terça-feira, 31 de maio de 2011

COISAS QUE EU NÃO SEI >> Clara Braga

Nunca cheguei a ser uma péssima aluna, mas também nunca estive entre os melhores da sala.

Durante todo o período da escola, cheguei até a ficar de recuperação uma vez, mas nada que não desse para recuperar com uma provinha extra. Mas era raro fechar as matérias com nota máxima.

Hoje em dia, na faculdade, a história se repete. Ainda não reprovei em nenhuma matéria, mas também não fecho os semestres com muitos “SS”. Sempre fico na média.

Ser uma aluna sempre mediana nunca me incomodou muito, mas confesso ter uma pontinha de inveja das pessoas que não precisam passar nem um minuto na frente de um livro estudando para ir muito bem em uma prova. Por que eu tenho que me matar de estudar e mesmo assim às vezes ir mal, enquanto os outros se dão bem sem nem estudar?

Fiquei me fazendo essa pergunta por um bom tempo até descobrir que eu sou disléxica. Muito se explicou, mas a dificuldade continuou. Diminuiu depois dos 6 anos que eu passei na fonoaudióloga, mas, como se sabe, dislexia não tem cura, então o que se pode fazer é aprender a conviver com ela.

Olhando para trás, acredito que eu tenha lidado até bem com essa minha dificuldade. Nem sempre foi assim, mas hoje já consigo achar, inclusive, que se deveria dar mais valor às coisas que não se sabe. Nem sempre saber algo é vantajoso.

Por exemplo, aquele dia que o professor me chamou ao quadro e, mesmo eu pedindo para não ir, ele me fez resolver um problema de matemática na frente da turma toda, eu queria não saber que eu pagaria um mico por não saber nem por onde começar.

Ou aquele dia em que eu cheguei, depois de 5 meses de viagem, morrendo de vontade de encontrar aquela pessoa especial. Eu queria não saber que aquela ao lado dele era sua namorada.

Ou as várias vezes em que minha mãe me disse para não fazer algo e mesmo assim eu fiz. Eu queria não saber que ela tinha razão em me dizer para não fazer.

Ou aquela festa em que eu vi aquele casal de amigos chegando juntos, de mãos dadas, aparentemente muito felizes, eu queria não saber que enquanto ela era louca por ele, ele já não estava mais feliz ao lado dela.

Ou então essa sexta no hospital. Eu queria não saber que aquele sorriso que ele me deu seria o último sorriso dele para mim...

Bom, sabendo das coisas ou não, a única certeza que eu posso ter é de que, por mais difícil que seja, a vida tem que continuar...

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segunda-feira, 30 de maio de 2011

JUÍZO FINAL >> Albir José Inácio da Silva

Ainda bem que o mundo não acabou no dia marcado porque eu tinha aí umas pendências. Uns malfeitos pra desfazer, uns pecados pra confessar. E até um menino pra assumir, que Zefa vai pular nas tamancas mas não posso ir assim pro julgamento.

Padre Antônio falou que o mundo vai acabar sim, mas não é agora não, faltam alguns anos. Ele faz cara de que sabe quantos mas não diz. Eu também não acredito porque já peguei outras mentiras dele. Ainda mais depois do que fez com aquela moça, antes donzela, que ele inventou que tava com demônio e ela teve de fugir pro Rio de Janeiro.

Pesa na minha consciência uns palmos de terra do Aderso. Verdade que eu cheguei a cerca pra lá depois que as vacas derrubaram, mas foi pra compensar uns prejuízos. Quantas vezes falei pra tirar os animais do meu sítio e ele não escutou. Mas isso é coisa pouca.

Outra pendência que preciso resolver é aquele moleque, o Dão. Eu já nem o contava mais como pecado, tantos anos sem notícia de Esmeralda que tinha sumido pros lados de Minas. Foi minha sogra, que sabe tudo, o que não sabe advinha, que apontou o molecão na rua:

- Olha ali o filho da pouca-vergonha.

Parecia comigo mesmo. Mas o pior veio no domingo, ele me tomou a bênção na saída da missa, na frente de todo mundo.

A culpa foi também de Esmeralda. Andava me deitando uns olhares, eu já casado. Chamei pra ver um cabritinho doente, que ela tinha muita pena de bicho. Entrou no paiol toda sorriso, cheiro e dengo. Verdade que ela não queria, foi meio à força. Mas ela podia ter gritado. Não gritou.

Tudo isso se resolve. Volto a cerca pro lugar, dou uma desculpa, e Aderso ainda vai me agradecer. Uma tapeada na Zefa, um corte de pano, um pó de arroz, registro o menino, ajudo a acabar de criar que ele também já está grande, e pronto. Até o padre safado vai ter que me dar absolvição. Mais difícil é o caso do Silas, aquele cão.

Veio me desfeitear na beira do rio por causa de uma discussão na bodega do Juca, e foi pra dentro d’água com a cabeça rachada. Ninguém sabe, ninguém viu, mas andaram desconfiando na época. O sargento chegou a perguntar onde eu estava naquele dia. O caso acabou como escorregão e afogamento.

Isso eu não confio de confessar pra Padre Antônio, que já não gosta mesmo de mim e eu posso acabar na cadeia. Tenho que pensar melhor. Talvez eu vá pra Minas, um lugarzinho do interior, fico uns dias, confesso com padre de lá, desconhecido. Uma ofertinha, uma penitência, umas ave-marias, e volto pra cá com tudo resolvido.

Só não posso fazer que nem das outras vezes. Fico adiando, adiando, chega de novo o último dia e me pega de calça curta, cheio de pecados e sem absolvição. Já passei da idade de brincar com coisa séria. Esse mundo é perigoso.

Ainda bem que no céu não vai ter cabocla sonsa, vizinho safado nem cabra desaforado. Nada de filho bastardo ou padre sem-vergonha. E não tem a Zefa falando pelos cotovelos. Eu preciso é ir logo pra lá, sabe.

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domingo, 29 de maio de 2011

ADOLESCÊNCIA >> Eduardo Loureiro Jr.

INSTRUÇÕES PARA LER A CRÔNICA:
0. Leia todas as intruções antes de iniciar, pois, após efetuar o passo 3, as instruções não serão mais visíveis.
1. No meio da parte inferior da telinha abaixo, clique na seta preta virada para a direita.
2. Aguarde um pouco até aparecer, no canto inferior direito, a palavra MORE. Posicione o mouse sobre a palavra MORE.
3. Clique em FULLSCREEN.
4. Use a seta > para a direita > do seu teclado > para avançar.
5. Quando terminar, pressione a tecla ESC do seu teclado para sair.



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quinta-feira, 26 de maio de 2011

SEM NOME >> Fernanda Pinho



- Amiga, nem te conto!
- Conta, sim!
- Você não sabe o que eu descobri!
- O quê?
- Sabe o Robert Downey Jr.?
- O ator?
- Não! O Robert, o da banda!
- Ah, o que tem ele?
- Ele também frequenta o mesmo samba que a gente.
- Qual samba?
- Aquele onde a gente se encontrou com os Bodes.
- E aí, você tem visto o seu Bode?
- Sim, o que é bom, porque desde então eu já nem penso mais no Capiau.
- Entendo. Eu também usei o Argentino para estes fins...
- Por falar em Argentino, sabe quem eu vi? O Idiota da Europa.
- Mas a Argentina não é na Europa...
- Argentina, Europa...tudo no exterior...
- Hummm....lembrei do Chef Neozelandês...
- Afinal, o Chef Neozelandês sabia cozinhar?
- Não mais que o Rúgbi.
- Mas é que o Rúgbi era um cara experiente, né?
- Não! Experiente era o Velho.
- Que nojo de você com esse Velho.
- Falou a garota que só se envolve com contemporâneos. E o Pirralho, vai bem?
- Sumido, estudando pro vestibular. Aliás, sabe o que ele quer ser?
- Adulto?
- Não, geólogo!
- Também? Que sina, hein? Quem era geólogo? O Mago? O Macumbeiro?
- Não, o Geólogo.
- Eu sei que o geólogo é geólogo, é óbvio. Eu quero saber QUEM era geólogo.
- O geológo era O Geólogo. O Mago era advogado. Entendeu?
- E o Macumbeiro?
- Sei lá! Devia ser macumbeiro mesmo. Ele não era meu. Era da Ana.
- A Ana que está saindo com o Havaiano!
- Jura? Perdi essa atualização. Achei que ela ainda estivesse com o Bipolar.
- Não...ei, olha quem tá vindo ali!
- É ele!
- O Robert Downey Jr.!
- Sim, e ele tá vindo falar com a gente...
- Eita, qual é o nome dele mesmo?
- Robert? Downey? Junior?
- Ixi...acho que nenhuma das alternativas.

[Da arte feminina de nunca se referir a um ex ou a um pretendente usando seu próprio nome.]

ou

[Da arte feminina de elaborar um motivo para ilustrar sua crônica com uma foto do Robert Downey Jr.]



www.twitter.com/ferdipinho

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quarta-feira, 25 de maio de 2011

VER E PROVAR >> Carla Dias >>

No dia de hoje, vou condecorar pequenos feitos quase invisíveis às almas distraídas, porém tão importantes para o acontecimento que é a vida, feito frestas cuspindo luz, respingando esperanças na tela virgem da escuridão.

E mesmo que ande por aí apalpando impossibilidades, hoje eu vou mergulhar em mim, mas de um jeito inédito, sem procurar pelo fôlego ao primeiro susto. Vou até o fundo de mim, tocarei meu chão, expandirei a compreensão que o mantém sendo quintal onde descanso e repenso os incômodos, até que eles partam de vez.

E ao voltar à superfície de mim, prometo tratar com mais delicadeza a nossa existência: a minha, a sua, a dos outros. E enxergarei além, minha voz dirá sentimentos sem a rede de proteção da omissão.

Para amanhã, programei algumas mudanças: janelas escancaradas, portas abertas, horizontes dependurados no olhar, andar de mãos dadas com o desapego, porque aquele sonho nunca foi sonho, mas sim prisão, já que desaconteceu, antes de sequer dar-se ao gosto do acontecimento. E vou encarar o reflexo de mim no espelho da desconstrução. E que a reconstrução seja passível de melhorias.

