amigo, entendedor do assunto: Posso jurar que vivi numa época em que não havia separação de torcida, nos estádios. Sonhei? Cherei ácido, ou o quê? - Envelheceu, respondeu meu colega, cheio de nostalgia - Até por achar que ácido se cheira, você realmente está fora da casinha - Completou. Ah tá. De fato. Houve um tempo em que as torcidas podiam sentar-se lado a lado nos estádios. Inimaginável em dias de guerra como hoje, não? A idade nos faz ver tudo com cores diferentes, mesmo. Saquei da minha péssima memória, outros clássicos do passado, que nossos filhos não conhecerão: Dirigir com o braço pra fora do carro, quem não se lembra? Meu pai dirigia assim, as mãos penduradas na janela do carro, inteirinha aberta, um ventinho gostoso nos dando a falsa sensação de liberdade. Eu, criança, assistia a tudo deitada (!!) no banco traseiro do nosso Opala. Lembro das copas das árvores, os fios dos postes e, mais no alto ainda, as nuvens de algodão, formando-se diante dos meus olhos infantis, e incautos. Conforme fui crescendo meus pés se erguiam um pouco; eu permanecia deitada, agora, com os pés pra cima, grudados no vidro fechado ddo carro. Que criança pode ficar deitada no banco de trás de um carro? Como mesmo que vivemos até aqui? Éramos heróis, não? Parávamos em fila dupla, comiámos pele de frango (bem torradinha), deixávamos o carro um instantinho ali, no meio da rua, para pegar uma encomenda, um horror. Ainda por cima tínhamos empregadas que dormiam em casa, iam embora de 15 em 15 dias, aos domingos, e olhe lá. Nossos pais, avós fumavam e fumavam em aviões, escritórios, ônibus, uma coisa maluca. Os entregadores de pizza vinham até a nossa porta, que vivia aberta. Hoje, vejam, tem uma tal de uma roda onde largam a pizza, falam só por interfone, e sinto que não tardarão em revistar nossa muzzarela, revirarão os tomates, não quero nem pensar. A vida muda um bocado, mesmo, e, isolados os adjetivos e as polêmicas, sem clichês de certo e errado, involução ou evolução, nada disso convém. O que é claro e certeiro, isso sim, meu amigo entendedor de futebol tem razão, é que quando a gente começa a achar que tudo era diferente, que os políticos não eram assim tão ruins, e as pessoas podiam confiar umas nas outras, o diagnóstico é preciso: Velhice. Não tem como escapar.

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domingo, 29 de abril de 2012

A ORDEM NATURAL DAS COISAS >> Whisner Fraga


Em Ituiutaba havia uma classe de trabalhadoras muito dedicadas, com uma clientela mais ou menos fixa e com mais ou menos as mesmas características. Essas profissionais não tinham, segundo elas próprias, o direito de cobrar atendimento, consultas ou como se chamassem os encontros com os clientes. Cobrar seria tirar vantagem de um dom que lhes havia sido dado gratuitamente. Minha mãe e todas as vizinhas suas amigas e parentes com quem tinha contato, frequentavam alguém do ramo. Eram conhecidas como “ledeiras de sorte” e tinham a habilidade de prever o futuro, desvendar o passado e, assim, aconselhar, baseando-se no que descobriram.

Quando fui prestar vestibular, no final dos anos 1980, fiquei em uma pensão em Uberlândia. A dona, além de empresária, jogava tarô e búzios. Eu nunca tivera curiosidade sobre os fatos de minha vida que ficaram para trás ou que me esperavam adiante, mas a insistência da comerciante quase me fez querer uma consulta. Resisti, pois viajava com o dinheiro contado e o atendimento poderia me custar um almoço. Até hoje não pedi a ninguém que me jogasse uns búzios ou que lesse meu destino nas cartas do tarô ou mesmo revelasse meu porvir encoberto em algum salmo ou em outro subterfúgio. Mas alimento uma curiosidade sobre o tema.

Há algum tempo percebi que essa ânsia de acreditar no sobrenatural é bastante humana. Até nossos políticos têm o seu médium particular. Caso de Lula, por exemplo, que já viajou algumas vezes até Abadiânia para consultas com João de Deus. Às vezes podemos pensar que os norte-americanos são mais avançados do que nós neste quesito, mas não é verdade. Prova disso é que a famosa Oprah Winfrey foi até a pequena cidade goiana para testemunhar e divulgar os feitos de João de Deus.

Eu sempre busquei o sobrenatural, mas para meu azar, nunca encontrei. Talvez ele se mostre apenas para os que não o procuram. Certa vez um amigo, muito cético, foi a um a terreiro, em que haveria um ritual de magia negra e disse que voltou de lá consternado, atônito com o que vira. Não duvido dele não, mas queria ter estado lá para não ter de acreditar somente em seu relato.

Acho que tudo é uma questão de fé e isso eu não posso respeitar. As pessoas que têm fé e zombam da lógica se acham iluminadas, escolhidas que foram por qualquer entidade superior que se diverte com suas marionetes. E em nome dessa superioridade se acham no direito de tudo, inclusive de acreditar em Deus e em videntes. Outro dia, conversando com uma senhora, ela me disse que um padre lhe garantiu que existem pessoas com o dom de prever o futuro, o que vai de encontro a tudo que os livros sagrados pregam.

Voltando às ledeiras de sorte, são pessoas que, em geral, não possuem avançada educação formal – o que sabem é de ler o mundo e tentar interpretá-lo, o que, honestamente, acho muito válido. E já conversei com muitas delas, de forma que posso atestar que acreditam no que fazem. Para mim, a honestidade é meio caminho andado para se chegar a algum lugar, bom ou ruim, dependendo da intenção e da patologia. É interessante que elas não cobrem nada, mas que aceitem uma doação ou outra, um mantimento ou outro, um ou outro agrado, pois é bacana ajudar quem precisa.

É salutar que procuremos aquilo que está além do normal, que busquemos respostas que justifiquem a vida e que nos deem esperança para enfrentarmos a falta de sentido em tudo de maneira serena, mas não podemos nos esquecer que o sobrenatural está no racismo, no desrespeito aos direitos do próximo, no assassinato, no roubo e em tantas outras atrocidades inventadas pelo homem.

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sábado, 28 de abril de 2012

VIROSE [Carla Cintia Conteiro]

Os estadunidenses estão começando a ficar encafifados com o aumento exponencial de casos diagnosticados de autismo dentro de suas fronteiras. Estão se questionando, pois talvez seja possível a indústria médico-farmacêutica ter alguma coisa a ver com fato de cada vez mais sintomas ou coisas antes conhecidas como características de personalidade, como introspecção, caberem sob o guarda-chuva de um diagnóstico tão bombástico. O mesmo acontece com depressão, TDHA, síndrome do pânico ou qualquer outra enfermidade levemente indefinida, mas que utilize medicamentos caros e de uso prolongado ou vitalício.

Embora também vejamos estas enfermidades em terras brasileiras, por aqui a epidemia é outra. Muitos afirmam que as autoridades deveriam tomar providências para evitar o crescente surto de virose. Pode ir a qualquer posto médico, emergência de hospital, UPA e conferir: a incidência de virose é altíssima. Se o sujeito não tiver sido resgatado de um carro em chamas, quase ao ponto de virar churrasco; se não tiver caído do sexto andar e apresentar diversas fraturas expostas; se a dona não tiver o olho roxo e o lábio pendurado graças a uma discussão mais acalorada com o marido, é batata: trata-se de um caso típico de virose. Na melhor das hipóteses, uma sinusite.

E nossos médicos estão ficando tão craques em detectar o problema que já nem mais examinam os pacientes. A criatura entra no consultório (ou mesmo da maca de um corredor lotado) e queixa-se de dor de cabeça, prurido, febre, tosse, dores abdominais ou nas costas, diarréia, dor de ouvido, dificuldade para respirar, vermelhidão, náuseas e/ou vômitos, ou tudo isso junto ou qualquer outra coisa e o doutor, sem nem olhar para a cara da pessoa, responde:

– É um andaço. Tem tido muito disso por esses dias. É uma virose. Tome uma injeção de bezetacil / dois comprimidos de paracetamol / dipirona (ou um antibiótico, antiinflamatório/corticóide/antiácido ou tudo junto) e, se não houver melhora em 48 horas, retorne.

Vejo algumas pessoas reclamando desse tipo de tratamento recebido, chamando-o de desumano e incompetente. Bobagem! A medicina e o atendimento médico melhoraram muito. Essas pessoas esquecem de comentar as doenças que foram exterminadas nos últimos tempos.

Por exemplo, qual foi a última vez que você ouviu falar num caso grave de ziquizira, de quebranto, de espinhela caída? Não tem mais, quase. E banzo, mal de amor, paixonite mal curada? Acabou!

Evidentemente, a dengue corre por fora, querendo tomar o lugar nobre da virose no ranking das doenças mais populares entre os habitantes da Terra Brasilis. Mas para que isso acontecesse, seria necessário que os médicos dedicassem algum tempo para a anamnese, examinassem seus pacientes, fizessem exames complementares, conhecessem seu histórico... Isso é coisa para despreparados. O bom médico já sabe de pronto tudo o que precisa saber sem nem levantar os olhos do que seja lá que esteja fazendo de tão importante, sem necessitar de qualquer informação, sem tocar no paciente, sem verificar seus sinais vitais.

Entretanto, se você cometeu a heresia de se interessar mais pela própria saúde e não satisfeito com o atendimento recebido, foi pesquisar na Internet, e desconfia que o seu caso pode ser um tantinho mais complexo, algo assim como um aneurisma, um AVC, um infarto, um câncer, você é um tolo em pensar que o seu caso é médico. Especialmente para quem não tem um plano de saúde que cobre mensalmente o valor das vidas humanas de um país sub-desenvolvido inteiro, o indicado é procurar um bom pastor, padre, pai-de-santo, guru, rabino ou equivalente em seus respectivos ambientes espirituais à espera de um milagre e começar a distribuir sopão na madrugada para garantir seu lugar no paraíso.

