terça-feira, 30 de novembro de 2010

TIRANDO DOCE DE CRIANÇA
>> Clara Braga

Quem nunca ouviu a expressão: "É tão fácil quanto tirar doce de criança"? Pois é, todo mundo já ouviu falar e mesmo sem nunca ter tentado literalmente roubar o doce de uma pobre criancinha indefesa, tem a leve idéia de que deve ser muito, mas muito fácil fazer isso. Eu mesma já tinha não só ouvido, como usado essa expressão várias e várias vezes, mas nunca tinha sido a criança que tem o doce roubado. Acho que só depois de ser a própria criança da história, consegui compreender a metáfora: todos somos crianças quando alguém tira algo de nós e nós ficamos sem ter o que fazer.

Lá estava eu, a princípio meio receosa. Será que eu deveria aceitar o convite de substituir o baterista daquela banda que faria seu show de despedida em um bom festival de música de Brasília? Sim, aceitei. Após o convite aceito, começa o trabalho árduo: ensaios que ou são muito cedo ou acabam muito tarde. Músicas que eu nunca ouvi antes e tenho pouquíssimo tempo para aprender, imprevistos no meio do caminho que fazem com que o tempo que já era pequeno fique ainda menor, estar no meio de pessoas que apesar de trabalharem juntas nem sempre se dão tão bem assim etc. Todos muito esforçados para enfim chegar o dia do festival. A estrutura era linda, o palco grande, o público animado, eu teria um palquinho separado para a minha bateria, ficaria mais alta, ficaria à vista, o som muito bom, direito a iluminação e fumaça no palco, tudo muito diferente do que eu estava acustumada. Não eram aqueles tablados que carinhosamente a gente chama de palco, tinha espaço. Se eu fizesse algum movimento mais brusco não esbarraria no baixista, se todos da banda resolvessem se animar muito e começar a pular, o palco não mexeria e eu não teria que me virar em mil para segurar a bateria que prometeria cair com o movimento do tablado. Era um sonho, era literalmente o meu doce. O sonho de pela primeira vez tocar em uma estrutura completamente diferente da que eu já tinha tocado antes. Fiquei muito feliz em ter aceitado o convite que, por várias vezes, me pareceu ser uma grande furada.

Credenciais de banda entregues, acesso livre a todas as partes, instrumentos no camarim, começamos a contar quantas bandas faltavam para a nossa vez de subir no nosso doce: três. A galera anima, a banda acaba, agora faltam duas, o caminho para nossa nave-mãe estava mais próximo. O coração acelera, a vontade de subir naquele palco, que pela primeira vez iria precisar de escada para a gente subir, só aumentava. A banda acaba, agora falta apenas uma. Aquela banda ensaia subir no palco, mas, antes mesmo que eles consigam terminar de montar seus instrumentos, ninguém mais ninguém menos que São Pedro decide tirar o doce de todas aquelas crianças com sede de palco enviando sem dó um dilúvio digno de Arca de Noé.

"A banda que iria subir agora desistiu de tocar, esperem a chuva passar e vocês são os próximos". Foi o que disse o otimista produtor que fazia com que a gente olhasse para o temporal e achasse que ele era lunático e não otimista. Mais de uma hora de espera, e a única coisa que eu queria era ser uma das escolhidas a subir na Arca. O produtor sobe ao palco e anuncia o que todos já sabiam mas não queriam acreditar: o festival estava cancelado, obrigado pela presença de todos, principalmente aos que estavam bêbados o bastante para acreditarem que não estava chovendo de verdade e continuaram na beira do palco dançando e cantando.

A sensação de que nadei, nadei e morri na praia foi instantânea, procurei alguém para culpar, mas de quem seria a culpa de uma chuva torrencial? E na verdade, de que adiantaria culpar alguém? A única coisa que quero agora é que alguém tenha dó de mim e me devolva meu doce.

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segunda-feira, 29 de novembro de 2010

TERAPIA >> Albir José Inácio da Silva

Tédio. A vida estava um tédio. O que seria normal para a maioria dos humanos, mas não pra ele. Para Miltinho a vida tinha de ter alegria, sempre. Outro se daria por satisfeito: bom emprego, bons parentes, bons amigos. Tudo bom, tudo igual. Tudo igual.

Do jornal não esperava mesmo novidades. Crimes, desastres, política, corrupção. Os mesmos filmes, classificados, programas, garotas de programa. Tudo igual. Mas o que é isso? “RAINHA CATRINA VENHA SER MEU ESCRAVO E VIVA SEUS FETICHES MAIS OCULTOS LIGUE AGORA OBEDEÇA-ME”.

Ela o recebeu de cara feia, mas devia ser parte do jogo.

- O que você gosta?
- Fica por sua conta. Surpreenda-me. - respondeu ele com um risinho.

Tudo certo então. Pagamento adiantado, tire a roupa, espere de joelhos. Sentiu-se meio ridículo, mas ia participar. Sem ousadia não se muda nada.

Ela voltou em rendas e botas pretas. Uma corda amarrou firmemente os tornozelos e, outra, os pulsos atrás das costas de Miltinho. Uma terceira juntou quanto pôde os cotovelos. Não estava confortável, mas conservava ainda o sorriso de “que será que esta danadinha vai fazer?”

Miltinho se espantou com o barulho do lado esquerdo do rosto. Ia protestar mas a mão explodiu do outro lado, dessa vez fechada. Sua expressão era ainda de surpresa. Não queria mais brincar: chega! Pagou e não estava gostando. Podia desamarrá-lo e ficar com o dinheiro. Ia embora, pensou, mas não chegou a falar.

- Quem é sua rainha? Quem é sua senhora? - ela grita, mas não lhe dá tempo - Ah, você não quer falar. Pois agora não vai falar mais.

Uma bola é pressionada contra sua boca e ele trata de abrir para evitar que os lábios se rompam. A corda que passava pela bola é amarrada atrás da cabeça. Agora só emite sons pelo nariz. Uma bota atinge de bico suas costelas e ele cai de lado, no carpete sujo, gasto e cheio de grãos de areia. Novos golpes, enquanto está ganindo em posição fetal. Não consegue respirar e sente gosto de sangue.

Agora ela tem um chicote que trabalha incansavelmente o corpo moído que se mexe como uma minhoca tentando fugir dos golpes. É xingado de coisas que nunca ouviu nem da torcida adversária.

A corda que prende a bola na boca é desamarrada, mas uma venda é colocada nos seus olhos, ao mesmo tempo em que ouve a voz cínica, mas agora suave;

- Por misericórdia sua rainha vai aplacar sua sede.

Um jato quente, ácido e salgado lhe entra pelas narinas e um tapa estala no rosto molhado.

- Abre a boca. Não desperdice uma gota!

Ele engole, engasga, tosse e desperdiça. A senhora, é claro, não perdoa. Ele acha que vai morrer com os chutes, gritos e... uma campainha. Ouve uma campainha.

- Seu tempo acabou.

Salvo pelo relógio. Sua rainha não concederia um único tapa depois do tempo. Ela o desamarrou e apontou o banheiro. Quando saiu foi recebido com um sorriso meigo e um cartão. Catrina se despediu com dois beijinhos, como uma velha amiga.

- Aí tem meu celular. Pode ligar a qualquer hora.

No elevador, Miltinho fica emocionado com a gentileza do ascensorista. Nunca tinha reparado em ascensoristas. Na rua, acompanha as crianças com olhar cheio de ternura. Enche os pulmões com o cheiro das árvores que, por incrível que pareça, sempre estiveram ali. O dia está nublado, mas ele nunca viu tantas cores. Vai redescobrindo cada rosto, cada fachada, cada loja. Suspira.

Quando eu era criança, ouvi várias vezes uma história. Um homem batia na própria canela com um pedaço de pau e depois caía no chão gemendo. Algum tempo depois repetia esse gesto, para espanto de todos. Quando lhe perguntaram por que fazia isso, se não doía, ele respondeu: “dói, dói muito. Mas quando para é tão bom!”

Pois é, leitor, às vezes precisa piorar pra ficar bom. Miltinho, que eu saiba, está bem. Mas é claro que as recaídas são sempre possíveis em terapia. Acho que é por isso que ele conserva aquele cartão.

Você não está entediado, está?

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sábado, 27 de novembro de 2010

BUSCA [Debora Bottcher]

A moça queria prometer que amanhã vai acordar mais feliz e ter um dia mais leve. Que vai sorrir mais e tornar as horas menos densas.

A moça deseja amanhecer sem sentir-se sufocada - como se o sol lhe ardesse a pele tirando-lhe o ar fazendo-a sentir-se como quem vai desaparecer pra sempre, nunca mais respirar...

A moça gostaria de selar um compromisso com a paz, mas a vida anda lhe doendo um pouco e tem sido difícil sobreviver.

Quando, de repente, ela se pega admirando a lua, quase não consegue entender o silêncio de luz que a embala debaixo do manto azul do céu e uma certa quietude interior a abraça; mas ao baixar os olhos ao redor, esse deslumbre se desvanece e uma curiosa escuridão novamente se instala.

A moça sente saudades do que não consegue se lembrar...

Alguém vai dizer a ela que a vida é assim: de altos e baixos, alegrias e dores, amor e indiferença, incompreensões e sentimentos desconexos.

A certa altura, a moça sabe que todos finalmente se rendem a essa idéia e ela acredita que verdadeiramente se seja capaz de compreender os ciclos de ventura e desilusão.

Mas ainda é cedo para ela: a moça ainda não aceita essa rotina escancarada de mesmice, essa angústia, essa indescritível irritação, um curioso medo.

E procura, incansável, pelas frestas, pelas bordas, pelas fendas do tempo aquele raio de esperança que ela acredita existir...

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sexta-feira, 26 de novembro de 2010

O FRANKENSTEIN CARIOCA
>> Leonardo Marona

Ah, e nós
Que queríamos preparar o chão para o amor
Não pudemos nós mesmos ser amigos
(Bertolt Brecht)

Não sou carioca, mas moro no Rio de Janeiro. E no Rio de Janeiro acontece agora um fenômeno. Não. Não tem nada a ver com a violência da guerra contra o tráfico de armas e drogas. Tem mais a ver com um instinto deformado, causado pelo medo e pela ingenuidade. O carioca sente medo da polícia, não é de hoje. Mas ele também sente medo dos traficantes. Respeitam-se, em geral, no Rio, ambas as facções, e ambas, obviamente, como a cobra que come o próprio rabo, estão profundamente envolvidas, portanto o extermínio de um lado resulta na extinção do outro, como Batman e Coringa, como Alain Prost e Ayrton Senna. Mas eu disse que não tinha nada a ver com isso. E realmente não tem.

Apenas que o carioca já não fala mais. Fala-se sobre novelas, confinações voluntárias filmadas pela televisão com garantias de prêmios e um pouco de fama, fala-se sobre futebol, é claro, mas não muito mais. E fala-se sobre a Tropa de Elite, incorpora-se o sentido de violência contida carregada pelos grupos de extermínio, legalizados ou não. E assim o carioca se tornou uma pessoa dura, sem a ginga maliciosa que o tornou um dia famoso mundialmente. E sem isso não há mais brincadeira na rua que não seja "seu fanfarrão", "pede pra sair", "o bicho tá pegando". Acabou a ternura da navalha de bolso, o papo filosófico de botequim. Com medo, as pessoas se tornam embrutecidas; embrutecidas, as pessoas tornam-se violentas; violentas, as pessoas tornam-se sedentas por mais violência. E, para o carioca, o papo descontraído de rua é o sentido da vida. Aceitar o pé-rapado e alimentar uma boca contraventora são atitudes típicas dos que vivem aqui. O carioca sabe rir da bagunça e sua ternura vem muito dessa risada. Mas ensinaram aos cariocas o "quem-com-ferro-fere" e ele perdeu as feições, tornou-se pálido, a exigir justiça, e agora fala em morte, em "bem e mal", e o carioca foi se apaulistando, ou seja, perdendo a cor, tornando-se da cor das coisas sem cor, como prédios e vigas de aço, ele foi ficando duro e indignadamente desumano. A convivência absurda entre pessoas e objetos no limite de sua tolerância é mais que uma situação degradante, inaceitável, é antes de tudo natural, o carioca, ao lado da justiça, se deprime, se cala. A ordem nunca foi uma base moral aqui. Temos a nobre mania (e já me incluo) de alimentar silenciosamente pequenos monstros. Estes monstros ganham tamanho, se tornam aberrações. E você não pode simplesmente se aproximar de um alienígena e dizer: “muito prazer, alienígena, quero cuidar de você”. Porque eles são feitos da mistura de novos elementos. Eles são a permanência da antiguidade dos povos. Os saqueadores, os flautistas com dardos venenosos, todos eles fazem a árvore genealógica de uma sub-raça oprimida.

