sexta-feira, 30 de setembro de 2011

ARGUMENTOS PARA FILMES DE TERROR
>> Zoraya Cesar

Cena um: Concentrada na delicada operação de expor as vísceras de um paciente, a médica demorou a notar a repentina inquietação da equipe. A instrumentadora remexia-se, o anestesista tinha sobressaltos, e ao zumbido dos aparelhos juntava-se o murmurinho das enfermeiras assistentes. Irritada, finalmente levantou os olhos, era impossível continuar uma operação daquele jeito.

O susto foi paralisante. Incontáveis insetos sobrevoavam a equipe e a mesa de operações, mantidos à distância pelos abanos agora frenéticos das assistentes.

Ela também, perdendo o controle, começou a gritar histericamente ao baixar os olhos e ver a barriga aberta do paciente coberta por enormes moscas verdes.

Cena dois: O paciente gritava alucinadamente, contorcendo-se na cama, o sangue saindo pelo nariz, os olhos esgazeados, apavorados, pedindo socorro. Levou dois dias para que um residente, resolvido a pôr fim àquela barulheira que incomodava os outros internos, sedasse-o. E em nome de algum resquício de humanidade que ainda tivesse, resolveu trocar um curativo mal feito do infeliz. Só para descobrir, com o estômago já revirando, que larvas haviam sido depositadas na ferida aberta do rapaz e o estavam comendo ainda vivo.

Cena três: o pai arrebentou a porta da sala de parto, pensando numa tragédia: ouvia os gritos da mulher, dos médicos, pensou o pior, mas nada podia se comparar ao que ele viu. Sua esposa, seu filho recém-nascido, os médicos, todos gritando e se debatendo, cobertos por grandes moscas esverdeadas.

Só mais uma cena, e você escolhe qual delas é ficção e qual é a mais assustadora: há algumas semanas, o centro cirúrgico de um grande hospital público no Rio de Janeiro — a segunda cidade mais importante do país! — foi invadido por uma moscaria de varejeiras, interrompendo os procedimentos e levando o horror e o pasmo a pacientes, acompanhantes, médicos. A sociedade não se manifestou.

Esse é o fato real, mais apavorante que qualquer ficção. Com o agravante de que a ficção é bem passível de se tornar realidade. A mosca varejeira não é só nojenta, ela pode matar. Ela deposita seus ovos em tecidos vivos (como feridas abertas) de qualquer animal de sangue quente, incluindo o homem, ou em substâncias orgânicas em decomposição. Em até 24 horas, as larvas começam a se alimentar dos tecidos vivos do hospedeiro, cavando a carne até os ossos e as cartilagens, provocando uma infecção chamada miíase, que leva à morte se não combatida a tempo. Se você passou batido, já meio enjoado, vou repetir: tecidos vivos.

Alguém, por favor, me explique, bem devagar, para eu entender, como pode acontecer de haver, nas imediações de um hospital, um local propício para moscas varejeiras. Agora pense na seguinte questão e, se puder, me diga o que é pior: a invasão das moscas ou o silêncio da sociedade? O meu e o seu silêncio?

Uma autoridade qualquer veio a público dizer que a culpa era da obra que estava sendo feita dentro do hospital. É muita desfaçatez! Como assim? Se essas moscas depositam seus ovos em matérias decompostas, e ainda não temos notícias de pacientes terem servido de berçário para larvas, será que existe cimento de sangue quente? Madeiras musculosas? Tijolos com feridas abertas? O que existe ali por perto, e provavelmente há muito mais tempo do que gostaríamos de admitir, é algum depósito de carne deteriorada, de substâncias putrefatas, algo impensável em qualquer país decente. Obras?

Mas, calma. Talvez eu esteja errada. Talvez haja mesmo outros depósitos de carne putrefata espalhados por aí, nem tão perto do hospital. Casas legislativas inoperantes, sedes de executivos indiferentes, tribunais arrogantes  parecem lugares perfeitamente adequados para as larvas das Cochliomyia hominivorax.

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quinta-feira, 29 de setembro de 2011

EDREDOM, CHEETOS & ROCK'N'ROLL
>> Fernanda Pinho

Era só eu manifestar meu desejo de trocar um prato de comida por um pacote de Cheetos que minha mãe avisava: "Quando você crescer, você vai saber o que é bom e nunca mais vai querer essas porcarias com cheiro de chulé". Cresci, até muito, me tornei adulta e nada mudou em relação a isso. O que aguça meu paladar infantil continua sendo Cheetos, pipoca, Toddynho, algodão doce, minichicken da Turma da Mônica e congêneres. Talvez esse tenha sido o único aviso da minha mãe que falhou e, certamente, também foi meu único gosto que permaneceu intacto ao passar do tempo. Fora isso, muito pouco do que me levava ao delírio antigamente ainda me apetece.

Cheguei a essa conclusão assistindo, pela televisão, aos shows do Rock in Rio do fim de semana. Ficar horas de pé, enfrentar fila, se esmagar na multidão, ter que fazer xixi na roupa devido à impossibilidade de deslocamento, aguentar gente suada se esfregando em você, levar cutucão e cotovelada de tudo que é canto, passar fome, sede, frio, calor e, na hora tão esperada, ver seu artista amado a metros de distância, como se fosse um pontinho brilhando no horizonte... Ufa! Cansei só de escrever. Isso não é mais pra mim.

Cheguei a cogitar a possibilidade de ir ao Rock in Rio esse ano, mas alguma parte mais esperta do meu cérebro me sabotou e eu não consegui comprar ingresso. Que bom. Acho que desenvolvi uma certa intolerância a excesso de calor humano. E falo com a categoria de quem já foi viciada em show, muvuca e confusão. Porque também não sou de dizer que não suporto mais alguma coisa sem antes conhecê-la bem.

Durante alguns anos da minha vida, minha existência se resumia a estudar e planejar o próximo show ao qual eu iria. De preferência, da minha banda preferida. E era uma existência até agitada porque planejar o próximo show envolvia muitos trâmites. Tinha que comprar ingresso, decidir quais amigas iriam, escolher a roupa, ensaiar as músicas, convencer a mãe, pensar no penteado (que desfaleceria vinte segundos após o início do show), armar uma estratégia para falar com a banda, uma estratégia para pegar palhetas, uma estratégia para pegar baquetas. Isso quando o show era na minha cidade. Quando era em outra, ainda envolvia outras urgências como organizar a viagem, comprar passagem, arrumar uma casa de amigo ou um hotel módico pra se hospedar, descobrir como chegar ao local do show e economizar centavos para tudo caber no orçamento estudantil. E, olha, sem dúvidas, foi a fase mais divertida da minha vida. Sobrevivi a shows debaixo de chuva, caronas com desconhecidos, confusões com a polícia, briga por causa de palheta... Já voltei para casa em êxtase de tanta felicidade. Já voltei para casa frustrada jurando (com os dedos cruzados) que nunca mais voltaria a um show. Mas o importante é que emoções eu vivi e a frase soaria perfeita se os tais shows fossem do Roberto Carlos mas, pelo nível dos acontecimentos, vocês podem imaginar muito bem que não eram.

Hoje seria. Hoje eu acharia um ótimo programa assistir a um show do Roberto Carlos sentadinha, e dos outros artistas e bandas que eu admiro também. Meu gosto musical não mudou, só se expandiu. Mas, agora, meu amor pelo conforto é maior que meu amor por qualquer artista. Estou adorando acompanhar os shows do Rock in Rio do aconchego dos meus edredons, enquanto me esbaldo com Cheetos, Toddynho, pipoca e minichicken da Turma da Mônica, é claro.

Aos que não me conhecem e ficaram curiosos para saber qual banda eu seguia, um segredinho aqui.

Imagem: www.uol.com.br 


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quarta-feira, 28 de setembro de 2011

O PÁSSARO >> Carla Dias >>

Há um pássaro que há dias mora na antena da minha televisão. Não sei que pássaro é, pois faltei às aulas que me formariam uma ótima taxonomista. Minha melhor amiga se desapontou com a minha inabilidade em reconhecer um pássaro, mas apenas para fugir da questão: também ela não sabe que pássaro é este que mora na antena da minha televisão.

A tristeza da minha amiga durou pouco, somente até ela perceber que sou uma colecionadora e tanto de pássaros de origami, além de mestra em desejar enveredar pelo aeromodelismo. Mas o que realmente me encanta é observar barquinhos de papel a navegarem na banheira.

Eles não afundam... Transformam-se. Misturam-se à água morna de um mar dos que sentem tremenda falta de sal, de sol, de céu. E que, cansado da brincadeira da menina, esgueira-se pelo ralo.

O pássaro parece até um dos bibelôs que enfeitam a minha estante. Imóvel, altivo e silencioso. Pouco canta o tal, respeitando o silêncio como poucos o fariam. Mas aqui embaixo, contemplando o telhado, olhos grudados no pássaro, inquieta-me essa discrição toda. Que pássaro não quer cantar seu canto, como se o show fosse somente dele, e mostrar as suas asas em voos ora delicados, ora ousados?

Minha amiga se senta ao meu lado, mordiscando um pedaço de pão de ontem. Isso é uma coisa dela. Adora pão amanhecido, como quem adora o fato de ter acordado, ao invés de ter se perdido na profundidade da noite. Há um quê existencial na relação dela com o pão que já perdeu o seu frescor, assim como um medo não revelado da morte. Eu já a alertei: quer comer pão amanhecido, tudo bem, porque gosto se discute sim, porque é saudável e nos ajuda a compreender e a respeitar o gosto do outro. Porém, dia desses - e eu digo isso a ela com a severidade de uma amiga de infância que nunca deixa de falar bem do perfume do pão que acabou de sair do forno -, ela terá de experimentar do novo, do fresco, do inédito. Porque a vida é assim, minha amiga. Não sou eu bancando a filósofa de botequim, tampouco tentando reconstruir a identidade dela ou apaziguar os seus desfechos. A vida é frente e verso e avessos e antigo e novo e tantas coisas e sentimentos diferentes.

Enquanto observamos o pássaro, tão silente e estático quanto agora há pouco, ela rasga o pão e me dá um pedaço, que eu mastigo lentamente, enquanto teço teorias sobre o pássaro que mora na antena da minha televisão.

Dentro de casa, o ator da novela se engasga e minha mãe não entende o que ele diz. Ela grita para que escutemos: culpa do pássaro que mora na antena sem pagar aluguel. Permitimo-nos permanecer alheias à braveza de minha mãe por causa da interferência na imagem da televisão. Talvez não tenha nada a ver com o pássaro que, eu juro, não mexeu uma pena, enquanto o ator se engasgava. Vai ver ele é um ator que se engasga nas falas mais complexas. Além do mais, interferência é o tipo de coisa que sofremos o tempo todo, e de tantas formas...

Minha amiga diz, sem tirar os olhos do pássaro ou o pedaço de pão da boca, deseducada, mas de um jeito ingênuo. Ela diz que sofreu interferência da revista que sua irmã mais velha adora ler, e diz que é a melhor para as mulheres deste mundo. Eu sorrio, porque sei que revista é essa, e de jeito nenhum ela tem distribuição mundial, portanto não há como ser melhor para as mulheres do mundo inteiro, já que elas nem sabem da existência da tal. E pergunto que interferência foi essa, e minha amiga engole o pão: de acordo com o teste que eu fiz, da revista, como mulher adulta, descolada e propensa à felicidade, preciso perder 10 quilos, urgentemente, renovar o guarda-roupa, frequentar salões de beleza da zona oeste e programar um lifting facial para daqui um ano, para me tornar, também, completa.

