quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A VIDA SENDO VIVIDA >> Carla Dias >>

Eu vi o futuro no daqui a pouco anunciado. Não se tratava de um estandarte, de um acontecimento no qual a euforia era a mãe de todos os atos. Eu alcancei um futuro plácido, com momentos grandiosos metafisicamente alinhados. E nele havia muitas formas de se dizer o oposto do que era esperado. Maneiras tantas de reciclar relacionamentos com a simples constatação de que, quase sempre, perdemos tempo demais com guerras – particulares e universais.

Naquele futuro, eu me sentia muito menos autocrítica, vivenciando a leveza de quem já sabe reconhecer a fragilidade da natureza humana, assim como a engrenagem criada para vivermos a vida como cidadãos. E nessa contemplação me veio a constatação de que os erros fazem parte da arquitetura do que construímos sendo. E o que define se serão eles a nos guiar no adiante são as escolhas que fazemos a partir das consequências por eles criadas.

Eu cometi uma série de erros nos últimos dias. Nenhum deles vai mudar o curso da vida de outra pessoa, tampouco afetará alguém a ponto de prejudicá-la. Não parti corações ou negligenciei afetos, nem mesmo meus deveres como autora desses erros. Foram erros que, de acordo com o olhar de outro, “são apenas consequências da vida sendo vivida”.

A vida sendo vivida dá trabalho. A gente erra mesmo, nem sempre sabe como se desculpar, mas certamente tudo fica mais claro quando assumimos os erros. Foi por ter saído da rotina que cometi todos os erros dos últimos dias. Foi tentando ser uma pessoa mais eficiente no meu trabalho que errei aqui e ali. E saindo do lugar de sempre – geograficamente -, ficando de cara com um lugar lindo, dos que meus olhos não têm o hábito de namorar, que cometi esses erros. Não machuquei ninguém, não fui desrespeitosa, não declarei guerra.

Cometi erros, que não posso chamar de triviais, porque estava vivendo a vida de um jeito não muito comum para mim. Porque saí do círculo, dei um passo adiante, conheci, experimentei. Por esses erros, já estou respondendo, mas desta vez tentando não ser autocrítica demais, porque senão vai dar em autoboicote também. E confesso que desta vez me permiti não culpar tão violentamente. Desta vez, optei por ser mais gentil comigo mesma, e a aceitar a explicação que me foi dada: é a vida sendo vivida. E quando a vida nos acontece dessa forma, pisamos em cacos, em flores, em temores. Gargalhamos, choramos miúdo, lidamos com uma série de idas e vindas. Mas se lidar com as consequências realmente é nos molda, assumo minhas culpas e me jogo à vida. Quero dela os erros e os acertos.

carladias.com



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terça-feira, 30 de agosto de 2011

UMA LIÇÃO DE VIDA >> Clara Braga

Querem saber um assunto que dá pano para manga? É esse tal de amor. Difícil achar quem nunca tenha escrito, falado, pensado ou qualquer coisa do tipo em relação ao amor. Aliás, difícil não, impossível.

Engraçado é perceber que isso acontece por um motivo muito curioso. O homem faz de tudo para entender aquilo que para ele ainda é muito abstrato ou incontrolável. Hoje em dia temos a impressão, só impressão mesmo, de que conseguimos controlar muitas coisas, mas o amor é uma das coisas que não se consegue controlar, e isso parece ser incômodo para muitos.

Não sou entendida no assunto e também não vou tentar definir nada, mas não gosto quando me deparo com textos que tentam generalizar o amor. Essa história de amor eterno depois de todo casamento não cola faz tempo. E essa conversa de que toda mãe tem um amor incondicional pelos filhos para mim também não desce. Se fosse realmente assim, não tinha um monte de mãe jogando filho em lixeiras, bueiros e afins.

Gosto de livros e textos que mostram o amor como esse sentimento que, apesar de confundir a gente e parecer muito complicado, se mostra simples em algum momento e só é eterno até onde for para ser. E exatamente por isso que gostaria de compartilhar aqui meu novo achado. Um livro maravilhoso que mostra um amor sincero, com seus problemas, dificuldades, dúvidas, mas de uma beleza maravilhosa.

O livro se chama Para Francisco, de Cristiana Guerra. O livro são cartas que ela escreve para o filho Francisco, quando ele ainda é pequeno, contando para ele quem foi o pai dele. O pai, marido de Cristiana, faleceu durante a gravidez e ela teve que viver ao mesmo tempo uma das maiores alegrias da vida dela, que era estar gerando um filho, e uma das maiores perdas.

Ela escreve todas as memórias, todos os momentos, inclusive os momentos nos quais ela e o marido decidiram não estar juntos por um tempo, os momentos em que não se entendiam, pois isso também faz parte. Ela escreve com urgência, pois, como ela mesma diz, "os fatos mudam à medida que nos afastamos deles". Ela quer que seu filho possa, quando crescer, ler essas cartas e ganhar de presente o pai que ele não pode conhecer. Quer ato de amor mais bonito? Amor por todos eles, amor pelo filho que não pode conhecer o pai, amor tão grande que a faz viver toda a história novamente, sofrer novamente, para que seu filho saiba quem foi seu pai da melhor forma possível. Amor pelo marido, amor também tão grande que não a permite viver sabendo que alguém especial para ela possa viver sem ter a oportunidade de se apaixonar por seu pai, mesmo que seja só pelos olhos dela.

Considero o livro uma verdadeira lição de vida, e para aqueles que, assim como eu, já perderam alguém querido, aprendi que as pessoas não se vão simplesmente, elas se dividem em várias lembranças e passam a fazer parte daqueles que guardam essas lembranças.

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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

SE VOCÊ NÃO TEM FILHO >> Kika Coutinho

Se você não filhos não sabe uma porção de coisas, mas ouve dizer. Só que tem outras que não te dizem e que vou te contar agora. São coisas pequeninas, quase que insignificantes, mas que somadas representam uma vida nova tão rica e abundante que chega a ser pesada.

Porque é demasiadamente intensa e carregada a vida de quem tem filhos pequenos.

Quando você os tiver, verá que por todos os lados terá sinais da infância transbordando na sua vida de adulta.

Naquela sua sapatilha delicada, aquela toda feita à mão, que você queria usar numa tarde de shopping com as amigas — a tal tarde de shopping que nunca mais acontecerá, ou pelo menos não até seus filhos completarem 15 anos. Pois então, voltando à sapatilha que você foi buscar no armário e, quando colocar, notará que tem areia dentro dela. Areia, um bocado dela. “Ai, aquele dia no parquinho...”, se lembrará arrependida de uma tarde em que ia só dar uma passadinha no térreo, mas acabou sentando no tanque de areia e... bom, filhos pequenos...

Se você não tem filho, deve estar sempre limpinha e asseada, não é? Aproveite porque, quando os tiver, aquela camisa branca ficará amarelada e, enquanto eles forem bebês, você sempre estará com cheiro de leite azedo, viverá as voltas com paninhos, tentando se limpar do vaivém de leite das mamadas de seu pequeno.

E, também, quando você tiver filhos pequenos, uma noite qualquer, antes do banho, vai notar que tem massinha no seu sutiã, ou purpurina no seu queixo, ou, então, quando estiver naquele jantar chique do seu trabalho, vai perceber que esqueceu de esfregar a tatuagem de macaco que fizeram na sua mão naquela festinha a que levou os pimpolhos mais cedo. “Não, não é nada”, dirá sem graça, apoiando a outra mão sobre o rabo do macaco, quando lhe perguntarem o que você tem aí, logo abaixo do anel brilhante.

Quando voce tiver filhos, há de se tomar cuidado para nunca deixar a bolsa cair. Se por ventura acontecer no elevador do escritório de virar tudo no chão, siga meu conselho e não aceite ajuda. Guarde logo a cabeça da Barbie que estava dentro do zíper, corra para pegar a dentadura de vampiro, esconda rapidamente aquele final de pirulito que, a essa altura, já grudou nos lencinhos umedecidos e, por fim, se tiver bolinha de gude, torça para o elevador cair no poço e morrerem todos. Menos você, claro.

Na sua casa, a decoração nunca mais será a mesma. A estante impecável terá, ao lado do porta-retratos de madrepérola, uns M&Ms melecados que você tentou esconder da sua filha e esqueceu ali. Periga ter uma fralda de cocô perdida num armário, e, certamente, pecinhas de encaixe irão ornar com o vaso de orquídeas na mesa de centro.

Esqueça o sofá limpo, o cobertor claro, as paredes lisas. Sempre haverá um rastro de sorvete ou de mel pelos móveis, uns pedaços de mamão, um tanto de caos na sua vidinha, antes tão impecável.

Mas tudo isso, eu conto para você que ainda não tem filhos, sem nenhum temor ou dor. Eu conto isso com a alegria e a constatação de quem se habituou ao caos e, pior, quase que gosta disso. Afinal, a vida, é muito mais viva e colorida, depois que se tem filhos.

www.embuchada.blogspot.com

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domingo, 28 de agosto de 2011

EM BUSCA DO TEMPO >> Eduardo Loureiro Jr.

Não sei por onde começar. São dezenas de galhos que se bifurcam em centenas de galhos que se bifurcam em  milhares de galhos. O passado não é tempo, é espaço. A memória é planta. E quando vamos ao quintal colher a fruta da lembrança no pé, é difícil achar o caminho de volta para a casa do presente...

Recebi um e-mail convidando para um reencontro, em Fortaleza, de ex-participantes do Grupo de Jovens São Vicente de Paulo (GSV, para os íntimos e para os preguiçosos). Eu era um dos 36 destinatários do e-mail, todos com os endereços expostos feito galhos, inocentes de suas vergonhas descobertas. Não reconheci alguns nomes, não relembrei exatamente a fisionomia de outros, mas alguns fizeram parte do que a gente costuma chamar de "minha história".

Para que o leitor possa compreender o impacto desse e-mail é necessário que vez por outra, assim como eu, costume olhar para trás, para o passado, e se perguntar o que teria sido de sua vida se tivesse feito uma escolha diferente em determinada bifurcação, em determinado galho. Mais que isso, para que sinta o que eu senti pela leitura daquele e-mail, e dos que se seguiram a ele em resposta, é preciso que o leitor tenha a convicção de que não saberia como seria sua vida, hoje, se determinadas coisas não tivessem acontecido em momentos precisos.