Quem puder que suma do mapa, ainda que por alguns minutos, durante o dia. Abandone as senhas, deixe de lado os provedores e as dezenas de ligações aos SAC disso e daquilo outro. Sabe como diz a canção? “Era dia de feira/Era dia de ver e de provar/Era dia de estrelas no olhar”.

Dia de provocar o riso, confundir noite com dia, porque tem lua no céu claro. De concluir projetos, como aquele engavetado por anos, que inclui, entre tantos tópicos de importância gritada pela logística e pelas estatísticas, um dos que mais nos apetece: confundir-se, vez ou outra, com a felicidade.

Que o experimento seja capaz de nos levar além, e nos permita conhecer novos sabores, como o das tardes em que nos dedicamos a observar o que, em dias do diariamente, sequer percebemos.

Ver e provar.

Dia de Estrelas
Kléber Albuquerque & Élio Camalle




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terça-feira, 24 de maio de 2011

O TÉDIO PÓS-EMOÇÃO >> Clara Braga

É exatamente como diria Arnaldo Antunes: “Atenção, essa vida contém cenas explícitas de tédio nos intervalos da emoção”. E, graças a Deus, existem esses intervalos. Ninguém aguenta viver só de emoção, até mesmo as pequenas emoções.

Final de semana, tive que fazer trabalho de faculdade, o que acaba com a minha teoria de que final de semana é unicamente para descansar e fazer coisas legais. Mas tudo bem, já que temos que fazer trabalho de faculdade, vamos transformar isso em algo não tão chato, vamos levar comida, bebida, amigos para nos ajudar e ficar papeando enquanto fazemos o que tiver que fazer. E assim foi.

Quando vimos a quantidade de Cheetos que uma das meninas do grupo tinha levado, parecíamos crianças chegando na Disney. Fazia tempo que eu não comia Cheetos assim, de tantos tamanhos e sabores diferentes, sabores que eu nem sabia que existiam. E é tão gostoso!

Assim ficamos... fazíamos um pouco do trabalho e comíamos um pouco de Cheetos. Lembrei-me de quando levava para comer no lanche da escola e me perguntei por que não levava para o lanche da faculdade, ao invés da barrinha de cereal ou da maçã.

Não precisei de muito tempo para descobrir a resposta. Não levo mais porque não tenho mais o mesmo estômago de quando tinha 9, 10 anos de idade. Depois da emoção do final de semana, estou curtindo o tédio das dores de estômago e do enjoo quando escuto o nome de qualquer tipo de comida. E, também por causa das dores, sofro com a falta de inspiração para uma crônica mais interessante.

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segunda-feira, 23 de maio de 2011

EU QUASE ME ESQUECI >> Kika Coutinho

Eu estava sentada no escritório da minha casa, ao telefone com uma funcionária da empresa para a qual trabalho, discutindo um ponto importantíssimo de negócio. A conversa estava quente, não concordávamos. A moça, na Argentina, me explicava em portunhol que deveria ser assim, que esse era o procedimento desde sempre, enquanto eu, e outras pessoas que participávamos do call, repreendíamos, alegando que isso não era argumento, a carreira de muitos funcionários estava em jogo, os números não nos favoreciam, as políticas não estavam coerentes... Quando, de repente, a babá da minha filha bate na porta.

Ao me ver ao telefone, a moça fala: “Ai, desculpe, você está ocupada...”. Eu, preocupada que tivesse acontecido algo com a minha filhota, cubro o telefone com as mãos e digo: “Pode falar, o que houve?”.
Fico surpreendida quando ela afirma, sem graça: “É que a minha mãe me ligou, minha cunhada acabou de ter neném, lá na Bahia...”. Fico um instante em silêncio. E o que eu tenho a ver com isso? Mas que raios que esse bebê tem que ela interrompe um troço importante desses? Fiquei indignada e sem ação. Bebês não nascem todos os dias, afinal? Olho de novo pra ela, que tem as mãos juntas, nervosa, aperta o indicador da mão esquerda com os dedos da direita. Subo um pouco a vista e noto que os olhos estão cheios d'água. Aí, só aí me dou conta... Meu Deus, nasceu?!

Lembro-me, num instante, de quando ela contou da cunhada grávida, da dificuldade de estar em SP longe da família, sem convênio médico, sem ninguém. A moça não aguentou ficar muito tempo aqui e, já com um barrigão de 7 meses, voltou para a Bahia para aninhar-se nos braços da mãe e da sogra, esquecendo-se do que era a roça, o chão árido, os hospitais precários... A menina ia se chamar Natalie. Ou seria Verônica?

Peço um minuto no telefone. Minha interlocutora argentina não entende, mas eu insisto, tiro o telefone da orelha em definitivo, e vou dar atenção à nova tia: “Que legal, Nete! Que coisa boa! E como está a sua cunhada? Senta aqui, me conte!”. Ela senta, um misto de vergonha e alívio, querendo compartilhar o que alegrava a sua vida. Enquanto enxuga uma lagriminha teimosa, começa a me contar: "A bolsa estourou, o neném é grande, elas estão felizes"...

Eu perdi o restante da conversa telefônica. Certamente teria de me desculpar e poderia ter posto qualquer coisa importante a perder. Mas não importava. Nada era tão importante assim: uma criança nascera na Bahia, uma pequena menina estava, agora, abrindo seus olhos para a vida e enxergando o mundo...

Foi numa sexta-feira chuvosa que a pequena Natalie me tirou do trilho da chatice e da burocracia e me lembrou, de verdade, quem eu sou e o que importa nesse mundo... E eu quase ia me esquecendo.

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domingo, 22 de maio de 2011

O SR. URIAS, O RONCO E O BOBBY
>> Eduardo Loureiro Jr.

Ainda estou longe de ser um grande homem, mas já começo a reconhecer um quando o encontro — o que me dá uma certa sensação de progresso.

Ontem conheci o Sr. Urias. Fui convidado para almoçar em sua casa por seu enteado, um amigo meu que me havia prometido um carneiro. Eu não gosto de carne de carneiro, talvez por haver presenciado o sacrifício de um, quando eu ainda era criança. Como pode ser gostosa a carne de um animal que a gente vê pendurado de cabeça para baixo, que é golpeado na nuca, que é atravessado por um facão e do qual se tira o couro inteiro enquanto, no chão, uma bacia recolhe seu sangue? Mas insisti tanto com meu amigo Ricardo para que ele cumprisse sua promessa de oferecer um carneiro àqueles que lhe haviam auxiliado com o projeto para o doutorado que cheguei à casa de Seu Urias e Dona Nilmar disposto a adorar carne de carneiro, pelo menos por um dia.

O Sr. Urias me surpreendeu primeiramente pelo passo lento. Hoje é tudo tão fácil e veloz que admiro quando vejo alguém andando devagar, como se não tivesse nada urgente para fazer. Só conheci uma outra pessoa que andasse tão lentamente quanto Seu Urias: Manu, um colega dos tempos de faculdade que se tornou um grande amigo e meu mais abundante parceiro musical. Manu andava — e ainda anda — tão devagar, mas tão devagar, que é capaz de vez coisas que eu, em minha pressa, não consigo: poesia, por exemplo. Você me fez flutuar, quando lhe beijei. Me senti criança, brinquei de ciranda, de amor. Coisas assim, Manu sente e escreve em pensamento enquanto anda devagar como o Sr. Urias.

Sentamos à sombra do caramanchão e, enquanto comíamos um pobre e gostoso carneiro que havia sido sacrificado naquela semana, a conversa entrou em assuntos polêmicos. Com dez pessoas ao redor de uma mesa — algumas bebendo álcool —, um tema polêmico pode ser o estopim de uma explosão e transformar um encontro de confraternização numa terceira guerra mundial. Foi quando o Sr. Urias, que me disseram ser advogado e grande apreciador de História, resolveu entrar na conversa. Preparei meu espírito para o pior: pessoas que gostam de história — mesmo com agá minúsculo, como este que vos escreve — costumam ser chatas. Mas o Sr. Urias me surpreendeu mais uma vez. Disse que o certo e o errado são relativos para nós, humanos, e só podem ser bem avaliados se comparados com o absoluto, que é a Natureza. Se algo não está de acordo com a Natureza, está absolutamente errado. Mas como tudo vem da Natureza, se algo existe é porque pode estar relativamente certo. E arrematou afirmando, acerca da polêmica, que tal comportamento não era correto, mas era aceitável.

O leitor — curioso — vai querer saber qual o assunto de nossa conversa. Não vou dizer. Se o leitor souber qual era o tal comportamento em questão, vai pensar que o Sr. Urias falou besteira. Vai fazer como o Rei Davi, que copulou com a mulher de seu soldado Urias — o bíblico — e, não satisfeito com o simples adultério, ordenou à sua tropa que debandasse, deixando Urias sozinho na linha de batalha, sacrificando o inocente marido de sua amante ao exército adversário.

A sabedoria do Sr. Urias arrefeceu a polêmica, mas logo alguém trouxe novo assunto provocador, dessa vez sobre uma política do governo. Mais uma vez, respirei fundo: aquilo não ia acabar bem. Mas o Sr. Urias, lembrando Aristóteles, comentou que se deve tratar desigualmente os desiguais, o que também encerrou o assunto rapidamente, me fazendo reconhecer que a sabedoria do Sr. Urias não era fortuita, mas podia se repetir vezes sem conta.

Quis saber mais sobre Seu Urias, e ele revelou que só fez Direito já na maturidade, que sua área de estudo na juventude era a Geologia. E me pareceu muito correto que, antes de se conhecer a Justiça, é conveniente conhecer o chão onde se pisa e em que já pisaram alguns bilhões de seres humanos.

Hoje, na fila do supermercado, folheei uma revista para me distrair da distância até o caixa. E fiquei me perguntando o que o Sr. Urias diria sobre uma polêmica que tomou conta da mídia durante a semana passada. Porque só mesmo investido da sabedoria do Sr. Urias para resolver polêmicas com quem posa de salvador da mátria, mesmo começando frases com pronome oblíquo átono.

O problema com a gente — enquanto humanidade — é que, quando a gente ronca, sempre está dormindo. E, vez por outra, estamos sujeitos a acordar mal-humorados, incomodados com um barulho externo, inconscientes do barulho de nosso próprio ronco. E, sem um Sr. Urias por perto, a discussão sobre quem está certo ou errado pode estragar um banquete, causar uma inimizade ou gerar estresse. No trânsito, por exemplo, um único Sr. Urias valeria por uma centena de fiscais.

