quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

TERCEIRO CAPÍTULO >> Carla Dias >>


Roça o dedo no vidro da janela e desenha letras, chegando à palavra “efeméride”. Gosta tanto dela, ainda que caçoem dele os primos e os amigos da escola, porque não entendem como moleque feito ele pode entender o significado de palavra tão difícil de ser dita... Ao menos por eles.
Mas acontece que o significado é o de menos, e ele não o entende muito bem. O que mais lhe atrai na palavra é o som, como se ao dizê-la entoasse a mais bela melodia. Não é à toa que deu nome de Efeméride à sua gata. Gosta de chamá-la, e o faz em diversos tons, compondo uma ária de entendimento consigo mesmo.
Obviamente, desagrada-lhe que os primos e os amigos de escola caçoem tanto dele. Porém, o menino sabe que o fazem porque querem mantê-lo afastado, querem que ele se sinta sempre desconvidado aos eventos em comum. Sua mãe, uma doce mulher com tendência à melancolia, é também quem alimenta o mantra “você foi escolhido e precisa cuidar bem do seu dom”.
Na verdade, o menino queria mesmo era soltar pipa, jogar bola, cabular aula para visitar o avô, que mora em outra cidade. Coisas simples para tantos e quase impossíveis para ele. Mas o seu destino fora definido muito cedo, antes que tivesse a chance de fazer a sua primeira escolha consciente. Quando era apenas um bebê, poucos dias como cidadão do mundo, veio à sua casa uma mulher de uma importante linhagem de distribuidores de dons. Ela conversou com a mãe do menino, explicando a ela que ele fora escolhido, entre uma grande safra de crianças com o talento para a profissão, para receber aquele dom, porque poderia começar a trabalhar com ele ainda criança. A mãe dele chorou, esperneou, alegou que o filho era frágil demais para tal profissão, mas a mulher não se abalou em nada, e caminhou, lentamente, como que contasse os passos rumo à eternidade, até o berço do menino, pegando-o no colo e sussurrando em seus ouvidos: de hoje em diante, este dom é seu, e ele será a sua profissão, a sua responsabilidade.
Todos os dias, no começo da tarde, o menino se senta à mesa e a mãe lhe serve leite e biscoitos, e entre palavras de carinho e conselhos sobre como ele deve se comportar durante o trabalho, deixa escapar um engasgo. Às vezes, não contém as lágrimas. Para o menino, por mais que deseje fazer coisas comuns aos de sua idade, o sentimento de comprometimento com o seu dom é o que o torna o mais importante abrandador de mágoas de todos os tempos, uma honra da qual poucos já puderam desfrutar. E ainda que lhe aperte o peito não poder prestar seus serviços à própria mãe, que a cada ano fragiliza-se mais com a profissão dele, o menino se dedica ao seu fazer com a graça que a vida lhe concedeu.
Todos os dias, após o lanche, o menino caminha pela cidade. As pessoas desviam o olhar dele, porque apesar de ele ter uma profissão capaz de lhes aliviar a alma, também é um indicativo das fraquezas delas. E o menino entende, ele pode até não compreender direito o sentido de uma palavra que o encanta, mas ele entende que o ser humano teme perder o poder que nunca teve... O de jamais se sentir fragilizado por uma mágoa.
A seriedade do seu semblante veio com o dom, com a profissão. Para esse menino de dez anos de idade — e uma já impressionante carreira —, o que faz os seus primos e os seus amigos gargalharem é justamente aquilo que, em algum momento, se mostrará das mais profundas mágoas. As chacotas, o descaso infante, o acerto ao ofender seus alvos, a violência emocional. Tentou lhes explicar isso, certa vez, através de uma conversa clara sobre as consequências do que eles faziam. E os moleques zombaram dele até, disseram-lhe que era incapaz de ser feliz, de sorrir, aproveitar a vida.
Avista o homem sentado no banco da praça, o olhar anuviado, braços largados ao lado do corpo. Segue até ele, tranquilamente, e se senta ao seu lado. O homem não atenta para a presença do menino, mas isso faz parte do ofício. Quem realmente estranha o feito são os transeuntes que não entendem a cena.
O menino deita a cabeça no ombro do homem, que suspira profundamente. Então, coloca a mão espalmada em seu peito, e não demora até que ele, o menino, caia em um choro copioso e sentido. Mágoa, sempre diz a mãe dele, é coisa que não se deve colecionar. Porém, é isso que o ser humano faz com maestria, e que o menino tem de ajudar a amenizar, vivendo a mágoa alheia, até diluí-la da alma do outro.
Para uma criança, ser abrandador de mágoas pode ser devastador. Os motivos pelos quais uns magoam aos outros às vezes são tolos, equivocados, mas quase sempre são cruéis. Quando termina o seu trabalho, o menino volta para casa, ainda chorando, e se deita na sua cama e lá fica, até que não tenha mais forças para continuar a chorar. A mãe lhe cuida, abraça, mostra-se presente, mas não adianta. Faz parte do trabalho o menino sentir exatamente o que sentiu a pessoa que ele abrandou.
Depois do choro, da dor, do abrandamento, o menino se senta à janela e observa os outros meninos brincarem. Lamenta saber que, dia desses, terá de lidar com as mágoas dos seus algozes, que terá de sentir deles as mágoas provocadas por aqueles que lhes fizeram exatamente o que eles fazem com os outros. Então chama pela Efeméride que, alheia às dores e aos horrores de ser humano, na simplicidade do bicho, explica-lhe, silente, que não apenas as palavras às vezes nos confundem no sentido que lhes cabem, mas também os sentimentos.





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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

SAÚDE E PROVIDÊNCIA
>> Albir José Inácio da Silva

Seu Pedro ficou indignado quando na rua lhe disseram que lugar de velho era na rede ou na cadeira de balanço. Teve ganas de dizer que o outro também ficaria velho, que a mãe do outro já deveria ser velha, e outras imprecações que não chegou a proferir. E era melhor que mantivesse a indignação porque acabou concordando que lugar de velho é mesmo na rede, no asilo ou no cemitério.

Mas os transeuntes não são os únicos a se incomodar com sua lerdeza. O governo culpa a velhice interminável pelo déficit da Previdência. Os planos de saúde reclamam porque quem vive mais tem mais tempo para ficar doente. Há uma lista de doenças permitidas de acordo com a categoria do cidadão, que só conta com a providência divina para adoecer de moléstia coberta pelo seu plano.

Seu Pedro não gosta de incomodar ninguém, e agora virou um estorvo. Claudica pelas ruas ouvindo a respiração impaciente dos que querem passar para seus trabalhos, sua produtividade. No ônibus, demora pra subir, pra sentar e pra descer, o que atrasa a viagem de todos. Já não prepara sua comida, nem calça sozinho as meias. Há sempre alguém, que poderia estar cuidando da própria vida, obrigado a se ocupar dele.

Há ainda os que não reclamam com palavras, fazem isso com a cara e os gestos. Ele fica feliz com a presença da parentela, mas está cada vez mais tímido, como se não quisesse impor sua presença, sua tosse, seu tremor. Claro que existe sempre a alternativa do asilo. Mas lá não gostam de velho, gostam de dinheiro. E os parentes também não gostam de lá, nunca aparecem.

Seu Pedro caminha como se pedisse desculpas por essa velhice tão demorada. Não pretendia ficar tanto tempo aqui. Não é sua culpa. É que sempre trabalhou muito porque era bonito ser trabalhador. Sempre comeu pouco porque era feio ser guloso. Nunca foi de noitadas porque foi assim que lhe ensinaram. Agora dizem que não é certo viver muito. De que adiantou tanto juízo?

Já ouviu que em alguns lugares os velhos valem porque são velhos, pelo que sabem e pelo que já fizeram. Recebem homenagens e são paparicados pelos mais jovens, que ficam honrados em cuidar deles. Mas não aqui. Ele já não trabalha, é um peso morto para a sociedade que lhe paga a aposentadoria, e para a família, porque os remédios consomem boa parte dos seus recursos.

Ainda bem que Seu Pedro acredita no Paraíso, para onde acha que vai em breve. Lá não vai atravancar a passagem de ninguém. Lá não vai incomodar parentes com os seus achaques. Os médicos serão muitos e de graça. E também os remédios que, aliás, nem vai precisar.

Mas o melhor de tudo é que todos serão velhos. Não com oitenta, noventa, mas com centenas, milhares, milhões de anos. E lá os velhos nunca são maltratados. Afinal, o mais velho de todos é o chefe.

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sábado, 25 de fevereiro de 2012

ENCONTROS COM A CO-OPERAÇÃO
[Heloisa Reis]

Não serei o poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro. Estou preso à vida e olho meus companheiros. Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
“Mãos Dadas”, C.D.de Andrade



Muito tem me (pre)ocupado a dificuldade de se estabelecer um processo interativo entre pessoas que habitam uma mesma rua. A proximidade física não tem sido suficiente para que se desenvolvam projetos e objetivos comuns dentro do conceito de cooperação.

Por que será?

Acho que para que essa interação se desenvolva é preciso que se veja o outro como uma totalidade. Facilitaria se soubéssemos sobre seus traumas, seu passado, as causas de sua felicidade e mágoas; se conhecêssemos suas virtudes e defeitos. Mas a vida nas cidades leva ao fechamento não só dos portões, mas também da alma entre as pessoas...

De fato observo que pode até haver cooperação entre vizinhos quando há um objetivo comum, uma reclamação contra um terceiro, ou um problema que afeta a ambos... mas sempre algo específico e momentâneo. O processo é curto e temporal. E saber da vida dos outros tornou-se algo condenável, nivelado com a fofoca e com a nada recomendável trama das novelas onde abundam situações de conflitos e disputas não raro com cenas deploráveis de agressões e xingamentos. Nada disso traz este desejável espírito de cooperação.

A competitividade continua a ser objetivo de muitos, quando, para que se faça um trabalho cidadão por exemplo, ela é totalmente dispensável. Egos e prevalência de algumas iniciativas em detrimento de outras apresentadas por diferentes pessoas podem e devem entrar em acordos que visem o benefício comum. O que poderia acontecer se a cooperação desaparecesse e apenas ficasse a competitividade? Guerras, muitas mais, sem dúvida.

Estamos no século XXI, podendo deixar para trás os conceitos dos séculos passados nos quais vimos predominar o espírito guerreiro nas disputas por conquistas de territórios e riquezas. Não estamos mais em situação de buscar acúmulos e privilégios. A vida no planeta nos aponta uma direção inexorável: ou nos unimos na busca das soluções ou simplesmente desapareceremos.

A nação é formada por instituições organizadas, das quais fazem parte grupos de pessoas que estão na base e são a essência do tecido que compõe a sociedade. É o indivíduo o sujeito da ação primeira e a ele cabe despertar para a eficácia da cooperação com seu vizinho. Mas o individualismo que hoje prevalece precisa ser superado pela busca de resultados efetivos na solução de problemas, na harmonização de conflitos e na realização de metas.

Como?