E caímos numa gargalhada que assusta o pássaro, que mexe a cabeça em busca da origem de tanto barulho, e minha mãe grita para ficarmos quietas. Abafamos as gargalhadas, mãos na boca, e eu me curvo para me aproximar um pouco mais da minha amiga e cochichar: se perder mais um quilo você vai sumir...

E caímos na gargalhada histérica novamente.

Minha amiga confessa, um pouco envergonhada, que deve ser bom ser completa, ao que dou de ombros, pregando que não somos carros para sermos equipados com todos os acessórios disponíveis para que outra pessoa desfrute dele. Somos sim pessoas, sintonizadas na frequência das mudanças que nos cabem, de acordo com o que cada um de nós experimenta.

O pássaro que mora na antena da minha televisão me inquieta. Não conta segredos, não promove performances de rock’n’roll. Com certeza não lê revistas que diz às mulheres, que sequer se tornaram mulheres ainda, que elas não são boas o suficiente para se sentirem completas, nem que seja até a próxima falta. Muitas delas passarão a vida tentando se transformar em um alguém que jamais serão.

A noite chega e minha amiga vai para a casa dela e eu para o meu quarto. Adormeço embalada em pensamentos sobre pássaros mudos e de asas quebradas, novelas engasgadas, mães esbaforidas, pão de ontem, amiga incompleta, revistas idiotas. E quando amanheço, sinto um vazio e saio correndo para fora de casa.

O pássaro que mora na antena da minha televisão continua lá, mas tenho certeza de que me olha nos olhos desta vez. E então ele começa a cantar uma bela canção que, tenho certeza, desbancaria muitas bandas com músicas no top list. E quando balança as asas, dou-me conta... O pássaro que mora na antena da minha televisão está de mudança. E ele parte, num voo suntuoso, destemido.

E enquanto a vida vai voltando à rotina, percebo que interferência do pássaro em mim, ela que rearranjou meus sentimentos. E enquanto a vida segue, eu me detenho neste pensamento: houve o dia em que o pássaro que morava na antena da minha televisão ganhou o mundo, como pretendo fazer daqui a alguns pães frescos.


carladias.com

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terça-feira, 27 de setembro de 2011

COISA DE CRIANÇA >> Clara Braga

Ultimamente tem se ouvido muita gente falando que a infância de hoje está perdida. Os filmes que são considerados infantis não são lá tão infantis assim, as músicas para crianças são terríveis, não se vê mais crianças brincando na rua, como tinha na época em que era divertido jogar amarelinha, pique-esconde, pique-pega e outras brincadeiras que juntavam as pessoas e facilitavam esse processo de fazer amizades novas.

Hoje em dia as escolas se tornaram lugares onde as crianças sofrem com o tal do bullying, que sempre existiu, mas que antigamente era chamado de brincadeira de criança. Afinal, quem nunca estudou com o “cabeça” ou com o “boca”? As arminhas de brinquedo que a gente levava para a escola para colocar água dentro, e fazer guerrinha de água no recreio, viraram armas de verdade que matam alunos e professores.

Tenho certeza de que armas não são coisa de criança, assim como também não são coisa de adultos, mas por mais perdida que essa infância esteja, o que é, afinal, coisa de criança?

Estou questionando isso porque, por mais que eu não goste de lembrar minha infância, por “n” motivos, gosto de lembrar de algumas coisas que fizeram parte dela. E foi nesse clima nostálgico que eu fui ao cinema assistir a um filme que eu assisti muitas e muitas vezes quando eu era pequena: O Rei Leão. Sim, ele está no cinema, e o melhor de tudo, 3D.

Não me lembrava do filme nos mínimos detalhes, mesmo tendo assistido muitas vezes, mas lembrava que achava muito lindo e também que eu costumava chorar assistindo, o que é normal para uma pessoa que chora até assistindo Caldeirão do Huck. Lembrava todas as músicas, e ia cantando junto conforme elas tocavam. Mas uma coisa que eu não lembrava era o quão triste era a cena da morte do pai do Simba, o Mufasa. Scar, o irmão dele, arma tudo para que ele morra e ainda o joga de um precipício de propósito. Depois que Simba vê o pai morto, Scar se aproxima e diz que ninguém nunca mais vai perdoá-lo, pois o pai morreu tentando salvá-lo, ele é o culpado pela morte do pai, e por isso deve fugir para nunca mais voltar. Logo que ele se vira e começa a correr para fugir, Scar manda as hienas atrás dele para matá-lo.

Tudo bem, o filme é lindo, tem outras cenas muito engraçadas, mas eu posso dizer que na minha época era considerado filme de criança um filme onde um personagem é capaz de matar o irmão com as próprias mãos e mandar matarem o sobrinho só por interesse de poder. Assim como também eram divertidas brincadeiras que diziam que o disco de vinil da Xuxa, quando rodado ao contrário, fazia adorações ao diabo.

Mesmo com essas e com muitas outras brincadeiras que mexiam com essas coisas que não são muito coisa de criança, eu acredito que eu tive uma infância muito boa, mas assistir a O Rei Leão adulta me fez pensar que talvez esse não seja lá um filme tão infantil assim. Na verdade, a pergunta certa a se fazer talvez seja: Será mesmo que existem coisas só de criança?

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domingo, 25 de setembro de 2011

O DONO DA BOLA >> Eduardo Loureiro Jr.

Estou me sentindo o "dono da bola". E para que o leitor — e principalmente a leitora distante do mundo futebolístico — não pense que estou me pavoneando, explico o sentido da expressão àqueles que são alheios às peladas de rua, às partidas de futebol da infância, disputadas em ruas sem asfalto ou calçamento, terrenos irregulares de terra batida.

"Dono da bola" é aquele menino que chega ao campinho improvisado com o mundo debaixo do braço. O jogo, no final de tarde, não começa sem ela — a bola — nem sem ele — o dono da bola. As traves, de cada lado do campinho, são feitas de qualquer coisa: pau, pedra, tijolo. As linhas são traçadas por qualquer pé descalço ou por uma chinela de borracha. Mas a bola não se improvisa. Se o menino é o dono da bola, a bola é a dona do jogo.

O dono, normalmente, tem como único talento a própria bola. Por ironia do destino — ou mesmo por sua inerente lógica — aquele que possui a matéria é desprovido de energia. O dono da bola só tem à bola, e mais nada. Não tem força, não tem velocidade, não tem ginga. Não fosse dono da bola, nem jogaria, ficaria no "time de fora". Mas ele é o dono da bola, é o proprietário do meio de produção da alegria, então a ele é concedida pelo laborioso proletariado a permissão de jogar — mesmo que o menino não saiba jogar direito.

Uma vez começado o jogo, os demais meninos devem controlar não apenas a bola — arisca em meio ao terreno não plano —, mas também o humor do menino que não sabe jogar. Há que se driblar as insatisfações do dono da bola, que fica minutos sem recebê-la porque não sabe o que fazer dela com os pés. Se o jogo é com goleiro, há que se convencer o dono da bola, com muita diplomacia, que ele deve ficar no gol. Se o jogo é de travinha, e não há goleiro, passa-se a bola para o seu dono de vez em quando, como quem paga um amargo imposto, inútil porque não se traduzirá em nenhuma obra social. Todo esse cuidado porque o dono da bola costuma ser um menino facilmente irritável que, se constantemente aborrecido, pode pegar o mundo, colocá-no novamente embaixo do braço e sair de cena, terminando o jogo antes do tempo, ocasionando um temido apocalipse.

Não pense o leitor — e principalmente a leitora — que o dono da bola é um tirano. Talvez até seja, mas é um tirano sofrido, que sabe da sua situação, de sua posição de inferioridade em relação aos jogadores de verdade, aqueles que fazem embaixadinha, dão banho de cuia, aplicam o drible da vaca e fazem os gols. No fundo, quando o jogo fica realmente bom, o dono da bola tem vontade de deixar o campo e assumir a função de gandula, ou até mesmo de sair simulando uma contusão, mas deixando todo mundo tranquilo: "Vocês ficam com a bola e deixam lá em casa quando terminar o jogo".

Pois é assim que estou me sentindo. Sentimento trazido à tona pela leitura do livro encantador "As coisas simpáticas da vida", que me foi presenteado por seu autor, Felipe Peixoto Braga Netto, que já escreveu para o Crônica do Dia e que é um dos cronistas do livro ACABA NÃO, MUNDO, que foi lançado ontem aqui em Belo Horizonte. O livro ACABA NÃO, MUNDO — e este site/blog de onde as crônicas foram selecionadas — é a bola do qual sou uma espécie de dono. As mineiras Paula Pimenta e Fernanda Pinho são, assim como o Felipe, os jogadores de verdade. Eles são os escritores, aqueles que produzem maravilhas com as palavras, aqueles que terão seus livros individuais figurando nas estantes da eternidade.

Paula, Felipe, Eduardo e Fernanda
 Escritores também são aqueles que me aguardam em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Fortaleza, para os próximos lançamentos. Chegarei em cada cidade com a bola, o mundo, o livro embaixo do braço. Jogarei nos lançamentos com a complacência dos autores bons de bola, e depois, após 17 de novembro, colocarei o mundo, a bola, o blog embaixo do braço e voltarei para casa, imaginando o que fazer para, no próximo jogo, ser mais do que simplesmente o dono da bola.



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sábado, 24 de setembro de 2011

O LIVRO [Debora Bottcher]

Hoje acontece, em Belo Horizonte, o primeiro lançamento do livro 'Acaba Não, Mundo', que, como vocês - leitores diários ou eventuais - já sabem, é a coletânea de 13 anos de crônicas desse espaço.

Um frio me percorre a espinha quando penso na ocasião e só não invejo os autores que lá estão, porque daqui a quinze dias passarei por esse prazer. Um pouco de dúvida me assolou esses dias, quando li e reli meu apanhado de crônicas: será que escolhi mesmo os melhores textos que escrevi? Confesso que acho que não, mas agora só posso esperar complacência dos leitores.

E aí peguei-me pensando nos (des)caminhos que um projeto percorre até se ver assim, pronto, do jeito que foi idealizado, desejado e, especialmente, muito trabalhado.

Pensei na ousadia maior de Eduardo Loureiro, que em nenhum momento titubeou, apesar dos tropeços, dificuldades e marés do avesso - e se pensou em desistir, logo aprumou-se de novo, valente e determinado a não deixar nenhum revés lhe roubar o sonho.

Que fique registrado: lançar um livro não é fácil. Tanto mais quando envolve não só textos próprios, mas de outras tantas pessoas. Mesmo que se tente limitar as opiniões e decisões mais relevantes a uma 'pequena comissão', o processo exige grande dose de paciência e diplomacia, porque é como pisar em ovos - e não se faz uma omelete sem quebrá-los, diz o ditado. Mas Eduardo, diga-se de passagem, conseguiu se virar muito bem na tarefa de líder driblando os entraves e priorizando os laços para não desfazer (ou estragar) amizades. Essa é uma virtude que precisa ser exaltada - além da dedicação exacerbada que ele conferiu a esse projeto.

Por isso - e por todos esses anos de convivência e oportunidade - expresso meu agradecimento por ter sido uma das escolhidas para fazer parte desse livro.

Tomara ele voe sem limites - não é mais nosso! -, deleitando pessoas de todos os cantos do país - essas que já nos lêem aqui e outras tantas que esperamos cativar...

Aí, então, o sonho estará completo.

