segunda-feira, 31 de outubro de 2011

COISAS DE QUE DESISTI >> Kika Coutinho

Está decretado, desisti de fazer a unha toda semana. Com duas crianças pequenas, algumas vaidades tornam-se luxos impossíveis de serem mantidos. Adeus, unhas lindas. Se conseguir mantê-las quinzenalmente, estará de bom tamanho. Também desisti de ser diretora de empresa, sócia ou qualquer coisa assim. Desisti. Desisti de pular de pára-quedas. Também desisti de asa delta e similares.

Desisti de experimentar um porre. Não ia ser mal, mas desisti. Desisti de filas de baladas. Gente, eu fiz isso? Fiquei em filas gigantes, paguei caro, pra entrar em lugares escuros cheirando a cigarros? E ninguém me deu uma paulada na cabeça, pra me mostrar que eu tava louca? Bando de covardes, esses meus amigos. Viram cada coisa e não me tiraram do surto...

Desisti de shows lotados, de pousadas mixurucas e de mochila nas costas. Desculpe, soa um pouco arrogante, mas desisti de hotéis péssimos. Que eu fique no conforto da minha casa, mas banheiro compartilhado em camping, gente, não dá mais, passou, datou, chegou — pronto, falei.

Desisti de mini-saia, de esmalte azul, de batom roxo e de cabelo ruivo. Vai ficar pra outra vida, quem sabe. Nessa, não vai dar. Que me desculpem as modernetes, mas 30 e tantos, são 30 e tantos oras, eu tenho algum respeito por ter nascido ainda nos anos 70, né? Ok, bem no finalzinho, que fique registrado.

Para a outra vida também vou deixar coisas que nem mesmo desejei nesta: morrer virgem de drogas pesadas (das leves também, excetuando-se um ou outro traste que namorei na adolescência), e pular numa rave ou nesses shows em que vai todo mundo de branco, de preto, sei lá, coisa mais chata de se ver — espero que me liberem dessas também na próxima vida, se ela existir.

E desisti de salvar as crianças pobres da África. Não que elas não me importem mais. Aliás, importam mais do que nunca agora que tenho filhos, mas abri mão de uma mochila nas costas e uma cabana na Etiópia. Minha missão é outra, ainda que não abandone a generosidade, me satisfaço que ela venha em gotas, e em situações veladas. Não preciso mais provar nada pra ninguém.

Para quando eu nascer de novo também deixo a experiência de ser gay, emo, ou punk. Nessa, o plano é morrer como vivi: normal, normalzinha. Tão normal que pode até dar enjôo, eu sei. Mas não há de ser nada: Toma Plazil que passa.

Que liberdade fresca é essa que a vida só nos traz depois dos 30? Que delícia não se importar com a moda, não precisar apertar os pés em sandálias horrorosas, nem pensar mil vezes, antes de falar, só para ser agradável. Que delícia ser um pouco desagradável, só as vezes, sem nem perceber, sem querer agredir ninguém, até porque não é necessário agradar nem desagradar, só é necessário ser. Por que nunca ninguém me disse isso? Um bando de covarde esses meus amigos, vou te contar...


www.embuchada.blogspot.com


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domingo, 30 de outubro de 2011

DIÁRIO DO NASCIMENTO >> Whisner Fraga


O parto estava marcado para seis de setembro. Ativistas e parentes condenaram, mas ninguém tinha uma opinião muito fundamentada a respeito do assunto e, além do mais, Helena ainda não havia se virado, para que pudesse escapar do útero, mundo afora. Depois, não sejamos hipócritas, a comodidade de uma cesariana nos tentava de uma maneira praticamente irresistível. Como eu sei que essas coisas quem decide é a mulher, assumi meu papel de bom ouvinte. Quando requisitado, repetia o mantra: você está certa, você tem meu apoio, é melhor assim etc.. Deu tão certo que a gravidez não atravessou muitas turbulências.

No dia cinco de setembro, bebi algumas latinhas de cerveja, pois estava razoavelmente ansioso e precisava relaxar. É eu sei, usar o álcool para relaxar, tsc, tsc, tsc. Eu uso, fazer o quê? Mas a minha ansiedade, eu acho que era retroativa, acumulada. As pessoas tinham dado tanto palpite a respeito de tudo, que eu me sentia um pouco zonzo. No carro, uma toalha tinha um lugar fixo no banco traseiro, porque alguém havia alertado que a bolsa poderia estourar a qualquer momento e seria água para todo lado. Nossa obrigação era evitar essa vergonha. O celular, um objeto que eu ignorava solenemente, passou a ter as teclas e o visor apalpados paranoicamente, pois Ana poderia me telefonar a qualquer momento dizendo que Helena estava prestes a chegar à luz. A anestesia que Ana receberia no dia seguinte era motivo de pesadelos recorrentes: peridural ou raquidiana? A medida do crânio, no último ultrassom, estava correta? Ela tinha mesmo os dois bracinhos? Todos os dedos estavam lá, tem certeza? O coração batia, você viu? O pulmão já estava formado?

Devo confessar que dormi muito bem, obrigado. A cesariana estava marcada para as dez e meia da manhã, mas o médico pediu que chegássemos às seis. Ok, chegamos, tudo é festa mesmo. Nove horas e já estávamos instalados no quarto, Ana com o camisolão verde, deitada numa cama, aguardando. O parto seria a qualquer momento. Dez horas e até que nos saíamos bem, tentando conter a ansiedade. Onze horas e eu pensei que já poderiam ter dado alguma notícia, enviado alguma enfermeira, sei lá. Onze e meia e finalmente aparece um funcionário do hospital. Subimos até a sala de cirurgia, me alertam que irão preparar Ana, que eu espere. Meio-dia e meia me chamam para três minutos de uma cena que, honestamente, a despeito do que todos afirmavam, não mudou drasticamente a minha visão a respeito das coisas. De repente, no meio do sangue e de outros líquidos, surge Helena. Ela é levantada pelos pés, chora, o anestesiologista faz uma piadinha de praxe, o pediatra aproveita a deixa e solta a sua também e pronto: sou pai.

Eu sabia que a coisa dali para frente seria cansativa: devia esperar Ana sair da anestesia, devia esperar darem o primeiro banho em Helena - a portas fechadas, evidentemente. Acredito que o verdadeiro paciente devia ser eu naquele instante. Fiz o que era esperado de mim, então: aguardei. Enquanto mastigava uma brachola mal cozida, veio-me uma inspiração. Eu devia sair dali naquele momento, ir o mais rápido possível a uma papelaria e comprar um caderno e uma caneta. Escreveria o diário de Helena, o diário do nascimento. Seria esse o meu presente a ela, o meu jeito de dizer à minha filha que eu não ficaria indiferente àquele momento. Não, não era somente isso, me perdoem. Quem eu quero enganar? Eu simplesmente ponderei que, daqui a quinze anos, Helena possa querer ter uma ideia do que foi de fato o seu nascimento, o que aconteceu, com todos os detalhes daquele seis de setembro. E raciocinei que se deixasse para escrever depois, se deixasse para relatar o acontecido dali a um mês ou a um ano, algo poderia se perder. Na verdade, os detalhes seriam substituídos por variantes, ao longo do tempo. O geral, o grosso da história ficaria. Como, por exemplo, eu contar que Helena dormiu conosco, em nosso quarto, em seu primeiro dia de vida. Isso não vai mudar jamais, o fato será sempre esse e assim seria narrado, mesmo se eu não tivesse registrado no diário. Mas será que eu me lembraria que dormi em um sofá duro e que, a certa altura da noite quase morri de susto porque uma enfermeira entrou no quarto sem pedir permissão? Ou então que requisitei que um técnico fosse ao nosso quarto configurar a rede wireless do notebook e que ninguém apareceu e eu não tinha como enviar a foto da pequerrucha para ninguém? Na dúvida, decidi escrever.

Sei que daqui a quinze anos esse diário vai ser um presente bobo para Helena. Haverá um tênis ou algum aparelho eletrônico que ela vai desejar muito mais. Daí eu concluo que fiz o relato do parto e dos primeiros dias de Helena para mim e para Ana, para que não nos esquecêssemos daquele dia, para que digeríssemos a experiência da paternidade e da maternidade. Mesmo assim, espero que minha filha reconheça naquelas palavras a grandiosidade da vida e do amor.



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sábado, 29 de outubro de 2011

A LIBERDADE DA VELHICE [Debora Bottcher]

As pessoas mais velhas atestam que envelhecer é bastante complicado. Eu acho que é mesmo, mas também penso que se não há muitas vantagens, as que se tem podem ser infinitamente boas.

Primeiro, é preciso considerar que a outra opção a envelhecer é morrer jovem. Isso, por si só, já é um enorme argumento - eu acho que o meu pai, por exemplo, preferia estar enfrentando os embates de seus 65 anos a ter morrido aos 51. Minha percepção...

Depois, envelhecer te dá uma certa autonomia - não digo financeira, que essa é uma das complicações da idade, já que tudo fica mais caro (remédios, planos de saúde, dietas), e as pessoas, com poucas exceções e por razões diferentes, têm seus recursos diminuídos.

Mas a autonomia de que falo é aquela de não ter mais que se explicar. Na juventude, exceto os impulsos desmedidos e eventuais e as loucuras por paixões desatinadas, tudo é ponderado em cima do custo-benefício. As decisões que tomamos têm base no que queremos (ou achamos que) para o futuro. E sempre temos que argumentar - para nós ou para pais e amigos - o porque dessa ou daquela escolha.

Na velhice, não. Você pode querer um iPad de última geração e se alguém te perguntar para que - já que você tem computador em casa -, dizendo que você não trabalha mais, sai pouco e isso não lhe teria 'real' utilidade, você pode responder apenas 'porque eu quero'. Oras bolas! Quem foi que instituiu a 'real' utilidade das coisas? Na velhice, você pode ter um iPad para responder seus emails, navegar pelo Facebook e jogar bingo virtual nas três horas que têm de enfrentar entre um exame e outro, entre procedimentos diferentes, na sala de espera de exames. Por que não?

Na velhice você também pode se casar de novo e quantas vezes quiser. Conheço um senhor, mais jovem do que muitos jovens, que aos oitenta e cinco anos está no terceiro casamento - depois de ter sido casado quase sessenta com a primeira esposa. Mas no mesmo ano em que a perdeu, casou-se novamente com uma antiga namorada que reencontrou por acaso, também viúva. E quando a fatalidade, dois anos depois, também lhe ceifou esse que parecia ser seu 'romance de inverno', ele não se fez de rogado: chorou alguns meses, sacudiu a dor e foi à luta: casou-se com uma velha amiga da filha. E quando os filhos questionaram, ele respondeu: "Por que não? Porque tenho que ficar sozinho?" E quando argumentaram que ele não guardava nem o tempo do luto, retrucou: "Mas na minha idade não posso me dar a esse luxo! Quanto tempo me resta para ser feliz e desfrutar a vida?" Pois é... Com todo respeito às senhorinhas-adoráveis-esposas que partiram, sou obrigada a lhe dar razão... E como dizia meu pai, "viúvo é quem morre!"

Na velhice, salvo se sua saúde estiver muito debilitada, você pode morar onde quer. Na juventude, primeiro você mora onde pode; depois, com filhos e afins, onde precisa; finalmente, você pode morar onde quer. E isso significa, por exemplo, a despeito da opinião alheia, continuar morando naquela casa grande (caso da minha mãe, por exemplo), com quartos que você raramente usa e espaço para uma família que visita apenas ocasionalmente. Mas quem foi que colocou como regra que quando a gente envelhece tem que morar numa kitnet? A antiga casa tem uma vida inteira encerrada nas paredes. Na velhice, as pessoas não querem abandonar esses 'livros' esculpidos nas memórias de suas salas e jardins, outrora cheios de pessoas queridas...