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sexta-feira, 27 de abril de 2012

APAIXONADA MA NON TROPPO>>Zoraya Cesar

Ela tinha quase 70 anos, era gorda, mal cuidada. Não por falta de dinheiro, ao contrário, era viúva rica. Apenas não era vaidosa. Bem, dizer que não era vaidosa é uma inverdade. Odete era relaxada mesmo. Não fazia a mínima questão de se cuidar, nunca fizera um exercício na vida e jamais passara um creme no rosto sequer.

As roupas? Caríssimas, compradas nas lojas mais elegantes. Porém de um mau gosto atroz. Se Odete fosse homem, poderíamos dizer que ela se vestia como um bicheiro gordo. Mas ela é uma mulher, e é muito importante para nossa história que não esqueçamos disso, portanto, não vamos falar em bicheiros. Nem em gordos (até porque esse fato realmente não é tão fundamental assim, é só para dar uma ideia da figura de Odete ao amigo leitor)

Como resultado de seu desleixo estético, era chamada de “tribufu” pelas costas (inclusive pelo próprio o marido, uma baixaria). Odete se cuidava mal mas tinha uma saúde de ferro. Ferro, alumínio, zinco, tudo estava em ordem (e o marido, que era quase psicótico em termos de saúde, morreu antes dela. Coisas da vida).

Agora, vamos à vida social de Odete. Por ser rica, amigas não lhe faltavam, nem clubes ou compras. Mas não sejamos tão cínicos, Odete tinha duas amigas verdadeiras, que estavam com ela por amizade, e não por interesse ou obrigação social. É a pura verdade, foi uma delas quem me contou tudo.

Assim que o marido morreu, Odete decidiu que era tempo de se divertir, afinal, o chato passava os dias trancados em casa, não saía com ela para fazer nada, vivia resmungando. Sim, pensou Odete, vou me divertir.

E dá-lhe de viajar, sair, comprar. Porém Odete continuava insatisfeita. Algo lhe faltava. E uma noite, jantando sozinha no Massimus, um dos restaurantes mais caros da cidade (não me pergunte qual cidade, não sou rica que nem a Odete, não freqüentamos os mesmos círculos), ela percebeu qual o problema.

Faltava-lhe companhia. Masculina.

Precisava encontrar um homem que estivesse disposto a ficar com ela, em todos os sentidos. Não entenderam? Tentarei explicar sem perder a elegância. Havia anos incontáveis que Odete e o falecido Augusto não tinham conjunções carnais. Nem de qualquer outro tipo, a bem da verdade. E Odete, pode-se dizer o que for dela, jamais traíra o marido, mesmo quando, um pouco mais jovem, ainda abrasava-se com os desejos da carne insatisfeita.

Pois os calores do desejo voltaram a percorrer seu corpo, e ela não estava nem um pouco disposta a sufocá-los novamente. Restava-lhe, portanto, resolver a equação: idosa + feia + gorda. E, enquanto pagava a conta do jantar, chegou à solução. Rica. Ela era rica. Podia ter o homem que quisesse. Bastava apenas querer o homem certo.

Começou a procurar em anúncios de jornal por rapazes de programa. Não joguem pedras nem critiquem. Eu mesma não estou julgando Odete, apenas contando a história. Aliás, vamos à história.

Odete saiu com vários, mas nunca levou nenhum para casa, era sempre em motéis de luxo. Que ela pagava, claro. Assim como os jantares e extras.

Um dia encontrou um rapaz que a agradou mais que os anteriores. E foi com ele que Odete fez um acordo de exclusividade, pelo qual ele ficaria disponível a qualquer momento que ela chamasse para jantar, ir ao cinema, fazer compras ou... vocês sabem, ter relações íntimas (com direito a tudo, tudo mesmo,  inclusive beijo na boca). E em vez de pagar por programa, Odete lhe daria um salário.

Ela sempre achara Paris entediante, mas era o sonho dele, então, lá foram eles. Ele gostava de dirigir; ela comprou um carro para ele levá-la aos motéis e lugares. Jantavam apenas em locais discretos e luxuosos, e, para isso, era necessário que o rapaz se vestisse de acordo. Foram a Nova Iorque comprar roupas para ele.

Uma noite, porém, em pleno colóquio carnal, num quarto cercado por espelhos no teto, nas paredes, até o chão era meio espelhado, no auge, no clímax do ato libidinoso, ele grita “eu te amo”.
Pequena pausa, silêncio profundo.

PLAFT. 

A mão pesada de Odete deixou a marca de seus dedos na cara do rapaz, que, aturdido e machucado (o tapa doeu!), pulou da cama, cambaleante.

- Tá pensando que sou burra? Pensa que eu não me enxergo?  Você ama é o meu dinheiro, isso sim. E você está dispensado. Vai voltar para seu trabalho de go-go boy.

E Odete contava o caso às gargalhadas, nem um pouco constrangida. Dizia que não tinha ilusões românticas e nem queria homens da sua idade. “Quem gosta de velho é cadeira de balanço”, repetia. Ela só queria se divertir, afirmava. E voltou a olhar os classificados, para espanto daquelas duas amigas.

A mim, acho que nada mais espanta. E a vocês?


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quinta-feira, 26 de abril de 2012

PISE NA GRAMA >> Fernanda Pinho



Quando cheguei em Santiago pela primeira vez, umas das diferenças que observei de cara foi que as pessoas pisavam na grama. Das praças, dos parques, dos canteiros. Sem pudor, sem constrangimentos, sem o comportamento suspeito de quem está sendo vigiado ou fazendo alguma coisa errada.
- Aqui as pessoas pisam na grama? - Perguntei, inocentemente surpresa.
- Claro! - Foi a resposta que ouvi junto com um olhar de "que pergunta louca é essa? Isso não é óbvio?".
Não. Não é óbvio para mim que, no Brasil, me acostumei às repressivas e antipáticas placas de "Não pise na grama". 

Continuei a observar com admiração e até uma certa inveja aquelas pessoas que não pisam na grama para cortar um caminho, enquanto não tem ninguém olhando, mas que usufruem da grama descaradamente. Tiram um cochilo, fazem meditação, dormem, leem, jogam conversa fora. Ali, na grama. Como também acontece em Londres, Paris e outras cidades onde as autoridades não estão muito atentas a esses meliantes pisadores de grama.

Minha admiração por essa permissividade de Santiago só aumentou quando, essa semana, li no Facebook o relato de um advogado que juntamente com um amigo foram presos em Belo Horizonte, por terem pisado na grama. Não eram baderneiros, não estavam drogados nem alcoolizados, não ofereceram resistência, não ameaçavam a segurança pública. Mas isso não vem ao caso. Não quero falar de arbitrariedades, nem de inocentes e culpados. Quero falar das plaquinhas proibitivas que, de fato, estão espalhadas por toda Belo Horizonte e não fazem nada além de atrapalhar a estética dos jardins e criar uma repressão sem sentido. As cidades já estão cada vez mais inóspitas, ainda nos privam do contato com o pouco de verde que sobra. Por um motivo tão, tão, qual é o motivo mesmo?

Pensemos bem. O objetivo é preservar a grama e deixá-la mais bonita? Se for, a intenção é boa, mas a estratégia é péssima. Trocar as plaquinhas por crianças correndo atrás de balões, casais apaixonados, senhorinhas sendo puxada por seus poodles, jovens praticando slackline, traria uma beleza muito menos plástica e muito mais real. Uma beleza como a da Praça do Papa, a mais linda de Belo Horizonte e - adivinhem só! - um dos poucos espaços públicos da cidade onde não existe essa proibição esdrúxula.

Eu, se grama fosse, ia preferir mil vezes o contato humano a uma estaca no meu peito.




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quarta-feira, 25 de abril de 2012

SEXTO CAPÍTULO >> Carla Dias >>


Desde muito jovem, vem desempenhando um papel importante na vida de pessoas que precisam de organização, de alguém que as ajude em decisões importantes. Foi assim que se tornou funcionária exemplar quando exercia as funções, em diferentes estabelecimentos, de estoquista, designer de vitrines, almoxarife, governanta e bibliotecária, a última, mais pela paixão pelos livros do que pelo dom de organizar e decidir pelo outro. Ainda assim, nunca foi tão fácil de se encontrar um livro na biblioteca municipal do que no período em que ela trabalhou lá.

À noite, quando a insônia lhe embaralha os pensamentos, sai de casa para uma volta pelo quintal. A necessidade de andar descalça, de roçar as solas dos pés na terra e na grama, de sentir a vida lhe tocar a contento, é frequente e insolente, porque quando se apresenta, não quer nem saber das confusões que causa. Sendo assim, os vizinhos já se acostumaram a vê-la caminhando em círculos pelo seu quintal, descalça e descabelada, e em dias mais inspirados, a improvisar danças que incluem saltos dignos de bailarinas profissionais, e a entoar cânticos em um idioma por eles desconhecido. Alguns deles, ao escutarem os passos que antecedem o passeio noturno dela, servem-se de uma xícara de café fresco, encostam cadeiras na janela, e observam a tudo, como espectadores de um espetáculo de teatro.

Já a chamaram de tudo, mas os rótulos mais populares são doidivanas e bruxa. Em fato, já houve dia em que a polícia foi até a casa da moça, porque um dos vizinhos a denunciou por ela ter rogado praga para ele, e nos dias de hoje, rogar praga e ela pegar dá em prisão, é coisa de bruxa, e das horrendas. Não sou dos que rogam praga, explicou-se a moça, o olhar cândido, as bochechas rosadas.

Acontece que o policial que atendeu ao chamado, um homem muito correto, conhecera a moça anos antes, mas sem querer. Quando viu que ela era o pivô do alvoroço causado pelo senhor que mora a três casas para baixo da dela, ficou desnorteado, com vontade de sair correndo e só parar quando não aguentasse mais ficar em pé. Mas assim como ela, ele tinha uma profissão que o encarregava de afazeres importantes. Com muito tato, utilizando-se de um vocabulário mais requintado, já que vinha de uma família de ávidos leitores, acalmou o homem, explicando-lhe que o que ele escutara fora somente a moça entoando um mantra. E antes de ir embora, o vizinho já de volta a sua casa, o policial a encarou e fez um gesto com a cabeça, profundamente agradecido.