Sem dúvida no desenvolvimento da noção de Cooper-ação. Nas nossas necessidades estamos todos interligados: precisamos de quem planta e cultiva nossa comida, de quem a industrializa, distribui e faz chegar às prateleiras do mercado. E ainda do lixeiro que passa em nossa casa e recolhe os restos inúteis do que consumimos. Somos interdependentes até mesmo das decisões políticas das quais muitas vezes não queremos nem saber.

E somos seres em constante transformação. Observar as transformações à nossa volta passa a ser um grande exercício quando decidimos lançar um olhar além de nossos muros para enxergar verdadeiramente a necessidade do outro que também é nossa.

Conseguiremos combater a corrupção de que tanto nos sentimos reféns, e a violência, e a tendência ao uso de entorpecentes quando verdadeiramente nos sentirmos unidos na possibilidade de estabelecer encontros de almas que busquem a construção de um mundo pleno de valores positivos.

Co-operando, não acha?


* Heloisa Reis é ativista e colaboradora de diversas entidades ambientalistas que atuam na Região Oeste da Metrópole de São Paulo.


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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

TORTURA DE SALÃO >> Fernanda Pinho

Se me assaltarem com uma arma de fogo é capaz até de eu reagir. Impulsiva como sou, não duvido nada. Agora, experimente um meliante me assaltar com um alicate de unha. Olha, eu entrego até minha alma sem nem resmungar. Porque tenho horror àquela coisa. Quando amolado então, vade retro, alicate! E você, que é bom de conclusão, deve estar se perguntando: então como você tira suas cutículas? Elementar, meus caros. Não tiro! Pra quê? Se eu não tiro minhas orelhas, minhas pernas ou meus braços fora, por que tiraria minhas cutículas que são tão parte de mim quanto todo o resto? Pobrezinhas. Estão aqui, sem causar nenhum dano à minha saúde física ou mental, sem interferir no aquecimento global ou no movimento das placas tectônicas.
Aliás, minhas cutículas só me fazem bem, pois o fato de não me incomodarem em nada me poupa perder tempo em salão de beleza. Sério. Eu só não digo que estar em um salão de beleza é a pior situação social que existe porque tem os ônibus lotados e as UTI's dos hospitais. Mas podendo evitar, é sempre bom. Para fazer as unhas (ou seja, pintá-las), só vou em caso de formatura e casamento (e depende muito de quem é o dono da festa). Normalmente, me viro bem cuidando disso sozinha. E se fica um pouco borradinho, devido à minha falta de destreza, ok! Quem se importa? As placas tectônicas continuam sem se abalar.
O problema é que nós mulheres não somos só unhas. Somos cabelo, pelos, sobrancelhas (odeio escrever essa palavra), pele e, meu Deus, por que é tão difícil ficar bonita? Estou particularmente implicada com isso esses dias. Acho que a idade está me deixando mais impaciente. Minha irmã se forma essa semana e por conta desse evento tenho horários marcados em três salões diferentes. Enquanto os homens da família se limitaram a escolher a gravata que melhor combina com o terno. Três salões é demais para uma pessoa que não suporta nem um. E ainda tem isso, essa falta de praticidade.
Não basta os salões serem esses estabelecimentos irritantes, sonoramente poluídos pelas fofocas e ruídos dos secadores, insuportavelmente aquecido pelas chapinhas, aromaticamente prejudicados pela mistura de tinturas e acetonas, eles também não conseguem ser multifuncionais. Certo, a maioria dos salões oferece de tudo. Mas geralmente os profissionais que nos agradam estão espalhados por aí, impossibilitando a existência do salão ideal. Porque a moça que te depila sem te fazer urrar não trabalha no mesmo salão do maquiador que consegue não te deixar com cara de palhaça. E o cabeleireiro que escova seu cabelo exatamente como você gosta geralmente não trabalha junto com os dois acima, nem com a manicure que não implica com sua fobia de alicate.  Então, além do investimento financeiro e da tortura psicológica, ficar bonita ainda exige a logística para conseguir alinhar todos os fornecedores da beleza em nossa agenda. Que raiva da gulosa da Eva que foi morder aquela maçã. Certeza que essas necessidades femininas fazem parte dos castigos divinos que estamos cumprindo até hoje (como se ter cólica, parir e ter celulite não fosse suficiente). 
Só espero ser recompensada por todos esses sacrifícios e, se uma próxima vida houver, voltar como homem. Bem ogro, de preferência (os metrossexuais que me desculpem).

Imagem: www.sxc.hu  


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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

CADÊ MINHA VERSÃO DO STEVE? >> Carla Dias

Considero o meu livro “Os estranhos” o primeiro romance que escrevi. Antes dele, minha relação com a prosa era mais para os contos. Anos antes, ainda quando não sabia muito bem o que era o que no meio literário – o que ainda não sei direito - escrevi dois textos que acreditava serem romances. Porém, eles se mostraram, anos adiante e um pouco mais de experiência, apenas longos contos.

Um deles eu guardei para trabalhar na ideia e transformá-lo mesmo em um romance, porque há muito a ser desenvolvido ali. O texto original, escrito quando eu tinha vinte e pouquinhos anos, é um amontoado de possibilidades truncadas, porém, eu gosto dos personagens, do contador tacanho e do poeta que não está nem aí com ninguém, a não ser consigo mesmo. Aprecio a relação que eles criam, sem querer. Sendo assim, ele continua lá, até eu transformá-lo no que desejei há alguns anos, mas não sabia como fazer isso acontecer.

O outro, o primeiro que escrevi, bom, este é o tema dessa crônica.

Meu feriado prolongado em nada teve a ver com o carnaval. Acordei no sábado e decidi fazer aquela limpeza geral nos papéis amontoados, para colocar em ordem a vida em A4, recibos de contas, cartões – de natal, aniversário, e por aí vai... -, convites – de casamento, aniversário e por aí vai... -, cartas e bilhetes de amigos e familiares, os desenhos dos sobrinhos, e por aí vai.

Porém, a grande questão era encontrar o original datilografado desse primeiro pseudo-romance que escrevi, porque me bateu uma curiosidade ferrenha de observar a mim naquele momento. Na época em que comecei a escrevê-lo, nos anos oitenta - nunca pensei que doeria tanto dizer “nos anos oitenta” -, aproveitava a máquina de datilografar do meu tio, para quem eu trabalhava na época. Bastava um tempinho de folga, e lá estava eu inventando história.

História que comecei a inventar porque tinha um amontoado de dúvidas na cachola e um monte de novidades para experimentar. Estava estudando música, conheci os primeiros artistas da minha vida, embrenhei-me nesse universo criativo. Mas quando entrei para uma banda de rock e comecei a tocar em vários lugares, encontrei pessoas tão malucas – e a maioria delas era fascinante -, tão diferentes das pessoas do meu meio, que só me restou colocar o questionamento no papel, já que me expressar verbalmente, naquela época, era a coisa mais improvável.

Minha paixão pela música veio com outro tipo de paixão. Comecei a escrever este livro, do qual esqueci o título (como pude?!), porque estava completamente fascinada pelo Steve Howe, o guitarrista do Yes. Adorava a música da banda, mas adorava ainda mais o músico, pelo seu talento e a forma como se comportava no palco. E, claro, pelas longas madeixas.

Lembro-me de ter copiado uma foto dele, em sulfite, da revista Circus, que peguei emprestada de um amigo músico, porque, na época, revista importada não era fácil de conseguir. Essa cópia tosca de tudo, feita com técnica zero, era a capa do livro.

Obviamente, o personagem do livro é um guitarrista, e não posso nem contar a vocês a trama, porque devo estar com a lâmina do esquecimento afiadíssima. Lembro-me apenas de que ele era um guitarrista meio atormentado, com um quê de poeta existencialista, que andava com um grupo de artistas independentes que queriam viver da sua arte.

Então, que procurei, coloquei a casa abaixo, porque me bateu essa curiosidade imensa de saber o que escrevi naquele livro, que não leio desde 1988, quando o finalizei. Porque o livro é mais um jornal sobre o que eu vinha descobrindo no cenário musical, da música – boa e ruim – às pessoas – boas e ruins. Lembro-me de tê-lo guardado separado dos meus outros textos, justamente porque sabia que era menos literatura e mais uma reflexão sobre a ebulição emocional pela qual eu passava.


Não o encontrei, não faço ideia de onde o coloquei, ou se um dia o encontrarei. Ainda bem que, apesar da minha frustração, o Steve Howe continua tocando.


IN THE PRESENCE OF - YES



Steve Howe não tem trabalhos somente com o Yes. Sua discografia é bem rica. Confira:stevehowe.com.





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terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

APROVEITE A VIDA, E O CARNAVAL TAMBÉM! >> Clara Braga

Eu tenho os melhores pais do mundo. Sei que essa é o tipo de afirmação que causa controvérsias e sobre a qual nunca vamos todos concordar, afinal, sei bem que não são todos, mas muitos têm certeza de terem os melhores pais do mundo.

Sabemos que existem aqueles pais que não deveriam nem ter colocado filho no mundo, mas tenho muito orgulho em poder dizer que meus pais me ensinaram as maiores e melhores lições sobre a vida e sobre o mundo.

Dentre todas as lições que tive, como por exemplo, a importância de estudar, como devo ser gentil com as pessoas, ajudar quem precisa de ajuda,  etc., tem uma em específico que eu venho aprendendo com o tempo e que eles continuam a me ensinar a cada dia que passa: Aproveite a vida!

Se você gosta muito de algo, tem muita vontade de fazer algo, esse algo não vai fazer mal nem a você nem a ninguém, e você tem condições de fazer, então faça, afinal, você não sabe quando vai ter a oportunidade de fazer de novo.

Foi com esse espírito que quando eu tinha meus onze anos meu pai tirou uns dias do trabalho, pegou um avião comigo e foi ao show do Hanson, que na época era minha banda predileta (graças a Deus, os gostos musicais mudam). Uns dois anos depois, eles voltaram a se apresentar no Rio, e então foi a vez da minha mãe pegar o avião e ir comigo.

Depois, quando meu gosto musical já era um pouquinho mais apurado, eles continuaram me ensinando a aproveitar e fazer as coisas que eu gosto e que me dão prazer. Me levaram ao Rock in Rio e a vários outros festivais que eu não podia entrar sozinha, e ficavam lá, firmes e fortes, até o final.

Mas não foi só em idas a shows que eles me incentivaram. Quando eu fazia ballet, eles estavam lá em todas as apresentações. Quando eu quis estudar fora, eles juntaram dinheiro para que eu pudesse ir. Quando eu quis tocar bateria, eles me colocaram na aula. Quando eu me apresento com a minha banda, eles estão lá dando força. Estão sempre presentes!

E é claro que chega um momento em que os papéis se invertem, e quando eles vão fazer algo do qual gostam muito e têm muita vontade de fazer, é minha vez de incentivar.

Foi aí que eu fui assistir feliz à apresentação de canto coral da minha mãe, fui ver meu pai tocando percussão, e sempre penso que nesses momentos eles estão me dizendo, mais uma vez, "aproveite a vida, não deixe de fazer coisas que te dão prazer".

