sábado, 30 de abril de 2011

CELEBRAÇÃO E AGONIA COM BEETHOVEN
[Ana Gonzalez]

Oh, amigos, mudemos de tom!
Entoemos algo mais agradável
E cheio de alegria!


Com esses versos, Beethoven nos convida a ouvir o quarto movimento de sua Nona Sinfonia. Um convite a outros tons diferentes dos que eram ouvidos então. E os sons que ele nos oferece nos movem a um espaço divinamente inspirado. Essa sinfonia é uma daquelas composições geniais que mexem com minha imaginação.

Há duas ou três semanas, assisti a uma palestra sobre essa peça musical. Preparei-me para ela com ansiedade, embora naquele momento eu talvez não soubesse bem o que eu queria.

Acompanhei uma interpretação geral da obra e informações a respeito do contexto em que ela foi realizada, além de conceitos técnicos sobre a forma musical que a caracteriza.

Perceber detalhes de sua composição e do contexto em que ela apareceu, entretanto, pouco ajudou a esclarecer sua grandeza. Por que será que quando recordada pela memória, nos lembramos apenas do tema entoado pelo coro com versos de Schiller, a Ode à Alegria, como se todos os outros movimentos não merecessem senão o lugar de uma introdução meio longa a esse quarto movimento?

As informações da palestra indicavam que seus três primeiros movimentos constroem um arco de tensão que somente se resolve no último. Talvez essa explicação justifique o que sinto ao ouvi-la. Uma tensão que não se resolve. Uma montagem de significados que se elevam, deixando-me no vácuo, à espera.

Tal explicação caiu como um bálsamo para algumas das minhas questões. Fico muda perante essa obra genial. Que força da natureza humana possibilita a construção de tal obra? Nada pode me dar essa resposta.

Tinha permanecido forte a impressão do arco de tensão que se alonga sem solução. Uma sustentação à espera, ansiando por algo, que nos enlaça do alto, de um obscuro vão quase a escapar de um perigo. Uma salvação? Pode ser essa a sensação que temos ao ouvir o quarto movimento. Solar nascimento, uma luz depois de uma travessia na escuridão.

Talvez nem se justifique a tentativa de encontrar explicação para esse arranjo musical. Bastaria talvez eu me apoiar no chamado à fraternidade entre os homens que mobilizou o compositor. Esse ideal que conduziu Beethoven à inspiração seria suficiente para me fazer alcançar o repouso.

Mesmo assim, seja pela harmonia cantante de sua melodia, seja pelos versos romanticamente mobilizadores de Schiller, o milagre da composição fica incólume. Inatingível. A complexidade desse mistério ultrapassa minha capacidade de compreensão. Só me sobram inquietações que não se aplacam, a obra e sua fruição.

E talvez ainda uma frase do palestrante, quase desafio, novo redemoinho a me incomodar: “Pena não termos mais o privilégio de ouvi-la pela primeira vez”. Ai, que certamente o registro dessa audiência privilegiada está perdido na memória. Como teria sido a primeira vez em que ouvi a Nona Sinfonia?

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quinta-feira, 28 de abril de 2011

BULLYING, ESCOLHA O SEU >> Fernanda Pinho



Não se fala em outra coisa. Já beira os limites do suportável a atenção que o mundo inteiro vem dando ao casamento do Príncipe William com Kate Middleton. A euforia é tanta que até o Globo Repórter abriu mão de exibir mais um programa sobre os mistérios dos oceanos (ou qualquer outro ecossistema que o valha) para fazer uma edição dedicada ao festejado enlace real. O mais curioso é que, lá pelas tantas, a repórter Ilze Scamparine conseguiu a façanha de cruzar os dois assuntos do momento ao informar, como quem não quer nada que, sim, Kate Middleton sofria bullying na escola! A reportagem não entrou em detalhes sobre que tipo de bullying e nem era necessário. A informação por si só já contribuiu para florear ainda mais a aura da plebeia obstinada, que conseguiu o casamento mais desejado do mundo. Sofrer bullying implica em ter sido vítima. E ser vítima te redime de todo e qualquer erro. E já nem falo mais da futura princesa - quem sou eu, pobre mortal, pra apontar algum erro nessa mulher? Falo da obsessão recente da humanidade em apontar o bullying como a origem de todo o mal. Ou, pior, criar heróis e heroínas, que sobreviveram bravamente a algo que sempre existiu e só não tinha sido batizado aqui no Brasil.

A versatilidade de reações ao bullying chega a ser cômica. Cada um escolhe a situação da qual foi vítima e aplica ao contexto que lhe parecer mais apropriado. Geisy Arruda foi promovida da categoria de ninguém a subcelebridade após sofrer o famigerado bullying do vestido rosa. Já a novidade teen Rebecca Black diz ter sofrido bullying na escola para explicar por que não se abala com as críticas que dizem que seu hit "Friday" é a pior música do mundo. Tudo bem, Rebecca, melhor gravar a pior música do mundo (uma pretensão, aliás, já ouvi coisa bem pior) do que voltar à escola onde estudou e matar mais de dez crianças, como o monstro de Realengo. O bullying justifica o estrelato instantâneo, os comportamentos bizarros na vida adulta e até o injustificável.

Se eu soubesse que seria assim, teria me aproveitado melhor disso. Quando adolescente, eu já tinha 1.80m, pesava dez quilos menos que hoje, usava óculos, aparelho, e era a pessoa mais desengonçada do planeta para a prática de esportes. Quer dizer, praticamente a personificação da palavra bullying. Eu poderia ter me traumatizado com as tantas piadinhas que ouvi. Mas eram só piadinhas. Eu não sabia o que era bullying (e continuei sem saber até, sei lá, dois anos atrás). Assim como a minha irmã que, embora linda e a melhor aluna da sala, sofreu uma das agressões mais cruéis que já vi. Diabética, ela teve que suportar, aos dez anos de idade, uma colega de sala levar doce de merenda e ficar passando na cara dela e dizendo "eu não te dou, porque você não merece" (a situação durou dias, até que eu, a irmã mais velha, descobri e cometi bullying contra a outra!). Bom, minha irmã poderia ter se tornado uma assassina em série ou uma garota obcecada em mostrar a bunda em alguma revista. Mas ela só se tornou uma das adultas mais inteligentes e bem resolvidas que conheço. Porque naquele tempo não existia bullying... 

Imagem: Uol


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quarta-feira, 27 de abril de 2011

EU TE DOU... VOCÊ ME DÁ? >> Carla Dias >>

Toma lá, dá cá é uma força da natureza. A gente doa: tempo, dinheiro, amor, sonhos etc, mas espera, sim, o retorno. Mesmo na bondade, há essa espera. Faz-se o bem esperando que aquele que o recebe se torne alguém melhor: toma lá, dá cá. Mesmo que o esperado não seja para benefício próprio, ah, a espera... Esperamos, sim, pelo feedback.

Por isso os pedidos por retorno me endoidecem. O toma lá, dá cá pode ser bacana, mas perde o charme e se torna irritante quando se transforma em exigência. Antes, esse escancaramento era apenas profissional, para quando fosse necessário lutar para conquistar o resultado almejado. Enfim, a boa e velha barganha... Ou seria diplomacia? Não sei, porque, neste aspecto, as coisas se confundem.

Hoje em dia, não há a espera pelo retorno de uma doação. Há, sim, a exigência disfarçada, como quando alguém diz que colocou seu nome em um artigo publicado em um blog qualquer, então você “tem” de retribuir incluindo o link em tudo quanto é rede social da qual faça parte, clicando em “curtir”, endossando algo que você só conhece porque colocaram seu nome lá. Não foi sua a escolha de apreciar esse espaço. Não foi o seu desejo a parar nas prateleiras virtuais.

Quando se tem um interesse em comum, até existe uma conexão, uma necessidade de troca. Mas quando usam o que você já construiu para se construir, quando o “dá cá” é inexistente, bom, não seria um opcional? Aliás, endossar algo tem de ser completamente opcional, seja lá por qual motivo.

Com a disseminação dos ícones, veio também a sensação de que, se você é incluso em algo, deve clicar e participar, senão se transformará num belo de um ingrato.

Sabe qual é a delícia do toma lá, dá cá? A surpresa... Sabe quando você faz um pequeno gesto e a pessoa lhe devolve um grande sorriso? Quando você dedica a sua vida a uma realização, e alguém se sente tocado pela sua ideia e o ajuda a realizá-la? Quando a história da sua vida vale um editorial escrito com respeito, com verdadeira admiração pelo que você construiu e quem se tornou? Quando você beija a bochecha rosada de um bebê e ele gargalha baixinho? Quando você ajuda alguém que realmente precisa, e ele volta, muito tempo depois, apenas para dizer “estou bem”?

Não clico em ícones porque sim. Não curto o que não me toca. Não devolvo o que jamais recebi. Há alguns anos, dizia a mesma coisa, mas usava aquele termo, sabe? Jogar confetes... Não jogo confetes por jogar. Quando o faço, é porque a outra pessoa merece a festa, a celebração.

Eu te dou o direito de escolha... Você me dá?


carladias.com




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terça-feira, 26 de abril de 2011

TECNOLOGIA X HOMEM — ROUND 2
>> Clara Braga

Não sou do tipo que gosta de generalizar, mas hoje vou pedir licença. Todo mundo já falou, ou conversou, ou debateu, ou escreveu a respeito dos malefícios da tecnologia — principalmente a internet — na vida do homem.

É muito comum ouvir pessoas falando que não encontram mais crianças brincando na rua. Claro, nesse ponto temos que lembrar da questão da violência também, que está cada vez maior, mas as crianças, em sua maioria, preferem ficar na internet. Adolescentes não se importam com a quantidade de amigos que têm na vida real, desde que tenham, pelo menos, mais de 100 no Orkut e no Facebook. E por que não citar também os adultos, que estão usando essa ferramenta cada vez mais e mais?

Se usada devidamente, ela é muito boa. Boa para pesquisas, boa para encontrar amigos antigos e, no meu caso, boa para me tornar uma pessoa que liga no dia certo para os amigos para desejar feliz aniversário. Mas convenhamos, não é fácil achar esse limite entre o que é e o que não é devido quando se trata de internet.

Engana-se aquele que acha que a internet foi a única ferramenta que trouxe essa situação controversa para a vida do homem. Eu não tinha me tocado da situação até ouvir minha mãe comentar a respeito de uma entrevista de um médico que ela viu na Leda Nagle.

Na entrevista, o médico dizia que, com a evolução da tecnologia, os aparelhos usados para exame se tornaram muito eficientes e as imagens geradas por eles são consideradas perfeitas, por isso qualquer coisa que você sinta de estranho faz com que seu médico lhe peça exames. Até aí tudo bem. O problema é que você entra no consultório, fala o que sente e sai com um papel na mão sem o médico nem chegar perto de você.

