sábado, 31 de dezembro de 2011

LUZES DE 2012 [Sandra Paes]

O amanhecer do novo ano anuncia sua chegada. Vejo no spectrum de cores seus prenúncios. Ah, que encanto!

Todo ano traz no seu amanhecer uma enorme sacola para receber todas as promessas e todos os desejos dos homens. E esse novo ano vem diferente. Vem com o poder de revelar tudo que guardamos em algum baú todo os anos anteriores. Todo o pó de pirlimpimpim vai fazer efeito agora.

Esquecemos tudo. Sim, tendemos a esquecer de nossos desejos, de nossos sonhos, de nossas quimeras. Mas esses não desapareceram, ficaram na caixinha de reciclagem guardadinhos para agora virem escorregando num arco íris, como num tobogã. De volta ao criador. Essa a máxima para 2012.

Nossas emoções, extremamente ampliadas como a lua cheia no horizonte, podem nos fazer mais sensíveis, mais intolerantes, mais ansiosos. Com tantos desejos acumulados em nossas veias, com nossos corações tão cheios de expectativas, como nao transbordar?

E assim, esse ano, tão prenunciado pelos magos de todos os tempos, vem apenas como arauto. Soa sua trombeta no alvorecer e grita: - Cheguei! Vim para colher os frutos de seus pensamentos e seus sentimentos! O que tem ai para mim?

Eu sorrio. Estou pronta para o que der e vier - dizem alguns. Outros, ainda apressados com a conquista de alguma perfeição material, vibram na certeza de que estão aqui para fazer sucesso, por o corpo no lugar, ter o romance que não logrou no século 17, mudar de endereço ou pintar o lugar onde hoje dorme. Pequenos ou grandes, seus sonhos serão revelados, sua verdade posta nua e crua sobre a mesa.

Enquanto isso, o sol, em sua magnitude, explodirá de júbilo e lançando chamas por toda a parte, desavisadamente queima alguns satélites. Interfere no juízo dos apegados aos celulares e aos computadores. Os homens, escravos de suas tecnologias podem ficar perdidos: Como? Por que não ligou? Onde será que anda? Milhares de pessoas com um ponto de interrogação na testa.

Pra que? Me pergunto enquanto passeio calmamente entre os transeuntes sempre correndo em busca de um lugar no futuro. - Vai aonde com tanta pressa? , pergunto quase sempre.

A resposta, sempre a mesma, vem a seguir de um breve “estou atrasado”.

Homem de Deus! Está na hora de parar para respirar mais livremente! Está na hora de parar de correr em busca de preencher o vazio que pensas que tens! Está na hora de viver aqui e agora! E quem sabe isso? Quantos? Não? Então essa será sua verdade. Com ela terá que lidar e se a resistência for muito grande, lá vem uma doença a anunciar que você precisa se equilibrar.

Ontem, ao voltar para casa, senti a força da luz do sol ao entardecer. Tinha quase por certo que nada via, tamanha intensidade de luz. E pensar que era apenas o prenuncio das luzes de 2012...

Cadê meus óculos escuros? Não, esse não, ta muito claro ainda. E se fechar os olhos? Não adianta, a luz está lá, no centro da mente irradiando sua verdade e sua intensidade. Melhor relaxar e sentir o calor novo que nos envolve a todos e nos convida a sair do jogo ilusório de uma era egoica e começar a perceber que somos apenas uma molécula ou uma monada no grande jogo de composição do universo e, nem por isso, menos ou mais importantes, apenas uma partícula nesse fracal extraordinário.

Que venha o novo ano!

E a gente pára o calendário? E se fizéssemos um projeto para isso? Quem de nos abria mão da agenda, dos compromissos de pagamentos, do controle do tic-tac que nos impusemos a milhares de anos? Pois então!? Dividimos o tempo nessa dimensão binária e achamos que tudo é uma questão de hora e lugar. Ah, pois espere as novidades que o novo ano vai trazer...

E se descobrimos de verdade que o tempo é uma ilusão que inventamos e sustentamos com toda nossa crença de eventos e promoções? E se de repente pudermos descobrir que tudo está aí, e sempre esteve, apenas não vemos por que escolhemos usar o cérebro para justificar o mistério e os medos, e de vez em quando gostamos de surpresas? Mas que surpresa? Aquilo que não pensávamos que pudesse acontecer? Aquele presentinho embrulhado com fitas de preocupação? O que me espera?

Pois então, esse 2012 pode trazer a surpresa de nos fazer lúcidos de tal forma que passamos a saber. Aprendemos a ler as mentes, os sentimentos, tão naturalmente quanto lemos jornais, revistas, e cartazes. As incertezas, as dúvidas vão para outro espaço por que os sentimentos e os pensamentos ficam transparentes. E ai?

O que faremos com nossos baús de ciúmes, de cobranças várias, judiciais ou não? Não tem mais espaço para logros. Não tem mais o que burlar. Não tem mais o que controlar, não tem mais que fazer de conta?

Você quer ficar num planeta sem esses ingredientes? Seja sincera/o. Se sim, vai ficar, senão, nada a fazer aqui. A Terra, banhada por uma luz super intensa, terá varrida de sua superfície tudo que não vibrar na sintonia da transparência. Simples assim. Já notou como você se sente melhor por descobrir que não tem que controlar seja o que for? Que sua paz interna é de fato o que mais vale?

Então... Esse o prenúncio. Apenas um prenúncio de uma nova era. Enfim Sheakespeare toma seu lugar: To be or not to be. Eis a questão.

Feliz 2012!

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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

A MALDIÇÃO DO TÊNIS BRANCO >> Fernanda Pinho




Como uma boa família belo-horizontina, não foram poucos os anos que vimos chegar na orla da Praia do Morro, em Guarapari, no Espírito Santo. O fim do ano de 1989, porém, foi escatologicamente mais marcante. Estávamos na areia, eu, pai, mãe, irmã, primos, primas, tios e tias, devidamente posicionados para assistirmos à queima de fogos que daria 1990 à luz. Eu, toda serelepe, vestida de branco e com um All Star de cano alto mais branco ainda, que eu havia ganhado naquele Natal, pulava de um lado para o outro como fazem os cangurus e as crianças de seis anos. Pulei, pulei, pulei...até que ploft! Dei o maior pisão em um cocô. Um cocô humano para piorar, e muito, minha situação. Minha mãe tentou contornar o estrago, esfregando meu pé no meio-fio, na areia. Nada resolveu. Eu já estava impregnada com aquele odor e não fui poupada pela sinceridade cruel das crianças. Meus primos não contiveram o riso nem o impulso de só se aproximarem de mim com os narizes devidamente tampados. Eu, claro, já estava quase explodindo de vontade de chorar, mas não podia, posto que chorar era uma das proibições esdrúxulas do meu pai, que seguíamos à risca. Minha mãe, muito boa, como sempre, ficou comovida com minha situação e me levou de volta para a casa. Passamos o reveillon sozinhas, assistindo um filme na televisão e o tênis de molho no tanque.  

Anos mais tarde, não estou muito certa da data, mas acho que eu tinha treze anos, ganhei um outro tênis branco no Natal. Claro, fui com ele à festa de Ano Novo, afinal, o caso do cocô havia sido apenas uma fatalidade. Sem falar que, naquele ano, a festa da família não seria na praia e, sim, em Belo Horizonte, na casa da minha tia, onde não há grama, mato, cachorro, nem pessoas com o hábito de fazer suas necessidades no chão. Ou seja, não existia a menor chance do meu tênis ser batizado. Dessa vez, nem pulando eu estava. Estava parada, conversando com meus primos. Ainda tive tempo de olhar para cima e ver o projétil concluindo sua trajetória no ar. Desfilou pelos ares, me elegeu entre as tantas pessoas que estavam ali, passou fazendo um voo rasante pela minha roupa e culminou explodindo aos meus pés. Dessa vez, uma manga podre.  Porque no reveillon é assim. Tem gente que solta fogos, tem gente que joga confete, serpentina e champanhe e, aparentemente, algum vizinho da minha tia, tinha o peculiar hábito de soltar manga pobre para dar boas vindas ao novo ano.  

Me lembrei disso hoje, ao fazer as malas para a viagem do reveillon. Tudo escolhido com muito cuidado. Inclusive um chinelinho vagabundo para a hora da virada. Nem toda tradição é para ser mantida. Escolham bem o que vão calçar e tenham um feliz ano novo!
                                                                                                                   


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quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

NA JANELA... NO BALANÇO... >> Carla Dias >>

Estou envelhecendo.

Estamos, não? E compreendo, cada vez com mais clareza, quando alguém diz “a sabedoria do tempo”. Não é o tempo que se torna sábio, mas é o próprio que nos concede a oportunidade de nos tornarmos sábios, aprendendo a acompanhar a vida a passos mais largos, sem dar urgências como desculpa, apreciando paisagens e não apenas o buquê do vinho ou o do café. Porque às vezes é preciso nos debruçarmos na janela do tempo e percebê-lo passando ao som do silêncio, prestando atenção no que, no afã da correria cotidiana, permitimos passar despercebido.

Há quem creia que estamos morrendo a cada dia, mas prefiro pensar que estamos nos construindo a cada dia, colocando mais um tijolo, instalando abajures, pintando paredes, criando jardins secretos, alimentando sonhos. E aprendendo a realidade do respeito, que não é apenas dedicado aos que conhecemos, mas também aos que julgamos estranhos, mas que, na verdade, são parte de quem somos.

Escutei de uma criança uma teoria sombria sobre como o mundo está sendo assassinado. Enquanto ela falava, arregalava os olhos e me vendia – usando e abusando da sua condição de menina que não deveria se preocupar com essas coisas – a ideia de que temos de cuidar do planeta, senão a água acabará, e o que a gente vai fazer? “A gente vai morrer de sede! A gente vai morrer!”

A gente vai morrer. Eu sei.

Desculpem-me os que acreditam que devemos alimentar os abismos na infância. Mas em casos assim só posso pensar no que minha avó dizia, e que sei que não é de sua autoria, mas apenas um fato: cada coisa a seu tempo. Porque até mesmo para compreender a morte ou a sorte, e que o planeta depende da forma como o ser humano lida com ele, de acordo com a própria ganância, há o tempo que é acertado, até mesmo quando não parece o certo. Não que devamos esconder as coisas das crianças, até porque hoje tudo se vê. Porém, podemos evitar que elas se consumam com os problemas que não lhes cabem, ao menos no momento.

Às crianças cabem os abrandamentos.

Aquele desespero da menina vem de dois tipos de fonte: o telejornal e a igreja. Viesse da educação capaz de receber pensadores, ela poderia se sentar perto de mim e me contar sobre os perigos de não sabermos cuidar desse lugar que nos recebe e o qual chamamos de lar. Contaria sobre como aprendeu a economizar água, reciclar o lixo, e da importância de Deus na criação do planeta, e de nós na conservação e transformação dele. Não houvesse o sensacionalismo ao se contar tragédias ou a religião impregnada do direito de domesticar pensamentos, essa menina, inteligente que só, curiosa o suficiente para aprender, poderia, logo mais, contar-me que nós vamos morrer, mas não de falta de água, tampouco de comida, mas sim porque a morte é natural à vida, e das outras coisas, nós, os seres humanos, temos de cuidar com atenção e desprendimento.

Essa crônica não é para maldizer a televisão ou criticar a igreja, tampouco para driblar a morte com teorias sobre a imortalidade. Mas como eu disse, estou envelhecendo, e prefiro pensar a vida ao perscrutar a morte. E aceitar a realidade com direito às melhoras que pessoas sábias possam provocar.

Essa crônica é sobre estar debruçada na janela do tempo, escutando o silêncio que antecede a chegada daqueles que, ainda no início das suas jornadas, podem aprender a vida de um jeito diferente, muito mais amável e cuidadoso. E para isso, a sabedoria tem de chegar no tempo que lhe cabe, na época em que será absorvida com graça e apreço.

