quinta-feira, 30 de junho de 2011

NÃO É NORMAL >> Fernanda Pinho

Sentada num restaurante de frente para o mar da paradisíaca Canoa Quebrada, comentei com minha amiga e companheira de viagem, Laís, paranaense, sobre como aquela paisagem me impressionava.

— Não é possível que a Sam ache isso normal — eu disse, meio embasbacada, me referindo à outra amiga, cearense, nossa anfitriã.

Ao voltar para Fortaleza, ainda deslumbrada pelo choque emocional que para mim foi Canoa Quebrada e Morro Branco, tive que interpelar a própria Sam.

— Por que você nunca me disse que era tão lindo assim?

Perguntei sabendo que "lindo" não era suficiente, mas não me ocorreu outra palavra na hora.

— Ah, mas eu também não disse que era feio.

— Mas também não disse que era deslumbrante. Acho que você deveria ter me preparado melhor pra isso.

Dessa vez, eu usei "deslumbrante", mas ainda não era suficiente. Ela apenas riu, talvez por saber que é mesmo lindo/deslumbrante, mas achar normal. Afinal, ela nasceu ali e todos ao seu redor, que também nasceram ali, parecem conviver com tudo aquilo, como se realmente fosse normal. Mas não é. Não aos meus mineiros olhos que já viu muitas praias e continua se comovendo a cada vez que é apresentada a uma nova. Sobretudo, quando se tratam de praias estonteantes como as do Ceará (estonteante... não, ainda não é suficiente).

Porque o mar é uma coisa muito mineira, como bem disse meu amigo Felipe, alagoano, numa crônica aqui do Crônica do Dia mesmo. O mar está presente nas nossas conversas, nas nossas recordações, nos nossos planos para as férias ou para a velhice. O mar é nosso ideal de uma vida mais saborosa (Belo Horizonte é deliciosa, mas falta sal, convenhamos). O mar é nosso amor impossível. A paixão platônica. Tão platônica que eu quase prefiro só observá-lo. Dos dias que estive no Ceará, por exemplo, só entrei no mar em um deles. O grande deleite está na observação das nuances de suas cores e da coreografia das ondas.

E não se trata apenas de um deleite visual. O mar é para todos os sentidos. O mar é a lufada de ar quente e úmido que nos envolve quando colocamos o pé pra fora do avião, ao chegarmos numa cidade litorânea. O mar é o gosto salgado que os mineiros provam discretamente quando vão à praia pela primeira vez.  O mar é a música que fica guardada dentro das conchas. O mar é o cheiro de fruto do mar capaz de inebriar até quem não aprecia frutos do mar. O mar é felicidade, energia, inspiração. O sexto sentido.

Não posso dizer que é lindo, deslumbrante, estonteante. Pois ainda assim estaria sendo injusta. O que posso dizer é que, definitivamente, não é normal.

www.twitter.com/ferdipinho
Foto: Morro Branco, por Laís Bastos

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quarta-feira, 29 de junho de 2011

MUNDO PARTICULAR >> Carla Dias >>

Mundo pequeno é aquele que alguns chamam de rocambole e outros de passeio na praça. A gente sabe que o mundo, que o planeta Terra é enorme, mas às vezes ele parece caber exatamente na essência do que chamamos encontro fantástico, porque o mundo só pode ser rocambole ou passeio na praça quando há pessoas envolvidas.

Em caso geográfico, ele é o que mapa descreve. Em caso financeiro e geográfico, sim, é caro dar uma volta ao mundo, ainda que muitos garantam que vale a jornada.

Dureza é quando se trata do mundo particular, aquele que apelidamos de universo para que a ideia pareça totalmente existencialista. O que ela realmente é... Só que, às vezes, ela só parecer ser, entende? E assim o mundo pesa em nossos ombros.

O mundo particular é pequeno. Se for pequeno como é pouca a bagagem que levamos para passar uma semana na casa de um parente, significa que escolhemos levar a vida de uma maneira simples, que aceitamos a objetividade das situações, que não passamos horas alimentando abismos entre nós e os outros, ou entre a nossa realidade e os nossos desejos de conquista. Sendo do mundo particular, pequeno tipo essa bagagem, vive-se com mais fluência nos assuntos que tratam da vida sendo vivida na sua própria cadência, sem sofrer grandes interferências dos nossos temporais internos.

Um mundo particular pode ser apenas caótico, com mil e tantos motivos para que ele desabe logo ali. Mas também pode ser assimétrico, mergulhado em tons, pode se fantasiar, o tempo todo, apenas para mudar a forma como é percebido pelos mundos particulares alheios.

O mais interessante sobre o mundo particular é ele ser o responsável pela existência do mundo rocambole ou passeio pelo parque. Não fosse a sua natural sensibilidade em perceber nuances, os olhares laçando a imensidão a sua frente, a contemplação das tantas possibilidades espalhadas pela geografia do sentimento, tudo ficaria no seu devido lugar, e não experimentaríamos a sensação de que jamais iríamos rever uma pessoa, porque ela sumiu da gente, mudou de país, seguiu outro rumo.

Mas, de repente, está ali...

Na beira do seu mundo particular, sorrindo de feliz, comprando revistas na banca que você frequenta há décadas, ou levando o filho na mesma escola que a sua filha. Está sentada no único banco do trem com lugar vago, ou faz parte do grupo que comprou um pacote de viagens para o litoral. Esbarra em você na rua.

De repente, a proximidade se repete, e não de forma corriqueira. Ela é de uma lindeza que mata saudade, coloca as novidades em dia, fortalece relações. É de uma força que nos torna capazes de ver o mundo assim, pequeno e confortável, uma sala de estar no qual, oportunamente, (re)encontraremos nossos afetos.

carladias.com



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terça-feira, 28 de junho de 2011

O QUE É UM WORKSHOP? >> Clara Braga

Desde que comecei a estudar música e tocar bateria, o que já deve fazer uns 9 anos, foram poucos os workshops nos quais eu fui. Ou por falta de oportunidade ou por falta de dinheiro ou por falta de coragem, sempre um desses motivos me impediu de ir. Mas nessa última segunda-feira não dava para perder. Um monstro da bateria estava em Brasília para um workshop: Virgil Donati.

Eu nunca entendi muito bem a intenção de um workshop, mas sempre achei muito engraçado. Um cara monstruoso vai lá, toca muito, em uma velocidade que se você piscar você já perdeu metade dos movimentos, diz que aquilo ali que está fazendo é muito simples, todo mundo solta o famoso “oooooh!”, que na verdade quer dizer “simples?! Eu não consigo fazer isso nem que eu fiquei estudando até 2040”, mas todo mundo sai de lá estimulado.

Eu não sei direito como funciona o estímulo e a motivação no ser humano, mas quando comprei meu ingresso achei que sairia de lá querendo trancar minhas aulas e vender minha bateria. Principalmente depois de um garoto ter feito a seguinte pergunta: "Virgil, quantas horas você estuda por dia?". Virgil: "Mantenho um ritmo de 2 à 5 horas diárias". Todos fizeram cara de surpresos. Eu quis pegar minha agenda, desmarcar uns compromissos e fazer um novo plano de estudo. Foi quando, vendo a cara de assustado do povo, ele disse: "Não se preocupem, vocês precisam de muito mais!". E soltou aquela risada, que todos acompanharam, mas o único que realmente ria por ter achado engraçado era ele, os outros pareciam mais rir de desespero.

Esse tipo de situação, na minha cabeça inexperiente, deveria fazer com que quem estivesse assistindo se sentisse um pouco humilhado, mas foi legal entender que, na verdade, a intenção não é fazer com que todos os bateristas do mundo sejam Virgil Donati, mas sim ver nele uma possibilidade de melhora pessoal. Já que eu não tenho cinco horas no dia para estudar, posso estudar uma hora por dia e melhorar no meu ritmo. Posso pegar as dicas dele e me tornar melhor em certo ponto que talvez eu nem pensasse em estudar se não fosse ele falando. E foi aí que caiu minha ficha e eu finalmente entendi para que realmente servem os workshops. Pasmem, não é para humilhar ninguém, apesar de todo mundo saber que tem gente por ai que se aproveita da oportunidade.



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segunda-feira, 27 de junho de 2011

ANGELUS >> Albir José Inácio da Silva

A Ave-Maria era ouvida onde se estivesse porque os rádios de todas as casas tocavam. Os meninos então sabiam do chamado das mães e as mães sabiam que era hora de chamar. Os pais chegariam perguntando “e os meninos?.

As mães mais bravas por causa dos pais mais bravos chamavam seus filhos da rua primeiro. Rua era qualquer lugar fora das paredes, não fora dos muros, porque não havia muros. Não havia despedidas, boa noite, adeus. Só continuação, amanhã me devolve, depois te pago, vamos no rio amanhã.

Sem ternuras na fala, só providências que mãe doente precisa da ajuda de todos: “Não vai querer cana-do-brejo? E quebra-pedra? Lá em casa tem muito.” Se Dona Dalva ia morrer, só perguntando em casa pra nossa mãe se ela escapa.

Dos pais falava-se pouco. Sabia-se menos. Trabalhavam. Avisavam-se os mais distraídos: "Cara se manda, teu pai acabou de passar". Tudo isso enquanto durava a Ave-Maria. E todos se benziam no início na rua e no fim já em casa.

A esquina ficava vazia e ninguém, ninguém ainda sabia que alguns não teriam tempo de lembrar desse tempo. Outros se encontrariam com os olhos úmidos daquela poeira. Outros escreveriam sobre ela com os olhos secos e a letra tremida.

Não desconfiavam que a foto de meninos assustados já estaria amarela, e os medos seriam outros, e a solidão não poderia ser disfarçada combinando nada para amanhã.

E não se saberia mais que o dia acabou por não haver brincadeiras a encerrar, nem mães doentes e vivas precisando de chá.

Não imaginavam que a escuridão de fora não existiria por culpa da eletricidade. E a de dentro já não seria ouvida por mais que se rezasse Ave-Maria.

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domingo, 26 de junho de 2011

PULSANTE >> Eduardo Loureiro Jr.

Às vezes, leva tempo. Às vezes, demora. Às vezes, nem acontece. Às vezes, aflora.

Tenho um amigo poeta, e sei que muitos leitores devem ter um amigo poeta. Mas o meu amigo poeta é daqueles capazes de batizar gentes (Os internos do pátiO) e gente (É do ar do Pátio).

Foi esse amigo poeta, o Fabiano dos Santos, que me fez acontecer poesia pela primeira vez, quando me mostrou umas escritas palavras numa arrancada folha de pautado caderno, com a esquerda margem picotada:

Você passou
e feito pluma jogou
um beijo em mim
me deixando assim
feito criança
quando ganha brinquedo
a pluma
bateu no meu vidro
quase quebrando
o meu medo.

A pluma do poema de meu amigo trincou o vidro da minha prosa sem graça e comecei a aprender poesia. (Daqui a umas três encarnações, eu aprendo de vez.)

Meu amigo poeta é também compositor e musicou muitas outras palavras que ele mesmo escreveu e que outr'Os internos do pátio escreveram. Quando ainda éramos estudantes na Universidade Federal do Ceará, Fabiano participou de um dos festivais culturais da universidade com uma canção chamada "Maracatu Pulsante":

Rio riso raso 
Vazio viso no vaso 
Minha dor 
Plantada no não tempo 
Fincada na terra 
Levada ao som do vento 
Flor floriu flores 
Corro risco 
Risco cores 
Na cor pintada de meu sentimento 
Preto em branco 
Na alegria do meu sofrimento 
Vou no impulso 
No pulo do pulso 
Tramo e traço 
Vou no bago 
Bagana em bagaço 
Braço e abraço 
De meu amor 
Corto Rio 
Riso raso 
Corre o sangue 
Encarna a cor 
Vazio viso no vaso 
O sorriso de minha dor

Hoje pela manhã, bem cedinho, antes de sair para trabalhar (sim, domingo às vezes também é dia de dar aulas), recebi um e-mail de um outro interno, também poeta, também compositor, também interno do pátio: Manu Kelé. O e-mail tinha um título, Maracatu Pulsante, e um link para um vídeo em que um coral interpretava a canção de meu amigo Fabiano dos Santos, com arranjo feito pelo maestro Orlando Leite.

