terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O PODER DAS PALAVRAS >> Clara Braga

Poucas palavras para muito significado, era assim que às vezes eu me sentia em relação a nossa querida língua portuguesa. Não que ela tenha poucas palavras, porque de fato ela não tem, mas vocês já tiveram a impressão de que às vezes não basta, durante uma conversa, falar as palavras em suas devidas posições para a frase fazer sentido? Às vezes temos que explicar o que aquela palavra significa dentro daquele exato contexto para não haver confusão.

E isso é porque eu estou falando de conversas cara a cara, aquelas que estão se tornando cada vez mais raras, onde as pessoas se encontram, olham umas nos olhos das outras e realmente conversam. Imaginem se formos pensar nas conversas pelos talks da vida, aí sim o problema fica grande, você não vê o rosto da pessoa, não escuta o tom de voz e então pode acabar achando que ela está brigando com você enquanto ela está apenas contando uma piada.

Mas na verdade, pensando bem no assunto, o menor dos problemas é quando alguém diz que gosta muito de salmão, por exemplo, e esquece que para uns salmão é aquele peixe delicioso, principalmente quando está cru, e para outros é aquela cor um pouquinho sem graça. O problema real é quando a gente distorce o sentido da palavra e acaba complicando a nossa vida toda.

Você deve estar achando isso um pouco doido demai,s né? Eu também achei quando comecei a pensar sobre essa crônica, mas vou dar uns dois exemplos para ver se essa história de palavras com sentido distorcido que complicam nossa vida passa a fazer um pouco mais de sentido.

Uma palavra que me intriga muito é a tal da "liberdade". Por que temos sempre que entender a liberdade como algo infinito, algo que nos permita ser tão egoístas que possamos fazer exatamente o que quisermos sem nunca passar pelas consequências dos nossos atos? O motivo de escutarmos sempre que liberdade não existe é exatamente esse conceito totalmente abstrato que inventamos, e complicamos tudo. Se pudéssemos simplesmente aceitar que liberdade nada mais é do que algo finito, que acaba quando a do próximo começa, e que se de alguma forma nós passarmos por cima da liberdade do outro nós vamos ter consequências que muitas vezes não são legais, tudo seria mais fácil.

Outra palavra que complica tudo é a palavra "certa" quando aplicada na seguinte frase: “Quero achar a pessoa certa”. E então tudo que ouvimos é que a pessoa certa não existe. Enquanto entendermos como certa uma pessoa perfeita, que nunca erra, que não tem defeitos nem nada, então realmente a pessoa certa não existe, porque certo no nosso mundinho é ser errado. Todos somos certos se estamos dispostos a aprender com nossos erros, e encontramos a tal pessoa certa quando ela também está disposta a aprender junto com a gente.

Pronto, as coisas podem ser mais simples, basta não complicar o significado delas, liberdade existe e a pessoa certa, amigos, podem acreditar, vai aparecer!

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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

PAZ E AMOR >> Albir José Inácio da Silva

– Paz e amor – ele disse.

Sentada no meio dos escombros ainda fumegantes, Tereza levantou a cabeça mas continuou de costas.

Luiz não sorria, mas sua voz era firme, sugerindo uma tranquilidade reforçada ainda pelos dois dedos levantados na saudação hippie.

Hippie que só agora conseguia ser, embora intimamente sempre o tivesse sido. Acreditava nos cabelos e barbas, nas comunidades, em sexo, drogas e rock’n’roll. Acreditava na paz e na contemplação.

No ano anterior devorou revistas e jornais sobre Woodstock, três dias e três noites no paraíso. Isso sim é que era vida. No Brasil os jovens só queriam saber de apanhar da polícia, fazer greve, ser torturados, sequestrar. Onde estava o amor? Onde o “make love, not war” que se gritava na Europa e nos Estados Unidos?

O problema é que ele era bancário. Nem jeans desbotado e camiseta podia usar. E ainda havia a maldita gravata, que ele colocava e tirava na frente do porteiro “e de quem mais quisesse ver”, numa rebeldia a que ninguém prestava atenção. Porque eram poucas as rebeldias a que tinha direito. Ainda mais depois do AI-5. Qualquer caminhada em grupo de madrugada podia ser confundida com subversão.

Tereza, ao contrário dele, até que conseguiu sentir o gostinho da liberdade. Estudante, jeans, camiseta, maconhazinha pra relaxar, sexo mais ou menos livre, mais ou menos culpado, mais ou menos ruim.

E foi assim que se encontraram. Ela na escadaria da Faculdade exercendo toda a sua hippisse. Ele, em frente ao Banco, gravata enrolada na mão e palito na boca, olhando aquele bando de estudantes na paz e no amor. Todos os dias. E se falaram, e se gostaram, e se casaram, apressados pela família, antes que a barriga deformasse o vestido de noiva.

Naqueles tempos bicudos, rebeldia tinha consequências. Erros nas contas, atrasos e opiniões contrárias ao sistema, aliados ao milagre econômico que já fazia suas vítimas, acabaram por colocar Luiz no olho da rua.

Grávida, Tereza abandonou a faculdade e montou, na sala da casinha construída num terreno dos pais, uma lojinha de artesanato. No início acorreram amigos, que não compravam nada, mas traziam violão, flauta e alguma erva – que sem ela não se reuniam. Os vizinhos chamaram a polícia e por pouco a loja não foi fechada.

Hippies não compravam nada. E o restante da população não comprava nada que fosse hippie. Com o desemprego do marido, Tereza fez adaptações na decoração e foi substituindo incensos, maricas e colares por vasilhas de plástico e outros utensílios domésticos mais ao gosto das vizinhas.

Tudo isso para desespero de Luiz, que agora podia ser hippie em toda a sua plenitude e, a pretexto de conseguir mercadorias, viajava nos finais de semana, apesar dos protestos de Tereza. Seguia por praias e serras com os companheiros de ócio, cerveja e baseado, assistindo ao pôr-do-sol, tomando banho em cachoeiras e visitando fazendas.

Trazia ferraduras, plantas exóticas, carrancas e outras bugigangas, que disputavam espaço com os objetos que Tereza vendia e que eram a única fonte de renda. Como Luiz não tinha dinheiro, Tereza desconfiava que ele roubava aquelas quinquilharias. Mas isso nunca se provou.

Enquanto isso, a barriga crescia, o dinheiro mal dava pra comida, e a luz foi cortada. Tereza acendeu uma vela e saiu para um prato de comida numa casa próxima. Foi de lá que viu o fogo. Correram todos, mas quase tudo era plástico e em minutos estava acabado.

Tereza aceitou o convite pra dormir na vizinha. Iria depois. Sentou-se no meio da fumaça e ficou pensando na vida e mexendo num rádio de pilha que tinha escapado do incêndio. Depois de um ruído, Roberto Carlos atacou de jovem guarda.

E foi aí que deixamos os dois. Luiz chegando de mais uma viagem:

– Paz e amor, – repetiu ele tentando animar. – Não liga não, Tereza, nada disso valia mesmo grande coisa.

Tereza segurou pelo cabo um marcador de gado, que Luiz trouxe das viagens e estava sobre uma madeira ainda em chamas. Ele continuou, confiante e didático:

– E um foguinho destes não é motivo pra você ficar aí escutando essa música alienada.

Ouviu-se um chiado quando o carimbo de ferro encostou na barriga de meditação e cerveja, quase tão grande quanto a de Tereza. Ele abriu a boca surpreso e, antes que pudesse gritar, ela falou baixinho, quase num sussurro:

- É uma brasa, mora?

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domingo, 29 de janeiro de 2012

TÔ ME GUARDANDO >> Eduardo Loureiro Jr.

Não gosto de Carnaval. Desde que me entendo por gente. Deve ter sido aquela fantasia de pirata expondo as banhas de minha infância obesa. Ou, antes disso, o fusquinha da família, chacoalhado e sujo por um bando de foliões numa cidadezinha do interior do Ceará. Ou, ainda, sempre, a concentração de bêbados, dos quais corro feito cruz fugindo do diabo. De todo modo, apesar desse não gostar, tem alguma coisa guardada. Desconfio disso sempre que escuto "Tô me guardando pra quando o carnaval chegar", do Chico Buarque, que o Fábio resolveu tocar ontem no violão, e olha que eu nem sabia que o Fábio tocava violão, acho que ele estava se guardando para o dia de ontem chegar.

Certa vez, um colega que me conhecia há alguns meses, mas com o qual eu não conversava muito, me disse assim, de supetão:

— Você parece um cavalo com a rédea puxada.

Não tinha como entender aquilo como um elogio. Também não senti como ofensa. Era só a verdade: eu me guardando. E me guardei também na hora da resposta: dei um sorrisinho e mudei de assunto. Mas não dá pra mudar de assunto numa crônica...

A verdade é que tive meus carnavais fora de época, o que é até um pleonasmo, porque todo carnaval é fora de época. É uma coisa que não cabe no tempo. Carnaval é uma revolta contra o tempo, feito o samba "E o mundo não se acabou", do Assis Valente: corre o boato de que o mundo vai se acabar, o pessoal apronta o que quer, dança "um samba em trajes de maiô", e depois tem que aguentar as cinzas da quarta-feira. Sim, porque qualquer tragediazinha dessas que aparece na televisão é bem instrutiva: a explosão acontece em segundos, já os destroços levam semanas para serem removidos.

Mas voltemos aos meus carnavais sem fevereiro ou março, alô, alô, Gil Gilberto, aquele abraço...

Quem me vê sempre parado,
Distante garante que eu não sei sambar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

Embora eu tenha tentado fazer umas aulas de dança de salão (já me imaginaram dançando um tango?), meu bailado veio mesmo foi com a Biodança. Sou feliz só de lembrar. Parecia mentira de carnaval ter uma alegria logo após uma separação, mas foi assim mesmo: o movimento começou no corpo pra só depois chegar às emoções, "pelos poros elimina-se o que o corpo não precisa, e não precisa, pra pensar, abdicar desse prazer".

Eu tô só vendo, sabendo,
Sentindo, escutando e não posso falar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

De vez em quando, no domingo pela manhã, tem um carnavalzinho aqui no Crônica do Dia. A literatura é uma boa desculpa pra colocar pra fora o lixo acumulado no cesto. Removo o saquinho, dou um nó, abro a porta, levanto a tampa... tudo bem direitinho, bonitinho, arrumadinho, mas o que "eu quero é botar meu bloco na rua".

Eu vejo as pernas de louça
Da moça que passa e não posso pegar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

Teve um tempo em que o carnaval pareceu não ter fim. Peguei, passei a mão, sujei e lavei a louça e as pernas de umas tantas moças. Não quis nem saber se quem a trouxe foi outro, fiz papel de louco e estava pronto pra bater boca dentro do salão.

Há quanto tempo desejo seu beijo
Molhado de maracujá...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

Aqui fui barrado na entrada do baile. Ela até deu a deixa, contou a história infantil da flor do maracujá: "Mãe, vem ver, tem uma flor sorrindo pra mim". E sobrou sorriso também para "um pobre amador, apaixonado, um aprendiz do seu amor", mas molhado mesmo só o sorvete tomado na lembrança da esperança do carnaval que quase chegou, mas não.

E quem me ofende, humilhando, pisando,
Pensando que eu vou aturar...
E quem me vê apanhando da vida,
Duvida que eu vá revidar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

E às vezes meu carnaval é das antigas, pré-moderno, selvagem, reptiliano, entrudo com direito a bate-leva e mela-mela. — Puta que o pariu, caralho, que aporrinhação, vá tomar no monossílabo, filho da puta!