E como já era de se esperar, nesse carnaval não foi diferente. Desde pequena os escuto, principalmente meu pai, falar que um dia ainda iriam ao Rio de Janeiro para desfilar em uma escola de samba. E então lá estavam eles nessa última segunda-feira de carnaval, saindo na ala "Dona Morte", pelo Salgueiro, com muito mais energia do que eu para curtir o carnaval.

E é assim que eu vou aprendendo, com quem entende da vida muito melhor do que eu, que a vida é isso aí, temos que cumprir nossas obrigações, mas não podemos nunca esquecer de curtir, de nos divertir, de termos prazer, senão todo o resto deixa de ter sentido.

Bom final de carnaval a todos.

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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A VIAGEM >> Kika Coutinho

Hoje, voltando dessas férias de carnaval, passamos por aquele stress cotidiano no carro. Crianças gritando. Uma grita enquanto tenta se soltar da cadeirinha, outra, a menor, grita enquanto sacode as mãozinhas, que não sabem soltar-se do cinto. Ufa — quase acho bom esse não saber da minha bebezinha.

Já em casa, esgotados, mais uma resposta mal-criada foi a gota dàgua e soltei meus piores rugidos com a minha filha: "Chega! Chega, chega!", eu rosno, enquanto ela, num instante, me desafia. Oras, como assim? Ela calça 21, pesa o quê, 12 quilos? Que coisa é essa de me desafiar como se fosse minha chefa, líder da América Latina toda?!

Enquanto me abaixo na altura dela, tento explicar: "Sofia, você sabe quem manda aqui?!"

— Eu — ela responde, líder do mundo né?

— Não, Sofia, quem manda aqui sou eu. Eu e aquele moço ali, o papai. Você não manda aqui, entendeu?! Ela chorou, frustrada.

Saí para dar banho na outra menina, que também chorava no quarto ao lado e, quando a deitei na pia, tão pequenina, cabendo num tampo de mármore ridículo, desejei, então, congelá-la. Onde será que se pode congelar crianças? Eu a congelaria, por um ano talvez, e manteria minha filhota sempre, sempre pequena. Quando eu enjoasse dos 6 meses, soltaria de novo, até 1 ano. Depois até dois. Certamente levaria uns 10 anos até que ela completasse 5 e, aí, então, estava feito, ficaríamos para sempre entre os 6 ou 7, nunca chegaríamos à adolescencia...

Que bobagem, ri de mi mesma, enquanto tirava a fralda daquela neném risonha. Filha, eu sei, não posso te congelar e acho que não o faria, não. Mas, olha, te peço, por favor, mesmo que você cresça muito, mesmo que, sei lá, vai que uma dia você meça 1.70cm, até mais, ai meu Deus, mesmo que você use salto agulha, tamanho 38, que mais que isso acho difícil, e mesmo que você seja líder da America Latina toda, ainda assim, querida, lembre aqui, de nunca deixar de ser a minha filhotinha querida, que cabia inteirinha nos braços dessa sua velha mãe. Feito?

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domingo, 19 de fevereiro de 2012

DE GATOS E HOMENS >> Whisner Fraga

Não foi a vida toda que gostei de animais. Quando criança, me recordo que minha família criava periquitos. Na casa da avenida 38A, um desses bichinhos cantava o dia inteiro a sua prisão. Viver confinado a um terreno não devia ser agradável, mesmo tendo comida garantida e um poleiro pra brincar de vez em quando. Para que não fugisse, aparavam-lhe as asas. Assim que um morria, davam um jeito de conseguir outro. As aves eram como brinquedos ou passatempos, nunca entendi muito bem.

Depois foi a vez dos cachorros. Esses, eram meros utilitários e ficavam isolados, no quintal, sem muito contato com os humanos. Ou seja: tinham a tarefa de vigiar a casa e o soldo era uma muxiba malpassada misturada a um fubá, pois naquela época não existia essa moda de ração. De vez em quando, assim que o animal começava a emagrecer, alguém se lembrava de exterminar os carrapatos e pulgas do couro do bicho e era o máximo de carinho que ele recebia durante o ano.

Depois, quando fiquei amigo do João, percebi que ele lidava de um modo diferente com os gatos que desfilavam pela sua casa. Não chego ao exagero de afirmar que eram membros da família, mas tinham direito ao cantinho no sofá, a afagos frequentes e a outros benefícios. Podiam sair pelas ruas, namorar quem quisessem e voltar a qualquer hora para o seio de uma almofada. Achei aquilo estranho, não estava acostumado a enxergar um animal como uma criatura que merecesse respeito. E como as coisas mais simples são as mais difíceis de aprendermos, demorei a seguir o exemplo do meu colega.

Mais tarde, graças a uma toxoplasmose que arrebanhei num restaurante universitário, comecei a ficar chateado com os felinos. Os médicos, assustados com o surto da doença, deram explicações que qualquer enciclopédia Barsa desmentiria com facilidade. Mas essas explicações ficam na cabeça da gente. Não cheguei a maltratar qualquer animal, mas passava longe deles, com um olhar de mágoa, um pouco chateado. Demorei a entender que os bichos não tinham culpa nenhuma, a culpa era dos irresponsáveis que deixaram que eles entrassem, sujos, na cozinha do restaurante e subissem nas mesas e lambessem os garfos e fizessem sabe-se lá mais o quê.

Hoje eu tenho três gatos e costumo rir de um clichê muito bobo que espalham por aí: que seria melhor adotar uma criança a dar conforto e abrigo a um animal. Besteira. Primeiro, que cuidar de uma criança é uma tarefa mil vezes mais complexa e dispendiosa do que tratar de um bicho. Segundo, porque o processo de adoção em nosso país é complexo e demanda muito trabalho, paciência e tempo. Terceiro: se alguém quer ter um animal em casa pode não querer ter uma criança, certo?

De modo que sempre pensei que cada um tem o seu lugar e deve respeitar o do outro, mas, convenhamos, o homem tem ocupado e muito o espaço alheio. Nunca vi criatura mais desrespeitosa e egoísta do que o ser humano. É por isso, talvez, que exista tanta gente que respeita mais um gato ou um cachorro do que o vizinho. E deve ser por isso que tem tanto homem que judia de animais. As leis tentam educar, mas muitas vezes as penas são muito brandas. Sem falar da fiscalização. Ainda há muito o que aprender sobre o respeito e sobre a convivência em sociedade.



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UM ARRANJO DE PALAVRAS
>> Eduardo Loureiro Jr.

Quis o exatíssimo Senhor Tempo que coincidissem, neste domingo, dois eventos cuja simultaneidade me deixa perplexo: o velório/sepultamento do corpo do marido de uma querida amiga E o aniversário de dois anos de meu casamento com minha esposa.

Hoje, também, as floriculturas não entregam flores. A princípio, fiquei incomodado e quis reclamar, escrever uma crônica anticarnaval, definitiva, começando pelas estatísticas de aumento no número de acidentados e mortos, e chegando até esse absurdo do impedimento da livre circulação das flores. Mas depois fiquei pensando, cá com meu coração, que as flores, essas moças delicadas, bem que merecem ficar a salvo da agitação de momo.

Tal compreensão, claro, não me livrou da necessidade de flores para esse dia tão importante. Tratei de descobrir como se faz um arranjo de flores. Mais surpresas. Confira a lista de material necessário, caro leitor: tesoura, alicate, tijolo floral (não sabia nem que isso existia), suporte plástico para o tijolo, arame de grampo e — para meu alívio — flores. Vê a turma em que estão metidas essas formosuras? É preciso cortá-las e prendê-las antes que elas gerem, na pessoa que as recebe, aquela expressão de alegria, aquele sorriso aberto de orelha a orelha.

Tesouras, alicates, tijolos e arame não me faltam. Suporte... às vezes falha, mas já providenciei algum para a ocasião de hoje. Resta escolher as flores: pela vista, pelo tato, pelo aroma...

A flor de quando conheci minha esposa merece constar neste arranjo. Ela de costas, olhando a paisagem, compondo a paisagem, bonita como a paisagem. E meu impulso de ir até lá, conversar com aquela desconhecida antes que se fechasse a portinha de oportunidade de nosso encontro. Não lembro o que eu disse, mas devem ter sido as palavras certas: aquelas que vêm do coração.

A pele da minha esposa só pode comparada, em sua suavidade, com o tecido divino de uma pétala de flor. Ela vai dizer que são os cremes. Talvez. Eu penso ser outra coisa: seus pelinhos discretos e delicados. A pele de minha esposa é um excelente motivo para eu ter conservado minha mão ausente de calos. É gostoso ter minhas mãos à flor da sua pele.

O amanhecer, a alvorada, a alba, é uma flor alaranjada que tem o cheiro de minha esposa. Meus dias sempre começam com seu cheiro, ainda deitada na cama ou deixando-o de presente sobre os lençóis. Antes que meus ouvidos sintonizem os sons deste planeta, ou que meu olhos consigam focar os objetos a meu redor, é o cheiro de minha esposa que me lembra que continuo vivo, pronto para mais um dia.

Não sei se o meu leitor tem o hábito de saborear, degustar, provar flores. Uma das flores deste arranjo tem que ser o primeiro beijo entre eu e minha esposa: lento, quieto, intenso, infinito. Senti-me transformado em um beija-flor: suspenso, parado no ar, sustentado pelos batimentos rapidamente invisíveis das asas de meu coração.

Para um arranjo, também é importante certas florzinhas miúdas, do campo, do dia a dia. Minha esposa oferece-as com liberalidade: sua voz animada, seu riso descomplicado, seu maravilhamento diante de coisas tão simples e obviamente maravilhosas.

Pronto?

Não, falta o cartão...

"Querida, entre tantas tesouras, alicates, tijolos e arames, eu renovo o meu compromisso de cultivar as nossas flores. Grato por sua companhia, paciência, insistência, carinho e amor. Você é tudo que eu poderia querer para a minha vida, e eu quero. Amo você. Sempre beijo,"

Agora é hora de entregar este arranjo de texto, este floreado de palavras. De mim para minha esposa. E também de todos os maridos para todas as suas esposas. "O amor não cabe em si". Não cabe em mim. Transborda peitos e estações. Transcende rotas e terras. É só receber, de mãos e peito abertos, o arranjo precioso que o marido Tempo fez para a sua esposa Terra.



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sábado, 18 de fevereiro de 2012

AMOR NOVO
PRECISA DE ARES NOVOS
>> Maria Rachel Oliveira

Quando terminam os amores, eles deixam rastros. Certas lembranças que não se pode guardar sob pena de a vida não andar pra frente. Fotos, bilhetes, pequenas coisinhas, okey, você grava tudo num cd ou põe numa caixinha cor-de-lavanda e embatuca em algum canto que não use na sua casa, ou na casa de sua mãe e deixa lá, finge por algum tempo que simplesmente não existem. Trata-se do tipo de lembrança que pode perdurar. Nem incomoda. Um dia, muito tempo depois que os sentimentos tiverem virado uma vaga lembrança, você lembra que esses restos existem e vai lá, numa onda esquisita de nostalgia, cata, ri e percebe que não lembra de tudo, mesmo que em um ou outro amor tenha ultrapassado, sei lá, 5 anos.