Uma amiga, certa vez, disse que eu parecia o Bob.

— Meu cabelo nunca chegará a rastafári — respondi.

— Estou falando do Bobby — esclareceu Marlinda. — O Bobby, do Fantástico Mundo de Bobby.

O leitor, caso desconheça o personagem que eu então também desconhecia, faça o favor de assistir à abertura do desenho animado logo abaixo e ver como o pequeno Bobby passa da realidade ao delírio em centésimos de segundo.



Pois na falta de um Sr. Urias por perto, resolvi assumir meu lado Bobby. Quando troco os cômodos de minha casa pelas ruas da cidade, e presencio flagrantes desrespeitos ao Código Nacional de Trânsito ou simplesmente às boas maneiras, em vez de me irritar e praguejar contra o infrator que faz da via pública uma via privada, opto por cantarolar uma antiga cantiga infantil: "Se essa rua, se essa rua fosse minha..."

Um motorista que estaciona em fila dupla, ou que dobra à direita sem ligar a seta, ou que decide virar à esquerda mesmo estando na extrema direita da pista, ou que para sobre a faixa de pedestres, ou que liga o pisca-pisca como se fosse um salvo-conduto para estacionar onde é proibido... 

Se essa rua, se essa rua fosse minha...

Um pedestre que aperta o botão do semáforo mas que não tem paciência de esperar o sinal ficar verde e atravessa antes do tempo para, quando o semáforo abrir, formar uma fila de carros que esperam um sinal vermelho sem ter mais ninguém para atravessar a faixa; ou um grupo, ou mesmo um casal, que caminha ocupando toda a extensão da calçada, impedindo a passagem dos pedestres que vêm em sentido contrário...

Se essa rua, se essa rua fosse minha...

E então, por milagre do delírio, todas aquelas pessoas que eu via como mal-educadas se tornam, de repente, pequenas crianças brincando de ciranda no playground das ruas.

Porque eu não sou o sábio Sr. Urias. Porque talvez eu tenha apenas acabado de acordar após passar a noite roncando. Porque talvez eu esteja errado, pensando que estou certo. Por tudo isso — e por um punhado de outras coisas das quais eu possivelmente nem desconfio — é que é melhor eu ficar manso como um carneirinho e bancar o Bobby.




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sábado, 21 de maio de 2011

NARCISO E O PRÓPRIO RABO
[Carla Cintia Conteiro]

Há certas coisas a respeito de si mesmo sobre as quais é inútil falar, podendo-se até causar o efeito contrário ao que se pretende. Qual é o ponto em alguém dizer que se acha bonito, assim, sem ninguém perguntar? A beleza está nos olhos de quem vê. Da mesma forma, embora seja praticamente imperativo hoje em dia, pelos mais diversos motivos, alardear seus próprios feitos, não adianta atribuir valor a eles, afirmando-se talentoso, criativo ou brilhante. Por mais angustiante que seja abdicar do gosto de contar a todos como o sujeito se acha maravilhoso, este veredicto pertence a quem o avalia. Certa vez, num desses reality shows que julgam os dons artísticos dos inscritos, vi um dos juízes perguntar ao candidato quem, fora do circuito da cegueira do amor familiar e da compassiva gentileza dos amigos, acreditava que ele era um artista de verdade. Este é o espírito da coisa.

Outras vezes, a pessoa se debate tentando evitar que cole em si certa reputação negativa. Alguém que brada não ser preconceituoso, geralmente está se defendendo de uma atitude suspeita. Se não, está começando ainda a emitir sua opinião: “Não sou preconceituoso, mas...”. Este “mas” entrega tudo. A ele normalmente se segue um rosário de ideias preconcebidas. Pode ser pior. A expressão “você há de convir que”, após a frase anterior, comunica a quem ouve esse discurso que se está diante não apenas de um ser carregado de intolerância, mas ainda um hipócrita que quer a admissão do outro de que compartilha da mesma visão de mundo. Tudo isso sem se dar conta de que sua estreiteza mental e seu atraso espiritual transpiram fartamente enquanto ele pensa estar trabalhando em prol da própria imagem.

Até quando o alvo da avaliação não é o espelho, a criatura pode estar mostrando o próprio rabo, invisível para si mesma a olho nu. Ao menosprezar o trabalho, a realização, as conquistas de seus rivais, em vez de denegrir quem ataca, o boquirroto pode estar entregando, a um ouvido mais treinado, sua inveja. Contudo, muita gente não sabe que ao emitir uma opinião, seja a respeito de si mesmo ou de outrem, fala mais com o subtexto do que com as palavras que saem de sua boca. Baden e Vinícius disseram muito bem em Canto de Ossanha: “O homem que diz ‘sou’ não é! Porque quem é mesmo é: ‘Não sou!’”.

A questão não é se desmerecer. Estou falando de humildade, não de auto-humilhação. Todo mundo deve saber o valor que tem. Só não precisa sair contando suas conclusões por aí. Entretanto, em caso de receber um elogio espontâneo, o mais recomendado é sorrir e agradecer. Não é hora de protestar ou refutar o cumprimento. Ademais, coisa mais tola é o indivíduo que se rebaixa para ouvir protestos seguidos de (mais) elogios tão constrangidos quanto, provalmente, artificiais.

É preciso coragem para saber qual é a aparência e o tamanho do próprio rabo, do qual provalmente se está querendo desviar a atenção enquanto a boca articula palavras de louvor a si e de espinafração ao outro. Nossa cauda pode ser muito mais feia e comprida do que jamais imaginamos. E isso não se mascara com jactância, porque mesmo fora de nossas vistas, o rabo é aparente para todas as outras pessoas.

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quinta-feira, 19 de maio de 2011

A FORÇA >> Fernanda Pinho

"Uma pessoa que já sofreu é perigosa, porque ela sabe que pode se recuperar".
[do filme Perdas e Danos]


Olhando de fora, a gente sempre acha que não irá sobreviver a uma situação da qual tem muito medo. E é exatamente por isso que a gente tem medo. Mas quando acontece, não resta outra opção senão sobreviver, o que, no fim das contas, nem é tão ruim. Quer dizer, no início é ruim porque você nem está muito interessado em sobrevivência ou qualquer coisa que o valha. Mas a vida insiste. Me lembro, como quem se lembra de um sonho confuso, do momento em que a vida me confrontou com a situação que eu tanto temia. A hora da perda é muito estranha. Parece que você está pisando sobre nada e que o céu também está interessado em cair na sua cabeça. Você cambaleia e se apoia nas coisas e nas pessoas, mas é como se tudo e todos fossem fantasmas transponíveis. E então eu consegui chegar ao espelho e ver estampado no meu rosto um F bem grande. A letra do meu nome e, que ironia, de "fracasso" também. Depois foram quatro ou cinco dias (não estava boa para contar, nessa fase) andando como um zumbi atrás das pessoas da minha casa, com medo de ficar só, porque, de repente, fui acometida pelo pânico de todo mundo ser um covarde que pudesse me deixar sozinha, sem mais nem menos. Mas ninguém aqui me deixou e, embora eu mereça às vezes, tenho a certeza de que não vão me deixar nunca. Eu não sei ao certo, mas acho que foi daí que começou a nascer a força. Eu a sentia chegar devagar, quando eu tinha uns rompantes de vontade de comer, de escrever, de me arrumar e outras coisas que me são tão naturais mas que, naqueles dias, não eram. Eu até supus que ela continuaria a vir em doses homeopáticas e que, algum dia, eu voltaria a ser algo parecido com o que eu era antes de tudo. Mas não está na minha natureza física nem psicológica saber esperar. Eu não poderia esperar "algum dia" sem saber que dia seria esse. Então meu corpo, meus membros, meus órgãos, minhas células, meu consciente, meu inconsciente, minha memória, minha alma, meu coração, enfim, essa coisa toda que a gente chama de "eu" sofreu uma explosão. Uma explosão de força, sabe como? Um dia eu acordei e parecia que eu era o Popeye e tinha comido todo o espinafre do mundo. Eu, que nunca consegui abrir nem garrafa de refrigerante, me peguei abrindo vidro de azeitona e comendo tudo — azeitona ou não. Comendo, sorrindo, escrevendo, saindo, conhecendo gente, organizando festa e viagem, fazendo mil e um planos. Trabalhando loucamente, como se meu trabalho fosse a coisa mais importante do mundo. E, de certa forma, é mesmo, porque meu trabalho sou eu. Minhas amigas sou eu. Meus amigos sou eu. Meus pais sou eu. Meus textos sou eu. Meus projetos sou eu. A força reduziu certos sentimentos a pó e me trouxe essa descoberta de que não havia sido deixada nenhuma lacuna na minha vida. Eu perdi alguma coisa? Perdi, talvez. Mas diz um hit brega dos anos 90 que "nem tudo o que se perde tem valor", e é bem por aí mesmo. Alguém pode pensar que isso é conversa de mulher recalcada. Tudo bem. Fiquem à vontade com seus pensamentos. O que os outros pensam de mim não sou eu e vocês já devem ter notado pela toada do texto que o que não sou eu não me interessa mais. Nada daquilo me interessa mais. Tanto não me interessa mais que agora eu consigo escrever sobre isso. Só agora. Embora tenha tentado durante todo esse mês que passou — sendo bem incapaz em todas as tentativas. Mas agora veio tudo. É sempre assim: depois da força, vem a lucidez. Vi todas as palavras escorrendo pelos meus dedos e pelas minhas unhas. Minhas unhas pintadas de vermelho, coisa que eu não fazia há tempos, desde que estava possuída por aquela personalidade boba e subserviente. Mas agora sou eu de novo. Eu forte. E com esmalte vermelho nas unhas dos dedos pelos quais escorrrem as palavras que, de uma vez por todas, colocam um fim nessa história de início previsível, meio angustiante e fim libertador. Uma última pá de cal.