Eu vejo a barra do dia surgindo,
Pedindo pra gente cantar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

Carnaval feito ontem, feito pátio, voz e violão e percussão, fala e riso e brincadeira, "quatrocentos mil projetos que jamais são alcançados", "o coração na mão e o sonho na razão", "olhos agora só pra ver você, boca agora só pra lhe beijar", "futebolisticamente falando, eu ainda faço um gol", "é a vida, é a vida, simplesmente e nada mais".

Eu tenho tanta alegria, adiada,
Abafada, quem dera gritar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

E esse carnaval, quando será? "Quando o grito do prazer açoitar o ar"? Tô me guardando, tô me guardando... pra qualquer quando, antes da morte chegar.

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sábado, 28 de janeiro de 2012

VESTIDO DE NOIVA [Carla Cintia Conteiro]

“Estou realizando meu sonho”, ela me disse com um daqueles sorrisos que rasgam a cara das criaturas felizes de orelha a orelha, enquanto me entregava o convite. E completou: “Você sabe, né? O sonho de toda mulher é casar na igreja, de véu e grinalda...”. Fiquei olhando para ela com ar estupefato. Não queria jogar água naquela alegria toda, mas ou ela estava redondamente enganada ou eu não era uma mulher. E estava perfeitamente segura então, como ainda agora, de que sou uma filha de Eva.

Verdade que eu conheço alguns casos de mulheres que cometem as insanidades mais absurdas para fisgar um marido e seguir o roteiro que culmina com o desfile diante de todos os familiares e das amigas “invejosas” rumo ao altar. É fato também que algumas pessoas se apaixonam tanto pelos preparativos para a cerimônia que não apenas relegam o pobre do noivo ao papel de coadjuvante, mas, cumprido todo o ritual, elas se surpreendem com um homem ao seu lado e não sabem o que fazer com aquela companhia sobre a qual não haviam pensado. Sim, já vi casamentos terminarem na lua-de-mel por conta disso.

Olhava para a minha amiga, feliz com a felicidade dela, mas incapaz de exercer a empatia com seu sentimento de grande vitória e conquista. Àquela altura, já na segunda união, eu jamais cogitara algo além de cartório e um brinde simples com as pessoas mais chegadas na sala de casa mesmo.

Talvez fosse coisa de família. Nenhuma das minhas duas irmãs jamais entrou paramentada em igreja. Minha mãe, numa época em que as alternativas para uma moça decente eram poucas, até vestiu branco e flor de laranjeira, mas também numa produção de baixíssimo orçamento, apenas para os mais íntimos. Preferiu usar a verba para incrementar a vida nova. Não termos uma religião definida pode ser também um fator determinante para esse desapego com os cerimoniais litúrgicos.

Outro dia, olhando um álbum de família, me deparei com uma foto onde eu aparecia numa festa junina vestida de noivinha. Será que foi por isso que eu desencanei do “grande sonho feminino”? Aos oito anos, eu já tinha experimentado a sensação, mesmo que num faz-de-conta.

Fiquei lembrando daquela situação numa escola pública, numa cidade estranha. Minha timidez infantil em ambiente escolar se transformou praticamente em mutismo e isolamento. Fui escolhida para ser a noiva por minhas boas notas, por ser alta e fazer um bom contraste com um noivo bem baixinho e para alavancar minha vida social escolar. Funcionou até certo ponto. As meninas realmente vieram puxar conversa comigo e mineiramente perguntavam: “Seu pai mexe com o quê?”. Mas não ficaram lá muito satisfeitas quando descobriram que a única negra da turma era também a única filha de doutor.

É, nunca fui boa em me encaixar em modelos, em padrões, no que as pessoas deduzem a meu respeito à primeira ou mesmo segunda vista. Sinto muito por aqueles que precisam de seus escaninhos mentais para classificar as pessoas. Lamento por aqueles que pautam o mundo pelos seus gostos. Tenho más notícias para eles.

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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

DEVANEIO >> Carla Dias >>

Percebendo a vida de um jeitinho diferente, com a entrega necessária para não dar mais valor ao que não tem qualquer valor. A entrega de quem se senta na varanda, só para ver final de tarde desfilando, porque acha agradável apreciar a mudança das cores em cenários tão conhecidos, que se tornam misteriosos enquanto o anoitecer acontece.

Gostaria de saber o segredo para manter essa entrega por mais tempo do que me é permitido, porque a rotina grita, em uníssono com os rigorosos horários, mil e tantas tarefas para um único dia, e aquele bando de sorrisos distribuídos às malhas da necessidade de se bancar o satisfeito, feliz até, e por motivos nos quais sequer cabem um naco que seja de felicidade.
Às vezes, pego-me pensando em como lutamos para chegarmos onde, supostamente, desejamos. E, chegando lá, parece um vão, e um tudo em vão, e não sabemos o que fazer com a conquista. Então, ela seca, feito plantação contemplada pela aridez, que lhe suga a capacidade de sobreviver à estiagem. E se torna uma lembrança áspera, despida da possibilidade de haver esquecimento.
Lembro-me de quando, ainda menina, sentava-me à porta do terreno onde morava. Sentava-me lá, onde o silêncio era presente, as ruas ainda eram de terra, e havia aquele momento da tarde em que a luz do sol parecia se misturar à sombra, criando uma luminosidade diferente sobre a avenida que eu costumava observar. E então, hora e pouco depois, serenava, e o dia deixava de ser quente, de sol no talo, para cair a garoa. Um espetáculo diário, do qual, naquela época, eu não sabia da importância. Eu não sabia da importância de se ter tempo e entrega para se sentar e contemplar a vida acontecendo, sem se distrair.
Talvez seja isso, seja hora de serenar, de desapropriar o desejo pelo futuro das buscas que, teimosamente, mantenho vivas dentro de mim. De me livrar do desejo pelo futuro, que vem se tornando cada vez mais curto, enquanto insisto em esperá-lo. E mesmo isso não tendo nada a ver com você, posso lhe assegurar que, se você puder, aproveite a entrega quando ela aparecer, e as varandas, o sol iluminando silêncios, as buscas que duram somente o que devem. E os sorrisos que não respeitem horários comerciais, mas são resultado da intensidade da alegria vigente.
Podemos não ser felizes as vinte e quatro horas do dia, mas se pudermos sê-lo sempre que a felicidade comparecer, seja contemplando fins de tarde ou acontecendo com elas, aprenderemos também a respeitar quem nos tornamos a cada escolha, a cada passo, a cada descoberta.
Como diz Rainer Maria Rilke: “as coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer...”



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terça-feira, 24 de janeiro de 2012

MAIS UMA VEZ O MESMO ASSUNTO
>> Clara Braga

Tudo bem, vamos lá! Eu queria não entrar na onda de falar sobre o mesmo assunto que todo mundo está mais do que cansado de ouvir. Não quero falar da Luiza que está no Canadá, não quero falar sobre se teve ou não teve estupro no BBB, não quero falar sobre o navio que afundou ou sobre a mulher que disse estar grávida e não estava, mas às vezes parece que não tem outra alternativa, só se fala disso, não importa onde eu esteja.

Fiquei muito tempo tentando pensar em outras coisas para falar, pensei, pensei, pensei, mas não consegui encontrar nada interessante que não acabasse me levando a entrar no assunto ou da Luiza, ou da grávida, ou do navio ou do BBB. Então resolvi assumir, vou ter que acabar falando disso mesmo e esperando que todo mundo tenha a paciência e a bondade de ouvir mais uma opinião sobre o assunto, até mesmo a Luiza que já voltou do Canadá.

Bom, outro dia eu li um texto de um colunista da Folha e ele dizia que a Luiza ter sido entrevistada no Jornal Hoje significava que a internet passou a influenciar a televisão, que até então era o grande meio de comunicação de massa, a grande “fazedora” de idéias, e que isso é um marco muito importante, que devíamos nos atentar a isso, afinal o que nós colocamos e divulgamos na internet influencia o que a grande “fazedora de idéias” vai noticiar.

Concordo que esse fato pode sim ser um marco, mas será que estamos tão pouco criativos que o único exemplo que temos desse marco é o caso Luiza? Será que não conseguimos pensar em nenhum outro fato? Por exemplo, redes sociais terem virado matéria em algumas escolas? Ou talvez os tablets serem material didático obrigatório para os alunos de uma certa escola aqui em Brasília?

Tenho certeza que temos mais exemplos que podemos discutir, é só fazer uma forcinha. E eu peço encarecidamente que todos façam essa forcinha, porque eu nunca vi a Luiza na minha vida, mas eu já não quero ter que ver nem pintada de ouro!

Outro assunto que esse colunista comentava era o do estupro no BBB. Ele dizia que independente de saber se realmente houve ou não o tal estupro, essa era a chance de trazer à tona um assunto muito importante de ser discutido.

De fato, estupro é um assunto polêmico que deve ser discutido, até para que todos tenham consciência do quanto precisam tomar cuidado. Mas se vamos fingir que a intenção da produção do programa era realmente debater um assunto importante e não uma simples jogada de marketing, tem outro assunto, tão polêmico quanto esse, tão importante de ser discutido quanto esse, que também esteve na televisão esses dias e sobre que ninguém falou absolutamente nada!

Uma daquelas socialites do programa Mulheres Ricas deu uma entrevista para o Danilo Gentilli no programa dele, Agora é Tarde, e disse a seguinte frase: “Criança tinha que ser alugada. Você aluga por um tempo, vê se gosta, se tem jeito pra coisa, aí depois, se você gostar, você adota, mas se não gostar, você devolve!”.

Só uma pessoa muito sem instrução mesmo para falar de uma criança como se fosse uma roupa que ela experimentou, decidiu comprar mas quando chegou em casa achou que não ficou tão boa assim e então volta na loja para devolver. Será que adoção não é um assunto tão importante assim? E onde estavam todas as pessoas que acharam um absurdo o que aconteceu no BBB para debater esse assunto agora? Devem ter ido todas pro Canadá junto com a Luiza, né?

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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

MÃE BEM RESOLVIDA >> Kika Coutinho

Toda mãe se sente culpada. Ou por todos os dias, ou por alguns deles. Mas sente. Toda mãe carrega consigo, pela vida toda – eu arrisco dizer – os erros cotidianos, os pequenos, os grandes, as interpretações enganadas, as precipitações, os tropeços todos. Dentro desse balde de culpa, que pesará algumas toneladas, sempre teremos as grandes, as inesquecíveis, aquelas que nos acompanharão em anos de terapia, e pelas quais nunca nos perdoaremos. Eu, com menos de dois anos de maternidade, já tenho uma séria candidata ao Oscar da maior culpa de todas, e começou numa madrugada de calor.

Eram 3 horas da manhã quando Sofia me chamou pela segunda vez. De novo?, penso, levantando. “Já vai, Sofia...”, murmuro, caminhando para o quarto dela. Abro a porta:

– O que foi filha?

– Dormi a noite toda – ela diz, feliz.

– Não dormiu nada, filha, tá de noite ainda, deita e dorme – eu digo, quase saindo do quarto.

– Mas, mamãe, Sofia tá dodói – ela tenta essa.

– Onde tá o dodói?

– Aqui ó – responde ela, apontando a perna, depois a cabeça, depois a barriga.

– Sei – digo, já cansada dessas invencionices, enquanto emendo: – Filha, tá tarde, você vai dormir e pronto. Deita na cama agora.

- Mas, mamãe...

– Não tem “mas”, Sofia, deita na cama agora – Ela deita, eu deixo o quarto e, quando começo a adormecer, menos de 10 minutos depois, ouço o mesmo grito:

– Mamããããe – respiro fundo e murmuro para o meu marido: –  Chega, vou deixar chorar – Ficamos em silêncio enquanto ela berra por uns 5 minutos.

