quarta-feira, 30 de novembro de 2011

JÁ FOI, NÃO VIU? >> Carla Dias >>

Imaginou-se em tantos lugares, quando imaginar ainda era trampolim para as realizações que almejava. Imaginar era dar forma ao que encontraria, e em breve, caso tivesse sorte. Imaginou-se longe, geograficamente distante dos lugares que lhe pareciam comuns e esgotados de atrativos.

Nos seus devaneios, haveria sempre a novidade para pincelar alegrias em dias cinza e para corar as faces pálidas da mesmice. O mundo, muito bem entendido com o futuro, prometia-lhe uma gama de grandes acontecimentos. Nada ostentoso, apenas novo e diverso, e indiscreto, como se a festa começasse sem direito ao fim.

Imaginou-se realizando projetos, intervindo a favor dos menos privilegiados, incorporando ao seu currículo a faceta humanista que sempre lhe coube tão bem. Em breve, viraria o mundo ao avesso, e neste avesso ajudaria a muitos a se tornarem, como ela, pessoas dignas de receberem o melhor da vida.

Enquanto pensava a vida que teria, anotava tudo, e nesta lista, no topo dela, estava o desejo por ter alguém em sua vida que lhe desse oportunidade de se apresentar, porque pessoa feito ela leva tempo para se mostrar sem medo de ser mal interpretada. E para se cultivar amor por ela, seria necessário um tempo que a euforia dos amantes sempre lhe negava.

Imaginou-se cercada por afetos, uma casa iluminada e grande, capaz de receber aqueles que, por intervenção da vida, seriam a sua família, o porto dos seus pensamentos mais importantes. Imaginou-se educando os seus filhos, ensinando-lhes a compreensão e como lidar com os mistérios da fé.

Mas quem não sabe do desfecho para quem imaginou tudo, inclusive as surpresas? E se deu conta, tarde da vida, que apenas esperou pelo que viria. E não observou a lua em noites de festa, tampouco saiu de casa para aprender a individualidade. Manteve-se estacada neste querer imprudente, que construiu em seu dentro um universo incapaz de realmente existir na realidade.

Porque é preciso o primeiro passo para mudar a geografia, e quem não sabe o quanto é trabalhoso cultivar felicidade, companhia? Também é preciso dedicação para fazer valer a própria humanidade como ferramenta de ajuda ao outro, e coragem para permitir-se conhecer, apesar do risco de ser magoado.

Imaginar-se é somente o prelúdio do construir-se.



carladias.com



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terça-feira, 29 de novembro de 2011

RITUAIS >> Clara Braga

Eis que estamos chegando naquela época do ano em que ninguém acredita em Papai Noel, nem mesmo as crianças, mas todos se tornam “bons garotos” na espera da chegada do velhinho e do novo próspero ano. E é ainda a época que representa o início dos rituais, o ritual da limpeza e o ritual da lista.

Para quem acha que não sabe do que eu estou falando, vou explicar por ordem. O primeiro ritual que acontece, que é onde entram os “bons garotos”, é o da limpeza, e normalmente se dá antes do Natal. Ele acontece da seguinte forma: nós, pensando nos presentes que vamos ganhar e nas novas roupas que sempre queremos comprar para usarmos nas comemorações, precisamos antes abrir espaço no nosso armário, e como fazemos isso? Nos livrando daquela enorme quantidade de roupa acumulada durante o ano todo que nem nos serve mais, daqueles utensílios seminovos que temos, mas que para nós já não presta. Tirando da estante aqueles livros que ganhamos e que já tínhamos lido, mas que não tivemos tempo de passar para frente, e fazendo de tudo isso, que para nós já é tranqueira, uma grande doação que vai ser para alguém o melhor presente de Natal que ele ou ela já ganhou!

Ao contrário do que pode parecer até aqui, isso não é uma crítica e eu não acho um absurdo, ou irônico, ou ruim que uma boa parte das pessoas só se lembrem de ajudar quem precisa uma vez ao ano. Por menor que seja o altruísmo dessa pessoa, pelo menos em algum ponto da vida, ela consegue olhar para o lado e ver que pode fazer algo pelo próximo, mesmo que essa relação com o próximo seja só uma forma de ela arrumar mais espaço no armário para comprar roupas novas. Ainda considero essa pessoa melhor do que aquelas que nem nessa época do ano onde o mundo é perfeito e todas as pessoas são felizes conseguem tirar o olho do próprio umbigo para separar um tempinho do seu dia para ajudar quem precisa.

Bom, considerações a parte, vamos ao outro ritual, o da lista. Esse já costuma acontecer depois do Natal, normalmente entre um ou dois dias antes do ano novo. E ele acontece da seguinte forma: nós pensamos em tudo que queremos para nossa vida no novo ano que vai entrar e escrevemos no papel. É realmente um ritual muito interessante quando você consegue lembrar onde você guardou a lista durante o ano todo e realmente se esforça em alcançar os seus objetivos, mesmo que eles mudem ao longo do ano, mas acho que todos temos que ter objetivos.

E esse ritual fica mais interessante ainda quando, antes de fazer a lista de metas, você faz uma lista de onde você estava antes de começar esse ano que está acabando e onde está agora, assim você tem uma idéia de tudo que já alcançou até o momento e a quantidade de metas que consegue atingir em um ano, para depois não fazer metas absurdas e se decepcionar por não conseguir cumpri-las.

Ah, e se você é do tipo de pessoa que gosta dos rituais de final de ano, coloque na sua lista: ajudar mais quem realmente precisa.

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segunda-feira, 28 de novembro de 2011

MÃE DE DUAS >> Kika Coutinho

Estamos brincando de esconde-esconde, é a vez dela. Quase chegando aos dois anos Sofia já fala tudo e não hesita em me avisar: “Vou esconder mamãe.” Vai filha, respondo, vai que a mamãe vai te achar.

Ela corre pelo corredor, toda alegre, e entra no meu quarto. Quando decido ir procurá-la, escuto o choro da caçula, minha bebezinha que grita no berço. Vou ver o que é. Xii, coco. Nossa, quanto coco Olivia, vazou tudo, eu penso, levantando-a. Ela grita mais. O lençol está sujo, a roupinha molhada, até o travesseiro? Olivia, que coisa, como você é ninja, vou sussurando enquanto levo-a para o trocador. Ai, tá sem algodão. Caminho para o armário, acho um pacote, é o último, preciso anotar para comprar mais. Deito a minha bichinha sobre a cômoda, tiro a fralda, nossa, que confusão, acho melhor dar um banho. Volto para deixá-la no berço enquanto corro para o banheiro para esquentar a água. Chamo a babá, é mesmo, tenho babá. Nete, ajuda aqui, tempera a água por favor? Ela vai temperando e volto para o quarto. Vou tirando aquela cocozada toda enquanto ela esperneia. Calma, calma filhinha, já vai. Procuro uma chupeta na gaveta. Onde tá a chupeta hein? Ai, caiu uma aqui, preciso que lave. Nete. Neteeeee?

Ah, a água tá pronta? Tá bom, vou levá-la, mas tá frio pra sair pelada do quarto, me arruma um cobertorzinho? Vamos. Entro no banheiro e, quando fecho a porta, escuto as batidas: toc, toc.

Que foi Sofia? Eu grito, entrando a Olivia na água. “Mamãe, me achou!”ela diz, entrando no banheiro sorridente.

Com a minha outra filha nos braços, lembro-me do esconde-esconde, e, em um instante, imagino a pequena Sofia escondida, esperando que eu a buscasse sem sucesso. Esperou muito, até. Eu não apareci e ela, ao invés de chorar, berrar, chamar, inventou de ir atrás de mim. Com seu sorriso faceiro, inventou que eu a achei. “Me achou mamãe!” ela repete, pulando sobre o piso frio do banheiro enquanto meu coração se parte em mil pedacinhos.

Nete? Neteeeeee? Pega a Olivia aqui, por favor? A Nete pega, pelejando para dar o primeiro banho de sua vida em um bebê, enquanto eu abraço a mais velha que, em um misto de alegria e tristeza, com um sorrisinho sem graça, pergunta: “Pode brincar junto mamãe?” Proponho imediatamente um novo esconde-esconde. Quando saímos do banheiro, espio de relance a babá, tentando ensaboar a neném. “Não lava a cabeça dela” grito, já no corredor, com um pontinha de angústia...

É a minha vez filha, anuncio.



www.embuchada.blogspot.com


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domingo, 27 de novembro de 2011

A BANDA >> Whisner Fraga


Nós nos sentávamos no banco, ali na esquina da rua 14, quase todos os dias. Ou todos os dias, se fosse o caso. Só para conversar, porque não havia muito o que um adolescente pudesse fazer num início de tarde em uma minúscula cidade no interior mineiro. Eu andava um quarteirão e meio para chegar à casa do meu amigo e sempre tentava aproveitar as tiras de sombra que as velhas casas estendiam pelo caminho. Os quarenta graus queriam cozinhar tudo o que encontravam pela frente e mesmo assim eu vestia calças compridas, pois tinha vergonha de minhas pernas brancas. Era irônico ser tão claro em uma cidade de gente bronzeada.

O banquinho de madeira na esquina da 14 estava mascado por nossas unhas ansiosas. Havia tanto a tratar, tanta conversa para colocar em dia, tanta banda para descobrir no meio daquela hora e meia de falta de assunto, que era sempre bom nos refrescarmos com um sorvete. Como eu nunca tinha dinheiro, porque não ganhava mesada e era estudante full time, só me restavam duas opções: passar vontade ou ganhar o picolé de alguém.

Às vezes eu entrava, a mercearia ficava mesmo com as portas abertas e, afinal de contas, eu também era amigo de suas irmãs. E, de repente, estava tocando alguma música, de alguma banda que eu ainda não conhecia, mas da qual instantaneamente começava a gostar: U2, Depeche Mode, Simple Minds, Duran Duran, Police, The cure. Não era nada parecido com o rock pesado do Twisted sister ou do Nazareth, com o qual eu vinha aproveitando a vida desde então. Mas meu preferido era o The cure e aquela “A letter to Elise” me nocauteava. Então, eu ia até a sala e o volume estava bem alto e todos pareciam apreciar o som, porque caminhavam tranquilamente de um cômodo para outro e até me ofereciam algo para comer. Em minha casa, eu só podia ouvir música se colocasse os fones de ouvido, o que era, invariavelmente, um pouco frustrante para mim.

Assim, eu perguntava para uma irmã de meu amigo o que era aquele arranjo triste que se irradiava pela copa, chegando aos meus ouvidos despreparados para a violência da melancolia. Eu quis conhecer mais daquilo, eu quis aprender mais sobre aquele sentimento que me levava a respirar desesperadamente uma nostalgia de aventuras que não havia vivido ainda. Era quando eu precisava ir embora, era quando uma realidade de tarefas e estudos me levava de volta para minha própria batalha, que consistia em um quarto dividido com dois irmãos.