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quarta-feira, 18 de maio de 2011

LENNY >> Carla Dias >>

Em tempos de acrobacias tecnológicas, avanços enlouquecidos, descobertas emblemáticas, às vezes eu me perco, confesso. Não sou moderna o suficiente para pilotar celular que tenha mais do que as funções fazer e receber ligações, chegando ao máximo de me entender com Bluetooth para não perder as fotos bacanérrimas que tirei dos meus sobrinhos. Eu sei... Celular não é máquina fotográfica, não o meu! Porque deve haver algo assim perdido nesse armário de invenções que é o mundo, e que eu desconheço completamente, mas ok! Desconhecer também é uma arte.

Não que eu viva com a cabeça num buraco, feito avestruz. Eu me enveredo pelos copy/paste, download, plug-in, e assisto CSI, então vejo aquele monte de computadores sensacionais, utilizados por cientistas fantásticos, em busca de botar os bandidos na cadeia. Mas gosto mesmo quando esse parque de diversões, que dá vazão aos sonhos e descobertas do ser humano, me conta uma história que, apesar de assessorada pelas crias, remete aos criadores. Porque não há máquina que não seja programada, que não contenha o enter.

Tem esse filme que, infelizmente, não acho em DVD para assistir novamente. Ele foi lançado em 1995, e a história foi criada por James Cameron, também co-roteirista da trama. Estranhos Prazeres (Strange Days) se passa em Los Angeles, focando nos últimos dias de 1999, e conta com direção de Kathryn Bigelow.

No filme, Ralph Fiennes é Lenny Nero, um ex-policial que comercializa a droga do momento: discos digitais contendo ondas cerebrais de pessoas passando por experiências pelas quais pessoas comuns jamais passariam. Sendo assim, o usuário pode ter a sensação de ser um bandido em um roubo, sem se tornar um criminoso, ou o amante, sem trair sua esposa.


Tudo corria muito bem com Lenny, até ele receber um disco com informações que sugerem o caos, o que faz com que ele se volte aos seus instintos de policial. A partir daí, ele tem de lidar com um roqueiro barra pesada que mantém um relacionamento bagunçado com a ex-namorada dele, e por quem Lenny ainda é apaixonado.

Estranhos Prazeres chegou antes de filmes como Matrix, por exemplo, e não deixa nada a dever aos Blockbusters. Trata-se de um filme fantástico que não decolou não sei por quê. Ele tem uma trama consistente e contemporânea, uma fotografia intrigante, os efeitos especiais são ideais, principalmente nos momentos em que mostram os usuários utilizando a droga tecnológica. E além de tudo isso, as atuações são dignas de premiações. Ralph Fiennes, Juliette Lewis, Angela Basset, Vincent D’Onofrio, Michael Wincott e Tom Sizemore estão ótimos em seus devidos papéis.

A tecnologia me agrada, mas até ali, não adiante. Ainda prefiro as experiências que posso viver por mim mesma, e dispenso os robôs com “quase perfeitas expressões faciais”. Aliás, eles me dão frio na espinha, confesso. Deve ser impressionante conectar-se a um programa e ter a sensação perfeita de ir à lua, mas sem sair da Terra. Porém, pensando dessa forma, posso imaginar os seres humanos conectados e inertes, títeres alimentados com sentimentos que, eventualmente, vão se tornar itens de colecionador.

Desculpem, estou no meu momento Sci-Fi.

Mas é que me dei conta de que, às vezes, desejamos tanto um abraço que pagaríamos por um dos discos do Lenny. E que faríamos isso todas as vezes que a falta se apresentasse, até deixarmos de perceber que outro ser humano nos daria isso de graça, e ainda nos levaria ao cinema. A grande pegadinha das descobertas, não apenas das tecnológicas, é que o ser humano se vicia sem pestanejar. A gente se acostuma a apenas imaginar que abriu a janela, saiu para um passeio, pisou na grama, sentiu o sol no corpo.

Nesse meu momento Sci-Fi, eu confesso, faria uma encomenda ao Lenny. Pegaria um pedaço da vida de outro para enfeitar a minha. Mas eu sei que, sem o cuidado devido, se é que isso existe, num caso desses, acabaria sentindo falta de mim.



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terça-feira, 17 de maio de 2011

COISAS DA VIDA >> Clara Braga

Atire a primeira pedra quem consegue viver sem sonhar. Não existe uma vida sem sonhos. Alguns têm sonhos grandes e complicados de serem realizados, outros têm sonhos mais humildes, mas tão importantes quanto os sonhos grandes.

Eu sou uma sonhadora nata. Alguns dos meus sonhos já consegui realizar, mas a lista ainda é grande. E como uma estudante de artes plásticas que sou, tenho sonhos de ver alguns quadros ao vivo e a cores. Um deles já consegui ver, Guernica de Picasso. Foi tão emocionante que eu até chorei. Mas tem muitos outros que eu ainda não vi.

Outros dois quadros que estão na minha lista são a Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, e Abaporu, da Tarsila. E esses dois quadros, para mim, têm algo em comum: todo mundo que já viu me diz que eu deveria riscar esses sonhos da minha lista, pois quando vistos ao vivo eles nem têm nada demais.

O Abaporu esteve em Brasília há pouco tempo, mas como eu deixei para última hora, lá se foi meu sonho de volta para a Argentina sem que eu tivesse visto. Então eu já tenho duas viagens obrigatórias na minha agenda, Argentina e França. E mais uma vez escuto das pessoas: “Não faça essas viagens por causa dos quadros que você quer ver, pois você vai se decepcionar, a Mona Lisa é um quadrinho pequeno sem nada demais e que você nem vê direito por causa das pessoas que ficam se matando para chegar nele”.

Para essas pessoas, que não compreendem meus pequenos sonhos, ou querem me poupar de uma decepção, eu peço que entendam que existem algumas decepções necessárias em nossas vidas. Assim como não existe uma vida sem sonhos, não existe uma vida sem decepções. E não adianta, não tem como uma pessoa viver os sonhos e as decepções dos outros, então enquanto eu mesma não for até a França e me decepcionar com a Mona Lisa, ela não vai passar de um sonho não realizado para mim, e, convenhamos, antes uma decepção do que um sonho não realizado.

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segunda-feira, 16 de maio de 2011

TEMPOS >> Albir José Inácio da Silva

A noção de tempo aconteceu num aniversário. Lembranças anteriores não cuidam disso. Naquela tarde, porém, de pé frente à mesa que lhe ficava na altura dos olhos, viu duas garrafas e um bolo furado no meio. E soube que estava na Terra há cinco anos.

Não que avaliasse o que significavam cinco anos, mas era a primeira medida de tempo de que participava. Teve a certeza de ser especial porque só pessoas especiais tinham festas.

Muitas vezes cinco se passaram e ele tem tido outras festas, contado outros tempos e de vez em quando ainda se sente especial, embora não identifique logo a especialidade. Vai recolhendo uns elogios na esperança de que contenham mais que generosidade. Teve festas que não mereceu e merecimentos não festejados.

Viu muitas contagens chegarem ao fim, pessoas especiais que se interromperam rápido demais. Perdia um pouco a especialidade cada vez que partiam os que o consideravam especial. Teve certeza de perder mais que a pessoa. Perdia-se.

Resulta tudo isso na confusa obrigação de não se fazer tão bom para não causar sofrimento demais aos que ficam. E assim não levar pedaços tão grandes das pessoas quando tiver contado o seu tempo.

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domingo, 15 de maio de 2011

O PÁTIO >> É do ar do Pátio

O leitor — eventual e desavisado — talvez não saiba que está n'O Pátio. Mesmo o leitor assíduo quiçá não percebe que é um d'Os internos do pátiO.

Começou há uns vinte anos, por volta de 1991, quando um jovem estudante de História, Fabiano dos Santos, resolveu nomear de "internos do pátio" a si mesmo e ao Eduardo, ao Manu, ao Shariff e a tantos outros que passavam tudo que era tempo que não era aula — e até algum tempo que era aula — sentados em bancos de cimento, à margem de um hexágono de tijolos amarelos, à sombra de árvores ralas que usavam a tinta do sol para desenhar figuras abstratas no chão de cimento do pátio interno da Área 2 do Centro de Humanidades da Universidade Federal do Ceará.


Naquele local — simples e até feio (para olhares mais ortodoxamente estéticos) — foram plantados poemas, canções, árvores e amizades que duram até hoje. Ali começaram e terminaram paixões. Ali se cantou e se dançou ciranda. Ali aconteceram exposições e até aulas. O pátio daqueles quatro anos de faculdade é um lugar tão cheio de lembranças que, como diria o cronista, só mesmo beijando-o. E é o que fazemos — nós, os internos — ao revisitá-lo de quando em vez.

Concluída a faculdade, levamos o pátio em nosso peito, mundo afora. Com Fabiano em São Paulo, para fazer um mestrado, deu-se início a uma troca de cartas diárias (quando os Correios conseguiam entregar uma carta simples de um dia para o outro) que gerou um fanzine, os Prontuários d'Os internos do pátiO, e depois um livro contendo cartas de um bando de gente de Fortaleza, São Paulo e até do Pará, que começou a participar da conversa que começou entre Eduardo e Fabiano. O tal livro, "Cartas do Pátio", é assim mesmo como o pátio: feinho e cheio de gente boa, belas conversas e textos inspiradores. Mas na época, 1996, eu, que fui o editor do livro, fiquei muito frustrado com sua feiura, sua parte gráfica: fiquei de mal comigo mesmo por aquele resultado.

Um ano depois, eu descobriria a internet e criaria o patio.com.br. Fui o primeiro interno a entrar no mundo virtual, e me senti meio sozinho on-line. Procurei então fazer com que o site — assim como seu local de origem, presencial — fosse um ponto de encontro de muitos assuntos e muitas pessoas. No início, a seção d'O Pátio de que eu mais gostava era o 5inco, uma seção hoje já desativada, que não recebe mais atualizações. No 5inco, eu entrevistava pessoas famosas e internautas desconhecidos sempre com as mesmas cinco perguntas. Uma delícia — e um trabalhão — atualizar aquilo. Mas o pátio mesmo, o espírito do pátio, ia se construindo de maneira mais sutil em outra seção d'O Pátio: o Crônica do Dia.

Eu havia convidado alguns webmasters (naquela época se usava esse termo) de sites culturais para fazermos um rodízio de escrita: cada um escreveria em determinado dia, ou selecionaria outras pessoas para escrever naquele dia. Esses webmasters e essas outras pessoas, após quase 13 anos de Crônica do Dia, já somam mais de 350 talentosas criaturas, algumas das quais se tornaram internas do meu peito: grandes amigos e amigas que admiro pela escrita e pelo jeito de ser gente.