Em alguns casos esqueceu até os sobrenomes, lembra pedaços, um aqui, outro acolá – e geralmente só os bons, mas às vezes o tempo futuro prega peças revelando umas surpresas; ora divertidas, ora amargas, ora só surpresas mesmo. Reconhece a criatura x, a criatura y, ri daquele poema boboca que quando você ganhou não deu, talvez, o valor que merecia. Olha aquela foto e pensa: 'meu Deus, eu fui apaixonada por isso? Como?'. Ou encontra a foto daquele seu amigo e se surpreende ao lembrar que um dia já foi namorada dele. Mas lembranças escondidas estão destinadas a não se tornar nada além de um pedaço do seu passado. Foram devidamente tiradas da sua frente antes de se tornarem objetos de adoração, propulsoras de uma psicose, pseudo-relíquias, peças de vodoo ou sabe-se lá o quê.

Eu destruo lembranças sem dó. Só fotos e bilhetes sobrevivem, e, eventualmente algo que tenha maior utilidade, como um par de sapatos bonito que fulano te deu, o Bulgari que o cicrano esqueceu na sua casa e nunca reclamou – e como você adora o cheiro se fingiu de morta. Coisas que têm mais valor emocional que utilitário, e não cabem na caixa, merecem a fogueira, a lixeira do prédio, a imensidão do mar, o cemitério, o rio, ou qualquer outro lugar longe de onde você mora. A cerimônia de livramento deve ter direito a rituais de exorcismo. Eu mesma já celebrei umas três ou quatro nesta vida. Já queimei uns 2 ursinhos de pelúcia, 1 abajur, alguns cartões grandes demais para serem escamoteados, uma meia-dúzia de porta-retratos, 2 ou 3 travesseiros, um sem fim de CDs e um forro de banco pra bicicleta de spinning entre outras coisas que não estou me lembrando agora. A aliança do meu primeiro casamento eu mandei derreter para virar crédito pra coisa outra. De um famigerado par de brincos só guardei os brilhantes e mandei derreter o ouro também, e o vil metal acabou se transformando num anel lindão, que, aliás, raramente me lembro que é filhote daqueles brincos. Ah, também me desfiz de um anel de compromisso jogando no primeiro rio que me apareceu numa ocasião.

Relicários de coisa morta que não faz milagre são coisas absolutamente sem sentido. Portanto, queime, sempre que possível – porque o fogo transmuta – e Nero, lá do inferno, ergue um brinde a seus seguidores. Se não for coisa inflamável, sei lá, atire pra bem longe – nos casos pertinentes você ainda pode mandar aquela bijou pra Iemanjá, umas roupas e cobertores pros pobres de Santo Antônio e ver se eles não topam mandar uma coisa melhor da próxima vez. Se, exceção, a coisa terminou bem e você ficou com zero de mágoa e quer a lembrança, não incendeie – mas mesmo assim deixe hibernando, por um tempo, na caixinha da lavanda. É melhor, vai por mim.

Amor novo precisa de ares novos, de terra fértil – e de espaço nas gavetas.

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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A MÃE DO TROGLODITA, ONDE ESTÁ? >> Zoraya Cesar

Minha Avó costumava dizer que mesmo a mais cafajeste pessoa tinha nascido de mãe, e não da roseira. E que, justamente por ter mãe, um dia ela voltaria para o caminho do bem.

Eu sempre acreditei na minha Avó, mas agora tenho minhas dúvidas. Como criança teimosa, que quer comprovação da existência do Papai Noel ou do Bicho Papão, eu quero a prova de que toda essa gente por aí realmente nasceu de mãe humana.

Pois não consigo acreditar que haja qualquer resquício de humanidade nas criaturas que, no Rio de Janeiro, surraram um mendigo e também o jovem que tentou impedir o selvagem entretenimento (vocês conhecem essa história, não? O rapaz está com 63 pinos no rosto e talvez perca os movimentos em um dos olhos).

Assim como duvido que sejam humanos os amigos (entre os quais um médico!) que bateu numa moradora de rua; outro grupo que espancou um rapaz por ser homossexual; ou os rapazes que esmurraram uma moça alegando que ela parecia uma prostituta (ah, em prostituta pode bater? Isso é defesa?); os sujeitos que amarraram uma cadela prenhe e a arrastaram pelas ruas; o rapaz que atropelou o filho de uma atriz famosa e fugiu ... Chega. A lista é infindável.

A sabedoria popular costuma qualificar quem tem comportamento cruel como o de alguém que não teve mãe.

Então eu pergunto: essas criaturas tiveram mãe? Alguma que merecesse o título, pelo menos? Que tenha vergonha do desvio de comportamento de seus filhos. Que também esteja atônita e sem entender o que aconteceu, não foi assim que ela os educou, não foi para isso que ela os criou. Se seu rebento nasceu podre, ela não teve culpa, ela fez todo o possível.

Porque parece que a maioria sabe muito bem, sim, os filhos que têm: “Meu filho é muito carinhoso, nunca deu trabalho, não fez nada de errado. Estão querendo incriminar meu anjinho.” E o anjinho dá um beijo na mãe e sai para se divertir. Se o seu conceito de diversão é espancar, atear fogo, roubar, atropelar, matar, os outros que se cuidem para não atravessar seu caminho. O velho (e igualmente asqueroso) “guardem suas cabras que meu bode está solto” foi substituído por “saiam do caminho que meu troglodita quer se divertir”. Que mãe é essa? Onde está o verdadeiro sentido da maternidade?

Há uma profusão de estudos sobre o tema maternidade X vida moderna e outra quantidade enorme de mães que compartilham suas experiências com educação de crianças (como a Kika e a Maria Rachel, aqui do Crônica do Dia, maravilhosas), portanto, não vamos discutir a dificuldade de criar filhos no mundo de hoje, jornada dupla de trabalho, mães solteiras, adolescentes, separadas.

Mas que não se use a desculpa de que “hoje em dia as coisas são diferentes". Claro que são. Ontem é diferente de hoje e hoje é diferente de amanhã. Nada de saudosismos. As mães de ontem tinham de lidar com os problemas daquela época e as mães de hoje com os dessa, e sempre foi assim, sempre será.

E se não falo dos pais, é porque na maioria dos casos (incluindo os de trogloditagem explícita acima descritos) são eles que aparecem para defender os “filhinhos”. E porque geralmente é a mulher quem fica com os filhos quando a família é desfeita. E porque a figura da mãe é emblemática. E porque mãe é mãe.

Então, quero saber onde estavam as mães daquelas criaturas quando, lentamente, ao longo dos anos, seus filhos iam se transformando em monstros?

No entanto, talvez exista uma responsabilidade social a ser dividida com as famílias que geram e nutrem e protegem aqueles neanderthals. Uma culpa social, por permitirmos que eles continuem impunes, em vez de alijá-los da sociedade, enquadrando-os na lei. Por nos juntarmos aos milhares para pular carnaval e organizar blocos, mas não nos mobilizarmos para exigir que professores sejam mais bem pagos, que as escolas tenham condições de complementar o ensino de cidadania que começa – ou deveria começar – na família. Por não nos escandalizarmos mais.

Aliás, essas pessoas têm noção do que é um lar?

Quem sabe minha Avó, em toda sua sabedoria, estivesse errada. Existe quem nasça não de mãe nem de roseira que dá flores lindas, mas do esgoto.


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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

SEM FANTASIAS, POR FAVOR
>> Fernanda Pinho



Detesto quando preciso me definir. Porque não gosto de perguntas sem resposta ou perguntas com um milhão de respostas. Sei que sou tranquila a ponto de ver o circo pegar fogo ao meu lado e nem me abalar. Mas também sei que sou estressada a ponto de eu mesma tacar fogo em alguns circos por aí. Sei que sou ágil — quase no limite do desespero. Mas posso irritar as pessoas nos meus dias de lentidão. Sou afetuosa, amorosa e paciente. E implicante, chata e intolerante. Sei que tem gente que me acha uma palhaça. E outros que me acham uma bruxa. Não posso discordar de ninguém. Sou tudo isso mesmo. Só não sou volúvel. Quer dizer, sou sim. Ou melhor, não sou não. Ah, sou volúvel, sim. Ou não? Sei lá. Acho oscilar a coisa mais humana que existe e desconfio muito de quem é do mesmo jeito o tempo todo.

Sério. Me sinto muito mais segura ao lado de gente que reage (aqueles que choram, se irritam, ficam bravo, têm ciúmes, preguiça, TPM) do que dos inabaláveis. Porque quem reage é transparente, está sem máscara. Enquanto os outros escolheram uma fantasia bonitinha e vão vivendo egoistamente, sem deixar que ninguém os conheça de verdade. A troco de quê? Não sei. Nunca consegui invadir a alegoria de um desses para perguntar.

Prefiro conviver com as várias "eus" que existem dentro de mim a sustentar uma única farsa. Dá trabalho demais e nem nos mínimos detalhes eu dou conta. Tenho um exemplo bom para isso. Certa vez, fui convocada para uma reunião de trabalho que tinha como objetivo questionar meu jeito de ser. Pois é. Diante da impossibilidade de apontar falhas no meu trabalho, que sempre foi feito com muito rigor, levantaram uma falha no meu comportamento. Qual falha? Tenho até vergonha de repetir isso, mas já que eu comecei vou terminar: eu não estava mandando BEIJOS no fim dos meus e-mails. Sim, não precisa voltar ao início do parágrafo. Você não leu errado. Não estou falando de namorado/amiga/mãe. Estou falando de pessoas com as quais eu me relacionava estritamente no campo profissional e me achavam antipática porque eu não mandava "beijos". Mas é claro que não! Meus beijos são muito caros para eu gastar com qualquer um. E, ora essa, eu sei me comportar. Um "atenciosamente" encerra um e-mail de trabalho muito bem e obrigada.

Naquela ocasião eu senti uma indignação tão grande que tive vontade de chegar lá no outro dia com uma comitiva. Queria levar meia dúzia de amigos pra dizer o quanto eu sou divertida e capaz de fazê-los rir. Queria levar minha mãe pra dizer que nunca fiz uma mal-criação. Queria levar o Dudu, meu primo de seis anos, pra dizer que eu sou a adulta preferida dele. E a Maria também, para contar das historinhas que a gente inventa juntas. Mas foi uma vontade passageira, porque então me toquei de uma coisa. Eu não precisava provar para ninguém que eu podia ser doce e meiga. Quem precisava saber disso, já sabia. Aquelas pessoas só precisavam saber que eu era responsável, comprometida e muito séria na minha vida profissional. Eu não iria vestir a fantasia da palhacinha amorosa no trabalho.