Na velhice, você pode andar meio desleixado, desatento, ser extravagante. Você pode dormir até tarde, sentar-se na varanda sem pressa, esquecer...

Na velhice, não importam mais os erros cometidos (não dá mais pra consertar o passado), os julgamentos, os questionamentos. Não é preciso mais explicar, nem entender - os jovens é que têm que compreender que os velhinhos querem poder ficar onde eles querem, onde precisam, onde sentem-se bem, com os objetos, pessoas, desejos que eles ainda podem escolher.

Porque, na velhice, estamos livres!

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sexta-feira, 28 de outubro de 2011

DOIS LADOS DE UMA PORTA >> Zoraya Cesar

Parte I – o lado de fora

Ele chegou decidido a contar toda a verdade. Passara o dia inteiro preparando um discurso comovente, que gostava muito, muitíssimo dela, mas estava insatisfeito; não sentia mais desejo, apenas amizade. E que, depois de oito anos de casamento, poderiam se separar como amigos, civilizadamente.

Reconhecia que andara distante, mas a culpa era dela, que não suportava os amigos dele, que não o acompanhava no vôlei de praia, que teve um ataque histérico quando ele não reparou nas novas mechas louras do cabelo. Mechas! Quem reparava em mechas!? E o aborrecia com essa mania de querer viajar (mas, como? E deixar a amante sozinha? Que insistência irritante!), que teimava em tentar “discutir a relação” em vez de deixá-lo ler o jornal em paz...

Enquanto aguardava o elevador, foi se sentindo mais e mais tranqüilo. Afinal, o que podia fazer? Era homem, e a namorada lhe proporcionava prazeres dos quais sentia falta. A emoção do encontro às escondidas, a cumplicidade dos amigos, as fantasias sexuais, tudo o excitava, sentia-se vivo. Ainda mais que ela sempre dizia quanto o achava incrível, másculo, inteligente, não cansava de elogiá-lo, dizia sentir falta dele, queria-o só para si, todas essas coisas que os machos gostam de ouvir de uma mulher. Por isso resolveu sair de casa para morar com ela.

À medida que o elevador subia, resolveu que era melhor não contar toda a verdade coisa nenhuma. Para quê? Detestava escândalos e os vizinhos iriam ouvir tudo, pois certamente haveria gritos, choro e ranger de dentes. Pior, ao final, ela imploraria que largasse a amante, se jogaria a seus pés, agarraria suas pernas, num espetáculo constrangedor. Coitada! Que soubesse do caso por outras vias, quando já estivesse distante e seguro na casa da nova mulher. Bem nova, aliás.

Abriu a porta do elevador e concluiu que seria muito radical sair de casa, tantos anos de casamento, talvez fosse melhor continuar tudo como estava.

Era sempre assim: chegava ao prédio disposto a contar tudo, subia o elevador disposto a contar só meia verdade e parava no corredor disposto a deixar para outra vez. Afinal, por que abandonar tudo? Sua televisão, suas coisas, passar por advogados, papeis, separação, divisão de bens, divisão de amigos, divisão de corpos, ficar apertado na casa da amante, como iria explicar para sua mãe que estava largando um casamento de oito anos? E se não desse certo e ele quisesse voltar para casa? Para onde voltaria?

Melhor pensar com mais calma.

Ao virar o corredor, congelou, incrédulo: suas malas, alguns livros, outras coisas, tudo arrumado do lado de fora da porta. E, gritando num envelope vermelho, pregado na televisão, o que parecia ser um aviso.

Parte II – O lado de dentro

Primeiro ela chorou, chorou, chorou. Depois tentou reconquistá-lo. Tentou entender onde tinha errado. Tentou passar por cima e perdoar. Tentou seduzi-lo. Tentou conversar.

Pintou as unhas com as cores que sabia serem as usadas pela amante, cortou e fez mechas nos cabelos iguaizinhas às dela também, ainda deu diversos sinais de que sabia de tudo, esperando que ele fosse homem o suficiente para confessar e tentar salvar o casamento.

Quando cansou de tudo, de tanto bater e só encontrar portas e janelas fechadas, de invadir e só encontrar uma casa vazia, desistiu. Desistiu de tentar participar, de tentar agradá-lo e de tentar entender. Deprimida, deixou de fazer as coisas que sempre detestara e só fazia porque o amava: acompanhá-lo à praia para vê-lo se exibir no vôlei, de encontrar os amigos dele para aquelas conversas vazias e sem sentido, de chamá-lo para viajarem juntos, quando ele só queria passar o fim de semana em frente à televisão de LCD 40 polegadas... Enfim, desistiu.

Um dia, sentou, já desidratada e magra, e pensou na vida. Estava casada com um homem mentiroso que arranjara uma outra qualquer - todos os amigos dele sabiam, os safados -, que não reparava mais nela, que não tinha qualquer interesse em manter a relação, que mal trocava palavras corriqueiras, estava sempre irritadiço e só transava com ela quando chegava impaciente em casa, num sinal evidente de que não pudera encontrar a amante e precisava se livrar do acúmulo de esperma e energia que ficaram presos em seu corpo.

Foi nesse momento - quando finalmente percebeu que não passava de uma válvula de escape – que resolveu agir, como só as mulheres sabem fazer. Contratou detetive, fundamentando a separação, cortou todos os supérfluos, sabendo que seu padrão de vida iria diminuir, consultou advogado, preparou-se para a dor que iria sentir depois de tudo terminado.

Ainda gostava dele? Sim, muito. Seria fácil viver apenas com seu salário, dormir sozinha, mudar radicalmente o cotidiano ao qual se acostumara por oito anos?  Ser abandonada por algumas amigas - que passariam a vê-la como rival em potencial? Não. Nada ia ser fácil. Ao contrário, tudo ia ser muito difícil. Mas não tão doloroso quanto se olhar no espelho e se sentir velha, feia, acovardada e traída e não fazer nada.

Assim, numa quarta-feira, chamou o chaveiro, trocou a chave da porta e dedicou-se à deliciosa tarefa de fazer as malas do cretino, colocando-as no corredor bem arrumadinhas, junto com a maldita televisão.

Depois de tudo pronto, escreveu poucas linhas num papel usado, revelando saber de tudo, e que ficaria com o apartamento. Que ele não a aborrecesse com mesquinharias nem tentativas de reaproximação ou mostraria tudo à mãe dele. Anexou uma foto comprometedora, para não deixar dúvidas.

Terminou dizendo para ele se preparar para pagar a terapia dela, pois estava muito traumatizada com aquilo tudo, e uma boa pensão. Colocou o papel dentro de um envelope vermelho. E assinou com o nome e o telefone do advogado.


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quinta-feira, 27 de outubro de 2011

INVEJA DE MIM >> Fernanda Pinho

"Esse primeiro palpitar da seiva, essa revelação da consciência a si própria, nunca mais me esqueceu, nem achei que lhe fosse comparável qualquer outra sensação da mesma espécie. Naturalmente por ser minha. Naturalmente por ser a primeira". [Dom Casmurro]

No primeiro dia de aula de alguma série do primário, notei que o Diego não estava mais na minha sala. E o pior: ele sequer continuava no colégio. Desolação total. Qual seria minha motivação para as aulas de Educação Física? Para quem eu iria me produzir? Quem eu iria ficar encarando quando estivéssemos em círculo para a aula de religião? O nome de quem eu escreveria no meu caderno? O do Diego, é claro. Se era para resolver a questão, resolvi de forma prática. Quando a professora fez a chamada e eu notei que havia um novo Diego na sala, decidi. "Tudo bem, vou gostar desse aí agora". Porque no fim, o que me interessa não eram os Diegos (nem os Brunos, Pedros e Tiagos), mas a sensação que eles despertavam.

Hoje em dia não há nada na minha vida que me lembre, nem de longe, essa sensação. Mas a recuperei em minha memória ao ler o livro "Minha Vida Fora de Série", da Paula Pimenta (essa mesma, que escrevia aqui no blog). O livro fala sobre o cotidiano de uma menina de 13 anos que, em determinado ponto da história, traça uma verdadeira tática de guerra para conseguir fazer um trabalho em dupla com o menino por quem ela é apaixonada. Tudo para que ela tenha a chance de encostar seu braço no dele. Encostar o braço no dele. Só isso.

Porque esses amores adolescentes são assim. Intensos porque qualquer toque acidental já é o auge daquele relacionamento. Efêmeros e fugazes porque se o amado já não lhe parece tão bonito, é só eleger outro. Desde que o outro te provoque as mesmas sensações. E é tão fácil que isso aconteça. Fácil porque quando somos adolescentes, estamos no auge da nossa sabedoria, e não caímos nessa burrice adulta de esperar muita coisa do outro.

Não é preciso ligar nem mandar flores no dia seguinte ao esbarrão. Não é preciso se falar todos os dias. Não é preciso saber a data do aniversário um do outro. Não é preciso nem ir ao aniversário um do outro. Não é preciso se ver no fim de semana (Pra quê? Se tem a escola todo dia). Não é preciso fazer planos para o futuro (no máximo criar uma estratégia para descobrir o nome completo do outro). Não é preciso envolver a família. Não é preciso investimento emocional nem financeiro. Só é preciso existir.  E quando, ao ler o livro da Paula, eu me lembrei que amar é assim, quase morri de inveja da minha versão de 15 anos atrás.  

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quarta-feira, 26 de outubro de 2011

VEM CÁ, LUIZA... >> Carla Dias >>

São recorrentes os comentários de amigas, primas e irmãs sobre como elas se assombram com os seus filhos. É um assombro que não assombra, assombra e que não mete medo de medo, medo, mas medo de quem não tem a menor ideia de aonde o que o assombra levará o seu pimpolho.

Anteontem, uma amiga me contou sobre a decisão de sua filha em começar a escrever um livro. Ciente de que as mães tendem a puxar a sardinha para as crias das suas crias, e de que ela estava toda encantada com isso, minha amiga perguntou se eu leria o que a filha começou a escrever e diria o que achava. Na minha cabeça, a minha amiga estava tão feliz com a iniciativa da filha que queria ter certeza de que não estava exagerando.

Minha amiga disse que me encaminharia a mensagem de e-mail na qual a filha mandou o arquivo com suas primeiras 4 páginas + o título do próximo capítulo, porque eu precisava começar a leitura a partir desta mensagem. Ao recebê-la, percebi por quê.

Eu sei que ando abusando do uso da palavra “fofo”, principalmente porque ela nunca fez parte do meu vocabulário, até ultimamente. Mas o que dizer ao ler uma mensagem como a da filha da minha amiga? Fofa! Ela começa assumindo que há erros, então pede à mãe que os corrija. Depois informa – fofamente - que a história é contada na primeira pessoa! Ainda deixa bem claro, com um belo, “olha lá viu” que a mãe não deve fazer correções que alterem os “fatos que estão legais”.

O que há de bacana em uma criança de nove anos de idade que começa a escrever uma história, é que ela se importa muito em deixar bem claro como ela sente suas histórias. A Luiza, logo na dedicatória, encantou-me profundamente, porque é a primeira vez que vejo uma dedicatória aos pesadelos do autor, à sua imaginação, e somente então, aos que o aconselharam a seguir nessa jornada.