O Crônica do Dia passou por vários formatos, já teve mais de 3.000 crônicas publicadas e de vez em quando alguém me perguntava:

— E o livro?

Eu tentava disfarçar, mudava de assunto, mas o alguém da vez insistia:

— Tá na hora de fazer um livro juntando os textos do Crônica do Dia.

Com o tempo, fui inventando uma resposta bonita que era mais ou menos assim:

— O Crônica do Dia para mim é pura leveza. Editar um livro dá muito trabalho, e eu não quero estragar o prazer que tenho com o Crônica do Dia.

Mas a resposta de verdade, dentro do dentro, era assim: Eu não tenho capacidade de editar um livro; já fiz isso uma vez e o resultado foi feio; além do mais, é impossível vender mil livros de uma edição independente, vou acabar novamente com algumas caixas juntando poeira e mofo em casa.

Até que ano passado, por algum motivo que ainda não compreendo, resolvi fazer esse primeiro livro do Crônica do Dia. Chamei alguns amigos desses 13 anos, e estamos organizando a coletânea ACABA NÃO, MUNDO, que será lançada em cinco cidades a partir de setembro.

Mas não é do mundo que quero falar hoje. Meu assunto é o pátio. Para testar um site que quero que faça a capa do livro do Crônica do Dia, solicitei a elaboração de um novo logotipo para O Pátio. Num concurso de designers, escolhi a nova imagem que aparece na página inicial d'O Pátio. 

E a ilustradora também deve ser uma interna inconsciente porque foi bem além do briefing e me retornou uma imagem que é a cara do pátio: um rosto feminino, de cabelos esvoaçantes. Uma imagem que É do ar do Pátio, levando folhas e o traço horizontal da letra A. De vez em quando, vou ali n'O Pátio, sentado aqui no banco de cimento que hoje é minha cadeira, e fico admirando a linda cabeleira da árvore do pátio, tomando ar, fôlego e coragem para continuar levando o pátio por onde vou, juntando mais internos, produzindo mais palavras que toquem o pátio interno do peito de quem sempre foi interno e nem sabia — como você, desavisado leitor.




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sábado, 14 de maio de 2011

OS LIVRO ILUSTRADO MAIS INTERESSANTE ESTÃO EMPRESTADO [Debora Böttcher]

Eu vou começar esse texto como a repórter Fátima Bernardes iniciou a edição de sexta-feira do Jornal Nacional: "Prestem atenção a essa frase." E William Bonner continuou: "Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado."

Pausa pra você ler de novo.

Essa frase consta num livro de PORTUGUÊS distribuído pelo Ministério da Educação (MEC) para quase meio milhão de alunos, que defende que a maneira como as pessoas usam a língua deixe de ser classificada como certa ou errada e passe a ser considerada adequada ou inadequada, dependendo da situação. E arremata, ao citar a frase acima:  "Na variedade popular, basta que a palavra ‘os’ esteja no plural. A língua portuguesa admite esta construção".

Se você não viu a matéria, pode pensar que isso é alguma brincadeira — eu pensaria. Mas, lamentavelmente, trata-se da Educação (?!) no Brasil.

Após 18 anos de elaboração (e agora consigo entender o porquê de tanto tempo), em 2009 entraram em vigor regras de acentuação do novo acordo ortográfico e acentos como o trema — esse que consta no meu sobrenome — foram extintos da língua, com exceção a nomes estrangeiros e seus derivados (ainda bem!). Mas isso não é relevante — é só uma observação.

Importante é considerar que crianças do país inteiro estão sendo alfabetizadas de um jeito inconcebível, no meu entender.

O objetivo maior da escola é ENSINAR a criança (adulto ou adolescente analfabeto) a ler, escrever e falar CORRETAMENTE. Não se pode defender nem promover um ensino plural, como alega Heloísa Ramos (autora do livro em questão), sob o pretexto de que isso estimula a formação de cidadãos capazes de usar a língua com flexibilidade.

Não existe flexibilidade, sob esse prisma, para a língua materna de um país. Existem, sim, dialetos regionais que devem ser considerados — no mundo todo é assim. Mas não se pode, sob nenhum argumento, ensinar alguém a ler, escrever ou falar errado sua própria língua.

Num país como o Brasil, que tem 16 milhões de analfabetos, a Educação precisa ser levada com mais seriedade. E a opinião pública, de linguistas e educadores, tem que gritar muito alto contra desatinos desse tipo.

Muitos defendem atualmente que a função principal do professor é preparar para a vida. Muitos questionam para que aprendemos a gramática, se ninguém na nossa vida adulta vai nos questionar sobre o que é um substantivo. É provável que ninguém nos questione diretamente, mas vamos precisar saber, porque na vida, no cotidiano, em qualquer profissão, esse conhecimento nos será cobrado.

No futuro (nem tão distante assim), esses que hoje são aprendizes da língua nos bancos escolares, serão os jornalistas, médicos, advogados, engenheiros, professores, presidentes, que darão voz e ação em nome do Brasil. Serão, por exemplo, pessoas-chave em eventos mundiais que o País vai sediar, como os cobradores de ônibus, funcionários de bilheterias de metrô, fiscais de trânsito, vendedores de ingressos.

Você consegue imaginar uma nação sem dominar sua própria língua? Pois é como parece que estamos caminhando para ser.

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30 COISAS PARA FAZER ANTES DOS 30 >> Fernanda Pinho



A proximidade dos trinta é um tema que começa a comparecer mais do que deveria nos pensamentos das mulheres que estão numa certa idade. Eu, que estou nessa certa idade, e que adoro uma lista, amei a ideia dessa marca de estabelecer 1009 coisas para se fazer antes dos trinta. Um jeitinho simpático de tornar o caminho até lá menos aflitivo e mais divertido. Fiz, então, minha própria lista, que não tem 1009 itens porque não tenho tempo tanto até lá nem quero fazer tantas coisas assim. A saber:

1 - Ir numa cartomante (1º passo: descobrir uma recomendada em BH e convencer alguém a ir comigo).
2 - Fazer uma tatuagem (1º passo: escolher a frase - sim, tem que ser de frase. E deixar de ter medo de agulha também é relevante).
3 - Fazer alguma coisa mais útil para uma obra de caridade (1º passo: tirar a bunda da cadeira e me mover).
4 - Cozinhar para alguém (1º passo: aprender a cozinhar).
5 - Publicar um livro só meu (1º passo: tomar coragem para deixar alguém ler meus escritos secretos).
6 - Voltar a dirigir (1º passo: descobrir como proceder diante do fato de minha carteira ter vencido em fevereiro. De 2007).
7 - Fazer Yoga, Shiatsu, Reike. Ou qualquer uma dessas coisas ou todas essas coisas (1º passo: descobrir um bom lugar para se fazer isso, perto da minha casa).
8 - Escrever uma peça de teatro (1º passo: escrever a primeira palavra).
9 - Ter um site sobre alguma coisa muito legal (1º passo: descobrir que coisa muito legal é essa).
10 - Fazer um mochilão pela Europa (1º passo: convencer alguém a ir comigo).
11 - Fazer um cruzeiro (1º passo: convencer minha família de que temos que ir juntos).
12 - Fazer aula de uma língua que nunca estudei (1º passo: decidir entre italiano e francês).
13 - Praticar alguma arte marcial (1º passo: arrumar uma companhia, porque sozinha sempre desisto de atividades físicas).
14 - Mandar flores para um homem. Acho chique (1º passo: encontrar um homem que seja culto e educado o bastante para não se ofender com meu gesto).
15 - Voltar para a terapia (1º passo: ligar para a ex-terapeuta e marcar).
16 - Esquiar (1º passo: planejar uma viagem para uma estação de esqui ou torcer pra nevar no Brasil).
17 - Experimentar todos os lanches da McDonald's (1º passo: me desapegar do McCheddar).
18 - Assistir um AtléticoXCruzeiro do meio da Galoucura (1º passo: perder o medo de morrer numa briga de torcida).
19 - Aprender a dançar forró (1º passo: nascer de novo).
20 - Viajar para outra cidade e ver um show da minha banda preferida, com minhas amigas. Exatamente como eu fazia antes dos 20 (1º passo: torcer pra banda em questão não acabar).
21 - Organizar uma festa à fantasia, que tenha como tema os super-heróis (1º passo: uai, só me falta um motivo e um lugar).
22 - Ver o sol se por no Juquinha, na Serra do Cipó (1º passo: organizar um fim de semana na serra).
23 - Ver o sol nascer na Praça do Papa em BH (1º passo: virar uma noite acordada).
24 - Encher um porquinho de moedas (1º passo: parar de me assaltar).
25 - Ler todos os livros da minha lista chamada "Lacunas Literárias" (são muitos, vou poupá-los de uma lista dentro da lista) (1º passo: começa a ler um deles).
26 - Comer doces na Confeitaria Colombo, no Rio de Janeiro (1º passo: ir ao Rio de Janeiro com esse objetivo).
27 - Aprender a fazer massagem (1º passo: praticar bastante).
28 - Digitalizar todas as gravações em VHS feitas da minha infância (1º passo: criar coragem pra mexer no baú).
29 - Ir para a praia de maiô (1º passo: parar de dar ouvido a todos que tentam tirar essa ideia da minha cabeça).
30 - Fazer um curso de automaquiagem (1º passo: descobrir onde fazer um dos bons).

Faltam 871. Valendo!

Imagem: www.sxc.hu
www.twitter.com/ferdipinho

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quarta-feira, 11 de maio de 2011

PROCURA-SE >> Carla Dias >>


I am searching
I am not alone
I am searching
Please give me some
INXS

Procura-se, mas não com urgência, para que, ao ser encontrado, esteja descansado das correrias da vida. E para que, amansada a alma, profetize metáforas ao se agarrar à volúpia da poesia.

Procurar requer uma paciência que, às vezes, sequer sabemos ter. Portanto, procurar é também descobrir, desvendar, despir. É perguntar a si mesmo “e se?” e ter a resposta inquiridora na ponta da língua do sentimento: por que não?

