quinta-feira, 31 de março de 2011

POR QUE NÃO A AMIZADE? >> Fernanda Pinho

“Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores. Mas enlouqueceria se morressem meus amigos”, Vinicius de Moraes.


Responda rápido: quantas músicas brasileiras você conhece que falam sobre a amizade? Se você for esperto, certamente se lembrou de Canção da América, de Milton Nascimento e, quem sabe, de Amigo, que Roberto fez para Erasmo. Se for um pouco desligado, talvez nem isso. E se for muito esperto, talvez tenha se lembrado de mais umas duas ou três – que eu não sei quais são, porque não sou muito esperta. Mas vamos tentar outra questão: quantas músicas brasileiras você conhece que falam sobre o amor? Agora, sim, tenho certeza de que sua cabeça está fervilhando, mesmo se você for o mais desligado dos mortais.

Chega a ser impossível responder. É como tentar mensurar quantas estrelas tem no céu ou quantos litros de água há nos oceanos. Porque o amor é assim. Lembrado em atacado. Propagado em massa. Festejado em larga escala. E não por um acaso. O amor, esse, entre casais — o preferido das músicas, dos filmes, das novelas e dos livros — é bom demais, todo mundo tem, já teve ou quer ter um. Ter um amor verdadeiro é quase tão bom quanto ter um amigo verdadeiro. Quase. Porque se o amor é o frenesi, a amizade é o porto seguro. Se o amor é pular de bungee jump, a amizade é caminhar de mãos dadas. Se o amor é a dúvida constante, a amizade é a certeza eterna. Se o amor é o protagonista, a amizade é a coadjuvante. E essa última parte, para mim, não faz o menor sentido.

O mundo inteiro já ouviu falar em Romeu e Julieta. E posso apostar também que o mundo inteiro já ouviu falar em Dom Quixote e Sancho Pança. Agora, experimente questionar sobre a história dessas duas duplas. Tenho certeza de que a de Romeu em Julieta está na ponta da língua de nove entre dez pessoas (não digo dez entre dez, porque há sempre um desinformado para avacalhar as estatísticas). Já a história de Dom Quixote e Sancho Pança, pouca gente vai saber contar. Culpa de Cervantes que ficou menos popular que Shakespeare? Desconfio que não. É que Romeu e Julieta eram amantes, e Dom Quixote e Sancho Pança, amigos. E, ao que parece, amizade não dá Ibope. Para que propagar a relação de amizade e cumplicidade entre Sherlock Holmes e doutor Watson se saber que eles são uma engenhosa dupla de trabalho já é o bastante? E talvez seja melhor assim. Se a amizade é demais, já começa a levantar suspeitas. Que o diga Batman e Robin. Coitados, até hoje estão explicando que são “apenas bons amigos”.

Aliás, eu acho esse negócio de “apenas bons amigos” um abuso. Como assim “apenas”? “Apenas” implica em pouco, em falta, em insuficiência. É como se ser amigos não fosse o bastante, não fosse o máximo, não fosse tudo e mais um pouco! Acho uma palhaçada quando vejo algum suposto casal famoso desmentindo o romance com esse papo de “apenas bons amigos”. Como assim? A amizade é que deveria ser pauta, motivo para matéria de capa e chamada em todos os sites. “E aí, é sério que surgiu entre vocês uma amizade verdadeira?”, perguntaria a repórter do programa de fofocas. “Não, não. Amizade é muito. Somos apenas bons namorados”, desmentiria o galã. Isso, sim, faria sentido. Mas em um outro mundo. Um mundo em que as pessoas entendam que é mais fácil furar um buraco no quintal e sair petróleo que encontrar um amigo de fé, irmão, camarada. Tipo aquele do Roberto.


[Este texto faz parte do livro "CARTAS AOS MEUS AMIGOS E OUTRAS HISTÓRIAS DE AMIZADE", que reúne contos e crônicas escritos por mim e por Laís Bastos e Maria Samara — minhas amigas, claro. Quem tiver interesse, pode adquirir um exemplar clicando AQUI.]


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quarta-feira, 30 de março de 2011

SAUDADE & VOZES >> Carla Dias >>

Às vezes, me dá uma pane danada olhar o mundo tão de perto. Folhear jornais ou apreciá-los na tela do computador, da televisão. Consultar formulários, desenvolver projetos, criar rotas de fuga, alinhar a diplomacia com a loucura do diariamente.

Outro dia, senti saudade da caminhada do ponto de ônibus até a biblioteca, e do cheiro dos livros, das mesas onde os colocava e folheava por horas, antes de decidir quais cinco eu levaria para casa, para passar uma semana comigo. Senti saudade da sensação notória de que minha vida seria completamente diferente, depois de ler aquelas histórias.

Sentir saudade faz parte da vida, eu sei, mesmo que seja saudade de si mesmo, de quem foi há cinco dias, sete horas, dois segundos, até de quem será. E sentir falta de quem será me lembra desistir do desejo, antes que ele nos soque no estômago, e se torne completamente inesquecível.

Eu sou boa com vozes, reconhecendo-as com mais facilidade do que a fisionomia. Nos meus pensamentos, ainda moram as vozes de muitas pessoas que já se foram daqui para outros lugares do planeta, ou daqui para outra dimensão. Porém, esta é apenas uma maneira de carregar outras pessoas conosco.

O dia em que me dei conta de que as pessoas moram na gente, senti-me intrigada demais. É a gente que abre a porta? Ou elas escancaram com qualquer tentativa de privacidade existencial? O que sei é que, vez e outra, essa casa que é meu dentro se enche de pessoas e suas vozes peculiares. E que, quando leio minhas próprias palavras, em silêncio, a voz que escuto na minha cabeça não é a minha.

Minha voz é a uma das que não consigo identificar e reproduzir em pensamento. Será que sou tão sem intimidade comigo mesma?

Andava com saudade de algumas vozes, elas que deram de me atulhar os pensamentos, em horário comercial, desviando minha atenção dos relatórios, orçamentos, fichas cadastrais. Minha sobrinha contando histórias, minha avó materna insistindo que escreveria para a Porta da Esperança para pedir uma bateria para mim, e eu horrorizada com isso. A amiga contando a trama do seu próximo romance, meu avô paterno falando sobre a saudade que sentia da minha avó. Minha mãe dizendo ‘bom dia’ ao chegar em casa do trabalho. O amigo desfiando o desejo de ser pai, contando sobre sua filha, isso antes de ela chegar ao mundo. Meu irmão contando sobre a sua primeira aula de violão, o moço dizendo coisas no meu ouvido, a amiga doendo o fim de um relacionamento, o sobrinho, menino de tudo, chamando a mim de amore mio.

A impressão que tenho é que o dentro da gente é uma ampla sala de estar. E nela entram todos os que amamos, e lá eles vivem, e suas vozes entrelaçadas entoam essa canção que carregamos vida afora, a canção dos nossos afetos.

Imagem: Joan Miró

carladias.com

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terça-feira, 29 de março de 2011

PRECONCEITOS A PARTE... >> Clara Braga

Eu acredito que todo mundo é um pouco preconceituoso, não dá para assumir facilmente porque, bem ou mal, ser preconceituoso é uma coisa muito feia, mas no fundo, no fundo, todo mundo tem preconceito com alguma coisa, por menor que ele seja.

Eu, quando era menor, tinha um preconceito muito grande em relação a terapeutas. Achava muito esquisita toda essa conversa de contar meus problemas e dilemas a uma pessoa completamente estranha. Sem contar que, para mim, terapeuta era uma pessoa que tinha passado alguns anos na faculdade, se matando de estudar, para depois passar o resto da vida ouvindo problemas alheios. Pode ser normal uma pessoa que quer viver disso?

Quebrada a barreira do preconceito, resolvi começar a fazer terapia. Me indicaram uma moça que era terapeuta, iridóloga e acupunturista, tudo ao mesmo tempo. Achei exótico, diferente. Ela ia olhar meu olho e saber uma parte dos meus problemas sem eu ter que contar? Bom, vamos ver se isso existe mesmo ou é mais um caso para o Mister M.

Primeira sessão. Impressionante. Ela descobriu que eu tinha dores de cabeça diariamente. Ah, Mister M, como ela fez isso? Não sei, mas sei que, após descobrir qual era o problema, chega a hora de tratá-lo, e lá íamos nós para as agulhinhas. Acabou que a parte da terapia mesmo, de conversar, ficou longe, mas pelo menos eu deitava ali e tirava um cochilo enquanto aquelas músicas de relaxamento tocavam.

Aquilo era diferente, e logo de começo pareceu tão misterioso que aguçou a curiosidade e eu saí falando dela para todo mundo. Em pouco tempo, amigas e uma boa parte da minha família já estavam indo lá. Isso começou a me incomodar e me lembrei do meu preconceito. Não podia me deixar levar pela curiosidade, afinal que tipo de terapeuta era ela que atendia um monte de gente da mesma família? Ela já não dava muita atenção mesmo para a parte da conversa e eu comecei a não me importar com isso, tinha era medo de contar algo e ela contar para todo mundo da minha família.

O silêncio permaneceu até o dia em que ela resolveu falar que talvez soubesse de onde vinha aquela minha dor de cabeça. Já que eu acredito em reencarnação, ela podia me contar. Em outra vida eu devia ter sido índia e morri com uma flechada na cabeça e minha dor de cabeça era um reflexo dessa flechada de outra vida. Muito bonito isso, se estivessemos falando da novela das seis.

Depois disso, ela perdeu vários clientes e com certeza deve se perguntar até hoje o porquê. Mas, enfim, ela deve se contentar com a explicação de que em outra vida ela deve ter sido serial killer e carrega essa energia com ela até hoje, o que acaba afastando os clientes.

Ah, a dor de cabeça? Passou, descobri depois com um médico de verdade que era rinite alérgica por causa de ar-condicionado. Agora me diz se ter preconceito às vezes não é válido?

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segunda-feira, 28 de março de 2011

O PULO >> Kika Coutinho

Eu estava sentada na minha mesa de trabalho, o ambiente era frio e silencioso. Diante de mim, uma planilha do Excel, lotada de números e fórmulas. Eu estava tão concentrada, tão imersa nessa placa de gelo que é uma planilha no Excel, que nada teria me tirado do transe, nada, exceto o que se deu na sequência.

Entre uma fórmula e outra, bem quando eu tentava achar um cálculo, num instante, senti um tremor dentro de mim. Um micro, mini tremor que vinha do meu ventre, logo abaixo da minha barriga, que começava a apontar nos meus quatro meses de gestação. “Uhh!”, falei num misto de suspiro e susto, pondo a mão na barriga. “O que foi?”, perguntou a colega do lado, virando-se para mim. “Mexeu.”

Um silêncio ecoou no espaço. Eu repeti, sorrindo numa emoção quente: “Meu neném mexeu!”.

“Ahhh, que legal!”, ela se aproximou de mim, também pondo a mão em meu ventre: “Deixa eu sentir?”

E ele mexeu de novo. Num segundo, senti meus olhos ficando quentes, as lágrimas brotando, volumosas. “Ai, desculpe”, eu dizia sem graça, num misto de culpa e orgulho, “é que foi a primeira vez... tão emocionante”. Alguém me trouxe um lencinho, outra perguntou de longe, outro que esticava o pescoço lá na frente:

— O que foi? o que houve?