“A gente vai morrer!”, ela quase gritou, olhinhos assombrados pelo o que assistiu no telejornal e o que aprendeu na igreja, misturando os problemas causados pelo ser humano com tudo o que lhe disseram sobre pecados e apocalipse. E eu não pude responder no mesmo grau de urgência, porque estou envelhecendo, já sei que nem tudo é a ferro e fogo ou preto no branco. Só sei que cada coisa a seu tempo.

Hoje não! Hoje vamos brincar no balanço.

E a menina esqueceu da sede e da fome e da morte, porque balançava tão alto, às vezes se enrolando no balanço para rodar bem rápido. Divertia-se neste tempo que era o da alegria de ser uma pessoa que sabe apreciar uma boa brincadeira. E da janela do tempo, décadas de vida a mais do que ela, debruçada, e com a preguiça da tarde quente como companhia, eu aprendia mais sobre importâncias, enquanto a observava ser feliz.


carladias.com

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terça-feira, 27 de dezembro de 2011

A TEORIA DA TRIVIALIDADE >> Clara Braga

Vocês já perceberam que quando começamos a prestar atenção em algo novo parece que esse algo não é tão novo assim?

Bom, acho que não consegui me expressar direito, vou tentar explicar melhor.

Por exemplo, meu pai comprou recentemente um carro novo, um Honda Fit. A idéia de comprar especificamente esse carro foi porque era um carro diferente, que poucas pessoas tinham. Mas o que acabou acontecendo foi que depois que ele comprou o carro, parece que o carro que mais tem na rua é o tal do Honda Fit.

Outro exemplo é esse grupo com o qual eu comecei a trabalhar faz pouco tempo, onde todos os alunos são deficientes. Eu nunca tinha tido contato tão próximo como estou tendo agora com pessoas que tivessem qualquer tipo de deficiência, já hoje em dia eu acho impressionante a quantidade de cadeirantes que eu vejo pela rua.

Esse fenômeno da novidade que não é tão novidade assim, para mim, aconteceu também com a crônica. Depois que comecei a escrever aqui semanalmente, tive a impressão de que crônica virou moda. É muita gente escrevendo, muitos livros de crônicas foram lançados, todo jornal e toda revista aposta forte nas crônicas, e apostam também em todo tipo de pessoas para escreverem. Chamam atores, chamam cantores, estudantes desconhecidos, o vizinho do cachorro da vizinha, não importa, o que importa é ter uma crônica!

A princípio eu achava que essa “popularidade” da crônica, se é que eu posso usar essa palavra nesse caso, se dava porque o mundo anda muito corrido e a crônica, por ser um texto mais curtinho, dá para ser lido rapidinho, sem perder muito tempo.

Ninguém pode negar que essa minha teoria faz muito sentido, e que pode até ser uma verdade. Mas outro dia, pensando melhor, cheguei a uma outra conclusão, que também é só uma teoria, mas que também faz muito sentido.

A crônica, apesar de não ser uma regra, normalmente trata de assuntos triviais. E, de fato, o mundo está mais do que necessitado de um pouco de trivialidade.

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domingo, 25 de dezembro de 2011

O JOGO >> Whisner Fraga


Essa época do ano é muito chata. É só o Natal se aproximar para que tudo fique lotado: as ruas, os cabeleireiros, as rodovias, os consultórios médicos, os correios, as papelarias e todos os demais poucos lugares que frequento. Sem falar da quantidade de gente bêbada que infesta o trânsito congestionado. Natal é tempo de enchentes, de desabamentos e de preparação para enfrentarmos a dengue. Não fosse a cidade iluminada, não sei se suportaria a data.

Quando era criança, parece que era diferente. Aguardava ansioso a chegada do vinte e cinco de dezembro, menos pela longa e enfadonha missa do galo, que nossos pais nos obrigavam a assistir, do que pelos inúmeros presentes que ganhava de todos os minguados parentes que apareciam em nossa casa. Contabilizando: uns dois brinquedos garantidos, o que era muito para um menino de classe média-baixa, acostumado aos apertos de cinto, tão conhecidos dos brasileiros.

Mas o assunto de hoje é um fato que ocorreu dois ou três dias antes de um Natal de 1984. Éramos pré-adolescentes e viciados em Bete. Não sei se é assim que se escreve e nem se esse é o nome oficial do jogo, mas vou tentar explicar como funciona. É um beisebol simplificado. Ou adaptado para nossa realidade orçamentária. Eram necessários quatro jogadores, ou duas equipes de dois meninos cada uma. Um time ficava com os tacos e o outro com a bola. O objetivo era proteger uma pequena lata de óleo dos ataques do adversário. Ou seja: um garoto, que ficava a uma distância de uns dez metros do rival, lançava a bola tentando derrubar a latinha. Os tacos, que chamávamos de “betes”, eram usados para rebater a bola, impedindo que a latinha caísse.

Todavia, essas rebatidas não eram inocentes, pois se a bola subisse demais, o oponente podia dar um “corisco”. Um corisco acontecia quando alguém acertava a bola e o oponente, antes que ela quicasse no chão, dava um toque, com as duas mãos, como se estivesse em uma partida de vôlei. Aí tudo se invertia: quem estava com os betes ia para a bola e quem estava com a bola ia para os betes. O time vencedor era aquele que conseguisse cruzar os betes mais vezes. Nossa, que complicado. O que é mesmo “cruzar os betes”? Bom, quem quiser saber, que recorra a um manual, pois esta crônica não é para explicar em detalhes as regras do Bete.

É sim para falar do que aconteceu em uma partida de Bete, numa véspera de Natal, numa avenida distante do bairro Junqueira, em Ituiutaba. A bola veio em direção à minha latinha, traiçoeira e, antes que ela derrubasse o alvo, consegui atingi-la de jeito. Foi uma bancada tão feroz que achei que a danada pararia no bairro vizinho. O incrível dessa história é que o João acreditou que poderia fazer um corisco e desandou a correr feito louco, mas sem tirar os olhos da bola, lá no alto. Acompanhávamos João com os olhos e ele diminuía cada vez mais. Corria, desesperado, até que sumiu. Assim, do nada. Sumiu. Ficamos preocupados e disparamos atrás dele. Ouvíamos seus gritos, distantes, mas não o achávamos. Nunca vi ninguém desaparecer daquele jeito. Minutos depois, descobrimos que ele havia caído em um bueiro. Arrumamos uma corda e o tiramos de lá, todo arranhado, mas feliz, muito feliz, com um sorriso incompreensível e uma euforia anormal. Foi aí que ele mostrou uma bola presa na mão direita e gritou: “corisco”!


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O VERDADEIRO PAPAI NOEL
>> Eduardo Loureiro Jr.

O leitor conseguiria lembrar o que sentiu ao descobrir que o Papai Noel não existia de verdade? Qual a sua sensação ao saber que eram seus pais que compravam e colocavam os presentes debaixo da cama (ou da rede, como às vezes era o meu caso, em noites de Natal sempre tensas, com medo de, dormindo, mijar em cima de meu presente)?

Mas voltemos ao leitor: como se sentiu? Ficou desapontado? Sentiu-se traído? Teve a sensação de que só podia ser assim mesmo, já que o Papai Noel não tinha como ir em todas as casas em uma única noite? Sentiu-se superior aos coleguinhas que ainda acreditavam naquela embromação?

Mas e se o leitor tiver apenas saído de um engano para outro? E se a inexistência do Papai Noel ainda não for toda a verdade?

Eu não lembro do dia, nem do ano, em que deixei de acreditar em Papai Noel. Para mim, talvez tenha sido um acontecimento banal. Mas será difícil esquecer o dia em que voltei a acreditar em Papai Noel...

Terça-feira passada, eu estava em pé na Praça do Ferreira, em companhia de minha família. Assistíamos à apresentação de um coral de crianças, todas vestidas como Papai Noel, dispostas em pares ou em trios nas sacadas de um prédio antigo do Centro, em Fortaleza. Confesso que eu estava um pouco enfastiado, com mais vontade de deitar no silêncio de uma rede que ouvir badaladas canções natalinas. E talvez esse estado meio sonolento, aliado àquela visão de dezenas de papais noéis, tenha alterado minha percepção em relação à verdade sobre o Papai Noel.

Enquanto o vento que vem da praia varria as folhas das árvores, as saias das moças e os meus pensamentos, ocorreu-me que o Papai Noel existe mesmo de verdade, e que ele é assim feito Deus: é sem ser e, não sendo, é. Papai Noel existe quando não é visto e, quando é visto, parece não existir. Cada pai e mãe é Papai Noel, no mistério de seu esconderijo, mas basta vermos um deles entregando um presente e nos enchemos de dúvida. É como um grande e complexo brinquedo do qual nós, crianças de todas as idades, não conseguimos desvendar os detalhes da engrenagem mecânica.

Ao desacreditar que Papai Noel era um só, não nos ocorreu pensar que Papai Noel é, na verdade, muitos. E, mesmo que acreditemos agora que Papai Noel seja muitos, corremos o risco de não voltar a acreditar que ele também é um só. Porque o que há que, sendo muitos, não é também um único? Não é assim com as árvores? O cajueiro não é muitos, sem deixar de ser o cajueiro?

Sim, caro leitor. Podemos voltar a crer em Papai Noel, no velho Tempo, branco de pureza e encarnado de entusiasmo, com um saco generoso de presentes para todos aqueles que ainda acreditarem.

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sábado, 24 de dezembro de 2011

CELEBRAÇÃO [Debora Bottcher]

“Não há atalho real na Filosofia.” (Aristóteles)

Fui educada em Colégio de freiras, naquele tempo em que as aulas de religião eram dentro da capela/igreja da escola. Mas perto dos meus dez anos, minha mãe informou à Madre Superiora que eu não faria Primeira Comunhão, pois ela frequentava uma igreja pentecostal - na época, a Igreja do Nazareno. Lá pelos meus treze anos, nova mudança: passamos a ir a uma Igreja Evangélica - e nessa, eu passei a ir à Escola Dominical e aos cultos semanais com regularidade, além de fazer parte do Coral e do Grupo de Jovens.

Aqui cabe um adendo para explicar o porquê da mudança: meu pai era ateu e, numa manhã de sábado, um pastor da Nazareno foi até minha casa tentar fazê-lo mudar de ideia. Ele estava lavando os carros e explicou gentilmente ao rapaz que agradecia o esforço e a visita, mas que não tinha interesse em ouvir o sermão. Como o moço insistiu, tomou um banho de água fria (literalmente) - e esse incidente deixou minha mãe muito envergonhada perante a Igreja.

Mas meu pai, apesar de sua crença (ou ausência de) nunca nos impediu de conhecer e transitar pelas religiões - um dos meus irmãos, inclusive, tornou-se Pastor da Igreja Batista. Ele era um homem muito democrático e acreditava que cada um tem que fazer suas próprias escolhas sem interferências - e arcar com elas. Seguir o próprio caminho, ele dizia... Dessa forma, eu seguia minha estrada na Igreja Evangélica e, algumas vezes, ele foi conosco ver-me cantar no Coral e assistia, até com bastante atenção, às palavras pastorais dos Cultos.

Mas eu tinha em torno de dezesseis anos quando peguei-me questionando minha fé e a existência de Deus. O que trouxe à tona essa dúvida foi um acontecimento doméstico - uma discussão calorosa entre meus pais. Esse era um evento rotineiro - meus pais se amavam daquela maneira apaixonada que gera conflitos cotidianos -, mas 'aquele' desentendimento desencadeou em mim um sentimento de impotência que me passou a certeza de que as coisas são como são, e isso fez de mim uma pessoa muito pragmática - e a fé não se situa bem dentro do pragmatismo.

