sexta-feira, 30 de março de 2012

O REI DA NOITE >> Zoraya Cesar


Detestava gatos. Nunca entendera como alguém pudesse ter esse bicho como de estimação. Brincava dizendo que só conhecia o de estimaCão.

Mas – e tem sempre um “mas” - um dia ele conhece uma felina gata de duas patas, digo, pernas, e que pernas!, maravilhosa, loura (loura!, babava ele), enfim, perfeita, tanto mais que parecia muito a fim de conhecê-lo melhor. E vai aqui, volta dali, ela revela que adorava gatos; mais, que tinha um em casa, não à toa chamado Rei, e que jamais se envolveria com um homem que não gostasse de gatos.

Ele gelou. Por muito pouco não confessara sua ojeriza e que tinha lá suas desconfianças contra homens que gostavam de gatos.  Mas conteve-se a tempo, porque ela era mesmo sensacional e ele queria sair dos entretantos e chegar aos finalmentes. Cinicamente, desfiou uma série de elogios aos felinos e disse que adoraria conhecer o bichano. Caindo na conversa mole, ela o convidou para tomar alguma coisa em sua casa. Sim, exultou ele, vou tomar mesmo alguma coisa...

A antipatia foi imediata e recíproca. O gato tinha um focinho franzino, que lhe dava um ar de mau, era peludo, parecia rabugento. Mas, pensou ele, todo gato é igual, quando não é manhoso é tinhoso. E rindo de seu próprio mote, aproveitou que ela foi ao banheiro e empurrou o gato com o pé.

E se ajeitou, sentindo-se dono da situação, planejando viajar com a musa loura para as terras da luxúria ali mesmo, no sofá. Mas não deu nem para comprar as passagens. O gato pulou no seu colo, cravando-lhe as unhas no peito e enchendo seu nariz de pelos. Aaaaiiitchimm, três vezes gritou e espirrou ao mesmo tempo, cheio de dor e fúria, enquanto tentava esganar o gato, sob os protestos da dona, que, contrariando todas as evidências, afirmava que isso era a demonstração cabal de que Rei o aprovara com entusiasmo. Sorrindo cândida e tentadoramente, ela disse que, agora sim, estava satisfeita ao ver os dois gatos se entendendo.

O coração do caçador ronronou. A noite estava garantida. Ele mal cabia dentro das calças enquanto afirmava que sim, adorava gatos, só ficara um pouco assustado com demonstração tão veemente de afeto. Ela se achegou, toda sinuosa, beijando e abraçando e... ele mal sentira os macios lábios louros no pescoço quando uma dor agudíssima o arrancou do enlevo. O maldito gato enfiara os dentinhos afiados na sua orelha e chegou a tirar sangue! Tentou agarrar o assassino, mas a gata-mor, toda sedutora, achou graça, ele quer brincar! Que fofo!

Foi o que o impediu de matar o gato ali mesmo, embora uma ligeira raiva começasse a crescer nele, só uma doida para achar aquele gato cretino “fofo”. Mas ela era mesmo irresistível, e ele jogou-se em cima dela como um leão sobre a gazela. E bem no momento em que a gazela se atirava sobre ele com fúria igual, o Rei da casa pula nas costas do rei da floresta, enterrando as unhas em sua pele nua. O palavrão gritado curto e grosso cortou, no ato, todo o clima. Ela se zangou, dizendo que o gatinho só queria brincar, não era possível que tivesse machucado tanto assim.

Pressentindo o perigo de voltar para casa sem ter completado seu intento, ele, imediatamente, tomou conta da situação. Com a habilidade que só os sedutores desesperados por uma noite das arábias podem ter, convenceu-a de que estava nervoso, afinal, ela era um escândalo de maravilhosa, ele não se sentia merecedor de tanto, blá blá blá, amansando-a com tanta facilidade, que ele mesmo sentiu vergonha de sua cara de pau.

O importante é que deu certo. Ela se levantou, toda macia e sorridente, pedindo-lhe para esperar que tinha uma surpresa, um óleo perfumado, ele gostava? O conquistador quase teve um ataque cardíaco. Se gostava? Ah, pensou, enquanto ela se trancava no quarto, mulheres são tão inocentes. E olhou para o gato, que o encarava de volta, com uma expressão muito parecida com ódio. Gato burro, sussurrou ele, vou mostrar quem é o rei aqui.

Quando a estonteante, absoluta, a própria deusa da beleza voltou para a sala, e murmurou, “vem”, ele foi.

Mas não chegou nem perto. O gato começara a miar desesperadamente, como se estivesse sendo torturado e estripado. Largando na sala o sheik alucinado de excitação, ela encontrou o gatinho amarrado num pano de prato, dentro do forno.

Ele nunca pensara que mulher tão delicada pudesse virar um bicho tão feroz. Foi expulso aos tapas, debaixo de palavrões mais cabeludos que os usados em estádios de futebol.

Frustrado, arranhado, mordido e humilhado, ainda teve de ouvir, antes de correr escadas abaixo, o miado sarcástico do verdadeiro rei da noite.


Partilhar

quarta-feira, 28 de março de 2012

RECINTO-MUNDO >> Carla Dias >>

Foi ensinado a ele, por um pai calejado de tantas voltas que a vida lhe deu, que a melhor forma de se sobreviver é se impondo, e tratando a si como o indivíduo de maior importância no recinto. Até aí, quem pode questionar? Se cada um abrir mão da importância de quem é, jamais terá o que se tornará, apenas andará em círculos.

Porém, esse pai não ensinou ao filho com a gentileza dos sábios, que mesmo enquanto impõem provações, não ferem com a agudeza da mágoa, não descartam a benevolência adquirida com o amor. E assim, ele cresceu menino carrancudo, dos que disputa espaço em todos os lugares, até mesmo naqueles aos quais jamais pertenceu, e sem se importar se, durante a sua batalha pessoal, cometia o grande erro de prejudicar outras pessoas.

Afinal, ele acreditava ser o indivíduo de maior importância no recinto.

Apesar da dureza que lhe acometeu, com o passar dos anos, o menino, agora um adulto profissionalmente bem-sucedido, negou-se a seguir o conselho do pai, e decidiu cuidá-lo até o último minuto, ao invés de dedicar a outros, aos estranhos, essa função. Irritado, o homem velho e amargurado, até o suspiro final, desferiu-lhe frases duras para destacar a fraqueza desse seu filho, simplesmente porque o menino, agora um adulto profissionalmente bem-sucedido e completamente solitário, não colocou a si, o indivíduo de maior importância do recinto-lar, em primeiro lugar.

Após a morte do pai, ele passou dias trancado em seu apartamento, em área nobre da cidade, quase sem comer, descartando os cuidados essenciais consigo mesmo. A barba cresceu, o perfume importado foi sucumbido pelo mau cheiro pela falta de banho, os cabelos, sempre tão bem penteados, caíram em verdadeira desgraça. E ele assim, sentado no chão do quarto, olhando para lugar nenhum, doendo que só nesse recinto-saudade.

Houve esse dia em que ele respirou fundo e abriu a janela. A claridade invadiu o quarto, inquietou os seus olhos, assumiu o controle. Lá fora, a cidade seguia sem lhe cobrar feitos. Sempre exigiu dos seus funcionários o máximo de dedicação e comprometimento com as suas profissões, portanto, eles sempre foram exemplares. E assim, a sua empresa seguia sem necessitar das suas orientações. Ninguém sentia falta dele. Nenhuma engrenagem da vida deixava de funcionar sem a sua presença.

O banho foi o mais demorado de toda a sua vida. Acostumado a cortar os cabelos em um badalado salão da cidade, rendeu-se ao fascínio da tesoura, e ele mesmo fez o serviço. A barba ele preferiu manter, porque ela o fazia parecer outra pessoa, e naquele momento, sem entender muito bem por que, ele não queria se reconhecer.

Caminhando pelo calçadão, o mar alvoroçado à vista, e ele para, porque quer observar a dança das ondas. Havia se esquecido de como era bom escutar o som do mar, como fossem cochichos ininteligíveis, mas aprazíveis aos sentidos. Lembrou-se de quando era menino e sonhava em comprar uma casa de frente ao mar... E que, adulto, profissionalmente bem-sucedido, solitário, incompetente no lidar com outro ser humano e dono de um apartamento luxuoso de frente ao mar, aprendera a sucumbir a um ensinamento que só lhe provou o quão sem importância uma pessoa pode se tornar neste recinto-mundo, quando tenta conquistá-lo a força, ao custo da felicidade alheia, das realizações que não lhe cabem.

E lhe bateu um alívio, como se somente naquele instante, quando compreendeu como ele era desimportante ao universo que criara para si, conseguisse dizer adeus ao pai, o homem que lhe ensinara a ser a pior pessoa possível, antes de partir e lhe oferecer a oportunidade de ser alguém importante no recinto-mundo, mas como parte dele. Uma pequena parte que, naquele mar, banha a alma, enquanto se reconhece ao avesso.

Nem todo ensinamento é digno do aprendizado.





Partilhar

segunda-feira, 26 de março de 2012

CONFESSIONÁRIO >> Albir José Inácio da Silva

Desde de que me entendo por gente estou às voltas com esse negócio de pecado. Quando adulto o que consegui foi não me importar mais com os acusadores. Mas os pecados mesmos, esses nunca me deixaram.

Na infância os mais graves eram malcriações, pirraças e língua para os coleguinhas. A admoestação me trazia remorsos e obrigava a promessas de não repetir. Em vão. No dia seguinte lá estava eu fazendo tudo de novo. Era mais forte que eu. Eu bem que gostaria de agradar, ser um bom menino. Mas o que conseguia era adicionar outros pecados que a idade ia me apresentando.

Na adolescência acrescentei pecados bem mais graves, segundo me disseram, sem me livrar das culpas da infância. Pequei com o pensamento, com os lábios, mas sobretudo com as mãos. Enquanto era advertido sobre os perigos do pecado, meus pares, principalmente os de saia, me incentivavam a pecar. O Senhor não sabe como é difícil porque o senhor é Padre.

Na universidade pecados sociais se juntaram às anteriores desobediência e luxúria. Por exemplo, não ser miserável como as massas que deviam ser salvas era crime de lesa-humanidade. Isso começou gerações antes, com pais e avós que acumularam a fortuna da casa onde moravam e alguns móveis velhos. E também pagaram escola em vez de tomar o poder para que todos estudassem de graça. O Senhor pode colocar na minha conta mais o pecado de amar esses pecadores e não fuzilá-los.

Já adulto quis a qualquer preço o reconhecimento, o prestígio e o respeito dos outros. A tudo eu justificava com a lei da sobrevivência. Que havia de errado em defender-me nesse salve-se quem puder? O pecado agora, me diziam, era a ganância. De nada adiantaram exemplos de mártires e heróis domésticos, acadêmicos ou religiosos. Acrescente-se o mau-humor e o tédio, que não pode deixar de ser pecado, considerados os danos aos circunstantes. Até o que pareciam boas ações eram na verdade autopromoção, ou guardavam algum inconfessável interesse. Confesso também a ostentação, afinal de que adianta conquistar em segredo.

Agora que a velhice já não me permite tanta atividade pecaminosa, temos um impasse. O Senhor não me absolve porque eu não me arrependo. E eu não me arrependo porque seria hipócrita: sob as mesmas condições de temperatura e pressão e oportunidade eu cometeria os mesmos pecados. Faria de novo, não por achar certo, mas porque não há opção. Se estava escrito que Judas ia trair e Pedro negar, como poderiam eles não fazer? Se não posso escolher o bicho que quero ser, por que é pecado ser humano? Se me queriam culpado, aqui estou. Culpado, mas não arrependido.