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POEMAS NEGROS >> Leonardo Marona

“sem verbo, sem adjetivo”

para Miles Davis

ainda não de todo corpo a verdade,
sem verbo ainda a pele do processo,
acima de tudo, um deslize adjetivo,
dentes e areia nos olhos da penumbra,
miles de minha infância, aleluia, sim!
escultura de metal com molas, prego
no caminho em música, cavalgadas
de paz como feitiço, chapéu da noite
dentro dos ossos, escola da exigência,
frequência de rua, tempo de gueto,
pulso da abstração, catarata on/off,
agulhas de mel no topo do sentido,
um dia, talvez, elegância da margem,
dança com dois punhos de algodão,
órgãos em drama de semi-esperança,
assim já não, nunca mais, agora outro
deserto memória da agonia em pêlos,
sem um verbo, desta vez sem adjetivo,
prazer de íris, maná, dilatação do susto,
culhão de maremoto, show das raças,
verbo transe da massa, óculos de raio,
colisão de vara verde na escola do tédio.

“rebordosa”

é preciso saber esperar,
meia hora e nada mais,
um banho e quem sabe
uma saudável inclinação.

sincero consigo mesmo,
este deve ser o mantra,
penar diante de si mesmo,
o nariz assado, a mente
inquieta, abstrata, torpe.

as leituras russas jamais
ajudam tipos como este.

hás de meter calo a grito,
doente que não se diria,
faminto de muita sorte.

afagas teu crime diário,
desces aqui um pouco
abaixo da linha sisuda.

bailemos, pois, orfanato!
sejamos as presas aflitas.
lá onde não há disfarce
só pode ter restado vida.

“os preocupados”

eu creio com firmeza que a vida
é promovida pelos preocupados.
os preocupados são os analistas
da vida, ou seja, a vida só existe
pela preocupação de que se forma.

mas ocorre que jamais um vive
preocupado em promover a vida.
e os que bradam “eu vivo a vida!”
são promovidos à ação, contudo,
eles não podem ser os mandantes,
eles estão renegados ao progresso.

no meio-tempo, os preocupados
sem jamais viverem eles exercem
a dádiva do câncer, o riso divino.

a força do amor é do abandono,
os preocupados amam e deixam
para os sorridentes escravizados
a alegria doce de não ver e agir.

"have some respect for an old west indian negro"

o problema é todo nosso: os saques sem teoria.

engolimos a idéia de que buscássemos modos
de aliviar a recente decepção revolucionária.

éramos ainda bebês, e nossos pais sentiam-se
como covardes, derrotados por uma ideia tola.
eles não estavam ali dizendo, firmes e fortes:
“será duro ainda, não acabou nada, estou aqui”.

não, nada disso aconteceu, apenas apreendemos
os frutos do amor e não tocamos mais a semente.

nossos pais, logo ao lado, falavam de outra coisa
quando fomos tragados para uma idéia sem fim,
quando abrimos as partituras infestadas e demos
uma boa lição de civilidade, todos egoistamente
atrás de conforto, a cargo de pequenas caridades.

nascemos da caridade dos tempos, não engolimos
pedras, muito pior: acostumamos com a aspereza
no fundo da garganta, e amamos demais, no fim,
estamos perdidos porque temos um amor amoral,
o único amor que, agora sabemos, é amor demais.

as mortes não serão grande coisa por um tempo,
pais e filhos sentarão ainda à mesa sob risos frios.

uma avalanche não se faz de gelo duro, mas com
uma longa exposição ao sol, letárgica exposição
ao que sabemos chamar vida real mas jamais será
outro mundo como aquele, que resolvemos vestir
com determinação e poucas lágrimas, e a frieza
explícita dos encontros de putaria entre líderes
nas salas barbitúricas onde, sem mais demônios,
fizemos nossas regras e pagaremos com sangue.

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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

OS INESQUECÍVEIS 27 >> Fernanda Pinho




Domingo faço 28 anos. Se der tudo certo nos próximos três dias, não terei sucumbido ao Clube dos 27. O que é absolutamente normal, já que eu não uso drogas nem sou uma estrela da música mundial. O que não é normal é a raça com que essa idade, meus 27 anos, se instalou na minha vida. Nunca vi tanta disposição para ser uma idade inesquecível. O que você pretendia? Que eu passasse minha vida toda lembrando "ah, isso aconteceu quando eu tinha 27?". Talvez você tenha conseguido. Talvez. Não posso garantir que as emoções dos próximos anos não venham a te ofuscar, meus 27 anos. Mas comparando aos seus antecessores, você se sobressaiu, reconheço.

Se sobressaiu porque me fez lidar com a perda, de modo que eu nunca havia lidado antes. Ainda não estou preparada para fazer o discurso de "foi um grande momento de crescimento pessoal e blablablá". Aliás, não sei se estarei preparada para assumir isso um dia. A verdade é que ninguém gosta de sofrer - ops, quase ninguém! Retrato-me com os masoquistas, antes de ser acusada de discriminação. Lindo seria se nós pudéssemos passar por momentos de crescimento pessoal e blablablá apenas com acontecimentos felizes. Mas a vida não é assim, a morte é nossa única certeza e não podemos evitar que as pessoas que amamos se vão. Se não serviu para eu crescer como pessoa e blablablá, pelo menos me fez perceber o quanto eu posso ser forte e ser força.

A força, aliás, é uma palavra que bem define o que o último ano significou para mim. Eu precisei de força em muitos momentos e me sinto orgulhosa de verdade de tê-la encontrado em algum lugar dentro de mim e dentro dos outros. Seja para superar perdas verdadeiras, seja para superar chateações (que, na época, eu julguei como "problemas" e hoje eu vejo que não eram nada), seja para me posicionar.

Nunca precisei me posicionar com tanta veemência. Assumir minhas ideias, minhas convicções, tomar partido, bancar minhas opiniões, bater o pé e suportar as consequências. Entre amigos, em família e, principalmente, no trabalho. Depois de seis anos formada estou, pela primeira vez, dando o sangue pelo jornalismo. E muito satisfeita por isso.

Sabe, com tudo o que eu passei esse ano, é bom que eu tenha chegado até aqui podendo dizer, sinceramente, que eu me sinto satisfeita. Pode ser que isso signifique que, no fim das contas, foi mesmo um ano de crescimento pessoal e blablablá.

E para fechar com chave de ouro este ciclo, um acontecimento especial no meu último dia com 27 anos.

O primeiro evento de lançamento do livro "ACABA NÃO, MUNDO" que, por um acaso (ou não), acontecerá na minha cidade.

Parabéns pra mim, pelo aniversário. E parabéns aos colegas de blog, pelo livro.

 Imagem: www.sxc.hu
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SERVIÇO:
Evento: Lançamento do livro ACABA NÃO, MUNDO.
Local: Livraria Café com Letras,
           Rua Antônio de Albuquerque, 781, Savassi, Belo Horizonte.
Data: 24 de setembro, sábado
Horário: 11-13h.


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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O EXTRAORDINÁRIO >> Carla Dias >>

Acordei com o coração meio apertado. Sabe os dias em que nos levantamos e parece que, apesar de muitas coisas estarem fora do lugar, o que é perfeitamente normal, há essa coisa que não sabemos localizar ou reconhecer, e que tem um peso a mais? E certamente tem mãos, ainda que imaginadas, porque nos aperta o coração ao mesmo tempo em que o afaga.

E me veio à cabeça um pensamento que já é antigo, porque eu costumava tê-lo quando ainda era uma menina. Depois ele adormeceu, e deu de hoje acordar. O pensamento que inquiria: qual foi a última coisa extraordinária que você fez?

A diferença é que, desta vez, eu fiquei em silêncio.

Lembro-me de responder a essa pergunta com as armas que tinha: quem eu era, as situações que vivia. Como quando cuidava da casa para que, quando chegasse, minha mãe não precisasse superar o cansaço que acumulara durante o dia para lidar com os nossos, e pudesse se deitar mais cedo, preparar-se para o dia seguinte, para a suntuosa repetição do árduo. Eu tinha lá meus doze, treze anos de idade, mas já respondia tal questão, confidenciando a mim mesma: foi extraordinário oferecer a minha mãe o tempo de descanso que ela merecia.

A cada dia era um acontecimento nomeado extraordinário, e naquela época, eu sequer sabia exatamente o significado disso. Porém, era extraordinário conseguir puxar baldes de água lá do poço e carregá-los, escada acima, para lavar a louça, para banhar os pequenos. E também perceber as folhas das árvores estampadas no chão de terra, depois de o quintal ter sido varrido. E fazer companhia a minha avó na hora da Ave Maria, para que pudéssemos ampliar os pedidos, mas principalmente, dar conta dos agradecimentos.

Acontece que, desta vez, eu recebo a pergunta com meu jeito de adulta com uma boa cota de desapontamentos. Um olho no peixe e outro no gato, porque não consigo reconhecê-la da mesma forma que antes.

Dou-me conta de que não me convence mais o qual foi a última coisa extraordinária que você fez? Assim como a definição de beleza, o extraordinário depende, completamente, da visão de seu autor. Percebo que há mais valor ainda em questionar: qual foi a última coisa extraordinária que a vida fez por você?

O que realmente me faz compreender o quão longe da sutileza do extraordinário eu ando, é que não há resposta que não seja pensada e repensada. Antes, lá na juventude da ansiedade em viver a vida, eu nem precisava pensar para responder: ajudar a construir o altar da parada da procissão, colocar meus irmãos na cama, não muito tarde!, jogar queimada com as primas e os primos, colher o chuchu e cozinhá-lo para o jantar, levantar-me e ir para a escola aprender o futuro.

O que aperta meu coração, creio, é essa incapacidade de reconhecer o extraordinário no que, adulta que hoje sou, tornou-se a minha lista de necessidades. Acordo e me levanto com o dia programado e longo nos afazeres. E no final dele, aproveito as horas que me restam das 24 prometidas, e cumpridas, para pensar o que foi feito. E então, como pensar no extraordinário se, distraidamente, caminhamos em círculos?

Porém, tenho visto o extraordinário no outro, o que me empolga e traz alento. Como a forma educada com que o senhor ajuda o outro, afetado fisicamente pela idade avançada, a entrar no ônibus. Além da ajuda em si, há o sorriso desse homem, e ele é tão sincero que me comove. Sinceridade me comove.

Quando percebemos que não somos os verdadeiros autores dos acontecimentos extraordinários, tendemos a nos sentir desapontados, mas isso passa. Ainda que sejam esses acontecimentos cotidianos, pelos quais passamos sem a eles conceder a real importância. Acontece que nós gostamos da ideia de sermos autores, de celebrarmos a benevolência, como se tivéssemos, literalmente, a cultivado e feito florescer em solo infértil. Um pequeno milagre. Porém, o extraordinário vai além, tornando-nos instrumentos desses milagres, permitindo que o feito não seja apenas para nós mesmos.

Imagem: unprofound.com

carladias.com

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terça-feira, 20 de setembro de 2011

LIÇÕES DE CACHORRO >> Clara Braga

Para quem tem o costume de me ler aqui às terças-feiras, já notou que eu tenho certa adoração por tudo que se trata de cachorros. Seja filme, música, foto, vídeo, enfim, tudo que está relacionado a cachorros mexe um pouco comigo.

A última de cachorros que eu vi foi um e-mail. Um e-mail lindo, mas sem ser apelativo como muitos dos filmes que já me fizeram chorar.

O e-mail tinha uma foto lindíssima de um cachorro e a seguinte frase: “Se um cachorro fosse professor, você aprenderia coisas assim...”

Antes de continuar a ler, eu mesma parei para pensar nas coisas que meu cachorro me ensinou quando vivo, e aqui faço um convite a todos os leitores para que parem e pensem no que vocês acham que a gente poderia aprender com cachorros...

Para quem não gosta muito de cachorros, com certeza não há muitas coisas boas das quais a gente pode tirar proveito, afinal, cachorros fazem xixi no tapete da sala, furam nossas meias, ocupam nosso lugar na cama quando estamos dormindo e nos exigem muito tempo, pois são muito dependentes.