Mais tarde, ao longo dos anos, pesquisei sobre Anjos, Bruxas, Magia, Espiritismo, Candomblé, li sobre Budismo, Sufismo, Islamismo e outras muitas denominações religiosas, fui a várias igrejas diferentes (inclusive à Católica, da minha primeira formação), e continuei em dúvida. O Mundo também se encarregou (e ainda se encarrega) de me deixar indecisa: quando você vê o que se faz 'em nome de Deus', fica muito difícil crer na teoria de Amor, Bondade e Justiça que envolve o Ser Supremo. Assim, posso dizer que, por essa trajetória de história pessoal, tornei-me uma pessoa agnóstica - aquela que acha que há chances iguais de Deus existir ou não.

Seja como for, na minha casa sempre se festejou o Natal (sem o simbolismo obrigatório da troca de presentes - isso nunca fez parte prioritária e essencial da data para nós). Não tenho certeza se na literalidade do evento - o suposto nascimento de Jesus -, mas sempre reunimos a família e amigos na casa do meu pai para celebrar a união, a amizade, a vida. Meu pai adorava comemorações de qualquer tipo - era um ser de alegria permanente e contagiante.

E na minha própria casa, isso se perpetua - e esse talvez seja um dos grandes legados que meu pai me deixou: eu também adoro uma festa! E nós nos reunimos em celebração a mais um ano que está por terminar, à (boa) vida que desfrutamos apesar dos inevitáveis contratempos, à saúde, à ausência de tragédias à nossa volta, às pequenas e grandes conquistas diárias, ao milagre cotidiano que é viver. Se, ainda que intimamente, para uns ou para muitos, esse ritual se faz 'em nome de Deus', não sei precisar. Para mim, importa mesmo estar junto aos que quero bem, no grande e misterioso ato que chamamos de Amor.

Feliz Natal - para você e os seus!

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Vésperas >> Maria Rachel Oliveira

Hoje é véspera de Natal. O Natal é uma data cristã – uma vez que diz respeito, teoricamente, à celebração do aniversário do nascimento de Jesus de Nazaré, lá em Belém. Há ainda, na definição desta data, resquícios de celebrações pagãs, como o solstício de inverno no hemisfério norte – que é quando a parte iluminada do dia começa a ganhar mais espaço em cada 24h. Mas não voltei a este querido espaço pra falar de Natal, que Zoraya já falou tão bem ontem. Hoje, aqui, nós vamos falar de vésperas.

Segundo o dicionário, o significado mais difundido para véspera é “um dia que antecede imediatamente a outro determinado”. E, pensem cá comigo, quantas coisas antecipamos! Contamos os meses praquela viagem há tanto sonhada, os dias pra aquele encontro, as horas pra um telefonema... os segundos até às 18h de uma sexta-feira! Enquanto umas trazem consigo o cheiro do tender assando no forno, outras vêm com a preocupação da depilação ou da barba em dia ou mesmo opiniões pré-concebidas acerca do local escolhido pro happy hour. Antecipar coisas é normal. Descobrir, de antemão, como é o tempo em Quixeramobim das Couves na época em que passaremos as férias lá - pra podermos arrumar a mala adequadamente a fim de não sermos pegos de surpresa quando chegarmos.

Engraçado é que vésperas têm, em comum, todas elas - e na maioria dos casos -, mais pano pras mangas do que as datas que esperamos, propriamente ditas. Tudo culpa da nossa fértil imaginação! Aquele presente que esperávamos estrear no dia 31 vem com o tamanho errado ou simplesmente nada tem a ver conosco. O sorriso largo daquele filho chega meio torto porque ele já tinha mudado de ideia quanto ao seu presente de Natal e avisou pro Papai Noel que ele encontrou no shopping - mas não lembrou de falar isso pra gente! E aquele encontro? “Não deu, ela tinha um bafo horroroso!” ou “Nunca uma noite demorou tanto a passar!”. E agora, José? Isso quer dizer que todas as vésperas são melhores do que o evento aguardado?

Não, não foi exatamente isso que eu quis dizer. Eu quero dizer é o seguinte: antecipar acontecimentos é a forma mais certa que temos de nos decepcionar com nossa imaginação! E isso vale tanto para o bem quanto para o mal. Aquele encontro pelo qual não daríamos nada não tem como dar certo se já escrevermos de véspera seu script. Aliás, nem aquele outro encontro, super-hiper-ultra promissor, há de sair como a gente imaginou – porque não vai ser, certo como dois e dois são quatro. Nada acontece e-xa-ta-men-te como antecipamos; isso só seria possível caso pertencêssemos a uma espécie de seres-oráculo que desconhecem a existência de Murphy, do livre-arbítrio – como se isso fosse possível - e do inesperado.

O inesperado, esse sim, que pode ser uma das melhores coisas que existem.

Então, abracemos a antecipação. Curtir antes é bom! Mas que possamos sempre lembrar de soltar nossa imaginação com parcimônia nas vésperas; em cada uma delas. Que saibamos cuidar do nosso poder de antecipação feito pipa. Que voe, mas que não vá longe. Desviemos dos postes altos, dos fios telefônicos. Que consigamos manter o controle da linha para que não alcance o infinito azul do céu. Assim, não vamos permitir que a surpresa passe escondida por trás de alguma coisa que não saiu exatamente como a gente imaginou.

Que venha o novo. Tão novo que nem a nossa imaginação foi capaz de nos mostrar como seria.


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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

HO HO HO >> Zoraya Cesar

Vamos nos afastar um pouco desse pessoal esbaforido? Da correria? Afinal, depois de todas as compras, cartões virtuais, sorrisos falsos, comilanças desenfreadas, frenesis, sabe o que resta? Presentes a serem trocados e a mesma vida medíocre e vazia a ser perpetuada.

Que tal sentarmos tranquilos e tomarmos um cálice de Bailey’s? Mozart? Ah, de Amarula, perfeito. Enquanto isso, deixemos esse pessoal todo comprando, comprando, a reclamar que o Natal é uma data “muito comercial e hipócrita”, pois “falam mal do Fulano o ano inteiro e no Natal ficam de sorrisinhos”. Sabemos, você e eu, aqui degustando nosso licorzinho, que aquele que mais reclama é justamente quem colabora para fazer dessa festa um inferno sazonal.

Cá entre nós, Natal não é época para entrar em shoppings – esses templos de adoração às horas perdidas –, enfrentar filas, percorrer ruas entupidas de pessoas que parecem ter saído das cavernas (ah, puxa, você também costuma empurrar, gritar, dar cotoveladas e se comportar como um Neanderthal? Foi mal, desculpe) e comprar presentes só para “fazer um social” com gente que não significa nada para você; adquirir o celular de última geração, cujos aplicativos você nem usa; substituir a geladeira que ainda funciona, mas que não é tão boa quanto a da vizinha; comprar uma televisão LCD 40 polegadas que vai deixá-lo grudado no sofá mais um dia inteiro da sua vida jogado fora.

Natal é ocasião para dar os presentes intangíveis e não os comprados em lojas. Por exemplo, dê seu perdão sincero - inclusive para você mesmo, que mania de ficar se martirizando por erros passados! -, deseje o bem a algum desafeto, receba aquela tia insuportável com caridade. Peça que seus convidados tragam presentes para o abrigo de velhinhos, de crianças, de animais. Esse é o tipo de presente que o aniversariante gostaria de receber. Engasgou? Levanta os braços. Sei, também você, como todo mundo, esqueceu do aniversariante.

O licor destrava um pouco a minha língua, e, mesmo temendo ferir corações sensíveis, devo dizer que não adianta chiar e resmungar, Natal é uma festividade religiosa sim, e só faz sentido se você lembrar disso. Do contrário, é tudo loucura.

Ah, mas você não tem religião e não acredita nessa baboseira toda? Tudo bem. Mais um motivo para não entrar nesse espírito consumista do qual você mesmo tanto reclama. 

Mas as crianças, elas gostam de presentes. Dê presentes para as crianças, oras. E aproveite para ensiná-las a doar os brinquedos antigos. Desapego é algo que todos devemos aprender (eu também, acredite). O que, você gosta de receber presentes? E eu, então? Gosto muitíssimo. Desde que seja por afeto e não por obrigação social.

Fique mais um pouco, o trânsito está horrível. Sim, você tem razão, Natal virou uma data muito comercial. Mas quem estava agora há pouco, antes de sentarmos aqui, comprando presentes para Deus e o mundo (ops, para Deus não, só para o mundo), mais um a participar dessa confusão, lojas repletas, engarrafamentos intermináveis, gente mal humorada, correria, contribuindo para esse mesmo caos do qual reclama?

Na verdade, Natal não é a época de trocar presentes como mercadores, comer feito ogros, beber como vikings e esquecer completamente o porquê da festa. E, como diz um amigo, também não é o aniversário de Papai Noel.

Vou me servir de mais um cálice, com sua licença. E afirmo que Natal não é sinônimo de hipocrisia, não senhor, não senhora. Se você tem de falar “Feliz Natal” para uma criatura insuportável (e ela é mesmo, concordo), lembre-se que uma criatura detestável é sempre um ser miserável e infeliz; tenha, portanto, a caridade (essa é a época ideal) de desejar-lhe verdadeiramente um advento cheio de amor, quem sabe é disso o que ela precisa. Também é difícil para mim, mas Natal é para isso mesmo, sermos melhores do que somos, transcender esses detalhes. Se desejarmos sinceramente, não estaremos sendo hipócritas. E se o outro só disser Feliz Natal da boca para fora... bem, problema dele, certo?

E, por fim, que já estou sentindo uma certa tontura, o licor estava muito bom, Natal é festa de aniversário. Dê o seu melhor em amizade, tolerância, caridade (lembra da tia chata? Pois é), isso está acima de qualquer crença. Dê tudo aquilo que você gostaria de receber.

E desejo a todos, todos mesmo (até à minha vizinha, que é mais detestável que aquela tia chata), um real, profundo e feliz Natal. Ho ho ho.

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quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

A FARSA >> Fernanda Pinho



- É, Fernanda, ele não existe.


Foi assim, à queima roupa, que duas primas minhas me contaram a verdade. Sem medir as palavras e as consequências, me revelaram, numa noite chuvosa, típica das que precedem o natal, que o Papai Noel era uma farsa.

Não chorei, não questionei. Apenas quis ficar sozinha, como faço ainda hoje quando me sinto angustiada. Não é exagero dizer que fiquei angustiada. Fiquei, e muito. Eu que, até aquele momento, só havia sentido algo semelhante apenas uma vez na vida – na ocasião em que descobri que a Vovó Mafalda era homem – via mais um mito desmoronar. E se você já foi criança, sabe do que eu estou falando.

É verdade que, desde que um suposto Papai Noel havia visitado o jardim de infância onde eu estudava, no ano anterior, nosso relacionamento não estava lá essas mil maravilhas. Eu aguardei ansiosamente pelo momento daquele encontro e soube esperar, resignada com a condição de última da fila – oh sina de ser a maior da turma desde criança. Eu só não imaginava que, quando finalmente, chegasse minha vez, Papai Noel estivesse todo amarrotado, suado, nervoso, dando beliscão – provavelmente aflito para ir ao banheiro, fumar, ou qualquer outra necessidade humana. Nem que eu receberia uma lembrancinha toda campenga, faltando o lacinho, e sem a possibilidade de troca, afinal era a última do saco. E eu que achava que ver Papai Noel de saco cheio era coisa boa, voltei para a casa chateada. Mas meus pais – sempre eles – me fizeram compreender que a culpa não era dele. E sim, das tradicionais filas brasileiras que não poupam problemas nem para velhinhos vindos de outras dimensões.