Descobriu o seu dom já era mulher feita, com destino pronto para ser consumido: namorado que se tornou noivo e queria se tornar marido, trabalho ao qual se dedicar com gosto, vida acomodada no possível. Não tinha família, crescera em um orfanato. Também não tinha amigos, de tão tímida e ensimesmada. O futuro marido conheceu na lida, e não fosse assim, talvez não tivesse experimentado o gosto de beijo até hoje.

Era bibliotecária na época em que uma historiadora, reconhecida pelas suas benfeitorias sociais, tornou-se atuante na arrecadação de fundos para a reforma e enriquecimento do acervo da biblioteca. Elas se deram bem, tornaram-se amigas, com direito às confidências. Aos poucos, a moça foi se ausentando da realidade decidida, aumentando a sua curiosidade pela vida acontecendo, o que acabou com o seu noivado sem que doesse, abrindo-se a um universo de possibilidades.

Mas jamais aquela... Naquela possibilidade jamais pensara.

Quando a amiga adoeceu, sabia que ela partiria em breve, mas não de onde vinha tal certeza, nem mesmo por que a aceitava com tamanha serenidade. Sabia mais do que os médicos, já que eles sorriam largamente ao dizerem assuntos clínicos que endossavam o contrário. Sendo assim, sentou-se ao lado dela, cuidou-lhe, e enfim, no dia em que amanheceu com o prenúncio de que a hora dela estava chegando, a moça segurou-lhe as mãos, e de uma sabedoria que não sabia de onde vinha, confidenciou-lhe que, apesar de não compreender como, estava ali para ajudá-la com o desfecho.

A historiadora sorriu tão bonito que encheu os olhos da moça de lágrimas. E com a voz miúda, disse a ela que essa era a herança que não poderia deixar a ninguém mais, senão a ela, quem conhece o poder do comprometimento, assim como a necessidade de se orquestrar desfechos que as pessoas - envolvidas em suas histórias de vida - não percebem serem possíveis ou mesmo necessários. Como naquele momento, em que ela tinha de partir, mas esse não era o seu desejo, não era o desfecho que escolheria, se lhe fosse dado o direito de escolher. E o que a moça não percebeu, tamanha era a sua emoção, foi a presença do filho da historiadora, o policial, que escutou a conversa, e que também era grande admirador da mãe e da sua profissão de orquestradora de desfechos.

Foi assim que começou.

Há anos, a moça tece essa teia frágil que recai sobre o destino. Cada orquestrador de desfechos conduz a tarefa da maneira que escolhe, e diferente da amiga que lhe concedeu o dom, ela não soube abraçar o lado empírico da profissão, mergulhando em um universo de metáforas e rituais, acrescido por uma melancolia que lhe agradava os sentidos. Voltou-se para a pessoa acostumada ao silêncio da casa, quebrado por barulhos crispados, como o do chão de madeira velha, precisando de reparos, das janelas batendo, com o vento anunciando tempestades, da xícara tocando o pires, depois do primeiro gole de café.

É fato que o orquestrador de desfechos lida somente com conclusões difíceis, oriundas de uma negação feroz de seus detentores. E que esse profissional tem de confraternizar com os medos mais pungentes, e isso leva os mais nobres, aqueles que sempre pensam primeiramente nos outros, a se sentirem incapazes de assumir amores, sabendo que, logo adiante, terão de lidar com o que assombra os seus afetos. E isso parte qualquer coração. E ela teve o coração partido tantas vezes, que teme não conseguir colá-lo em uma próxima tentativa de ser feliz. Então, é apenas quem é, com direito a todas as mazelas da profissão, assim como a importância de ser fundamental na escrita da vida de tantos.

Como orquestradora de desfechos, ela se apresenta ao cliente, logo após ele ter sido atendido pelo catalogador de suspiros, que também o tranquiliza ao identificar a origem dos mesmos, e o torna mais aberto a aceitar os desfechos, principalmente quando eles são avessos aos que ele desejava. Ela sempre se senta ao lado dessa pessoa, que a recebe no seu dentro, mesmo sem enxergá-la, e coloca os braços sobre os seus ombros. Então, ela é capaz de lê-la como se lesse um livro, e percebê-la em todas as nuanças, para então conduzi-la aos desfechos que lhe cabem, os mais dignos cultivados, durante uma vida.

Durante o seu sono inquieto, quase sempre descambando para a insônia, ela sonha raramente. E quando acontece, ela experimenta da sensação da presença de outro. É a mesma sensação de quando o catalogador de suspiros, atrasado em seu fazer, esbarra com ela na casa de um e outro cliente, pousando sobre ela o olhar, por alguns minutos. E ela sempre acorda afoita, com o coração apertado. E desprovida do sono, apega-se a um livro e ao silêncio, até que o amanhecer aconteça.

Ela mora só: de solidão e de companhia.




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terça-feira, 24 de abril de 2012

42, POR FAVOR >> Clara Braga

Recentemente eu li em algum lugar, não consigo me lembrar exatamente onde, mas isso também não importa, uma declaração do Wagner Moura sobre casamento. Na declaração, que deve fazer parte de alguma entrevista que ele deu, ele dizia que considerava o casamento a instituição mais moderna que existe, pois hoje em dia só casa quem quer e por amor, nada mais obriga uma pessoa a estar com a outra, só o amor.

Eu, na maioria das vezes, acho essas coisas sobre casamento um pouco bregas, muito bonitas, mas bregas. Mas como li essa declaração um dia antes de ser madrinha do casamento de uma grande amiga minha, acabei achando lindo, nada brega!

Ah, vocês vão ter que concordar comigo, não é lindo? Ela ia casar, ia dizer: “Sim, eu quero passar o resto dos meus dias com você” para o noivo dela e, segundo o Wagner Moura, ela ia fazer isso por nada mais nada menos que amor! Nossa, vamos fazer um filme sobre isso!

Oops, esqueci, filme sobre isso é o que mais tem, inclusive é possível que tenha algum com o próprio Wagner Moura atuando, mas acho que entendi o porque das pessoas fazerem tantos filmes sobre o assunto, é que em algum momento elas devem ter ficado inebriadas por esse sentimento de amor no ar!

Deve ser esse sentimento também que faz com que pessoas escrevam músicas de amor, que fora de um contexto amoroso não são nada mais nada menos do que músicas melosas. Mas são essas músicas melosas que são colocadas nos casamentos e que fazem todas as pessoas que acham elas melosas, como eu, chorarem. É por isso que eu sempre digo, o contexto é que faz a diferença!

E foi nesse contexto que o casamento aconteceu. E se você estava esperando eu falar que toda essa conversa de amor era besteira, que a noiva deixou o noivo no altar, ou que um errou o nome do outra na troca de alianças, ou que alguém se levantou contra o casamente, desculpe te desapontar, mas a verdade é que o casamento foi lindo! A noiva nunca esteve tão bonita, as músicas melosas nunca fizeram tanto sentido, o dia não podia estar com melhor clima, o local era maravilhoso, o por do sol iluminando a cerimônia, simplesmente lindo!

Mas como nem tudo são flore, em todo esse contexto lindo e maravilhoso tem uma coisa que não é legal e que eu gostaria de aproveitar esse finalzinho de crônica para pedir às lojas de vestido que entendam que os noivos tem total liberdade de escolher suas madrinhas sem ter que perguntar a elas qual tamanho elas vestem, então, por favor, façam vestidos de todos os tamanhos possíveis e imagináveis!

Nunca tive tanta dificuldade para achar um vestido que entrasse em mim, e olha que eu estava procurando por 42/44, que não costuma ser tão difícil de achar, imagina alguma madrinha mais gordinha do que eu! E ainda tive que ouvir de uma vendedora que eu ia ter dificuldade de achar um vestido mesmo, pois meu quadril era mais largo do que meu busto! Oi?? Quer dizer então que só pode usar vestido quem tem todas as medidas iguais?

Bom, isso tudo me pareceu um grande absurdo, mas para não estragar o clima romântico da crônica, eu só gostaria de dizer uma coisa para as lojas de vestidos para casamento: Entendam que eu tenho meu direito de ser madrinha e de não ser magérrima, pois vou continuar a comer chocolate e a tomar uma cervejinha no final de semana, e se vocês não fazem isso, não sabem o que estão perdendo!

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segunda-feira, 23 de abril de 2012

OLHOS E CADERNOS >> Albir José Inácio da Silva

Naquele começo dos sessenta, meninas não falavam nem escreviam certas coisas. Mas a coisa foi escrita no caderno e lida pela mãe e depois pelo pai de uma delas. Era uma dessas piadinhas que misturam palavras e desenhos com um significado meio bobo e meio sexual, o que foi considerado uma afronta pelos genitores.

Na sala, a diretora, o pai e a professora, numa espécie de inquérito, olhavam o caderno, falavam baixo, consideravam. Beto era o único menino nas carteiras da frente, cercado por cinco meninas. Essa localização era determinada pelos resultados da última prova, e ele sempre conseguia ficar por ali. O caderno foi mostrado a cada um deles, enquanto seus rostos eram demoradamente examinados pelos investigadores.

Beto estava tranqüilo por duas razões: ele não tinha escrito aquilo e suas garatujas em nada se pareciam com aquelas delicadas, redondas e femininas letrinhas colocadas no papel. Por isso, deve ter olhado um tanto desafiadoramente para os investigadores, que logo retornaram à mesa e confabularam por mais algum tempo. Pai e diretora concordaram, só a professora, Maria do Carmo, olhava Beto com olhos inconformados.

O pai saiu primeiro, fuzilando o menino com os olhos. A diretora o seguiu com cara de indignada. Só então Beto compreendeu o arranjo que satisfazia a todos: o pai tinha um culpado, um moleque abusado de quem sua filha precisava ficar distante; a diretora encerrava o caso sem nenhum estrépito; e as meninas ficavam protegidas já que, naquele começo dos sessenta, meninas não falavam nem escreviam certas coisas.