A propósito, mais um pecado: morro de inveja porque sei que há por aí pecadores tranqüilos que pedem perdão à noite, zeram a conta, para tornar a pecar pela manhã. Estão sempre em paz, não lhes pesam os pecados.

Não é o meu caso. Os pecados sempre me atormentaram. E, se não posso ser perdoado, pelo menos que me descontem da pena essa vidinha medíocre que herdei, construí ou compliquei, mas que era a única que havia pra viver.

Vida culpada, Reverendo, que já está na reta final mas parece bem pior que o último círculo do inferno de Dante. Sua bênção.

Partilhar

domingo, 25 de março de 2012

UM HOMEM VELHO >> Eduardo Loureiro Jr.

De vez em quando, me sinto um homem velho. Não um velho gagá de asilo, nem o velho sábio de Caetano. Apenas um homem velho de meiaidade.

Quando em vez, me interessam mais os anos 1980 do rock nacional do que os anos 2040 da ficção científica. As lembranças têm mais valor que as esperanças. Meu olhar troca bolas de cristal por espelhos retrovisores. Vejo a vida não como um chamativo tapete vermelho que se desenrola, mas como uma cortina cinza e gasta que se fecha.

Nesses dias, penso na morte não como uma distante fatalidade humana, mas como uma amiga saudosa que tenho certa pressa em rever. Desimportam-me todas as coisas que só serão resolvidas para além de meu escasso tempo neste planeta: o analfabetismo, a poluição, a corrupção, a discussão, a projeção, a guerra...

Não procuro por novos discos, filmes, livros. Trato de retomar os que já me socorreram uma vez. O pouco tempo que penso que tenho, escolho dedicá-lo a Chorando baixinho, do disco Dois irmãos, de Paulo Moura & Raphael Rabello; a O marido da cabeleireira, de Patrice Leconte; a O guardador de rebanhos, de Fernando Pessoa.

Permito-me pequenos e prazerosos pecados que, no máximo, podem me condenar ao já desejado fim: baião-de-dois com manteiga da terra, carne de sol, macaxeira frita e paçoca. Cansa-me pensar no colesterol e nas dores do sangue, dos rins, do fígado, quando está em jogo o deleite dos olhos e da língua.

Já não me atrevo a considerar que poderia ser feliz com uma mulher ou comigo mesmo. Sento-me à beira do mar da memória, linha lançada, vara afundada na areia, e, sem relógio, aguardo o impreciso momento em que um peixe-lembrança, distraído e faminto, morderá a isca e me trará súbito e fugaz contentamento.

Ao contemplar os ponteiros na parede, sussurro: "São mais lentos que eu...". Ao conferir o número no calendário, murmuro espantado: "Ainda?" .

Olho para o Sol, olho no olho, sempre admirando sua capacidade de lançar luz e mais luz, dia após dia, sobre todas as coisas. Mas em mim não há mais o antigo anseio íntimo de "um dia, eu chego lá". Desdeseja-me chegar a qualquer lugar, animado por promessas de que seria melhor. Talvez seja, talvez não seja. Fico por aqui.

Lamento suavemente, sem grandes arrependimentos, não ter tido filhos. Não porque quisesse tê-los realmente, mas apenas porque me sinto em falta com minhas irmãs, que me deram a alegria encantadora dos sobrinhos. Não me penitencio pelos meus erros, nem me orgulho de meus feitos. Tampouco me envaideço de meus vícios ou deploro minhas beatices. Mas sou curioso pelo outro lado da vida, quando poderei conferir meu bilhete de loteria esportiva e saber, finalmente, o que errei e o que acertei.

Gosto o mesmo tanto das pessoas de que sempre gostei, e, pelos que não tive simpatia, continuo não tendo aversão. Uns são cabelos que ficaram graciosamente brancos; outros, pelos caídos que não se fixaram firmemente à minha cabeça.

Vontade de escrever, já não tenho, mas ainda mantenho o hábito, a mania, entre tantas outras: tirar meleca do nariz, ler no banheiro, cumprimentar as pessoas, obedecer às leis, dormir...

Enfastia-me imaginar que a vida seja eterna. Mas é um cansaço sem revolta. Tudo está no seu lugar: o tempo, o mundo, este homem velho, este sentimento, estas palavras. Desisti de entender a minha biografia. É um livro que ficará estanque na estante.

Fico espreitando o horizonte para ver se já é o fim, ou pelo menos o descomeço. Isto ainda são palavras, ou apenas o seu eco? Posso parar por aqui, ou é preciso mais alguma coisa?

Bonito e gentil é o silêncio, que continua dizendo tudo sem que a gente precise escutar nada...



Partilhar

sábado, 24 de março de 2012

GRANDES E PEQUENAS QUESTÕES [Ana Gonzalez]

O momento da civilização ocidental e da sociedade brasileira é raro: Primavera Árabe, crise no mundo e no Mercado Comum Europeu, problemas com nossa Educação, com a nossa Justiça e com a classe política brasileira. Grande questionamento nas relações profissionais e pessoais. Eu poderia ir longe nesta lista. Mas, não são essas as questões que nos movem. Nem sempre saímos em busca de resoluções para essas questões importantes, que mereceriam mais atenção de nossa parte. Na verdade, são pequenas questões que nos colocam fora dos eixos. A natureza humana responde prontamente à chamada delas. Mexe em nosso estômago, cabeça, coração. Parecem até essenciais.

Sei bem que viver em cidade grande é um perigo a cada esquina e pago o preço dessa insegurança, visto que há outras coisas que me agradam nesta metrópole paulista, muito amada.

Mas, confesso que na segunda quinzena do último janeiro fiquei em dúvida. Fui a um jantar em casa de amigos numa noite de sábado, no bairro de Pinheiros. Como não havia estacionamento por perto, o carro ficou na rua. Quando fui embora, percebi algo errado na maçaneta do carro e, mesmo tendo conseguido entrar no carro, ao sair em movimento pela rua, ouvi o barulho avisando-me de que alguma porta estaria aberta.

Não podia parar naquele momento e lugar. Comprovei a dúvida ao chegar à garagem de casa: o bagageiro estava sem o estepe. Interessante que o malandro-meliante-vagabundo-bandido surripiou somente o pneu. Deixou o macaco, os CDs, o som, o par de luvas, o guarda-chuva. E o carro, claro.

Respirei fundo e me preparei para o gasto extra. Na segunda-feira seguinte fui ao telefone e à internet para uma compra de pneu adequado. Pesquisa de preço e modelo.

Na quarta-feira, me dirigi a um bairro mais distante e consegui um atendimento de primeira, com uma equipe mais do que simpática. Era a última roda (sim, amigos, há problema de mercado nesse ramo)... Segundo os rapazes, dei sorte.
Naquela mesma noite, fui visitar uma amiga e filhos em outro bairro. Uma pizza honesta e caprichada entre dezenove e vinte e duas horas comemorou o ano novo, talvez meio passado, mas ainda válido em janeiro.

Ao sair, não gostei nada, porque o barulho (do bagageiro?) se repetiu. Meu coração quase parou. Estacionei o carro e fui verificar assim que pude. Tinham levado o pneu novinho em folha e a última roda!

Primeiramente, fiquei raivosa. Depois, me deu uma frustração enorme. Aos poucos me dei conta de que eu estava um caco. A zero de energia. Impotente, cansada da vida. Foi difícil ir adiante.

Tudo de novo. No dia seguinte, me apresentei à loja de pneus com cara amarrotada e com vontade de chorar, com raiva, com sensação ruim de
quero-colo-mamãe. Fui tratada quase com carinho pela equipe que de novo se pôs a trabalhar. Tive que ir buscar a roda (outra última!) em outro local. O responsável tinha pedido ajuda a um amigo com loja em lugar não distante. Os amigos nos salvam a pele muitas vezes. Contei dessa vez com o amigo do novo amigo (a essa altura o rapaz da loja já era meu amigo).

Mas, tomei a decisão de ir colocar rapidamente um censor mais potente, depois de pesquisa e indicações de modelo, marcas etc. Colocado o novo alarme, procurei apaziguar a mente. Como recuperar a confiança? Lembrei-me de minha fraqueza, da vida do meliante, de sua possível cara, das relações do mercado de pneus entre os bandidos... Ops.

E confesso que não me lembrei nem de leve dos problemas de nossa sociedade e do mundo. Quando será que entro assim em preocupação por essas questões maiores? Algum dia já me sofri assim por elas? É assim mesmo. Tinha entrado na roda viva das questões que tomam o controle de minha vida - essas pequenas -, pois quem disse que sou eu que a dirijo? Fiquei sem rumo, barata tonta, fisgada no fígado, pelo rancor, dor, sabor de fel. Posso desejar coisa melhor, mas estarei sempre à mercê desses aspectos de minha natureza. Emocionalmente um bagaço. Um tempão e energia gastos à toa. Não posso mudar a cidade, nem as relações entre a legalidade e a ilegalidade. Por que, então, deixar-se levar tão completamente? Há esperança de mudança? Por outro lado, poderei um dia fazer a diferença em relação aos grandes problemas da sociedade?

Ainda bem que há equipes de jovens, bons profissionais de plantão que nos salvam quando faltam pneus e rodas no mercado e parecem dar colo quando o estepe some do bagageiro. Salve os amigos e os amigos dos amigos.

Cuide bem dos seus estepes, não facilite.

Partilhar

quinta-feira, 22 de março de 2012

EU MEREÇO >> Fernanda Pinho

O sentimento de não-merecimento é sedutor. Porque a partir do momento em que você decide que não merece uma coisa, você já não precisa mais dispensar esforços por aquilo. Se você acha que não merece, só lhe resta cruzar os braços e ver a vida passar o que, convenhamos, é muito, muito fácil. Sempre caí nas armadilhas do não-merecimento, por pura falta de raça para tentar ser feliz. Resultado: auto-sabotagens homéricas. Mas, de repente, um questão óbvia passou a gritar em meus ouvidos: por que eu não mereço? Ou melhor: por que eu mereço? Mereço por que já passei por maus bocados entregando minha confiança a quem não merecia sequer um olhar meu. Mereço por todas as noites que chorei. E por todos os dias que sorri só para não incomodar ninguém. Mereço porque, mesmo não sendo muito inteligente, mesmo não sendo muito bonita, sou muito boa. Tenho um coração do tamanho do mundo. Sou altruísta. Sou generosa. Sou cheia de amor. Respeito as pessoas. Nunca sou inconveniente. Nunca incomodo ninguém. Mereço porque nunca menti. Mereço porque nunca traí. Mereço porque nunca escondi o que eu pensava ou sentia. Mereço porque tenho me esforçado. Mereço porque faço a minha parte. Mereço porque tenho ido atrás do que eu quero sem deixar ninguém caído pelo caminho. E mesmo que tudo o que eu disse acima fosse mentira, eu ainda assim mereceria. Todo mundo merece uma segunda chance. E. bom, eu ainda estou batalhando pela minha primeira. Dessa vez, sem cometer o erro fatal de me sentir culpada por estar feliz. Não preciso me sentir culpada por estar feliz, nem impor uma data de validade para minha felicidade. Sou capaz de ter uma felicidade imperecível. E, mais que capaz, sou merecedora.