Meu sobrinho, Lucas, hoje com dezessete anos, escreveu um conto, quando era menino de tudo, e a partir dali compreendi a beleza do olhar literário de uma criança. Ele construiu uma história sobre a vida dos eletrodomésticos, especialmente a geladeira. Começava assim: “à noite, quando as pessoas dormem, acontece uma maravilha: os eletrodomésticos acordam e começa a festa.”

Para a mãe da Luiza, a Silvia, só posso dizer, e sem exageros, que a fofa da filha dela é muito talentosa. Eu estou na fila para ler o próximo capítulo do livro!

Não vou contar sobre o que se trata o livro da Luiza, porque, tenho certeza, muitos de vocês ainda o comprarão para ler para os seus filhos. Mas adianto que a autora é inspirada, e que é uma história de mistério, sobre um menino que se levanta para beber água, todos os dias, à uma da madrugada, porque ele faz isso “toda noite uma da manhã em ponto literalmente em ponto nem depois nem antes”.

Entendido?

carladias.com



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terça-feira, 25 de outubro de 2011

FORA DE ÓRBITA >> Clara Braga

Outro dia me peguei pensando em uma dessas besteiras que a gente pensa só para descansar a mente. Não é nada que vá acrescentar na minha vida e talvez não acrescente também na de ninguém que está lendo essa crônica, mas acredito que a mente precisa dessas paradas para pensar em nada e dar conta de todo o resto.

Estava me questionando o seguinte: será que eu posso dizer que os nomes têm idade?

Pois é, estranho assim! Mas em algum ponto fez muito sentido para mim, afinal alguém conhece algum recém-nascido chamado Nilson? Wanderléia? Aníbal? E alguém já ouviu falar de alguma idosa chamada Alice? Carolina? É claro que existe, eu sei que, se procurar, eu vou achar, mas me parece tão incomum.

É claro, também, que eu sei que todo Nilson que é idoso um dia foi criança e todo bebê chamado Alice sabe que um dia será idosa, mas eu não consigo me imaginar bem velhinha tendo uma amiga Carolina e também não lembro de nenhum colega de escola chamado Aníbal.

Acho que no final das contas não é que nome tenha idade, nome tem épocas, assim como as roupas. Tem épocas em que certos nomes são muito comuns, em outras já nem tanto, e alguns nomes já parecem ser atemporais. Atire a primeira pedra quem nunca conheceu uma Ana, um Gabriel, um João!

E continuando a comparação com roupas, nome também é um pouquinho de moda. É que nem aquela roupa que aparece na novela e daqui a pouco todo mundo tem. É só aparecer uma protagonista legal, com um nome diferente, que todas as crianças nascidas naquele período têm o mesmo nome.

Será que se colocarem na próxima novela uma protagonista com uma história muito boa com o nome de Epifânia, apelido Fanoca, nome da minha bisavó por parte de pai, que eu nem cheguei a conhecer, esse nome vira moda?

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domingo, 23 de outubro de 2011

ACABA NÃO, RIO >> Eduardo Loureiro Jr.

Eu sei que deveria escrever uma crônica sobre o lançamento do livro Acaba não, Mundo no Rio de Janeiro, ontem.

Eu sei que deveria começar pelo relato da emocionante aterrissagem no Santos Dumont, depois recontar como gosto do ar e das paisagens desta cidade, e desintroverter a alegria de rever Karina, Kildare, Luís e Nina.

Eu sei que deveria falar do Pão de Açúcar saboreado na companhia de Alba e Carol.

Eu sei que deveria revelar a minha ansiedade em chegar à Lapa, ao número 126 da Mem de Sá.

Eu sei que deveria escrever "A" crônica da minha vida para dar conta — apropriadamente — deste terceiro lançamento.

Eu sei que deveria compor uma crônica inteira, inteirinha, só falando do grande acontecimento que foi ter enfim conhecido pessoalmente Leila, autora do primeiro, primeiríssimo texto do Crônica do Dia, em 1º de julho de 1998.

Eu sei que deveria transformar em palavras os muitos abraços que dei no gentilíssimo Albir e colocar reticências para expressar os muitos abraços que ainda quis lhe dar para saudá-lo e saúda-lo...

Eu sei que deveria acompanhar cada palavra agora escrita de muitas — mas muitas!!!!!! — exclamações para retribuir à Yve todo o seu entusiasmo, que me sustentou nos momentos em que o mundo parecia que iria se acabar antes que o livro ficasse pronto.

Eu sei que deveria correr com os dedos pelo teclado, na direção da rua, para entregar à Bíbi o livro que ela esqueceu sobre a mesa de autógrafos, e aproveitar para olhar mais uma vez em seus olhos tão bonitos e agradecer por sua suavidade, seu talento e sua presença.

Eu sei que deveria dedicar a crônica que eu deveria escrever à Claudia: pela acolhida, pelas providências, pelo carinho e por ser a aniversariante librianamente perfeita, com direito a cobertura de escorpiana.

Eu sei que deveria abrir parêntese para dizer à Zoraya que desejei que o livro lançado já fosse o segundo, no qual ela certamente estará presente.

Eu sei que deveria dar um certo tom de lamentação à crônica por não ter podido me encontrar antecipadamente com Carla Cíntia, e me dedicar — assim mais dedicadamente — à dedicação dela.

Eu sei que deveria fazer com palavras escritas toda a festa que salta das palavras faladas da boca atlântico-amazônica da Monica.

Eu sei que deveria desentrelinhar o que não disse à Andrea do belo sorriso: que sua gargalhada tem o som das gostosas gargalhadas de tia e primas queridas.

Eu sei que deveria fazer mágica com as palavras para que o Maurício entregasse pessoalmente cada precioso broche ACABA NÃO, MUNDO aos autores que ele ainda não conhecia.

Eu sei que deveria prolongar a crônica devida por quanto tempo fosse necessário para dar conta de conversar mais com a Chris, que veio lá de Sampa, amplificando aquela noite de chuva tão bonita.

Eu sei que deveria fazer uma crônica perfeita, divina, onipresente, que materializasse na Lapa todos os autores espalhados pelo Brasil — e também em Portugal e no Canadá — num grande apocalipse às avessas.

Eu sei que deveria descansar um pouco meus dedos exaustos e ficar com o Léo à janela, ou então parar o tempo para que ele — o Léo — não parasse de abraçar a Marisa, no abraço mais longo e mais bonito dos lançamentos até aqui.

Eu sei que deveria pedir licença aos autores e dar mesmo toda a atenção para a Marisa, não só porque ela veio lá de Curitiba, não só por ela ser nossa leitora mais que ideal, não só porque esses lançamentos não estariam completos sem a presença dela, mas simplesmente porque meu coração se encheu de alegria ao ver ao vivo o corpo das amorosas palavras de tantos e tão constantes comentários.

Eu sei que deveria tudo isso e mais alguma coisa. Eu sei que deveria lembrar de tudo e não esquecer de nada, nadinha, nem de ninguém: autores, leitores, parentes, amigos.

Eu sei, eu sei, eu sei. Mas não posso, não consigo, não sustento. Perdoem-me este domingo nada crônico, este domingo agudo da consciência do dever não cumprido. E, ainda assim, um domingo feliz.



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sábado, 22 de outubro de 2011

A DEDICATÓRIA >> Maurício Cintrão

Para mim, é o momento mais difícil, sempre. Você até pode achar engraçado, mas não é. Estar ali sentado (ou em pé) e cravar algumas palavras agradecidas ao leitor é mais difícil do que escrever o que está no livro. Compreenda, posso ter levado dias para escrever o que foi publicado. A dedicatória não. É instantânea, curta e grossa. Tem que ser resolvida ali.

Vou contar um segredo: eu já errei meu próprio autógrafo. Isso não é mentira. Fui assinar meu clássico “Cintrão” e a mão enroscou no meio. Não saiu nada parecido com meu nome. Não sei se alivia, mas já errei a assinatura no cheque. Assim, não se trata de uma resistência ao marketing pessoal, é leseira mesmo. Imagine, então, escrever palavras coerentes, grafadas corretamente e com um mínimo de humor e/ou lirismo...

E o problema é ainda mais sério em se tratando de um lançamento, quando as pessoas tendem a acreditar que você vai lembrar delas. Há conhecidos que reaparecem depois de anos e olham para você como se as tivesse encontrado ontem. Esse é um problema grave. Às vezes, reconheço o rosto, mas não lembro o nome. Em outras, lembro o nome, mas não lembro a história com aquela pessoa. Em algumas, olho o nome escrito no papelzinho, olho a pessoa, e me sinto em um supermercado com prateleiras vazias. Em eventuais lampejos de genialidade, encontro a frase certa, educada e gentil, que salva qualquer possível grosseria da falta de memória. No geral, entretanto, não funciona assim.

A dedicatória deveria ser simples e fácil, mas não é. São poucas palavras pessoais e intransferíveis que representam uma tortura. Sofrimento que pode ser maior ou menor dependendo da estrutura da cerimônia de autógrafos. Há locais já preparados para eventos dessa natureza, com pessoas experimentadas. Então o livro já chega ao autor com um papelzinho amigo para lembrar o nome de quem vai ganhar o chamego escrito. Isso ajuda demais.

Mas tem aqueles casos, diversos casos, em que o conhecido ou amigo do conhecido chega com o livro sem identificação. Pior: chega certo de que você vai lembrar de nome,  apelido, acontecimentos e causos passados e, num repente, criar as três ou quatro linhas mais bem escritas da sua carreira. Amigos, naquele momento de muvuca,  de estresse por conta de um evento em que você é o alvo (ou um dos alvos), com gente puxando conversa, garçons oferecendo drinques e a cabeça fazendo zum-zum-zum, não há como ser criativo.

Já tentei de tudo. Pensar umas frases bem bacanas, decorá-las e sapecá-las como carimbadas pelos livros. Fracasso; soam falsas. Já busquei o improviso total, megaperformático, com frases repentinas e aleatórias que deveriam levar a algum lugar, mas não levam. Experimentei palavras-chaves, expressões do momento da conversa... não, nada disso funciona.  E parece que alguns leitores sabem disso, porque já chegam dizendo: não vale só escrever  “com carinho”, porque eu mereço mais!  Merece, não tenho dúvida disso, mas eu não consigo.

Não sei como funciona com meus amigos escritores. Gostaria muito de saber. De repente, o problema é só meu e eu que resolva essas pendências com o mercado editorial fazendo algum curso de postura e expressão. Já me disseram para treinar, porque a dedicatória é feito pênalti; é feio errar. Com treino ou sem treino, prefiro alimentar a suspeita de que, lá no fundo, todo escritor é assim. É que uns disfarçam melhor do que os outros. Vai saber...