Essa cultura da aproximação se perdeu. São poucos os médicos que fazem aqueles exames pedindo para abrir a boca, escutando o coração, apertando a barriga e essas coisas consideradas antigas, mas que também são eficientes na descoberta de doenças.

O médico da entrevista ainda complementou dizendo que você sabe se está sendo bem atendido quando passa por essa fase do exame em que o médico se aproxima de você e lhe toca para sentir se não tem nenhum tipo de inchaço ou coisas do tipo. Mas do jeito que o mundo está doente da cabeça, é capaz do médico se aproximar e a gente achar que ele já está é abusando. Por isso, olho aberto!

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segunda-feira, 25 de abril de 2011

AS DUAS VOLTAS >> Kika Coutinho

A fazendinha estava lotada. Talvez fosse pelo feriado, ou porque era um dia de muito sol, fato é que os pais disputavam cada pedaço de capim que lhes era oferecido, para que as crianças alimentassem os carneiros e as cabras. Era uma festa. Logo abaixo, algumas recebiam milho nas mãos para alimentar os patos, e via-se no rosto dos pequenos um misto de emoção e medo ao dar de comer para aqueles animais. Eram essas alegrias que faziam valer o ingresso de 30 reais...

Mais alguns passos e vimos a fila para andar a cavalo. “Olha o pocotó!”, falamos idiotamente para a nossa filha, que não hesitou em nos puxar com suas pequenas mãozinhas para perto do bicho. Lá estávamos nós, na fila para que ela passeasse um pouco sobre um cavalo cansado que, a cada duas voltas, parava, deixava que lhe tirassem uma criança para que outra subisse em seu lombo. Foi lá, nessa curta fila, que o fato se deu.

O menino era pequeno, devia ter uns três anos, deu as duas voltas a que tinha direito e, quando chegou a hora de dar lugar ao próximo, agarrou firme seus bracinhos ao cavalo, implorando para dar mais uma volta. O pai, vendo a fila que esperava, tirou o garoto à força, enquanto o pobrezinho abria um berreiro. A mim, deu dó do menino, mas era a vida. O pai voltou para a fila para que pudessem ganhar mais uma rodada. Chegou a minha vez, a de outras crianças, e eu ainda estava ali quando vi chegar, de novo, a vez do menino. A cena se repetiu. Ele deu as duas voltas, chorou, o pai o arrancou, voltaram para a fila. Logo percebi que não era apenas a segunda vez. Os dois estavam há algum tempo nessa maratona: fila, passeio de duas voltas, choro, fila de novo... “Ah, vamos também de novo, filha?”, sugeri, já entrando mais uma vez na fila, logo atrás do garoto com o seu pai. Puxei conversa:

- Ele adorou o cavalo, hein?

- Pois é - o pai respondeu, um pouco emburrado. - Mas deveria ter mais cavalo, né? Um só é pouco.

Concordei. O ideal era ter pelo menos dois, mas não tinha dois e, portanto, aproveitemos a oportunidade de ensinar às nossas crianças que nem sempre se tem dois daquilo que se quer muito. Às vezes não se tem, simplesmente... O homem engrossou um pouco:

- O injusto é que a volta dele é mais rápida. As crianças menores vão devagar, levam mais tempo. Ele vai rápido e as duas voltas dele acabam num minuto. Ele percebe isso e, como tem um senso de justiça muito apurado, se revolta, né?

Opa. As crianças menores eram o grupo do qual a minha filha fazia parte. E não ia mais devagar. Era sempre a mesma pessoa puxando o cavalo, talvez fizesse alguma diferença de segundos, mas não era o tipo de resposta que eu esperava ouvir.

- Chegou, vai lá, filhão.

O moço saiu de perto e achei por bem encerrar o assunto.

Quando o menino chorou pela décima vez, vi o pai buscando o administrador da fazendinha. Começou então uma discussão. O pai dizia que tinha que ter mais cavalos, e pronto. Falou que não ia pagar o ingresso. O gerente respondia que estavam providenciando mais cavalos, quem sabe nas próximas vezes, ao que o homem respondeu:

- Meu amigo, eu quero mais cavalo hoje! Senão não vou pagar essa porcaria aqui!

O tom de arrogância e exigência descabida me revoltou. O que acontecia ali? O pai não podia lidar com a frustração de seu filho? O menino não aceitava as duas voltas que lhe eram impostas e, ao invés de lidar com isso, o pai se transformou também em um garoto de 3 anos, cujos anseios não podiam esperar?

Assisti a discussão em choque. Eu e meu marido lamentamos pela educação dessa pequena criança, cujo exemplo era de arrogância e grosseria. Como poderia ser uma criança menos insegura e infeliz?

Eu, confesso, costumo recuar quando me vejo fazendo o julgamento da forma como outros pais escolheram educar os seus filhos. E faço isso não por nobreza, mas porque só depois que fui mãe foi que reconheci em mim vergonhas e fraquezas antes inéditas, e tudo, sempre, com o argumento falho de que pelos nossos filhos somos capazes de tudo. E somos... Mas assistir àquela discussão insana me fez pensar o que, de fato, é pelo bem de nossos filhos e o que é simplesmente estimular neles que sejam caprichosos e mimados, brigões e intolerantes.

A minha filha chorou para sair do cavalo também, mas corremos para ver o porquinho da índia que estava sozinho e disponível para que ela lhe desse uma cenoura.

Logo ela ria alimentando o bichinho, enquanto eu me perguntava como é difícil a arte de educar e, pior, como é impossível a arte de educar uma criança se nós, adultos, somos incapazes de educar - antes - a nós mesmos, com os nossos próprios orgulhos e mesquinharias.

www.embuchada.blogspot.com

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domingo, 24 de abril de 2011

FILHO INGRATO! >> Eduardo Loureiro Jr.

O leitor fique tranquilo, porque o título da crônica não é um insulto à sua pessoa, mas à minha.

Sexta-feira da Paixão, ligo para minha mãe para desejar-lhe uma boa Páscoa.

— Demorou para dar retorno, hein? — disse minha mãe, sagitariana das boas, antes de qualquer bom dia.

E eu fiquei calado, sem entender. Ela continuou:

— Domingo, quando liguei, você disse que estava numa cafeteria e que retornava a ligação quando chegasse em casa. Faz cinco dias...

E eu soltei um "desculpe, mãe" encabulado, mas não completamente tomado de surpresa, porque no dia anterior já tinha chorado de remorsos ao tomar consciência de minha ingratidão em relação à minha mãe.

Não, meus amigos, não vou bancar o filho querido e dizer que falo com minha mãe com frequência. Passo dias e dias, às vezes semanas, sem dar um telefonema. Sei que nessa época de Páscoa até os ladrões pregados em cruzes têm esperança de estarem ainda à noite no Paraíso, mas um filho ingrato está desde já — desde o momento de tal reconhecimento — no inferno.

Judas pode ser perdoado, afinal se ele é o responsável pela crucificação, sem ela, e sem ele, não haveria a ressurreição, que no fundo é o que interessa, mas um filho ingrato pecou por omissão, perdeu a deixa, interrompeu a história, não fez avançar a trama: é um mau ator. Até o diabo, o próprio demo, voltará um dia para o céu, tendo cumprido seu papel de antagonista — com um pouco de exagero, é verdade —, mas de maneira intensa, dedicada. Agora, um filho ingrato, esse não tem eternidade que dê jeito, pois não fode nem sai de cima.

Dizer o que, caros leitores? Não há desculpa, não há justificativa, não há razão, não há escusa, não há subterfúgio, não há tergiversação, não há evasiva, não há escapatória, não há atenuante, não há perdão, não há clemência, não há misericórdia, não há remissão, não há indulgência, não há abono, não há paliativo, não há vênia, não há indulto, não há anistia, não há absolvição, não há desconto, não há saída, não há dicionário de sinônimos, não há dicionário analógico, não há thesaurus.

Culpado! Culpado! Culpado! De joelho no milho! Tome um cascudo! Ponha-o no micro-ondas! Encha-lhe a cara de bofetadas! Dê-lhe peia! Duzentas chibatadas! Rache-o de pancadas! Moa-lhe os ossos! Já para o cadafalso! Apedreje-o! Tragam a coroa de espinhos! Corte-lhe a cabeça! Pregue-o à cruz! Nada de golpe de misericórdia! Esquarteje-o! Preparar, apontar, fogo! Que lhe sirva de lição!

E nem posso lamentar-me a meu pai — Por que me abandonaste? —, pois este filho ingrato também já abandonou seu pai.




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sábado, 23 de abril de 2011

CONVERSA DE PÁSCOA [Maria Rita Lemos]

Amanhã é domingo de Páscoa, e, como sempre, nessas datas festivas, não pude deixar de mergulhar no passado, num tempo em que realmente se marcava a passagem do tempo através dos rituais próprios a cada período.

Muita gente de minha geração ainda se lembra de como se vivia o tempo da quaresma e, no seu final, a Semana Santa, num passado em que não havia computador, e a tecnologia da comunicação ainda era precária. Hoje, apesar de todos os recursos de que dispomos, eu me pergunto: será que as crianças de agora, nossos filhos(as) e netos(as), vão se lembrar tão clara e docemente dos rituais do passado como nós? Pessoalmente eu temo que não, embora faça de tudo, pelo menos no que está ao meu alcance, para que algumas tradições não morram jamais, na memória de nossos descendentes.

Lembro-me claramente das quaresmas da infância, talvez porque nos meus dezesseis primeiros anos de vida a avó materna morava conosco, e dentro de vovó Santa moravam mil estórias, casos e “causos”... alguns que nos causavam medo e que, mais tarde eu soube, eram puro folclore e tinham por objetivo despertar a obediência, ou simplesmente alimentar o medo, mesmo, uma coisa bem maquiavélica, mas tão desejada! Outras histórias e rituais eram lindos, e nos faziam pedir a nossa avó que os repetisse, infinitas vezes, principalmente as crendices ligadas às festas juninas e suas adivinhações, ao Natal, ao Dia dos Mortos, à Semana Santa e Páscoa.

Uma das histórias que mais provocava em mim um misto ambivalente de atração fatal e medo quase insuportável era a da moça que pulou a janela de seu quarto e fugiu de casa, numa Sexta Feira de Trevas (assim vovó chamava a sexta feira da Semana Santa) e foi, contra a vontade da família, a uma festa na roça onde morava. Lá pelas tantas, um simpático rapaz (por que o diabo sempre se mostra atraente?) “tirou-a para dançar”, como se dizia há muito tempo. Ela aceitou, é claro, estava sozinha e o rapaz parecia um bom pé de valsa. Bastou começarem a dançar para ela sentir um forte cheiro de enxofre (vovó dizia que o diabo cheirava a enxofre), e, olhando para baixo, viu que seu parceiro tinha pés de cabra (outra característica atribuída ao capeta, quando em forma humana). Claro que a moça fujona se apavorou e voltou correndo ao aconchego do lar, aprendendo com isso a lição.

