quinta-feira, 30 de setembro de 2010

EM TORNO DO MEU UMBIGO
>> Fernanda Pinho



Conviver comigo e me agradar é muito fácil. Basta que se leve em consideração três fatores básicos. 1) Nunca me atraso. 2) Tenho pavor de verduras. 3) Não suporto que enfiem o dedo no meu umbigo.

E aí você - que não entende nada de dedo no umbigo - deve estar se perguntando: mas que bobagem, por que alguém enfiaria o dedo no seu umbigo? Não sei, o fato é que enfiam. Pode ser que haja alguma explicação física. Eu penso tanto na aflição de uma dedada no umbigo que talvez tenha criado em torno dele um campo de energia que atrai indicadores conhecidos ou não. Como um cara que cruzou meu caminho num samba. Eu lá, na maior alegria, cantando e supostamente sambando quando, de repente, tóin, um dedo no meu umbigo. Ele poderia ter puxado meu cabelo, jogado cerveja em mim, me queimado com cigarro, passado a mão na minha bunda. Mas não! Ele ultrapassou todos os limites da grosseria e da intimidade e enfiou o dedo no meu umbigo! Ato que não deve ter durado mais que um segundo, pois o agarrei pelo pulso e disparei: "Você está vendo essas pessoas aqui? Está vendo? Eles são meus amigos, me conhecem há anos e nunca, NUN-CA, encostaram o dedo no meu umbigo, porque eu não permito isso nem pelas pessoas mais íntimas. Quem você pensa que é?". Ele me olhou com cara de "coitada, esqueceu de tomar o remédio" e saiu. Porque, provavelmente, ele era apenas mais um insensível nessas coisas de umbigo. Ele e a maioria esmagadora das pessoas que acham que a minha dedonoumbigofobia é frescura ou deduzem que estou de brincadeira. Nem uma coisa nem outra.

Todo mundo tem aflição com alguma coisa. Minha irmã quase tem uma síncope se encosta em etiqueta molhada. Uma amiga tem ânsia de vômito quando vê carrapicho. E eu tenho vontade de explodir - no mau sentido - quando encostam no meu umbigo. E a aflição é tanta, mas tanta que eu chego a me incomodar com umbigos alheios também. Não gosto de ver as pessoas encostando nos próprios umbigos, muito menos nos umbigos dos outros. Piercing no umbigo? Socorro! Prefiro ser amordaçada. E umbigo de recém-nascido? Cruz-credo, deusmelivre, sai de mim!

É claro que, para o bem da minha saúde e da minha socialização, eu preciso abrir umas concessões, umbilicalmente falando. Por exemplo: eu lavo meu umbigo! E digo mais: todos os dias! Não é automático como lavar o pé. Claro que não. Há todo um procedimento e um carinho especial. É chato, mas fazer o quê? A vida tem dessas coisas: fila de banco, trânsito infernal, declaração de imposto de renda e hora de lavar o umbigo. Além disso, devo esclarecer também que tudo é uma questão relacionada ao tamanho da superfície de atrito. Em outras palavras: encostar um dedo no meu umbigo, nem pensar. Mas encostar uma barriga inteira, tudo bem (Sim, sou normal. Abraço pessoas, danço com pessoas e outras coisas mais. Podem respirar aliviados). Isso minimiza 90% do problema. Só não anula o problema porque as pessoas são gananciosas. Elas não se contentam com o barriga com barriga. Quando penso que não, tóin, dedo de novo. Eu me assusto, claro. Mas o autor do delito se assusta muito mais com o soar do meu alarme repleto de "você é doido?", "o quê que eu te fiz pra você estar tentando me matar" e "vai colocar o dedo no umbigo da sua mãe". A cena trash normalmente é seguida de muita risada e, como eu sou cheia de brincadeirinhas, acabam achando que é só mais uma e fica por isso mesmo. E acho até melhor assim. Pois quando percebem que o negócio é sério mesmo, as pessoas se sentem desafiadas. Ficam à espreita, aguardando pelo momento em que me encontrarão distraídas para, tóin, enfiarem o dedo no meu umbigo.