Pois comigo aconteceu. Entre os dias 22 e 24 de agosto de 1986. Ideia de minha mãe. Como diz meu amigo e parceiro musical Manu Kelé, "se não fossem seus planos, eu nada seria". Pois foi minha mãe que quis que eu e minha irmã participássemos daquele "encontro de jovens" da paróquia de São Vicente de Paulo. Cada encontro, que acontecia aproximadamente de seis em seis meses, tinha um nome. O meu se chamava "Nova Vida". Não satisfeita em ter me gerado e parido uma vez, minha mãe queria repetir a façanha. Talvez porque da primeira vez eu não tivesse nascido muito a contento. Até os 7 anos, fui um menino irado, briguento. Dos 8 em diante, tornei-me retirado e triste, um rapaz tão tímido que era incapaz de falar com a própria irmã no colégio. Como seria minha vida se eu não tivesse participado do "Nova Vida"? Eu não tenho a mínima ideia, meu querido leitor. Você sabe me responder como seria a vida sem violões ou namoradas? Então...

O trabalho de parto começou na sexta-feira, dia das primeiras contrações, e o Eduardo que sou hoje nasceu na manhã do dia 24 de agosto, um domingo. Será coincidência que me coube o domingo aqui no Crônica do Dia? Quando fizemos a partilha dos dias, escolhi para mim a quarta-feira, coincidentemente o dia em que nasci, em 11 de novembro de 1970. Ofereci à Carla Dias escrever sua crônica no domingo. Ela disse que não podia. Trocamos os dias. A Carla me colocou em meu justo lugar: não de nascido, mas de renascido. Domingo. O dia do Sol. O dia do Senhor. Bem poderia ser também o dia das lágrimas que me escorriam dos olhos, salgado líquido amniótico de meu novo nascimento.

O leitor há de querer saber como eu soube que havia nascido de novo. Simples: eu estava amando minha  irmã: aquela com que eu brigava até os 7, aquela a quem eu ignorara a partir dos 8. Haverá outro motivo para a gente nascer, e renascer, além de amar? "Deus é amor", disse um certo, certíssimo, João.

Um ano, um ano e meio... não foi mais do que esse o tempo que passei no GSV. Esse tempo, que parece pequeno, foi o suficiente para eu dar meu primeiro beijo, ter minha primeira namorada, tocar e cantar em público, dançar em festas, participar de um trabalho social comunitário e entrar para um grupo musical religioso no qual eu ficaria por um ano, deixando pela primeira vez minha voz (segunda voz) gravada em um disco.

E depois sumi. Para aquelas pessoas que rezavam, tocavam, cantavam, dançavam e trabalhavam comigo, foi isso que aconteceu: eu sumi.

Para só reaparecer dias atrás, respondendo ao e-mail, dizendo que não seria possível eu comparecer ao reencontro.

Então Tereza, ainda de resguardo pelo recente nascimento de seu segundo filho, me escreve assim: "Gostaria de saber dessas mais de duas décadas em que estamos sem contato". E eu não soube por onde começar.

Escrevi para Tereza que precisava respondê-la literariamente, com uma crônica.

Cá estou, caro leitor. Cá estou, Tereza. Não exatamente sem palavras, porque já há muitas delas penduradas aí em cima, mas sem saber como contar 23 anos em uma crônica.

Não há como fazê-lo. E também não há como evitar a tentativa de fazê-lo. O leitor ainda aguenta continuar a leitura, ainda tem espaço no seu tempo para ir até o quintal deste seu vizinho escritor e, junto com ele, levantar a cabeça para observar o caminho dos galhos emaranhados?

A coisa toda talvez seja simples, de uma simplicidade sem demasiadas palavras. Esses 23 anos foram simplesmente de crescimento daquele bebezinho de então. O tocador de violão vai se transformando em compositor, com muita "Paciência" própria e de seus ouvintes. As terças-feiras de oração se transformaram em quartas-feiras de grupo terapêutico. A Irmã Iolanda é Irmã Admir (Pepeta). A comunhão da hóstia agora é comunhão de vegetal. As visitas à Comunidade do Trilho, que eram para evangelizar, agora são para rever meu amigo Manu e sua família. Os namoros se transformaram em casamentos, a água mole do amor perfurando a pedra dura da paixão. E continuo professando, só que como professor.

Há, ainda, alguns potenciais inexplorados. A dança, por exemplo. Tirando algumas tentativas isoladas em cursos de dança de salão, e uma temporada belíssima de Biodança, meu corpo já não entra facilmente no ritmo como antigamente.

Mas também há coisas surpreendentes, que não apareciam naquela criancinha. "Nunca imaginei que você era escritor", Tereza escreveu. Quem poderia realmente imaginar? E de onde vem o astrólogo que sou? Onde estava ele naquele menininho? Em mim mesmo, eu sei. Eu "pisava nos astros distraído". Eu mesmo imaginei e fui tecendo a intricada trama desses tantos galhos. O Pátio. O Crônica do Dia. O Labirinto. A Astrodramaturgia.

Tereza perguntou se "tem como encontrar, na busca do tempo perdido, a saudade que ficou de tanta gente querida"... Não é a saudade o gosto da fruta da lembrança? Há como não provar da saudade quando se relembra? Saudade da boa e da amarga ("que nem jiló"), como já cantava o velho Lua, Rei do Baião. E será estranho confessar que gostamos das duas feito quem gosta de chocolate também amargo?

Não, Tereza, não há como contar direito e direto essas mais de duas décadas. Não há crônica que chegue. Não há aula, consulta, sessão, canção que chegue. A verdade é que não sou um estranho que retorna ao quintal em busca do sabor de saudade na fruta da lembrança. Eu sou a própria árvore plantada. E, como árvore, eu não sou só eu. Nome de árvore não é indivíduo, é espécie.  Talvez nós, todos nós, todos que passamos pelo GSV, não tenhamos passado realmente. Talvez sejamos a mesma árvore, várias da mesma, aparentemente distantes, espalhadas na floresta, agora frondosas, não de jovem idade, mas de generosa idade, dando fruto, dando sombra, dando amor.

Saudade é a seiva comum que corre em nossos galhos.



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sábado, 27 de agosto de 2011

BRINCANDO DE CASINHA [Mariana Monici]

Desde muito cedo, nós, mulheres, somos apresentadas às brincadeiras de casinha, de mamãe e filhinho, etc. Na de casinha aprendemos a servir o chá com destreza, a organizar a cozinha, fazer comidinhas. Depois até lançaram brinquedos para facilitar a vida das pequenas donas de casa.

Lembro de microondas de brinquedos, liquidificador, maquininha de fazer sorvete. Tínhamos uma fritadeira também, em que se podia colocar água e as comidinhas, e, com uma bombinha de ar, soltava bolhinhas parecendo fritura. Para a criançada que gostava de comer porcarias em geral, existia um McDonalds em miniatura que era muito bonitinho — mas este nunca ganhamos. Fomos direcionadas para sermos mais saudáveis, acho.

Isso era a brincadeira de "casinha", que podia ou não incluir filhos, que estavam mesmo presentes era na brincadeira de "mamãe e filhinho". Lembro que lá pelos 7 anos, meu irmão cinco anos mais novo já tinha perdido as roupinhas de bebê, então andávamos pra lá e pra cá com uma bolsa estilo maternidade cheia de roupinhas dele para vestirmos as bonecas. Acho que não havia muitas mamadeiras, então revezávamos — eu e minha irmã, talvez uma ou outra amiga. Passávamos o dia trocando a roupinha das bonecas, a fralda, colocando chupeta e chacoalhando nossos bebês de um lado para o outro fazendo "shhhhhh".

E assim seguiram-se os anos da infância com nosso treinamento intensivo para sermos mães e cuidarmos de uma casa. De repente, lembro que muito provavelmente as duas brincadeiras não aconteciam simultaneamente, pois vamos combinar, sozinha, bebê e uma pia cheia de louça não é coisa que se ensine a crianças. Por que não haviam empregadas ou diaristas nas brincadeiras?

Bom, com tudo isso quero chegar em um ponto. Sabemos desde sempre a trocar uma fralda, mas não aprendemos nada sobre esperar os bebês nascerem. Nunca estávamos grávidas. No máximo, socávamos uma almofada embaixo da camiseta por cinco minutos e a boneca estava ali do lado em seguida.

E esperar? Não deveriam ter ensinado isso também? Não aprendemos o que fazer com os enjoos, nem com o sono repentino, muito menos com o marido — raramente existia este personagem nas brincadeiras (vai ver estava trabalhando pra trazer dinheiro para mais fraldas, sei lá... Não devem ter ensinado esta brincadeira aos meninos também.)

De forma que algumas coisas temos que aprender na raça mesmo. Uma surpresa atrás da outra! E é claro que eu sei que o bebê vai dar muito mais trabalho que qualquer boneca, mas vai ser muito mais emocionante e feliz na vida real.

Lembro que minha irmã tinha uma boneca – Nenezinho, da Estrela. Ela era fofinha, macia, aconchegante, pequenina. De vez em quando ela me emprestava. Um dia, resolvi pedir no Natal uma boneca igual. Então aqueles dias de espera do Papai Noel foram minha curta gestação, que parecia uma eternidade (isso sim é como a vida real!). Ficamos dias brincando e fingindo que cuidávamos da filha dela enquanto a minha não nascia. O parto foi no dia de Natal — ganhei a minha boneca —, só que esta era a Bebezinho. Era mais nova, mais bonita, mais cheirosa, mas não era tão macia, já que nunca tinha sido usada e não tinha cara de recém-nascida. Mas tudo bem, minha filha nasceu e a priminha adorou. Éramos duas mãezinhas experientes a cuidar de suas crias — e a fugir do tio dos bebês, que do alto de seus cinco anos só aceitava ser o Jaspion ou o Changeman e não queria brincar de segurar bebê nenhum.


PS: Comentando a respeito deste texto com meu marido, ele ficou bastante surpreso: não fazia a menor idéia de como era esta brincadeira de meninas com bonecas. Eu fico mais surpresa! E penso que, quando nosso bebê nascer, o choque de realidade (para ele) é certo!