Forçar um comportamento é uma conveniência que não é para mim. Acho que quem gosta de se fantasiar deveria aproveitar que o carnaval está aí para se esbaldar. Mas na quarta-feira de cinzas, é mais elegante deixar a fantasia de lado. Porque, veja o óbvio, uma máscara pode até esconder quem você é de verdade. Mas todo mundo está vendo que você está de máscara. E isso é ridículo.

Beijos. 


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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

NÃO ESTOU MENTINDO... >> Carla Dias >>

Todos por aqui sabem que sou apaixonada por séries... Também. Entram no pacote das telinhas e dos telões as minisséries e os filmes. Porém, ser fã de série de televisão é muito mais do que ser noveleiro, como muitos dizem por aí, porque a novela passa de segunda a sábado, e conseguimos ficar bem sem ela aos domingos, e nem sempre são realmente boas, mas somente uma distração após um dia de trabalho. Porém, as séries contam com um episódio por semana e ainda são por temporadas, ou seja, passamos meses esperando o próximo capítulo, quer dizer, episódio.
No ano passado, descobri que algumas séries, que não me atraíam em nada, eram ótimas pedidas. Isso porque em período de middle season (quando não há episódio inédito da série, durante algumas semanas) e festas de final de ano, não há o que assistir que não seja de repeteco. Foi assim que incluí na minha extensa, porém seleta lista de favoritas, as séries The Tudors, Justified, The Vampire Diaries e Mad Men.

The Tudors teve quatro temporadas, e para quem não assistiu, vale alugar a série e conferir. Ela aborda os dez primeiros anos do reinado de Henrique VIII da Inglaterra. É uma produção impecável, que mostra um homem capaz de desafiar a então soberana Igreja Católica Romana, criando um cenário propício para que suas ações fossem perdoadas aos olhos de Deus. E a sua vida amorosa é tão trágica quanto a situação em que ele deixava muitos dos seus amigos e súditos. Entre Catarina de Aragão e Ana Bolena, o sedutor rei visitou o inferno. Jonathan Rhys Meyers interpreta Henrique VIII com competência, seduzindo a todos com a forma como conduz o personagem.

Justified chegou à terceira temporada, e assumo, pública e cronicamente, que não há como não cair de amores por esta série. A princípio, como não sou fã de faroeste, e era o que eu via nas imagens de divulgação, um cowboy, relutei em começar essa jornada. Mas então li que o ator que interpreta o personagem principal era o Timothy Olyphant, que eu adoro. Lá fui eu... E de lá não mais saí. Raylan Givens é um delegado vintage, por isso o quê de cowboy. Olyphant dá muito crédito ao personagem, e se não fosse isso, os tiros que pipocam de montão durante a série, os amigos improváveis do Kentucky (EUA), não seriam tão interessantes.

The Vampire Diaries eu repeli, antes mesmo de assistir a um episódio, mas porque estava passando pelo período de luto pelo cancelamento da série vampiresca mais bacana que já havia assistido, a Moonlight, protagonizada por Alex O’Loughlin, o atual Steve McGarret de Hawaii Five-O (que eu também adoro!). Porém, depois de dar uma chance a ela, mas sem muita animação, e me propor a assistir ao primeiro episódio, oficializei a minha carteirinha de fã. A história dos irmãos Damon e Stephan Salvatore vampiros que se apaixonaram, ainda humanos, pela mesma mulher, a vampira Elizabeth, e que reencontram uma cópia dela nos dias atuais, pela qual ambos se apaixonam, uma humana, Elena, ambas interpretadas por Nina Dobrev – faz a tensão entre eles ser extremamente interessante. A ironia de Damon Salvatore (Ian Somerhalder ) é de se tirar o chapéu, sendo até mais apreciada do que o desejo de Stephan Salvatore (Paul Wesley) em preservar o pouco de humanidade que lhe resta.


Mad Men é uma vitrine comportamental não apenas dos transeuntes do cenário publicitário dos anos 60, mas de toda uma geração, conduzida pelo publicitário Don Draper (Jon Hamm) e seus companheiros da Madison Avenue. A forma como a sociedade é definida, através das campanhas publicitárias, é de nos fazer pensar como consumidores e seres humanos. Além do mais, a série trata de como os publicitários driblavam as restrições sobre a divulgação do fumo, assim como lidavam com o romance com suas secretárias, as suas “garotas”, sob a sombra da política contra o assédio sexual. A série mostra bem a posição do homem e da mulher na época, enquanto vende o sonho americano, sem se importarem com o custo disso. Uma época em que beber e fumar muito era essencial aos homens de negócio, o que faz com que o telespectador se sinta deveras incomodado com tanta fumaça e pileques. Uma ótima série sobre pessoas dispostas a tudo para vender um produto.

Na verdade, comecei essa crônica pensando em falar sobre uma série que chegou à sua última temporada, causando pânico nos dependentes dela. Mas assim como as séries que citei antes, essa eu comecei a assistir por outro motivo, e acabei me tornando, ao lado de milhares e milhares de pessoas, uma fã de primeira dela.

Eu soube que o Dave Matthews participou de um episódio de House MD. Como era o episódio 15 da terceira temporada, e eu nunca começo a assistir uma série pelo meio, aluguei desde a primeira temporada. Passei uma semana chegando à minha casa às nove da noite e assistindo episódios da série até as três da madrugada.

House chegará ao fim em maio, e com o saldo mais do que positivo. Hugh Laurie conseguiu construir um personagem complexo, e ainda ser o inglês mais americano que já vi. Mas o ator tem outros talentos, é músico – lançou o CD Let Them Talk, escritor – publicou o romance O Vendedor de Armas , e deseja trabalhar escrevendo, produzindo e dirigindo. Televisão? Cinema? Quem sabe ambos.

House vai fazer falta...


E eu não estou mentindo...



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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

OUVINDO O SILÊNCIO >> Clara Braga

Não sei dizer exatamente como nem quando aconteceu, só sei que de alguma forma chegamos ao ponto onde, como dizia Renato Russo, as pessoas falam demais por não terem nada a dizer. E então começaram a falar tanto, mas tanto mesmo, que as palavras se tornaram pequenas e agora muitas palavras que eram cheias de significado já não são quase nada.

Além das palavras terem se tornado só palavras, o silêncio se tornou um problema. Nós esquecemos como é que se faz para apreciar esses pequenos momentos onde não temos nada a dizer, mas não porque estamos chateados com quem está ao nosso lado, que é o que a maioria pensa, mas sim porque às vezes queremos só apreciar o momento.

Pensei muito nisso depois de ir ao cinema assistir ao filme O Artista. Que filme maravilhoso! Ali sim podemos entender o que significa a palavra expressão. Muitas vezes nos expressaríamos muito melhor e com muito mais sinceridade se parássemos de falar um pouquinho e fizéssemos mais. Dizer que sente saudade de alguém é muito pouco perto de ir fazer uma visita a alguém que você já não vê faz tempo. Dizer parabéns para alguma conquista de outra pessoa não é a mesma coisa que comemorar essa conquista junto com a pessoa. E dizer eu te amo não é a mesma coisa de preparar uma surpresa, de dar flores, escrever uma cartinha, ou várias outras coisas que a gente pode fazer para mostrar para alguém que a ama, em vez de só dizer.

Não vivi a era do cinema mudo, mas já vi alguns filmes, principalmente do Chaplin. Confesso que ir ao cinema para assistir a um filme que foi propositalmente feito em preto e branco, e mudo, em uma era onde tudo explode, tudo faz barulho, todos falam o que sentem sem precisar mostrar que realmente estão sentindo, foi uma experiência muito boa.

No começo, me senti um pouco estranha, em certos momentos eu conseguia ouvir as pessoas mastigando as pipocas, uma barriga roncou, e deu para acompanhar os trailers que passavam na sala ao lado. Mas o filme te prende de uma maneira incrível e me fez realmente refletir, nem sei se a intenção do filme era mesmo te fazer refletir ou deixar alguma lição, mas essa coisa do silêncio que incomoda tanto ficou em mim por uns dias.

E ficou também uma lição. Se você não é muito chegado ao silêncio, mas também quer fugir dessa onda de falar sem dizer nada, arrume outra forma de se expressar, vá sapatear, dançar, cantar, qualquer coisa com a qual você se sinta bem. Mas vamos tentar manter em mente que dizer só com palavras é fácil, muitos dizem para os seus maiores inimigos que os amam com uma facilidade imensa. Difícil é falar com os olhos, com o coração, enfim, com o corpo todo.

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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

PARTO DO CORDEL SEM DOR
>> Albir José Inácio da Silva

(Rabiscos em papel de pão, encontrados nos trapos do homem suicidado na Avenida São João, ao sol das duas da tarde, debaixo de um caminhão.)

Depois do tapa na bunda
ninguém nunca me avisou
por pena nem por amor
que da vida eu mereceria
didático espancamento
ensino em forma de dor.

Na dor do primeiro ar
por pena ou por amor
ninguém pôde me falar
que pela vida afora
doía pra respirar.
Asma, ronco e suspiro
é nisso que se resume
minha função pulmonar.

Por pena ou por amor
esqueceram de me contar
que quando a dor vai embora
tá doidinha pra voltar.

Por pena ou por amor
deixaram de me dizer
quando me consolaram
do grito que me assustou
que a partir daquela hora
comigo gritariam só
para domesticar melhor.

No primeiro chifre que tive
por amor ou por dó
disseram pra relaxar
que a culpa era da vadia
eu tinha que me aprumar.
Depois, a boca pequena,
puseram-se a me insultar:
- Bem feito praquele corno,
merece o que a vida dá!

Quando numa confusão
acabei levando tiro
correram pra me dizer
por pena ou por amor:
- Coragem, tu vai viver!
mas quando recuperei
gritaram já corrigido:
-safado, tu inda tá vivo?

Por pena ou por amor,
falaram do paraíso
que muito me interessou
mas eu nunca me esqueço
que por amor ou por pena
muita gente me enganou.

Por mais uma gentileza
ninguém me revelou
mas eu cheguei na certeza:
nasci sem saber pra quê,
vivi sem saber pra quem,
ninguém me segura aqui.
E como eu tenho por sina
doer de que jeito for
não ligo mais pra essa vida
ao partir, parto sem pena
ao partir, parto sem dor.

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domingo, 12 de fevereiro de 2012

RECEITA DE JUNTAR CABEÇAS
>> Eduardo Loureiro Jr.

"Porque a cabeça da gente é uma só, 
e as coisas que há e que estão para haver 
são demais de muitas, muito maiores diferentes."
(Guimarães Rosa)

Costuma-se dizer que duas cabeças pensam melhor do que uma. Poucos discordariam. E três pensam melhor do que duas? Quatro melhor do que três? Dez melhor do que nove? Poucos concordariam. E, ainda assim, deve ser verdade. O problema é que é mais fácil administrar duas do que dez cabeças.

