segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

TUDO NOVO DE NOVO >> Kika Coutinho

Estamos em abril de 2009. Encostada na pia de um banheiro pequeno, observo um teste de farmácia, aguardando a segunda listra. Não vai aparecer, penso. Não vai aparecer, repito em voz alta, já me mexendo, destrancando a porta e, antes de sair, olho mais uma vez para o teste. Apareceu. É um milagre, digo para mim mesma, antes de gritar: Estou grávida!

Estamos, agora, em novembro de 2010. Acordo cedo e já abro o pacotinho, rebolando pra prender o xixi. Tem que ser o primeiro da manhã, penso, já com o teste em mãos. Faço meu xixi e assisto à primeira listra aparecer, enquanto penso que, claro, a segunda não vai aparecer. Tenho a impressão de ouvir minha filhota resmungar no quarto ao lado. Já está acordando, noto, enquanto olho o teste de novo. Apenas uma listra. Melhor assim, ela nem fez um ano, falo para mim mesma, enquanto deixo o teste de lado. Entro no chuveiro, tentando aproveitar o que me resta da manhã, antes que ela acorde de vez.

Imagine só, um segundo bebê, vou pensando enquanto tempero a água. Eu ia morrer. De alegria ou de pavor? pergunto-me rindo. Não sei.

Imagine só, a barriga crescendo de novo, o umbigo estufar mais uma vez, sentar de perna aberta, esbarrar em tudo, perder a visão dos pés. Imagine só, de novo ver o peito jorrar leite, o rosto engordar, as calças ficarem muito, muito pequeninas. Imagine só, de novo noites sem dormir, aquela angústia pós-parto, as dores do ponto, andar curvada, comprar bomba de leite, comer canjica, um bebê escorradio nos braços, fazer shhhhh o dia inteiro, por barriga com barriga, chacoalhar, não chacoalhar, paninhos e mais paninhos para as infinitas regurgitadas. Imagine só, tudo de novo, que loucura.

Além do que, já tive esse milagre uma vez. E faz tão pouco tempo. E quem é que ganha na loteria duas vezes, em menos de uma ano? Quem, quem? Penso, enquanto enrolo-me na toalha.

Em cima da pia, o teste. Quando olho para ele, pela última vez, tomo um susto. O mesmo susto, o mesmo frio na espinha, o mesmo calor no peito. Mais uma vez, penso ouvir as batidas do meu coração, disparado, quando, enfim, respondo para mim mesma: Eu. Eu recebi um milagre, pela segunda vez. Eu ganhei na loteria, de novo.

Que chovam estrelas, que explodam os fogos. Vou ter mais um bebê.

www.embuchada.blogspot.com

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domingo, 30 de janeiro de 2011

AULAS, PRA QUE VOS QUERO?
>> Eduardo Loureiro Jr.

As férias escolares estão acabando. A maioria das escolas retomará as aulas essa semana. Benza Deus! Benza Deus! Benza Deus! Esse monte de delinquentes desocupados que invadiu as ruas, praças, praias e shoppings da cidade retornará à sua reclusão.

Não é preciso ser nenhum gênio para perceber a semelhança entre locais de trabalho, prisões e escolas. Nesses três espaços institucionais, depois que a pessoa entra, fica submetida a uma autoridade e não tem mais liberdade de sair na hora em que quiser. São espaços em que o tempo de quem entra fica sob controle das autoridades da instituição: patrões, policiais e professores.

Assalariados, presidiários e alunos recebem tratamentos levemente diferenciados, de acordo com o grau de incômodo que causam para a sociedade.

Os assalariados são aqueles que, se não estivessem trabalhando, estariam na ociosidade, coisa não vista com bons olhos em nossa sociedade. Como seu pecado não é crítico, é mais um desconforto do que uma ameaça, os ex-preguiçosos recebem o incentivo do salário. O valor é, na maioria das vezes, abaixo do que o merecido pelo trabalho realizado, mas pelo menos o ex-vadio recebe alguma coisa pelo tempo que lhe foi tomado.

Os presidiários cometeram alguma espécie de crime, por leve que seja, então têm confiscado todo o seu tempo. Não podem ficar de bobeira, à solta, porque podem incorrer novamente em delito. Mas como a sociedade não é de todo má, dá como consolo ao preso todas as refeições. Assim como o assalariado, o preso também é bancado pela instituição.

Os alunos são os mais perigosos. As escolas públicas o tratam como um presidiário em regime semi-aberto. Não porque sejam menos ameaçadores, mas porque o máximo de tempo que os aguentam em suas dependências é oito horas por dia. A quantidade de delinquentes infanto-juvenis é tão grande que as escolas públicas não dão conta. Desesperados para se livrar desses pequenos criminosos por pelo menos algumas horas por dia, muitos pais pagam, e caro, a instituições particulares para terem um pouco de sossego.

— Qual o perigo de crianças e adolescentes? — o leitor ingênuo deve estar se perguntando, ou pior, me perguntando...

Assalariados e presidiários estão em recuperação por crimes que cometeram contra a propriedade. Os assalariados, quando preguiçosos, não colaboravam para a produção. Os presidiários, quando malandros, roubavam aquilo que outros produziam. As crianças tanto não produzem coisa alguma quanto roubam pais, tios, avós e quem quer que os leve para os passeios comuns nas férias. É sorvete, é pipoca, é sanduíche, é bombom, é brinquedo, é sapato, é roupa, é eletrônico... é um mini-inferno econômico. O pai assalariado corre o risco de virar um pai presidiário se atender todos os quereres desses marginais de metro, metro e meio.

As férias escolares são tão longas apenas porque os pobres professores não aguentariam o estresse de serem submetidos a crianças e adolescentes na mesma proporção que supervisores e carcereiros são expostos a assalariados e presidiários. As duas férias anuais são carnavais prolongados e fora de época de que só participam — no qual só se divertem — pessoas com até 15 anos de idade. É uma ofensa a todos os demais, que não foram convidados para o baile, mas foi a maneira que se encontrou, até agora, de lidar com essa deliquência natural pela qual todos nós passamos.

Talvez por isso muitos adultos sejam tão tolerantes com esses pequenos degenerados: eles se lembram que já cometeram crimes semelhantes e que, se não foram condenados, também não têm o direito de condenar os fora-da-lei de hoje. Há mesmo aqueles adultos que aproveitam as férias de filhos, sobrinhos e netos para fazer um revival e entregam-se à bandalheira junto com os pequenos. E vá algum adulto realmente adulto, daqueles que se penitencia diariamente pela infância e adolescência cometidas, reclamar da licenciosidade que estão crianças e adultos-criança a praticar.... o pessoal vira uma fera, mostra os dentes, arregaça os muques e quer brincar de boxe.

Eu, que por sorte ou por mérito, escapei do escritório e da prisão, tenho mesmo vontade, durante as férias escolares, de me assalariar e, além das oito horas diurnas, pegar plantões todas as noites, só para evitar os encontros e potenciais confrontos com essa horda que invade a cidade desde o final de novembro até o início de fevereiro. Tem horas que chego mesmo a desejar o meu próprio encarceramento — desde que seja em cela especial, claro, com direito a banheiro privativo e internet — em vez de me sujeitar a cenas de puro vandalismo consumadas por esses bandos de meninos e meninas desocupados e malfeitores.

Mas, enfim, as férias estão acabando. Eu posso me controlar mais alguns dias, respirando fundo, bem fundo, contando até dez, até cem, até mil, pedindo a Deus paciência, oferecendo o calvário a algum santo em prol das almas necessitadas. Meus cinco meses de paz, até as famigeradas férias de julho, já estão quase começando, já posso vê-los dobrar a esquina, silenciosos, ordeiros, já me sinto mais leve, mais feliz, já começo a esboçar um sorriso...

— Puta que o pariu! Cala a boca, menino! Não está vendo que estou escrevendo mentalmente minha crônica da semana? Cadê o infeliz do teu pai?! Larga de mexer nisso aí! Para com essa barulheira! Se não sair daqui agora, eu te dou umas porradas! Sai, vai, vai! Chispa! Vade retro!




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sábado, 29 de janeiro de 2011

UM DIA DE JAVIER BARDEN
[Cristiane Magalhães]

O encontro em questão aconteceu em meados de 2008. Naquela época, eu lecionava no ensino fundamental, com uma pesada carga horária semanal que incluía reuniões chatíssimas. Como acontecia diariamente, voltava para casa ao entardecer depois de um dia tumultuado na escola, quando ao entrar no ônibus eu o vi. Não tinha como não reconhecê-lo, era o Javier Barden. “Devo estar ficando maluca”, pensei enquanto tentava encontrar um lugar para sentar. O ônibus encheu ainda mais do que estava e eu fiquei entalada em meio a um aglomerado de crianças e adolescentes barulhentos e cheios de energia na parte da frente do ônibus. Ele ficou lá no fundo, impassível, no lugar onde estava. Em meio àquele empurra-empurra, aperta-aperta, e com o cansaço do dia, às vezes eu me esquecia dele durante a viagem. Mas o trajeto entre a escola e o meu bairro era longo e, de tempos em tempos, eu lembrava e virava para trás para verificar se meus olhos não tinham se enganado, mas não havia discussão: aquele só podia ser o Javier Barden!

“Mas o que o Javier Barden estaria fazendo dentro de um ônibus em Belo Horizonte?”, tentava raciocinar, e cada vez achava mais absurda aquela estranha visão. Seria uma alucinação? Recordo que tinha assistido naqueles tempos ao filme “Onde os fracos não tem vez” e tinha ficado completamente encantada por ele. Sim, aquilo só podia ser um desatino da minha cabeça, influência do filme. Lembro-me vagamente que, quando desci do ônibus, ainda fiquei um tempo refletindo se seria ou não o Javier Barden. Não sei se ele desceu antes ou depois de mim, porque quando passou na região central da cidade o ônibus lotou de vez e não tinha como pescoçar mais nada.

Como fazia todo dia para espantar a chateação e o cansaço do trabalho, colocava a roupa de caminhada e ia dar umas voltas na praça do bairro. Assim o fiz naquele dia como era costumeiro. Estava lá na praça há algum tempo, ouvindo distraidamente uma música do mp3, totalmente absorvida com o fim da tarde e o início da noite, quando eu o vi novamente. Não, não podia ser uma alucinação repetida! O mesmo Javier Barden que estava no ônibus caminhava lentamente na calçada oposta à praça. A mesma roupa, uma mochila preta nas costas e um certo ar sorridente e leve. Claro, eu devia estar mesmo maluca. Olhei para os lados para ver se alguma outra pessoa estava vendo o que eu via, mas nada. Todos estavam absorvidos em seus próprios pensamentos, rodando, rodando ao redor da praça. Atordoada, eu não sabia o que fazer. Pensei em gritar: “gente, olha, é o Javier Barden!”. Cogitei ir atrás dele enquanto o sujeito sumia calmamente pela rua, mas o que eu diria? “Ei, você é o Javier Barden?”, o moço ia rir da minha cara, óbvio. “Javier Barden, o que você estava fazendo no meu ônibus e agora no meu bairro?”, imagina a cena ridícula. Maluquice total, eu raciocinava enquanto ele dobrava a esquina e desaparecia. “Deus do céu”, eu pensava, “que disparate foi este? O Javier Barden no ônibus e agora aqui no bairro? Duas vezes num dia só, encontrar com a mesma pessoa?”, pensava, pensava sem chegar a um consenso racional para a situação.