Já para quem é apaixonado por cachorros, com certeza uma das primeiras lições que vem na cabeça é a da fidelidade. De fato essa é uma lição que nós estamos precisando aprender ultimamente, mas me surpreendi com a quantidade de outras coisas interessantes que deveríamos aprender.

Aqui vão algumas dessas lições que todos deveríamos guardar para termos uma vida melhor: “quando alguém que você ama chega em casa, corra ao seu encontro”; “mostre aos outros que estão invadindo seu território”; “corra, pule e brinque todos os dias”; “tente se dar bem com o próximo e deixe as pessoas te tocarem”; “não importa quantas vezes o outro te magoa, não se sinta culpado... volte e faça as pazes novamente”; “nunca pretenda ser o que você não é”. E a que eu considero a melhor de todas: “quando alguém estiver nervoso ou triste, fique em silêncio, fique por perto e mostre que você está ali para confortar”.

Sei que parece bobo, e algumas pessoas devem estar achando que eu surtei querendo aprender com os cachorros, mas para mim eles ainda parecem muito mais racionais e inteligentes do que muito ser humano por aí.

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segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A PEQUENA MAIS VELHA >> Kika Coutinho

Foi assim, de um dia para o outro.

Saí de casa rumo a maternidade e deixei um bebê à minha espera. Uma menina de 1 ano e 7 meses que era um bebê...

Eu a abracei forte antes de entrar no carro, carregando minha malinha: “Filha, a mamãe vai sair com o papai para buscarmos a Olivia. Quando a gente voltar, traz a sua irmãzinha junto, está bem?”. Ela me olhou, desconfiada, encostou a mão na minha barriga de nove meses, fazendo uma referência à tal irmã, de que tanto falávamos. Senti meu coração apertar, um misto de preocupação e susto me invadiram, e meus olhos ficaram quentes num instante, quando dei mais um abraço naquela que, até então, era minha filha única.

Como tinha sido diferente da primeira vez... Quando ela estava para nascer, eu não deixara nada para trás. Ninguém me esperava em casa, ninguém gritava por mim à noite, ninguém erguia os bracinhos na minha direção quando se machucava, ninguém gargalhava com qualquer bobagem que eu fazia. Ninguém. A vida era de uma leveza tão grande que chegava a ser vazia. Nada com o que me preocupar, e eu ainda vivia em tensão. Pura tolice. A tolice dos jovens, eu pensava, como se já me tornasse velha.

Passou rápido, logo eu estava na sala de parto vivendo tudo de novo, tão depressa que tinha a nítida sensação de tudo aquilo ser um enorme déjà vu.

Naquela noite de inverno, quando a minha segunda filha nasceu, eu vi o quanto um bebê poderia ser pequeno. Tinha me esquecido quão frágeis e escorregadios eles eram...

A mais nova gritou quando a tiraram de minha barriga. E a mais velha, longe dali, jantava na casa dos amigos: “Comeu tudo mamãe!”, ela me contaria depois, como sendo o fato mais importante da noite.

Nesse dia seguinte, quando ela chegou na maternidade para conhecer a irmã, correndo com suas perninhas roliças e falando atropeladamente, foi quando tomei um susto. Ela não era mais um bebê... Era uma moça grande a minha filha, onde estava o bebê que eu deixara em casa?

Foi de um dia para o outro que minha filha mais velha cresceu, e tornou-se a “mais velha” sendo ainda tão nova. Ela assiste à caçula desenvolver-se e tenta se situar na nova rotina que a vida lhe impôs.

Eu sinto um misto de alegria e dor, um estilhaço no coração quando vejo que ela se frustra, tentando caber nas pequeninices da irmã, que não lhe servem de maneira nenhuma. Ela já não tem meu colo por tanto tempo, já não tem meus pulos e até mesmo minha alegria - antes tão farta e abundante. Vez ou outra, fica perdida nas noites em claro que um recém-nascido nos oferta.

Mas minha filha mais velha puxa-me pela mão com tamanha força e empenho, que me levanto do combate e lhe ofereço o meu amor. Ela é uma menina grande, afinal, e, assim também tornou-se o meu amor. Ainda maior...


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domingo, 18 de setembro de 2011

AO PERÍNEO >> Eduardo Loureiro Jr.

Meu caro amigo Períneo,

Vou direto ao assunto porque, entre amigos de longa data, não cabem cerimônias.

Semana que vem, tenho compromisso importante e você, como sempre, se fará presente. Mas, pedido de amigo, não estrague a festa, Períneo. Você sabe do que estou falando...

O acontecimento é de regozijo, estarei acompanhado de esposa, família e amigos. O clima é de celebração, não venha com as suas. Você é bem-vindo, Períneo, mas maneire.

Eu sei que o imprevisto troça de qualquer planejamento, que a Lei de Murphy impera, que o pop não poupa ninguém e que quem tem cu, tem medo. Mas não inventa de fazer tempestade em copo d'água, Períneo.

Essa sua mania de cerrar-se em si mesmo é dose! Baixa a guarda, macho! Nem tudo na vida é exame de próstata, tem também biodança. Relaxa, Períneo! Relaxa...

Não tenha medo de perder o controle, deixa que eu mantenho o domínio. Não dá pra sorrir nem curtir o festejo com você amuado, contraído em seu canto. Desenrola, Períneo.

Quando você se soltar, você vai gostar. O pessoal é bacana. Você se lembra da Paula, do Felipe, da Fernanda? Eles estarão por lá. Mineirada de primeira, de fralda ou de alma. Se abra para o abraço, Períneo.

'Tá pensando que o maior prazer da vida é uma boa obrada. Expanda os horizontes, meu amigo. Há alegrias surpreendentes em quase tudo. Não trave no primeiro susto, Períneo. Afrouxa que melhora.

Agora deixa eu ir, tenho que aprontar umas coisas antes da viagem. A gente se vê por lá. E você já está avisado. É pro seu próprio bem. Vamos ser feliz, Perínio.

Abração,

 Eduardo

- - -
SERVIÇO:
Evento: Lançamento do livro ACABA NÃO, MUNDO.
Local: Livraria Café com Letras,
           Rua Antônio de Albuquerque, 781, Savassi, Belo Horizonte.
Horário: 11-13h.





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sábado, 17 de setembro de 2011

CONURBAÇÕES E PREOCUPAÇÕES
[Heloisa Reis]

Morar perto de áreas mais verdes, escutar um pouco de silêncio, ver alguns pássaros mais frequentemente era um sonho que a vida me fez realizar, e que me traz um agudo sentido de gratidão todos os dias ao chegar e sair de casa.

A sensação de opressão das ruas com o excesso de movimento, e a de insegurança gerada pelas notícias diárias parece que se desvanecem na “ilha condomínio” onde muitos de nós moramos.

Ilusória imagem!

As cidades que percorro todos os dias estão crescendo - conurbando-se, como se diz em Geografia - encontrando-se e interpenetrando-se, gerando mil problemas administrativos que um município diz ser prioridade do outro cuidar.

Mas quem mora num município muitas vezes trabalha em outro e, provavelmente, faz suas compras e diverte-se em outro. Assim, vivemos uma vida agitada, correndo de um lugar a outro, enchendo as estradas de movimento - e de problemas...

No entanto, a cidade sadia é fruto do trabalho de toda a sociedade, de sua história e das relações de integração entre as necessidades humanas e o meio ambiente. Sua existência gira em torno de sua organização, produção de bens e trocas materiais e culturais integrando na sua paisagem a diversidade que a vida urbana proporciona. Precisamos de calçadas limpas e espaços públicos cuidados.

Nossas reais necessidades são muito diferentes da propaganda do lançamento imobiliário que diz: “Venha viver com liberdade em condomínio fechado!”

A formação das metrópoles e megalópoles é um fenômeno mundial e tem apresentado o desafio de se criar uma gestão mais democrática desses espaços que possa oferecer qualidade de vida dentro do tão celebrado e pouco aplicado conceito de sustentabilidade ambiental e das fundamentais necessidades humanas de trabalho, lazer e cultura.

Precisamos sentir que pertencemos aos lugares por onde andamos, que podemos trocar experiências de vida no nosso cotidiano, precisamos crer em ações mitigadoras da violência que não apenas camuflem a desordem e realmente incentivem os nossos melhores sentimentos em relação ao nosso vizinho.

Enfrentar os absurdos do dia a dia, frutos do des-planejamento que vivemos, exige de nossa parte a coragem de mudar paradigmas e de buscar a realização de algumas propostas de aproveitamento de todos os potenciais criativos do viver coletivo nas cidades. Basta pesquisar um pouco, que encontramos experiências com históricos de conquistas positivas em direção a sustentabilidade ambiental e cultural com forte ênfase na qualidade de vida e até na mitigação dos problemas que hoje vemos decorrentes das mudanças climáticas.

São Paulo, a metrópole - quase megalópole - enfrenta este desafio já que, sendo uma das maiores regiões metropolitanas do planeta, apresenta-se atrasada e defasada no seu conceito e estratégia.

Mas eu sei que a solução existe - e sei que você também sabe.

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sexta-feira, 16 de setembro de 2011

SENTADO À BEIRA DO CAIS >> Zoraya Cesar

Sitting on the dock of the bay, wasting time ahhh ahhh (Otis Redding - Steve Cropper)

Você encontra um banco no lugar ideal: à meia-sombra - debaixo de uma árvore que, a cada suspiro da brisa amena, derrama-se em aromas sutis; à meia-luz, iluminado pelo Sol que, generosamente, insiste em permanecer no céu e aquecer o frescor do dia que se vai.

E de frente para o cais.

A leveza do momento é tão imensa que o silêncio não é quebrado, mas preenchido, pelo grasnar dos patos e pela voz infantil que brinca na casa quase ao lado. Seu coração começa a bater no mesmo ritmo suave do marolar nas pedras da praia, e você se sente feliz. Sittin' in the mornin' sun, I'll be sittin' when the evenin' come… / Watching the tide roll away, Ooo, I'm just sittin' on the dock of the bay, Wastin' time…

De seu posto privilegiado, você acompanha – mais com o espírito do que com a consciência – o navegar dos poucos barcos que enfeitam a paisagem.  Cada um seguindo para seu porto, sem pressa, sabendo que seu destino não se resume a deixar ou pegar passageiros. Pois esta é uma missão importante, não se “resume a”. Watching the ships roll in / And then I watch 'em roll away again, yeah.

Tudo ao redor lhe traz paz. Toda a paisagem lhe enche os olhos, o corpo, a alma. Calmamente, você espera o seu barco. Tão parte da paisagem quanto o banco no qual agora está esparramado – a quem olhasse de longe, você pareceria uma estátua há muito tempo ali colocada.  I'm sittin' on the dock of the bay, Sittin' here resting my bones / And this loneliness won't leave me alone…

Tão imerso na perfeição do momento que nem reparara na senhora que, vinda do atracadouro, agora passa por você lentamente. Ela é gorda, forte, e suas roupas devem estar lhe causando muito mais calor do que a tarde apenas morna oferecia, pois está suada e avermelhada.  Seu andar é dificultoso, e ela caminha pesadamente pelo cais.  Aparenta ter 70 anos. Você começa a divagar sobre a vida que teria levado, na parte que lhe coubera nesse latifúndio (João Cabral de Melo Neto, Morte e Vida Severina). Aos 70 anos, tantas dores e perdas já passaram por uma vida, que talvez nem sejam mais contabilizadas. Mas estavam ali, no andar dela. It's two thousand miles I roamed / Just to make this dock my home.

