segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

MINHA PEQUENA TERRORISTA
>> Kika Coutinho



Ela come areia, rasga cartas, engole pedras (pequenas, mas engole).

Ela quebra os eletrônicos, besunta-se de cocô, acorda inteirinha molhada de xixi.

Ela finge que vai te beijar e morde tua bochecha. Morde teu nariz e quase arranca a pele da tua mão com seus pequeninos dentes.

Ela anda na ponta dos pés, corre até cair, dança pra ficar tonta. Ela grita, chora, ri e esperneia em altíssimos decibéis.

Ela enfia o dedo na tomada, pega abelha com a mão e abraça – forte – o rottweiler desconhecido.

Ela bate no amigo, no inimigo e estapeia a mãe. “Não pode!”, gritamos, incansavelmente. Ela ri seu riso malandro e disfarça olhando pra cima.

Ela fala um idioma próprio, puxa os próprios cabelos e tenta arrancar as próprias orelhas.

Ela pula na pisicina, no mar ou na privada. Onde houver água, ela se joga.

Ela fecha o próprio dedo no armário, depois na gaveta, e depois na porta.

Ela beija o espelho, o copo de requeijão e a planta.

Ela come sabão, cospe água e engole pomadas de assadura – muita, muita pomada.

Ela passa feijão no cabelo, arroz no cabelo, purê de batata no cabelo, e deixa o suco de maga para o vestido.

Ela causa o caos, o barulho e – quase – o terror.

E é doce, amável e afetuosa.

É dengo, charminho e carinho.

Meu pequeno monstro, meu grande tesouro, meu maior amor.

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domingo, 27 de fevereiro de 2011

CERTAS COISAS DENTRO DA CAIXA
>> Eduardo Loureiro Jr.

— Me diz por que é que eu me meto em certas coisas? — perguntou uma amiga enquanto esperávamos o início de uma reunião.

Eu sorri e respondi:

— Talvez pelo mesmo motivo que EU me meto em certas coisas.

E a reunião começou antes que minha amiga pudesse fazer a pergunta fatal, para a qual eu não tinha resposta: "Então por que VOCÊ se mete em certas coisas?".

Porque a verdade é que eu estou mesmo metido em certas coisas. Por exemplo, na produção do primeiro livro, da primeira coletânea de escritores, aqui do Crônica do Dia. E mesmo eu tendo convocado seis amigos para levar isso adiante comigo, tem horas em que eu me pergunto: "Homem rapaz, estava tudo tão tranquilo, cada um escrevendo e publicando sua própria crônica, você só tendo o trabalho de dar uma revisadinha e de escrever aos domingos, por que é que você foi se meter nessa história de livro?"

Incapaz de responder à pergunta, fui deixando para lá...

Até que me meti em outra certa coisa: um teatro de bolso, na falta de um nome melhor. Uma sala de teatro no subsolo do bloco C da quadra 711, aqui em Brasília, com capacidade para 30 pessoas. Fui ver uma peça infantil chamada Caixa de Memórias, encenada pelo VIRTÙ: Confraria Teatral, um nome pomposo para quatro atores: André, Fernanda, Maysa e Pedro. Confesso que fui mais por compromisso profissional, já que era uma sessão especial para os escritores da Casa de Autores, de que faço parte aqui em Brasília. O tamanho, a temperatura e a arquibancada da sala pareciam perguntar, em uníssono: "Eduardo, por que você se mete em certas coisas numa caixa dessas?" O que eu não desconfiava era de que, mais do que a pergunta, aquela caixa me traria a resposta.



O espetáculo — sim, é um espetáculo que faz justiça ao nome — foi me ganhando aos poucos, em sua inventiva simplicidade. A princípio, me encantei pela forma como os atores disputavam a narração da história, feito crianças combatendo pela posse de um brinquedo. Depois, a própria história, da relação de um menino com uma desconhecida, velha e misteriosa vizinha, foi tomando conta de mim, graças às mais variadas formas que o VIRTÙ encontrou de contar tal história: os personagens por vezes eram representados pelos atores, outras vezes por bonecos; objetos apareciam em tamanhos diferentes, grandes para o uso dos atores, pequenos para o uso dos bonecos.

Então o menino soube, por seus pais, que a velhinha havia perdido a memória. E por não saber o que era "memória", e por ninguém saber lhe explicar direito a não ser por qualificativos — doce, fria, antiga, faz chorar, vale ouro — o menino juntou objetos assim e assado numa caixa e presenteou sua nova velha amiga. E a cada objeto tirado da caixa pela velha (representada por voluntários da plateia) vinham à tona lembranças que a tal senhora havia "perdido".

Daquela caixa de memórias, saiu também a resposta para a minha pergunta sobre se meter em certas coisas...

Você se mete em certas coisas para ter uma história para contar sobre elas, para ter memória delas, para morar nelas e elas morarem em você.

Pois as histórias sobre o primeiro livro do Crônica do Dia, por exemplo, já começaram a surgir. A primeira delas sobre a escolha do nome da "criança": ACABA NÃO, MUNDO e outras do cronicadodia.com.br. Mas essa história eu não contarei aqui, deixarei para contar no próprio livro.

Por enquanto, basta lhe dizer, caro leitor, que as certas coisas em que a gente se mete são justamente isso: as coisas certas.



SERVIÇO
Espetáculo: Caixa de Memórias
Período: de 19 de fevereiro a 20 de março de 2011.
Sábados e Domingos às 17:30h.
SCLRN 711, Bloco C, Loja 5.

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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

MORANGOS E VINHO >> Leonardo Marona

Foram morangos com vinho, que ela comeu no jantar. Agora no chão na minha frente misturados numa poça de bílis e maresia. Foram morangos com vinho ou era minha alma que ela tinha bebido, agora despedaçada em pequenos coágulos cheirosos pelo chão de tábua corrida. Eu trouxe a vodca, trouxe a vida, mas estou sendo perseguido, não há dúvidas, e quero que ela me ache ali no meio da poça, onde posso ver meu reflexo. Onde posso cobrar a dívida do desejo desperdiçado pelo zelo. O reflexo sorri e eu não. E por quê? Porque foram morangos com vinho. Foi agorinha. Não fiquei surpreso. Abriu a porta, um beijo rápido, sentamos no sofá, pernas sobre pernas, aquele silêncio tão raro, então se virou de lado, de olhos fechados, e tudo ficou bem ali no chão de taco esparramado, meu rosto refletido. Não era como eu, e parecia tão eu mesmo. Agora ela dorme no sofá encardido de filme inglês. Ronca, uma vez baixo, outra vez alto, então se engasga, golfa, engole o ar. Na prateleira, “A Convidada”, da Simone Beauvoir, e um livro de conversação em francês. Na cozinha sirvo a vodca. Estou aqui, pensando: tantos planos, tantos danos, tantos anos... E foram morangos, tão cheirosos quanto o vômito da vida, de vinho, encarnado, de cor tão viva que só podia estar...

Não, não vou dizer isso ainda. Ou será que não eram morangos? Ou será que não éramos ela e eu, e sim mais um começo de mais um adeus. Não. Eram mesmo morangos, mas que importa agora, se antes de começar já perdi a luta, abri a guarda, e nem tenho mais alma, muito menos coração, a não ser por aquela bola de carne gordurosa, que é onde depositamos todas as nossas esperanças e desculpas, porque de fato não existem, ninguém nunca os viu, alma e coração, a não ser em compota? Então dizemos que é ali que está o que não sabemos explicar. O diabo com isso! Estou sozinho escrevendo, não que alguém vá ler um dia, nem me importa. Perguntei a ela assim que ela caiu por detrás da porta, ao me deixar entrar com um sorriso, sobre a poça de bílis: quer que eu vá embora? Não, por favor, fique, disse o mar de Copacabana, durante a noite toda, com suas rajadas de onda. Pois fiquei, indo e vindo da cozinha, atrás da vodca, “termino a garrafa e me jogo pela janela para ficarmos quites”. Mas sentei na janela, sob a luz de uma sobra de vela, e, ah! como quis ficar ali para sempre, ouvindo as vozes do paraíso, observando na marquise o movimento de um pombo sem uma das patas, aqueles olhos alaranjados e indecisos, como os meus que, apesar de não serem laranja, mesmo que ninguém entenda, filtram as coisas em azul-turquesa. E as vozes são do paraíso mesmo, não, agora é Alceu Valença, minto, Elis Regina, que me lembra a mãe que foi embora levando com ela a última esquina.

O pombo sem pata dos olhos laranja na marquise. Um vaso quebrado tombado de flores secas na marquise. O pombo sem pata manca até o vaso de planta. “Pela primeira vez vejo um pombo mancar”, anoto na tarja da garrafa de vinho vazia que ela tomou com morangos no jantar. O pombo manca até o vaso quebrado tombado na marquise. Bica a copa de uma flor seca, na rua barulhenta de Copacabana, que em nada lembra o mar, apesar de ter. Anoto outra vez na mesma tarja da garrafa: “um pombo manco sem pata bicando a copa de uma flor seca num vaso quebrado tombado na marquise de um prédio feito de ladrilhos situado numa rua barulhenta de Copacabana me emociona mais do que 10.000 obras de arte dentro de qualquer museu contemporâneo”.

Largo o caderno. Fadado. Perdido. Sem chances. Os morangos! Com folha de jornal, recolho os morangos do chão, como se fossem as desculpas dos pedaços do meu próprio coração, apesar de ser apenas mais um tiro fatal, dentro de um peito que transborda ressentimento, loucura e paz. Levo o jornal com o que penso serem meus restos mortais, de onde escorre sangue demais, mas eu preciso achar que vinho, que ainda vivo, até a cozinha, onde adivinho a primeira impressão da cadeira de Van Gogh sobre a pia com vazamento, e uma voz em holandês – e eu não entendo holandês – me sussurra o quanto pode ser miserável um sorriso por muito tempo, pelo que sorrio, pois, como já disse, não entendo.