O encanto, porém, continuava. Bem ou mal, aquele senhor havia me presenteado com a boneca da Xuxa! Só eu tinha a boneca da Xuxa em todo o jardim! Nem a Mariana tinha! Ah, ele devia gostar mesmo de mim. E o fogãozinho que acendia de verdade? Todas as minhas vizinhas queriam um daqueles. E eu tinha dois! Ganhei no mesmo dia, um da minha madrinha, outro do Papai Noel. Isso eu não entendi. Se o bom velhinho tudo pode, por que ele não adivinhou que a madrinha me daria esse brinquedo e trocou de presente? Mas tudo bem, de certo estava muito ocupado preparando suas renas para a longa jornada natalina. Também não entendi como ele conseguiu entrar pela janela do meu quarto com a minha bicicleta rosa. A janela tinha grade! Mas conseguiu, ela estava lá, atrás da porta, em cima do meu sapatinho. Vai ver ele também era um usuário de pílulas de nanicolina, tal como o Chapolin.

Fiquei um bom tempo assim, afundada em minhas lembranças que se misturavam com a frase cortante das primas iconoclastas - "Ele não existe" - e com as revelações que vieram logo em seguida: "É o seu pai quem compra seus presentes", "Quem guarda a cartinha que você deixa na janela é a Tia Léia. Não tem duende nenhum que vem buscar".

Meus devaneios foram interrompidos com a repentina entrada de meus pais em meu quarto. Me vendo cabisbaixa, no canto da cama, quiseram saber o que tinha acontecido. "Aconteceu que eu descobri que eu estou sendo enganada há CINCO anos. Tem CINCO anos que eu mando cartinhas para aquele velho babão e agora eu soube que ele não existe!", mas isso eu não disse, eu só pensei. Pensei também que, talvez, a descoberta da verdade implicasse automaticamente no fim das regalias natalinas, e não querendo arriscar o salão de beleza da Barbie que eu havia pedido para aquele ano, respondi displicentemente. "Nada, não. Estou só pensando se o Papai Noel já recebeu minha cartinha".


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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

INQUIETAR-NOS >> Carla Dias >>


Aprecio orbitar ao redor das invenções que ainda estão por nascer, porque ao prefaciar a descoberta também é possível se misturar a ela. E ainda que não seja algo transformador, mas apenas um facilitador de tarefas desimportantes, ou até mesmo uma ferramenta para o reconhecimento de banalidades, a criação por si já é um milagre com a inquietação entranhada em sua arquitetura.

E a inquietação faz parte do desabono da certeza, portanto, sustenta a liberdade.

Liberdade é essa coisa-sentimento, e de direito, que nos permite ser sem amarras. Há pessoas que acabam sendo invenções próprias, transformando a si em personas, projetos de quem gostariam de parecer aos olhares alheios. Porém, a sua essência se inquieta, mostrando-se mais forte do que o personagem imaginaria. E às vezes ela escapa num suspiro, todos a sua volta param para escutar tal sinfonia.

Na inquietação moram as possibilidades.

Possibilidade é coisa que até pode cair do céu, mas vez ou outra, e nem sempre nas nossas cabeças. Em alguns casos, necessitam de um cultivo que requer dedicação e muito trabalho. Elas não pipocam - faceiras e fáceis -, mas podem transformar as nossas vidas como se fossem mágicos tirando surpresas da cartola, tornando tudo mais colorido, repleto de nuances, ritmado, fazendo bagunça dentro da gente.

A inquietação nos conduz a novos caminhos...

Como este que você escolheu, agorinha, inspirado pelo final da tarde, pela fila longa do banco, pelo fazer absolutamente nada, pelo ano que chegará, daqui a pouco, novo em folha. E há caminhos que adoramos redescobrir, como aquele que fica entre o beijo e o abraço, e o que se esparrama no álbum de fotografias.

A inquietação pode ser prenúncio de amansamento, após acompanharmos o nascimento de tantas invenções, de alimentarmos a nossa liberdade sem que ela invada a liberdade do outro, de colhermos possibilidades. Após caminharmos por aquele caminho que, não fosse a inquietação, jamais descobriríamos.

Inquietar-nos sempre.

carladias.com

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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O OUTRO LADO DA MOEDA >> Clara Braga

Eu, como qualquer outro ser humano, tenho meus defeitos. Alguns são defeitinhos, outros já são defeitos um pouco maiores, mas tudo bem, a gente vai aprendendo a lidar com eles como pode.

Um dos meus defeitos é ser muito exigente. Isso, quando é só com você mesmo, pode até ser bom, você acaba fazendo as coisas com mais perfeccionismo e assim vai melhorando. O problema é quando você é tão exigente consigo mesmo que acaba sendo exigente com os outros sem nem perceber. E esse é meu caso.

Fico chateada quando as pessoas esquecem meu aniversário, não gosto quando as pessoas se atrasam muito sem me explicarem o motivo, fico um pouco magoada quando as pessoas não estão presentes em eventos que para mim significam muito, e fico um pouco enciumada quando bons amigos meus marcam de sair entre si e não me convidam.

Muitas pessoas devem se sentir um pouco mal com essas situações, e por isso devem estar pensando que isso não é ser exigente, isso é normal. O problema é que a maioria das pessoas fala para a outra pessoa que não gostou da atitude dela e, pronto, esqueceu o assunto. Eu não, demoro até esquecer, e é ai que o problema surge.

A melhor forma de repensarmos essas atitudes nossas que não são muito certas, mas que às vezes não conseguimos evitar, é quando a história muda de lado.

Enfim estou de férias, mas essas duas últimas semanas não foram fáceis. Muitos trabalhos para entregar, muitos relatórios para escrever, montagem de exposição para fazer, apresentação final do grupo de teatro-dança para deficientes no qual estou trabalhando, algumas apresentações da banda, muito ensaio e assim por diante. Todas essas tarefas me deixaram completamente sem tempo, mal arrumava tempo para comer e tomar banho, que dirá arrumar tempo para ser uma boa amiga, boa filha, boa namorada, etc.

Agora que entrei de férias, descansei. Mas junto com o alívio de ter acabado, veio um sentimento de culpa. Não sei bem se é culpa, se é arrependimento, enfim... só sei que me senti mal. Esqueci alguns aniversários, nem liguei para avisar que não poderia aparecer na festa, perdi alguns eventos, não respondi mensagens nem e-mails, nem a crônica de terça-feira passada eu consegui colocar aqui por não ter tido tempo de parar na frente do computador.

Para todas essas pessoas que eu acabei deixando um pouco de lado, minhas sinceras desculpas. Mas acreditem, o ensinamento vai ficar. Agora vou pensar mil vezes antes de reclamar de alguém dizendo que é impossível a pessoa não arrumar 2 minutos no dia para avisar que não vai comparecer, ou 30 segundos para mandar um SMS avisando que não vai conseguir chegar na hora que marcou.

Sei que algumas pessoas nem chegaram a ficar chateadas, enquanto outras podem estar chateadas até agora, mas para essas que, assim como eu, ficam chateadas, acreditem, às vezes a gente não arruma tempo mesmo, não é invenção.

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segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

CEGUEIRA NACIONAL
>> Albir José Inácio da Silva

Desconfio ter encontrado a inspiração de Saramago para o seu “Ensaio Sobre a Cegueira”: o Brasil. A princípio só identificamos essa condição em algumas categorias, mas com atenção percebemos que atinge milhões de pessoas.

Aqui todos enxergam as irregularidades, menos os que têm responsabilidade e atribuição de combatê-las. Alguns enxergavam antes, denunciavam e ofereciam soluções. Por isso foram alçados àqueles postos. Mas no dia seguinte à eleição, à nomeação, à posse, já se instalou a cegueira e vemos os pobres funcionários tateando de frente pro crime sem conseguir enxergá-lo.

Começa nos altos escalões. Imagens circulam o Brasil e o mundo mostrando corrupção em gavetas, bolsos e cuecas. O mundo inteiro vê, menos as comissões de ética e os plenários, vítimas, coitados, de cegueira parlamentar.

Não há ruas, esquinas, becos, bares ou biroscas em que não se encontre o proibido jogo do bicho. Há mais de um século todos sabem, todos veem, menos policiais e seus superiores. Atingidos pela tal cegueira, esses homens da lei chegam a fazer ali suas apostas. Mas muito longe estão de qualquer prevaricação. Como não enxergam, julgam tratar-se de guichê da Caixa Econômica ou de outro ente que explore legalmente o jogo de azar.

O mesmo se diga dos caça-níqueis. A autoridade toma cafezinho ao lado dos proscritos engenhos, conversa com os clientes, mas não confisca máquinas e compulsivos no já consagrado estilo “teje preso”. Desídia? Incompetência? Não! Apenas cegueira. Não é disciplinar a questão, é médica, oftalmológica. As corregedorias sabem disso, a prova é que ninguém é punido.

E não é só a polícia. O setor de posturas e a Guarda Municipal ficam cegos exatamente às dezoito horas. Até essa hora apreendem, prendem e arrebentam, usando equipamentos que lembram guerra bacteriológica. Depois passeiam tranquilamente no meio dos camelôs, e pode-se vender ou comprar quase qualquer coisa – de comprimidos a mulheres – nessa zona franca.

Mas não pensem que a doença alcança apenas o funcionalismo. Os que não recebem do erário, só pagam, também podem sofrer desse mal. Poucos eleitores veem o que fazem aqueles que receberam seus votos. A maioria acompanha e denuncia outros eleitos, mas não os seus.

Querem mais? Quem nunca esteve numa festa em que todos estão desesperados com aquela mãe que, episodicamente cega, não vê o filho quebrando obras de arte, derramando refrigerante nos estofados e esfregando bolo no tapete? Pois é, essa senhora é capaz de observar uma fina camada de pó sob o móvel, mas não enxerga o brilhante rebento. As mães compreendem bem isso quando dizem: “criança cega a gente!”.

Fiéis são outra categoria frequentemente acometida de cegueira. Os milagreiros curam diariamente câncer, AIDS, falências, concordatas e dores de cotovelo. Mas quando sofrem, eles próprios, de amigdalite ou unha encravada hospedam-se em hospitais cinco estrelas. Todos veem, menos os que financiam esses luxos.

Outro exemplo? Vejam o corno - ou a corna, antes que alguém reivindique isonomia. O que essa figura lendária presente na mitologia de todos os povos mais precisa enxergar? Exatamente o que todos veem e ele não.

Fica a lição de que toda vigilância é pouca. Há sempre o risco de desenvolvermos algum tipo de cegueira, mesmo com bons olhos.

Mas, desde que não se trate do público dever, cabe alguma tolerância. Alguma penumbra. Afinal, acuidade demais pode revelar além do que suportam a beleza e a felicidade.

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domingo, 18 de dezembro de 2011

FICA, 2011 >> Eduardo Loureiro Jr.

Nós somos aqueles pelos quais estávamos esperando. (Nação indígena Hopi)

Eu sei que o tempo passa, e que todo ano passa, e que é bom que seja assim, mesmo porque não há outro jeito, a vida é eterno movimento e quem fica parado é poste, mas, sei lá, a gente bem que podia abrir uma exceçãozinha pra 2011.

Não, eu não vou dizer que foi um ano em que tudo aconteceu às mil maravilhas. O leitor mesmo deve ter sofrido alguns arranhões, talvez até algum corte profundo. Em 2011, ganhamos algumas cicatrizes, daquelas que não vão sumir tão cedo. Mas cá entre nós, caro leitor, uma cicatriz é bem melhor, bem mais natural, que tatuagem ou maquiagem definitiva. Cicatriz é coisa de quem viveu, de quem caiu e se levantou, de quem rastejou mas encontrou a luz no fim do túnel, de quem arriscou e, de tanto tentar, conseguiu alguma vitória.

O mundo está mudando. Isso ficou claro em 2011. Ainda tem gente que olha pras coisas e diz que o mundo não tem jeito, que a humanidade é um caso perdido, mas cada vez fica mais claro que essas pessoas não estão descrevendo o mundo nem a humanidade, mas aquilo que elas veem diante do espelho. O mundo, como diz Cartola, é um moinho, "vai triturar teus sonhos tão mesquinhos, vai reduzir as ilusões a pó". 2011 foi uma representação numérica disso: uma passagem do 2 a 0 para o 1 a 1; uma transição do tudo ou nada para o meio a meio; uma travessia do complexo de carrasco-vítima para a consciência da autorresponsabilidade; uma mudança das curvas sinuosas do 2 e do 0 para o caminho reto entre 1 e 1.