Apesar do The cure, eu ainda me encantava mais com a crueza do Twisted sister e tentava decifrar o que Dee Snider cantava em uma época sem Internet e discos sem encarte. Era complicado, mas o vício me levava a contatar Deus e o mundo em busca de uma resposta ou de um xerox daquelas letras obscuras. Burn in hell falava sobre o quê? Captain Howdy? Don’t let me down, minha preferida?

Vinte anos depois e a notícia: eles estariam no Brasil, para um único show, o último em que usariam maquiagem. Meu irmão concordou em ir comigo e eu queria muito que ele fosse, porque é sempre bom comemorar com uma pessoa querida. Ana preferiu ficar e se deitar mais cedo, afinal era muito barulho para o seu ouvido de MPB. Então, nos sentamos, pois não havia outra alternativa a não ser esperar. E, enquanto aguardávamos, nossa história desfilava, provocante e incompleta, na passarela daquela noite inesperada.


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sábado, 26 de novembro de 2011

NEUROSES NOSSAS DE CADA DIA [Ana Gonzalez]

O assunto de proibição ao cigarro voltou à baila com a lei federal que proíbe o cigarro em todo o Brasil. Por aqui, as pessoas já não reclamam tanto, cansaram e se adaptaram à situação. No começo era um vozerio em torno da liberdade de as pessoas fumarem. Até onde pode ir a ingerência do governo sobre nossas vidas? Enfim, tudo se acomoda e as coisas se assentarão também pelo bem da saúde da família brasileira.

Mas, a minha questão não é com o cigarro, mas com as bitucas. Andando por ruas e calçadas, elas estão por aí, à nossa volta. Amassadas, espatifadas, desperdiçadas, apertadas. Cigarros meio inteiros, meio fumados. Para onde olharmos, lá estarão, pois é hábito jogar no chão. Por que não?

Muito desagradável. Me incomoda. Na verdade, fico muito brava. Fico enraivecida. Colérica. É isso. Cheguei ao ponto. Não há o que fazer e isso é mal. Fico mobilizada à explosão quando vejo que a s pessoas não se apercebem de que a rua é domínio público e não o lixo de suas casas, de suas vidas privadas.

Ando, por estas paragens paulistanas, perguntando para quem joga a bituca no chão: “Jura pra mim que da próxima vez você joga no lixo?” A reação das pessoas varia muito. Rico material para tese de mestrado em comportamento urbano. Muitas vezes, ficam bravas. Ameaçadas? Policiadas? Pegas no flagra? Em outras, elas trazem respostas nada criativas: Onde você está vendo o lixo? Ou então, fecham a cara e dão respostas menos educadas. Já vi de tudo. Da natureza humana - variada e complexa - posso esperar qualquer coisa. Não me incomoda. Observo, assisto interessada e irada.

Meu filho me disse que eu tome cuidado porque eu posso me dar mal. Ouvi com atenção. Preenchi sua preocupação com dados de realidade. Perigos possíveis à vista.

Juro que já tentei parar com essa mania. Pensando que não sou polícia ou coisa parecida. Que cada um faça o que puder pela limpeza das calçadas e ruas, da cidade, do estado e do mundo. Mas não dá. Eu presencio a hora exata do acontecimento. Pego flagras homéricos. De janela de ônibus, de carros de todos os tipos, de pessoas que estão paradas nas calçadas esperando o sinal fechar. A pessoa que está dando as últimas tragadas, certamente jogará a bituca final, representação última do prazer assumido, no chão. Disfarçadamente. Ou descaradamente. Busco sempre a reação que abra um sorriso maroto e uma concordância comigo. Muito raramente, já aconteceu.

E hoje cedo foi assim. Eu vi uma mulher de seus quarenta anos, cabelos longos escuros amarrados na nuca. Ela estava de azul e vinha na minha direção numa calçada estreita. Tragou o cigarro, e no instante em que me olhava nos olhos, jogou-o no chão. Foi instintivo - ou fruto do vício. Eu disse, então, a malfadada frase: “Jura pra mim que da próxima vez você joga no lixo?”


Mas ela, no meio dos passos lentos em que vinha, bem à frente, para minha surpresa, disse em voz baixa e tranqüila: “Juro”. E me deu um sorriso nada tímido. Também sorri. Mais por dentro do que por fora. Não esperava tanto. É daqueles momentos de cumplicidade em que tudo faz sentido. Mesmo com essa minha postura antipática, houve um encontro.

Os desvãos da cidadania têm seu caminho natural em cada sociedade. Talvez eu não precise mais dessa atitude vigilante? Curei-me com um gesto libertador de humanidade? Não sei ainda. Talvez não. Porém, a explosão de luz de encontros como esse, de pequenos instantes mágicos do dia-a-dia, faz milagres. Quem sabe?

www.agonzalez.com.br
Fotos: Internet e Steve Hix/Corbis (Sorriso)

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sexta-feira, 25 de novembro de 2011

BALADA IMPERDOÁVEL >> Leonardo Marona

somos o que podemos ser e não podemos
tempos fechaduras para a chave do medo
asfixiados os corações pelas artérias azuis
correntes literárias em bicicletas mujiques
a palavra prêmio virá do impossível passo
nosso pódio será idílio de anões circenses
taxistas falam nossa doença a vinte pratas
o torcicolo de deus inaugura a paz humana
as impossibilidades fazem crescer os cílios
o amanhã pertence a latas e trilhas extintas
pintaremos quadros com sorrisos de baleia
latem cães na madrugada de meus líquidos
escorrem édipos pelas ventosas do silêncio
tumores desabrocham no ouvido do suspiro
o livro da consciência gera o pelo da fome
roubaram da Terra a sua caixa de temperos
as têmporas embrulham o tifo da vontade
coleciono guimbas no chão de minh’alma.

escorre um western dos meus cotovelos
vejo passar a sorte com cachecol e bafo
sentidos enfraquecem a solução do ânus
penso em ti com tentáculos em febre alta
somos lilases dentro dos olhos da falácia
carinhos sempiternos são apenas difíceis
resta tempo para que não reste mais nada
as testas têm dobras de identidade usual
poemas alicates inflamam sisos de paixão
rodarei já que o amor usa bota ortopédica
há um mambo de trejeitos no osso da paz
com galocha espero a chuva da ocupação
é sair para falar, sentir o sorriso nas costas
a paciência caolha bebe uísque em Dublin
penetramos sem capa a chuva de pus ralo
um charme de esgoto faz a vênia ao cego
gangrenas de orquídeas onde ecoa o hino
ao sul de tua sorte há gânglios de veludo.


http://www.omarona.blogspot.com/

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VOCÊ CONHECE ALGUÉM ASSIM >> Zoraya Cesar


Ser madrinha de casamento da melhor amiga é uma honra, certo? Motivo de orgulho, diriam muitos. Mas não Irene, que sentiu um espinho na alma, mais um de uma longa série que aquela amizade lhe cravava.  Não tendo namorado ou amigo próximo, seria a única madrinha a ir sozinha.  A amiga sabia disso, convidou de propósito, pensou, ela sempre dá um jeito de eu me sentir deslocada.

A tal amiga, desde adolescentes, levava Irene para todos os lugares.  Aos finais de semana, iam para o clube, caríssimo, do qual ela, remediada, jamais poderia ser sócia. Aproveitavam a piscina enorme, a sala de cinema, as quadras de esportes, o salão de jogos que mais parecia uma vila olímpica. Depois, geralmente a amiga a convidava para dormir em sua casa, onde só o quarto era maior que a sala do apartamento de Irene. Que, remoía-se por dentro, chamando a amiga de soberba e exibida, mas jamais deixando de aceitar os convites, irresistivelmente atraída pelo luxo e pela oportunidade de mostrar a todos o quanto era prestigiada pela menina mais popular do colégio – do qual Irene era bolsista.

Sempre que voltava de viagem – geralmente da Europa -, a amiga trazia presentes, mostrava fotos, contava os detalhes. Irene sentava a seu lado, mexendo a cabeça de um lado para outro, qual brinquedo quebrado, pensando em como gostaria de ter feito aqueles passeios e em como a outra era cruel em sua pretensa generosidade.

Toda aquela amizade parecia ter como único objetivo humilhar Irene. Se a amiga lhe apresentava algum conhecido, é porque o cara devia ser um lixo, ruminava. Se a ajudava no inglês, era apenas para exibir sua fluência na língua; se a chamava para festas, era só para mostrar o quanto era popular. Aos 18 anos a amiga comprou um carro. Quem foi a primeira a dar uma volta? Irene. Morta de raiva por não saber dirigir e de ser sempre a carona. Para ela, só as sobras, só o papel de coadjuvante. Essa cretina, pensava, gosta de se sentir superior às minhas custas. Por isso, quando a outra começou um trabalho voluntário, ela acompanhou, mesmo detestando cada minuto, afinal, a amiga era rica, podia se dar ao luxo de perder tempo com gente pobre, ela não! Ela tinha de investir seu tempo para ganhar dinheiro e arranjar um namorado que matasse todas de inveja.

Mas enquanto o amor e o emprego dos sonhos não chegavam, ela aproveitava o quanto podia. E cultivava a amizade cuidadosamente, para não deixar de ir a festas e lugares para os quais nunca seria convidada; de receber presentes que jamais compraria, freqüentar clubes dos quais jamais seria sócia. E conhecer pessoas às quais, de outra forma, nunca seria apresentada.

O sexo oposto ignorava Irene? Não. Era feia, pouco inteligente, desprovida de encantos? Não mesmo. Mas quem a levaria a sério, quando a amiga era tão mais bonita, charmosa, rica, inteligente e loura? Os caras só queriam se divertir às suas custas, claro, acreditava. Então era paupérrima, miserável, passava necessidade? De jeito nenhum. Ela apenas vivia na conta certa do necessário com dignidade, sem nada sobrando. Minto. Havia uma coisa que Irene tinha de sobra.

Ressentimento.

Quando o casamento foi anunciado, Irene ficou doente. A vida não era justa. Aquela falsa iria casar? E com “ele”?  Lindo, rico, perfeito? E mais do que nunca se sentiu rejeitada pela sorte.

A amiga pagou para ela o aluguel do vestido e a maquiagem, disse que não queria presente, a amizade de tantos anos bastava. Claro, contorcia-se Irene, sempre querendo ser boazinha, só me chamou porque sabia que eu não poderia pagar a roupa.

Durante a cerimônia, seus olhos não desgrudavam da noiva. Ela se via naquele vestido, casada, em lua-de-mel, freqüentando lugares sofisticados, sendo adorada, incensada, amada. Com o dinheiro dela eu também seria bonita e inteligente e todos me amariam. Ela só tem amigos porque é rica. Eu também os teria. Maldita, exasperava-se. Como se eu precisasse dos seus cursos de inglês, convites para festas, encontros arranjados, clubes, casas na praia, eu não quero nada de você, nada.

Eu só quero uma coisa, pensou.