Após ver o vídeo do link, descobri que havia dois outros vídeos com o mesmo título, também interpretações da canção de meu amigo. Um deles, este aqui:



Uma obra-prima, boa como só as primas sabem ser.

Ouço as vozes e os instrumentos do Conjunto Pequiá, mas ouço também o violão de Hélder Ramalho criando, num dos bancos do pátio interno, a harmonia da melodia que Fabiano havia trazido apenas na voz. E ouço a voz rouca de meu amigo Fabiano, bela como costuma ser a voz de quem canta sua própria composição. E escuto também o violoncelo tocado durante a apresentação no festival. E há ainda o eco da voz do mestre de cerimônias anunciando que Maracatu Pulsante ficara em segundo lugar no festival.

Escuto os sons de hoje e o som de há vinte anos. Os sons de para quem Maracatu Pulsante é só música das boas e o som de para quem o Maracatu Pulsante era o pulso diário das rodas de violão no pátio. Todos tocam juntos no Coral do Tempo. E muitos sons ainda se juntarão a esses...

O Maracatu continua pulsando. Fabiano continua pulsando. Ontem mesmo me ligou para falar do sorriso de sua dor. E no pulso do tom do telefone, eu doí a sua dor sorrisada e sorri o seu dolorido sorriso.

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sexta-feira, 24 de junho de 2011

MAIS UM DEUS REFUGIADO
>> Leonardo Marona

Quando criança, um médico disse: “não há o que fazer, a alma parece descolada”. Sua mãe, refugiada vermelha como toda a sua família, reforçava o coro dos ausentes, e sua infância foi praticamente movida ao som da vela dos barquinhos de papel.

Quando dos primeiros fios de barba, tinha um cabelo esquisito a que chamava de “minha doce loucura”, e justificava dizendo que “ela se espalhava por todos os seus poros, como o cabelo, e principalmente nos poros da cabeça”. Reparou que tinha lágrimas metálicas, e seu choro era metálico, de som metálico. Disseram: “você devia tocar guitarra”. “Prefiro sopro”, ele disse, “mas, de qualquer forma, não tenho dinheiro”. Disseram: “Então pega uma, toca: se gostar, fica, se não gostar, devolve”. Então pediu a um camarada periférico que fizesse o serviço. Este mesmo camarada transava acid jazz e ácido lisérgico, e lançou mais um pupilo nas artes do prazer e do amor e, portanto, nos arremedos da dor.

Quando ouviu pela primeira vez Wes Montgomery tocar, tentou cortar fora a orelha numa atitude impulsiva a qual, depois, denominou “proximidade com o divino”, em referência ao conhecido caso do pintor holandês. Com Paco de Lucia, o caso foi um pouco mais grave. Vestiu-se por meses como um hebreu, passou a falar numa outra língua, segundo muitos, fruto de sua imaginação e da sua poesia, mas era uma língua metálica, era um solo metálico, uma plantação vasta de sons metálicos, de árvores metálicas, pássaros de alumínio. Passou a falar como uma guitarra. Não se movia mais, ficava encostado num canto, alimentando poeira, apoiado numa cadeira como muitos violões esquecidos, com sua bata hebreia e suas alucinações de chumbo. Um dia piscou os olhos e disse alto: “o Siroco! Está chegando o Siroco!”. Então voltou a falar, mas só falava nisso: no Siroco, que chegaria do Saara para corroer as ruínas greco-romanas e sacudir os esqueletos dos fantasmas sanguessugas de almas.

Alguns o consideravam o maior guitarrista de todos os tempos, normalmente bêbados de coração sensível. Outros lhe atiravam moedas e o que nem os pombos se dignavam. Sapatos apressados passavam como facas de verniz. Mais uma tarde amarelava como o enjoo do sol. Ele tocou, tocou a tarde toda, tocou por um milênio, tocou como um dos grandes, então parou e guardou a chave do tempo no bolso com seus trapos e sua beleza. O tempo que não admite arestas ou gaiolas, o tempo metálico. Mas o primeiro médico tinha mesmo razão: a alma descolada. E o aplauso surdo das marquises se esfarelou na tensão constrangida pela admiração cósmica da poluição atmosférica pelos seus deuses de ferro.




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quinta-feira, 23 de junho de 2011

AJUDE UMA RAINHA FRUSTRADA
>> Fernanda Pinho



Se eu gosto de festa junina? Eu poderia até dizer que adoro. Seria simpático. Mas não muito sincero. O que eu adoro mesmo são comidas de festa junina. Canjica, caldos, pipoca, pé-de-moleque, quentão. Fora isso, acho que nada mais me atrai. Detesto sentir frio - como já foi largamente divulgado pela imprensa mundial - e em festa junina sempre faz frio. Também não tenho o menor talento e pontaria para ganhar alguma coisa naquelas brincadeiras típicas. Mas e a quadrilha? Nossa, maior trauma da minha infância. Por dois motivos. O primeiro, nem preciso comentar, aí está a foto autoexplicativa. Porque diabos me colocavam sempre pra dançar com os meninos minúsculos? Tudo bem. A culpa não era deles. Eu que sempre fui grandinha além da conta. Mas, pôxa, não é possível que não existisse um garoto mais compatível!


Não bastasse esse bullying, eu nunca consegui realizar meu desejo de ser Rainha da Pipoca. E não foi por falta de tentativa, pois minha mãe se empenhava muito nas minhas campanhas. Para ser eleita Rainha da Pipoca (ou Rei do Amendoim, no caso dos meninos... aqueles baixinhos) era preciso vender o maior número de votos possível (igual as eleições brasileiras, só que ao contrário). E eu vendia, vendia muito. Ou melhor, minha mãe vendia, pois é ótima em convencer qualquer pessoa a fazer qualquer coisa. De nada adiantava. Em todos os anos que competi, só consegui ser Princesa da Pipoca. E, veja bem, hoje eu penso que deveríamos ter aberto uma CPI da Hierarquia Pipoqueira, porque a Rainha eleita era sempre a sobrinha da diretora do Jardim!


Quer dizer, no fundo, eu era a Rainha moral. Mas, infelizmente, o nepotismo nunca me deixou ser coroada. Na época eu ficava frustrada, mas hoje vejo que ser a Princesa era uma façanha que eu conquistava graças à lábia da minha mãe. Se dependesse do meu talento para vender alguma coisa, eu não seria eleita nem a Catadora do Milho da Pipoca da Rainha. Porque, olha, não consigo vender nem nota de R$ 50 por dois reais.


Por isso, nem tento. Não vendo votos, nem rifas, nem Natura, nem Avon. Me limito a vender ideias. E, hoje, gostaria de vender para vocês a ideia do nosso livro. O "Acaba não, mundo", primeiro livro do Crônica do Dia. Como comprar essa ideia? Acessando nossa página no Catarse. Toda contribuição é bem-vinda. Colaborando com o valor de R$ 19, por exemplo, você tem seu nome divulgado na página de agradecimentos do livro. Com R$ 39, você garante seu exemplar. Que tal?


Ser uma cronista publicada certamente amenizará meu trauma de nunca ter sido Rainha da Pipoca...



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quarta-feira, 22 de junho de 2011

AS FERAS >> Carla Dias >>

Uma menina linda, linda, carregando sua boneca já vestida para o baile que aconteceria no salão da sua imaginação, puxou-me pela mão, certa vez, para que eu a acompanhasse em uma aventura que ela adorava repetir. Durante a jornada, dei-me conta de que também eu era fascinada pelo tema, apesar de contemplá-lo de outra forma.

Quando menina de tudo, já não via essa história, como diz um amigo, com óculos de lentes cor-de-rosa. E sentada no sofá, a menina sorridente ao meu lado, dando-me detalhes sobre a animação que saltava de um DVD que ganhou de sua mãe, fascinada com os vestidos, as nuances de princesa, oferecia-me uma versão sutil de uma fábula que, em minha opinião, é complexa, melancólica, e quase nunca tem final feliz, o que não lhe tira a beleza.

No cenário artístico, foram muitas as versões das feras e das belas, sendo que algumas delas sucumbiram ao desleixo de se pensar que tratar de um tema desses não pede cuidado. Recentemente, assisti a um filme que considero uma releitura contemporânea dos fatos: a coexistência do belo e do que é não simplesmente feio, mas portador do incômodo de não ser belo, não ser natural, não ser aceitável aos olhos da sociedade.

Mora na dita feiúra um mistério atônito, e aos que se permitem observá-la, detidamente, é oferecida a oportunidade de encontrar mais que alusões negativas. Porque se engana quem pensa que feiúra – das que nascem com a gente e das que nos são impostas no decorrer da vida – é somente física. Fosse possível olhar de perto as almas de muitos, espiá-las, em silêncio, sem interferir nas suas ganas, certamente ficaríamos estarrecidos com o que as habita.

A fera da qual trata a fábula é um homem que é transformado em monstro por um feitiço, e que amarga suas auguras vivendo sozinho e encarcerado pela sua má sorte. Para voltar a ser um homem, não um monstro, ele tem de fazer com que uma mulher se apaixone por ele e diga que o ama. A bela é gentil, doce, fofa, né?, como diria a menina sentada ao meu lado, não estivesse ocupada declamando, bem baixinho, quase em sussurro, as falas do desenho, enquanto trança os cabelos da boneca, olhar vidrado na tela da tevê.

A bela tem essa sutileza da naturalidade, porque ela é tudo isso, não necessita mudar. Aguenta as pauladas da vida com o requinte de quem não sabe ser diferente. No momento do medo, ela se mostra confusa, mas como é de seu feitio, já que bela também é a sua essência, não recusa a presença do monstro ao percebê-lo gentil, avesso ao que demonstra sua imagem. A fera não! Ela foi transformada, virada ao avesso, já não tem a sutileza em sua pura forma. Tornou-se amarga, mas apesar da sua imagem, jamais deixou de ser justa ou terna.

A cada cena que ela mais gosta - porque essa menina não é boba e prefere ter um monte de preferidas -, a menina sorri largo que só. Pergunto se ela não tem medo da fera, e ela me responde que não... Que o amor da bela não tem culpa de ter ficado feio, de botar medo nas pessoas. E que a bela sabe fazer mágica... Vai fazer o monstro virar príncipe.

Eu seria uma fera, sem dúvida. Não me agradaria ser tão plena como a bela cor-de-rosamente perfeita. As feras são transformadas, não apenas por feitiços, não apenas no imaginário. Elas são transformadas a cada momento, a cada experiência. São obrigadas a contemplar a própria diferença, e a aceitando ou não, têm o dever de sobreviver a elas.

A Fera (Beastly/2011)

No final do desenho, boneca de cabelos devidamente trançados, a menina se aconchega em mim e suspira. Diz que, quando crescer, quer uma fera para transformar. É aí que a história não faz sentido para mim. Tanta força só para manter o olhar na direção da fera, tanto medo engolido, tanta dificuldade para aceitar a diferença, e então, a bela, fofa, né? transforma a fera em um tipo de príncipe encantado.