Mas o melhor dessas sessões de estórias era a performance de vovó, o olhar arregalado quando a estória pedia isso, e gargalhadas alegres ou soturnas, também quando fosse o caso.Ela nunca fez curso de contadora de histórias, mas fazia isso como ninguém, naturalmente. Estórias de quaresma eu sabia – e ainda sei – várias, que espero contar a meus netos quando forem maiores, se ainda lucidez me sobrar. Para minha neta não adianta mais, ela já discerne o que é verdade do que é fruto de uma imaginação herdada do sangue nordestino, cheio de riquezas. Apesar de adulta, no entanto, sei que ela vai se enternecer quando chegar para os feriados de Páscoa.

No domingo, quando acordar, estarão no chão, coladas desde a véspera, as marcas da patinha de dona coelha, levando à caixa de bombons que já lhe está reservada. Para os dois netos pequeninos, as patinhas virão desde o portão de nossa casa, e os ovos de chocolate terão que ser encontrados entre as plantas, embaixo do caramanchão. Agora eles só sabem do coelhinho, mas pretendo que saibam, quando forem maiores, a história de verdade da Páscoa, a passagem do povo hebreu no Mar Vermelho, fugindo à escravidão do Egito, a libertação através de Moisés e depois de Jesus, o significado dos ovos e do coelho. Voltando às Semanas Santas de minha infância, na quarta-feira era dia de faxina na casa, porque fazer isso nos dois dias seguintes era pecado.

Lembro, com muita saudade, que era maravilhoso ouvir rádio na Sexta-feira Santa... tudo que eu estudava em música clássica, no Conservatório São José, e todas as maiores orquestras do mundo eram guardadas para serem exibidas nesse dia, sem intervalo comercial. Nas pausas, apenas a voz grave do locutor: “Essa programação especial prossegue em respeito ao feriado de hoje”...

Na Sexta-feira de Trevas, não havia nem cinema funcionando. Íamos à Igreja no meio da tarde, ainda arrotando o bacalhau do almoço, e eu quase morria de dó do Jesus ensanguentado cujos pés beijávamos, em procissão. Era só música clássica, cheiro de vela, roxo por todo lado, procissão do enterro à qual não podíamos faltar. Era tanta dor que a gente torcia para o domingo chegar logo, com os ovos de chocolate e os sorrisos de volta. Aprendemos a dizer, em lugar da saudação matinal costumeira: “Jesus ressuscitou, aleluia”. Quando esquecíamos que era para dizer isso, e não apenas “bom dia”, os mais velhos sempre nos lembravam. O domingo era de Páscoa, alegria, vatapá da vovó, macarronada ou lasanha, e ovos de chocolate de sobremesa.

Enfim, são estórias dentro da História. O importante é fazer com que nossas crianças entendam, aos poucos, que o sentido do feriado vale mais que o chocolate. Concordo que são datas que hoje passaram a ser muito mais comerciais que religiosas, mas é preciso que não levemos a ferro e fogo esse conceito, para não corrermos o risco de cair na amargura e sermos de mal com a vida.

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quarta-feira, 20 de abril de 2011

O AMOR ME DEU UM BEIJO >> Carla Dias >>

Sabe quando temos o que ser dito engasgado, parecendo até que não sabemos direito do que se trata, mas é preciso berrá-lo? Tem quem berre mesmo, encontra um descampado, uma sala com tratamento acústico, um lugar tão barulhento que nem se percebe o som lançado.

Tem quem guarde amor no berro, sabe? Vai engolindo, guardando, escondendo de si, da sensibilidade do outro em reconhecê-lo, jamais entrega o segredo. E como dizem os quiropatas (ou seriam os médicos de ocasião?): vai tudo para os ombros. A tensão, o peso do mundo, o desassossego arrastado vida afora.

E falo do amor na abrangência dos corações em pleno concerto de taquicardia, seja pelo sorriso do amante, pela delicadeza do abraço recebido de uma criança, pela languidez da mulher que passa, pelas cores das praças, pelas histórias acontecidas nas esquinas, pelas casas que servem de guarida às famílias e aos seus sonhos.

A cidade, ela mesma dá de ser calada, e não fossem os que se expressam nessa mudez, fazendo festa na sala dela, da metrópole, sua voz jamais seria ouvida. Porque, feito a menina silente, aguardando pela mãe terminar de enfeitá-la em tranças com laços, a cidade diz muito durante a espera... A minha, a sua, a nossa.

A cidade nasce, morre e renasce de amor o tempo todo. Até nos dias em que nós acordamos crentes de que esse negócio de amor é balela. Quando estamos tão sós que só nos resta desacreditar o que não sentimos ou o que não sentem por nós.

Tenho amor pelas avenidas, mas confesso que meu afeto corre solto quando elas estão vestidas para dia de feriado ou finais de semana, porque há certa tranquilidade nelas que não se vê em dias úteis. Meu amor, desavergonhado que é, enrosca-se nos grafites, na alegria do grupo de amigos, no desejo do outro em realizar projetos. E ele até se dá bem com o estar só, embrenhando-se em noites frias e chuvosas, com direito a chocolate quente e filme na tevê.

Amor não é uma plantinha que necessita ser aguada diariamente. É uma floresta tropical, diversa, imprevisível, pulsante. É preciso encará-la, diariamente, com disposição para compreender o que ela tem a dizer ou a mostrar, qual é o cenário no cardápio do dia. Não é uma caixinha de surpresas... É um universo todo delas.

Desafogo o berro, meu caro, e escancaro nome, endereço e número de identidade. A cidade se assusta com essa minha canção dodecafônica. Alguns chamarão minha catarse de declaração de amor, dando a ela uma leveza digna de cartão repleto de corações vermelhinhos, sorridentes. Mas haverá aquele que compreenderá: às vezes, amar pede mais de nós do que acreditamos poder oferecer. E nos transforma, molda-nos, e numa constância que tem a duração da vida. Amar é sério, mesmo quando nos faz sorrir.


Música que amo aos berros neste agora.
Olivia by Stand


Imagens
Aninha Apolinário clicou a arte nos muros da cidade.
Confira mais: contatohumano.blogspot.com


carladias.com




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terça-feira, 19 de abril de 2011

LIBERDADE PARA PLAYSTATION >> Clara Braga

Liberdade, para mim, é dividida em fases, assim como um jogo de videogame. E nós vamos passando das fases mais fáceis para as mais difíceis até chegarmos no chefão.

As fases mais fáceis são as que passamos quando pequenos, como aprender a falar, andar etc. Quando crescemos, os desafios crescem também. Continuamos eternamente aprendendo a falar e andar, e começamos a encarar chefões como achar empregos bem remunerados e sair de casa para morar sozinhos.

Todo mundo passa por essas fases em algum momento, alguns com mais facilidade que outros, mas no final todo mundo ama o gosto gratificante da vitória.

Quando eu tinha meus 10, 11 anos de idade, eu e minhas amigas tínhamos um jeito simples de nos sentirmos livres. Nós íamos ao shopping sem nossos pais (em uma época em que não existia celular para eles ligarem perguntando se estava tudo bem), e íamos assistir filmes para maiores de 16 anos, já que nessa época também não conferiam idade na carteirinha na porta do cinema. E lá ficávamos nós, assistindo a filmes que nos deixavam sem dormir por uma semana, mas nos sentindo grandes e livres.

Foi nessa época que filmes como Eu sei o que vocês fizeram no verão passado e Pânico 1, 2 e 3 entraram na minha vida. E exatamente por esses filmes terem marcado uma época da minha vida eu não poderia deixar de assistir a mais nova estreia do primeiro filme de uma nova trilogia de Pânico, Pânico 4.

Verdade seja dita, é difícil dizer hoje em dia que Pânico dá medo depois de tantos filmes que já o satirizaram. E uma década depois, os crimes que acontecem na vida real, no nosso dia a dia já estão piores que os crimes do filme. Sem contar que é cômico, após três filmes, todos os assassinos terem matado metade do elenco, terem morrido, mas nunca terem conseguido matar quem eles realmente queriam. Por essas e outras, o diretor não teve escolha, teve que vestir a camisa e assumir que teria que trocar o terror pela tragicomédia.

Em muitos momentos, o filme é engraçado, satiriza o próprio Pânico e todos os outros filmes de terror que têm continuações inacabadas. Mas não dá pra dizer que não assusta, já que eu e mais uma das pessoas que foram comigo preferimos dormir com o telefone desligado, pra evitar uma ligação do Ghostface. E o outro esqueceu que tinha deixado a luz da cozinha de casa acesa e achou por um momento que alguém tinha entrado na casa dele.

No mais, a única coisa que realmente surpreende é a revelação de quem são os assassinos. Mas eu achei muito curioso a hora em que um deles vai explicar o motivo das matanças e diz que fez o que fez porque queria fama, queria ter um filme sobre ele. Bem parecido com uma das coisas que o já famoso Wellington Menezes disse em uma das justificativas do massacre de Realengo. No final das contas, será que é a arte que imita a vida ou a vida imita a arte?

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segunda-feira, 18 de abril de 2011

A VOVOZINHA II >> Albir José Inácio da Silva

Tidinho era na verdade Aristides e nem mesmo ele sabia o porquê do diminutivo. Tinha mais de dois metros, cento e muitos quilos e uma manopla que conseguia segurar dois presos de cada vez. Vinte anos de polícia, salário ruim, muito trabalho, mas ele até que gostava. Tentaram lhe dar outras funções, mas ele ficava bem era na carceragem. Gostava dos rapazes. Dava conselhos para os que ouviam e corretivos para os que precisavam. Até os presos concordavam que ele distribuía justiça lá do seu jeito.

Isso não evitava que de vez em quando inventassem umas modas para tirá-lo do xadrez. Foi o que aconteceu hoje: muita gente de folga, o delegado mandou que ele acompanhasse a equipe a um bingo clandestino. O cassino existia de fato, mas não havia viva alma no lugar, apesar das máquinas ligadas e até cigarros acesos. A operação deve ter vazado. Tidinho fez cara de contrariado, como os demais, mas ficou aliviado. Era só recolher as máquinas pro depósito e voltar para a tranquilidade de sua carceragem. Mas ouviu-se um tiro.

De arma em punho todos se arrastaram até o fundo do salão, de onde veio o barulho. Atrás de uma máquina estava a vovozinha, com roupa de festa e muito pó de arroz, tentando pegar a bengala que caiu no assoalho e provocou aquele barulho.

- Vovó, o que a senhora está fazendo aqui? – perguntou um detetive.

- Estou ganhando, você não está vendo?

- Vovó, este jogo é proibido, o lugar vai ser fechado e a senhora presa. Entendeu?

- Ora, vocês não têm vergonha, não? Vão prender os bandidos e deixem em paz as velhinhas no seu momento de lazer!