E quando o padre perguntou se o noivo aceitava a amiga como esposa, Irene jogou-se para frente, agarrou-o e gritou sim, sim, sim, eu aceito, sou eu a sua mulher, essa vida deveria ser minha, e soluçava e ria ao mesmo tempo, revelando segredos contados sob a meia-luz daquela amizade, até ser retirada da igreja, totalmente descontrolada, destilando ódio, ódio, ódio.

Se Irene era patologicamente invejosa, ou se a tal amiga era realmente pérfida, creio que só elas podem dizer. Se é que alguém assume tais falhas de caráter para si mesmo. Ou para os outros.

Essa história tem um final? Não exatamente. Mas se depois de ler esse relato você ainda tiver uma Irene na sua vida... bem, não diga que não avisei.


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quinta-feira, 24 de novembro de 2011

MINHA ÚNICA ESPERANÇA >> Fernanda Pinho




Naquela época, 90% das meninas queriam ser paquita. Eu fazia parte dos outros 10% que queriam ser a Xuxa mesmo. Andava pra todo lado com um microfone na mão, maria-chiquinha nos cabelos e botas. Era uma das minhas obsessões. A outra era o desejo de ter um irmão ou irmã, não importava. Não queria ser filha única e não parava de importunar minha mãe quanto a isso. “Mãe, por que a Karina, a Marina e a Sabrina tem irmãs?”. “Porque elas são irmãs umas das outras”. “Então, eu quero ser irmã de alguém também!”. Como eu nunca fui de pedir muita coisa, meus pais acabaram cedendo e veio a gravidez. Fiquei encantada pela barriga da minha mãe. Durante aqueles meses de espera, o que eu mais amava na vida era ficar alisando a barriga e dizendo: “Ai, bebê, você é minha única esperança”. Sei lá o que eu queria dizer com isso, mas virou até bordão familiar.

E então, no final de novembro de 1988, minha única esperança veio ao mundo. Era uma menina. Enorme, saudável, linda, loira e com olhos azuis. Opa! Aquilo não estava nos meus planos. Como assim, linda, loira e com olhos azuis? A única pessoa linda, loira e com olhos azuis que eu conhecia... era a Xuxa! “Isso mesmo, ela é a Xuxinha! Que fofa!”. Os visitantes não paravam de repetir, estilhaçando meu coraçãozinho. Alguns até tentavam um consolo, do tipo: “Nanda, você é a cara da Mara Maravilha”. Só piorava. Eu odiava a Mara Maravilha.

Minha única esperança virou meu único pesadelo. Tentei chamar a atenção destruindo uma garrafa de Coca-Cola no chão e tudo o que ganhei foram cinco pontos na perna. Parti para uma ação mais efetiva e teria dado com um guarda-chuva na cabeça do bebê, se não tivesse sido pega no flagra pela minha mãe. “Que isso, Fernanda?”. “Nada não, mãe. Vai que chove e a Menina fica molhada, né?”. Tinha isso também. Eu não falava seu nome. Era sempre a Menina. 

Mas as coisas mudam. E mudou entre a gente também. A Menina cresceu e passei a usar seu nome, Paula. O cabelo escureceu, o olho esverdeou, a Xuxa saiu de moda e eu aprendi a amá-la. Nem sempre foi fácil. A diferença de cinco anos pesou em alguns momentos. Hoje, parece não existir. Ou parece estar invertida. “Paula, que remédio eu tomo pra dor de garganta”. “Fernanda, você vai sair na rua desse jeito?”. “Paula, socorro, esse computador tá doido”. ”Fernanda, você pode fazer o favor de arrumar sua cama?”. “Paula, quanto é 13% de 540?”. “Fernanda, eu não acredito que você tá chorando por causa disso”.

A morena e a loira, do papai. Eu das letras. Ela dos números. Eu sonhadora. Ela pragmática. Eu caótica. Ela perfeccionista. Eu impulsiva. Ela analítica. Eu relaxada. Ela vaidosa. Sempre diferentes. Para sempre, complementares.  

E por que tudo isso hoje? Bom, eu não preciso de motivos para escrever sobre ela, mas como leitor adora motivos, tenho dois. Sábado passado ela terminou a faculdade deixando uma banca examinadora boquiaberta com sua desenvoltura e perspicácia. E sábado próximo ela completa 23 anos. Parabéns e parabéns para minha única esperança de ter sempre alguém ao meu lado. Incondicionalmente. 


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quarta-feira, 23 de novembro de 2011

HUMOR >> Carla Dias >>

Minhas irmãs são muito criativas no bate-papo. Quando me encontro com elas, normalmente uma a cada vez, pois não moramos próximas, as conversas acabam sempre descambando para o imaginário. E tudo regado a muito café. O mesmo acontece com algumas primas e tias. Chego a pensar que, essa família enorme e repleta de mulheres é regida pelo humor dos que aprenderam a superar obstáculos, pois haja obstáculos... E humor.

Não dizem que sorrir faz bem para a alma?

Independente do conteúdo do sorriso?

O meu humor não é dos mais leves, mas há dias em que consigo arrancar gargalhadas dos meus sobrinhos simplesmente pegando um acontecimento adulto e chato e o enxergando com olhar infante. Tombos cruciais na idade adulta se transformam em um escorregão ao pisar na casca de banana que o fulaninho jogou no chão. E a descrição visual desse balé-escorregão é sempre motivo para os pequenos rolarem de rir.

Fácil, não?

Mas quando no cenário adulto, esse lugarzinho ao qual pertenço, a coisa é bem diferente. O meu humor não consegue ser simples, sutil, gracioso, simplesmente porque me atraem os requintes da ironia e do sarcasmo. Para mim, o humor negro, quando bem aplicado, é fascinante.

Pensando em cinema, Morte no funeral (Death at a funeral/2007) é um dos filmes que mais me agrada. Falo sobre a versão original, a do diretor Frank Oz, com o talentosíssimo – e lindo de doer o coração da gente - Matthew Macfadyen (Orgulho e Preconceito/Enigma). O filme mostra uma série de inconvenientes e revelações durante o funeral do patriarca de uma família inglesa de classe média alta. É interessante, bem escrito, com atuações determinantes e com uma direção que não deixa o humor negro se transformar somente em um relato sobre uma série de infortúnios.



A produção de Morte no funeral foi uma parceria entre a Alemanha, os Estados Unidos e a Inglaterra. Em 2010, foi lançada a versão com produção exclusivamente americana, com as participações de Chris Rock e Martin Lawrence. Em minha opinião, foi um remake desnecessário e uma versão inferior ao original.

É fato que os ingleses são considerados os magos do humor negro. Porém, há duas produções francesas que estão na minha lista de comédias preferidas. O jantar dos malas (Le Diner de Cons/1998) é um filme sobre Pierre e seus amigos, que se reúnem uma vez por semana para um jantar peculiar. Cada um deles deve encontrar a pessoa que jamais convidaria e convidá-la para o jantar, garantindo a diversão do evento e a disputa de quem conseguiu o “mala sem alça” mais mala de todos. Porém, uma virada na vida de Pierre faz com que ele dependa das boas intenções do seu mala convidado, o que apenas complica a sua vida.



Ainda não assisti, mas O jantar dos malas ganhou uma versão americana, com Stevie Carell e Paul Rudd, dois excelentes atores. Um jantar para idiotas (Dinner for Schmucks) foi lançado em 2010.

Para finalizar a tríade das comédias de humor negro que mais me agradam, tenho de citar a fantástica Delicatessen (1991). Contando com Jean-Pierre Jeunet (Ladrão de sonhos/O fabuloso destino de Amélie Poulain) como codiretor e um dos roteiristas, este filme conta a história de um homem que se muda para um prédio em cima de um açougue e se apaixona pela filha do dono do estabelecimento. O que ele desconhece são os planos que a família da moça tem para ele. Não posso contar o bom do filme, senão estragaria a surpresa. Mas quem gostar de um bom filme de humor negro, pode conferir este.







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terça-feira, 22 de novembro de 2011

A SAGA DA FONOAUDIÓLOGA >> Clara Braga

Tenho certeza que já comentei por aqui as minhas nada boas lembranças a respeito da minha infância. Não que ela tenha sido mal aproveitada, ruim ou qualquer coisa do tipo, só não conheço uma pessoa que consiga me falar algo de bom em relação a mim quando era criança, principalmente minha família.

Quando o assunto surge é sempre a mesma coisa, sempre falam apenas o quanto eu era emburrada, chata, birrenta, entre outras coisas que eu prefiro não entrar muito afundo para não passar uma visão ainda mais ruim sobre mim para quem está me lendo nesse momento.

Outro dia, enquanto conversava com minha mãe e uma amiga minha, o assunto dislexia acabou surgindo. Não me lembro como surgiu, mas posso garantir que não fui eu quem puxou o assunto, já que dislexia é um tópico que sempre aparece junto com relatórios a respeito dos seis longos anos que eu passei na fonoaudióloga enquanto criança.

Anos sofridos esses, principalmente para uma criança que não sabe o que é dislexia e muito menos como pronuncia a palavra fonoaudióloga. Ou seja, eu ia para esse lugar estranho e não tinha a menor idéia de como aquelas pessoas que estavam lá iam me ensinar a não trocar mais o "T" pelo "D" ou o "V" pelo "F" me colocando para fazer quebra cabeças, caça palavras, exercícios de coordenação motora e alongamento, exercícios faciais, exercícios para a musculatura dos olhos e jogar jogos de tabuleiro com outras crianças que também frequentavam o lugar estranho.

Para ser bem sincera, eu sei que melhorei e sei que hoje não tenho mais tanta dificuldade assim para escrever, mas ainda assim, comentei com minha mãe e essa amiga que até hoje não via ligação entre todas essas atividades e o fato de ter parado de trocar as letras. Foi nessa hora que me arrependi de ter comentado isso, mas ao mesmo tempo fiquei feliz de ter sido esclarecida.

Minha mãe explicou, de uma forma clara e sem titubear, que os quebra cabeças, caças palavras e exercícios para os olhos eram todos para fortalecer a musculatura dos olhos e ver se concertava um certo desvio que eu tinha que me fazia engolir sílabas e pular linhas na hora de ler. Que os exercícios de coordenação motora e alongamento eram para arrumar minha postura que era bem ruim, com a coluna bem para frente, como uma espécie de lordose. Os exercícios faciais eram para arrumar minha arcada dentária que era bem para frente, eu não encaixava os dentes na hora de fechar a boca e tinha a língua um pouco presa, não conseguia falar o som do “s” sem colocar a língua entre os dentes. E que os jogos de tabuleiro em grupo eram na verdade terapia em grupo para criança, e não pura diversão como eu imaginava.

Agora numa boa, durante seis anos da minha infância eu me achava super burra porque não conseguia escrever palavras que todos os meus colegas da escola sabiam, eu tive que fazer terapia sem saber, eu tinha desvio no olho (e para mim, dizer que tem desvio é uma forma um pouco mais elegante de dizer que eu era levemente estrábica). Tinha também uma postura estranha e uma boca que não fechava, ou seja, era o perfeito corcunda de Nodre Dame! E além disso tudo vocês ainda queriam que eu fosse bem humorada? Família, vocês não acham que exigiram um pouco demais de mim não?