Ela dorme e ronca na sala, tão minha de repente que imagino filhos, feridas, facadas. Então troco a rumba por Tchaikovsky, olho a sala no seu redor, vejo a garrafa tombada que me lembra o vaso quebrado tombado de flores secas na marquise, alimento de pombos e da noite dos infelizes, tudo como se morangos tivessem alma e o silêncio cauterizasse as cicatrizes.

Talvez seja sina sabida sozinha cortina cerzida sem sombra de dúvida seria outra vez uma garrafa de Concha y Toro, leio na tarja onde anoto meus sonhos, virada sobre os respingos sobre o telefone analógico azul-senão-seria-cinza. Do outro lado da sala, perto da porta de saída e entrada, entendo por fim a explicação da vela, cuja chama navega em ondas de sombra e luz e dúvidas e mistérios, trazendo em si a distância que separa dois corpos náufragos à deriva, tão juntos, tão suplicantes que, assim como a chama da vela vacila, o que vejo escorre pelos lados do que nem sei se sinto ainda. E acabou a garrafa de vodca. Quando vou dormir.


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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

SÓ ACONTECE COMIGO >> Fernanda Pinho



À que saiu de casa toda arrumada e levou banho de poça d'água. Ao que levou um pé na bunda às vésperas do casamento. Ao que acabou de receber e teve todo o salário roubado. À que se apaixonou tarde demais por alguém que já foi apaixonado por ela. À que engravidou na primeira transa. Ao que quebrou o dente da frente no dia em que ia dar uma palestra. À que ficou menstruada no dia em que resolveu sair de roupa branca. Ao que desistiu de investir em um negócio e depois acompanhou o seu sucesso. Ao que foi demitido no dia do aniversário. Ao que foi confundindo com um terrorista ao tentar entrar nos Estados Unidos. À que teve as malas extraviadas durante a viagem. À que desmaiou durante a primeira visita à casa do novo namorado. Ao que ficou doente justamente quando conseguiu tirar férias.

A todos estes só parece restar uma curiosa alternativa: a de se consolar se julgando importante demais e proferir a famigerada pérola: só acontece comigo! "Só acontece comigo" tem cara de um ato de desespero mas é, na verdade, um ato de egocentrismo. É como se, se apegando à ideia de ser exclusivo em algum nível para o universo, a pessoa se sentisse menos desgraçada. Mas, olha, sem querer ser desagradável nem nada (não é mesmo essa minha intenção. Tanto que eu iria postar essa crônica semana que vem, mas decidi me adiantar pra não estragar o carnaval de ninguém), gostaria de partilhar uma descoberta feita às duras penas. Chupa essa manga, meu caro: não, não acontece só com você!

Você pode, sim, ser um azarão, frequentemente contemplado pelas ironias da vida. Mas isso não significa que você seja especial para o mundo, a ponto de todas as forças do universo conspirarem para que algo aconteça única e exclusivamente na sua vida. Já parou para pensar há quanto tempo esse planetinha está orbitando por aí? E já parou para pensar em quantas pessoas já passaram por aqui desde então? Quer dizer, cogitar a ideia de que qualquer coisa, por mais absurda que seja, tenha acontecido só com você é se achar importante demais.

Mas sabe qual é a parte boa? Sim, tem uma parte boa (não precisa ficar triste pensando "ah, acabei de descobrir que não sou importante, por causa de uma crônica boba. Só acontece comigo..."). A parte boa é que, não sendo único, exclusivo e especial, significa que você não está sozinho! Você é só um grão de areia mas, olha aí, com outros milhares de grãos de areia em volta de você. Saber que outras pessoas passaram e passam por situações semelhantes às nossas e continuam por aí, vivendo e até felizes, é reconfortante. Ter em quem se espelhar para seguir em frente é um alento muito mais interessante do que viver acreditando que, enquanto a gente dorme, as estrelas conspiram contra nós.

O mundo não está te perseguindo! Pare de correr e dê um delicioso abraço nele.

Foto: www.sxc.hu


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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

AS GIRLS SE DIVERTIRAM! >> Carla Dias >>

Natal de 1987...

Depois de anos participando de amigo secreto e ganhando cozinha de brinquedo, boneca, joguinhos, batom, fitas para os cabelos, camiseta e etc, eu já estava velha o suficiente para um presente diferente: um disco.

Eu insistia em espalhar a palavra: meu amigo secreto querido, por favor, um Long Play é o que quero, e assim segui, durante o mês que antecedeu o Natal deste ano: fazendo campanha para o presente perfeito.

O disco era o True Colors, da Cyndi Lauper. Eu escutara na rádio uma das músicas, e não era o hit que dá nome ao disco, mas sim Calm Inside The Storm. Apaixonei-me pela música, apesar de não entender nadinha do que ela dizia, a voz dela me encantou. Enfim, tornei-me fã, antes de concordar que as Girls Just Want to Have Fun.

Ontem, eu fui à casa de shows Via Funchal, aqui em São Paulo, para assistir ao show da Cyndi Lauper. “Borboletas no estômago”, porque, cada vez mais, tenho por certo que as músicas que trazemos no playlist da nossa alma têm sim a função de cuidar das nossas memórias. Na noite de ontem, veio-me, claramente, a alegria que senti, no Natal de 1987, quando meu pedido foi atendido e eu ganhei o meu Long Play tão desejado.

A emoção de ver um dos seus ídolos subir ao palco é sempre das mais fortes. Quando Cyndi Lauper apareceu, não como a colorida moça esboçada na capa de seu segundo disco, She’s So Unusual (1983), mas nem por isso menos exótica, a casa foi abaixo! E aposto que não fui a única a se sentir uma pessoa de sorte por estar ali, compartilhando da música de tão inspirada compositora, intérprete de primeira, uma artista com o domínio do palco, como poucas.

Cyndi Lauper lançou, no ano passado, o Memphis Blues, disco de trabalho e do qual as canções fazem parte do repertório do show da turnê da artista. Aliás, ela realmente tem o Blues! As interpretações de Cyndi para os clássicos são de arrepiar. Entre elas, a que mais me marcou, durante o show, foi Crossroads, de Robert Johnson. Em fato, a versão Blues de Cyndi Lauper é extremamente interessante e agradou muito ao público. E a banda tem crédito nessa sonoridade, e entre eles, estava a percussionista brasileira Lan Lan Moreira.


Crossroads (Robert Johnson)

Alguns momentos foram inusitados, como quando Cyndi desceu do palco e cantou em meio ao público, que, enlouquecido, tirava fotos, cantava junto, não acreditando naquela proximidade. Isso aconteceu mais uma vez, durante o show.

Obviamente, não faltaram as clássicas canções, entre elas She Bop, All Through The Night, Change of Heart, Time After Time, Iko, Iko e a top Girls Just Want To Have Fun. E eu não sei sobre os boys, mas as girls se divertiram, e muito!

Para fechar a noite, uma versão intimista de True Colors, com a percussionista Lan Lan ao pandeiro.

Enfim, um show inesquecível. Só me resta agradecer a Aninha pelo convite, pelo de Natal, em fevereiro. E a Rubia e a Daniela, pela companhia.


Daniela, Aninha, Rubia e eu.

carladias.com



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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

TALVEZ >> Albir José Inácio da Silva

Lá fora tem um sol desses de assar gringo sorridente. Eles se deitam de barriga pra cima e ficam lá sentindo o calorzinho e o ventinho, o calorzinho e o ventinho até que um deles grita, reconhecendo no outro a brasa em que se transformaram. Mas essa divagação sobre gringos é pra fugir do problema. Talvez a praia não fosse um problema, se fosse a única possibilidade.

Mas a praia não é a única possibilidade e, além disso, tem areia quente, raios cancerígenos e a água que pode estar contaminada. Talvez eu fique melhor lendo aquele livro que já comecei quatro vezes. Isso talvez signifique melhor descanso porque hoje é domingo e aquele bando de gente barulhenta da praia não descansa ninguém.

Mas talvez eu não esteja precisando de descanso nenhum. Preciso, isso sim, de atitude, movimento, para que a semana comece bem, com energia, e não se arraste sem graça e repetida como se durasse um mês.

Ou talvez deva mesmo ficar em casa, mas pra fazer aquele trabalho chato que já cobraram tantas vezes e eu não tenho mais desculpas. Ora, danem-se! Duvido que eles fiquem fazendo relatórios no domingo. O melhor é assistir televisão que não se precisa responder, nem se mexer, nem pensar; e descanso é isso, é um quase morrer.

Se alguém ligasse me convidando pra alguma coisa... Lembro que nas segundas-feiras há sempre gente comentando programas comuns, fulano ligou pra sicrano e fizeram isso e aquilo. Que inveja! Talvez eu devesse ligar pra alguém. Ou chegar na casa de alguém. Uma surpresa. Surpresas, outra inveja! Nada me surpreende. Tenho sempre que escolher o que fazer e aonde ir.

Enquanto não resolvia, fui andando até a praia pra ver se ela me convidava. Tudo estaria resolvido com um convite. Só ouvi a freada e um capacete que falava com a viseira levantada. O resto foi surpresa, cabeça rodando, muita atividade a minha volta, e a maca. Depois radiografias, curativos, injeções, comida ruim e gesso. Às dez da noite voltei para casa com uma bengala e um alívio: o domingo estava plenamente resolvido.

Amanhã vai ser mais fácil, com menos opções. O relatório alguém vai ter de fazer; a praia está descartada, com ou sem sol; e não vai ter trabalho por muito tempo. Claro que nem tudo está resolvido. Aquele livro continua lá, ameaçando - é uma vergonha não conseguir terminar um livro - além de não poder começar outro. E tem a televisão, que pra doente talvez seja o remédio mais indicado. Talvez.