2011 fez todo o trabalho pesado e deixou tudo prontinho para 2012 apenas finalizar o serviço. O mundo como nós sempre o havíamos pensado vai mesmo acabar ano que vem. Como uma gravidez que acaba em nascimento, feito lagarta se acabando em borboleta, assim o buchudo e sério telejornal acabará em realidade vista com os próprios olhos.

Soa até ingênuo pedir a um ano que fique, e não porque ele não possa permanecer, mas porque 2011 veio mesmo para perdurar. E ficará para sempre. Um ano a partir do qual serão contados os aniversários. Daqui a trinta, quarenta anos, quando um jovenzinho nos perguntar como conseguimos tudo aquilo que estará lá no futuro, abriremos nossa história não com um "era uma vez", mas com um "tudo começou em 2011".

Vamos lá, leitor, não seja resmungão. Pegue uma folhinha de papel aí, aconchegue sua mão a um lápis e faça uma lista do que mudou em você durante 2011. O ano não foi tudo que você queria, imprevistos aconteceram, Papai Noel está com cara de que não vai aparecer com seu presente? Também tiraram sua chupeta e apareceu um irmãozinho com o qual você está tendo que dividir seu até então isolado reinado? Mamãe não quer mais lhe dar o peitinho? Papai deixou de lhe carregar no colo? É, caro leitor, o tempo passa. Como diz o Pai Nosso no tom provocador de meu pai, "só quer venha a nós o vosso reino, mas nada de seja feita a vossa vontade?"

2011 fica. O que passará são velhos hábitos, desnecessários feito folhinhas de calendário. O que passará são pessoas que, apegadas demais a seus cacoetes, preferirão morrer com eles a seguir em frente. "Tem gente que está doida que o mundo se acabe só pra ir junto com ele", dizia Dona Socorro, minha professora de História, a mesma que nos fazia procurar a causa e a consequência de cada fato. 2011 mostrou que nós somos a causa, o mundo é só consequência.

Ainda faltam 13 dias para 2011 NÃO acabar. Aproveite, leitor. Pare de reclamar, meu filho. Deixe o mundo em paz, deixe os políticos em pais, deixe os sacerdotes em paz, deixe as beatas em paz, deixe os ricos em paz, deixe o síndico em paz, deixe os inimigos em paz, deixe a literatura de autoajuda em paz, deixe a axé music em paz, deixe este cronista em paz. Largue mão desse chororô, caro leitor. Vai fazer terapia, vai fazer biodança... Cante, faça, case, invente... Chega de drama! Já não fica bem, já não convence ninguém. Você ainda está em 2010, 2009, 2008, 2007... e não percebeu.

Acorda, leitor! Não é tarde para começar esse ano fantástico que foi 2011. Fica com ele, fica comigo, fica com a gente.





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sábado, 17 de dezembro de 2011

INTERVALO [Sandra Paes]

Manhã nublada. Agenda em branco. Mais uma terça feira. Apenas mais um dia no calendário. Essa coisa que inventaram pra partir o tempo em pequenos pedaços e lhe rotular com fatos, emoções, dramas ou qualquer outro recheio para preencher o que se chama de vida.

Mais um dia querendo ser especial diante dessa imposição que a consciência econômica nos impôs. Há que matar um leão por dia e dar valores a todos os atos, tudo precisa ser classificado dentro do quadro de produção.

- Vai fazer o que hoje? Já se torna previsível a conversa que surgirá ao telefone.

Isso depois de um nada ritualistico: - Tudo bem?...

Ontem tive vontade de sumir, ficar invisível talvez. As fantasias nas ruas, pretexto natural do Halloween, me mostrou essa verdade crua. Quero estar invisível. Visibilidade implica em atuação. Atuar detona atenção e crítica. Sempre. Talvez apenas queira sair de cena. Essa aí mesmo onde há sempre um papel a desempenhar.

Fazer o que? Que pergunta, é dia de Halloween!

Entre bebês, fadas, bruxas, super-heróis, personagens de filmes, e tantos outros, eu queria me vestir de invisibilidade. Passear entre todos com a grandeza de ser nada, ninguém, coisa qualquer ou coisa nenhuma.

Sim, o palco da vida também cansa. E em mim esse cansaço é mais antigo que a civilização grega, onde parece tudo isso começou. Essa coisa de se nomear personas e personagens. Preciso de um intervalo existencial. Se não for possível, invento.

Sim, um intervalo neutro, onde em silêncio se vê passar todas as cenas de sua vida, ou o que assim se denomina - pra mim é o atuar, para outros o curriculum vitae - que já apropriado pelos herdeiros da revolução industrial virou uma espécie de resumo do que se chama sua vida profissional.

Ora bolas, na vida sou amadora. Sempre fui. E agora me pego deixando de ser. Deixando de amar a vida? Talvez. Talvez querendo férias desse existir cheio de atos e crítica contínua sobre os mesmos.

Há que progredir materialmente aos olhos do que a sociedade humana ocidental chama de “estar bem” na vida. O quanto você consome nos bares. Quantas viagens você faz por ano, quanto você investe no mercado mobiliário. Quanto tempo passa na internet fazendo compras. Qual o seu último celular ou o ano de seu carro? Essas questões invisíveis devem ser respondidas em pequenas fatias de cobranças semestrais.

O descartar e renovar atingiu as relações humanas. Os pares nas ruas, ah, os pares... Inventaram isso lá no tempo do Noé e a moda de tal apresentação ainda vigora. Mesmo que seja por poucas horas. Sim, é so passar na porta das boates para ver a rotatividade dos pares. Inventaram o casamento – que pouco se sustenta hoje em dia - e inventaram o divórcio para equilibrar o fastio da parelha contínua.

Todos esses enredos perpassam as ruas cobertas de todas as fantasias à mostra, num intervalo obrigatório para dar folga aos modelos preconcebidos pela moda, ternos e gravatas, decotes e tubinhos, mini saias e calças abaixo da cintura, etc. Todas variações sobre o mesmo tema: qual seu personagem de hoje?

Não, não precisa responder. Se voce sabe, já é muito. Dá pra vivê-lo todo o tempo? Não creio. Então: intervalo, por favor!

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quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

PROBLEMA DE COLUNA >> Fernanda Pinho


Confesso. Estou com o editor do Blogger aberto e o cursor piscando. Já olhei na agenda para ter a certeza de que hoje é quinta-feira mesmo. Talvez seja quarta e eu esteja apenas um pouco confusa, sei lá. Mas é quinta. Ontem, inclusive, foi quarta. E eu aqui, com o cursor piscando no editor do Blogger. São 10h36 e eu ainda não tenho minha crônica de quinta. Se eu tirasse uma foto do que é meu quarto nesse momento vocês pensariam que tudo isso é bem típico de mim. Desorganização total. Mas até que não, sabe. Esse negócio de texto eu levo a sério. Normalmente já começo a semana com minha crônica de quinta pronta ou, no mínimo, com um tema na cabeça.

Mas o que me ocorreu essa semana foram apenas relances de assuntos que me pareceram bem desinteressantes. E não duvido que agora alguém tenha resmungado: "e desde quando o que você escreve é interessante?". Eu sei, não é. Não vai jogar isso na minha cara agora, né? Cadê o espírito natalino? Mas é que as ideias da semana foram mais medíocres que o habitual. Estou um pouco atrapalhada da cabeça por motivos que ainda não encontro palavras para explicar. Coisa boa, adianto. Pra coisa ruim eu sempre dou um jeito. Poderia falar sobre natal ou ano novo, mas ainda é cedo. E eu não sei se teria o que dizer depois de ter gastado todos os meus votos para 2012 escrevendo cartões institucionais.

Olho para a janela. Continua a chover. Depois mandam a gente tomar banho depressa para preservar a água do meio ambiente. São Pedro, pelo visto, não leva essas dicas a sério. Gasta tanta água lavando seu quintal. Precisa mesmo disso tudo? Me limito a dizer que sempre achei e continuarei achando que só deveria chover nas lavouras e ponto. Nem para fazer barulhinho bom pra dormir eu acho necessário. Pra isso existe a internet. É tudo o que eu penso sobre chuva. Não renderia uma crônica inteira. E nem é necessário. Já rende tanta matéria trágica nos jornais. Ainda bem que eu sou uma jornalista que escreve sobre decoração e design.

Por falar em decoração, eu poderia comentar como Belo Horizonte está maravilhosamente bem decorada para o natal deste ano. Sério. Parece que decoraram como se, sei lá, o mundo fosse acabar antes do próximo natal. Belo Horizonte, aliás, fez aniversário essa semana e eu poderia falar sobre isso também. Mas é um tema muito restrito, afinal, temos leitores do Brasil inteiro. Ok. Eu falo sobre a minha vida e minha vida é muito mais restrita que minha cidade. Mas pelo menos minha vida é um assunto original, né? Ninguém mais escreve sobre ela.

Mas nem sobre minha vida há algo que eu poderia contar agora. Poderia, talvez, falar sobre o amigo oculto de ontem e transcrever as palavras da Mairsa dizendo o quanto eu sou inteligente e maravilhosa para revelar que havia me tirado. Mas seria muito egocêntrico, não? Eu não sou o tipo de pessoa que se diz inteligente e maravilhosa em suas próprias crônicas. Então não vou ficar aqui dizendo que meus amigos me acham inteligente e maravilhosa, tá? Podem ficar despreocupados.

Já passam das 11h e eu preciso dar um fim nisso. Enquanto digitava essa não-crônica (dizer "enquanto eu escrevia essa crônica" seria cara de pau demais) me lembrei de algo oportuno. Quando tive a oportunidade de participar de um bate-papo com Zuenir Ventura e Luis Fernando Verissimo, os ouvi admitir que também são acometidos pela falta de assunto, para preencher as colunas que escrevem. Sobretudo quando têm um compromisso fixo de escrever em determinado espaço. Situação que Zuenir batizou simpaticamente de "problema de coluna". Se eles podem, acho que eu também.

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quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

DE MALAS PRONTAS >> Carla Dias >>

Minha amiga,

Como lhe contei, decidi assumir de vez a minha vontade magnânima de viver em séries de televisão e filmes. Pensei em passar uma temporada nas temporadas que mais me agradaram das séries, e viver algumas aventuras dignas dos cineastas que mais me encantam.

Assim, talvez eu consiga uma consulta intelectual com o Dr. House, e prometo que darei a ele o recado que você grita pra tevê a cada vez que ele aparece: eu sei que todo mundo mente, mas eu não minto quando digo que te amo! Tranquila... O recado será entregue, apesar de eu achar que ele vai rir da minha cara. Mas amigas estão aí para o que der e vier, certo?
E como sei que os gênios – cada qual na sua área – se cutucam, e essa cutucação gera emocionantes episódios, acho que vou levar o Dexter comigo. Já pensou o House tentando diagnosticar o problema do passageiro sombrio do serial killer mais fofo da história? Ok... Não é uma combinação aprazível de palavras, mas o Dexter é fofo mesmo! E serial killer... Tá bom, não está mais aqui quem gostou.

Certamente, passarei uma temporada em determinados episódios de The Vampire Diaries. Não é só porque ando crédula demais, oferecendo afeto ao Dexter e a um morto-vivo. Porque, por mais filho de uma santa mãe que seja o Damon Salvatore, é ele que tempera a história com um refinado sarcasmo. Depois, vou correr para Castle, para um workshop com o autor de best-seller mais bacana da televisão! E até lhe darei alguns conselhos sobre a Beckett. Acho que ele tem de provocar ciúme nela saindo com a Olivia de Fringe. Já pensou? Ele teria um monte de ideias novas para um novo best-seller. Apimentaria o mistério com a ficção científica.
Depois, satisfeita com os episódios das séries, eu faria as malas e seguiria para o cinema, começando pela terra de Blade Runner. Vontade maluca de saber mais sobre a terrinha do Indiana Jones futurista! E não me esqueceria de seguir de volta para o futuro só para mandar lembranças suas para o Marty McFly.