Eu ando muito pelo centro da cidade. Sempre levo comigo um livro qualquer. Sento em qualquer banco de praça, abro o livro, fico ali vendo as pessoas passarem, as mulheres bonitas com suas roupas justas de escritório, os gordos com suas mil gravatas, olho para a cor dos lábios de cada senhora, imagino a cor do seu mamilo, e pelo tamanho dos narizes imagino os tamanhos dos clitóris, mas algo super inocente, discreto. E, ao contrário do que se pode pensar, a abrir o livro eu espero que me interrompam a leitura. Ao abrir o livro estou usando uma antena de atração humana. Abrir um livro, para um doente da atual esquizofrenia carioca por uma justiça forjada no topo de um iceberg, significa se proteger de algo que desejamos. E é assim que o carioca vive hoje. Ele se protege daquilo que deseja, que é a balbúrdia e os carros parados nas ruas, que é o churrasco de calçada e o samba alto, que é o cumprimentar estranhos como amigos íntimos e a relação íntima entre paz e morte. Mas eles não se aproximam de mim, os cariocas. No fundo eles sabem o que eu quero e isso é um ultraje, porque eles querem também e precisam se proteger disso. Precisamos catequizar os cariocas, dizem as corporações. E os bares cariocas são bares de paulistas que copiam bares cariocas. E vejo que as pessoas passam reto pelos artistas de calçadas, pelos velhos crusoés de enormes barbas, pelos drogados e prostituídos, por homens sem pernas e sem braços e sem comida e até por pedaços humanos dobrados por um parto difícil e uma frágil assistência médica. E nada impressiona, o governador cai no choro ao vivo na televisão e nada impressiona, nada traz à tona nenhum chavão popular, nenhum comentário besta, nada acontece. Pedra. Passamos em pedra. O governo negocia uma chacina iniciada pela implementação de um programa inviável de combate ao tráfico, inviável porque não é possível mantê-lo, tudo porque o grande tráfico inatingível não pode parar de rodar, e nem os jornais e programas de televisão, um outro típico de tráfico, este já mais enraizado. E vemos balas e mortos, mas não vemos os campos de concentração onde vivem essas pessoas. Não gostamos do gosto do chantili que fica sobre o bolo, mas o bolo é de merda, e com ele nos lambuzamos.

O carioca não pode, ele não deve se tornar um justiceiro. Não devemos levar uma vida baseada em filme de bang-bang, nos deixar alimentar por um chumbo grosso estrategicamente posicionado diante das câmeras de TV. Mas nem todos nasceram para o altruísmo, e todos são bons e maus ao mesmo tempo, o traficante ou São Francisco de Assis. O carioca deve ser como o velho crooner de boate, um dia um cantor de talento, de grande futuro, hoje um velho que ainda acredita no talento, mas já não pode alcançá-lo, mas acima de tudo ele acredita, o carioca velho crooner de boate, e ignora os maniqueísmos. Não importa a ele cantar num puteiro ou no Royal Albert Hall de Londres, ele quer se apresentar da maneira que for. Deixem a justiça para os altruístas, que assim são porque têm pouco a oferecer. O Rio de Janeiro, mesmo sem nada, depenado por uma corrupção mesozóica, por facções ilegais e legais, nasceu para a abundância e o esplendor, e só reconhece isso. Não queiram, portanto, empresas midiáticas, empurrar essa justiça cinematográfica e romana para cima desse povo sem cabeça. O Rio de Janeiro foi feito como um Cristo, para que viessem a ele os renegados e os puros, os de boa conduta moral e os cínicos, mocinhos e bandidos num intrincado e constante affair.

Agora eles querem que o Rio faça a sua escolha. De um lado da cidade, massas oprimidas se espremem às centenas de milhares sobre um milhão de metros quadrados de idade média. Mas devemos optar. Pela suplantação de uma corrupção por outra, de uma violência por outra. No dia em que tirarem de uma vez a alegria resignada do povo carioca, no dia em que o transformarem num justiceiro frio, num paulista progressista cheio de dignidade, neste dia estará talvez se erguendo, da união dos partidos políticos (maiores consumidores da pretensa ilegalidade) e das facções criminosas de Rio e São Paulo, uma grande megalópole de frieza, eficiência, força bruta e paz. Como eu aprendi ainda no colégio.


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quinta-feira, 25 de novembro de 2010

VOU ESTAR DESABAFANDO >> Fernanda Pinho




Você passa o dia todo remoendo a questão e, finalmente, decide que, sim, vai convidá-lo para sair. Acha que ficará um pouco nervosa ao telefone, então opta por fazê-lo por mensagem (ou torpedo, como costumam dizer fora de Minas). Escreve, acha que ficou muito melosa. Reescreve, acha que não foi convincente. Escreve de novo e, agora sim, está direta, fofa e irresistível. Selecionar. Enviar. Trinta segundos depois, o toque do celular e a confirmação: 1 Mensagem Recebida. Coração acelerado, mãos suando frio. Você até se olha no espelho para conferir se o visual está ok para o grande momento de ler a respostas. Selecionar. Abrir. “Torpedão Campeão. Adquira seu pacote e concorra a prêmios em dinheiro durante toda a Copa do Mundo”. Misto de decepção com confusão mental. Você tenta entender por que cargas d’água a sua operadora ainda acha que estamos na época da Copa do Mundo. Por que raios a sua operadora envia mensagens em plena sexta-feira à noite? Por que diabos a sua operadora acha que enviar mensagens é uma maneira eficiente de fidelizar o cliente? E então você pensa em mudar de operadora pela milionésima vez na semana, mas se lembra de que todas são iguais. Só mudam o texto da mensagem.

Sério. Embora eu seja da área de comunicação, de marketing eu não entendo nada. Mas de bom senso eu entendo alguma coisa. Sei que as pessoas adoram receber mensagens, que as pessoas ficam emocionadas quando ouvem o toque de mensagem do celular, que as pessoas esperam receber mensagens. Mas de outras pessoas! Não da operadora. Mensagens da operadora só servem pra frustrar, desapontar, decepcionar e, por isso, deveriam ser banidas da face da Terra. Se uma operadora me oferecer um plano isento de mensagens, mudo para ela correndo, preciso nem saber do resto. Mas quem sou eu para fazer as operadoras entenderem que esse tipo de ação mais espanta que atrai.

Sabe outro negócio dessa mesma linhagem de comportamento que me espanta? “Fique à vontade”. Eu sou uma pessoa à vontade no mundo, na vida. Até uma vendedora se aproximar de mim e sugerir que eu fique à vontade. Não há nada que me deixe mais incomodada e, normalmente, me faz sair correndo da loja. Só fico, se eu realmente estou precisando de alguma coisa dali. Sinceramente, eu acho que o “fique à vontade” chega a ser grosseiro. Porque não é segredo para ninguém. Eu sei. Vocês sabem. Todo mundo sabe que, ao verbalizarem a sentença “fique à vontade”, as vendedoras podem estar mentalizando outras sentenças, tais como: “Não ouse encostar em nada”. “Se você experimentar e não levar irei te praguejar até sua quarta geração”. “Você tem cara de pobre. Tá na cara que não tem dinheiro para levar nada daqui. Aposto que vai parcelar no cartão”. Elas querem dizer tudo. Menos “fique à vontade”. Porque se, realmente, fosse para você ficar à vontade, não haveria alguém ali para te sugestionar. Você entraria na loja e escolheria o que estivesse a fim, sem ninguém te observando. Lojas de departamento, enfim. Mas eu não culpo as vendedoras. São trabalhadoras e estão, apenas, cumprindo essa regrinha de etiqueta comercial esdrúxula que alguém inventou e acha que é legal (mas não é).

Como também não culpo as tão temidas vendedoras de telemarketing. Elas não fazem por mal. Elas precisam trabalhar e alguém deve ter dito a elas que estar falando daquele jeito é mais eficiente. E, convenhamos, deve ser mesmo. Se ninguém comprasse nada oferecido por essas pobres telefonistas, essa profissão não existira! Se existe é porque tem alguém comprando! Só queria saber onde estão escondidos esses malditos compradores que alimentam essa atividade. Devem ser as mesmas pessoas que compram livros do Paulo Coelho. Existem aos milhões, mas ninguém assume.
Ok. Eu sou proprietária de um exemplar do livro Veronika Decide Morrer. Mas nunca comprei nada oferecido por vendedora de telemarketing, embora tenha uma certa dó de dispensá-las de cara. Normalmente, engato um papo mas, pensando bem, talvez fosse menos cruel dispensá-las logo de cara. Tipo uma que me ligou em pleno sábado à tarde, enquanto eu, sentada num bar, desfrutava de uma saborosa cerveja. A moça queria apenas me convencer a adquirir o cartão de crédito que havia sido liberado especialmente para mim e eu, analisando friamente, acho que acabei com a vida dela. De início, eu só disse que não tinha interesse, mas diante de sua insistência ferrenha, tive que partir para a argumentação: “Veja bem, eu sei que você não tem nada com isso, mas já que foi você quem me ligou é para você que eu vou dar o meu recado. Não é legal ligar para as pessoas num sábado à tarde, de muito sol e calor, para falar de banco, de cartão. Por favor, já que tem que fazer isso, faça em horário comercial. Eu não gosto de falar sobre esse tipo de coisa quando eu estou sentada num bar, tomando cerveja. É...estou sentada num bar, tomando cerveja e você está trabalhando, né? Que chato...É...desculpa”. Mal ouvi o murmúrio que ela usou para se despedir e desligar. Espero que esteja bem e que consiga um emprego mais legal.

E espero que as empresas, as marcas e seus marqueteiros criem métodos mais elaborados para me atrair. Eu gosto de ser seduzida (pelo capitalismo, que seja). Mas sou difícil.



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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

12:09 - - 12:43 >> Carla Dias

12:09

Hoje está difícil começar a escrever a crônica. Não por eu estar atrapalhada com os afazeres cotidianos, ou por ter conseguido levar meu notebook à morte com um copo de café com leite derramado... Leite derramado, meu caro Chico Buarque, não apenas ganha prêmios, mas também pode matar computadores. Pior se for leite com café e adoçante.

12:13

Está difícil escrever porque me falta assunto que já não seja o esmiuçado antes de hoje. Ao olhar a minha volta, e atentar aos meus pensamentos, acabo caindo nas mesmas questões, enveredando pelo subúrbio dos mesmos preceitos. Escorrego, assim, a alma numa desmedida sensação de impotência, porque não posso colher os sorrisos que povoam minhas lembranças, trazendo-os para o agora. Não há como interceder em prol do fim das guerras, como já desejei tantos mil e tantas vezes, nessa minha vida. De original, inédito... A hora no dia de hoje e neste agora:

12:15

Meu estômago reclama da nova dieta, a cabeça dói um pouco, mas daqui a pouco passa. O dia está quente, sinto falta do frio e também de alguns amigos que não vejo há tempos. E de repente me deu uma saudade danada de colocar os pés na água do mar. Eu não sou de ficar me quarando no sol, não sei nadar, mas sei colocar os pés na água do mar, permitir que a cabeça vá às nuvens.

12:19

Na outra sala, o telejornal desfia todas as tragédias urbanas/humanas, o cinismo político, a indelicadeza da violência. Tento me desvencilhar do incômodo oriundo de telejornais colocando uma música pra tocar...

12:22

Save your sermons for someone that's afraid to love.
You knew what I feel, then you couldn't be so sure.
I'll be right here lying in the hands of God.
If you feel angels in your hand, tear drops of joy runs down your face, you will rise.

12:23

Das músicas também despencam verdades travestidas de delírio.

Pausa ||

12:31

Noite passada eu fiquei quase o tempo todo muito bem acordada. Havia esse homem, um senhor pra lá de bêbado, desfilando seu monólogo debaixo da minha janela. Não é a primeira vez que ele brada por lá, mas desta vez havia audiência. A apresentação dele foi um sucesso, porque mesmo ouvindo música no Ipod, volume no talo, eu conseguia escutá-lo repetindo: um homem tem de saber amar uma mulher... A mulher tem de servi-lo!