Tidinho não estava gostando nada. Menos ainda quando falaram, olhando pra ele, que era flagrante, tinha que recolher. Ele argumentou: por que levar uma velhinha pra delegacia? Os donos já fugiram, era confiscar o dinheiro, as máquinas e ir embora. Mas o chefe da operação estava inflexível: ela tinha de ir pra delegacia, talvez identificar os responsáveis, explicar a quanto tempo a casa funciona, essas coisas. Tidinho, que não era de muitas palavras, caprichou. Disse que se ela não os entendia ali não ia ser diferente na delegacia, que não tinham onde colocá-la, que ela podia ter um piripaque e ainda seriam responsabilizados. Deu resultado.

- Vovó, a gente vai deixar a senhora ir embora. Mas vê se não entra mais nesses lugares que a senhora acaba enrascada, entendeu?

- Não! Eu não saio daqui a essa hora não. Não posso andar de noite por causa das vistas. Eu só vou pra casa de manhã. E eu ainda quero saber quem é que vai me pagar. Não estão vendo que eu ganhei?!

- Tidinho, recolhe! – impacientou-se o inspetor.

Em poucos minutos a delegacia virou um caos, e a vida de Aristides também. Já tinha saído e voltado da rua quatro vezes: comprou água, que trocou porque ela só bebia com gás; comprou biscoito, que não servia por causa das marcas ou dos sabores. Por último comprou café, mas ela não queria copo plástico. Foi sorte o delegado ter uma xícara pintada por sua falecida mãe. Então ela sossegou por segundos.

Mas recomeçou logo, terminado o café, em voz alta: se não tinham crimes a combater, tanto bandido nas ruas, cadê o delegado que não chega, ia ligar pra corregedoria. Não satisfeita, começou a bater com a bengala na mesa. Até que acertou o lado do pires, que alavancou a xícara e jogou a dois metros de altura. O delegado entrou quando a sua preciosidade se espatifava no chão. Ele ficou um tempo olhando os cacos, mal respirando, até que conseguiu falar:

- Tidinho, recolhe!

Pela segunda vez hoje, Tidinho teve de argumentar, o que lhe era penoso. Não gostava de gente porque gente falava demais. Gostava ainda menos de crianças porque elas falam ainda mais. Uma vez quiseram transferi-lo para a Delegacia de Proteção à Criança e ele implorou para não ir. Grande e desajeitado, não sabia lidar com crianças. Ainda mais aquelas, rebeldes, malcriadas, em quem ele não poderia nem encostar a mão. A única coisa frágil que amava era sua mãezinha, de setenta anos, que ele tratava como um passarinho. E foi pensando nela que pediu:

- Doutor, a gente não pode botar essa velhinha naquela umidade, vai que ela morre, como é que a gente fica? Vai dar jornal, corregedoria, televisão, o diabo a quatro. Deixa eu levar ela pra casa. Ela não sabe nada, não entende nada, não vai esclarecer nada mesmo. Vamos esquecer tudo isso, inclusive, com todo respeito, a xícara.

De volta da missão, Aristides estava de novo em frente ao delegado, chorando por uma licença. O doutor sabia que ele nem gostava de férias, mas precisava descansar. Todo mundo viu a paciência com que ele cuidou daquela infratora. Ainda bem que o doutor é homem compreensivo, ou podia pensar que ele estava prevaricando. Depois, por causa da escuridão, levou-a pelo braço até em casa. E quando esperava um boa-noite, um Deus-te-abençoe-meu-filho, a idosa perguntou, antes de bater a porta:

- Você tem outras atribuições na delegacia ou o seu trabalho é só maltratar velhinhas?

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domingo, 17 de abril de 2011

ABRIO, ABRIU, ABRIL >> Eduardo Loureiro Jr.

O dia de hoje merecia um poema, e não uma crônica. Um poema que falasse das muitas coisas que se abrem em abril, como se o que despetalasse lá no norte caísse primaveril aqui no sul. Um poema que fizesse a gente entender por que o dia se abre à meianoite, que contasse que a Lua é mãe, o alvorecer é parto e o Sol é sucessor.

Um poema porque a poesia é pensamento no sentido do coração — faz sentido fazendo sentir: cheiro de suor de pai, aroma de lençol de mãe, pele pelúcia de mulher amando, gosto apimentado da palavra filha.

Poesia porque quando se tem muito a dizer — e poucas palavras — não é na frente que está a verdade: é no verso.

Não foi estalo
  de trinco de porta,
foi suspiro
  de botão de flor.
Não foi tábua,
  tranca, tramela,
foi perfume,
  pétala, pudor. 

AbriO, abriU, abriL.




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sábado, 16 de abril de 2011

VOCÊ REPAROU NAQUELE MENINO...
[Maria Rita Lemos]

... sentado, quietinho, no fundo da classe, sem amigos, mas também sem dar trabalho a ninguém? As escolas, públicas e particulares, enfim, a educação como um todo, tenta entender como conter o aluno sem limites, que vive atrapalhando as aulas e os colegas, aquele que não deixa o professor transmitir o conteúdo de cada matéria.

No entanto, há outro tipo de crianças e adolescentes. Existem aqueles, geralmente meninos (resta estudar o porquê...), que se sentam no fundo da classe, entram mudos e saem calados das aulas. Geralmente têm bom rendimento escolar, às vezes até acima da média. O que chama atenção neles, ou deveria chamar, é sua solidão, o isolamento em que vivem, dentro e fora da escola. Eles não participam de grupos de estudos, a não ser quando obrigados a isso. Não emitem sua opinião, não fazem perguntas. Não “ficam” com as meninas, não são convidados para festinhas, ou quando são não comparecem. São quase invisíveis, como o jovem Wellington, que no dia 7 de abril saiu atirando numa escola do Realengo, no Rio. São invisíveis como ele deve ter sido, por muitos anos de sua vida. Aliás, pelo que li, com a curiosidade própria de psicóloga, fui juntando os pedacinhos desse jovem que causou tanta dor, mas que era, ele também, uma síntese de todas as dores dos solitários, tanto que transformou sua vida em morte, sua e de dezenas de inocentes.

Era inevitável que a mídia trouxesse, como o fez, especialistas em criminalística e psicólogos, forenses ou não, para dar suas explicações pessoais: o atirador do Realengo era psicopata, vítima de “bullying”, seguidor fanático do islamismo; enfim, o rapaz foi classificado e rotulado, de todas as formas possíveis. Pena que ninguém, nem mesmo os vizinhos e parentes, prestou atenção naquele rapaz. Sim, porque deveria ter despertado a curiosidade de alguém aquele jovem, ainda quase adolescente, que morava sozinho desde a morte da mãe (que certamente evitou que tudo acontecesse há dois anos, quando ainda vivia), que pediu demissão da empresa em que trabalhou... Ninguém sabia nada dele, que se fechou na casa que herdou, a quilômetros dos irmãos, tendo como companhia única a tela de um computador. Ninguém reparou no rapaz de barbas longas que comprava todos os dias guaraná, no mesmo bar, e se trancava em casa, sozinho, porque ninguém repara em gente assim, afinal cada um vive como quer. É exatamente aí que mora o perigo: no “não fazer”, não ver, chorar somente sobre o leite derramado.

Agora que a mídia mostrou os detalhes do crime, à exaustão, nesse momento em que o Brasil está entrando para o noticiário policial no tocante aos assassinatos em massa, como só se via em outros países, começam a surgir as cabeças pensantes, refletindo sobre o óbvio: o que está acontecendo com a sociedade? Que tipo de monstros estamos gerando? Como eles se desenvolvem?

De poucas coisas temos certeza, mas uma delas não me sai da cabeça: o culto ao consumismo está nos consumindo cada vez mais, e não estamos nos dando conta. As pessoas estão perdendo a identidade, o que importa são as estatísticas, o “público alvo”, numa sociedade que cada vez consome mais, sem saber o que nem para que, sem sequer refletir se precisa do que está consumindo, se o que está consumindo vai tirar o pão de outrem, ou se o seu consumo vai, de alguma forma, desequilibrar nossa mãe natureza. O “assassino de Realengo” viveu vinte e quatro anos num mundo contraditório, com uma mídia ainda mais confusa. Aliás, vivemos numa sociedade hipócrita, que prega a inclusão e o respeito à diversidade, mas deixa claro que só serão aceitas nos melhores empregos as pessoas brancas, magras, “bem vestidas” (em que sentido?) e, ao menos aparentemente, heterossexuais. Não precisa muito tempo, meia hora de televisão é o bastante para a gente perceber, que, quando alguém diferente do “padrão ideal” aparece, em programas ou comerciais, é para trazer toques de humor, fazer rir, sobretudo fazer comprar.

Na escola do Realengo, houve dezenas de vítimas, infelizmente crianças, incapazes de defesa, que não sabiam como nem por que estavam morrendo. No entanto, quanta gente, quantas crianças inclusive, estão neste mesmo momento, hoje, morrendo também, de falta de atendimento em órgãos públicos de saúde falidos, quanta gente está morrendo por falta de cultura, por descaso, por ser ridicularizado nos “bullyings” da vida (e não só nas escolas?) Quanta gente não estará, neste mesmo domingo de Ramos, morrendo de solidão, na frente de computadores que não têm braços nem abraçam? É triste ver tantas crianças mortas, tantas famílias desfeitas, mas também é triste ver a humanidade se desumanizando, sem ao menos prestar atenção no que está havendo.

Para os pais das vítimas, uma grande dor. Para nós, estudiosos do comportamento, um caso a mais a ser pesquisado. Para a mídia, ou grande parte dela (há que se fazer justiça), é mais um espetáculo a ser explorado “ad infinitum”...

No entanto, o sargento que arriscou a vida na escola do Realengo não será, jamais, um dos “heróis do Bial”, nem ganhará um milhão de reais da Rede Globo. É isso aí, e sinto muito por terminar de forma tão triste esse texto. Enquanto não nos humanizarmos, enquanto não prestarmos atenção nos garotos dos cantos das salas de aula... enquanto dermos mais valor à capa que ao conteúdo, ao que as pessoas são exteriormente que à sua essência, nada vai mudar. Apesar dos reforços policiais, de guardas armados em frente às escolas, de detectores de metais, “tudo vai ser como era dantes no quartel de Abrantes”, como diz o ditado.

Pelo menos, temos como fator positivo a inquestionável solidariedade de nosso povo, que ainda está intocada, depois das tragédias, no socorro às vítimas, no enxugar das lágrimas. Falta pensar em como evitar toda essa dor, e essa é uma responsabilidade de todos nós, que somos uma partícula, ainda que ínfima, dessa massa de seres que se dizem humanos.