Bela, para mim, não é a moça delicada e amorosa que transforma feras com seu beijo. Bela, para mim, é a oportunidade de conhecer a fera, compreender-lhe a existência, perceber a sua bondade e se permitir conviver com ela assim, do jeito que ela é. E nem pensem que se trata de se fazer favor, porque somos mais feras do que belas.

E a menina, não se aguentando de tanto apaixonamento pela história da bela e da fera, empunha o controle remoto e aperta play. Ela quer assistir de novo, garantir que a sensação não lhe escape. Deixa a boneca de lado, mas pega outra. Enquanto assiste, trança-lhe os cabelos. Os cabelos das belas bonecas que enfeitam o seu quarto.

E eu, incapaz de assistir ao desenho com a naturalidade de uma criança que descobre uma das histórias que vai adorar por anos e anos, até pela vida, beijo-lhe a face, e a menina nem tira os olhos da tela. Saio de cena, de uma das cenas preferidas dela.

É hora de encontrar as feras, misturar-me a elas. Sentir-me em casa. Porque, fosse possível olhar de perto as almas de muitos, espiá-las, em silêncio, sem interferir nas suas ganas, certamente ficaríamos maravilhados com a beleza que as habita.



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terça-feira, 21 de junho de 2011

PASSADO, PRESENTE E FUTURO >> Clara Braga

Adoro ir ao cinema. Melhor do que ir ao cinema é ir ao cinema sem saber absolutamente nada sobre o filme que vou assistir e ter uma ótima surpresa quando o filme é maravilhoso. É claro que hoje em dia não é muito recomendável fazer isso, já que o ingresso do cinema está um absurdo de caro, mas quando se trata de um filme de Woody Allen, as chances de se arrepender são mínimas.

Lá estava eu, domingo à noite, indo ao cinema assistir a Meia-noite em Paris. Que filme maravilhoso! Recomendo a todos. E apesar do diretor não aparecer no filme, como normalmente faz, colocou em seu lugar Owen Wilson, interpretando um roteirista bem-sucedido, mas frustrado por não conseguir escrever um livro de romance.

Um filme a principio bem realista, que faz um tour por Paris e te deixa morrendo de vontade de sair dali e ir direto ao aeroporto comprar uma passagem, mas que ao mesmo tempo mostra o protagonista fazendo uma viagem no tempo e encontrando, de uma forma muito cômica, escritores e artistas que ele admirava.

De F. Scott Fitzgerald a Salvador Dali, muita gente aparece no filme. Todos com diálogos muito bem escritos que arrancam risadas de quem assiste, mas que no meu caso às vezes também me faziam sentir um pouco sem cultura, pois as referências eram tantas que nem sempre eu acompanhava as “piadas” por não conhecer quem estava sendo retratado ali. Mas tudo bem, nada que a mãe Google não resolva para mim depois.

Uma comédia inteligente que no final das contas te joga a “moral” da história sem ser nem um pouco moralista. O protagonista, em sua primeira viagem no tempo, vai para os anos 20, época que considerava ser a era de ouro. Lá conhece uma mulher que considera a Belle Époque a era de ouro. Já na Belle Époque, a era de ouro era o Renascimento. E assim, de uma forma até um pouco sutil, acabamos nos perguntando por que temos tanta dificuldade de reconhecer o valor da contemporaneidade. É difícil ver o que está acontecendo agora, embaixo dos nossos narizes, como algo realmente importante. Nós temos essa mania feia de viver do passado, e quando digo passado não precisamos ir para a Paris dos anos 20. Vivemos lembrando da nossa infância com nostalgia, como se fosse uma época melhor, e no futuro vamos considerar hoje nossa melhor fase.

Mas dizer que vivemos só de passado é injusto, hoje em dia vivemos também de futuro. A única coisa que é realmente difícil e que, se não nos esforçarmos, não vamos conseguir é viver do presente.

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segunda-feira, 20 de junho de 2011

A TREPADEIRA >> Kika Coutinho


Se o amor fosse uma planta, ele seria uma trepadeira. Você conhece essa espécie. Digo a planta, não o amor.

Ela cresce apoiada em algo. Ela precisa de suporte para crescer e buscar a luz. E é isso que faz o amor.

Eu aprendi tendo filhos, não sabia antes, mas aprendi. O amor não cresce sozinho. Jamais seria uma samambaia, uma rosa, uma tulipa. Ele não precisa só de água e sol. Há quem tente assim. Há quem trate o danado tal qual um vaso de hortênsia. Lindo, colorido. Cuida-se, com carinho. Rega-se, põe no sol. Há quem converse com o amor. E ele cresce, desponta em rosa, azul, amarelo. Fica lindo por algum tempo. O amor tratado como um vaso tem sua data de validade impressa, pode ser longo, dar frutos, mas morre e, de algum jeito, aproveitamos o vasinho.

Já o amor construído, esse de tijolo em tijolo, esse, o prático e real, é o tal amor eterno, do tipo Tarcísio Meira e Gloria Menezes, Nicette Bruno e Paulo Goulart, o do seu vizinho, ou daquele seu tio. O amor que nos disseram ser o da Branca de Neve, esse, sinto muito, só se crescer como a trepadeira.

A trepadeira busca a luz, mas precisa estar apoiada em algo. Como o amor, ela pode crescer para sempre, se tiver uma parede que a leve em direção ao sol. E não é assim que construímos relações felizes? Ora você será a parede, ora a planta, mas terá de ter alguém para se escorar, e alguém onde possa se apoiar. É preciso ser forte juntos, é preciso encontrar a mesma luminosidade e, palmo a palmo, de mãos dadas, caminhar em direção a ela.

Os bebês fazem isso muito bem. As mães acham que os amam loucamente, que os ensinam a crescer e que os formam como pessoas. Mas é num instante, quando uma pequena criança toma um tombo e mostra todo o seu amor e veneração pela mãe, esticando os bracinhos, que nos damos conta: Ele me ama! Pobre bebê, não sabe que não faço ideia do que estou fazendo, não sabe que tenho tantos medos e inseguranças, não sabe que como chocolate escondido, que devo ao banco, que estou com gastrite, mas não se importa. Escora-se em mim e, em busca do que para ele é a luz, cresce. Apoia-se na parede firme que sou e fica mais forte, mais seguro e mais feliz. Quando nos damos conta, somos nós, frágeis e inseguras, que nos apoiamos na segurança deles: parece que levam tanto jeito para pegar a colher sozinhos, ou para dar um passo sem apoio, deixemos. E lá estão eles, nossos filhos e filhos do mundo, sendo a nossa parede firme, onde crescemos e os libertamos, ave rara e forte. Voe meu amor, voe em direção à luz, somos, aqui, parede ou planta, frieza ou natureza, não importa.

Quando nos damos conta, construímos o amor, sem muita façanha, sem adubos miraculosos ou sem truques cansativos. Quando nos damos conta, foi o tempo, a parede, a luz, que fizeram o trabalho, e lá está a planta, sem planos de parar, tornando infinito e belo o que era só banal.

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domingo, 19 de junho de 2011

O CÉU ECLIPISCOU PRA MIM
>> Eduardo Loureiro Jr.

Tem gente que não sabe cantar. Tem gente que não sabe estalar os dedos. Tem gente que não sabe dar coió — tem gente que nem sabe o que é coió. Eu já não sei piscar.

Claro que todo mundo pisca involuntariamente para lubrificar os olhos, mas estou falando aqui do piscar intencional para paquerar ou simplesmente dar um sinal para uma outra pessoa. Pois não sei piscar. Quero piscar um olho, pisco os dois.

Lembram-se daquela brincadeira de Detetive, Vítima e Ladrão, em que o Ladrão fazia suas Vítimas piscando o olho e o Detetive ficava tentando descobrir quem era o piscador? Nunca me dei bem naquela brincadeira, pelo menos não quando eu era o Ladrão. As prováveis Vítimas não se deixavam atingir pelo meu piscar deficiente.

Piscar é um charme. É de apaixonar. (Mulheres, por favor, não usem demasiadamente essa informação.) E, se as intenções são só amigáveis, piscar é capaz de proporcionar uma duradoura amizade. Então estou assim, meio apaixonado, meio melhor amigo de quem piscou para mim essa semana: o Céu, com seu olho de Lua.

Foi um piscar lento, como são as coisas do Céu. Começou na minha derradeira volta ao redor do parque e só terminou quase uma hora depois. Deu tempo de chegar em casa, preparar uma sopa rápida, encher a caneca, tomar a sopa na varanda e ainda ficar abraçadinho com a família. Um piscar perfeito, desses de quem sabe mesmo o que faz — coisa de Céu.

Nesse demorado piscar, enquanto a Lua me apaixonava, o Céu mandava o sinal: "É isso aí, tá no caminho certo. Continue firme. Bom trabalho". E eu quis piscar de volta, dizer que havia entendido o recado, confirmar a amizade. Mas, como já disse, eu canto, estalo dedo e faço coió, mas piscar não é o meu forte.

Sorte minha que o Céu é um sujeito esperto, sabedor das coisas. Ele com certeza percebeu que uma daquelas minhas piscadelas, supostamente involuntária, não foi apenas para lubrificar os olhos.

P.S.  — Se eu soubesse piscar como o Céu, daria uma bela piscadela para aqueles leitores que já contribuíram com o livro ACABA NÃO, MUNDO!, lá no Catarse.


Trilha sonora desta crônica:
SKY - Vivaldi.

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sexta-feira, 17 de junho de 2011

PORTO ALEGRE - DIA DAS MÃES SEM MÃE - 2011 >> Leonardo Marona

dessa vez, Porto Alegre, você me passou a perna direitinho.
depois de algumas catástrofes, o sol brilhou por alguns dias,
tirando o mofo dos casacos sempre fechados no escuro seco
das nossas imagens compartilhadas, a ferro, susto e tabus.
o sol brilhou por alguns dias e, estou perfeitamente convicto:
a poluição é o que deixa o pôr-do-sol no Guaíba mais bonito.
atravessar a rua sem pernas, flutuando num caldo alcoólico,
tornou-se algo que até mesmo uma criança é capaz de fazer.
aceno, nas ruas, para meninas de tranças, índias Charruas
da minha mais funda origem, e pela primeira vez vejo os dentes
de minha mãe morta, perfurada pela primavera dos excessos.
bom estar pela primeira vez de ouvido aberto em Porto Alegre.
um homem gordo, de gordas e fascistas batatas da perna, boina,
passa com seu passo de holocausto, aproximando-se de mim,
enquanto estou próximo ao lago, alimentando meus ímpetos.
mas estou atento e calmo dessa vez, jogo lento minha droga
por terra, enquanto passa por mim o sentinela-cidadão-comum,
dá uma olhada para o lago e vai embora sacudindo os mortos.
sigo chutando os pinhos secos, desviando dos preservativos
do amor moderno e das seringas do êxtase capaz de matar,
e que é o único êxtase concebível, o êxtase do mais-que-tudo.
existe algo íntimo e um tanto patético no Parque Farroupilha,
algo que abre meus pulsos, me envergonha e comove muito:
uma zona central com um grande chafariz, um campanário
que é uma réplica chinfrim do Jardim de Versailles e, acreditem,
um Arco do Triunfo, mas por ali passam bichas heterofóbicas
com seus cachorros magros e passam salazares e antigas
mães italianas e um casal briga ao meu lado, e o homem diz
à mulher dele uma frase, mas essa frase, claro, é para mim,
que sou todo ouvidos aéreos e pés firmes no chão de Porto Alegre:
"tu fica te escalando pra fazer as coisas e depois fica te fazendo",
e este sou eu, esta é minha cidade urso de infância, sem deus


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quinta-feira, 16 de junho de 2011

TEIMOSIA BONITA >> Fernanda Pinho

O que eu acho mais bonito no amor é essa capacidade de zerar o jogo. Estive pensando nisso um dia desses, enquanto minha mãe relembrava as agruras da maternidade. As oito horas em que ela esteve em trabalho de parto para que eu viesse ao mundo – de parto normal e pesando quatro quilos! – foram apenas um capítulo daquela história que começou em enjoos e culminou em telefonemas preocupados de madrugada – que acontecem ainda hoje, vinte e sente anos após o parto. Daí veio o questionamento óbvio: então, por que engravidou de novo? “Porque o amor que a gente sente pelos filhos é a coisa mais sublime que existe. Compensa qualquer dor”, ela me disse, daquele jeito que só as mães sabem dizer.