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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

PNEUMONIA >> Leonardo Marona


1. primeiras conclusões
tudo bem, hoje não será tão bravio nem com tanta veemência,
hoje direi que tenho medo e meu lirismo nada mais é que puro pavor
de reconhecer-me inábil até os ossos, de não me reconhecer de fato
alguém constituído de um centro nerval onde quer que esteja e devo
admitir com simplicidade que talvez eu reconheça em pânico
que não sei se algum dia chegarei a alcançar esse tal centro nerval
onde supostamente eu deveria estar em corpo e alma e todo ar
sendo apenas eu mesmo como um eu especial e um eu comum,
já que todas as pessoas com quem eu falo, por mais problemas
que tenham elas possuem isso que talvez seja uma identidade
e eu talvez não aceite ter uma identidade porque tenha medo
de envelhecer dentro dessa identidade, talvez por isso, agora,
aos prantos deverei confessar acima de tudo a mim mesmo:
sou incompleto, sem pedaço, e não carente do que não conheço
e que poderia me inspirar a vida ainda que em forma de ilusão,
e penso que talvez esse medo venha mesmo do fato
de que eu não saberia viver sem ilusão, mas sei bem
que a minha ilusão é só minha, fui eu que a inventei,
seja com vinho demais, confusões amorosas demais, problemas
emocionais cujas origens eu sei que elas existem e de onde vêm,
mas não me lembro como é o lugar de onde vêm, e a saúde
está por um fio com essa tosse de duas semanas, e com esses cigarros
intermináveis num clima quente e frio e muito eficaz todo o tempo
em me manter desconfortável e tísico porque uma das coisas
que apesar do medo, esse medo sem chão que vai me dando
de pensar que um dia, se vier a saber quem sou, de que matéria estranha
e tão pouco especial pode ser feito um homem assim, se existe
algum parâmetro assim para alguém que senta e espera a morte
se arriscando ao máximo e daí vem o medo, esse medo pavoroso
de que algo exploda de uma vez na cadeia desse pânico que, no fim,
é minha única unidade emotiva, minha catástrofe de que sei a chegada
surda, elegante e sem estrondo que sinto se aproximar e que espero
com ansiedade de criança, mas que, conforme sinto as patas dos anos
em minhas costas já condenadas por trabalhos estúpidos onde, ao menos,
encontro pessoas estúpidas como eu e muitas também com medo,
conforme sinto o peso das patas, o medo recua um pouco, respiro ainda,
e no fim das contas penso: descobre-se com murros e mais nada
que as pessoas estúpidas também podem ter entre si um laço
absolutamente particular de misturar medo e amor e penso:
além das minhas costas, dos meus pés feridos, do meu peito infantil,
preciso também dessas pessoas estúpidas como eu, e isso eu sei,
ou nem isso, meu medo é isso, essa doença de entrega punitiva,
protegida pela medieval couraça de um litoral bandido e prognata,
uma terra de ninguém, e que destrói e canta aos defuntos pouco heroicos
e aos punhos em carne viva de nosso herói encurralado, esquecido, maior,
e agora seria melhor ter cortinas vermelhas que, como numa peça russa,
nos levasse de volta à casa calados e pensativos, porque no fundo
sabemos que todos temos medo, que poucos dão as mãos e muitos dão
com enojada discrição, mas agora não é possível generalizar e dizer “nós!”,
hoje não será homérico nem tão pouco lírico, o ideal seria que fosse
possível apenas imaginar um homem em certo estado de desespero,
mas um homem ainda vivo, percebe-se facilmente pelas constantes
escoriações púrpuras nas paredes do tédio urbano, de joelhos, sim,
desde cedo confundindo coragem e pavor cego, ainda assim unido
a si mesmo pelo escoar do último fôlego e a caixa torácica arreganhada,
e no fundo também, acima de tudo, se perguntando: há mais alguém?


2. diário da cama
Henry Miller à tarde, braço dormente, sopa de feijão, água quente com sal, medo da sífilis, da gravidez improvisada, do amor, cigarros escondidos na varanda, crianças arruaceiras, colegiais com saias curtas de uniforme, buracos nas almas dos amantes, olhos fixos voltados para trás, elegias para as muitas mortes, uma lágrima para cada flor no escuro, pentear, tal Pacino, os cabelos para trás, forjar um charuto, um chapéu, uma bela capa, um pintor, vestir-se como um pintor, casaco de lã crespa, botões desleixados, apaixonar-se por si, cabelos, pensar nos cabelos, massagear o que sobrou dos cabelos, amá-los em sua ausência, chorar um pouco, pensar no pai, nos antepassados da mãe, porres de avô com Lupicínio, um bife à cavala, olhar as luzes pobres, olhar os passantes, charmoso e cavalheiresco ar tísico, maravilhas de Hans Castorp, muito bem, o último cigarro avulso na banca, uma despedida formal, aqui abdico de ti, ó desregrada vida própria, queiram entrar ambroxol, levofloxacino, bamifix, sulfato de salbutamol, budesonida amada, que bom vê-la, por favor, tenham a gentileza de levar este senhor, arruinou-se, façam o favor, Anna Magnani, Mikei Rourke, Bill Murray, flores do mal de meus pulmões, incêndios nos meus sonhos suados, mosquitos em minhas sensações, adornar-se para a grande ida, devorar-se em milênios de elucubrações, um pouco mais de Miller, tentar melhor o abraço do intestino, esperar a febre, Clint Eastwood, compaixão fraternal pelo time de futebol do Botafogo, entender talvez com frágil doçura as frases feitas de nossas origens, por um momento de alucinação, vide bula, recordar a antiga namorada e escrever um poema de amor, escorrem verdes meus peixes lutadores, à noite rezar a deus e levantar minutos adiantado para a coleta de urina.?

3. a última hospedeira
peço-te que, se vieres, chegues alegre e de mansinho,
chegues talvez fora de hora, longe do combinado,
isso não me preocupa, mas chegues sorridente,
ao menos uma vez, depois de tantas vezes em que chegaste arrasadora,
de cara fechada, empurrando e ofendendo sem motivo,
chegues hoje pequenina, chegues com chapéu na mão,
faças uma reverência, senão por merecimento dispensado,
ao menos por antiguidade, por seres a minha mais antiga presença,
passes um batom intenso, não me importa, descabeles um pouco,
se for totalmente necessário, as madeixas do teu veneno único,
apenas não te esqueças de cantarolar alguma coisa em francês,
ou então qualquer música leve assobiada com ardor.

que chegues elegante ainda que jovem, minha preciosa,
petulante amiga, chegues sem rima ou qualquer enganação profana,
não precisamos de etiquetas agora, nunca mais precisaremos,
sejamos apenas um bom casal que se separou por muito tempo
e agora planeja voltar a morar junto, em quartos separados.

posso te esperar até mesmo sentando, vestindo terno,
de pernas cruzadas esperarei com charutos para nós dois,
arrastarei para que sentes a cadeira do meu corpo tombado,
e tu te sentarás sem muitas palavras, mas sempre sorridente
e sutil e feroz como Anna Magnani tu embalarás meu sono,
e eu serei teu novo escudo, eu serei tua bellissima creatura.

www.omarona.blogspot.com


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quinta-feira, 20 de outubro de 2011

MAL ACOSTUMADOS >> Fernanda Pinho

Um menino de dois anos, que nunca havia cortado os cabelos, caiu em prantos ao se desfazer de suas madeixas. Chorão como o pai, que também não conteve as lágrimas ao passar a tesoura pela primeira vez, em 1965. Uma historinha corriqueira, que poderia ter acontecido na minha casa (se aqui tivesse um menino de dois anos) ou em qualquer outra casa do mundo (onde tem meninos de dois anos). Todos os dias alguém corta o cabelo. Todos os dias alguém chora de insatisfação por causa de um corte de cabelo. Todos os dias tem um bobo pra dizer: "Ah, chorão que nem o pai".
E foi exatamente a banalidade do fato que me incomodou. Por que diabos uma notícia danada de besta como essa saiu lá da Austrália, atravessou o planeta, teve repercussão mundial e veio saltitando como um canguru até parar na capa do maior portal de notícias do Brasil? Passei quatro anos numa faculdade de jornalismo estudando linha editorial, critérios de noticiabilidade e o escambau, e agora me vêm com essa? O professor Eustáquio, se bem me lembro, era muito enfático ao dizer: "Se um cachorro mordeu um homem, não é notícia. Dê a notícia se o homem morder um cachorro".
Mas isso é muito mais trivial que mordida de cachorro (sim, porque eu, pelo menos, já cortei meu cabelo várias vezes na vida, mas nunca fui mordida por um cachorro). Até li de novo pra ver se eu estava entendendo direito, se não tinha nada de sobrenatural do tipo os cachinhos de ouro do menino serem feitos, sei lá, de ouro mesmo.
Mas não. A notícia era aquela, simples e direta: corte de cabelo. Como se não houvesse corrupção em Brasília, conflitos no Oriente Médio e segunda divisão em Minas Gerais, o ex-cabeludo chorão ganhava destaque nos noticiários. Chorão, porém lindo. De tanto olhar para a foto, me afeiçoei ao garotinho. Ele não me incomodava. E, pensando mais um pouco, a notícia também não.
O que me incomodou foi o meu incômodo. Que espécie de monstro é essa que eu me tornei, que acha supernormal se deparar com notícias de alunos atirando em professores, restaurantes explodindo e casas sendo derrubadas em enchentes, mas fica assustada se vê o noticiário estampado com um rostinho lindo? O que me consola é pensar que talvez eu ainda tenha conserto. Essa notícia — corriqueira, sim — disparou um alarme. Aquele que me lembra que não devo me acostumar, muito menos aceitar, a tragédia. Que ainda existem motivos para acreditar que cortes de cabelo, chegada de circo em cidade do interior e concurso do bolo de aniversário mais bonito também podem ser notícias de jornal. 



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quarta-feira, 19 de outubro de 2011

ALICE >> Carla Dias >>

Quando estava na escola, eu tinha uma professora de Educação Artística que se chamava Alice, e ela fazia milagres. Ela era tão diferente das pessoas que eu conhecia que, às vezes, o meu olhar e os meus ouvidos se perdiam nela. Para mim, ela sabia fazer mágica, também, porque em uma escola desfalcada de material para se lecionar, ela aparecia sempre com alguma novidade que nos deixava pra lá de felizes.

Além de aprender que arco-íris era coisa séria para alimentar a alma, a professora Alice tentou também nos ensinar um pouquinho de música. Foi difícil, porque não tínhamos equipamentos apropriados, então não conseguíamos passar dos poucos tambores e das flautas de brinquedo.

Houve um baile na escola, com direito ao tradicional correio-elegante, que ela tentou aprimorar, já que o Dia das Bruxas estava logo ali, e ela queria que aprendêssemos como esse dia nasceu. No meio do pátio, ela montou um tipo de tenda, e sem se importar com o fato de, há muito tempo, já a chamarem de bruxa, por causa da sua fisionomia peculiar, vestiu-se da própria e deu de assustar os casaizinhos que dançavam e ler a sorte deles nos seus olhares esbugalhados.

Foi divertido para quem estava sem par...

Se naquela época a palavra bullying fosse a vedete que é hoje, eu diria que a professora Alice sofria um bullying lascado por parte de alguns alunos. Justamente porque era muito diferente, porque alguns passaram mesmo a acreditar que ela era uma bruxa, já que ninguém podia conceber alguém tão diferente, tão feliz, tão alto astral, que acreditava em uma escola tão carente, inclusive de alunos interessados em aprender.

Quem quer aprender cores? Pra quê?

Quem quer bater em tamborzinhos e assoprar em flautinhas? Pra quê?

Particularmente, a fisionomia peculiar da professora Alice me parecia de uma lindeza sem fim. Nos traços fortes do seu rosto, estampava-se a coragem de alguém ciente de que ensinar em um ambiente tão árido é um tiro no escuro e uma entrega temperada com ousadia. Então, ela aguentava a indiferença de muitos alunos, e sempre tentando trazê-los para perto, assim como os esgares de professores que achavam que a arte não fazia parte da arte de ensinar pessoas, de formar indivíduos.

Naquela época, no começo dos anos oitenta, não tínhamos o que temos hoje... Hoje todos nós podemos ver o mundo numa amplidão jamais sonhada, que apenas aconteceu. E a arte, neste agora, tem sido ferramenta importante no resgate de muitos. Projetos culturais fazem o papel de mentores na educação, porque, com a arte, despertam o interesse de muitos por ela e por outras áreas também.