— O neném dela mexeu! — explicavam, compartilhando gentilmente minha emoção.

Alguém ria, alguém comentava, alguns cochichavam enquanto eu me levantei, assoando o nariz, e proclamei com a força e a coragem das grávidas:

— Gente, tô grávida, tô explodindo de hormônios e meu neném mexeu, deixa eu chorar, pô!

E um gritou que podia, sim, chorar, outro sorriu e alguém aplaudiu, incentivando a emoção naquele ambiente gélido.

Logo um grupinho se mobilizava e falava do milagre, do pequeno milagre cotidiano de um neném crescer e pular na barriga de sua mãe.

E foi assim, numa tarde gelada de março, que Deus achou mais um jeito de mostrar que, em meio a planilhas e burocracia, ali mesmo, numa competitiva máquina de fazer dinheiro, Ele pode brotar um enorme milagre, tão enorme e tão cotidiano que nos desconcentra a todos, nos encanta, nos move e faz a vida girar e continuar, há milhares e milhares de anos.

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domingo, 27 de março de 2011

POUCO É MUITO >> Eduardo Loureiro Jr.

Muita coisa pode acontecer em trinta minutos, ou menos.

Relações sexuais, por exemplo, em sua maioria, acontecem em menos de trinta minutos, muitas vezes já incluindo as preliminares.

Um balde de pipoca leva menos de trinta minutos para ser preparado e comido. Tudo bem, um pouquinho mais, considerando que há de se lavar a pipoqueira.

Uma volta no Parque Olhos d'Água, de Brasília, ou um trecho de caminhada na Raul Lopes, em Teresina, dura menos de trinta minutos, embora seja difícil se contentar com apenas uma volta ou trecho. (Ah, leitor... Você só pensa naquilo, é?)

Um bom banho não chega a trinta minutos, e o planeta agradece.

As palestras do TED, muitas excelentes, duram todas menos de meia hora. E fazem pensar em todo o tempo que se perde em escolas.

Menos de trinta minutos é o tempo limite para estar dentro de um carro sem ser num engarrafamento ou numa viagem. Após trinta minutos, o que é transporte vira prisão.

Um filme tem que agradar em menos de trinta minutos, senão não vale a pena ser assistido por inteiro.

Não se deve tolerar um atraso por mais de trinta minutos. A paciência só cabe folgada em meia hora.

Nossa vida se tornaria intolerável se não pudéssemos fazer coisas que só podem durar menos de trinta minutos: beijar, urinar, cortar unhas, sorrir... Tudo isso pode até se repetir após necessárias pausas, mas há que ser relativamente breve a cada vez. Menos é mais. Pouco é muito.

Claro que muita coisa boa pode acontecer em mais de trinta minutos, com mais qualidade, beleza, satisfação e preciosidade — embora eu não esteja me lembrando de nada desse tipo no momento. Mas, seja o que for, tem que dar uma boa e convincente amostra grátis em menos de trinta minutos.

Esta crônica, por exemplo, ninguém a aguentaria por mais de meia hora. Eu mesmo tratei de me livrar dela em vinte e três minutos.

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sexta-feira, 25 de março de 2011

CONFLITO PÓS-MODERNO
>> Leonardo Marona

uma coisa estranha, entre tantas, acontece
comigo agora, perto da noite, diante do breu,
deito-me sozinho e me dou conta, pasmo,
de que não consigo dormir sozinho, como
quando éramos crianças, penso me girando,
procurando o travesseiro, então dou risada,
mas no fundo choro, porque, nu na cama,
percebo outro problema mais grave: já não
posso mais acordar acompanhado, melhor,
posso até acordar, mas me dêem uma hora
de sono, desde que acorde sem ninguém
ao lado e farei meus polichinelos, esticarei
a coluna, estalarei os ossos e assobiarei
junto aos passarinhos, brindarei ao novo dia,
enquanto que, se me derem doze, quarenta
horas de sono-pedra ao lado de um amor,
por mais amoroso que seja o amor, e ele é
sempre o mais amoroso enquanto é nosso,
eu não conseguirei me mexer no outro dia,
reclamarei das juntas, até dos passarinhos,
tudo, talvez, porque ao lado do nosso amor
sentimos ganas de dividir o que há de pior,
enquanto que sozinhos, quem sabe, não há
o que fazer a não ser permanecer vivo, e sem
outro para ver nossas caretas, resta sorrir,
porque afinal não podemos, da cama, ver
nossas próprias caretas, que coisa estranha,
que dilema atual: não poder dormir sozinho,
e não admitir poder acordar acompanhado.


http://www.omarona.blogspot.com/

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quinta-feira, 24 de março de 2011

DECLARAÇÃO UNIVERSAL
DOS DIREITOS DA MULHER COM TPM
>> Fernanda Pinho



Preâmbulo

Considerando as alterações hormonais que afetam as mulheres durante os dias que precedem o período menstrual, e seus consequentes transtornos psicológicos e sentimentais, fica estabelecido que:


ARTIGO I

Toda mulher em dias de TPM tem direito a comer uma caixa de bombons inteira (não ouse se aproximar da caixa) e a tomar leite condensado direto na lata. E que isso não implique em alterações na balança.

ARTIGO II

Toda mulher em dias de TPM tem direito à preferência no trânsito; a encontrar todos os sinais abertos; a receber passagem dos outros motoristas; a encontrar vagas sem que haja necessidade de baliza; e a não ouvir nenhuma buzina — salvo em casos de buzina utilizada como ferramenta de paquera.

ARTIGO III

Toda mulher em dias de TPM tem direito a deitar a cabeça no colo da mãe e chorar de medo de qualquer coisa. Exatamente como fazia aos cinco anos de idade e acordava com pesadelos.

ARTIGO IV

Toda mulher em dias de TPM tem direito a recusar ligações de clientes insuportáveis; a chorar na frente do chefe, caso seja repreendida; a manter-se muda durante as reuniões; podendo, em casos mais graves, até receber o dia de folga. Sem que isso interfira no seu futuro profissional.

ARTIGO V

Toda mulher em dias de TPM tem direito a dizer que está gorda; que está cheia de fios brancos; que o cabelo está um desastre; que sua pele está um lixo; que suas celulites de multiplicaram como Gremlins. Desde que NINGUÉM concorde com ela.

ARTIGO VI

Toda mulher em dias de TPM tem o direito de se abster da obrigação de dizer "bom dia", "bom tarde", "boa noite", “por favor”, “com licença”, sem ser taxada de grosseira e mal-educada.

ARTIGO VII

Toda mulher em dias de TPM tem o direito de esquecer: esquecer o aniversário de um parente, esquecer de pagar uma conta, esquecer de ir ao dentista, esquecer de enviar um orçamento, e outras coisas que agora esqueci (estou no meu direito).

ARTIGO VIII

Toda mulher em dias de TPM tem direito a estourar o limite do cartão de crédito comprando sapatos que não fazem seu estilo, roupas que só usaria se fosse convidada para uma festa brega, bolsas que custam uma fortuna, embora não acomodem nem um celular. E que nada disso conste na fatura do mês seguinte.

ARTIGO IX

Toda mulher em dias de TPM tem direito a reclamar com o namorado de qualquer coisa da qual já tenha reclamado um milhão de vezes; a chorar por causa dele; a chorar no telefone com ele; a não atender as ligações dele; e até a terminar com ele. Desde que, passado o período, ele finja que nada disso aconteceu.

ARTIGO X

Toda mulher em dias de TPM tem o direito de fazer com a sua TPM o que bem entender: um dramalhão mexicano, uma tragédia grega, uma comédia pastelão, uma crônica, que seja. Desde que isso lhe renda elogios, para que não fique traumatizada e inibida de escrever para todo o sempre.




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quarta-feira, 23 de março de 2011

NUDE >> Carla Dias >>


Thou merely, at the day's last sigh,
Hast felt thy soul prolong the tone;
And I have heard the night-wind cry
And deemed its speech mine own.
Dante Gabriel Rossetti



Não tenho os olhos azuis de céu, tampouco a imensidão do Mediterrâneo. A pele já me cobra o tempo, na sua moeda mais requintada, ao mudar a tatuagem de mim na fotografia sem se ater aos meus medos. Assim como o dia, ando com minhas variáveis, mas do jeitinho que o Vinícius de Moraes rezou: de manhã escureço / de dia tardo / de tarde anoiteço / de noite ardo.

Posso dizer, numa rara certeza, que eu ando bagunçada.

Andei lendo, assistindo, presenciando a vida de personagens. Até o mais plausível ser humano carrega o palco nas costas, não? Todos nós representamos papéis, remendamos a realidade, com delicadeza ou desprezo. Porém me veio uma dúvida, daquelas mais caóticas não há: sou eu aqui o personagem ou a pessoa? Devo sentir no presente ou pretender no pretérito imperfeito dos sonhos inacabados?

Falando em sonhos inacabados, folheei o meu diário imaginário e apertei DEL em quase todos os que estavam na minha lista de desejos. Isso porque me disseram, mas com uma eloquência deslavada, portanto tive de aceitar o dito, que sonhos inacabados não são irrealizáveis apenas por diversão do destino. Cabe aí um tanto de preguiça emocional do seu autor. Senti-me tão culpada, mas das culpas afobadas, derradeiras, que resolvi limpar meu baú de sonhos como se limpasse as gavetas dos armários, e sem direito a separar os sonhos recicláveis. No final do dia, só me restava esse nada que tendemos a evitar.

Des-evitei-o.

Despido da gentileza caricata, das que precedem as ofensas, um amigo se declarou certo de que sou louca que só. Em outro momento, eu apenas sorriria e aceitaria o cargo, porque acredito que a loucura, na sua forma metafórica-quase-física, sempre tem algo interessante a declarar. Mas era dia de arrumação interior, e tirar pó de descabimento era uma das minhas funções. Então, dessa vez eu solicitei, olhar marejado de expectativas previamente evitadas, o conhecimento.

Louca de quê?

Bem antes desse dia, alegaram, durante uma conversa informal, que eu era boa companhia por ser divertida. Lembrei-me de uma colega do curso de inglês que vivia dizendo isso. Ela ria das minhas ironias, e elas quase sempre eram tão doloridas, porque já é sofrido demais para mim o dizer palavras no meu idioma, o que dirá em um que não é o meu. Mas ela ria, como se eu tivesse contado uma piada, e eu não sei contar piada, tampouco me lembro das piadas que me contam. Mas eu não sei por que eu me sentia bem com aquilo. Sentia-me normal, mesmo cansada de saber que essa coisa de ser normal é conversa jogada fora.

Definitivamente, eu não sou muitas coisas, e divertida não é uma delas. Mas eu sou, sem dúvida, das que se sentam à beira dos abismos particulares e também dos alheios. E, quem sabe, olhando de fora, isso pareça divertido.