É estranho aos olhos dos outros e árduo aos meus próprios olhos. Ou vocês pensam que é fácil viver achando que o mundo gira em torno do meu próprio umbigo? Mas, como tudo na vida, também tem seu lado bom. Nesse caso, o bônus da aflição umbilical são as tantas histórias que tenho pra contar sobre o assunto. Foi por isso que, pensando sobre o que escreveria hoje, coloquei a cabeça entre as mãos, baixei o olhar para meu tronco e tóin, a ideia, umbigo!

p.s.: Não existe nenhuma metáfora no texto. Por dedo entenda: dedo. Por umbigo entenda: umbigo. Só pra constar.



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quarta-feira, 29 de setembro de 2010

QUE NÃO FALTE AMOR NEM DINÂMICA >> Carla Dias >>

Estamos acostumados, nos dias de hoje, a pensar a palavra DINÂMICA, principalmente no meio corporativo. Quem já não ouviu falar naquela “dinâmica de grupo”? São muitos os que já participaram de tais eventos, e um tanto de outros que fazem de tudo para fugir deles.

Também é comum ouvirmos/dizermos frases como “eles têm uma boa dinâmica”.

O Aurélio reza que dinâmica significa “Parte da mecânica que estuda o movimento dos corpos, relacionando-os às forças que o produzem. [Cf. cinemática e estática (1).]” A Psicologia, por sua vez, vem pensando a dinâmica como uma forma de identificar e resolver conflitos entre as pessoas. Essa definição não está no Aurélio, mas certamente tem muito mais a ver com a segunda definição oficial da palavra: “Mús. Graduação dos níveis de intensidade dos sons, durante a execução de um trecho musical, por meio de nuanças que vão do fortíssimo ao pianíssimo, quer em progressão mais ou menos lenta, quer em oposição brusca.”

A dinâmica musical, revestida com a liberdade poética que roubamos das emoções, o tempo todo, pode traduzir, quase que (des)cientificamente, a relação emocional entre os seres humanos. Na música, a dinâmica é uma deusa, capaz de promover o milagre de alicerçar uma composição, dedicando à execução da mesma a beleza necessária para colocar em sintonia o que, em qualquer outro fazer, seria impossível. Não se trata de intercalar rudeza com sutileza, bem com mal, de equilíbrio ou simetria, mas sim de criar essas pontes indeléveis que nos levam da excitação ao amansamento sem deixar a sensação de termos mudado de planeta ou de identidade.

Uma pessoa sem dinâmica pode ser triste ou feliz, mas jamais triste quando há tristeza e feliz quando há felicidade. Ela tende a se comportar como falastrona ou, então, calar-se completamente, mas não manter uma conversa na qual a paixão por determinado assunto aflore, alterando as nuanças da voz e dos seus gestos, ou mesmo silenciar para ouvir o que o outro tem a dizer, por curiosidade, apreço, que seja!

Gosto de pensar que dinâmica de grupo é como o que acontece em Across the Universe, filme com composições dos Beatles.



Quando alguém diz que uma música é capaz de contar parte de sua história, eu compreendo. As nuanças dessa obra cria a textura da nossa biografia. Pensamos que, ao sentir tal emoção, certamente escutaríamos aquele trecho da música, quando tudo parece tão sutil, calmo, e então vem o desfecho, muito mais avassalador. A dinâmica, nessa percepção, é mais do que necessária. Ela é todos os verbos utilizados para contar essa história. É ela que define com que força e com que sutileza lidaremos com os nossos sentimentos.

Como você quer viver a sua vida e contar a sua história? Qual é a sua dinâmica? Qual é a sua canção?








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terça-feira, 28 de setembro de 2010

O FAMOSO ESTRANHO >> Clara Braga

Recentemente, um professor meu veio me dizer que estava precisando de alguém para fazer a tradução do site da banda dele, pois a banda queria ter o site em português e inglês, então me perguntou se eu não faria isso para ele. Topei o trabalho, mas, tirando esse meu professor, eu não conheço ninguém da banda, pelo menos não pessoalmente.

Como eles estão sempre atualizando o site, eu sempre tenho tradução a fazer, o que faz com que eu entre no site diariamente, assista a todos os vídeos mais de uma vez, leia as últimas notícias, saiba quais foram os últimos lugares onde eles estiveram tocando, o que aconteceu lá e tudo mais. Ou seja, acabo sabendo demais de pessoas que eu nem sei quem são direito.