Mas isso é assunto pra segunda-feira – cada dia deve ter seus próprios problemas – e pra hoje já foi demais. Eh, vida dura!

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domingo, 20 de fevereiro de 2011

PAPEL >> Eduardo Loureiro Jr.

O papel parece coisa pouca, mas é ele muitas vezes o primeiro tabuleiro das crianças em seu jogo-da-velha.

Vencido pelo corte da tesoura, o papel embrulha e vence a pedra. São de papel as pipas, as raias ou os papagaios. De papel são os concentrados cadernos, e também os descontraídos confetes e suas repentinas serpentinas. Beijos-de-moça são envoltos em papel e dele são as línguas-de-sogra. Ficam nele, no papel, muitos sonhos de mocidade.

As lembranças — cartas e fotografias — são de papel e ficam guardadas em embalagens e caixas, também de papel.

Cédulas, cardápios, exames, multas, diplomas, documentos em geral, estão em papel. Está escrito, papel passado, é compromisso. Se for preciso, é filtro, lixa, adesivo. Sem distinção de raça — branco e pardo —, papel.

Nele se fixa, nele se imprime. Papel que tudo aceita: lembretes, rabiscos, rascunhos e obras-primas.

Papel dúplex e de muitas outras faces: papel-alumínio, papel-bíblia, papel-carbono, papel-manteiga, papel almaço, papel cuchê, papel crepom, papel machê, papel higiênico, papel timbrado, papel seda, papel vergê... Papel contínuo, de longa linhagem.

Papel onde se tece — texto — com palavras. Livros de papel, ainda, seres quase humanos que têm até orelhas. Filho da árvore que à mãe homenageia no nome de sua filha — folha.

No calor, no climatério, o leque é vento — de papel.

Papel eterno, que não morre, se recicla e se reedita.

Talvez por isso, talvez por tudo isso, o primeiro aniversário de casamento tenha exatamente o nome de Bodas de Papel.

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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

EM DEFESA DA POESIA SANGUÍNEA
>> Leonardo Marona

Quero começar falando de Marllamé. E o que é Marallmé? Certamente não é Mallarmé. E Mallarmé, o que seria? Nada além de alguém que poucos leram, e um dos maiores escritores de todos os tempos – antes de tudo, um dos maiores inventores. Indo mais fundo, o que é Mallarmé senão um erro de nome, um “começar-errado-um-texto-pensando-em-algo-além-de-nós”. Mallarmé é um gênio justamente porque é um alarme falso, um aviso de que, por melhor que fosse, não, isso não era coisa para ser aguentar por muito tempo. As invenções têm esse dilema incrível. São tão intensas e profundas que ferem de bom grado a existência, mas, como não são a existência e sim uma luta contra ela, elas jamais poderão ser duráveis como escudo, porque se deterioram conforme a existência – substância maleável – vai mudando de espécie e exigindo um novo nome de combate. E queremos, todos aqui, corresponder às armas da nova violência enternecida.

E não podemos apenas ser o que sofremos. Não conseguimos, a forma é pouco, queremos algo mais próximo da pele. Não nos envergonhamos mais dos antigos clichês. Lutamos em vida contra o adiamento do sangue, somos as veias entregues às rasas vielas, e no fundo nos envergonhamos, e isso completa o nosso ciclo anti-geométrico. Porque somos bons, somos bons à Dostoiévski, passíveis de riso, e seremos capazes de fugir dos monstros da estrutura formalizada, e não importa muito que tenham feito isso antes, isso será feito sempre, em algum lugar, e isso nos basta por ora, para fazer também. Não se cobrir com o cobertor de musgo da felicidade antecipada pela forma, faremos isso mesmo com os cotovelos esfolados. Somos bons porque sabemos bem demais que não podemos nos orgulhar de muito pouco.

O problema é que anos de movimento em direção à forma do que sentimos fizeram com que fôssemos ensinados diariamente assim, formalizando relações estéreis e cuspindo na poesia, que a melhor coisa vergonhosa que uma pessoa pode fazer. Tudo em detrimento do que transborda de cada um de nós em vergonha, porque é demais, e de forma alguma seria formal.

Mas acontece que agora temos os novos poetas. E qual dos novos poetas sabe ler o que diz Mallarmé? Que me explique, se quiser, um novo poeta a como ler Mallarmé, e eu direi: Se for para não entender nada, prefiro Augusto de Campos, que sei lá quantos anos têm, mas posso saber num minuto. E esse é o problema da – digamos – nossa geração. Vive-se o problema do minuto. Num minuto podemos saber o que quisermos, e por isso quereremos pouco. Mentiremos sobre isso, mas quereremos pouco. Mas em momento algum nos perguntamos o que será de nós nos minutos que não escolhermos. Ou seja, Mallarmé instaura, por fraqueza de espírito, em suma por medo, a poesia de escritório, a técnica do espírito. Isso é lindo, se visto com distanciamento e um talento comedido. Mas pode ser a morte para os que já nasceram com a verve em volta do pescoço.

E com isso – como com Proust, como com Shakespeare, como com Laurence Sterne, como com Homero, e até como com Dostoiévski – ficamos importantes demais para sermos vivos. E, acima de tudo, comemos com todo mundo. Com essa ideia de que podemos ser o que não somos, quase como um fetiche de coisa alguma. No nosso caso, que vivemos de livros, existe esse triste buraco entre o leitor e o escritor (e aqui falo, desde o início, como leitor), que impede que um se inteire totalmente do mais importante, o que causa a dádiva. E o que prendemos com esses tais encanadores perspicazes de dádiva, que as colocam entre anos e dedicam com bigodes para sentar sobre bíblias, é repatriar a nossa própria emoção em diáspora.

E por que escrever um poema, a não ser por um motivo profundo, de fácil escape? Resolver com erros o irresolvível fato. Mas os realizadores de formas não querem mais do que tradição. A dádiva, o espanto, eles só existem agora nas relações virtuais, namoro entre fantasmas. Somos capazes de formar mil grupos, mas não podemos mais tocar no que um pensa. E calha que, para isso, a forma é o mais eficaz disfarce. Nos ajuda a ocupar boas mesas e, quem sabe, dando alguma sorte, acordar a tão famosa crítica. Ao passo que – tradição por tradição – não existe nenhuma outra mais antiga do que a dor do Homem sobre a Terra, com um porém: a tradição da dor humana sobre a Terra não pode ser, nem jamais será, formalizada em castas de conhecimento formal. Em suma, um sujeito ambicioso pode jurar a si mesmo e aos outros – e até convencer muitos – que sofre como Gogol, que padece do Mal de Lautréamont, o que por si só já seria uma parvoíce, mas geralmente passa pelo crivo geral porque o próprio crítico, o próprio editor, em geral eles tomam um empréstimo, através da análise da forma, da “dor bem sucedida” dos que os antecederam. E com isso não há grandes complicações, a pessoa janta mais tranqüila e jamais sente frio no verão. Ah, mas como é fria no papel a dor alheia quando formalizada ao ponto da incompreensão!



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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

EU TENHO UM PLANO >> Fernanda Pinho



Acordo no meio da noite, provavelmente despertada por algum sonho ruim. Olho as horas: duas da manhã. Ui, delícia! Ainda posso dormir muito. Fecho os olhos e viro para a parede. Ei, sono, cadê você? Escapuliu, o danado. Nem discuto. Sei que não adianta. Aproveito para pensar. Raramente tenho tempo para pensar durante o dia. E a imaginação vai longe. Direto, sabe-se lá por que, para um presídio feminino. Imagina se eu for presa um dia? Por engano ou não, isso não vem ao caso. Acho que o ideal é me comportar bem. Não arrumar treta com as outras presas. Mas sem ser boazinha demais. Tá na cara que elas não gostam de puxa-saco. Talvez eu possa ser útil em alguma coisa. Será que ainda tem presa que não sabe ler? Se tiver, eu posso ensinar, né? É bom que ajuda a passar o tempo. Aliás, o tempo deve ser o grande inimigo dos que estão presos e a única forma de lutar contra ele seria me mantendo ocupada. Sendo assim, eu seria uma presa totalmente engajada nas tarefas propostas pela penitenciária e, quando não tivesse nada para fazer, eu me dedicaria a escrever. Talvez eu lançasse um livro, as minhas memórias do cárcere. Acho que o povo aqui de fora se interessaria por um livro escrito por uma presa, não? Mas pode ter caneta dentro da prisão? Preciso pesquisar sobre isso... durmo.

Outro dia. Meio do expediente. Num momento de letargia na frente do computador, em que não consigo produzir uma só linha, paro num site de fofocas de celebridades. Meu Deus, como esses paparazzi são infernais. Paracem uma praga. Se bem que a culpa não é deles. É assim que eles ganham dinheiro e, se ganham dinheiro, é porque tem gente que se interessa em consumir o que eles produzem. Os fotografados, aliás, ganham muito mais. Quer saber, não é mais que a obrigação deles saírem sorrindo nas fotos. Toda profissão tem seu ônus e ser reconhecido nas ruas é o ônus da vida artística. Não gosta? Vai ser advogado, nutricionista ou designer de interiores. Se eu fosse uma estrela global - ou hollywoodiana, quem sabe - seria superlegal com os fotógrafos. E com os programas de televisão também. Até com os mais agressivos, porque eu já notei que, quanto mais arredio é um artista, mais agressivos eles ficam. O jeito é entrar na dança. Com os fãs, então, nem se fale. Seria a Miss Simpatia. Aliás, eu andaria com a bolsa cheia de fotos autografadas. Acho que facilitaria um bocado a vida. E quando descobrissem que eu estava de namorado novo, eu assumiria logo. Criar mistério só faz chamar mais atenção.