Porém, não estou aqui para enganar ninguém com o meu entusiasmo. Sei que há muitas escolas como a minha, naquele passado, pelo Brasil afora. Assim como há muitas Alices brigando pelo futuro dos seus alunos, em qualquer área, desprovidas do apoio que deveriam ter para construir um país mais capaz.

Lembrei-me da minha professora Alice após ler um artigo sobre a inclusão da música nas escolas. Pensei que será muito importante que os alunos, ao terem contato com a música, percebam a importância que ela tem para o nosso repertório existencial. E tudo bem se despertarem músicos talentosos que também se tornarão advogados. Ou médicos essenciais às suas especialidades que sejam ótimos pianistas.

O que nós, os brasileiros, temos de compreender é que a arte em geral é essencial, que ela humaniza. Temos de celebrá-la como fazemos com qualquer formação profissional. Músico, artista plástico, escritor, escultor... A arte tem de ser cuidada no mesmo tom do valor que designamos aos outros cursos. E então, se já nascem artistas fantásticos no nosso país, ainda que desprovidos dessa educação respeitosa, imaginem o que podemos presenciar se a eles oferecermos as ferramentas para que sobrevivam de sua arte, e orgulhem-se e sejam admirados por ela.

Não sei por onde anda a professora Alice e seus cabelos psicodélicos, seu sorriso desavergonhado, seu desejo de mostrar que é bom aprender. Mas espero que todos possam ter a oportunidade de conhecer uma Alice, porque há um valor imenso em se aprender com pessoas como ela.

E porque a vida vai além das cores primárias.

carladias.com



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terça-feira, 18 de outubro de 2011

MELANCOLIA >> Clara Braga

Eu adoro assistir filmes. Pode ser em casa no DVD mesmo, mas melhor ainda é se for no cinema. Tão bom ir ao cinema, comer pipoca (não tem pipoca igual à pipoca de cinema), ir com a galera, ir com o namorado, tanto faz. Só não gosto de ir sozinha, preciso de alguém com quem comentar o filme, mesmo quando já estou assistindo pela segunda vez. Afinal, filme é assim, sempre que a gente assiste mais de uma vez tem grandes chances de descobrir coisas novas.

Aqui em Brasília está tendo uma mostra de filmes que não entraram no circuito comercial. O primeiro filme exibido foi o tal do Melancolia, do Lars Von Trier. Todo mundo estava falando tanto desse filme que acabei ficando curiosa. Só tinha visto outros dois filmes do diretor, um que não gostei muito e nem lembro direito da história, e outro que eu adorei. Essa era a hora do desempate. E o melhor de tudo, a mostra é de graça. Convenhamos, ir ao cinema está cada vez mais caro.

Levei comigo logo três pessoas que era pra ter bastante gente com quem comentar depois, afinal, sem querer criar rótulos nem nada, mas já criando, se o filme não entrou em circuito comercial e é do Lars Von Trier, a probabilidade de eu não entender de primeira era muito grande. E agora que eu já assisti ao filme, a probabilidade de eu ver de novo pra entender melhor é bem pequena.

Não é porque o filme é ruim, na verdade eu até agora não consegui decidir se gostei ou não, se é que isso é possível, mas o filme trata da melancolia de uma forma tão diferente e te passa sensações tão reais que eu, pela primeira vez, passei mal dentro do cinema. Mal de verdade, de ficar enjoada. Filme que me fez chorar tem um monte, mas me sentir mal, esse foi o primeiro.

A fotografia é lindíssima, os efeitos maravilhosos, as cenas são de deixar qualquer um de boca aberta, mas desde o início, pelas imagens lentíssimas que são mostradas e você quase não define se são fotografias animadas ou vídeos rodados extremamente lentos, já dá pra captar a mensagem de que o filme vai ser cansativo e que se você não tiver paciência vai acabar dormindo.

Eu não dormi, mas achei que podia ser mais curto. O que me preocupa é que a única conclusão a qual eu consigo chegar é essa de que poderia ser mais curto. Mesmo depois de discutir sobre o filme com quem viu comigo, depois de ler críticas e pensar sobre, eu ainda não consigo dizer se gostei ou não gostei. Tem coisas boas, mas tem coisas chatas que não me agradaram muito. É por isso, leitor, que se você não viu o filme, assista, e se você já viu, me dá uma ajuda, porque até agora não sei se entendi.

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segunda-feira, 17 de outubro de 2011

PRESENÇA ILUSTRE >> Kika Coutinho

Sei que os leitores desse site já ouviram bastante a respeito do lançamento do livro Acaba não, mundo.

Alguns cronistas já descreveram lindamente o evento e eu estava resistindo à tentação. Mas, depois de largar o papel em branco rumo a outros fins, lembrei que não falaram do mais importante, do mais marcante, do mais iluminado: os bichinhos da luz. Sim, eles estavam lá. Não nos recepcionaram, os danados, trataram de se atrasar. Claro, pra fazer aquele suspense, demoraram um pouco a chegar. No entanto, quando chegaram vieram em peso. Toda a família, vizinhos, amigos, olha, tô pra dizer que eles convidaram-se uns aos outros mais até do que a gente. Devem ter posto na rede social dos bichinhos da luz, o facebook deles foi muito eficiente.

Talvez tenham pego carona uns com os outros, posso até vê-los passando na casa de cada um: “Vem, vamos, estamos atrasados, corre!”. E correram. Desviaram da chuva e seguiram a luz, como é digno de sua espécie.

Minha filha, pequenina e faceira, foi uma das primeiras a notar: “Olha mamãe, bichinhos!”, ela falou, os dedinhos apontados para o alto. “Tem poucos”, pensei, sem saber que no instante seguinte eles lotariam o lugar. "Fechem as portas!", eu quis pedir, com medo de uma superlotação... Mas a nuvem de bichinhos, dançando sobre nós, tinha certa beleza.

Os autores seguiam com seus autógrafos, papos e risadas, enquanto eram observados pela aglomeração que sobrevoava nossas cabeças. Entre uma frase e outra, alguém balançava as mãos no alto, tentando escapar deles. “Ai, caiu um na minha blusa”, dizia uma jovem sacudindo a camisa, procurando onde tinha ido o tarado. “Mas que assanhado!”, eu falei. “Aqui é um evento cultural, viu, se procuravam outra coisa, podem ir saindo...”, tentei avisá-los. Mas eles não erraram o caminho. Era lá mesmo que queriam ir. Garantir que o mundo não acabaria. Garantir que leriam cada autógrafo, cada parágrafo, cada palavra do belo livro sonhado pelo Eduardo, e realizado por todos.

Dizem que esses insetos têm vida curtíssima. Nascem, procriam e morrem, como fazemos nós, mas sem tantas intercorrências entre uma coisa e outra.

Pois um exércitos deles escolheu viver a sua breve vida ali, entre aqueles autores brilhantes, presença ilustríssima — com o perdão do trocadilho tosco.

Assim, sem deixar brecha, fazendo um belo trabalho em grupo, eles foram coadjuvantes daquela tarde chuvosa. Do lado de fora, estava nublado, cinza como só São Paulo sabe ser. Mas, lá dentro, a multidão encontrou a luz. Sim, caros leitores. Foi lindo, cheio de alegria e encanto, o evento. Mas, mais do que isso, foi uma tarde calorosa e iluminada. Os maiores especialistas no assunto podem atestar.


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domingo, 16 de outubro de 2011

CRÔNICA DO LANÇAMENTO >> Whisner Fraga

Conheço bem aquela região de Pinheiros, pois visitava com frequência o Cemitério São Paulo, na Henrique Schaumann. Gostava de passear pelas alamedas, observando a rispidez intransigente das esculturas, os anjos manchados de descaso e abatimento e aqueles tapetes de lodo contaminando o ar com seu cheiro de enxofre e tristeza. Conheço bem aquela região de Pinheiros e podia afirmar que choveria em breve, porque as nuvens se amontoavam numa cumplicidade de águas.

Decidi que seria melhor dar uma parada na feirinha da Benedito Calixto e ver o que o tempo me reservaria. A praça estava lotada àquela hora e era bom trombar com aqueles punks chiques, caçadores de antiguidades. Em frente, foram abertas algumas galerias, o que deixou o ambiente um pouco mais requintado, de modo geral. Logo o chuvisco apertou e tive de me refugiar num desses corredores, para que não me molhasse. Na entrada, vi um porta-joias e achei que se levasse para Ana, ela teria como organizar suas bijuterias. Mas a banca estava vazia e a dona provavelmente escondida em algum outro beco, sem guarda-chuva, impossibilitada de retornar antes que o tempo limpasse o céu. Como não podia comprar a lembrança, decidi me sentar para ver a enxurrada arrastando lixo sarjeta afora.

Ainda tinha uns bons vinte minutos até o lançamento, marcado para o final da tarde. Mas a chuva parecia à vontade naquele dia e não dava sinais de trégua. O pior é que eu estava a quinhentos, talvez seiscentos metros do bar, onde alguns cronistas autografariam “Acaba não, mundo”. Prometera a alguns que iria, restava-me cumprir a promessa. Meia hora depois e comecei a me inquietar. Uma hora mais tarde e já podia caminhar pelas ruas sem me molhar demais. Então segui para o Canto Madalena.

O boteco estava lotado – muita gente para o lançamento, muita gente para curtir uma happy hour. Não conhecia quase nenhum daqueles cronistas. Comecei a colaborar com o site Crônica do Dia no final dos anos 1990, assim que a página foi idealizada. Continuei escrevendo durante três ou quatro anos e depois parei, pois inúmeros contratempos estavam me impedindo de cumprir o compromisso de publicar semanalmente meus textos. Recolhi autógrafos de quase todos, assinei alguns livros e nesse meio tempo me perguntaram várias vezes se eu ainda escrevia. De certa maneira me senti um pouco incomodado com a pergunta, pois sempre me imagino mais conhecido do que realmente sou e como a antologia Geração zero zero foi lançada há pouco, pensava que meu nome ainda estava na roda. Ademais, eu havia feito minha tarefa de casa: tinha lido sobre quase todos, procurara crônicas daquelas pessoas, pois achava que seria uma boa maneira de puxar conversa, caso surgisse a oportunidade.

Mas as oportunidades não surgem sem que a gente dê uma forcinha, de modo que preferi me refugiar em algumas canecas de chope. A Carla estava me salvando, colocamos o assunto em dia, mas ela também era requisitada, muitos livros a assinar. A Kika também foi muito bacana e assim por diante. A certa altura, o Osvaldo chega. Eu já me sentia à vontade naquele confortável torpor alcoólico, ouvindo a conversa de dois velhinhos, que versava sobre um preconceito mal formulado acerca do homossexualismo em voga nos dias correntes e sobre uma ou outra escapadela sexual lá pelos anos 1960. De maneira que estava tudo muito divertido. De repente chega o Osvaldo e a gente desanda a conversar e eu me esqueço da festa, do lançamento, de tudo.

Dali a pouco meu editor me liga dizendo que a esposa passaria no boteco mais tarde para me entregar uns livros. Eu, que pensava em sair mais cedo, de fininho, acabei sendo “forçado” a ficar mais. Se era pra ficar, que pelo menos o garçom trouxesse mais uma caneca. E assim foi. Chris chega, pede uma também e ficamos os três a falar de nossas experiências com crianças. A minha é bem pouca, pois sou pai há apenas um mês, mas já arriscava meus palpites. Então a noite estava agradável, mas no dia seguinte eu viajaria cedo e precisava ir embora logo. Meu corpo de quarenta anos já não aguenta mais os baques de uma noitada. Antes de sair, avistei o Eduardo, o único que restara da turma. Bom, era com ele mesmo que queria falar. Perguntei se ainda tinha espaço para mim lá no site. Carta branca, saí feliz em busca da minha carona. E foi assim que cheguei aqui.