Ele sorri miúdo, aperta os lábios, como se quisesse resgatar as palavras ditas, desdizê-las. Talvez não esperasse se prolongar em explicações. Eu sorrio largo, sentindo os músculos da face, como se eles estivessem em uma aula de ginástica, após séculos de sedentarismo. Então, ele diz que me acha louca porque sou das que enamoram jardins estéreis. E que ao invés de vender a terra onde eles se encontram, fazendo lucro, permitir aos prédios que se estabeleçam e ganhar um pouco de sossego, quem sabe até abrir espaço para a companhia que queira ficar, eu compro buquês para enfeitar a terra, como se dela tivessem nascido crisântemos, girassóis, azaléias... Eu morro de amores pela beleza adotada, principalmente a que permite aos jardins estéreis encantar olhares desavisados.

Termino a minha limpeza interior espanando a tristeza que me sondava. Conto a ele uma piada que perde a graça na minha falta de jeito com ela, e caímos na gargalhada. A louca e o amigo dela.

Acredite, os loucos têm amigos. E contam piadas sem graça à beira de abismos, enquanto se aprofundam na beleza de ser personagem e pessoa.

E há troca de roupas e desnudamento de almas. Há galhofas e lágrimas.


Imagem: Beata Beatrix por Dante Gabriel Rossetti

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terça-feira, 22 de março de 2011

A FÚRIA DE SÃO PEDRO >> Clara Braga

Definitivamente, São Pedro não gostou da idéia de Brasília — que historicamente têm sido o palco dos horrores políticos — finalmente se tornar palco de várias atrações internacionais. Eu tenho para mim que ele deve ter pensado mais ou menos assim: "É, vocês querem shows para se divertir e esquecer dos absurdos que andaram acontecendo, né? Pois aqui vai a novidade, eu não vou deixar isso acontecer. HA HA HA!"

E foi nesse momento que nós fomos presenteados com o dilúvio que caiu na noite do dia 17, até então um dia de sol. A alegria de muitos fãs que aguardavam a mega-atração daquela noite, Shakira, ficou por ali mesmo. A única pessoa a quem São Pedro permitiu ver a famosa colombiana foi a presidenta Dilma, afinal elas iam conversar sobre coisas importantes como a erradicação da fome e o cuidado com as crianças. Aí pode.

Mas convenhamos, show aberto corre esse risco mesmo. Com equipamentos danificados não tem show que aconteça. E, no final das contas, foi melhor a Shakira passar despercebida, afinal, logo logo, estaria chegando uma atração muito importante, Barack Obama, e ele precisava de todos os holofotes para ele. E olha que de holofotes ele deve entender, pois mandou bem, aliás, queria muito conversar com a assessoria dele, pois ele disse coisas que eu mesma não sabia sobre o Brasil. Muito inteligente, Obama falou em lugar fechado. Não teria São Pedro que conseguisse acabar com a festa.

Para as próximas atrações que passarão por aqui nos próximos meses, fica a dica do Obama: escolham um lugar fechado, será melhor para todos. Mas, São Pedro, dá uma trégua para a Shakira, pois ela não se deu por vencida e estará aqui novamente nessa quinta-feira. Vamos ver no que vai dar...

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segunda-feira, 21 de março de 2011

AVE OBAMA! >> Albir José Inácio da Silva

Naldinho tem sete anos e uma lógica simples: gosta ou não gosta. E isso acontece ao sabor das contingências e das orientações familiares. Primeiro gostava de uma facção que pagava enterros e comprava remédios, e não gostava de outra que vivia ameaçando invadir e de vez em quando matava alguém. Também odiava a polícia que entrava na favela atirando e esculachava todo mundo.

Um dia houve muito tiro e muito defunto, e os símbolos e inscrições da comunidade foram trocados. Ele ouviu que enfim aqueles foram expulsos porque estes são melhores e já prometeram luz de graça e tevê a cabo a preços módicos. Imediata e solidariamente o garoto começou a gostar dos novos donos do morro, e a detestar os antigos e, claro, a polícia.

Politicamente, Naldinho acompanha o coletivo dos moradores. Já foi Lula doente e fez desenhos barbudos tão bons que foram escolhidos para enfeitar a parede da escola. Num domingo virou Serra, durante a visita do candidato com promessas de aumentos de salários, de igrejas, de escolas e de hospitais iguais aos de São Paulo - que ele não sabia onde era mas que devia ser muito bom porque era um lugar famoso. Só não chegou a desenhar carecas porque a professora, politicamente mais cautelosa, resolveu esperar pela Dilma que viria no sábado seguinte. Como o amor por Dilma é compatível com o amor por Lula, Serra não chegou a merecer homenagens de hidrocor e lápis-cera.

Milagre da engenharia sócio-político-administrativa, no mês passado, após algumas escaramuças, sem perder balas em inocentes, matando apenas alguns supostos traficantes, foi instalada uma UPP na Comunidade. A Unidade de Polícia Pacificadora é a nova paixão do menino, que faz desenhos de policiais com crianças no colo, jogando bola com elas, dividindo refrigerantes. E os policiais não entram mais atirando, não chutam mais portas de barracos, não esculacham mais moradores. Agora carregam no colo pessoas que torceram o pé, vão a festas de aniversário, e distribuem conselhos para os meninos. As autoridades de segurança esclarecem que estes não tiveram tempo de se contaminar na corporação, vieram diretamente do concurso e do curso de formação para as Unidades. Ah, bom!

Com a visita de Obama, Naldinho está meio atarantado. Olha para os adultos, tentando saber se deve ou não gostar dele. O pai, segurando no garfo um pé de porco, fala da importância de um presidente negro “naquele país cheio de louros. O mundo está mudando... e pra melhor”. A mãe, mais prática e sempre às voltas com falta de dinheiro, diz que o marido devia ir à Cidade de Deus durante a visita:

- Você podia pedir um emprego, já que ele é preto que nem nós.

A tia, que não gosta de ianques, invoca a soberania nacional:

- Obama não pode arranjar empregos no Brasil.

O tio, que não gosta de brasileiros, replica em tom professoral:

- E tu não sabe que quem manda nos Estados Unidos, manda no Brasil?

A tia se cala porque não entende mesmo de política internacional.

Naldinho ainda não sabe se gosta de Obama. Mas, como amanhã é dia de aula, acha melhor ir treinando no caderno. Afinal, ele não está acostumado a homenagear carapinhas. O último negro que desenhou foi Michael Jackson, que tinha longas madeixas.

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domingo, 20 de março de 2011

CERTAS CANÇÕES >> Eduardo Loureiro Jr.

As canções mais tolas — tendo seus defeitos — sabem diagnosticar o que vai no peito. Certas canções que ouço cabem tão dentro de mim, que perguntar carece: como não fui eu que fiz? Eu sou aquele amante à moda antiga, do tipo que ainda manda flores, aquele que no peito ainda abriga recordações dos seus grandes amores. Para quem bem viveu o amor, duas vidas que abrem não acabam com a luz. Eu me possuo e é na sua intenção. É um carinho guardado no cofre de um coração que voou. E quem voou, no pensamento ficou. É um afeto deixado nas veias de um coração que ficou. E quem ficou, no pensamento voou. É a certeza da eterna presença da vida que foi na vida que vai. É saudade da boa, se a gente lembra só por lembrar o amor que a gente um dia perdeu. Ela me encontrou, eu estava por aí num estado emocional tão ruim já conheço os passos dessa estrada, sei que não vai dar em nada. Ela demonstrou tanto prazer de estar em minha companhia e eu experimentei uma sensação que até então não conhecia: de se querer bem, de se querer quem se tem. E éramos olharmo-nos, intacta retina. Vem sentar-te comigo, Lídia. Se a gente não fizesse tudo tão depressa, poderia ter vivido um amor Grande Hotel. Desenlacemos as mãos. O amor só dura em liberdade. Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos, se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias. Saboroso é o amor, fruta boa. Coração é o quintal da pessoa. Você bota a mesa, eu como, eu como você. É pequeno o nosso amor, tão diário. É imenso o nosso amor, não eterno. Se eu te amo e tu me amas, e outro vem quando tu chamas, como poderei te censurar? Ah, que bom seria se eu pudesse te abraçar, beijar, sentir como a primeira vez. Meu castelo tão bonito, você fez desmoronar. Eu não consigo esquecer você, ouça meu bem o que vou lhe dizer: não adianta nem me abandonar, porque mistério sempre há de pintar por aí. Quando olhaste bem nos olhos meus, e teu olhar era de adeus, meu mundo caiu. Silêncio, por favor, enquanto esqueço um pouco a dor do peito. Estrela, estrela, como ser assim tão só e nunca sofrer? Não sei andar sozinho por essas ruas. Procurei em todas as mulheres a felicidade. Hoje eu quero apenas uma pausa de mil compassos para ver as meninas. Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça, num doce balanço a caminho do mar. Seus olhos e seus olhares, milhares de tentações. Feiticeira, feiticeira. Seus dentes e seus sorrisos mastigam meu corpo e juízo. Passas sem ver teu vigia catando a poesia que entornas no chão. Sua estupidez não lhe deixa ver que eu te amo. Se te dou esse conselho, é pra tu sair da asneira: se tu não quer, tem quem queira. Agora não vou mais chorar, cansei de esperar, estou sentado à beira de um caminho que não tem mais fim. Preciso acabar logo com isso e, pra começar, eu só vou gostar de quem gosta de mim. Tudo era apenas uma brincadeira e foi crescendo, me absorvendo. Eu poderia ficar sempre assim, como uma casa sombria, uma casa vazia sem luz nem calor. Desacostumei de carinho. Não pegue desse jeito em mim. Um toque de mão, basta um gesto, e eu esqueço o resto. Eu sou tão machucado... Eu nunca fui paixão de ninguém, e sempre o tolo apaixonado. Eu desacreditei de amor, hoje tenho apenas uma pedra no meu peito, não sou mais um sonhador, porque é o amor é a coisa mais triste quando se desfaz. Mas eis que de repente quem era a pedra bruta virou a própria flor do amor em forma absoluta. Foi então que da minha infinita tristeza aconteceu você. Quando você chega na classe, nem sabe quanta diferença que faz. Me apareceu e com apenas um toque de sua magia, acabou-se a tristeza, me trazendo alegria. Se você quer ser minha namorada, ah, que linda namorada você poderia ser. Eu te proponho nós nos amarmos. Vou ficar até o fim do dia, decorando tua geografia. Eu quero mais é me abrir e que essa vida entre assim, como se fosse o sol desvirginando a madrugada. Amanhã de manhã, eu não quero nenhum compromisso, tanto tempo esperando por isso, desfrutemos de tudo. E foi bom e pra sempre será — maravilhosamente — amar.





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sábado, 19 de março de 2011

VELHAS FOTOS [Maria Rita Lemos]

A passagem do tempo deixa marcas sobre as coisas. A calçada em frente à minha casa guarda a marca indelével das mãos abertas, no cimento fresco, de meu filho, então com sete anos, e de minha neta com três. Eles se foram, cada um tomando o rumo de sua vida, mas as mãozinhas lá estão tatuadas em minha “calçada da fama”. Nem as tantas reformas ou pinturas deixaram brecha para que eu permitisse a alguém apagar esse meu troféu.

Aliás, esta semana, não sei por que, resolvi remexer gavetas esquecidas, cheias de álbuns de fotos. Sabe aquele tempo em que as fotos não eram digitais? A máquina fotográfica, seja importada ou aquela nacional mesmo, mais baratinha, era componente indispensável, sobretudo nas férias com as crianças, nas festas de família, nos aniversários e ocasiões especiais.