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sexta-feira, 15 de abril de 2011

O MOTORISTA FRANZ KAFKA
>> Leonardo Marona

Hoje o motorista do meu ônibus era Franz Kafka. Não era tão magrinho quanto o nobre inseto-literato. Era um Kafka perfeito, um Kafka com aquelas orelhas de abano e aquela hesitação peculiar, os olhos gigantescos e vidrados, mas que não poriam medo a um inseto. Eram, afinal, os próprios olhos gigantescos e vidrados de um inseto entre a parede e a sola da bota. Mas era robusto, com os cabelos de escovinha arrastados violentamente para trás da cabeça triangular, as fundas covas por trás dos olhos sobressaltados, uma exasperação a cada passageiro que entreva no veículo: "Desculpe... perdão... eu quero dizer... acabei que me...", apenas para dar o troco da passagem.

E pensei: o pobre Franz, se fosse motorista de ônibus e não escritor, seria um gênio maior, como era aquele motorista Franz. Porque nada estava tão fora do lugar para aquela personalidade quanto a força bruta de uma brusca virada em curva, com todo aquele peso controlado por seus punhos trêmulos, e ainda assim o rosto impassível, a fronte sudorenta — e os pensamentos em quantas igrejas góticas, quantas cartas mal escritas, quantas Pontes Carlos onde velhos senhores rasgam nossos corações com realejos...

No entanto, ali estava um homem simples, assustado, mas do susto que todos os que carregam nas costas um mundo que não é o seu se assustam. Franz teve mais sorte: renegou o mundo que não era o seu e aceitou o peso nas costas de seu próprio mundo. Mas aí não aguentou. A volta do pêndulo esmagou sua cabeça de encontro aos seus próprios muros erguidos. O mundo que era seu ele não podia suportar tampouco. E isso, meus amigos, chama-se deslocamento de si. Porque se suportamos o que não nos importa e não nos afeta, mesmo que seja pesadíssimo, suportaremos, enfim, sem reclamar, porque aquilo não estará, de fato, em nós. Mas conforme aceitamos um mundo ao qual nos sentíamos fadados, mesmo que nunca preparados, e reparamos que este mundo, que é nosso mundo, o mundo, digamos, de nossa alma, este mundo nos pesa mais do que qualquer peso do que não seria o nosso, e o que é nosso, contrariando a nós mesmos, se torna insuportável para nós. Então construímos portas intransponíveis de castelos, igrejas góticas nas imensidões do sentimento, tribunais invisíveis como um jogo de fantoches, e então viramos Franz Kafka, o magrinho, o anti-herói. Mas imaginem se Franz tivesse suportado seu próprio peso, quantos milhões de pessoas não teria liderado em direção à força de sua autoconfiança, quantos homens magrinhos e melancólicos não deixariam de meter o cano da arma na boca ou atrás da orelha?

Mas a certas personalidades, por algum tipo de obra sobrenatural (sempre tendo em vista que o sobrenatural está aqui, que em nós ele está), não é simplesmente permitido acumular forças. A equação é indigna, tão parecida com tudo que nos rege: aos com muita intensidade e pouco estômago, a intensidade corrói o fígado, ao passo que o peso do marasmo esmaga a cabeça. Já aos com pouca intensidade e muito estômago, feijão com arroz e algumas cabeças de porco não farão mal, e eles aguentarão o peso do mundo.





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quinta-feira, 14 de abril de 2011

ATAQUE DE BOBEIRA >> Fernanda Pinho



Jamais poderia ser uma cantora ou uma atriz de teatro. Não que eu não tenha talento. Imagine! Tenho demais! Quando começo a cantar no banho, meus vizinhos abrem as janelas para ouvir. Alguns, mais ousadinhos, até pedem: "canta mais alto". E, bom, nunca contei isso antes para não me exibir: mas saibam que Fernanda Montenegro trocou seu nome de Arlete para Fernanda em minha homenagem. Enfim, sou um primor das artes cênicas e da música, mas vamos parar de falar disso que já estou ficando sem graça. Esta não é uma crônica sobre meus talentos enrustidos, mas sobre o que me levou a enrusti-los: minha total falta de preparo psicológico para ver uma pessoa reagindo ao meu trabalho.

Diante disso, tive de adiar minha carreira de cantora-atriz para a próxima vida e inventei de escrever. O que eu não esperava é que as pessoas, de fato, leriam o que eu escrevo e — pior! — muitas vezes na minha cara! Quanto a ler o que eu escrevo, até dá pra aceitar. Nunca escrevi diários porque sempre achei bobo mesmo escrever pra ninguém. Agora, ler comigo por perto acho demais. Quando acontece, inevitavelmente sou acometida pelo ataque de bobeira. Suo frio, tenho vontade de sair correndo, tento arrancar das mãos da pessoa o objeto de leitura (computador, cartão de aniversário, livro, revista), forço uma mudança brusca de assunto: "Mas e o filme da Bruna Surfistinha, hein?". Nunca funciona, pois o ser humano é assim, gosta de torturar o outro.

Estou passando muito por isso desde que tenho mostrado às pessoas do meu convívio o livro que escrevi com as minhas amigas. Veja bem, eu mostro para as pessoas porque eu quero que elas se interessem, comprem e leiam. De preferência, bem longe de mim. Mas o que elas fazem? Pegam, folheiam, começam a ler, chamam alguém pra ver junto: "Ô fulano, vem ver o livro da Fernanda". Você pode — e deve! — ler, fulano, mas quando eu estiver na minha casa e você na sua, ok?

E o livro ainda tem a vantagem de, por ainda serem poucos exemplares, eu meio que conseguir controlar meus leitores. Pior é quando eu trabalhava em jornal. Certa vez, dentro do metrô de Belo Horizonte, sentei-me ao lado de um moço que estava lendo a página de esportes do jornal para o qual eu trabalhava. Até aí beleza, não cubro esporte mesmo. Mas o insaciável leitor passou umas páginas e pá! Começou a ler uma matéria minha. Achei uma cara de pau! Será que ele não viu que eu estava ali do lado dele? Bom, pode até ter visto, só não sabia que eu era eu, né? Mesmo assim, peguei minha bolsa e me mudei de lugar.

Pelo menos nesse caso eu tinha como correr. Pior uma outra vez que fui cobrir um congresso e a revista para qual escrevo atualmente estava sendo distribuída na porta. Quando me dei conta, tinham umas duzentas pessoas ao meu redor lendo a revista. Me senti num paredão de fuzilamento. Fixei meu olhar para frente, de modo que eu não visse aquele despautério e tratei de enfiar minha credencial pra dentro da blusa e garantir meu anonimato.

Depois desse tratamento de choque, até achei que estaria curada do ataque de bobeira, mas que nada. Sigo cada vez pior. Portanto, já sabe, você pode até continuar lendo minhas crônicas, desde que fora do meu campo de visão!

Foto: www.sxc.hu


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quarta-feira, 13 de abril de 2011

DE ONTEM PARA HOJE >> Carla Dias >>

Olhando para trás, mas com um olhar fresco de adulta assumida – mas nem tanto -, encontro-me com quem fui com certo zelo. Aquela pessoa lá era eu? Era sim... Passeando na Feira Hippie do Paço Municipal de Santo André, aos sábados, onde comprava brincos e pulseiras, e camisetas de bandas e cantores que adorava. Ela teve uma da Janis Joplin com uma foto famosa, mas que causou um alvoroço em casa. Onde já se viu usar camiseta com estampa de mulher vestindo apenas colares?

Naquele mesmo lugar, eu às vezes passeava, durante a semana, com os amigos do trabalho, depois de encerrarmos as funções profissionais. Sentávamos nos bancos, batíamos papo durante horas, passando por banalidades e chegando às questões existenciais. E depois, íamos até a padaria, logo ali, porque precisávamos de um café para reorganizar os pensamentos.

Também ali tive meus momentos de contemplação urbana e namoro... O Paço era point dos namorados. Não sei se ainda continua... E assisti a filmes que não passavam no cinema, numa sala pequena, no mesmo prédio do Teatro Municipal, com trinta ou quarenta cadeiras, com um telão ruinzinho, mas que nos oferecia obras fantásticas, como Delicatessen, um ótimo filme que me impactou, fez-me gostar do cinema de humor negro.

Ali também morava a biblioteca que me despertou para a leitura. Eu passava horas lá dentro, fuçando em tudo, antes de escolher três ou quatro livros para levar comigo para casa. Quando me mudei de Santo André, senti uma falta enorme da biblioteca, de ver as pessoas entrando e saindo do prédio, carregando os livros escolhidos, e de conversar com as bibliotecárias, que me indicavam livros.

No Paço Municipal de Santo André, lá no estacionamento, no projeto Rock in Rua, toquei com a minha banda, e o show foi bacana, o público fantástico. A segunda banda faltou, então tivemos de tocar duas vezes, porque nosso repertório ainda era limitado, porque tínhamos acabado de nos reunir. E preciso dizer que é mesmo uma delícia tocar rock’n roll, e nosso repertório tinha Casa das Máquinas, Made in Brazil, Rolling Stones...

Lembrei-me assim do Paço Municipal de Santo André – e do que vivi por aquelas bandas -, porque foi lá na Feira Hippie que comprei uma camiseta de uma banda que eu adorava. Na época, eu ajudava um amigo de Jaú com o material de um fã-clube, colecionava discos, descabelava-me com a possibilidade de, um dia, em um futuro mega distante, assistir um show deles. E, naquela época, o futuro era bem lá no futuro mesmo.

Minha mãe me lembrou da camiseta: preta, com a cara do Bono Vox estampada, eu não tirava a tal do corpo. Ela se lembra claramente de quando eu tentava tocar Sunday Bloody Sunday na minha bateria dourada, lá em casa.

Então, quando contei a ela que iria ao show do U2, ela ficou tão feliz quanto estou agora. Porque hoje, finalmente, vou realizar um sonho que tinha deixado na gaveta, junto com lembranças que valem ser revisitadas. E me senti aquela menina passeando no Paço Municipal de Santo André, aquela que eu fui, mas tinha esquecido ter sido.



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terça-feira, 12 de abril de 2011

REVOLTA DAS ÁGUAS >> Clara Braga

Há pouco tempo, dia 22 de março para ser mais exata, foi o dia de algo importante para todos nós. Você sabe o quê? Provavelmente você não sabe, eu também não sabia, afinal, tem algumas datas que nós só comemoramos quando estamos na escola, aí fazemos trabalhos, bolamos uma apresentação e nossos pais vão nos assistir.

Bom, sem mais delongas, dia 22 de março é o Dia Internacional da Água. Um dia no ano escolhido para conscientizar as pessoas do quão importante ela é e também chamar a atenção para a conservação da água pura. Acredite se quiser, se nós não a conservarmos, a água vai acabar.

No último domingo, caiu uma chuva aqui em Brasília, tão forte que inundou a Universidade inteira. Mais de um milhão de dólares de prejuízo em equipamentos, salas completamente alagadas e prédios interditados pela Defesa Civil. As aulas de segunda e terça foram suspensas.