Partilhar

quarta-feira, 21 de março de 2012

QUARTO CAPÍTULO >> Carla Dias >>

Quando se olha no espelho, mergulha no passado, fisgando pela memória a época em que ainda não exercia tal profissão. Nunca imaginou que sua vida tomaria curso tão diferente do que imaginara para si. Depois de colher vivências, das dores aos amores, de se tornar filha, esposa e mãe, de se estabelecer como uma cidadã comum, com a alma repleta de desejos, e de angariar boa parte das realizações que lhe cabiam, veio a vida e mudou tudo.

Lembra-se que, ainda menina, escutava a mãe e as tias cochicharem sobre o pai delas. As moçoilas temiam o homem, ao mesmo tempo em que o admiravam profundamente. Às vezes, ela as pegava chorando miúdo na presença da outra, empoleiradas na dispensa. E no seu entendimento de criança, nutriu o medo de que o avô a faria chorar daquele jeito algum dia.

E ele o fez...

Porém, não foi miúdo ou às escondidas, porque a menina nasceu com bons pulmões e corajosa, não se permitindo esconder. Chorou copiosa e barulhentamente na presença do avô, da mãe, do pai e das tias, despertando a preocupação exagerada de todos, exceto do avô, que ao invés de chacoalhá-la e perguntar, repetidamente, qual era o problema, onde doía, afagou-lhe os cabelos, acarinhou-lhe a face, beijou-lhe a testa e lhe disse, a voz arrancada de uma profundidade que, naquela época, para ela era completamente desconhecida, “acalma-te que passa, e ainda que a dor volte, tu aguentas”.

Penteia os longos cabelos, enquanto observa o seu rosto envelhecido pela lida. Há pouco mais de dez anos, descobriu sobre o chororô de criança. Nada lhe doía ou a magoara, naquele dia. Sua mãe, mais tarde, e longe da presença dos outros, deu-lhe boas palmadas pela birra, sem resposta às suas perguntas sobre o que a levara a cometer tal pecado, o de preocupar as pessoas que a amam, sem motivo. Mas a verdade é que o motivo existia, apesar de inalcançável ao entendimento da menina, naquele momento.

A vida seguiu em uma cadência própria, sem melindres, até que avô dela adoeceu, e a mulher feita, com esposo em casa e filho quase na faculdade, foi chamada às pressas para cuidá-lo.

A mãe e as tias estavam sentadas em cadeiras, ao redor da cama do pai, olhos aguados, narizes vermelhos. Quando ela entrou, as mulheres fizeram o sinal da cruz, e a mãe dela carregava uma tristeza infinita no olhar. A recepção não a incomodou, e ela se sentou na cama e segurou a mão do avô entre as suas. Amava aquele homem da maneira que jamais imaginara amar alguém. Foi o avô quem lhe acompanhou nos estudos, a fez ler tantos livros que a leitura se tornou vício. Foi ele quem a permitiu frequentar, ainda menina, as suas reuniões com grandes intelectuais, amigos dele. A pessoa que ela havia se tornado contava com a dedicação dele em lhe dar todas as ferramentas para reconhecer a oportunidade de aprender.

No leito de morte do avô, ela soube o que lhe caberia. No momento da elucidação sobre o seu destino, despiu-se da coragem por alguns segundos, rendeu-se ao medo. Porém, antes que o avô partisse de vez, reassumiu o sorriso, comprometendo-se a honrar a profissão que ele lhe deixara de herança, para qual ele a preparara desde o dia em que ela caiu no choro, sem motivo, pecando e assumindo seu cargo de remendadora de corações partidos.

O que a profissão pede, ela sempre soube, é mais do que uma pessoa comum poderia suportar. Compreende, hoje, que sua mãe e suas tias temiam o pai porque não o queriam remendando seus corações, descobrindo suas dores. E que admiravam justamente por ele ceder sua existência para apaziguar a de outras pessoas. Para a família de um remendador de corações, o distanciamento dos afetos é certo.

O marido não suportou nem mesmo o primeiro ano e partiu, gritando para ela que ficasse longe dele, que não queria que lhe remendasse o coração. O filho, depois da faculdade, fez a vida em outro estado, lidando com a profissão da mãe como a maioria das pessoas, decretando o infortúnio, afastando-se.

Pega sua bolsa e sai, deixando no reflexo do espelho a história que um dia lhe pertenceu. A mãe, falecida há pouco, confidenciou-lhe, antes de partir, que temia que ela fosse escolhida pelo avô, desde o dia em que ela nascera, quando ele olhou para a criança chorando alto sua chegada ao mundo, e disse “acalma-te que passa, e ainda que a dor volte, tu aguentas”, e ela foi amansando o choro, olhinhos grudados naquele homem sério, mas que quando sorria, como sorriu naquele dia, iluminava o mundo.

A garoa fina rabisca a noite, enquanto ela caminha pelas ruas da cidade. Assim tem sido todos os dias, desde que o avô lhe delegou a profissão. Passa por ela uma jovem, o olhar cravado no chão, os passos lentos, e entra em um bar. Ela segue a jovem, senta-se ao lado dela ao balcão, pede água com gás, enquanto a outra entorna o copo de uísque.

Durante um bom tempo, ela conversa com a jovem, sempre interessada no que ela tem a dizer. É fato que coração partido não tem cura, porque é oriundo de importantes histórias vividas. E aos remendadores de coração cabe a função de amenizar a dor, de cultivar a esperança de, em algum momento futuro, esse mesmo coração se sentir pronto para se tornar a casa de novos sentimentos. Por isso, esse profissional tem de saber como conduzir essa conversa, valendo-se do conhecimento sobre filosofia, da profundidade da poesia, mas sem jamais planar apenas sobre o universo das teorias e das ilusões. Quem tem o coração partido precisa que seu remendador lhe mostre que a realidade de um coração pronto para a felicidade chegará.

Ao chegar a sua casa, tira os sapatos e anda pelos cômodos. Ela gosta de sentir o chão frio sob seus pés, enquanto a sua alma lamenta as mágoas de quem cuidou, e o corpo treme, o choro é miúdo. Acalmada da função do dia, senta-se defronte à lareira, em uma busca secreta pela quentura de presença que está ausente. Para ela, a vida se tornou uma constante de experimentações interiores, com mil e tantos sentimentos alvoroçados lhe tirando o sossego, uma série de acontecimentos e sensações lhe abarcando. E enquanto tanto acontece no seu dentro, quem a observa enxerga apenas uma mulher silente, sem família ou amigos, aprisionada pela solidão que escolheu, ao se tornar aquela de quem todos precisam, em algum momento da vida, mas que a maioria teme, porque não quer que suas emoções mais vis sejam desnudadas.

E ela se acalma, porque sabe que passa, e mesmo que volte, ela conseguirá suportá-la.

Um remendador de corações tem de se entregar completamente à pessoa que necessita de ajuda, e por isso mesmo, o seu próprio coração não aceita remendo, e rumina as dolências dos seus clientes, assim como sofre de solidão contínua.





Imagem © Rodrigo de Castro Scott - rodrigoscott.com


Partilhar

terça-feira, 20 de março de 2012

ANSIOSIDADE MÁXIMA >> Clara Braga

Essa semana é a minha segunda semana de aula na faculdade. Isso mesmo, já estamos em março e eu estava de férias desde dezembro! Mas é assim mesmo que funciona a Universidade de Brasília quando não tem greve no meio do semestre, no final do ano temos férias de 3 meses!

Você agora deve estar pensando algo como: “Que bando de gente falgada! Três meses de férias é muito mais do que o necessário!”

Pois é, é demais mesmo, concordo. Mas acreditem se quiserem, depois que essa realidade vira rotina na nossa vida, 3 meses acabam passando rápido demais e quando as aulas estão prestes a começar nós ficamos com aquela sensação que todo mundo conhece muito bem, de que agora sim é que você precisa descansar. Na primeira semana de aula você já está tão cansado quanto na última.

Mas até que esse semestre foi diferente, senti uma sensação que há muito não sentia. Eu acordei bem, sem a menor dificuldade de sair da cama, e nem precisei usar a função soneca do meu celular. Fui para a aula feliz, ouso dizer até que fui cantarolando ao invés de bocejando. Encontrei pessoas que sempre vejo por lá, mas falei com elas como se não às visse há muito tempo, contei novidades, coloquei o papo em dia e nem fiquei com raiva de ter acordado cedo para descobrir que o professor não iria dar aula naquele dia.

Nos dias que as aulas aconteceram, comecei a usar meu caderno novo como se estrear um caderno em branco fosse a coisa mais importante do dia, sendo que por vários semestres eu vinha usando o mesmo caderno velho e usado. Pensei muito no que seria a primeira coisa que eu iria escrever naquelas linhas em branco, e ao receber a primeira ementa de aula, fui correndo ver a bibliografia obrigatória, queria saber quem eu iria ler!

Eu conhecia essa sensação de bem estar, eu tinha me sentido assim em 2007, quando entrei para a faculdade. Nessa época ainda não sabia definir o que era, mas hoje já consigo, é a ansiosidade de saber que algo novo, uma nova fase está por vir. Mas me sentir assim quando estou começando a faculdade é mais do que normal, faculdade é uma fase ótima mesmo, e a ralação que é necessária para entrar é tanta que ansiosidade para começar é o de menos nesses momentos, a gente só quer comemorar, e fica até feliz de passar pelo trote (dependendo do trote, claro!). Mas porque será que eu estava me sentindo assim agora?

Não entendi essa sensação até chegar naquele momento horrível que todo mundo odeia, mas que todo professor faz, que é a hora da apresentação. Quando chegou minha vez de me apresentar, tudo fez sentido: “Bom dia, eu sou a Clara, faço Artes Plásticas e estou no último semestre, SOU FORMANDA!”

Foi ai que percebi que não existe apenas um momento em que a ansiosidade é grande, mas sim dois momentos. Na hora que a gente entra na faculdade e também na hora de sair, afinal, se a ralação para entrar é grande, sair de lá com um diploma na mão às vezes parece um caminho interminável! Maravilhoso, mas interminável!

Partilhar

segunda-feira, 19 de março de 2012

A PRIMEIRA HORA DO DIA >> Kika Coutinho


6 horas da manhã. Levanto rápido. “Quem te viu e quem te vê, hein, neguinha?", digo para mim mesma diante do espelho. Sem despertador nem nada, parece outra pessoa, só falta agora comer salada, aí pronto, vou ser outra mesmo. O que não seria nada mau – continuo, enquanto me aproximo do espelho – com essas olheiras gigantes. Gente, quando foi que isso apareceu, e tem umas bolsas – eu examino, assustada, ai não, chega, vamos disfarçar isso e pronto. O que os olhos não veem o coração não sente, completo, besuntando o rosto de corretivo.