Até outro dia, não imaginei o quanto essa situação poderia ser curiosa e engraçada. Estava eu passando na rua e lá estava um dos integrantes da banda passando por mim! Foi tão esquisito, parece até injusto, eu estava lá sabendo um monte de coisas sobre ele enquanto para ele eu era uma simples estranha que por mera coincidência estava no mesmo lugar que ele aquela hora. Afinal, quantas pessoas que a gente nunca viu na vida passam pela gente em um dia? São tantas que não dá nem pra contar!

Se eu fosse agir por impulso, poderia talvez ter chegado lá, perguntado como ele estava, o que tinha achado do último show de Goiânia (apesar de eu já saber, pois ele colocou no site) e tudo mais, mas lógico que não fiz isso, eu mal tenho coragem de falar com quem eu conheço, imagina com quem eu não conheço.

Quando comentei o acontecido com minha mãe, ela riu e disse que já tinha passado pela mesma situação. Uma amiga que mostrava várias fotos da filha, contava a vida toda da menina para ela e, um belo dia, no mercado, lá estava a menina com o marido na fila do pão, vivendo a vida dela normalmente sem nem imaginar que ali tinha alguém que sabia mais sobre a vida dela do que ela poderia imaginar!

É uma situação mais ou menos parecida com a de encontrar um famoso no meio da rua, fazendo uma caminhada ou tomando um picolé, mas com uma diferença crucial, a pessoa famosa sabe que as pessoas ali sabem muito da vida dela. A filha da amiga ou o integrante da banda do professor nem imaginam isso, me sinto um pouco como se estivesse invadindo a vida dos outros.

Depois fiquei pensando que essa situação deve ser mais comum do que eu imagino, mas fiquei curiosa para saber se o contrário já aconteceu, será que algum dia eu estive em algum lugar onde alguém sabia muito sobre mim e eu nem sabia quem era a pessoa? Medo! Vou tomar mais cuidado com o que eu digo por ai em filas de padaria!

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segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O TESOURO >> Kika Coutinho

Era um final de semana de muito, muito, muito sol.

Nós, um jovem casal sem filhos, não tínhamos muito o que fazer com a leveza do nosso tempo vazio – mesmo achando que éramos ocupadíssimos – e resolvemos caminhar um pouco pelo bairro. Lá pelas tantas, paramos na padaria, para comprar uns picolés.

- Vamos nos abastecer? – ele propôs, já pegando uma sacolinha.
- Opa – respondi, sem precisar ser clara.

Escolhemos os sabores a dedo: groselha, limão, humm, pega mais coco, e tem tangerina? Tangerina é bom levar bastante. Levamos. Ninguém censura picolés em dia de calor.

Saímos de lá rumo à nossa casa, felizes, carregando nosso armamento para um final de semana de verão.

Quase chegando, na descida, uma obra. Ele para, se aproxima, olha o tamanho do buraco que cavaram no meio da nossa rua e puxa papo com um operário:

- Tá fazendo o que aí? - ele pergunta e o operário responde, uma série de explicações tolas, enquanto aproveita para enxugar o suor.

Eu, calada, chupando aquela gotinha do picolé de limão, senti pena, e cochichei para meu bem: “Coitados... Vamos?”

Ele sabia o que era, tirou três picolés da nossa sacolinha e entregou aos três rapazes que trabalhavam, sendo que o último, o do buraco, recebeu ali mesmo a oferta, feliz, ajustando o capacete.

Continuamos nosso percurso caminhando, calados, nos deliciando com o nosso doce e ainda carregando a sacola – agora, mais leve.

Chegando em casa, o porteiro nos recebe, com seu habitual boa-tarde. De camisa, coitado. Suando feito um bicho. Nos olhamos de novo, a sacolinha nas mãos, os palitos quase vazios nos dedos. Ninguém disse nada. Ele foi logo entregando um picolé pro porteiro, bem na hora, no mesmo instante, em que chega o faxineiro e o folguista, quanta gente trabalha aqui. Lá vai mais um, dois, tem mais gente? Pergunto. Tem, tem o Zé que tá na garagem. Leva pra ele. Tá. De nada, Tchau.

Subimos, jogamos a sacola já vazia no lixo e deitamos na sala. Nenhuma palavra sobre o tema. O silêncio que ecoava no apartamento, o sorriso, a alegria de um dia de verão apenas diziam que nada precisava ser dito.

Éramos o casal perfeito. A tampa e a panela, o chinelo velho e o pé cansado. Não precisamos falar para saber, não precisávamos perguntar para ter as respostas.