Aguardando seu barco na tarde que se despede delicadamente, interrompidos seus devaneios, você pensa que àquela idade, ela já perdeu os pais. Talvez um filho. Um companheiro. Já perdeu alguns amigos. Talvez um bicho de estimação muito querido. A capacidade de se adaptar às circunstâncias.  A saúde plena. Não falemos dos ganhos. Falemos das perdas que, depois de uma vida inteira, empapam de cansaços aquele andar. O que ela vê, você se pergunta, ao olhar para frente? Looks like nothing's gonna change / Everything still remains the same…

O silêncio e seus pensamentos são surpreendidos pela voz roufenha e arfante dela, que, voltando-se, pergunta se você sabe onde fica o ponto de ônibus para ***.  Você não tem a mínima idéia, mas fala do barco que está esperando.

- Não - ela rebate -, estou aqui há muito tempo. Não há mais barcos. Não há mais nada – com certeza tão profunda, que você se amedronta. E vai embora, carregando seu corpo e sua vida com dificuldade.

Mas você reage rápido e, correndo atrás dela, tenta mostrar-lhe o tíquete com o horário dos barcos, enquanto ela continua repetindo, zangada até, e triste toda vida, que não há mais barcos, não há mais nada. Só quando entende que, por acaso, você também vai para ***, ela se acalma. E volta para o atracadouro onde, sentada, espera, olhando para o lago. Ela não parece ver os cisnes, nem ouvir a marola, nem sentir a brisa no corpo, nada. Apenas espera o seu barco. 'Cause I've had nothing to live for / And looks like nothin's gonna come my way.

 “Por acaso”? Que acaso? O Divino providenciou que ambos estivessem na hora e no lugar certos: um, para receber ajuda; outro, para dá-la. Mas se quisermos falar de sorte, você, no fundo, sabe que o mais afortunado dessa história foi aquele que aproveitou a oportunidade para ajudar. Pois da próxima vez talvez seja você a precisar de que algum desconhecido sitting on the dock of the bay, wasting time ahhh ahhh saia do seu conforto e insista para você esperar pelo barco. Porque, amigo, sempre chegará o dia em que precisaremos de ajuda, não importa quanto tempo passemos aqui, nem quanto peso carreguemos, se sabemos ou não apreciar um final de tarde. No final, pegaremos todos o mesmo barco, seguiremos todos para o mesmo destino.

E seria bom ter alguém que nos mostrasse o caminho certo.

Now, I'm just gonna sit at the dock of the bay / Watching the tide roll away / Oooo-wee, sittin' on the dock of the bay / Wastin' time…

 

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quarta-feira, 14 de setembro de 2011

CAIR EM SI >> Carla Dias >>

Enveredou no seu sorriso a nitidez da sinceridade. Dizer não se é verdade, por que deveria me ferir? Mas fere, apunhala devagar, como se cavasse meus poros em busca de novidades, o desfecho da canção triste, orquestrada pelo silêncio, salientada pelos riscos da lâmina do desacerto. Valeu-me um sorriso de partida depois do cumprimento: até mais ver.

Desde então, pouco eu vi, e não foi a cara da rua ou a dos irmãos, das irmãs, dos primos, da prole dizimada pela conquista dos seus próprios espaços, nos quais reinam sem a permissão dos padrões, patrões infiltrados na pseudo-hierarquia da liberdade. O que eu vi veio de dentro das vestes, além, do dentro da carne, aquém, da infertilidade da eternidade, do som quase mudo do sangue a pulsar em veias saltadas. Enxerguei através do espelho e enxertei na minha realidade a companhia sublimar da matemática ao somar a cada dia a espera pelo seguinte, e a subtrair a ansiedade tresloucada.

Não que eu estivesse alimentando a comilança do falatório sobre mim, sentando-me à mesa para degustar as probabilidades de eu precisar de freio para uma provável loucura. Será que eles não se dão conta das delícias que a loucura oferece? Esquecer a data do aniversário, comer com as mãos, ignorando a etiqueta, falar baixo demais e ainda brigar por não ter sido entendida, declamar poesia do alto de uma árvore, lembrar dela debaixo da água de um lago, enquanto cronometrando o tempo que consegue ficar submerso, petrificar aqueles que se matam por tradição ao dizer sobre eles as calúnias catedráticas de um louco: cafetões de destino! Bastardos filhos da órfã compreensão!

Refleti sobre o caminho que venho trilhando, desde aquele sorriso de negação, e não posso dizer que morro de felicidade pelo feito, porque não fui serva da loucura como deveria ter sido, mas sim irmã do acaso, deixando-me levar pelo proveito do outro, ao invés do meu próprio. E não adianta me dizerem que isso tem a ver com virtude, que é bom quando a pessoa se desapega de tudo e deixa de lado o egoísmo. Sem o egoísmo o ser humano para de pensar como indivíduo e qualquer outro lhe toma a alma em posse. O egoísmo também tem a faceta de ser certificado de propriedade, e na minha tolice desenfreada, acabei perdendo minha história por conta da usucapião de alguns que se instalaram na minha realidade.

Manhã de segunda-feira, as pessoas se preparam para o dia como se fossem encontrar um amante apático, pronto para bater o ponto na paixão acidental que não consegue alforriar. Coloco a minha melhor roupa, a pior aos olhos da minha irmã mais velha, a mais bonita na fotografia tirada em uma quarta-feira de outono, a mais duvidosa para a entrevista de emprego, e a mais a ver comigo, de acordo com a cobradora da estação de trem. Tantas possibilidades.

Chego ao local, tiro do bolso o envelope com as recomendações do meu irmão, nas quais certamente ele não acredita. Favor emprestado, a ser cobrado, posteriormente, talvez com uma garrafa de vermute eu resolva este problema.

Amargo por um instante e então entro: em que posso ajudá-la? A recepcionista sorri, mas não sorri, faz de conta que sorri, trabalha para sorrir? Não! Sorri para trabalhar. Estão me esperando, e entrego a ela o papel meio amassado, ela me lança um olhar de quem não viu as gavetas arrumadas como deixou pela manhã, de quem seria a culpa? Minha, talvez, ao menos por hoje. Aguarde.

Sento-me. Fotografias enquadradas cobrem as paredes, um nudismo comportado, uma criança brincando, um homem dirigindo, enquanto na sua face rola uma lágrima, uma mulher deixando uma lágrima rolar na sua face, enquanto dirige seu carro, um pássaro - águia? -, um castelo, dois pares de pernas enroscados: dissertação sobre o tudo que o nada conta. O erotismo da vigília.

Chama meu nome a recepcionista de sorriso contratado e estira o braço apontando para onde devo ir, e uma porta semiaberta me espera. Portal do sacrifício? Do paradisíaco sentido da contemplação? Caminho, ignorando de vez a presença da recepcionista tripudiada pelas normas do trabalho, e entro, bom dia, e a resposta vem curiosa: espero que seja. Coloco a bolsa na cadeira ao lado, cruzo as pernas e espero, pelo  quê? Só Deus sabe, se é que Ele teve tempo de decifrar minha instabilidade.

Uma mulher com sessenta anos - apostaria nisso - analisando o meu currículo, verificando se posso dar conta de um trabalho que ela considera decente e necessitado de responsabilidade. Às vezes, ela ergue os olhos e me fita, tão plena na sua roupa de grife, como se quisesse procurar nos traços do meu rosto o endosso para o que o papel diz. E então solta belo chapéu, e eu me sinto pega desprevenida, mas rebato: foi da minha mãe.

Ela me faz uma série de perguntas casuais, coisas sobre o tempo, se eu acho que irá chover, depois fala sobre a recomendação do meu irmão e, para finalizar, pergunta se eu gosto de café em garrafa térmica.

Minutos depois, estamos na padaria em frente ao escritório dela, pedindo pão bem branquinho, por favor, conferindo se o café é realmente fresco, porque também ela não gosta de garrafa térmica, de café de muito antes. Saboreamos o tempo que não temos. Eu por estar passando da idade, que dizem ser a da responsabilidade, e ela por já ter vivido o dobro do tempo que eu vivi.

Ela conta sua história – paixões, filhos, netos, profissão – e eu calada, consciente de que nada posso fazer além de escutá-la, tentar compreender as cartadas vilãs que a vida planejou para ela, e continuar sem compreender o que faço na companhia dessa mulher. O que fui fazer naquele escritório. E a secretária? Estaria ela pensando em mim com o ódio de quem perdeu a vez, imaginando que, se eu não tivesse aparecido, seria ela a passar aquele tempo ao lado da chefe, e que, manifestando o seu companheirismo, pudesse melhorar os números no seu holerite?

Pergunta se tenho filhos, respondo que não e que eles não me fazem falta, pois tenho televisão, a cabo, DVD player, internet banda larga e conta no banco com limite pré-aprovado. Na minha geladeira, repousam imãs com telefones do disque-disque que for preciso, e tenho vinho me aguardando, assim como uma pequena biblioteca recheada de livros dos bons, alguns angariados nos sebos da cidade, depois de horas respirando o pó do tempo. E ela sorri como quem aprova a diferença entre nós, como quem não se sente alardeada por eu virar páginas e reler poemas de Rimbaud, enquanto ela nina a neta mais nova, ainda um bebê aprendendo a respirar a vida.

Ela conta que conhece meu irmão, desde a faculdade, quando ele era aluno e ela professora. Diz que se trata de rapaz muito interessante, e eu, acometida pela perseverança da imaginação, lembro logo do quadro no consultório dela: pernas enroscadas, P&B. Em seguida, ela desfere o golpe, perguntando o que diabos eu faço aqui. Tomando o controle da minha vida? Questiono e não respondo, pois de mim a resposta soaria pecado. Não acho que a vida deva ser controlada, mas sim bem aproveitada, e na verdade, estou aqui mais por curiosidade em saber como me comportaria do que disposição para mudar. Eu pinto quadros, respondo a pergunta dela sobre qual é a paixão da minha vida. E ela sorri, mais uma vez, e eu penso na funcionária dela, atendendo pessoas com algum tipo de problema e que, ao invés de receberem um aconchego, recebem é o sorriso falseado daquela que lutou para estar onde está. Como diz a canção, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é, ou de quem pretende ser.

Voltamos ao consultório, amigas de meia-hora, filosofando cada uma sobre o próprio universo. A secretária me encara e há mágoa, raiva, descrença naquele olhar. Ela sim deveria ser cogitada como assistente da médica renomada, não eu, quem cursou o curso que não queria somente para poder jantar sem ser cobrada pelos familiares. Foi o preço que paguei por um pouco de paz, quando tinha paciência para jogar.

E nos sentamos e nos fitamos. Eu já sem pudores em negar que aquilo era o que eu queria. Já segurando a aba do chapéu hippie-hipnótico como quem dá adeus e sai sem enumerar explicações. Ela interrogando sobre os meus quadros, ouvindo, atenta, o que eu digo. E assim, no final do nosso momento de encontro-confronto, entrega-me o bilhete do meu irmão. E eu leio, releio, é como se tivesse sendo devolvido o espírito cigano emprestado aos deveres impostos.

O bilhete deixa claro que eu não sirvo para este trabalho, mas que seria importante se a doutora pudesse me convencer disso, antes que as imposições se tornassem insuportáveis e não restasse mais do que aceitá-las. E me dou conta de que ele sabe quem sou e que presta atenção à minha biografia, mesmo quando desacredito de mim.

Surpresa... Surpresa...

Encaro essa mulher, bela na sua idade, cabendo perfeitamente na sua escolha, autora da sua personalidade. Percebo que assim são os que tomam o rumo escolhido por eles mesmos, sem se permitirem ser aprisionados ao desconsolo de tradições equivocadas.