Depois de tantas aventuras, melhor seria aquecer o coração. E apesar de não contar com os lábios pomposos de Keira Knightley, tentaria conquistar o Mr. Darcy, mas precisaria que fosse de um jeito diferente. Então, eu o levaria para o Cyrano de Bergerac, que sendo um herói romântico, poderia me orientar a escrever cartas capazes de fazer com que Mr. Darcy preste atenção em mim. E com uma história de amor vigente, visitaríamos a Ana e o Rei, porque é sempre bom conhecer outras culturas. E para não faltar a música, uma passadinha pelo universo de Ray.
Como você pode ver, minha amiga, eu continuo vivendo e levando, mas nada realmente real me acontece, que não seja o que você já sabe. Os repetecos são ecos, então, lá vou eu me perdendo neles. Qualquer dia eu mudo de vez pra um desses lugares, onde tudo acontece porque alguém decidiu que deveria acontecer, sabe?

Beijos,

Carla.
PS: Saí do casulo, mas estou morando nas nuvens. Dizem que não, mas dá no mesmo. A distância das outras pessoas se mantém, assim como o silêncio. Dá para contemplar um tanto daqui.

PS1: Cinema no sábado? Ok... Vou levar a minha mala, vai que eu decido morar no filme. Melhor prevenir, né?

PS2: Claro que você pode se mudar comigo. Mas o Mr. Darcy é meu, tá?




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segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

PODE CHORAR >> Kika Coutinho

Era quase hora do almoço e minha filha queria mais um quadradinho de chocolate. Eu olhei pra ela firme e respondi: "A mamãe te falou que aquele era o último. Agora chega."

Ela, no mesmo instante, gritou mais alto: “Mais! Quero mais!”. Eu mantive a pose e respondi “não”, tentando explicar que ela ia almoçar, que já tinha comido e tal, mas ela não quis saber e fez simplesmente o que as crianças fazem como ninguém: chorou. Chorou baixo, depois alto, depois chorou mais, depois berrou, depois se jogou no chão, depois voltou até mim, os olhos transbordando de lágrimas, como uma represa sem a sua barragem e, esperando uma resposta qualquer, eu lhe disse maquiavelicamente calma: “Não tem mais chocolate. Pode chorar, filha. Pode chorar...”

Enquanto ela voltava ao ciclo de se rebelar, eu questionava a minha atitude. Que raio de mãe eu era? Sofia estava cada vez mais manhosa e eu já dissera o fatídico “pode chorar” outras vezes. Deixei-a chorar para que ela aprendesse a dormir, deixei-a chorar para que não pegasse o brinquedo do colega, deixei-a chorar para que cuspisse a formiga que tinha acabado de pôr na boca, deixei-a chorar quando saí para trabalhar sem olhar para trás, deixei-a chorar quando arranquei de suas mãozinhas a caneta que tinha acabado de deixar um traço na minha parede branca, e outras tantas vezes, quando ela não teve a sua vontade atendida e eu lhe disse, calmamente, que podia chorar.

Pensei no restante de sua vida, que traumas teria por ter essa mãe dura e fria que eu – surpreendentemente – me mostrava algumas vezes. Como seria a sua vida com tantos fracassos? Mas como seria a vida de qualquer um sem fracassos? É possível atravessar a vida sem um arranhão? É possível prosseguir sem ralar os joelhos, sem perder alguns de seus tesouros, sem passar por uma conta negativa no banco? Tem de ser assim, pensei, enquanto a minha menina se acalmava sozinha, deitada no chão frio da cozinha.

Ah querida, eu pensei enquanto a olhava, com o coração partido, haverá outros doces que lhe serão negados. E, embora eu desejasse que não, sabia que ela teria de passar por frustrações piores. Talvez um emprego negado, talvez um amor não correspondido, uma traição da melhor amiga, uma grande perda, uma pequena topada no armário, um dedinho do pé que fica no sofá, ai, filha, quantas serão as suas lágrimas...

Ela se aproximou de mim e pousou, enfim, a cabecinha no meu braço. Suspirando entre as lágrimas, eu a abracei e voltei a dizer: "Pode chorar filha, mas não precisa."

Em um instante, fechei os olhos e desejei sempre poder estar por perto para poder fazer exatamente isso: abraçá-la e aceitar a sua dor.


 

www.embuchada.blogspot.com

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domingo, 11 de dezembro de 2011

VERANEIO CRUZEIRENSE >> Whisner Fraga

Estava decidido: se não tínhamos namorada, paquera ou sequer um rolo naquela metade da adolescência era porque não possuíamos um carro. O cenário perfeito nos incluía dentro de uma camiseta do Mercyful Fate e o conjunto no interior de um Fusca ou de um Chevette, contornando duzentas e quarenta e duas vezes por noite a praça da vinte e seis com a dezessete. Parecia sem sentido, mas em nossas cabeças aquela tática nos traria, milagrosamente, um beijo, um abraço mais caloroso ou até uma mão em algum peito.

Assim, quando descobrimos que poderíamos, eventualmente, utilizar a Veraneio azul do pai de Everaldo para nossas megalomanias, nos sentimos um pouco mais poderosos. Era questão de tempo para estarmos arranjados. O teste seria no sábado seguinte, quando nós cinco desceríamos para o centro e tentaríamos a sorte, agora mais próxima de nossos desejos. Cada um contribuiu com o que pôde e a grana nos rendeu seis litros de gasolina, o que daria pelo menos para chegarmos motorizados ao barzinho mais badalado de Ituiutaba. Se desse para voltarmos também, melhor ainda.

A noite de sábado prometia e, a partir da terça-feira, eu não consegui mais dormir direito. Era muito para minha cabeça nerd. Os dias foram passando, arrastados, frouxos, como se estivessem com febre. Era uma sensação esquisita. Só que chegou a hora. Vesti uma camiseta de meu irmão, uma calça de meu irmão e, para variar, calcei um sapato de meu irmão, porque parecia que ele se vestia melhor do que eu, e rumei para a padaria.

É, a Veraneio do pai de Everaldo era usada para carregar farinha. Entramos. Eu preciso dizer: Everaldo era um cara meio maluco, uns três anos mais velho do que o resto da turma, e frequentava umas quebradas meio suspeitas. Assim, antes de rumarmos para o centro, ele propôs dar uma passada na zona. A zona, o centro de meretrício, o puteiro, ficava distante de tudo, mas a sugestão foi acolhida com palmas. Passamos em frente, demos uns gritos, fizemos umas piadas e ficou nisso. Era hora de descer para a praça.

O problema é que uma Veraneio faz (ou fazia) uns dois quilômetros por litro e, quase chegando na esquina da dezenove, a cento e poucos metros do movimento, o carro engasgou, tossiu e finalmente morreu. A gasolina fizera o possível, mas o motor só trabalhava cheio - era descer e empurrar. Everaldo continuaria manobrando a máquina e nós a empurraríamos. O ruim dessa história é que não havia outro caminho dali até nossas casas: passaríamos em frente ao barzinho, onde uns duzentos adolescentes aguardavam para saldar nosso vexame. Como tudo que está ruim pode piorar, percebemos que nossas camisas, nossas calças, nossos sapatos, estavam cheios de manchas brancas. Naquele balanço infindável de um veículo com a suspensão detonada, restos de farinha se esparramaram pelas nossas roupas.

Não era nada bonito para nosso currículo: seria melhor se continuássemos desconhecidos. Mas enfrentamos o ocorrido de cabeças mais ou menos erguidas. Foi ruim escutar aqueles moleques rirem da gente, mas a vida é assim mesmo e o ser humano é um negócio tão intrigante que mesmo nesses momentos aprende algo. Até que lá de dentro do bar saiu um moleque, tão franzino e deslocado quanto nós, se aproximou e, sem dizer nada, começou a nos ajudar a empurrar. Foi emocionante e foi desse jeito que o nosso grupo ganhou um novo integrante.



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A VOLTA >> Eduardo Loureiro Jr.

Meus pais tinham um fusca cor de caramelo. Na época, o uso do cinto de segurança não era obrigatório, e eu gostava de sentar na pontinha do banco de trás com o corpo projetado entre os bancos dianteiros. Meu pai dirigia. Minha mãe retirava uma das fitas do porta-K7 e a introduzia, chamativamente alaranjada, no toca-fitas. Roberto Carlos começava a cantar:

Eu cheguei em frente ao portão,
meu cachorro me sorriu, latindo,
minhas malas coloquei no chão,
eu voltei.

Eu não tinha mais que seis anos de idade, e era muito criança para entender a letra saudosista. Mas guardei aquela melodia, e aqueles versos, em algum lugar sagrado do meu pequeno coração, sem saber que me seriam úteis muitas vezes...

Partir é bom. Descobrimos lugares, conhecemos pessoas, vivemos histórias. Mas confesso a vocês que, para mim, a maior graça de partir é simplesmente propiciar a possibilidade de retorno. Talvez não seja por acaso que, muitas vezes, ao descobrir um lugar ou conhecer alguém, dizemos "parece que voltei para casa", "tenho a impressão de que nos conhecemos há muito tempo". As aventuras mais marcantes têm um certo quê de déjà vu. E por vezes aquilo que pensamos ser uma partida trata-se de um retorno desmemoriado.

Já voltei muitas vezes em minha vida: para a casa dos pais, para a namorada, para o trabalho, para a esposa, para os hobbies, para a religião, para os amigos, para este planeta, para certos hábitos. São voltas dentro de voltas numa grande espiral que ora se expande, ora se condensa.

Cada retorno nos oferece a possibilidade de renovar, ou não, a escolha. A volta é propícia para um novo começo ou é só uma despedida final antes de uma partida definitiva? São tantas as voltas que a vida dá que às vezes é difícil saber se estamos indo ou voltando, se estamos indo depois de voltar, se estamos voltando depois de ter ido. Os versos de Salomão, além de bonitos, parecem verdadeiros: "Aquilo que veio a ser é o que virá a ser; e o que se tem feito é o que se fará; de modo que não há nada de novo debaixo do sol".

Há quem prefira achar que está geralmente partindo, explodindo em big bangs. Eu não posso deixar de sentir que estou quase sempre voltando. Às vezes, com a sensação de que se trata do último retorno, mas apenas para descobrir que há algo ainda mais antigo para o qual retornar. O que parece ser o ponto de partida vai se transformando em destino de um início anterior.

Essas voltas todas, esses arrodeios de palavras, são só para dizer que estou voltando à escrita, aos domingos, ao Crônica do Dia, à companhia de escritores e leitores após cinco longuíssimas e revoltas semanas. Será possível um recomeço? Dois braços abertos me abraçarão como antigamente? Com passos indecisos, posiciono o mouse e pressiono o botão esquerdo sobre o botão chamativamente alaranjado: Publicar.

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sábado, 10 de dezembro de 2011

RECOMEÇO [Sandra Paes]

Voltar ao incio. Fazer outra vez, o mesmo percurso, o mesmo trabalho, a mesma atividade.

Em toda parte nos deparamos com esse comando. Na ginástica, na produção em série, no ato de manusear qualquer coisa, até mesmo descascando uma fruta, como laranjas, ou maçãs. E quando se lava a louça, guarda-se tudo, e volta-se à mesma tarefa para o jantar? Aquela sensaçao de “fazer outra vez”, está la, até dissociada da busca de melhora, da perfeição.

Vejo isso nas corridas de Fórmula 1 - voltas e mais voltas, de volta ao começo. E quando se dá por terminado um conto, uma história, um enlace? Onde é o recomeço? Onde fica o ponto de nova partida, quando se sente que o tempo nao pára e não volta?