Ambos sabíamos que nosso tesouro, aquele que aparentava estar numa sacola cheia de picolés, não valia tanto assim.

Foi numa tarde de verão que eu percebi que todo meu tesouro, todo, todo ele, todinho mesmo, é feito apenas e tão somente de pequenos e silenciosos instantes.

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domingo, 26 de setembro de 2010

AS RATAS E DONA ANÉSIA
>> Eduardo Loureiro Jr.

Foi no Ratomóvel que chegamos à roça de Dona Anésia. Para quem não sabe o que é "roça" — eu não sabia —, trata-se daquilo que nós nordestinos chamamos de fazenda: uma propriedade rural. O Ratomóvel é o carro de Raquel, a Racutia, que, junto com Célia, o Racumim, encenam uma peça engraçadíssima chamada "Deu rato na biblioteca".

Voltávamos da Feira Literária de Unaí, em Minas Gerais, onde havíamos nos apresentado. Aceitei a carona das "ratas", embora minha casa estivesse longe do roteiro original delas. Estava com saudade de prosear com essas duas amigas queridas, tão diferentes e tão complementares. Foi de Célia a ideia de comprar uns queijos na casa da mãe de uma das organizadoras da Feira, na saída da cidade. À frente do Ratomóvel, nos indicava o caminho a neta de Dona Anésia. Quando o carro saiu do asfalto e enveredou por uma estrada de terra, perdi minhas esperanças de retornar logo para casa.

Eu estava cansado, quase exausto. Nos últimos três dias, havia acordado antes do nascer do sol e trabalhado por mais de oito horas, sem tempo para fazer minha caminhada, cuidar de meu primeiro romance, ler e editar os textos da Crônica do Dia, dentre outras coisas miúdas e prazerosas que gosto de fazer no meu dia-a-dia.

Depois de muitas curvas, os carros estacionaram no meio do tempo. Era como se fosse o mar, mas um mar feito de terra. Um mar de tons pastéis, em vez do mar verde-azulado de minha Fortaleza. Desci do ratomóvel e girei 360º, reconhecendo a paisagem feita de estrada, cerca, currais e casa. Lembrei de umas placas penduradas em postes de iluminação da W3, uma avenida de Brasília. Eram sete placas, uma para cada sílaba da frase: "Dê es-pa-ço ao tem-po".

Seguindo a neta, entramos na casa até encontrar a dona na cozinha. Até mesmo Dona Anésia parecia feita de terra. A pele marcada pelo sol e pelo trabalho. As roupas simples. A fala de vento, de árvores, de passarinhos. As palavras por vezes indecifráveis, carentes de tradução — quando percebiam minha expressão de incompreensão, Célia e Raquel interpretavam o significado para mim.

Fazia 8 anos que eu não ia ao sertão, ao interior. A última vez tinha sido durante os preparativos para o aniversário de 80 anos de minha avó, Vó Izolda. Eu havia percorrido, em sua companhia, as cidades em que ela havia vivido no interior do Ceará: casas estreitas e compridas em pequenas cidades, e a vastidão da casa-grande e da fazenda Veneza; o pó e os solavancos das pequenas estradas. Percebi que os últimos anos tinham sido de asfalto e cerâmicas. Mesmo o barro vermelho de Brasília surge tímido entre o cimento e os gramados.

Naquele final de tarde, sentado num banco duro de madeira, sem encosto, esgotado de trabalho, eu deveria querer um banho e a minha cama, mas não quis; eu deveria reclamar daquele desvio de caminho e do atraso, mas não reclamei. Eu estava espantado de querer estar ali onde eu estava. Eu, homem da cidade, com vontade de ser bicho do mato. Conheci a horta de Dona Anésia e as árvores frutíferas de seu pomar — comi um tomatinho amarelo sem formato de tomate. Encarei, olho no olho, o boi amarronzado, ferrado no rosto — e senti a dor do ferro incandescente em meu corpo. Pisei o chão cheio de pegadas e caca e bosta e titica de animais de todos os tamanhos — e inalei sem desgosto o cheiro forte de tudo que é vivo.