Beto não entendeu nada, não foi acusado de nada, não se defendeu de nada e não tinha do que reclamar, embora sentisse cheiro de injustiça. A questão era simples, bastava confrontar as letras nos cadernos, mas isso não interessava a ninguém. O garoto ficou muito incomodado com o olhar daquele pai. Teve vontade de falar, mas não sabia o quê, nem com quem.

Em seu socorro só vieram os olhos de Maria do Carmo. Era o que ela podia fazer diante da iniquidade baseada em silêncios e conveniências. Doce olhar de professora que o acarinhou pelo resto da aula. E Beto a amou para sempre.

Alguns dias depois, no vinte e dois de abril, os cartazes tinham de ser entregues no dia anterior se quisessem concorrer ao direito de exposição nas paredes da sala. Por preguiça ou brasileirice, o de Beto só veio quando os demais já estavam nas paredes. Ocorre que Maria do Carmo resolveu defender, perante a diretora, as qualidades do trabalho “daquele atrasado, mas ótimo aluno”.

A autoridade não perdeu a chance para disciplinamento e, mesmo concordando que o trabalho não era de todo ruim e o aluno não era de todo ruim, ele precisava entrar na linha. O cartaz seria exposto, mas na parede de trás, os colegas teriam que se virar para vê-lo e quem chegasse à porta não o veria. E todos se lembrariam do castigo pela indolência de Beto. Ela decretou e foi embora. De novo o desamparo, e de novo a salvação pelos olhos da professora, que ainda sorriu e murmurou:

- Não ligue, não. Eu vou olhar para ele o tempo todo.

Beto que já a amava, confirmou seus votos.

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domingo, 22 de abril de 2012

DIA DO DESCOBRIMENTO DA IRMÃ
>> Eduardo Loureiro Jr.

Quando minha primeira irmã nasceu, eu não estava preparado para amá-la. Eu tinha 1 ano e 9 meses e a recebi como uma ameaça, uma verdadeira inimiga na luta pelo carinho e pela atenção de meus pais. Só muitos e muitos anos depois, graças — literalmente — a Deus, consegui sentir amor por minha irmã mais velha e admirar suas qualidades: beleza, comunicação, entusiasmo, garra e, principalmente, generosidade — Karina  me amou desde o início, enquanto eu ainda lutava para amá-la.

Antes que eu conseguisse tal feito, nasceu minha irmã mais nova. Quando Sabrina apareceu, eu tinha já 11 anos. Minha mãe chegou a ameaçar, algumas vezes, amarrar eu e Karina para ver se ficávamos mais unidos, mas no fim, com o auxílio de meu pai, resolveu trocar as cordas por uma irmã. Método mais eficiente, sem dúvida. Eu me apaixonei por Bina instantaneamente. É a criança mais linda que já vi em minha vida. Uma beleza simples, natural, sem adereços, feita de pura graça.

Eu gostava de me deitar na cama, de frente para ela, tão perto quanto fosse possível para que ela ocupasse todo o meu campo de visão. Bom, pelo menos até ela me dar uma golfada inesquecivelmente desagradável bem no meio da cara, devidamente vingada alguns meses depois quando derrubei minha irmã de uma mesa de pingue-pongue. É, nossa relação também teve seus estremecimentos. Quando Bina entrou na adolescência, a teimosia dela se juntou à minha, e vivemos um amor de montanha-russa: às vezes em cima, às vezes embaixo. Aliás, foi com Bina que perdi o medo de parque de diversões. Foi ela também que me ensinou direitinho, tintim por tintim, a dieta dos pontos, que me fez perder uns tantos quilos extras. E, recentemente, vendo-a participar de uma corrida de rua, já me animei a colocar um pouco de corrida na minha caminhada diária.

Não foi à toa que Sabrina nasceu no dia 22 de abril. Meu pai, não sei se a sério ou de brincadeira, fala que gostaria de tê-la batizado de Pedrina Cabralina. A verdade é que Bina descobriu em mim o que já estava cá: o amor pela irmã. A chegada de minha irmã mais nova começou a levantar, lentamente, com paciência taurina, o véu que encobria meu bem-querer. Eu, que não sabia amar bem uma irmã, precisei de uma segunda para amar as duas. Fica então decretado o dia de hoje como sendo o Dia do Descobrimento da Irmã. E que, quando não for domingo, que seja pelo menos feriado.




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sábado, 21 de abril de 2012

BURACO DE MINHOCA [Carla Cintia Conteiro]

“Em física, um buraco de verme ou buraco de minhoca é uma característica topológica hipotética do continuum espaço-tempo, a qual é, em essência, um ‘atalho’ através do espaço e do tempo.”
Fonte: Wikipedia

Foi com certo pavor que descobri que o que eu queria não existia. Não era a primeira vez que aquela sensação de registro pirográfico tomava conta de mim. Sabia que, mesmo depois de muitos anos, lembraria daquele exato momento em que me dei conta da impossibilidade de materialização daquele desejo específico.

Nos outros momentos de buraco de minhoca da minha vida, entretanto, senti apenas o registro e não uma efetiva e imediata mudança. Aqueles instantes apenas ficaram registrados e se tornaram referência, uma espécie de janela, quando preciso me reportar a alguma época específica.

Acho que aprendi com meu pai a armazenar certas recordações como se fossem índices da minha história. Estávamos à janela de um prédio na Avenida Rio Branco, no Centro do Rio de Janeiro, era 1970. Ele apontou para o carro de bombeiros que passava lá embaixo com vários homens pouco maiores que formigas, da distância que eu estava, acenando sobre ele:

- Olha, filha, esta é a Seleção Brasileira, que ganhou a Copa do Mundo. São os campeões. Você vai poder contar aos seus netos que viu quando eles voltaram para o Brasil. Você nunca vai esquecer este dia.

Nunca esqueci. Eu tinha três anos de idade.

Por este fato, localizo memórias difusas da minha mãe ainda carregando minha irmã caçula na barriga, todos sentados na sala, escolhendo o nome do bebê. Recupero o contato com as primeiras letras, quando fui toda prosa mostrar pra minha avó que já sabia escrever “vovó”, com grampinho e tudo. Resgato a empregada insensível que, logo depois, perguntou se eu não ia chorar a morte da minha avó, tão grudada comigo, ao que respondi:

- Ela me disse pra não chorar, que um dia quando eu for bem velha que nem ela, eu também vou morrer e a gente vai se encontrar de novo no céu.

Minha avó não era assim tão mais velha do que sou hoje.

Outro buraco de minhoca não foi tão interessante, mas foi o primeiro que criei sozinha. Estava numa sala de aula morrendo de tédio, como é costume de qualquer pré-adolescente nessa situação, contando minutos para o recreio, quando olhei em volta. Pensei que dentro de muito pouco tempo nem me lembraria daquele garoto que sentava a alguns metros de distância e que me fazia suspirar dia e noite. Caiu a ficha de que aquelas meninas a quem eu jurava amizade eterna deixariam de pertencer a minha vida, a menos que eu me esforçasse muito para manter contato (jurei para mim mesma manter contato para sempre e quebrei minha promessa quase de pronto). Baixei os olhos para o caderno e tentei memorizar o que estava escrito ali, mas sabia que toda a matéria que eu estudava tão devotadamente não seria guardada como uma fotografia. Lembro do cheiro da classe, a cara suada e cansada da professora, do meu uniforme feio, das pernas finas demais saindo por baixo dele, da mal contida energia daquelas quase ex-crianças. Todos diziam que, mais tarde, eu teria saudades “da aurora da minha vida / da minha infância querida / que os anos não trazem mais”. Foi naquele átimo de tempo que eu soube que eu jamais sentiria falta daquela época e de todos os desajustes que eu experimentava então.

Meu filho ainda era pequeno e eu me irritava com a casa sempre bagunçada, com a rotina corrida e impossível, com listas de tarefas infinitas, com a quebra de expectativas românticas de tantas coisas. Este foi mais um buraco de minhoca. Olhei para aquele menino lindo, pra minha casa caótica, mas cheia de amor, pra minha conta bancária quase zerada, mas um corpo cheio de vida e me dei conta de que no futuro olharia para aquele momento e o enxergaria como um dos períodos mais felizes da minha vida, que eu sentiria saudades dos brinquedos de criança espalhados pelo tapete da sala, daquela voz que não se calava. Tinha trinta anos e sabia que já não tinha a vida toda pela frente e que as escolhas que eu tinha feito haviam tolhido várias outras possibilidades. Contudo, aquela era a minha vida, a que eu não sabia que ia ser exatamente daquele jeito, mas que de muitas formas me fazia feliz.

Então, neste mais recente buraco de minhoca da minha vida, quando percebi que o que eu quero não existe, algo mudou de repente. Dei de inventar o que estava fora da realidade. Dentro da minha cabeça, qualquer coisa pode. Se você passar por mim na rua e eu não cumprimentar você como deveria, por favor, releve. Culpe, além dos meus olhos cada vez menos eficientes, minha mente sempre no mundo da lua. Neste meu mundo particular, tudo há, tudo é possível, qualquer bobagem é permitida, qualquer absurdo é plausível, toda safadeza foi abolida e toda sacanagem e toda brincadeira está conforme a moral vigente.

Este buraco de minhoca, o momento em que soube que o que eu quero não faz parte de Maya, me fez muito menos sisuda. Até com as chatices cotidianas ando mais conformada, porque sei que logo vou poder ficar em silêncio comigo e me refugiar no meu canto mental secreto. E, como o tempo não para, desconfio que a outra ponta desse atalho tempo-espaço está quando-onde vou finalmente encontrar com meu pai e minha avó.

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quinta-feira, 19 de abril de 2012

GRANDES ESTREIAS >> Fernanda Pinho


É difícil sair do nosso ambiente e encarar o novo sem levar na bagagem alguma carga de preocupação. Cheguei a Santiago trazendo duas preocupações bastante específicas. Situações com as quais, eu sei, não me sentiria à vontade para o confronto. Pois em menos de três semanas, tive que encarar as duas.