A vida, ouvi um dia de um personagem, é como um rio, só corre pra frente rumo às grandes águas dos oceanos. Seja lá o percurso que se encontre, com que tipo de pedras ou planícies, não há retorno. Então, pra que insistimos tanto no recomeço? Na formação de hábitos, no vício de colecioná-los como forma até de sabedoria, ou acúmulo de experiência? Se a experiência é um farol que ilumina para trás, por que tanta exigência dela pra se começar algo ou recomeçar algo?

Todos os empregadores cobram a tal da experiência e a tão decantada idade. Sem acúmulo de idade não pode haver acúmulo de experiência, e isso, por si só, é um atestado que contraria o próprio percurso da vida.

A vinda de um filho primeiro jamais se repete. O gosto do primeiro beijo e do primeiro amor tambem não. E, ao que parece, burramente tentamos repetir as experiências que gostamos e se as perdemos, tentamos recomeçar tudo outra vez, em nome de algo.

E isso é possivel de fato? Não, apenas a sensação ou ilusão que começamos outra vez.
Se não se pode voltar ao princípio não há recomeço. Só na feitura das malhas de tricô, ou nas voltas de corridas em círculo, mesmo sabendo que a Terra gira em torno de si mesma e nós com ela.

Ando sofrendo de uma certa tonteira por conta dessa coisa de buscar o princípio ou o recomeço. Sinais de que o tempo está se esgotando, como se tivesse um relógio que perde o ritmo de seu tic-tac, sobre minha cabeça, e me induz a levantar de madrugada e procurar pelo recomeço.

E, lá fora, o dia não voltou a recomeçar seus sinais de novo - ou seja lá o que isso possa parecer. A ilusão de noite e dia, me faz vitima de buscas do novo, nem que seja pra descobrir que não há um novo dia, e lá fora não tem um sol brilhando a anunciar isso.

E agora? Não exploda coração! Não por hora. Não se apresse, nem me apresse o rio da vida, ainda apenas sonho com as grandes águas, e até esse sonho se repete, desde sempre. Que desejo assombroso é esse? Se não navego nos desejos de fazer e mudar, se não componho com as regras do produzir pra justificar seja la o que for? Se apenas me deixo levar pelo curso dessa jornada cujas paisagens desconheço, o que anseio de fato?

Por tantos anos de vida e experiências nada se acumulou, nada se repete, nada retorna, nem eu, nem tu, nem o que chamamos de nós, e o que vivemos outrora por lá ficou, quiçá em sua memória ou minha, arquivados ou não, em distintos escaninhos e nem o possivel momento de encontro, se é que houve algum, restou o nada por certo. Pois o tudo jamais se completa nem jamais o sabemos. O próprio curso da vida não permite.

E de fragmentos em fragmentos, vamos brincando de saber, de passar recados e opiniões, de dar e vender conselhos, de tentar advinhar o que nos reserva a esquina ou a queda num abismo. E o que é mais curioso: brincamos de esconde-esconde só pra ter a sensação mais poética de recomeços.

Paródia ou loucura?! Nem sempre escolhemos de fato nosso enredo...

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sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

AS COISAS ANDAM MEIO ESQUISITAS >> Zoraya Cesar

Barulho, poluição, trânsito caótico - você leva duas horas dentro de um ônibus, trem, metrô, seja o que for, para percorrer um trajeto que levaria meia hora, se tanto. Chefes chatos (sim, eu sei, além da aliteração pobre, é uma redundância), salários defasados. É a encomenda que não chega no prazo, é a fila nos hospitais...  Chega. A lista das coisas que nos enervam dia após dia, fazendo com que sejamos barris de pólvora com pavio curto é infindável. E já está na hora de contarmos a nossa história, pois eu quero ver alguém me explicar o que anda acontecendo conosco.

Nosso amigo, Fernando – não o chame de Nando, que ele detesta; tampouco o chame, ele está incomunicável no momento -, é um homem responsável e sempre dirigiu muito bem. E daí? Daí que, por melhores que sejamos, acidentes acontecem. Naquele dia, por exemplo, estava ele manobrando de ré (olhando pela janela e não pelo retrovisor, verdade seja dita), numa rua esburacada e sem sinalização, quando...

THUD! Ele bateu em alguma coisa.

Numa velhinha, que, deitada ao lado do para-choque, gemia baixinho, ai, ai, ai. Fernando foi socorrê-la, mas não teve tempo. Surgidas sabe Deus de onde, pois a rua estivera deserta até então, algumas pessoas chegaram já gritando “cretino, filho disso, filho daquilo, bandido, pilantra”, entre outros adjetivos mais pesados (mais pesados que “filho disso e daquilo”? Sim, tem).

A velhinha caída lá, ai, ai, ai.

Um sujeito perguntou se ele não tinha mãe não? Seu sem-vergonha, disse uma outra, vai atropelar alguém do seu tamanho. Ao que o fortão com pinta de açougueiro do tatame foi logo bufando, é, me atropela que eu quero ver. Um rapaz todo engomadinho afirmou que Fernando ia fugir sem prestar socorro, isso era crime. A moça de saia curtíssima falava com voz grossa, é, esses ricos são assim mesmo, saem atropelando todo mundo, só porque têm dinheiro.

E a velhinha não parava de gemer mansinho ai, ai, ai.

Ele sentiu que a coisa estava realmente feia quando alguém falou “assassino” (eu disse que tinha adjetivo mais pesado. Hein? Você não acha que “assassino” seja pior que “filho disso e daquilo”? Sério?).  A turba se aproximou mais, ameaçadora. Ele quer acabar de matar a velha, falaram; para não deixar testemunha, completaram. E a velhinha, apavorada, vai sobrar pra mim, pensou, e gemia ainda mais baixinho, ai, ai, ai.

Mas absolutamente ninguém prestou atenção nela. Mesmo Fernando, que tentara sinceramente levá-la a um hospital, estava agora mais preocupado em não ir para um, de maca. E pela movimentação do pessoal, teria sorte se não fosse direto para o necrotério. Vão me matar, pensou, quando alguém berrou “vamu pegá”. 

Ele começou a correr. Muito. A sorte é que a turma estava mais ansiosa por linchar o desinfeliz que atropelou uma velhinha, que em correr atrás de vagabundo (palavras deles, não minhas, já disse que Fernando era boa pessoa). Com o sujeito ali, bastava bater até matar e pronto. Desopilavam o fígado, extravasavam as frustrações, tudo muito prático. Agora, sair correndo? E ficar todo suado, perder o ônibus, desencontrar do namorado, atrasar o almoço das crianças? Nem pensar. Alguns ainda esmurraram e riscaram o carro, outros procuraram ver se tinha algo de valor. Mas a galera foi se dissolvendo, até que ficou tudo deserto de novo.

Deserto? Não. A velhinha continuava lá, deitada, gemendo, ai, ai, ai, sem que vivalma tivesse a caridade de procurar saber se ela precisava de alguma coisa. Se alguém pensou em ajudar, pensou melhor e desistiu. Sabe como é, de repente a velha é pobre, eu é que não tenho dinheiro sobrando para pegar táxi, e já estou atrasado, o patrão vai encrencar, o hospital é longe, atendimento demora, a policia vai me fazer perguntas, eu não vi nada, não quero conversa com polícia, depois a velha morre e vão botar a culpa em mim, a ambulância deve estar chegando..., bem, essas coisas, vocês entendem.

E ficou por lá a velhinha, cada vez gemendo mais, ai, ai, ai? Sim. Ficou. Não vou mentir para vocês não, a velhinha ficou lá. E eu não sei o que é mais triste, o fato de que aquelas pessoas estavam mais preocupadas em “fazer justiça” (se é que esse conceito existia em alguma cabeça oca por ali), espancando um ser humano, que em prestar socorro a outro. Ninguém tomou qualquer providência, nem se interessou em saber o que acontecera realmente, ou, sequer, olhou direito para a vítima.  Mas estavam prontos para fazer sabem Deus ou o diabo o quê.

Depois que se viu a salvo daquela gente doida, Fernando conseguiu levar a velhinha para o hospital. E ficou por lá mesmo, em estado de choque (efeito retardado, disseram os médicos), repetindo “eles iam me matar, ai, ai, ai, eles iam me matar” a cada cinco minutos.

A família da velhinha está prestando toda a assistência.

(O final é até relativamente feliz, a velhinha já recebeu alta e Fernando está quase curado. Mas antes de terminar eu deixo três questões para você pensar: o que está acontecendo conosco? Estaremos perdendo o sentido do que é humano por conta do estresse? Pare e pense nessa também: são aquelas pessoas muito diferentes de você? De nós?)

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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

DOZE DEZEMBROS >> Fernanda Pinho

Chega dezembro e as festas pululam de todo canto. Tem festa de fim de ano da firma. Amigo oculto da turma da faculdade. A ceia com a família. O jantar beneficente. Os convites chegam em atacado. Provavelmente muito mais do que se estivéssemos, por exemplo, em maio. A impressão que tenho é a de que apenas em dezembro - quando existe a expectativa do fim e também do recomeço - é que temos consciência da finitude da vida. Aquela sensação de "já é natal de novo?" nos cutuca e nos faz cair na real sobre como o tempo está escapando pelas nossas mãos. Muito provavelmente não é por isso, mas acho que é um bom motivo para justificar a grande farra que vira dezembro. Outro dia alguém comentou no Twitter que a impressão que se tem é a de que o que vai acabar não é o ano, mas, sim, o mundo. E é bem isso mesmo. Gastamos o que não podemos. Anuciamos para aqueles que amamos o quanto eles nos são caros. Fazemos festas todos os dias. Mandamos toda e qualquer dieta para as cucuias. Afinal de contas, é tempo de aproveitar. Por que? Porque o ano vai acabar, oras! Mas logo vem outro ano, e, sabe-se lá porquê, entramos no modo monotonia outra vez. Economizando, sabe-se lá porquê. Camuflando nossos sentimentos, sabe-se lá porquê. Ficando em casa, sabe-se lá porquê. Deixando de apreciar comidas, engordativas sim, mas antes de tudo maravilhosas, sabe-se lá porquê. Enfim, sobrevivemos onze meses para viver em dezembro. A sexta-feira dos meses. Sabe o que eu quero para 2012? Doze dezembros e nada mais.



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quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

A CANÇÃO DA VEZ >> Carla Dias >>

Há dias que uma canção deu de ficar tamborilando em mim, feito fundo musical para os meus pensamentos. Às vezes, estou em uma conversa séria sobre o trabalho, ou digitando burocracias, e lá vem ela, inteirinha: letra e música, com direito ao arranjo e uma visão do vídeo.

Quando era bem mais jovem, tipo metade da minha idade, eu costumava ir para a cama e selecionar, na minha cachola, a música de ninar. Porém, eu me empolgava e, quando me dava conta, os meus pensamentos haviam se transformado em verdadeiros shows, com direito a cenário e duração de duas horas.

Sim, a música é importante na minha vida, é o que me mantém um ser que vive em sociedade. Sem ela, eu moraria num buraco de tatu. Na verdade, às vezes eu me hospedo em buracos de tatu.

Outro dia, eu estava atendendo uma pessoa muito, mas muito mal humorada e sem um pingo de educação. Além de tudo, ela era faladeira. E eu escutava o que ela tinha a dizer, mas então eu parei de escutar, porque na minha cabeça, começou a tocar uma seleção de hits dos anos 70. Não foi falta de educação minha, mas se eu continuasse a escutá-la, com todo o seu requinte no ato de humilhar o outro, provavelmente eu teria desembolsado o meu lado B de escorpião, e melhor é ele continuar naquele lugarzinho confortável no qual ele se encontra, ao menos no horário comercial.

Voltando a música da vez...

Nas últimas semanas, eu tenho trabalhado no meu livro que será publicado ano que vem. Nessa fase, entra também reescrever alguns trechos para amarrar a história. Eu já tinha decidido que as citações a cada capítulo seriam de letras de música, e como sempre faço, escrevo escutando música, o que me ajuda muito (estou escutando o disco da Marketa Irglova, enquanto escrevo esta crônica). Porém, cheguei neste capítulo dolorido e não conseguia acertar a mão. A ideia estava lá, mas faltava o tempero emocional.