Tudo bem. Corro para pôr uma roupa, procuro aquele salto que não dói o pé, e os carrego na mão até a sala; ando na ponta do pé e abro devagar a porta do corredor. Se uma das meninas acorda agora, vai ser fatal. Já passa das 6:30 quando tento achar alguma coisa sem lactose na cozinha. Pão integral, ai, que fome. Abro o freezer e pego o leite da Olivia, aliás, o do meu peito, que tirei e congelei para conseguir sair mais cedo. Deixo em cima da pia para ir descongelando, pego a minha mochila, ih, esqueci de guardar o computador, onde está o crachá, quem foi que disse que esse salto não dói, corro pra achar o fone de ouvido, e, ainda na ponta do pé (já calçado), passo de novo pela porta do corredor. Dez para as sete, dou uma batidinha no quarto da empregada que, espero, já esteja vestida. “Nete?” pergunto. “Já estou saindo”, ela diz com voz rouca. Vou chamando o elevador quando ela aparece, pronta para o trabalho, e eu explico: "O leite está fora da geladeira, esquenta em banho maria, tá? Se tomar tudo, faz mais de fórmula, não tem jeito... Olha, à tarde, na hora do balé, pede ajuda pra Lidia. No almoço, põe as duas nas cadeirinhas ao mesmo tempo. Eu chego pro banho, sem falta. Quero chegar pro jantar, se não conseguir, de novo as duas nas cadeirinhas. Pode deixar a Sofia comer a sopa da Olivia, dá uma colherada pra cada uma. Se precisar muito, pode até por um DVD, tá? E faz uma água de ameixa pra Olivia, ela tem que fazer cocô hoje. Me avisa? Pode mandar por mensagem, mas me avisa." O elevador chega e escuto um choro. Meu coração se aperta, preciso ir. Entro e procuro o botão do 2S. Ainda tenho tempo de gritar: “Qualquer dúvida, me liga. Qualquer duvidazinha, não deixe de me ligar, tá?” No carro, vejo uma mensagem do meu marido, que, a essa altura, também está no trânsito: “Feliz Dia da Mulher, meu amor”. Ah, é mesmo, é hoje, né? E porque não nos dão uma merda, uma merdica de um feriado, ao invés dessa porcariada de rosa e outdoors, penso, já acelerando o carro.

Tiro o batom da bolsa, engulo seco, e viro o espelhinho para mim. Enquanto escorrego a tinta nos lábios, volto a notar as olheiras, essas bandidas. Nem vocês, nem vocês, suas inconvenientes, respeitam o dia de hoje! E nem meus peitos, digo, sentindo-os encherem. O que vou fazer com esse tanto de leite o dia todo? Toddy, claro, ou cappuccino, quem sabe, rio de mim mesma até constatar, diante de mim, a primeira grande fila de carros do dia. O transito está parado. PA-RA-DO.

Antes que eu possa chorar, gritar ou voltar pra casa, todas as opções incorretas, freio, respiro e olho em volta. Uma legião de mulheres, em carros, a pé ou nos pontos de ônibus, me fazem companhia. Numa manhã silenciosa de quarta, eu não estou sozinha. Não é privilégio meu as agruras e as doçuras da feminilidade nos dias de hoje. Quanta, quantas, não têm vidas parecidas, melhores e, claro, infinitamente piores do que a minha... Um viva para elas é quase que ridículo, mas o que não é?, pergunto para mim mesma, passando a terceira camada de corretivo...

 

www.embuchada.blogspot.com

Partilhar

domingo, 18 de março de 2012

SAUDADE DO PALQUINHO >> Whisner Fraga


O ambiente universitário sempre me atraiu. A pretensa liberdade, a mente aberta para os clichês contemporâneos, os mestres preconceituosos e despreparados e, finalmente, os espaços de socialização. Eu esperava ansioso o fim da tarde para me deslocar até o câmpus e me divertir, após um dia estafante. Chegava à porta da sala da minha turma e fazia um sinal para o Gilberto e então seguíamos para a lanchonete. O dono já sacava uma cerveja, dois copos e uma ficha da sinuca e colocava tudo em cima de nossa mesa cativa.

A partir dali, fomos ficando craques em literatura, nosso assunto preferido. Chegamos até ao absurdo de uma competição, para ver quem lia mais. Que imprudência. E as coisas na universidade aconteciam naturalmente, de maneira que um sujeito se achegava, outra menina rodeava e, em pouco tempo, havia uma roda animada em torno da mesa, discutindo desde o aumento do preço do xerox até a gramática gerativa transformacional de Chomsky. Era assim todo dia, com pequenas variações em torno da Carta Capital do mês, dependendo do nível alcóolico no sangue.

Tive uma motivação tremenda para me refugiar nesses saraus. Eu assistia a algumas disciplinas interessantes, literatura espanhola, literatura portuguesa, mais por causa dos professores, que davam boas dicas de leitura. Em contrapartida, eu era obrigado a participar das aulas de Teoria da Literatura, pois a professora insistia na chamada e, como eu queria o meu diploma, devendo aparecer em 75% das aulas, não me restava outra alternativa que ir para a sala e ver o que acontecia. Eu tentava não atrapalhar o esforço da mulher e permanecia em silêncio. Só que, para não ficar entediado, folheava algum livro ou trocava bilhetes com os colegas. O estranho é que a figura exigia a atenção de todos. De todos. De forma que ela me chamou a atenção, algo do tipo “se não se interessa pela minha aula, o que faz aqui?”

Eu, que prezo a honestidade, respondi, sem qualquer intenção de desafio, porque a corda arrebenta sempre do lado mais fraco, “me desculpe, só estou aqui porque a senhora faz chamada, senão eu estaria lá fora. Se a senhora prometer me dar presença até o final do semestre, garanto que venho só para as provas.” Eu achava que a coisa era simples: o que precisava ser aprendido para a aprovação na matéria estava nos livros: eu só precisava lê-los. O assunto realmente não me interessava e nem me interessa até hoje e a didática da Fulana simulava os melhores momentos das lições inquisitoriais. Claro, ela se melindrou e me expulsou da sala.

É, vocês leram direitinho: fui expulso da sala de aula de uma universidade, unicamente por temperar a minha honestidade com um pouco de ironia. Lembrando-me da corda, corri à secretaria para trancar a matrícula naquele conteúdo. Meu raciocínio era simples: assim que outro tutor mais compreensivo assumisse a disciplina, eu a cursava. Para ser totalmente sincero, havia gente boa. Um dia ia rolar um show da Cesária Évora no mesmo horário da classe de Literatura Portuguesa. Como eu respeitava meu mestre, fui lá conversar com ele. Expliquei: “hoje não virei, porque tem um show da Cesária e eu já comprei o ingresso.” Ele se virou, deu um tapinha em minhas costas e incentivou: “no seu lugar eu faria o mesmo. Ela canta muito.”

Mas a universidade, principalmente a pública, essa coisa burocrática, lenta, intolerante, parcial, não aceita gente assim. Foi tudo feito em surdina, mas, vocês sabem, as paredes têm ouvidos. Não demorou muito para pegarem no pé desse professor e a me chamarem para algumas explicações. Eu sempre brincava que tínhamos o direito de obedecer e olha lá, a qualquer instante podiam nos tirar esse direito. Gostava também de alardear que nós, alunos, éramos somente o fungo na quina de uma unha de um monstruoso elefante branco.

Nos quatro anos que tive saco para aparecer por lá, presenciei um docente na lanchonete. Um gênio da filosofia, cujo nome vou omitir por questão de respeito. Às vezes eu trocava uma ou outra palavra com ele. De terno, se acomodava junto ao balcão, fisgava um pequeno recipiente cheio de uísque do bolso do paletó e ficava ali, duas, três horas, bebericando e filosofando, alheio, sozinho. Os mestres, os doutores precisavam frequentar mais o local, faria bem esse sopro de liberdade para as suas mentes empoeiradas.

Infelizmente não foi isso que aconteceu. Em vez de visitar o Palquinho, em vez de assistir a algum evento que sempre acontecia por ali, os doutores se refugiaram em reuniões, cada vez mais constantes, e ali, apegados à sua própria história juvenil de esforço contínuo para sobrepujar o concorrente, deliberaram que a venda de bebida alcóolica no câmpus não podia mais ser tolerada. Acredito que era um concorrente de peso para os entediantes ensinamentos que eles queriam incutir a qualquer custo nas cabecinhas de jovens alienados.

Partilhar

sábado, 17 de março de 2012

A VIDA DA GENTE >> Maria Rachel Oliveira

A vida da gente

"Tempo, tempo, tempo, tempo". Dizia o refrão da trilha sonora da primeira novela das seis que se soube ter feito sucesso. Acabou na Rede Globo há coisa de um mês, se não me engano. E porque fez tanto sucesso? Sempre tinha alguma situação naquele folhetim com que a gente se identificasse. Nós no outro... mas voltemos ao tempo. O que, diabos!, é o tempo? Como medir o tempo?

Tempo, pra mim, se mede com emoção. É tanto quando aquele momento chato não passa quanto quando aquela situação que você sonhava se concretiza e passa tão, tão rápido...

Relógios não medem o tempo. Eles medem coisa outra, que nem sei que nome dar. É preciso demais para medir a vida.

Mas porque falar de tempo? Coisa mais batida! Mas dia desses descobri um projeto bacanérrimo, de um moço querido que conheço do twitter, o Nick Ellis, lançado em janeiro. Chama-se Projeto 366. Ele se propôs a tocar uma música por dia, durante o ano, pra registrar essa passagem do tempo de um jeito muito, mas muito bacana mesmo. É uma variação bastante interessante sobre o tema-tempo. O 366 no lugar do padrão 365 deve-se ao fato desse ano ser bissexto. Os esotéricos que expliquem porque o moço escolheu justo ano bissexto pra cantarolar. Eu, que tô adorando o repertório que ele escolheu, tô só visitando o site e achando ótimo. Tem muita coisa boa lá e vale conferir no Tumblr do moço (http://366musicas.tumblr.com) para tirar suas próprias conclusões.

E, atenção: o mais curioso disso tudo é como o tempo nos pega pelo pé quando nos propomos fazer essa viagem junto com ele. Músicas marcam a vida da gente, né? E como marcam... eu, nessas canções, viajei do meu primeiro namorado até o Rock in Rio de 2011, passando por férias de verão em Guarapari na minha infância - entre outras coisas mais, que não conto.

Foi uma viagem boa. Sem a poeira e o mofo que tantas vezes acompanham aquela caixa no fundo do armário. E, a melhor parte: com trilha sonora. Se quiser viajar na sua vida e no tempo de um jeito diferente, não perca um minuto e corra lá. E, claro, depois me conte por onde foi que você andou.

Ah, e uma outra curiosidade, qual música não poderia faltar na trilha sonora da sua vida, hum?