Fim de tarde. Estou estatelada no sofá verde limão da minha sala, tentando assistir alguma coisa na televisão. A programação está tão agradável que acabo me concentrando em olhar para a porta da sala. Depois de encarar um ponto fixo por alguns minutos, uma cena me ocorre: a cabeça de um cavalo surgindo, do nada, pela porta, anunciando a presença do bicho no corredor da minha casa. Não tenho ligação especial alguma com cavalos. Podia ser um leão, uma onça ou um chimpanzé. Mas eu pensei em cavalo e a imagem me assustou. Bom. Eu precisaria ser fria diante de uma situação dessas. Nada de dar escândalo e apavorar o animal. Afinal de contas, é um cavalo e não uma barata. Evitaria movimentos bruscos e apenas me limitaria a escorregar discretamente até a ponta do sofá, de modo que meu pé encostasse na porta e eu pudesse fechá-la bruscamente, na cara do cavalo. Depois disso, obviamente, eu pularia a janela da sala (ufa! que bom que moro no primeiro andar) e sairia para a rua a procura de alguém que pudesse tirar o bicho lá de dentro. Se eu não achasse ninguém, iria ao Corpo de Bombeiros que tem aqui perto. Eles teriam que dar um jeito.

Conhecendo minha índole e minha total incapacidade de violar leis e burlar regras, sei que é praticamente nula a chance de eu ser presa um dia. Considerando meu talento para as artes, sei que é mais fácil eu ir parar numa cadeia por engano (isola!) do que me tornar uma estrela da Globo ou de Hollywoody. Sabendo que eu moro numa cidade grande e em um prédio (e que, claro, cavalos não costumam usar elevador), sei que é bem improvável que minha casa seja invadida por um. De todo modo, muito me conforta saber que - saindo tudo dos conformes - eu tenho um plano.

Foto: www.sxc.hu


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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

PASSARAM POR MIM>> Carla Dias >>

A Laura era uma moça bonita, de cabelos longos e loiros, muito animada. Fazíamos aniversário no mesmo dia, duas escorpianas mais diferentes impossível. Foi a Laura que me deu o primeiro buquê de flores da minha vida, no dia do meu aniversário, quando completei dezesseis anos. Já são aí quase vinte e cinco anos, desde lá, e até hoje sou grata a ela, pois com tal gesto, fui eu que aprendi o quanto é bom oferecer flores... Em buquês ou em jardins.

A primeira vez que entrei em uma livraria, sozinha - enfrentando aquele bichinho interior que me fazia temer pra diacho estar em qualquer lugar público, ter de lidar com a dinâmica desses lugares e falar com desconhecidos -, foi para dar um alô a um amigo do colégio, o Gilson, que trabalhava na Saraiva do calçadão da Oliveira Lima, no centro da minha querida Santo André. Agradeço a ele até hoje, porque dei de frequentar livrarias, desde então, como a maioria das mulheres frequentam os catálogos da Avon.

Uma das amigas que eu trouxe daquela época para a minha vida, e que dela não se ausenta, é a Fátima, a Antonia para tantos outros amigos e conhecidos. Com a Fátima eu passei momentos hilários, como quando a escalei para me ajudar a chegar a um ensaio. Seguimos de trem de Santo André a algum lugar de São Paulo, do qual não me lembro. Carregávamos pratos, pedal, caixa... A Fátima ficou dormindo na recepção do estúdio, porque não aguentou o barulho. E fomos embora certas, certíssimas, na verdade, de que eu não servia para bandas punks.

Assim como a Fátima, a Rita esteve presente na minha vida desde quando nos conhecemos. Aliás, presentes elas sempre estão, porque as quero bem demais, porque a amizade é verdadeira. Com a Rita eu dividi apartamento, durante um ano, bem depois de terminarmos o colégio, aqui em São Paulo. Porém as boas lembranças ainda são dos finais de semana que eu passava na casa dela, quando o Seu Pedro, o pai da Rita, fazia o almoço para nós... O melhor frango que já comi na minha vida!

O Bispo é uma pessoa muito bacana, que acabou frequentando a sala da minha casa, na época em que decidiu fazer aula de bateria e passei de sua colega de colégio para sua professora de bateria. O que mais me encantava nele – e encanta -, o que me fazia sentir uma amizade tão honesta quanto, era o sorriso do Bispo. Sorriso de gente boa e do bem, de quem não passa por cima de ninguém para alcançar o que sequer lhe pertence. Simples assim.

Não me lembro bem em qual ano do colégio isso aconteceu, mas houve um concurso de poesias no Américo Brasiliense, onde eu estudava. De tanto a Fátima insistir que eu deveria participar, eu topei, mas com uma condição: inscrever o poema no nome de outra pessoa, porque correr o risco de ganhar e ter de ler o dito em público, estava completamente fora de cogitação. E o poema – que não faço ideia de onde foi parar – ganhou o concurso. Nem a Fátima quis ler o tal em público, e para isso recorremos a outro companheiro de colégio, o Ivanildo, um aspirante a ator, um artista, desde sempre, que não tinha vergonha de ler poesia, acho que ele nunca teve problemas em dizer sentimento.

Na sala de aula, lembro-me de meia dúzia de meninas suspirando pelo Ivan. A mais achegada a mim era a Renata, uma menina muito tranquila, gente boa, que se negava a andar de ônibus com as janelas fechadas, porque adorava vento na cara. Não sei o que foi feito da Renata, mas ela ainda está presente na minha percepção – que é muito falha – do passado, das boas experiências. Quanto ao Ivan, já escrevi sobre ele aqui... É o guardador do primeiro livro de poemas que escrevi, num caderno, com direito a todos os erros de português da época – os atuais são menos gritantes... eu espero! – e citações de letras de música em inglês, com o inglês made in revista Bizz. Alguém se lembra dessa revista?

Quem me vê hoje, pode não comprar a ideia, mas já fui frequentadora assídua das domingueiras do Aramaçãn e do 1º de Maio, clubes lá da minha terrinha. Dos quinze aos dezoito anos, sofria o diabo quando não tinha dinheiro para a balada recorrente. Ficar em casa, em noite de domingo, era ter de ficar assoprando as chamas do inferno.

Havia esse colega de sala de aula, gente boníssima, lembro-me que ele era de uma delicadeza e atenção com as pessoas que eu até me comovia. Era tímido feito sei lá o que, ou seja, da minha tribo, mas isso não colaborava com o bate-papo. Ainda assim, éramos da mesma turma... Éramos amigos, desse jeito sei lá eu. Acho que o Celso foi o meu primeiro amor platônico estudantil, e falo da época do colégio, não do primário, não do ginásio... Do colégio mesmo!

Lembro-me de uma noite em que o Celso decidiu aparecer em uma dessas domingueiras. Eu adorava dançar, o que me deixava leve, permitia-me sair de cena, passar um tempo comigo mesma, apesar da casa cheia. Mas neste dia, passei a maior parte do tempo sentada, ao lado do Celso. Ambos mudos e calados. Foi algo especial, de um jeito meio torto, mas foi. E quando começou a sessão de músicas lentas, ele foi ao banheiro e eu fui tomar um refrigerante. E a gente se encontrou novamente somente na saída.

Meu segundo amor platônico estudantil foi um moço lá do colégio que tinha uma tatuagem de uma teia de aranha no cotovelo. Eu e metade das meninas da escola arrastávamos um bonde por ele. Adorávamos o ar rebelde dele... Fazer o quê?

Sonhar com ele...

Mas tive um par de sonhos foi com o Celso... Vai entender... Acho que, definitivamente, adoro um amor platônico.

Pessoas passaram pela minha vida quando eu estava no colégio, e muitas delas deixaram suas marcas. Fossem as conversas entre - e algumas vezes durante - as aulas, ou mesmo os finais de semana que um aparecia na casa do outro. Fossem os encontros na casa de esfiha que tinha pertinho da escola, onde nos reuníamos para bater papo, de preferência às sextas, e até mesmo os desfiles de fantasias feitas com papel crepom que compartilhávamos, como criadores e modelos de passarela. O fato é que a maioria dessas pessoas não sabe, mas elas fizeram toda a diferença na minha vida. Não foi apenas bacana conhecê-las, mas uma honra, ainda que eu tenha participado por tão pouco tempo da vida de algumas delas.

Porque também foi muito bom conhecer a Edna, a Janete, a Márcia, a Kátia, minha querida punk, o Maurício, a Márcia, a Viviane... E aquele professor de física que tomou o lugar do moço de cotovelo tatuado, assaltando o coração das moçoilas que adoram um amor platônico.

“Presente, professor!”


carladias.com



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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

MOMENTO DE LUCIDEZ >> Clara Braga

Mais cedo ou mais tarde, a gente acaba percebendo que, realmente, mães têm sempre razão. Em alguns momentos, parecem até gurus, sabem da gente melhor do que nós mesmos.

Eu sou um exemplo de pessoa que demorou para entender isso. Talvez eu até já tivesse entendido antes, mas eu queria testar se era verdade, então algumas vezes escutava minha mãe, outras não. Escutava quando me era conveniente; quando não era, eu fingia que queria testar as leis do universo para não ter que assumir ser preguiçosa.

Uma das coisas que minha mãe vivia me mandando fazer era arrumar meu quarto, então eu embolava tudo que estava na cama e jogava dentro do armário, tudo que estava no chão e jogava no outro armário, tudo que eu não sabia onde guardar e jogava no baú.

Sempre que minha mãe me mandava arrumar o quarto direito, eu dizia que o problema era que meu quarto era muito pequeno, não que estava bagunçado. E na verdade ela tinha razão quando dizia que meu quarto não era pequeno, era entulhado.