O ser humano se alimenta de buscas, e procura em cada tempo, em cada acontecimento, em cada gesto, procura no singular a compreensão que sempre chega plural. Porque nem tudo é branco no preto, amarelo no vermelho, verde no marrom. Tem dias em que se trata de um verdadeiro arco-íris. Há outros em que as cores desmaiam, perdem o fôlego, mas apesar de desbotadas, feito roupas velhas penduradas no varal, ainda nos vestem, aquecem.

Procura-se a solidão desmistificada, compreendida como puro desejo de ficar em casa em quase todos os finais de semana do ano, ou falar pouco e escutar mais. E que os que vivem a solidão do dentro, a que está além das paredes de casa, possam ser livres na solidão das salas de estar, entre um bate-papo e outro.

Tem quem procure a si no olho do furacão. Tem quem procure o outro nas ruas da cidade, naquele que não é, na constelação de desacertos que vêm com a experiência de viver a vida mais do que ignorar suas saliências, sua fragrância, suas farpas, a constelação de surpresas que cabe nela.

Tem quem sequer procura, perde-se de tudo, de todos, de si, e cambaleia entre uma existência estática e as vitrines de vidas que gostaria de viver, mas que não são suas. São realidades nas quais jamais se esbaldará.

Procura-se, então, o silêncio que ampara as orações para servir de cenário para declarações de amor, e espaços vazios para neles se plantar cadeiras de balanço. Planícies para as fugas, abraços para curar ausência, estrelas cadentes para descortinar pedidos secretos. E uma porção de pessoas encontrando, uma nas outras, a companhia que por tanto tempo vinham procurando.

Procura-se o encontrar.



carladias.com

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terça-feira, 10 de maio de 2011

CAUSA DA CEGUEIRA: ROTINA >> Clara Braga

Acredito que todo mundo conhece o tal do twitter, certo? Nem todo mundo tem e nem todo mundo que tem usa — ou sabe usar — mas todo mundo conhece.

Resumindo de uma forma rápida, o twitter é aquela rede social onde você publica minitextos com no máximo 140 caracteres falando o que você quiser e todos os seus seguidores (palavra forte essa) recebem em tempo real. Impressionante!

140 caracteres, a princípio, parece pouco, mas se encaixa perfeitamente nesse estilo de vida corrido que a maioria tem. Quem tem algo a dizer diz de forma rápida, fazendo com que mais pessoas tenham tempo de ler. E por mais que pareça uma grande novidade, lendo uma matéria em uma revista percebi que o twitter em muito se assemelha à escrita telegráfica e aos anúncios dos classificados, já percebeu?

Essa matéria da revista não era exatamente sobre twitter, mas sobre outra linguagem que é ao mesmo tempo diferente e semelhante à linguagem, de certa forma urgente, que o twitter tem, e que está ganhando certo status entre os norte americanos, que é a linguagem dos moradores de rua.

Falando assim parece estranho, mas é muito interessante. Um artista plástico chamado Billy Kaufman lançou um livro que mostra 94 cartazes com pedidos de ajuda escritos por sem-teto, que ele vem colecionando ao longo de 30 anos. É criativo e ao mesmo tempo coloca as pessoas em uma situação um tanto contraditória, já que as fotos que ilustram o livro, feitas pelos fotógrafos Amy Touchette e Benjy Russel, que por alguns dias acompanharam de perto alguns moradores de rua, são ao mesmo tempo belas e chocantes, já que não deixam de ter um traço de denúncia social.

Esses moradores de rua, os quais o artista chama de “povo invisível”, acham sua forma de se comunicar, e não dá para não comparar as mensagens rápidas e urgentes como “isso pode acontecer a qualquer um” ou outra muito interessante, que acabou dando título ao livro, “por que você está surpreso de ainda me encontrar aqui?”, às mensagens postadas nos twitters, mas vale a ressalva do artista: “A diferença é que essas pessoas não têm amigos, sejam eles virtuais ou reais. E, sem dúvida, ninguém as segue.”

Realmente nos faz pensar. E apesar do livro ter um foco específico nos norte-americanos, essa cultura é mundial. Passamos por moradores de rua todos os dias, o que faz com que eles façam parte da nossa rotina, e então nos tornamos cegos em relação a eles. É preciso vir alguém para dar “status” a eles, seja em um livro ou em uma galeria, para que a gente volte a enxergá-los.

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segunda-feira, 9 de maio de 2011

O REINO ANIMAL >> Kika Coutinho

“Mamããããe", ela berra, na madrugada.

Acordo meu marido:

— Ela acha que você é a mamãe, tá sabendo, né?
— Tô — ele responde sonolento.

Esperamos mais um pouco, quem sabe ela para. Qualquer dois minutos de silêncio é o suficiente para nos agarrarmos ao pote de ouro no final do arco-íris: ela dormiu. É sempre no terceiro minuto, quando suspiramos aliviados, que ela volta ao repertório inicial: Mamãããe!

Levantamos, normalmente ele senta primeiro e eu sigo, numa solidariedade silenciosa, ambos acabados, certamente lembrando aquelas promessas todas que nos fizemos um dia, sem nem saber que era nas madrugadas que a prova viria.

— Eu faço a mamadeira? — pergunto, tendenciosa.
— Pode ser. Eu troco — ele responde, cordato.

Vou até a cozinha, pego o leite, conto as medidas, 1, 2, 3, 4, 5, 6... Tá bom, 180ml, vou fazer 180ml. Torço para a água da garrafa térmica estar quentinha, mas, se não estiver, ela toma leite frio, penso, argumentando que está calor em pleno outono. Mentira pura. Minto também quando chego no quarto e ele pergunta se eu lavei a mão antes de fazer a mamadeira. Claro, respondo, bocejando.

— Olha, filha, mamãe trouxe seu tetê. É hora de nanar, né?

A bichinha me olha fixo, esboça um meio sorriso, repete a palavra “tetê” e ignora a palavra “nanar”, embora ela esteja muito melhor no “N” do que no “T” em geral. Ainda no escuro, dou uma mamadeira de leite até onde ela se habilita a tomar e, na sequência, aviso:

— Agora, filha, a mamãe vai por você no seu bercinho, que tá tarde, tá na hora de nanar, ok?

Ela reage como se eu tivesse lhe perguntando quem são os animais domésticos, e começa a desfiar sua gama de palavras, todas em tom de interrogação, fingindo que inicia um papo:

— Au-au?
— Filha, o au-au tá nanando agora, né?
— Miau?
— O miau também, Sofia, tá nanando.
— Pece?
— O peixe, filha, tá nanando no laguinho dele.
— Cocó?
— A galinha tá nanando com os pintinhos, filha, é hora de nanar.
— Piu-piu? – meu Deus, quantos bichos ela já conhece!
— O piu-piu também tá nanando meu bem, a floresta toda tá nanando.
— Mu?
— A vaca também, Sofia. Todos os bichos, todos os bichos da fazenda e do oceano, até os bichinhos do outro planeta, todo mundo tá nanando agora.

É quando, então, ela inicia o campo dos humanos:

— Léo?
— Filha, o Léo, a vovó, a Isabella, todo mundo tá nanando agora, e a mamãe também. Vai dormir e pronto, hora de nanar.

Ela se desespera:

— Bola? Lua?
— A bola nana, a Lua tá nanando, o sol tá nanando, quando o sol acordar, a gente acorda também. Não agora, agora é hora de nanar, chega, né? — tento colocá-la no berço, mas as suas pequenas mãozinhas agarram o meu ombro, quando ela dá a cartada final:

— Mamãe?
— Nanando, Sofia, mamãe tá nanando em pé. Você vai nanar agora, e deitadinha aí. Tchau.

Com uma pitada de força, arranco seus bracinhos das minhas costas e a deixo no berço, enquanto ela fala todas as palavras que conhece ao mesmo tempo:

— Aqua-auau-miau-bola-papato-mao-pé-meia-meia... Ela repete a última, com tanto esforço, que quase acredito que ela tem algo importante a dizer.

Ainda assim, falo apenas boa-noite e saio do quarto, ouvindo a choradeira começar. Quando vejo que estamos em maio, tudo que consigo pensar é que Dia das Mães não faz jus ao cargo. Deveria ser, no mínimo, madrugada das mães, que é quando, aí sim, aflora o bem e o mal de toda uma espécie.




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domingo, 8 de maio de 2011

O DIA DO MISTÉRIO >> Eduardo Loureiro Jr.

Se o leitor tiver uma quedinha pelo absurdo — assim como eu —, imagine aí se metade da população deste planeta, por algum tipo de determinação genética, não pudesse fazer algo que, para a outra metade, é o maior motivo de felicidade.

Eu fico aqui imaginando, por exemplo, se metade dos seres humanos tivesse alguma disfunção auricular — ou neurológica — que lhe impedisse de ouvir música. Quase TRÊS BILHÕES E MEIO de pessoas que poderiam assistir a um vídeo da Elis Regina sorrindo e cantando "Chovendo na Roseira", mas que não conseguiriam ouvir a melodia, apenas escutariam o texto como se estivesse sendo recitado. Já cogitaram a cara de perplexidade dessa gente ao olhar para a Elis e para as pessoas capazes de escutá-la? Já imaginaram o que é presenciar um momento tão mágico — e até sentir os efeitos indiretos de tanta beleza, pela reação dos que são capazes de percebê-lo —, mas não saber exatamente do que se trata?



O leitor vai perguntar se eu bebi alguma coisa de ontem para hoje, se a minha terapeuta está viajando, se não tenho mais o que fazer ou se estou sem inspiração para a crônica do domingo. Não, sim, sim, não, mas...

Pergunte às mulheres por volta dos 35 anos qual o momento mais feliz da vida delas, e muitas, mas muitas mesmo, irão lhe responder que foi o nascimento do primeiro filho, ou do segundo, ou do terceiro, ou de todos eles. (E, por favor, não faça a mesma pergunta a homens de 35 anos: a resposta pode ser decepcionante.) Por algum motivo misterioso, a verdadeira guerra do parto — com direito a gritos, mutilações e sangue — está entre os momentos mais felizes da vida daquelas pessoas a que chamamos "mães".

E essa suprema alegria, por um capricho dos deuses — ou da genética — está restrita a no máximo três bilhões e meio de pessoas deste planeta. Ou seja, eu e mais alguns bilhões de homens estamos privados dessa satisfação, somos incapazes de ouvir Elis Regina cantando "Chovendo na Roseira".