Eu acho que é nisso que reside a essência de qualquer tipo de amor. Essa coisa sublime que compensa todas as outras. Que faz tudo parecer menor, que apaga da nossa memória todas as dores – as de parto e as do coração. A gente sabe que doeu, mas não sente mais.

Só isso justifica nossa insistência em amar. Essa teimosia bonita. Já te aconteceu mil vezes: você chorou, você depositou todas as suas expectativas em quem não poderia suportá-las, você passou noites em claro, você ficou com o coração partido, você partiu outros corações, você disse que os homens não prestavam, você jurou que não queria mais nada sério com ninguém, você escreveu uma carta (nunca enviada) pedindo reconciliação, você fez promessas, você deixou de ser um pouco você, você viu o mundo cinza por uns dias, você morreu um pouco. Porque você estava vivo e é disso que a vida a feita. Porque o mesmo relacionamento que te fez chorar, que te fez criar expectativas, que te fez passar noites em claro, que partiu seu coração e blablablá, te levou ao céu. Te deixou doida olhando para o relógio a cada dois segundos até que chegasse a hora de se encontrar com ele. Te fez trocar de roupas mil vezes antes de escolher o modelo perfeito, mesmo sabendo que ele te achava linda em qualquer modelo. Te levou a contar uma história supercabulosa para seu chefe, só para conseguir uns dias de folga e passar um final de semana inesquecível com ele na praia. Te deu dores na barriga de rir. Te fez chorar ao ler palavras de amor – meio mal escritas – num cartão no Dia dos Namorados. Quase te matou do coração com uma festa surpresa no seu aniversário. E, no fim das contas, é isso que fica. A parte sublime.

É da nossa ânsia de reviver o sublime do amor que a gente zera tudo. Que a gente deleta do nosso coração a parte ruim. E começa tudo de novo. Quantas vezes for preciso.


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quarta-feira, 15 de junho de 2011

QUERIDA INSÔNIA >> Carla Dias >>

Na correria em que se encontra a minha vida, por causa do trabalho e afins, tenho ficado em falta com muitas pessoas. Não digo isso - sobre a correria - para parecer bacana, pessoa ocupada, essas coisas. Digo com peso na consciência mesmo, porque a minha natureza é abraçar o mundo com os braços e com as pernas, sempre me propor a fazer mais do que realmente deveria fazer, porque as pessoas precisam respirar, ora pois!

Mas eu topo tudo isso, uma coisa abrandando a outra, no meio da confusão de datas limite, urgências e por aí vai.

E o que vem com isso, claro, é a insônia. Minha amiga insônia adora me visitar nessa época do ano, quando trabalho bastante no festival de música que acontece em julho. Mas por incrível que pareça, eu não me importo. Chegando em casa, depois de quase doze horas de trabalho, ainda dou uma geral no que precisa ser feito no dia seguinte. Levar trabalho para casa é básico. Depois, confesso, quando possível eu assisto novela... Sou noveleira, fazer? Sem contar que esse momento de brigar com os personagens como se eles estivessem na sala de casa é um tipo de abrandamento da adrenalina do dia. Faz com que eu perceba que estou em casa.

Porém, a pergunta recorrente é Carla, sua doida, como você trabalha tudo isso e ainda assiste um monte de séries?. Eu assisto um monte de séries, o que não deixa de caber na minha categoria de noveleira. Assisto, acompanho, descabelo-me de acordo com a trama. E adoro escrever a respeito. A pergunta recorrente que vem em segundo lugar é Carla, sua doida, como você trabalha tudo isso e ainda assiste um monte de filmes?. Assisto mesmo... Adoro cinema, apesar de ser péssima frequentadora das salas de cinema. Não alugo apenas um filme, só quando me dá na louca de pegar lançamento. Fora isso, saio sempre com o mínimo de cinco filmes da locadora.

A resposta para ambas as recorrentes perguntas é insônia.

Não fosse a insônia, eu não teria encarado a maratona de House MD. Não comecei a assistir a série quando foi lançada. A verdade é que me tornar fã do Dr. House não estava na minha lista. Minha tevê não tem o canal no qual a série é veiculada, então passou batido por um tempo. Até que eu soube que, no episódio 15 da terceira temporada, o Dave Matthews - aquele mesmo, da Dave Matthews Band, que eu adoro, assumidamente – fez uma participação. Como não é de mim assistir episódio isolados de séries, fui até a locadora e peguei as três primeiras temporadas. Foi o período em que bati meu recorde... Dormia duas, no máximo três horas por noite, só para chegar ao próximo episódio. Quando cheguei ao episódio em questão, House já tinha me ganhado.

O mesmo aconteceu com Dexter. Assisti um episódio na tevê, mas me deu calafrios. Como assim um serial killer trabalhando na polícia? Deixei de lado, até que um amigo falou com tanto entusiasmo da série que decidi colocar meu gosto em pratos limpos. Aluguei as 3 temporadas, a quarta estava passando na tevê. Não há como não cair de amores por essa série, e pelo serial killer em si. É fantástico como as coisas parecem mais simples sob o olhar dele, o que é meio absurdo, não? É... Mas a série é fantástica!

Na semana que passou, confisquei os cinco filmes que queria assistir na companhia da minha insônia. Confesso, sem muito ânimo, que peguei o terceiro da série do vampiro Edward e da indecisa Ella, mas só porque havia assistido os outros dois, e porque confiro tudo o que tem o tema vampiro. Definitivamente, não são filmes que me agradaram, mas apenas me fizeram pensar com mais gosto na obra-prima Drácula de Bram Stocker (Bram Stocker’s Dracula/1992), no Entrevista com o vampiro (The Vampire Chronicles/1994), n'A Rainha dos condenados (Queen of the Damned/2002) e por aí vai. Também, por indicação, peguei uma comédia daquelas fofas e sacanas, que a gente assiste, mas não fica muito tempo na memória.

Porém 3 filmes da leva foram de colocar qualquer insônia na ativa: Contra corrente (Against the Current/2009), sobre um homem que, ao completar cinco anos da morte da esposa grávida, decide atravessar o Rio Hudson e cometer suicídio, depois de concluir essa jornada. A viagem é feita com um amigo e uma conhecida desse amigo. É melancólico, no que a trilha sonora ajuda muito, e um belo filme.

O segredo dos seus olhos (El Secreto de sus Ojos/2009), um filme muito interessante, que mostra como alguns personagens reagiram a um assassinato, e as consequências disso durante os vinte e cinco anos que se seguiram. Adoro o diretor Juan José Campanella, e acho que a parceria dele com o ator Ricardo Darin tem dado ótimos frutos. Não vou dar detalhes sobre o filme... Assista que vale a pena!

Para fechar a minha sessão-insônia, um filme que me fez rir do jeito que gosto. Não sou fã de besteirol, gosto de comédias com bons atores e boas histórias, com tiradas interessantes. E quando essa comédia envolve um Robert Downey Jr. (Fernanda, lembrei de você!) em um ótimo momento, e o hilário Zach Galifianakis, então estou bem. Um parto de viagem (Duo Date/2010) é daqueles filmes para se comprar, e em noites de insônia, assisti-lo só para quebrar o silêncio da madrugada, mas com gargalhadas.

E pode parecer bobagem, mas para mim funciona muito bem. Em noites de insônia, regadas a filmes e séries, as duas ou três horas que durmo são suficientes para me deixar bem no dia seguinte.



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terça-feira, 14 de junho de 2011

GERAÇÃO DISNEY >> Clara Braga

Eu cresci assistindo aos desenhos animados da Disney. De Branca de Neve a Wall-E, foram poucos os que eu perdi. Na época em que ainda não existia DVD nem mp3, tão pouco programas para baixar música pela internet, eu comprava as fitas e CD´s das trilhas sonoras e assistia e ouvia até decorar as falas e as músicas.

Daí você tira a concepção deturpada que eu tinha, quando criança, sobre relacionamentos. Afinal, a Cinderela sofreu na mão da madrasta má antes do beijo de amor verdadeiro do príncipe do cavalo branco, a Branca de Neve comeu a maçã envenenada, a Ariel sofreu por não ter pés, a Bela se apaixonou por uma Fera horrível que, antes de virar príncipe, só a tratou mal e a fez prisioneira (história essa que eu considero a mais parecida com a realidade de muitas mulheres que aparecem nos jornais). E eu também ia acabar passando por alguma situação um tanto conturbada antes de achar meu “príncipe”.

Graças a Deus, o tempo passa, a gente cresce e tem a chance de repensar nossos conceitos. Se até a Disney tem lançado desenhos satirizando os contos de fadas, o que seria de mim se ainda esperasse o tal do cavalo branco?

Para mim, o príncipe de hoje é aquele que tem seus erros e defeitos, sabe que você tem os seus, e vocês aprendem a conviver com isso. Ah, e claro, para mim, para ser príncipe é essencial acreditar em monogamia. Pelo que eu escuto por ai está mais fácil príncipe virar sapo. Sorte que eu encontrei um que, em vez de cavalo, apareceu de Fox vermelho, mas está valendo.

Mas não é só porque nos dias de hoje as coisas estão mais complicadas que as histórias verdadeiras e bonitas de amor deixaram de existir. Recentemente, uma amiga minha, maquiadora, estava maquiando uma mulher e essa contou a ela sua história de amor.

Ela é uma moça simples, não teve muita oportunidade de estudo e ganhava a vida trabalhando no caixa de uma farmácia. Um dia, conheceu um cliente, eles se apaixonaram e ele, italiano, a carregou para a Itália . Lá ela trabalhou em dois filmes e estava muito contente porque no segundo ela tinha até fala. E também teve a oportunidade de viajar para vários locais diferentes, e um dos que mais gostou foi Milão, pois lá você fica bonita 24 horas por dia. É tão frio, que você precisa ficar com aqueles casacões lindos o dia todo, então até quando limpava a casa ela se sentia bonita. Agora ela estava de volta com o marido em Brasília, muito feliz e apaixonada, sem contar a alegria das oportunidades que esse amor a deu.

Com certeza, é uma escolha difícil largar tudo e todos para trás e apostar em um amor assim repentino. E com certeza os momentos difíceis existiram, pois não é fácil estar em outro país sem saber nem como se comunicar. Mas a gente sabe que fez a escolha certa quando, apesar de ser difícil e complicado estar com alguém, a gente às vezes fica feliz até quando está limpando a casa.

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segunda-feira, 13 de junho de 2011

DIA DOS NAMORADOS
>> Albir José Inácio da Silva

— Não é nada! — disfarça, olhando pro chão.

Triste não quer falar de tristeza. Alegre é que fala da tristeza que passou. Triste quer falar de alegria, a ver se ela chega ou engana a tristeza. Aliás, triste não quer falar. É que tristeza demora, uma coisa no peito que não desmancha. Um suspiro que não basta, não sacia, não enche de ar, só mantém vivo, o que não precisava porque vida não é tudo. Triste não sente dor, que dor é coisa de qualquer um. Triste dói. E não sente o corpo porque não habita, jaz.