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sexta-feira, 26 de agosto de 2011

ANDO OUVINDO BELCHIOR
>> Leonardo Marona

como criança sem pernas mergulho
perplexo sobre o indivisível feixe.
mais que perplexo, e na verdade
não mergulho, empurram-me em direção
ao meu destino de criança sem pernas,
e sou obrigado a me diluir ou morrer.

a escolha óbvia sobrepõe a resolução
das pendengas, sem chance ou esperança
sinto-me pasmo com o rumo das coisas,
caverna e dinheiro, as duas simbologias
me determinam e me arrancam pedaços.
as pernas que me faltam eu tento forjá-las
na cabeça, e nada me resta a não ser criar
um novo gólem, e então admitir: o futuro
é para os mortos, presente a morte anunciada.

com o que chamo de meu corpo desconhecido
parto como quem arrasta o próprio corpo
que cai do oitavo andar, os fundilhos das calças
esfarelam em contato com a pele que
os pernilongos ávidos por mim não me deixam
esquecer que é doce como doce é minha gangrena
quando as hienas se aproximam, e repentinamente
são muitas as hienas sedentas de doçura,
mitologias suicidas seduzem meu coração desesperado,
converso com as pessoas e sinto: não há outra chance
a não ser me diluir entre os operários raivosos de Londres,
partir é preciso, ou morrer, e morrer é mais preciso que partir,
mas como eu consigo manter os pés no chão! – e que pés? –
como é possível que o susto transpareça tamanha
tranqüilidade diante das cores novas!


haverá de ser como criança sem perna.
a raiva será o motor do susto contínuo, os olhos
ficarão bem abertos, a voz (isto é absolutamente necessário)
enrouquecerá a ponto de sumir ou tornar-se súplica do corpo,
então haverá, quem sabe, por fim um corpo a que se fazer ruína,
e a ruína terá então o seu lugar privilegiado de costas para o sol,
e então a carne enfraquecida falará, misturada com empecilhos
de fluidos alquímicos e graves entorpecentes, que por falta
de força e inegável inclinação ao erro em descrença
doce, como hienas são doces, crianças sem perna, meu gólem,
minha invenção em que tampouco me reconheço e, ao contrário,
me sobressai e não anda comigo, porque aqui não andarei
mais comigo, vou me deixar inocular pela raiva dos operários
e fazer com que as palavras tornem-se flores carnívoras,
porque não haverá mais agora o empilhamento
dos pedaços caídos de apenas um dos lados.

trocarei meus pedaços com outros despedaçados
e seremos um enorme corpo de possibilidades de corpo.
esqueceremos um pouco o limite que se avista
do umbral como a face da foice, andaremos até o cansaço,
nem que seja o mesmo caminho, nunca mais sozinhos
e ao mesmo tempo sendo todos um grande acúmulo,
dos nossos pedaços e dos pedaços alheios,
para brotar feito chaga de febre
sobre os ossos da beleza desdentada.

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quinta-feira, 25 de agosto de 2011

ÍNDICE COXINHA DE SATISFAÇÃO
>> Fernanda Pinho





Minha irmã chegou de uma festa de formatura - daquelas com bufê, banda e adereços carnavalescos que avacalham o traje passeio completo - e a primeira coisa que eu quis saber, claro, era se a festa estava boa. "Tinha coxinha". Foi o que ela me respondeu, cheia de empolgação e, pra mim, já era o suficiente pra saber que valeu a pena passar três horas no salão de beleza. Eu e minha irmã respeitamos muito as festas onde são servidas boas coxinhas. Principalmente, agora, com o mundo cada vez mais metido a besta, onde a coxinha parece estar perdendo - injustamente - lugar para frescuras feitas com damasco, salmão, ricota, tomate seco, ervas finas e outras bobagens do gênero.

Acho muito frustrante chegar em uma festa e descobri que não tem coxinha. Eliminem a cerveja, o bolo de aniversário, que seja, mas não a coxinha! Em compensação, poucas situações são tão aliviantes quanto a de estar numa festa cheia de comida antipática e avistar um garçom trazendo uma farta bandeja de coxinhas.

O garçom encarregado das coxinhas tem toda a minha atenção e meus olhares. É um príncipe. O guardião do tesouro. Se a coxinha for de catupiry, me deixa tentada a cometer suborno. Se tiver muita massa, penso em deixar os escrúpulos de lado e fazer um caixa dois da delícia na minha mesa.

Porque a massa da coxinha é de comer rezando um rosário de joelhos no milho. Sério. Quem inventou a massa da coxinha? O povo fica aí dando prêmio Nobel de Física pro moço que decidiu estudar uma coisa chamada grafeno e despreza esse gênio da gastronomia. É por apreciar tanto essa massa dos deuses que defendo a teoria de que o correto é começar a comer a coxinha pela parte maior. Assim, deixamos aquela pontinha de paraíso pro final. Já travei embates intermináveis com minha amiga Lili sobre isso. Somos amigas há 16 anos, concordamos em quase tudo. Quase tudo porque ela jura que o certo é começar a comer a coxinha pela ponta. Tão inteligente, tão culta, e defendendo um absurdo desses. Quem entende?

Não entendo a Lili e também não entendo essa proliferação de franquias pra vender empada. É casa da empada, empório da empada, armazém da empada, oficina da empada, barraco de pau-a-pique da empada. Acho exagero. Ok. Elas são simpáticas, cheirosas, vistosas e até gostosinhas. Mas nunca chegarão aos pés de uma suculenta coxinha. Já partilhei com algumas pessoas minha indignação por não haver estabelecimentos comerciais dedicados a esta maravilhosa iguaria e fui rebatida com o argumento de que isso não acontece porque, ao contrário das empadas diversificadas, as coxinhas são todas iguais. Ai, ai. Haja paciência com esses amadores. Bastaria contratar uma pessoa como eu que sou, digamos, uma sommelier de coxinha e o empreendimento seria um sucesso. Garanto.  

Porque coxinha é sucesso. Já nem falo do sabor que está ficando repetitivo. Falo das curvinhas de deixar Niemeyer com inveja. Já viu algum salgadinho com design mais fofo? Falo da sonoridade cômica da palavra. Experimente falar “coxinha” no meio de uma briga. Certeza que a discussão vira risada. Falo do sabor que...ops. Eu disse que não falaria do sabor...mas é irresistível. Me desculpe, gente. Coxinha é irresistível.


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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

O QUE DIZER? >> Carla Dias >>

Dizem por aí que o país foi à lona, ao invés de ir à forra, e que por isso morremos pela boca, já que demos de mastigar indiferença há tempos. E que me desculpem, mas apenas se quiserem - se realmente quiserem -, os que assinam embaixo de tal declaração. É que o meu país jamais morrerá por falta de desejo de continuar em pé. Não será nocauteado ou irá à forra, porque ir à forra é também comandar revoluções desimportantes. Meu país, esse que vai além do país-umbigo, que nem dá bola para país-megalomaníaco, é sonhado a cada noite, e até durante o dia, por sonhadores conectados pelos desejos coletivos: praças, jardins, alamedas, casa, comida, educação, felicidade, e nem me venha rotular colando a palavra na minha testa, tentando me fazer parecer atração principal do circo dos horrores sentimentais. Não se trata de utopia, mas do fato de que o sonho tem alimentado as grandes realizações que hoje comandam a nossa realidade, até mesmo essa precária realidade que teima ser a principal, de ficar à vista. E que é desentendida com a capacidade do ser humano em ser humano.

Realidade é um tanto de sonhos desabrochados. Qual cor, tempero, cheiro você quer que a sua tenha?

Dizem por aí que a decadência será a rainha das próximas décadas, abastada que anda, sendo admirada por tantos, por aqueles que temem que ela se exploda e não tenha mais as migalhas para oferecer. A decadência vive entre nós desde sempre, balançando sua saia puída, fazendo-se presente na concepção dos nossos planos, rasgando o verbo quando a vez é do silêncio. Por isso mesmo não lhe confio o meu destino. A decadência é o deslumbre pelo ócio, a paralisia da capacidade de nos emocionarmos. Enquanto houver movimento – os lábios, os cabelos, os pés, os sentimentos, as mãos, as palavras gritadas ao vento, os toques, os assovios... – haverá também a opção de a decadência viver sua existência esnobe em algum canto, solitária, desprovida do direito de se alimentar da gente. Viverá em algum lugar distante o suficiente para que não lhe reconheçamos a existência, permitindo-nos não limitar na constatação errática de que ela, a decadência, é mais forte e competente que a vida que escolhemos viver.

Na minha vida cabem horas e horas de labuta em prol da inexistência da decadência.

Dizem por aí que a arte deixou de ser criativa por ter sido apropriada por homens que sabem fazer chover dinheiro... Mas apenas em seus bolsos. Que o que vemos – escancaradamente – é o que temos. Há quem lamente a herança que deixará aos seus, declamando a tristeza de haver apenas sucesso criado, arte descartável, descaso pela criatividade. Compreendo esses momentos de desconsolo, em que tudo parece cinza e definitivo. Quem já não se viu aliciado por eles? Mas como acreditar nisso ao se deparar com aqueles que, mediante todas as provações possíveis, levantam-se dos tombos, protegem os seus – afetos e sonhos e planos e desejos – dos rompantes da fatalidade, tirando da experimentação constante que há na vida o principal ingrediente para a sua criação. E pintam cenários em muros, dançam pelas ruas, criam canções, histórias, constroem relacionamentos para o sempre. Percebem a vida com a intimidade de quem não teme sua fragilidade ou sua intensidade. Quem quiser que olhe a sua volta, que procure além dos holofotes, que se permita reconhecer que não... A arte não deixou de ser criativa. Apenas os olhares não a enxergam onde ela realmente mora nos dias de hoje, linda, vestida com liberdade.

Dizem por aí que o amor já era. Pobrezinho, anda sozinho, abandonado pela coragem do homem de abrir mão da conveniência e se atirar às turbulências que esse sentimento oferece. Que melhor é permanecer distante, porque o amor tem a capacidade de amolecer coração e nos fazer de bobos, e de nos deixar à mercê das enganações, das trapaças emocionais. E para que se machucar quando há a opção de se proteger? Para que correr o risco de acreditar? Não sei... O amor, na minha humilde visão, vai além do que dói na gente. Não fosse ele, a existência seria árida. Não haveria olhar compartilhado, afeto, compatibilidade. As tribos seriam pessoas vivendo em torno do que as mantêm respirando. A empatia seria artigo para solitários rotulados insensatos, loucos até. E eles acabariam mesmo por enlouquecer por não compreenderem por que sentir o que sentiam. O sorriso da criança inexistiria na sua forma de tenra alegria. As mulheres iriam parir somente cidadãos, ao invés de filhos. Os homens alimentariam estatísticas e não sua prole. O amante não escorregaria sobre o corpo da amante com a languidez do desejo. Seríamos máquinas de carne e osso. Então, como acreditar que amor, apesar de todas as tempestades que ele causa na vida da gente, pode acabar? Enfim, na minha humilde visão, o que dizem por aí nem sempre é saudável ou verdadeiro. Nem sempre descreve o que temos ou desejamos.

O que você me diz sobre isso?



Imagens: Roberto Bieto

carladias.com



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terça-feira, 23 de agosto de 2011

SEJAMOS FELIZES >> Clara Braga

Comprei o último livro da Martha Medeiros. Fiquei instigada com o título, Feliz por nada. Acho a felicidade um tema curioso, afinal é algo que todo mundo busca e que, infelizmente para alguns, parece estar cada vez mais difícil de encontrar. Quanto mais difícil achar a felicidade, mais fácil encontrar pessoas que dizem ter a receita certa para encontrá-la.

O que achei ótimo na crônica que dá título ao livro foi que ela passa bem longe dessas receitas doidas que estão inventando. Para ser feliz não precisa acender velas, dar pulinhos, rezar o pai-nosso quinze vezes, nem nada do tipo. No livro, ela diz apenas que, quando se está feliz, sempre se tem um porquê: ou ganhou algo, ou comprou algo novo, ou arrumou um novo amor. Mas quando a novidade passa, e normalmente ela passa rápido, a felicidade passa junto. Então a solução é ser feliz por nada.