Algumas pessoas, incluindo minha mãe, dizem que essa coisa de guardar muita tralha não é bom, você tem que se desfazer de algumas coisas para deixar a energia fluir. Parece papo de doido, mas vai que é verdade né... Então, como no segundo dia das minhas férias eu quebrei o dedo do pé e fiquei de molho no quarto sem poder sair para nada, resolvi arrumar meu quarto. Não fingir que arrumei, mas realmente arrumar. Até agora, três dias após o começo da verdadeira arrumação, já tirei seis sacos de lixo e três sacolas de doação, incluindo bolsas, ursinhos de pelúcia, porta-retratos nunca antes usados e esses tipos de coisa. Nos sacos de lixo, tem cadernos de quando eu fazia ensino fundamental e caixas com cartinhas de colegas de escola que eu nem sei mais se existem!

Foi até legal esperar esse tempo para realmente me desfazer dessas coisas, é bom rever e reviver esses momentos, mas realmente minha mãe tinha razão, meu quarto não é pequeno, é entulhado! E quando eu assumi isso a ela, ela apenas me disse: “Que bom que você teve esse momento de lucidez, né?”

Pelo jeito que ela falou, me pareceu que faz tempo que ela espera por esse momento, por isso é melhor eu terminar logo a arrumação, ninguém sabe quanto tempo essa lucidez ainda vai durar.

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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

ARAPUCA >> Kika coutinho

Eu morava em um apartamento muito pequeno quando conheci o meu amor. Foi para esse mesmo apartamento que ele se mudou de vez quando nos casamos. Ainda me lembro das flores amarelas que reluziam sobre o sol quando chegamos da nossa lua-de-mel. A cama arrumada, a casa toda enfeitada, repleta de mudas de amor-perfeito que nasciam aos montes nas nossas pequenas janelas. Era primavera naquele meu outono inesquecível.

Nesse mesmo apartamento, eu aprendi a fazer ovo frito, omelete e penne. Errei um milhão de bolos, acertei algumas massas. Nesse apartamento, assistíamos seriados em domingos intermináveis, comendo M&Ms que escapavam entre os lençóis. Lá, brigamos um pouco e rimos muito. Lá, eu chorei sozinha, no chão de um banheiro frio, por um teste de gravidez que dava negativo. Lá, eu chorei sozinha, no chão de um banheiro frio, por um teste de gravidez que, enfim, dava positivo...

Mudamos desse apartamento para a rua de cima e, com um barrigão de sete meses, despedi-me do nosso minipalácio aos prantos, mesmo sabendo que iríamos para uma mansão duas vezes maior que aquele pequenino ninho.

Na casa nova, desisti de cozinhar, perdi os DVDs de seriados e iniciei os infantis. Na grande TV que instalamos na sala, conheci Cocoricó, Galinha Pintadinha e Palavra Cantada.

Nesse apartamento novo, de dois quartos, descobrimos o preço inacreditável das cortinas, dos armários e dos porta-toalhas de banheiro.

Lá, cheguei com um pequeno bebê nos braços, assustada e feliz, angustiada e ansiosa. Andando na sala enorme do nosso pequeno castelo, varei madrugadas cantarolando, balançando um bebê que chorava, ou chorando com um bebê que balançava. Nesse lugar, nessa morada acolhedora, fomos apresentados aos transtornos e delícias de ter empregada e babá.

Era o mesmo bairro de sempre e, enquanto caminhávamos pelas ruas arborizadas, sonhávamos com os próximos apartamentos, sempre vizinhos àquele. “Nunca vamos sair dessa região”, dizíamos com a firmeza tola dos jovens, sem saber que a vida é armadilha, arapuca perfeita dentro de cada "nunca" que soltamos solenemente, como donos do tempo e do destino.

Hoje, sentada no chão de uma sala vazia, em meio a caixas de papelão, papel bolha e fita adesiva, assisto a minha filha brincar com a mudança. Mais uma mudança, agora para o outro lado da cidade. Contrario tudo que sempre preguei. Onde eu estava com a cabeça?, pergunto-me vislumbrando as árvores que despontam na minha varanda. Como foi que decidimos sair daqui? Pergunto para o meu marido, que encaixota os cintos.

Não há resposta, concluo horas depois, já dentro do carro, enxugando uma lagriminha teimosa. Saio do bairro, cheia de saudades e gratidão. Como fui feliz aqui, penso, no longo caminho que divide a casa velha da nova.

Quando chego ao nosso próximo palácio, muitas outras árvores me recebem. É um dia de sol e calor, e eu sorrio agraciada pelo sol da manhã. Acho que vou viver aqui para sempre, falo em silêncio, enquanto abro a enorme janela da sala e vejo uma infinidade de crianças brincando no parquinho. Mal me lembro que a vida é armadilha...

Minha filha acena do térreo, no colo do pai, e eu me encanto com as arapucas preciosas da vida

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domingo, 13 de fevereiro de 2011

A CASA ALÉM DA ESPERANÇA
>> Eduardo Loureiro Jr.

A esperança é a penúltima que morre. Após seu falecimento, seguimos nós, os vivos, viúvos de tão terna companheira. Levamos os dias sem verde de olhos, de plantas, de mar. Para nós, os últimos a realmente morrer, os dias são cinzas cinzentas de um fogo que já se apagou.

Num desses dias é que chego em casa de minha mãe, coisa que faço a cada três ou quatro meses. Nesses últimos anos, em que tenho morado longe e venho só de visita, tenho prestado mais atenção à sua casa que me recebe por alguns dias.

Em sua casa, há sempre uma novidade. Não uma novidade grande, daquelas que aparecem em revistas de decoração de ambientes, mas pequenas novidades que vou encontrando aos poucos, feito ovinhos de chocolate descobertos na Páscoa.

Desta vez foi um liquidificador, um tampo de mesa e um relógio de parede. O liquidificador não tem luxos, foi ganho num sorteio de quermesse, mas veio em boa hora, porque o antigo já dava sinais de cansaço. O tampo de vidro, hexagonal, foi colocado sobre a mesa redonda, de forma que agora cabem seis pessoas onde antes cabiam quatro. O relógio é pequeno, menos da metade do tamanho do anterior, mas funciona, marca as horas corretamente.

A cada visita, são duas ou três coisas novas que encontro: uma porta corrediça, um chuveiro, um suporte para escovas de dente, um arranjo de flores, um porta-controle-remotos, uma almofada-rede, um box de vidro... coisas úteis que tornam a vida mais confortável e que dão aquela sensação de que tem alguém cuidando dos detalhes.

Minha mãe talvez não saiba — ou talvez saiba e apenas não faz alarde — que assim vai honrando a memória da esperança, que, mesmo morta, é lembrada, nesses pequenos cuidados, da mesma forma que a gente lembra uma bisavó querida, uma Encarnadinha, com a qual só convivemos em nossa infância cheia de sonhos.

Assim minha mãe, religiosa como ela só, vem colocando flores no aparador da sala e no túmulo da minha esperança, vem fazendo missas de sétimo dia e trigésimo dia e milésimo dia pela salvação de minha saudosa senhora.

Minha mãe, que, em sua sabedoria, descobriu que seu filho é ruim de ouvir e seguir conselhos, trocou as palavras pelos consertos. A cada visita, a cada simples novidade, vem, sem alarde, me ensinando que, mesmo sem esperança, ainda é possível tornar a vida mais útil, mais confortável e — como quem não quer nada — até mesmo mais feliz.

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sábado, 12 de fevereiro de 2011

APENAS TRÊS LETRAS E UM TIL [Maria Rita Lemos]

Três letras e um til, somente, e formo a palavra “não”. Simples assim? Nem sempre. Pensando bem, pode ser que você seja aquela pessoa que está o tempo todo ajudando todo mundo a fazer tudo, o possível e o nem tanto, sem esperar nada, sem receber nada em troca. Pode ser você aquela que empresta dinheiro para amigos, parentes e até inimigos, quem sabe? E por isso vive pendurada no cheque especial, devendo você mesmo aquilo que salvou tanta gente de sentir na pele e no bolso... Talvez você, com sua santa bondade, tenha aberto mão, por amor a amigos e parentes, por estar devendo o que emprestou a eles, daquela viagem maravilhosa com a qual você sonhou tanto, daquele carro que sonhou em trocar este ano, daquele Natal em Natal, só para lembrar uma única viagem...

Você aprendeu, a vida toda, recitou um antigo mantra, que dizia, milhões de vezes, que os problemas das pessoas são muito mais sérios que os seus, que é preciso pensar primeiro nos outros.... pois esqueça, enquanto é tempo!

Aprenda a escrever e falar “não”, são só três letrinhas e um til! Está certo, todos e todas temos problemas, mas dificilmente podemos ajudar a alguém se nós mesmos estivermos nos afogando! Quando viajamos de avião, em qualquer vôo, mesmo que doméstico, uma das primeiras lições que aprendemos, ainda antes de decolar, é que, em caso de pânico no vôo, o oxigênio cairá diante de nosso rosto, e se precisarmos ajudar alguém, é necessário que antes coloquemos nossas próprias máscaras salva vidas, ou não poderemos ajudar, nem a nós mesmos nem a ninguém! Primeiro respiramos, depois ajudamos a respirar, dizem as comissárias de bordo, quando estamos voando, e dizem os experientes marinheiros, quando estamos no mar!

Quando esquecemos de nós mesmos, estamos longe de poder ajudar a alguém. Será que não está na hora de ver que há pessoas que tiram proveito de sua generosidade, fazendo de você a provedora (ou o provedor) de todos os seus desejos, sem pensar, nem um único momento, em quanto pode ser importante para você realizar também alguns de seus sonhos? Essas pessoas, infelizmente, podem estar muito mais perto do que você imagina, infelizmente. Mas existem, são reais, e vão se comportar exatamente assim, enquanto você deixar as porteiras abertas para que isso aconteça.