Escuto que tenta abrir a porta, se desespera mais, grita um monte de coisa sem sentido e tosse. Que tosse forte, eu penso, firme. Do travesseiro ao lado, ele me olha em dúvida, mas eu insisto: Não, não vou ceder, ela tá forçando a tosse, claro. O tempo passa. Ai, quanto grito, será que vou? Não, não vou, chega, ela precisa aprender. Olho o relógio de novo, 3:35, desejo que meu marido me peça para ir, alguém me obrigue a ir até aquele quarto que eu não aguento mais, mas jurei que ia deixá-la chorar até dormir, ela tem que aprender, não vou, pronto!

São 3:40, levanto da cama pisando firme e, antes de abrir a porta já começo a falar, no auge do nervosismo:

– Chega, Sofia, vai dormir e pronto, chega! – quando abro a porta, no entanto, ela aponta para a caminha, dizendo:

– Olha mamãe, olha! – sinto meu coração gelar quando vejo a cama TO-DA VO-MI-TA-DA.

Com o pijama molhado, o quarto sujo, e aquele cheiro insuportável, começo o meu processo de autopunição:

– Meu Deus, como eu não percebi, filha, você vomitou, po rque não falou pra mamãe que estava dodói? Ai, você falou, que idiota eu que não vim antes. Sofia, o que aconteceu?! – eu digo, pegando- a em meus braços e tentando explicar a ela, que nunca havia vomitado antes, que aquilo acontece.

– Vem, vamos tomar um banho, vem! – Mas ela me olha assustada, sem entender bem o que aconteceu, continua apontando e dizendo:

– Olha, olha mamãe, olha! – Para ela, aquilo é mais do que incômodo, é um feito e tanto, algo novo e incrível, ela não se cansa de me mostrar...

Enquanto encho a banheira, meu marido busca um pano, tem de limpar o quarto, tirar essa roupa de cama, a noite está só começando...

Damos o banho na nossa pequena, que volta a vomitar, de novo e de novo, várias vezes, até que ligamos ao pediatra e ele passa a medicação. “Filha, o papai vai até a farmácia, vamos esperar um pouco”, eu explico, ligando a televisão e fazendo força para acreditar que era apenas uma virose – o que veio a se confirmar alguns dias depois.

Enquanto assistia o sol nascer, naquela manhã de sexta-feira, ao som da Galinha Pintadinha, notei que eu nunca seria uma mãe bem resolvida como cheguei a sonhar. Não existe essa coisa de mãe bem resolvida, que tolice, digo para mim mesma, tentando endireitar as costas, que inclinam sob o peso da culpa.

Hoje, já acumulo algumas toneladas pelos erros e tropeços cotidianos. São muitos, enormes e pequenos, dia após dia. Enquanto ousamos educar, erramos...

Mas não há de ser nada, penso, enquanto assisto-a crescer cheia de saúde e alegria. Vão ser essas e outras que farão da minha menina uma mulher forte, afirmo para mim mesma, sem muita convicção – dando uma de mãe bem resolvida, claro...


www.embuchada.blogspot.com


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domingo, 22 de janeiro de 2012

A VIDA EM UMA REPÚBLICA >> Whisner Fraga

Com dezesseis anos, eu tinha o sonho de sair de casa, morar sozinho, ou pelo menos longe da família. Não que não gostasse de meus pais, nada disso, mas sentia que precisava de um pouco mais de liberdade do que o quarto compartilhado com dois irmãos me propiciava. Depois, não era somente isso, eu queria cursar uma engenharia que as universidades de minha cidade não ofereciam à população. Naquela época, eu não queria cursar Letras ou Artes ou Pedagogia, porque tinha uma visão meio limitada e imaginava que ganharia dinheiro apenas se me tornasse engenheiro. Some-se a isso um certo nível de fobia social e considerei que me daria bem com máquinas, de forma que não me restava dúvida: deveria encarar a Engenharia Mecânica.

Com dezessete anos, meu sonho se realizou e me mudei para Uberlândia. Morar sozinho era impossível, pois meus pais não financiariam essa loucura. Só que não pensei que ia parar numa república com tantos moradores. Éramos oito. Tudo bem que dividíamos um apartamento de quatro quartos, mas a sala, a cozinha e a copa eram minúsculas. Podia-se perceber que o projetista foi obrigado a gastar boa parte da área disponível com os dormitórios. E tínhamos um único banheiro à disposição. Evidente que só sobreviveríamos se fôssemos organizados: as refeições eram feitas em dois turnos, pois a mesa comportava somente quatro de nós de cada vez. Cada um tinha um horário para o banho, que devia durar, na pior das hipóteses, quinze minutos. Havia uma tabela afixada na geladeira e todos a cumpriam, mais ou menos. Claro que imprevistos, como dores de barriga, causavam dores de cabeça, mas quem disse que a vida é fácil?

Quatro eram de Ituiutaba, dois até hoje não sei de onde vieram, um saiu de Campinas e outro de Feira de Santana, na Bahia. Um ituiutabano atendia pelo apelido de “Gordinho”. Ele não gostava, claro, da mesma forma que eu não curtia quando me chamavam de “Zamis”, mas não estávamos ali para gostar de alguma coisa, certo? A universidade nos ensinava isso. Devíamos cumprir as ementas, obedecer regras, tentar ser aprovados em todas as disciplinas e era isso. Se no meio disse surgisse alguma coisa divertida, era lucro.

Para economizarmos o dinheiro da passagem para casa e, em consequência, termos o que gastar nos botecos de nossa cidade no final de semana, íamos para a pista pedir carona. Às vezes íamos em dois ou até em três, mas quase nunca foi uma boa estratégia, porque os motoristas só davam carona para um. Eles gritavam, sem pudor: “só um”. Tirávamos a sorte para ver quem ia. Geralmente dava certo, a despeito dos xingamentos que o sorteado ouvia a caminho do carro ou caminhão que parara. A volta era mais complicada, pois o fluxo de carros no sentido Ituiutaba – Uberlândia era pequeno. Parecia que todos iam para Ituiutaba e não voltavam. Aí eu levanto a questão: por que Ituiutaba não crescia?

Certa vez, conseguimos pegar os três uma mesma carona. Um caminhoneiro. Foi um milagre. Então, combinamos de voltar juntos, para Uberlândia, de ônibus. Voltamos. Aí naquela semana aconteceu algo engraçado. Sempre levávamos alimentos de casa, normalmente guloseimas, algo que não podíamos comprar com o orçamento racionado de estudante. Nessa semana, levei um pequeno pote de doce de leite, que se esgotou rapidamente. Muito mais rapidamente do que eu esperava, o que significava que estava dividindo meu doce com alguém. Era chato isso, porque, em oito, não podíamos nos dar ao luxo de dividir tudo. Então, não dividíamos nada. Quando alguém ia comer algo, se não fosse adquirido em conjunto, comia sozinho, não oferecia a ninguém e ninguém pedia.

Solicitei uma reunião com todos, pois achei incômoda a situação. Os oito lá, contei que alguém estava pegando o meu doce, que, pelas minhas contas, devia dar para três semanas e durou apenas uma. Então acrescentei que, se o culpado não se entregasse, eu já ia avisando que, a partir daquele dia, ia filar doces, bolachas, o que quer que encontrasse pela frente e que não fosse meu. A ameaça assustou os presentes. Então, o Gordinho falou: não fui eu não, porque eu não gosto de doce de leite. A questão é que eu não havia falado, em nenhum momento, que o danado era de leite e, era impossível, só de olhar para o pote, descobrir isso, pois não havia nada que o identificasse. Podia ser de leite, de tamarindo, de banana, de um monte de coisa que, cozida com açúcar, ficasse marrom, de modo que foi assim que descobri com quem havia partilhado o meu doce.

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CONVERSA COM UM POBRE JORNAL
>> Eduardo Loureiro Jr.

Quando saí de casa, lá estava ele, dobrado sobre o capacho da porta do vizinho. Enquanto eu apertava o botão do elevador, pude ler a manchete em letras brancas e grandes sobre um fundo preto. O jornal parecia gritar:

"PEGOU O CARRO E MORREU COM CINCO AMIGAS"

Claro que ele queria que eu chegasse mais perto, lhe desse atenção. Eu podia ouvir o seu resmungo repetitivo: "Me abra, me abra. Venha sujar suas mãos de tinta e se escandalizar. Quero ver o seu plácido sorriso matinal resistir a essa reportagem. Venha! Me abra! Junte-se ao coro que julga isso um absurdo, que reclama do cidadão, das autoridades, da humanidade. Vamos, me pegue. Dê pelo menos uma folheadinha. Confira as fotos. Você vai encontrar um infográfico impactante."

Não lhe dei atenção. Peguei o elevador e desci.

Uns 50 minutos depois, retornei. O jornal ainda estava lá no hall. Deixei a sacola com as compras no apartamento, guardei os ingressos para o show do Jaques Morelenbaum e fui bater um papo com o jornal...

— Posso sentar?

— No chão?

— Você está no chão.

— Eu estou no capacho, não está vendo?

Vi que seus ânimos estavam exaltados.

— Tudo bem, já está mesmo no tempo de colocar a bermuda pra lavar.

— Não vai me ler?

— Prefiro conversar um pouco.

— Está tudo aqui. É só ler.

— Ah, meu camarada, tem tanta coisa que não está aí.

— Nada importante, com certeza.

— O céu.

— Que tem o céu?

— O céu lá fora.

— Tá tudo aqui. Previsão do tempo. A chuva continua.

— Que chuva que nada! O céu está azulzinho. Que nuvens delicadas. E o Sol, você já sentiu a bondade do Sol acariciando sua pele, suas páginas?

— Ora, ora... o céu e o Sol estão sempre lá. O que interessa são as novidades. O povo quer variar.

— E que novidade há em bêbados ao volante? Isso tem todo dia. Agora as bicicletas...

— Ah, por favor...

— Sim, faço-lhe o favor de contar. Vi mais bicicleta do que carro nessa minha pequena saída.

— E quem liga pra isso?

— As pessoas que estão pedalando, com certeza. E também eu, que estava de carro, me liguei naquilo. Me importei também com os moradores de rua que colocaram um sofá azul embaixo de uma árvore. Pai, mãe e dois filhos, sentados.

— Fazendo o quê?

— Conversando e olhando pro céu.

— Francamente...

— Sim, do fundo do coração, que coisa tocante. E depois uma fila, pacífica e ordenada, para comprar ingressos para um show de um quarteto de cordas. Não é uma novidade boa o suficiente pra você?

— Você não quer que eu publique uma banalidade dessa...

— Que tal na primeira página, ali do ladinho? Sou capaz de imaginar a surpresa dos leitores ao ler: Fila para ouvir boa música.

— Você é um alienado. Eu trago a realidade, entende. O real, aqui e agora. Não vem com ilusãozinha, não.

— Se é pra falar em realidade, precisa mostrar cotações todo santo dia? Euro, dólar, CDB, IBOVESPA...

— O dinheiro move o mundo.

— E o amor?

— Procure nos classificados.

— O amor move o mundo.

— Se o amor movesse o mundo, ele viveria dançando.

— E não é isso mesmo que acontece? Ainda não lhe ocorreu que esses giros no espaço são passos de dança?

— Você não tem jeito...

— Tudo bem, voltemos aos números. Por que não mostrar diariamente os indicadores sociais? Eu gostaria de saber quantas pessoas saíram da zona de pobreza no mundo, no Brasil, em Brasília, dia após dia. Gostaria de saber se temos mais alfabetizados hoje do que ontem. Quantas crianças são adotadas em cada dia útil? Quantas pessoas aproveitaram o sábado ontem para doar sangue?