Achei isso extremamente interessante e me lembrei logo de algo que me disseram uma vez e que guardei com muito carinho. Não lembro quem me disse, mas lembro exatamente como disse: “Enquanto dependermos de coisas puramente materiais para sermos felizes, ou colocarmos nossa felicidade nas mãos dos outros, nós seremos infelizes”.

Essa foi a receita mais simples, a mais sincera e a única que deu certo comigo até o momento. Os únicos responsáveis pela nossa felicidade somos nós mesmos. Se algo ou alguém não nos faz bem, cabe a nós nos livrarmos da situação ou da pessoa. Ou seja, dizer que alguém te faz infeliz é muito fácil, e nós temos mesmo essa mania horrível de sempre culparmos os outros pelas nossas fraquezas, assim nos livramos da responsabilidade de termos que achar uma solução para o problema. Mas acreditem, por mais que pareça difícil, quando tomamos as rédeas da situação, tudo se torna muito mais simples. Depende de nós dizermos sim para tudo aquilo que nos faz bem e não para tudo aquilo que nos faz mal.

Sejamos felizes!

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segunda-feira, 22 de agosto de 2011

O MEU NOME É ZÉ >> Albir José Inácio da Silva

Ou rosê como dizem meus vizinhos de fala enrolada. Não vou contar minha história porque ela não tem nada de interessante. Quero falar do meu primo Samuel, esse sim uma vida gloriosa.

Temos quase a mesma idade, mas ele sempre mereceu maior respeito. Todos nós lhe pedimos a bênção. Os mais pobres insistimos nesse parentesco na esperança de alguma intimidade. Intimidade que ele nunca quis e parentesco que ele nunca reconheceu, porque de nada lhe serviria.

Samuel sabia que não era amado e se dizia respeitado. Os críticos corrigiam: era temido. Parecia respeito, reconheciam que era poderoso, rico e sabido, mas o que sentiam era medo. Ele tinha muitos jagunços e muitas armas. Seu dinheiro se multiplicava porque era implacável na administração de suas posses com sangue conquistadas dos bugres preguiçosos. Preguiça que encontrava agora à sua volta.

Acostumou-se às reclamações. Não tinha culpa da miséria de ninguém, dizia, e miséria sempre foi fruto da preguiça. Não podia era permitir que lhe invadissem as terras. Direito de entrar e sair, só na casa da sogra. Não queria por lá esses molambos famélicos, barulhentos, batucantes e chorões em que se transformaram seus vizinhos e parentes.

Reprimia com vigor as ameaças externas, mesmo distantes, garantindo tranqüilidade para o desenvolvimento dos seus. Verdade que às vezes avançava por terras alheias, mas tinha sempre boas explicações. A melhor delas: punição.

E também porque pobres brigam muito e algumas vezes tinha que intervir com energia para impedir que se matassem. Já ouvi que isso não foi invenção do Samuel: antigamente os romanos também pacificavam os bárbaros pela força.

Ameaças não faltavam e às vezes se concretizavam com tiros e explosões até no seu quintal. Por isso era tão difícil entrar nas terras de Samuel. Poucos eram convidados, e mesmo os que queriam comprar tinham de mostrar o dinheiro e retornar logo às suas casas. Sua riqueza era dos seus, dizia. Eu mesmo já perdi a tiros dois sobrinhos que tentaram entrar.

Ensinar austeridade e conter o desperdício em terras alheias, em vez de cuidar da própria felicidade, foram mal interpretados. Assim se paga a generosidade. Mudanças abalaram a tranquilidade de Samuel. Seus produtos venderam menos. Os pobres trocaram qualidade por coisas mais baratas.

Em casa seus filhos perderam empregos, apesar de muito bem preparados. O crédito e as hipotecas, que sempre alavancaram a vida, passaram a ser ameaça. Até sua gente começou a bradar contra as dificuldades.

Voltas que o mundo dá. Alguns chegaram a comparar Samuel com outros endividados, o que é um absurdo. Discutiam sua capacidade de pagamento como se ele fosse um deles. Parece que todos ficaram felizes porque o seu nome figurava pela primeira vez na lista do SPC.

Na Associação, ouvimos pronunciamentos inflamados sobre solidariedade, honestidade, humanidade e perigo de afundar juntos sem cooperação. E falaram olhando pra ele. Não há mais respeito.

Acho que ele não acredita em nada disso porque sempre cuidou da própria vida e nunca precisou de ninguém. Pelo contrário, quantas vezes teve de emprestar dinheiro para essa gente?

Mas a verdade é que o discurso foi muito aplaudido. Samuel só respondeu que não ia faltar com seus compromissos, que não se preocupassem. Do lado de fora, pareceu mais sorridente. Chamou algumas pessoas pra conversar, elogiou alguns produtos e prometeu baixar o preço de outros. Apertou mãos que nunca tinha tocado, e convidou pras festas no parque de suas crianças.

Anunciou também que ia facilitar visitas a suas terras. O pessoal aqui em casa ficou muito animado. Sempre ouvimos que é um lugar de sonho, que beleza e riqueza estão por toda parte e que tem cada novidade de assustar um cristão.

Até eu, que sou só o Zé, confesso que fico cheio de vontade de conhecer aquelas belezuras. Tenho apenas um medo. Sei que assim que o velho Sam melhorar de vida outra vez, perde de novo a paciência com os Zés daqui de baixo.

Mas que eu tenho vontade, ah isso eu tenho.

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domingo, 21 de agosto de 2011

POEMA DESATADOR >> Eduardo Loureiro Jr.

Não tenho moral para criticar o fast food. Pratico a fast poetry — poesia ligeira — com meus minúsculos poemas. Poeminhas que normalmente ficam no seu canto de blog sem incomodar ninguém e sem que quase ninguém se incomode com eles. Mas de vez em quando aparece um poema engraçadinho, metido a besta — como que a querer confirmar o provérbio de que tamanho não é documento — e resolve aprontar para cima do seu criador.

O primeiro era um poema que se escrevia assim:

Não sou Pacífico,
sou Atlântico
— Mar Tenebroso.
Quem atravessar,
ganha um mundo novo.

Eu tinha vinte e poucos anos, estava todo cheio de mim: "quem quiser encarar, que venha; não sou fácil, mas o prêmio é bom".

Anos depois, o poema — intrometido — me chamou para uma conversa: "não é bem assim", patati, patatá... e o poema e o poeta se reescreveram:

Não sou Pacífico,
sou Atlântico
— Mar Tenebroso.
Quando atravessar,
ganho um mundo novo.

Desde então, e já se passaram muitos anos, estou nesta empreitada de me atravessar, por vezes a remo, por vezes a nado.

Se puxo esse assunto todo logo hoje é porque, ainda ontem, me apareceu mais um poema engraçadinho e metidinho, que eu pensei que já havia ficado na gaveta virtual do esquecimento, escrito numa época de difícil relacionamento:
um nó
               nós dois

Poeminha, diga-se de passagem, que eu julgava "o máximo do paradoxo estendido na areia". Que genial colocar em quatro palavras todo o emaranhado de um casal! Mas eu não perdia por esperar...

E foi ontem, na verdade já esta madrugada, quando eu escutava uma canção que não ouvia há tempos da Flávia Wenceslau (compositora que não tem nada de minúscula), e cujo refrão é o seguinte:

"Eu vim pra quem me chamou.
De nó, eu sou desatador."

Era assim, desse jeitinho que está aí em cima, que eu distribuía as palavras de Flávia em meu juízo. Mas ontem, talvez porque fizesse frio, talvez porque eu comesse pipoca, talvez porque o dia tivesse sido assim tão sem nó, eu ouvi as palavras em linhas diferentes:

"Eu vim.
Pra quem me chamou de nó,
eu sou desatador."

E o mais recente poema intrometido — ainda mais intrometido que o primeiro — reescreveu o poeta sem se deixar reescrever por ele:

um nó
             nós dois

O nó é um: do retraimento, da insulação, da soledade.
Em dois, somos nós, desemaranhando um ao outro.

O poema é um nó do poeta que em nós desata.




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sábado, 20 de agosto de 2011

TEMPO DE SAUDADE [Debora Bottcher]

Então ela sentiu saudades. Do tempo em que sua maior preocupação era chegar a tempo da escola para ver Jeanny é um Gênio e Penélope Charmosa. De quando suas lágrimas eram só porque a mãe a mandava tomar banho quando ela ainda queria brincar.

Também sentiu saudades do pai: de quando andava com ele de mãos dadas pela feira, atrapalhando na escolha das frutas; de quando ele a jogava na piscina de adultos para ensiná-la a nadar, esperando, ansioso e atento, que ela emergisse sã e salva do fundo; de quando a mãe foi embora - porque as relações podem ficar muito complicadas mesmo que uma criança não seja capaz de entender - e ele cuidou dela e dos irmãos como nenhum outro pai faria.

Sentiu saudades de quando dormia em seus braços deitada no tapete da sala vendo TV e ele a levava para a cama - seu beijo delicado depois de cobri-la; de quando ele não chegou a tempo para a sua formatura.

Teve saudades também de quando ele caminhou ao seu lado, relutante, rumo ao altar a fim de entregá-la à união com um homem que não lhe parecia a melhor opção; e especialmente de quando ele foi buscá-la de volta, não muito tempo depois, sem fazer nenhuma pergunta.

Ela sentiu saudades de quando se vestia de odalisca, bruxa e fada para brincar o carnaval.

De quando, nas manhãs de sábado, chamava os irmãos e invadiam o quarto dos pais jogando-se na cama para acordá-los: riso e alegria; e de quando eles se enfiavam todos, os cinco, debaixo do cobertor, juntos e seguros, o mundo inteiro cabendo naquelas quatro paredes.

Também teve saudades de quando aprendeu a ler e escrevia seus primeiros poemas num caderninho colorido que escondia nas gavetas, debaixo das roupas. Depois vieram os diários, a coleção de papéis de carta, o vício de rabiscar até em guardanapos pra não perder o fio de uma idéia.

Sentiu saudades dos disquinhos coloridos que cantavam músicas divertidas nas histórias de sapos, príncipes e princesas - tudo muito encantado. Teve saudades de seus livros de contos de fadas, que um dia foram queimados num incêndio que ninguém jamais soube como começou.

Sentiu saudades da primeira vez que foi sozinha ao cinema com os irmãos mais novos, responsável e orgulhosa.

De quando sentava-se no pátio do colégio, sob as árvores, sozinha, porque um pouco de solidão já se fazia necessário.

Teve saudades da avó, que na imensa cozinha da 'casa grande' da fazenda remexia-se de um lado para o outro sobre o fogão à lenha e a mesa gigante de madeira, iniciando-a no seu dom para a culinária. A feijoada em família, o churrasco de domingo.