Agora me diga, caro leitor, o que um "surdo para música" poderia falar dessa obra-prima do Tom Jobim? O que se pode afirmar sobre aquilo que não se conhece? O que se pode dizer do que para si é puro mistério? O que pode um cronista — homem — declarar sobre a maternidade?

Hoje é o Dia das Mães, e eu não sei o que é ser mãe. Hoje é o Dia do Mistério, e eu tenho que me calar — reverente e agradecido — diante desse segredo. Embora eu tenha a desconfiança, cá dentro de mim, de que minha mãe falando comigo é tão bonito quanto a Elis chovendo na roseira.




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sábado, 7 de maio de 2011

MATERNIDADE [Debora Bottcher]

Eu ia fazer vinte e quatro anos quando meu sobrinho nasceu — filho de um irmão seis anos mais jovem que eu. E quando eu o segurei nos braços a primeira vez (e fui a primeira da família a fazê-lo — depois da minha cunhada e irmão, claro), tive certeza de que ser mãe seria um caminho natural para mim. Três anos depois, o nascimento de minha sobrinha coroava minha convicção.

Mas eu já tinha vinte e sete anos, já tinha sido casada uma vez (fiquei viúva aos 21), e o tempo, aliado à ausência de um amor duradouro, começava a minar essa expectativa.

Toda mulher sabe o que isso significa: há um alarme interno que chamam 'relógio biológico' que, por volta dessa idade, começa a 'bater' mais apressado. Para as mulheres que sonham em ter filhos, essa precipitação interior começa a exigir rapidez exagerada na execução do feito. Isso pode transformar a vida de qualquer mulher num verdadeiro dilema. Sim, porque nessa idade muitas de nós ainda não se firmou profissionalmente, não é totalmente independente e nem sempre está num relacionamento com ares de 'felizes para sempre'. E a agonia se instala: conheci mulheres que se casaram sem amor, com o primeiro que apareceu — literalmente — porque "precisavam" ter um filho urgentemente. É uma fase complicada...

Para mim não foi diferente. Mas perto dos trinta anos eu estava às voltas com a doença terminal do meu pai e isso mudou as minhas urgências, alterou minhas prioridades, transformou minha visão de muitas coisas — inclusive da maternidade. E eu passei a olhar para essa "idéia fixa", peculiar a toda mulher, com mais objetividade, sem romantismo ou ilusão. E aos trinta e três anos, apesar de estar numa relação sólida, decidi: eu não ia ter filhos.

Que ninguém pense que essa é uma decisão fácil. E fica ainda mais difícil quando você se dá conta de que, depois de enfrentar um embate consigo mesma, terá que encarar o mundo, que vai te olhar com um eterno ar de incompreensão e questionamentos velados. É como se essa escolha fosse uma falta grave, um delito, e você passa a carregar uma incômoda obrigação de se justificar. Eu já superei isso, mas foi desagradável por um tempo.

Acho a maternidade um Dom — que não é para todas, mas nem todas têm coragem de assumir. É muito mais do que um desejo, um sonho, uma realização pessoal. É uma responsabilidade imensa: um filho é para sempre e exige de uma mulher, durante toda a sua vida, dedicação e generosidade constantes, uma infinita capacidade de se doar. E sob essa ótica, a maternidade não deveria, nunca, acontecer por acaso, ser uma decisão impensada ou "moeda de barganha".

As mulheres que são Mães, por milagre natural e escolha consciente, sabem do que estou falando. Essas merecem admiração e respeito todos os dias de suas vidas — e não apenas na data comercial dedicada a elas.

Assim eu, uma mortal comum, hoje faço uma reverência e desejo que a Vida proteja sob seu manto essas Deusas Humanas.

Agora e Sempre. Amém.


Imagem: Gustav Klimt, Die Drei Lebensalter (As Três Idades da Mulher (detalhe))

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quinta-feira, 5 de maio de 2011

MINHAS MULHERES >> Fernanda Pinho



Tenho muitas mulheres. Muitas e lindas. Coisa assim, para deixar Don Juan envergonhado. E elas são para todos os gostos. Desculpem, meus caros, não quero tirar vantagem, mas vou ter que dizer: tenho loira, morena, mulata, ruiva, japonesa, baixinha, altona, gordinha, magrela, olhos pretos, olhos verdes, olhos castanhos, cabelo comprido, cabelo curto. E tem jornalista, fisioterapeuta, atriz, dentista, publicitária, contadora, vendedora, professora, estudante, dona de casa. Cheias de talentos e cheias de atributo. Mas, posso ser egoísta? O que me arrebata nelas todas nem são seus talentos e beleza física. Claro, tudo isso me encanta. Mas o que me faz ter vontade de estender tapetes vermelhos por onde elas passam é o afeto sem limites que me dedicam. Entre minhas mulheres, tenho quem atenda minha ligação chorosa tarde da noite, se desloca de outra cidade e vem dormir apertada na minha sala de tevê, só para que eu me sinta melhor. Sem perguntar o que houve, sem exigir explicações. Tenho quem se declara para mim timidamente em e-mails que me deixam sem voz, sem rumo, sem palavras. Ou quem se declara escancaradamente escrevendo sobre mim com açúcar e com afeto, internet afora - porque nosso amor é assim, sem melindres e descarado. Tem quem está longe mas vem me visitar via Sedex, materializando tudo aquilo que nos une na forma de um livro, balas japonesas e, diante da impossibilidade de colocar o próprio amor nos Correios, paçocas Amor! É tão bom que surte (quase) o mesmo efeito. Tem quem aceite de bom grado quando eu aviso, sem cerimônias: "tô indo passar o próximo feriado na sua casa". E não é simplesmente questão de aceitar. Aceita e vibra e festeja e pergunta se eu não quero ir antes e reclama que eu já deveria ter ido há muito tempo. E tem quem bate o pé e diz "então eu vou junto com você" e compra a passagem antes mesmo de mim. E tem que vai atrás de mim até quando vou tomar banho, quando não quero fizer sozinha. E tem quem manda mensagem logo cedo pra perguntar se eu dormi bem. E tem quem pinta o meu cabelo pra dar um up no visual e no astral. E tem quem me leva ao cinema e aceita ver filmes que combinam com "meu momento" (terror, claro). Tem quem me oferece diariamente sua casa, seu colo e seus ouvidos. Tem quem me leva pra tomar caipirinha e me lembrar de onde eu vim, quem eu sou e como minha vida sempre foi tão boa. Tenho as melhores amigas, que cuidam de mim como minhas mães. E tenho a minha mãe, que aguenta todos as minhas fases, como minha melhor amiga. 


Imagem: www.sxc.hu 


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quarta-feira, 4 de maio de 2011

ARRUMAÇÃO INTERNA >> Carla Dias >>

"Queria o jardim dos meus sonhos, aquele
que existia dentro de mim como saudade.
O que eu buscava não era a estética dos
espaços de fora;
era a poética dos espaços de dentro."

Rubem Alves


Decidi melhorar quem sou. Sei que faço isso o tempo todo e que já publiquei aqui algumas crônicas a respeito. Porém, devo dizer que essa busca muda com o tempo.

Tudo tem a ver com o andar da carruagem, a cadência, o passo do anjo, aqueles bois que colocamos na frente da carroça, durante a vida, até esse ponto.

Ponto cruz, e não se trata de papo sobre agulha e linha.

O ponto cruz é aquele ponto em que você percebe que, lá na lojinha da sua consciência, você escolheu a cruz mais pesada para arrastar. E enganou a si mesmo, porque achava que escolhendo a cruz mais pesada, a mais complicada de encaixar nos ombros, seria uma pessoa digna de levar uma vida em paz e com prosperidade.

Eu sempre fui partidária de que Deus dá a cada um a cruz que pode carregar. Porém, com o tempo, com a vida acontecendo, dei-me conta de que, além da cruz que nasce conosco, nós visitamos essa lojinha e compramos uma extra.

Por isso decidi melhorar quem sou partindo do princípio de que basta a cruz que ganhei quando nasci, e que, vez ou outra, pesa tanto que me faz cair de joelhos diante dos acontecimentos. E às vezes quase não pesa, parece casaco fino aquecendo em dia de outono.

Comecei este novo processo tentando ser uma pessoa espiritualizada, indo além das velas perfumadas e dos incensos, da leitura do horóscopo de jornal e de assistir filmes sobre vivos que falam com mortos. Na verdade, eu sempre fui uma pessoa com uma ligação muito forte com os assuntos espirituais, com a filosofia sobre o que não podemos definir, com a metafísica. Santos e demônios me fascinam. Porém, de alguns anos para cá, afastei-me dessa espiritualidade toda. Não a questionei, sequer me tornei descrente. Simplesmente me afastei dela, como fazemos quando estamos cansados de sentir tantas coisas ao mesmo tempo, como se elas fossem tempestades sem fim.

Dediquei-me, então, a agravar o que já não era muito fácil, atentando, com mais ardor, para importâncias que nem eram realmente importantes. Errei a mão em sei lá quantas escolhas, simplesmente porque elas envolviam assuntos que não me interessavam tanto assim, mas que fazem parte da minha realidade coletiva. Piorei, e muito, a minha relação com a pessoa que me tornei. E se eu já tinha o hábito de falar comigo mesma, como se um clone de mim estivesse presente, bom, isso ficou ainda mais frequente. Não falava mais apenas com a televisão. Passei para altos bate-papos, críticos e cruéis, com a minha consciência abstemia de capacidade de perdoar.

É fato que é muito difícil para alguns serem gentis consigo mesmos. Eu não levo jeito para ser gentil comigo, o que é uma pena, porque todos deveriam exercer esse direito. Por isso, decidi melhorar quem sou... Quem sou no trato com a pessoa que me tornei. Há mil e tantas questões para resolver, e sei que a maioria vai se perpetuar pela minha vida, jamais serão resolvidas. Permanecerão mistérios.