Encanta-me a magia que existe nas fotos que sobreviveram ao tempo, registrando a passagem pela vida de tanta gente que pulou fora dela, antes da hora ou quem sabe na hora certa, porque no final das contas o senhor do tempo sabe o que faz. Achei uma festinha na Praça Toledo Barros, com minha filha Mariana dançando fantasiada de fada, se bem que uma fada muito mal humorada naquela tarde, com a querida e saudosa tia Martha ao fundo... outra foto flagrando uma birra da mesma Mariana, dias depois, num passeio a uma praia que já não sei qual foi, embora me lembre claramente da mal criação, em plena areia quente - acho que era algo que ela queria e naquele momento não podia ser feito ou comprado.

Fotos de minha filha Karina em diversos momentos de sua vida, em tempos de bailarina... registros de meus três filhos e de minha neta, enfim, velhas fotos que, se organizadas em sua cronologia, têm um passado tão lógico quanto saudoso.

Ah, quanta saudade! Meu filho pequenino, reclinado no bebê conforto, dormindo placidamente sob uma árvore do Limeira Clube... tão diferente, salvo a placidez, mantida ainda depois de tantos anos. A gaveta guarda ainda fotos de minha viagem à Itália, em 1996. O flagrante do pranto incontido, quando um pianista, em plena Praça de São Marcos, em Veneza, tocou “Garota de Ipanema”... fotos dos canais, mais lágrimas diante da Pietà, o passeio malogrado de gôndola, a catedral de Milão, os centuriões inesquecíveis no Coliseu em Roma... impossível não me comover, revendo aqueles momentos mágicos!

Na gaveta contígua à dos filhos, os álbuns da formatura, do meu primeiro casamento... custei a crer que era eu a jovem de lábios carnudos e olhos brilhantes, descendo do carro nupcial à porta da Igreja de São Benedito, começo da década de setenta.... reconheci pessoas que estavam ali, na praça, bem como gente que me olhava na igreja, e que já não está mais entre nós.

Quanta saudade, quanta lembrança, algumas boas, outras nem tanto; fotos de dias felizes, de almoços familiares... Uma foto, em branco e preto, destacou-se das demais e me fez rir entre lágrimas: marcava o dia em que, ainda morando na Vila Paraiso, papai ganhou como presente de Natal, de um velho amigo, um peru prontinho, assado e decorado... imediatamente ele chamou as filhas casadas, que chegaram logo, antes que o bicho esfriasse, que não tinha microondas naquele tempo. E lá estávamos nós, devorando o bicho: meu irmão, minha irmã caçula, as duas mais velhas com os maridos e filhos pequenos, vovó Santa, mamãe, papai e eu, quando o mesmo mensageiro tocou a campainha, quase em prantos. Ele havia se enganado na entrega, o peru não era para meu pai, mas para outra pessoa com nome parecido (embora houvesse pouca gente com nome parecido ao dele!) Seguiu-se a correria, a aflição, meu Deus e agora, sobravam praticamente os ossos daquilo que era um peru até com papel franjado nas patinhas inertes, dourado, lindo e cheiroso, ladeado por montes de fios de ovos, que foram todos consumidos. Papai, como sempre, imediatamente remediou a situação. Para alívio nosso e do mensageiro, mandou um peru assado, pronto e igualzinho, para a casa a quem se destinava. A correria não foi registrada, mas as fotos, em branco e preto, mostram nossa família saboreando o presente alheio...

Enfim, chegou a tecnologia. E não chegou só para as fotos.... onde estão as cartas, que de perto ou longe recebíamos, esperávamos por elas, chorávamos ou ríamos, ou ambos, sobre aquelas caligrafias queridas? Onde está o carteiro que às vezes eu aguardava na porta, ansiosa, adolescente que tinha mania de namorar “menino de fora”? Hoje eles ainda aí estão, valentes carteiros e carteiras em uniformes azuis e amarelos, mas dificilmente trazem cartas, além das contas, contas e mais contas. E haja folhetos de propaganda, que disputam lugar em nossas caixas de correspondência e, quando não retirados e reciclados, vão finalmente entupir bueiros e causar males maiores. Sinto falta, ainda, dos cartões de Natal, não os virtuais, mas aqueles de desenhos lindos, pintados a mão alguns, brilhantes quase todos, esbanjando purpurina. Recebíamos tantos, até recentemente, que enfeitavam toda nossa grande árvore.... recebíamos e enviávamos muitos cartões. Hoje eles vêm pelo computador. Belíssimos, animados, sem dúvida, enviados com carinho especial. Mas não resistem ao “deletar” automático, ditado pelo tempo e pelo espaço em disco rígido...

Voltando às fotos, talvez não fosse necessário dizer adeus a elas, afinal é muito bom vê-las logo que clicadas. Mas a preguiça é muita: há que para passar as fotos da máquina digital para o computador, e de lá para o tal de “pen drive”, e finalmente levar esse dito cujo para que os especialistas no assunto as transformem em fotos, de verdade, de papel. Ah, saudade dos tempos de “revelar fotos” no japonês... a gente chegava de férias louca para ver tudo, e eram álbuns e álbuns, os mesmos que hoje lá estão, esquecidos talvez, amarelados pelo tempo, mas vivos sempre, numa gaveta qualquer, à espera.

Vivos naquele cantinho de nós que palpita mais depressa manuseando todo esse tesouro, que a traça pode comer, que um dia vai se acabar, mas que em nossos corações representa a imagem de nossos amados e amadas, crianças que viraram adultos e adultas, com profissões, filhos e filhas. Gente viva nesse mundo ou que já cruzou o rio, mas que jamais será apagada de nossas mais doces lembranças.

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sexta-feira, 18 de março de 2011

MINHA QUERIDA NOITE COM CÓLICA MENSTRUAL >> Leonardo Marona

Ia começar dizendo que sou um perfeito pessimista católico: um tipo que diz não rezando pelo sim. Mas hoje não (mais uma demonstração) que a noite é fresca, o peito é quente e não tem lua no céu. Algo que não sei de onde vem nem pra onde vai fica bem aqui, como se esse algo bem aqui não soubesse também ficar parado sem avisar. Então somos dois certos sem saber, dentro de um apenas duvidoso sem errar. Dou um pulo até a janela. Finjo que acendo um cigarro – mas nem tenho um cigarro – para poder enrugar a testa em vez de pensar. Não agüento teus urros noturnos de cólica, a pressão que você faz com o travesseiro sobre o ventre, teu formato feto felino enquanto dorme tranqüilamente, dentes rangendo mordidos, teu beijo de porra depois que eu desperdiço mais uma boa intenção na tua boca, não agüento isso tudo deitado ao teu lado. Tenho que levantar atrás de ar e não há. Mas você fala comigo com tanto carinho e tão pouco jeito – porque não somos dados a jeitos – e eu leio a história dos sapatinhos vermelhos pra você dormir mas no fim a noite é quem dorme e você acorda e baixa a cabeça pra falar da morte e eu te digo: “levanta a cabeça que a morte se encara nos olhos!”. Mas é demais pra ti também, então primeiro somos dois sonâmbulos calados dentro de uma garrafa bronzeada metade vazia não querendo machucar um ao outro mas sabendo que viver um ao outro machuca sem querer. Você pergunta “o que há”, eu digo “é um troço... eu sei lá”, então roçamos pernas por debaixo da mesa e quando dou por mim, aquele algo que não sei de onde vem nem pra onde vai resvala na tua calça de brim e estamos juntos por minutos que parecem semanas e posso sentir o fim porque me deram o começo e isso é tudo que um dia eu pedi a deus se algum dia ele estivesse na janela ao meu lado e me oferecesse um cigarro – eu que não fumo – daí seríamos meus dois defuntos: eu e esse algo que não sei de onde vem nem pra onde vai, mais o Um Universal que inicia as coisas pra depois sumir sem dar nomes a elas. E teus gritos de cólica ao meu lado me dão um futuro sem passado onde me vejo, cabelos brancos, poucos, pernas tomadas pelo roxo do tempo mal-gasto, espalhado numa cadeira de balanço, e você colhendo nabos frescos com seu metro e meio e sua cinturinha reta, com um vestido de flores do campo que te confundem com um ramo de avencas que lemos juntos numa história linda que falava de amor e não dizia mais do quê. Então no meu sonho não somos você e eu e sim eu e um campo vestido florido de algodão que posso dizer que amo, com bochechas vermelhas de sol moribundo, mão na anca outra na terra, uma larga aba de palha desperta, sorrindo com dentes levemente separados só pra mim e pros nabos. É quando dou por mim sem nabo nem nada, peito quente, têmporas doentes, cheio de presentes indicativos e pontos de interrogação invertidos em anzóis para fisgar tuas certezas e as estrelas, mas elas nos deixaram a sós com anzóis sem nós e foram visitar outros sóis. No apartamento da frente uma mulher conta os terços do seu rosário no escuro enrolada numa velha fatiota manchada de sangue cheia de medalhas e condecorações e uma linha vai de mim até ela, passando por cima da baía espelho do céu na terra, porque os dois ainda são capazes de chorar sem som e sonhar sem sono numa noite de estrelas sem lua nem barulho fora o pulsar surdo dos corações sozinhos e dos teus gemidos, e eu digo que se doer muito você morde a fronha que já passa e fico no teu ouvido tentando fazer passar com um zumbido de queda d’água, até que você dorme e desaparece no meio dos lençóis e eu nunca mais dormi porque até hoje estou atrás de ti e de nós.


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quinta-feira, 17 de março de 2011

SORTE >> Fernanda Pinho



Sempre que deixo alguma coisa para resolver na última hora, conto com a sorte. E acaba dando certo. Eu tenho sorte. Essa semana, por exemplo, esperei até o último minuto para escrever minha crônica de quinta, pois estava sem assunto, confesso. Não tendo caído nada do céu, dei uma de jornalista – que se pauta de acordo com as datas – e fui ver no calendário que dia é hoje. Lá estava meu assunto: em 17 de março é comemorado o Saint Patrick’s Day. O que eu tenho a ver com isso? Nada. A única coisa que sei é que, quando eu fazia curso de inglês, a escola se coloria toda de verde nessa data. Por que verde? Saint Patrick é protetor da Irlanda e tem como símbolo o trevo de quatro folhas que – de acordo com meus conhecimentos googlísticos – era considerado sagrado e cheio de energia encantada pelos magos Druidas irlandeses. Daí o fato de o trevo de quatro folhas estar associado à sorte.

Nesse ponto, o assunto já começa a fazer parte da minha alçada pois, como eu disse lá no início, eu tenho sorte! E muita! Claro, posso me considerar uma pessoa de sorte por ter saúde, família, amigos, trabalho, dignidade etc e tal, mas nem falo disso. Falo daquela sorte definida no dicionário como "modo de resolver alguma coisa ao acaso; sorteio. Bilhete ou outra coisa premiada em loteria ou sorteio". Você conhece alguém que já ganhou algum sorteio, promoção, rifa ou qualquer coisa do tipo? Eu conheço uma pessoa que já ganhou vários: eu!