Sentiu saudades da faculdade, dos amigos perdidos, dos amores que não deram certo, das pessoas que a amaram e ela não pôde corresponder. Dos sonhos que abandonou porque, muitas vezes, a realidade com suas obrigações e prioridades é mais urgente e não há tempo a perder.

Teve saudades do primeiro apartamento em que morou sozinha depois do casamento desfeito e do pai chegando todas as manhãs com pão quentinho para o café - que ele preparava, a mesa bonita, enquanto ela tomava banho e se arrumava para trabalhar. Dele lhe beijando a testa na porta do carro e desejando Bom dia! com seus olhos muito verdes e o sorriso sempre aberto.

Sentiu saudades de quando o acompanhava ao supermercado e esse era 'o' programa das tardes de sábado. Teve saudades também de quando ele ficou muito doente e cansado, e ela pensou que isso podia durar para sempre, contanto que pudesse mantê-lo vivo.

Ela sentiu saudades de quando dor era apenas sinônimo de tropeçar, cortar o dedo, desembaraçar os cabelos. De quando conseguia dormir sem pesadelos ao seu encalço.

Teve saudades de muita coisa - até do que nem se lembrava mais. E viu que um tanto disso pertencia a uma época em que ela ansiava por crescer.

Agora, descobriu que desejava mesmo nunca ter passado de um metro de altura...

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sexta-feira, 19 de agosto de 2011

SEMO 3 >> Zoraya Cesar

O encontro prometia. Também, há dois longos anos sem namorar (no sentido bíblico, inclusive), sem conhecer um qualquer que fosse, nem para um café. Nessas circunstâncias, e com o relógio biológico uivando aos 34 anos do 2º tempo, qualquer encontro seria bem-vindo.

Até porque sua amiga Rita nunca a metera em furada. E Rita garantira com todas as juras de pés juntos que o primo do primo de seu namorado era do tipo caseiro, família tradicional mineira, boa pessoa e ela nem quis saber o resto, já estava bom demais. Encontro, aí foi ela.

Não vou aborrecer os leitores com os detalhes de depilações, pés, mãos, cabelos, massagens, cremes, roupas e perfumes novos. E as leitoras conhecem bem tais rituais, tampouco precisam de detalhes. Portanto, vamos à conclusão: ela ficou um espetáculo. As leitoras aprovariam, os leitores cairiam a seus pés, incontrolavelmente fascinados.

(Tá bom, vamos confessar, há um certo exagero, mas que ela ficou um arraso, ah, isso ficou. O decote na medida certa, o perfume na sedução exata para fisgar...hum, não, não, “fisgar” não, tentemos de novo: na medida certa para conquistar um bom marido. Pronto.).

Rita chegou para buscá-la, e, no jeito sincero e rude que a amizade de muitos anos permite, declarou com todas as letras: “hoje você desencalha”. Isto é, completou, se não ficar com a frescura de sempre. Mulher exigente como você acaba encalhada. Veja o meu namorado, disse, não é da família dos Orleans e Bragança, ele come de boca aberta, mas é legal. Imagina, dizia, cheia de indignação, se eu ia fazer que nem você, terminar um namoro só porque o coitado levantava o dedinho que segurava a xícara, ao tomar café? Ou aquele outro, que nem teve uma segunda chance, só porque tomou a sopa fazendo barulho (aquele, sabe, schchrrllp, feito quando a pessoa chupa o líquido, em vez de tomá-lo feito gente)? Com tudo ela concordou humildemente, garantindo que estava cansada de ficar sozinha, se o rapaz não fosse um psicopata assassino já seria o par perfeito. Hoje terminaria a noite com status de namorada. A amiga acreditou, sossegou e finalmente chegaram.

Era uma churrascaria, dessas famosas, tipo Plataforma ou Porcão, não vou dizer qual que não estamos aqui para fazer propaganda, mas era desse tipo. Grande, barulhenta, cheia de jóias de gosto duvidoso e carros importados. E muitos turistas também.

Assim que as viram os dois homens se levantaram. Bom sinal. E assim que o viu, o mundo dela ficou cor-de-rosa: ele era alto, amorenado, cabelos com um aqui e acolá de branco, um charme. Perfumado. E gentil. É ele, pensou ela. É ele o homem da minha vida. Com esse eu caso, não tem conversa.

E o fato é que ele parecia pensar a mesma coisa. Olhava embevecido aquela deusa que o primo do primo apresentara, e pensava que finalmente teria alguém decente para mostrar à família.

Enfim, um conto de fadas. Foi dito que ele era charmoso, gentil, bem vestido, até bonito? E que sabia se comportar, não comia com a boca aberta, nem palitava os dentes na mesa? E se, além disso tudo, ainda fosse rico? Hein? Pois é, ele também era rico, na verdade era um dos sócios majoritários da churrascaria! Ela quase gritou de alegria, mas se conteve a tempo, felizmente. E quantos, perguntou - toda sorrisos, já se vendo em grandes festas, fazendo as honras da casa -, eram os sócios?

“Semo três”.

Como? Perguntou, meio tonta com o barulho ao redor.

“Semo três”.

Ela parou no tempo, ainda aturdida com a declaração, e ficou olhando para ele.

“Semo três sócio” – garantiu ele, complementando a informação carente de “s”, e pensando que aquela sua deusa era meio burrinha.

Alegando um súbito mal-estar (que, a bem da verdade, nem era tão fingimento assim) ela se levantou para ir embora. Ele ainda se ofereceu para deixá-la em casa, mas ela saiu correndo, como uma cinderela às avessas e nem sapatinho deixou. Estava disposta a aturar tudo nele: a mania de limpar os dentes com a língua, as unhas pintadas com base, e até os pêlos do nariz que teimavam em sair para fora e balançar ao vento toda vez que ele respirava um pouco mais fundo. Tudo por um casamento. Menos erros de português.

A Rita disse que só voltaria a falar com ela dali a dois anos.


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quinta-feira, 18 de agosto de 2011

A MELHOR CASA DO MUNDO
>> Fernanda Pinho


O que eu faço da vida? Definindo simploriamente, escrevo sobre casas. Apartamentos triplex, puro mármore carrara, com vista para a Lagoa Rodrigo de Freitas. Mansões sustentáveis com telhados verdes, referência arquitetônica em Cingapura. Moradas espanholas esculpidas em concreto, praticamente obras de arte contemporânea. Lofts californianos, ousadia em layout, mobiliário e design.

Escrevo com honestidade, gosto do que faço e, obviamente, sempre que abro o material fotográfico, a primeira coisa que me passa pela cabeça é “ah, se eu morasse nessa casa”. Mas não passa de um suspiro. Não chega a ser uma ambição nem ao menos um desejo.  Não sou de muitas pretensões. Sou de uma pretensão única: ser feliz. E, sabe, eu consigo ser feliz na minha própria casa. Pode parecer romântico, ingênuo ou até forçado o que eu vou dizer, mas eu realmente acredito que o que faz de uma casa um lar não é o material que a construiu, mas os sentimentos que a mantém erguida.  A intimidade que temos com a casa é proporcional à cumplicidade que temos com as pessoas que moram conosco. 

A fachada do meu prédio não é revestida de granito negro universo. Minha sala não tem pé-direito duplo. Não tenho vista para a Serra do Curral. Não há uma adega climatizada embaixo da escada, nem lareira, nem banheira.  E nada disso impede que seja o único lugar em todo esse planeta onde eu me sinto verdadeiramente tranquila, confortável e segura. Pois eu sei que a tesoura está sempre na primeira gaveta do banheiro. Que se eu abrir muito a torneira do tanque, o fluxo de água da pia da cozinha vai diminuir. Que a lampadazinha do corredor ficou sete anos queimada. Que no chaveiro de metal não tem chave que abre o portão. Que as fotos ficam nas caixas de sapato entulhadas no maleiro da estante da salinha de TV. Que o tapete da sala foi feito pela minha mãe. Que só sentamos à mesa de jantar se houver visita. Que se a visita for muito importante, a mesa será coberta com o forro de linho branco.  Que os enfeites de natal estão numa caixa, na estante da sala. Que as ferramentas estão numa maletinha preta e os esmaltes numa maletinha rosa. Que o telefone da pizzaria preferida está na primeira página da agenda, e não na letra P. São banalidades, mas são as nossas banalidades. Me solta em qualquer outra casa do mundo e eu não saberei onde procurar uma tesoura. E nem quero saber. Minha tesoura está aqui. E meus tesouros também.


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quarta-feira, 17 de agosto de 2011

DIA DOS SORRISOS E DAS CANÇÕES
>> Carla Dias >>

Das tantas coisas que nos acontece, diariamente, uma e outra certamente são boas, trazem sorrisos e amansamentos. Complicado é, em meio a essas tantas coisas, mergulharmos e trazermos as boas para a superfície.

Eu estava no ponto de ônibus, com meu player e meus fones de ouvido, Dave Matthews Band, Ella Fitzgerald e The Swell Season no playlist. Neste dia, eu não quis voltar pra casa de metrô, porque às vezes sinto uma saudade imensa de ver a cidade através da janela do ônibus. Então, nem me importei se a espera era de mais de quarenta minutos. Eu escolhi a espera e a jornada.

Cerca de dez minutos depois de eu chegar ao ponto, aproximou-se essa senhora, sessenta e poucos anos, miúda, cabelos brancos, roupas puídas, sorriso banguela. Começou a falar comigo bem na hora em que o Dave Matthews cantava One sweet world/Around a star is spinning /One sweet world /And in her breath I'm swimming /And here we will rest in peace. Mal terminei de cantarolar mentalmente, tirei os fones e pedi que ela repetisse o que disse: o Ceasa para aqui?

Sim, o Ceasa para aqui, e ela sorriu, eu sorri de volta e coloquei meus fones nos ouvidos, voltando a ter trilha sonora para os meus pensamentos, porque sou das que pensam e sonham demais enquanto escutam música em transportes públicos e durante passeios a pé.

Glen Hansard, do The Swell Season, cochichando nos meus ouvidos: You are restless/ I was somewhere less secure / So I went running to the row / And so now that the longest of places I was / I quit my rambling and come home. Então, vem Markéta Irglová para acompanhá-lo: ‘Cause maybe I was born to hold you in these arms. A música é linda e eu adoro esses dois, mas antes de respirar fundo e me reconhecer na música e na letra, percebi que a senhorinha falava comigo novamente. Tirei os fones, e pedi que ela repetisse:

O ônibus demora demais, né? Tá doido...

Concordei com ela, até porque a senhora não sabia que eu aceitara a espera em troca de uma boa viagem com direito à janela de ônibus, e que eu estava em paz com isso. Esperei alguns segundos, para ver se ela tinha algo mais a dizer, mas ela apenas sorriu, eu sorri de volta e coloquei os meus fones nos ouvidos.