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segunda-feira, 21 de novembro de 2011

VIVI DOS PALMARES >> Albir José Inácio da Silva

- Hidratação e massagem – disse Viviane.

Com muito catálogo e pouco argumento o cabeleireiro insistiu, apregoando os milagres que sabia fazer:

- Por que não um relaxamento? Não é alisar, é só alargar os cachos, as mechas, as... as...

- ... as molinhas – completou Viviane, rindo e lembrando das humilhações de toda uma vida.

E como doíam! Em casa as coisas não eram melhores: “Fulaninha tem um cabelo tão bom que nem segura grampo”, diziam da filha da vizinha. Cabelo bom e cabelo ruim, essa a lógica. O dela era ruim.

Mas não era só o cabelo. Olhos lindos eram olhos “como o céu” ou “como o mar”. Quanta inveja! Os dela eram apenas olhos, “que às vezes enxergavam demais”, ralhavam os adultos.

Quantas vezes se sonhou loirinha e de olhos azuis? Pela manhã o espelho a mandava pra escola com dor no coração. E era lá que a dor aumentava.

- Suas molinhas estão caindo no caderno – riam todos. Riam até os de cabelo “ruim”, espantava-se Vivi.

Dos colegas ouvia também explicações, que diziam bíblicas, para a sua cor: maldição divina imposta a Caim, marca do pecado. Indefensável a sua pele. E não só a pele, a religião de seus pais também era coisa do diabo. Não havia salvação.

Na adolescência até os elogios machucavam:

- É preta “mas” é gostosa! – diziam. E ela se perguntava: por que não preta “e” gostosa?

Eram essas as suas dores e ela sentia culpa. O que significavam tais bobagens diante do chicote nos antepassados, dos estupros das avós pelos senhores, dos filhos vendidos para outras fazendas, das prisões arbitrárias, do subemprego, do analfabetismo? O que eram suas questões estéticas comparadas com tanto sofrimento e humilhação por séculos?

Olhou-se no espelho. Agora gostava de olhar. Lábios generosos e sensuais de fazer inveja às bocas que antes a chamavam de beiçuda. A pele de ébano não era maldição divina, era presente. E a carapinha, identidade de sua raça. Sorriu para o espelho com a perfeição de seus dentes e lembrou-se de quando diziam que eles eram a única coisa nela visível à noite.

Agora se gosta. Sua notas não devem nada aos alunos que vieram dos colégios caros. Foi um longo caminho até o orgulho e a dignidade. Muito sofrimento, muitos livros emprestados, muita reflexão.

Hoje não tem problemas com cabelos alisados ou lentes coloridas. Vê beleza no espelho, mas também nos outros estilos. Qualquer dia até experimenta umas mudanças. Mas hoje não. Hoje é vinte de novembro.

E Viviane repete mais alto que o necessário para os tímpanos sensíveis do insistente mas delicado coiffeur:

- Hidratação e massagem... só!

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sábado, 19 de novembro de 2011

AS ROSAS NO ESCURO [Ana González]

Fotografar é exercício de paciência e tempo. É fazer muitas fotos para depois ver o que foi captado nas imagens. Surpresas à espera.

Dessa vez as flores ficaram no escuro e sem muita claridade. Um efeito diferente. Em geral, prefiro mais contraste entre luz e sombras. Mas, nessas fotos de rosas há uma luz especial e sombras, muitas sombras. Estou falando por repetições, tentando explicar. Está quase impossível.

Tudo meio escuro, com as cores quentes das rosas em sutil presença. Em um pequeno vaso, elas não são muitas. Talvez umas cinco ou seis em tom de laranja, um quase rosa, alaranjado. Uma cor indefinível e o resto, à volta delas na penumbra, com um pedaço de espaldar de uma cadeira ao fundo. O vaso sobre uma mesa de que não se vê muito.

Mas havia sim, uma luz sobre elas, delicada, noturna. É a primeira foto que me sugere a noite assim descaradamente. Um resultado assim, uma noite com luz de lua.

Todo o resto por ser adivinhado. A parede da sala no fundo. Os pés da mesa? E ao olhar assim para dentro desse escuro, diviso o que não se vê e só pode ser imaginado. Então, solta, a imaginação faz seu giro, adivinhando o cenário de uma composição não preparada. Descrevendo, invento o que segue num exercício de liberdade.

A luz cai docemente sobre o vaso na mesa, com tampo de vidro, por uma janela grande - daquelas antigas de muitos quadrados com alguns vidros trabalhados. Sim, é uma sala com móveis antigos. E a lua, sem pedir, invade tudo, passando pela janela, na mesa, em algumas das oito cadeiras. Bate no tapete escuro com tons de vermelho. Há uma cristaleira, com copos, jarras e outros cristais. Reflexos e brilhos.

E a luz da lua se mistura a outra que vem de um poste na calçada. Há um muro que ladeia a casa com um pequeno corredor longo, na lateral. É uma casa de cidade de interior, ou de um bairro antigo de São Paulo dos anos cinqüenta?

Não sei. Um retrato sobre um aparador na parede perto da mesa mostra um sorriso de mulher, com colar de pérolas junto ao pescoço e um cabelo em ondas. Ou é uma blusa com gola arredondada e broche de pequenos brilhantes?

Tal personagem combina com o vaso. Ele comporta a sensibilidade de certo clima doméstico. O vaso é símbolo de uma comemoração. Mesmo sendo poucas flores, trata-se de uma homenagem. Poucas flores e um cartão que pousa aberto na ponta da mesa, ao lado dos papéis meio amassados e uma fita de seda. Talvez, amor, uma situação particular.

Caminho até a janela para olhar de novo o poste e o corredor comprido. Eis que alguém se aproxima pela calçada, um homem de andar manso. Sem pressa. Toca a campainha da casa. E mais não dá para ver, porque embora haja transparência e claridade, a visão de onde estou não é suficiente. Meu coração começa a bater forte. Olho para as flores no meio do escuro e em cima da mesa.

Ouço passos. Uma luz se acende na sala.

Fotos da autora.
www.agonzalez.com.br

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quinta-feira, 17 de novembro de 2011

AS BONECAS >> Fernanda Pinho



Sete minutos. Eu estava naquele corredor encarando o cartaz com a foto de uma enfermeira fazendo sinal de silêncio há apenas sete minutos. Mas a sensação que eu tinha era a de que toda a minha vida havia passado mais depressa que aqueles míseros sete minutos. Não tinha, aliás, transcorrido nem meia hora desde que vi minha Carolina cair desmaiada no chão, após chocar-se com sua bicicleta contra o muro de concreto de nossa garagem. Minutos depois, eu e Hugo adentramos por aquele hospital com nossa filha ensanguentada, e ainda desacordada, nos braços. Imediatamente após nossa chegada, Carol foi levada por enfermeiras para o bloco cirúrgico e a mim não restava mais nada a não ser tentar encontrar algum resquício de fé e suplicar a qualquer força superior que não me tirasse a minha filhinha. Não era justo, admissível, nem ao menos natural que algo de errado acontecesse a ela, com apenas seis anos.

    Seis anos. A mesma idade que tinha a outra Carolina, quando nos conhecemos. A Carolina da minha infância. A Carolina que homenageei ao batizar minha filha... Como numa tentativa de fugir daquela agonia, todos os meus pensamentos voltaram no tempo e me concentrei em lembrar-me da outra Carolina. Eu estava com sete anos e morava naquele prédio desde que havia nascido. Tinha três amigas ali, as gêmeas Renata e Rebeca, de oito anos, e a Sandra, que era da minha idade e, inclusive, estudava na minha sala. Digo que eram minhas amigas por falta de expressão melhor. A verdade é que apenas convivíamos por conveniência, e quando se é criança, é muito fácil conviver apenas por conveniência. Ao menos para mim era fácil. Mas não foi para Carolina. Quando a chamei para brincar conosco, no primeiro dia em que a vi no playground, logo fui recriminada pelas meninas. Elas me explicaram que a Carolina não poderia brincar com a gente, pois não morava no prédio. Era apenas filha da empregada do 402. Elas me explicaram, mas eu não entendi. Tanto que ignorei a advertência e passei a brincar com frequência com Carolina, com quem me entendia muito melhor do que com as outras. Naturalmente, Rebeca, Renata e Sandra não aceitaram de bom grado a novidade e retaliações começaram a acontecer. Primeiro foi comigo, que passei a ser ignorada completamente por elas. Não olhavam mais na minha cara e ficavam aos cochichos quando eu e Carolina passávamos. Não contentes, decidiram aprontar para a própria Carolina também. Jogaram sua boneca na piscina. Cabeça para um lado, corpo para o outro. E roupinha picotada por todos os cantos. Ainda me lembro da expressão de choque no rostinho de Carolina ao ver sua única boneca naquele estado. Ela não sabia nadar, mas eu, sim. Pulei na piscina, juntei as partes da boneca e a levei para minha casa.  Enxuguei-a com a ajuda do secador de cabelo da minha mãe e pedi à Sônia, que trabalhava lá em casa, que costurasse a cabeça de volta ao corpo. Por fim, vesti a boneca com uma roupinha da Janaína, minha irmã que estava com dois anos, e corri, ansiosa, para o 402. Encontrei Carolina amuada na cozinha, mas vi um sorriso iluminar seu rosto quando lhe mostrei a boneca. Ela riu de canto a canto, revelando as covinhas nas bochechas.
- A partir de hoje, ela vai se chamar Juliana, como você. – Sentenciou Carolina, como um gesto de agradecimento. Aquele foi um marco na nossa amizade que durou mais quatro anos, até meu pai ser transferido para o litoral e nos mudarmos do prédio. Na última vez que vi Carolina, ela segurava Juliana nos braços e me acenava, com lágrimas nos olhos. Dez anos depois, voltei a morar na nossa cidade. Tive vontade de reencontrá-la, mas havia perdido toda e qualquer referência. Ainda assim, dei à minha filha o nome da melhor amiga da minha infância. A Carolina que eu havia conhecido há trinta anos.

    Trinta anos. Onde estaria Carolina agora? Fui arrancada dos meus devaneios pela entrada súbita da enfermeira no corredor. E, então, a realidade voltou a me sacudir.
- Minha filha. Cadê a minha filha?
- Fica tranquila, vocês podem me acompanhar?
    Hugo e eu seguimos a enfermeira por um corredor estreito e, por fim, entramos num consultório, onde uma médica nos aguardava.
- Um dia, com todo o amor que é possível um ser humano demonstrar, você salvou minha Juliana. Hoje, eu salvei a sua Carolina.
    E então ela sorriu e suas covinhas se revelaram. Inconfundíveis. 