Acabou de chegar, mas todos já perceberam. Não sabe por que, foi de repente, estava bem. Não, não precisa de nada. As pernas tremem, disfarça, ajeita a saia, tombam os braços, já não respira, ofega. Se chorasse... mas não chora, se afoga em silêncios, resmungos, não se ouve, não se entende, ninguém entende.

Tudo bem do lado de fora. Céu sem nuvens e brisa nas árvores. Relógios marcam horas e ônibus passam lotados. O guarda apita, mas não há transgressões, é como se soprasse o diapasão para harmonia do mundo. Amigos bons, solidários. Só no seu peito o metrônomo sacoleja angústia com ritmo e progressão.

A preocupação dos outros só a faz piorar. Chegou há dois minutos e já está dando bandeira. O tempo se arrasta. Tenta parecer normal. Não adianta. Parece que todo mundo aqui é sensitivo. Reperguntam.

Não, não é por causa dele. Não é por causa de ninguém. Não se preocupem. Daqui a pouco passa. Mas a conversa dá uma voltinha e retorna. Não quer nada? Não gosta daqui? Quer chope, água, suco? Queria uma ventosa, pensa, que lhe arrancasse a tristeza ou o coração.

Os olhos estão nela, solidariedade, pena, sabe-se lá mais o quê. Não pode ficar com essa cara. Não pode estragar festa dos outros. Grita consigo mesma em silêncio: “engole o choro, bebe a lágrima, respira”.

— Não é nada — repete, respira e sorri. Afinal, quem precisa de namorado, né?

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domingo, 12 de junho de 2011

VIDA DE NAMORADOS >> Eduardo Loureiro Jr.

Eram de famílias amigas. Ele tinha 10 anos. Ela, 15. Ela não podia ser namorada dele, então ele deitava na cama dos pais e ficava namorando um quadro da Virgem Maria com o Menino Jesus no colo. Ele ficava imaginando que talvez desse certo quando ele tivesse 15 e ela 20, ou quando ele tivesse 25 e ela 30. Hoje, a idade não faria diferença. Mas quando eles se encontram nas festas de família, cada um fica com seu namorado.


Faziam Cultura Britânica na mesma turma. Ela estudava na Escola Técnica e tinha tantas palavras na boca quanto sonhos cacheados em seus cabelos. Ele estudava em escola particular, era acanhado e parou de roer as unhas por causa dela. Quando terminou o semestre, bateu a saudade e ele enviou para a casa dela uma carta marcando um encontro na praça. Ele chegou com uma fita cassete do Kenny Rogers, todo Lady, I'm your knight in shining armor, e ficou esperando, esperando, esperando. Ela não apareceu. Em casa, ele removeu o papel de presente, colocou a fita cassete para tocar e chorou por dois dias seguidos: Don't fall in love with a dreamer. No terceiro dia, ela apareceu na porta da casa dele, com a carta na mão, toda Still here we are, both of us lonely... we've got tonight. Os Correios não haviam entregado a carta a tempo. Compreensível. Mas ele já havia chorado toda a sua paixão. E não ficaram.


Participavam do mesmo Grupo de Jovens. Ele entrara no coral e tocava um pouco de violão. Ela já era uma mulher no corpo e no jeito. Nos domingos de manhã, faziam um trabalho assistencial numa favela. À tarde, ele ligou para ela: "Por que não consigo dizer o que sinto quando estou perto de você?". Ela entendeu a mensagem. Antes da missa, ele passou na casa dela. No portão, beijaram-se pela primeira vez. O primeiro beijo dele. Caminharam de mãos dadas até a igreja. A primeira namorada dele. Na hora da comunhão, a hóstia ficou com gosto de batom de cereja.


Eram colegas de escola. Já tinham passado um final de semana com a turma: praia lotada, violão arranhado, macarrão grudado no fundo da panela... Estavam se aproximando aos poucos e eram quase amigos. Um dia, uma noite, ele foi à casa dela e chegaram mais perto, lentamente, até que se beijaram, intemporalmente. O beijo acabou quando o pai dela apareceu na varanda e disse que já era hora. Enquanto caminhava para casa, madrugada já avançada, ele ficou se perguntando se a data de comemoração do início do namoro ficaria no dia 16 ou no dia 17.


Eram namorados já havia um tempo. A menstruação atrasou e ela fez o exame. Ele foi até o laboratório receber o exame com ela. Decidiram ver o resultado num motel. Conversaram. Antes ou depois? Antes. A mão dele nas costas dela. As mãos delas no envelope. O lacre rompido. Negativo. Ficaram calmos. Ela deixou o papel cair no chão. Ele a reclinou sobre a cama. Fizeram amor. Sem camisinha.


Faziam um curso de Francês Instrumental à noite. Ele todo estudos, esquecido que o prazo de sofrimento da paixão anterior já havia vencido. Ela passando apenas uma temporada na cidade praieira. A professora passou um exercício de tradução em duplas: "Dans mon île / Un parfum d'amour / Se faufile / Dès la fin du jour". Ele todo Sans songer à demain. Ela se achegando, tendant ses bras dociles. Na saída, o carro dela deu o prego. Ele fez o carro pegar e os dois passearam pela beira-mar. Ele desconfiava que ela era homem. No dia do amor, ele fez questão de se certificar antes. Ela era ela. E, com o passar do tempo, ele ficou convencido de que ela era mulheríssima, Bien tranquille, près de son doudou.


Viam-se às terças e quintas. Ele era um jovem professor. Ela era uma aluna fascinante. Confiantes impérios conquistando receptivos aborígines. Quando as aulas terminaram, ele e ela continuaram se observando, se provando, se apoderando. Extraordinárias batalhas, ele enfrentou por ela, e ela por ele. Fogo interno, fogo externo. Inimigos incomuns. Quando venceram, foram vencidos. E ficaram amigos.


Eram astros do mesmo universo. Ela, uma visitante em periélio. Ele, um anfitrião em erupção. No dia seguinte, ela em afélio, ele em eclipse. Atreveram-se a ser próximos à distância. Ele ia até ela com a lira das próprias tripas. Ela vinha até ele em raios de inspiração. Ele, astro-rei. Ela, rainha da noite. Fases. Fases. Fases. Fases. Até que a Terra chamou. Encarnação. Realidade. Ele e ela ficaram com as canções.


Eram da mesma terra, mas conheceram-se num voo. Ele inconformadamente solteiro, olhando a lua distante na janela do avião. Ela com uma aliança no anular esquerdo, exemplarmente casada. Ele e ela resistiram honradamente o quanto puderam: uma aterrissagem, uma caminhada e uma tapioca. Fazia muito calor dentro dele, doutrinas se derretiam dentro dela. Fundiram-se em recônditos lugares. Ele, estratagemas. Ela, artimanhas. Um dia, ela disse a ele que o marido era capitão. Outro dia, ele recebeu uma ligação: "Você está pensando o quê da vida?". Ele gelou, antes que um amigo que não sabia nada da história desfizesse o trote e retomasse a voz usual. Pouco depois, ele ligou para ela. Encerrada a ligação, ele ficou de um lado da linha e ela ficou do outro lado.


Constelaram-se em um final de semana terapêutico. Ele, solícito, acompanhando uma amiga. Ela sozinha, já há algum tempo. No sábado, sentaram-se diametralmente, em oposição no amplo salão. Quando chegou sua vez, ela o convidou e ele representou o pai dela. Ele se perguntou por que raios ela havia adivinhado que ele era um soturno saturno. No domingo, ao final do alongamento da manhã, ele, já de pé, estendeu os braços e ofereceu a ela as mãos. Corpo em elevação. Olhos em conjunção. Uma semana depois, encontraram-se no parque e os patos do lago comeram as migalhas dos medos dela. Ele e ela num beijo de lamber os beiços. Namoraram. Depois desnamoraram. Depois voltaram a namorar. Depois se desnamoraram de novo. E se namoraram mais uma vez. Ele resistindo.  Ela insistindo. Quando já era quase hora de partir, ele, Saturno, anelou a mão dela, dourada Estrela. Ficaram fincados. Paixão à primeira vista, amor em infinitas parcelas.

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sábado, 11 de junho de 2011

AMOR [Debora Bottcher]

Nietzsche dizia que, quando alguém decide se casar, a pergunta mais importante que deveria se fazer é: "Terei prazer em conversar com essa pessoa quando eu for velho?"

Junho chegou e trouxe a tiracolo a data comercial do amor: o Dia dos Namorados. Não se ouve falar de outra coisa (além do ministro Palocci, obviamente): TV's e revistas estampam vitrines de lingeries, perfumes, bombons e flores, num convite a demonstrações financeiras do sentimento supremo. Mas, ainda que seja muito bom dar e ganhar presentes, será que são realmente indispensáveis para o amor? E numa data específica?

Depois de uma certa idade — e não exatamente avançada — você conclui que experiência não se transmite. E quando se trata de relações afetivas, essa percepção fica ainda mais evidente. Não dá, por exemplo, para dizer para alguém apaixonado que 'um amor e uma cabana' são coisas de romance — livro, filme e novela — e que, quando a realidade vem com contas a pagar e filhos pra criar, se a base for só a paixão avassaladora dos dois primeiros anos de delícias, seu sonho de amor está fadado ao fracasso.

Também não é viável ponderar sobre coisas que só quem está de fora é capaz de enxergar. Por exemplo: o namorado da sua amiga bebe um pouco mais que o razoável; a namorada do seu irmão é ciumenta acima do normal — até pra você ela 'rosna'; o novo namorado da sua colega de faculdade tem ares de playboy e desaparece demais... Mas quem vai arriscar dizer qualquer coisa contra aquele bonitão grosseiro que com um 'vem cá, meu bem' faz a amiga esquecer tudo o que ele aprontou, dissipando defeitos ou contratempos? Como é que se vai abordar um irmão, se quando a moça chega cheia de chamego — e decotes — ele nem lembra que tem família?

Tem várias coisas que passam despercebidas a olhares românticos, mas que fazem diferença quando a relação começa a ficar mais estreita. E quando isso acontece, a ilusão se desfaz e os 'detalhes' caem sobre os apaixonados como um raio de desencanto. O sofrimento fica inevitável e, não raro, sela-se o pacto de nunca mais amar... Até que um novo ciclo de amor recomeça — do mesmo jeito...

Mas tudo seria mais fácil se a gente olhasse para o outro — eleito/a — com um olhar menos emocional, desde o início, mesmo quando a gente tenta convencer — a si e aos outros — que a coisa é passageira. Se ponderasse sobre futuro, responsabilidades, objetivos comuns, carreira, filhos, casa própria, família, velhice — os assuntos sérios que a gente esquece (nem lembra!) quando está apaixonado —, muitas frustrações poderiam ser evitadas.

Alguém pode alegar que, se assim fosse, o encanto desapareceria antes de começar. Mas também haveria menos dor e desilusão — 'verbos' que não combinam com a felicidade desejada, nem no início nem no fim.

Se fosse possível ter um olhar mais objetivo sobre o amor logo que ele nos flecha, haveria menos abandono e separação, menos silêncio e solidão (inclusive entre os pares), mais alegria genuína e paz de espírito. Nada de atitudes passionais: dias mais calmos e amor de verdade, tanto e mais — até que a morte os separe.

E muito mais conversa - em todas as fases da vida a dois...