Nesse final de semana, eu estava incumbido de fazer dezessete cabeças pensarem melhor do que cada uma. Cabeças de escritores, o que é mais complicado. Porque cabeça de escritor já não é cabeça de um só, é cachola povoada de não sei quantos personagens cada uma. Enfim, uma tarefa impossível, daquelas a que a gente se entrega por mero desencargo de consciência, apenas para dizer, ao final, "fiz o que pude, não deu certo, paciência".

Mas, surpreendentemente, deu certo. E agora sinto necessidade de deixar registrado para, caso eu precise repetir a façanha no futuro, já tenha a receita anotada em algum lugar — aqui, bem na frente de vocês.

O primeiro ingrediente é o tempo. É preciso horas aos montes para juntar cabeças. Uma hora para cada cabeça está de bom tamanho.

Depois é preciso desembalar e abrir cada cabeça. Deixar que cada uma fale à vontade, embora não ao mesmo tempo. Uma pitada de ordem — ou até mesmo uma colher de sopa dela — é essencial. Uma cabeça precisa colocar todos os seus pensamentos para fora; depois, outra cabeça; em seguida, uma terceira. Lá pela décima cabeça, talvez a primeira, ou a segunda, queira expor uns pensamentos novos ou esquecidos. Há que se ter paciência para remover as embalagens dos pensamentos. Umas são de plástico, outras de isopor, outras de vidro, outras de papel. Todas geralmente frágeis, ainda mais em se tratando de escritores. A embalagem — que vai mesmo para o lixo, para a reciclagem — pode até sofrer algum dano, mas é importante que se conserve o conteúdo dos ingredientes. Não há como fazer omelete sem quebrar os ovos, diz o ditado, mas é importante se certificar de que pedacinhos de casca de ovo não ficarão grudados na gema ou na clara. Essa preparação é a parte da receita que toma mais tempo, e não deve ter hora para acabar. Se tiver que tomar todo o tempo, que tome; nem que se tenha que guardar, na geladeira, os ingredientes previamente tratados para uso posterior.

Depois dessa fase, é preciso um descanso: vinho, água, almofadas, penumbra, conversa, brincadeira. As cabeças foram muito exigidas na primeira etapa, e é preciso relaxar um pouco o juízo. Uma boa dose de besteirol pode ser o mais justo tempero da receita, principalmente se seguido de uma noite de sono.

No tempo que resta, é preciso fazer o ajuntamento propriamente dito das cabeças. Fala-se menos nessa fase. Os pensamentos precisam ser expressos não pela fala. Palavras devem ser usadas tão parcimoniosamente quanto pimenta vermelha. Melhor mesmo apelar para as cores: pensamentos menos relevantes devem ficar invisíveis; pensamentos importantes em verde-limão; pensamentos essenciais em laranja. Pode-se colar os pensamentos de cada cabeça na parede, agrupando-os por afinidade. Com isso, a tensão passa e é até divertido ver as cabeças atônitas diante da combinação de seus pensamentos na parede. O pensamento de cada pessoa não está mais isolado, misturou-se. A gente pode até ser tentado a "despensar" o que pensou, ou então a dizer que o grupo pensa isso e aquilo, mas contra cores na parede não há argumentos. O pensamento do grupo está escandalosamente evidente em verde-limão e laranja.

Por fim, como de toda receita que se preza, é preciso provar, beber, comer. Há que se colocar para dentro o pensamento que a princípio se colocou para fora. Mas cada cabeça não traz para dentro de si apenas seus próprios pensamentos anteriormente expressos. O pensamento que volta é o pensamento combinado de tantas outras pessoas. E, como escreveu Guimarães Rosa, "a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total".



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sábado, 11 de fevereiro de 2012

FRACASSOS, ERROS, AMOR... [Debora Bottcher]

"O amor precisa de sorte! Para que o encontro no tempo seja convergente..." (Danielle Aranda)

Andei pensando sobre fracasso. É que, percebo, diariamente a gente acaba por conviver com ele - especialmente quando esquecemos que a vida tem um estranho poder de transformar nossas necessidades e a faculdade natural de mudar a aparência das coisas. Vou constatando que nada é o que parece ser e que é no oculto de tudo que a verdade se esconde.

Há algum tempo, prometi a mim mesma que cometeria apenas erros verdadeiros. Erros verdadeiros são falhas genuínas, escolhas que, examinando o passado com o conhecimento de agora, admitimos não terem sido as melhores. Não que eu não tenha cometido muitos erros verdadeiros antes desse pensamento: eu cometi erros demais. Mas é mais fácil conviver com os erros praticados por inexperiência ou falta de informação, do que com os que se comete tentando rever os julgamentos iniciais.

Não é raro vermos um erro surgindo e nos colocarmos contra nós mesmos. Talvez nos falte coragem para agir sempre de acordo com nossa intuição, ou quem sabe se, eventualmente, nossos fantasmas não nos deixam ver o que, muitas vezes, está exposto, sem qualquer sombra. Intuições podem falhar, claro - nem sempre estamos tão abertos às vozes do coração. Mas o que estou tentando dizer é que tomar uma decisão errada agindo segundo uma vaga intuição, é um erro verdadeiro, com o qual se pode conviver mais facilmente. Deixar de agir de acordo com o que se sabe, da melhor maneira que se pode, é que é difícil de engolir...

Algumas pessoas estão todo o tempo negando o fracasso - que acontece, a meu ver, cotidianamente. O problema é que ao negarmos nossos erros, nos tolhemos de aprendizado. É difícil lidar com nosso ego perfeccionista - é nossa vaidade: detestamos parecer estúpidos.

Ao longo da brevidade da minha vida, percebi que alguns erros - meus ou alheios - desencadearam em acontecimentos felizes. Nem sempre (como é de se esperar) essa magia impera, mas acontece. E nessas ocasiões eu penso que se o Divino - como cada um O entenda - interfere em nossas vidas com algum objetivo, independe de nossas escolhas - boas ou más -, agindo através delas.

Fato é que não é possível viver plenamente e evitar desacertos. Podemos minimizar a dor da exposição de nossas falhas, limitando nossas vidas ao que já conhecemos. Mas não devíamos esquecer que admitir nossas imperfeições significa, em primeiro lugar, reconhecer onde ferimos os outros ou a nós mesmos - e reparar esses danos sempre que possível. Não é fácil trabalhar com essa responsabilidade sem nos sentirmos envergonhados e culpados, mas nosso fracasso em aceitar e entender as restrições pessoais pode nos levar a erros ainda maiores.

Temos medo de que nossos erros nos impeçam de sermos amados. Mas o amor não se conquista. O modo como tratamos os outros naturalmente afeta nossos relacionamentos, mas o amor é maior do que o que fazemos. Já sabemos: devemos amar as pessoas pelo que elas são, e nunca porque nos conquistam com suas atitudes - e é assim que devemos esperar sermos amados. Isso não é uma licença para tratarmos mal a quem nos ama, mas ajuda a nos livrar da exaustiva rotina de agradar os outros, tentando ser o que achamos que eles querem que sejamos, numa tentativa de merecer o seu amor.

O erro com que tenho mais dificuldade de conviver é o que cometi por não ter tido coragem de deixar o amor me levar aonde ele queria. E esse erro não pode ser corrigido. Ele exige que eu me submeta ao que é maior do que eu, que me disponha a ir adiante - onde tenho medo de errar. Muitas vezes, a vontade de se livrar de algumas coisas não basta. Então concluo que precisarei ser amada com os meus erros porque, infelizmente, apesar da minha disposição e desejo, ainda não aprendi de perfeição...


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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

VOLTAR >> Fernanda Pinho



O senso comum não se engana. É em fevereiro que o ano começa no Brasil. Quando as escolas retomam suas atividades, obrigando filhos (e pais) a deixarem a praia, o sítio ou umas horinhas a mais de sono para retomar as atividades. Os estudantes voltam a colorir as ruas com seus uniformes, o moço do sorvete da porta do colégio volta a faturar e as ruas que abrigam escolas voltam a se tornar um caminho inviável nos horários de entrada e saída. Um movimento incrivelmente insuportável e delicioso.

Faz sete anos que terminei a faculdade e não cumpro mais com obrigações escolares, mas ainda não me esqueci quão insuportável era acordar cedo para ir para a aula. Quanto ao "delicioso", não pense que acrescentei esse predicado só agora, como uma saudosista boba que não aproveitou as coisas na hora certa. Eu tive consciência do quanto era bom voltar às aulas em toda a minha vida estudantil. Era tão bom que eu até achava que as férias nem precisavam durar tanto assim. Dois meses para descansar de quê exatamente?

Minha vida era tão tranquila durante o ano letivo. Se resumia a basicamente prestar a atenção nas aulas durante a manhã e curtir bastante o ócio durante a tarde. Aliás, como não tinha Facebook naquela época, gostaria muito de me lembrar como eu gastava meu tempo. Realmente não me lembro. Possivelmente sendo muito mais inútil que meu contemporâneo Mark Zuckerberg que deve ter sido um estudante hiperativo empenhado em bolar alguma ferramenta para ganhar dinheiro às custas do ócio alheio. Assunto para uma próxima crônica, voltemos à volta às aulas.

Sem ter do que descansar, assim que eu voltava da praia, lá para meados de janeiro, já começava a me envolver com aquele clima. Sair para comprar os materiais escolares era um evento. Adorava quando meus pais me levavam numa papelaria chamada Bakana. Eu adorava a Bakana e foi por causa dela que descobri a existência da letra "K". Lá vendia de tudo. Os livros, os cadernos e aqueles estojos estilo MacGyver, que você apertava um botão e acionava tesoura, régua, compasso, transferidos, pen-drive... Quer dizer. Ainda não tinha pen-drive, mas hoje em dia deve ter.

Ao chegar em casa, começava o namoro com os materiais. Enquanto minha mãe encapava afetuosamente todos os cadernos com o clássico plástico xadrez vermelho e branco, eu me ocupava em organizar os lápis de cor e em sentir o cheiro dos livros até enjoar. Na véspera do primeiro dia de aula, a mochila era impecavelmente organizada com a promessa, jamais cumprida, de que seria assim o ano todo.

Naquela noite, eu mal dormia de ansiedade. Quem serão meus novos professores? Estarei na mesma turma que minhas amigas? Será que alguém tomou bomba? E se tiver algum novato bonitinho? Vão gostar do meu novo visual? Sim, porque era importante exibir alguma novidade na volta às aulas. Um bronzeado ou um tererê adquiridos na praia. Um novo corte ou uma mechinha no cabelo. Ou mesmo uma roupa legal, porque no primeiro dia até ir sem uniforme era permitido. Os reencontros, as novidades, as fofocas, a disposição. Tudo era uma delícia, até se tornar uma rotina insuportável. Mas não insuportável o bastante para me poupar de uma grande saudade nessa época do ano.

______________________

Este texto é dedicado à minha mãe que, durante os últimos 25 anos, acordou cedo todos os dias do ano letivo para mandar uma das filhas para a escola e agora, com a formatura da filha caçula, está livre desse martírio, sempre cumprido com muito amor.