[Mais um conto. Variação sobre o mesmo tema do outro]
Imagem: www.sxc.hu

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quarta-feira, 16 de novembro de 2011

SONHO RECORRENTE >> Carla Dias >>

Eu tenho um sonho recorrente. Você também tem?

Meu sonho recorrente parece novela, por isso os atores mudam de figurino, vez ou outra, assim como de cenário, mas não saem do tema, não trocam de trajetória. Ele se desenrola e não liga de durar muito, mas então vem a pegadinha. É justamente um pouquinho antes do desfecho que eu acordo.

Meu sonho recorrente não tem fim. Neste ponto, não parece em nada com novela.

Acho que ele acompanha o progresso, porque teve a versão vintage, quando as ruas pelas quais eu tinha de caminhar, durante horas, pareciam as de mil novecentos e nada. E aconteceu o dia em que ele assumiu um quê Matrix, com prédios altíssimos e espelhados, quase tudo preto ou metálico.

Tenho certeza de que o meu sonho recorrente tem seus momentos bipolares.

O momento Stephen King do meu sonho recorrente esta na cena 432 – exterior, noite... noite bem, bem escura - avenida desconhecida. Ação: personagem corre, e muito! Se na minha realidade eu caminho tão pouco, neste sonho eu pareço maratonista. Corro para chegar lá, perco o fôlego, pego ônibus, então desço do ônibus, corro por ruas estreitas de um lugar definitivamente perigoso, paro para olhar um jardim, chego à beira de uma praia e fico morrendo de vontade de colocar os pés na água, mas a praia se afasta quando eu tento. Subo em outro ônibus, que me leva para um lugar que não faço a menor ideia de onde fica. Pergunto ao cobrador se ele conhece a rua piiiiiiiiiiiiiiiiiiiii, e ele diz que piiiiiiiiiiiiiiiiiiiii, e, desesperada, desço do ônibus, pergunto às pessoas que estão no ponto se elas piiiiiiiiiiiiiiiiiiiii, e eu morrendo de medo de perder a hora, escuto um monte de piiiiiiiiiiiiiiiiiiiii.

Duro é não saber que hora é essa que me dá medo de perder, tampouco o que há de pornográfico em uma cena de sonho recorrente de meter medo! O piiiiiiiiiiiiiiiiiiiii é definitivamente assustador e nada erótico.

Certa vez, meu sonho recorrente deixou de ser recorrente por alguns minutos, depois voltou ao padrão. Estava tudo igualzinho, exceto que, na cena 625 – interior, dia bem claro - casa em ruínas - lugar que não sei onde. Aparece essa menina, de uns dez anos de idade, carinha boa que só. Estou sentada em uma cadeira, no meio do cômodo vazio, e ela se aproxima e cochicha no meu ouvido, a voz miúda, preciso ir ao banheiro.

Eu acordei, levantei-me, fui ao banheiro, deitei-me e o sonho continuou de onde parou. Desta vez, sem interrupções.

Meu sonho recorrente também me oferece momentos dos que Manoel de Barros sabe dizer tão bem em suas poesias. Eles são breves, porém poderosos. A sensação de plenitude que oferecem me faz sentir um prazer imenso. E logo eu volto às avenidas, aos ônibus, às águas intocáveis, e por aí vai.

O cenas do próximo capítulo do meu sonho recorrente - que não tem final, então o final tem de ser o continua... que nunca continua – acontece lá pela cena 853 – interior, noite fria de um tudo - corredores escuros que só da estação de trem. Completamente ensandecida pelo medo de perder o trem que me levará até lá... Lembram do “lá”? Enfim, eu corro pelos corredores e então subo, e subo, e subo escadas e mais escadas, esbarrando nas pessoas que não estão apressadas como eu. Tenho de chegar à plataforma, mas parece que isso nunca vai acontecer, até que chego ao fim da escada e olho para baixo. A plataforma está vazia, não há uma alma viva na estação, que parece estar abandonada há séculos.

Preciso de um leitor, interpretador, consultor, de qualquer um que consiga dizer aonde esse meu sonho recorrente quer me levar, onde fica este “lá”. Quem sabe assim eu consiga dormir e sonhar um sonhinho básico: cena 1 – interior, qualquer hora do dia - sala da minha casa. Ação: Dave Matthews tocando violão e cantando “Jimi Thing” para uma plateia formada apenas por mim e os meus amigos.

E se este se tornar o meu sonho recorrente pós Prozac, quem sabe ganho um show completo, ao invés de apenas uma música. E quase no final dele, um bis.


carladias.com




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terça-feira, 15 de novembro de 2011

AH, OS TROCADILHOS... >> Clara Braga

Dia quente, sol forte, um calor terrível e tudo que eu mais queria era ficar em casa embaixo do ventilador, tomando uma coca cola super gelada com bastante gelo dentro enquanto meu cérebro vai derretendo aos poucos! Mas... como murphy existe, é claro que não vai dar. Vou ter que ir na faculdade resolver problemas de matícula... Tudo bem, pior não vai ficar. É só eu sair, resolver tudo rapidinho e voltar pro conforto do meu ventilador.

Logo ao sair descubro que o elevador está quebrado, maldita hora que fui dizer que não tinha como ficar pior. Mas tudo bem, a verdade é que ninguém nunca morreu por causa de 4 andares de escadas (pelo menos não que eu saiba), e eu estou mesmo precisando me exercitar. E é como todo mundo diz, para baixo todo santo ajuda, o lance agora é rezar para que na volta o elevador já tenha voltado a funcionar.

Chego ao carro que, diga-se de passagem, não tem ar condicionado e estava no sol, já que meu prédio não tem garagem, e então entro. Em uma tentativa desesperada de me distrair e fingir que o calor não me incomodava e que o volante não queimava minha mão, eu liguei o rádio. Uma música estava para acabar e iria começar uma outra da Ana Carolina. Comecei a prestar atenção na letra até a hora que eu escuto: Toda mulher gosta de rosas e rosas e rosas, muitas vezes são vermelhas mas sempre são rosas.

Quem nunca ouviu um trocadilho tão ruim quanto esse põe o dedo aqui que já vai fechar! Não sou uma poetiza, muito menos compositora, mas vamos combinar, se ela ficasse mais uma meia hora tentando escrever essa música ela faria algo melhor. Mas tudo bem, parece que depois de um certo tempo que sua carreira já está consolidada você já não precisa se preocupar tanto com a qualidade da música que vai cantar, do contrário acredito que o Roberto Carlos não teria regravado um funk nem o Milton Nascimento não teria regravado aquela música horrível de auto-ajuda do Jota Quest. Não tenho nada contra nenhum desses artistas que citei, nem contra a Ana Carolina, mas esse trocadilho das rosas com certeza não é a melhor letra que ela já escreveu.

Enfim, resolvi tudo que eu tinha pra resolver, mas o tal do trocadilho não saía da minha cabeça. Quando cheguei em casa e descobri que o elevador ainda estava quebrado, teria mesmo que subir os 4 andares de escada, me toquei de que na verdade trocadilhos ruins é quase uma marca registrada da Ana Carolina e foi assim que subi cantando uma música dela chamada ELEVADOR: E eu subo bem alto pra gritar que é amor, eu vou de escada pra elevar a dor!

Valeu por esse momento Ana Carolina.

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segunda-feira, 14 de novembro de 2011

CARTA A UMA GRÁVIDA >> Kika Coutinho

Querida amiga,

Desde que soube da sua gravidez, não consigo tirar da memória uma lembrança infantil, que é das mais emocionantes entre todas as que tenho.

Era Natal nos anos 80, eu tinha qualquer coisa entre 4 e 7 anos e estava com duas maria-chiquinhas no cabelo e uma camiseta vermelha. Quando a campainha tocou, corri atrás da minha mãe para abrir porta e, transbordando de alegria, assisti a minha madrinha chegar em casa, carregando um enorme presente embrulhado em papel vermelho e fita dourada. Era meu. Eu sabia que era meu, mesmo sem que ninguém me dissesse nada. Senti como que um calor por dentro, um quentinho acollhedor, tão imensamente delicioso, que não pude conter o riso. A alegria transbordava feito água que estoura uma represa.

Me entregaram o pacote e em um instante, um pequeno instante enquanto eu desfazia o laço de fita, essa sensação se prolongava um pouco mais. Ao meu redor, toda a família e a melhor amiga. Era o universo todo assistindo ao meu ideal de felicidade.

Tenho certeza que você já sentiu isso amiga. Certeza que você sabe do que falo, quando descrevo esse pequeno instante de alegria, essa delícia que era abrir um embrulho de presente.

Mas a minha infância já ficou para trás há algum tempo. Lixaram bem as paredes da minha memória, passaram massa corrida e cobriram com a cor da maturidade, de forma que algumas sensações ficaram perdidas entre a crosta de anos que a vida me trouxe. Essa foi uma delas. O calor transbordante de abrir um presente novo, a alegria infinita de um instante curto e mágico, o universo todo assistindo a essa delícia, como que vibrando pelo nosso segundo de glória, fazia apenas parte da minha memória poética, como diria nosso amado Rubem Alves.

Pois bem, amiga, eis que, anos depois, sentada em uma pia gelada, com um teste de gravidez nas mãos, enquanto assisto à segunda listra se formar e constato - com a alegria e o susto de uma iniciante - que estou grávida, a vida me presenteou de novo com aquele mesmo prazer. Um presente embrulhado em papel vermelho, laços dourados que envolviam todo ouro do mundo, não me deixariam mais feliz.

Diferentemente da infância, agora a sensação se prolongaria um pouco mais. Seriam nove meses daquele instante mágico. Nove meses sentindo a alegria de desatar um laço de fita, curtindo cada chute e cada pequeno tremor, todos pistas do que seria esse presente tão imensamente precioso. Era como descobrir o autor de bilhetinhos de amor anônimo, desses que a gente ganhava no correio elegante. Um sustinho alegre a cada papelzinho que chegava. Quem será? Como será? Qual o cheiro, o gosto, o som?

Essa sensação amiga, eu tive apenas na primeira gravidez. A segunda, que foi tão feliz quanto a primeira em tantos outros aspectos, não tem mais essa inocência, essa deliciosa tolice que só as crianças e os apaixonados podem experimentar.

Hoje, enquanto vejo a sua alegria e euforia com a pequena Ana, que cresce aí dentro, me vejo também um pouco enquanto carreguei a Sofia, e enquanto segurei um embrulho vermelho.

Essa sensação de presente por abrir, essa euforia desmedida, só é permitida aos ingênuos, aos doces desejantes, esses que não sabem bem o que está por vir, mas sabem que é bom.

Amiga querida, essa crônica é para você, para te pedir que curta imensamente, enormemente, esse teu presente tão bem embrulhado. Ainda me resta mais de metade da vida para aprender, mas, quase que arrisco dizer, que não haverá chance de ter de novo essa alegria. A do instante mágico e breve, entre ter o presente já aberto, o laço desfeito e as enormes alegrias de desfrutar do seu tesouro, e aquele anterior, enquanto ainda não o temos, mas desejamos.