— Não é esse sangue que as pessoas querem.

— Você está aí no capacho.

— Meu assinante acorda tarde.

— Talvez tenha acordado cedo e esteja brincando com o filho, conversando com a esposa. Admirando suas faces rosadas, o sangue escorrendo suave e despercebido sob a pele.

— Mas daqui a pouco ele vem me pegar.

— E não seria bom se, ao ler você, ele pudesse continuar com o coração tranquilo?

— Ele quis me assinar do jeito que eu sou. Não tenho por que mudar.

— É, cada um sabe de si. Da minha parte, preciso preparar o almoço. Bem que você poderia dar essa notícia amanhã.

— Você faz macarrão todo domingo.

— Dessa vez, tem novidade. Vou acrescentar ovo cozido, já que minha mulher pediu.

— E por acaso você quer que eu dê uma notícia assim: Marido acrescenta ovo cozido para agradar a esposa?

— Você está pegando o jeito.

— Pode esperar sentado.

— Não, agora tenho que me levantar. O amor move a mim também.

— Sei, o amor... A fome, isso sim.

— Quer uma sugestão para a manchete do próximo domingo?

— Eu não sei o que vai acontecer semana que vem.

— Pois eu sei, anota aí:

PEGARAM OS PATINS E SE DIVERTIRAM NO EIXÃO

— Nem chance!

— Experimenta. Dê essa novidade pelo menos para você mesmo.

O jornal calou-se, pensativo. Eu o deixei lá, esperando por seu dono, e vim lhes contar esta história na alegre esperança de que seja uma boa notícia.



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sábado, 21 de janeiro de 2012

O QUE CABE NA SUA MALA?
>> Maria Rachel Oliveira

Férias, férias. Janeiro sempre – ou quase sempre – é época de meter o pé na estrada. Fazer aquela tão sonhada viagem que você vem planejando desde o ano passado, caçar uma promoção da Gol e voltar a terra natal pra visitar os parentes. Aproveitar o período de recesso escolar das crianças e alugar uma casa em alguma praia limpa e deixá-las se esbaldando na areia enquanto você tá na sombra e na cerveja fresca.

Aonde você vai é, na verdade, o que menos importa. O que é viajar pra você? Já se perguntou isso? Eu tenho algumas teorias. Viajar é poder sair de si mesmo. É não arrumar a cama todo dia daquele mesmo jeito, com três travesseiros. É não ter preguiça de acordar porque é certo, como dois e dois são quatro, que o dia trará muitas coisas inesperadas. Mesmo que a sua rotina seja boa; é rotina. E afastá-la é bastante saudável vez ou outra.

Em Paris aprendi a emoção de enxergar um letreiro de farmácia. Não tinha um dia que meus pés não sonhassem com band-aids no final da tarde – e nem sempre eu lembrava de colocá-los na bolsa ao sair de manhã do hotel. Uma vez, indo pra Buenos Aires, me empolguei no FreeShop e tive a experiência de ouvir meu nome comuníssimo (Maria Oliveira) ser chamado no auto-falante e não me reconhecer. Terminei resgatada por um funcionário da companhia aérea e tive que sair correndo feito uma louca pelo túnel. No prédio das Nações Unidas, em Nova Iorque, vivenciei o sentimento mais esquisito da minha vida ao me deparar com um sino, acho que de bronze, que foi trazido de Hiroshima.

Viagens menos glamourosas – a maioria das minhas até hoje, aliás – também mudaram bastante o meu ponto de vista sobre muitas coisas. Já tive que passar a noite numa calçada, em Cabo Frio, porque perdemos a chave da casa que havíamos alugado num verão e o caseiro do condomínio tinha saído e ninguém imaginava onde encontrá-lo (e nem a chave reserva, consequentemente). Nunca vou esquecer o papo-cabeça que rolou madrugada adentro nem o mais lindo nascer do sol que já pude presenciar depois de uma senhora caminhada até a praia. Éramos dez. E estávamos todos exaustos e cheios dos sonhos de adolescência uns dos outros naquele nascente, que parecia conter todas as possibilidades.

Reuni histórias das mais triviais às mais esdrúxulas nessas idas e vindas em que já me meti. Não me arrependo de nenhuma delas. Aprendi muito sobre improviso, imprevisto, jogo de cintura, mapas, banho de chuva, passar frio, passar fome, mosquito, mímica, pneu de carro e até relacionamento interpessoal. Viajando você sempre descobre habilidades e gostos desconhecidos. É obrigado a conhecer coisas e gentes novas. Ou quase – há também a possibilidade de você escolher ir com mais um casal amigo pra uma toca no meio do mato. Nesse caso a interação com a fauna ou com o encanamento do lugar é que costumam garantir a novidade.

Viagens trazem com elas risadas garantidas. Micos dignos de nota. E perrengues vividos enquanto imbuídos do espírito aventureiro e curioso do viajante viram divertidas memórias no final das contas. Talvez porque estejamos livres de toda essa bagagem cotidiana, dos nossos condicionamentos, dos nossos vícios e manias, e não caibam as ruminações e a preguiça no pequeno espaço que sobrou na mala.

Eu já estou arrumando a minha pro próximo destino. E você? Vai pra onde? Já decidiu? E qual predisposição levará na sua bagagem?

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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O QUE CHICO BUARQUE TEM A VER COM ESSA HISTÓRIA >>Zoraya Cesar

Sempre sonhara com o dia em que Chico Buarque e ela se encontrariam, se apaixonariam e ficariam juntos para sempre, trocando beijos e juras de amor, sem se desgrudarem um minuto sequer. Ela se via dizendo para a atual namorada dele, Taís Gulin, desculpe, amiga, mas perdeu, eu sou o verdadeiro amor do Chico.

Quando soube que ele se apresentaria na cidade, tratou de se preparar. Deixou de sair com as amigas, de comprar chocolates, de fazer qualquer coisa que implicasse despesas, tudo para juntar dinheiro que sobrasse para o ingresso (uma fortuna! mas valia a pena), roupa, sapatos e perfume novos, cabeleireiro, manicure, imagine se ela ia encontrar o seu amor como quem vai a um show na praia, jamais! Também comprou calcinha e sutiã sensuais, vai que tem um incêndio, ou acontece um acidente, e ela aparece com roupa de baixo velha? Melhor morrer. Até porque ela não queria simplesmente ver o espetáculo. Ela queria falar com o Chico. Entrar no camarim, pedir autógrafo, tirar foto, tocar nele, desmaiar.

Nossa amiga leu todas as notícias referentes aos shows anteriores, entrou em fóruns de discussão de outras fãs, juntando informações para montar uma estratégia que a levasse ao camarim. E conseguiu.

Tudo deu certo até chegar ao último segurança. O guardião da sala onde descansava o seu grande amor era implacável. Barrou até uma louraça belzebu que tentou aplicar uma variação do mesmo golpe que ela tão cuidadosamente planejara. Vendo que seu plano seria tão infalível quanto os criados pelo Cebolinha para delotar a Monica, ela se desesperou.

Mas o amor dá forças ao mais tímido dos mortais e, sem pensar no que estava fazendo, foi até o segurança e disse:

- Eu amo o Chico Buarque de todo meu coração. Eu queria muito entrar e mostrar isso pra ele – emocionada, as mãos tremendo, tirou da bolsa um scrap book com fotos dela e do Chico entremeadas de motivos românticos.

O segurança olhou bem para ela e gostou do que viu. Uma moça de óculos, cheinha e baixinha, voz fininha, toda inha. E gostou também do que não viu: uma tentativa de sedução barata ou suborno – que ofendiam sua integridade – ou história mirabolante – que atentava contra sua inteligência.

–  Moça, agora não tem como. Mas volta aqui depois do show, que eu deixo você entrar.

Ela boquiabriu-se, incrédula. Seria verdade?

–  Sério? – ela hesitou – E se você não estiver aqui quando eu voltar? 

–  Sério, riu ele. Vou estar, sou o chefe da segurança – e, olhando profundamente para ela, completou: – Mas eu estaria aqui te esperando de qualquer jeito.

Mais calma, pela primeira vez olhou para ele com olhos de ver. Bonito, pensou. E sentiu uma espécie de tremor por dentro, delicioso e assustador, que a impeliu irresistivelmente a dizer:

–  Eu não vou demorar. Preciso ir pra casa e não tenho carro.

–  Não esquenta, eu levo você – disse ele, despreocupadamente.

–  Você não sabe se eu moro longe, retrucou ela.

–  Não preciso saber. Eu te levo. Agora vá curtir o seu show. Depois volte. Por favor. – E o sorriso dele a deixou meio confusa.

E ela assistiu ao melhor espetáculo de sua vida, nunca se sentira tão estranhamente feliz. E, depois, ela falou, tocou, abraçou, beijou e foi beijada por Chico Buarque em pessoa, e entregou seu álbum e CDs para ele autografar, e tirou foto e não desmaiou.

Numa alegria maior ao sair do camarim que ao entrar, ela esperou e esperou e nada aconteceu. Como eu sou boba, pensou. Imagine se um cara como aquele ia realmente me levar pra casa. Ele só ficou com pena de mim. E saiu, segurando seus troféus, parte de sua alegria esvaziada.

–  Ei, aonde você vai? – ela parou, antes mesmo de a frase terminar, o coração batendo ainda mais forte ao vê-lo do que ao próprio Chico. – Eu tive de terminar o serviço, desculpe, devia ter avisado que iria demorar um pouco. Vamos?

Os descrentes das coisas do amor podem parar por aqui. Os românticos, por favor, leiam mais um pouco (mas não sejam indiscretos, não adianta perguntarem se valeu ela estar com sutiã e calcinha sensuais, eu não vou contar).

Ele, que sempre desprezara fãs de artistas, apaixonou-se por ela. Ela, que nunca pensara em ficar com alguém que não lembrasse ao menos um pouco o seu ídolo de toda a vida, apaixonou-se por um moreno de olhos negros que, de música, entendia menos que de física quântica.

Trocando beijos e juras de amor, sem se desgrudarem um minuto sequer, já estão preparando o casamento. E Chico Buarque, que soube da história toda, prometeu que ela teria entrada franca em todos os seus espetáculos e gravações.

Não sei quanto a vocês, mas eu, que estou à procura de um amor, certamente irei à próxima apresentação do Chico. Vou tentar entrar no camarim. Quem sabe...


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quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

VAMOS DIRETO AO BRÓCOLIS >> Carla Dias >>

“O corpo deseja aprender porque ele precisa viver.”
Rubem Alves, no programa Provocações

Fosse eu mestra em energia, aquela que um e outro costumam dizer que temos de manter “boa” para que a vida aconteça bem, alegaria que nós, os adultos vigentes, somos péssimos em direcioná-la. Isso porque andamos com mais facilidade em direcioná-la ao que realmente não importa, em vez de pensarmos um pouco e descobrirmos que há mais importância em dedicá-la ao que pode mudar positivamente a vida. E nem sempre apenas a nossa, mas também a de outros.

A filha, lá com os seus onze, doze anos de idade, vem defendendo – ardorosamente, e com uma boa dose de cara feia, diante da negativa da mãe – que, quando crescer, será celebridade. “Olha só que livro bacana que eu comprei pra você, filhota!”, e a filhota faz bico pra mãe, porque ganhou livro, em vez de um book (ironia!): uma coleção de fotos dela vestida feito gente grande, a chance de ela de se tornar uma das candidatas a reality show, para o que vem treinando a vida inteira. “Até parece que você não quer que eu faça sucesso, manhê!”, a menina grita e chora, ao mesmo tempo, enquanto a mãe se afasta, para não ter de lidar com a situação.