A primeira eu sabia que não haveria como escapar por muito tempo: comer abacate na comida. Ciente da alta aplicabilidade do fruto (?) na culinária chilena eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, teria que vencer minha resistência e, enfim, experimentar. Eu já havia feito a tentativa anos antes, num restaurante mexicano, quando me serviram guacamole com sei lá o que. Para minha cabeça pouco elaborada gastronomicamente falando, era puro e simplesmente abacate com feijão. Detestei, mas me garantiram que o abacate daqui (ou palta, como dizem) era diferente, mais oleoso etc e tal. Pelo menos na experiência chilena não tinha feijão. Mas tinha frango. Uma pasta de frango recheando a metade de um abacate. Bonito, reconheço. Se fosse para avaliar a estética, nota 10. Mas o sabor, não desceu. Quer dizer, desceu porque eu comia sob o olhar atento da família aqui do Chile e eu não iria cuspir a boa educação brasileira na cara de todos. Mas não desceria mais que um pedaço. Eles que continuem comendo abacate com pão, frango, shushi, feijão e sanduíches do MC Donalds. Eu continuarei sentindo saudade da vitamina de abacate.

Não deu uma semana e sucedeu a situação temida número dois. Aconteceu na madrugada para aumentar o teor dramático do episódio. Acordei com ele me chamando. Me chamando e me sacudindo. Naquele estágio em que estamos meio acordados meio dormindo, lembro de ter pensado: "homem de Deus, por que me sacode tanto? Tenta me acordar com um beijinho que será muito mais eficiente". Ai que ingênua. Não era ele me sacudindo. Era um terremoto. Apesar de sentir o chão tremendo sob meus pés e de ouvir um ruído muito estranho e muito mais assustador que o tremor em si, só entendi a situação quando percebi todos descendo para o primeiro piso. Eu já havia sido avisada sobre essa regra geral para casos de terremoto: descer para o primeiro piso. Logo entendi o motivo: no térreo, a sensação é muito menor. Qual sensação? Bom, a sensação de estar em cima de um celular gigante e ele começar a vibrar. Eu sei que analogia não é meu forte, mas é mais ou menos por aí. Quando passou o sustinho inicial, tomei nota: preciso dormir mais bem vestida por aqui. Tive tempo para pensar nessas superficialidades porque não demorou muito nem fez nenhum estrago em lugar nenhum do país. Houve tempo até para achar graça nos boletins transmitidos dos estúdios das emissoras de TV, com imagens trepidantes, como se o cinegrafista estivesse bêbado. Depois voltei a dormir, porque nada abala meu sono. Agora eu sei, nada mesmo.

Trocando em miúdos: comer abacate na comida me incomodou muito mais que o terremoto.



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quarta-feira, 18 de abril de 2012

MIL E UMA COISAS >> Carla Dias >>

Aperte o play e leia com trilha sonora.

ADAM HURST - Sparrow



Não, meu bem. Não é que mil e uma coisas acontecem de repente em sua vida, e ao mesmo tempo. Não há plano divino destinado a bagunçar a sua cabeça, a embaralhar os seus pensamentos. Não são os demônios contratados, vez ou outra, para tecerem a impaciência no seu espírito sempre tão sereno.

Na verdade, é você que, às vezes, acorda para as mil e uma coisas que acontecem o tempo todo ao seu redor, mas que são ignoradas com a ajuda das distrações que cultiva para amenizar a sua jornada existencial.

Então, neste de repente equivocado, os carros passam mais rápido por você, e parecem muitos, mais do que você já vira antes. As pessoas esbarram em você, e são muitos os olhares aborrecidos com essa colisão, afinal, a intimidade forçada intimida, desacata o direito a passar despercebido.

E você é dos que aprecia ser anônimo nos grandes feitos. Talvez por isso sinta que o “tudo ao mesmo tempo agora” lhe persegue, e justamente no prelúdio dos momentos em que está prestes a ser feliz, tira-lhe a sincronia com tudo o que a felicidade lhe oferece, ofuscando as oportunidades que seriam suas, não fosse esse despertar insólito da vida a desorganizar as suas certezas e esperas.

Não, meu bem. Não é a vida que lhe entorta desse jeito, que o coloca a apreciar paisagem como se a alma fosse pular do corpo e se grudar a ela, permanecendo distante o suficiente de seus admiradores, mas sem perder contato, sem deixar de ser avistada.

Não é a vida que o faz desejar perder a identidade, o endereço, e esses adereços que enfeitam a sua biografia. Essas fugas são a alma em poesia, mas ao se tornarem escolhas e não acontecimentos, elas passam ao posto de grades que o manterão nessa prisão que é o lamento... E o desajeito com o que acontece, imprevisível e volatilmente, e que dá à existência seus devidos tons, criando a beleza do que jamais seremos capazes de conduzir.

Não é que mil e uma coisas acontecem ao mesmo tempo, de vez em quando, justamente no quando no qual você programou executar mudanças fundamentais. Não são as mil e uma coisas que atrapalham seus planos, que o fazem chorar escandalosamente, como se fosse menino privado da companhia dos pais, em dia de tempestade.

É que, meu bem, as mil e uma coisas estão por aí, desde sempre, e são indiferentes às suas necessidades. Porém, elas trabalham para que você compreenda que, apesar de você se esconder no seu quarto, emocionando-se com a beleza de melancólicas melodias, desejando despertencer ao mundo, a vida simplesmente acontece.

A vida acontece aqui e o tempo todo, com as suas mil e uma coisas exigindo desfecho. Ela lhe acontece, meu bem. Ela nos acontece.





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terça-feira, 17 de abril de 2012

PRECONCEITUOSA? EU NÃO! >> Clara Braga

A vida tem essa mania abusada de dar umas rasteiras na gente que acabam nos colocando em nossos devidos lugares.

Eu mesma vivo dizendo algo muito perigoso de se dizer, mas que até então eu não sabia que era tão perigoso assim. Costumo dizer que não sou preconceituosa, que aceito tudo numa boa e que sou uma pessoa ótima por isso.

A verdade é que está para nascer uma pessoa que seja 100% livre de preconceitos, mas como a palavra preconceito está carregada de significados ruins, a pessoa preconceituosa é quase um monstro, ninguém tem muita coragem de dizer que tem preconceitos, e eu não sou diferente. Mas no fundo, acho que monstro mesmo são as pessoas que usam esse preconceito pra fazerem mal aos outros, de resto, estamos bem, faz parte de nós ter um ou outro preconceito com alguma coisa.

Mas deixando um pouco de lado essa conversa de quem é e quem não é preconceituoso, vamos nos ater ao fato da vida ser abusada e dar rasteiras na gente.

Eu não sei qual foi a repercussão de uma propaganda de cerveja que eu recebi faz um tempo por e-mail, mas lembro de ter me espantado com uma criatividade fantástica que eu já não via há muito tempo em propagandas. Era mais ou menos assim, duas pessoas compravam ingressos para o cinema, mas quando entravam na sala para onde foram encaminhadas se deparavam com uma sala lotada daqueles homens grandes, que um braço é do tamanho das minhas duas pernas juntas, com a cara super mal encarada, que mais parecia que nunca tinha sorrido na vida e com o corpo tatuado da cabeça aos pés. Exatamente no meio da sala, no meio desses homens todos que não estavam nem um pouco dispostos a abrir espaço para você passar, estavam os únicos dois lugares vagos na sala. Algumas pessoas desistiam de ver o filme, assustadas com os caras, e poucas, mas muito poucas pessoas entravam numa boa e iam se sentar em seus lugares. Essas que sentavam tinham uma surpresa, um holofote se acendia em cima delas e todos os caras do cinema começavam a aplaudir e entregavam para eles, que não tinham sido preconceituosos, a tal cerveja que mereciam.

Depois de ver a propaganda e achar genial, você começa a se questionar como seria a sua reação, será que eu sentaria ou iria embora? Eu cheguei a conclusão de que sentaria, que bobagem, deixar de ver um filme só porque a sala toda está lotada de caras mal encarados? Eu não!

Passou-se um tempo e eu já nem lembrava mais dessa propaganda. Até que um dia fui chamada para tocar em um moto clube. Chegando lá só tinham caras mal encarados com jaquetas de couro, barbas enormes, caras fechadas, braços do tamanho das minhas pernas, tomando cervejas, jogando sinuca e exibindo suas maravilhosas motos. Os meninos da minha banda se sentiram em casa, enquanto eu só queria fingir que não tinha encontrado o lugar e ir embora. Fiquei morrendo de medo, comecei a repensar o set list da banda e imaginar que tinham músicas muito pop para o ambiente, já conseguia imaginar eles reclamando das músicas e tacando as latinhas de cerveja na gente! Estava em pânico!

Bom, mas não tinha jeito, tinha que sair do carro e encarar os caras. Saí do carro e fui tirar a bateria para levar pra dentro do moto clube. Cadê minha bateria? Eles já tinham vindo junto com os meninos da banda, tirado tudo do carro, levado tudo pra dentro, já tinham aberto uma mesinha do lado do palco, colocado cerveja para a gente tomar, colocado caldo para a gente comer antes de tocar, fizeram questão de nos deixar super a vontade e ainda disseram que qualquer coisa que a gente precisasse era só falar, eles estavam lá dispostos a resolver o que fosse para a gente!

Meu queixo caiu! Nessa hora percebi que eu não teria entrado no cinema cheio de caras “esquisitos”, eu teria pulado fora por causa de preconceito bobo. Algumas pessoas podem se justificar dizendo que é questão de segurança, que hoje em dia o mundo está muito perigoso para ficar dando mole, mas não, é preconceito mesmo, a gente olha para as pessoas e já acha que sabe dela melhor do que elas mesmas, sem nem se dar ao trabalho de conhecer a pessoa.

A sensação de uma pessoa super legal que não tem preconceitos morreu, mas a cada dia venho aprendendo um pouco mais a me dar a chance de conhecer pessoas antes de julgar quem elas são por conta própria, e acreditem, só de tentar deixar esse preconceito de lado e ter essa nova atitude, seja com pessoas mal encaradas ou simplesmente com pessoas diferentes de mim, tenho conhecido pessoas maravilhosas! Recomendo a todos!