Não há, para mim, nada tão bom quanto ter filhos e assisti-los crescer. São sensações diferentes e novas a cada dia. Mas, antes dessas deliciosas pestes aparecerem enfim, há algo mágico e forte, que só nós, tolas meninas grandes, podemos saber.

Obrigada por me trazer a tona todas essas lembranças. E que o seu presente te traga todas as alegrias do mundo.

Um beijo,

Kika.

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domingo, 13 de novembro de 2011

O PRIMEIRO DIA >> Whisner Fraga


Há nove meses ela estava conosco e, desde que soubemos que Ana estava grávida, tratávamos Helena por filha, mas foi somente quando a criança deixou o útero e finalmente pudemos ver seu rosto que nos tornamos pais para a sociedade. Não prestei muita atenção ao parto, pois havia uma ordem de minha esposa: não deixe a menina sozinha. Não deixei enquanto não colocaram a identificação em seu pulso. Senti-me como aqueles engraçadinhos que andam atrás das pessoas repetindo todos os movimentos que elas fazem. Sombra, isso mesmo, sombra. Mas quando a gente se vê em um hospital em que as pessoas mais importantes em nossa vida são apalpadas como frangos na feira de domingo, perdemos a vergonha e tratamos de incomodar.

Mais tarde éramos eu, Ana e Helena e uma noite inteira nos assombrando. Ouvimos muitas histórias, não só de amigos, mas também de repórteres, na televisão; de locutores, nas rádios; e também de outros profissionais. Um contava sobre uma criança que havia falecido na madrugada de seu nascimento: morte súbita. Outro, que um bebê havia engasgado com o líquido amniótico e morrera sufocado. Mesmo os que nos procuravam para umas palavras de apoio sempre finalizavam o discurso com um “vai dar tudo certo” que nos deixava desconfiados. Esse “vai dar tudo certo” é muito usado por aí por aqueles que sabem que a probabilidade de algo dar errado é considerável.

Acho que as enfermeiras fazem isso só de sacanagem. É óbvio que não estávamos preparados para passar uma noite inteira sozinhos com Helena. Resultado: dos três, somente a recém-nascida dormiu. De dez em dez minutos, eu me levantava do sofá e ia colocar a orelha perto do nariz da menina, para me certificar que ainda respirava. Ana, que não podia sair da cama, sussurrava de meia em meia hora: “tá tudo bem?” O que ela queria saber, é claro, era se eu já havia verificado a respiração de Helena, se ela estava quentinha, se ia conseguir vencer a noite.

Venceu. O café da manhã de hospital me pareceu um desjejum de rei. Uma enfermeira passou, trouxe um remédio para Ana e eu estava com vontade de abraçar todo mundo. Mas a minha euforia não ia durar, óbvio. Dali a pouco, em frente a uma placa de silêncio, enorme, em que uma loira colocava sensualmente o seu indicador defronte os lábios encardidos de um batom sanguíneo, lascivo, em frente a esta placa, um sujeito engatilhava uma furadeira e se preparava para ligá-la. Se Helena vinha lidando bem com sua vontade de chorar, não suportou mais: só esperou o estrondo da broca perfurando a parede. Sem aviso prévio, reiniciam a ampliação do prédio, assim, sem isolar aquela ala do edifício.

Pedi para chamarem o responsável, que me advertiu que a reforma continuava, como planejado, e que seguiria dia afora. Mesmo achando tudo estranho, afinal desde criança ouvi dizer que não se faz barulho perto de hospital, que não se buzina em frente a pronto-socorro, mesmo sabendo que algo estava errado, solicitei que nos trocassem de quarto e ponto final. Era um dia de festa. Mas estavam demorando muito, tinham de consultar o chefe um, o chefe dois, o chefe três e o quatro, se necessário. Pronto, conseguiram a proeza de detonar a minha paciência em pouco mais de hora e meia. Empunhei a filmadora e, caminhando pelo corredor, fui registrando as atrocidades: a placa de silêncio ao lado do perfurador de paredes, o olhar confuso de uma paciente ao lado de um operário marretando sabe-se lá o quê. E fui narrando – dei voz ao Sílvio Luiz que descansava em mim – e, tão alto quanto pude, contei para a câmera o que estava ocorrendo. Ajuntei uns toques de chantagem, algo entre “procurar meus direitos” e “contactar o advogado”, e em torno de dez minutos estávamos instalados em outro aposento, no andar superior.

A partir desse dia, decidi mostrar a Helena que poucos privilegiados têm o direito de ser respeitados em nosso país. O que não quer dizer que ela tenha de lutar para ser uma privilegiada e sim para que mais pessoas tenham direito à cidadania. Se Helena não pôde nem nascer em paz nem desfrutar o primeiro dia neste mundo com tranquilidade (uma tranquilidade cara, paga à vista), deve se preparar para uma sociedade hostil, egoísta e em guerra contra o planeta.



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sexta-feira, 11 de novembro de 2011

PASSEIO MOLHADO. ENCHARCADO. DE ÍNDIO >> Zoraya Cesar

Ninguém, em sã consciência, ou mesmo em malsã, pode afirmar, com todas as letras, “nessa roubada não entrarei”. Por mais que você planeje, prepare e tempere seu programa, tudo sempre pode dar errado.

Roberto, por exemplo, nosso amigo de hoje. Ele planejou cuidadosamente a excursão a um desses parques infantis que ficam em São Paulo, levando a esposa, a enteada e uma amiguinha, garantindo ter tudo sob controle. Como qualquer cientista sabe, basta dizer isso, e toda a energia do universo se une para provar o contrário. Não é superstição, é fato. Pois bem, vamos aos fatos.

Um dia antes da viagem, hotel reservado (o mais próximo do parque, a duas horas de viagem), ingressos comprados, brinquedos escolhidos, o site do tempo resolveu contar a verdade e, contrariando as previsões feitas até então, revelou que nos próximos dias ia chover. Muito. Tudo bem, disse Roberto, é só um pequeno contratempo, sem trocadilhos. E foram assim mesmo.

No caminho para o hotel, o motorista foi logo dizendo, com seu vocabulário peculiar, que só mané ia ao parque às 5ª e 6ª feiras, dias de receber caravanas de escolas públicas. E acrescentou que a previsão para o dia seguinte era de 22 mil pessoas. Conversa de taxista, disse Roberto, confiante, tenho tudo planejado, estamos em período letivo, o parque estará vazio. (Claro. Se eles podiam estar ali com duas crianças, porque as outras 21.996 pessoas não poderiam?).

Conversa de taxista, hein? De manhã, dezenas e dezenas de ônibus se dirigiam para o parque. Roberto começou a suar frio, pensando que, se dentro do hotel, a barulheira já estava naqueles decibéis, imagina ao vivo...

Você compra ingressos com antecedência, certo? E para quê? Para não enfrentar fila, oras! Que pergunta! Só que não é tão simples assim. Havia um “esquema” extraoficial: por R$20 a mais você entraria no parque antes de todo mundo. Por R$ 50, furaria a fila em 8 brinquedos. Que beleza, hein? Não vou dizer que essas coisas só acontecem no Brasil porque não conheço Tonga nem Kabuletê, não sei se lá também é assim.

O parque pode ser infantil, mas quem freqüenta são adolescentes. Muitos. Inúmeros. Hordas. Todos buliçosos, todos barulhentos e todos com péssimos hábitos. Empurra pra cá, esbarra pra lá – dezenas deles pulavam a cerca que organizava as filas, e os seguranças... que seguranças? E ainda havia a lama no chão, o vento gelado e as horas incontáveis para entrar num único brinquedinho que fosse; muita gente comprou o tal passe fura-fila e o pessoal que adquiriu ingresso com antecedência ficou na chuva. Como nosso amigo Roberto e família. A sucursal do inferno deve ser parecida com isso, pensava ele.

No final desse primeiro dia, que alegria, o resultado foi positivo: depois de nove horas seguidas, entraram em sete brinquedos, conseguiram um resfriado, um calo no pé e um par de tênis imprestáveis. Calma, dizia Roberto, o dia seguinte vai ser melhor. Ficariam no hotel, as crianças iriam para a recreação e os adultos para o bingo. Mas, como planejamento é tudo, as meninas quiseram voltar ao parque.

Entraram na fila da montanha-russa. E lá ficaram por mais de 40 minutos, até descobrirem, por acaso, pois não havia qualquer aviso, que o brinquedo só começaria a funcionar dali a duas horas. Sendo assim, resolveram almoçar, e escolheram o melhor restaurante do lugar, cuja fila – novidade! – estava enorme, apesar de a comida ser servida em pratos de plástico mole, que dobravam ao simples toque e só não queimavam a mão porque o galeto e a picanha (únicas opções do melhor restaurante) estavam frios. E duros. Os talheres de plástico não serviam para nada e eles tiveram de comer com a mão. Roberto se sentiu no tempo das cavernas, mas nada disse. Até porque amanhecera com uma herpes horrorosa na boca, que, de tão inchada, não o deixava falar nada. Podia até ser paranoia, mas ele tinha certeza que algumas crianças olhavam para ele com medo.

Como tudo o que é ruim sempre pode piorar, de repente as luzes se apagaram e começou um show estilo velho oeste, velho e decadente, com tiros de espingarda, dançarinas desencontradas e cantoras desafinadas num barulho ensurdecedor. No escuro, mal conseguiam enxergar a comida no prato, fazendo com que o arroz e a farofa caíssem pelo chão. Delícia.

Finalizados o magnífico show e a lauta refeição, seguiram, meio surdos e com fome, para a malfadada montanha-russa. Claro que a fila estava imensamente maior que antes, mas resolveram encarar ainda assim. A despeito das crianças, que, molhadas (sim, ainda chovia, aquela garoa fininha paulista que molha até a alma), cansadas e chatinhas, queriam voltar para o hotel. Ah não! Roberto bateu pé, vamos ficar, quem está na chuva é pra se molhar, disse, tentando fazer uma graça que ninguém achou.

Só que não há planejamento que se sustente quando há crianças envolvidas e o fato é que, quando Beth, a enteada, viu o tamanho da montanha-russa, começou a chorar, dizendo que ali não ia de jeito nenhum. Resultado: a esposa foi com a amiguinha e Roberto ficou com Beth. Sem poder argumentar, com a boca inchada e doendo, ele não teve alternativa que não fazer as vontades dela e gastou quase R$ 50 em quinquilharias de 25ª qualidade.

Um almoço horrível, todos os brinquedos molhados e com fila, chuva, frio, lanchonetes caríssimas, adolescentes, herpes. O segundo dia foi ainda pior que o primeiro.

Cansados de lutar contra o clima, as filas e o destino, resolveram ir embora. Coincidentemente, com o mesmo taxista da chegada. Que teve a gentileza de informar que o parque concorrente, todo coberto e com muito mais atrações para crianças da idade da Beth e amiguinha, ficava a apenas uma hora do hotel e estava em promoção...

Como podemos ver, planejamento é tudo.