Não sei se isso acontece com todos, mas quando esse tipo de situação aparece, eu acho difícil acreditar que a água vai realmente acabar. Não só essa situação, mas, por exemplo, quando eu vejo os tsunamis, lugares devastados, milhares de vidas acabadas. Por causa de quê? Da água. Enchentes alagam casas, deixam milhares de pessoas sem ter onde morar. Por causa de quê? Da água.

Não estou discordando das campanhas de conservação, pelo contrário, se está comprovado que existe risco da água realmente terminar, nós temos mais é que fazer nossa parte mesmo, é obrigação. Mas não custaria nada se no dia da água, além da campanha de conservação, a ONU também avisasse que a água às vezes se estressa e, se a gente não se prevenir, pode acabar presa em situações que mais parecem o Titanic afundando.

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domingo, 10 de abril de 2011

NADA SEI >> Eduardo Loureiro Jr.

— O que foi que você aprendeu na escola hoje, Luís?

Foi o que perguntei a meu sobrinho de quatro anos. E ele me respondeu:

— Não sei.

Pensei lá comigo que o ensino, nos dias de hoje, deve estar bem avançado, pois crianças de pré-escola já aprendem a sábia máxima de Sócrates: "Só sei que nada sei".

Na mesma sala, num apartamento no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro, a televisão seria ligada à noite por meu cunhado e faria com que fôssemos invadidos por uma tragédia: Wellington, um jovem de 23 anos, retorna a sua ex-escola, em Realengo, a 30 km de onde estou, e assassina 12 adolescentes entre 12 e 15 anos.

Se alguém me perguntasse, enquanto eu arrumava o sofá-cama para dormir, O que você aprendeu na escola da vida hoje, Eduardo?, eu teria que responder como Sócrates e Luís: — Não sei.

Um acontecimento assim deixa o cronista num insolúvel dilema. De um lado, o que dizer três dias após o acontecido, quando tudo já está exposto em palavras, fotos e vídeos nos jornais, nas revistas e na internet? Por outro lado, como calar diante da ocorrência, sem que o silêncio seja de indiferença ou cumplicidade?

Primeiro pensei em fazer uma analogia com a história do sapo e da água quente (se a temperatura da água fria for elevada lentamente, o sapo não sente que está sendo cozido), escrevendo cinicamente sobre como a progressiva entrada de americanismos no Brasil (rock'n'roll, surf, fast food, halloween...) prenunciava a chegada do school shooting. Mas achei que não seria muito sensível da minha parte abordar o assunto dessa maneira.

Depois lembrei — como é comum quando me deparo com atos humanos desse tipo — de uma crônica de Machado de Assis, de 16 de junho de 1895, em que ele comenta o caso de um menino de dois anos que foi abandonado pelos pais numa estrebaria, vindo a morrer três dias depois pela fome e pelas bicadas das galinhas. Na crônica, Machado faz uma ironia a partir do pensamento de Schopenhauer, afirmando que o culpado é, na verdade, o menino, que, enquanto espírito não encarnado, propiciou o encontro dos pais para que pudesse nascer neste mundo. Incapaz de realizar feito semelhante ao de Machado, por absoluta falta de talento, desisti da ideia.

Volvi-me para algo mais simples, mais humilde, mais modesto: comparar a tragédia aos quatro dias que passei no Rio. Dias cheios de contratempos, mas com alguns bons momentos (conhecer o cronista Albir, por exemplo). Mas me pareceu muito deselegante falar de mim mesmo, e de meus pequenos aborrecimentos diários (perda de celular, voos com conexão demorada, ausência de fontes para minhas pesquisas...), quando pessoas haviam perdido vidas e familiares choravam parentes.

Ocorreu-me, então, entrar na pele das pessoas envolvidas: e se eu fosse uma das vítimas, um dos pais, o policial que virou herói? E se eu fosse o próprio assassino? A descrição do matador, afinal, não é tão diferente da ideia que as pessoas fazem de mim: um sujeito aparentemente pacífico, quieto e cabisbaixo, antissocial, que preferia fazer trabalhos escolares individualmente e não em grupo, e que passa muito tempo em frente ao computador. Mas não é possível ser aquilo que não se é. Os derradeiros anos me mostraram que só podemos entender certos comportamentos humanos se, efetivamente, já praticamos determinados atos, e eu nunca tive uma arma apontada para a minha cabeça nem em minhas mãos, tampouco perdi algum filho numa tragédia.

Por fim, conjecturei propor a mim mesmo um desafio que lanço aos meus alunos em minhas aulas: escrever um texto a partir de uma lista de palavras resultante da decomposição de outro texto. Talvez eu pudesse, recombinando as palavras da carta deixada por Wellington, escrever uma outra história em que luvas, casamento, lençol branco, vida eterna e Deus se arranjassem de maneira mais aprazível. Mas fiquei com medo de mexer na matéria-prima que deu origem a esse discurso de morte.

Então, cheio de ideias mas com o coração ainda vazio, me sentindo como uma criança de quatro anos ou feito um sábio já há muito falecido, o que quero mesmo dizer, aliás, repetir é:

— Nada sei.




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sábado, 9 de abril de 2011

INDIGNAÇÃO [Debora Böttcher]

Na semana passada, eu escrevi sobre pessimismo. E sobre o que escrevo hoje depois da tragédia de quinta-feira, no Rio de Janeiro? Nada me vem à mente... Meu coração acelera quando penso nas famílias que perderam suas crianças pelas mãos de alguém tão frio, sem qualquer compaixão - como alguém é capaz de olhar para os olhos de uma criança e atirar contra ela? E repetir isso incontáveis vezes?!

Confesso que nem li ou assisti a todas as informações dos noticiários - é tudo muito terrível e doloroso demais -, mas o que vi e ouvi foi pra lá de suficiente para estarrecer meus sentimentos.

E como especialistas justificam tal barbárie? Pelas brechas da loucura? Afinal, como explicar algo assim? Você consegue? E como é possível que alguém planeje e cometa uma atrocidade desse porte, sem que ninguém ao seu redor se dê conta?

Alguém vai dizer que a 'ocorrência' não é tão rara, quando a gente olha para os casos no mundo - os portais de notícia de hoje anunciam que um homem cometeu algo semelhante num shopping na Holanda. Em São Paulo, há alguns anos, vivenciamos um tiroteio numa sala de cinema e também numa cidade no interior do estado. Alguém pode dizer que são casos isolados no país. Então tá. E mais uma meia dúzia de 'casos isolados', a gente se acostuma com algo que é sem precedentes. É assim mesmo que acontece: o ser humano parece perder a capacidade de se indignar quando algo vira estatística. Vê tudo pela TV e passa a achar notícia banal, miragem, muito longe da sua realidade. Será mesmo?

Minha avózinha nem mencionaria o fim dos tempos ante tanta crueldade. Eu consigo vê-la sentadinha num canto qualquer da casa, impotente para dizer qualquer coisa...

Eu também me sinto impotente... E sem querer incomodar a enorme dor das famílias desses tão queridos inocentes, registro minha raiva, minha profunda indignação, meu horror. E dizer que, NÃO, EU NUNCA ME ACOSTUMO. E você?

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quinta-feira, 7 de abril de 2011

ANTIGAMENTE >> Fernanda Pinho



Por que antigamente tudo era muito mais fácil, mais bonito e mais doce? Porque antigamente é uma ilusão. Cada um cria o antigamente que quiser. Na cabeça de cada pessoa, o antigamente é um lugar diferente no tempo. Cada um escolhe o que quer chamar de antigamente e acontece de sempre escolhermos as partes boas, como quem diz para o presente: "Tá vendo? Você devia ser assim. Fácil, bonito e doce. Como antigamente".

O meu antigamente tem gosto de groselha. Coisa, aliás, que eu não suporto hoje em dia. Mas antigamente não existia para mim nada mais saboroso que aquele líquido bonina engarrafado em recipiente com rótulo da Pantera Cor de Rosa. Pois é, no meu antigamente a gente usava falar "bonina" e costumava, inclusive, ser minha cor preferida (sim, bonina é uma cor. Se você não for de Minas, provavelmente não conheceu essa palavra em época nenhuma da sua vida).

Se a cor era bonina e o sabor era groselha, o cheiro era do álcool que vinha impregnado nas folhas mimeografadas que as professoras distribuíam nas salas de aula. As lembranças do colégio são boa parte do meu antigamente, tempo em que existiam extensas listas de materiais escolares pedindo, entre outras coisas, papel hectográfico (para mimeógrafo) e pasta Brasil (ainda se usa pasta Brasil?).

No meu antigamente, era mais fácil comprar. Com um real dava para comprar o lanche no recreio e ainda sobrava troco pra comprar bala Chita e Ice Kiss, e jogar de grila para os amigos. Jogar de grila era luxo de antigamente. Nunca mais vi ninguém jogando coisas de grila. E se não desse para comprar, ainda era possível trocar. Nem sou tão velha assim, mas no meu antigamente existia escambo. Trocavam-se garrafas vazias por pintinhos. Era uma diversão, até os pintinhos virarem galinhas e perderem o encanto.

No meu antigamente, a gente rebobinava fita antes de devolver pra locadora; chamava Milkbar de Lollo; fazia amigo oculto de agendas da Pakalolo; esperava tocar no rádio nossa música preferida pra gravar em fita K7; Malhação se passava numa academia; na MTV passava clipe o dia todo; toda e qualquer pasta de dente era chamada de Kolynos (sendo que no antigamente do meu pai o certo era dizer dentifrício); e Havaianas era chinelo de pobre.

No meu antigamente, sofrer por amor significava não ser correspondida pelo professor de Geografia, que tinha um Fusca vermelho. Ter muito trabalho para fazer significava passar a tarde tentando montar um QVL (Quadro Valor de Lugar, lembram?) com um pedaço de feltro verde e palitos de picolé. Ter problemas financeiros significava não conseguir juntar dinheiro pra comprar todos os pôsteres do Leonardo DiCaprio. Tudo muito mais fácil, mais bonito e mais doce. Bom o bastante para deixar saudades. Mas não o suficiente para ser melhor que hoje que, por ser o antigamente de amanhã, não deixa de ser fácil, bonito e doce.



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quarta-feira, 6 de abril de 2011

REVOLUCIONAR-SE >> Carla Dias >>

Houve essa noite em que deu de sorrir o sorriso do silêncio, no qual cabem tantas interpretações que me desnorteiam o pensamento. Há exatos quatrocentos e vinte e sete dias eu o observo, assim, o encanto estampado na retina, envolvida por um psicodélico transe de aventuras emocionais.

A minha voz até andou engolida pelo engasgo, por isso venho tomando todo cuidado do mundo para não me calar em falso, porque, às vezes, é preciso dizer o sentimento, mesmo quando o desejo não se apresenta rebelado, nu.