12:34

E os espectadores gargalhavam na madrugada, dando corda para que o homem enforcasse seu pensamento pobre na intensidade das latinhas de cerveja que deve colecionar.

Eu dormi pouco... será que por isso a inabilidade gritante de escrever esta crônica?

12:36

É estranho quando falta fluência aos nossos sentidos, quando se perde o jeito de fazer com que cada emoção seja escancarada através de uma palavra, na cadência de uma frase. Eu sinto ter de deixá-los na mão hoje, mas como já disse, estou com a tecla ‘repete’ ligada. Falta-me a delicadeza, ao menos neste momento, para construir o inédito, através da recriação do já inventado.

Falta-me o talento para contar uma história desinventada.

12:43



carladias.com

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terça-feira, 23 de novembro de 2010

PRATICANDO A ARTE DO DESAPEGO
>> Clara Braga

Se tem algo que eu estou acostumada a fazer, é escrever. Não digo só crônicas, mas e-mails, trabalhos de faculdade, lembretes etc. Cada texto que eu escrevo, trato como uma obra de arte, afinal escrever é, sim, uma arte. E eu concordo com a filosofia de que meu texto só existe a partir do momento que alguém lê. Ninguém tira de si algo e coloca em um papel se não for para alguém ler, nem que seja eu mesma lendo os lembretes na minha agenda, mas para eles existirem alguém precisa ler.

Exatamente por pensar assim, sempre escolhi muito bem as palavras e assuntos sobre os quais iria escrever, nunca tive necessidade de usar um vocabulário rebuscado ou escrever de forma parnasiana nem nada do tipo, pelo contrário, busco sempre a simplicidade, porque no final das contas o que eu quero mesmo é ser entendida. Quero compartilhar minhas experiências e mostrar a minha forma de ver o mundo. E quanto mais pessoal o texto, mais clara eu procuro ser. Por isso meus textos são cheios de "não me entendam mal", "não achem que com isso eu quero dizer...", "não estou aqui criticando...", tudo isso vem dessa minha preocupação em ser entendida.

Porém, recentemente, entendi algo que foi muito importante pra mim nessa minha relação com meus textos. Em uma aula da faculdade de artes plásticas, um colega meu disse à professora que não entendia o porquê, mas sempre que acabava uma obra ele não conseguia mais olhar para sua obra da mesma forma, nem tinha os mesmos sentimentos em relação a ela, e então a professora respondeu que isso acontecia porque a partir do momento que a obra está pronta ela não é mais sua.

É exatamente isso que acontece, não importa o quanto eu escolha as palavras que vou usar ou a forma como vou tratar de um assunto, cada pessoa vai entender meu texto diferente, vai entender a partir da sua própria vivência e experiência, e é isso que faz com que elas gostem ou não dos meus textos. Cada uma vai ler, interpretar e criar um novo texto, que é o texto que ela entendeu.

Foi só eu entender isso e já consegui me desapegar mais das coisas que escrevo. Não achem que vou parar de escrever de forma simples ou até mesmo parar com essa minhas mania de explicar as coisas, me desapegar significa apenas que agora eu quero mais é que vocês usem e abusem dos meus textos.

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domingo, 21 de novembro de 2010

KAROL >> Eduardo Loureiro Jr.

Quando minha primeira irmã nasceu, eu não vi a beleza dela. Eu estava muito preocupado com o que  aconteceria comigo, com aquilo que eu perderia. Com apenas um ano e nove meses de idade, eu pensei ter aprendido a lição mais dura: nem tudo era para mim. O que antes era só meu agora era de outra pessoa, e eu tive que fazer alguma coisa para não perder tudo.

Decidi, na minha mais antiga infância, dividir território com minha irmã. Ela ficaria com meu pai; eu, com minha mãe. Ela com a espontaneidade, eu com a disciplina. Ela e seu bom humor, eu e minha seriedade. Dela, a fala; meu, o silêncio.

Quando estamos reunidos em família e alguém começa a evocar lembranças da infância, Karol — como muitos a chamam — refere-se sempre sorridente a um tempo em que eu a chamava para lutar boxe. É uma lembrança só dela, não minha, mas faz todo sentido. Logo que aquele ameaçador bebê já havia se transformado numa criança quase do meu tamanho, era natural que eu quisesse resolver nossa situação no muque, no braço. Mas o que para mim era um duelo, para minha irmã era uma brincadeira. E é impossível vencer alguém que não está competindo.

Reforcei, então, a divisão de território. À minha irmã pertenceria a simpatia; a mim, a inveja. Minha irmã ficaria com os presentes, eu, com as sobras. Para ela, o sucesso; para mim, os projetos. Ela teria amigos; eu, livros. Ela passearia, eu estudaria. Ela viajaria, eu dormiria. Ela teria namoros precoces, eu desenvolveria amores platônicos.

Quando a espiritualidade, depois a música, me tornaram mais sociável, eu ornamentei o estranho mundo das interações humanas com as imagens que tinha de minha irmã — e de minha mãe. Quase todas as mulheres que conheci — e não falo apenas das que namorei, mas de quase todas com quem convivi — eram para mim uma nova versão de minha irmã ou de minha mãe.

Uma amiga, há alguns anos, disse que eu era misógino, que eu tinha aversão e desprezo pelas mulheres. Mas como, se eu as idolatrava, se buscava encontrar em cada uma delas a minha primeira mãe, a mãe que eu tinha antes da chegada de minha irmã, a mãe só minha? Uma de minhas terapeutas também me disse, certa vez, que devia haver em mim um ódio de minha mãe. A frase soou como "deve haver, no Sol, um rio" — impossível de provar que sim ou que não. Hoje percebo que minha amiga e minha terapeuta tinham — têm — razão. Há em mim a raiva de minha mãe ter arranjado outra pessoa para tomar meu lugar. Um crime agravado pelo fato de minha irmã provavelmente ter sido concebida na época de meu primeiro aniversário. Ou seja, enquanto eu brincava ingenuamente com meus presentes de 1 ano, era tramada a minha deposição. Sim, há motivo para raiva nisso.

Que tortura ter vivido, por 40 anos, num mundo em que as mulheres ou eram concorrentes ou eram traidoras, em que aparecia sempre uma mulher (a irmã) para me roubar outra (a mãe)! Tortura que prolonguei  — ao modo de vingança— arranjando sempre uma nova paixão para me livrar da antiga namorada. Quantos anos repetindo o mesmo jogo em que eu sempre perdia e fazia todos perderem junto comigo, convidando as pessoas para infindáveis lutas de boxe!

Voltando um pouco, para seguir adiante... Quando minha segunda irmã nasceu, para mim não havia criança mais bela no mundo. Biba foi uma trégua após uma longa luta. Após eu ter sido nocauteado pelo meu próprio nascimento — a fórceps — o árbitro precisou contar até dez — dez anos — e, no décimo primeiro, veio a paz de mais um nascimento.

Em minha segunda irmã, não consegui pregar a estampa de minha primeira irmã e de minha mãe. Biba era uma mulher nova, um raro feminino no meu bolo de figurinhas repetidas. Eu via minha irmã mais nova como nunca havia visto minha irmã mais velha (e todas as outras mulheres supostamente usurpadoras) ou minha mãe (e todas as outras mulheres presumidamente traiçoeiras). Biba era uma exceção, um descanso em meu mundo de conflitos que continuaria ainda por muitos e muitos anos...

Até ontem.

Esta semana uma criança, uma moça, uma mulher recusou a estampa que eu quis lhe pregar. Recusou sem saber do que se tratava, mas recusou mesmo assim. Recusou não porque recusasse alguma coisa, mas porque simplesmente quisesse ser ela mesma e não outra pessoa. E eu fiquei com a figurinha já lambida na mão, sem ter álbum em que a pregar.

Então ontem, feito fosse um pesadelo, as figurinhas todas que afixei nesses 40 anos começaram a se descolar, e eu chorei feito menino que perde o brinquedo. Entre as figuras despregadas, havia uma, a mais antiga, que me chamou a atenção. No álbum, de onde a figurinha se despegara, vi uma criança tão linda que logo pensei ser Biba, minha segunda irmã. Mas não. Era Karol.

Eu agora vejo a sua beleza. E vejo também o território dividido, com arames farpados apenas do meu lado. Vejo que ela sempre teve tudo: pai e mãe, espontaneidade e disciplina, bom humor e seriedade, amigos e conhecimento, viagem e descanso, amores e amor. E vejo, no reflexo de seus generosos olhos, que eu também tenho tudo. Vejo que, com minha primeira irmã, não perdi o que tinha, mas ganhei o que faltava: alguém disposto a brincar mesmo quando eu queria brigar; alguém agradecido por cada pequeno presente recebido, alguém capaz de apostar suas fichas em um duplo seis nos dados e, ao ganhar, sorrir e dizer: "Deus é bom para mim".

Vejo claramente, embora com os olhos embaçados de lágrimas, que a beleza fria da figura não se compara à real beleza da pessoa. E tenho vontade de ver, por trás de todas as demais figurinhas descoladas, a beleza das pessoas com que tive — e tenho — o privilégio de conviver.

Seja bem-vinda, Maninha. Seja bem-vinda a esse meu mundo novo, em que você — agorinha mesmo — acabou de nascer.

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sexta-feira, 19 de novembro de 2010

PINTO EDUCADO É AQUELE QUE LEVANTA PRA VOCÊ SENTAR >> Leonardo Marona

Nas horas difíceis da vida você deve estufar o peito, levantar a cabeça, e dizer de boca cheia: Agora fudeu!

Tinha decorado algumas frases de boléia de caminhão. Meu trabalho era estimulante, isso nos dias em que o computador quebrava e eu podia ficar lendo no escuro da sala de máquinas ou brincando com um gato preto prognata, que na verdade era uma fêmea chamada por mim de Dulce, homenagem a Dulcinéia, não a do Cervantes, mas minha buldogue com paralisia nas patas de trás. Minha pauta do dia: um perfil da Julia Roberts, só para você descobrir que ela deu pra todo mundo em Hollywood: de Kiefer Sutherland a Liam Neeson, passando por Daniel Day-Lewis e parando nos gêmeos que teve com um câmera. E a seguir, não perca no telecine pipoca, Doze é Demais, com Steve Martin, Bonnie Hunt e Hilary Duff! Que tal?

Decidi que precisava de qualquer coisa que se pudesse desfrutar calmamente sem pingar nem enlouquecer ou assar a virilha. Decidi ir ao novo cinema, Art Plex – dizem que o nome tem a ver com o fato de o cinema apresentar filmes de arte e filmes comercias –, em suma, um cinema com o aspecto de cinema de arte, mas com o público do New York City Center.

O filme foi um choque. Filme do Manoel de Oliveira, português de 96 anos. O filme é de vanguarda, feito por um sujeito de 96 anos. Todos os cineastas iniciantes que acham que têm que dar entrevistas por aí falando dos seus métodos e de como foi difícil gravar esta ou aquela cena sob o método de Grotovski, à luz de Brecht, embasamento de Tarkovski, e mais não sei quantos óvskis, deveriam ver esse filme. Sentiriam vergonha de falar depois. O ritmo que Manoel de Oliveira imprimi é o ritmo da velhice. Mas não daquele tipo de velhice que morde a própria bochecha e te dá uma sunga colorida de natal. Uma velhice interessante, sábia, sem saída, mas mesmo assim inquieta. O filme é sobre a história da humanidade, suas conquistas, impérios, ruínas, líderes e línguas. A base estrutural são as línguas, conciliadoras dos povos. Numa mesa conversam: Irene Papas em grego, Stefania Sandrelli em italiano, Catherine Deneuve em francês, John Malkovich em inglês, todos em plena harmonia, a ponto de Malkovich propor uma brincadeira que consiste em cada um falar um pouco sobre si. Diplomacia. Tudo ressoa num otimismo genuíno. O final é de fazer inveja em garoto de vinte e poucos anos que se diz ousado.