Quando voltei para casa mais tarde, comentei com B.: “vi o Javier Barden hoje, duas vezes!”. Ele fez alguma piada que não lembro qual foi. Eu disse que jurava que era verdade, que tinha visto o Javier Barden e ele ouviu meio desconfiado a minha história. “E se fosse mesmo o Javier Barden?”, comentou distraidamente. Bom, devíamos estar os dois malucos para ao menos considerar uma hipótese daquela.

O que sei é que nunca mais avistei o tal Javier Barden. Continuei pegando o ônibus no mesmo horário, fazendo as mesmas voltas repetidas na pequena praça do bairro, sem me deparar com aquela figura. Muito tempo depois, eu ainda ficava ponderando o que teria acontecido. Seria alguém muito parecido com ele e que numa dessas coincidências malucas a gente encontra em dois lugares diferentes no mesmo dia? Ou será que tive mesmo uma visão do Javier Barden e, se tivesse corrido atrás dele num impulso de loucura, ele teria sumido como uma fumaça diante dos meus olhos? Por fim, a última hipótese, se de fato, inequivocamente, fosse mesmo o Javier Barden e eu, uma reles criatura, o tivesse descoberto em uma espécie de “viagem anônima pelos recantos do mundo”? Javier Barden... andando sem destino específico pelas ruas de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, estado brasileiro onde nasceu Pelé, Drummond, Clara Nunes e Dilma Roussef. Talvez fosse apenas um capricho, ou a manifestação do desejo de liberdade de transitar por lugares cujos nomes importam menos que a sensação que os sentidos fornecem de cheiro, cor, umidade, costumes, arquitetura, beleza, feiúra... Javier Barden... Longe dos holofotes de celebridades, gozando de uma necessidade tão humana quanto elementar que a carreira que o tornou conhecido agora lhe priva... Viajar... viajar... assim como eu viajei naqueles traços tão expressivos de homem.


Cristiane escreve no blog Palimpsesto

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sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

TRÊS ROLINHAS >> Leonardo Marona

Meu dia na praia não tinha sido bom depois de quatro meses longe. A areia tinha entrado nos lugares errados, o mate de galão não tinha passado, o queijo coalho parecia coalhado. Tinha resolvido ir de bicicleta do Flamengo até Ipanema, o diabo sabe por quê. Chegando lá, imediatamente começou a chover. O dia estava maravilhoso: cinzento, pesado, solene. Era um dia que te exigia atenção. Mas pegar chuva em cima da bicicleta valia pelas tuas duas bolas do saco amassadas. De qualquer forma, não havia o que fazer. Calcei os tênis, meu pé estava molhado e cheio de areia. Respirei fundo. Olhei para os tênis. Eram brancos, estavam escuros, com dois rasgos dos lados da sola, os cadarços esfolados, cheiravam a chorume. Joguei fora os tênis na primeira lata laranja e montei na bicicleta. O pedal tinha pontas de plástico que me foderam a paciência e as solas do pés. Voltei à lata laranja. Os tênis estavam virados de cabeça para baixo sobre uma gosma esverdeada, com uns fiapos de espaguete presos aos cadarços. Foi quando dei de cara com minha ex-guria chegando a pé.

Ela parecia sempre linda. Era o meu tipo, senão exato, quase o possível. Mas eu era quadrado demais pra ela. Bebia demais pra ela, era expansivo demais, talvez, vai ver ela me achava um psicótico, um chorão. Foda-se, não importa, nem eu mesmo sei o que eu sou. A gente se apaixona pelos motivos mais loucos. Na verdade é a loucura quem se apaixona no seu lugar e não você. Por isso tudo acaba em choros e facadas noturnas. O que importa é que nos cumprimentamos com a maior cordialidade, “te liguei hoje, deixei recado”, eu disse, “eu sei, eu vi, liguei pra sua casa mas ninguém atendeu”, ela respondeu. Então ficamos uns dez segundos tentando nos olhar nos olhos, mas não conseguimos. Paramos na clavícula. Ficávamos apenas olhando pra baixo, às vezes pro céu, acho que falamos sobre o tempo cinza, mas não havia mais aquele arranque, aquele tiro, estávamos atados para sempre a um comportamento cordial, indiferente e cálido, como o dos estupradores depois de presos. Eu me sentia lesado. Tinham levado o meu amor. Não me refiro à guria, é claro, sou louco mas ainda não estou doente. Estou falando do amor que eu era capaz de sentir por uma pessoa, como eu era capaz de sentir por ela. Estou falando de um tipo de amor pelas coisas fundamentais da vida, um tipo de apego pelo infinito delas. A brincadeira agora era diferente e não tinha mais muita graça: brincar de se desapegar das coisas até sobrarem somente as que importassem. Ou seja: você olhando pro teto sem saber para onde andar, se pro banheiro, pra cozinha, pra sacada ou pro poço do elevador. Estava amarrado, não podia fazer nada. E não me deram nada em troca para encher o lugar do amor. Nada além da brincadeira do desapego, que talvez fosse saudável se eu fosse um poeta ou tivesse muito dinheiro. Assim como era, parecia um golpe cruel. Um roubo. Um roubo grosseiro. Um ladrão honesto deixaria no mínimo um revólver ou uma caixa com 12 latas. Mas afinal, nunca te dão nada. Apenas te sugam. Você tem que dar tudo. Esse é o ritmo. Um roubo. Um roubo cruel. Um tiro de chumbo a cada segundo.

Deixando a praia na bicicleta, me sentia tonto e morto de sede. Os olhos viam coisas demais. Casais passeando debaixo de sorrisos amedrontados. O fim do sol rindo da mentira do universo de um lado. A chuva chorando por ela do outro. Velhos jogando dominó sobre latões de lixo, esperando a morte nascer. Garis mexendo com mulheres de bunda grande e avental que colhiam sementes num rosário de plástico. Bem-nascidos nos seus patins, nos seus tênis de cânhamo de 300 dólares e nas suas camisas floridas e peles bronzeadas e a certeza de que nada de mais pode acontecer senão a morte em volta de uma família reunida pela repartição das partes, quando os bem-nascidos já forem bem-mortos. Coisas que não estavam lá de fato. Eram tão transitórias quanto o ar. E meus olhos não podiam ver o ar se mexendo. Meus olhos estavam doentes de ver sem entender nada. Por um momento pensei se havia alguma coisa que estivesse no seu lugar certo. A cabeça, concluí, fechada nas nuvens do céu cinzento. Entrei no mergulho da Lagoa em disparada, pensando em mil bobagens, e meus diálogos pareciam em ordem. Muito boa, pensei. Só que não era a minha ordem. Tocava a quinta de Mahler no rádio de pilha, ou então talvez fosse uma música de cordas de cortar os pulsos do Bach, uma que eu já tinha ouvido num filme italiano... E tinha gostado do filme... Talvez Pasolini... Pois é, eu estava maluco. Mas não seria nem o primeiro nem o último. Isso me fazia sentir bem. A transição das coisas.

Na área dos pedalinhos, desviei de rota por uma estrada esburacada de terra. Não entendi por que tinha feito aquilo e saltei da bicicleta, para levá-la de volta pela mão até a ciclovia. Parei e anotei num papel que levava na mochila: “bifurcação – estrada de terra esburacada – falar com analista”. Passou por mim andando um sujeito de camisa regata no estilo Cana Longa, daquelas de náilon, faixa verde fosforescente embaixo e azul em cima. Estava com um fone nos ouvidos também, aparentemente fumando um baseado. Se você olhasse com bastante atenção, provavelmente era um baseado. Balançava a cabeça, cantava alguma coisa, levantava os braços pro alto. De longe parecia que estava conversando com alguém. Olha ali... Mais um, pensei. E me lembrei que tinha também um baseado. Me senti mal quando lembrei disso. Talvez fosse Brahms.

Não havia o que fazer senão sentar na grama e fumar. Coçar as orelhas talvez. Brincar de ser mordido por formigas vorazes de bunda vermelha. Tentar olhar mais uma vez pro céu. Fazer as pazes. Não havia paz. Ele continuava cinza e furioso como qualquer ditador em véspera de feriado nacional. Era meu ditador. Na maioria das vezes. Sentei e fiquei tentando me concentrar na música e na minha vida. Uma hora fiquei apenas com a música. Agora era certamente um arioso do Bach. Bem na hora em que eu reparei em três rolinhas ciscando na minha frente.

Por algum motivo eu sabia de cara que eram uma fêmea e dois machos. A rolinha fêmea bicava grãos no chão, olhando o tempo todo, mecanicamente, pro chão e pra frente. Os machos bicavam grãos também. Olhavam só pra baixo e uma vez pra fêmea. Os dois ao mesmo tempo. Uma vez só. Como homens machos, só precisavam de uma vez. Então já tinham motivo suficiente para morrer.

Percebi que a rolinha fêmea era capaz de mexer os olhos de maneira independente. Com um podia achar o grão e com outro sentia-se disputada. Também seria capaz de viver assim, foi o que pensei.

Depois de terem olhado uma vez cada um para a rolinha fêmea, os machos passaram a se encarar o tempo todo. Um macho, a certa hora, cansado de olhar pro outro macho e não fazer mais nada, resolveu mostrar serviço. Levantou uma asa só e começou a rodear a fêmea, que acabou tendo que fugir.

O outro macho então se meteu na frente dele com as duas asas levantadas. Deu um pio esganiçado. Levantou a cabeça no alto. O pescoço esticado em camadas de pena. A fêmea escapou p’rum lado e continuou com seus caroços podres e restos mortais no chão.

Sentindo-se intimidado e inseguro, o primeiro macho começou a piscar muitas vezes seguidas e parou na frente do rival, apenas uma asa levantada. O outro parecia a águia da liberdade, era um condor. O primeiro começou então a recuar.

A rolinha-condor deu um impulso para frente e foi mais rápido do que os olhos rápidos de uma asa só. Deu uma bicada fulminante e acertou o outro em cheio no olho direito. Ele só conseguiu cair para trás e se debater no chão com um buraco de sangue no lugar do olho. Agora mexia as duas asas, finalmente. Era tudo ou nada pra ele. Tinha sido abatido ou quem sabe ia sobreviver. Uma decisão em duas. Pra todo mundo acaba sendo assim mais cedo ou mais tarde.

O condor que conseguia levantar as duas asas se aproveitou da sua condição favorável e fez como a música: bateu asas e voou.

A fêmea continuava nos arredores, bicando suas larvas, suas ervas daninhas, suas pulgas e carrapatos, suas merdas de gato e de cães, suas lagartas que queimam quando você toca nelas. Ela bicava e olhava pra frente. Depois bicava e olhava pra frente outra vez. Parecia completamente independente, segura de si e estúpida.

Os humanos têm muito que aprender com as rolinhas. Eu aprendi duas coisas hoje:

Bique sempre e olhe para frente.
Faça isso o tempo todo.
Mas não esqueça de manter as duas asas erguidas.


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quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

NÃO EM PÚBLICO! >> Carla Dias >>

Eu não choro em público, ainda que seja para o mirradinho, um espectador, uma única testemunha. Não que nunca tenha acontecido. Às vezes, o choro se solta da gente, aí não tem jeito. Ele precisa ganhar o mundo.

Tenho inveja de quem chora, sem qualquer constrangimento, diante da emoção despertada pelo filme, pela novela, pelo livro, pela canção, pela confissão, pelo outro, pela simples contemplação da possibilidade, sem se importar se está só ou acompanhado.