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quinta-feira, 10 de novembro de 2011

COLEÇÃO DE CHEIROS >> Fernanda Pinho




Cheiro de Sundown me lembra praia. Mas não é apenas um flash rápido na memória. É uma lembrança muito intensa. Quando eu estava na faculdade e, durante algum tempo que não durou quase nada, cismei que andaria com protetor solar na bolsa, eu abria o tubo durante a aula, fechava os olhos e podia até ouvir o ruído das ondas quebrando e dos ambulantes gritando. Alheia às teorias da comunicação, eu era transportada.

Como o cheiro do perfume Absinto me transporta às tardes de domingo da minha infância, quando eu me sentava no sofá, esperando minha mãe ficar pronta para irmos à missa. Ela sempre saía do banho com aquele cheiro, mas dizia que era perfume de adulto. Eu que me satisfizesse com as minhas colônias de moranguinho.

De acompanhar minha mãe à igreja, também passei a associar o cheiro de alecrim às procissões de Domingo de Ramos. E o cheiro enjoativo de cocada e maçã do amor à Sexta-Feira da Paixão, quando eram montadas barracas de doces na porta da igreja. Aliás, eu posso culpar um cheiro por mal conseguir prestar atenção nas missas. Era quase impossível me concentrar no que o padre dizia com aquele aroma de pipoca quase me fazendo flutuar.

Mas se eu pudesse armazenar um aroma num vidrinho e guardar pra que eu pudesse cheirar nos dias sem graça seria o cheiro de material escolar novo. Que delícia era folhear os cadernos e livros novos e deixar que o ventinho nos inebriasse de empolgação com o ano que estava começando. E tinha também o cheiro das borrachas, dos pincéis atômicos, dos lápis, do giz de cera. Aquela mistura resultava numa fragrância única e peculiar que desaparecia ao longo do ano, junto com a nossa empolgação em ir para a escola.

Mesmo quando adolescente, quando novas cheiros resolveram participar da minha vida, aquele ainda era o preferido. Não que os outros não fosse inesquecíveis. Outro dia abri um vidro do perfume Fifteen na casa da minha prima e eu tinha 15 anos outras vez, sonhava em conhecer os Titãs, ser juíza de direito e me casar aos 21. Conheci os Titãs quando eu estava na fase do perfume Ops, o resto...

E são tantos outros que, quando fecho os olhos, mais que visualizar imagens, eu sinto cheiros. O do bife queimado ou do café açucarado que me levam de volta à casa da minha avó, o de mato misturado a gasolina que me devolve às viagens de carro na infância, o de Novalgina que me lembra os dias de febre cheios de cuidados da minha mãe.

A sensação quase sempre é boa e sou muito grata à minha memória olfativa. Mesmo quando abraço alguém que usa um perfume igual a outrem e eu quase morro do coração.

Imagem: www.sxc.hu

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quarta-feira, 9 de novembro de 2011

INVENTÁRIO DO INDIZÍVEL >> Carla Dias >>

Tem gente que diz tudo de uma só vez, aos atropelos, sem ritmo ou preocupação a respeito de aonde esse dizer o levará. Como se fosse necessário expurgar os pensamentos, antes de voltar ao ponto em que se sente em paz... Nem que seja brevemente.

Sente um tanto de inveja dessas pessoas que conseguem alívio ao expor tudo o que sentem.

Para ele, o indizível é companheiro, como quando desejou, de um jeito forte de tudo, aquele presente, e não teve coragem de pedi-lo aos pais. Acabou ganhando algo muito mais pomposo de aniversário, e não conseguiu se sentir feliz, porque a felicidade ficou presa naquele toca discos antigo, capaz de acarinhar LPs como se contasse histórias, que fazia a música arranhar as paredes da mesmice.

Panfletários sempre discutem a importância de se dizer prioridades para que elas sejam respeitadas, para que tenhamos voz própria como indivíduos e membros da sociedade. Porém, ele não compreende muito bem como a necessidade de muitos pode sustentar a boa vida de tantos. A politicagem o desagrada profundamente, assim como as celebridades com a sua importância que dura o tanto que leva para comida instantânea ficar pronta.

Mas quem se importa com pensamentos jamais verbalizados?

Então, passou a botar reparo nos gestos, nas pernas e nos cabelos dela, para então ver-se apaixonado por ela inteira. O corpo doía, a saudade tola que mal aguentava chegar ao dia seguinte para vê-la sentada à mesa a sua frente, durante o horário comercial, sorrindo, enquanto ganhava a vida.

Costuma pensar nela, enquanto escuta os discos do Miles Davis, no toca discos que comprou com o primeiro salário do seu primeiro emprego.

Não se trata de timidez, de enfermidade ou promessa. Para ele, dizer é importante demais para se gastar com banalidades, então, abstêm-se de discussões existenciais que nada têm a ver com a existência, das breves críticas sobre arte que nem todos entendem ou souberam apreciar, e até mesmo das discussões com o SAC de companhias acostumadas a enrolar os clientes.

Para dizer o indizível, de um jeito que seja ouvido com a compreensão de mente aberta, prefere as cartas, as manuscritas, porque há um toque de intimidade nelas.

Desde o dia em que ela estreou no trabalho, ele já escreveu quarenta e sete cartas, uma por dia, todas repletas de coisas indizíveis. Admira-se com a facilidade dela de dizer sentimentos, bobagens, importâncias, piadas, declarações de afeto. Para ele, ela é a pessoa que melhor sabe dizer o indizível sem torná-lo desprovido de valor, sem perder o sentido dele, durante o processo.

Quando chegou a setenta e oito longas cartas, decidiu dizer o indizível, antes que sufocasse com as palavras engasgadas. Para quem nunca soube dizer, tradicionalmente, ele encontrou um jeito de fazê-lo.

Colocou as cartas em ordem cronológica e as levou para serem encadernadas, como se fosse um livro. No final da tarde, minutos antes do fim do expediente, entregou a ela o arquivo dos seus sentimentos, sem conseguir sequer sorrir, tão mexido ficou com o sorriso dela que, desta vez, era para ele. Não respondeu a pergunta dela sobre o que se tratava o livro, e foi embora em silêncio.

No dia seguinte, e no outro, no outro ainda... Em todos os dias que se seguiram, desde que entregara a ela a sua alma, a moça não mais apareceu. Comenta-se que ela se mudou da cidade. E desde então, ele vem arrastando essa tristeza espalhafatosa, que o faz resmungar quando lhe pedem mais do que está disposto a oferecer, que desperta a estranheza naqueles que, desde sempre, o achavam incapaz de expressar-se.

Sorte que Miles Davis não abandona, mas fica e toca lindamente a música que, em noites mais longas, faz-lhe companhia.

Houve o dia em que lhe perguntaram sobre o sonho da sua vida, e ele sabia que deveria responder sobre como achava estranho tentar qualificar o que ainda está acontecendo, como se já tivesse acabado e deixado saldo. Queria dizer que um sonho resumido não vale a pena ser revelado, que preferível é uma porção de sonhos, sem as amarras das expectativas vãs. Para ele, o bom gosto é o dos sonhos possíveis...

Como dizer o indizível.

Quando o viu na vitrine, não atentou para a importância dele. Queria apenas esgotar o assunto, virar a página, exorcizar os demônios. Mas quando o olhar se atreveu a atravessar a vitrine, lá estava ela, em pé no meio de tantos outros, o livro nas mãos. As tantas outras cartas que lhe escreveu, em formato Best-Seller. E quando ela o avistou e sorriu, ele soube...

O indizível, finalmente, fora desnudado.


carladias.com

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terça-feira, 8 de novembro de 2011

A CRÔNICA DO LANÇAMENTO >> Clara Braga

“A missão da crônica sobre o lançamento é sua, Clara”. Tenho quase certeza de que essas não foram as palavras exatas que o Eduardo falou ao se despedir de mim ao final do lançamento do livro ACABA NÃO, MUNDO aqui em Brasília, mas o sentido foi exatamente esse.

Na hora em que ouvi essa frase, devo confessar, ainda estava no clima de comemoração do momento e acabei nem dando muita atenção. Afinal, o que além de foi uma noite maravilhosa, com várias surpresas e da qual eu sempre vou me lembrar com muito carinho eu poderia dizer sobre o momento?

Saí dali e ainda fui continuar a comemoração com meus amigos. No dia seguinte, vendo as fotos que já estavam na internet, revivi aquele momento com gostinho de quero mais e desde então me pego pensando no que escrever a respeito daquela noite.

Posso escrever uma crônica sobre as pessoas que eu não esperava que fossem e acabaram aparecendo lá, de surpresa, e me deixaram com aquela cara besta que a gente faz quando vê alguém que a gente gosta muito, mas que não estava esperando encontrar naquele momento. Ou posso escrever sobre as pessoas que sempre estão acompanhando o Crônica do Dia, e mais uma vez marcaram sua presença.

Posso escrever também sobre a vergonha que passei quando o Eduardo disse que eu faria um discurso, só porque eu escrevi antes uma crônica falando do meu medo de falar em público. Todos os meus amigos começaram a chamar meu nome para que eu falasse, e eu travei tão feio que não conseguia nem dizer que não ia falar.

Ou então meu medo de escrever errado todas as dedicatórias, principalmente a da Dad Squarisi, que me deu um curso de pontuação na faculdade e na hora me bateu um branco que eu não sabia nem onde colocar as vírgulas. Ou sobre a pressão que as pessoas fazem quando a gente vai começar a escrever a dedicatória, todos querem uma dedicatória personalizada e, no final das contas, a gente já nem tem mais tanta imaginação. Ou até sobre a minha caneta que falhou na primeira dedicatória que eu fui escrever, que inclusive era a do Eduardo.

Ufa, é tanta coisa que eu poderia escrever que de fato eu cheguei à conclusão de que é muito difícil escrever uma crônica sobre o lançamento, mas não por falta do que eu poderia escrever e sim porque cada um desses tópicos que eu citei aqui dariam um novo livro e não só uma boa crônica. Por isso pessoal, vou ficar devendo a crônica sobre o lançamento.

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segunda-feira, 7 de novembro de 2011

LETRAS E DEVANEIOS
>> Albir José Inácio da Silva

Pergunta recorrente que nunca consegui responder nem pra mim mesmo. Quando comecei a escrever? De onde vêm as palavras que me dão as mãos para celebrar idéias e contar histórias?

Procurei nas aulas primeiras, no tremor do lápis que juntava letras em sílabas e sílabas em palavras. Palavras copiadas, mas não sentidas; frases repetidas, mas não imaginadas. Não, não estava aí o meu texto.

Não estava no sofrimento das redações a serem corrigidas por alguém que encontraria muitos erros. Nem quando parei de sofrer e até gostei de colocar no papel algumas sequências de palavras.

Depois me vi recebendo elogios por composições bem elaboradas e fiquei satisfeito com os resultados. Mas suspeito que gostava dos elogios, não de escrever. Embora festivo, esse momento também não serve de começo.