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domingo, 15 de abril de 2012

A COMPAIXÃO E A LOUCURA >> Whisner Fraga


Toda cidade tem as suas personagens pitorescas, aquelas pessoas que fazem parte do folclore local. Em muitos casos, esses cidadãos têm alguma doença ou um distúrbio psíquico ou mental e suas ações, enigmáticas para nós, indivíduos que pagam impostos, são alvo de chacotas e ironias. Isto é, esses “loucos bons” servem como desculpa para uma piada, para uma brincadeira e para deixar o dia “mais leve”. Assim, como não podem compreender que são objeto de escárnio, passam a impressão que não possuem sentimento, o que pode levar alguém a pensar que há algo de bom na loucura. Traduzindo: o louco não se recordaria das maldades, dos sofrimentos e, portanto, não seria capaz de guardar mágoas.

Só que não há nenhum glamour na demência, por mais que alguns escritores ingênuos tentem mostrar o contrário, por mais que cineastas idealizem o comportamento das pessoas imersas nesse mundo paralelo, por mais que a população pense que é bom não atinar com o mal que as pessoas lhe fazem, pelas costas ou não. Alguns filmes nos mostram, incansavelmente, o contrário. Por exemplo, “Um estranho no ninho”, de Milos Forman – não há uma personagem na instituição psiquiátrica que seja feliz. Todos, além de suportar suas dores, têm de se sujeitar às arbitrariedades das enfermeiras. Padecem como todos nós.

O problema é só de ângulo de visão, pois os portadores desses distúrbios ou doenças simplesmente enxergam o mundo de modo diverso, mas enxergam, eis a questão. De maneira que raciocinar que um louco não se angustia, que não tem seus problemas insolúveis, é simplificar demais o assunto.

Enquanto escrevo, lembro-me da Lurdinha Varredeira, uma figura emblemática da história de minha cidade natal. Há um livro muito interessante sobre a vida dessa mulher, escrito por Valnice Pereira, que deve ser lido por todos aqueles que quiserem saber dos sofrimentos que ela suportou, nem sempre serenamente. Em uma das passagens do livro, Lurdinha entra em um estabelecimento comercial, mas não aceita que lhe deem nada, ela quer pagar. Parece não ter conhecimento sobre o valor das moedas, mas julga que não merece presente de ninguém. Ora, conheço muita gente sã que age de modo semelhante.

Eu também já escrevi sobre a Lurdinha, mas foram coisas de memória, material para ficção, pois ali misturo recordação e fantasia. Sei que certa vez eu observava Lurdinha em sua vida de varrer as sujeiras das ruas de Ituiutaba e vi se aproximarem rapidamente alguns meninos. Caçoavam dela, puxavam-lhe o vestido, a capanga que sempre trazia amarrada na cintura, e ela continuava alheia, concentrada em seu trabalho. Então um deles decide tomar-lhe a vassoura e aí acontece uma transformação: o semblante manso se agita, uma careta toma conta da feição normalmente desatenta e ela mostra uma cara de desespero, de angústia, de intenso sofrimento. Grito com as crianças, elas correm, deixam a piaçaba para trás e a devolvo para Lurdinha, que a recebe e volta para sua tarefa, como se não tivesse acontecido nada.

Por mais que façam parte do populário, pessoas como Lurdinha precisam do respeito de todos, necessitam também de tratamento, de um lugar para viver de forma digna. Eu só soube que a varredeira morava em uma casa precária, dormia em uma cama de tijolo, rodeada de lixo, porque li a obra de Valnice. Isso dá uma ideia do pouco que nos importamos com a vida de gente como ela. Tenho a impressão de que Lurdinha foi útil como assunto para piadas, para levar sabe-se para onde o lixo que jogávamos displicentemente pelas sarjetas da cidade. Nosso grande crime é pensar que, como ser humano, nos divertir foi sua única serventia.


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sábado, 14 de abril de 2012

PARA A RIO + 20 [Heloisa Reis]

Eu estive no Forum que, em 1992 aconteceu no aterro do Flamengo em paralelo à Conferência Mundial para o Meio Ambiente - a Eco92 – que tratou de assuntos importantíssimos para a preservação da vida no planeta.

Desse evento saíram documentos importantes, acordos entre nações que embora sem unanimidade giravam em torno da premência de mudanças de atitudes em busca da preservação da vida, da erradicação da pobreza, dos direitos humanos.

Passaram-se 20 anos daqueles dias em que, em companhia de muitos jovens estudantes entusiasticamente eu mostrava como a união de pessoas em torno de um ideal pode fazer a diferença.

Passaram-se 20 anos do momento em que de mãos dadas formamos um cordão de isolamento para dar passagem ao Dalai Lama que visitou o veleiro Rainbow Warrior em cujo mastro amarrou uma “khata” abençoando-o e a todos nós que acreditávamos com o coração na união em torno dos ideais de justiça, amor e benevolência. De lá saímos com uma sensação de dever cumprido, de bons ventos soprando na direção da Agenda 21, do Protocolo de Kioto, dos acordos de diminuição das emissões poluentes.

Mas, passaram-se 20 anos nos quais fui acompanhando incrédula um crescendo de subterfúgios oficiais ou não, manipuladores de puros valores apenas usados em discursos, mas na verdade aplicados em função de aferição de lucros para poucos.

De lá para cá parecem ter se proliferado ações que não relacionam homem e meio ambiente, que acham que a concentração de poder econômico basta para propiciar medidas de favorecimento à população genérica e silenciosa.

Hoje quando se prepara a chamada Rio+20 - já se percebe a manipulação até no título: Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, tirando toda e qualquer referência ao meio ambiente.
No documento 'zero' – rascunho geral que se destina ao documento base para as discussões - já estão sendo cortados outros assuntos, como segurança alimentar: “se parece óbvio que os direitos à ‘alimentação e nutrição adequadas’, ‘água potável e saneamento’ são pontos pacíficos nessa discussão e devem ser assegurados para todo cidadão, na verdade alguns países que estão dirigindo a nova redação excluem itens como o que prevê a ‘regulamentação dos mercados financeiros e de commodities para enfrentar a volatilidade dos preços’“*

Estranho? Não. Apenas garantidor do espaço já aberto à voracidade dos grandes produtores e mercados manipuladores.

Outros parágrafos como o que trata dos direitos das mulheres, dos povos indígenas e outros grupos vulneráveis ao acesso à terra também foram apagados. O mesmo aconteceu ao trecho que assegurava atenção especial dos governos aos “desafios enfrentados pelos pequenos produtores, mulheres e jovens, inclusive sua participação nos processos decisórios”.

A manipulação do novo texto não parou por aí: em toda a sua extensão, a palavra “pobreza” tem dado lugar ao termo “pobreza extrema”, para reduzir ainda mais o campo de atuação das políticas públicas nos próximos anos. São, na verdade, vinte anos de retrocesso - assim como retroagem muitas das propostas nas discussões do Novo Código Florestal Brasileiro.

Eu, há vinte anos, presenciei outra coisa. A preocupação com os direitos humanos era a base da discussão que girava em torno do meio ambiente, mas levava em conta o homem nesse cenário, contrário do que se está delineando agora.

Mas não é hora de desanimar. É hora de erguer a voz e participar do evento paralelo Cúpula dos Povos e assumir posição contra essa visão conservadora, retrógrada, desumana e excludente.

De minha parte, hoje reitero meu apoio a todas as organizações que estão protestando contra esses rumos e preparam um manifesto contra as exclusões. É hora de exigir mais compromisso dos governos e de, no mínimo, acompanhar e forjar em nossos sonhos matéria de que será feito o futuro.

* Cúpula dos Povos - Documento para o Rio+20

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sexta-feira, 13 de abril de 2012