Partilhar

sexta-feira, 16 de março de 2012

PIOR CEGO É O QUE NÃO QUER VER >> Zoraya Cesar

Dizem que todo o cuidado é pouco; que o seguro morreu de velho, mas o desconfiado ainda vive; há que se dormir com um olho aberto, outro fechado; colocar um pé atrás, outro na frente; fazer o bem, mas olhar a quem. 
Ditados antigos, que, passando de geração a geração, tentam nos alertar que nada é o que parece, quem vê cara não vê coração e que tudo o que é sólido desmancha no ar (tá bom, essa citação é de Marx, mas cabe perfeitamente ao caso, não pude resistir).
Passo, então, a contar a história de Wanda, para mostrar que nossas Avós tinham razão: um olho no padre, outro na Missa.
Inteligente, meiga, honesta, generosa, Wanda era também uma boa pessoa. Claro que tinha seus defeitos, eu não disse que ela era perfeita. Vejam, por exemplo: não sendo exatamente ingênua, costumava tirar os outros por si, achando que todos eram corretos como ela, esquecendo que cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém.
Vivia com o Marcos, e para ela, não havia marido melhor. Era Marcos no céu e Deus na terra (o trocadilho não é meu, é dela). A união já durava dez anos e era mais sólida que as Muralhas da China.
A essa altura, os amigos leitores devem estar se perguntando quando virá o elemento crise dessa história tão perfeita. Agora mesmo, calma, que o apressado come cru. E a crise tem nome.
Solange já passava dos 35 anos, solteira, vivia apertada em seu salário de professora, vestia-se mal (vejamos, que tal misturar roupa de ginástica com salto alto?). E era feia. O olhar mais caridoso não encontraria outro adjetivo. Tinha, ao menos, charme? Não. Solange era tão opaca que poderia ficar horas num lugar sem que sua presença fosse notada.
Por obra e graça do impressionante trabalho das redes sociais, as duas amigas de infância se reencontraram, depois de muitos anos de afastamento. Embalada pelas lembranças felizes, Wanda recebeu a antiga amiga em sua vida, de coração aberto e olhos fechados.  Viraram um grude só, os finais de semana Solange passava inteiros na casa da amiga. Ela era uma coitada, no entender de Wanda, precisava de apoio. Marcos discordava. Dizia que Solange até podia ser coitada, mas era uma chata.
Wanda achava muito natural sair com o marido levando a amiga a tiracolo. Que mal havia nisso? Sua Avó balançaria a cabeça e diria: Fia-te na Virgem e não corras, para veres o tombo que levas (é um ditado português, ora pois).
Pois sim.
Uma noite, Wanda espera, espera, e nada de Marcos chegar. O celular dele só caía na caixa postal. Quando já estava prestes a telefonar para todo mundo, em pânico, o telefone dela toca: é o Marcos.
 - Meu amor, onde você está, o que aconteceu?
Mas não é Marcos quem responde. É Solange, com a voz baixa e lenta de sempre.
- Wanda, minha amiga, o Marcos veio morar comigo. Estamos apaixonados e nem pense em procurar por ele, que agora a conversa é outra.  E deixa eu te dizer, essa casa do Recreio é grande demais só pra você, então vamos ficar aí. Você pode procurar outro canto. Lamento muito, mas quem vai ao ar perde o lugar.
E desligou.
Wanda não conseguiu sequer se mexer, teve medo de morrer ali mesmo, sozinha. Em sua cabeça, nenhum pensamento coerente, apenas esquetes dos momentos que os três passaram juntos e nos quais ela ainda não enxergava nada que pudesse causar suspeitas. O marido e a amiga mal se falavam ou olhavam!, era sempre Wanda quem animava as conversas. A cabeça girava, tonta.
E ouviu muito claramente a voz do marido, como se ele estivesse ali ao seu lado, dizendo o quanto Solange era desagradável, sempre com aquela voz enjoada. Pior! Lembrou da vez em que ele afirmou que era até uma crueldade Wanda, tão bonita, aparecer ao lado de alguém que mais parecia o Godzilla. A comparação foi tão esdrúxula que ela riu e disse que a pobre Solange era boa gente, boa amiga.
Wanda desabou. Não conseguiu nem chorar de tão entorpecida. Quando a exaustão a venceu e ela finalmente dormiu, sonhou. Sonhou com todos os sinais que deixou de perceber – sim, porque os sinais estão sempre lá, acredite, não os vê quem não quer. E também com a Avó lhe dizendo deu chance ao azar, deu chance ao azar...
Wanda, Marcos, Solange. Personagens de uma história que se repete todos os dias em algum lugar do mundo. A desapercebida, o fraco, a víbora. Já aconteceu perto de você?



Partilhar

quinta-feira, 15 de março de 2012

TOLERÂNCIA 4,5 >> Fernanda Pinho


Tem uns dois meses que ele resolveu dar pinta por aí e, desde então, é um exibicionismo só. Já chegou chegando, na dianteira, gris, reluzente e longo, como os outros: meu primeiro fio de cabelo branco. Me simpatizo com ele e nem tenho feito questão de escondê-lo. Enquanto é filho único, devo dizer. No terceiro que aparecer, já estou pronta para aplicar uma mão de Marrom Sedução (queria tanto ter a profissão das pessoas que dão nome às tintas de cabelo e aos esmaltes).

O que noto com certo interesse é que a idade vem me trazendo não apenas o ônus estético, mas também o bônus psicológico. É aliviante perceber o quanto me tornei mais tolerante.

A Fernanda de dez anos atrás tinha um "quê" de dona da verdade e destilava críticas severas ao gosto alheio, como se o seu próprio gosto fosse o único permitido. Se alguém gostava de axé, pagode ou sertanejo, não merecia meu respeito. E alguém estava interessado em ter meu respeito? Claro que não. Mas eu achava que sim. Hoje eu aprendi a me colocar no meu lugar. E mesmo que nesse meu lugar nunca toque axé, pagode ou sertanejo, eu aprendi também a respeitar quem gosta. E mais que aprender a respeitar: eu aprendi a me divertir, a não levar a vida tão a sério. Tem tanto problema no mundo, pra quê gastar energia execrando o Michel Teló (coisa que eu certamente faria se estivesse com 18 anos). Ah, vamos deixar o cara ganhar dinheiro e as pessoas se divertirem com sua delícia. A terceira guerra mundial não vai ser instaurada por isso mesmo.

E nem por culpa dos programas de televisão ruins. Me lembro de certa vez, no auge das minhas ideologias de estudante de jornalismo, ter escrito um manifesto contra o "lixo televisivo", no qual eu lançava mão de argumentos duvidosos e palavras ácidas para criticar um a um dos programas da TV aberta brasileira. Veja bem, se eu podia comentar um a um dos programas é porque eu os conhecia bem. Diferente de hoje, que eu não sei o que passa na televisão e nem estou preocupada em saber. E se tem gente que gosta do que é oferecido pelas emissoras, eu não tenho nada com isso.

Hoje entendo que a tolerância é exatamente respeitar a individualidade do outro. E isso transcende esse assunto de gosto. A partir do momento em que eu aceitei que estou convivendo com 7 bilhões de pessoas diferentes de mim eu passei a pensar uma vez antes de falar (um dia eu chego no nível de pensar duas vezes. Mas já é um avanço para quem falava duas vezes antes de pensar). Estou menos fatalista, menos imediatista e mais compreensiva. Naturalmente, ainda tenho muito a aprimorar. Creio que numa escala de zero a dez, eu subi do zero para o nível 4,5 de tolerância. Um dia eu chego no dez, ainda que isso me custe mais um punhado de cabelo branco. 


Partilhar

quarta-feira, 14 de março de 2012

DÉGRADÉ >> Carla Dias >>

Minha máscara: dégradé.

Não reconhece? Insisto, porque debaixo dela eu moro, e se aspira conhecer a mim, dê algum sinal, senão me escondo, fico submersa, debaixo das plumas e mágoas, neste aconchego equivocado.

Minhas mãos... Saiba que elas já tatearam a intensidade. Plantaram, colheram, arrebanharam: silêncios e desenhos de sombras. Tocaram o vento. E também acenaram às fatalidades.

Veja que não sou esboço do que sonhei ser um dia. Na infância dos meus sonhos eu sucumbiria às descobertas, quando adulta, e não haveria limites para a sapiência e a ciência sobre os sentimentos que desejasse conhecer. Não haveria álibi que me livrasse da culpa, ré que seria por desejar da vida cada farpa, cada afago. E minha mãe me ensinou o amor sem caras e bocas, sem bolsos, sem raça. Minha mãe me ensinou o amor indiferente às distrações que pudessem tirar dele, na essência do seu significado ainda tão enigmático, a honestidade. E ao amor honesto delega-se o incondicional. Sendo incondicional com o outro, espera-se o mesmo. Porém, quase sempre, espera-se em vão.

Sentei-me à margem da vida, olhos cravados no avesso do espelho, abocanhando a antítese dos fatos, vislumbrando a ilusão das conquistas. Esperei. Incondicionalmente. Minha máscara é cortesia da humanidade esfarrapada. Fazer? Observar intolerâncias?

Prefiro cortejar mudanças.

Mas, contenha-se...

Antes de me aceitar, abstraia a tagarelice da sua consciência. Que não seja pelo equívoco de se convencer afetuoso, enquanto sente é piedade. A piedade eu dispenso, porque ela me dispersa. Antes de me aceitar, se possível for, conheça-me às avessas, porque fui jogada ao mundo para contracenar com o inadaptável. Eu e mais tantos. Ainda assim, somos solitários. Somos cada um a vagar pelos próprios cômodos de casas abastecidas com vazio. Somos erros cometidos por um Deus preocupado com coisas mais importantes do que nossa sofreguidão. A sofreguidão de quem não cabe aqui ou ali, de quem foi feito à imagem e semelhança do desconcerto, e se arrasta pela vida, à sombra dos rótulos.

Quem está apto a nos julgar? Quem tem a consciência tranquila para fazê-lo sem tropeçar em próprios erros? E se busquei em outras fontes a solução para a alma, não foi por gosto, mas por vazio querendo ser preenchido. Sabe que gente sabe fazer outra gente se desesperar fácil, fácil? Basta um olhar, um esgar. Basta uma palavra amarga em meio a tantas outras benevolentes. Ferir é arte que o ser humano domina. Quando quer, ele destrói sem esperança de reconstruir, e depois faz de conta que não foi com ele. Não assina autoria do desfeito. Convive bem com o crime que não tem nome de crime, porque não mata assim, logo de cara. É mágoa para carregar pela vida.

Confesso que este agora me alucina um tanto que parece pouco, sei, mas alucina. Meus olhos se atrevem a desenquadrar a realidade, e meus pés tocam o chão como se, na verdade, ele não existisse. Falseio o passo, e se caísse? Arrebentasse de desespero? Raramente, quem não cabe se conforma. Vai pegando fórmulas milagrosas aqui e ali. Aceitar o conformismo seria o mesmo que assinar atestado de óbito para a vontade de sentir. Sentir além do que parece possível. Sentir com toda força que o ato exige quando se tem – latejante – a vida dentro da gente. E pensamos lutar pela igualdade, mas durante um tempo não nos damos conta do óbvio: não há como igualar diferenças. Sublimá-las a um mesmo cheiro e a um mesmo gosto seria assassinar a beleza que há na multiplicidade. Seria designar destino certo ao que nasceu para conquistar o seu próprio. E é assim, nesse afobamento, que vou levando o desentendimento com a simetria, com o justificável, o ‘rotulável’, o sonso. Amando e odiando o contrário de mim.

Quantos enganos não foram cometidos à custa do que não era? Inocentes dançando com condenações. Sorriso contracenando com a mágoa. Concordância violentando a vontade de assumir o gosto por outra opinião. E por que engolimos verdades? Por que deixamos para lançá-las já quando não fazem mais sentido? Ah, mas que não tenho respostas. Sou das que nasceram com as questões em pauta e no questionamento tenho levado a vida. Mas que conste em todos os autos que possam remeter à minha biografia: viver tem sido uma experiência fantástica. E se não estivesse estereotipada de fora para dentro, certamente alguns se encantariam por mim de dentro para fora, e depois a simetria de nada valeria. Eu tenho por gosto conhecer as pessoas assim, de dentro para fora. Sei bem quão fascinantes elas podem ser, mesmo que distantes do olhar do modismo que escraviza a perfeição às definições, padrões. Mas a perfeição é rebelde e, para aqueles que se atrevem a olhar adiante, oferece grandes surpresas.