Ela sorri e eu sorrio de volta. Levanto-me, estendo-lhe a mão, cumprimentamo-nos. Faz com que eu prometa deixá-la ver alguns dos meus quadros, e eu aceito, mediante a condição de, um dia desses, conhecer os netos dela. Passamos a ter, então, um trato vital, de troca e respeito, de espaço sendo preenchido sem que seja ultrapassado o limite de cada uma.

Antes de sair do consultório, fito a recepcionista e ela sorri para mim, ainda mais sem vontade. Não retribuo, mas continuo a encará-la. E os quadros parecem gritar nas paredes, horrorizados pela escravidão da imagem dela, sequiosa pelo o que não quer lhe pertencer.

Eu, que desde sempre confrontei a imagem, retratando através de quadros sentimentos caóticos e sublimes, sinto-me desconfortável diante do sorriso dessa mulher. Saio sem dizer uma palavra, disposta a não me indispor com a vida por ter feito a escolha que não era a minha. Sucumbo ao prazer dessa coisa-loucura pela qual dizem eu estar possuída, e que tentam em vão lapidar.

Dou-me conta de que a liberdade de escolher o caminho a ser seguido é a única coisa que faz a diferença numa vida inteira. É a identidade da existência.





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terça-feira, 13 de setembro de 2011

ESPERANDO >> Clara Braga

As coisas são mais ou menos assim...

Esperamos o ano inteiro por 24 horas de aniversário.

Esperamos um mês inteiro por um salário que raramente dura o mês todo.

Esperamos horas e horas em pé na fila daquele show do nosso cantor predileto, que faz um show de, no máximo, duas horas.

Esperamos semanas, às vezes meses, pelo lançamento daquele filme que queremos muito ver, e que dura no máximo duas horas e meia; ou aquele CD que queremos muito ouvir e que tem só 80 minutos.

Esperamos o dia inteiro para ver aquela pessoa que só pode ficar com a gente por uns 10 minutos.

Esperamos horas na sala de espera do médico, mesmo tendo hora marcada e, quando chega a nossa consulta, demoramos apenas 5 minutos.

Esperamos cinco meses trabalhando, e estudando, por um mês de férias

Esperamos, no mínimo, uns 4 anos estudando para festejarmos um dia de formatura.

Esperamos por volta de uma hora o almoço ficar pronto, e comemos em 20 minutos.

Esperamos, ansiosamente, por aquela viagem de uma semana, que já estamos planejando há um ano.

Esperamos o dia todo pela ligação que dura 10 minutos, afinal a conta não pode ser muito cara, já que o salário já acabou.

Esperamos a semana inteira pela resposta daquela entrevista de emprego que durou no máximo uma hora.

Esperamos, esperamos, esperamos...

Depois ainda tem gente que não acha que a vida é feita de pequenos momentos ou não entende por que eu detesto tanto esperar...

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segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O FIM DOS GORDOS >> Kika Coutinho

Está decretado. A proliferação da cirurgia bariátrica não me deixa mentir. A capa da Veja, falando de um remédio que produz emagrecimento milagroso, só veio ratificar o que estamos vendo: os gordos vão acabar. Como vão acabar os óculos e os aparelhos metalizados.

Aparelhos metalizados quase não existem mais. É um tal de aparelho invisível, transparente, de porcelana ou de vidro, chega a me dar saudades quando lembro dos sorrisos adolescentes do colégio, os lábios que riam fechados, relutando em abrir-se, envergonhados pela chuva de prata que era a nossa boca de menina. E a fase em que gostávamos. Sempre tinha um jeca que queria mais era pôr o tal aparelho. Conheci um que tentou colar papel laminado nos dentes da frente, um desejo louco de sorrir prateado, como os outros. Hoje, acho que não se faz mais papel laminado. Para nada.

Os dentes tortos também andam meio sumidos. E os dentes amarelados? Aproveitem para vê-los agora porque, em breve, todos terão sorrisos brancos e ofuscantes como os atores da Globo. Vai um óculos escuro aí? Aliás, óculos, só de sol mesmo. Quem ainda usa óculos de grau? E aqueles antigos conhecidos como fundo de garrafa, lembra? Deixavam os olhos do usuário miudinhos lá dentro, pequenos grãos dentro das lentes grossas e milagrosas que os faziam enxergar... Hoje, os poucos que ainda usam óculos de grau logo farão a cirurgia, numa barraquinha da esquina. Tenho certeza de que ainda vão te oferecer, numa praia qualquer, um combo com cirurgia de miopia mais tatuagem de henna a preços muito módicos. E nós correremos para fazer, bronzeados e visionários.

Também não vejo mais cabelos ressecados, cachos naturais e aquele velho cabelo nem enrolado nem liso, que nunca ficava bom, lembra? Sumiu. Se tem, é só para os menos favorecidos, mas logo acaba. Os produtos transformaram os cabelos naquilo que queríamos que eles fossem: iguais. Hoje em dia, só há dois tipos de cabelos. Ok, três, talvez: os lisos, os chaeados (com cachos perfeitos) e os lisos com cachos nas pontas. Todos lindos. Ai que saudades do cabelo mais ou menos, aquele que exigia uma piranha urgente porque estava mesmo péssimo...

Mas cabelo não faltará no futuro. Pelas animação dos pesquisadores, carecas serão tão raros quanto o mico-leão dourado. Aliás, entre os famosos já não tem careca, né? E só resta o Willian Bonner com aquela faixa branca. Ah, e o Tarcísio Meira também permitiu que seus fios ficassem brancos. Mais algum grisalho, gente, pra mostrarmos que somos gente nesse mundo? Nada. Todos seguidores do Amaury Jr. ou do Ronnie Von. E vamos para a era de muito cabelo escuro ou aloirado. Isso porque nem falo de mulher. Mulher grisalha deve ter uma ou duas, no Sudeste todo: as fortes remanescentes do mundo real.

Não demorará muito para decretarmos também o fim das rugas, da barriguinha e dos peitos caídos. Ah, Clarice dizia que “destino de peito é cair”, mas errou. Destino de peito, hoje, é inflar e subir. Esqueçam a lei da gravidade e olhem para a bela Susana Vieira, naquelas fotos tipo sereia, saindo do mar. É o futuro e suas invencionices.

Ainda faltam poucos. O Jô, e mais dois ou três, mas os gordos vão acabar. Aguardem, e apertem os cintos. O futuro está aí, três furos antes do que você pensa.

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domingo, 11 de setembro de 2011

SEU ROBERTO E DONA CELINA
>> Eduardo Loureiro Jr.

Diezm que é psosível edeetnnr o sdnetio de uma fsare msemo que as lraets de cdaa parlava etajsem ebhrlaaadams — ddsee que a prireima e a úlmita learts eetjasm em sua psoição crtroea.

Se for assim, então o leitor talvez consiga compreender corretamente esta crônica que, devido à minha situação em relação ao assunto, tende a ser um tanto quanto confusa. Afinal, que posso eu — um sujeito que já casou e descasou pelo menos uma vez — dizer sobre um casal que está completando Bodas de Ouro? Que são meus parcos anos de experiência matrimonial — nem tão bem resolvida assim — diante de 50 anos vividos por este casal a que me coube a tarefa de homenagear? Não seria mais correto que Seu Roberto e Dona Celina fizessem uma crônica para mim, explicando — bem explicadinho, por favor — como é que se consegue passar tanto tempo junto com outra pessoa?

Em vez disso, chamaram um calouro para fazer o discurso da colação de grau. Convidaram um papagaio para orador. Convocaram o bobo da corte para conduzir a cerimônia real. Que os súditos tenham paciência — e mais ainda o Rei e a Rainha — com este subalterno espírito encarregado de tão soberana incumbência.
*

Da união de Seu Roberto e Dona Celina, eu só sei o começo e o final — aliás, não propriamente o final, porque pensar assim seria lançar um mau augúrio, provocar um encurtamento de uma vida em comum que eu desejo que dure ainda por muitos e muitos anos. Então, desse valoroso casamento, só sei o começo — há pouco mais de 50 anos — e o próximo passo, que será dado em alguns dias. O resto se embaralha em minha cabeça feito o matrimônio do crioulo doido, uma mistura de Romeu e Julieta, Cyrano e Roxanne, Tarzan e Jane, Clark Kent e Lois Lane, Dirceu e Marília, Pedro Missioneiro e Ana Terra, Bentinho e Capitu — e por aí o leitor já pode deduzir o quanto tem por desembaralhar nesta crônica...

Conheceram-se, Roberto e Celina, em um galinheiro. Não, leitor, eu não invento. Do começo, eu tenho certeza, já disse. Não vou chegar ao ponto de afirmar que vi com meus próprios olhos, pois estava longe de pensar em nascer, mas quem me informou foi fonte segura, inquestionável. Por que todo amor deveria começar em praças, jardins e castelos? O próprio Amor Encarnado não nasceu numa estrebaria? Então, o amor de Roberto e Celina rebentou num galinheiro. É como diz o italiano ditado: Gallo magro e gallina grassa fanno buon matrimonio, que eu traduzo livremente assim: galinha carnuda e galo macilento produzem um bom casamento.

Os dois, ainda jovens, foram comprar galinhas. E Roberto resolveu ciscar e cacarejar um pouco:
— Bom dia, moça. Como se chama?
— Celina.
— Bonito nome.
— Obrigada.
— Eu sou Roberto. Você sabe escolher uma boa ave?
— Minha mãe me ensinou.
— Pode me indicar alguma?
— Aquelas ali parecem boas.
— Obrigado.
— Por nada.
— Só mais uma coisinha...
— Pois não...
— Você não estaria interessada num franguinho de 18 anos?

Enquanto Celina para para pensar, eu pergunto ao leitor o que acha de tal cantada?

Horrorosa?! Que é isso, caro leitor, os tempos eram outros e o ambiente era aquele mesmo: penas e ovos e milho e titica... Para mim, a cantada foi brilhante e certeira. Para Celina, também. Já saíram de lá juntos, e juntos estão até hoje.

Não, não vá o leitor contar com o ovo no monossílabo tônico da galinha. Quem já casou sabe que é possível ser felizes para sempre, mas, como canta o Oswaldo Montenegro, "sempre não é todo dia". Basta se lembrar do ódio entre as famílias de Romeu e Julieta, da incomunicabilidade entre Cyrano e Roxanne, dos segredos entre Clark e Lois, das desconfianças entre Bentinho e Capitu, da distância entre Dirceu e Marília... O amor é feito também de implicâncias, desentendimentos, amolações, afastamentos, birras, suspeitas... pra não falar de filhos ("melhor não tê-los, mas se não os temos...").

De todo modo, é como se diz lá na Itália: La gallina che sta nel pollaio, è segno che vuol bene al gallo, a galinha no galinheiro é sinal de amor ao galo. E convenhamos que tudo aquilo que acontece depois do foram felizes para sempre é da intimidade do casal e não nos cabe bisbilhotar o leito matrimonial alheio. Quem se ama, se bica — aqui e ali — e atire o primeiro caroço de milho quem nunca gorou um ovinho que seja.

Enquanto nós estamos aqui pelejando por umas bodinhas de algodão, renda, louça, prata que seja, Seu Roberto e Dona Celina se preparam para viajar para a Itália, onde — bodados a ouro — comemorarão, no próximo dia 23 de setembro de 2011, seus 50 anos de núpcias. Não sei detalhes da programação — mas que leitor curioso! A renovada lua-de-mel deverá ser à moda antiga, como foi há 50 anos, sem transmissão simultânea via satélite, Youtube, Twitter e Facebook. Holofotes não combinam com um casalzinho aconchegado em seu poleiro...