Há pessoas que realizam, e outras que vivem da realização alheia. Esses são os verdadeiros “vampiros espirituais”, que só existem porque há pessoas, talvez exatamente como você, com o pescoço esperando para ser devorado, apenas achando que estão ajudando aos que necessitam. Incapaz de dizer “não”, as três letrinhas que têm um til no meio, cada vez mais você se torna vítima de doenças, porque seu corpo, fragilizado, começa a mendigar o amor que você dá aos outros, e nega a si mesma. Preste atenção: aquelas pessoas que se magoam quando você lhes diz “não”, quando o momento é de negar, são exatamente as mesmas que tentam dominar você, fazendo de tudo para que volte atrás, manipulando seu enorme sentimento de culpa. Quando e se isso acontecer, não recue. Não dê seu pescoço ao vampiro, nem seja agressiva ou indelicada. Firme, mas decididamente, deixe claro que você não vai voltar atrás em suas decisões, e se for possível e/ou necessário, afaste-se dessa(s) pessoas(s). Se não for possível, por algum tempo. Se for possível, definitivamente.

Comece agora a dizer NÃO, quando “não” é a palavra necessária naquele exato momento, do qual você está se lembrando agora. Dê valor ao que você é, ao que você sente e pensa. Ame a você mesma, para poder amar aqueles que estão em seu caminho, e que merecem seu amor

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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Eu e Tonto Poe e Annabel Lee do outro lado da lua >> Leonardo Marona

Tem sido uma tarefa difícil fazer o fácil. Tenho tentado um armistício com o passado. Olhando no espelho rio dos meus resultados. Mas como sou fraco! Não consigo ser eu mesmo meu próprio resultado. Me parecendo tão cedo para mais um trago da morte e mais um parto, me sinto enquadrado. Não triste. Tristes são as venezianas que, sempre nas janelas, não ganham descanso do vento, do sol, da escuridão, da luz cansada e lenta das velas. Quando a noite por aqui terminar e quando meu amigo sem amigos Tonto Poe der sua última volta depois do pingo-fim da última garrafa e quando os corvos todos já bateram asas e sobrou apenas meu gato preto e minha carne dentro de paredes tijoladas sobre o tempo do que nem me lembro mais da minha mocidade, algum feixe raro se fará rajada do outro lado da lua cheia: o lado que não se poetiza porque agora é tarde. A rajada será colorida, verde, cheia, constante e seremos eu e Tonto Poe abraçados no meio da rua, cambaleantes como a última onda do mar de luz da amizade pura. Quando as cores se confundirem com meu rosto no espelho, vai ser a última vez que quero sofrer por não saber ter coragem. Vai ser a última vez que pensarei sem tremer com toda falta de bondade. Vai ser eu se fosse tu comigo dando adeus a deus: minha luz rajada cênica de lua da lua que não está na arte. Vou ser apenas mais um corpo cheio de pernas descendo no escuro da última viagem para o fim da tarde da última primavera. Queria dizer para vocês que vai ser bonito, calmo, que a cabeça finalmente vai descansar, para não ter que dizer que o trovão que voa mais alto da terra para o chão do universo pálido vai rachar finalmente o pouco do resto do ranço do desejo de engano de tantos pobres coitados. E ainda assim será tarde porque ao que parece já nasci tarde e as escadas da noite-foice não param de descer suas lâminas sobre minha testa enrugada com cada vez mais espaço entre os degraus da escada e mais medo de ser o último vão como... agora!... Quando tropeço e caio e Tonto Poe não está ali para me segurar. Tão longe de mim que nem meus nervos podem tocar. E isso tudo só de pensar no teu rosto antes de dormir, minha querida Annabel Lee, e depois do sono tremer de frio ao beber teu suor num copo sujo, vai ser quando brindarei à noite pela última vez. E então as rajadas não serão mais tão coloridas (apenas fantasmas no lugar do meu rosto) e as escadas nunca foram de subida nem descida (apenas mais uma piada de mau gosto) e você nunca foi desculpa tampouco me deu uma vida (apenas uma amostra do meu próprio fosso) e quando digo “você”, é como se quisesse dizer: você sou (o que tenho medo de admitir) eu mesmo de novo.


www.omarona.blogspot.com



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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

MUITO MAIS QUE ISSO >> Fernanda Pinho

Diferentemente da criança que era e da adulta que sou, fui uma adolescente muito introspectiva e tranquila. Posso garantir que, ao menos naquela fase, nunca desapontei meus pais em nada. Mas houve um dia em que eu achei que era a pior filha do mundo. Eu estava na sexta série verde. Na minha escola tinha isso de as turmas terem nomes de cores e, ironicamente, foi uma cor que acabou comigo. Aquele vermelho agressivo manchando com meu boletim.

Na minha cabeça de menina de 13 anos, as piores coisas que podiam acontecer a uma garota era ser ignorada pelo menino da oitava série e perder média. E, quando eu abri aquele maldito boletim, percebi que as duas coisas estavam acontecendo comigo, embora o menino da oitava série tenha se tornado totalmente insignificante diante da minha escandalosa nota vermelha. Fiquei apavorada, minhas pernas bambas, como quem recebe uma notícia de morte. E de certa forma era. Aquele 17 em matemática (a média era 18) estava matando a minha imagem de boa aluna, cultivada com esmero desde os meus dois anos de idade.

Esmaguei o boletim dentro da mochila e voltei para casa, toda sinistra, maquinando como daria essa notícia para minha mãe. Rejeitei o almoço e a rodeei durante horas, como sempre faço quando quero contar algo que considero grave. Tentei iniciar o assunto várias vezes, sem sucesso. Até, claro, ela notar que tinha algo errado e perguntar o que era. Não tive coragem de dizer. De repente, fui acometida por uma mudez parcial que me impedia de falar as palavras “nota”, “vermelha”, “média”, “perdida” e “matemática”. Apenas lhe entreguei o boletim.

Ela pegou, abriu, olhou. Não esboçou nenhuma reação. Comentou sobre o fato de, mais uma vez, eu ter fechado o bimestre em história e me devolveu. “Será que minha mãe ficou daltônica?”, cheguei a cogitar rapidamente para, logo em seguida, me lembrar que daltonismo é raríssimo em mulher. Eu havia perdido média em matemática afinal, não em ciências.

Não teria jeito. Eu teria que FALAR sobre o assunto. “Mãe, você não viu?”. “Viu o quê?”. “Aquiiiilo”. “Fernanda, é impressão minha ou essa aflição toda é por causa dessa nota em matemática?”. “É”. Então ela sorriu e falou com sua espontaneidade característica: “Ah, me poupe. A vida é muito mais que isso”. “Hã?” – murmurei quase decepcionada por não ter levado um sermão. “Relaxa, Fernanda, vai ver televisão. Quando você for adulta, isso não terá feito a menor diferença na sua vida”.

E, óbvio, minha mãe tinha razão. No fim das contas, tudo se resume a analisar a dimensão do problema em relação à grandiosidade que é a sua vida inteira. “A vida é muito mais que isso” acabou virando um mantra que ainda trago comigo e repito sempre que alguma pequeneza aparece para me desviar dos meus reais objetivos. Chefe chato. Cliente irritante. Telefone que não para de tocar. Gente que não atende aos seus telefonemas. Cólica em dia de festa. Conta pra pagar. Fofoca. Escova progressiva que deu errado. Avenidas engarrafadas. Má vontade. Comida ruim. Unha encravada. Fila de banco. Despertador urrando às seis horas. Quilinhos a mais. Relaxa. A vida é muito mais que tudo isso.



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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

DEAR IDOL... >> Carla Dias >>

Eu gosto muito do programa American Idol. Para os que não sabem do que se trata, é um reality show voltado para a música, onde são selecionados cantores que podem se tornar o novo ícone musical americano. Entre alguns dos vencedores das nove edições já realizadas, estão Carrie Underwood, diva da música country, e a moça-rock.n-roll Kelly Clarkson.

O Brasil topou a franquia e fez a versão Ídolos, exibida atualmente pela TV Record. Confesso que não caí nas graças da versão brasileira, não acompanhei, assisti a pouquíssimos episódios. O derivado realmente não me ganhou.

Atualmente, a décima edição do American Idol, apresentado, desde a primeira edição, por Ryan Seacrest, está na fase das audições, quando são escolhidos aqueles que irão para Hollywood, antes de serem definidos os que serão os participantes oficiais. Nesta parte, uma labuta para os jurados, aparece de tudo: pessoas sem a menor noção de como interpretar uma canção, algumas com o ego tão em dia que nem enxergam a falta de talento, e aqueles que, se não estão prontos para o mercado fonográfico, falta pouco para chegarem lá. Sem contar os que nos tiram o fôlego em minuto e pouco de interpretação a capela.

Até a sétima edição, eram três jurados: Randy Jackson, produtor musical premiado e músico que já tocou e/ou gravou com Mariah Carey, Celine Dion e Madonna, entre outros. Paula Abdul, cantora e dançarina, conhecida por hits como “Forever you girl”, do disco homônimo, lançado nos anos 80, e o inglês mal humorado Simon Cowell. Na oitava edição, Kara Dioguardi, compositora que ganhou diversos prêmios com canções gravadas por grandes intérpretes americanos, entrou para o júri. Paula Abdul foi jurada do American Idol até 2009, sendo substituída pela comediante a apresentadora Ellen Degeneres, em 2010, quando Simon Cowell, o jurado que todos amavam odiar, anunciou que não voltaria na temporada seguinte.
A temporada seguinte é a que o canal Sony vem apresentando aos sábados e aos domingos. E tudo isso para chegar aos jurados atuais...