À saída, casa seria boa entrada. Dormir para sempre ou tentar terminar os textos dos Campos sobre Maiakovski. Mas depois de ter lido o próprio Maiakovski você não quer saber de nenhum campo sobre ele. O camarada é a própria enxada que voa sobre os campos arrancando nacos de fatos estimulantes. Penso numa poesia e corro ao banheiro para anotar num maldito caderninho que minha terapeuta me mandou comprar para que eu anotasse qualquer coisa que estivesse pensando e sentisse vontade de anotar nele: “Eu cavo / Tu cavas / Ele cava / Nós cavamos / Vós cavais / Eles cavam / Não é bonito / Mas é profundo / Por maior que seja o buraco em que você se encontra / Pense que por enquanto ainda não há terra em cima nem no fundo”.

No caminho até a casa, um amigo me liga. Me chama p’rum bar metido a chique que me custa as bolas dos olhos e do saco. Vou, mas antes paro num bar pé-rapado onde cadelinhas de boate com cachecóis e longas botas de couro se fazem de escória junto ao resto do povo. Uns velhos com rosas murchas na mão, barba amarela, gritando barbaridades. Uma mulher canta Lupicínio com os olhos cheios de saudade. Velha, encardida, ludibriada pelo tempo. Ou melhor, por uma trégua que ela esperava e ele nunca deu. Sigo até o balcão e peço uma dose de conhaque. O frio é suficiente, o balconista me enche um copo de plástico, e não vou dizer a vocês que o primeiro gole tenha sido fantástico. Nem o último. Encontro com uns amigos, se chamam “artistas plásticos”. Mas parecem feitos de plástico, todos com seus casaquinhos uniformes de náilon apertados com duas listras, todos falando alto sem olhar pros lados. Um grita: “sabe aquela novela... aquele viado? Ele usa uma camisa que eu fiz”. Eu penso que às vezes devíamos pegar o dinheiro e ficar calados. O outro acabou de chegar do ateliê, mesmo que mais pareça que chegou de uma casa de reabilitação para viciados. Metido num gorro, cigarro no bico, faz sucesso com as meninas que descem do morro atrás de conflito. Dou um alô, falo quase nada, sorrio, sento a pua e me mando dali. O conhaque não vai bem, obrigado...

Sigo o Lavradio, chuva pra caralho, que belo desafio, se manter em pé e acordado. Antes paro num outro bar. Preciso cagar. Olho pra dona do bar com cara de quem seria capaz de matar por quase nada. Ela apenas resmunga, não fala. Peço a ela a chave do banheiro. Primeiro ela me mata com os olhos, depois me aponta uma placa: “Banheiros para uso exclusivo dos clientes. Não insista!”. Peço uma cerveja, quente. O banheiro fica no andar de cima. O andar de cima é amplo, escuro, tem um espelho no fim da parede em formato de retângulo, um espelho engordurado que não mostra mais como vai ser o teu futuro e te dá várias opções de passado. Um lugar assombrado por velhos malandros do Catete. A privada é um desastre. Vou na cabine das mulheres. Não há como sentar na privada. É isso e ir pra casa. Subo em cima dela e mando ver de cima. Minha testa começa a gotejar, o copo de plástico com conhaque barato bem na frente da latrina. A testa pinga do inferno para o copo. Eu termino. A descarga não funciona. Alguém ali vai ter trabalho.

No andar de baixo, pago minha cerveja e vou parar na frente de um sobrado reconstruído, em volta de muitos outros detonados. Há um cartaz ali. Exposição de arte, salsa, gafieira. Aquilo parece um filme, nada a ver com a vida. Quem expõe sua arte é uma bicha careca vinda de Diamantina, que resolveu fazer uns estandartes com uns santos e uns trapos, com feijão, chapinhas, macarrão, guardanapos, latas de cerveja. E quando você souber que cada trapo daqueles é a nova arte e custa 2 mil pratas, finja nenhuma surpresa.

Bom, não há o que fazer senão entrar ou morrer. Decido fazer os dois sucessivamente, entrando. Meus amigos esperam no terceiro andar. A faixa etária é de sessenta anos. Nada mal. A melhor notícia até aqui. Mas, engraçado, estão ali muitos homens velhos sentados com os bicos grudados nos seus uísques com água Perrier. E tem alguma coisa estranha nos seus rostos, nos seus olhos frenéticos. Parecem mortos que ainda insistem em ter convulsões. Olham pros lados, suam, se uma mulher olha para eles, fingem que estão tranqüilos, olham pro outro lado... A noite toda aquilo. Eles me dão coceira. As velhas, mulheres dos velhos, entretanto, todas muito animadas no primeiro andar. Dançam, procuram ou imaginam jovens latinos com mangas de camisa puxadas até os ombros. As caras das velhas todas muito esticadas, estranhas... Sim, parecem velhas... Claro... Você olha para cada uma delas e diz, “aí está uma velha de uns sessenta e lá vai fumaça”. Mas por cima dos sessenta existe uma camada recolocada de vinte. E isso deve afetar o cérebro das velhas, que passam a se mexer como se tivessem vinte. Nenhum problema quanto a isso, logicamente. São felizes!, você pode me dizer. Só estranho porque, depois de olhar para elas uma segunda vez, você já não sabe mais de que planeta vêm. Porque elas parecem seres eternos, musas múmias da noite e do bisturi. São idades sem referência. Não se pode achar beleza ali, pois do jeito que estão parecem mais antigas que a própria beleza. São a própria realeza enclausurada pela transitoriedade. Parecem pessoas que bebem à tarde bebidas coloridas com rum, gim e tomate.

Me vejo na frente de um elevador de grade. Muitos auto-retratos de reis magros com expressões almofadadas nos rostos pálidos de traços pútridos. Bordas de ouro por todos os lados. Mármores, tapetes persa, na Inglaterra chamariam o lugar de cluttered, o que significa cheio demais de coisas de menos.

Não há o que fazer senão dançar. Fico portanto com nada a fazer. Entro no elevador de grade. Aperto o terceiro andar. Fecho a grade. As pessoas continuam passando por ali, mas poucos se olham nos olhos. Os olhos falam demais. Entregam o jogo. E o jogo é a única coisa que existe ali. Eu dentro do elevador de grade. O elevador sobe só até a metade. Estou dividido ao meio. De repente vejo dois companheiros de birita passando ali por baixo. “Ei! Sacanas! Me tirem daqui!!!”, grito acocorado. Eles riem e vão procurar uma maneira. Voltam com mais risos e um deles me traz uma esteira. Uma esteira de palha. “Deita aí que isso vai demorar”, ele diz e me alcança a esteira. Eu tento cuspir em cima dele, mas fica tudo pelo queixo. Eu rio, ele também. Mas eu não devia estar ali. Por isso estava. Lembro da história do buraco e da terra em cima. Aquilo é a terra em cima. Eu preso no elevador das madames. Eu como um pássaro da terra preso numa gaiola. E tenho a impressão de que mais gente está rindo. Mas sempre tenho essa impressão quando caio em alguma ratoeira.

Finalmente, um brutamontes de gravata borboleta chega ali com uma espécie de picareta, mangas dobradas, e me arranca dali. Ele também ri. Eu devo ter uma piada desenhada na testa. Vou ao banheiro. Estou suando. O banheiro me faz lembrar de que a entrada era cara. Olho no espelho. Malditas entradas! Passo a mão no cabelo, a cabeça raspada. Não há mais nada para se disfarçar.

Lá no terceiro andar conheço três novas meninas. Todas muito parecidas com as velhas de lá de baixo. Mas só que novas. Mas só que as novas não riem. Não sabem rir. Estão entediadas. Só falam entre si de si. Me viro pr’um camarada e escoro a boca com a palma da mão. “E essas aqui... O que fazemos com elas?”. Ele me dá de ombros e enche dois copos. Cerveja Heineken num balde de metal com gelo dentro. Esqueço do preço e me concentro na velha conhecida. Loira, gelada, olhos verdes, alemã, um pouco amarga. Exatamente o meu tipo. Pena que só se beba aquilo e não se possa comer nem tirar para dançar. Aliás, foi no salão de dança que a festa tomou um rumo interessante.

Tocava salsa. Havia uma senhora com uma mama de fora, dançando descabelada, uma das ricas que bebem à tarde sozinhas em casa. Ela segura nas mãos duas maracas. Pé na frente, pé atrás. A banda tinha um belo naipe de metais. Trompete, sax barítono, sax alto, soprano, tenor; fora um cubano alucinado na percussão, um guatemalteco tocando tambor, uma linda menina de costas pro céu tocando um jam block e um cow bell. O velho do trompete era o mais velho da banda. O manda-chuva. Quem dava os tons e mandava os solos entrarem. Uma hora era a vez do solo dele. Vi bem, eu estava bem na frente. Ele olhou pro sax alto, um garoto, e eu li nos seus lábios: “Entra você... Estou cansado”. E ficou por isso mesmo. Eu sabia que ele era cheio dos truques. Típica raposa velha manhosa dos pequenos palcos. Do nada entrou soprando sua corneta. Não pediu perdão nem licença. Atropelou a harmonia com seu sopro cheio de álcool quente. O primeiro velho de que gostei na noite. O segundo seria Andréia.

Há uma porção de velhas serpenteando no salão e se fazendo de bêbadas devassas quando estão apenas bêbadas. Passo andando no contorno do palco e esbarro em cheio numa senhora de cabelos cheios e grisalhos, óculos de lente, camisa de botão por baixo do suéter rosa de lã, muitos dentes, mais do que o normal, ou vai ver só estava contente, o que de qualquer forma é mais do que o normal. Não dá tempo para nada além de “perdão”, “não foi nada”, e sigo andando sem perdão. Mão me segura pelo braço. Braço me puxa para junto de tronco. Bons peitos. Um pouco flácidos, mas honestos. Olho pro lado e lá estão todos aqueles dentes sem espaço salivando na minha cara.

- Sim? – eu rio.

- Não – ela ri. E vira a cara.

Eu rio novamente e me viro para sair. De novo a mão no braço.

- Me dá um chiclete? – ela diz.

- Como sabe que tenho um?

- Senti o cheiro da tua boca...

- Sei...

Dou o chiclete a ela. Ela vai embora. Só queria o chiclete, penso. Ela volta e fica do meu lado. Nunca pense, penso. Ela começa a me esbarrar com as ancas. Vejo que tem muita carne ali. A salsa se entrega à rumba. Ela se vira para mim: “Acho que me perdi...”. Eu me viro para ela: “Tudo bem... Aconteceu comigo também... Há 14 anos...”. Ela está muito perto agora e desconfio que seria capaz de rir de qualquer coisa. Gosto de pessoas assim. Por dez minutos. Ainda tinha então mais uns sete minutos de Andréia. Ficamos falando da salsa, acho que arriscamos uns passos. Mas, quando o cachecol de Andréia se afundou no copo de uísque de um senhor que já dançava com as calças semi-desabotoadas, tivemos que parar. Ou melhor, eu parei. Ela continuou me dando a mão e me fazendo girar. Depois me fez um questionário interessante: Você bebe? Você é gay? Você é rico? É filho ou parente de alguém importante? Prefere sol ou montanha? Signo. Partido político, ainda tem algum? Mulher bonita. Homem bonito. Frase.

- Olha, o Reynaldo Gianecchini não veio hoje... Mas tudo bem: sim; não; talvez; não existe mais ninguém; nenhuma das anteriores; o mesmo de Mozart e James Joyce, mas e daí?; ainda existe algum?; algo que está sempre indo embora; algo que deve ser o motivo de algo estar sempre indo embora; “Merde!”, do André Derain.

Ela ri de mim. Isso é aquilo que você pensa que é um bom sinal. De fato é um sinal, mas quase nunca é bom. Descobrimos algumas afinidades. Ambos tinham morado em Camden Town, mas em décadas diferentes. Ambos tinham lavado pratos, preparado sobremesas com maçaricos e feito vista grossa para o tráfico de cocaína na cozinha do mesmo restaurante jamaicano. Ambos bebiam cerveja em jarra todas as terças numa boate de música latina chamada Guacamole Club, onde em dias de sorte podia-se ouvir mpb. Mas como poucos eram os dias de sorte, acabávamos quase sempre ouvindo lambada e pagode. Ambos tiveram sarna. Ambos não sabiam dançar em hipótese nenhuma. Ambos não estavam bêbados ali, mas se mostravam altos: daí a primeira divergência: ela tinha uma fita enrolada no pulso que significava que ela poderia terminar desmaiada no banheiro de tanto beber. Eu não tinha nenhum dinheiro, muita sede, mas uma cerveja ali era quatro e cinqüenta. Descubro que Andréia dá aula de inglês no lugar onde eu havia estudado inglês. Claro que eu não falo a ela que era apaixonado pela professora dentuça do curso de inglês, e que passava meia hora no banheiro antes da aula começar. Mas penso em tudo isso. E é bom.