Não digo que não caio no choro nessas ocasiões, até mesmo em outras. Digo apenas que eu não choro em público, que já estou no estágio avançado de protelar o emaranhar os olhos. Sou quase profissional em evitar o feito.

Mas, definitivamente, eu choro. Não pensem que sou território árido, que em mim o sentimento morre, antes de cruzar a alma e lacrimejar. Apenas choro na distância dos olhares alheios.

Outro dia, liguei para um amigo, e duas palavras depois da minha pergunta, “tudo bem?”, ele começou a falar de um jeito, sabe? Quando as palavras não saem no som certo, parecem resmungos dolentes, e o ouvinte quer escutar direitinho, mas é tão difícil. Até que ele caiu num choro... Chorou um tanto, essa pessoa que eu nunca vira chorar antes, chorou e chorou, e depois pediu desculpas, e eu as rebati com um agradecimento, por ele ter me confidenciado seu choro.

Chorar, para mim, é coisa séria, mesmo ao se chorar de alegria. Mário Quintana diz e me resume: “Trago-te palavras, apenas... e que estão escritas do lado de fora do papel...”. Não choro em público, mas registro o significado do choro contido em palavras escritas, poetizo as suas nuances. Não desprezo ou renego o choro compartilhado, quase o contrário: admiro quem o faz e sai de tal episódio inteiro.

Porque, quando choro, eu me despedaço no sentimento, e não importa se o choro é miúdo ou dos soluços. Choro na companhia de mim e de ninguém mais.

Invejo quem chora em público, abraçando o tempo do choro. São os que, depois, conseguem certo alívio. Invejo o alívio no momento em que ele cabe, não como transcrição do que seria.

E eu estico meu choro até a fronha do travesseiro, porque não choro em público, mas choro, isso é certo.

carladias.com


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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

PRATICANDO ELOGIOS >> Clara Braga

Acho que as pessoas esqueceram como se faz um elogio. É curioso, mas parece que estamos vivendo em um mundo onde qualquer pessoa ao seu lado tem que ser vista como seu concorrente ou inimigo. É comum ouvir pessoas falando que já não se pode confiar nem na própria sombra. Como isso é triste, que tipo de relação se pode ter com qualquer pessoa se já não se pode confiar nem em si mesmo? E é verdade, as pessoas perderam mesmo a confiança em si.

Proponho um teste. Se você tiver que dizer uma qualidade e um defeito seus, vai perceber que é muito mais fácil falar dos defeitos. Por quê? Não deveria ser tão difícil assim lidar com coisas boas.

Ouço várias pessoas dizendo que não gostam de elogiar e dizer as qualidades de outra pessoa para que ela não fique metida. E é assim mesmo. Se alguém é cheio de si, já é tachado de metido. Acho que a confusão pior é achar que não gostar de si tem algo a ver com humildade. Que besteira!

Tem ainda o caso dos relacionamentos amorosos. Muitos afirmam que não conseguem dizer o quanto e por que gostam da pessoa com quem estão porque já se envolveram assim antes e acabaram se magoando. Como se relacionar sem se envolver?

É complicado. Eu também tenho essas dificuldades, mas acredito que seria muito bom se todos começássemos a treinar a prática do elogio. Comece hoje mesmo, faça um elogio a alguém sem a vaidade de esperar algo em troca e sem o medo de achar que a pessoa vai ficar cheia de si e virar uma convivência insuportável. Também não estranhe as diferentes reações, ninguém está mais acostumado a receber elogios.

Treine também um elogio a si mesmo, não é errado gostar de si, pelo contrário, nós temos que ser os primeiros a gostar de nós mesmos, afinal, se você não gosta de você, quem vai gostar?

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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

O VERBO >> Albir José Inácio da Silva

- Seu marido foi embora, né?

- Como é que a senhora sabe? Eu ainda não falei nada.

- Iemanjá sabe tudo, minha filha.

- E o que mais diz Iemanjá?

-Iemanjá diz: “trago seu homem em três dias”.

Pagou, beijou a mão da madame e saiu com o coração aos pulos. Será? Deve ser. Iemanjá não mente. Devia ter vindo antes. Tantos meses de sofrimento.

Um dia ele pegou a mala e disse vou pra São Paulo. Não teve choro nem desmaio nem pergunta que ele respondesse. Viu quando entrou no ônibus sem se virar. Andou como louca pelas ruas, depois foi pra casa e chorou todos os dias.

Não é que não acreditasse. É que sua desgraça era tanta que achou que não tinha jeito. Só com muita falação das comadres é que resolveu fazer a consulta. Agora era esperar. Três dias.

No primeiro dia vieram dizer que ele tinha chegado no ônibus das seis. Arrumou a casa , fez o peixe e comprou a cachaça. Ele não veio.

No segundo, soube que ele perguntou por ela. Lavou os cabelos, botou perfume, e ele não veio.

No terceiro dia, foi a rua e viu que ele comprava flores no mercado. Correu pra casa a esperá-lo. Vieram dizer que ele entrou no mar com as flores. E não voltou.

Madame não estava satisfeita. Iemanjá não costumava fazer essas coisas. Por que prometeu, se não ia entregar? Da janela, viu a menina na praia, encolhida, de frente pro mar.

Olhava as ondas sem entender. Por que, Iemanjá? Por quê? Estava infeliz, sem marido, mas tinha esperança de ele voltar. E agora? Pra que essa história de “trago seu homem em três dias?”

À noite, na feira, uma viola chorava o falecido morto pela armadilha verbal:

- No fundo ninguém conhece
os mistérios de Iemanjá
e ninguém nunca se lembra
do velho verbo tragar.

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domingo, 23 de janeiro de 2011

ENQUANTO O ASSUNTO NÃO VAI
>> Eduardo Loureiro Jr.

O assunto disse que ia ali.

— Ali onde? — eu quis saber.

— Por aí...

— Volta que horas?

— Tá pensando que é meu pai?!

— Sou seu escritor.

— Te vira.

— Que é isso, mano? Tem gente esperando por nós.

— Nessa época do ano? O pessoal trocou a internet pela praia, homem! Tá todo mundo de férias. Você deveria tirar umas férias também.

— Há os leitores fiéis. Eles sempre vêm aos domingos.

— Se forem fiéis mesmo, vão compreender. Quer ir comigo?

— Para onde?

— Por aí?

— Por aí onde?

— Você tem sempre que ir para algum lugar? Por aí, porra! Por aí, à toa.

— Tenho muito o que fazer. E tenho que escrever a crônica da semana. Não posso...

— Por que não pode?

— Ahn?

— Por que não pode?

— Por que não posso o quê?

— Por que não pode isso aí que você ia dizer?

— Mas você nem sabe o que eu ia dizer.

— Não importa. Por que não pode?

— Sei lá, não posso, não acho certo.

— Acha que vai ser punido, é?

— Punido por quem? Onde? Cadê?

— Você que me diz que chicote é esse que você está vendo, porque eu só estou vendo a praia que vou curtir.

— Ah, então você vai à praia...

— Quer vir junto?

— Aqui não tem praia, maluco. Estamos a mais de mil quilômetros da praia mais próxima.

— Você é tão limitado...

— Como é que você vai chegar lá? Aliás, que horas é que você vai voltar? Você não vai voltar, né?

— Relaxa, cara.

— Mas o que é que eu vou dizer?

— Não precisa dizer nada. Você não gosta do silêncio? Fica calado, ora!

— Você só sai daqui depois que eu escrever a crônica.

— Sai pra lá, capitão. Tô fora, tô indo. E desliga essa música instrumental aí. Isso só atrapalha sua escrita. Bota um reggae, man. Relaxa, curte, aproveita.

— Ei, volta aqui.

— Fui!

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sábado, 22 de janeiro de 2011

ARTE QUE IMITA VIDA [Debora Bottcher]

Houve um tempo, quando eu era uma simples estudante, que eu não perdia um capítulo de uma novela - geralmente, a das seis. Protagonistas como Malu Mader e Maitê Proença eram minhas referências femininas.

Mais tarde, quando comecei a trabalhar e estudar, deixei as novelas de lado e não acompanhava nem quando tinha algum tempo livre.

Já adulta e casada, passei a ver as novelas das nove (antes chamadas 'das oito') por pura conveniência: aqui em casa, janta-se entre o Jornal Nacional e o começo da novela, e como a sala de jantar é uma extensão da sala de TV, a gente vai seguindo o olhar pela programação, num movimento que é automático. Claro que não nos prendemos a acompanhar diariamente - não é aquilo de 'só sai depois da novela' - mas posso dizer que é uma programação, digamos, regular na casa e é inevitável, então, se 'conectar' a uma história fictícia, emocionar-se, discutir, questionar os rumos das tramas.

Há alguns anos, o autor Silvio de Abreu declarou numa entrevista que se a gente assistir com atenção aos primeiros capítulos, sabe o desenrolar da história inteira. A partir disso, tenho tomado o cuidado de não ver a primeira semana pra não me 'contaminar' e perder as surpresas, porque me dei conta de que nas entrelinhas dos primeiros diálogos e movimentos, dá pra decifrar até o final mais surpreendente que um autor pode criar.

Isso não é uma questão de genialidade: é que a arte vive de imitar a vida e, como eu digo sempre, todas as histórias de amor são iguais. E acho que podemos incluir também as de dor, de trapaça, de traição. As histórias entre irmãos/irmãs rivais - que se repetem em filhos, às vezes até em netos de uma geração -, as histórias de pessoas interesseiras, as histórias de pessoas simples que querem viver dias de glamour, as de violência, as de falhas de caráter, enfim: você se depara, nas telas, com nada mais do que o cotidiano, retratado de um jeito mais ou menos irreverente, picante, transgressor, mas o dia-a-dia cru e nu em forma de entretenimento.

Essa nova novela (Insensato Coração) começou muito antes de começar - com a desistência de Fábio Assunção e Ana Paula Arósio, o vilão e a mocinha. Ninguém sabe por que Arósio declinou, mas quando você vê a carga densa do personagem Léo - que ficou para Gabriel Braga Nunes - fica claro o motivo de Fabio, por sua recente história de vida.

Mas o mais curioso é ver Paola Oliveira na pele da protagonista Marina: ano passado, especula-se que seu atual namorado terminou o casamento durante a lua-de-mel com outra atriz para viver um amor com ela - que perdura desde então. Questionada recentemente - inevitável a semelhança - declarou, entre irritada e aborrecida, que 'não, não roubou o marido de ninguém!'

Pessoalmente, acredito - até porque, como na vida real, o que se vê na ficção é que um amor arrebatador não pode ser controlado. Coincidência difícil de driblar é viver a própria história duas vezes - esperando que, nos dois casos, o final seja feliz...

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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

JAZZ >> Leonardo Marona

Não era saudade. Não era esse o sentimento. Não era nostalgia, era pertencer ao tempo errado. Era poder olhar. E olhar é não pertencer. Estava apenas tendo uma atitude mitológica: “a saudação ao provedor do amor”. Quantos dirão que isso significa que lá estava o pai da minha namorada, e que ela seria muito em breve uma antropóloga e sabe-se lá quantas estruturas não desabariam em breve diante de nós, a partir dos questionamentos sobre causa humana?