O poeta falava sobre peculiaridades, o olhar vagando nos olhares dos outros. Escreveu versos sobre a ambivalência do que sentia. Considerava-se dois e até quase dois mil dele mesmo, cada um vestindo sua máscara preferida. Às vezes, acordava com desejos de amante ou humanista. Em outras, de crente ou cético. Cada segundo de sua vida, representando não um ponteiro se adiantando no caminho do tempo, mas sim uma fração do que habitava em seu coração. Soubessem prestar atenção sem e escandalizarem com a diferença, os transeuntes da biografia dele reconheceriam no poeta diferentes paisagens que formam o universo aprisionado em seu corpo. Porém, distraídos com os próprios lamentos, não notam a riqueza que no poeta habita. Nãos e permitem envolver pelas nuanças de sua alma.

Fato é que aprisionar tem sido tema dessa existência que me abarca. Porém, diferente do que dizem por aí, percebo que o contentamento não vem em comprimidos. Não está depois dos tremores e da taquicardia. Não convive com a fadiga que corrompe as vontades que me lembro de sentir desde o dia em que aprendi a reconhecê-las. E pior do que ser crupiê neste jogo, é deixar-se enganar, dar-se por vencido, disfarçando a curiosidade alheia com frases feitas sobre como o amanhã reserva um pote de melhorias no final do arco-íris. É que o amanhã pode até oferecer mais, só que esse mais não vem em potes, não está condicionado às fórmulas. O mais, que costumamos fantasias de inalcançável, mora em um vão do equilíbrio.

E aqui estou: na corda bamba, no anverso dos meus sentimentos. Vestida de lamentos e esperança de que, dia desses, amanheça às malhas da despreocupação sobre não frequentar a benquerença de quem se entende somente com o imediatismo do olhar. Porque eu sei que o que importa está sempre além, e leva tempo para se conhecer. Leva ao desgarrar dos rótulos, dos títulos, dos invólucros.

Agora, devo voltar à minha máscara. Dégradé. Repousar as angústias geradas pela espera da real compreensão de que o ser humano não é definido pelo o que lhe falta, mas sim transformado pelo o que experiencia.

Já fui e serei e tantas que não caberei em descrições. E aqui, no avesso, reconheço meus mistérios e me nego a sentenciar sentimentos ao raso. De dentro para fora... Do avesso... Eu... Dégradé.


Imagem: Strange Flower © Billy Frank Alexander (stock.xchng)





Partilhar

terça-feira, 13 de março de 2012

S.C.M >> Clara Braga

Existe um fenômeno, um tanto inexplicado, na minha opinião, que algumas pessoas acreditam e outras já não levam tanta fé nele. Esse fenômeno que insiste em nos perseguir é a tal da coincidência.

Eu entendo coincidência como um fato, que tem o seu leve toque de mistério, que acontece mas que a gente não sabe explicar bem como e nem por quê. A partir dessa definição eu posso dizer que eu até acredito que a coincidência exista, mas como não acredito muito que uma coisa possa acontecer por acaso, assim sem motivo nenhum, simplesmente acontecer, eu acabo não levando muita fé nela. Acho que tudo que acontece com a gente tem um porquê, mesmo que esse porquê não seja aparente.

Por exemplo, se estamos pensando em uma música e ela toca no rádio, como com certeza já aconteceu com a maioria das pessoas, eu acho que tem um porquê, não que seja apenas coincidência. Assim como também acho que tem um porquê do nosso telefone tocar e ser exatamente a pessoa em quem a gente vem pensando nos últimos tempos.

Mas mesmo acreditando nessas definições e colocações sobre a coincidência e os porquês que eu falei, existe um tipo de coincidência que vem acontecendo comigo nos últimos tempos que eu ainda não consegui encontrar onde pode estar o porquê. Só sei que é um tipo muito chato que acabou por desenvolver em mim algo que eu gosto de chamar de S.C.M, mais conhecida como Síndrome da Culpa pela Morte.

O que é a síndrome? Vou explicar: Quando a Amy Winehouse, cantora que eu adorava, veio fazer show aqui no Brasil, a minha grande dúvida em relação a ir ou não ao show dela era a seguinte: eu podia sair de Brasília, pagar passagem, pagar o ingresso do show, pagar hospedagem em algum lugar, gastar a maior grana para chegar lá e ela estar tão bêbada que não ia conseguir nem fazer o show e eu ia acabar me decepcionando. Ou então eu poderia não ir e correr o grande risco de nunca mais ter a oportunidade de ir a um show dela, já que do jeito que ela estava bebendo e se drogando ela não ia demorar muito para morrer.

Maldita hora em que eu fui falar isso e decidi não ir ao show. Não deu outra, logo depois apareceu ela morta. Nossa, mas que boca a minha, hein! Será que eu deveria me sentir um pouco culpada? Será que mandei energias negativas para ela pensando assim? A resposta eu não sei, mas sei que nesse momento minha síndrome, por mais absurda que possa parecer, começou a se desenvolver.

Mas tudo bem, agora você deve estar pensando algo como: "Ah Clara, nem vem, todo mundo sabia que a Amy ia morrer, não foi uma coincidência tão grande assim você ter falado isso!" Acontece que não parou por ai. Vou dar outro exemplo para você ver como a minha paranoia de achar que eu estou matando os artistas tem fundamento.

Outro dia, contando para um amigo sobre os show que tinha na Austrália na época em que morei lá, falei que fiquei triste porque na semana em que eu voltei para o Brasil, a Whitney Houston ia fazer o primeiro show dela depois de ter ficado parada tanto tempo lá em Sydney, perto de onde eu estava morando, e eu tinha muita vontade de ouvir ela cantar ao vivo, e as chances dela vir para o Brasil eram pequenas, enquanto as chances dela acabar se envolvendo com drogas de novo já não eram tão pequenas assim.

Terminei de falar isso, virei para cumprimentar uma pessoa, e nisso meu amigo abriu o facebook dele pelo celular, foi aí que ele soltou a bomba: "Clara, eu estou com muito medo de você! Acabaram de achar o corpo da Whitney Houston dentro de um quarto de hotel! Ela está morta, Clara! Por favor, faz um favor para mim, nunca diga que você está com saudade de mim ou que está com muita vontade de me ver, porque pelo visto, quando você está com muita vontade de ver alguém essa pessoa morre!"

Bom, não descobri ainda se esse fenômeno da morte acontece só com artistas que eu quero ver ao vivo ou se acontece também com pessoas próximas. Preferi não fazer o teste. Só sei que nunca mais falei que queria ver show de ninguém, só do Foo Fighters, da Joss Stone, do Bob Dylan, do The Coors, da Alicia Keys, do Bruno Mars, do Paramore, da Roberta Sá, da Maria Gadú, do Chico Buarque, do Marcelo Camelo, do Biquini Cavadão, do John Mayer e mais vários outros.

Mas não se preocupem, se algum desses aparecer morto por agora, aí eu começo a falar que quero ver show do Justin Bieber, do Michel Teló, dos Back Street Boys (se é que eles ainda existem), do Calypso, etc.


Partilhar

segunda-feira, 12 de março de 2012

AMOR E NEGÓCIOS >> Albir José Inácio da Silva

Tito daria um ótimo empresário não fosse o coração. Não que tivesse um coração doente, é que bom coração também atrapalha os negócios.

Na infância já lhe doía no couro a generosidade. Parte das balas e doces que vendia acabava por matar a fome sua e dos amigos. As contas não fechavam e no final do dia recebia nas costas a paga de sua bondade sob a forma de varas e cintos na mão da tia.

Mas dos amigos que alimentava também recebia ingratidão, furtos e pontapés. Não se emendava, e no dia seguinte distribuía de novo os doces, sorrisos e abraços, como se a vida dura não tivesse o condão de fazer egoístas. Claro que assim não lhe prosperavam os negócios nem melhorava a vida.

Com o fim da adolescência sonhou negócios maiores. Por essa época herdou Natacha de um gigolô amigo que morreu assassinado. Fez planos para a mulatinha mas seu coração de novo interferiu. Apaixonou-se por ela, que por isso não lhe rendeu um tostão, rendeu despesas, embora não tivesse qualquer ambição — bastava-lhe o amor de Tito.

Com braços fortes e bom coração, Tito não fugia do trabalho, mas faltava-lhe malícia pra lidar com puxa-sacos, delatores e demais espertos no submundo da sobrevivência.

Assim mesmo, por influência de amigos, ingressou no comércio das drogas não autorizadas. O pessoal do movimento gostava porque ele não cheirava nem fumava. Isso até descobrirem que Tito desencorajava alguns clientes por serem pais de família, porque estavam doentes ou porque aquele era o dinheiro da comida. Quase foi pra vala e acabou expulso do morro, proscrito mas vivo.

Tentou ainda o negócio dos milagres. Ali não faria mal a ninguém. Dava conselhos, distribuía toalhinhas, rosas e outras bênçãos, com sorriso e paciência. Seus superiores só não gostaram quando ele devolveu a oferta de uma velhinha, dizendo-lhe que comprasse os remédios, fizesse dieta e orasse em casa mesmo. Dali também conseguiu fugir após dolorosas sessões de exorcismo.

Tito abandonou de vez as atividades empresariais. Faltava-lhe ambição. Não precisava mesmo de dinheiro e Natacha só queria o seu amor. Ficou morando definitivamente na rua. Integrou-se na comunidade das praças e calçadas, ajudava, carregava as tralhas mais pesadas. Não lhe faltava coragem nem braços fortes. Defendeu violentados e recebeu ameaças que não eram para ele, eram ódio contra a sua gente empoeirada.

E na madrugada do dia em que mais uma vez tomou as dores de um companheiro sem braço, não lhe perdoaram a ousadia. Amanheceu queimado, abraçando ainda o que tinha sido a sua Natacha. Natacha para quem bastava o amor.

Partilhar

domingo, 11 de março de 2012

MEU PAI, NOSSO PAI
>> Eduardo Loureiro Jr.

Uma das principais qualidades de meu pai é sua tranquilidade em emergências. Embora seja um sujeito teatral, daqueles que faz drama por coisas banais, quando uma situação difícil emerge, meu pai exerce como poucos sua capacidade de empatia e resolução. Pode ser um simples pneu furado, ou então uma batida de carro, uma doença venérea ou a perda da chave de casa. Na minha infância e na minha adolescência, presenciei, por algumas vezes, meu pai tomar conhecimento da situação, fazer uma ou duas  perguntas para se inteirar melhor do assunto e já partir para uma ação tão direta que o problema, ou pelo menos o desamparo diante do problema, desaparecia em minutos. E uma coisa que me impressionava muito era sua economia de palavras. Durante a resolução dos problemas, reinava um silêncio tranquilo, ausente de qualquer culpabilização. Ficávamos os dois fazendo o que deveria ser feito, sob a orientação dele.

Lembrando isso agora, me ocorreu como aproveitei pouco essa grande qualidade de meu pai. Eu ficava tão ressentido, magoado, amargurado pelas vezes em que ele fazia tempestade em copo d'água que acabei desenvolvendo uma independência e uma autossuficiência precoces e exageradas. Só apelava para o meu pai quando a situação realmente me parecia quase impossível de se resolver. Uma pena. Porque se eu tivesse recorrido a meu pai em situações não tão críticas, teríamos tido mais momentos juntos e haveria mais histórias nossas. Meu pai viveu e conta muitas histórias curiosas, com amigos e parentes. Eu não sou personagem frequente de suas histórias, e isso porque me retraí demais, me tirei de cena muitas vezes.