O Dave Matthews mal começou a cantar uma das canções da DMB que eu mais gosto, I’ll back you up, vi a senhora sorrindo. Achei por bem manter os fones nos ouvidos, até porque ela não disse nada, apenas sorriu para mim. Eu sorri de volta. E antes de conseguir voltar a atenção para minha jornada interior, ela começou a fazer alguns gestos.

A essa altura, a senhorinha já tinha percebido que eu estava ouvindo música. Desta vez, para não me forçar a tirar os fones, ela decidiu gesticular. O sorriso a tiracolo, ela começou a balançar o corpo, como se estivesse dançando, e com os braços, simulava a presença de seu parceiro de dança. Ela dizia: música, música, bom..., como se eu fosse uma estrangeira e ela não soubesse meu idioma. E eu, que acabei envolvida pelo astral dele, respondi: bom mesmo!

As duas gargalhando, ela dançando e eu avistando o ônibus, dando sinal, e me despedindo da senhorinha do jeito que ela gosta: sorrindo. Pensei, logo que botei os pés no ônibus: tomara que o Ceasa venha logo.

Dentro do ônibus, a seleção já era a dela. Ella Fitzgerald me levou sei lá aonde cantando, lindamente, Blue skies / Smiling at me / Nothing but blue skies / Do I see. Olhar jogado pela janela, vendo pessoas e lugares, e a agitação preguiçosa de um domingo à tarde. Deu-me vontade de sair dançando, enquanto Ella improvisava nos vocais, daquele jeito que somente Ella sabia fazer. Imaginei como seria se eu me levantasse e começasse a dançar no corredor. Alguém chamaria o cobrador? A polícia? Os agentes da saúde mental? Ou simplesmente me deixariam cumprir o papel da minha felicidade, como a senhorazinha no ponto de ônibus fez.

Ainda estava na Lins de Vasconcelos quando ele entrou. Não houve como não notá-lo, porque ele entrou no ônibus armado com um sorriso lindo que só. E não há como ignorar um sorriso daqueles. Pensei que, talvez e em especial, aquele era o domingo dos sorrisos escancarados.

O moço se sentou no banco em frente ao meu. Ella cantando: He'll look at me and smile / I'll understand / And in a little while / He'll take my hand / And though it seems absurd / I know we both won't say a word. E fiquei pensando: será que este é o moço da canção?

Não sei vocês, mas eu já peguei ônibus depois de receber notícia muito boa. A vontade é de sair contando a novidade aos estranhos, como se fosse explodir de tanta vontade de gritar, de compartilhar a benevolência do destino ao conceder felicidade. Mas enquanto seguro a onda para endoidecer mais adiante, na companhia dos que me querem bem, não consigo parar quieta.

Ella Fitzgerald quebrando tudo: I'm talking to the shadows / 1 o'clock to 4 / And Lord, how slow the moments go / When all I do is pour / Black Coffee / Since the blues caught my eye / I'm hanging out on Monday / My Sunday dream's too dry, e o moço inquieto, remexendo papéis que trazia nas mãos, olhando pela janela, mas quase virando-se para mim… Para contar segredo bom? E rindo sozinho, remexendo nos cabelos, louco para revelar o motive da sua deslavada felicidade.

O moço desceu do ônibus, e mais quieta, colhendo paisagem com o olhar, já próximo ao meu ponto, Ella Fitzgerald mexeu comigo mais profundamente ainda: And now, now you say you love me / Well, just to prove you do... / Come on! / And cry cry cry me a river... / Cry me a river / ‘Cause I cried a river over you.

Talvez fosse mesmo um domingo ímpar, daqueles em que, sem me esforçar, consigo separar as coisas boas de um dia repleto de distrações menos agradáveis.





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terça-feira, 16 de agosto de 2011

UM ANJO NA TERRA >> Clara Braga

Quem leu o título desta crônica e já imaginou que eu iria falar sobre o filme Cidade dos Anjos, errou! Eu gosto muito desse filme, e acho até que ele merece uma crônica, mas vai ficar para uma outra vez, agora o que eu quero mesmo é compartilhar uma grande descoberta: existem anjos entre nós! E esses anjos têm histórias que são tão bonitas quanto a de Cidade dos Anjos, só não viraram filme.

Só para que vocês possam entender melhor, eu estou falando de pessoas tão capazes de fazer o bem que acabam colocando a gente, meros mortais, em nossos devidos lugares quando julgamos que já estamos fazendo nossa parte quando doamos algumas roupas que não usamos para quem precisa, ou algo do tipo.

Vou explicar melhor: recentemente consegui uma bolsa pela universidade para trabalhar em um projeto chamado Pés?. Nesse projeto, nós ensinamos teatro e dança para portadores de necessidades especiais, desde aquele que só mexe um pouquinho os braços até aquele que tem uma deficiência quase imperceptível. O desafio é grande e ainda estamos aprendendo a como fazer uma pessoa que tem todos os movimentos dançar com uma pessoa que quase não mexe nada. Mas maior que o desafio é a satisfação de ver a alegria dos alunos de estar ali e também a evolução de cada um, e a nossa também.

Com um projeto bonito desses, é difícil não subir no banquinho e achar que seu lugar no céu já está garantido. Mas é ai que a gente conhece pessoas como a mãe de uma das meninas do projeto, e acaba repensando um pouco nossas atitudes. Ela é mãe de uma das alunas mais difíceis de trabalhar, pois, apesar de ter quase todos os movimentos, ela não fala nem entende quase nada do que nós falamos para ela. E foi em uma conversa com essa mãe que nós descobrimos que o marido dela é cadeirante, ela já o conheceu assim, se apaixonou e casou. Depois, ela passou em um concurso para trabalhar na escola especial, mas não poderia dar aulas só sendo formada, teria que fazer um curso específico para trabalhar com portadores de necessidades especiais, e foi nesse curso que ela conheceu a filha dela, já com 6 anos, e a adotou.

Como se não bastasse ter um marido cadeirante, ela escolheu, por conta própria, ter uma filha com uma deficiência grave. E foi nesse momento exato que eu percebi que quando eu tiro 4 horas da minha semana para trabalhar com essas meninas, eu estou, sim, fazendo um trabalho bonito, mas será que é só isso que eu posso fazer? Será que eu posso me julgar tão importante por fazer isso?

Não acho que todos nós temos que sair por ai adotando crianças com problemas físicos ou mentais, essa é realmente uma tarefa para poucos. Não é pra menos que me referi a essa mãe como um anjo, mas será mesmo que a gente faz o que realmente pode fazer por quem precisa?

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sábado, 13 de agosto de 2011

LIÇÕES DE PAI [Debora Bottcher]

In memorian Rubens Böttcher
* 13/09/1946 / † 04/07/1998

Meu pai tinha o dom da alegria – o que não quer dizer necessariamente que fosse feliz; quer dizer que ele era capaz de rir e sorrir de coisas tolas, de continuar olhando o lado bom na adversidade, de persistir onde a maioria desiste.

Ele era um homem bonito: os olhos verdes, sempre brilhantes; a pele clara, os cabelos louros, um charme elegante no jeito de andar. Sempre gentil, galante, sedutor – um mestre, aliás, na arte de seduzir: quando conheceu minha mãe tinha sete namoradas.

Seu tom de voz era alegre, suave e ele raramente se alterava. Contava piadas (tinha um arsenal delas!) e vivia assoviando como se a vida se resumisse numa canção sem fim. Adorava Roberto Carlos e colecionava seus discos. Uma das imagens que guardo dele é a das manhãs de sábado, quando ele lavava os carros encarnando o próprio astro: a mangueira virava um microfone na garagem molhada. Eu ria muito...

Meu pai era um homem cansado. Penúltimo filho de imigrante alemão, foi criado com a rigidez da cultura européia num país tropical. Para ele, um homem de espírito e alma livres como minha avó, a infância e adolescência foram uma prisão de atribuições e responsabilidades. Ele estudou engenharia mecânica, mas exerceu a profissão por apenas dois anos: precisava da liberdade das ruas, bastaram-lhe vinte e poucos anos de quatro paredes delimitando espaços.

Meu pai fez muitas coisas: trabalhou na bolsa de valores, teve restaurantes, lojas de roupas, aviamentos, de materiais de construção, uma das primeiras casas de café nos moldes atuais, mais de vinte anos antes desse modismo: era um visionário. Nunca o vi sem trabalho, estava sempre em movimento - um olho no agora, outro no futuro. Meu pai lia muito e era um homem inteligente, cuja mente nunca parava de pensar. Mas a coisa que ele mais gostava de fazer, era desenhar projetos de casas e construí-las. Isso nos tornava quase ciganos: quando ele acabava de construir uma casa, já tinha planos para outra - muito maior e melhor. Vivíamos mudando...

Meu pai era um homem corajoso, que nunca se deixava abater. Para as pessoas com quem convivia, tinha sempre uma palavra amiga, um conforto, e uma história divertida pra roubar um sorriso, mesmo de quem estava às lágrimas. Ele enfrentava o revés de peito aberto, e parecia não temer nada. Suspeito de que essa última observação seja uma meia verdade: muitas vezes eu o ouvi andando de um lado a outro durante a madrugada, o que me remete a pensar que ele também travava batalhas para exorcizar seus fantasmas.

Claro: meu pai tinha defeitos, era humano e normal. Mas não vou me perder em listá-los, porque eles se perdem diante da grandeza de suas qualidades. Problemas familiares são inevitáveis e talvez sirvam mais para acentuar o melhor das situações e das pessoas envolvidas.

Quando aos 49 anos descobriu um câncer no fígado, tratou de resistir à má surpresa, driblar a tristeza (à própria e a nossa, especialmente à minha), reuniu suas forças e, resignado e valente, encarou a doença de frente: nunca reclamou da dor, dos tratamentos exaustivos, dos remédios amargos, da crueldade do destino – só da comida sem sal e da falta de vitalidade para praticar tênis, seu esporte favorito. Foi difícil vê-lo definhar, dia-a-dia sem poder conter o tempo. Foi muito difícil ver uma parte de mim partindo, virando névoas, sombras numa escuridão para sempre sem luz.

Treze anos se passaram e, de fato, nunca me recuperei dessa perda: todos os dias uma parte de mim chora essa ausência. Com meu pai aprendi de caráter, de humildade, generosidade, esperança, lealdade e verdade. Aprendi de perdoar – muitas vezes, a mesma pessoa todos os dias. Aprendi que sem trabalho não há sorte que nos acompanhe e que é preciso insistir. E todos os dias também me lembro que entre tantas coisas boas que minha memória abarca dessa figura tão especial para a minha vida, uma das lições mais importantes que recebi do meu pai foi a de que nada deve nos paralisar. Sempre haverão obstáculos, entraves, descaminhos; a questão principal é como queremos enfrentar isso tudo: deixando-se dominar ou resistindo bravamente. Nem sempre consigo me manter na segunda opção, mas me orgulho de ter o legado de alguém que, apesar de ventos nem sempre favoráveis, nunca se deixou ficar no chão...