Passei dias empacada naquele capítulo e, consequentemente, na revisão do livro. Até a tal música chegar e se hospedar em mim.

Eu li em algum lugar, certa vez, sobre essa pessoa que não gostava de música. Para mim, soava como alguém que não gostava de respirar. Mas então pensei de outra forma... Ah, ela gosta do silêncio, de ouvir a boa e velha melodia do silêncio, ou então da voz, o sempre presente ritmo de cada um ao dizer palavras.

Eu consegui terminar o capítulo, mas não fosse essa música, ainda estaria procurando o tom certo das palavras. Eu o fiz escutando essa canção, mas não foi apenas a letra, a poesia que me inspirou. A melodia é tão, mas tão dolente e profunda, que me fez mergulhar em mim e buscar o peso certo para o significado daquele momento da história que eu criara.

E depois disso, ela ainda continua aqui, no meu dentro.





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terça-feira, 6 de dezembro de 2011

QUEM É QUEM MESMO?? >> Clara Braga

Vocês já passaram uma boa parte de suas vidas achando que uma coisa era uma coisa e depois acabaram descobrindo que uma coisa era outra coisa e se sentiram bem bestas com a confusão que estavam fazendo durante anos? Isso acontece muito comigo!

Estava eu, em meu quarto, estudando para uma prova que prometia ser daquelas de maltratar os neurônios. Enquanto revisava o que já tinha estudado, liguei a televisão para dar aquela distraída básica que evita câimbra cerebral. Estava passando o programa do Jô, e eu até gosto do programa, principalmente quando ele deixa os entrevistados falarem, o que não acontece com frequência.

Nesse dia estavam lá Caetano Veloso e Maria Bethânia, falando do novo trabalho que gravaram juntos. Mas achei estranho porque Caetano contava uma história sobre Maria Bethânia como se ela não estivesse ali sentada do lado dele. Contava histórias e confirmava com a mulher sentada ao seu lado, mas ela também falava da Maria Bethânia como se a Maria Bethânia não estivesse ali, que povo doido!

Percebi que já tinha dado a hora de parar de estudar, não iria mais render. Enquanto isso Maria Bethânia e Caetano Veloso davam uma palhinha de uma das músicas que gravaram. Nossa, é impressionante como meu pai não tem noção das coisas, ele insiste que a Maria Bethânia é melhor intérprete do que a Gal Costa, não é possível, olha ai a Bethânia cantando como se estivesse em casa lavando louça, a Gal Costa não, ela canta de um jeito que você sente a música junto com ela!

Continuando a entrevista, Caetano contou um caso e confirmou com Bethânia, mas na hora de confirmar disse: Não é mesmo, Gal? Depois o Jô foi fazer uma pergunta a ela e também a chamou de Gal! Ué, como assim? Essa ai é a Gal Costa? Mas eu podia jurar que ela era a Maria Bethânia! Não é possível, ela tem cara de Maria Bethânia, tá escrito na testa dela! Ela não tem outro nome que possa combinar com ela! E o mesmo serve para Gal Costa, o nome também está escrito na testa dela, e na dela é com letras maiúsculas, se é que vocês me entendem! (hehehe)

Piadinhas maldosas a parte, liguei o computador e perguntei a mãe Google Imagens quem era quem, e ela confirmou, Maria Bethânia é Gal Costa e Gal Costa é Maria Bethânia! Meu deus, que confusão! Meu pai não é doido de achar Bethânia melhor, eu é que sou doida de achar que Bethânia é Gal! Agora é só esperar o dia em que eu vou descobrir que Gilberto Gil é Chico Buarque, Milton Nascimento é Djavan (apesar de ser uma confusão aceitável), ou pior, Caetano é Maria Gadú!

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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

BENDECO >> Albir José Inácio da Silva

Morreu o Bendeco, fácil e à toa como viveu. Não plantou árvores, livros ou filhos que o perpetuassem. Era considerado maluco porque não guardava nada. Comida, roupas, móveis, só precisava do que estivesse usando. O resto distribuía. Depois trabalhava, pedia, ganhava. Não queria luxos, e só teve o que seria muito pouco para os outros.

Uma vez ganhou um rádio, que completava o pouco dinheiro por um serviço. Como já tinha rádio, deu pra uma velhinha mau-humorada, que quase morreu de susto porque nunca tinha ganhado nada.

De outra, ao final de uma semana de capina, Bendeco entregou sua parte para Deoclécio. Deoclécio era um molecão que perambulava por lá e a quem Bendeco ajudava, dividindo trabalho e comida. Ia pra São Paulo comprar mercadoria, vender no Rio e trazer muito dinheiro para os dois. Deoclécio desapareceu, mas boatos diziam que ele tinha enricado no comércio.

Era essa a lógica de Bendeco. Saciada a fome no almoço, distribuía as sobras. Só no jantar voltaria a pensar na comida. Não na que distribuiu, que essa já passou, mas na que teria de arranjar. Pressionado, desculpava-se dizendo que não tinha geladeira. Mas a verdade é que não guardava nem biscoito. Não entendia o guardar, mesmo que a vida todos os dias lhe provasse que ia precisar. Como era normal para ele dividir, pedia com naturalidade. Mas ninguém tinha obrigação de sustentá-lo, e isso provocava a ira de alguns.

Padre Antônio era um deles. Irritava-se quando lhe contavam que Bendeco andava repetindo palavras do sermão fora de contexto: “Não ajunteis tesouros na terra” ou “Olhai os lírios do campo, eles não fiam nem tecem, contudo o pai cuida deles”. Proibiu cesta-básica para o desaforado.

- Está querendo desmoralizar a igreja! – fuzilava. Que não lhe falassem mais daquele maluco!

A não ser por aquelas citações, Bendeco não demonstrava maior religiosidade nem rejeitava qualquer crença. Um velho professor, que às vezes lhe dava um pouco de comida e algum sorriso, costumava dizer que ele era o único comunista de verdade que ele conhecia.

Bendeco não foi alegre nem triste. Viveu apenas. Nem bonito nem feio, não era sequer considerado esteticamente. Não era querido nem odiado. Só parte do bairro, como os postes e os bancos, que às vezes são usados, às vezes desprezados e às vezes depredados.

Agora morreu, e uma “vaquinha” impediu que ele se fosse como indigente. Um carro freou quando o sino já anunciava o último trajeto. A julgar pela pressa, Deoclécio vinha pagar o empréstimo. Mas ainda dessa vez Bendeco recusou o que não precisava.

Acho que Bendeco está feliz assim. Afinal, foi o povo quem lhe pagou a última passagem.

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sábado, 3 de dezembro de 2011

RELAÇÕES DELICADAS [Maria Rita Lemos]

Poucos relacionamentos são tão complexos como os que existem entre as mães e suas filhas, a ponto de, muitas vezes, no consultório ou fora dele, ouvirmos indagações desse tipo: “será que minha filha realmente me ama?” Da mesma forma, é muito comum sermos procuradas por filhas com um misto de raiva/culpa direcionada muito mais às suas mães que aos pais.

É normal, para mães que fazem uma determinada expectativa em relação a algumas características de seus filhos(as), inclusive o sexo, cor dos olhos, da pele, etc, aparentarem alguma insatisfação quando o bebê não chega exatamente como estava programado em seus sonhos. Esse acontecimento é natural, mas isso também implica em que, muito provavelmente, conforme a reação materna se manifestar, podem acontecer marcas na psique dessa criança, que vão desde às distorções na auto-imagem até dificuldade de aceitação de si mesma.

O fato é que, embora haja exceções, geralmente o relacionamento das mães com suas filhas é mais difícil que com os meninos, e isso não é apenas Freud ou seu famoso complexo de Édipo que explicam. Filhas relatam dificuldade de amar suas mães da maneira que pensam que deve ser o “normal”, não conseguindo dar o mesmo carinho e afeto que receberam na infância. Esses sentimentos geram culpa, uma vez que, para a sociedade, toda mãe é santa, mesmo que a relação das mesmas com suas meninas seja deturpada, em algumas ocasiões com insuficiência de amor e cuidados, outras com excesso de proteção e zelo desnecessários.

Apesar dos problemas na relação amor/ódio que permeiam a convivência entre mãe e filha, é muito comum que nenhuma das duas consiga identificar onde começou esse abismo. Na realidade, amor e ódio coexistem, e por maior amor que haja, de vez em quando o segundo sentimento mostra sua cara, às vezes até diante de outras pessoas, da família ou não, armando gritarias e ofensas de parte a parte, que geram sempre um arrependimento quando tudo volta ao normal. O fato central, aliás, o núcleo de quase todas as pesquisas sobre a convivência “mãe e filha”, é que ambas precisam lembrar-se do elemento primordial nessa guerra doméstica, que se resume na questão de ambas serem mulheres. Essa realidade, embora óbvia, consegue encobrir que as briguentas são mãe e filha, portanto deveria haver outras características, além da disputa entre duas fêmeas.

É muito difícil, para as mães, aceitarem profundamente (na superfície é fácil) que sua filha cresceu – e nessa matéria estou enfocando as filhas adolescentes ou adultas - e, portanto, têm uma personalidade independente e autônoma. Vem daí que a mãe emocionalmente saudável tem mais condições de entender que sua filha não compartilha mais com ela, necessariamente, as mesmas opiniões, nem tem as mesmas atitudes, como quando era uma menininha. Da mesma forma, é preciso que a jovem mulher se conscientize que mamãe tem sua vida, seus sentimentos e seus objetivos que não estão atrelados aos dela, filhinha, nem pode passar o resto da vida fazendo suas vontades.

Eric Berne, o precursor da análise transacional, comparava a relação mãe/filha a um espelho, que se quebra numa determinada fase da vida, fazendo com que as duas partes se tornem independentes e autônomas. Mãe e filha, a princípio, alimentavam a fantasia de que, de um lado do espelho, estava a “mãe nutritiva”, e de outro a filhinha protegida, retro-alimentado-se num universo perfeito.

Que bom que o espelho se quebra, lá pelos tempos da adolescência da menina e da maturidade da mamãe. É uma fase difícil, porque, se é difícil a gente se ver por inteiro num espelho quebrado, também é necessário que assim seja, para que cada uma das duas pessoas passe a caminhar à sua própria maneira, cada qual com sua personalidade própria.

Enquanto os pais (homens) estimulam seus filhos machos a serem valentes, heróis e protetores, com ou sem palavras, a maioria das mães criam suas meninas para que sejam princesinhas, preferentemente casando-se com príncipes, bem diferente delas mesmas, que se casaram com homens fora da realeza. As filhas deveriam, portanto, no imaginário, suprir aquilo que as mamães não conseguiram fazer. Isso não só é difícil mas impossível, e, consequentemente, a filha mulher vai ter que aprender a administrar o luto de não ter conseguido ser exatamente o que a mãe esperava dela. O problema se acentua quando essa filha vai, por sua vez, ser mamãe também. Aí, ela é que começa a sonhar com ser uma boa mãe, e, como nunca acha que foi suficientemente boa para sua mãe, os conflitos voltam a surgir.

Aprendemos com nossas mães as lições de como agir na maternidade, e tentamos reproduzir a história, ainda que não tenha sido boa, porque reconhecer isso é muito duro e sofrido. Há que, além de quebrar o espelho, reconstruir uma relação, baseada em fatos novos e para os quais a mulher que vai ser mãe não tem parâmetros. A convivência equilibrada entre mãe e filha certamente remete a um caminho que deve ser percorrido com sensibilidade e delicadeza.

A perda mútua, ou seja, a “quebra do espelho”, deve ser preparada e aceita como natural e desejável para a independência uma da outra. Nesse processo difícil, a ajuda psicoterápica pode ser muito importante.

Imagem: Olivier Cadeaux, Corbis

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