BEIJO >> Zoraya Cesar

Suely, eu vou confessar uma coisa, você é minha melhor amiga, e eu preciso falar com alguém. Não precisa fazer essa cara, não estou doente, graças a Deus.
Suely, eu beijei um homem e não era o Paulo. Como assim, não entendeu? Eu beijei um estranho. Beijei e fui beijada. Na boca, Suely, na boca. E foi tão bom que eu não paro de pensar nisso.
Não, não estou tendo um caso! Eu lá sou mulher de ter caso? Jogar fora 37 anos de um casamento que me custou suor e lágrimas? De jeito nenhum.
Sei que foi uma loucura, mas... hein? Claro que não levei pra terapia! Tá doida? Pra ela analisar minhas pulsões sexuais e traumas de infância e tirar toda a graça do negócio? Nem morta!
E falando em graça do negócio, Suely minha amiga, ele era uma coisa de bonito e ... Suely, pare de ficar dando gritinhos ridículos, ou eu não conto mais nada. Ele devia ter uns 30 anos, se tanto.
Sei que estou com 62 anos, não precisa fazer sermão. Estou cansada desse negócio de ser obrigada a ter comportamento “condizente” com a idade. Aliás, minha conduta é irreprochável, como diria meu avô. Só porque beijei um estranho na boca não quer dizer que tenha ficado sem caráter. No máximo, sem vergonha na cara. Mas, a essa altura do campeonato, pra que eu quero vergonha na cara? Já bastam as rugas. Embora eu aparente bem uns 10 anos a menos, bendita plástica.
Deixa eu contar os detalhes sórdidos. Menina, você não tem idéia, ele tinha cara de homem, sabe? Parecia uma versão mais nova daquele ator, o Josh Brolin, do Onde os fracos não têm vez. Éeeee... esse mesmo, maravilhoso. Morra de inveja, amiga, eu beijei o Josh Brolin tupiniquim.
Para de gritar, sua velha tarada, que eu continuo. Olhe como são as coisas. Cheguei ao consultório do dentista e a secretária avisou que a consulta fora desmarcada. A vaquinha disse que tentou me avisar, mas eu duvido. Enfim, deixa pra lá. Com tempo sobrando, saí andando meio sem destino e, quando vi, tinha entrado numa academia de dança de salão.
Levei até um choque quando aquela figura veio me atender. Era estranho mesmo, cheio de tatuagem, brinco, o cabelão preso com elástico. Eu disse para ele não se incomodar, eu só estava dando uma espiada, e sabe o que ele respondeu? “Sem problemas. Não é todo dia que aparece uma mulher bonita por aqui”. Há anos não ouvia cantada tão barata!
Mas na nossa idade qualquer cantada é lucro, fiquei na minha. Depois de me tratar como se eu fosse aluna VIP, ele me acompanhou até o elevador. Foi então que o espírito de uma velha louca me possuiu, porque joguei o maior charme, você acredita? Ele tinha idade para ser meu filho! E eu sou casada!
Pensei que nem soubesse mais como fazer isso. Pedi desculpas pelo incômodo, agradeci o tratamento, afinal, eu não era nenhuma gatinha... essas coisas. Uma canastrona, você precisava ver. Nem sei o que eu pretendia com aquilo, o que eu sei é que ele chegou perto, pertíssimo de mim, e me disse “vocês mulheres não sabem do que um homem gosta”... e me beijou. Ele me beijou, ali, no meio do corredor de um centro comercial! Suely, eu tenho 62 anos! E o Josh Brolin me beijou na boca!
O que eu fiz? Suely, eu beijei de volta!
E beijei muito, porque aquela boca estava macia demais e beijava muito bem.
Depois, cada um tomou seu rumo, sem uma palavra. Eu mal podia acreditar. Minhs pernas tremiam. Um cara lindo sentiu desejo por mim! Um homem feito, só porque era mais novo eu não poderia beijar? Me senti mulher, linda, poderosa, sedutora. Ainda sei beijar de língua, ainda sei seduzir, não estou velha, não estou morta.
De jeito nenhum vou procurar por ele Suely, já disse que não quero ter um caso.
Mas a bomba vem agora: quero fazer de novo. Não com ele, com outros. Assim, sem compromisso. Encontrar, seduzir, beijar muito e sumir. "Ficar", como dizem por aí.
Por quê? Porque gostei desse negócio de ver que ainda desperto interesse, porque gostei do perigo, da emoção. Mesmo que não encontre quem beijar, já vale pela diversão. Nem me fale do Paulo, isso não tem nada a ver com ele, tem a ver comigo. Preciso ser beijada.
E vou procurar no subúrbio, onde os homens são mais homens. Amanhã vou a Madureira, nunca fui a Madureira, mas a mulher do meu porteiro me ensinou. Falei que quero ir ao Mercadão com umas amigas, sabe como é, tenho de ser cuidadosa.
O que? Você quer ir comigo? Mas... você é mais velha do que eu, Suely! Não tem vergonha?





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quinta-feira, 12 de abril de 2012

AMOR EM PORTUNHOL >> Fernanda Pinho





Eu nunca pensei que fosse me mudar de cidade, muito menos de país. E, ultimamente, todas as coisas que eu tenho dito começam assim: Eu nunca pensei que fosse me mudar de cidade, muito menos de país. Acho que ando abobalhada com as surpresas da vida, que vieram para mim em atacado. Eu também nunca pensei que existisse o nosso homem ideal, o nosso príncipe encantado. O que nunca me impediu de sonhar com ele. É claro que eu sonhava. Mas eu sonhava com ressalvas, com os dois pés no chão e a consciência de que um dia eu conheceria alguém totalmente diferente do homem dos meus sonhos, que me cederia um pouco de amor e eu me daria por satisfeita.

Mas eu sempre gostei de sonhar. E, ainda que supostamente consciente da realidade, sonhava. Com um libriano (só alguém do meu signo me entenderia), de olhinhos puxados (um leve complexo por ter os olhos grandes demais?), com sotaque espanhol. Esse último quesito, quase um fetiche, talvez tenha sido o que me motivou a estudar espanhol quando 90% dos meus amigos estudavam inglês. Estudei, mas esqueci quase tudo.

Como quase me esqueci também desse negócio de príncipe encantado. A gente cresce, leva umas rasteiras e meio que se vê obrigada a se preocupar com outras coisas. Pensei tanto em outras coisas que me distraí. Me distraí tanto que, quando ele apareceu, quase não me toquei. Chegou sem muito estardalhaço, se apresentou, mas nem precisava. Eu já conhecia sua família há anos. Tinha ouvido falar dele uma ou duas vezes. Por isso fui receptiva. Por isso e pela vontade de aprender o espanhol de uma vez por todas. Seria bom ter um amigo com quem praticar a língua.

Mas rapidamente ele me convenceu de que eu deveria ensiná-lo o português. Eu, inconscientemente encantada, virei a professora mais dedicada do mundo. Não demorou muito mas já estávamos falando banalidades no meu idioma. Banalidades do tipo "eu amo fazer compras". Eu disse isso a ele num dia e essa teria se perdido em meio a tantas outras frases corriqueiras se ele não tivesse respondido com um "e eu amo você". Ama? Eu? Como assim? Meu Deus, esse homem tá misturando as palavras, os idiomas, sei lá. Será que eu ensinei tudo errado? Fui e voltei em outra galáxia procurando o que dizer depois disso. Suei, tremi e decidi: era o caso de dizer a verdade. "Eu também amo você".

O que veio depois disso foi uma sequência de cenas dignas das comédias românticas mais fofas do mundo, com direito a encontros apaixonados, despedidas dolorosas em aeroportos e pedido de casamento espontâneo. A ponto de eu ter que parar e refletir: está acontecendo mesmo ou eu pirei de vez? Se eu pirei espero não voltar à normalidade nunca. Só quero saber de continuar estrelando meu filme e fazendo par romântico com este chileno-libriano-de olhinhos puxados que não me ensinou a falar espanhol. Mas me ensinou a amar.

E agora, que eu acabei me mudando de cidade e país, chegamos na melhor parte do filme: o que vem depois do “felizes para sempre”.

Imagem: www.sxc.hu


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quarta-feira, 11 de abril de 2012

QUINTO CAPÍTULO >> Carla Dias >>


É um homem elegante, muito bem educado, intelectualmente atinado. Uma e outra mãe de filhas solteiras já consideraram fisgá-lo como genro, chegando mesmo a tramarem encontros casuais nada casuais, com os quais ele lida sempre de forma agradável. Porém, na convivência breve com ele, durante um jantar ou um café na tradicional padaria da esquina, mães e filhas acabam percebendo que, olhando assim, de perto, ele também é um belo homem, sustentando com um ar rude, que mais encanta do que bota medo, e os cabelos levemente desalinhados acentuando o seu charme.

O que elas não sabem, mas acabam por descobrir em dois tempos, é que o tal homem, sempre com um sorriso gentil nos lábios, está pra lá de condenado para relacionamentos pela sua profissão. Não há mulher, mãe ou filha, por mais desesperada que se sinta, que aceitaria o desafio de fazer parte da vida dele. Sendo assim, após o encontro casual nada casual, elas sempre voltam para as suas casas, e não somente desapontadas pela busca vã, mas também imbuídas em uma comiseração danada por ele.

Julga-se um viciado por café, assim como era a avó, quem o criou desde muito pequeno. Uma mulher miúda, com jeito frágil, mas que se mostrou das mais fortes e determinadas. Ela dizia que o menino engolira as palavras quando sofreu o acidente de carro com os pais, que, na certa, engasgara-se com elas. E como sobrevivente, aprendera a usá-las somente quando elas eram realmente necessárias, por isso a dificuldade em haver uma boa conversa entre eles. Eles nunca falavam banalidades.

Porém, o silêncio entre eles era de uma integridade invejável. Enquanto a avó cosia as roupas puídas ou preparava a comida, mesmo quando sentados na varanda, observando o fim do dia, esse silêncio os unia em uma intimidade rara entre as pessoas. Até mesmo entre as que se amam verdadeiramente.

Havia algo na avó que o fascinava desde sempre. Em momentos de contemplação, ele a percebia suspirando com mais frequência do que já vira qualquer pessoa suspirar. Era quase uma sinfonia de suspiros, e com todas as nuances, em uma dinâmica entrecortada por melancolia, prazer, saudade, amor e tantos outros sentimentos. O menino aprendeu a decifrar cada suspiro dela, e com uma facilidade de se admirar. A avó suspirava, e ele se aproximava, oferecendo rara palavra dita: saudade? Cada palavra era entoada à cadência do que ele acreditava ser o sentimento. E ele nunca errou, também nunca perguntou o motivo, porque era neto, menino a ser cuidado, e acreditava que sentimentos assim eram da alçada dos adultos.

Ainda não sabia, naquela época, que seu trato com a importância da palavra dita, assim como a sua facilidade em decifrar suspiros, eram características muito importantes, talentos que poucos tinham para exercer a profissão na qual hoje é dos mais admirados. Tornou-se quem é sem titubear, sem sentir medo do que enfrentaria. E quando a avó foi se juntar aos pais dele, o homem adulto já sabia que seu destino estava norteado pelo indecifrável.

Desempenha o seu papel com a delicadeza do poeta ao roçar a pele de sua amante. Aliás, a poesia foi a forma que encontrou para dizer sem pronunciar palavras. Compreendeu-se poeta na adolescência, quando seu corpo necessitava do que ele jamais teria com facilidade: companhia. Escreve poemas que lê em voz alta, somente uma vez, e então os engaveta, como se os tivesse enterrado.

O chapéu fedora clássico, compondo o visual atraente e suscetível aos erros de julgamento. Não é empresário bem sucedido, ator de filme blockbuster, modelo profissional. Não é rico, mas acredita que, ao entrar na vida de uma pessoa, mesmo que somente por algumas horas, e de forma tão sorrateira, prefere que elas fiquem com a impressão de que foi apenas a imaginação delas operando. Prefere ser personagem ao invés da pessoa, e isso tem lhe servido de alento, desde o primeiro dia de trabalho.

Entra na casa sem pedir permissão, porque não é preciso, na sua profissão. Ainda assim, resmunga um “com licença” que lhe tranquiliza a consciência. Ele está sentado na sala, em frente à lareira, contemplando uma fogueirazinha quase rasteira, o cobertor sobre as pernas. O cliente é um homem jovem, mas de olhar envelhecido pelo que ousou enxergar com o coração. Quando o escolheram, não houve catalogador de suspiros que se oferecesse para o trabalho. Diz a biografia do homem, e não a lenda, que ele suspirou todos os significados da cartilha dos suspiros, que nenhum dos catalogadores de suspiros que já o visitaram, conseguiu decifrar, no mínimo, mais de uma dezena deles.