Os músicos da banda estão encostados no balcão do bar destrinchando sanduíches de pernil com abacaxi, virando copos de cerveja lagger e conversando sobre a apresentação. Aquilo era a vida. Vida de verdade. Batalhar por uns trocados na noite e depois comer o próprio trabalho. Fico olhando pr’aquilo enquanto Andréia me fala qualquer coisa sobre ser amiga de um artista plástico que estava em exposição no lugar.

- Você não tá prestando atenção – de repente ela diz, grudando o chiclete que estava mastigando na ponta do meu nariz. Eu quero isso? Antes de me decidir, ela me pega pela mão.

- Olha, eu sou meio mal-humorado – digo a ela tirando o chiclete do nariz.

- Buhhhhhhhhhh! Que medo! – ela ri e arregala os olhos. – Por que não vamos lá em cima beber alguma coisa? Posso te mostrar a exposição com essa fitinha – e sacode o punho.

Coloco tudo numa balança: tinha a cerveja, a exposição de arte, quem sabe uma foda, aqueles dentes todos me olhando, toda aquela carne. Eram duas coisas sobre Andréia. Uma que você pode olhar pra ela mas nunca vai saber se ela vai te jogar bebida na cara ou te chamar pra dançar. Duas que você não consegue dizer não a ela. Mulheres assim são as herdeiras do planeta.

Pego minha mochila, que tinha escondido debaixo do palco, damos as mãos, vamos andando até o elevador de grade, ela me mostra como se usa o elevador, ri da minha cara mais uma vez quando eu digo a ela que tinha ficado preso ali, ou então é a minha cara que dá vontade de rir nas pessoas, o que me faz pensar por um segundo que eu posso ser um tipo raro no mundo.

No segundo andar, entramos por um corredor cheio de quadros de príncipes pederastas renascentistas, com bordas folheadas a ouro e perucas ridículas, uns seguranças abotoados, apesar de não ter mais ninguém ali. Então damos num salão à moda antiga: piano de calda num canto, sofás forrados com veludo, um deles estampado com pele de onça. Neste sofá sentam-se três seres humanos, aparentemente. Andréia vem na frente, me guiando. Anda rápido demais e, como minhas pernas são curtas, quase tenho que correr. Isso me fez segurar as calças por detrás e parecer um michê. Andréia me apresenta a todos. Ricardo Blanche é o/a artista plástico. Deuminha é uma espécie de chaveirinho do artista plástico: uma gordinha com cara assustada de cocaína que fica se roçando no assento do sofá de braços dados com Ricardo. Tem o rosto muito branco e redondo e os cabelos lambidos na altura do pescoço. Fala sem parar. A última a quem sou apresentado se chama Bel. Uma mulher de uns 50 anos, mas nunca se pode dizer se é uma mulher de 50 anos acabada ou uma mulher de 70 conservada. Transita por essa faixa. Tem os cabelos crespos loiro-pintados bastante volumosos, usa um conjunto de náilon preto com três listas brancas paralelas nas laterais, zíper fechado até o queixo, uns óculos retangulares de lente, sem um dente na frente.

- Oi, Leo, eu sou a Bel. Bel, Leo, Bel, Leo. Gostei de você, Leo. Bel, Leo... Saca?

De repente eu não consigo mais rir. Isso é o fim da noite de um cínico. Andréia mete o braço debaixo do meu coração e então rodamos a sala para ver as obras de arte de La Blanche. Andréia vai pontuando o passeio e dizendo, na frente de cada estandarte feito de trapos, restos e santos: “Esse aqui custa R$ 2.500... Esse é mais barato, R$ 1.750, mas também, é menor e só de jornal e feijão...”. Não falo mais nada até voltarmos ao sofá, onde estão os outros restos – dessa vez os mortais. Não se deve falar nada sobre a arte moderna. Isso é o melhor que você pode fazer por ela. Deixá-la morrer de velha, dormindo tagarela como ainda está. Não devemos despertá-la com críticas ou elegias. Corre o risco de ela acordar antes de morrer, e aí muito mais gente iria sofrer antes de morrer: ou talvez só eu e mais uns idiotas saudosistas, que se metem em quartos úmidos e escuros com livros de história da arte, biscoitos amanteigados, e uma vela que arde em meia chama.

Quando chegamos de volta, Andréia se senta, eu fico de pé. Começa uma música lá embaixo. Deuminha imediatamente se ergue, elétrica, e fica dançando na minha frente. “Ah, eu quero dançar! Vamos dançar? Eu quero dançar!”, ela repete ininterruptamente, me puxando pela manga da camisa. Deuminha era uma das poucas pessoas que, para ver, eu precisava olhar pra baixo. Nunca gostei de olhar as pessoas de cima pra baixo. Claro que isso é só falta de educação, costume e ambição. Mas ao olhar Deuminha de cima pra baixo, puxando minha manga com aquele sorriso constante, vazio, que te implora por não sabe bem o que, eu sinto vontade de puni-la, cuspir em cima dela, dar duas voltas no seu pescoço, empurrá-la de volta pro sofá. Penso em tudo isso, depois sorrio e arrisco uns passos com a Deuminha. Se as pessoas soubessem tudo que se passa por trás de um sorriso, poderiam passar mais facilmente por um domingo solitário de chuva.

Ricardo Blanche apenas me encara com as pernas bem cruzadas por dentro de um kilt escocês no sofá estampado com pele de onça. Esses caras têm saco?, eu penso. Como conseguem cruzar as pernas assim? Blanche usa umas botas bem lustradas de exército fascista, muitos colares e pulseiras indígenas, uma blusinha cinza regata de malha, nenhum cabelo na cabeça. Bel vai ao banheiro “retocar a maquiagem” e depois não a vejo mais até o fim do resto da noite. Deuminha continua de pé dançando atrás de mim. Eu seguro um casaco listrado numa mão e a mochila na outra. Deuminha toma o casaco da minha mão e o enrola na minha cintura com um nó bem apertado. Eu apenas levanto os braços e morro devagar.

- Olha! Fica ótimo assim! – grita Deuminha.

- Acho que não, Deuminha... Vê bem, o casaco listrado não combina com a camisa xadrez... Pergunte só pro Blanche ali... Ele é artista, vai te dizer...

- Querido: t-u-d-o p-o-d-e – corta a biba num tom marcial, os olhos cinzas decaídos. Sua voz é como eu imagino a voz da morte ao pé do ouvido do príncipe de Lampedusa.

Não agüentava mais aquelas caras. Aquilo parecia um quadro expressionista alemão feito por um aborígine canibal da Zâmbia. Você não podia sair de casa sem se incomodar muito. E torcia por isso. E se esforçava para que o incômodo não acontecesse. Isso deixava o dia insosso porque, como você queria que nada te incomodasse, você não fazia muita coisa. E de que adianta isso se no fim do dia você está vendo estandartes de santos feitos de trapos e restos a 2.500 pratas em espécie cada? Mesmo Andréia, que ainda tinha luz no fundo dos olhos, tinha sido sugada por toda aquela maquiagem de vida. O que chamam de arte por aí nos ciclos fechados de putaria e canapés.

Eu já não estou mais ali em mente e penso agora num jeito de não estar também em corpo sem causar grande alarde, principalmente em Deuminha, que dança com os olhos fechados e a cara enfiada no meu peito. Pra mim sempre foi muito difícil dizer não às pessoas. Simplesmente não gosto de ver aquela cara olhando pra mim como se eu fosse o culpado pelo mundo girar. E por isso sei do efeito de um não numa vida de nãos constantes, que é a vida como o outro disse uma vez que era. Não quero ser mais um não no mundo. Não vou colaborar com isso. Nem com mais nada. Então me meto nos piores tipos de cilada. Depois só resta tentar ir embora de algum jeito.

Levanto e digo que preciso ir. Ainda não paguei a conta, digo. Andréia está às gargalhadas com Deuminha, mas Blanche parece perturbado. Deve ter alguma coisa a ver com seu estilo ou com sua performance: duas palavras da moda. Um artista precisa ser um perturbado. Ele deve doer ao pensar. De qualquer forma, prefiro um artista como Blanche perturbado e frio em vez de calmo e frio. A segunda combinação resulta em genocídio. Andréia não parece dar muita atenção quando eu me levanto e digo que vou embora. Portanto eu penso que fui bem sucedido. Dou as costas e vou indo. Na porta do ateliê o segurança abotoado me pára e pede o meu nome. Todo mundo está sempre pedindo coisas, meu deus! Digo a ele “Daniel Azulay”. Ele me olha desconfiado. Eu não estou rindo. Ele pergunta “Com z ou com s?”. Antes que eu pudesse responder devidamente, Andréia surge, sempre segurando meu braço e me guiando. “Está comigo”, ela diz ao segurança. Então saímos.

- Andréia, por que diabos ele precisa do meu nome na hora de sair?

- Por causa da bicha... Ela não deixa nenhum bofe sair sem dar o nome... O segurança deve ter pensado que você era um dos bofes da bicha...

- Então ela é mesmo nazista...

- Hum?

- Nada... Olha: eu vou nessa... Procurar minha carona e achar, se der sorte.

- Você não quer vir com a gente? A gente vai ali no Nova Capela.

- Não, chega de capela por hoje... Além do mais, eu não tenho mais dinheiro. Tenho que pegar essa carona... Vou até aquele sinuca bar procurar os caras... Você não quer vir junto?

- Isso é lugar de adolescente... Não tenho mais idade.

- Bom, nesse caso, ficamos por aqui... Foi bom te conhecer, Andréia... Te cuida.

Ela não diz nada. Nem dá dois beijinhos. Se vira, claramente magoada, e volta para sua vida de restos de arte e sacanagem disfarçados de boas e velhas maneiras. Boa menina... Menina? “Isso é lugar de adolescente”, ela me disse, “não tenho mais idade”. Ao contrário, eu penso, temos cada vez mais idade para fazermos cada vez menos coisas. Sigo pela rua espelhada de chuva rala. Nenhum bueiro aberto solta fumaça. Nenhum casal aos amassos num beco escuro. Nenhuma barata se equilibra numa quina de calçada. Nenhum homem de chapéu de feltro e cara dura acende com dificuldade um último cigarro. Vejo um homem jogando uma pedra no vidro lateral de um carro. Ele entra no carro, fica um tempo, sai. Passa por mim com uma sacola. Um rádio cai de dentro da sacola na minha frente. Ele olha pra mim, recolhe o rádio do chão, e diz: “Fiel, tu não viu nada”. Depois sai correndo e some na esquina. Eu sigo andando. Nenhuma música triste toca numa juke box. Nenhuma puta de cabelos encaracolados se apaixona por mim. Nenhuma puta mais, apenas se masturbam num lado da calçada alguns travestis. O mundo está calmo, quieto, as coisas fazem sentido quando não estão de fato ali. Dentro do sinuca bar vejo vários velhos. Tomam cerveja, conhaque barato, cachaça. Discutem alto. Praguejam desconexos. Escorregam das cadeiras. Se apóiam nas paredes. Engolem caçapas com as bolsas dos olhos encardidas espatifadas no pano verde e as almas sugadas pelo vácuo do tempo. Também não têm mais idade. Também não são mais adolescentes. Também foram encontrados. Meus amigos não estão mais ali. Nenhum recado. Sinto que aqueles velhos derrotados são meus amigos. Portanto, como bom amigo, os deixo na paz da morte que se mexe e se aproxima e espero minha vez sentado no meio-fio. Mas ela não vem dessa vez. Meu ônibus chega vazio, a trocadora não tem trocado, eu pulo a roleta e a história termina aqui.


www.omarona.blogspot.com


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quinta-feira, 18 de novembro de 2010

MÁGICA NO ABSURDO >> Fernanda Pinho



A impressão que tenho é a de que os habitantes do planeta Terra estão num processo acelerado e irreversível de envelhecimento. Não falo do envelhecimento biológico, pois este estamos conseguindo driblar com maestria graças aos milagres operados pelos santos Ivos Pintanguis da vida. Falo do envelhecimento de espírito, que é muito mais grave já que não tem botox que dê jeito. Não sei o que deu em nós, mas estamos empenhados em deixar o mundo chato, sem graça, cinza, nublado. Reclamar virou um vício. Criticar virou sinônimo de inteligência. E, de repente, perdemos todo o encantamento pela vida.