Nunca achei um trevo de quatro folhas mas, aos três anos de idade, achei uma tampinha da Coca-Cola premiada e ganhei um skate. Todo mundo, na época, queria ganhar aquilo e quem ganhou fui eu que nem tomava Coca-Cola, nem sabia o que era skate. Foi a primeira de muitas coisas que ganhei assim, de bobeira. Sorteios de que eu participava por participar. Rifas que eu comprava só para colaborar. E, quando eu menos esperava, ganhava uma viagem, um urso de pelúcia gigante, um aparelho de som. Foram tantas coisas que, se eu listasse, vocês achariam que essa é uma crônica de ficção. Digo “foram” assim, no passado, porque começou a ficar tão sem graça que eu parei de brincar.

O ápice foi quando minha irmã queria muito ir para São Paulo ver o show do Coldplay, em 2007, e não recebeu o consentimento dos meus pais. Espertinha, ela vasculhou a Internet até achar alguma promoção que dava a ida ao show como prêmio e no qual o ganhador pudesse levar um acompanhante. Certa de que eu ganharia, ela pediu que eu me inscrevesse. Minha mãe, também certa de que eu ganharia, me proibiu de me inscrever. Mas eu me inscrevi assim mesmo e, bom, fui sorteada. Fomos ao show e minha irmã realizou seu sonho.

Ganhei porque ninguém duvidou que eu ganharia. E eu acho que sorte tem muito mais a ver com energia do que com qualquer outra coisa. Desde sempre, as pessoas me atribuem a alcunha de sortuda. E eu nunca duvidei disso. Se estou com algum problema no trabalho, eu penso: “tenho sorte, vai dar tudo certo”. E dá mesmo.

Quando eu conto minhas peripécias de jogos de sorte, ouço sempre duas perguntas. Os práticos querem saber: já jogou na Mega-Sena? Não. E sei que nunca ganharia, pois eu não acredito em números. Já os românticos me interrogam aflitos: sorte no jogo é azar no amor? Bom, aí já é assunto para uma outra crônica...



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quarta-feira, 16 de março de 2011

DESPINDO-SE DE PONTO FINAL
>> Carla Dias >>

“Enforcar-se é levar muito a sério o nó na garganta.”
Mário Quintana

Algumas coisas me afetam mais sobre o pensamento alheio do que outras. E você pode achar isso perfeitamente normal, contanto que este incômodo não provoque críticas aos seus pensamentos e crenças.

Incomoda-me, profundamente, por exemplo, quem bate no peito e diz “eu sou assim, se quiser me aceite desse jeito”. Na verdade, nem sempre existe a opção de você não conviver com o indivíduo, e nem de longe há como alcançar a aceitação. Vive-se, então, uma tolerância moderada, com uma margem enorme para uma tragédia pessoal.

Sou completamente a favor de sermos quem somos, goste o outro ou não. O problema não está no conceito, mas na forma como ele é praticado. Não há como empurrar uma declaração dessas quando a situação toda depende de uma compreensão que ultrapassa os direitos e deveres de quem a proclama, quando ela afeta o coletivo. Neste caso, a declaração soa estupidamente egoísta.

O que estamos desaprendendo, pouco a pouco, e ao adotarmos frases das quais pouco compreendemos o sentido, mas que sempre provocam rebuliço, é a sermos preguiçosos com a construção da nossa própria identidade. Desde sempre, o ser humano se vale de citações para falar sobre si mesmo, sejam elas oriundas dos livros de autores consagrados ou das letras de música sertaneja. Porém, ao adotar alguma delas como carro-chefe da sua vida, como um mantra, uma ferramenta para você construir sua história, melhor estar certo do espaço que ela ocupará na sua biografia.

O “dane-se o que você pensa ou sente, eu sou assim” é uma das declarações que mais me irrita. Quando uma pessoa chega ao ponto de berrá-la por aí, com um orgulho desavisado a tiracolo, pode acreditar, não há orgulho algum rondando o momento. Para mim, declarações como essas soam como certificado de incapacidade de escutar o outro, de conhecer um ponto de vista diferente, de se enveredar pela possibilidade de não estar assim tão certo, de precisar aprender um pouco mais sobre si. E no final, dá sempre em uma solidão para se amargar.

Eu sou uma das escolhidas para encarar pessoas que batem no peito, e que aos berros dizem “eu sou assim, se quiser me aceite desse jeito”. Acontece de eu ser receptora de tais declarações com uma frequência assombrosa. E o duro é que isso não apenas me irrita, como me entristece, pois algumas dessas pessoas levam isso muito a sério, tornando a convivência difícil demais, quase impossível.

Eu sou assim, você é assado, e não há problema algum nisso, ao contrário, há a pluralidade necessária para tecermos a vida com certa cadência. Não defendo a aniquilação do direito de ser, mas o sermos sem nos privarmos do aprendizado que o diariamente nos oferece, tampouco da possibilidade de melhorarmos quem somos.

E se nos transformamos com o tempo, não há um “eu sou assim” que não sofra a influência das experiências, que não cresça, aprenda. Então, apenas tome cuidado com as declarações que insistir em tornar definitivas, com as citações interpretadas como se fossem confissões pessoais. Porque até que é bom ser assim e reticências, e vírgula, e dois pontos, e isso vem com um bônus de interrogações, pontos de exclamação, enfim, surpresas.

Não insista em colocar ponto final na sua capacidade de se transformar. Lapidar-se.

carladias.com

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terça-feira, 15 de março de 2011

SERÁ? >> Clara Braga

Recentemente, uma das minhas bandas prediletas veio fazer show aqui em Brasília. Parece que Brasília está finalmente entrando na rota das atrações internacionais. Como uma boa fã, fiz aquilo que considero bem brega, mas que quando se trata de banda predileta está valendo: coloquei a camiseta da banda e fui ao show na parte mais próxima ao palco.

Não me perguntem por que acho brega usar blusa de banda, não sei explicar, mas acredito que seja porque me lembra a minha adolescência, que era quando eu usava muita blusa de banda, e sinto que essa época pra mim já passou, não combina mais, se é que vocês me entendem...

Chegada a hora do show, lá fui eu. E não sei por que, mas como eu tenho 22 anos e curto muito a banda e a vocalista da banda é da mesma idade, eu tive a impressão de que as pessoas que estariam no show teriam essa faixa etária também. Quando cheguei lá... SURPRESA! O último show que eu fui em que as pessoas tinham a idade das que estavam nesse e usavam faixas brilhantes na cabeça e berravam até deixar alguém surdo foi o de Sandy e Jr. Eu estar com a camiseta da banda não era nada brega perto das meninas que já choravam antes mesmo do show começar. Eu confesso que estava quase chorando também, mas era porque a banda de abertura era muito ruim.

Não posso dizer que eu era a pessoa mais velha de lá, pois os frequentadores em massa não tinham idade para estarem lá sozinhos, então os mais velhos eram os pais que estavam escorados nas grades, observando os filhos terem ataques histéricos de longe, com uma cerveja na mão e pensando: “o que fiz para merecer um filho com esse corte de cabelo?”. Para explicar melhor a parte do corte de cabelo, só quando eu cheguei ao show é que fui me tocar de que eu curtia uma banda que agradava aos emos.

Era só o que me faltava mesmo. Será que bem lá no fundo, em algum lugar escondido, eu tenho alguma coisa de emo?! Ai, meu Deus! Definitivamente eu não estaria nem de longe preparada para assumir algo desse tipo, e é por isso mesmo que não vou contar aqui qual era a banda que estava tocando (apesar de não ser difícil descobrir), mas digo uma coisa, gostar dessas bandas tem suas vantagens, todos no show eram mais baixos que eu (que já sou baixinha), foi a primeira vez em muito tempo que eu consegui enxergar o palco inteiro.

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segunda-feira, 14 de março de 2011

QUEM AMARRARÁ SEUS CADARÇOS?
>> Kika Coutinho

Uma das lembranças mais antigas que tenho é de um dia frio quando todos almoçavam na casa de minha infância e, lá, onde meus pais moram até hoje, eu estava invisível no meio da multidão.

A multidão era os meus muitos irmãos, talvez alguns vizinhos, e meus pais que se preparavam para sentar à mesa e comer.

Eu, sozinha na sacada, uma menina pequena, pelejava para abotoar a minha própria camisa. Os tênis estavam desamarrados e os botões da roupa não entravam nas suas casas, de forma que eu passava algum tempo ali, maltrapilha, concentrando-me em me arrumar, ainda que minimamente, para o almoço que viria na sequência.

De repente, como que num estalo, lembro-me que meu irmão mais velho me notou. Saiu da sala de jantar e veio em minha direção. Num instante, ajoelhou-se diante de mim e começou a me ensinar:

— Olha, você põe o botão aqui, encaixa, e vira a casa assim. Viu? — ele me explicava pacientemente.

Eu mantinha a cabeça abaixada, guardando no meu silêncio uma satisfação sem limites. Meu grande irmão me notara em meio àquele tanto de gente e tratava de cuidar de mim com um carinho que, na minha curta vida, não tinha precedentes.

Ele foi explicando devagar, enquanto abotoava cada botão de minha blusa. No final, viu o cadarço desfeito e completou:

— Esse daqui, ó, você pega, vira assim, passa por debaixo e puxa. Viu? Vamos fazer no outro, assim, e pronto — ele concluiu, levantando-se devagar e passando a mão no meu rosto, antes de sair.

Pronto mesmo. Eu era uma menina pronta e arrumada. Senti-me, num instante, linda e asseada. Com que cuidado me amavam e me acolhiam, com que atenção ele me viu, e me escolheu, entre aquela multidão de gente que era a minha família...

Hoje, enquanto espero o irmão da minha filha nascer, essa e outras lembranças passeiam pelos labirintos da minha memória. Que ensinamento ela dará para ele? Que lembranças guardarão um do outro? Que cuidados, que carinhos e agrados se farão, mutuamente?

Quando minha filha me beija a barriga, sem entender que ali guardo seu grande amigo — e grande inimigo de algumas horas —, desejo silenciosamente que eles sejam, um para o outro, esses guardiões de amor; e que se notem, quando a vida lhes deixar com o cadarço desamarrado em meio a uma enorme multidão.

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domingo, 13 de março de 2011

PRÓDIGO >> Eduardo Loureiro Jr.

Desde criança, escuto a Parábola do Filho Pródigo. Mas só ontem a vivi.

É a história de um pai que tem dois filhos. O mais novo deles pede ao pai uma antecipação da herança e sai pelo mundo, esbanjando riquezas. Quando fica sem dinheiro, passa a trabalhar em condições miseráveis e lhe ocorre voltar para casa, pedindo que seu pai lhe aceite como um de seus empregados. O pai recebe o filho mais novo de braços abertos e com grande festa, despertando a indignação do filho mais velho que, ao voltar do trabalho, ao final do dia, reclama da situação com o pai. Este lhe responde: "Meu filho, tu estás sempre comigo. Tudo que tenho é teu".

Eu vivi esta parábola no papel de "filho mais velho", vendo um "irmão" rebelde, não cumpridor dos seus deveres, receber do "pai" uma atenção especial que não me havia sido dispensada. Quando reclamei com o "pai" a respeito de tamanha injustiça, ele me disse:

— Justiça não é dar a todos uma porção igual, é dar a cada um segundo a sua necessidade. Se todos receberem o mesmo, cada qual não perceberá mais a sua necessidade específica. Identifique a sua própria necessidade, e peça para que ela seja atendida, pois assim será.