Antes fosse esta a real questão. Porque existe o real, tanto que tivemos que inventá-lo. Mas o problema verdadeiro e a parte mais intrínseca do problema é que se tratava do pai da minha namorada, futura antropóloga, que aqui dorme aos meus pés, e esse pai era acima de tudo um baterista. Se existe uma idéia de coração para a música, o piano não passaria de um rim. Como é técnico o amor de duas mãos sozinhas com teclas. Estou aqui e sei o que estou dizendo. E quem lê este texto sabe também o vício de que sofre, no mínimo, alguém que admira tal frágil interação. Apenas teclamos em preto e branco, e com isso não passamos do princípio das coisas. E o princípio, por ser vago, interessa muito, mas revela muito pouco.

Acontece que um baterista, um baterista bate com o coração do tempo. Se todos falharem, mas o baterista não falhar, a música permanece, e com ela o tempo, porque a música é o tempo enlatado. Mas se o baterista falhar não há música, e não há tempo, e não passamos de latas abertas á podridão. Estamos diante de um paradoxo. O menos lembrado, é justo dizer, mantendo a lembrança do que julgamos mais importante. Porque quem é que pensa no próprio coração, se não para escrever cartas de amor, que são sempre ridículas, e as coisas mais vivas em nós? O mais ridículo é que continua batendo, mesmo mortalmente ferido. O ridículo de tudo é a continuação do ridículo, porque disso não abrimos mão, sem isso não sobrevivemos.

O mais importante é que estamos famintos, cansados e de saco cheio. E isso existe no blues há mais de cem anos. E cem anos, mais do que nunca, é muito tempo. Mas não falemos em nós por ora, falemos da sensação ancestral de ser algo como muitas vezes se foi e se parou de ser para se cuidar dos gatos e morrer de tédio no sofá diante da mãe viciada em pílulas. Isso significa “entrar no ritmo da coisa”. E, muito bem, lá dentro existe este homem sorridente, não muito bonito em particular, mas que vem a ser o “provedor do amor” do seu amor, que senta ao lado com um belíssimo coque, exibindo como nunca um excelente pescoço modiglianesco. E esse homem não usa teclas, usa pedaços de pau. E ele não passeia festivamente pela música, ele estabelece a música. Portanto, estás abaixo dele, já que apenas passeias. E isso fica na cabeça por pouco tempo, já que ao mesmo tempo presencias. E o que presencias é algo que vem de uma lufada de sentimento tribal, de sentimento exclusivista partilhado ao meio com abutres e técnicos e adoradores, e são os mesmos pés destes homens que, quando paras para sentir, estão surrando o chão com passo marcado e sentes ser o próprio Kerouac compensando a limpeza das entranhas dos frangos, mas tu mesmo tens as entranhas do frango agora e queres compensá-la, então fecha os olhos e sente os pés, falsos pés muitas vezes, mas firmes eles tornam-se verdadeiros, mesmo sem entender a música, porque ela existe e estás nela mas não podes tocá-la, como a base de qualquer sonho, e dos sonhos és ensinado a, ou se envergonhar, ou estragá-los em palavras.

Preciso me esquivar até o banheiro, fechar a cabine e sentar sobre a tampa da privada, abrir um caderno ridículo de rascunhos cor-de-rosa e apenas deslizar como tentativa frustrada de me fazer em música sem membros, disparar minhas letras como um judeu diante de um pelotão convicto. E são letras ilegíveis e muito suor no rosto, diante de uma luz de teatro, sentado na privada. Letras ilegíveis que tanto amo, porque algo em mim foi hoje ferido a ponto de ser possível amar até mesmo o que sempre me destruiu. Mas hoje, sentado na privada do banheiro da casa de espetáculos, sinto ao menos o piso palpitando e por isso sei que sou fraco, mas não estou sozinho e, além do mais, tenho um coração. E os olhos já dizem, não escondem as drogas dentro dos bolsos. Mas aqui estou mesmo assim, imune, entregue, suando em bicas, vestindo minha camisa amarela com o retrato de Edgar Poe – pobre Poe, ele também sabia – brilhando em preto, somos apenas garis das expressões complicadas e melhor seria termos todo aquele esmero, aquele brilho em nossos instrumentos, mas então seríamos moscas sem aranhas – volto eu a falar em nós – e o que é uma mosca sem uma aranha, além de um ser que vive por um dia?


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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

QUEM MEXEU NO MEU SIGNO? >> Fernanda Pinho




Naturalmente foi uma ariana típica – com cabelo vermelho-fogo e tudo – quem começou o alarde. Era Lili, com sua natureza bélica, protestando Internet afora que, para ela, não fazia o menor sentido ser uma pisciana. Alheia ao motivo da revolta da Lili, fui me assuntar. O trem era sério mesmo. Estava até no site da Folha de São Paulo a notícia de que um certo Parke Kunkle anda defendendo a teoria de que, em função das alterações no alinhamento da Terra, as datas de alguns signos do zodíaco como conhecemos mudaram.

O que isso muda na prática – além de ter que se acostumar a ler outro horóscopo no jornal – eu não sei. O fato é que rapidamente formou-se um rebuliço e foi revelado um surpreendente corporativismo astrológico. Arianos indignados; sagitarianos revoltados por agora serem serpentarianos (what the hell is Ophiuchus????); piscianos aos prantos, escorpianos tramando vingança; geminianos amando a ideia, odiando a ideia, amando a ideia, odiando a ideia; librianos na dúvida se a mudança era boa ou ruim. E, nesse último caso, falo por mim, libriana (ou ex-libriana, sei lá) convicta. Porque, vejam bem, como libriana a única certeza que eu tinha na vida era justamente a de que eu era libriana! Agora vem esse Parke Kunkle me confundir.

Que os outros librianos não me leiam e que fique bem claro que eu amo ser de Libra. Mas é que, com essa confusão toda, de repente, sou Virgem! E, vocês hão de concordar, ser Virgem em pleno 2011 é um luxo (Só para constar: o assunto ainda é o zodíaco). Seria maravilhoso se amanhã eu acordasse uma virginiana típica, prática e funcional. Eu organizaria meu guarda-roupas; faria uma planilha semanal para otimizar meu tempo de trabalho; e resolveria todas as minhas neuroses sentimentais como se fossem problemas matemáticos. Perfeito! Ô, seu Kunkle, onde é que eu faço o recall?

Só tem um problema: eu jamais me acostumaria com isso. Demorei anos para aprender a lidar com a mudança do meu ascendente! Explico: minha mãe confundia a hora do meu nascimento com a da minha irmã e eu passei mais de 20 anos achando que meu ascendente era Capricórnio – quando, na realidade, era Aquário. Imagine agora, ter que abrir mão de todas as minhas librianices em troca de um pouquinho de praticidade! Ah não. Não quero. Desisti do recall. Orgulho Libra até o fim. Ainda que isso me custe um coração por dia, na minha balança ninguém tasca!


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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

LIVRO DE PONTO >> Carla Dias >>


Inspirado no olhar de Lucas Dupin



Navego, mares distantes, lonjuras homogêneas, barcos arfantes sem direito a porto. Tudo o que já disse sobre a vida foi apenas um ensaio, a sombra, o contorno. Não chegou nem mesmo às bordas do seu significado, conforme reza esse meu dicionário de buscas.

Sei que minhas buscas, a você, que na falta de atividade mais acolhedora, permite que seu olhar encare minhas palavras, pouco importam. Então, apresento meus esquetes emocionais, eles sempre tão intrincados, em cenas de filme que você jamais assistirá, senão na tela do meu dentro.

E sem título... Sem rótulo... Sem ficha técnica, apenas vínculo.

Navego os pés na água da piscina, e no destempero do outro, que ao ser contrariado, aperta os dentes, como se mordesse a carne para garantir o alimento ao rebento faminto.

Há tanta fome no mundo. A minha, agora, neste imediatamente, é por adormecer.

E fome matada, enquanto durmo, como raramente encaro o sono, pesadamente, como se fosse uma dormidora profissional, não perco o eco da existência, enquanto ela constrói em terrenos descampados, árvores ziguezagueando e construindo a paisagem, as cores dançando neste sonho como se fossem divindades em seu momento de questionamento. E nessa dança, meu caro, há mais beleza do que se imagina quando, ao se envolver em um naufrágio.

Estou aqui para aprender, mas agora não sei o quê. Não há no semblante das coisas e causas e faltas e tolices e amores perdidos o que me ensine a reconhecer o tema de tal jornada.



Saio à caça do saber o que sequer sei se desejo, ou se algum dia desejarei. Noite pintada de calmaria, algozes saboreando um quase perdão. A luxúria de poder escolher um desfecho que seja. Aprender a abotoar a camisa sem sentir saudade dolente de quem um dia a desabotoou para mim.

Será que desejarei aprender as amarguras a fim de exorcizá-las?

De acordo com a cronologia da minha história, morri quase mil vezes, antes de conceber o fascínio pela vida. E com este nascimento, vieram as doidices que alguém feito eu tem de cometer para sentir o pulso, o sol queimando a pele, pelos eriçados, para perceber as emoções esquadrinhadas no silêncio, assim como o torpor estampado nos quadros dependurados no fim do mundo.

Posso perder a bússola, o endereço, a roupa do corpo, o dinheiro do banco. Porém o rumo, este não preciso perder, porque declaro-me, aqui, neste agora acanhado, porém competente, uma dessas pessoas que sabem como viver o destino, ainda que ele não bata com o desejado, com a leitura das cartas, com o que diz o mapa astral, com as profecias feitas pelas tias em dia de chá da tarde, com os cartões de felicitações, com as previsões do tempo, com as cartas de amor rasgadas, tampouco com o passado embrenhado nas fotografias.

Que venha o destino, com suas mãos equipadas com pedras, e penas, e tapas, e afagos. Eu o espero, enquanto contemplo a vida, meus pés em uma poça d'água, em dia de chuva, enquanto tomo banho na avenida... Ou enquanto tomo sol, sabe-se lá...

Imagens: Lucas Dupin >> http://www.flickr.com/photos/lucasdupin

carladias.com

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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

QUANDO VOCÊ ACHA QUE NÃO VAI FICAR PIOR...
>> Clara Braga

Em todos os meus relacionamentos, eu sempre tive uma grande dificuldade: conhecer a família da pessoa. Para mim, não existe situação mais embaraçosa que essa. Todas as vezes que eu fui conhecer os pais de um namorado, eu acabei falando alguma besteira.

Teve uma vez, depois da minha mãe morar em Portugal e eu ir visitá-la e aproveitar para conhecer Madri e Barcelona, que eu fui conhecer a mãe de um namorado e ele me pediu para dizer a ela qual o lugar da Europa que eu tinha gostado mais, e eu disse que nunca tinha ido à Europa, mas dos lugares que eu tinha visitado, o melhor tinha sido Barcelona. Não preciso nem dizer que o namoro não durou e que, no mínimo, a mãe dele pensa até hoje que eu fui colega de classe da Carla Perez. Mas, enfim, depois dessa eu decidi que não conheceria a família de ninguém antes de, no mínimo, 6 meses de relacionamento, isso sendo otimista.

Decisão tomada e o atual namoro apareceu. Eu temia pelo dia em que ouviria a frase: “Vamos lá para casa!”. Depois de ter tirado a Espanha da Europa, o que mais eu poderia fazer? Antes mesmo que eu pudesse surtar por medo da situação, meu pai decidiu fazer uma cachaçada lá em casa para os meus amigos. Após três garrafas e meia de cachaça para 5 pessoas, algumas pessoas – meu pai e meu namorado para ser mais exata – passaram muito mal, e foi após ele ficar mais de uma hora embaixo do chuveiro passando mal com tudo que se tem direito que eu o apresentei para os meus pais como meu novo namorado, já que como amigo eles já conheciam.