Tenho pensado nisso desde o último fim de semana, quando estive com alguns amigos no Hopi Hari, no estado de São Paulo. Passamos o sábado no parque e, no fim do dia, quando nos reencontramos com nossos colegas de excursão, ouvimos um grupo reclamar com veemência dos maus tratos que havia recebido em um dos brinquedos. Diziam os reclamões que era um absurdo pagar caro, viajar 600 quilômetros e terem de aguentar pessoas gritando com eles, exigindo silêncio, fazendo ameaças, insinuando que os expulsariam do brinquedo. Enfim, reclamações que fariam sentido se brinquedo em questão não fosse uma tal catacumba de terror e os berros dos funcionários do parque não fizessem parte de uma encenação teatral. Meus amigos e eu – felizmente ainda providos de algum encantamento – ficamos chocados com os comentários e morrendo de pena daquela gente ignorante e sem graça. Eles não entenderam o espírito da coisa e essa falta de boa vontade para entender o espírito da coisa parece generalizada. As pessoas não conseguem mais aproveitar os momentos diferentes que a vida proporciona simplesmente porque estão obcecadas em achar defeito em tudo.

Quer um outro exemplo? Outro dia li uma crítica sobre a saga Crepúsculo, na qual o autor se dizia indignado com os exageros criados pela escritora Stephenie Meyer. Segundo ele, era um absurdo a autora insinuar ser possível relações sexuais entre humanos e vampiros, porque todos os fluídos do corpo de um vampiro são venenosos, o que torna o sexo improvável. Absurdo é um comentário desses. Critique a falta de experiência da escritora, as adaptações dos livros pro cinema, a falta de consistência do enredo, o fato do Jacob Black só ficar sem camisa, sei lá, qualquer coisa, mas não o que é certo ou errado no mundo dos vampiros. Isso não faz sentido por um motivo muito simples: vampiros não existem! Então se eu quiser inventar um vampiro que curte muito mais caipirinha do que sangue e que, em vez de sugar pescoço, gosta mesmo é morder limão e cana de açúcar eu posso! Porque é fantasia, é ficção, é magia e a vida anda muito carente dessas coisas.

Lá nos anos 80, Lobão cantava em seu famigerado hit que “nem sempre se vê mágica no absurdo”. Eu diria que, hoje, quase 30 anos depois, quase nunca se vê mágica no absurdo. O mundo está ranzinza. E eu vou cuidar de me policiar para não entrar nessa também. Morro de medo de virar uma chata que não sabe brincar. Minha vida é uma aquarela e eu não estou nem um pouco interessada em transformá-la numa planilha de Excel. Vivo muito bem sendo uma pessoa que morreu de medo na catacumba do terror e que suspira quando vê o Jacob Black sem camisa.

Foto: www.sxc.hu
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quarta-feira, 17 de novembro de 2010

EU NÃO SEI FALAR DE AMOR >> Carla Dias >>


O título desta crônica eu emprestei da música do meu amigo Kléber Albuquerque. Não sei por que, essa frase, essa constatação, ficou pipocando na minha cabeça, nos últimos dias. Obviamente, escutei o CD no qual tem essa música, ainda ontem. Porém a sensação vem de antes, de um eco.

Amor é o tipo de palavra que me deixa à mercê dos enganos. Se durante a minha existência, até este ponto-agora, falar é um perigo ao tentar me fazer compreender, imagine só falar de amor! Não nasci para oradora, jamais serei atriz, de jeito maneira conseguirei falar aos que aguardam ansiosos pelo dizer o amor.

Woody Allen decretou: todos dizem eu te amo. Acho que ele se esqueceu de me incluir nesse balaio, ou simplesmente ficou indiferente ao meu não saber falar de amor.

Porque eu não sei mesmo...

Certo dia, minha mãe me colocou de cara com a tevê, apertou play e me mostrou um vídeo institucional de uma cadeia de supermercados. Comemorando o Dia das Mães, o tal filme mostrava um filho que não disse eu te amo para a mãe dele e ela morreu. Assisti aquilo com o coração na mão... Todos dizem eu te amo, meu colega Woody? Mas quem disse que tem de ser assim: EU TE AMO?

No final do filme, entreguei os pontos: eu te amo, mãe, mas as palavras saíram mancas. Eu demonstro meu amor à minha mãe todos os dias, não é o amor que é manco, é apenas o jeito de falar de amor... Eu não sei falar de amor, mas sei senti-lo, demonstrá-lo, ao invés de dizê-lo.

Mas as pessoas sentem falta de escutar...

Há quem fale de amor com uma simplicidade, como se toda complexidade que vem embutida nele não existisse. Como quando a minha sobrinha diz “eu te amo, tia”. Há uma honestidade no dito que não vem com peso, com dúvidas, com cobranças. É o dizer o amor da forma mais pura impossível. Falar de amor com ela, por exemplo, é fácil. É só desfiar verbos: cuidar, abraçar, aninhar, sorrir, brincar, cantar, ler... Ela adora que leiam para ela, apesar de ela mesma poder fazê-lo numa boa.

Falar de amor, eu sei, nem sempre se trata de se declarar. Porém, espantam-me, mas de um jeito elogioso, aqueles que sabem sobre ele falar sem qualquer acanhamento. Que assumem que o amor dito com tanta naturalidade que não há como não apreciá-lo, mesmo ele não sendo seu.

Falar de amor requer um traquejo que não tenho. É preciso a voz sair na temperatura certa, as palavras evocarem a intimidade do sentimento.

Eu não sei falar de amor, por isso escrevo sobre ele. Portanto, se eu me calar e empunhar uma folha de papel onde o amor está escrito, acredite, não é performance... É falar sobre o amor, mas em silêncio.




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terça-feira, 16 de novembro de 2010

AS VERDADEIRAS MULHERES-MARAVILHAS
>> Clara Braga

Com toda essa falação que está tendo agora sobre termos a primeira mulher presidente no Brasil, apesar das piadas que dizem que nossa chance de ter uma mulher na presidência acabou quando a Marina não foi pro segundo turno, eu acabei pensando naquela velha história do quanto o mundo é machista e as mulheres tiveram que conquistar seu lugar.

Quando eu fiz intercâmbio, fiquei fora 5 meses e foi aí que eu aprendi a me virar sozinha, comecei a cozinhar, passar, lavar, fazer compras e ainda tinha os estudos e, claro, a diversão. Até eu conseguir conciliar isso tudo, apanhei muito, e foi aí que comecei a valorizar mais pessoas como a minha própria mãe, que faz tudo isso com as mãos nas costas.

Apesar desse papo já ser batido, o fato é que existiram, sim, mulheres importantes na história que lutaram e conquistaram direitos que facilitaram a vida de todas as outras mulheres. Podemos até citar nomes, como por exemplo Joana d´Arc e Anita Garibaldi, mas já notaram que a lista não é assim tão grande? Acho que isso acontece porque no fundo todas as mulheres são batalhadoras, não dá para citar um nome, todas de alguma forma tiveram que lutar pelo seu lugar. Mas eu ainda considero que as verdadeiras mulheres-maravilhas são essas que não aparecem em livros, não ganham biografia, não aparecem na manchete do jornal e nunca apareceram no plantão da Globo. Elas são as donas-de-casa, trabalhadoras e mães de família, tudo ao mesmo tempo! Sim, elas existem, onde? Vai por mim, é difícil encontrar, elas têm que estar sempre em vários lugares ao mesmo tempo, dando atenção a várias pessoas, além de cozinhar, passar, estar no trabalho na hora certa e buscar as crianças na escola.

Não estou aqui fazendo um discurso feminista dizendo que as mulheres são ótimas sozinhas e se bastam, não é isso, mas realmente me impressiona o malabarismo que algumas fazem. Aprendi a apreciar isso e valorizar. Eu mesma sou uma vergonha para essas mulheres-maravilhas que não usam uniforme sexy mas salvam o mundo, e minhas últimas experiências serviram para eu aprender a nunca mais criticar minha mãe quando ela esquece de comprar a batata palha pra comer com o strogonoff.

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segunda-feira, 15 de novembro de 2010

PARADAS E SÍMBOLOS NACIONAIS >> Albir José Inácio da Silva

Uma crônica por escrever, uma chuvinha absurda no novembro do Rio e uma rinite por causa da chuvinha são razões suficientes para resistir ao som dos trios elétricos que na Avenida Atlântica conclamam à participação politicamente correta.

Mas como a crônica não veio e a rinite é crônica, eu fui.

Claro que se há uma coisa que não falta numa passeata GLBT são as cores. Mas me chamou a atenção, às vésperas do aniversário da proclamação da república, o uso das cores e símbolos pátrios. Difícil não notar o verde e amarelo nas cabeças, nas tangas, nos biquínis. Ao contrário da minha geração, que desenvolveu verdadeira alergia pelas cores pátrias, hoje as pessoas usam verde e amarelo com a certeza de que enfeitam. Bandeiras nacionais embrulham corpos nus, canta-se o hino nacional a todo momento e todos, de todos os partidos, se sentem brasileiros.

Quando eu era jovem não se permitiam primeiro passeatas e segundo o uso da bandeira. Não se podia vestir e nem mesmo hastear sem formalidades o pavilhão. O hino igualmente não se podia cantar a não ser em solenidades oficiais por soldados perfilados, estudantes imóveis ou atletas carrancudos. A ditadura considerava desrespeito o uso dos símbolos por parte da população.

Por outro lado, ninguém usaria mesmo que eles permitissem ou até incentivassem. As pessoas desenvolveram verdadeira ojeriza pelas cores nacionais. Se por descuido se juntasse no traje o verde com o amarelo, alguém logo perguntava: “Você vai de bandeira hoje?”. Fora dos quartéis e da propaganda oficial, a vergonha impedia certas combinações.

Agora, bem na minha frente, um travesti vestido de presidente eleita, faixa presidencial, cabelos, unhas, roupas e saltos de bandeira brasileira, dá show em cima do trio elétrico. Fico pensando no que aconteceria com um travesti com faixa presidencial, vestido de Médici, no início dos anos setenta. Como, recolhido a um quartel, lhe fariam as unhas, os cabelos, massagem corporal e até alguns procedimentos médicos como endoscopia, cirurgia etc. Mengele baixaria em alguém que faria experimentos científicos no travesti como se ele fosse o ET de Varginha.

Felizmente os tempos são outros. Canta-se o hino nacional em todos os lugares, até com ritmo de samba, e sem traumas. Usam-se as cores da bandeira nos cabelos, no rosto, nas roupas, no corpo, e a pátria mãe gentil não se envergonha com isso. Não com isso.

Verdade que há os saudosistas e insatisfeitos, enxergando desrespeito onde se quer homenagem. Não precisamos ir longe. Durante a campanha eleitoral, um candidato a deputado usava camiseta estampada por foto do General Médici e os dizeres: “Eu era feliz e sabia”.

Mas eles não contam. Os brasileiros finalmente se reconciliaram com seus símbolos. Ufanismos a parte, parece que atingimos a maturidade de outros povos na utilização de nossas marcas. Não são proibidas nem envergonham ninguém.

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sábado, 13 de novembro de 2010

COLA NUNCA, MOLA SEMPRE
[Maria Rita Lemos]

Tristeza não é “mania de rico”, longe disso. Melancolia e tristeza são sensações que todo mundo já teve ou terá durante a vida, não dá para escapar. O que difere é a forma como as pessoas lidam com esses sentimentos. Tem gente que prefere tomar um porre, na ânsia de esquecer, como tem gente que se tranca no quarto e chora até parecer que alguém da família desencarnou...

Não importa a forma como se passa por uma “fossa” — o outro nome como podemos chamar esses maus dias —, o pior que se pode fazer é fingir que nada está acontecendo, engatar a primeira e seguir em frente, negando a dor e o mau momento.

Toda tristeza, bem como toda alegria, tem que ser encarada de frente, vivida com toda intensidade, senão vai ficar difícil superar. Quando nos recusamos a olhar para a cara feia da dor, ela fica encravada, como um parasita ou um corpo estranho debaixo da pele, dentro de nós, e cedo ou tarde vai fazer um estrago, inclusive manifestando-se em forma de cálculos renais, gastrite, problemas intestinais, dermatites de todos os tipos.