Imagem: www.sxc.hu 


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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

EU MESMA, PRAZER! >> Carla Dias >>

Sr. Nilson é professor de matemática. No primeiro dia de aula, deixou bem claro, arqueando as grossas sobrancelhas, que não permitiria que os alunos o chamassem “Sr. Wilson” ou “Sr. Nelson”. As crianças arregalaram olhos para o homem severo, vestido em panos simples, mas impecavelmente lavados e passados. A partir daí, dizer o nome do professor se tornou uma jornada perigosa, porque vai que ele decide aplicar castigo tão severo quanto o seu olhar!

O parágrafo acima mistura um tantinho de ficção com a realidade da minha sobrinha, a quem prometi ligar para saber como foi o primeiro dia de aula de 2012. A primeira coisa que ela me contou foi sobre o professor que não queria que o chamassem por outro nome que não o dele, e a forma como ela expôs a questão me levou a imaginar como seria se eu fosse um dos alunos e errasse o nome do Sr. Nilson, porque está bem claro que isso o enerva um tanto.

Neste ponto da crônica, sou obrigada a confessar que sou péssima com nomes. Já pensei em ter problema sério nesse quesito, em precisar tomar remédio, porque eu troco até os nomes de pessoas com quem convivo. Há quem diga que é pura distração, mas não é que eu desconheça a pessoa. É capaz de eu saber a data do nascimento do gatinho mais novo da ninhada que a pessoa adotou, e ainda trocar o nome dela.

A forma que encontrei de ligar o nome à pessoa e garantir que não comecem a achar que é desleixo diplomático, foi me lembrar do que é mais fácil para mim: as histórias que elas me contam, pessoais ou profissionais. É como se o nome deles fossem títulos, sabe? Exemplo: a moça que encontro, uma vez por ano, em um evento de música, é a Leila, aquela que faz brigadeiro para vender para a família que é “enooooorme”, e assim espera fazer fortuna. E o Marquinhos, aquele que gosta de colecionar manchetes de jornal do primeiro dia do ano. Ele tem um scrapbook que guarda quase uma década de manchetes.

Há o outro lado da moeda, a outra metade da laranja, o ponto de vista alheio. Desde que me conheço por gente as pessoas trocam o meu nome. Talvez eu não tenha cara de Carla mesmo, pois essa é a desculpa que sempre me dão. O acontecimento é tão constante que, em alguns lugares que frequento, eu parei de corrigir. Sendo assim, sou Marta, Claudia ou, e principalmente, Sandra. Definitivamente, para a maioria o meu nome deveria ser Sandra. A atendente da locadora de vídeos que frequento há quase dez anos aprendeu a me chamar de Carla no ano passado. Demorei a atender por Carla quando ela me chamava. Naquele lugar, eu fui Sandra por muito tempo.

A única diferença entre mim e a maioria das minhas vítimas da troca de nome, e o Sr. Nilson é que eu realmente não me importo. Obviamente, eu adoraria que aquela pessoa que admiro muito, um ídolo até, lembrasse do meu nome. Neste caso, também do sobrenome, para que ele pudesse encontrar meu e-mail no planeta virtual e me escrever, de vez em quando. E seria perfeito se aquele moço, para quem ando lançando poesia no papel, soubesse que o meu nome é o meu nome mesmo. E para os registros, claro, porque ninguém merece ter nome trocado em documento.

Sem contar que, com tantas opções, não há como não me imaginar Claudia: a louca por sorvete em dia de frio. Márcia: a chorona que se emociona com filmes baseados nas obras de Jane Austen. Sandra: a louca por filmes e séries de tevê. Carla: todas as anteriormente citadas, mais algumas outras.




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terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

DEEM UMA CHANCE AOS LIVROS
>> Clara Braga

Lá estava eu, lendo as crônicas que gosto de ler, quando me deparei com uma que falava muito bem a respeito do livro Precisamos falar sobre o Kevin.

Fui pesquisar sobre esse livro de que eu nunca tinha ouvido falar antes, a tal crônica realmente me deixou curiosa. Pareceu-me um livro interessante. Procurei em uma livraria, não tinham o livro. Um tempo depois, procurei em outra livraria, mais uma vez não tinham o livro.

Bom, com tantos outros livros bons para se ler nesse mundo, resolvi desistir desse tal de Kevin, até parecia que ele estava se fazendo de difícil pra mim.

Alguns dias depois, fui dar uma olhada em alguns filmes que iam estrear para já fazer minha listinha de filmes para assistir antes da entrega do Oscar. Sim, eu sou esse tipo de pessoa que tenta assistir à maioria dos filmes que estão concorrendo à premiação, para não ficar de fora, mas quando chega o dia de ver durmo igual pedra, nunca consegui assistir a uma premiação até o final. Mas isso não vem ao caso, a questão é que, dentre os filmes que iriam estrear, lá estava o Kevin.

Isso só aguçou mais ainda minha curiosidade. Não era possível, isso só podia ser um sinal. Lá fui eu atrás do livro novamente, até porque eu não gosto de ver o filme antes de ler o livro, acho que a surpresa é sempre maior lendo o livro, afinal, você leva alguns dias lendo, se questionando sobre o que vai acontecer depois, criando hipóteses, se surpreendendo a cada página. Já no filme não, todo esse processo de criar hipóteses, de se envolver no filme e de se surpreender com a resolução das coisas acontece naquelas aproximadas duas horas que o filme tem e pronto, acabou, hora de ir para casa.

Para minha surpresa, na minha terceira tentativa, lá estava o livro. Finalmente! Comecei a ler, superempolgada e... não gostei. Achei tudo muito doido, não é possível que fosse daquele jeito... Passei da metade do livro achando que a qualquer momento iria acontecer alguma coisa que iria mudar tudo e eu iria ficar vidrada no livro, mas até então nada.

Resolvi então fazer uma coisa que eu nunca havia feito antes, assistir o filme sem terminar o livro. E hoje estou aqui para pedir a vocês que não cometam o mesmo erro que eu. Que arrependimento! O livro realmente iria dar a volta por cima e me surpreender, mas eu não dei a ele a chance de fazer isso... Não desistam de livros que todos elogiam, eles sempre podem te surpreender nem que seja na última página.

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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

QUERIDO DEUS >> Kika Coutinho

Querido Deus,

Eu sei, eu sei. Eu dizia que só queria ter um bebê, que nunca mais ia pedir nada, eu jurava que só precisava ter uma criança saudável e pronto, não precisaria de mais nada e pararia de pedir coisas nas minhas insistentes orações. Eu sei disso, não esqueci.

Acontece que, agora que o Senhor me concedeu a bênção dessa criança saudável, e depois de outra, vi que ficou impossível parar de pedir. Eu não sabia que os pedidos estariam só começando, mas aposto que o Senhor, o Senhor, sim, Deus, o Senhor sabia bem, não é?

Porque ter filhos é ter um vínculo com Deus, nunca mais desfeito. Um vínculo, aliás, com Deus, com Nossa Senhora e com algum santo. Quem não tem apego a santo nenhum, aposto que terá depois da maternidade. Porque depois que temos filhos o amor é tão grande que, sinto muito, só as babás, as avós, as tias, as professoras, o pai, só esse pessoal daqui, desse mundo, é muito pouco, pouquíssimo, pra dar conta.

Precisamos mesmo de ajuda e vou ter de quebrar a minha promessa e continuar a pedir. Coisa pouca, tá?, já que mais tenho a agradecer, e não me canso de fazê-lo, o senhor sabe bem. Mas, veja, uma ou outra ajudinha, vou ter que pedir. Perdoe, sim?

Além de saúde que, claro, é o primeiro, primeiríssimo, e até o único pedido se só puder ter um, mas, podendo ter outros, posso pedir que minhas filhas sejam alegres, sempre? É que, sabe Deus, é tão boa essa gargalhada, esse sorriso, esses dias claros, que preciso pedir mesmo que esse som, essa risada que parece ecoar em todo mundo, dure para sempre no meu ouvido. Será que pode ser? Além disso, posso pedir que sejam generosas também? Ando me esforçando muito para ensiná-las. A Sofia, veja só, eu sempre faço com que divida o baldinho de areia, empreste a bolha de sabão ou meie o chocolate. Sempre. O Senhor, que tudo vê, não deve ter perdido nenhuma dessas minhas batalhas. Então, claro, acho que mereço essa bênção, não é? Nos dias de hoje, criar alguém generoso é tudo o que se quer, né? Se for espertinha, inteligente, também não vou achar ruim não, mas, sendo muita coisa, fico com a generosidade mesmo. De resto, nem precisam ter cabelos lisos, corpos esguios, nada disso, mas que sejam bem resolvidas e fortes, estruturadas emocionalmente para lidar com as diferenças, com as pressões chatíssimas das capas de revistas. Que saibam o valor das coisas, isso eu queria também. Acha que dá pra encaixar?

Veja, Deus, são desejos bons, para ajudar na melhoria do mundo, esse mundão aí de meu Deus, o Senhor mesmo, então, deve de achar bom, vai? Não que eu não tenha desejos um pouco mais egoístas e menos nobres, até tenho. Claro que adoraria que elas não sofressem nenhum tipo de bullying e que não precisassem de óculos, nem de aparelho nos dentes, e que gostassem de esportes e de saladas, isso facilitaria um bocado as coisas, é verdade. Também, desculpe dizer, mas não seria nada mau se todas as festinhas de aniversário delas fossem ótimas, que elas nunca fossem esquecidas pelo menos pelas melhores amigas, e, claro, se fizer sol, sempre melhor, né? Ai, mas já que tô criando coragem pra pedir, então gostaria também que elas não fossem respondonas na adolescência, que fizessem mais o “tipo família”, sabe? Teriam boas amizades, quem sabe prefeririam um cinema à tarde, comigo, olha que coisa, que pedido ousado, mal tenho coragem de fazer, mas, quem sabe, o Senhor permita que elas não gostem muito de baladas, ou, se gostarem, então só, por favor, providencie dois anjos da guarda, dos bons, pra cada uma. Seriam quatro no total, sei que não é pouco, mas é que a gente mora em São Paulo e vê cada coisa horrível na televisão. Se eu tiver certeza que o Senhor estará sempre por perto, fico tranqüila. Preciso pedir isso também, ainda que falte mais de 10 anos para a adolescência? Vou pedindo todos os dias, sem cessar, o Senhor há de me entender, não é?

E, bom, na piscina também tem de ficar mais perto ainda, que tenho um medo danado. Essa coisa de borda de piscina, ou de água que não dá pé, não gosto nem de pensar. Também tenho um pouco de preocupação com bicicletas, com escada rolante, até sem ser rolante tenho medo, sabe? Ai, Senhor, pode antecipar os anjos?

Tá bom, tá bom. Não peço mais nada, nadinha. Só saúde, já tá de bom tamanho. E vida longa, claro. Até os 120 pra mim e pro meu marido. A medicina avançando tanto, sei que já o Seu dedo me atendendo. E, pra elas, até os 90 tá ótimo. Ups, errei na conta. O certo é 121 para nós, e 92 para elas. Pronto, assim fica garantido que elas me enterrem. Essa é a lei certa mesmo né? Não to pedindo demais. Tô?