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sexta-feira, 10 de junho de 2011

A MORADA DO FILHO DOENTE
>> Leonardo Marona

Um livro que você escreve com as próprias mãos é onde você mora. O livro é sua morada e é também um filho doente, uma casa abandonada, com um filho doente dentro. Um livro que você escreve com as próprias mãos não é um livro. É possível amá-lo, mas será inevitável ser infeliz ao lado dele. E ao mesmo tempo um livro é tão inevitável quanto isso. Então fazemos livros, nossos filhos doentes. E o que fazem os filhos doentes, que amamos, e que nos fazem infelizes, justamente porque não são apenas doentes, são muito doentes, e necessitam de toda a nossa atenção, mas são irreversivelmente doentes os pobrezinhos, e mesmo assim seremos cem por cento atenção, cem por cento esforço perdido ao vento, e não saberemos explicar quando alguém nos perguntar, “e então, como vai seu filho irreversivelmente doente?”, coraremos, suaremos as têmporas exaustas, e seguiremos, talvez depois de um sorriso demente, mas o que fazem os filhos doentes? Isso ninguém sabe.


Fiz este livro, mas e agora? Sou obrigado a abri-lo, mostrá-lo, lê-lo em voz alta, às vezes um pouco bêbado, nem sempre com cuidado, e ele é um filho doente, disso eu sei, precisa de total atenção. Dedico-me. Tento apagar os vestígios de uma vida anterior. É sabido que já nada será como antes. Um segundo livro, e não consigo ter mais nada na cabeça. As idéias continuam borbulhando um tanto desconexas em minha decisão de domá-las. Sento diante da máquina como um cronista fracassado que começa uma crônica sobre o fato de não saber o que dizer. Talvez Antonio Maria tenha feito isso alguma vez, talvez Tom Wolfe. Não há necessidade. Mas aí a questão. Sem necessidade, tal que a vida, através do livro “realizado”, está fadada a uma doença irreversível que, no entanto, envolve mil cuidados. Necessidade alguma, pensem bem.


Duas semanas fora de casa, as roupas em andrajos, o cansaço do gladiador antes de ser engolido pelos leões. Penso seriamente em comprar um sofá, um sofá novo faria a vida mais suportável, me disseram, e faz todo sentido. O livro está pronto agora, assim meio algum-dia-vir-a-ficar, como dizem, e estou com as calças na mão, tentando entender o que é andar pelas ruas com objetivos claros, nenhum clamor de faca. Vigorosamente tento ser simpático, abro os dentes, passei a lavá-los cinco vezes ao dia. No entanto, fumo demais. É o melhor antídoto para os que não pensam. O livro está lá, sabe-se lá onde, faminto e sem pai, sem paz e sozinho, um filho doente, uma morada, uma casa abandonada com um filho doente. Subo a colina, finalmente. Um livro, idéias, eles já não estão em mim, diria até que, feito um Judas, poderia alegar que desejaria que o livro jamais tivesse existido, e o que ele contém agora não é mais meu e é doente e precisa de cuidados continuasse comigo. Porque um livro que se faz é um livro que se perde. Pensem nos filhos. Não há o que fazer. É subir a colina, amputar o cérebro em coisa morna.


A verdade é que a morada circula em nosso sangue. O sangue ferve, somos a morada que circula. O sangue baixa, abrem-se as janelas da morada. Não precisamos de casa, a questão nunca foi de ordem material. A casa que carregamos desmorona e se ergue como os antigos templos. Somos a casa que carregamos e que desmorona e se ergue outra vez. E apenas a sensação do peso da morada em nós, em nossos passos e em nossa respiração descompassada, em suma, em nossa completa falta de objetividade, por apenas conceber o movimento contínuo como espécie de benção dura e inafiançável, apenas isso será dito, porque só deve ser dito o que cabe na morada. Morar, como morar, como não morar, não morar. Os sem casa têm a maior casa de todas. Os sem casa criam raízes diretas com o mundo. Mas nós não temos tanta coragem, precisamos de um álibi, um pouco de cimento escarrando paredes, e pouco importa. Sabemos que a casa é uma inevitabilidade, que pouco importa que agora, por exemplo, tirando os sapatos e acariciando meu gato vermelho que se chama Van Gogh e no entanto é fêmea (A Vincent, portanto), andando até a cozinha enquanto escuto a nova grande descoberta da música de todos os tempos, os malucos andino-suecos e morbidamente semelhantes do Herman Dune, acendo um cigarro e escuto também o som lamentoso das mangueiras em frente à janela da sala, e eu sei que em algum lugar muito perto há dor, pessoas amassadas em seus próprios lares por uma tirania viável. Ouço tiros pela janela e sei, sinto como se fosse necessário justamente espreguiçar, abrir a velha caixa de ferramentas do penoso e divertido exercício da escrita e, meus camaradinhas, tateando os escombros da última casa demolida, sentar firme o dedo, desviar da alegoria e reconhecer o sólido casco de tartaruga milenar que cobre minhas costas, mesmo que isso não seja nada além do reconhecimento fatal de que precisamos de muito pouco para seguir vivendo.



www.omarona.blogspot.com

NOTA DO EDITOR: O novo livro do Leonardo Marona chama-se "L'amore no", foi editado pela 7letras e pode ser encontrado aqui.


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quinta-feira, 9 de junho de 2011

MEUS QUERIDOS TAXISTAS >> Fernanda Pinho



Como se isso realmente fosse uma questão importante, as pessoas sempre me perguntam por que eu não dirijo. "Porque eu não tenho o menor senso de direção", "porque eu me disperso com extrema facilidade", "porque eu não pretendo morrer nem matar ninguém", são respostas que me ocorrem, mas costumo dar outra. Bem mais simpática e que não deixa de ser verdade: porque eu adoro andar de táxi.

Os taxistas de Belo Horizonte são um evento. Digo de Belo Horizonte porque é aqui que eu vivo. São por essas ruas confusas, mal sinalizadas e charmosas que circulo com motoristas-astrólogos que me explicam tudo sobre meu signo, com motoristas-compositores que cantam para mim o último rock rural que compuseram, com motoristas galanteadores que encerram a corrida me entregando um cartão e informando gentilmente: "estou à sua disposição. Para qualquer coisa".

E foi numa dessas ruas confusas, mal sinalizadas e charmosas que eu e duas amigas entramos no táxi do Fábio. Era sábado à noite e chovia. Uma daquelas situações em que é mais fácil achar o homem dos seus sonhos do que um táxi disponível. Mas encontramos. E era o Fábio. Entramos no carro sem ter dinheiro para pagar a corrida e pedimos que ele nos ajudasse a encontrar um banco para fazermos um saque. Não sei o que aconteceu naquela noite, mas parece que nossos bancos haviam evaporado. Só encontramos um caixa 24 horas, dentro de uma loja de conveniência de um posto de gasolina. Eu e uma das amigas descemos em direção ao caixa (enquanto a outra ficou no carro, como garantia de que iríamos voltar). A gente corria por causa da chuva mas, ainda assim, fomos alcançadas por um frentista. "Moças, a loja de conveniência está fechada". "Ah, não, moço. Não brinca com a gente não. Precisamos muito ir ao banco. Você não tem a chave da loja?". "A chave da loja eu não tenho. Mas tem uma janela aberta, se vocês quiserem pular". Eu não lembro qual foi o fator motivador que me levou a fazer isso. O fato é que eu pulei a janela, saquei o dinheiro, despulei a janela e voltamos ao táxi.

O que eu não esperava é que toda essa peripécia para conseguir a grana seria desnecessária pois, empolgado com nosso espírito aventureiro, Fábio decidiu que era nosso melhor amigo de infância. Resolveu encerrar seu expediente na porta da boate onde nos levou, não cobrou a corrida, entrou com a gente e ainda nos levou em casa na volta (apenas uma carona, não estava trabalhando, afinal). Pacote completo: te leva, te busca e ainda espanta os malas que vêm te alugar (e não cobra).

Mas, claro, existem taxistas e taxistas e às vezes acontece de eu cruzar com figuras não tão simpáticas. É raro, mas acontece. Como o motorista que arrancou antes que eu fechasse a porta e saiu dirigindo desgovernado, cantando pneu, furando sinal, ignorando quebra-mola e eu suplicando: "moço, por favor, eu não estou com pressa". Nem me deu ideia e eu tive que apelar para Deus. Deve ser por isso que cheguei em casa viva. A corrida deu R$ 20 e eu lhe entreguei uma nota de R$ 50, louca pra ficar livre daquilo. Ao que ele dispara: "você é muito folgada, primeira corrida do dia e acha que eu tenho que ter troco?". Aí já era demais. Tomei minha nota de volta e fui saindo do carro dizendo: "Ok, eu tenho o dinheiro, você não tem troco, o problema é seu". O cavalheiro não deixaria por menos. Saiu do carro e me cercou na rua: "Me dá esse dinheiro aí que eu vou trocar ali no bar". Pegou a nota e eu fiquei esperando, perto do táxi. Não demorou muito e ele voltou com aquela cara de dragão, entregou meu troco e saiu acelerando, enquanto apreciava a latinha de cerveja que comprou pra trocar o dinheiro.

Sim, eu deveria ter anotado a placa. Mas a ideia não me ocorreu na hora. No fim das contas, prevalece meu amor por essa classe de trabalhadores que torna minha vida muito mais inusitada e divertida. 



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quarta-feira, 8 de junho de 2011

AS TRÊS MARIAS >> Carla Dias >>


A primeira Maria é das dores...

Ela passa o dia a assoprar dolências, tentando diluí-las em esperança, afogá-las em bálsamo. Acredita-se que, diferente do rotulado, ela aprendeu a lidar com a dor de um jeito único. De um jeito de engolir sem engasgar com lágrima, de não revidar, mas sim aguardar até que a espera se torne recompensa, e que as dores sejam neutralizadas pela felicidade, que bem sabemos, é passageira, não é companheira feito a dor, mas tem um poder sem igual de arrancar sorriso da gente, de fazer graça com a tristeza.

Maria das Dores tem um jardim de tulipas no quintal de sua casa. Dia sim, dia não, caia chuva ou faça sol, ela se deita entre as flores para doer. E de cara com o céu, doendo o diabo de tanto sentimento, esvazia-se em condolência, despedindo-se das dores, tendo o abrandamento como recompensa.

Maria é das dores porque sabe deixá-las partir.

A segunda Maria é dos anjos...

Quando deita a cabeça no travesseiro, faz uma oração longa e emocionada, na qual agradece as bênçãos e solicita milagrinhos, para que a vida não passe em branco. Para ela, Deus mora em tudo e em todos, mas não é mulher de catequizar. Tem por sagrado o direito do outro de não crer no que ela crê. Então, fala a respeito apenas quando lhe perguntam. Porém, dependendo da forma como lhe perguntam sobre a sua espiritualidade, defende-se intelectualmente, alegando ser apreciadora da obra de Michelangelo exposta na Capela Sistina. E tão requintada é a sua eloquência, que nem desconfiam que ela jamais tirou os pés da própria cidade, o que dirá visitar outro país.

Maria dos Anjos tem uma loja de badulaques, anjinhos de enfeite, CDs de segunda mão (ou segundo ouvido?), que fica naquela rua arborizada como raramente vemos nas cidades grandes. Lá ela cultiva mil facetas da sua crença na vida, nas escolhas do ser humano, no direito de ser e estar de bem com a própria verdade. Livros espalhados em prateleiras, sobre mesas, até empilhados no chão, representam, para ela, histórias que ela poderia ter vivido, tivesse nascido outra. E o que não sabem sobre ela, sobre os que lhe acompanham, é que apesar de ter escolhido a religião da vida, dos homens e seus destinos diversos a desembocarem em um mesmo futuro, que pode ser contado, de acordo com a forma como cada um lida com a sua biografia, é que na noite já alta, às vezes depois da oração, ela se levanta e vai até a sala, liga a televisão. E depois do play se inicia o filme que ela queria que fosse sobre a vida dela. Por detrás de todas as máscaras, ela é apenas uma mulher apaixonada pelos anjos de Wim Wenders.