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TORTO >> Eduardo Loureiro Jr.

Eu nem ia escrever crônica hoje. Ia deixar o domingo só pra vocês e o Whisner, que retorna ao Crônica do Dia depois de alguns anos. Mas bateu aquela vontadezinha de escrever, de contar, de compartilhar...

Vocês conhecem aquela história que diz mais ou menos assim?

— Mestre, o que faço para atingir a iluminação?
— Você já roubou?
— Que é isso, Mestre?!
— Já matou?
— Mestre?!
— Já amaldiçoou e se vingou?
— Nunca!
— Pois então vá fazer tudo isso o quanto antes.

Lembrei essa história ao receber uma mensagem de minha querida Pepeta, tia-avó e freira, que já deve ter matado, roubado, amaldiçoado e se vingado bastante, porque é a luz em pessoa. Na apresentação que Pepeta enviou para a lista da família, o assunto era um pinheiro torto, objeto de desafio por parte de um sábio de aldeia, que convocou seus alunos para olharem para o pinheiro na posição correta. Após presenciar uma série de contorcionismos de seus aprendizes, o sábio revelou: "A posição correta é vê-lo mesmo como um pinheiro torto".

Lembrar essa história me fez recordar a canção "Entre tapas e beijos" ("Perguntaram pra mim se ainda gosto dela. / Respondi: 'Tenho ódio e morro de amor por ela'."). Essa canção é um bom exemplo daquilo que, pra mim, está na esfera do absurdo. Sempre reagi a essa canção com a mesma indignação do discípulo da primeira história diante de seu mestre de conselhos heterodoxos:

— Como assim? Ou ama ou odeia! Ou estapeia ou beija! Os dois é que não dá!!!

Faço essa confissão a meus leitores como se a fizesse a um sacerdote:

— Padre, pequei.
— Que foi, meu filho?
— Sou um escritor sem imaginação. Não consigo conceber o amor e o ódio convivendo juntos.
— Só isso, filho?
— Acha pouco, padre.
— Faça uma crônica sobre o assunto e está perdoado.
— Mas, padre...
— Vá e não peque mais.

E cá estou eu, expulso do mosteiro, com a tarefa de viver o que me parecia o mal, de aprender a correta posição do torto e de amar feito um compositor de música brega.



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sábado, 15 de outubro de 2011

ESTAMOS EM GUERRA - E NÃO SABEMOS [Heloisa Reis]

Já vivemos o período da bipolarização entre duas superpotências e desde essa época já acontece a descoberta de que dominar a economia de um país revela-se mais eficiente que ocupá-lo militarmente. Depoimentos e confissões como as de John Perkins — que se diz um arrependido ex-assassino econômico — abrem nossas mentes para atitudes que vêm das teorias de Maquiavel, portanto nem são tão novas...

O que mantém a vida no mundo? As riquezas minerais e vegetais que o homem aprendeu a manipular e transformar auferindo lucros e acumulando valores com poder de troca. Criaram-se as nações ricas, as grandes fortunas, a embriaguez pelo poder e os desmandos que o poder econômico concentrado permite, enquanto milhares de pessoas morrem de fome diariamente em países pobres do terceiro e quarto mundos.

Mas o homem mediano, preocupado com seu dia a dia, sua condução difícil, suas contas a serem pagas todo mês, seu cartão de crédito estourado, não percebe... não sabe ... e não quer saber. As notícias são por demais avassaladoras para que se queira estar por dentro de tudo o que acontece. Mas a violência cresce de todos os lados, a educação míngua em todos os níveis e o modelo de nosso “desenvolvimento” continua nos mesmo moldes do século passado. Só que os problemas também continuam e agravados pelo crescimento da população.

E a floresta na Amazônia continua a diminuir, queimadas acontecem do nada, a água dos rios continua a ser poluída, nascentes são aterradas para que estradas possam ser construídas, construções gigantescas são aprovadas em locais pouco adequados, busca-se a geração de energia para ser distribuída em locais absolutamente distantes, menosprezando-se a perda no caminho.

Tudo isso a serviço de quem? Boa pergunta! Com que recursos? Com empréstimos, claro, que nem precisam ser pagos, porque os juros sobre os juros são muito mais interessantes! Dívidas não existem para serem pagas e é mesmo impossível pagá-las. Dívidas são feitas para se criar condições de submissão e auferimento de mais lucros. É a perversidade do sistema.

Mas para tudo há uma hora — ou pelo menos assim acredito. Havemos de chegar à hora em que nossa juventude estará preparada para perceber que há algo por trás da imposição das baladas e das drogas... Sim, porque só os jovens podem agora mudar o rumo dos acontecimentos, ao despertar e perceber que assassinatos econômicos acontecem pelo mundo e nos afetam muito mais do que percebemos ou do que queremos admitir.

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sexta-feira, 14 de outubro de 2011

HISTORINHA NADA NOBRE >> Zoraya Cesar

Semana passada, Cayetana Fitz-James Stuart, a Duquesa de Alba, casou pela terceira vez, agora com um homem 24 anos mais novo. Considerando os 85 anos da duquesa, seu novo marido não pode ser acusado de playboy; no máximo, playold. Dizem que os filhos dela foram contra a união por conta da idade provecta da dita senhora e por temerem que sua enorme fortuna lhes escapasse por entre os dedos. Se foi amor, sexo, loucura, interesse, conversamos na próxima crônica.

Hoje quero contar uma historinha que esse casamento me fez lembrar. Não esperem contos de fadas. Histórias que envolvem dinheiro, idades e casamentos geralmente não o são. 

Corria, pedalava, nadava. Tinha 80 anos, uma saúde de ferro e um gênio insuportável. Diziam, na família, que a primeira mulher, mãe de seus quatro filhos, havia morrido só para não viver no mesmo mundo que aquela criatura intragável, que conseguia irritar um monge de pedra. Estragar prazeres e autoestimas era sua especialidade, quase um hobby.

Agia assim com os filhos, netos, sobrinhos, subalternos. Depois de perder alguns bons profissionais, um com 20 anos de casa, o condomínio do prédio onde morava ameaçou multá-lo por cada porteiro que pedisse as contas. E as empregadas? Não ficava uma. A única a durar foi uma surda-muda. E mesmo essa ameaçou ir embora, quando ele, muito seriamente, fingiu que estava morrendo engasgado, só para se divertir às gargalhadas com o desespero dela.

Durante a festa de casamento de um dos filhos, simulou um ataque do coração, e continuou a encenação até a ambulância ser chamada, estragando todo o evento. De outra vez, numa reunião de aniversário, escandalizou a tia da nora, contando-lhe casos de bordel e revelando segredos abomináveis da família. A velha senhora deixou de frequentar a casa da sobrinha.

No trabalho, só era suportado devido à sua grande eficiência. Quando ele se aposentou, a firma inteira programou um Natal fora de época, trocando presentes e cartões de felicitações. Um que fez muito sucesso dizia: “A aposentadoria é a prova de que Deus existe. Aleluiah!”.

Mas a família continuava a visitá-lo, a convidá-lo para as festas, a fingir achar graça de suas brincadeiras horrorosas e de mau-gosto, a tratá-lo bem e até a chamá-lo para padrinho de alguns desafortunados rebentos. E por quê?

Porque ele tinha uma grande, ou melhor, duas grandes qualidades: era muito, muito, muito rico (não tão rico como a Duquesa, mas, ainda assim, muito rico); e estava com 80 anos. Só essas qualidades? Tá bom,vai mais uma: estava meio adoentado. A saúde de ferro dava sinais inequívocos de ferrugem.

A família, que se detestava, permanecia unida por conta dessas excelsas qualidades, e não media esforços para agradá-lo, todos esperançosos de que alguma coisa amolecesse o coração do velho. A enorme fortuna seria herdada pelos filhos e cada um queria ter o maior quinhão.

O velho Dr. Rui (aceitam-se trocadilhos infames, mas pertinentes), raposa velha, percebia tudo e aplicou um golpe de misericórdia naquela farsa toda. Casou-se. Com uma jovem 61 anos mais nova, que ele chamava de “minha Coelhinha”, e que coelhava por profissão numa elegante casa de massagens do Leblon, onde se conheceram.

Como em casamentos tardios (após os 60 anos), a lei brasileira só permite o regime de separação de bens, a família não ficou muito preocupada. Deixa ele se divertir, diziam, quem sabe no entusiasmo ele tem um ataque e...  Havia outro fato a animá-los: a coelhinha fazia jus ao apelido e saltitava animadamente com coelhões outros que não o excelentíssimo Dr. Rui. Ora, pensavam, ele não vai deixar um tostão para uma mulher que o trai tão descaradamente! E relaxaram. Relaxaram tanto que, quando a doença dele se agravou, tentaram, por todos os meios, fazer com que a diligente coelhinha fosse menos cuidadosa com os remédios, os banhos, e parasse até de tentar animá-lo por meios outros que o pudor me impede de revelar.

Estavam muito entusiasmados com a possibilidade de matar dois – talvez três – coelhos com uma cajadada só: ele morre e nós ficamos ricos. E ainda nos vemos livres de ter a família mal falada por conta dessa... Oryctolagus Cunículus, digamos.

Mas o dia chega para todos e com o Dr. Rui não foi diferente. A família mal conseguia disfarçar sua alegria. No velório, só a coelhinha chorava, realmente sentida, de mãos dadas com seu sobrinho (ou o que fosse, quem se importa?), que aportara por lá uns dias antes.

Durante a leitura do testamento, no entanto, demonstraram sua verdadeira face. Destrataram a viúva, riam entre si, debochados.  Agora, seu velho chato, ranzinza e mesquinho, bem feito, você está morto e nós vamos ficar com todo o seu dinheiro e nos livrar de sua “esposa”. Um horror.

Bom, vamos ao que interessa. Eis aqui a íntegra do sucinto e tão ansiado testamento:

“Bando de interesseiros, parasitas inúteis. Me aguentaram pensando na minha fortuna, não foi? Já que, por lei, sou obrigado a deixar meus bens para vocês, corja de malandros, escolhi a parte que lhes cabe: um prédio interditado pela Defesa Civil; outro, invadido por famílias de sem-teto, que estão ganhando o usucapião na justiça; uma firma que está sofrendo um processo por falência fraudulenta. Vocês terão de administrar todos esses bens por 10 anos antes de colocar a mão em algum dinheiro. Se é que vai sobrar algum, e se vocês não se matarem antes, raça de víboras. E para minha Coelhinha, que cuidou de mim o tempo todo, deixo o lucro das minha ações. Ela vai ficar cheia de dinheiro, e vocês, de problemas”. E terminava com sua risada odiosa, para desespero dos golpistas, perdão, da família, que só pensava nos anos perdidos e na fortuna que mudava de mãos. 

A tudo isso acompanhei, ninguém me contou não. E não se preocupem com finais redentores. Se o Dr. Ruim, perdão, Rui, não prestava, a família, menos ainda. Até hoje se processam uns aos outros, trocando ameaças cada vez menos veladas.

E a Coelhinha? Vive feliz e solteiríssima da vida – não é boba nem nada, e aprendeu muito com o velho – numa vila na Itália.