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domingo, 5 de fevereiro de 2012

A TROCA >> Whisner Fraga

Meu pai foi me buscar no Polivalente naquele dia. Talvez tivesse saído mais cedo do trabalho e precisasse espairecer, não sei. É que ele não tinha esse hábito de me pegar na saída da aula, por isso que estranhei. Então, ele estacionou o Fusca em frente à escola e desceu e ficou perto do portão principal. Quando cheguei à calçada, ele disse “oi” e apontou para o carro. Seguimos, calados. Aí tentou encaixar a chave na fechadura da porta e não conseguiu. Examinou o objeto em sua mão, estava tudo certo. Tentou novamente. Nada. Percebi que ele começava a suar. “Pronto, hoje é meu dia”, ele falou, um pouco decepcionado, quase nervoso. Achei que devia continuar em silêncio. Aí eu olhei para baixo, depois para a esquerda. Quando me virei para o lado, então, eu vi outro Fusca. Branco, como o nosso. Tinha um farol parecido, o mesmo para-choque, as mesmas calotas. Comecei a rir. Acho que no fundo isso irritou um pouco meu pai, mas ele tentou ficar calmo e me perguntou, ríspido: “O que foi?” Eu apontei o outro veículo. Então rimos juntos. Aquilo fez com que a manhã dele melhorasse e a minha também.

Há poucos dias me aconteceu algo parecido aqui. Minha esposa estava dirigindo e eu ia no banco de trás, com Helena. Estacionamos em uma farmácia e Ana desceu. À direita tinha um carro parado, igualzinho ao nosso. Não dei bola, continuei brincando com Helena. Nem prestava atenção ao que acontecia lá fora. Nosso carro estava aberto, com os vidros levantados, mas Ana não o trancara. Ouvi um barulho de alarme sendo desligado, mas continuei quieto. De repente, uma mulher entra no carro e coloca a mão esquerda no volante. Com a direita tenta inserir a chave na ignição. A gente tem de pensar muito rápido. A primeira coisa que fiz foi ter certeza que não era a Ana. Pronto, aquele cabelo certamente não era dela. Aquela roupa, os braços, nada.

Calmamente, toquei os ombros da mulher e a adverti: “Oi, moça, acho que você entrou no carro errado.” Ela entrou em pânico, soltou um grito que assustou Helena, que começou a chorar. Ela deve ter pensado que tinha um assaltante no banco traseiro do seu Gol. Um assaltante com uma criança? Sei lá, acho que as pessoas não conseguem raciocinar direito quando estão assustadas. Fiquei na minha, esperando ela se acalmar. Achei que nada do que argumentasse a ajudaria. Ela foi se recuperando, um tanto embaraçada.

Comecei a rir e ela foi se desculpando, que estava envergonhada, que aquilo nunca tinha acontecido com ela, que ela não sabia onde enfiar a cara, que o nosso carro era igualzinho ao dela e assim por diante. E foi saindo do banco do motorista, ainda se explicando. Chegou até o Gol dela, que já havia aberto com o controle remoto do alarme que eu ouvira mais cedo sendo desligado. Ficou lá, sentada, talvez se recuperando do susto. Então Ana chega com as compras e toma o seu lugar no assento da frente. Conto a história para ela, quase sem fôlego, em meio a gargalhadas. Rimos tanto que Helena se assustou novamente e de novo começou a chorar. Duas esquinas depois e já dormia, tranquila, um anjo. Depois dessa, chegamos à conclusão que é melhor trancarmos sempre o carro, mesmo com alguém dentro dele.



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COLO DE MÃE >> Eduardo Loureiro Jr.

Ah, caro leitor, gostaria de escrever uma crônica que, para ti, fosse como um pesadelo. Que te levasse à infância, ao encontro de teus amiguinhos mais queridos, aqueles capazes de ter dar as maiores menores alegrias e os menores maiores desprazeres. Que te pegasse assim desprevenido em meio a um jogo, uma brincadeira, e te cutucasse a ferida com frases certeiras, daquelas que saem rápidas de alheias línguas afiadas e ficam engasgadas eternamente em tua garganta. Que te deixasse assim sem pé nem cabeça, só coração. Que te paralisasse, que te desmemoriasse, que te batesse, espancasse, mais de 160 vezes por minuto. Que te fizesse esperar, medroso e silente, a poeira baixar só um pouco, e te fizesse vagar, passos lentos, mal despregados do chão, por quarto e sala e quintal e varanda com os olhos afundados na terra.

Ah, caro leitor, gostaria de escrever uma crônica que, dentro da crônica, fosse para ti um chamado, a princípio apenas um fraco sussurro diante de tua surdez ensimesmada. Que pronunciasse teu nome com a doçura do apelido de infância. Que te entrasse nos ouvidos feito o mar que se desentranha da concha, para tua surpresa. Que te fizesse levantar os olhos, embora a cabeça estivesse ainda baixa. Que te levasse a virar levemente o rosto, embora o corpo ainda estivesse arqueado. Que te permitisse reconhecer a voz, ao mesmo tempo em que o vulto, de tua mãe. Que te dissesse, triste contigo, mas com um pequeno sorriso daqueles que guardam uma ou duas surpresas nas dobras do vestido: "Vem aqui para o meu colo".

Ah, caro leitor, gostaria de escrever uma crônica que, nascida da crônica, fosse para ti um sonho, mesmo que a princípio distante. Que duvidasses, mas não muito. Que aprumasses teu corpo com alguma esperança. Que desses pequenos passos na direção do olhar que continuaria te chamando. Que te desse força, mas que te amolecesse os pensamentos, a garganta, o coração. Que te fizesse chegar até o cheiro que tão bem conheces. Que te fizesse balançar e cair suavemente, em câmera lenta, sem gravidade, como uma folha que pousa, cansada de tanta secura, no chão de um pátio. Que te fizesse caber do lado de fora de um corpo dentro do qual já coubeste. Que te aconchegasse num abraço que só pode ser para sempre. E que te fizesse chorar por todos os teus pesadelos não chorados.

Ah, caro leitor, gostaria de escrever uma crônica que te acordasse, ainda soluçando. E que te fizesse dizer, sem palavras mas com o corpo todo: "Obrigado, minha mãe. Muito obrigado.".

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sábado, 4 de fevereiro de 2012

MEU CORAÇÃO SERÁ SEMPRE
UMA DE SUAS CASAS
>> Maria Rachel Oliveira

Parece que foi ontem que ela era pequena e ainda precisava que eu arrumasse seus livros, conferisse seu dever de casa e a levasse até a escola. Pois esse ano, Maria filha debutou no que chamávamos outrora de segundo grau – que hoje, se não me engano, atende pelo nome de “ensino médio”. E independente que só, lá vai ela às 7h da manhã – antes mesmo de eu acordar – linda, magra e esperançosa por mais um dia de colégio. Pressuponho – como pressuporíamos todos – que mais ansiosa pelos encontros, pelos convites pra festas e pelas novidades reunidas do que pelo conteúdo das aulas. Atire a primeira pedra quem acordava às 6h da manhã pra fazer escova e ficar bonita por conta da aula de história.

Como são gostosos esses três anos e como passam rápido! Entre o primeiro e o último são tantas químicas, tantas festas, tantas histórias, tantas emoções e tanta física... que num instantinho já temos que escolher o que pensamos querer fazer do resto da vida e meter a cara pra estudar pro vestibular.

Quantos grandes amores, quantas decisões seriíssimas, quantos beijos memoráveis, quantas brigas pra sempre e quantas fossas, fossas!, esperam por ela nesses pouco mais de mil e um dias? Das minhas lembro de uma em particular: como me achava incapaz de conquistar um determinado garoto, sofri por antecipação ouvindo sem parar “The Winner Takes it All” num cassete – rewind e play, feito TOC - e chorando como se descascasse quilos de cebola. Doeu tanto, tanto... e num período de aproximados quinze dias eu estava namorando o tal moleque. Tudo tão intenso, tão rápido e tão... pouco definitivo. E, ainda assim, tem horas que parece a morte.

Quando caiu a ficha, em termos anciãos, “ela já está no segundo grau”, eu perdi a respiração. Acho que por uma mistura de apreensão com um pouquinho inveja. Como dói tanto e como é tão bom – tudo - nessa fase pela qual a grande maioria de nós já passou, não é?

E mais outra: alguém aí já teve notícia de moça que chegasse virgem à faculdade? Xis na coluna das apreensões. Me pergunto todo o tempo: será que eu já informei e conversei o suficiente? É digno torcer para que a moça só desafie a lei da física fazendo com que dois corpos ocupem o mesmo espaço quando houver amor? Será que já aconteceu e eu não sei? (desmaio) Sou é uma quadrada dos infernos, isso sim! Melhor que aconteça do jeito dela, seja esse qual for. Tive uma primeira vez aos 17, no segundo ano, com um namorado que foi muito importante na minha vida - e, coisa que agora mãe enxerga, ufa!, usamos camisinha. E aquela sensação de fazer sexo com amor pela primeira vez? Céu, céu, céu! Alguma coisa pra comparar com isso? Nada. Ter um filho é um tamanhão de emoção equivalente, mas é completamente diferente e não dá pra pôr na mesma balança. E, ainda que ela seja desencanada dessas caretices românticas, em breve, em algum momento, esses dois irão se encontrar...

Claro, espero também que ela não odeie tanto as chamadas ciências exatas quanto eu. Ô coisa chata. E três anos desses assuntos levados a sério, ninguém, ninguém mesmo!, merece. E os amigos? Que encontros ela terá nesses anos que possam se transformar em companheiros pra vida toda? Quem ainda vai estar por perto quando eu for velhinha e visitar os meus netos? Que matérias ela vai escolher pra matar aula? Ah, e que ela não me ouça!, como é bom e perigoso matar aula!

Por outro lado, já tô com sono só em pensar quantas noites não irei dormir, de novo, quando ela demorar a chegar em casa da “balada” ou quando precisar fazer hora pra busca-la às 4h da manhã naquela casa de festas que fica um pouco depois da rua em que Judas perdeu as botas.

Como mãe ou como pai a gente sempre tenta fazer do jeito certo. Tenta equilibrar o colo e o direito dos filhos à privacidade. Mas onde tem um termômetro que meça nossas doses? Sei que me sinto como quando a segurei pela primeira vez nos braços! E agora, José?

O jeito é aprender enquanto vai se vivendo. E torcendo. Porque, ahhh... quantos futuros possíveis trazem essas mil e uma noites que vêm pela frente dela! Que sejam mágicas, como os dias, feito conto de fadas.

Mães, mães. Somos ridículas, não é? Depois daquele primeiro dia de adaptação na creche – em que eu chorava enquanto ela se entretinha felicíssima com os coleguinhas – chegamos a uma segunda despedida no nosso caminho, ela e eu. Que o dela seja bom. E dedos cruzados para que ela sempre saiba que meu coração sempre será uma das suas casas.

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