Com certeza a situação estava mais fácil para mim, seria difícil superá-lo, mas como um bom namorado que é, ele não se deu por satisfeito. Fomos para a casa da minha madrinha comer cachorro-quente para ver como ficou a reforma do apartamento dela. Tudo estava novinho, principalmente o sofá branco da sala. O sofá branco da sala ainda não havia sido impermeabilizado. E então, quando menos se esperava, lá se foi o cachorro-quente dele, cheio de molho de tomate para o novo sofá branco não impermeabilizado. Envergonhado, com certeza, não seria a palavra exata para descrever como ele ficou. Acabou não sendo nada demais, tudo ficou limpo e sem manchas. Mas para quem derruba o cachorro-quente nunca é simplesmente nada demais.

É claro que minha família, palhaça como é, não esqueceu a situação e ainda vai brincar muito com ele por causa disso, mas o mais importante é que foi assim que eu perdi meu medo de estar entre os familiares dele, mesmo que eu diga que o melhor lugar da Europa é a Austrália, acredito que eu tenha meus créditos. Ah, e para quem quiser comer cachorro-quente, o sofá já foi impermeabilizado.

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segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

VIVA A IMPERFEIÇÃO >> Kika Coutinho

Dia desses, Sofia deu aquela habitual trabalho para dormir. Era uma noite em que eu estava sozinha, o marido atrasou no trabalho e restou a mim o trabalho – árduo – de lidar com uma criança insone.

Chorava, eu pegava. Parava. Quase dormia. Quando eu punha no berço, acordava. E chorava. Eu pegava. Não imediatamente. Deixei chorar por 5 minutos, 10, meia hora. Pegava. Parava. Punha no berço, chorava. Quatro horas se passaram, e chorávamos juntas: “Filha, mamãe tá cansada, por favor, me ajuda, eu não sei mais o que fazer.” Nesse meio tempo, dei mamadeira, dei água, dei colo, dei bronca, dei camomilina C – vai que é dente - troquei fralda, fiz massagem na barriga, nos pés, troquei roupa – pode ser o calor. Depois achei que era frio e liguei o aquecedor. Desliguei o aquecedor, pus Baygon no quarto – vai que é pernilongo – tirei o Baygon – vai que ela tá sentindo o cheiro – aspirei o nariz, fiz inalação, cortei a etiqueta do pijama – vai que tá incomodando – e o resultado disso éramos nós, mais de meia-noite, assistindo Cocoricó na sala. Eu cedi ao DVD com tanta dor e remorso que a situação ficou ainda pior. Meu Deus, bem eu, a rainha da rotina, a senhora tem-que-dormir-na-hora-de-dormir, só faltava agora eu por coca-cola na mamadeira. Eu estava enlouquecendo, pensei.

Foi quando ela riu com as aventuras do Júlio que eu me dei conta. De que adiantava? De que adiantava ceder com tanta dor e dúvida? Estávamos lá, eu não tinha conseguido ser a mãe perfeita naquela noite (e provavelmente nem nos dias). Qual o problema?

Por um instante, senti um alívio. Libertei-me de mim mesma, das minhas próprias regras e normas, das minhas incansáveis leituras didáticas, dos meus livros e lições. Chega, eu era normal. Agradeci por não ter drogas na residência, eu estava quase dando um comprimido para a bichinha dormir, mas não. Ainda tinha algum limite.
Sofia assistiu o seu DVD predileto, eu comi um chocolate, tomei meu refrigerante não diet e notei que estava viva, com inúmeras falhas, celulites e dúvidas.

Foi quando meu marido chegou, firme e são, que ela acalmou-se e, no colo dele, adormeceu. Junto com o peso do cansaço, senti a leveza de um aprendizado novo. A liberdade de me permitir adentrar no caos, de repente, foi açucarada – calórica, mas doce. Como as melhores coisas da vida.

www.embuchada.blogspot.com

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domingo, 16 de janeiro de 2011

VIDA É JOGO >> Eduardo Loureiro Jr

Tem gente que acha que a vida deveria ter manual.
Ela tem. A vida tem manual. Mas quem lê manuais?

Tem gente que reclama de injustiça.
Não há injustiça: está tudo previsto no manual.

Fica mais fácil se pensarmos a vida como um jogo. O manual são as regras.

Depois de uma breve introdução, que coloca o jogador na temática do jogo — Sol, Lua, estrelas, fogo, ar, terra, água, pedras, plantas, bichos, gente —, as regras indicam o objetivo do jogo, ou seja, a forma como o jogo acaba. Há que se começar pelo fim para que a coisa tenha sentido. O jogo — a vida — acaba quando o objetivo é atingido — embora sempre tenha algum jogador impaciente que resolva encerrar o jogo no meio, cometendo suicídio. São pessimistas os suicidas: o jogo nem acabou e eles acham que vão perder. Ou simplesmente ficaram entendiados — sem motivo, claro, porque o que não falta nesse jogo é animação. Mas, a se acreditar em reencarnação, os suicidas terão a chance de disputar novas partidas.

Para que o jogo acabe, é preciso que se cumpra o objetivo, mas não necessariamente o seu objetivo individual. O jogo acaba quando um dos jogadores, o vencedor, cumpre o objetivo. Os demais jogadores têm seu jogo encerrado por tabela. Tem gente que morre porque quer, digamos assim: cumpriu o que tinha de cumprir, fez o que tinha pra fazer, chegou onde tinha de chegar. Game over. Tem gente que morre antes de chegar lá, com aquela sensação de que ainda tinha algo por fazer, tarefas por cumprir. Jogo encerrado do mesmo jeito. Mas a vida é um jogo bem elaborado, de dinâmica bem definida: é possível o jogo acabar e todos os jogadores estarem satisfeitos: deram o melhor de si, tudo que podiam dar, só precisava que alguém atingisse o objetivo e encerrasse o jogo.

A vida é um jogo com 6.893.885.198 jogadores, e tem mais gente entrando no jogo a cada momento. Agora já são 6.893.885.328. Cento e trinta novos jogadores em poucos segundos. Existe o grande jogo, disputado no grande tabuleiro, a Terra. E existem os pequenos jogos dentro do jogo, acontecendo aqui, aí, por acolá. Quem joga sabe que jogar é bom, mas às vezes arranha. O jogo é uma excelente maneira de trazer à tona nossas manias, medos, neuroses. Numa mesa de jogo, junto com as cartas e o peões, revelam-se e movimentam-se também a desconfiança, a trapaça, a vingança, a dissimulação, a vitimização... Assim como também aparecem a inteligência, a paciência, a vontade de aprender, a flexibilidade, a diplomacia, o companheirismo, a diversão...

Quando acontece uma enchente como essa do Rio de Janeiro, é difícil pensar no assunto com calma, mas, na verdade, resumindo bem, um grande jogo, de centenas de jogadores, está se encerrando. Não sejamos mal perdedores. Se acabou, é porque o objetivo foi atingido.  "Porque a cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total. Todos os sucedidos acontecendo, o sentir forte da gente - o que produz os ventos", já dizia a Rosa em forma de Guimarães. Há que se aumentar a cabeça para compreender o objetivo que foi atingido no Rio.

Tem gente que vai dizer que o jogo não deveria ter acabado assim, que foi como se um vândalo chegasse e baldeasse a mesa de jogo, depois jogasse tudo no chão.

Injustiça?

Depende do tamanho da cabeça de cada um. Assim como é possível que todos os jogadores saiam satisfeitos de uma partida, também é possível que todos se sintam incomodados, insatisfeitos com a mesa que se formou, com a estratégia que se planejou, com o clima que rolou entre os participantes.

Outras partidas estão sendo disputadas — aqui, aí, acolá — com as mesmas peças — água, terra, construções — e é melhor a gente ver se está fazendo o que tem que fazer, cumprindo o que tem que cumprir, dando o que tem que dar para que a gente chegue onde tem que chegar. Para que as próximas partidas não terminem em choro e chateação, mas em risos e alegria.

Dê um jeito de conseguir uma cópia do manual da vida, entenda as regras direitinho e vamos aprender nos divertindo.

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sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

IMPACIENTES PELO BUQUÊ
DO INSTANTE RALO
>> Leonardo Marona

São doses de álcool e eu, espinha repentina, sou portanto. Que me envergonhe de mim mesmo é o mínimo. Como posso me vangloriar do que tenho certeza? Primeiro que é ridículo gritar no vácuo. Digo: como posso dizer a palavra certeza em meu benefício? Cadafalso, cadarço juvenil, relação peso-quadril. Se a derrota não é certa na cabeça, mas conivente na atitude, que importa mergulhar nas horas que te fazem traquéia escura de sangue? Qual a relevância em pensar nas realidades inevitáveis (se criamos a realidade astuciosa em rugas)? Existem perguntas que eu faria a noite inteira, em busca de olhos vivos, ou cômodos embranquecidos para morrer em crase. Mas é mentira: olhos mortos – a criação do vento escolhe não ser areia – todos vivos apenas em frases comportamentais. Trata-se apenas de um erro típico do fim de tudo, conjugado simples como as costas dela infladas ao sono madrugado em sexo, confiscado de rito soprado pelo escudo do tempo, rajada de sem comício em lona, olho de luz branca, sem rebatedor. NÃO GOSTO DO CINEMA. Só se fala sobre isso. E se algo é sobre falado, não gosto. Me irrita falar quando morre gente preocupada em fazer carreira fantasiada de mito com cabelos escovados em naja cômica. Como se (D)ali estivesse a essência da derrota benéfica numa chave de braço (Sur)real. Mas disfarça-se a impressão de si próprio. Existe gole de conhaque que te faça santo? Não, mas, derrubado, posso lambê-lo. É isso que me importa enquanto estivermos mortos. A dose do líquido esquecida na sala branca sem quadros de nós, olhos ocos Lautrec, no passado vivo com pernas bilíngües. Paralisia infantil no sonho maternal. Linguarudos sucedidos corrigem acertos fálicos. Pessoas esperam na porta vazia dos rangedores românticos iletrados. Palavras, som e sal, corrigem arrepios natimortos. Novamente locuções de outra vez nós dois, dedicados ao esmo vesgo. Eu lambo línguas imaginando penas no banco de areia – e se não fosse o mar por qual te amo – apenas porque sei que só poderia sentir isso uma vez por mês – mesmo assim te falo coisas bonitas entre vírgulas espanholas, sendo que sou italiano falso. Escreve-se mal para se ser aceito n’aquilo que não se soube ser novo na hora que se passou errada – como se fosse possível – confortavelmente em letras. Porque se sabre pela raça humana, mato pelo quê? O que é inviável ao ego em chamas, lâmina de fio duvidoso, mas falante, na cama do fosso saudável, café-preto ralo, aperitivo ótico da beleza solitária em tábuas que falam sempre que penso amém.
"o casamento"
gostaria de saber de vocês, homens e mulheres da minha vida,
como poderia se casar um poeta.
seria com ostentação que ele faria
a celebração silenciosa da dúvida?
creio que a pobreza e as poucas posses
impedem certas manifestações de medo.
filhos? não acredito que isso possa resolver algo.
viemos das chamas antigas, e borbulhamos demais para aceitar os mares calmos.
preste atenção ao poeta no canto da enorme sala,
falando aos quatro céus, embebedando-se com uísque.
é do desespero deste homem que se fazem as grandes festas.