Dizem os entendidos nas psicologias e nas espiritualidades que nossa relação com nosso pai é bastante semelhante à nossa relação com Deus. No meu caso, parece verdade. Tenho uma relação dúbia com o Pai Nosso que está no Céu. De um lado, temo os rompantes do Deus do Antigo Testamento. De outro, como pessoa criativa que sou, admiro muito o Criador capaz de realizar essas maravilhas a que a gente até se acostuma de tanto ver todo dia: o Sol, o céu, a Lua, as estrelas, os tantos verdes das plantas, as cores e os formatos das flores... Também poucas vezes recorri a Deus, talvez duas ou três vezes em toda a minha vida, e sempre em momentos desesperados, em que parecia não haver alternativa. À semelhança de meu pai, silenciosamente, nosso Pai também me atendeu de maneira exemplar. Já me tirou de um buraco que só de lembrar me dá arrepio.

Bem recentemente, coisa de um ou dois meses, decidi deixar de lado a birra orgulhosa e utilizar mais esse recurso. Como moro a alguns milhares de quilômetros de meu pai, ainda não exercito adequadamente esse meu propósito com ele. Mas como nosso Pai é onipresente e garantiu que a lei é "pedi e recebereis", estou testando, digamos assim, pra ver se a lei é de lei mesmo. Na hora em que a coisa fica braba, como hoje pela manhã, dou uma inspirada profunda, fecho os olhos brevemente e chamo por Ele: "Vem cá, Pai, por favor, estou precisando de você". Como Ele não precisa fazer nenhuma pergunta para se inteirar do assunto, é onisciente, chega silencioso e só percebo sua presença por um leve frio, uma brisa fresca. Daí em diante, fico confiante de que, eu fazendo a minha parte, Ele fará a dele. Às vezes me afobo um pouco — não sou tão calmo ainda em situações críticas—, mas continua sendo uma questão de minutos para eu sair do desespero e entrar na esperança.

Esta crônica é um reconhecimento e um agradecimento ao meu pai e ao nosso Pai. E também uma declaração de compromisso de que, um dia, eu ainda chego nesse lugar de, quando alguém pedir o meu auxílio, poder transformar o paralisante desespero em esperança ativa.

Partilhar

sábado, 10 de março de 2012

MATERIAL GIRL, NOT [Carla Cintia Conteiro]


É ingenuidade esperar uma resposta positiva vinda de mim quando a pergunta é algo como:
- Sabe o Fulano do Citroën C3?
Não, não sei, porque sou desligada e não reparo no carro que as pessoas dirigem. Também perde tempo quem investe tentando impressionar com o relógio, os eletrônicos, o celular, os sapatos e as roupas das marcas e dos modelos certos. Nenhum deles será adequado para mim. Eu simplesmente não vejo esse tipo de coisa.
Normalmente, o que observo nas pessoas em relação ao que usam pendurado ao corpo é se as peças estão limpas. A desarmonia sempre grita, evidentemente, como certas coisas que não se encaixam, causam estranheza ou destacam o que desfavorece o observado. Mas, de modo geral, não me interessa se alguém gastou o que tinha e o que não tinha para deixar o cabelo de determinada cor ou aparência. Cada um sabe como manter as pazes com o espelho. A única coisa que perceberei é se os fios aparentam terem sido lavados num passado próximo e se cheiram bem quando abraço a pessoa.
Muito mais que o manejo dos talheres ou o valor da conta que podem pagar num restaurante, observo como as pessoas tratam os garçons. Quem dá bom dia aos porteiros, seguranças, profissionais da limpeza, empregados domésticos? Essas são as pessoas que me interessam.
Gosto de dinheiro, sim. Preciso dele para meus luxos: estar com familiares e amigos e viver em pleno gozo da minha saúde física e mental. Para este último item, contabilizo como fundamental saciar as necessidades fisiológicas, ter segurança, amor e afeto, mas pulo do reconhecimento e prestígio, sem escalas, para a autorrealização (Hierarquia das Necessidades Normais, de A. H. Maslow). Sim, eu adoro me emperiquitar. “Quem não se ajeita a si se enjeita”, não é mesmo? Contudo não sou uma fashion victim. Sim, eu pratico atividade física e procuro comer direito, mas não sou neurótica com pesos e medidas.
E não vou, nem nunca fui, atrás de ostentação. Como já disse uma vez, sinais de status atraem o tipo de pessoa que não quero pra mim. A gente pesca de acordo com a isca que joga.
Entretanto, comemorar suas conquistas é fundamental. Coisa mais linda é gente que transborda sua felicidade ao realizar, com suor e batalha, um sonho tão acalentado. Já dizia Caetano, “gente é pra brilhar”. Então, se incomoda o vizinho ao lado, melhor que este mude de assento.
Mas por maior que seja a satisfação que eu tire de algo que eu consiga comprar, minha vaidade nunca foi por esse caminho. Minto, uma vez quase peguei esse atalho para a desgraça. Felizmente acordei a tempo. Pessoas que cruzam nosso caminho como contraexemplo também são bênçãos, se é que você me entende.
O fato é que o meu ponto fraco, aquele facilmente detectável e manipulável pelos bajuladores era outro, mais voltado para inteligência e erudição. Até isso está mudando. Hoje me regozijo muito mais quando me dou conta que estou desenvolvendo a sensibilidade e a cultura (“aquele todo complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e aptidões adquiridos pelo homem como membro da sociedade”, segundo Edward B. Tylor).
Então se você não lembra o nome de alguém e quer que eu o ajude a descobrir, em vez de descrever o modelo do seu carro, seu cargo, seu “90, 60, 90”, a roupa que usava em determinada ocasião, experimente perguntar:
- Lembra daquela moça com o sorriso largo e uns olhos brilhantes?
Sim, definitivamente eu me lembro dessa pessoa!


Partilhar

quinta-feira, 8 de março de 2012

DIA INTERNACIONAL DOS HOMENS >> Fernanda Pinho




Outro dia escrevi aqui mesmo que, havendo outra vida, quero voltar como homem. E hoje volto a ratificar minha simpatia pelo gênero masculino. Esses pobres injustiçados despertam em mim o mais nobre sentimento de compaixão e, por isso, peço licença às mulheres para falar com eles.

Meus caros, esqueçam um pouco do futebol e do XBox e percebam o que está acontecendo: as mulheres conquistaram a famigerada igualdade de direitos, deram uma rasteira em vocês, assumiram presidências de grandes corporações e de grandes países, estão em franca ascensão rumo à dominação do mundo e vocês não vão fazer nada?

Vocês já foram tão bons em estratégias de guerra e esquemas táticos. Onde foi parar tamanha destreza? De certo gastaram tudo tentando provar que são melhores no trânsito. Quanta bobagem. Quer um conselho sincero de quem já esteve na posição inferior na qual vocês se encontram hoje? Foco no equilíbrio. Agora é a hora de vocês lutarem pelas igualdades dos direitos.

Comece pelo mais fácil: recuperando aqueles direitos que são genuinamente seus. Tem muita malandrinha por aí usurpando de vocês o direito de pagar as contas. Elas vêm com um papinho de que são modernas, independentes, jogam o cabelo de lado para te distrair e, quando você menos espera, já racharam a conta. Golpe baixíssimo. É preciso ficar atento com esse tipo. Do contrário, é bem capaz delas mesmas abrirem a porta do carro para entrarem. E você não quer uma coisa dessas, certo? Já pensou se uma delas arranha seu lindo possante com suas unhas afiadas semanalmente? Fiquem espertos, homens: pagar a conta e abrir a porta do carro é um direito de vocês. Reivindiquem!

É muito cara de pau que nós, mulheres, queiramos bancar as donas das situações. Já somos donas do maior privilégio da existência terrestre, o de gerar a vida, devíamos nos contentar e ficar quietinhas. Mas não, queremos mais e mais. Ao contrário de vocês, né? Olha, eu sei que estou traindo meu gênero, mas eu disse lá em cima que me simpatizo por vocês, então vou dar a dica: para quê ficar tentando encontrar vida em outro planeta ou criar clone humano? Que tal aproveitar seus conhecimentos científicos para tentar engravidar? Porque - cá entre nós - vocês são maiores, mais fortes e permitir que os bebês sejam carregados por esses seres passionais e instáveis foi uma falha e tanto da natureza. Já pensou na beleza de um parto? Reivindique o direito de ser o centro disso e o mundo estará aos seus pés.

Pés, aliás, que precisam ser mais bem cuidados, né? Reivindique um dia na semana de salão de beleza e o direito de mostrar suas habilidades gastronômicas diariamente. Que palhaçada é essa do homem ser um cozinheiro eventual se tem almoço e janta todo dia? Mande sua mulher para o shopping e assuma o comando. Principalmente se foi você quem pagou pelo fogão. Quem essa folgada pensa que é? Esse fogão é seu por direito. Pilote-o com seu talento e vigor. E a máquina de lavar também. Um produto que tem robustez e performance como atributos de venda não foi feito para ser operado por mulheres.

Robustez e performance são atributos inerentes ao cromossomo Y. O direito é seu! Mostre isso ao mundo. Nem que para isso seja necessário queimar algumas cuecas.



Partilhar

quarta-feira, 7 de março de 2012

DEUS, QUESTIONAMENTOS E BOLINHAS DE GUDE >> Carla Dias >>

Conversando com um amigo, lembrei-me de uma pessoa que conheci há muitos anos, quase trinta, para ser mais exata. Esse homem tinha um sorriso muito bonito, daqueles que antecipam uma bondade genuína, que se faz admirar.

Tal homem aparecia em casa, sábado ou outro, para falar sobre Deus e as suas crias. Eu costumava frequentar tais reuniões, principalmente porque já tinha me desligado da religião da infância, o catolicismo, por não acreditar que era pecado muito do que eles pregavam ser, como ler os livros sobre bruxaria e deuses gregos que andava lendo.

Nessas reuniões, eu aprendi a pensar. Devo a esse exercício o aguçamento da minha curiosidade sobre a religiosidade e a humanidade, porque, independente da religião daquele homem, ele conseguiu incutir em mim o desejo de mergulhar no tema, e a liberdade de compreendê-lo e questioná-lo sem me sentir uma contraventora da fé, mas apenas uma pessoa exercendo o direito de saber mais sobre muito do que a maioria pregava sem dar direito ao questionamento. E eu sou questionadora.

Questionar é essencial para se aprender, algo que compreendi em poucas, porém construtivas aulas de filosofia. Aliás, até pouco tempo, meu desejo em fazer faculdade, por gosto, era pelo curso de Letras. Agora, Letras anda concorrendo com Filosofia... E Cinema? Bom, faculdade à parte, pensar é bom, questionar essencial, e ser respeitoso com a crença do outro é justo.

Deus, para mim, quando era menina de tudo, era um cara mais descolado do que os meus primos bagunceiros, capaz de fazer chover nas tardes quentes, gerando alívio e perfume de terra molhada, e eu achava isso o maior barato. Com o tempo, embrenhando-me no labirinto da religiosidade, percebi que o Deus vai além de ser esse cara descolado.