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quinta-feira, 13 de outubro de 2011

PEQUENOS GRANDES AMORES
>> Fernanda Pinho

Mariana se parece comigo quando eu era bebê. Bebezão, na verdade. Eu e ela. Um aninho, com tamanho de três. É um bebê no aumentativo. Não apenas pelo olhão e o pernão herdados da prima, mas, principalmente, pelo sorrisão. Nunca vi Mariana chorar. Sequer vi Mariana com a carinha fechada. É sempre um sorriso largo, revelando seus charmosos dentinhos separados. Quando eu pensei que não teria mais primos, veio essa boneca. Porque ela é uma boneca, se veste como boneca (ok, a mãe a veste como boneca) e sempre leva a tiracolo uma bolsinha cor-de-rosa guardando seus tesourinhos: brinquedos e adereços capilares.
A carinha branca-transparente do Bernardo revela que ele está sempre prestes a aprontar algo. E está mesmo. Bagunceiro, inquieto, cheio de histórias. Gosta de bichinhos. Principalmente do "peixino". Dos "passarinos", ele tem um pouco de medo. Adora colorir e usar as minhas botas. Já aprendi que não devo ir visitá-lo de botas ou serei obrigada a ficar descalça enquanto ele corre pela casa se equilibrando no calçado gigante para suas perninhas. Às vezes tenho vontade de roubar o Bernardo. Eu e minha irmã já planejamos o sequestro. O problema é que sentiriam faltam dele já nos primeiros segundos (sua pequenina presença faz muita diferença) e seríamos as primeiras suspeitas.
Sabe aquelas crianças que fazem várias gracinhas na frente dos pais, mas se intimidam diante dos outros? Isadora não é uma delas. Nada e ninguém intimida Isadora. Nasceu com a vocação de ser atração principal e tem vários números para apresentar. São muitos talentos descobertos ao longo desses quase três anos de vida. Canta, dança, dubla, imita personagens da televisão e pessoas da família. Tudo naturalmente. Sem que seja necessária qualquer insistência, lá está ela a chacoalhar seus lindos cachos. Agora, aguarda com ansiedade a chegada do irmãozinho Miguel.   
Dudu me liga quase todos os dias. Meu telefone é o único que ele sabe de cor. Afinal de contas, eu sou sua melhor amiga. E melhores amigos precisam se falar quase todos os dias. E a gente conversa sobre desenhos, dinossauros e skate. Ele me conta como foi seu dia na escola e depois pergunta como foi o meu. E sempre que eu digo que já não estudo mais, ele cai na gargalhada, achando que é uma grande piada. Se somos melhores amigos, é provável que eu também tenha seis anos. Acho que esse é o pensamento dele, pois fica indignado se me vê tomando cerveja ou — ai, ai, ai — namorando. Vocês não têm ideia de quanta discussão isso já rendeu. Ele fica bravo de verdade, mas depois volta atrás e faz a pergunta de derreter até os corações mais inóspitos: "Nós ainda somos amigos?". Claro que somos, Dudu. Sempre seremos.
Maria é uma princesa. Embora, às vezes, ela insista que a princesa sou eu. Escreveu um livrinho especialmente para mim, com ilustrações e tudo. O nome da história? A Princesa Nanda. Maria adora escrever — tem sete anos e já escreve há três — e, principalmente, adora partilhar seus escritos comigo. Também gosta de ler e isso me enche de orgulho. É criativa, doce e carinhosa. Quando chego em sua casa, tem sempre um abraço gostoso. E, pra me agradar ainda mais, procura em seu armário alguma coisa que se pareça com o que eu estou vestida e troca de roupa na hora. E vem, toda fofa, com aquele sorriso com covinhas, desfilar para mim. E ainda diz que a princesa sou eu.
E, além deles, tem outros também. Outros que eu já não ousaria mencionar num texto sobre crianças ou seria obrigada a me retificar publicamente. São pré-adolescentes, já avisaram cheios de marra. Mas, assim como Mariana, Bê, Isa, Dudu e Maria também fazem parte desse departamento da minha vida onde só existe espaço pra risada, abraço gostoso, olhar verdadeiro e amor puro. Não por um acaso, é o departamento da minha vida que eu mais gosto.


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quarta-feira, 12 de outubro de 2011

CARA-METADE >> Carla Dias >>

Minha sobrinha me confidenciou que encontrou sua cara-metade, mas depois de respirar fundo várias vezes, dizer que não conseguia falar. Eu perguntei o que a fez pensar nesse menino como sua cara-metade. E mesmo ciente de que as crianças de hoje são muito mais alguma coisa do que no meu tempo de menina de tudo, eu não esperava por aquela resposta.

Eu nunca pensei em alguém como minha cara-metade. Desde que aprendi a reconhecer as coisinhas do amor, penso no outro como um através, capaz de não apenas habitar parte de mim, mas trafegar pela minha existência, visitar profundidades, com a minha bênção, e com a possibilidade de eu fazer o mesmo. Obviamente, isso dá muito trabalho, o que reduz, e muito, minha lista de possíveis cara-metade.

Depois da conversa com a minha sobrinha, encasquetei com esse negócio de cara-metade. Repensei meus amores, os efetivos e os platônicos, e cheguei à conclusão de que os platônicos sempre são os melhores candidatos à cara-metade, porque nos deixam à mercê da imaginação. Ainda assim, esbarrei na lembrança daquele que foi o amor mais amor que já senti. Foi platônico durante muito tempo, e quando deixou de ser, invadiu a minha existência. Não havia nada pela metade ali, mas sim unilateral. Eu entrei na dança, mas perdi o parceiro. Se havia alguma chance de aquela pessoa ser minha cara-metade, a escolha que ela fez de partir, com sua metade a tiracolo, acabou com o plano divino.

Um amigo me indicou o curta “Harvey”, dirigido por Peter McDonald, e ele me vem à lembrança porque, apesar de ser definido como filme de horror, ter cenas fortes e incômodas, eu o acho belíssimo pela poesia contida na metáfora sobre a busca pela outra metade, pelo inteiro de si ao somar-se ao outro. E diferente do que pensa minha sobrinha – e a maioria de nós - há muito mais melancolia e dolência do que apreço quando alguém passa a depender da ideia de que somente em par será inteiro. “Harvey” é uma visão sombria dessa necessidade de encontrar alguém que nos complete, mais próxima ao egoísmo que, quase sempre, acompanha tal desejo. Quem quiser assistir ao curta, clique AQUI.

O que eu quero dizer cruzando as declarações da minha sobrinha com um filme como o de Peter McDonald, é que até mesmo a cara-metade que reconhecemos pode não ser o ingresso para o inteiro de nós. Ao perguntar por que acreditava que aquele menino era a sua cara-metade, ela suspirou seus sentimentos, lembrando-me as mocinhas dos filmes de amor dos anos 50, e disse que ele era uma boa pessoa, compreensivo, educado e que gostava de conversar com ela. E ela idem.

Minha sobrinha não é da safra das meninas de onze anos que sentem as coisas como se tivessem dezesseis, por isso a sua cara-metade tem mais a ver com amizade do que com amor romântico. Depois de o menino dela ter lhe enviado um poema lindo, lindo, e de minha irmã fazer malabarismos para ajudá-la a lidar com o que sentia, minha sobrinha enviou um bilhete para ele, dizendo que eles poderão ser a cara-metade um do outro somente daqui a três anos, ao que ele respondeu: claro.

Ok... Ela havia dito também que ele era compreensivo.

Espero que um dia – daqui muitos anos, de preferência – a minha sobrinha encontre a sua cara-metade, mas que quando isso acontecer, ela já se sinta inteira, sem vazios prontos para serem preenchidos pela identidade de outro. O que chamamos de metade, na verdade, é um inteiro que torna o nosso inteiro mais feliz. É uma soma, não o resgate de parte de nós. Então, nossa cara-metade é uma alma inteira.

A minha cara-metade, neste momento, é uma bela ?

Mas só de pensar que se encontrá-la por aí não terei de esperar três anos para apreciar essa boa pessoa, contar com a sua compreensão e com o seu agrado em conversar MUITO comigo, fico animada por já ter passado – há muito tempo – dos onze anos de idade.

carladias.com



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ENZO (SEGUNDA VOLTA)
>> Eduardo Loureiro Jr.

"As melhores coisas não podem ser ditas.
As segundas melhores são incompreendidas.
As terceiras melhores são aquelas sobre as quais falamos."
(Heinrich Zimmer)
No começo, era apenas uma notícia:

— Estou grávida.

Uma notícia alegre, desssas que bem poderia dar nos telejornais. Já imaginou se cada mulher que engravidasse, e estivesse feliz por isso, aparecesse na TV? Em vez de entrevistar políticos, especialistas e celebridades, os repórteres dirigiriam seus microfones para mulheres barrigudas. A cada hora, mais de 300 mulheres recebem a notícia de que estão grávida. Teríamos repórteres dando plantão em porta de laboratório.

— E então, senhora?
— Estou grávida. Estou grávida!

Se fosse assim, eu voltaria a assistir ao Jornal Nacional.

Depois do começo, é uma imagem. Um borrão, para ser mais preciso. Um pequeno instantâneo, ou um filminho de ultrassonografia.

— Está ali? Tá vendo?

Não, eu não estou vendo, mas tenho que confiar na palavra da grávida, que confiou na palavra do médico. Um bebê em suas primeiras semanas é menos uma realidade e mais um passatempo de revista: encontre um bebezinho escondido na figura ao lado.

Depois de depois do começo, é um nome. Ou vários nomes, dependendo do grau de indecisão dos pais.

— Como vai se chamar?
— Sofia.
— E se for homem?
—Vai ser mulher. Sofia.

Sábia escolha. Já imaginou se tivessem resolvido combinar o nome dos pais: Gilrina, Gilbrina, Gilberina... Sofia é um nome clássico, inspirador, suscitador de poemas e canções.

Depois de depois de depois do começo, é um sexo.

— Como assim "é um homem"?
— Vimos a piroquinha.
— Mas não era mulher?
— Ele estava só escondendo o jogo.
— E como vai se chamar?
— Enzo.
— Que nem o filho do Xand, dos Aviões do Forró?
— Não, que nem o filho da Cláudia Raia.
— Ah, bom...

Tudo bem, de Sofia para Enzo ficamos ali mesmo pela Itália. Perdemos em sabedoria, mas ganhamos em velocidade; sai a filosofia, entra a Formula 1. Enzo, menino ligeiro, passou a Sofia, chegou em primeiro. Dá até música.

Depois de depois de depois de depois do começo, é uma cor.

— Azul.
— Por que não vermelho?
— Por que vermelho?
— Cor da Ferrari, ora.
— Aff, vermelho é muito "cheguei". Azul é mais bonito.

É isso mesmo. Tudo azul, e branco. Móveis, cortinhas, bolsas e panos. Vermelho atiçaria demais o menino, talvez nem deixasse os pais quietos à noite. Com azul se dorme melhor.

Depois de depois de depois de depois de depois do começo, é um grito transformado em corpo.

— O que é isso?
— Isso o quê?
— Na mãozinha...
— Tem um dedo a mais?
— No pé também.
— Meu Deus!

Há quem goste e quem não goste, quem pense em fazer cirurgia logo e quem pense em deixar ele escolher depois. "É tão bonitinho!". "Vai ser difícil encontrar sapato!". Opta-se pela cirurgia. Vão-se os dedos, ficam as fotos.

Depois de depois de depois de depois de depois de depois do começo, são os cheiros (leite, chulezinho e cocozão), as dores ("Mãe, eu não sei o que ele tem, ele só chora, chora, chora!"), os sorrisos ("Coisinha mais linda do papai!"), a fala ("Diz 'mamãe', 'ma-mãe'. Diz 'vovó', 'vo-vó."), o andar ("Vamos, filhão, você consegue!"), o faz-de-conta (coisa vira bicho), o choro manipulador ("Eu quero!").