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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

APRENDENDO A SURFAR >> Fernanda Pinho



- O que você faria diante de um tsunami? – perguntei por perguntar.
- Surfaria. Eu morreria de qualquer jeito.

A resposta veio rápida e rasteira, revelando uma lucidez surpreendente. Foi uma pergunta à toa. Não era para me jogar na cara uma resposta que me disparou vários alarmes internos. Mas ele o fez, displicentemente. Não era, afinal, um velho sábio chinês querendo me aplicar a moral de uma fábula. Era só meu primo, de dez anos, confirmando aquilo que eu já suspeitava: ele aprendeu a viver muito antes de mim.

Chegou a me devolver a pergunta, mas disfarcei e encerrei o assunto. Primeiro porque fiquei sem jeito de admitir que, diante de um tsunami, eu provavelmente choraria e gritaria desesperada, sem conseguir sair do lugar e morreria do coração antes que a onda me pegasse. Segundo que, a essa altura, meus pensamentos já tratavam de ruminar, mais uma vez, todas as minhas crises existenciais. Agora, sob a luz da filosofia do pequeno Romano.

Era dia 2 de janeiro e, no dia anterior, eu havia pulado ondas, jogado flores para Iemanjá, feito mil promessas e mil e um pedidos. Mas então eu entendi – como se isso já não fosse o óbvio – que não adianta nada ter um grande plano. Um projeto superbem arquitetado. Uma meta incrível. Não adianta eu viver obcecada pelos resultados finais (e suplicar para Iemanjá que eles se concretizem), se a vida é o que está acontecendo antes de chegarmos lá.

Embora vergonhoso, foi oportuno ouvir isso de uma criança logo no início do ano, que é quando estamos mais dispostos e propensos a fazer diferente. Não quero mais passar os finais de semana pensando nas matérias que vou ter que escrever quando a segunda chegar. Só me faz perder horas de descanso e, no fim das contas, produzir uma matéria muito aquém das minhas reais possibilidades. Não quero me apaixonar pensando em como vai ser doloroso quando tudo terminar. Só me faz antecipar o fim, com medo de que as coisas piorem pro meu lado. Não quero mais analisar meu extrato bancário e meu corpo, diariamente. Só me faz me sentir uma pessoa duplamente incompetente que não sabe lidar com dinheiro nem cuidar da minha forma e da minha saúde.

O que quero é levar a sério uma frase que li numa publicidade há alguns anos: “Se você se preocupar, você morre. Se você não se preocupar, também. Então pra que se preocupar?”.

É isso. Não quero mais me preocupar. Como vou conseguir essa façanha, eu não sei. Talvez seja o caso de tentar aprender a surfar.

Imagem: http://www.sxc.hu/

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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

ATINADO >> Carla Dias >>

Com seu olhar amarrando distâncias, a voz quase calada de vez, tem por hábito tecer os dias com as novidades inventadas. Pensa em poesia para dizer cruezas da realidade. Cria versos com lágrimas e gargalhadas. Acredita ser curandeiro, e com seu talento, fazer a tristeza aquietar. Soletra palavras quaisquer para melindrar ritmos: b-á-l-s-a-m-o é das que mais gosto de ouvir, assim, fragmentada.

Eu costumo esquecer da vida quando ele está por perto, porque a minha realidade é atingida em cheio pela cumplicidade doidivanas dele. Leva-me, quase sempre, de encontro aos meus fantasmas, eles que seguram cartazes com ameaças coloridas: há de chegar o dia, minha cara, que nenhuma máscara sua suportará a verdade de quem é você.

Eu rezei aos deuses, e foi mais de mil e tantas vezes, pedindo para que ele me goste diferente. Assim, eu o teria tatuado na minha rotina reticente. Haveria, enfim, uma boa chance de eu despetalar amor sem parti-lo ao meio, vide esse adjetivo que é um dos que me definem: desastrada. E partir amor ao meio não é bom, não mesmo.

Gostaria de colocar flores em seus cabelos, enquanto o vento faz com que dancem as roupas nos varais. Enfeitar seus cabelos de jardins secretos, de cores, e espalmar mão para receber o apreço do toque. E que enquanto ele monopoliza o som, dizendo sentimentos que não devo ter, a boa sorte outorgasse a mim o direito de continuar essa caminhada.

E naqueles segundos, quando os ponteiros do relógio endoidecem, ele credita ao tempo o direito ao atraso, contanto que, logo mais, ele possa perceber a hora que é a de partir... E parte.

E eu fico: o sonho atinado, a espera pela volta dele em andamento.

carladias.com



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terça-feira, 11 de janeiro de 2011

C.C.L >> Clara Braga

Eu confesso, sou uma C.C.L (Compradora Compulsiva de Livros). A princípio, isso não parece ser um problema, a não ser para o meu bolso, o único que realmente sofre. Porém, nessa época de faculdade, que é a minha fase atual, é complicado comprar os livros que eu bem entendo e curtir pelo simples prazer da leitura. Estudar exige muita leitura, porém leitura de textos técnicos, textos de cada área que está sendo estudada, o que os pensadores falaram e falam sobre seu curso etc. Mas mesmo com todas essas coisas de faculdade para ler, não consigo evitar entrar em uma livraria atrás de uma boa Adriana Falcão ou até de uma engraçada Marian Keys.

Nas minhas últimas idas à livraria, percebi que está mais do que na moda o tipo de livro que eu gosto de chamar de “livro manual”. O que eu chamo de livro manual é aquele que até tentou ser um auto-ajuda, mas não conseguiu. E já existem vários manuais por ai, manual de como criar seu filho, como enriquecer, como ser poderosa, como conquistar aquele cara de quem você sempre foi a fim, como ler livros. O último que eu encontrei agora foi o manual de como dar um toco naquele carinha com quem você estava saindo, mas acabou percebendo que não gosta mesmo dele.

Não gosto de falar mal e parecer preconceituosa, sei que esses livros estão surgindo mais e mais nas prateleiras das livrarias e das casas das pessoas, mas dessa vez não vai ter jeito, vou ser preconceituosa mesmo. Por favor, isso não pode ser sério! Sei que eles devem ter algo de bom, senão não venderiam tanto, mas se eles fossem sérios mesmo já não existiria pobreza no mundo, filhos não matariam pais, todas as mulheres seriam superautoconfiantes e todas as crianças gostariam de ler muito. Mas é nítido, não estamos vivendo nesse arco-íris de energia da Xuxa, então vamos simplesmente esquecer esses manuais e ler livros realmente interessantes. Ou melhor, escreva você o seu próprio manual, ninguém melhor do que você mesmo para lidar com seus problemas.

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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

PRESENTES PASSADOS
>> Albir José Inácio da Silva

Presente não é brincadeira. Não para ela. Nada a aborrece mais do que a displicência com que certas pessoas tratam o assunto. Na compra de um presente deve-se colocar alma, amizade, carinho.

Nunca se esqueceu de como os presentes a fizeram sofrer. Presentes que nunca vieram ou dados de má vontade, mal escolhidos, só para se livrar da incumbência. Deram-lhe roupas grandes, sapatos pequenos, brinquedos que assustavam mais que divertiam. Passou a infância desejando presentes que não ganhava e recebendo presentes que não queria. Seus natais nunca tiveram Noite Feliz, Jingle Bells e outras canções melosas. Sua música natalina sempre gemia: “Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel...”

Presente nunca mereceu o devido respeito, pensava, mas, ultimamente, os presenteadores enlouqueceram: vale-presente, cartão-presente e outros absurdos. Preguiçosos e incapazes há muito tempo já recorrem à imoralidade de perguntar o que a “vítima” quer ganhar. É o mesmo que dizer: não sei nada sobre você, não quero saber e me ajude a comprar seu presente já que eu tive o desprazer de tirá-lo como amigo oculto.

De sua parte, não. Gastava dias na busca de um presente. Presente tinha que ter, dizia, a cara de quem recebia. Não bastava servir, tinha que fazer brilhar o olho do presenteado. Revirava lojas, catálogos, barracas e camelôs, retornando várias vezes até ter certeza de que aquele era o presente certo. Do brinquedo do filho à lembrancinha do porteiro, tudo era um parto.

O presente para sua amiga, por exemplo, custou-lhe quilômetros de caminhada. Procurara dois dias sem achar algo que fizesse justiça a sua amizade. Achou roupas que todos usavam, sem personalidade, quinquilharias inúteis e, nas lojas mais requintadas, bolsas caras e feiosas. Sugeriram livros. Mas que livro? “Um que você goste”. Ora, o presente não era para ela, não era ela que tinha que gostar. Os palpites só serviam para irritá-la e a agonia durou até o dia de natal. Voltando às lojas, achou uma saia diferente e ousada – a cara da sua amiga - e não teve dúvidas. Era o que procurava.

Infelizmente quem a tirou de amigo oculto não teve o mesmo zelo. E agora, passadas as festas, ali estava ela na fila de trocas, com esperança de levar alguma coisa que pudesse usar sem sofrimento. Murmurava sua musiquinha triste sobre nem todo mundo ser filho de Papai Noel, quando reconheceu a voz que esbravejava no balcão. Era sua amiga que brandia, amarrotada, a saia que lhe custara tanta dedicação.

- ... então me dê qualquer coisa! Pares de meias, por exemplo! Qualquer coisa é melhor que isto!

Saiu da fila antes que fosse vista. Já na calçada, jogou fora o presente e comprou uma caixa de chocolates. Foi combatendo na boca o amargo das injustiças do mundo.

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domingo, 9 de janeiro de 2011

POSITIVO E (quase) OPERANTE
>> Eduardo Loureiro Jr.

Aconteceu o que eu temia. E não foi surpresa nenhuma. As coisas que mais tememos costumam acontecer com uma frequência nada assombrosa. O medo é o mais poderoso magneto para se atrair o que quer que seja. O medo é o desejo condensado, pronto para acontecer a qualquer momento.

Esses dias, minha enteada perguntou como deveria rezar.

— Para conseguir o que você quer? — me certifiquei.
— Isso — ela confirmou.

E passamos quase uma hora num bom bate-papo existencial que teria durado poucos segundos se eu dissesse apenas:

— Tenha medo, muito medo, de conseguir o que você deseja, e o seu desejo se realizará como num passe de mágica. O medo é a reza mais eficiente que existe.

Pois comigo aconteceu. Os primeiros sintomas, eu nem percebi direito: o trabalho ininterrupto entrando pela madrugada, o prazer do esforço criativo, a insônia, a cabeça ricocheteando ideias, a falta de vontade de tirar o cochilo depois do almoço.

Aconteceu quando eu resolvi fazer algo que estava adiando há uns 10 anos: editar um livro com os textos do Crônica do Dia; fazer uma antologia das milhares de crônicas publicadas aqui neste espaço por centenas de autores.

— Eduardo, por que você não lança um livro do Crônica do Dia?

Ouvi muitas vezes essa pergunta, às vezes quase uma intimação, tanto de escritores quanto de leitores. E sempre respondi: "Não".

Desde que editei um primeiro livro, também uma antologia, só que de cartas, de forma independente, há 15 anos, jurei que não repetiria a aporrinhação. Fiquei decepcionado comigo mesmo pelo resultado: um livrinho feio, embora com um conteúdo tão maravilhoso que de vez em quando, apesar dos ácaros, eu ainda me pego folheando encantado. Mas nunca mais. Eu não dou pra isso. É muito esforço e muito gasto para um resultado frustrante. Melhor deixar os textos apenas no Crônica do Dia, no virtual, sem precisar fazer seleção, contatos, orçamento, contratos, revisão, provas, transporte, lançamento, estoque, notas fiscais, prestação de contas, etc.