*

Esta, caro leitor, foi a crônica-homenagem que pude fazer, pintinho amarelinho que sou nesse galináceo assunto que é o amor. Esta, Seu Roberto e Dona Celina, foi a crônica-afago que me pediu seu filhote, também Roberto e também casado com uma guria cujo nome começa com C e termina com A. Dizem que a árvore se conhece pelos frutos; os pais, pelos filhos. Então imagino vocês dois cheios de graça, de força e de generosidade.

E que o aomr etjsea aaenps cmoeçadno...



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sábado, 10 de setembro de 2011

O DIA T [Debora Bottcher]

"A tragédia começa quando os dois lados têm razão..." (William Shakespeare)

Eu não queria escrever sobre isso, mas pareceu-me inevitável: nos últimos dez dias, não se ouve falar de outra coisa. Os quatro cantos do mundo oferecem sua parcela de comentários, imagens, reportagens, entrevistas, histórias que nos lembram - como se fosse possível esquecer - que há dez anos o mundo mudou (e não foi pra melhor).

Naquela manhã, a humanidade amanheceu assistindo, atônita, ao ataque terrorista aos EUA. No dia seguinte, a América chorava suas perdas, tentando juntar os cacos, se recompor, buscando, desesperadamente, o rosto do inimigo. O pesadelo, no entanto, continuava com novas ameaças - em cada parte do Universo...

Os objetivos de paz mundial esbarram em questões políticas e econômicas que precisam ser resolvidas antes dos movimentos pacifistas. Na globalização, os desiguais somam números gigantescos, tornando impossível o interagir - uma vez que os ricos ficam mais ricos e os pobres, como não podia deixar de ser, cada vez mais pobres.

Mas eu entendo pouco sobre isso: estou especulando dentro das visões que ouvi, sendo que essa acima é uma explicação muito simplista para o que aconteceu naquele dia - ainda que não se possa negar que esse seja um dos efeitos de décadas em que a desigualdade imperou.

Embora os olhos dos governantes tenham se voltado para o lado prático na tentativa inútil de avaliar em como esse fato iria refletir em nossas vidas - imediatamente, com certeza, na economia e segurança mundiais -, e mesmo que escrever isso possa soar ingênuo, o que mais me chocou (e ainda choca) foi a tragédia literal, como o ser humano é pequeno e mesquinho, destrutivo - a si e aos seus semelhantes. Questionei-me sobre o valor da vida e em como não há limites para o ódio e as desavenças.

O terrorismo é uma covardia. Enquadrado como 'crime contra a humanidade', é o horror, a face mais medonha do Homem.

No entanto, eu tenho uma parte da alma que é fria e dura: a retaliação me soou muito pertinente naquele momento. Entendo, contudo, que talvez ela não tenha sido justa, nem tenha servido a qualquer propósito benéfico. As guerras carregam uma fatalidade imponderável: seja qual for a 'bandeira' hasteada - do poder, da economia, da política, da religião -, descem dos 'palácios' e aportam nas ruas. Viram uma causa civil e a população é que paga o preço mais alto: com a vida.

As armas nucleares e a pena de morte não nos deixam ilesos. Bem sabemos como os EUA são temidos - em qualquer vertente, e apesar da crise, ainda são uma potência mundial -, mas isso não os livrou de uma tragédia como essa - e outras que se seguiram em escalas diversas. Esses atributos apenas intimidam, pois, como se vê, os autores do fatídico 11 de Setembro - "O Dia T" -, não cogitaram a repercusão perigosa do ato - ou não se importaram com a gravidade das consequências que ele podia gerar. O ser humano tem sua loucura, que espreita pelos cantos escuros, nas sombras das entranhas.

Eu, como a maioria dos mortais, não sei como se poderá alcançar um mediador para a paz...

Continuo perplexa. Dez anos depois...

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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

TODO O PESO DO MUNDO >> Leonardo Marona

Foi muito bom ter descoberto a história do primeiro casamento de Ernest Hemingway. Foi encorajador. Ele tinha apenas vinte e um anos e se casou com Hadley, que tinha vinte e nove, e era virgem. Aquilo jogava por terra a minha ideia de que um bom escritor precisa se envolver, necessariamente, com uma mulher intrigante, vivida, malévola, para sofrer na pele a evolução forçosa da vida, o que, no fim das contas, o impulsionaria a ser um bom escritor. Ernie tinha seus problemas, eu tinha os meus, mas, acima de tudo, eu o idolatrava, e aquela informação serviu para que eu vestisse minha casaca de poeta, prateada, gasta, mas que me causava boa impressão, de um desleixo intelectual e impertinente,e que me dava coragem justamente por ser estranha e fora de moda.

E eu havia tido as mulheres que, eu acreditava, determinavam a cartilha do “bom escritor”: histéricas, estúpidas e competitivas, das que ameaçam com facas, com os olhos fora de órbita e, no entanto, charmosas e intensas, justamente por ser impossível imaginar o que fariam comigo quando eu menos esperasse. Eu confundia aquela curiosidade equivocada e juvenil com malícia, experiência, e achava que, no íntimo, poderia ser parecido com Hemingway, e até mesmo seria possível encontrar muitos como eu entre os meus diversos outros heróis. Mas saber sobre Hadley, com quem Hemingway tinha, por fim, enfiado Paris no bolso, num casamento-relâmpago, e saber que ela era quase uma solteirona aos vinte e nove anos, aquilo tudo me fez vestir a casaca prateada e sair de casa assoviando a Marselhesa, com o ímpeto de um Napoleão.

A noite estava fria, atípica, e me lembro que havia um motivo, mesmo que não muito claro, para eu subir até o bairro íngreme de Santa Teresa, que é a nossa espécie de Montmartre carioca, ou pelo menos algumas pessoas pretendem que ela o seja. Sim, o motivo, além da notícia reveladora e da profunda sensação de que eu poderia, enfim, ser um grande escritor, ou seja, além dessa confiança totalmente desmedida, havia Lucia, cujos seios eu havia, uma semana antes, elogiado o suficiente para, quem sabe, tê-la deixado envergonhada e, não sei se provavelmente, mas acreditava, instigada com aquela “triste figura que dizia coisas a esmo”.

Ela havia me convidado formalmente para uma festa em sua casa e aquilo era novo, fosse vindo dela ou de qualquer mulher. Minha última tinha sido minha esposa e, juro a vocês, quase nos matamos, e creio que um pouco de sangue conjugal não impressione mais ninguém. Mas seria honesto afirmar que ela era exatamente o tipo de mulher que eu imaginaria para Hemingway, ou John Dos Passos, ou Fitzgerald, ou Sherwood Anderson, e toda aquela turma: uma atriz coquete, porém já com seus quarenta e cinco anos, por quem eu havia me apaixonado simplesmente porque havíamos trabalhado juntos numa peça, ela fazendo a Emília de Otelo, eu como tradutor, que nem bem sabia o que estava fazendo ali. Me apaixonei e digo por quê: eu já havia visto uma peça com ela, e a vi saindo, de banho tomando e muito séria, passando pelo público que esperava os atores após a estreia, sem olhar para nada e para ninguém, apenas uma atriz cumprindo seu trabalho, e aquilo, aquela pretensa falta de vaidade, faz um homem escavar o chão até o inferno para descobrir o que existe por trás daquilo, com toda a certeza de achar alguma coisa grave, mas sem a menor ideia sobre o que fazer quando chegar a hora.

“Grande coisa um casamento fracassado”, eu pensava subindo no ônibus até a casa de Lucia. “Todos fracassam no casamento, o casamento é o símbolo do fracasso, o ser humano não é capaz de suportar nada estável por muito tempo, por isso tudo nos exige que façamos isso e, afinal, muitos permanecem casados, mesmo fracassados, então grande coisa, não preciso disso, dessa ideia fixa de ter que ser bem sucedido, enfim, num casamento de aparências. Porque tudo que é bem sucedido é feito de aparências”. Eu sabia muito bem que, mesmo que se perguntassem: “Você gostaria de estar agora, assim como está e sem mais nada, na Paris dos anos vinte?”, e eu no fundo tivesse um puta cagaço de ter que competir diretamente com Joyce e Dos Passos e Hemingway e Fitzgerald, fora todas as questões com relação a ser livre e fora dos parâmetros conformistas instituídos pelo fim da primeira guerra e que, agora, depois de outras tantas muito piores, não fazem mais sentido algum, eu diria que sim, eu aceitaria morrer de fome e enxergar as pinturas com as cores mais vivas enquanto contraísse uma febre tifoide por ter coladas as paredes do intestino. Mas ali estava eu falando sozinho com minha casaca prateada de poeta, e o primeiro casamento de Ernest Hemingway com uma mulher encantadora apesar de ingênua, virgem e sem experiência alguma, de um modo esquisito mais lindo, me jogava a frente diante de um acaso intuitivo.

Sim, eu sentia alguma coisa por dentro, escorrendo pela região do umbigo, alcançando o saco escrotal e voltando com toda força até a cabeça. Havia a presença do amor, não o amor egoísta e exclusivo que se chama “amor verdadeiro”, mas um amor bem maior, mais amplo, que alcançava a porta do ônibus e cada paralelepípedo, que dava outra cor ao pipoqueiro ou à prostituta sonolenta, um amor, portanto, antecipado ao pavor do amor objetivo, amor solto de rua que faz deslizar charmosamente na incerteza.

Apesar de toda empolgação, Lucia me recebeu friamente, mas eu convenci a mim mesmo que aquilo havia acontecido porque ela estava completamente envolvida e sem saber como agir. Talvez eu apenas pensasse muito em Hadley, seu pai suicida, o pai de Ernest suicida, ela no sótão da irmã mais velha, vinte e nove anos, sem nem mesmo ter sentido a mão de um homem entre as pernas ou um dedo enfiado com violência na sua boca, e pensando em coisas que não nos servem como exemplo acabei utilizando-as justamente como exemplo e, sem me importar com o que eu achava ser um furor uterino que abalava as estruturas de Lucia, entrei seguro de mim e, sem saber, prestes a me perder completamente.

Rapidamente me embriaguei e, com o intuito de finalmente jogar às claras com Lucia e, ao mesmo tempo, demonstrar meu descontentamento com sua arrogância juvenil, que disfarçava um amor velado, passei a me comportar como um perfeito idiota. A bebida rolava solta e, para incrementar meu teatro, resolvi jurar a todos os presentes que havia caído de paixão pela mãe da Lucia, Graziela, argentina refugiada, mãe solteira, fugida da ditadura, una madre de mayo, que ainda por cima falava sobre pintura e literatura e, quando sorria, era possível reconhecer de forma poética o tanto que ela havia sofrido, sem deixar de ser bela.

Foi uma bela cartada. Graziela gargalhava das minhas piadas infames e parecia me tratar como um lenhador sensível, enquanto as outras pessoas na sala, nas quais eu ainda não havia reparado, sabia que era um casal e uma garota, estas pessoas e Lucia, todas riam, mas eu podia jurar a mim mesmo que Lucia um pouco menos, dizendo umas às outras: “Graziela gargalhando, ela gostou dele”. Aquilo algum dia chegaria ao status de paixão platônica, deslocada nas épocas e na experiência, mas naquele momento foi o grau exato de autoconfiança que eu precisava para seguir bancando o imbecil, um papel adorável quando você não sabe realmente o que fazer.

Num belo momento senti minha voz empastar. Lucia finalmente havia se aproximado, isso depois de eu ter contato uma história que realmente fez as pessoas mijarem de rir e me botou no céu das atenções: a história de como perdi a virgindade.