Maria é dos anjos – cinematográficos e onipresentes – porque sabe que a vida também nos dá asas para voos que jamais imaginávamos poder voar. E ainda assim, voando voos inimagináveis, há um prazer sem igual em voltar, em sentir a terra debaixo dos pés. Em abrir as portas do lar.

A terceira Maria é das graças...

Enquanto caminha, os pés dançam no chão, mas de um jeito miúdo, que confunde o espectador, ele que se vê crente de que a moça simplesmente levita, e escorrega pelas bordas da realidade. Enquanto fala - a voz que mais parece música preferida -, ela diz tantas levezas que a gente se sente engalfinhar pela religiosidade gritada pelo seu coração apaixonado por horizonte.

Maria da Graças é dona de uma bodega, no centro de qualquer lugar. Ela enfeita as mesas com cores das flores, das louças, dos panos, que o lugar mais parece uma caixa de lápis de cor. Soluça quando gargalha, faz um escarcéu quando precisa de cafuné, adora os vestidos e as cantigas de roda. Às vezes, fica em silêncio, mas apenas para escutá-lo confidenciar-lhe desejos. Depois grita, como se tivesse à beira do abismo, o corpo curvando, cedendo à profundidade do medo. Mas é só coisa pra espantar desassossego, porque depois ela se espreguiça, côa um café, mordisca pão caseiro, sente-se em casa.

Maria é das graças porque não se entrega a desespero que seja.


Imagem: Tre Donna © Umberto Boccioni

carladias.com

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terça-feira, 7 de junho de 2011

PROBLEMAS GENÉTICOS >> Clara Braga

Eu não entendo absolutamente nada de genética. Sei que sou o que sou por causa de uma mistura qualquer do meu pai com a minha mãe, e que algumas características que eu tenho iguais ou parecidas com qualquer um dos dois, as pessoas dizem que é a genética.

Uma característica que eu tenho igual à minha mãe é a falta de memória. A dela é um pouco pior que a minha, mas ela já me confortou dizendo que, quando eu chegar à idade dela, posso até estar pior que ela. Eu não sei se memória também tem a ver com genética, mas se tiver eu estou lascada, pois agora meu pai começou a esquecer as coisas também.

Se eu juntar o esquecimento de um com o esquecimento do outro, daqui a uns anos não saberei dizer nem o meu nome. Já para eles, acho que foi uma solução. Antes, minha mãe contava algo e meu pai dizia, um pouco impaciente: “Você já me contou isso”. Hoje em dia, pego os dois tendo os mesmos diálogos que tiveram no dia anterior, mas dessa vez sou eu quem fala: “Vocês já tiveram essa conversa!”.

As conversas que eu tenho, ainda lembro, pelo menos eu acho que lembro, pode ser que eu esteja até escrevendo uma crônica bem parecida com outra anterior e não me dei conta, mas como ninguém reclamou ainda eu continuo achando que lembro das coisas. O meu problema é com datas, placas de carro, telefones, no geral tudo que envolve números é difícil para mim.

Ao longo dos anos, venho tentando desenvolver técnicas que me ajudem a lembrar dos números, meses e placas, mas até agora poucas coisas funcionaram. Telefones, eu só decoro quando ligo muito para um mesmo número, mais de uma vez ao dia. Aniversários, eu só lembro os que são perto do meu, e mesmo assim erro o dia, só sei que é perto. A placa do meu carro eu nunca decorei os números, mas sei que as letras são JGE porque um dia minha mãe comentou que a placa do carro tinha as iniciais de todo mundo da família, José, meu pai, Gabriel, meu irmão e Eliane, minha mãe, me excluindo literalmente da família. Fiquei tão chateada que nunca mais esqueci essas benditas letras.

Recentemente, me lembrei de um fato importante. Na última quinta-feira, a Fernanda Pinho escreveu uma crônica belíssima falando da sua facilidade com datas e lembrando de que há um ano começou a escrever aqui no Crônica do Dia. Assim que li sua crônica, lembrei que na primeira crônica que eu escrevi, ela, muito simpática, comentou algo que eu não vou recordar com detalhes, mas dizia que, para ela, era bom saber que não estava começando sozinha. O que me levou à conclusão de que eu também estou completando um ano de Crônica do Dia. Obrigada pela lembrança, Fernanda. Obrigada a todos os cronistas pela oportunidade e obrigada a todos os leitores, esse um ano foi muito bom.

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segunda-feira, 6 de junho de 2011

CINCO ANOS >> Kika Coutinho

Semana passada, chegamos aos cinco anos de casados. Cinco anos. Meia década. Ridículo, né? Acho meio ridículo se gabar por cinco anos, até porque passaram em um segundo.

Um segundo. Pisquei os olhos, tomei um banho, jantamos juntos, errei uma receita, pari uma menina, engravidei de outra e pá, cinco anos.

Foi tão depressa. Foi o tempo de esquecer de levar a toalha pro banheiro. E, como toda noite, gritei por você: “Amoooooor, traz a toalha pra mim? Esqueci...”. Ainda ouvi você se levantando da cama, abrindo o armário, pegando a toalha — eu torci para que fosse a branca mas não pedi — e quando você chegou com a toalha bege no banheiro e pendurou no box, de repente, pronto. Foram cinco anos.

Cinco anos esquecendo a toalha, cinco anos deixando a louça suja pra você, cinco anos coçando as suas costas, cinco anos te vendo escovar os dentes, de manhã e à noite, no mínimo. Cinco anos e você ainda traz aquele pão com semente que eu detesto. Cinco anos e você não foi na dermatologista. Cinco anos e me acostumei a dormir com a TV ligada. Também cinco anos pedindo: “Desliga vai? Vamos dormir, desliga...” e, por cinco anos, você repetindo: “Já vou desligar”. A verdade é que me acostumei. Mas continuo pedindo, pra manter a rotina. Ah, a rotina... Aquela velha vilã, mas tão cômoda, como um sofá fundo e confortável, do qual dá uma preguiça de sair, ainda que a vida acene de longe para a gente...

Cinco anos da nossa rotina. Cinco anos de domingos com café da manhã na padaria, jornal espalhado no sofá, o silêncio da manhã enquanto você folheia a Veja e eu a Vejinha, cinco anos que a gente reclama do Faustão, assiste Fantástico, cochila no sofá, e briga pela janela que você quer manter aberta... “Tá frio, Baby. Fecha...”. E você fecha por alguns minutos quando, antes de começar a enxugar o suor, abre de novo, fingindo que esquentou. Cinco anos de absoluta incompatibilidade térmica. Eu sempre com frio e você sempre suando. Cinco anos que você liga esse maldito ar-condicionado no carro e só desliga quando eu bato novo recorde na crise de espirros. “Já dá pra chamar o Guinness?”, pergunto, irritada, enquanto você desliga e comenta do trânsito, tentando disfarçar.

Cinco anos que você arruma as minhas bagunças, traz leite nas insônias e me empurra pra fora da cama durante a noite. Cinco anos que eu te peço pra virar pro outro lado, cinco anos que eu te dou aquela cutucadinha quando você ronca.

Cinco anos que eu roubo seu cobertor. Cinco anos que eu juro que não roubo, mas, agora, admito, roubo mesmo. Há cinco anos.

E, Amor, prepare-se. Não tenho planos de me corrigir, nem de morrer, nem de sair desse velho sofá, fundo e macio, que é a nossa doce rotina. O cobertor é meu, e fim de papo.

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domingo, 5 de junho de 2011

SIR LUNGALOT == Eduardo Loureiro Jr.

Prepare o seu coração
Pras coisas
Que eu vou contar
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
E posso não lhe agradar...
(Geraldo Vandré)

Sons, palavras, são navalhas 
E eu não posso cantar como convém
Sem querer ferir ninguém
.
(Belchior)

A leitora — que vem aqui de vez em quando — pode pensar que sou um sujeito acolhedor, afável, carinhoso, gentil, cavalheiro até. E é sempre bom, para um escritor, ter leitores que, olhando um copo com água pela metade, diz que ele está "meio cheio" quando bem poderiam dizer que ele está meio vazio. É um alívio para o escritor contar com a benevolência da leitora diante de uma meia verdade.

A outra metade da verdade é que sou um sujeito grosseiro. Não, cara leitora, não queira confirmar essa outra meia verdade com parentes, amigos e rápidos conhecidos. Eles vão lhe dizer que abro portas de carro para mulheres, que escuto com atenção os dramas de um sofredor, que componho canções para crianças recém-nascidas... A crer no que parentes, amigos e conhecidos dizem, a leitora vai pensar — iludida — que o copo está completamente cheio d'água.

A verdade — metade mais metade, inteirinha da silva — é que entre Sir Lancelot, o galante cavaleiro fazendo a corte à sua platônica paixão nas pradarias da Inglaterra, e o rude Seu Lunga, o vendedor de sucata de Juazeiro do Norte respondendo a todos sem paciência, me identifico mais com o segundo.

Quer uma prova? Pergunte a qualquer pessoa que convive comigo por mais de quatro horas diárias, ou seja, minha mulher. E ela lhe dirá, cara leitora, sem dó nem piedade: "É verdade. Eduardo é um grosso. Quando ele ameaça abrir a boca, já fico assustada. Quando não é espinho, é patada. Rabugento, incomunicável. Não deixe se enganar pelo que ele escreve. O Eduardo é osso impossível de roer. Sabe qual o signo dele no horóscopo chinês?".

Cão. Cachorro. Quando uma simpática dona de um canino me diz, "é mansinho, não morde", eu respondo a la Seu Lunga, "até eu mordo, minha filha", e dou uma rosnada para minha espantada interlocutora e seu ganinte cãozinho.

Claro que cachorro brabo a gente deixa em casa, não sai com ele passeando por aí, nem de coleira reforçada. Para a rua, para o trabalho, para as reuniões, para os aniversários, eu levo Sir Lancelot, em sua armadura prateada. Mas não há como andar com uma armadura pesada dessas o tempo todo. Debaixo da sucata prateada, está Seu Lunga, aperreado, impaciente.

Por isso tive que criar para mim uma vida razoavelmente diferente da maioria das pessoas. Não tenho emprego fixo, por exemplo. Se eu tivesse que passar oito horas por dia ao lado de companheiros de trabalho, eles descobririam rapidinho Seu Lunga por baixo da armadura de Sir Lancelot. Então trabalho a maior parte do tempo em casa e procuro me manter em silêncio o máximo possível. Sabe a leitora quantas palavras escrevi até agora, nesta ensolarada manhã de domingo? 469. Isso mesmo, quatrocentas e sessenta e nove palavras. E você pode ter certeza, cara leitora, que isso é mais do que falarei de viva voz neste domingo inteiro. A escrita é uma excelente forma de conter Seu Lunga e polir a armadura de Sir Lancelot. A premeditação favorece o cavaleiro. O improviso libera o sucateiro.

Mesmo assim, de vez em quando, em público, Seu Lunga faz um estardalhaço por dentro da armadura. Quando estou envolvido em um grande projeto, por exemplo. Tais projetos me obrigam a conviver com algumas pessoas por tempo prolongado. A primeira vez foi em 2002, no aniversário de 80 anos de minha avó, cujos preparativos duraram 9 meses. Foi um aniversário inesquecível, com direito a livro, vídeo, missa e quatro festas, mas perdi minha lancelotiana paciência até com minha tia querida. Dois anos depois, durante a exposição de arte do Labirinto, que concluía um doutorado coletivo de quatro anos e meio que fiz com minha então mulher e dois amigos, Seu Lunga se manifestou tão fortemente que perdi a mulher e um amigo (já devidamente recuperado), embora a exposição tenha sido um sucesso de público e crítica. Atualmente, Seu Lunga está sujeito a aparecer novamente durante a produção e os lançamentos do primeiro livro do Crônica do Dia, o "Acaba não, Mundo".