Nem sempre achamos a causa, mas podemos apostar numa ou em várias tristezas não examinadas... Elas têm sua forma de vingança, quando ignoradas — e essas que citei são apenas algumas delas. Negar o sofrimento pode não só adoecer o corpo como causar estragos no emocional, inclusive levando a dependências químicas (alcoolismo também se enquadra aí), fobias sociais e de pânico, quadros depressivos crônicos, etc.

Lígia Guerra, psicóloga paulista, professora da Escola Paulista de Psicologia Aplicada (EPPA), estudou principalmente as fases depressivas causadas por rompimentos de relacionamentos afetivos. O sofrimento e sentimento de perda são sempre intensos, principalmente quando a pessoa que foi “abandonada” pensa que não vai conseguir viver sem a pessoa amada.

Apesar de tudo, é preciso lamber as feridas, olhar para o sofrimento sem medo, colocando na balança que toda mudança pode e traz sempre benefícios, mesmo que não pareça. Depois dessa fase de luto é que chega o momento de engatar a primeira e seguir em frente, talvez em novas direções... quem sabe?

Talvez seja o momento de se reinventar, mudar o cabelo, reformar o guarda roupa, retomar aquele curso tão sonhado e nunca feito... A tristeza pode ser um trampolim para outra fase, muito diferente, mas muito melhor. O fundo do buraco deve ser uma mola, nunca uma cola!

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sexta-feira, 12 de novembro de 2010

O CÂNCER É A POESIA DA MEDICINA >> Leonardo Marona

“Já não me importa mais se vocês vão acreditar na minha história ou não. O sanatório, é óbvio, não acreditou. E deu no que deu. Sim, eu tinha ido até lá, espontaneamente, um dia antes do que acabou acontecendo. Eles disseram: “Você está bem, vem aqui só pela comida” e, de fato, eu precisava comer. Qualquer ser humano que não come enlouquece, louco ou não. E eu não sabia mais se minha loucura era genuína ou pura fome. O que dizer? Acho que enlouqueci de fato, ou de fome.”

“E a história do alienígena?”

“Não acho que seja outra coisa. Ele era igual a mim, as câmeras filmaram tudo. Foi inacreditável. Chegou um bicho, um ser muito esquisito feito de uma substância que eu não saberia reconhecer. Mas ele falava a nossa língua. Eu estava suando frio, estava sem ter onde dormir, além de tudo, não fazia muito tempo que eu tinha andado lambendo uns ossos velhos de bicho, sobras do açougue central, e o que tinha vomitado pouco em seguida era um líquido acinzentado, ralo e viscoso, além do que eu não enxergava mais muito bem. Havia dormido dois dias seguidos ao lado da Penitenciária Modelo. Vejam bem: eu dormia ao lado da penitenciária. Um homem livre que, por espontânea vontade, se dirige à prisão, para ao lado dela descansar. É simbólico, é simbólico. Bom, ele, essa coisas estranha que falava como nós, se aproximou e me disse: “Quero a sua jaqueta”. Assim mesmo: “Quero a sua jaqueta”. Ele era tão estranho e eu me sentia tão mal, que entreguei a jaqueta. Então ele vestiu a jaqueta e empurrou o sujeito, como vocês viram, no meio dos trilhos, quando o trem passou e, enfim... a coisa toda.”

“E esse sujeito era um alienígena...”

“Só posso acreditar que sim. Ele vestiu minha jaqueta e ficou igual a mim”.

O policial olhou para o psiquiatra e fechou os olhos. Deu um murro na mesa e quebrou seu copo no chão.

“Levem este filho da puta daqui.”

Reynaldo Mafra foi retirado da sala e arrastado violentamente à cela onde ficava sozinho: uma cela limpíssima, esterilizada, reflexiva, uma ante-sala da morte. Não deixaram que ele ficasse com quase nada depois que foi preso, depois que matou Joaquim Menoti, surdo-mudo que trabalhava na lotérica e tinha uma filha que não era surda-muda e, todos diziam, era um bom sujeito, tratava bem as pessoas, falava pouco na verdade, era surdo-mudo.

Reynaldo Mafra agora usava um desses aventais para loucos, que deixam a bunda descoberta. Deixaram apenas que ele ficasse com um livro. Era um livro azul, velho, um livro manchado de sangue, com páginas arrancadas, marcado a caneta esferográfica, um livro que deveria conter uma história sinistra e simplesmente ninguém ainda tinha tido coragem de tomá-lo de Reynaldo ou mesmo perguntar o que estava escrito nele. Havia algo de repelente e muito misterioso que exalava do livro. Algo contagiante e perigoso. Algo que poderia, quem sabe, levar à loucura. E às vezes esse tipo de objeto nos leva a, sem nos darmos conta disso, ignorá-lo forçadamente, para evitar maiores danos.

***
O dia em que Joaquim Menoti foi jogado nos trilhos da linha vermelha do metrô era um dia bastante comum. Ele havia feito um lanche com a filha que, como já foi dito, não era surda-muda. Ela conversava, portanto, com seu pai, que não podia ouvir, mas sorria como um bom pai. Tomaram um submarino e Joaquim lia o jornal do Jóquei Club. Levantaram-se lentamente, Joaquim bateu o pó da jaqueta já bem gasta, a jaqueta de um homem digno, que usa as roupas até o final. Separaram-se no meio da rua, e um carro quase atropelou Joaquim, que mais uma vez sorriu, mas sua filha não.

Do outro lado da cidade, Reynaldo enlouquecia. Era um filho da classe média e não tinha o hábito de pedir na rua. Por isso, passava fome. Passava fome como um homem de posses, algo muito mais penoso que para um homem miserável. A fome por orgulho pode ser transformada em mitologia, mas somente se o sujeito tiver a grandeza de um Dostoievski. Para os miseráveis de espírito, que uma vez sentem-se perdidos numa estrada em plena curva, a fome resulta de um martírio escrupuloso, trata-se de um condenado à morte esculpindo a própria cruz. De certa forma, a fome equilibrava as coisas, e Reynaldo não era propriamente mau, era até um sujeito esperançoso, e pensava quando amarrou os sapatos que talvez, com fome, viesse a ser um homem melhor. A fome era no fim das contas a expectativa por uma nova chance. Uma nova chance de poder, de perto, compreender a dor humana. Mas depois a fome aumentou. E Joaquim enlouqueceu.

Calçou os sapatos, sentou novamente, abriu O Livro. Lia com mãos trêmulas, morria de azia. Volta e meia arrancava uma página, enfiava na boca, começava a mastigar. Iludia-se pensando que, fazendo a movimento da mastigação, enganaria o estômago, conseguiria uma sobrevida. Muitas vezes, já tonto, perto de perder os sentidos, achava uma sombra, jogava-se à própria sorte no chão, e nessas horas, comparativamente mansas, se perdia em recordações adolescentes. Havia um tempo em que talvez tenha sido feliz. Feliz assim, como nas propagandas de manteiga. Por exemplo, havia ainda uma garota. No fim é sempre a mesma garota. E, se não temos ou perdemos a garota, então ela se torna um “havia uma garota”. E Reynaldo era um cara de quem se diria: “Muito bem, um pouco enlouquecido, mas um bom sujeito, um cara legal”. No entanto, espanto, estes são os sujeitos que empurram surdos-mudos nos trilhos do metrô. Por quê? Porque amam demais, porque não conhecem o amor tranqüilo.

No geral andava pelas ruas, com o estômago roendo, conversando com os próprios pés, seguindo as pessoas, não por alguma perversidade, mas para poder, observando as pessoas nas ruas, imaginar uma vida para elas e, com isso, não se esquecer de que, apesar da miséria, tinha uma também. Andava pensando muito nessa antiga garota, essa que o deixou ou nem mesmo soube que ele existia. Reynaldo Mafra e Joaquim Menoti são daqueles casos que se completam. Um surdo-mudo, com uma filha amorosa, lembre-se bem, direita dos sentidos, e talvez uma esposa que, muito bem, tinha lá seus casos de amor comum, digamos, com cinco sentidos, mas prezava, principalmente, a força de espírito e a firmeza do marido. Enquanto o outro, sem piedade, era um confesso inconformado, equivocado esclarecido, com feridas nos braços e um amor infinito que ninguém quer receber.

Se deparou pela primeira vez com O Livro quando foi preso pela segunda vez, por ter passado mal na rua, na rua errada, na rua onde não se pode passar mal. Passou mal, estava mal arrumado, passava fome antes de passar mal, foi levado preso e ali, preso, achou O Livro, e o que disse na época a si próprio foi: “Bom, é um livro manchado de sangue, é vergonhoso roubar este livro, mostra uma tendência psicótica, pois vou roubá-lo”. E assim, ao ser liberado, saiu com O Livro sob a blusa pensando: “Roubando este livro eu posso cuidar para jamais lê-lo”.

Mas todas as pessoas são vergonhosas, e rompem as suas promessas. Melhor: prometem só aquilo que podem romper. Ou seja, a promessa, a esse tipo de pessoa com a flor entre os dentes, serve apenas para dar solenidade a uma contravenção. E, normalmente, estas são as pessoas que prometem coisas a si próprias.

Mas agora, com O Livro nas mãos, Reynaldo se encaminhava ao subterrâneo. Era um sujeito bonito, de quem se diria: “Tanto potencial, poderia, não sei, poderia trabalhar com arte”. Mas, bom, quem é que janta arte?

O outro também se encaminhava para o mesmo lugar, sem dois sentidos, com o coração preenchido por uma justificada confabulação burgo-decadente. Pensava muitas vezes, enquanto assobiava pelas ruas, porque diabos tinha ficado assim, completamente cego, de repente. Havia, logicamente, algumas coisas ainda inexplicáveis, mesmo para a medicina mais avançada. E por que miséria haveria de ser ele, Joaquim Menoti, com um nome desses de tiozinho do neo-realismo italiano, um destes miseráveis casos? Teriam sido as torturas que aplicou no seu vizinho negro, quando era um jovem fascista? Teria sido o gato que matou amarrando pelo rabo a uma corda e jogando pela janela? Alguma coisa havia de ser. Que dizia respeito a ele, e a mais ninguém. A filha não era motivo, tratava a pobrezinha bem, era sorridente ao lado dela, tanto que ela nem mesmo era surda ou muda, mas teria tratado bem a mãe dela? De repente teve um branco, não se lembrava de quase nada. E outra vez quase um carro o atropelou.

Reynaldo andava feito um sans-culottes, com O Livro na mão, o famoso livro azul que lhe mudara tantas coisas na cabeça, tão subitamente, e pensando nisso, Reynaldo se lembrou que tinha fome, que estava talvez enlouquecido de fome. Se jogou na grama, debaixo de um viaduto. Abriu O Livro, olhou para as letras. Comeu duas páginas. Era curioso que, com a fome que estava, Reynaldo não pensava num belo leitão à pururuca ou até mesmo em coisas mais sofisticadas, caras, permitidas somente aos delírios milionários. Pensava, justamente, em coisas opostas a qualquer tipo de banquete regado a caldas carameladas e frutas da estação, eram restos de lixo o que vinha a sua cabeça, restos de lixo compartilhados com fétidos animais, eram migalhas de pão com os pombos, e restos de pombos com os gatos e restos de gatos com miseráveis humanos, e restos humanos por fim. Era um sonho tenebroso o sonho da fome. As unhas imundas, lambidas em busca de um pouco de sal. Mas ele tinha uma caneta, e um passado de perspectivas literárias. Abriu o livro aleatoriamente e começou a escrever, repetidas vezes, formando uma borda retangular em volta do texto: “O câncer é a poesia da medicina”. Fechou o livro com força e deu uma risadinha ensandecida e muito aguda, depois voltou a chupar os dedos, procurando o sal das unhas sujas. Dormiu um pouco, pela última vez pensou nela, a ruiva dos tempos rosados, e não sabia realmente o que tinha afastado os dois, e este esquecimento lhe feria mais do que a própria necessidade de comer. Sua emoção rememorada era um bem definido pelo seu caráter, a fome derrubaria qualquer um da mesma forma. Despertou suando muito, os olhos arregalados, mas exalando uma tranqüilidade tumular. Ainda assim, como um Cristo blasfemado, Reynaldo se ergueu pela última vez como um sujeito livre, um sujeito livre e faminto, portanto um sujeito preso à liberdade da fome, e seguiu em direção ao subterrâneo.