Randy Jackson continua na empreitada e Jimmy Lovine, aclamado executivo e produtor musical, deve aparecer nos próximos episódios, talvez após as audições. Jennifer Lopez, cantora e atriz, é a nova aquisição do American Idol, e fechando a tampa, com toda pompa, ao menos para o meu gosto, Steven Tyler, letrista, compositor e vocalista do Aerosmith.

Ok... É o Steven Tyler... Tudo isso por causa do Steven Tyler...

Em 1989, os músicos da minha primeira banda me emprestaram vários discos. Na época, meu conhecimento musical, como apreciadora mesmo, era restrito ao que assistia na televisão ou ouvia nas rádios mais populares. Era o rock das bandas que estouraram nos anos 80, como Paralamas do Sucesso e RPM, um pouco do hard rock da mesma década, como Golpe de Estado e as gringas Bon Jovi e The Cult. Eu não conhecia Led Zeppelin, Mutantes, Supertramp, Secos & Molhados.

Entre as músicas que me eram apresentadas, a cada ensaio e a cada insight dos meus amigos hippies preferidos, estava uma que me arrepiava escutar. Lembro-me de tagarelar comigo mesma sobre ela... De onde veio? Como? E, com meu precaríssimo inglês de escola pública, não conseguia entender nada do que era dito, mas a melodia, a voz, a combinação dos instrumentos. Apaixonei-me.

Adoro o Aerosmith, e para mim, Steven Tyler tem uma voz única, assim como sua performance no palco. Hoje consigo entender o que ele canta, já sei o que diz aquela canção. E lá no American Idol, comove-me vê-lo por outro prisma, nessa proximidade de reality show que permite, de verdade, que a pessoa seja quem é. Aliás, reality show só existe porque as pessoas são quem são, e isso nem sempre adoça o paladar alheio.

Sou fã do programa American Idol, mas confesso que tem sido ainda mais bacana assisti-lo por conta da presença do Steven Tyler.




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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

NORMAL X ANORMAL >> Clara Braga

Sempre achei minha família um pouco diferente, mas, para mim, nós sempre fomos os normais e a família dos outros é que não era. Enquanto as famílias dos meus namorados e dos namorados da minha prima eram muito mais apegadas, a nossa sempre foi mais fria. Não que sejam antipáticos, eles só preferem esperar um tempo antes de tratarem um namorado como se fosse filho deles.

Eu, por estar acostumada com o jeito da minha família, sempre achei estranho chegar na casa de um namorado e já ser chamada de “minha netinha” pela vó deles. Não era ruim, faz a gente até se sentir mais a vontade, mas era muito estranho. Com o tempo fui percebendo que isso é muito mais normal do que eu imaginava, aconteceu comigo e com a maioria dos meus amigos.

Outra coisa que meus amigos contam que sempre acontece na família deles é a mãe chorar quando o namoro deles termina. Já ouvi falar de casos que o filho teve que consolar a mãe e não o contrário. Não é possível que eu seja a única que ache isso exagero. Meus pais nunca choraram! E foi depois de ver casos e mais casos desses acontecendo que eu me toquei de que se todas as famílias são assim, não são todas elas que são anormais, a minha é que não deve ser normal.

Depois de chegar a essa conclusão, tive que informar o fato à minha família. Esperei um almoço de domingo, onde todos estariam reunidos, e disse: “Desculpe, família, mas essa é a verdade, nós não somos normais.” Ninguém se abalou, eu tinha argumentos para estar dizendo aquilo, e alguns chegaram até a pensar no caso, realmente, não deve ser muito normal demorar tanto até decorar o nome de um namorado e ficar inventando apelidos aleatórios, né?

Essa informação ficou rolando por um tempo, e quando quase todos já estavam se convencendo de que a nossa família realmente não devia ser normal, o impossível aconteceu. A namorada do meu irmão, que está com ele há 4 anos, passou no vestibular e minha mãe fez o quê? CHOROU! Minha mãe, aquela pessoa que eu consigo contar nos dedos quantas vezes eu vi chorando, chorou e ligou para ela para dar os parabéns chorando.

Eu não pude evitar, tive uma crise de riso. E quando ela viu que eu estava rindo, sem acreditar que ela realmente estava chorando, ela disse a frase que depois eu tive que contar novamente para todos ouvirem em outro almoço de domingo: “Ah Clarinha, não ri não, ela é como uma filha.”

Problema resolvido, minha família é normal.

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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

UM DIA >> Albir José Inácio da Silva

Um dia ele amanheceu sem dores e a mulher não reclamou de nada. Os filhos não pediram dinheiro nem brigaram antes de sair pra escola. Não recebeu nenhum telefonema de cobrança e, diga-se, o telefone nem estava cortado. Não viu o jogo ontem - nem sabe por que motivo - mas seu time não deve ter perdido, ou seu vizinho já o estaria sacaneando aos berros.

Naquele dia também não teve que sair de madrugada com recortes de empregos para ouvir nãos e voltar com tristeza e fome. Não o fizeram acreditar que era um fracassado e uma espécie de conselho de família e amigos, embora reunido, não concluiu que ele era imprestável e preguiçoso. Passaram apressados e olharam como se, pela primeira vez, se preocupassem com sua doença.

Depois de muitos anos não ficou triste ao acordar, não teve vontade de se matar, não rezou sem fé, nem se arrependeu do que fez. Não ia mais aturar desaforos. Quem pensam que são? Como diz Pessoa em linha reta, estão sempre campeões em tudo? São semideuses? Só ele é vil? Não era perfeito, mas quem ali podia se considerar melhor que ele? Queriam mantê-lo assim, precisavam de sua humilhação, os abutres. Que fossem procurar outra carniça. Bastava.

Ele não tossia, não engasgava nem fazia caretas pra respirar. Não precisou se arrastar até o ambulatório e esperar sentado, no chão, nem engolir comprimidos. Aquela vizinha enfermeira de mão pesada não apareceu com seringas e agulhas cada vez maiores e, apesar das marcas de ontem nos braços, não houve tortura naquele dia.

Num dia assim tranquilo não havia motivos para atrasos e seu enterro saiu pontualmente às quinze horas.

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domingo, 6 de fevereiro de 2011

MAUS ENTENDEDORES
>> Eduardo Loureiro Jr.

Tenho evitado falar mal. De livro, de filme, de disco, de programa de TV. Falar mal é apenas uma forma alternativa — e ingênua — de fazer propaganda. Ultimamente tenho preferido falar bem das coisas que vejo,  leio, escuto e gosto. Mas hoje vou pedir licença aos meus leitores para falar mal um pouquinho de vocês, dos leitores. Claro que não me refiro a todos, nem à maioria deles, mas o justo vai pagar pelo pecador.

Eu não sei se o problema é não ler, não entender ou não obedecer. Também não sei o que é pior: o leitor ser um analfabeto funcional, um burro ou um desobediente. Talvez o leitor prefira ser desobediente, já que a rebeldia se tornou um comportamento de moda, mas confesso que prefiro os burros e os analfabetos funcionais, pois estes teriam conserto. Rebelde não tem conserto: não é possível ensinar um rebelde porque ele se insurgiria contra o próprio aprendizado.

O caso é que inventei de fazer uns projetos, vários projetos, e esses projetos envolvem solicitar coisas das pessoas. E sempre aparece uma criatura, ou duas, ou dez, para desobedecer. Chega a ser divertido quando você está sem pressa. Nas minhas aulas, passei a incluir em meus planejamentos flexibilidade suficiente de tempo, de espaço e de recursos para dar conta desses gatos-pingados da desobediência. Quando um desobediente se manifesta, rio, gargalho e o ridicularizo em público, mas só um pouco, com cuidado, com jeitinho, para que o pobre coitado não se torne, além de rebelde, traumatizado.

Mas esses projetos em que me meti são coisa nova e, em meu planejamento de tempo, espaço e recursos, não previ muitas sobras. O limite é pequeno e os desobedientes não estão me fazendo rir.

O leitor, a essa altura, deve estar querendo um exemplo. Não posso dá-lo. Não posso dar um exemplo real porque corro o risco de alguns dos desobedientes exemplificados lerem esta crônica, e não quero me indispor com rebeldes, o que só aumentaria sua rebeldia. Darei, então, um exemplo contrário, de obediência, trazido pelo acaso, pelo santo protetor dos cronistas que precisam relatar um exemplo, mas não podem usar o exemplo real.

Enquanto escrevia o parágrafo anterior, minha enteada pediu que eu copiasse para ela um vídeo que está no meu computador. "É só trazer um pendrive de pelo menos 2Gb de capacidade que eu copio", falei. Segundos depois, recebo o pendrive, insiro-o no notebook e checo a capacidade: 2Gb. Exemplo perfeito de leitura, entendimento e obediência. Sabe o que aconteceria se eu pedisse a dez pessoas, por escrito, um pendrive de 2Gb?

Sete "leitores" fariam como minha enteada: me trariam um pendrive prontinho para que eu fizessse a cópia do arquivo. Agora, sabe o que me trariam os outros três "leitores" de minha solicitação por escrito?

O primeiro me traria um pendrive de 1Gb. E, quando eu dissesse, "o vídeo não vai caber, eu preciso de um pendrive de, pelo menos, 2Gb", ele diria, "ah, tá", e talvez voltasse daqui a alguns segundos com outro pendrive.

O segundo "leitor" me traria um pendrive de 2Gb completamente preenchido de arquivos. "Esse está cheio", eu diria. E o desobediente "leitor", todo sorridente: "Ah, pode apagar. Tudo não! Apaga as músicas. Não, essa aí não. Ai, acho que tem uns documentos importantes que eu só tenho aí. Deixa essa pasta todinha. É a que ocupa mais espaço? Não, esse vídeo não, esse vídeo eu ainda não vi..." E por aí vai. O que deveria ser uma cópia de arquivo se transforma numa faxina digital.