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sexta-feira, 12 de agosto de 2011

QUANDO NÃO HÁ MAIS PERIGO
>> Leonardo Marona

para Julia


Pelo pouco que li e experimentei, sou obrigado a dizer que todo amor verdadeiro está fadado ao fracasso. Não nascemos para a comunhão do tempo, é essa a nossa inclinação mitológica - a dos amorosos - e nem mesmo nos damos conta disso. Um homem foi fadado ao fracasso por amor, sozinho numa cruz, e desde então não conseguimos mais deixar de copiar seus passos. Isso, é claro, vale para poucos. A organização do mundo nunca foi a organização do amor. Com a perda da ternura que nos fazia suar de amor por semanas, acabamos, de um modo ou de outro, assumindo novas ingrenagens: de repente importa mais agir do que experimentar através dos sentidos mais íntimos. E assim se fez o mundo em que vivemos. Os pobres adolescentes, doentes de amor, com os pés enraizados no chão e tão burros porque é impossível ser esperto e amar ao mesmo tempo, enfim, estas pobres criaturas antenas do contínuo comem um dobrado na mão de adultos que as empurram de encontro umas às outras como se olhassem seus relógios à espera do sino da igreja. Como cabritos atiçados em brasa as crianças desde cedo aprendem que há pressa e não há como fazer, mas é preciso fazer, não se pode perder a tróia de ferro da vida, esta mesma que ergue troféus e mata com história. Então estragam nossa força maior, nossa proximidade única do que rege os tempos imemoriais. Queremos antes nos rodear em ritual xamânico, dar voltas em torno do cheiro de nossos hormônios flamejantes, mas nos empurram e nos fazem homens.

Comigo sempre aconteceu assim, durante muitos anos me martirizei. Relações surgiam como poeira no deserto, voavam longe me arrastando em feridas arenosas, arrebatavam-me e exigiam atenção completa. Não era uma pessoa que fazia isso comigo, não uma pessoa em especial: era o fato de que qualquer relação amorosa deveria ter esta característica de vendaval por essência. Então eu caía nos mais irremediáveis precipícios. Devo ter tido umas dez namoradas no espaço de dez anos e, acreditem, isso está longe de me deixar vangloriado. Muitos anos passei, não só ouvindo dos outros, mas dizendo a mim mesmo que eu era um ser insuportável e que, mesmo quando me aturavam como martírio, eu dava um jeito de estragar as coisas, porque eu era desumano e uma pessoa fria, então achava que a ideia romântica de "escritor solitário" fosse uma possível explicação para todos os meus infortúnios.

Hoje em dia sofro o dobro, mas já posso me aceitar. E estou passando pela mesma coisa outra vez. Só que sei que é sempre a mesma coisa, mas outra coisa diversa. Porque deixamos de ser a mesma coisa que fazia a outra mesma coisa, portanto ela também muda de estado. E como é sempre a mesma coisa dentro de mim, mas eu nunca mais sou o mesmo, será sempre a mesma coisa, e sempre outra coisa diversa.

Estou me separando, amigos, era o que eu queria dizer desde o princípio, mas vejam: já não sou mais eu mesmo. Três parágrafos me deformaram para sempre, e precisarei seguir sem um pedaço, até o fim. Os desmanchados, os sobrepostos: assim deveriam nos chamar. E eu sei que, como eu, somos muitos.

Mas não quero que, por obrigação, sigam-me até o fim. Esta é uma canção desesperada e, como tal, tem aquela grave peculiaridade de só ser importante a quem a canta e, algumas vezes, à história. E esta, aprendi, é uma gradissíssima filha da puta. Seja a minha ou a do mundo, ou mesmo a do vencedor despercebido, tem sempre alguma coisa por trás. Não era o assunto da crônica, mas serve para o que eu preciso falar. Dessa coisa por trás. E cuja importância não sabemos de fato qual é. Porque é de uma importância que está além das nossas expectativas. E por isso as esperamos debaixo da chuva. Como esperei até agora. E aqui estou, na casa dela, enquanto ela dorme após uma noite de ritalina porque, afinal, estuda muito, estou aqui batendo este texto não como um escritor que quer (e até mesmo precisa) ter seu texto apreciado para não morrer. Aqui morro, então não me preocupo. Muito além de um Werhter, me encantei pelo provável, mas o provável nunca será possível enquanto for, em sua estrutura primeira, apenas provável. Por isso peço desculpas, não a ela, pois que seremos inseparáveis, mas a mim mesmo, o eu mesmo que sabe agir, e a quem o eu apaixonado atingiu covardemente, forjando o apenas provável como sendo possível, o que é bem diferente.

Aqui estou, acumulando frases, ouvindo Edith Piaf. Sim, Edith, aceitaria um cigarro, ou qualquer expiação. Baudelaire, a França inteira, por que não consigo compreender vocês, mesmo sendo como vocês? É a coisa mais brutal. A compreensão que vem do que não se vive. E assim me relaciono, porque, ao amar, não vivo. Definitivamente me arrasto. E que beleza haveria no maior dos clichês, a não ser que houvesse uma grande produção por trás disso ou uma grande vantagem para alguém que não o que ser sofrível?

Muito bem, existe uma tríade. Outros melhores já enlouqueceram por isso, e foram tratados como absolutistas, mas isso é algo totalmente diverso de um mandato. Em suma, sente-se isso antes mesmo de se pensar no assunto. Mas sempre encontramos assunto quando deixamos de sentir, que é quando, infelizmente, começamos a viver. Pois bem, vamos à tríade. Pode ser a mais óbvia, como pai, filho, espírito santo, que rege ou copia todas as outras de ordem mais grave, ecumênica, trágica enfim, porque lida com deuses - e não podemos com deuses. Mas existem outras tantas menos importantes, e portanto quase específicas, fulminantes a um só ou a menos gente, como Lou Reed, Iggy Pop, David Bowie; ou Lorca, Dali e Buñuel; ou mesmo Sofia Loren, Anna Karina, Brigitte Bardot; Neal Cassady, Ginsberg, Kerouac. Árvore, fruto, planta: em suma é isso.

E por que falo disso? Não é à toa, e não quero que me sigam. Digo pela primeira vez para compreender o que só é passível de ser compreendido em detrimento do agrado. Fato é que, com essa mulher da qual me despeço com grande dificuldade, fiz um vinculo ainda mais intenso que o da Santíssima Trindade. E, tocando no assunto, queira deus que eu consiga sair dessa. Porque a amo demais, e decidimos pela sensatez. Quando nos conhecemos, ouvimos Erasmo Carlos, trocamos as carteiras de cigarros de que dispunhamos (pois ela preferia o meu cigarro, e eu o dela) e isso foi tudo. Antes sabia apenas que ela fazia remo e vestia-se – conforme vi uma vez – como se fosse uma mulher dos anos vinte. Estes são os detalhes, mas vamos de uma vez à tríade.

Sexo, aborto, cama: aí está. Experimentem, é fulminante. Sem conversa, aceita-se o “pai” (sexo) como elo mais firme, como ente hipnótico, ao qual se agarra sem hesitação, pois que é o “pai”, o motivo, a primazia. Com o esmorecer sexual surge, repentinamente, o tédio (prefácio do filho), que melancolicamente decide-se sempre pelo que o levará ainda mais longe em sua desolação – e grandes obras de arte foram feitas neste estado ridículo de existência: as maiores, inclusive. E é o momento de refrescar-se também, ironicamente é o momento da morte. Disso nós devíamos saber. Mas as coisas são feitas para que não saibamos delas quando somos mais perspicazes. E com isso chegamos ao aborto (filho), já que ele sempre vem quando não estamos preparados, por mais que mintamos, e graças a deus! Tudo aquilo que vimos com calma, sem suar, retorna a nós como cobrança tardia do suor. E a morte é quando suamos sem saber. Paga-se um bocado, aprende-se nada. E chegamos imediatamente e sem deslizes à cama (espírito santo), porque uma parte, depois do vendaval, compra uma cama nova, enquanto a outra, como presente de despedida, financia o enxoval completo da cama de casal. Sempre dormiram em camas apertadas, foram felizes e infelizes, mas amam-se a ponto de lembrarem-se melhor das horas boas, porque são indulgentes e incansáveis os verdadeiros amantes, e, depois de tanto aperto numa obra anterior ao homem, podem por fim construir o lugar que não é mais o lugar do pai (sexo), mas do espírito santo, que é a cama espaçosa para caberem enfim todas as incongruências, quando já não há mais perigo.





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quinta-feira, 11 de agosto de 2011

EU TAMBÉM ME ESQUEÇO >> Fernanda Pinho


Aconteceu há uns dois meses, num bar meio boate, onde eu estava com uma amiga. Já estava na fila, para pagar, bem próxima do atendimento. Notei um garçom se aproximar da moça do caixa e entregar a ela um cartão de banco, dizendo que alguém havia perdido. Quis fazer um comentário sobre o fato, e como minha amiga havia ido ao banheiro, comentei com os desconhecidos da fila mesmo.

- Que gente lerda, né? Como perde o cartão do banco? Tem gente que só não perde a cabeça porque é colada no pescoço.

Também pensei em dizer que eu poderia apostar que o dono do cartão estava caindo de bêbado em algum canto do bar, mas aí eu me lembrei da minha amiga. Não bebe nem refrigerante, mas há anos vem construindo uma indestrutível fama de desligada e esquecida. Assim que ela retornou à fila, pedi que conferisse se não havia perdido o cartão. Ufa! Não havia!

Chegou, então, minha vez de ser atendida. Abri a bolsa. Remexi as coisas dentro da bolsa. Documento, chave, batom, chiclete. Virei a bolsa de cabeça pra baixo. Apalpei a bolsa, na esperança de descobri um fundo falso. E...cadê meu cartão? Foi aí que me dei conta.

- Já sei o que aconteceu. Eu troquei de bolsa hoje e meu cartão estava na outra bolsa. Paga minha conta pra mim, amiga?

Assistindo à cena, a moça do caixa interveio.

- Será que não é seu o cartão que nós encontramos?
- Né não, moça. Eu nunca perco nada. Minha bolsa não saiu de perto de mim. Minha amiga vai pagar...
- Tem certeza?
- Acho que tenho...
- Qual é o seu nome?
- Fernanda.
- Fernanda P Barbosa?

Tive vontade de dizer que não. Não queria admitir que a lerda era eu.

- Sim, Fernanda P Barbosa.
- Então o cartão é seu. Toma.

Também cogitei dizer que eu não tinha conta naquele banco e que o cartão pertencia a alguma homônima abobalhada. Mas a preguiça da burocracia bancária para requerer outro cartão falou mais alto que o orgulho e fui obrigada a assumir: eu havia perdido o cartão.