Vivemos uma realidade na qual as pessoas acreditam que ser celebridade é profissão, e meninas sonham em ser mulher-fruta, os meninos acham bacana que elas sejam mulheres-frutas, mas não para casar, afinal, homem não casa com fruta, não é mesmo? Certas coisas continuam iguais desde o desde sempre, mudando somente a versão. O que não nos impede de lamentar quando uma mulher disputa com a outra a posição de “miss bumbum”.

Lembro-me de um comercial – mas não do produto – no qual um menino de seis, sete anos de idade, inferniza a mãe no supermercado, como os filhos de muitas de nós, que adoram um docinho que tentamos evitar que eles consumam demais. Neste caso, o menino sapateava porque queria que a mãe levasse brócolis para casa. O slogan era “essa criança não existe”.

Vamos pensar que a educação seja o brócolis, um alimento saudável, mas para o qual a maioria dos políticos torcem o nariz. Não interessam os benefícios que o brócolis ofereça, alimentar a educação com fast food engorda os bolsos de alguns e mantém o brasileiro intelectualmente defasado, ou seja, um povo na medida certa para ser ostensivamente manipulado.

Você deve estar se perguntando o que birra de menina, mulher-fruta, miss bumbum e homem que não casa com fruta tem a ver com brócolis. Eu posso garantir que tem muito a ver.

São frequentes as notícias sobre hospitais nos quais faltam médicos. Ouvi até falar de um médico e uma enfermeira que cuidaram de mais trinta pacientes da UTI, em uma noite, o que não deu muito certo. Prometeram contratar médicos urgentemente lá no hospital. Contrataram? Não sei, mas há muitos médicos trabalhando em situações críticas e por um salário irrisório, no Brasil. Sendo uma profissão tão importante, afinal todo cidadão necessita de atendimento médico, deveria também oferecer condições dignas de trabalho e atrair mais estudantes.

E o pior é que isso não é segredo. Todos conhecem a equação e o resultado dela.

A educação é o nosso brócolis. Todos sabemos que fará bem ao nosso futuro, que garantirá que nos tornemos cidadãos esclarecidos e, certamente, despertará o interesse de muitos por profissões que podem até não envolver celebridade, tampouco garantir a entrada em reality shows, mas certamente são muito mais importantes para a nossa existência. Com ela em boa forma, a menina terá a opção de estudar moda, por exemplo, ou até se interessar pela medicina. As frutas continuarão nas bancas da feira e dos supermercados, frequentarão tortas e enfeitarão as nossas mesas, além de nos alimentar. E em vez de mulheres-fruta, teremos mulheres brilhantes na música, no cinema, na política, e por aí vai. Teremos pessoas capazes de se defenderem intelectualmente da manipulação.

Também os professores são necessários para a formação de qualquer cidadão. Essa profissão tem de ser tratada com a importância que lhe cabe, não sendo aceitável professores que não se importem com o que ensinam aos seus alunos.

Agora, é preciso mudar o slogan para “essa criança existe, e está escrevendo a nossa história”. Para tanto, em vez de nos esgotarmos em contras, precisamos passar a cultivar o "a favor". Precisamos permitir que o desejo de aprender seja atendido por uma educação que não seja a decorada e falida. É preciso que a inspiração aflore, que os professores sejam guias no aprendizado de seus alunos, que os acompanhem em uma jornada na qual a curiosidade levará às descobertas, ao aprendizado. Então, adultos e pensantes, eles poderão trocar o canal da televisão quando o programa for ofensivo, até que a existência do mesmo se torne completamente desnecessária. E o respeito com o qual tratarão a si e aos outros será capaz de construir uma sociedade na qual as suas escolhas não levarão à degradação intelectual, mas sim a mais curiosidade, outras descobertas, ao aprendizado.

Então, sapateiem e exijam o brócolis.

Trecho da participação do educador Rubem Alves no programa Provocações da TV Cultura;


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terça-feira, 17 de janeiro de 2012

FALANDO DO QUE É BOM >> Clara Braga

Não costumo criticar quem assiste e gosta de Big Brother. Eu não gosto, não tenho muita paciência e acho sem graça, mas entendo que se já teve tantas edições é porque tem quem goste, e essas pessoas não estão em pequenos números.

Mas outro dia não me aguentei, fiquei sabendo de um caso que para mim pareceu o cúmulo, não acreditei que pudesse existir alguém tão solitário a esse ponto. Uma tal pessoa faz assinatura do canal que passa BBB 24 horas por dia, e nos dias de festa do reality show ela “participa”. Você deve estar se perguntando: "Como assim?" Pois é, também me perguntei isso, mas a pessoa compra bebidas, afasta os móveis da sala e fica dançando sozinho em casa, como se estivesse lá na casa na companhia dos heróis do Bial.

Sou só eu ou isso realmente é uma atitude um pouco exagerada? E o pior é que, no dia seguinte, o pessoal da casa cura a ressaca na beira de uma bela piscina, tomando sol, enquanto o pobre coitado levanta cedo pra ir ralar muito para não receber nem metade do dinheiro que o pessoal do BBB vai ganhar assim que sair da casa e posar para a primeira revista que chamar. Sério, isso não é um absurdo?

Bom, mas na verdade o que eu não entendo é como pode estar todo mundo criticando o programa, fazendo campanhas contra, bloqueando comentários do computador, pedindo pelo amor de Deus para não ouvir nem uma só palavra sobre o programa e mesmo assim o reality show ainda consegue vingar.

Tudo bem, reality show parece que, apesar de não ser mais novidade, ainda está na moda. Mas existem outros programas que também deveriam estar na moda. Andei aproveitando as férias para procurar bons programas na televisão e tentar mudar essa visão que eu tenho, e sei que muitas pessoas também têm, de que só passa porcaria na televisão.

Encontrei um que todos deveriam assistir, pelo menos uma vez na vida. Passa todas as sextas-feiras às 19:30, com reprise aos sábados às 15h, na TV Brasil e se chama Programa Especial. Ele tem como âncora uma cadeirante e é o primeiro programa no mundo a ter uma repórter com síndrome de down. Dedicado à inclusão social, o programa tem diversas reportagens sobre saúde, mercado de trabalho, lazer, esportes e muitos outros assuntos sempre tendo como foco o deficiente. Mostra também casos reais e bem sucedidos de deficientes que conseguiram quebrar barreiras e terem grandes conquistas na vida, provando que uma sociedade inclusiva é possível. Não é interessante?

Espero ter despertado a curiosidade em alguns. E se alguém souber de outros programas interessantes, que valem a pena serem vistos, compartilhem, mais legal do que falar mal dos programas que são ruins é divulgar os que são bons.


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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

BICUDOS >> Albir José Inácio da Silva

Compartilho da ojeriza deste início de século para com os poluidores. Desde medusas multinacionais e ditadores medievais, que nos oferecem imagens de pássaros agonizando em betume; passando por governos ditos civilizados, que se negam a firmar compromissos sobre emissão de gases; até irresponsaveizinhos de todas as idades que jogam lixo nas ruas sabendo que vão entupir bueiros e emporcalhar rios, lagos e oceanos. Abaixo os poluidores.

Mas há um tipo de poluidor que tem merecido injustificável tolerância, comprometendo o bem geral e a felicidade da nação. É o de maus bofes, o bilioso, o colérico. O que se identifica como não tendo papas na língua e para quem o buraco é mais embaixo. O que declara que sua educação é condicional, ou seja, depende da dos outros. O que se justifica de maneira determinista, dizendo que aquele é o seu temperamento e que nada pode fazer, os outros que aguentem. Suas vítimas reagem como podem, tardiamente, já que ninguém espera dentes tão afiados em humanos.

Esse agente da poluição prima pela formalidade e rege-se pela etiqueta. Dá bom-dia como se fosse um favor; pede licença como se fosse obrigação calar ou afastar-se diante dele; agradece como se estivesse sendo generoso com os servos. Entende por civilidade apenas cumprimentos e congratulações, como se assim pagasse seu tributo à educação, podendo a partir daí escoicear qualquer um que discorde da sua opinião, não atenda prontamente às suas demandas ou tenha a ousadia de lhe contrariar os interesses.

Por acaso grosseria não é poluição? Mal educados estragam menos o ambiente? Suas presenças não tornam irrespirável a atmosfera a sua volta? Não provocam debandada de pessoas e silêncio constrangedor? Os presentes não perdem a espontaneidade diante dessas malas sempre prontas a explodir?

As malas se explicam dizendo que só falam a verdade e por isso incomodam. Mas por que não guardam suas verdades para seus terapeutas e confessores, e tratam os demais com urbanidade? Se precisam agredir alguém, por que não batem suas cabeças na parede – de preferência na sua própria para não estragar a pintura de ninguém?

Às vezes dá pena, porque o que eles fazem quando abrem a boca é uma péssima propaganda de si mesmos. Mas é uma pena conformada, como a que dedicamos ao cachorro louco que precisa ser sacrificado.

O que mais incomoda no comportamento dos trogloditas é o fato de não se suportarem uns aos outros. Tudo estaria bem se eles se gostassem. Reuniam-se, trocavam patadas, “verdades” e outros afagos, ficavam felizes e deixavam em paz o resto da humanidade. Mas não se toleram e ainda esclarecem que dois bicudos não se beijam. Querem bicar inocentes, que não compartilham sua bile, tatuando-lhes ferraduras no peito.

Abaixo os poluidores! Todos!

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domingo, 15 de janeiro de 2012

OBSESSÕEZINHAS >> Eduardo Loureiro Jr.

Aviso logo ao leitor que não me venha com aquele papo de "sai desse corpo que ele não te pertence". Obsessões são boas, e eu gosto. Que seria da vida sem uma obsessãozinha? Uma monotonia sem sentido.

Não dizem que Deus escreve certo por linhas tortas. Então! A obsessão são as linhas tortas que precisamos desenhar para que Deus escreva certo por elas.

Pense na obsessão como um certo tempero feito das seguintes especiarias: julgamento equivocado, loucura, obstinação e excitação. Sim, o leitor está certo se a palavra paixão lhe veio à mente: a paixão é a forma mais disseminada e aceita de obsessão que há em nossa cultura. A criatura fica louca de amor por outra, julga-a erroneamente sem defeitos, fica no maior frisson e não consegue pensar em outra coisa que não seja naquilo. A paixão é perigosa — como são as demais obsessões — mas me diga, caro leitor, como chegar até o amor sem passar pela paixão. É missão impossível pra Tom Cruise nenhum botar defeito.

Claro que, se a criatura quiser parar ali na obsessão e não for mais para lugar nenhum, a coisa complica. Vai parar no presídio, no hospício, no hospital ou na igreja desobsessora do reino de deus. Paixão é que nem pimenta: se apreciar com moderação, não tem graça; mas se não moderar na apreciação, aí vai queimar na hora de sair.

Por isso que já tem médico — de corpo e de alma — prescrevendo dietas em que a paixão é tabu: "Não pode, não pode e não pode. Nem umazinha de vez em quando!". Pois não existe até um grupo das Mulheres que Amam Demais Anônimas. Só não entendo por que essa história de serem anônimas. Até onde sei, toda mulher ama demais, basta que lhe surja uma pequena oportunidade: um Don Juanzinho qualquer que seja.