O terceiro "leitor" chegaria com um CD virgem nas mãos. "Não tenho pendrive, serve CD?". "Não, não serve, não cabe.". "E se for um DVD, cabe?". "Caber, cabe, mas eu não tenho como gravar DVD, por isso pedi um pendrive?". "Ah, seu notebook é velho, né? Deixa eu ver se consigo um pendrive ali, volto já".

Então... eu já sei que, para bom entendedor, meia palavra basta. Mas me diga, por favor, me diga: para um mau entendedor, esta crônica basta ou eu preciso acrescentar mais alguma coisa?

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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

VOCÊ TEM FOME DE QUÊ? >> Fernanda Pinho

Simplicidade é o último nível de sofisticação. Bonita a frase, não? Pena que não é minha. É do Leonardo da Vinci. Não sei dizer ao certo a que ele se referia, creio que não era sobre comida. Mas poderia ser. Me lembro bem de duas ocasiões na minha vida nas quais eu teria trocado qualquer coisa por um bom prato de arroz, feijão, bife e batata. Na primeira, eu era muito nova e idiota, e fui a um restaurante de comida japonesa com um namorado. Ele, todo felizão, pois era sua comida favorita. Eu, toda tensa, pois nem sabia manusear hashi. Foi triste. Ele enchia o prato daquelas coisas todas que até hoje não sei o nome - pois deixei de ser idiota, mas continuo odiando comida japonesa - e eu fazia o mesmo. Por falta de coragem de dizer que tinha pavor daquilo. Pedi uma Coca - saquê já seria demais - e pensei que facilmente colocaria tudo aquilo pra dentro (afinal, Coca até desentope pia, né?). Mas quem disse? Até hoje eu me lembro da sensação de eu mastigando aquelas coisas frias e sem gosto, a garganta fechada, a mandíbula doendo de tanto mastigar, o olho cheio d'água. Sério. Se você gosta de comida japonesa, se imagine sentado numa mesa mastigando, sei lá, um monte de terra cheio de minhoca e entenderá a minha situação. Nojento, com o agravante de que eu estava morrendo de fome. Depois de muito custo, engoli uns três sushis e falei que estava satisfeita. Bom para meu acompanhante que, sem o menor sinal de ter percebido meu mal-estar (a sensibilidade masculina me comove!), comeu o que eu tinha deixado no prato.

Algum tempo depois, fui jantar na casa de uma amiga da minha mãe. Uma madame afetada, com mania de sofisticação. De entrada, ela serviu caviar. Eu nunca havia comido e, para falar a verdade, não achei assim tão horrível, muito menos tão gostoso. Prefiro mil vezes coxinha. Mas deu para suportar. O pior foi o jantar em si. Um trouxinha, amarrada com uma fitinha, boiando num caldo azul claro (que até hoje eu não sei se era parte da receita ou se ficou azul por conta de um acidente - à la Bridget Jones). Não tive coragem e tive de dispensar. Claro! Eu odeio azul até para roupas, como vou COMER uma coisa azul? Constrangida e não querendo me deixar sem jantar, a anfitriã me ofereceu carne de javali. Bem melhor que a coisa flutuante. Tirando carne de cobra e de cachorro, as outras eu aceito bem, embora o que realmente me faça feliz seja bife de boi.

Com o passar do tempo, eu fui aprendendo a respeitar um pouco mais a alta gastronomia e a me comportar melhor em jantares mais requintados, digamos assim. Mas quando tenho a oportunidade de escolher, eu fico mesmo é com o feijão tropeiro. E quando não tenho escolha, declino.

Como num coquetel-metido-a-besta que fui há algum tempo. Morrendo de fome (pra variar), ouvi um garçom – que estava de costas para mim – dizer as palavrinhas mágicas: manjericão com presunto de Parma. Meus olhos brilharam, meu estômago deu uma vibradinha de felicidade e eu fiz um discreto malabarismo para ficar de frente para o garçom e me servi com um delicioso pedaço de pizza. Mas, para meu total desapontamento, não era pizza. Era SORVETE de manjericão com presunto de Parma. Sorvete! Bons tempos aqueles em que sorvete era morango, chocolate e flocos.




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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

SOBRE SALTOS >> Carla Dias >>

Um apresentador de um programa de canal a cabo pulou do sétimo andar de seu prédio. Era jovem, talentoso, o típico moço que a sua mãe diria que tem uma vida como a vida deve ser, e de quebra é lindo que só, perfeito para você... Que nunca pensou em saltar nem daquele murinho que separa a sua casa da rua, o que dirá do sétimo andar do seu prédio. Que não é linda que só, está longe do significado da perfeição. Enfim, para a sua mãe, você não é perfeita para ele, mas as mães sempre querem o melhor para suas filhas, certo?

E eu me pergunto: e quando a gente morre, deixamos o corpo físico, mas o que é feito do corpo virtual?

Um amigo me disse que essa vida paralela que levamos através da internet se aproxima, e muito, da ideia que temos do espírito. Podemos nos relacionar com as pessoas sem tocá-las, exercemos influência e somos influenciados, naturalmente, pelas verdades e mentiras contadas nesta terra onde jamais colocaremos os pés.

A noiva do apresentador postou no Twitter, no dia da morte dele, uma declaração dizendo que não sabe viver sem ele, que desejava partir com ele. Através do Twitter dela, tive acesso ao dele, no qual de frases como “Sair do controle é encarar o inesperado”, misturavam-se a comunicados sobre seu trabalho.

O apresentador já se foi, deixando muitas pessoas surpresas e tristes, pessoas que sentirão saudade dele como o moço que apresentava um programa sobre celebridades, e aquelas que o tinham como filho, irmão, amigo...

Quando morremos, o que é feito do nosso ser virtual? Além das mensagens de indignação, desespero, sofreguidão que os conhecidos postam em perfis das redes sociais, o que mais fica? Depois da morte, perdemos o controle dos recados postados nas nossas páginas na internet. Há, abaixo da mensagem “descanse em paz”, um “curtir” de alguém que nunca nos conheceu de perto, de problemas e conquistas, de conhecer nossa visão sobre o que acontece a nossa volta. Como alguém pode curtir um “descanse em paz”? Porque, convenhamos, mesmo enquanto vivos, é um tanto estranho clicar em “curtir” quando a mensagem é “hoje as coisas não andam muito bem”. Porém, também gosto de pensar que as mensagens póstumas sejam como as orações daqueles que desejam a quem partiu uma jornada tranquila.

Acredito que, além do funeral, que serve para se despedir do falecido, rever parentes distantes, discutir com os menos apreciados, devemos também dar adeus aos nossos perfis na internet. O espírito da gente não vai ficar acessível aos 1080 pseudo amigos, ao menos não enquanto não aparecer alguém que se iguale, nas habilidades, com Chico Xavier. Aliás, temo o dia em que serão psicografadas mensagens que devem ser postadas na seção “no que você está pensando agora” do Facebook. Porque imagino que, mudando de plano, indo dessa para outra, meu espírito, que hoje habita meu corpo, e meu outro espírito, que é o meu ser virtual, vão querer aproveitar as redes sociais do seu novo mundo.

As minhas cinzas, alguém que tenha algum afeto por mim, certamente me fará a cortesia de jogá-las ao vento. Mas as minhas senhas do Orkut, Facebook, Myspace e Twitter farão parte do meu espólio. E o herdeiro será aquele que, assim como eu, quer que os perfis de rede sociais descansem em paz, sem direito ao CURTIR.

Que a curtição seja transcendente. E os saltos sejam os radicais, não de prédios... Tenha você 1080 amigos na sua vida virtual, ou apenas um bom amigo na vida real.

carladias.com


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terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

ESSE TEXTO É MEU! >> Clara Braga

Que bom que somos cronistas preocupados em escrever bons textos e sempre assinamos com nossos próprios nomes. Aqui não se tem a intenção de escrever um texto e assinar no nome de outra pessoa só para ser lido. Que graça tem escrever o que se pensa com suas próprias palavras e assinar como outra pessoa só para que seu texto circule e muita gente leia?

O último que está rolando agora é um sobre o BBB, que o Luis Fernando Veríssimo já declarou não ser dele. Eu sou a pior pessoa para dizer quando um texto parece ou não ser de alguma pessoa, acredito sempre na assinatura. Santa inocência! Mas esse último é estranho, não se parece em momento algum com Veríssimo. Mas a verdade é essa, depois que a internet, e principalmente os blogs, viraram febre, é difícil ter controle sobre os "direitos autorais" dos textos de qualquer pessoa.

Não acho que no final das contas não se deve escrever para falar mal do BBB, vamos lá, vamos falar mal, vamos reconhecer que se aquelas pessoas que estão lá dentro são os heróis brasileiros eu prefiro voltar para a Austrália, que se esse é o tipo de programa que dá ibope, as pessoas deveriam arrumar coisas melhores para fazer da vida delas, mas vamos assumir que somos nós que não gostamos. Ou então escreva assumindo que gosta, qual o problema?

Eu bem que gostaria de ser Adriana Falcão por um dia, ou quem sabe uma Martha Medeiros, ou quem sabe uma Clarice Lispector (mas ai já teria que ser mensagem psicografada e ninguém ia acreditar em mim). Mas, no final das contas, o texto ainda seria meu e as pessoas iriam gostar apenas porque não gostar de uma Clarice Lispector não significa que o texto é ruim, significa que você não entendeu, então todo mundo gosta.

Eu prefiro ser Clara Braga mesmo, me permito escrever textos bons do meu jeito e também escrever textos ruins quando não estou inspirada, e as pessoas se permitem gostar ou não gostar.

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