- Meu pai falou: compra um vinho, toma um banho, espera ela chegar. Eu disse, nervosíssimo: tudo bem. Saí, comprei o vinho, tomei banho, penteei os cabelos, eu estava horroroso, me deu uma angústia enorme e eu liguei pro meu pai outra vez. Pai, não funciona. Estou apavorado. Não vai dar certo. Acabei de vomitar na pia. Ele disse: você não bebeu o vinho? Você tem que beber o vinho... Você não tem um baseado? Se puder, fuma um baseado, é afrodisíaco, e toma o vinho e espera a menina e relaxa. Só faz o favor de chupar ela direito, é isso que importa. E muito bem, eu tentei de tudo e nada havia mudado na minha ideia de que aquilo seria uma catástrofe, então, liguei para o meu pai outra vez, e nem sabia o que dizer, acho que disse que sairia de casa sem aviso, que não estaria em casa quando ela chegasse, porque ela era experiente, tentei explicar, uma mulher do samba, uma pagodeira, e eu havia dito a ela, ou tentado demonstrar, que eu tinha muita experiência, e então meu pai ficou em silêncio por um ou dois minutos, e disse que eu fosse até a gaveta da cômoda tal e pegasse tal pílula e, antes uns quinze minutos da menina chegar, tomasse aquela pílula e a esperasse tranquilamente, e que, no decorrer da noite, depois do vinho e do baseado, antes que eu apenas tocasse nela, no braço dela que fosse, ele disse, antes mesmo disso tudo começará a acontecer perfeitamente, talvez até perfeitamente demais, ele disse, e eu tomei a pílula, é claro, imediatamente, e quando ela chegou eu estava bêbado e com o pau em riste, e ela olhou aquilo e talvez até possa ter se impressionado um pouco, mas aquilo não acabava mais, eu tinha gozado em dois minutos mas o meu pau continuava de pé, ela olhava, de quatro, para trás e via minha cara de quem estava entendendo muito pouco, mas o pau em riste deixava a pagodeira confusa, e ela dizia, você ainda não gozou? e eu dizia que comigo era assim mesmo, que eu gozava muitas vezes na mesma foda, e, por algum motivo, ela não parecia totalmente convencida, e eu realmente estava preocupado com coisas como o vinho, as sensações mais íntimas, pegar na mão, então vocês imaginam, depois dessa, como foi a frustração da minha segunda foda.

No momento em que disse isso eu não saberia que aquele teria sido o meu grande momento da noite. Todos riram e até mesmo Lucia abriu aqueles dois dentes separados que ela tem e chegou a me servir de uísque. Quando, é claro, começa a minha derrocada.

Eu realmente não havia reparado muito bem em ninguém que estava lá, mas, conforme as pessoas começaram a bocejar e as histórias já não eram mais tão interessantes, comecei a ver que havia poucos de nós. Lucia, cambaleando, se aproximou com a garrafa de uísque na mão.

- Olha, fica com a garrafa. Você tá péssimo. Pode dormir no sofá se quiser.

Segurei o objeto e, quando virei para o sofá, havia ali uma menina, sentada de pernas cruzadas e me olhando. Eu me lembrava vagamente dela. Uma vez ela estava com a Lucia e vestia uma roupa tão masculina que não tive dúvidas de que era lésbica, até que subimos todos até minha casa e o amigo que mora comigo a levou para o quarto. Depois tinha visto a mesma menina outra vez, com um chapéu de mulher dos anos vinte e um ar enfadonho. Me olhou e eu disse algo canalha como “ah, então você é uma menina”, e ela respondeu qualquer coisa como “uma pena não poder dizer o mesmo sobre você”, e foi embora, e aquilo era tudo. Mas eu precisava fazer alguma coisa para trazer as coisas de volta ao chão. Como sempre, uma ideia desesperada, de quem precisa sempre decair para se reconhecer, sentir onde pisa, para saber onde vai se derrubar.

- Escuta, como dizer... Você gosta... das pessoas? – eu disse.

- Você quase conseguiu... Foi por um triz! Uma pena.

Mas, talvez, agora fosse a primeira vez em que eu reparava de verdade nela. Não haveria, de todo modo, como não ser. Estávamos os dois sozinhos na sala. Cheio de uísque, comecei a ficar ousado. Ofereci meu incrível casaco, minha armadura prateada, para ela se proteger do frio. Estávamos distantes. Eu punha músicas do Erasmo Carlos enquanto ela bebia um pouco rápido demais e olhava pela janela, aparentando certo desinteresse, o que eu automaticamente julguei como um amor arrebatado que não pode se deixar perceber. Mas, como dizem, eu tenho a desprezível inclinação em sempre banalizar o amor.

O que importa é que, ao vê-la com verdade pela primeira vez, o mais estranho pensamento me passou pela cabeça, e eu disse a mim mesmo: “Você ainda sentirá muita falta desta mulher”. Mas naquele momento eu ainda não sabia que, por uma noite, por aquela noite, seríamos o casal expatriado na Paris dos anos 20, enquanto eu subia sobre ela no sofá e com minhas duas mãos nos seus peitos que, eu reparei, eram enormes e os mais bonitos que eu havia visto, eu disse a ela: “São os peitos mais lindos que eu já vi”, e descemos juntos até as profundezas, aquelas mesmas de cada um que nunca devem ser tocadas ou mesmo vislumbradas, porque o encontro com o céu acaba por cegar os olhos, mas disso ainda não sabíamos quando deixamos nossos formidáveis fluidos de amor na cama de Lucia, quem diria, Lucia, que apareceria Julia e que eu estaria sem meu casaco prateado tão famoso em tantos becos e em cuja sombra me sinto Orson Welles, quem diria que iríamos ainda para a minha casa e depois comeríamos uma fartura de carne e tomaríamos cerveja e riríamos como o casal Hemingway de braços dados como chaminés de cigarros e o hálito ácido da juventude em nossos corpos assustados, nas ruas com estranhos chapéus e correndo de atropelamentos e discutindo aos prantos e com apelidos ridículos e carinhosos como Tubi, Tuti, Taub, Touch, e no dia seguinte ela me ligaria justamente quando eu estivesse pendurado numa escada e quase caindo, e ela diria “oi, tudo bem?”, e eu “oi, tudo bem”, e um silencio reinaria comigo a ponto de cair da escada e, quase caindo, com nervosismo eu diria “você tem alguma coisa a dizer?”, e ela gaguejaria mas não seria grosseira como eu, ao contrário, escutaríamos por um bom tempo aquelas velhas e tão nossas palavras, sei que o mundo pesa muitos quilos, e nós sabíamos, mas enfrentamos a chuva fria e tínhamos os dentes de fora, e nos encontraríamos outras tantas vezes e eu diria a ela meus poemas novos e faria ainda para ela tantos outros poemas que hoje já não são mais novos, mas e que novidade há no amor afinal?




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quinta-feira, 8 de setembro de 2011

ACHISMOS
OU COMO PERDEMOS TEMPO PENSANDO
NO QUE OS OUTROS ESTÃO PENSANDO
>> Fernanda Pinho



Cada vez estou mais certa de que o câncer dos relacionamentos é o achismo. A moça que não convida o moço para sair porque acha que ele irá julgá-la atirada. A amiga que fica chateada com a outra porque achou que ela teve má vontade para fazer um favor. O cara que termina com a menina porque acha que ela poderá traí-lo um dia. A mãe que repreende o filho porque acha que ele está mentindo.

A terapia já havia me alertado sobre isso. Quando, há algum tempo, frequentei o divã da Fátima, a ouvi dizer, mais de uma vez, que a maior parte da energia que nós desperdiçamos é aquela empregada na estúpida mania de deduzir o que os outros estão pensando. E na maioria esmagadora das vezes, dizia ela, estamos errados.

Decorei, mas não aprendi. Se eu não havia aprendido quando me explicaram didaticamente, a vida meu deu várias chances de tentar entender por outros caminhos. Filmes e os livros que várias vezes me fizeram refletir sobre o assunto. O mais recente deles, "Um Dia", que terminei de ler há duas semanas, me tocou muito nesse aspecto. É basicamente uma história de desencontros em que dois amigos passam 20 anos desencorajando seus sentimentos por não fazerem ideia da importância que tinham um na vida do outro.

E pra não restar dúvidas de que especular é tão eficiente quanto tentar se enxugar com uma toalha encharcada, existe a vida. Ratificando a terapia e a arte. A vida que, um dia depois de eu ter terminado de ler "Um Dia", colocou em minha frente uma pessoa que eu passei os últimos meses tendo a certeza de que me odiava. Havia um motivo, afinal. Ou melhor, eu achava que havia um motivo. Eu achava ter ofendido ao reagir a uma situação que não me agradou. Eu achava que a situação que não me agradou havia sido uma atitude deliberada, só para me chatear. E teria passado o resto da vida achando tudo errado se não houvesse um encontro ao acaso e um pedido de desculpas que, naturalmente, não partiu de mim. Lamento. E lamento mais ainda saber que, embora aliviante, esse caso foi uma exceção.

No fim das contas, a maioria das coisas que achei equivocadamente permanecerão intocadas e sem perdão.

Imagem: www.sxc.hu


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quarta-feira, 7 de setembro de 2011

IN DEPENDÊNCIA >> Carla Dias >>

Hoje, no dia em que comemoramos a Independência do Brasil - e os aniversários da Vera e da Maria -, decidi escrever sobre como dependemos. Ao menos eu dependo... E muito.

Dependemos de nós mesmos, a princípio, para sairmos da cama e começarmos o dia. Neste momento, não é tão importante saber o que ele traz no cardápio. Quando os olhos ainda estão se acostumando à claridade, dependemos somente do show das pálpebras despindo o olhar. Porém, o que parece simples, ainda às margens do rio da sonolência, torna-se uma aventura com duração de horas e mais horas.

Sendo assim, dependemos do temperamento do tempo, da sua cadência, para estabelecermos a nossa. Se o tempo fechou, o trânsito engrossa. Se o tempo está aberto, o trânsito engrossa um pouquinho mais tarde, e com cara mais feliz. Se o tempo passa e nos deixa em filas, certamente terminaremos o dia com saldo positivo para a exaustão... A não ser que conheçamos alguém bacana na fila e o papo seja tão interessante que o tempo acaba é passando rápido demais.

Há dias em que dependemos do carinho do outro e calha de ser num momento em que nos falta a fluidez para dizer tal necessidade, mostrar-se aberto a receber o oferecido. Em dias como estes, bom, conheço pares de poetas que escreveriam versos febris a respeito da tal dependência. Eles a diriam de forma tão intensa que, certamente, quem os lesse se reconheceria. Afinal, quem já não teve um dia de depender do que não consegue pedir?

Dependemos de tanto e de muitos, às vezes da bondade alheia, da compreensão do outro para nos amparar quando a nossa própria anda embaralhada. E do humor da temperatura para saber se usaremos camiseta ou é melhor levarmos o casaco. Dependemos do olhar do estranho que, às vezes, nos diz mais do que esperávamos dos mais próximos. Que diz bem, feito uma alento de passagem.

Dependemos de uma série de escolhas, e elas nem sempre são nossas. Como indivíduos, dependemos do caminho que traçamos. Como cidadãos, dependemos da disposição de quem elegemos em cumprir as suas promessas de campanha, com a mesma consideração com a qual trava a batalha em busca de oferecer aos seus filhos o melhor.

Eu acredito no nosso país. Acredito nas pessoas, nas ideias que muitas têm. E também acredito que, assim como o Brasil, temos de declarar independência, sempre que a dependência não for digna da licença poética, ou não defina o simples fato de que, para termos uma vida plena, temos de também pensar coletivo, pensar no outro, quando as consequências das nossas escolhas não atingirem somente ao indivíduo que somos, mas também ao cidadão.

Uma ótima independência para você!

carladias.com

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