Já para outros casos, o médico receita o inverso: paixão avassaladora na veia. E não precisa ser por homem ou mulher. Vale qualquer coisa. O que importa não é a paixão pela alma gêmea, mas a obsessão ampla, geral e irrestrita: bichos em geral, jogos, esportes, trabalhos manuais, novelas, facebooks, revistas de passatempo... qualquer hobbyzinho que lhe roube o pensamento, que tome sua mente como refém, está valendo. No fundo, se trata disso: ocupar a cabeça, agitar os neurônios, trocar a depressão pessimista pela insônia superexcitada. Manda ver! Não estuda muito o assunto, não. Entra com tudo!

Agora... Tem um detalhe. Unzinho apenas. Liga o despertador. Programa o alarme para daqui a alguns dias — alguns meses que sejam —, mas não se meta numa obsessão sem verificar o paraquedas antes. Afinal se você não sobreviver à próxima obsessão, como é que vai poder entrar na seguinte, e na que pode vir depois da seguinte? Deus é um escritor compulsivo, o maior criador que há. Temos que fazer a nossa parte: tracemos as linhas tortas, muitas, eternas, infinitas, mas não vamos embrulhar o novelo. Dessa forma, viveremos felizes — e obcecados — para sempre.

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sábado, 14 de janeiro de 2012

ESTE SAMBA É MEU [Carla Cintia Conteiro]

Com o aumento da minha frequência a ambientes onde se toca e canta samba, fora do circuito das escolas, tenho observado um fenômeno interessante. É comum aparecer alguém cantando um samba popular, gravado por um artista consagrado, como Beth Carvalho ou Zeca Pagodinho, e anunciar, quase como uma reivindicação: “Este samba é meu, fui eu que compus”.

É fato que vivemos em um país em que, na maioria das vezes, a menos que você se interesse em pesquisar, desconhecemos o nome dos autores das canções que amamos. Nas rádios, é comum as músicas tocarem sem que se anunciem quem são seus compositores. Na televisão, nem sempre aparece(m) o(s) nome(s) do(s) compositor(es). Num CD, num DVD, aqueles objetos que marcham céleres para a obsolescência, pode ser necessária alguma dedicação para descobrir esta informação escondida no encarte ou no item de menu que contém os créditos. Em músicas baixadas da Internet, é quase um milagre quando este dado está disponível. Junte-se a isso um sistema de arrecadação e pagamento de direitos autorais que funciona como uma caixa preta e temos terreno fértil não apenas para usurpação pecuniária, mas também para espoliar o crédito de quem tem direito a ele.

É comum até hoje ouvirmos por aí alguém dizer que “adora aquela música da Elis Regina”, quando é sabido que a cantora gaúcha era grande intérprete, mas não compositora. O correto, portanto, seria dizer que se gosta de determinada canção do repertório de fulano ou beltrano. Por outro lado, fiquei sabendo outro dia, através de um vídeo gravado pela Alcione encontrado no YouTube, que a lindíssima “À Flor da Pele”, creditada a Paulo César Pinheiro e Maurício Tapajós é uma composição da sua intérprete definitiva, Clara Nunes. Quantos sambas Dona Ivone Lara não permitiu que fossem registrados por outros autores porque mulher não podia compor samba?

E se vocês pensam que isso é coisa apenas do mundinho dos batuques ou de antanho, estão enganados. Ainda outro dia uma conhecida me pediu para ajudá-la em uma determinada tarefa, o que fiz com gosto. Só que, ao entregar o trabalho, ela me agradeceu dizendo que tinha ficado ótimo e que, por isso, ela estava certa de que meu marido deveria ter me ajudado, então ela agradecia a ele também. Alguns dias depois fomos a uma dessas festas onde cada pessoa leva um prato, de modo que as despesas não sobrecarreguem ninguém ou mesmo inviabilizem o impulso da reunião e da celebração. Pois todos vinham elogiar o prato que eu havia preparado e eu dizia que quem tinha encostado o umbigo no fogão havia sido o meu marido. Ainda desconfiados diziam: “Mas, com certeza, você ajudou e foi dando as instruções”.

Só sabe desta dor quem já sentiu na pele o que é ter uma ideia ou uma obra atribuída a outrem, ter seu nome “esquecido” nos créditos ou ver outra pessoa enriquecer, mesmo que em apenas prestígio, graças ao suor da sua testa. Um lugar à sombra pode ser conquistado por escolha própria, por ainda não ter chegado a hora certa de aquela pessoa brilhar ou mesmo porque é a parte que cabe no latifúndio àquela criatura. Evidentemente, muitas vezes é o carisma de quem leva o trabalho para o público um dos fatores que traz brilho para certas obras. Mas não custa lembrar que grandes intérpretes estariam gravando “Ai, se eu te pego” se não fossem os grandes compositores, que merecem ter seus nomes conhecidos e receber pelo fruto da sua criatividade e labuta.

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quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

SE ME VER, NÃO BUZINE >> Fernanda Pinho




Voltei a dirigir. Tive um rompante e decidi renovar minha carteira de motorista. Conquistada há dez anos e com validade vencida há cinco, nunca foi para mim mais que um documento funcional com foto, RG, CPF e ainda uma capinha protetora, ótima para guardar dinheiro e cartão. Mas chega uma hora que a necessidade fala alto e a implicância das pessoas - "mas por que você não dirige?" - grita. Já havia passado uma década, afinal. Era hora de vencer o medo. O medo alheio, diga-se de passagem. Sim, porque se você sabe a minha idade e é razoável em matemática deduzirá facilmente que eu tirei carteira aos 18, sem a menor dificuldade. Posso dizer? Era uma prodígio na autoescola. E confiava que poderia dirigir por aí como fazem as pessoas normais depois de serem aprovadas na prova do Detran. Já os meus pais...

Sabe a cara que as pessoas fazem quando batem o dedinho do pé numa quina, ou quando estão assistindo a uma cena de agonia máxima de um filme de terror, ou quando estão sentadas numa cadeira de dentista vendo o motorzinho se aproximar? Então. Era algo assim - mas um pouco piorado - que eu via nos rostos dos meus progenitores sempre que dirigia com um dos dois ao meu lado. Uma pitada de superproteção, uma dose cavalar de impaciência com a principiante e pronto! Perdi a paciência também. Se era para ver minha mãe sofrendo daquele jeito, era melhor andar de ônibus.

Desisti e permaneci na desistência até cerca de dois meses atrás (sem sentir muita necessidade de desacomodar, essa é a verdade). A primeira saída de carro depois desse hiato, claro, não poderia ser sozinha. E lá fui eu, toda ingênua, com meu pai a tiracolo. O fato de eu ter me tornado uma adulta nesse ínterim criou em mim a doce ilusão de que as coisas seriam diferentes. E foram. Pra pior. Arranquei o carro na porta da minha casa e antes de atingir a próxima esquina (cerca de 12 segundos depois) recebi a primeira advertência: "Seu problema é que você tem mania de pisar fundo no acelerador". Nunca desejei tanto ter um dicionário à mão para ler para o meu pai o conceito da palavra "mania" e fazê-lo refletir sobre a impossibilidade de eu ter desenvolvido uma "mania" em 12 segundos. Mania mais instantânea que Miojo. Que talento. Mas ele próprio, acho, caiu em si e escapou botando essa na conta da genética. "É que sua mãe tem essa mania. E você é igual a ela". No quarteirão seguinte, desisti de novo.

Saí do carro resmungando que eu não precisava passar por aquilo, que não dependia de carro, que não dependia de ninguém, que eu poderia chegar a qualquer lugar sem dirigir e mais um monte de blablablá, que eu nem prestei atenção porque sabia que era blablablá. Dessa vez, havia uma disposição nova.

Tentei de novo. E de novo. E tenho tentado. Ainda confundo esquerda com direita. Ainda olho discretamente para baixo na hora de passar marcha. Ainda não conheço os melhores caminhos. Ainda não tenho destreza para ver um conhecido na rua e dar uma buzinadinha. Ainda me acho incapaz de usar um GPS (“Daqui a seis metros, vire a esquerda”. Ok. Mas eu não faço ideia do tamanho de seis metros. Será que não tem uma unidade de medida melhor? Tipo: "Daqui a seis casinhas com telhado colonial, vira a esquerda"?). E, principalmente, ainda não sei estacionar. Mas essa parte a gente disfarça. Outro dia, manobrava para entrar de frente numa vaga no estacionamento de um supermercado. Manobra vai, manobra vem... "Para tudo, Fernanda". Era minha irmã. "Acho que já estamos estacionadas”. E assim, consegui a façanha de estacionar na vaga de trás, tentando entrar na vaga da frente. O que importa? Apenas que eu consegui. E estou dedicada para conseguir cada vez mais.

Portanto, população de Belo Horizonte, recolham as crianças e apertem os cintos. Estou na pista. 

Imagem: www.sxc.hu


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quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

VIDA DE VIÉS >> Carla Dias >>

Desafio-me a pensar sobre o que jamais pensaria estivesse lidando com a rotina emocional, enquanto desejo apenas o que venho desejando há tempos, nada além. Como mostra uma canção que frequenta o meu gosto, estou presa em um momento, em um cenário, e sequer sabia que poderia escapar da armadilha que ofereci a mim mesma. Eu não conseguia sair do lugar, mas porque não conhecia a possibilidade de migrar da minha realidade, ela absorvida por automático cumprimento de tarefas, para dias mais afortunados. Felizes, até.

Às vezes, olho para os outros, em seus afazeres cotidianos, seus trabalhos, suas vidas organizadas ou completamente caóticas, e me imagino vivendo aquilo que eles vivem, apenas para analisar se seria possível eu ser outra que não esta. Mas a verdade é que, normalmente, sinto-me alinhada à coerência das minhas buscas, que são simples na teoria, mas que podem se tornar um tanto complexas na execução. Sendo assim, ao acordar de mim, envolvida em uma elucubração que me permite um primeiro movimento para quebrar a estagnação, percebo que a pessoa que desejei construir está em reforma, antes mesmo de a construção ser finalizada.

Mas há quem diga que assim é a vida: de viés.

Aprender a possibilidade de transformação, através do eco das minhas erradas, não tem sido acolhedor, nem mesmo quando discuto o assunto comigo mesma, em tom filosófico. Não há máscaras que realmente disfarcem as derrotas em batalhas adquiridas em prol dos planos predeterminados para fazer acontecer a vida, de acordo com as minhas determinações, e não para serem mutáveis e construir opções capazes de enveredar pelo desconhecido. E por isso, acabo por remoer desacertos como quem os coleciona, porque a minha transformação vem de encontro ao direito, recentemente adquirido pela minha pessoa, de flexibilizar o que, antes, parecia-me definitivo.

E fragilizar sem a certeza de que, ao fazê-lo, torno-me adepta da covardia de não levar adiante os meus planos de vida, de acordo com o manual de instruções de minha autoria.

Neste momento, sinto que tais planos apenas me levaram a esmerar em cuidar do futuro que imaginava, sem que eu pudesse dialogar com as surpresas. Agora, chega-me a constatação de que surpreender-se faz parte de um plano maior, que não sei de onde vem ou aonde me levará, mas que, quando me permito pensar a respeito, em tom metafísico, mostra-se imprescindível a qualquer um que abrace a vida, e suas pompas e desapontamentos.

Apesar de me aborrecer com as surpresas nem sempre bem vindas, considero-me uma nova discípula da arte de permitir-se a descoberta. Ainda não sei se gosto ou não disso e daquilo, sequer se esbarrarei com a tristeza de não ter realizado o que desejava, ou com a alegria de ter alcançado o possível. Ainda estou aprendendo quem posso ser sob o olhar do indefinido. E talvez eu navegue pelos mares ou aprenda a cozinhar, escale prédios e me torne empresária de sucesso, ou dona de cafeteria, revistaria, padaria, pet shop ou shopping center, anfitriã de almoços oferecidos aos amigos. Quem sabe o meu mérito esteja nas artes, na alegoria da poesia – concreta ou indiscreta – ou na prosa, na crônica insinuada com crueza, mas alegria. Ou no erotismo da catarse emocional, quando beijos não são apenas beijos, mas descobertas, e as velas são verdadeiros faróis para a alma encontrar o desejo.