Tive uma conversa com uma amiga na qual insistia que estava ficando velha, porque a minha paciência, ela que sempre foi tão comportada, anda se descabelando, fazendo cena. Durante sei lá quanto tempo ao telefone, contei a ela sobre uma série de acontecimentos que me aborreceram em uma semana que achei que jamais terminaria. Confidenciei a ela o meu cansaço no trato com as pessoas, aquelas que simplesmente ignoram quando digo não, porque durante muito tempo eu apenas disse sim, ou que acreditam que tenho a obrigação de estar disponível para elas e seus problemas sempre, mal dando ouvidos aos meus. Então, ela me disse uma coisa interessante... Disse que eu não estava ficando velha, não no sentido que dei à minha alegação, porque não há problema algum em se envelhecer. É o destino de todos nós. Ela disse, do jeitinho dela, que eu estava apenas começando me permitir fazer escolhas relacionadas ao meu tempo, de como quero passá-lo, ao limite que todos nós devemos ter para não nos perdermos na vida de outros, mesmo quando esses outros não percebem que também nós precisamos de sim, de colo, de tempo, de companhia, de compreensão.

Para melhorar quem sou vai levar um bom tempo, até porque pressinto, melhor, sinto o meu espírito mais a fim de voltar ao que tanto lhe encanta: ao mistério da existência, ao questionamento sobre o bem e o mal que habitam cada um de nós, esperando que façamos a travessia pela vida, escolhendo o caminho que melhor nos cabe.

E chego neste ponto cruz... Vale dizer que ele é simples, mas opera milagres quando se trata de agulhas e linhas. Mas no meu ponto, estaciono a cruz que escolhi carregar, lá na lojinha da minha consciência, achando que daria conta. Daqui em diante, carregarei a que me foi destinada, e talvez assim sobre algum tempo para que, estando decidida a melhorar quem sou, eu consiga fazê-lo.

carladias.com



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terça-feira, 3 de maio de 2011

OBAMA ESTÁ MORTO! >> Clara Braga

Ao contrário do que você deve estar pensando nesse momento, não tem absolutamente nada de errado com esse título, foi exatamente isso que eu saí falando para todo mundo por ai na última segunda-feira.

Domingo de madrugada, antes de dormir, abri a internet para ler as notícias e lá estava: “Osama Bin Laden está morto!” Nossa, deixa eu dormir logo que é para poder comentar essa notícia com todo mundo amanhã na faculdade.

As diferenças entre Obama e Osama são enormes, principalmente agora que um é visto como o herói e o outro como o pior terrorista do universo. Agora, além de ambos morarem em casas de luxo, e não em caverna como se imaginava, a semelhança entre os nomes do herói e do vilão é imensa. Poxa, mudar uma só letra do nome de um para o nome do outro é pedir para confundir.

Como muita gente ainda não estava sabendo da novidade, meu erro passou batido, claro, as pessoas se assustavam, afinal, o presidente estava morto, mas ninguém me corrigiu. Até que uma santa alma começou a rir e falou logo: “Que Obama o que, sua louca! Quem morreu foi o Osama!” Claro, claro, era isso que eu estava tentando dizer o tempo todo, mas não foi isso que eu disse exatamente.

Depois desse erro fatal, que quando se trata de normes parece pequeno, mas que na verdade muda a história por completo, eu realmente não pareço a melhor pessoa para opinar sobre o assunto, mas aquela comemoração em Nova York, que mais parecia final de copa do mundo, não foi meio esquisita?

Bom, a comemoração não foi a única coisa esquisita no assunto, acho que muita coisa ainda vai rolar e só espero que, ao contrário das apostas de muitos, daqui a pouco não apareça um novo vídeo do Obama... ops, quer dizer, Osama, explicando tudo que aconteceu. Agora, uma coisa é fato, Bin Laden pode entrar pro Guinness Book como campeão mundial de pique-esconde.

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segunda-feira, 2 de maio de 2011

CHAPÉUS E CARRUAGENS
>> Albir José Inácio da Silva

Catarina, que também é Catá para os amigos, foi às lágrimas com o casamento da quase xará, Sua Alteza Real, a Princesa Catherine – Duquesa de Cambridge. Cavalos, carruagens, palácios e chapéus – muitos chapéus. Não entendia nada da pompa dos cerimoniais, mas os especialistas foram pródigos nas análises que duraram todo o final de semana.

Passado o casamento, a preocupação agora é a gravidez da princesa. Tem que haver um principezinho pra virar rei quando a rainha morrer, o avô morrer e o pai morrer. Mas deve nascer logo senão fica todo mundo nervoso.

Outra obrigação da princesa é não chorar em público. Nem no próprio casamento. De que adianta um casamento daqueles se ela não pode chorar? Catá chorou tudo no seu casamento com Joca, um casamento coletivo para vinte e oito casais promovido pela paróquia. Ninguém se importou: “chora mesmo, minha filha, que casamento não é todo dia”. E tem outras coisas que a gente precisa chorar: velório, nascimento de filho, Dia das Mães, formatura. Não chorar é quase uma condenação.

Disseram que só se pode comer enquanto a rainha estiver comendo. Isso não seria problema para Catá porque sua sogra nunca para de comer. Achou um desaforo que só a princesa é obrigada a usar aliança; o príncipe pode sair por aí todo solteiro. Princesa também não faz compras nem anda sozinha. De que adianta todo aquele dinheiro, se ela não pode ir ao shopping?

Catá ficou sabendo ainda que não se pode desmanchar casamento na família real. Não impunemente, sem cair em desgraça, perder os títulos e ser excomungada.

Ela ficou encantada com o príncipe, uniforme de gala, piloto de avião. Joca pilota um caminhão e, apesar dos protestos de Catá, é muito desleixado. Sempre que pode, ela compra umas roupas, mas parece que não adianta. Tudo nele fica meio torto. Anda se sacudindo que nem capoeira. Não podia andar retinho, cabeça erguida, como um príncipe? Afastou qualquer classificação de Joca numa escala entre sapo e príncipe.

Catarina não dormiu a noite inteira sonhando com príncipes e castelos. Mas o sol trouxe luz sobre seus pensamentos. Gosta de ser plebeia. Pode chorar na hora que quiser. Pode comer quanto quiser. Pode dar um fora na sogra quando precisar. E não é obrigada a assistir, sem crise de riso, chapéus que lembram a arca de Noé.

E o mais importante: se Joca ficar galinha, gay ou violento, leva um pé na bunda e ela continua princesa.

De qualquer forma, virou pro lado e deu um beijo no Joca.

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domingo, 1 de maio de 2011

DITO E FEITO >> Eduardo Loureiro Jr.

Há pouco mais de três anos, uma amiga, durante uma caminhada na Avenida Raul Lopes, à beira do rio Poti, em Teresina, me contou que havia adotado a seguinte resolução de ano-novo: seguir a ordem.

—Como assim? — perguntei, querendo saber até onde ia a compreensão que minha amiga tinha da palavra "ordem".

— Viver de maneira organizada — respondeu minha amiga. — Respeitar a ordem no trânsito, nem pensar em furar qualquer tipo de fila, obedecer todas as hierarquias, guardar as coisas em seus devidos lugares.

Caramba, minha amiga tinha uma noção bem ampla de "ordem". E pensei lá comigo: missão difícil.

Pois não é que, três anos depois, eu me coloquei numa missão semelhante ao adotar como resolução de ano-novo: cumprir minha palavra.

— Como assim? — perguntará o leitor, querendo saber até onde vai a compreensão que tenho da "palavra".

— Executar aquilo que falo — respondo. — Fazer cumprir os ditados "palavra de rei não volta atrás", "palavra dada, palavra empenhada". Tomar cada palavra minha, falada ou escrita, como uma promessa a ser cumprida. Dar minha palavra de honra. Ser um homem de palavra.

Mal comuniquei minha resolução pela primeira vez, a meu grupo terapêutico, e eu já estava sujeito à minha missão. Verdade que não pensei que ia ser tão difícil, afinal sempre fui de poucas palavras, então não haveria muito a cumprir. Grande engano! Quando comecei a prestar atenção nas palavras que eu dizia, percebi que eram muitas, e boa parte delas descumpridas. Desde então, um "te ligo semana que vem" já não é mais o mesmo para mim. Quando a semana que vem chega e eu ainda não liguei para o tal fulano, aquilo fica martelando em meu juízo feito um grilo falante.

Muitas palavras a gente emite na empolgação do verão. Quando chega a hora de cumpri-las, muitas vezes já é inverno, e bate aquela preguiça, aquela vontade de ficar quietinho, enroladinho, em casa.

Mas a coisa começa a ficar difícil mesmo, de verdade, quando se trata das palavras que dirigimos apenas a nós mesmos. Porque quando publicamos nossa palavra, os outros nos ajudam a cumpri-la, nos pegando pela palavra, cobrando sua execução. Já quando somos as únicas testemunhas do que falamos, ou quando o outro que nos ouviu falar não é uma pessoa próxima, aí somos nós e a nossa consciência, a sós, e é muito fácil fazer de conta que não prometemos nada, ou então darmos uma desculpa qualquer a nós mesmos.

Vendo tantas palavras próprias serem descumpridas, tem aumentando meu cuidado em pesar minhas palavras, em medi-las antes de pronunciá-las ou escrevê-las. De vez em quando, entretanto, alguma escapa impulsivamente, e lá vou eu atrás dela, correndo, resfolegando, tentando cumpri-la. Sou feito um velho avô tentando acompanhar o lépido netinho.

Nesses poucos meses procurando estar mais atento a minhas palavras, procurando cumpri-las, me lamentando por promessas descumpridas e comemorando juramentos concretizados, tenho percebido mais claramente que a gente colhe aquilo que planta, e que a pá que lavra essa semeadura é a palavra.

Semana passada, comentando com alguém sobre o Crônica do Dia, escrevi as seguintes palavras: "escrevo aos domingos". Hoje, acordei cedinho para dar aula, trabalhei com meus alunos por toda a manhã, depois preparei e almocei um bom macarrão e tirei um longo cochilo. Acordei, coloquei um doce na boca e já ia me preparando para assistir a um joguinho de basquete quando aquelas palavras me vieram à mente: "escrevo aos domingos". Ainda tentei argumentar comigo mesmo que um dominguinho só sem escrever não faria falta, que eu também precisava descansar um pouco, blá, blá, blá... Mas a resolução de ano-novo venceu. Coloquei a Terceira Margem do Rio para tocar ("Hora da palavra / Quando não se diz nada / Fora da palavra / Quando mais dentro aflora / Tora da palavra / Rio, pau enorme, nosso pai"), sentei ao computador e vim aqui cumprir minha palavra.

Dito e feito.




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