Senta-se na cadeira, ao lado do jovem, pernas cruzadas. Observa o fogo diminuto, prefácio da escuridão. Ser um catalogador de suspiros é ser paciente, também. A arte da observação é aplicada, e o cliente não sabe da presença do catalogador, apenas sente algo diferente, e às vezes enxerga vultos. É preciso diligência, e um respeito inabalável pelo outro, para não interferir no que sente o cliente, não influenciar o significado do suspiro. O cliente, essa pessoa selecionada entre tantas, entre todas, é de uma sensibilidade ímpar, é uma existência iluminada.

Durante horas, ele observa o jovem e faz anotações. A cada suspiro, ele decifra uma notação, concedendo a ele a devida tradução. Horas depois, na escuridão completa, o jovem alternando momentos de cochilo, ele identifica o último dos dezessete tipos de suspiro que nenhum outro catalogador conseguira identificar.

Sabe que os cientistas o acham sentimental demais, que catalogar suspiros é função dos lógicos, dos observantes que jamais se apegam ao cliente, que os tratam com a distância necessária. Mas ele duvida que seria o catalogador talentoso que se tornou, não fosse a presença da poesia em seu dentro, a intimidade estabelecida pelo silêncio, o mergulho na essência do outro.

Levanta-se, já sentindo a sua presença. Na saída, esbarra o braço no dela, o que faz seu corpo se desajeitar com a sempre postura profissional e polida. E vem a troca de olhares e o sorriso aveludado que ela sempre lhe oferece.

Antes de partir, ele a observa se sentar na mesma cadeira que ele estava, e se curvar para abraçar o jovem que, mesmo não a enxergando, sente imediatamente a sua presença. E então, ela começa a sussurrar nos ouvidos dele, que vai se enchendo de vida.

Um catalogador de suspiros deve se retirar imediatamente do recinto, após identificar os suspiros do cliente. Porém, ele não sabe como, sempre espera que ela chegue para fazer sua parte.

Um catalogador de suspiros não deve, de acordo com as normas da empresa, interagir com um profissional de desfechos, como a mulher que lhe enche os olhos e o coração de beleza. E ao dizer adeus, assim, sem dizer, deixa com ela parte de si. Uma parte que se nega a abandonar, desaperceber, fazer sumir o desejo.



Imagem © Light in the darkness - sxc.hu




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terça-feira, 10 de abril de 2012

O PERIGO PODE ESTAR AO LADO >> Clara Braga

Com certeza todo mundo já ouviu aquela máxima que diz que a única certeza da vida é a morte.

Eu não concordo, e ainda assumo que tenho muito preconceito com essas generalizações que todo mundo tem mania de fazer, mesmo sabendo que até para dizer que eu tenho preconceito com generalizações eu acabo generalizando. Parece inevitável!

Mas o meu maior preconceito mesmo, são essas pessoas que ficam tão atordoadas com essa ideia de vida e morte que acabam deixando de viver com medo da morte, mesmo sabendo que, até hoje em dia, ela é inevitável.

Concordo que nós podemos ser cuidadosos e evitar algumas situações perigosas que possam terminar em tragédia, como por exemplo, sempre atravessar a rua na faixa depois dos carros terem parado, não ficar dando sopa na rua em lugares escuros e que todo mundo sabe que são perigosos, tentar ter uma alimentação saudável e deixar para exagerar só no final de semana, fazer exercício regularmente, não tomar bebidas que já estavam abertas quando chegaram até nós e outras coisas que já cansamos de ouvir dos nossos pais, mas que ainda vamos repetir para os nossos filhos até eles não aguentarem.

Mas acho que não precisa exagerar, por exemplo, eu não vou deixar de viajar porque existe uma chance, por menor que seja, do avião cair, não vou deixar de tomar coca cola de vez em quando porque ela é cancerígena, até porque está difícil achar algo que não dê câncer hoje em dia, não vou deixar de sair de carro porque tem tido muito acidente e etc.

Mas, para a alegria dos paranoicos (sem ofensas, na minha família tem muitos), que agora devem estar pensando que eu sou louca e quero morrer, outro dia me peguei sendo um pouco paranoica também. Estava comendo no Subway, que aqui em Brasília fica no posto de gasolina (não sei se é assim em todos os lugares, mas aqui parece que virou moda ter lanchonete no posto), quando de repente comecei a sentir um cheiro de gasolina muito forte. Tudo bem, eu estava no posto, normal ter cheiro de gasolina, mas eu já tinha comido lá antes e o cheiro não era assim tão forte! Quando um dos carros que estava parado no posto saiu, eu vi que ele deixou para trás uma grande poça de gasolina no chão. Grande mesmo!

O que o frentista fez? Nada! Ficou lá e continuou trabalhando como se nada estivesse acontecendo. Eu comecei a imaginar que aquilo não podia ser muito bom, afinal de contas, se a gente não deve nem atender o celular quando está abastecendo porque corre risco de explosão, imagina uma lanchonete onde as pessoas comem, falam no celular, depois de comerem acendem um cigarrinho e logo ao lado tem uma poça de gasolina no chão!

Eu comecei a ficar tão nervosa que já conseguia ver perfeitamente o posto explodindo igual às cenas de explosão que a gente vê em filme! Foi então que eu decidi que preferia continuar vendo essas cenas nos filme ao invés de fazer parte dela, peguei meu sanduiche e fui embora comer em casa.

Claro que não aconteceu nada lá, o posto estava lá no dia seguinte, nenhum plantão da globo anunciou nada, o Subway continua funcionando e as pessoas continuam comendo, falando no celular e fumando lá. Só eu que fiquei mais medrosa (espero que não tenha ficado paranoica) e comecei a achar esse papo de lanchonete misturada com posto de gasolina a pior ideia do mundo, nunca tinha passado pela minha cabeça o risco que pode ser! Posto de gasolina daqui para frente é só mesmo para abastecer o carro rapidinho e me mandar. Comer... é melhor deixar para comer em qualquer outro lugar!

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segunda-feira, 9 de abril de 2012

AGOSTO DE ABRIL >> Albir José Inácio da Silva

O rádio era o objeto mais importante da casa e ficava em cima da cristaleira para que as crianças não o alcançassem. Já existia televisão, mas pra nós só era possível imaginar um rádio que mostrava figuras.

Nem o rádio entendíamos bem o que era, nem o que dizia. Gostávamos das músicas, mas as palavras eram difíceis e entrecortadas por ruídos e chiados que obrigavam os adultos a ficarem de pé junto à cristaleira. Olhando para cima, eu tentava decifrar as caras, os gestos e os comentários daquela gente.

E as caras ficavam muito preocupadas, principalmente depois do toque que introduzia a voz grave do locutor: “Aqui fala o seu Repórter Esso em edição extraordinária...”. Naquele vinte e cinco de agosto a bomba era a renúncia de Jânio Quadros. Renúncia eu não sabia o que era, mas Jânio Quadros eu já ouvira muitas vezes.

A música da vassourinha durante a campanha não me deixava esquecer. Antes a cara dos meus adultos ficava boa quando se falava nele. Era a esperança, diziam, depois que Vargas foi sacrificado naquele outro agosto em que eu não era nascido. Ia moralizar a casa da mãe Joana em que se tinha transformado o país. Moralizar devia ser arrumar porque, segundo eles, o país virou uma bagunça.

Mas agora já não havia elogios ao homem da vassoura. Ele traíra os eleitores dando medalhas a terroristas e desafiando aliados e benfeitores que nos mandavam latas de trigo com letras da Aliança Para o Progresso. De qualquer forma, renunciou. E renunciar não parecia nada bom.

- Ele já deve estar preso – disseram. E eu pensei “se ele foi preso, o que fizeram com a vassoura?”. Nunca entendi por que o Presidente precisava de uma vassoura. Uma vez me responderam com alguma impaciência, como se todo mundo já soubesse: - é pra varrer a corrupção. Claro que eu não sabia o que era corrupção, mas imaginei que eram papéis e documentos ruins que, amassados ou rasgados, eram varridos pelo Presidente.

Depois da tal de renúncia a situação deve ter piorado porque ninguém ficava mais alegre com o “reportelesso”. Todos falavam de ameaça comunista, de greves, de racionamento – esse eu sabia que era ruim porque faltava açúcar, carne e feijão. Diziam que a coisa ia de mal a pior e que o Brasil não tinha mais jeito.

O rádio falou de parlamentarismo e eu não sei nas outras casas mas na minha ficaram bravos de novo. Isso era coisa de estrangeiro. Em país de macho o presidente manda, não faz figuração. Mas, também, esse frouxo do Jango, é melhor que não mande nada mesmo.

Nem tudo era cara feia e o Brasil foi campeão no Chile com Pelé, Garrincha e outros nomes que aprendemos na alegria dos adultos. Pulamos e gritamos perto do rádio, mas era uma alegria passageira. Logo voltamos a ficar amargurados. Até as crianças sentiam alguma culpa porque sempre diziam que era melhor não ter filhos num país como aquele. Isso durou ainda uns dois anos, até que Jango foi deposto.

Não sabíamos o que era deposto mas, a julgar pelas comemorações, ao contrário de renúncia, devia ser coisa boa. Naquele primeiro de abril todos voltaram a ficar animados como no tempo da bola e da vassourinha. Só que as ferramentas eram outras.

Falavam de metralhadoras, tanques e gás lacrimogêneo. Falavam de novo em moralização, caça aos comunistas e salvação dos brasileiros. E fomos salvos por mais de duas décadas. Pelo menos aqueles que se comportaram bem e mereceram.

Passados todos esses anos, lembro do rádio com saudade e nostalgia. Mas música de edição extraordinária ainda me acelera o coração. Latino-americanos sabemos que os salvadores estão sempre à espreita. E sabemos o que é espreitar, mas ainda nos confundimos muito com o significado de salvação.

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