Só hoje, após ter vivido a história, tive vontade de saber o significado da palavra "pródigo".

Segundo o Houaiss, ela tem três significados: 1) aquele que dissipa seus bens; 2) aquele que é generoso ao dar; e 3) aquele que produz em abundância.

Segundo essas definições, pródigos são os dois filhos: o mais novo, que esbanja; o mais velho, que produz. E pródigo também é o pai, em sua generosidade. A prodigalidade se manifesta, na parábola, em suas três dimensões: a de quem produz, a de quem usa e a de quem dá.

E eu descobri que posso ser triplamente pródigo: criando, distribuindo e usufruindo.

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sexta-feira, 11 de março de 2011

FÁBULA DA DECAPITAÇÃO VOLUNTÁRIA
>> Leonardo Marona

A quarta-feira de cinzas é uma segunda-feira proveitosa. Desviando do cheiro atraente de suor, urina e sexo do último aglomerado hedonista na praça pública, sigo metido apenas comigo mesmo, a caminho do trabalho. Sinto um misto de vergonha e pressa, aquele não é o meu lugar. E não digo aquela praça, aquele bairro, aquele distrito, aquele país, me refiro ao aquele que posso apontar, seja qual for, o que está fora de mim e nunca dentro de mim, esse eu chamo de "aquele não é o meu lugar", não uma questão especificamente objetivada, a preocupação com "aquele que não é", é muito mais uma questão de eu "nunca ser" algo situado dentro do que se aponta.

Não que me doa além da conta, ou especialmente agora, não confio mais nas pernas da tragédia. Quase mudo de caminho quando vejo uma bela e magra moça loira, com pernas de um metro e meio e, apesar de linda, tão deslocada quanto eu, ainda que inserida. Quanto senso comum, quanta mesmice essa ideia de "o amor vem de onde menos se espera", ou "homem fracassado retoma o brilho da vida ao passar por bela e provocativa mulher". Talvez seja algo parecido, mas não é bem isso. Aquela mulher seria tudo o que qualquer homem poderia colocar — e colocou — em um milhão de versos, ruins e péssimos, mas nunca bons, nunca tão bons quanto é "aquilo que podemos apontar pessoalmente", nunca tão bons quanto aquela moça loira e magra e alta, que é apenas a minha moça loira e magra e alta e nunca a de outra pessoa, porque mesmo falar dela cai na linha dos milhões que apontaram, mas apenas apontar e passar cai dentro de cada um, e foi o que fiz, agora com mais vergonha do que pressa, mas sem mais conseguir dar pontos às frases, enfim pensando os mil nomes para os mil filhos das infinitas possibilidades de apontar e passar, sem reter, ou reter-se em nada que esteja fora, e ao mesmo tempo retendo tudo o que está fora como possibilidade de calo silencioso, porque se o calo é uma deformação da pele, ao menos ainda é pele; e diriam, talvez, à moça loira: "Não ligue, não fique triste, é maldição ser assim tão bela, a pessoa deve pagar por isso um preço alto, esqueça os triunfos, é importante equilibrar o planeta, esqueça a felicidade, isso é para os derrotados, há pessoas feias que precisam muito mais da felicidade, contente-se", e o que poderia dizer para mim?, penso enquanto quase sou atropelado por um daqueles carros que fazem safáris com estrangeiros rosados e felizes nas favelas menos perigosas ("vá se tratar e não me encha!", é o que imagino que diriam, mas, de repente, enquanto tento recolher do chão os pontos das frases, finalmente consigo, recobro o discernimento e atravesso a rua).

Encaminho-me ao ponto de ônibus, junto a um doentio rebanho, do qual me compadeço e no qual me incluo pela primeira vez, como um cristo que peca inevitavelmente ao se reconhecer em cristo, sinto uma primeira e até, eu diria, precoce noção de postura, que me trespassa o corpo todo. Ao meu lado, pessoas eficazes e, mesmo assim, infelizes em sua eficácia, porque não gozam dela, ela os oprime e tranquiliza, como um barbitúrico, e lá estou eu, muito provavelmente com um trabalho infinitamente menos importante que o deles, mas também como eles infeliz na minha eficácia, infeliz mas tranquilo, apaziguado como um dragão num elevador para duas pessoas, eu ali entre eles, eu o que aponta, finalmente no lugar para onde se aponta, junto à loirinha magra e alta e bela e deslocada e aos empresários de marfim, e talvez por isso, por, pela primeira vez, ser o que se aponta com malícia e até mesmo raiva, me enchem as omoplatas com um determinado, não chamarei de orgulho cidadão, ainda não chego a tanto, mas uma carnalidade do desespero, e me sinto como um general do senso comum, o pico do abaixo da linha do mar, a balança do sem peso. Estamos indo ao trabalho, seremos abatidos de banho tomado e até quem sabe um talco em nossas dobras mais delicadas e, de qualquer forma, não festejaremos a nossa própria decapitação: aceitaremos o destino com um sorriso no rosto, o sangue não estará mais entre os dentes: precisamos da delicadeza e até mesmo da falsa compaixão como viciados que reviram os olhos. Não se iludam com a nossa firme indiferença. Estamos sólidos, com mochilas nas costas, pastas nas mãos, desviamos sem fôlego da euforia popular, mas até os nossos penteados são facilmente classificáveis, nossa vida é de um vidro grosso, translúcido, mas ele rachou há muito tempo, e ainda temos tempo demais.


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quinta-feira, 10 de março de 2011

BUDAPESTE >> Fernanda Pinho

Houve um questionamento que nunca havia passado pela minha cabeça até eu ler Budapeste, do Chico Buarque. Para quem ainda não leu o livro (mas vai ler, estamos combinados?), trata-se da história de um homem que se apaixona pelo idioma húngaro. E, nele, até consegue escrever poesias. Coisa que nunca havia feito em português. Aí é que tá! O que arrebata a gente são as palavras ou a língua? Eu gostaria tanto de ler e escrever se fosse uma russa, falando em russo e tendo sido alfabetizada em russo? Alguma coisa me diz que não exatamente. Um idioma muda tudo. Imagine ler Luis Fernando Verissimo em alemão! Improvável. Alemão é gutural demais para a leveza das palavras de Verissimo. Assim como espanhol é dramático demais para qualquer coisa. Eu, aliás, quando estou achando um filme muito monótono tenho um truque infalível: mudo o idioma para o espanhol. Não dá outra. Em cinco minutos, estou aos prantos. O que me faz acreditar que se minha língua-mãe fosse espanhol, eu seria uma escritora e uma leitora muito mais voraz. Eu amo português, mas espanhol é o meu húngaro.

Budapeste fala ainda da angústia de ser um ghost-writer, profissão do homem que se apaixona pelo húngaro. Eu fiz, e faço, muitos trabalhos como ghost-writer e não sofro nada por isso. Tudo o que faz parte da nossa vida são coisas fabricadas por outras pessoas. Não vou ficar morrendo se tem gente usando textos fabricados por mim. Fico é feliz e lisonjeada por conseguir fazer alguma coisa nessa vida pela qual alguém queira pagar. No fim das contas (de água, luz, telefone), é disso que a gente vai precisar.

Mas existe um grande porém. Ou melhor, dois. O primeiro é que eu não consigo não deixar minha marca nos meus textos. Tem um homem em nome do qual eu sempre escrevo. E, olha, tenho certeza que tem gente que deve achar que ele é gay. Porque eu não consigo conter certas firulas femininas. Mas ele prefere as minhas palavras às dele. Que eu posso fazer? Outro detalhe é que eu só tenho esse desprendimento com meus textos que são fabricados sob encomenda e, normalmente, sobre assuntos que não me interessam nem um pouco. São palavras que saem de uma parte muito superficial de mim e nada dizem a meu respeito. Agora, quanto aos textos que são sentidos — e não fabricados — morro de ciúmes. Não que eles sejam geniais. Não mesmo. São coisas como essas porcarias que vocês leem aqui. Mas são as minhas porcarias. Que saem das minhas Fossas das Marianas internas. E, por essas, eu jamais aceitaria ver outra pessoa levando o crédito. Graças a Deus que ninguém tem interesse nisso mesmo. Uma passagem que me corta o coração em Budapeste é a do ghost-writer no lançamento de um livro que ele escreveu com sua alma e, obviamente, é assinado por um poeta famoso. Além da angústia do sucesso fantasma, ainda tem que levar para a casa uma dedicatória do "autor": "Para você, essas despretensiosas palavras".


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quarta-feira, 9 de março de 2011

IDENTIDADES >> Carla Dias >>

Ele estranha a cadência do tempo como o faz a maioria de nós, os outros, aqueles que observam, enquanto o feito é feito. Nasceu do estranhamento de ditos pais que o deram de presente ao sistema logo nos primeiros anos de sua vida. Lembra-se da infância com o esquecimento necessário para não doer gravemente o abandono.

Por isso deu de inventar naturalização, chegando até a ser inglês, africano e alemão em um mesmo dia. Aprendeu tudo que sabe ao se portar como turista em seu próprio país. Mas se a inteligência lhe é aguçada, a percepção sobre a própria identidade deixa a desejar.

Às vezes, olha-se no espelho e murmura um nome que não é o seu dos documentos, mas um dos adotados. Ao se deparar com as vizinhas faladeiras, acaba sempre deixando as carolas em dúvida sobre a sua origem, mixando o espanhol com o inglês e o português, criando um dialeto que as pobres jamais entenderão.

Trabalha como arquivista, bartender e segurança de teatro. Consegue desempenhar tais papéis sem deixar que um atrapalhe, ou mesmo se sobreponha, ao outro. Veste-se esporte-chique para arquivar documentos, abusa dos coletes e arrepia os cabelos para atender aos seus bêbados mais queridos, e usa terno e gravata na entrada do teatro para receber as madamas e seus acompanhantes do dia.

Hoje ele é o filósofo que perdeu o olhar no horizonte de Madagascar, mas ainda ontem era o eletricista, e aproveitou o papel para fazer um agrado ao síndico e consertar uma fiação que dava problemas no hall de entrada de seu prédio. O filósofo sorriu ao eletricista, enquanto pensava como é complexo o músico, aquele que adora sucumbir à melancolia e escrever letras de música nas paredes do apartamento.

Houve o dia em que ele acordou sem saber quem era. Passou horas sentado à janela, olhando para lugar nenhum, procurando nenhuma resposta. Sentia-se tão vazio que qualquer outro poderia se apossar dele, naquele instante, e moldá-lo ao bel-prazer. Mais tarde, encontrou-se consigo mesmo, à beira de um desejo esbaforido, e tornou-se o guardador dos seus sentidos. Encheu os pulmões de ar e as páginas do caderno de histórias, como fossem um roteiro a ser interpretado com a intimidade de quem dele se apropria.

Amanhã, ele será sabe lá quem, e mesmo ao bater o cartão na repartição pública pelo vigésimo ano seguido, permitirá que a imaginação lhe roube a identidade e o leve para longe dele mesmo, aonde a geografia é apenas uma das portas a se atravessar.