A minha voz emudece diante dele e do seu sorriso eriçado, feito pelo atrevido despontando da pele do esquecimento. Feito rabisco na janela embaçada – a palavra talhada com a ponta do dedo indicador, escorregando ao contrário, que é para que os transeuntes não se percebam desentendidos de si mesmos... E de mim, e da palavra exposta.

Enquanto, dentro de mim, os mil tons não serenam, mesmo diante da reza, da lógica que reverbera os seus motivos, do sonho incandescendo suas faíscas, ele caminha como se a vida jamais fosse lhe cobrar experiência outra que não a de saborear o tempo com a amenidade sua aviltando a pressa nossa.

Eu sinto pressa, confesso. Por mim, já teria roçado as costas da minha mão em sua face. Teria reconhecido a geografia da sua voz ecoando as palavras preferidas, enquanto escolhe as suas próprias importâncias.

Sinto pressa de virar ao avesso esse sentimento.

Enquanto o mundo gira, as cidades crescem, a tecnologia avança, a ciência se descobre, a religião é questionada, aqui estou: há quase quatrocentos e vinte e oito dias – que estou à beira do dia seguinte – só sei observar a arquitetura dos seus gestos, a riqueza da sua presença, o alambrado me separando da sua companhia, enquanto discorre sobre seus voos, que não estão nas cartilhas, nos manuais, nas fórmulas. Não carecem de liberdade, porque dela bebem aos goles.

Há quatrocentos e vinte oito dias eu o penso assim: gente. Não adianta a melhor amiga arrancar o livro da minha mão, escondê-lo entre Física e Geografia, lá na biblioteca. Depois do primeiro parágrafo eu já sabia: seria para a vida toda, e já foram quatrocentos e vinte e oito dias dessa eternidade.

E se eu ando por aí, suspirando por um personagem tão imperfeito que exigiu de mim a capacidade de encontrar nele o que me agradava, desafiava, inquietava é porque tenho pressa, meus caros... Uma porção de pressas, de urgências. E sei que se eu as revelasse, pela necessidade de vê-las livres, elas perderiam o charme, o dengo com o qual caminham pela minha alma, e o sentido, o valor.

Ele avisa que vai sair de cena, agora, já, neste instante. Antes do epílogo, elabora um monólogo sobre revoluções, das menos impactantes às catárticas. Das que envolvem armas às que abarcam paixões. Eu interrompo, desferindo a voz à criação alheia:

Revolucionar por quê?

E então, ele descola o olhar da página e me encara. Olhos dele nos meus, marejados os dele pela emoção que vem lá dos primeiros capítulos.

A quem, minha cara...

Quatrocentos e vinte e tantos dias de paixão desvelada. Enquanto minha revolução interna acontece, mais certeza eu tenho de que somos construídos pela vida com a mesma eloquência de um romancista empertigado fazendo o parto da sua trama. Por mais que se pense que ele tem o controle do que acontecerá, é nas entrelinhas, no entanto, no porém que os personagens são jogados e se tornam independentes... Feito ele, que não é príncipe, não nasceu belo, não tem dinheiro, fama, mas ainda assim, veja bem, revolucionou-se.

E eu no aguardo de a minha revolução ser concluída.

Imagem © Juja Kehl >> www.flickr.com/photos/juja_kehl/

carladias.com



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terça-feira, 5 de abril de 2011

CONSELHOS ÚTEIS >> Clara Braga

Começar um novo relacionamento é sempre muito curioso. Digo curioso porque esse é um dos sentimentos que está sempre presente. A gente está curiosa pra saber como vai ser, curiosa sobre a pessoa, querendo conhecer, estar perto e também ser parte da vida dessa pessoa. E estamos também sempre curiosas para saber se essa curiosidade é recíproca, claro!

Mas outro dia percebi que essa curiosidade não é só de quem está no relacionamento, os amigos que acompanharam os relacionamentos anteriores que não deram certo também querem saber se dessa vez você está com alguém legal, que lhe trata bem e que também quer fazer parte da sua vida de forma que possa lhe acrescentar algo e não lhe empacar.

Dessa curiosidade e cuidado dos amigos, surgem os conselhos. Atire a primeira pedra quem nunca teve um amigo ou amiga que sempre tivesse um bom conselho para dar. E mesmo com aquele ditado que diz que se conselho fosse bom não era de graça, alguns deles são úteis, sim. Normalmente os úteis são aqueles mais básicos, como: tenha paciência, entenda que vocês são duas pessoas diferentes, sempre tente resolver as coisas conversando, aprenda a ceder em algumas coisas, mas não sempre, pois você também tem suas vontades e essas coisas básicas.

Mas por outro lado, tem aqueles conselhos estranhos que nem é bom levar em consideração, como: não atenda sempre que ele ligar, pois você vai parecer muito disponível; quando ele ligar e você perder a chamada, não retorne logo que ver para parecer que estava ocupada; sempre deixe ele saber que você tem um amigo que gosta de você, pois assim ele vai se sentir ameaçado e ver que, se ele não cuidar, vai abrir espaço para a concorrência; e outros conselhos desse tipo.

Foi depois de ouvir alguns desses conselhos doidos que eu aprendi a falar do meu relacionamento para poucas pessoas, só aquelas realmente de confiança, exatamente para evitar que todo mundo dê pitaco. E foi em uma conversa com uma dessas pessoas de confiança que eu ouvi o conselho mais engraçado que eu já ouvi na minha vida e que, por que não dizer, até que faz sentido.

Ela disse: “Clara, nunca compre presente parcelado, porque se o namoro terminar você vai ter que agüentar a nova namorada passando a mão e alisando aquela calça jeans que você nem terminou de pagar ainda!”

Bom, fica a dica.

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segunda-feira, 4 de abril de 2011

CARIOQUICE >> Albir José Inácio da Silva

Marcelo é um carioquinha cheio de carioquice, que não desiste do Rio mesmo sabendo de suas mazelas. Vive dizendo que basta algum tempo de Rio de Janeiro, e nenhuma formalidade, para se adquirir dupla naturalidade: a de origem e a carioca.

Ele esclarece que não é vantagem perder a naturalidade original. Carioquice é um plus ao alcance de todos. Carioca-mineiro, por exemplo, é melhor do que só mineiro, e também melhor do que só carioca. Mesmo quem nasceu carioca, pode ser carioca-carioca, da mesma forma que cristão nasce pagão e precisa de batismo.

Marcelinho tem quinze anos e vive oferecendo sorrisos e cumprimentos em inglês macarrônico e portunhol. Gosta de ajudar quando vê um gringo de mapa na mão e cara de perdido, mas rejeita moedas.

Ele sabe que tem gente que merecia perder a carteirinha de carioca. Estes, além de não acrescentar carioquice a suas vidas, sofrem de xenofobia. São incapazes de entender que ninguém consegue ser carioca sozinho. Nasceram no Rio, mas não percebem que este lugar foi feito por todos. Não sabem que o carioca cria sua cidade ao mesmo tempo em que é criado por ela.

Marcelo diz que o Rio é dele, sim, como é dos outros. Ele se emociona com todos os sotaques, e distribui abraços só para completar o gesto do Cristo Redentor.

Mesmo agora que os bueiros de Copacabana se transformaram em minas, com carros, turistas e cariocas voando pelos ares, Marcelo não se abate. Considera episódicas as explosões. Jura que nossas concessionárias de luz e gás não são inimigas, e que a cidade não está sendo atacada.

O menino tem orgulho das lembranças que a cidade evoca. Lembranças até para aqueles que nunca estiveram aqui, mas andaram pelas ruas do Rio com Machado de Assis, Lima Barreto, Rubem Braga, sem falar dos poetas, compositores e outros apaixonados.

Marcelo tem razão. Claro que precisamos desarmar os bueiros e educar os maus cariocas. Mas venham... o Rio é bom apesar dos pesares.

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domingo, 3 de abril de 2011

LISTA DE DISSABORES
CAPAZ DE ESTRAGAR UM DIA
>> Eduardo Loureiro Jr.

"Na boca da noite, na beira do mato, os grilos são astros." 
(Rosinha de Valença)

Estava eu aqui asfixiado, com falta de inspiração para minha crônica semanal, quando li a bela coluna de aniversário de meu querido amigo acreano Marcos Afonso.

Além da genial analogia do ano como sendo uma volta em torno do sol (como é que eu, sendo astrólogo e escritor, não havia pensado nisso antes?), chamou-me a atenção inspirativa o seguinte trecho: "Quero me planejar para chegar aos 50 (o pós-metade-século) sabedor sereno de minhas dores, talvez amigo de algumas. Tanto que já fiz uma lista, com profundidade e sutileza, daquilo que hoje me irrita muito, ao ponto de estragar um dia".

Meu amigo escritor aniversariante, não sei se por vergonha de si ou se para não aborrecer o leitor, omitiu do texto os itens de sua "listinha da chatice" ou "lista de dissabores". Eu, como meus leitores frequentes já sabem, sou um tanto desavergonhado e aborreço meu leitor, não raramente, sem muitos dramas de consciência. Então resolvi publicar a minha pequena — ou grande, sabe-se lá — lista de dissabores capazes de estragar um dia.

Repare o leitor que não escrevi minha lista previamente, decidindo publicá-la posteriormente. Faço tudo junto. Escrevo minha lista direto na janelinha de edição do blog, a um clique de torná-la visível para os meus assíduos e eventuais leitores.

O leitor está preparado para tamanha aventura?

Pois eu não estou, mas não me resta alternativa já que não tenho outro assunto para esta crônica e ainda tenho que ir ao mercadinho e comprar os ingredientes para preparar o macarrão dominical. Então vamos logo com isso sem mais delongas ou pudores.


LISTA DE DISSABORES CAPAZ DE ESTRAGAR UM DIA
- Acordar com um barulho não esperado: telefone estridente, batida de porta, vizinho esgoelado, carro com escapamento furado.
- Receber uma cobrança — ou mesmo um pedido —, verbalmente ou por escrito, logo após acordar.
- Ter que decidir alguma coisa logo após acordar.
- Ter que ___________ (qualquer coisa, qualquer verbo — o leitor pode preencher à vontade) logo após acordar.
- Encontrar louça não lavada na pia da cozinha.
- Abrir a tampa do cesto de lixo para colocar um papelzinho e encontrar o cesto cheio até a tampa.
- Ligar o computador e descobrir que não há conexão com a internet.
- Ter que fazer alguma coisa chata quando tenho alguma outra coisa interessante para fazer. E, para que o leitor não me acuse de estar sendo abstrato, dou um exemplo: ter de ir a um compromisso social em vez de ficar em casa ouvindo música.
- Ouvir uma pessoa falar banalidades por mais de cinco minutos.
- Ouvir uma pessoa se lamentar, se lastimar, se lamuriar, se queixar, se vitimizar.
- Ouvir uma pessoa acusar, maldizer, censurar, recriminar, culpar outra pessoa.
- Ouvir uma pessoa quando eu quero ouvir Clara Nunes cantando.
- Ter de fazer, com urgência, algo que é resultado da irresponsabilidade de outra pessoa.
- Vestir uma calça e ela estar mais apertada.
- Chegar ao parque para me exercitar e o relógio público estar quebrado.
- Pegar qualquer fila em que eu demore mais de dois minutos para ser atendido.
- Congestionamento de automóveis.
- Lembrar que amanhã vou viajar.
- Dormir com hora definida para acordar.