***

“Você ainda confirma a história do alienígena?”

“Eu não sei, eu via coisas estranhas, a gente chama coisas estranhas assim: de alienígenas. E o que você pensa que é a fome? Você não faz idéia, ela é um alienígena para você. E, para mim, eu não acreditava que ela pudesse me atingir, eu era como você. Ela me atingiu e eu nem mesmo me dei conta. E quando eu vi, estava aquela coisa, aquela coisa que podemos chamar de alienígena da fome, pedindo a minha jaqueta, e empurrando o homem”.

“E por que você se permitiu ficar tão faminto?”

“Eu não sou um pedinte. Recebia as coisas sempre como algo que não me dizia respeito. Aceitava e consumia objetos no vazio. Logo eu não sabia respeitar as coisas, a ponto de pedir por elas. Mesmo faminto, eu não reconhecia essa relação, não saberia me comportar dentro da falta de algo de que eu nunca me dei conta”.

“Reynaldo, você empurrou um homem sobre os trilhos do metrô e o matou atropelado por um trem”.

***

Joaquim sabia que algo não ia bem. Ele reparou que quase tinha sido atropelado duas vezes, e da primeira vez disfarçou por causa da filha, para não impressioná-la mal. Mas agora, depois da segunda vez, teve um calafrio violento e uma pressão baixa o levou ao meio-fio. Ficou lá sentado, se restabelecendo, e tentando se lembrar do que poderia ter feito para ser punido com a perda repentina dos sentidos. De algum modo, esperava ser punido. Tinha certeza de que a mesma coisa que o deixou surdo-mudo nunca poderia largar da sua cola. Estaria ali quando ele estivesse tomando sorvete com a filha. Estaria ali quando por alguma bebedeira contratasse uma prostituta. Estaria ali quando ele adormecesse na missa de domingo. Estaria ali, ao lado, sorrindo, com um chapéu de feltro e um charuto, virando a esquina, acenando com o chapéu num meio-sorriso cretino. E agora, ele sabia, isso ou o que quer que fosse estava sentado no seu colo, pendurado no seu pescoço, o trazendo ao meio-fio com seu peso fulminante.

Quando se levantou para seguir, sentiu-se amarrado a uma algema, a um destino fatal, a mesma sensação do piloto minutos antes da corrida que o matará. Ou do astro do rock subindo as escadas do avião fretado que se explodirá contra as Montanhas Rochosas. Mas, como todos esses desgraçados, era preciso seguir, a roda da vida não pode esperar o nosso espanto. De modo que Menoti tentava, arrastando-se como um cego, um cego-surdo-mudo portanto, em direção ao metrô, pensar nas coisas que poderiam ser motivo de um destino tão miserável, como forma de atrasar o que não podia mais ser evitado. Muitas vezes conversamos horas com quem sabemos que vai nos matar. Muitas vezes, inclusive, nos relacionamos longamente com o que vai nos matar, como no caso dos amores e dos vícios. É uma atitude limítrofe entre o desespero e a auto-punição. E na cabeça de Menoti havia prostitutas mal-tratadas e até, não poderia se esquecer, queimadas por guimbas de cigarro, amarradas e sodomizadas á força. Lembrou de como não conseguiu disfarçar a náusea ao ver pela primeira vez a filha recém-nascida e como correu pelo corredor do hospital até vomitar pela janela da escada de incêndio. E lembrou, acima de tudo, que sua mulher soube disso pela irmã, que tinha visto a cena sem entender. E que ele mesmo soube que a mulher soube, e nunca falaram no assunto. E a filha cresceu e, para puni-lo ainda mais, não era surda-muda. Ela não daria a ele o gosto de ser responsável pela sua destruição. Em suma: mesmo a náusea traumatizante de um pai que nega uma filha recém-nascida não seria capaz de tirar dela uma chance de futuro melhor que a dele. Então pensou na lotérica, nos recentes roubos de caixa. E pensou em como tinha se tornado um bandidinho escroque, aproveitando-se do fato de ser debilitado fisicamente. E de como se esfregava nas mulheres nas conduções, e elas não faziam nada porque ele não era capaz de falar ou escutar, porque alguém na condução havia atentado para este fato. E de como sorria sem ter pelo que sorrir. A vida toda. Então entrou no metrô como quem espera um raio. O resto era uma questão de minutos.

***
“Queria que você compreendesse que se fazendo de maluco você não vai deixar de ser enforcado, nem que te enforque eu mesmo. Portanto, eu não me importo nem um pouco em te dar mais mil choques no cu e arrancar suas unhas e deixar você numa salinha sem comida levando duchas de água fria a cada meia hora. Eu não acredito em você. E eu não quero falar com você. Mas vou falar com você. E você vai me dizer por que empurrou aquele sujeito no trilho do trem. Porque eu preciso dizer alguma coisa aos jornais, que agora só falam nesse assunto e na hipótese patética de você ter sido abduzido por um alienígena, o que denigre a corporação e é inaceitável. E, já disse, a mim pouco importa te cortar em pedaços ou deixar você morrer de frio, ou enforcado no próprio cinto. O que eu quero é saber a história real, porque essa imagem está rodando o mundo e, quer saber, dois garotos se mataram semana passada, da mesma forma, se jogaram nos trilhos, e sabe o que acharam na mochilas deles? Recortes de reportagens sobre você nos jornais. Então eu quero você morto, mas não quero você um ídolo. Só que morto você vai virar um ídolo e, veja só que coisa, temos aqui um dilema: manter você vivo como um parasita, mas com a verdade esclarecida, de modo que idiotas não possam se respaldar na sua doença mental; ou então podemos matá-lo, acabando com o caso, mas correr o risco de você virar uma espécie de mártir da sociedade asfixiada”.

“Eu já sou um mártir. Você sabe disso. Estou morto e vivo para sempre. Por isso você não pode me matar. Eu vou estar aqui, nos olhos de cada um dos seus prisioneiros. Eu vou estar nas ruas quando duas pessoas se esbarrarem e uma sacar a arma. Ali onde houver um garoto sem amigos num quarto fétido, eu estarei com um meio-sorriso cretino, meu chapéu de feltro, charuto na boca, virando a esquina”.

***

Menoti seguiu pela curva que levava até a zona de embarque olhando freneticamente por todos os lados, como um viciado em benzedrina. Qualquer um que pudesse prestar atenção àquele reles caixa de lotérica surdo-mudo poderia ver claramente alguém culpado por algum crime, alguém pedindo por uma cruz. Mas poucas pessoas prestam atenção às outras nas ruas, e o que se dirá de um surdo-mudo, caixa de lotérica?

Quando chegou na roleta olhou para trás, o tempo desacelerou por um instante. Havia uma engrenagem que estava à parte das nossas emoções e desejos mais profundos. E de alguma forma todos podiam saber quando se aproximava a parte de cada um desse óleo essencial que mantém os acontecimentos todos enigmaticamente associados. Joaquim Menoti, apesar de ser um ladrãozinho de caixa de lotérica pervertido e nauseado, era um homem melhor que a média. Reynaldo Mafra era um pobre coitado, com um bom coração despedaçado no peito, e nada mais melancólico e frustrante do que um bom coração despedaçado. Era um homem que não suportava mais, mas sabia o segredo. Ele havia lido O Livro, havia escrito no papel: “o câncer é a poesia da medicina”. A medicina era a vida. O câncer era a morte repentina. A poesia era a coisa rara. Ninguém soube, mas Joaquim Menoti sentiu um tremendo calafrio quando viu, passando pela roleta, olhando para trás como um fugitivo sem pernas, Reynaldo Mafra sem chapéu de feltro, sem charuto, aparecendo no fim da curva.


http://www.omarona.blogspot.com/


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quinta-feira, 11 de novembro de 2010

NEM TUDO TEM SENTIDO >> Fernanda Pinho

"Estou cansado da inteligência. Pensar faz mal às emoções" - Álvaro de Campos




Confesso: nunca – NUNQUINHA! – entendi o que é logaritmo, pra quê isso existe e pra quê isso serve. Sempre confundi platelmintos com nematelmintos e Jânio Quadros com João Goulart. Física? Acho que só aprendi a parte dos espelhos. Aquela que fala que as imagens refletidas refletem...o reflexo. Bom, já me esqueci também. Mas em compensação, quando o assunto era interpretação de texto sempre fui imbatível. Modéstia às favas. Vai ser talentosa assim lá longe para interpretar um texto. Qualquer fábula, qualquer poesia concreta, qualquer livro, qualquer problema matemático (que eu só não acertava por inabilidade para resolver as contas). Eu sabia interpretar de tudo. Tirava dez e ainda ganhava ponto extra.

E essas coisas que a gente nasce sabendo são assim. A gente não esquece. Trouxe esse talento para a vida. Infelizmente. Se eu pudesse voltar no tempo – mas voltar muito mesmo – eu negociaria com o Criador. Entregaria de bandeja essa capacidade de interpretar milimetricamente tudo o que acontece diante dos meus olhos por algum outro talento menos árduo. Resolver contas com números decimais, conversar com chimpanzés, fazer decoração em ovos. Sei lá. Tem tanto talento no mundo.
E o meu, sem querer me fazer de vítima nem nada, é um fardo. Primeiro porque – diferente das provas escolares – na vida, nem tudo tem uma resposta correta. Nem tudo precisa de interpretação. Interpreto a torto e a direito, como me convém. Ou não. A falta de resposta para um e-mail, por exemplo, é vista como descaso, caso eu esteja interessada pelo destinatário. Me sinto um lixo, a pior dos mortais, praguejo contra o mundo. Um apocalipse particular. Por outro lado, se o destinatário em questão é alguém que demonstra interesse por mim, interpreto a falta de resposta como charme. Necessidade de chamar minha atenção. No fim das contas, descubro que não era uma coisa nem outra. A resposta não veio porque não havia pergunta. Homens são assim. Simplistas. Simples.

E o “preciso conversar com você depois”? Ai, nada me tortura mais do que isso. Enfiem agulhas quentes embaixo das minhas unhas. Me tranquem num quarto escuro lotado de ratos e baratas. Me obriguem a tomar banho gelado às seis horas da manhã. Mas não digam que querem conversar comigo depois. Isso acaba com meu dia, com a minha pele, com meu estômago e com as minhas unhas. Meus neurônios trabalham a toque de caixa. Um busca um dossiê com todas as vezes que alguém me disse isso. Outro apresenta um infográfico contendo estatísticas sobre os assuntos abordados nessas situações. Outro busca exemplo na vida das minhas amigas. Outro interpreta o tom de voz do indivíduo. Outro decodifica os sinais corporais. Outro faz um levantamento de possíveis sinais emitidos pelo individuo nos dias que precederam a famigerada sentença. Milhões trabalhando a milhão. É tanta energia gasta que chega a ser frustrante quando tudo o que ele queria era perguntar se eu topava ir ao jogo quarta-feira. O que não chega a ser aliviante. Fico é com raiva, isso sim. Detesto suspense desnecessário.

Um “bom dia” em tom desanimado, uma carinha enviada displicentemente pelo MSN, um aperto de mão mais intenso, um “ei” vindo de quem está habituado a dizer “oi”, um “não” muito enfático, um “sim” não muito convincente. Tudo passa pelo crivo da minha mania de interpretar. Tudo ganha proporções imensas. Tudo é tempestade, mesmo sem nunca ter sido, ao menos, um copo d´água.

P.S.: Sabe o que me consola? Saber que não estou sozinha. Depois que escrevi esse texto, li num livro da ótima Martha Medeiros o seguinte trecho: “Nós (as mulheres), as reconhecidas como sensíveis e afetivas, somos, na verdade, máquinas cerebrais. Alucinadamente cerebrais. Capazes de surtar com qualquer coisa, desde as mínimas até as muito mínimas. Somos mulheres que nunca estão à toa na vida, vendo a banda passar, e sim atoladas em indagações, tentando solucionar questões intrincadas, de olho sempre na hora seguinte, no dia seguinte, planejando, estruturando, tentando se desfazer dos problemas, sempre na ativa, sempre atentas, sempre alertas, escoteiras 24 horas”.



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