Imagem © Jim - www.unprofound.com


carladias.com


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terça-feira, 8 de março de 2011

PATRÍCIA ABSOLUTA >> Clara Braga

Muitos tiveram o prazer de conhecer a famosa Stefhany Absoluta e seu Cross Fox, mas muitos a conhecerem não significa que todo mundo conhece, e esse foi um detalhe que eu esqueci.

Recentemente, minha madrinha comprou um carro novo. Adivinhem qual? Um Cross Fox, claro. Não pensei duas vezes, na mesma hora comecei a chamá-la de Patrícia Absoluta. Ela curtiu e ficou por isso mesmo. Durante um dos famosos almoços de domingo, todos conheceram o novo carro dela, realmente muito bonito, com tudo que se tem direito: travas elétricas, vidro automático, airbags e até aquele bip que apita quando  você dá ré para evitar que bata. Não é pra menos, faz qualquer um se sentir absoluto mesmo. E quando eu soltei o comentário, minha prima disse: “É mesmo, agora Tia Paty é Stefhany”. E foi então que Patrícia Absoluta perguntou: “Quem é Stefhany?”.

Como assim quem é Stefhany? Eu estava há pelo menos uma semana chamando ela de Absoluta e ela não sabia quem era Stefhany?

Exatamente, ela não sabia. Simplesmente gostou do fato da afilhada chamá-la de absoluta, achou que era realmente um elogio a ela. A cara dela, quando descobriu que era na verdade uma piada, foi de uma quase decepção. Espero que ainda demore para ela assistir ao vídeo no Youtube, pois quando assistir acredito que a decepção será maior.

Tia, você é absoluta para mim, sim. Mas não desejo que você seja Stefhany, afinal, quando ela ganhou seu próprio Cross Fox, acabou capotando!

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segunda-feira, 7 de março de 2011

BOMBAS E BATUQUES
>> Albir José Inácio da Silva

Colado na parede, ao lado da bancada, está um mapa-múndi que olho pra matar o tempo. Ele ainda mostra União Soviética e outras configurações do passado. É uma página arrancada do atlas da infância só pra lembrar que gosto de geografia.

Recordo o telejornal na hora do almoço: Kadafi, bombardeios, civis, mulheres e crianças. O relógio na parede não anda, mas não está quebrado, é só ansiedade.

A sexta-feira começou arrastada. Acordei uma hora antes e não consegui mais dormir. Tive de esperar o café ficar pronto na padaria, o ônibus demorou pra passar e demorou no trânsito. A manhã durou vinte e quatro horas e a tarde parece que não vai acabar. E o que é pior: um dia assim comprido não rendeu a cota de hoje. Fico devendo muitas peças pra semana que vem, o que o feitor parece adivinhar pela maneira como me olha. Mas agora todo mundo já está parado, e o silêncio incomoda mais que o barulho das máquinas. Puxo conversa pra espantar o nervoso:

- Você viu o que está acontecendo na Líbia?

- É, mermão, tá esquisito! Chocante!

Chocante. Esse aí não dá a mínima. Só se cair uma bomba na casa dele. Na hora do jornal deve mudar pra outra novela. Um magrinho fala de futebol e eu ignoro. Cambada de alienados! Ainda vem falar desse timinho às vésperas do rebaixamento. Ele se ofende:

- Pô, cara, só tô conversando. Tu anda mal, hein?

O tempo não passa. Viro pra trás, a Solange está séria, a mãe dela doente há meses, nem sabe se escapa. Sinto pena e digo alguma coisa.

- Eu não vou viajar no carnaval; se precisar de alguma coisa, é só me ligar.

Ela agradece com um sorriso triste, e eu não insisto.

Vou ao banheiro de novo, só pra fazer alguma coisa. Lá fora mais um bloco, batuques, marchinhas. Alguns vão à janela, e outros marcam o compasso com os pés, mexem os braços e a cabeça. O chefe olha significando que ainda estão no trabalho. Por que não libera? O que são alguns minutinhos? Olha a cara dele, está saboreando a angústia geral. Cara de torturador. Lembro de Kadafi mais uma vez. O telefone toca e todos se assustam.

O relógio já passa das cinco, isso é roubo, alguém devia... A fábrica apita. A campainha machuca demoradamente os tímpanos, e adoça o coração. Antes que se cale, eu já estou na porta. Ainda vejo um rabo de bloco e é pra lá que eu corro. Tiro da bolsa um apito e um pano cáqui, que envolvo na cabeça e no pescoço. Um Kadafi sorridente corre, e tropeça, e apita: é carnaval.

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domingo, 6 de março de 2011

SEMPRE O TEMPO >> Eduardo Loureiro Jr.

Às vezes, sinto o tempo das coisas...

"Não gosto de fazer perguntas, só quando não tem jeito. É que as pessoas ou falam o que querem ou não adianta que falem. O que a gente tem dentro da gente eu sinto que é como frutas... se saem no ponto certo, estão maduras, gostosas... se saem antes disso, estão verdes, são ácidas, fazem mal... se passam do tempo, apodrecem, ninguém quer. Só o que me falam querendo e na hora certa é que eu dou valor, e só assim que eu acredito nelas".  (Coiote, Roberto Freire)

Às vezes, eu sinto o tempo de escovar os dentes, de tomar um banho. Não como uma atividade que se deva fazer e que tenha hora certa, mas como um momento que vem se aproximando, chega, e depois se vai. Outras vezes, deixo-me levar pelo automatismo, pela pressa, pelas obrigações.

O tempo que sinto agora é de silêncio, música e um bom livro. Quando determinado tempo vem chegando, ele nos traz recordações de outros tempos similares. Por isso me lembrei de Coiote, e do quarto de minha Tia Monca, onde o folheei pela primeira vez, e do cheiro perfumado, do livro e do quarto, e do peso do livro nas mãos, quase incômodo, e do silêncio da leitura. Não havia música, mas sempre há música. Sempre houve fones de ouvido, invisíveis, que me possibilitavam ouvir o que ninguém mais estava ouvindo.

É o tempo que sinto que vem vindo que me faz lembrar também de Questo Amore, de Roberto Cotroneo. Deste, ainda tenho o exemplar e posso levantar da cadeira, como estou fazendo agora, pegá-lo na estante, como fiz agora, e,

...

numa das páginas que têm as pontas do papel dobradas, encontrar estas palavras: "Ora voleva qualcosa che non sapeva neppure lui spiegare". Pode o leitor ouvir o som dessas palavras mesmo que não lhes entenda completamente o sentido? "Agora queria algo que não sabia ele mesmo explicar".

É assim a chegada do tempo: vem como um desejo que não se explica. Por isso, o silêncio: para ouvir os calmos passos do tempo se aproximando. Por isso, a música: para que o silêncio faça sentido. Por isso, o livro: para que se tateie o que se aproxima.

Sim, eu sei que "nem tudo é como a gente quer" e talvez eu tenha que aprender a sentir o tempo das coisas obrigatórias. Sentir o tempo do sinal vermelho, e não apenas tolerá-lo. Comer a fruta rubra e madura do sinal vermelho. Sim, é mesmo muito provável que eu tenha que aprender essas coisas.

Mas agora... calma.

Silêncio, por favor.

Conseguem ouvir a música?

Eu sou o primeiro leitor do livro que está se escrevendo.




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sábado, 5 de março de 2011

REALIDADE E SONHO [Debora Bottcher]

"Quando os deuses querem nos punir, atendem nossas orações." (Orson Welles)

Essa semana assisti ao filme 'A Origem'. O cineasta Christopher Nolan (de “Batman – O Cavaleiro das Trevas” e "Amnesía"), conhecido por conceber narrativas confusas e pouco usuais, definia a trama como 'uma ficção científica de ação que ocorre na arquitetura da mente'. Isso significa, sob o prisma dele, uma realidade em que é possível entrar em sonhos alheios, fazendo do personagem principal um terrível invasor do sono profundo com objetivo de roubar informações.

É um filme que demanda muita atenção para entender todas as nuances do roteiro que é bem lapidado, mas cheio de interrogações. E como o filme é 'rápido' demais (meio trilogia Bourne), você se vê literalmente grudado na tela senão, se perde do sonho e aí não entende nada mesmo.

Naquela noite, sonhei coisas tão absurdas quanto as da tela e acabei, durante o dia, divagando sobre sonhos de forma geral aqueles que se sonha acordado e os do inconsciente.

No filme em questão, tem uma personagem que se perde da realidade e pensa que a vida real é aquela que ela sonha. Isso pode parecer totalmente contrário e oposto à razão e o é. Se você inventar um mundo perfeito pra si mesmo, o lugar ideal para se viver, a vida sob sua única con/percepção, te chamarão de alienado e é bem provável que você ganhe um passaporte para o hospício mais próximo endossado, inclusive, por aqueles que te amam.

Seria mesmo loucura desejar algo assim? Ser arrebatado pelo extraordinário e fora do comum, dias e noites em plena sintonia com seu desejo, sem mortes, perdas, dores, sem ausências, nem nada fora de contexto? Imagine um tempo sem tragédias ou catástrofes, um lugar sem assaltos e assassinatos... Parece bom, mas será mesmo possível encaixar-se num universo de excelências? Não sei responder... Sim, porque mesmo num 'mundo perfeito' até o que se deseja pode ser um tormento quando conquistado.

Vou dar um exemplo simples: imagine uma moça, jovem, que recebe a notícia de um médico de que, por um problema nos ovários, sua chance de ter filhos é uma em um milhão. Ela se sente a última das mulheres, pois tudo que desejava na vida era ser mãe. E passa os dias sonhando com um bebê impossível nos braços.

Até que um dia, por acaso ou descuido (quem poderá afirmar?), se descobre grávida. Susto e incompreensão: ela é solteira, o rapaz da 'transa inconsequente' não quer ser pai (nem por decreto), ela está às voltas com uma promoção no trabalho (também tão sonhada), e se vê, dentro de um milagre, às voltas com a maternidade e o seu 'mundo perfeito' dissolvido em pedaços, uma vez que ser mãe é só parte da história sonhada.

"Que é mais nobre para a alma: suportar os dardos e arremessos do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras e dar-lhes fim tentando resistir-lhes? Morrer... dormir... mais nada... Imaginar que um sono põe remate aos sofrimentos do coração e aos golpes infinitos que constituem a natural herança da carne. (...) Morrer... dormir... dormir... Talvez sonhar... É aí que bate o ponto. O não sabermos que sonhos poderá trazer o sono da morte, quando ao fim desenrolarmos toda a meada mortal que nos põe suspensos."(...) (Shakespeare, em Hamlet)

É, como se vê, tudo uma questão de ótica. Ou de sonhos: os que se quer apenas sonhar, e os que se quer efetivamente viver...

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quinta-feira, 3 de março de 2011

QUAL COR SEUS PAIS TE DERAM?
>> Fernanda Pinho


Pensei em recorrer ao óbvio e falar sobre carnaval. Mas não tenho nenhuma história carnavalesca que mereça virar crônica (embora tenha vivido alguns carnavais inesquecíveis) e nem nenhum sentimento especial pela data – de amor ou de ódio. Eu até gosto de carnaval, mas pela mesma razão que gosto do dia de finados: feriado! Sem ter o que dizer, então, sobre marchinhas, bailes, agremiações, trios elétricos e fantasias, o que me resta do carnaval são as cores. Façamos, então, uma crônica de antevéspera, bem colorida.