Nos trabalhos acadêmicos usei o método, a precisão e a feiúra, mas a minha escrita ainda não estava lá.

Finalmente chego num tempo em que já escrevo. Tudo começa num devaneio, às vezes involuntário, mas que pode ser provocado. Segue-se um estado de graça, um momento de excitação confusa, e a necessidade de organizar pensamentos que se atropelam e exigem cuidados, sob pena de angústia, até que estejam pacificados no papel.

Só então me lembro que os devaneios começaram bem antes. Ainda não conhecia as letras nem as sílabas. Só sabia das palavras – poucas mas boas – que se juntavam pra formar histórias. Histórias tão queridas mas que não bastavam, e eu ficava imaginando possíveis mudanças. Estava ali a minha escrita. No espanto dos adultos com aquela obstinação em alterar destinos antes sempre repetidos com fidelidade.

- Assim já fica outra história – diziam.

Sim, eram outras, mas eram histórias. Lá estavam os meus textos muito antes de serem escritos. Muito antes de eu saber que os poderia escrever.

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domingo, 6 de novembro de 2011

DESEJOS BUROCRÁTICOS
>> Eduardo Loureiro Jr.

— Pois não, senhor, em que posso atendê-lo?

— Preciso de uma autorização.

— Pode falar.

— Aliás, uma não, várias.

— Aí complica.

— Tenho direito a quantas autorizações?

— Depende... o que o senhor deseja?

— Pequenas coisas sem importância.

— Costumam ser as mais difíceis.

— Mas têm muita importância pra mim.

— Não tenho o dia todo, senhor...

— Claro, claro, desculpe. Eu gostaria de ser feliz.

— Isso é o que o senhor chama de coisa sem importância?

— Felicidadezinha boba, pequenos prazeres...

— Só posso ajudar quando souber do que se trata.

— Posso tirar meleca do nariz?

— Aqui?

— Aqui, acolá, em qualquer lugar. E a qualquer hora. Quero uma autorização permanente.

— E o senhor já não faz isso?

— Tenho vergonha.

— E é pra ter mesmo.

— Mas eu gosto...

— Não é necessária autorização para isso.

— Mas eu preciso...

— Que mais o senhor deseja?

— Andar de pés descalços.

— Aqui não pode.

— Na praia. O dia todo. Sem trabalhar nem um minutinho sequer.

— Nessa cidade não tem praia, senhor.

— Eu sei. Mas eu...

— Se o senhor não tiver mais nada para pedir, eu preciso atender o próximo da fila. Aliás, a próxima...

— Quero olhar mulher bonita.

— É só se virar nesse instantinho mesmo.

— Olhar pra sempre, cada vez que eu quiser...

— Pede a mulher em casamento.

— Não posso pedir mais de uma mulher em casamento.

— Olhar não tira pedaço nem carece de autorização.

— Quero olhar com calma, devagar, sem pressa, sem ser acusado de traidor ou de tarado. Olhar assim pra mulher feito quem olha para uma escultura no museu.

— O senhor está brincando comigo?

— Por falar nisso, também gostaria de uma autorização para brincar.

— O senhor pensa que eu não tenho mais o que fazer.

— Desculpe, moço. Eu deveria ter começado direito...

— Última chance!

— Tenho uma dúvida.

— Sim...

— Eu preciso de uma autorização específica para pedir outras autorizações?

— O que eu sei é que eu não preciso de autorização para chamar os seguranças.

— Os seguranças, não! Por favor, não!

— Tá com medo, é?

— Sempre.

— Ok, meu amigo. Você me diz onde é que está a câmera, vocês me pagam pela pegadinha, eu assino a autorização e todos saímos ganhando.

— Qual autorização você assina?

— A que você quiser.

— Pode ser uma autorização em branco?

— Posso fazer melhor. Deixe seu e-mail que mando um modelo com firma eletronicamente reconhecida e espaço em branco para  você preencher e imprimir quando quiser.

— Jura?

— Pegar ou largar.

— Você me dá uma autorização para pegar?

— Autorização dada.

— Preciso por escrito.

— Um momento... Aqui...

— Ah, obrigado, então eu... Opa, mas eu não pedi autorização para isso aqui.

— É tudo que eu tô podendo autorizar no momento.

— Posso mesmo?

— Vá fundo.

— Minha mulher vai reclamar.

— Mulher sempre reclama.

— Ela vai ficar furiosa.

— É só mostrar essa autorização.

— E a autorização para pegar a sua oferta de uma autorização genérica?

— O senhor pode usar essa mesma que acabei de lhe dar.

— Mas essa só me autoriza a eu me...

— É só você tirar cópia e entregar para as pessoas das quais o senhor tem vergonha.

— Mas aí elas vão se...

— A ideia é essa.

— Parece arriscada.

— Funciona.

— Se não funcionar, eu volto aqui.

— Se funcionar, volte também. Quero saber dos detalhes.

— Combinado.

— Passe bem.

— Obrigado. Até breve.

— Tchau. Próximo...



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sábado, 5 de novembro de 2011

DAS APARÊNCIAS QUE ENGANAM
[Debora Bottcher]

Na semana passada, aqui no condomínio onde moro, teve uma festa de Halloween. Originariamente para as crianças, muitas mães se vestiram a caráter para acompanhar seus pequenos, o que fez o salão de festas ficar repleto de bruxas, fantasmas e afins de todos os tamanhos e modelos.

Num cenário com tules laranja, roxo e preto, abóboras penduradas no teto, músicas de várias épocas, doces e cachorro-quente, a noite foi muito divertida. E dentre os muitos 'personagens', uma moça-mãe me chamou a atenção: ela dançava com seus filhos — uma mini-Mortícia e um Fantasminha muito legal — e com as muitas outras crianças numa felicidade quase infantil. Vez ou outra também enlaçava o marido — vestido como um mortal comum, de jeans e camiseta — , o sorriso aberto num rosto emoldurado por um enome chapéu de bruxa, transmitindo uma alegria contagiante — fosse um evento adulto e ela seria a 'Garota da Festa'.

Num condomínio fechado de setenta casas pode parecer incrível, mas a gente não conhece todo mundo, quase nunca sabe o número da casa das pessoas que encontra com mais frequência e, na maioria das vezes, nem seus nomes. É possível que quem tenha filhos consiga estabelecer alguma proximidade — o que não é o meu caso, pois só tenho cachorros. E pra ilustrar isso, demonstro: converso mais pelo Facebook com minha vizinha de muro do que pessoalmente, pois raramente conseguimos nos encontrar. Coisas da vida moderna mesmo numa cidade pequena (que é onde moro atualmente) — ou numa pequena cidade, como é um condomínio.

Mas quis a casualidade que eu reencontrasse a 'Garota da Festa' na manhã de quarta-feira, enquanto eu passeava com minhas cachorras e ela se dirigia a pé ao pequeno Centro Comercial aqui em frente, e o impacto disso foi difícil mensurar. É que quando a cumprimentei com o clássico "Bom dia, tudo bem?', tive a impressão de que ela ia chorar. Naturalmente que isso não aconteceu — ela me deu 'Bom dia' e seguiu caminhando rumo à portaria. E eu me peguei por alguns minutos acompanhando-a com meu olhar sob suas costas, seu passo vagaroso numa postura cansada, tentado associar essa mulher àquela figura feliz e dançante do sábado. Não havia nela nenhum vestígio de alegria; ao invés disso, um olhar opaco, abatido e com olheiras, o cabelo levemente despenteado — daquele jeito que delata que não foi o vento o causador. A 'Bruxa' alegre e faceira, havia dado lugar a uma moça totalmente desprovida de qualquer energia.

Então eu fiquei pensando sobre a velha lei das aparências que enganam, e constatei que essa é uma patente da vida que sempre nos ronda. Quase nada, efetivamente, é o que parece ser. Ou talvez tudo seja tão efêmero e mutante — impossível de se manter com alguma regularidade. A impermanência de tudo fica tão latente que chega a assustar — principalmente quando a gente se depara com ela de um jeito tão surpreendente: num espaço tão curto de tempo, dá de cara com o véu revelando uma face que parecera encantada e é pura desilusão.

Uma curiosa tristeza me invadiu naquele dia, e me peguei desejando que a 'Garota da Festa' pudesse resgatar a moça de olhos tristes daquela manhã, mantendo-a prisioneira numa felicidade interminável, como a da noite de Halloween. Mas temo que isso não tenha acontecido.

É a vida seguindo seu curso com a faculdade de quase nunca ser do jeito que a gente gostaria...

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sexta-feira, 4 de novembro de 2011

OS TEXTOS E SEUS CAMINHOS
>> Maurício Cintrão

O texto não é dos melhores, mas continua sendo lido e apreciado pelos leitores. Então, fica aquela clássica pergunta: o que faz o autor além de atender à expectativa alheia? Somos barqueiros, taxistas, condutores de letras; operários na grande odisséia de construir a alegoria da cultura. E nossas obras só existirão, de fato, se os leitores as aceitarem.

Certa vez, nos idos dos anos 1980, eu estudei no EBART, um misto de ateliê e curso de artes mantido pelos irmãos Zélio e Ziraldo Alves Pinto. Ficava ali no Pacaembu, pertinho do estádio de futebol. O Ziraldo era presença eventual. Quem estava lá o tempo todo era o Zélio, um professor de mão cheia, meio mestre filosófico, meio exemplo prá todos nós.

Pois bem, um dia, ao explicar os mistérios da “construção” do desenho de uma prosaica cadeira (que é difícil de desenhar, aliás), Zélio disse mais ou menos o seguinte: o que vemos é um rabisco; o que transforma o rabisco em uma cadeira é o acordo entre artista e espectador, que empresta ao desenho a condição de cadeira.

Escrever também é isso (e aí voltamos ao começo do texto). A peça escrita, quem sabe literária, não precisa ser magnífica aos olhos de qualquer um. Mas tem que fazer sentido para quem lê. O lirismo, meus amigos, não é intrínseco ao texto. Ele está nos olhos marejados do leitor. É feito piada que não precisa de explicação. Seu sucesso não está na ação, mas na reação.

Assim, se um texto continua sendo lido, é porque ainda opera conexões por aí. Quem bom! Vai sobreviver às minhas manias e limitações. Alçou vôo próprio, vai por aí. Para quem lançou o escrito aos céus é alegria e tristeza. Pois os textos são filhos que conquistam vida própria ou se acabam por si mesmos. Pouco podemos fazer para mantê-los na segurança (e na vidinha limitada) de nossas casas.

Se você escreve, talvez concorde comigo. Se não concordar, manifeste a discordância. O fato é que já tentei cancelar a publicação de textos que pareceram, a uma segunda leitura, fora de propósito ou desconectados da realidade.  É evidente que não consegui impedir sua publicação. E convivi com a dúvida até ouvir os comentários.

Na maioria das vezes, era reflexo do meu medo em soltar os textos. Como ainda é com os filhos.

Textos e filhos seguem seus próprios caminhos; autores nem sempre.




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