Funciona mais ou menos assim: para quem está fora da armadura, Sir Lancelot; para quem está dentro da armadura, Seu Lunga. O meu individualismo tem aí sua boa intenção: eu quero que vocês fiquem do lado de fora para que eu possa ser gentil com vocês. Quando alguém se aproxima muito de Sir Lancelot (no corpo, na casa, no projeto), está sujeito a entrar na minha armadura e dar de cara — muitas vezes de maneira desavisada — com Seu Lunga. Pense no embaraço mútuo — e nas eventuais subsequentes grosserias.

Como já confessei à leitora, me identifico mais com Seu Lunga. Uma vez que as pessoas com quem convivo o tenham conhecido, não faço mais muita questão de esconder. Seu Lunga, Meu Lunga, diz assim: "Agora aguente, e não trema!".

(Sir Lancelot:
— Eduardo, assim você assusta as pessoas. Dá uma aliviada aí ao fazer a revisão da crônica.
Seu Lunga:
— Bota esse povo mole pra correr. Que só fique quem tiver sustança.)

Bom, creio que agora a leitora não está mais desavisada.

Assinado,

 Sir Lungalot

*
Trilha sonora da escrita desta crônica:
"Lancelot", de Willy Astor.



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sexta-feira, 3 de junho de 2011

MUITO ALÉM DE UM RAMERRAME >> Leonardo Marona




Encontro sempre Ismar Tirelli como que por acaso, mas na esperança de encontrá-lo. Não que necessite de sua presença, mas sua presença em determinados lugares – sempre onde o acabo encontrando, lugares muitas vezes arriscados – me tranqüiliza, afeta meu lado católico. Dessa vez não foi diferente. Nos encontramos em um – como chamam? – sarau de poesia, mas não é mais assim que chamam. Performance, arrojo de penas, saúde frágil, olheiras de alegria, e foi o suficiente para eu começar a transpirar sangue. Mas ali estava Ismar, com seu inafiançável suéter de lã, um nobre saxão, com um toque de MacDougal Street, calmamente me dando psiu. “Marona, proponho um escambo”, ou algo assim, foi o que ele me disse, estendendo-me seu novíssimo Ramerrão (7Letras), enquanto em troca eu dava meu também novo (mas depois eu descobriria que não muito) livro de poemas. E ficamos assim: ele comprava no posto ao lado uma cerveja preta e eu bebia infantilmente rápido, porque não estava preparado para uma leitura de poemas, nunca achei que fosse realmente essa a questão, tinha sido até então confortável pensar assim. Mas agora eu estava ansioso por aquilo, e ao mesmo tempo me sentia pasmo e envergonhado por me sentir assim.


- Queria saber quanto tempo eles vão nos dar – disse Ismar.


- Você pode ler dois textos longos ou três médios, ou quatro curtos.


- Sim, mas me agonia não saber exatamente quanto tempo tenho.


- De todo modo, podemos apenas ler, que chance a gente tem?



- Sim, arruinados. Mas é orgulho também o que não se tem. A mim me basta ler seriamente. Alguns minutos com algo “bem sério”.



Lemos, foi tudo meio médio. Ficamos todos com vontade de sair, vomitar talvez numa lixeira e seguir até um bar de rua. No bar encontro Ismar com dois amigos, menina e menino, pessoas bonitas, limpíssimas, gentis. Estamos ainda um pouco eletrizados e começamos a falar do bar onde bebíamos em Laranjeiras, boca braba de vagabundo e traficante. Rimos um pouco, paramos. Posamos de máfia filipina. Tive que ir embora, tinha um encontro amoroso. Ismar me parabeniza calorosamente, “é muito tarde para se ter tamanha sorte”.



O encontro amoroso poderia ser até uma desculpa, não importa. O livro estava comigo, “antes do que todo mundo”, me foi dito, e havia de fato uma sensação de que algo estava sendo defumado dentro da mochila. Então levei essa horrível machadada na cabeça, fiquei ali estirado no chão das crises fumegantes das quais trata o livro, e que não são passíveis, talvez, de resolução, mas são as nossas vidas malapropos, os empregos que nos são dados e nos estouram as espinhas, as caras crescidas, que se alugam por temporada, a ereção despropositada nas calças do avô. Ismar Tirelli Neto estava ali e, com delicadeza firme, até mesmo ainda um pouco assustado, me lembrava que “vamos sempre constatando que nada rufou”. Isso é ao mesmo tempo um alívio imediato, seguido de uma profunda identificação, e descamba para um sutil desespero, que só se vê nos antigos filmes franceses. Ismar conhece os filmes franceses, conhece a língua vernacular, e conhece, principalmente, a “festa do intelecto” de Valery. Assim seu Ramerrão atropela todo o ramerrame que cerca feito hiena nossos corações aflitos. De fato, admito que seja um livro para corações aflitos, ou que ao menos assumem que podem ficar aflitos a qualquer minuto.

O impacto de Ramerrão é o impacto de uma nova máquina, um novo processador de pensamento ágil e escorregadio, podendo ser também, aos desavisados, um grande desgosto. Nada ali é um convite. Um abraço amigável. Acabaram os gracejos e os aleijões. “É bem longe que se assina a paz”, constatamos isso nesse tom que não é um desespero nem uma crença, é tão somente um flutuar com garras leves sobre a história das sensações humanas. Um tanto desconcertante é reparar que tais linhas foram criadas pela mesma pessoa que se viu uma vez preocupada com o tempo que lhe seria dado para uma leitura. As probabilidades desajeitadas parecem nutrir de ternura truculenta os poemas, e o “personagem poético”, digamos assim, torna-se uma espécie de Brancaleone desconjuntado, e por mais que ele às vezes nos cause uma sensação de que não podemos acompanhá-lo, tornamo-nos fiel à sua causa, por ternura.

Os movimentos chulos são mitificados em casacos de vison, tiros pela culatra, paixões alavancadas e, acima de tudo, um racha com a vida das paredes brancas e frias dos escritórios. Depois se giram todos os graus, somos abandonados sempre no ápice da sensação, e Ismar descarrega no leitor sua bagagem pesada que vem, no entanto, com belíssimos adesivos de viagem. Porque ele sabe muito bem que nosso desejo não deve encontrar pouso jamais, e sobre essa corrente elétrica correm as palavras-ímãs, rainhas disfarçadas em meio à plebe cotidiana, enquanto que para nós ficam os inestimáveis choques de alta voltagem. É até certo ponto absurdo. Está ali um senhor polido, educadíssimo e agradável, falando elegantemente uma língua que nunca se viu, uma mescla de aliterações tropeçadas na margem frágil em que vivemos nossa “linha de conduta por um fio” e, principalmente (após abandonar Kant para tornar-se humorista), nossa vontade genuína de não mais fazer rir.


Para não fazer rir, a poesia de Ismar Tirelli Neto tornou-se revoltante. Leiam e saibam que é muito provável que se tenha ganas de janela. Porque suas bases são vaporosas e estão sempre em movimento. Mal conseguimos identificá-las, estão noutro lugar, transfiguram-se em pó de face, café, passam a outra ocasião, “acontecem o dia”. Seria possível, num rompante, gritar que a poesia de Ismar Tirelli Neto é uma justiça sem escrúpulos, porque nos arrasta pelo braço sobre as chamas do espanto, como ele mesmo diz, “o meu é o trabalho do espanto. O nosso é o trabalho do espanto”. E isso não é um “convite ao esclarecimento de um equívoco precioso”, mas um anúncio da obrigação de não se ter escolha: o espanto é nossa única margem entre a loucura e a criação.





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quinta-feira, 2 de junho de 2011

UM ANO >> Fernanda Pinho

Sou uma pessoa completamente obcecada por datas. Por um lado, é excelente. Nunca me esqueço a data do aniversário de ninguém, o prazo para a entrega de um trabalho ou o dia de um compromisso. Sem falar que mencionar datas sempre dá credibilidade aos meus argumentos. "Mas eu não disse nada disso!". "Disse, sim! No dia 18 de março, à tarde, quando já tinha parado de chover". (Porque tem isso: se lembrar do dia em que as coisas aconteceram ou acontecerão é a chave para se lembrar de todo o resto). Obviamente, tem o lado ruim (que mania irritante que tudo tem, de ter dois lados!). Essa memória doentia para datas não é seletiva, e as informações desagradáveis também continuam intactas. Ou seja, em meio ao meu gigantesco acervo de memórias e datas tenho informações legais, tipo "hoje faz nove anos que eu tive meu primeiro dia de aula na faculdade e conheci amigos que mudaram minha vida"; e informações toscas, tipo "hoje faz sete anos que eu levei meu primeiro pé na bunda". Quer dizer, depois de tantos anos de vida, já posso dizer que praticamente todos os dias do ano eu tenho alguma coisa para lembrar. Um talento que me permite, inclusive, estabelecer algumas estatísticas. Sei, por exemplo, que os meses de maio não costumam me favorecer muito. Os de setembro, em compensação, são só alegria.

Aqui vale uma pergunta: vocês já estão me recriminando ou eu posso continuar? Porque outro dia eu estava dizendo essas coisas a um amigo e ele sugeriu, sutil como um elefante, que talvez eu devesse buscar ajuda psicológica. Por vias das dúvidas, vou mudar um pouco o assunto. Não vim mesmo para falar sobre minha calendariomania. Tudo isso era apenas uma introdução para contar que, segundo consta nos meus arquivos cerebrais, amanhã, dia 03 de junho, faço um ano de Crônica do Dia.

Foram 47 crônicas até aqui, falando um monte de besteiras. E por já saber que eu só falo besteira, eu tinha medo no início de ser xingada nos comentários ou de o Eduardo, o pai do blog, resolver me expulsar. Não sei se essas vontades existiram. Se existiram, não foram colocadas em prática. Pelo contrário. Li muito mais do que eu merecia a respeito dos meus escritos. Vocês que aqui comentam podem não saber mas, às vezes, escrevem coisas que nos marcam profundamente. Me lembro de uma vez ter postado um texto aqui onde eu dizia estar bastante triste. No mesmo dia, recebi o e-mail de uma menina, que eu não conheço, pedindo que eu não ficasse triste, pois ela se sentia feliz quando lia meus textos alegres. Para essa menina que eu não conheço, para os outros leitores que comentam e para os silenciosos, meu muito obrigada.

Vocês fizeram parte de um ano muito importante na minha vida. Outra vantagem da  calendariomania, é que a gente consegue acompanhar nitidamente nossas mudanças durante um determinado período. E foram tantas coisas de 03 de junho de 2010 até o dia de hoje, a maioria delas ditas, ainda que nas entrelinhas, nas minhas crônicas (bom que se meu arquivo cerebral tiver uma pane, tenho ao que recorrer). Mas, me atendo ao blog, não posso deixar de citar que, mesmo sendo recente nessa história que já tem 13 anos, conheci o Eduardo pessoalmente no ano passado (fato que aconteceu no dia 21 de dezembro, uma terça-feira) e por ele fui convidada a participar do projeto do livro do Crônica do Dia (que aqui em Belo Horizonte será lançado em 24 de setembro - não disse que setembro era dos meus?). Portanto, acho digno gastar um dia do meu espaço aqui no blog para comemorar meu um ano por aqui e dizer: parabéns pra mim! :)

Imagem: www.sxc.hu


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