Minhas cores primárias foram: branco, azul e vermelho. As cores referentes aos nomes das pessoas da minha casa. Pois é. Eu acho que os nomes têm cores e sei que é loucura compartilhada, pois minha melhor amiga, a Lili, também acha. Sendo assim, estabeleci: Léia, o nome da minha mãe, é azul. Luiz, o nome do meu pai, é vermelho. Paula e Fernanda, eu e irmã, nomes brancos. Pode até ser que haja alguma lógica inconsciente nisso tudo. Afinal, azul é a cor preferida da minha mãe. Vermelho é o apelido do meu pai. E é natural que duas irmãs tenham nomes da mesma cor. Mas não é simples assim. Eu não acho que Luiz seja vermelho porque meu pai tem o apelido de Vermelho. Só é a cor que vem à minha cabeça quando eu falo Luiz. Pensem bem, gente! Luiz! Quer coisa mais vermelha que isso? Luiz Carlos ameniza um pouco. Porque Carlos é verde. Não um verde vivo tipo Sandra, nem escuro tipo Roberto. É um verde claro. Paula e Fernanda são brancos porque são nomes abertos. Com muitos "AS", vocês entendem o que eu quero dizer, né? Nomes com muitos "IS" porém, tendem a ser vermelhos. Tipo Liliane, o nome da minha melhor amiga, que é ruiva. Mas uma coisa não tem a ver com a outra, repito. Mesmo porque, conheci Liliane quando nem era tão ruiva assim. Nomes que têm "U" puxam para o escuro. Afinal, as cores escuras são mais fortes que as claras e predominam. Juliana, por exemplo. Tem "I" e tem "A". Mas tem "U". Então é azul marinho. Agora, Juliane é azul e laranja. Porque tem "E" no final. "E" tem algo de laranja. Kelly é um nome bem laranja. Felipe também. E Gabriel também! Apesar de ter A e I, a terminação em “EL”, puxa para o laranja. Ouço alguém dizer: “mas não seria mais lógico esse nome angelical ser azul claro, cor do céu?”. Seria. Mas, já disse, não trabalho com lógica nem com embasamentos semióticos. "M" puxa para o amarelo. Maria, Mariana, Marina, Mayra. Tudo amarelo. Mas em tonalidades diferentes. Sendo Marina o do amarelo mais forte. Sabe aquele amarelo cor de manteiga? Então. Apesar de que Márcia, Míriam, Maysa são vermelhos. Vai entender. E Andréia, que nem começa com "M", é um amarelão bem cheguei. Os nomes diferentes também têm cores. Claro que têm! Não bastasse quase não ter xarás, eu os deixaria também sem cores? Não mesmo. Ainda mais eu, tendo tantos amigos de nomes peculiares. Rumenigue é muito grande. É como aquelse países de proporções continentais, que têm vários climas. É preto, vermelho e laranja (aliás, nesse momento eu visto uma blusa muito Rumenigue). Loreyne é lilás. Calypso, verde. Aleta, rosa bebê. E por aí vai. Desde criança, costumo colorir os nomes e, por consequência, as pessoas que carregam esses nomes. É estranho, mas é bonito. E muito particular. A Lili, por exemplo, aquela vermelhice toda, jura que Liliane é um nome branco. Vai entender.

E, para terminar como comecei, desejo que você passe este carnaval ao lado das suas cores preferidas.


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quarta-feira, 2 de março de 2011

AMOR, FLOR, DOR E OUTRAS RIMAS DESAMPARADAS >> Carla Dias >>


A casa foi partida em duas: ela ficou com o quarto e a cozinha, um tiquinho da lavanderia e com meia varanda. Na sua metade, estão os vasos de avenca e lírio-do-brejo, resquícios da tentativa dele de construir jardim em apartamento. Elas parecem ter sede, então ela vai até a cozinha, que é inteirinha dela, porque é viciada em café e bolo de milho, e bebe um copo de água. Pronto... Matou a sede dela, mas quer que as plantas se danem. Quer, na verdade, que as plantas saibam que ela poderia, mas não dará de beber a elas. Então, pega outro copo de água, escora-se à porta da varanda, e bebe o líquido transparente e gelado, crente que as plantas estão assistindo a tudo, suas gargantas secas feito o deserto.

Não pode pisar na sala, tampouco no quarto de empregada. Lavar roupas é no tanque, porque a máquina de lavar ficou do outro lado. Em meio varal, pendura coisinhas de mulher, que se antes, ela acredita, assanhava o olhar dele, agora apenas estabelece certo pudor e um sério mal-estar. Por isso mesmo dispõem a toalha de banho enorme de um jeito que ele não possa ver suas roupas íntimas, a não ser que ele queira muito.

Será que ele vai querer?

No quarto a cama é king size, de uma vastidão imprópria para quem nunca pensou em ficar só. Ela vira pra cá e pra lá, agarra os travesseiros de ervas, e o perfume que deles exala é o dele. Deita-se de atravessado, as pernas apontando para um canto e a cabeça para outro, o olhar vidrado no teto. Poderia ter dividido o quarto, e ainda assim teria espaço. Mas como seria se deitar ao lado dele sem poder, já no sono começado, e como tem sido de costume há quase uma década, virar-se e abraçá-lo até cair num sono profundo?

Ladra esse amor
Ao meu peito em flor
E renasce silente
Depois se abre em grito
Escandalizando o paraíso
Com a sua nudez

A partilha foi feita com fita crepe, num momento explosivo, em que ela, com as faces vermelhas e a voz chorosa, exigia que ele entendesse o seu lado. E ele estava irritado, mas de um jeito inédito pra ela, exigindo que ela ficasse calada para que ele não dissesse nada que a ofendesse demais. Como todos sabem, conselho mais sábio, quando se trata de casais, não existe: em briga de casal não se mete a colher. Por isso que as irmãs dele e a mãe dela assistiam a tudo sem abrir a boca, prontas para a fase 2, quando ambos desabassem. E desabaram...

Chororô à parte, olhos injetados de falta de noite bem dormida e conclusões, ambos passaram a respeitar profundamente aquela fita crepe de fora a fora do apartamento. Mesmo quando os dias passaram e a moça da limpeza dele não entrava em acordo com a dela, e ambas passavam pano úmido na fita, fazendo com que ela se descolasse, ficasse meio solta, eles se mantiveram firmes... Ela bebendo café frio, porque já não tinha mais disposição para fazer café mais de uma vez ao dia. Ele gastando água até ao lavar apenas uma camisa na máquina, só para que ela ouvisse o barulho do que já não era mais dela.

Esse tal amor
Tatua seus abismos
Na minha pele em flor
No meu coração partido
Crava o olhar no meu semblante
E sai de mim sorrindo

Houve essa noite em que ambos pareciam zumbis caminhando pelo apartamento. Encontraram-se no corredor, este divididinho certinho, para que cada qual pudesse caminhar do seu lado. Porém, ao irem um de encontro ao outro, ainda que abaixando suas cabeças para evitar a troca de olhares, suas mãos se tocaram. Suas mãos se tocaram como se fossem amantes que não se viam há tanto tempo que seus corpos e suas almas doíam de um jeito que nem dava para explicar.

Ela foi para o quarto, deitou-se ao pé da cama, que já não suportava tanto espaço sobre ela, e chorou baixinho, durante horas. Ele se deitou no sofá, entre lençóis remexidos, apossou-se do controle da televisão como se estivesse empunhando uma arma, mas não atirou. Ficou segurando o controle no ar, lágrimas escorrendo pelas suas faces, em silêncio.

Ela aprendeu a andar direito. Ele vivia tirando sarro dela por causa da sua mania de caminhar quase que em zigue-zague. Mas agora era uma mulher treinada pelo que está disponível. Foram noites e dias de caminhadas pelo apartamento, andando sobre a fita crepe, um pé na frente e outro atrás, como se estudasse para se tornar malabarista e andar sobre a corda bamba. Um equilíbrio necessário para que não se jogasse do outro lado, berrando seus porquês, alardeando interrogações que já nem fazem mais sentido.

Para ele, o que estava fazendo era respeitar um pedido. Ela não queria que ele entendesse o lado dela? E como fazê-lo sem defini-lo certinho? Na verdade, não imaginou que ela toparia essa loucura de dividir o apartamento, deixando apenas como lugar comum o batente debaixo das portas, evitando, assim, confrontos quando lá se encontrassem, sem querer.

Ou querendo?

Porque ele se levantou mais cedo que de costume, ficou espreitando a cozinha, lugar que, ele sabia, era a primeira parada dela, porque acordava doida por um cafezinho fresco. E qual não foi a sua surpresa quando olhou no relógio e ele já apontava quase uma hora depois do horário usual dela. Pensou tantas besteiras, e aquela fita crepe gritando “nem pensar em me ultrapassar!”, mas ele ultrapassou, “questão de vida ou de morte!”, gritou de volta para a fita crepe insolente. E, ao abrir a porta do quarto, encontrou a cama feita, mas com o lençol tão esticadinho, que apenas um pensamento veio a sua cabeça: “perdi?”

Naquela semana, sentiu saudade da palavra saindo da boca dele. Estranho como podemos sentir saudade de coisas que jamais imaginamos que fariam tanta falta. Ela o observava, discretamente, indo para lá e para cá, silente, cabisbaixo, o controle remoto da tevê na mão, mas raramente a ligava. As camisas brancas dele se tornaram cor-de-rosa, após uma lavagem mista. A sala ficou empapuçada de tantos saquinhos de biscoito sobre os móveis, a alimentação vigente. O olhar dela cambaleou e escorregou em lágrima. Saudade da palavra saindo da boca dele. Da boca dele dizendo a palavra que a faz sorrir tão fácil. Saudade do sorriso, da gargalhada, e das brigas sem motivo.

Invade esse amor as paredes da casa
Enquadra-se esse amor
Nas mãos amparadas
De cara com a dor
Em espirais e fermatas
Esse amor fecha a cara

As semanas passaram e as plantas não morreram porque a empregada dela achou maldade demais cometer tal homicídio, e deu de beber às pobrezinhas. A empregada dele quis aplicar uma nova fita crepe divisória, mas ele a impediu. Aquela, ao menos, foram eles que colocaram. Ela parou de vez de dormir na cama, deitando-se sempre aos pés dela, no chão. Café fresco? Dia sim, dia não, e olha lá! Ele largou de vez o controle remoto, divorciou-se da televisão. Agora, deu de se sentar no sofá e escutar seus discos modelo Long Play até a madrugada implorar para acabar.

Abandonaram-se em companhia um do outro, criando esse espaço partido ao meio, como partido ficaram seus corações. Com o tempo, aprenderam a conviver com a solidão acompanhada, acostumando-se a espiar um a dor do outro, como se assim pudessem manter uma ligação infalível...

Mas falível é a felicidade, hoje eles sabem disso muito bem. E a fita crepe, que ainda é a mesma, suja, descolando, mas persistente, é a única lembrança que eles mantêm do dia em que, sem realmente desejarem, impuseram limites aos próprios sentimentos.

Vê-se bem que esse amor
Nasceu em dia de chuva
Escondeu-se debaixo do cobertor
E chorou até a lua
Colheu bálsamos para curar mágoas
E depois saiu: varado de sede e em lágrimas



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