Aquele menino brincando com bolinhas de gude, na rua de sua casa, enquanto seus pais trabalham fora. É pequeno demais, ainda assim, assume as funções adultas: cuida dos irmãos menores, até cozinha arroz e feijão para eles comerem. Essa criança, com tarefas que um adulto deveria cumprir, faz o que pode para manter tudo em ordem, e reza, ora, medita, acredita. Disse-me, certa vez, que quando adulto trabalharia muito para comprar cestas básicas para os pobres, porque “faltar comida é pecado, né?”. Né... Mas pecado de quem, menino? E a declaração chegou justamente no dia em que eu passava na casa dele para deixar uma cesta básica, porque faltar comida não é apenas pecado em busca de autor, mas também contradiz o direito de todo ser humano de viver.

Esse mesmo menino, apesar das dificuldades, costuma fazer planos para as outras pessoas. Não há como não admirar isso nele. Apesar de ser educado para acreditar no que prega a sua religião, e nada mais, a cada bolinha de gude rolando no chão de terra, a cada dia sem saber se haverá arroz e feijão para cozinhar para seus irmãos, torna-se uma pessoa capaz de compreender que a sua fé também é baseada no que pode fazer para melhorar o próprio universo, antes de querer melhorar o mundo. Que tudo bem desejar observar a vida com amplidão, de questionar, de se aprofundar no que parece tão denso que jamais lhe caberia o conhecimento.

Há Deus nas bolinhas de gude, sabe? Não posso pensar diferente... Assim como há Deus naquele homem que conheci há tantos anos, e na filosofia da faculdade e dos botecos, na capacidade de se escolher, com todo direito ao livre-arbítrio, o não ser subjugado.

Amém.


Imagem: © James Robertson (stock.xchng)




Partilhar

terça-feira, 6 de março de 2012

PAGAR PARA ME ASSUSTAR? EU NÃO!
>> Clara Braga

Outro dia meu pai estava me contando a nova filosofia de vida dele. Ele leu um texto de Rubem Alves que dizia algo que eu não vou saber escrever nas mesmas palavras, mas vou passar o mesmo sentido.

Dizia que ele já passou da metade da vida dele, e então ficou mais seletivo, não quer estar com pessoas que ele não gosta só porque precisa, ou fazer coisas das quais não tem vontade só pra agradar alguém. Meu pai achou isso muito sábio, e de fato é. Então agora ele disse que vai ser mais seletivo também.

Eu, apesar de concordar tanto com Rubem Alves quanto com meu pai, não posso ainda me dar ao luxo de ser tão seletiva assim, mas com certeza posso ser seletiva em alguns aspectos, e percebi isso nesse final de semana quando decidi assistir ao filme A Mulher de Preto.

Tinha ouvido algumas pessoas falarem bem do filme, então decidi assistir, com a certeza de que o filme teria alguns sustinhos leves, mas teria uma história que fizesse valer os sustos. Durante o filme, o primeiro susto foi tranquilo, o segundo bem previsível, do jeito que eu esperava, o terceiro... opá, que susto! O quarto... meu Deus, esse filme só tem susto, é? E do quinto em diante o saco de pipoca estava na minha cara e eu não assisti mais nada do filme. A história do filme? Não tem história, só susto atrás de susto!

E nesse momento em que minha cara estava enterrada dentro do saco de pipoca eu me perguntei onde tinha ido parar a Clara que gostava de ir ao cinema com as amigas para passar susto propositalmente e depois passar a noite em claro sem conseguir dormir de medo. Eu pagava para ver filmes que, se esse negócio de classificação etária funcionasse naquela época, eu nem poderia ter visto, só pelo prazer de sentir medo. Onde já se viu isso, gostar de se assustar?

Bom, com certeza essa época da minha vida foi boa enquanto durou, mas nem a pau que eu vou tirar dinheiro do meu bolso, principalmente com o cinema estando caro do jeito que está, pra ficar morrendo de tomar susto dentro do cinema e ainda perder uma noite preciosa de sono só porque toda vez que fecho os olhos vem a cara feia daquela mulher horrorosa toda de preto gritando sem motivo nenhum bem na minha frente.

Posso não ser muito seletiva em vários pontos, mas podem ter certeza de que vou selecionar muito bem os filmes que vou assistir no cinema. E filmes de terror ou suspense podem até ter sua vez, mas alugados na locadora ou até comprados pirata na feira, desse jeito eu posso assistir em casa, com o som baixo pra música não assustar muito e de dia com a luz do sol batendo na tela da televisão para eu nem ver direito o que está acontecendo. Só assim eu posso ter a certeza de uma ótima noite de sono, que com o tempo vão se tornando preciosas.

Partilhar

segunda-feira, 5 de março de 2012

AO TRABALHO >> Kika Coutinho

Queridas filhinhas,

Ai, filhas! A mãe de vocês é uma melodramática de primeira! Imagine na adolescência o quanto vocês vão se envergonhar. Eu chorando pelos cantos por tudo...

Agora mesmo, prestes a voltar ao trabalho, estou aqui enxugando as lágrimas enquanto procuro o crachá. Meu Deus, onde deixei a mochila do trabalho? E os sapatos, eu usava saltos assim? Será que consigo me equilibrar neles? Penso, assoando o nariz.

Filhas, meus amores, eu vou voltar a trabalhar e nem sei como lhes dizer isso. É tão banal, né? Mas não tenho coragem de dizer. Não sei como explicar que não pegarei vocês na soneca da tarde, que não darei o almoço, que não rolaremos mais na grama do parquinho, que não participarei mais dos infindáveis pic-nics. Ai, filhas, nem o banho sei se vou conseguir dar. Como posso explicar isso? Eu vou sempre tentar chegar pro jantar, eu tento correndo feito uma louca, mas não vou deixar que durmam sem o meu “boa noite”, ainda sabendo que é tão pouco, aceitem que lhes ofereça isso como o meu melhor, sim?

É de se envergonhar esse pedido, né? Por isso que, olha, mesmo sendo ridículo, eu me sinto obrigada a pedir desculpas a vocês, por essa minha escolha. Eu não tenho convicção de que é a escolha certa, mas é o que é preciso ser feito. Isso eu sei. Vocês entendem? Não, certamente que não...

Vocês ainda são tão pequenas para entender e eu nem vou poder lhes explicar porque estarei ocupada em salas com ar-condicionado, reuniões intermináveis, discussões cansativas e planilhas incompreensivas. Mas, filhas, saibam que é o que tem de ser feito, e eu peço que, no futuro, me amem assim... Dizem até que os filhos orgulham-se de suas mães que trabalham, o que eu acho uma balela, filho se orgulha de mãe de todo jeito, né gente?, que é mãe, oras...

Mas podem usar isso para me ajudar, porque essa culpa pesa um milhão de toneladas e eu vou precisar de toda a juventude, maturidade e quiçá da velhice de vocês para aceitar isso. Que eu não estarei por perto... Que o tempo voa e eu perderei tanto de vocês. Bem eu, que não queria perder nada, nadinha, nadica, nem uma remelinha da manhã, nem isso filhas, nem isso... A verdade é que não queria perder um único instante sequer...

Mas, agora, a perda é incalculável. Vai ter dias de calor, dias de frio e eu nem vou saber se estão apropriadamente vestidas. Talvez isso seja uma bobagem, mas, vocês viram, sou melodramática das boas. Preciso anunciar que sofro, pedir que me perdoem e, claro, que se comportem, por favor!

Não briguem, minhas menininhas queridas. Sofia, não suba no carrinho da Olivia, não escale a fruteira, nem as gavetas nem nada. Tenha muito cuidado com as peças pequeninas, não enfie nada, absolutamente nada, no seu nariz, está bem? Ai, eu já pedi tantas vezes, mas é só eu me virar um segundo que... Jesus, e eu vou estar horas, HO-RAS longe de casa!

Aliás, Jesus foi uma boa chamada. Porque não há ninguém, nem babá, nem parenta nem ninguém que pode protegê-las da minha ausência. Só Ele... Então, filhinhas amadas, que Deus as proteja. E a mim também.

Meu amor.

Kika

Partilhar

domingo, 4 de março de 2012

FAZ SENTIDO >> Whisner Fraga

Estudávamos inglês até ali porque a disciplina fazia parte do currículo, mas eu não conseguia enxergar alguma aplicação para aquele conteúdo, de forma que frequentava as aulas sem muita empolgação. Isto é, por que estudar outro idioma, se eu não conhecia nenhum estrangeiro e se só falava em português com meus amigos? O mesmo acontecia com as demais matérias. Por que estudar equações do primeiro grau? Por que me dedicar a conhecer os pormenores de uma bromélia, por que decorar as capitais de todos os estados do país, por que calcular o tempo de uma reação química e assim por diante? Eu estudava por estudar, o que, em si, não parece ser errado. Mas aí, teve um ano, no Colégio Polivalente, que a coisa mudou. Dei sorte e só neste período tive uns seis professores fantásticos, daqueles que faziam a gente pensar: puxa, os caras são gênios, devem ganhar uma fortuna. Sei lá, eu ligava conhecimento a sucesso financeiro, ou seja, reconheço que era ingênuo.

Então, esse cara, não me recordo o nome, e, mesmo se me lembrasse, não ia entregar aqui, era o professor de Língua Inglesa e, durante o primeiro dia de aula, foi provocando: vocês sabem por que aprender uma língua estrangeira? Aí emendou: é para não serem enganados. Se forem ao cinema, não precisarão confiar no sujeito que traduziu as falas, não irão perder tempo lendo legendas e poderão se concentrar nas imagens. Além disso, comentou sobre as letras de músicas, sobre os dizeres em camisetas, em folhetos de propaganda, e assim por diante. Pronto, depois disso, estudar inglês começou a fazer sentido para mim.

Depois veio um professor de Física e seus óculos clichês-fundos-de-garrafa. Levava pequenos experimentos para a sala de aula, explicava o significado prático de cada termo de uma equação, deduzia fórmulas, brincava com o conhecimento. E, assim, a Física ficou ainda mais divertida. O mesmo eu posso relatar sobre o sujeito que lecionava Língua Portuguesa. Ele nos desafiava, nos mandava ler autores complexos, livros extensos, pedia que escrevêssemos nossos próprios textos. Corrigia tudo, anotava, palpitava, melhorava o que compúnhamos. Graças a ele, aprendi a gostar de Augusto dos Anjos.

Até sobre o professor de Biologia há algo de bom a dizer, uma vez que ele nos levava frequentemente para visitas externas. Não existe nada melhor para um aluno do colegial do que viajar com a sala, mesmo que seja para um local a dez quilômetros da cidade. Mas, certa vez, ele se meteu numa enrascada. Vejam bem, estávamos numa região conservadora de Minas, numa época que idolatrava os valores tradicionais da sociedade: virgindade, sexo só depois do casamento, entre outros absurdos, e o sujeito me cisma de dar uma aula de educação sexual. E, pior: pede para as meninas saírem, que quer falar primeiro com os meninos. Pronto, não precisou mais do que isso. Levou uma advertência séria e por pouco o assunto não foi parar nos jornais. Passou um susto e foi só por ter o aval do Diretor que não foi demitido.

Como o colégio era polivalente, tínhamos matérias técnicas, como Educação para o Lar, Práticas Agrícolas, Oficina, entre outros conteúdos práticos. Adorávamos o indivíduo que lecionava Práticas Agrícolas. Parecia-nos que estava constantemente em outro mundo, sempre nos falando de coisas que não compreendíamos muito bem, como alimentação natural, vegetarianismo, hortaliças sem agrotóxicos e outras viagens do tipo. Ainda bem que, uns anos depois, todos esses conselhos, ensinamentos, de todos esses professores, começaram a fazer sentido para mim.



Partilhar