Mas eis que então, de tanto medo que deu, aconteceu. Não sei se foi um acesso de euforia, um sonho bem dormido, uma boa transa, o recebimento de um dinheiro atrasado, um filme inspirador... Deve ter sido uma dessas coisas que tira a gente do sério e faz a gente pensar que a vida é um lugar propício à realização de sonhos. Fiz o convite aos autores e vários deles responderam com a mesma expressão: "positivo e operante". Deve ser moda, alguma fala de personagem de novela, ou então muita coincidência, perseguição, o universo pirando e conspirando a meu favor. E começou uma espécie de apaixonamento, não por outras pessoas, mas por ideias.

Como as ideias não têm moral exclusivista nem sofrem de ciúmes, outras ideias começaram a tocar a campainha e a coisa virou um bacanal de ideias, uma suruba mental que tanto excita quanto preocupa, afinal o que é que vão dizer os vizinhos?

Como meus cultos leitores devem saber, criação tem tudo a ver com sexo, sexo tem tudo a ver com violência, e sai de baixo, e monta em cima, e não adianta dar as costas porque também rola por trás. Aí eu viro um samba do crioulo doido que tanto tem ideias para fazer jogos de tabuleiro infantis quanto tem vontade de esbofetear as crianças que frequentam o Parque Olhos d'Água e usam, inapropriadamente, os equipamentos dos adultos.

É um mundo em guerra o mundo da criação. Os empregos normais, de bater ponto, ficam todos ameaçados. A vontade é largar o ganha-pão e fazer o que der na telha. Uma loucura, meus amigos. A vontade de dizer "eu te amo" é a mesma de dizer "vá para a puta que o pariu".

E eu fico pensando que das duas, uma: ou boto tudo pra fora, jogo tudo por água abaixo, correndo o risco de desagradar a galegos e candangos; ou me contenho, me refreio e espero a onda passar para voltar à minha vidinha.

Enquanto isso, melhor ninguém chegar perto. De um jeito ou de outro, quem se aproximar será contaminado: pelo meu violento entusiasmo ou pela minha zen indiferença. Me deixem de quarentena. Me poupem das coisas banais. Eu não estou para coisas banais. Eu só estou querendo coisas grandiosas, que entrarão para a história, tudo do bom e do melhor. Tudo positivo, mas como é que isso pode ser operante? Estou paralizado de ideias, vontades e prazer. Estou sofrendo de catalepsia justo na hora do coito. Chamem um médico, um psiquiatra, uma parteira, uma Mãe Sara da vida que traga minha normalidade de volta. O caso é grave.

"Estou a dois passos do paraíso. Não sei se vou voltar."

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sábado, 8 de janeiro de 2011

SÍNDROME EMOCIONAL [Debora Bottcher]

Não consigo evitar: todo começo de ano uma melancolia me assola. Começa logo no segundo dia: tenho pesadelos durante a noite e, pela manhã, penso que não vou conseguir me levantar da cama.

Não é tristeza, é um estranho inexplicável. Como se esse desconhecido que se apresenta - o Ano Novo -, que detém o destino à espreita, sob seu comando, fosse 'alguém' que oferecesse perigo iminente. Assim, um medo me invade e está decretado o desconforto, que sela os dias seguintes com um quase desespero, e me vejo à deriva num oceano de emoções turbulentas.

Esse costuma ser um processo solitário - como falar disso com alguém? Sendo algo recorrente, quem compreenderia sem julgar-me à beira de um colapso de loucura? E, afinal, quem poderia me afagar o sobressalto e garantir alguma paz?

Acontece que essa semana, com os 'nervos' menos aflorados, pensei se essa sensação seria exclusivamente minha. E ocorreu-me: "E se um monte de gente se sente assim e não compartilha, pelas mesmas razões que eu?"

Por isso hoje me exponho, escancarando esse sentimento que é quase uma dor, de tão latente e angustiante. E talvez porque, no oitavo dia, já seja possível falar sobre isso sem constragimento, uma vez que o incômodo é mais ameno e posso dizer que, afinal, não aconteceu nada de mais até aqui: não há tragédias, inconvenientes, nada que possa, de fato, ameaçar a tranquilidade - interna ou externa.

Ou seja, os dias transcorrem normalmente - e também, numa análise menos superficial, divago que, talvez, essa possa ser uma das razões da melancolia. A gente cria expectativas nessa época e como a vida segue, sem interrupção, alheia ao calendário, seu curso cotidiano, ficamos assim, meio reféns da normalidade.

Bom é que passa - a rotina se instala, o trabalho recomeça, as providências diárias minimizam conturbações sentimentais. E na Quarta-feira de Cinzas essa 'síndrome' volta a me habitar. Mas para a ocorrência desse 'evento' nessa data, nem consigo formular uma especulação...

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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

POEMA FELIZ >> Leonardo Marona

estar aqui é recolher as lágrimas
de um drama transposto em muitas cores.
passa um pouco da meia-noite
e é como se fosse a primeira vez.
sinto vontade de escrever algo bonito,
que não seja grandioso, mas faça alguém feliz,
que traga talvez algum primeiro sorriso.
um quadro de Chagall, com minha mãe no centro.
ela tinha um rosto bonito, que justificava a guerra,
um rosto contraditório, presságio de papoulas.
a sensação atual é de patinação no gelo.
penso nos meus amigos, acredito que todos,
de alguma forma, seguem bem seus caminhos
e isso, no frio atípico de uma cidade silenciosa,
me traz um conforto mágico.
onde estarão? será que ainda pensam em mim?
penso neles todos os dias, mesmo com dores no estômago,
e a eles dou de presente uma esperançosa distância.
a proximidade destrói, estou cada vez mais certo disso.
os carros passam velozes e imagino para onde
estarão levando cada tristeza.
ah, meu pai, faça um novo filho, seja feliz,
ande de bicicleta, tome seus iogurtes.
penso em ti enquanto, no cômodo contíguo,
minha mulher dorme um sono fundo, sonoro,
embalado de cansaço e luz silenciosa.
há um mistério que preciso assumir.
meu nome é um anagrama da palavra namoro,
me dei conta disso muito tarde – será tarde demais?
tenho saúde, um belo pescoço, meus olhos dizem
coisas sutis que sempre contradizem
as expectativas frágeis da noite.
queria cessar a ideia da guerra e que pudéssemos
enfim dar as mãos, não mais colher flores mortas.
rapidamente acumulo frases.
queria poder esvaziá-las de sentido e que apenas
trouxessem o bem, tirassem meus cotovelos da janela.
receber no corpo a concepção do amor conjunto
traz malogros, o corpo suporta melhor as cicatrizes.
fecho os olhos, o ponto da brasa anuncia a solidão,
leve solidão de um tempo em que pensar
o carinho já não significa mais cartas longas,
passagens para o Caribe, um sol azul.
ainda posso sorrir, tudo que tenho
darei a vocês, desconhecidos, a quem amo
porque sem saber me levam
com rapidez pela passagem de gelo.

www.omarona.blogspot.com

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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

TRILHOS >> Carla Dias >>

Sem querer, um pensamento, daqueles que deveriam permanecer secretos, escapa-lhe pela voz. O outro o escuta, perfeitamente, erguendo a sobrancelha direita, como se perguntasse e respondesse ao mesmo tempo a própria pergunta, impregnado da sabedoria de que tem a chance de presenciar um deslize alheio. Uma sabedoria cortejada pela displicência.

Ele revira os olhos, o homem que perdeu para a voz o pensamento, tentando convencer seu espectador que fora apenas um infeliz comentário, e não por covardia para defender esse pensamento, mas cansaço por já tê-lo feito, e por tantas vezes, sem qualquer sucesso.

Seu companheiro de viagem de trem, um homem muito elegante, um conhecido desde vinte e poucos minutos, boceja um sono inventado. É o desfecho antecipado do que deveria ser uma viagem de trocas, na qual o intelecto de um desafiasse o do outro, transformando os trilhos em conquista pessoal. Mas o pensamento fugiu de um, e se esparramou pela paciência do outro, tornando-a irritada, devota do conforto de quem se nega a mergulhar em confronto.

Ao lado do libertador de pensamento censurado, um outro homem, já de idade adiantada, observa a tudo com a curiosidade de quem não está envolvido na trama, mas adoraria ser convidado a participar dela. Sorri, salutar sorriso, ao homem que perdeu o pensamento, e faz um gesto com a cabeça que diz "eu concordo", ou seria "eu concordo em discordar"?. Os olhos do outro brilham, como se ao ser notado, a vida lhe voltasse à alma, e as palavras ao silêncio de si. Ao anonimato da voz.

Olha pela janela, desferindo um olhar mais delicado à paisagem. A sua frente, seu companheiro de viagem está de olhos fechados, negando qualquer contato com o homem de pensamento desprendido da lógica. Para ele, na escuridão das cortinas baixadas, pálpebras em descanso, há menos a se fazer do que encarar uma discussão filosófica que a nada levará, causando aborrecimento e desventura. Acredita que melhor é ficar à revelia de qualquer confissão indesejada.

O senhor continua a observar o homem das palavras sequestrada pelo som. E quando ele encara seu observador, escapa-lhe também um sorriso de troca, de sintonia. O senhor não hesita em lhe perguntar de onde saíra tal pensamento.

"Do dentro do meu dentro... Das bordas e dos inícios... Do lar dos segredos".

E o senhor se aventura a tecer perguntas ao homem de pensamento desgarrado, buscando na sua curiosidade certo entendimento com a realidade, a vedete da vida. E assim compreende a compreensão do outro, e mesmo questionando alguns pontos da tal, é de uma delicadeza incapaz de ofender ou reprimir.

O preguiçoso para assuntos mais delicados, mais humanos e profundos, arregala os olhos para ouvir a conversa dos outros. Isso mesmo... Ele tem de ver para acompanhar o dito. É do tipo que se atém aos livros com figuras, e acaba rindo dos infortúnios alheios, mesmo quando há apenas miséria.

Fim da viagem, e os elegantes homens desembarcam, indo em busca das suas bagagens. Cada um pegará um rumo, cada qual se encaixará no lugar no qual cabem seus pensamentos.

E o senhor, já segurando sua mala, aproxima-se do jovem que se arrependeu de baixar a guarda ao pensamento rebelde. A feição do senhor é leve, solta, das que convidam para o apreço. O jovem lhe estende a mão, o senhor atende ao cumprimento, mas não sem dizer:

"Se a cada viagem você soltar um pensamento deste, tirá-lo do baú dos seus segredos, lançá-lo ao mundo, quem sabe consiga trazer para o debate, daqueles que geram conhecimento, os que ignoram completamente a importância de se escutar, saborear a impressão do outro, concordar, mas nem sempre com tudo, discutir, mas não sem perder a razão através do destempero".

O moço do pensamento escapado do seu dentro guardou com ele o conselho daquele distinto senhor, e deu de lançar pensamentos a cada viagem de trem que fazia. Às vezes, o silêncio após dito era completo, mas em outras havia quem o desafiasse a repensar o dito, quem desejava saber como ele chegara a tal pensamento, e até mesmo quem suspirasse profundamente, e depois soltasse o ar, sem nada dizer.