Quem sou: em construção.

STUCK IN A MOMENT YOU CAN'T GET OUT OF - U2



Imagem © Cristiane Zamora




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terça-feira, 10 de janeiro de 2012

RECADINHO DA VIDA>> Clara Braga

Esses dias recebi a ligação de uma grande amiga minha. Ela estava supercontente com uma certa novidade que tinha para me contar, e tinha certeza de que essa novidade também me deixaria feliz.

Papo vai, papo vem, suspense devidamente feito, exatamente como tem que ser, e ela jogou a bomba! Está grávida, e começou a gritar igual às amigas da Rachel em Friends, sempre que alguém conta uma novidade legal!

Eu não sou muito desse tipo que grita e dá pequenos pulinhos quando vai comemorar algo, mas fiquei muito feliz por ela! E foi exatamente o fato de eu ficar feliz que me fez perceber que o tempo passa...

Essa foi a primeira vez em 23 anos de vida que alguma amiga minha me contou que estava grávida e a minha resposta não foi: “E agora, o que você vai fazer?”. Ou então: “Seus pais já sabem? Eles vão te matar?”

Foi um tanto engraçado reparar nesse detalhe, mas confesso que fiquei me sentindo um pouco velha. Sei que sou muito nova, 23 anos, ainda não vivi nada, mas quando esse tipo de situação acontece a gente acaba percebendo que o tempo passa mais rápido do que a gente imagina e então começamos a nos sentir assim, um misto de velhice precoce com uma certa nostalgia, deu pra entender?

Somos pegos de surpresa, meus amigos mais próximos já estão casando e tendo filhos, e então a gente começa a se perguntar: Como foi mesmo que eu cheguei até aqui? E foi ao rodar o filme da minha vida na minha cabeça que eu percebi que a vida nem tem tanta culpa assim de passar rápido desse jeito, afinal ela vem nos preparando aos poucos, nós é que não acompanhamos a sutileza dela.

Lembrei de pequenos momentos que marcam novas fases e me toquei de que eles significam um recadinho da vida para a gente, dizendo: Ei, você está crescendo, consegue perceber? Aproveite! O tempo voa!

Consegui ver a vida me alertando do passar do tempo naquele dia do meu aniversário em que eu cortei minha chupeta na frente de todos os convidados para mostrar que eu já era grandinha o bastante para não chupar chupeta. Mas ninguém precisa saber que minha mãe tinha sempre chupetas reservas para minhas crises de abstinência.

A vida também mandou seu recadinho quando brincar de Barbie não era mais legal do que andar de patins na rua com as amigas. Quando alguns amigos se afastaram porque foram fazer o ensino fundamental em outra escola, quando começaram as festas de 15 anos, quando alguns romances começaram a aparecer, quando chegou a formatura do ensino médio, nos festões de 18 anos, nas aulas para tirar carteira de motorista, no cursinho pré-vestibular, na faculdade, na primeira vez em que os pais liberam o carro, nas decepções, nas dúvidas, no momento em que alguém próximo se vai e agora, pelo menos na minha fase, nos casamentos e nas amigas grávidas.

Sei que ainda tem muito por vir, posso ver pelos meus pais que a cada aniversário meu e do meu irmão dizem: “É, vocês já tem 23 e 26 anos, nós estamos velhos mesmo!” Mas agora que sei que a vida está sempre no pé do nosso ouvido deixando o recadinho dela, vou prestar mais atenção para não deixar nada passar em branco.

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segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

A MULHER ERRADA >> Kika Coutinho

Eu não sou a mulher certa para você. É óbvio isso. Devo ter descoberto no nosso primeiro ano de casamento, mas fiquei calada. Foi numa tarde de verão, estava um sol lindo, você ligava o ar condicionado do carro e eu desligava. Lá pelas tantas, vimos que nos restavam duas opções: ou você pingava de suor ou eu tremia de frio. Enquanto assistia à gotinha escorrendo pela sua testa, constatei: Eu não sou a mulher certa pra você.

A mulher certa pra você certamente adoraria ar condicionado. Conheço várias assim. Talvez a maioria das minhas amigas, inclusive. Seria uma mulher dessas que entram no carro já com o mecanismo ligado, no hotel não questionam, ligam e pronto. Estão sempre fresquinhas e perfumadas, essas. Você bem que iria gostar, né? Mas fazer o quê? Casou comigo, restou-lhe aguentar que fico meio melada de suor às vezes, mas é pouco, não sou de suar muito, oposta a você — a mulher errada, claro.

Mas eu guardei segredo. Não te contei, mesmo nos outros sinais. A coisa foi se confirmando noite após noite, quando você queria assistir TV e eu queria dormir. Ai, a mulher certa adoraria uma tevezinha antes de dormir. “Me relaxa”, ela falaria, com o controle remoto do ar condicionado na mão... E você nem ligaria que ela falasse errado. Nem notaria, né? Assistiriam Pânico na Tv, grudados, friozinho no quarto e comendo rúcula.

Porque ela também adoraria salada, claro. A mulher certa pra você encheria o prato de folhas verdes e, certamente, te acompanharia num vinho tinto. Vinho combina com salada? Ai, que dúvida estúpida, óbvio que eu não sirvo pra você, nem sei se vinho e salada combinam, olha a ignorância... A mulher certa, essa saberia, claro.

E, depois desse papo agradabílíssimo, vocês comeriam fruta. Manga, mais provável. A menina adoraria frutas, saberia cortá-las direitinho, não seria como eu, toda atrapalhada, preguiçosa, sempre optando por um pacote de bolacha. E você nem sabe direito o que é Bono, olha que dificuldade!

Mas posso falar? Difícil, viu? Que, normalmente, esse tipo fã de ar condicionado não é muito de salada não. Acho até que são as gordinhas, que suam mais, né? Devem adorar Bono, sinto dizer. Tudo bem que não tenho nada com isso, sou só a mulher errada, você e a certa que se virassem, se ela existisse.

Se ela existisse, vou falar a verdade, seria uma chata. Ai, meu amor, vocês veriam TV até tarde, vocês iriam congelar, imagine, os filhos estariam sempre resfriados. Difícil uma criança que já nasça curtindo um ar gelado, mesmo sendo cria de dois neuróticos. Porque você meu bem, sem um equilíbrio, seria neurótico. Perigaria até não sobreviver muito, os dois ficariam envoltos no gelo, apaixonados, vidro fechado, quando perdessem o movimento, quem iria ver? Ninguém, né? Pronto, morreram.

Por isso que eu digo, meu bem, sei que não sou a certa, mas, olha, ninguém vai te fazer feliz e alegre como a erradinha aqui, viu? Quem mais, quem mais te convenceria a experimentar Oreo, Skittles e praias quentes, sem nem ventilador? Quem, quem? A mulher errada, que você tanto ama, oras.

Agora, por favor, abre esse vidro, desliga essa TV e toma uma Bono, vai...

 

www.embuchada.blogspot.com

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domingo, 8 de janeiro de 2012

UM JOGADOR VIOLENTO >> Whisner Fraga

Eu não era o dono da bola e não podia decidir, portanto, quem entrava ou quem saía do jogo, mas, mesmo assim, o menino se aproximou e, em vez de perguntar, intimou: eu quero brincar. Tudo isso na quadra do Palmeiras Clube, que, como todo mundo sabe, é comunitária. Para garantir uns chutes nos finais de semana, o procedimento era simples: bastava chegar cedo. A partir das oito horas, a coisa começava a ficar concorrida.

À medida que iam chegando mais meninos, novas equipes se formavam, alguém sentado na mureta empunhava um relógio e dizia que estava marcando o tempo e, desta maneira, ao final da manhã, todo mundo encostava os pés ou as mãos na bola. Uns ficavam mais tempo com ela, dependendo da habilidade, claro. Daí que, quando o moleque sentenciou que desejava entrar naquela hora mesmo, sem respeitar os códigos implícitos que garantiam a convivência mais ou menos pacífica entre a molecada, era de se esperar que todos se revoltassem. Não foi o caso, porque quem invadia o jogo era o Nandinho, famoso por ter uma navalha e saber usá-la quando necessário.

Só que caí na bobeira de achar aquilo injusto e chiei, assim, do nada, sem mais nem menos. Você tem de esperar a sua vez, eu disse, para surpresa de todos e alegria geral da nação. Devo reconhecer que o meu quase metro e meio não assustava praticamente ninguém, muito menos um protótipo de malandro, de forma que não sei o que me deu na cabeça. O sujeitinho simplesmente enlouqueceu. Apontou uma área deserta do clube e ordenou: ali. Seguimos, escoltados por quarenta e poucos garotos. Aconteceu de organizarem uma roda e no meio, eu e Nandinho, prontos para o duelo.

Ele cospe no chão, grita: água com terra vira barro, é em você que eu esbarro. Recitou essa bobagem e me deu um empurrão. Era minha vez. Fiz a mesma coisa – recital e empurrão. Seguindo o rito, Nandinho, pés descalços, pisa no minúsculo globo de lama, arrastando-o um pouco. Desafia: espalho o barro, seu burro, é você que eu esmurro. Depois parte para cima de mim e eu, como todo mundo sabe, no fundo e às vezes na superfície, sou um covarde. No trânsito, nas compras, nas filas, irremediavelmente covarde. Não sou do tipo que dá a outra face para baterem, porque corro antes.

E foi o que fiz: corri. Fechei os olhos e pedi às minhas pernas que me tirassem daquela enrascada. Se fizessem isso por mim, eu prometia retribuir o esforço com um belo descanso. Nessa de escapar sem ver o que tinha pela frente, me danei. Uma cerca de arame farpado me barrou, bem pertinho de casa. Uma batida magistral, uma coisa tão perfeita, que desafiou a lógica gravitacional. Meu rosto foi retalhado e era tanto sangue, que por pouco não precisei de uma transfusão. Resumindo: o estrago seria menor se encarasse os socos do Nandinho.

Podem acreditar: meu problema maior seria enfrentar meus pais daquele jeito. Era surra na certa. Vou confessar: não estava dando muita bola para meu rosto mutilado, minha preocupação maior era a roupa. Meu calção se rasgou e minha camiseta se transformou num trapo. O que eu iria vestir dali pra frente? Relembrando esses fatos, eu concluo, hoje, que era uma grande dor de cabeça para uma criança de dez anos administrar.

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DESENHOS >> Eduardo Loureiro Jr.

Hoje eu não queria escrever uma crônica. Gostaria de — se pelo menos eu soubesse — desenhar.

Pelo que me lembro, desenhei até por volta dos 10 anos. Desenhos bobos, tipo barquinho, mas que eu pintava em quadros e pendurava na parede. Depois parei com aquilo. Mas aquilo não parou comigo. Tenho um desejo infantil pelo desenho que retorna de vez em quando.

Organizando minha papelada essa semana, encontrei alguns desenhos que fiz nessas voltas que o desejo dá. Nos últimos onze anos, tive esse desejo pelo menos três vezes.

No início do meu doutorado, em 2000, produzi os dois desenhos abaixo. O primeiro retoma meus temas infantis. O segundo é uma conexão com a poesia, trazendo um verso que, anos mais tarde se transformaria em música.