O leitor deve ter percebido que meus dias são muito facilmente estragáveis. Eu bem que poderia embalá-los em caixas com os dizeres: CUIDADO: ESTRAGÁVEL. Mas isso só aumentaria minha lista:

— Ter meu dia estragado por alguém descuidado que sabe que meu dia é facilmente estragável.

Então deixemos a lista como está.

Reparou bem o leitor no título da lista e da crônica? Se os dissabores são CAPAZES de me estragar o dia, a lista inteira é CAPAZ de estragar o domingo do leitor. E fique você à vontade para incluir em sua própria lista de dissabores uma pequena "homenagem" a este mal-humorado cronista: - Ler uma crônica desaforada do Eduardo.




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HOMEM-AVENTURA >> Eduardo Loureiro Jr.

Não sou homem de dar o bis — nem no sexo, que dirá em coisas banais como crônicas e canções. Mas eis que terminada a crônica dos dissabores, descubro que é o aniversário do Arthur — assim com H, coisa de antigas realezas.

Arthur nasceu quando eu tinha catorze anos e meio. Enquanto ele mamava, eu me aventurava pelas ruas de Fortaleza, gozando da liberdade recém-adquirida de andar de ônibus e assistir a filmes censurados. Um tempo maravilhoso aquele de caminhar pelas ruas do centro da cidade de mãos dadas com minha juventude. Tempo também maravilhoso deve ter sido para Arthur, se alimentando na fonte bonita e gargalhante de sua mãe.

Arthur não tem idade para ser meu colega, filho ou aluno. Nasceu para ser só um primo de terceiro grau. Mas foi se chegando pelo amor hereditário que sentimos por algumas pessoas: amor por tio Cícero e tia Ângela, que se transformou em amor por sua filha Hebinha, que virou amor por seu filho: Arthur.

Embora seja também gente — de carne e osso, sorriso bonito, abraço gostoso e olhos animados —, Arthur é principalmente uma lenda. Filho nascido da mãe Hebinha, filho ainda mais nascido da Mãe Natureza. Dizem alguns que, nesse momento, vive pela Amazônia entre índios e bichos e crianças que se penduram em seu pescoço feito lindos macaquinhos. Contam que já atravessou o Brasil de bicicleta, plantando e colhendo amigos em dias ensopados e noites estreladas. Juram que não descansará nunca e que não morrerá como qualquer um de nós: virará índio, bicho, criança, árvore, poeira, estrela.

Pelas aventuras que a gente vê e ouve, dá para imaginar as aventuras que ele vive não no espaço aberto deste planeta, mas no universo em expansão de seu coração. Seus sonhos, com certeza, são vias-lácteas nas quais ele mama, mudo e encantado. As imagens dos seus desejos pulam, saltitantes, os buracos negros de seus medos. Explodem supernovas em cada batida de seu peito.

Bem-aventurado Arthur, cheio de histórias para contar. Talvez um dia ele conte a história de um menino, ou menina, nascido da mulher que ele amou, e que terá também, hereditariamente, o meu amor.

Homem-aventura, neste aniversário, te desejo bons adversários. Mais que um trocadilho, menos que uma maldição. Afinal, se não fosse pelos adversários, que seria das tuas aventuras?

Vá vivendo, vá se aventurando, vá pelejando... e venha nos contando.

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sábado, 2 de abril de 2011

PESSIMISMO COTIDIANO [Debora Bottcher]

Nos últimos tempos, as notícias dão conta apenas de tragédias: tsunamis, terremotos, enchentes, deslizamentos de terra, assaltos, assassinatos, sequestros, falências, suicídios, corrupção, guerras, doenças, destruição ambiental, separações - a lista é interminável e o mundo parece um território de desolação em seus quatro cantos.

Atualmente, morando numa pequena cidade nos arredores da capital, em dias em que tenho que ir a São Paulo (hoje, por exemplo), sinto um curioso desconforto, quase um medo.

Beira como uma constante sensação de sobressalto, como se algo estivesse à espreita, pronto pra acontecer ao menor descuido. E a ilusão maior é pensar que, estando atentos, poderemos evitar o eventual mal...

A verdade é que não estamos seguros em nenhum lugar - no máximo em casa, às vezes nem nela! - e isso incomoda um pouco. A liberdade de ir e vir anda totalmente cerceada - nem mesmo nos shoppings, em outras eras considerados intocáveis, as pessoas conseguem se sentir tranquilas atualmente. E quando você ouve no noticiário que um rapaz que estava casualmente lendo um livro numa livraria é alvo de um louco que o ataca sem razão com um taco de beisebol, fica impossível relaxar.

Minha avó diria que esses são sinais do fim dos tempos. Eu, uma pessimista nata, acho mesmo é que o mundo todo se desgovernou, perdeu o eixo, se desorientou. E que, me perdoem, isso tudo que se escancara, ainda não é o pior - assistiremos coisas ainda mais terríveis.

A nova (e bonita) propaganda da Coca Cola, que anda circulando na TV, mostra alguns exemplos de otimismo, e termina dizendo que 'os bons ainda são maioria'. Acho muito válida (e necessária) essa exaltação ao bem, e tento me convencer de que a mensagem não é só fundo de 'comercial margarina', mas meu coração continua batendo fora de compasso toda vez que me pego lendo, ouvindo ou assistindo sobre os acontecimentos cotidianos. E quando a gente ouve alguém comentar que, nos dias de hoje, é até compreensível alguém se suicidar, pensa que há mesmo algo muito errado com tudo...

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sexta-feira, 1 de abril de 2011

O SILÊNCIO TANGE O SINO:
UM LIVRO QUE SE ANTEPÕE AOS ALARDES
>> Leonardo Marona

(Ateliê Editorial, 2010, 80 p.)

Toda a infelicidade dos homens
nasce na esperança.

(Camus)


Depois do grito, vem o silêncio. Mariana Botelho é a primeira pessoa que entendeu a expressão de forma poética. Pelo menos, é ela a primeira pessoa que fez isso para mim. Porque outros, talvez, me causassem a mesma sensação: Paul Celan, Tsvetaieva, Georg Trakl. Mas destes podemos dizer: muito bem, estão no centro do mundo, passaram por guerras concretas, anunciadas pelo rádio, por bombardeios, e o silêncio deles é, na verdade, o silêncio de quem morde um pano para não gritar. Mariana gritou em volume altíssimo, depois sentou para escrever o que restou deste grito. Porque para fazer com que o silêncio diga algo – e o silêncio só poderá dizer algo que seja fundo como o fundo do oceano – é preciso antes ter havido uma rachadura, como diz Mariana, um corpo feito de aberturas / onde / silêncios entram / saem / como águas de longe, uma rachadura profunda onde chegará o silêncio, onde o silêncio por fim ecoará através da experiência prévia do barulho, e dentro de nós este será um silêncio trêmulo, não um silêncio que diga "veja quanta paz!", mas um silêncio que envergonha a paz e geme feito bateria descarregada depois da ultracarga insuportável: nosso silêncio / e enfim / o colhemos // maduro // mas não domesticado. É um silêncio mais raro que vem dos sopros leves de Mariana: “pássaro de pedra, num voo de morte”. Ela conhece o engano do mundo, o falso-apaziguado em cada um de nós. O mundo todo mente / quando faz silêncio // essa paz não existe. Ler Mariana é se deparar com nossas próprias vergonhas: vergonha de não ser verdadeiramente, de não saber pertencer à paisagem, de não seguir o ritmo das águas. Mariana, quando nasceu, causou no chão duro do Jequitinhonha uma rachadura, e nessa rachadura depositou sua lágrima original. E a poesia nada mais é do que uma lágrima original dentro de uma rachadura.


O mais estranho é imaginar que estou aqui, tentando escrever sobre o impacto de um livro de poemas, e que, ainda por cima, sei que o poeta que escreveu esses poemas também está fazendo alguma coisa, neste exato momento. Será um novo poema? Pouco provável. Mesmo sem conhecer Mariana pessoalmente, tendo falado com ela algumas vezes através da tecnologia moderna, imagino que ela agora esteja fazendo algo minucioso, algo que se exploda num espaço pequeno, algo que, achatado pelo gigantismo de pertencer, nos abala em frases proféticas. Por exemplo, ela pode estar enxugando a louça, tirando as roupas brancas do varal. E que sorte teria essa louça! Como seriam bem acolhidas as roupas do varal! Para alguém como eu, que vivo no caos, fico calmo no caos, me atiço no caos, ver um pouco do que poderíamos chamar de “relação honesta com a natureza do espaço” é quase como um homem, cuja perna se despedaçou na explosão de uma bomba, ver chegar a ambulância. E as visões mais turvas da nossa alma, aquilo que a preenche, em suma, ganha a força de uma profecia. E a profecia em Mariana Botelho é algo que se dá pela força da constância plácida, da indiferença em relação às carrancas afetadas do desespero terreno. E ela sabe que quando alguma coisa produz silêncio / ela está / pronta.


Agora, nada é calmo ali, eis a contradição saudável: o silêncio agitador. Imaginem um tsunami, desses que matam pessoas, varrem civilizações. Olhem bem para ele, a maneira como passa quase em câmera lenta, um bloco d’água quase estático, numa velocidade tão segura que não precisa de muito torque. É algo que passa, independentemente de nós, mas é tão elegante, ritualístico, sem exageros, que quase nos sorri, quase nos explica alguma coisa que, no fundo, não podemos entender, porque esperneamos, porque gritamos e somos loucos, porque para sentir amor precisamos atiçá-lo, e por milhões de outros torpes motivos que nos impede de, bem no fundo, por mais que tudo esteja perdido e seja tudo uma injustiça, poder odiar o tsunami, porque ele é um aviso antigo, a comunicação mitológica de uma linha interrompida.

Desculpe, Mariana, minha tendência aos exageros mais toscos. Mas quando leio os teus textos me parece que existe uma harmonia natural entre as palavras, algo que, sem metáforas, arrancaríamos como blocos das paredes milenares, das grutas submersas, e faríamos apenas emergir a palavra eterna. Você mesma – eu mesmo, de certo modo, agora – deve imaginar como é possível que exageremos tanto. Mas se formos mais além e pensarmos mais a fundo, veremos que o exagero da alma, causado muitas vezes por contenções latentes, é a maior dádiva que a arte pode criar. E nada nos deixa mais conscientes de estarmos vivos do que a dor.





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