E assim ele se tornou conhecido pelos pensamentos soltos, desnudos de pudores, muitas vezes embargado de tanta emoção. Ficou conhecido e seus pensamentos reconhecidos. Talvez se torne filósofo, escritor, diplomata, presidente. Talvez continue sendo um comerciante da área da saúde, ou apenas um viajante com uma vontade tamanha de aprender com o outro, ainda que ele arqueie sobrancelhas, feche os olhos, finja dormir.

carladias.com


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terça-feira, 4 de janeiro de 2011

DIA NACIONAL DA RESSACA >> Clara Braga

Existem dias do ano que são mortos, normalmente domingos são meio parados. Mas existem dois dias específicos no ano que eu considero completamente inúteis, não tem quem consiga fazer nada direito nesses dois dias.

O primeiro é o dia 25 de dezembro. Todo mundo abusa na ceia, come até não poder mais, faz as trocas de presente, celebra com as pessoas que gosta e tiram o dia 25 para fazer a digestão de tudo isso. Uma semana depois vem o Ano Novo, todo mundo abusa de novo, bebe, come, festeja e então chega ao dia mais inútil do ano, o dia 1º de janeiro. Não tem quem raciocine bem nesse dia, está todo mundo de ressaca, seja ela por causa de bebida, comida ou até a famosa ressaca moral.

Mesmo o dia 1º sendo definido pela palavra ressaca, de quatro em quatro anos muitas pessoas trabalham desde muito cedo no primeiro dia do ano, o dia que escolheram para que os eleitos tomassem posse. Para quem acompanhou a posse desse ano, pode ver os olhos pesados de quem não tinha outra opção, tinha que estar lá.

A festa aqui em Brasília foi grande, mas, para comprovar que o primeiro dia do ano é inútil, até o tempo estava de ressaca, nublado o dia todo e com direito a chuva no final.

Não sei dizer qual era a intenção das pessoas que decidiram que esse seria o dia da posse, com certeza é uma das tarefas mais difíceis que os políticos têm, até porque eles não são o tipo de pessoa que costuma acordar cedo. Mas eu ainda acho que esse dia foi escolhido a dedo para que as pessoas de ressaca não consigam ter reações extravagantes ao se depararem com as pessoas que estão lá dentro do congresso. Já que não se pode beber para votar, vamos colocar a posse em um dia que a população esteja ao menos de ressaca!

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segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

PASSOS DE GIGANTE >> Kika Coutinho


Sofia aprendeu a andar. Em definitivo, aprendeu. Não falo isso com orgulho porque, na realidade, temo o andar. Claro, claro que quero o normal, o saudável, o correto. Mas, a cada desequilíbrio, meu coração dispara. Ela ergue as mãozinhas e sai dando seus passos, tão titubeante, tão incerta em suas primeiras caminhadas, que eu corro para dar-lhe a mão. Nem sempre ela quer a minha mão, acha que sabe voar, que não precisa de mim, mas, ali, na frente, ai, uma quina! “Sofia, tem que dar a mão pra mamãe!”, eu repito, agarrando-a pelo bracinho e enxugando uma gota de suor que me escorre da testa. Como suo! Enquanto tento seguir os conselhos alheios, enquanto tento me tranqüilizar e assistir ao aprendizado da minha filhota sem interferir, suo. Suo mentalizando: “Ela tem que aprender, ela tem que aprender, tombo é normal, tombo é normal”. Repito inúmeras vezes até que a vejo desequilibrando e “pá”, no chão. Corro em seu socorro desesperada (eu, mais do que ela) e ergo minha meninota, vendo se está tudo bem. Normalmente está, mas devo emagrecer infinitos quilos nessa busca.

Houve uma vez, recente, que, em uma fração de segundo, ela caiu batendo com a boca no armário. Peguei-a correndo e, quando vi, entre os lábios, sangue. Foi a primeira vez que vi sangue da minha bichinha. Não, aquilo não podia ser normal, onde já se viu, normal deixar a criança se ensanguentar toda, eu pensava, entre um milhão de pensamentos que partiam meu coração. Enxugando as lágrimas dela e vendo as minhas escorrerem, corri para uma pia, comecei a lavar, tentar levantar os lábios. Era o dente, era o lábio, era língua? Não via. Só sangue, sangue, sangue e meu coração dilacerado.

Quando nos acalmamos, consegui ver um minicorte no lábio superior. De biquinho, minha pequenina encostou-se ao meu peito, suspirou fundo, e um misto de conforto e calma me invadiu.

Se o tombo é doloroso, poucas coisas são tão reconfortantes quanto aquele encontro seguinte, quando as mãozinhas que balançam assustadas alcançam o abraço da mãe; e se acalmam. Um instante de paz após a tempestade. Um instante de amor após o que parecia um século de pavor.

Sofia sarou em dois dias. Talvez em um. Aumento um pouco para não soar de toda ridícula.

Eu continuo segurando-a pela mão, a cada pequeno passo. Não importa mais o que digam. Se não for por ela, por mim mesma, que aprendo devagar a doce – e assustadora – caminhada de ser mãe.



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domingo, 2 de janeiro de 2011

TROMBONE E CIÚMES >> Eduardo Loureiro Jr.


Ano novo, vida nova. Resolvi aprender a tocar trombone.

— O senhor não prefere botar a boca na gaita? — sugeriu a secretária da Escola de Música. — É mais simples.

— Fico com o trombone mesmo, obrigado.

Já o professor advertiu:
— Não é um instrumento fácil, os alunos costumam dar com a língua nos dentes.
— Grato pelo conselho, professor, mas vou correr o risco.

Não sei se o leitor tem o mesmo defeito neurológico que eu, mas, quando começo a ouvir uma música instrumental, ouço uma voz — inexistente para as demais pessoais — que vai recitando palavras que se encaixam na melodia da música.

Durante minha primeira aula de trombone, por exemplo, os sons que emiti — com muita dificuldade — diziam mais ou menos assim:

Quase todas as mulheres ciumentas erram o alvo de seus ciúmes: seus homens, maridos, namorados estão interessados em uma pessoa e elas pensam que eles estão interessados em outra. Porque homem está sempre interessado em mais de uma mulher ao mesmo tempo, e ainda não me apareceu nenhum para me dizer o contrário de forma convincente. Nem que seja um interesse passageiro, por uma moça também passageira, vestindo uma minissaia minusculamente passageira e com um gingado deslumbrantemente passageiro. Então as mulheres têm razão em sentir ciúmes, mas o próprio ciúme obscurece a mira do olhar e elas erram o alvo. O marido gosta é da moça de óculos, o namorado se excita é com a falsa magra, e as mulheres ficam com ciúmes é da loura de olhos azuis e da miss de ocasião.

O ciúme é um sentimento que desvaloriza a própria mulher diante de seu parceiro, não apenas pela irritação que é ter alguém ciumento ao seu lado, mas porque, principalmente, é insuportável ter alguém burro, completamente tapado, por perto. E o cíúme que erra o alvo é de uma burrice indesculpável. A mulher lá, com os olhos arregalados de rivalidade e com a boca ardida de desconfiança, enquanto o homem fica pensando: "Pobre coitada, nem desconfia que, se eu pudesse, ficava era com sicrana e não com fulana". Mulher ciumenta ainda vai, mas mulher burra de ciúme não dá. Porque mulher só acerta na mega-sena do ciúme se jogar muitos cartões de muitos números, ou seja, se tiver ciúme de muita gente. Aí das vinte de que ela tem ciúmes, está sujeita a acertar umazinha em que o companheiro também esteja interessado. Agora tem homem que acha ainda mais insuportável esse ciúme de múltipla escolha em que a mulher ciumenta marca todas as alternativas. Mulher ciumenta só dá certo se for neuroticamente ciumenta com um homem neuroticamente galinha. Ela tem ciúme de todas e ele se interessa por todas. Casal perfeito, feitos um para o outro.

Mas mesmo essas erram, de certa forma, o alvo. Porque só existe uma mulher de quem uma mulher deveria sentir ciúmes: dela mesma no tempo em que conheceu seu bem-amado. Porque, no fundo, é essa mulher pela qual o homem tem permanente interesse: sua amada no momento em que a conhece. E, no momento em que o homem conheceu sua mulher, ela não tinha ciúmes dele. Por isso que a melhor forma da mulher garantir que não terá motivos para ter ciúme é largar mão do ciúme antecipadamente. Assim ela será mais parecida com a mulher que despertou interesse de seu parceiro. E serão felizes para sempre.

Essas palavras estavam em meus ouvidos enquanto eu botava a boca em meu trombone quando o professor interrompeu minha clariaudiência para dizer que a aula tinha acabado.

— Eu levo jeito, professor?
— Quando você sair da classe, repare bem no rosto de quem está na sala de espera. A expressão deles dirá se você os aborreceu ou agradou. Até a próxima aula.




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sábado, 1 de janeiro de 2011

DE NOVO, O NOVO... [Debora Bottcher]

A meia-noite anunciou um novo ano. Com fusos-horários diferentes, o mundo comemorou a chegada de 2011 um monte de vezes — como sempre é. O azul marinho do céu, nos quatro cantos, ganhou luzes de todas as cores — e os olhos, de todas as cores, receberam o azul da esperança.

É assim toda vez que o calendário vira: nada muda efetivamente — o amanhecer nos mostra que está tudo no mesmo lugar —, mas dentro de nós há uma voz que fala de otimismo, de renovação, embargada de expectativas. E é no embalo dela que miramos o futuro, ansiando que ele se faça melhor.

Pessoalmente, fecho 2010 com riqueza de bênçãos — ainda que muitos contratempos tenham me assaltado. Não pode ser diferente — e nem é bom que o seja: de outra forma, a gente corre o risco de perder de vista o que realmente importa, ficando à mercê de valores sem qualquer significado.

Para mim, os últimos dois anos têem sido de recomeço e reconstrução e em 2011 esse 'processo' ainda continuará até que, finalmente, meus trilhos se encaixem de novo no exato ponto em que descarrilaram por uma dessas ironias que nem se a gente quiser vai conseguir explicar.

E se há algo a lamentar, é que alguns sonhos se extinguiram — o que pode ser uma pena. Algumas passagens de nossas vidas se servem para nos amadurecer, também têm a faculdade de nos endurecer onde, quem sabe, o melhor seria permanecer flexível. Mas é assim que as coisas são - e, portanto, novos sonhos se fazem...

Como venho me prometendo há bastante tempo, não faço promessas — basta concluir metas antigas (que nem sei se ainda têm real validade) —, e meu pedido principal é sempre o mesmo: que o ano que se abre nos poupe do que eu chamo de 'tragédias sem sentido' — o que, por si só, é algo muito grandioso.

Vou desejar a todos que a nova temporada seja de conquistas — profissionais, amorosas, pessoais. Que o empenho que se despender em direção aos anseios, se transforme em realizações. Que os desejos se façam verdade e que, quando isso se der, seja possível, a cada um, compreender um pouco mais de si mesmo, de suas vontades, e da diferença entre o que se quer por capricho ou ego e o que efetivamente acrescenta algo em nossas vidas.

Vou ousar desejar paz entre os povos — embora saiba que a guerra e o ódio, escancarados e sem dimensões, têm se feito lei em muitas terras. De toda forma, não custa imaginar que, um dia, o manto da união há de baixar sobre todos e um grito de cessar sangue se fará ouvir por todo o universo.

Por fim, ainda que pareça egoísta, vou desejar que haja paz em mim, amor ao meu redor, e vida, muita vida para mim e para os meus.

E para os seus, igualmente.

Feliz Ano Novo!

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