A vontade surgiu novamente — ou pelo menos eu a conseguir registrar — em 2006/2007, quando vivi sozinho em Teresina. Eu tinha uma deliciosa rotina matinal de caminhada, vitamina, banho, meditação e, pra concluir, desenho. Era mais um exercício de desbloqueio para o desenho que qualquer outra coisa. Eu fazia um traço qualquer sobre uma folha de papel, depois ia complementando aquele traço. Uma vez definida uma forma, repetia aquele conjunto por toda a folha, com algumas alterações.


Meu ímpeto seguinte foi em 2009, em Florença. Talvez inspirado pelo clima artístico da cidade, comprei papéis, lápis e borracha e tentei retratar o que via. Abaixo, uma tentativa de reproduzir uma gravura do livro Pinocchio, que li no original na tentativa de aprender italiano.


Após cada desenho, sempre a mesma frustração com minha incapacidade de retratar aquilo que vejo. Meus desenhos não batem com a realidade. Não têm a proporção adequada. São incapazes de pegar as sutilezas da imagem. Vejam o desenho original, de Attilio Mussino, como é tocante...


É um desenho de quem enxerga. Ao contrário do meu, que é um desenho de cego. Tenho, com relativa frequência, essa sensação de ser cego, de não ver as coisas.
De vez em quando, me bate a vontade de aprender a desenhar. Mas, não sei se pela vozinha interior que me diz que sou um caso perdido, desisto antes de tentar. Ainda em 2009, animado por um cartaz que falava de um método revolucionário ("desenhar a partir do hemisfério cerebral esquerdo"), cheguei a telefonar para uma professora de desenho, mas algo não deu certo, nem lembro mais o quê. De todo modo, consegui um livro já esgotado, chamado Desenhando com o lado direito do cérebro.
O livro é empolgante. Explica direitinho todo esse meu dilema com o desenho, que não é um dilema só meu, mas de grande parte da humanidade. À medida que crescemos, fomos desenvolvendo mais o lado esquerdo do cérebro, associado à escrita, e deixamos de lado o cérebro direito, mais associado à imagem. Segundo a autora, Betty Edwards, nós não desenhamos porque não vemos; aquilo que desenhamos não é o que vemos, mas aquilo que pensamos. Eu, por exemplo, não estava desenhando a ilustração do Pinóquio, que eu estava vendo, mas aquilo que eu pensava que deveria ser o Pinóquio.
O livro traz alguns exercícios interessantes para retomar, digamos assim, o lado direito do cérebro. Um deles me deixou bastante perplexo: desenhar algo "de cabeça para baixo". A imagem abaixo, por exemplo, de um cavaleiro, deveria ser virada de cabeça para baixo, antes que eu começasse a desenhá-la.

Claro que, quando olhei a figura, disse para mim mesmo: "Não tem como eu desenhar isso aí!". Mas virei o livro de cabeça para baixo e comecei a desenhar. Para minha surpresa, quando desvirei meu próprio desenho, vi o seguinte.

Embora minhas esperanças estivessem renovadas, acabei deixando o livro de lado. Talvez porque os exercícios tenham começado a ficar mais difíceis. Talvez porque "eis que chega a roda vida e carrega o DESENHO pra lá".
Se aborreço o leitor que veio até aqui atrás de um bom texto e não de toscos desenhos , é porque o desejo bate à minha porta novamente, ainda mais forte. De maneira tão intensa que sinto até vergonha. Pois se eu pudesse — e cá estou me perguntando por que é mesmo que não posso —, eu largaria tudo para me dedicar a aprender a desenhar. Mas são tantos os compromissos inadiáveis que a gente vai arranjando para si mesmo, e são tantas necessidades urgentes que a gente vai fabricando e entulhando à nossa volta, que onde haverá tempo e espaço para esses desejos bobos do coração?




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sábado, 7 de janeiro de 2012

O ÊXODO >>> Maria Rachel Oliveira

“Que Deus me regue, tiruliruliluli. Que Deus me regue!” vem pedindo um padre da moda, nos últimos meses, em cadeia nacional em praticamente todos os intervalos do telejornal mais popular do País. Nas igrejas católicas, em qualquer missa – seja de sétimo dia, de primeira comunhão ou no terço de Santo Antônio – é impossível ouvir um amém, unzinho que seja, sem ser musicado e ter o cara com um violão a tiracolo no á-á-mém, á-á-mém, á-á-mém á-mém á-mém á-mém. Hoje, no jornal O Globo, uma matéria elogiosa destacando um culto em Duque de Caxias ao som de funk. Daqui a pouco é “bate forte o tambor, eu quero é tic-tic-tic-tic-tac”. A coisa está por um triz.

Seria esse incômodo preconceito exclusivo meu? Acho que não. Respeito e defendo que cada um tenha lá o Deus que quiser e até mesmo que não tenha nenhum. Mas, pra mim, religião é coisa de foro íntimo. Definitivamente não gosto nem da gritaria nem da cantoria, e muito menos dessa vazia catarse coletiva, cheia de frases feitas e refrões que muitas vezes dizem nada com coisa nenhuma. Prefiro cantar a musiquinha do elefante que incomoda muita gente a rezar esse novo Pai-Nosso todo torto e cheio de rimas pra combinar com o violão lá do moço da renovação carismática.

Não sou do tempo da missa em latim – minha infância foi de missas solenes, porém não incompreensíveis – mas sinto saudade da igreja católica de 20 anos atrás. Naquela época se podia ir à igreja pra pensar. Apesar de não acreditar ipsis litteris no Deus da Bíblia, era um ambiente que favorecia a reflexão. Eu gostava.

Hoje, ao contrário, ninguém pensa. Ou se grita, ou se rebola ou se canta – às vezes tudo junto. Ninguém consegue um momento quietinho! Até na hora da comunhão tá lá o mocinho no blim blim, blom blom e todo o mundo sacolejando no meio da igreja. Santo Antônio, coitado!, virou mercenário e pra acender uma vela – eletrônica – há que se enfiar no buraquinho uma moedinha de um real. Capaz até de fazerem com que ele desça até o chão se for detectada uma doação de 50 pilas.

Apesar de ter fé em alguma coisa que não sei bem o que é – à igreja não vou mais (a não ser por obrigação familiar ou com fins turísticos), não consigo ser parte disso que anda rolando por aí. Quando quiser bater um lero com a energia lá de cima vou é pra algum lugar bem calminho. E se algum dia algum Deus me cobrar, respondo: à igreja não dava mais, era muita interferência.


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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

PEQUENA PEÇA URBANA >> Zoraya Cesar

Se você acha que teatro está caro, permita-me sugerir uma alternativa: ande de ônibus. É claro que envolve um certo risco, por conta dos possíveis assaltos e acidentes, mas o que é uma vida sem aventuras?
As personagens do pequeno episódio a seguir não são imaginárias nem os fatos se passaram em algum logradouro esquecido pela civilização. Seja lá o que civilização signifique nos dias de hoje. O palco é um ônibus circulante pela zona sul do Rio de Janeiro, área nobre da cidade.
Quanto aos personagens, comecemos pelo motorista, que, mascando chiclete com a boca aberta, olhava bovinamente para os passageiros, como se não entendesse o que eram aquelas criaturas, e não respondia aos cumprimentos. Passemos pela trocadora, uma mulata gorda e quarentona, de traços bonitos, cenho carregado e boca franzida, cujas unhas roídas e sem esmalte poderiam sugerir uma personalidade tímida..., ah, vai dizer que você também não tem diploma de psicólogo amador, hein? Essa é nossa protagonista.
Agora, as passageiras (desculpem, rapazes, vocês foram secundários nessa peça). Senhoras discretamente maquiadas, os cabelos duros, de tanta mousse modeladora (rapazes, por favor, perguntem às meninas o que diabos é isso); usando calças lisas e bem passadas, de cores sóbrias, todas combinando com blusas de estampas geométricas. Senhoras de classe, diria o amigo psicólogo de ocasião. Escolha uma dessas para ser a outra protagonista do episódio.
E a coadjuvante, uma senhora de rosto encovado, cabelos ralos e grandes olhos saltados, o corpo mais parecendo um cabide para o vestido simples, de estampas miudinhas, amarrado por um cinto feito do mesmo tecido. Ou uma senhora de cabelos amarelados, pesada, andando e respirando com dificuldade. Escolha uma dessas, é toda sua.
- Para esse ônibus aí, motorista! Não ouviu o sinal não? Tá surdo? Tá com o chiclete no ouvido? – grita a elegante senhora, lá detrás do ônibus, no último assento.
- Ele ouviu sim, surda é a senhora que não viu ele responder  – devolve a trocadora, lá de seu banquinho.
- Se ouviu se fingiu de surdo e você não faz nada, sua inútil. Tá fazendo o que aí sentada?
- O quêeeee???? Eu, inútil? Eu trabalho muito sua desinfeliz metida a besta – rebate a trocadora, de mão na cintura, tivesse uma saia rodaria a baiana, desmentindo qualquer timidez.
- Eu não quero saber, para logo essa droga de ônibus, essa senhora é idosa, precisa descer – e apontava quase que acusadoramente para nossa coadjuvante, que, tão velha quanto sua defensora, encolhia-se no banco, morta de vergonha, a cabeça baixa.
O ônibus parou, e fez-se um silêncio momentâneo, enquanto alguns passageiros subiam e nossa velhinha descia. Fechadas as portas, a trocadora começou a resmungar impropérios, naquele tom de voz que finge ser discreto, mas quer é ser ouvido por meio mundo.
- Tá latindo o que aí, sua faz-nada? – berra a finíssima lady – Quer um anti-pulgas? – e começou a falar ainda mais alto que os gritos da trocadora, que, ofendidíssima, clamava por justiça, com razão (ou sem; na verdade o motorista não havia parado no ponto, apesar da campainha e do aviso dos outros passageiros. De qualquer forma, o pessoal se dividiu em torcidas pró-trocadora e pró-senhora. Eu só torcia para chegar logo meu ponto).
- Agora eu pego ela, levanta-se a trocadora, eu pego, cachorra não, sua cadela velha! – felizmente seu corpanzil não permitiu que ela saísse rapidamente da cadeira, dando tempo à turma do deixa disso. E a senhora de cabelo arrumadinho, rindo debochadamente, lá atrás, repetia: latindo, latindo sim, enlouquecendo a trocadora, que vociferava insultos de igual quilate.
O ônibus parou de novo, voltou o silêncio, enquanto as duas contendoras juntavam armas e apoio para voltar ao ataque. Nesse ínterim, sobe um senhor que, mal passou a roleta, começou a cantar a Ave Maria num latim truncado, um tanto desafinado. Parece até coisa de Deus, sussurra emocionada uma moça atrás de mim, pois as duas continuaram caladas.  Quando o último in hora mortis nostrae finalmente sumiu no ar (graças a Deus), ele começou a vender suas balas (eu mesma comprei algumas, na vã esperança de que ele continuasse calado). Mas, de qualquer forma, uma relativa paz se estabeleceu dentro do ringue, enquanto ele emendava what a wonderful world, numa mistura de inglês com marciano, ainda mais alto e desafinado.
O motorista, pivô de toda aquela confusão, continuava, bovinamente, a ruminar seu chiclete, indiferente ao vale-tudo que ocorria às suas costas.

No curto espaço de tempo em que o valoroso cantor tomava fôlego e eu me preparava para descer, ainda pude ouvir mais um round:
- Vou te levar na polícia, sua velha sarnenta, vou dar queixa – bufava a trocadora.
- E eu vou te levar pro veterinário, sua indecente – grunhia a lady.
E aí, que tal? Mais barato que qualquer peça. Embora um tanto baixo nível, reconheço. Tudo depende do ponto de vista do observador. No meu caso, quanto mais longe desse ponto, melhor.


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