Obviamente fiquei, além de constrangida, meio chocada com o fato. Tentando inutilmente recapitular em que momento eu me desliguei da minha bolsa. Me impressionou tanto que já contei esse caso mil vezes e, agora, estou contando aqui para quem ainda não ouviu.

Por que tudo isso? Porque achei bem feito para mim. Como um bom exemplar da espécie humana também tenho essa mania de apontar um dedo pros outros, sem me dar conta de que, quando faço isso, estou apontando três dedos para eu mesma. De vez em quando é bom esquecer um cartão pra lembrar de certas coisas.    



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quarta-feira, 10 de agosto de 2011

SOLIDÕES >> Carla Dias >>

Eu adoro esse filme, e o tenho em VHS. Lembro-me que foi um trabalhão comprá-lo da locadora de vídeos da qual eu era sócia. E ainda o estou caçando em formato DVD para comprá-lo.

Já escrevi sobre ele, inclusive aqui. Porém, hoje ele será apenas o ponto de partida para a minha crônica.

Eu estava muito cansada, quase apagando, e zapeando antes de ir para a cama. Então, parei no TCM, um canal da tevê a cabo que passa filmes antigos, muitos clássicos. Eu levei um susto. Como assim? Não é clássico... E o que é clássico mesmo?

Clássico ou não, “Frankie e Johnny” foi lançado em 1991, tornando-se antigo o suficiente para entrar para a programação do TCM. Depois de suspirar mediante a década que me separava do dia em que o assisti pela primeira vez, entreguei os pontos, esqueci o sono, e o assisti novamente.

O filme não seria tão belo não fossem as atuações de Michelle Pfeiffer, a Frankie, e Al Pacino, o Johnny. Quando o tema é a solidão e o desejo de encontrar um amor que seja companheiro e verdadeiro, é muito fácil cair na pieguice, transformar o drama em uma comédia rasgada. Há sim um quê de comédia no romance, como há na vida. Mas se trata de um humor cotidiano, da capacidade de rirmos de nós mesmos, vez ou outra, durante uma tempestade emocional.

E no caso do filme, se trata da história de uma garçonete e um ex-presidiário que vai trabalhar no mesmo restaurante que ela, como cozinheiro. Poderia ser uma simples história de amor, mas o que cada um traz como bagagem emocional a torna catártica e tão interessante que você torce o tempo todo para que os personagens se dispam dos medos e se joguem na vida. Que saiam da condição de espectadores da vida e se tornem parte dela.

O roteiro de Terrence McNally é baseado em uma peça teatral de autoria do próprio. A direção de Garry Marshall e a música de Marvin Hamlisch tornam “Frankie e Johnny” um filme para se ter por perto, porque ele é dos que assistimos várias vezes.

Eu sei que disse que o filme seria apenas um gancho para a crônica, mas é quase impossível não falar sobre ele um pouquinho mais...

Na realidade, eu queria falar sobre a solidão, o tema do filme. Minha mãe costuma me perguntar, vez ou outra, como consigo viver só. Afinal, eu tenho 40 anos, não tenho filhos, e na versão dela, isso me torna só para o futuro também. Mas existe essa diferença... Viver só não é ser só. A solidão pode ser muito interessante, em determinados momentos da vida. Ela nos permite observar a própria história com a distância do parecer do outro. E às vezes isso é mais que necessário.

Eu não sou solitária, mas vivo só, como muitas das minhas amigas e amigos. Assim como eles, espero que um dia eu deixe de viver só para viver muito bem acompanhada. E me nego a viver mal acompanhada!

No dia seguinte ao filme, recebi uma mensagem de uma amiga com quem tenho conversado muito a respeito de dividir a vida com alguém. Recentemente, ela saiu de um relacionamento de alguns anos, e está aprendendo a lidar com a novidade de estar só e não saber se um dia estará bem acompanhada. Algumas pessoas passaram por ela e a fizeram pensar que fossem ficar, mas não ficaram. O desapontamento é compreensível, porque sempre esperamos o melhor, não é mesmo? E por mais que essa espera nos faça sofrer, desencadeie uma série de inseguranças, não consigo pensar em outra forma de se viver as oportunidades com as pessoas que passam pelas nossas vidas.

Eu não sei se é certo ou errado, mas quando se trata de qualquer tipo de relacionamento, não consigo estabelecer regras, usar redes de proteção. Vou de um salto, ciente de que posso planar ou cair de cara no chão. Acredito que essa consciência me permite viver meus afetos com mais liberdade, sem me sentir constrangida por ter feito escolhas erradas, por ter apostado para perder. Esse risco eu aceito bem, afinal, lidar com o ser humano é sempre uma jornada de erros e acertos, de perdas e conquistas.

Minha amiga não pensa tão diferente de mim, mas decidiu impor seu desejo de não sofrer tanto ao sentimento. Eu a respeito por isso, principalmente por me saber incapaz de fazer o mesmo. Então que, ao ler a mensagem dela, lembrei-me do filme. Lembrei-me daquela cena em que Johnny questiona Frankie sobre o motivo de ela não aceitá-lo, não permitir que eles fiquem juntos. E não termina com uma resposta, e quando ela vem, não é simples. Mas o mais interessante é que, ao dizê-las, ao reconhecer a existência dessa dificuldade, a vida deles se torna mais leve.

Quem não quer encontrar a sua Frankie ou o seu Johnny? E quem já encontrou, cuide bem, porque às vezes o destino dá de nos pregar peças, trançando o encontro das nossas vidas aos rompantes do tempo.

Aos desacompanhados, resta-nos a música de Terence Trent D’arby (Sananda Maitreya):



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terça-feira, 9 de agosto de 2011

UMA BOA POLÊMICA >> Clara Braga

Sala de espera de clínica ginecológica só não é pior do que salão de beleza. A clínica em que vou costumava ter só revistas de fofoca, então ficavam aquelas mulheres lendo as revistas, esperando sua vez de serem atendidas e comentando as últimas notícias das vidas dos famosos: quem passou final de semana na Ilha de Caras, quem foi fotografada na praia com namorado novo, quem está grávida... e outras coisas do tipo sempre eram assuntos em pauta.

Nessa minha última, consulta tive uma surpresa ao entrar na sala de espera. Agora, além das revistas de fofoca, lá tem também uma televisão, e acertou quem já imaginou que ela estava ligada naqueles programas de fofoca que dizem até qual é a cor da calcinha da celebridade que estava passeando na rua.

Uma vez que eu estava lá, e a consulta estava atrasada, entrei no clima. Acabei descobrindo que o mundo das celebridades só pode estar muito sem assunto. A polêmica da vez foi uma declaração besta que a Sandy deu em uma entrevista para a Playboy.

Bom, se a pessoa vai dar uma entrevista para a Playboy, para mim já é obvio que ela vai falar de sexo. Não precisa ser a entrevista inteira sobre isso, mas alguma coisa vai ter. Então ela diz: “É possível ter prazer anal”. E em cinco minutos o mundo está se perguntando o que aconteceu com a doce e meiga Sandy, "isso só pode ser culpa da Devassa, depois que ela fez a propaganda da cerveja ela se perdeu no mundo".

E então eu me pergunto: o que tem demais nessa declaração, pelo amor de Deus? Ela mesma ficou ofendida e disse que não foi exatamente isso que ela falou na entrevista, pois ela não fala assim da sua vida sexual. E então eu me pergunto novamente, em que momento ela falou da vida sexual dela? Será mesmo que qualquer pessoa não poderia ter chegado a essa conclusão só imaginando que se tem muita gente que faz é porque é possível? Sinceramente, não consigo achar nada polêmico nessa declaração, pelo contrário, achei muito boba e fiquei com pena da Adriane Galisteu, que tirou a roupa toda na capa da revista, mas não conseguiu chamar tanta atenção quanto a Sandy.

Realmente, acho que as pessoas precisam rever os seus conceitos sobre polêmicas. Polêmica é a doida que colocou veneno na merenda das crianças da escola em que trabalhava, é o bebê que morreu porque ficou esperando até poder ser atendido na fila do hospital. Tudo bem, isso tudo não tem nada a ver com celebridades, mas polêmica boa mesmo no mundo da fofoca seria se a Sandy não tivesse vida sexual mesmo depois de casada, aí sim dava pra sentir pena dela.

Enfim, que bom que não foi a Sandy que escreveu essa crônica, se não as pessoas iriam descobrir que ela vai à ginecologista e isso poderia ser o fim da sua carreira.

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segunda-feira, 8 de agosto de 2011

O SEGREDO >> Albir José Inácio da Silva

- Por que você não vai pra casa, se não está bem?

Pronto! Até os colegas perderam a paciência. Ela já ouviu poucas e boas do chefe por bobagens que não costumava cometer. Teve a solidariedade de alguns olhares, mas agora até eles a condenam.

Eu era seu melhor amigo e logo de manhã percebi que havia algo errado. Mas só ouvi um “não posso falar”. A doçura de sempre se transformou em medo, a ponto de perguntar “o que é?” quando alguém se aproximava da sua mesa. A princípio aborrecidas com sua desconfiança e grosseria, as pessoas ficaram surpresas. O que poderia operar tamanha transformação?

Deixaram-na quieta. O mau-humor deu lugar a suspiros tão profundos e ressentidos que nos circunstantes a raiva deu lugar à pena. Afinal, ela tinha um segredo.

Ela tinha um segredo, e os problemas de quem tem um segredo. Segredos costumam ser insuportáveis, por isso vazam. Revelados, às vezes, criam outros dramas, mas enquanto segredos são devastadores. Segredo é uma forma de tortura, e não guardá-lo é muitas vezes uma questão de saúde.

Ela tinha um segredo e tinha medo porque não se costuma perdoar os inconfidentes. Transpirou em bicas, teve dor de cabeça e a pressão, pôde senti-la no pescoço. Não trabalhou direito, não ouviu as pessoas ou não entendeu o que lhe foi dito.

Deixaram-na em paz, mas o chefe não. No final da tarde ela estava demitida. Já no corredor repetiu: “não posso contar”.

Dias depois encontrei-a por acaso, e era a amiga de novo. Antes que eu perguntasse, disse que o segredo se revelou uma bobagem que todo mundo já sabia, inclusive eu. Alguma coisa sobre uns amores proibidos de alguém, que até agora não entendi porque a tinha transtornado tanto.

O problema, explicou-me, foi a maneira como foi revelado o tal segredo, durante a noite, ela meio dormida meio acordada. Sempre teve medo dessas coisas, e pensando nas consequências protegeu com a saúde e o emprego um mistério que já havia escapado.

E ela tem lá suas razões, né? Até eu fico torcendo para só receber segredos em forma de cochichos, e de gente bem gente. Tomara que eu nunca mereça a deferência de revelações pouco palpáveis. Gosto de apalpar quem me faz confidências. No bom sentido, claro.

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