Depois de depois de depois de depois de depois de depois de depois do começo, é um menino que vê os Scorpions tocando na TV e diz "Tchi Dju", ou seja, Tio Du, seu nome. E você fica sem saber se é um mau sinal  ("Sou tão feio assim?") ou um bom sinal ("Ele me reconhece como músico.").

Depois de depois de depois de depois de depois de depois de depois de depois do começo, você liga para falar com sua irmã e, antes de ouvir a voz dela, quase sempre escuta o choro do menino.

— Que foi, Bina?
— Enzo 'tava vendo um vídeo no celular.
— De novo?!
— Você parece que adivinha a hora de ligar.
— Não diz pra ele que sou eu que estou ligando senão ele vai achar que sou um tio pentelho.
— Agora é tarde...

Depois de depois de depois de depois de depois de depois de depois de depois de depois do começo, tem ainda muita coisa para contar sobre essa fofurinha que hoje está fazendo dois anos.

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terça-feira, 11 de outubro de 2011

QUE VENHA O DIA 03 DE NOVEMBRO!
>> Clara Braga

Quem está acompanhando sabe que começaram os lançamentos do primeiro livro do Crônica do Dia. Ainda temos alguns por vir e estamos contando com a presença de todo mundo em suas respectivas cidades.

Esse livro tem sido motivo de muita alegria. Alegria para nós, cronistas, para leitores, para as famílias... enfim, é só alegria!

Bom, na verdade... já que estamos tocando no assunto, eu vou falar logo de uma vez. O lançamento desse livro está trazendo também um problema, e eu vou contar para todo mundo para ver se esse problema deixa de ser só meu e passa a ser de todos os leitores.

Eu sou uma pessoa que sofre de ansiedade crônica e também sofro por antecipação. Desde que fiquei sabendo da data do lançamento aqui em Brasília, já fiquei ansiosa. E não é para menos, afinal esse é o meu primeiro lançamento de livro como autora. Mas tem outra coisa que mexeu ainda mais comigo e que tem sido um sofrimento para mim. Em uma das informações que recebi sobre os lançamentos que já aconteceram, fiquei sabendo que os cronistas estão fazendo discursos. DISCURSOS!!!

Bom, muitos talvez não saibam, mas uma das motivações que tive para começar a escrever foi a minha total falta de habilidade para falar em público. Quando tento falar em público, algum fenômeno sobrenatural acontece comigo e, de repente, sem explicação, eu começo a me embolar, falo coisas sem nexo e nada mais faz sentido. Consigo começar falando de um assunto e terminar em outro completamente desconexo sem nem saber como eu fui parar ali. Imaginem uma pessoa assim fazendo discurso... Não dá!

Desde então, venho me perguntando o que devo fazer, talvez um intensivão de algum curso de oratória. Ou talvez comprar um livro, deve ter algum livro sobre isso. Já pensei em avisar que surgiu um compromisso inadiável e que eu não poderei participar do lançamento, mas qual evento seria mais inadiável do que o seu primeiro lançamento de livro? Talvez eu possa assistir alguns agradecimentos da entrega do Oscar no youtube e usar como base do meu; eu agradeço a Deus, aos meus familiares, aos leitores, aos idealizadores do livro e pronto! Mas talvez ganhar o Oscar seja um pouco diferente de lançar um livro, pode ser que o discurso fique um pouco fora do contexto...

Bom, enfim, já pensei em muitas coisas e nada parece ser uma boa solução, então aqui vai minha última tentativa. Eduardo, eu te arrumo uma pessoa que pode fazer a transmissão ao vivo pela internet funcionar e em troca você me autoriza a pegar uma parte do discurso de cada participante do próximo lançamento no Rio de Janeiro e montar o meu para o dia 3 de novembro aqui em Brasília, o que acha?

Me parece uma boa solução. Quem quiser saber como vai terminar essa história, nos vemos dia 3 de Novembro... ou não.

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domingo, 9 de outubro de 2011

VALER A PENA >> Eduardo Loureiro Jr.

"É como uma dor no corpo
que faz o menino crescer."
(Fabiano dos Santos)

Não sei você, caro leitor, mas eu não gostava da expressão "valer a pena" — e talvez ainda nem goste...

Desde que me lembro por gente que tenho baixa tolerância à pena, à dor, ao sofrimento. Se alguém me dizia que determinada coisa valia a pena, já disparava em mim um alarme: "Eduardo, você precisa ver esse filme, vale a pena". Não, eu não preciso ver um filme em que haja uma pena a ser valida. E, quando era eu a indicar alguma coisa para alguém, e a pessoa me perguntava, "vale a pena?", eu respondia: "Não há pena, meu amigo, é um prazer só. Vá conferir!".

Mas não existe sufixo PRAZER, nem GOZO, nem RISO nesta Terra. Aquele que ama não é amaRISO, é amaDOR. Aquele que canta não é cantaGOZO, é cantaDOR. Aquele que pensa não é pensaPRAZER, é pensaDOR. Aterrissou, tem que pesar.

Quando se é jovem, bem jovem, a gente pensa que pode escapar à dor, que pode pegar um desvio, tomar um atalho. Com o tempo, a gente descobre que está só adiando o inevitável: a dor. Porque a dor que a gente não quis ter não se dissolve no ar, vira um arDOR que nos pega mais à frente na estrada para fazer os devidos ajustes.

Não vou dizer que tudo precise de dor, mas eu mesmo, em minha vida, só tenho um exemplo de coisa não-dor: uma certa amizade que tenho, amizade sem entreveros, sem lero-leros, sem mas-eu-queros. Essa amizade é a exceção de uma regra, e a regra é: tem que doer.

Dizem que é possível não aprender pela dor, desde que se aprenda pelo amor. Mas, cá entre nós, que Drummond não nos escute, até amar se aprende é doendo.

Depois de tanto desvaler a pena, e de depois dar de cara com ela, a mesma, desvalida, meses ou anos depois, já estou cansando da brincadeira de esconde-esconde e começo a preferir pagá-la logo, à vista.

Por que falo disso hoje, nesse domingo bonito, com sol ou com chuva? Porque os lançamentos do livro ACABA NÃO, MUNDO [leia abaixo a bela crônica da Debora sobre o lançamento em São Paulo] têm sido um grande exercício de "valer a pena". Cada precioso sorriso, cada impagável abraço entre autores ou leitores, tem a marca de pelo menos uma dor.

Tenho ouvido que já estava mais do que em tempo de sair o primeiro livro do Crônica do Dia. E a demora, eu sei, se deve unicamente à minha resistência a "valer a pena". O livro ficou pronto porque eu me aprontei.

De vez em quando, ainda me pego pensando na pena, e tenho que me despegar para sentir o valor. Tá doendo? Tá. No corpo, na mente, no peito, no além. Mas deixa doer. De penas são feitas as asas que eu voo bater.




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sábado, 8 de outubro de 2011

CRÔNICA UP DATE [Débora Böttcher]

Essa é uma crônica escrita no domingo, 09/10/2011, mas publicada em seu dia usual - o sábado.

Não, não estou a enganar o tempo com uma mágica excepcional; tal ocorrência só é possível por causa da tecnologia virtual, onde se pode ir e voltar nas horas sem prejuízo da cadência natural.

É que ontem, no tempo de fato, eu não poderia escrever sobre uma experiência que ainda não tinha sido vivida. Tentei. Comecei a escrever o texto anunciando o lançamento em São Paulo do livro 'Acaba Não, Mundo' que, como vocês sabem, é a coletânea de crônicas publicadas neste espaço.

Era um evento novo para mim. Diferentemente de muitos dos autores, que já publicaram um ou vários livros, a experiência me era inédita e surpreendente, pois nunca pensei, com seriedade, em lançar um livro ou mesmo fazer parte de um. E eu ia estar lá, de cara com um livro impresso, meu nome entre os de tantos que admiro. Isso só foi possível por conta da imensa generosidade de Eduardo (Loureiro Jr.), que me deu a 'oportunidade da inclusão' num espaço que abriga gente tão especial e talentosa.

Assim, não havia como escrever sobre isso senão na volta. De outra forma, seria uma sensação inventada, já que na vida real, bem sabemos, não é possível, mesmo que se queira e ardentemente se tente, espiar o futuro pelas brechas.

Além disso, nem minha melhor imaginação e expectativa poderiam adivinhar o momento com toda sua carga de alegria, medo e emoção que se sucedeu. É que sou uma pessoa tímida e a idéia de autografar um livro me deixou um tanto apreensiva.

Também fiquei ansiosa com a possibilidade tão real e palpável de conhecer os demais escritores que aqui escrevem (quinze estavam na terra da garoa, que, naturalmente, recepcionou a todos com uma chuvarada!), gente que admiro e gosto de um jeito muito especial, muitos sem nunca ter visto, muitas vezes sem sequer ter trocado uma palavra - caso, por exemplo, de Wishner Fraga e Edu Prearo. Também estavam lá Maria Rita, que convive comigo no espaço/lista Artemis, e Fernanda Pinho, com quem interajo também em divertidas minimensagens no Facebook, acompanhando seus dias tumultuados que ela consegue transformar em tiradas divertidas, que me arrancam gargalhadas na frente da tela. Como seria possível escrever sobre isso tudo antes de acontecer? Não era viável também falar sobre coisas que eu não imaginava, como a surpresa de encontrar Anna Christina Saeta de Aguiar, que sempre me envolve com sua escrita ora densa, ora divertida e delicada. E como prever uma conversa leve e alegre com Alexandre Havt Bindá, sem saber que ele era ELE, o irmão de Andréa Havt Bindá, a autora a quem o livro é dedicado, num texto tão profundo e expressivo...

Como descrever, antes, o momento de finalmente estar de frente com Carla Dias, que conheci primeiramente através da poesia há tanto tempo que nem me lembro, e com quem falei por telefone uma única vez há treze anos, na tentativa, na ocasião, de combinar um encontro que nunca ocorreu. E ela estava lá, bela e querida, meiga e amorosa como só ela pode ser, e me presenteou com um abraço tão aconchegante quanto atrasado por tanto tempo... Indescritível, ainda agora, narrar o que senti...

E como seria possível falar antecipadamente sobre a imensa felicidade de rever amigos antigos? Claudia Letti, Carla Cintia Conteiro, Eduardo Loureiro, Ana Gonzalez (essa, uma presença mais constante fisicamente pra mim e que é sempre bom encontrar), Kika Coutinho, Mariana Monici, pessoas que gosto tanto - e mais -, mas que por conta do dia-a-dia corrido - esse, que está sempre a nos engolir com urgências nem sempre relevantes - vejo tão pouco.

Impossível também imaginar as inúmeras pessoas desconhecidas, familiares e leitores virtuais que lá estiveram para nos prestigiar. Foi uma tarde tão especial que cravou na memória um botton - feito o que Maurício Cintrão (tão querido!) nos brindou. Coração, corpo e alma ficaram carimbados por esse dia único que Eduardo, com sua garra, persistência e coragem, nos proporcionou. O sonho que ele sonhou primeiro, se transformou numa realidade ímpar para todos nós.

Eu me sinto privilegiada e agradecida. Quando a gente menos espera, constata que a vida está sempre pronta a nos surpreender. Acontecimentos assim são os que tornam nossa travessia no Mundo - que, esperamos, não acabe! - um milagre cotidiano...

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