Voltamos para o banco de madeira, enquanto Dona Anésia preparava um café. "Não bebo café", eu disse. "Quer um leite?", Dona Anésia ofereceu. E eu disse que não, pensando talvez em leites de caixa e de lata. Mas o leite que Dona Anésia me ofertava estava em um balde de alumínio, recém-ordenhado; eu mesmo vira um vizinho de Dona Anésia depositá-lo à mesa e recusar o pagamento do serviço. Eu fora lá conferir o leite, e ele ainda espumava, apetitoso. Mas eu não lembrei disso quando Dona Anésia me ofereceu leite, e fiquei apenas com o pão de queijo, que parecia também ter terra como ingrediente. "Tu és pó, e ao pó voltarás". Foi assim que me senti: em instâncias de morte. Algo em mim morreu na cozinha simples da roça de Dona Anésia.

Na despedida, ainda sem pressa de voltar para casa, abracei Dona Anésia como se fosse minha avó, com respeitoso carinho. Completamos a carga do Ratomóvel — já tomado por cenografia, fantasias e violão — com algumas peças de queijo e uma muda de flores pequenas, de cinco pétalas, de um vermelho quase roxo. O ratomóvel foi roendo poeira até chegarmos ao asfalto e pegarmos a direita rumo a Brasília.

Foi como sair de um sonho para entrar em outro. Raquel dirigia o carro e a conversa: aventuras de duas amigas encenando sua peça pelo Brasil. Risadas, mágoas, sucessos e vergonhas na voz firme de Raquel e na fala amena de Célia ao pé do ouvido, do banco de trás para o banco da frente. Tem gente que a gente gosta muito embora veja pouco. Amizades feito sertão, amplas, quase inalcançáveis — espaço que se dá ao tempo. Encontros esparsos.

Cheguei em casa no meio de uma história. Raquel encontrando familiares que não conhecia, descobrindo ingenuamente, no Google, parentes de que nem sabia a existência. Espaço que o tempo deu para que o encontro fosse de amor. Desci do carro sem pressa de ouvir o final, ou o começo, ou os detalhes. Fica para uma outra vez. Espaço dado ao tempo é paciência, é mistério, é fé. É roça de amor no sertão da existência.

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sábado, 25 de setembro de 2010

QUANTOS SÃO OS SEUS MEDOS?
[Maria Rita Lemos]

Ter medo é um dos instintos básicos, inatos, do ser humano. Portanto, não há que se espantar com esse sentimento. É fácil percebê-lo, logo após o nascimento: se segurarmos um bebê recém-nascido pela cintura, jogando-o para cima e pegando-o novamente, ele apresentará todas as reações indicativas do medo: taquicardia, sudorese, choro, etc.

Muitas vezes, as pessoas que têm medo de tomar decisões e atitudes, sejam elas de pequeno ou grande porte, acreditam que são apenas "prevenidos"... essa é uma racionalização muito comum para esconder o que mais tememos: o fato de ter medo, realmente. Que, naturalmente, batizamos como prevenção, receio, além de outros nomes, para amenizar o que estamos sentindo.

Tem gente que se gaba de não ter medo de nada, e passa a recalcar qualquer coisa que lembre os seus temores mais ocultos. No entanto, admitir o medo é importante. Na verdade, é o primeiro passo, na maior parte das vezes, para que consigamos solucionar muitos de nossos problemas.

Não temos medos apenas de pessoas, vivas ou não, ou de situações: temos medo de atitudes que, muitas vezes, estão mascaradas, apresentam-se assim para não mostrar o temor, e isso é inconsciente. Assim, há pessoas que temem decidir e errar com a decisão tomada; gente que tem medo de se ferir, descobrindo algo que teme, mas sabe que está ali, bem à sua frente (medo de olhar de perto aquilo que nos faz sofrer); temos medo, às vezes, de dizer coisas que levem a interpretações errôneas, e assim, preferimos nos calar a correr esse risco. Temos ainda os medos mais conhecidos e famosos: medo da violência, de doenças incuráveis (e até curáveis!), de ladrão, de solidão, de ficar desempregado, de não conseguir pagar as contas no final do mês... medo ser rejeitado(a), de amar... ah, como é terrível o medo de amar! Temos ainda medo daquilo que é impossível de fugir, como da velhice e até da morte, única certeza de todas as criaturas viventes!

O medo, quando dentro de um quadro em que é possível lidar com ele, é até benéfico, na medida em que faz parte de nosso instinto de sobrevivência. Para que os nossos medos não fujam de controle, é preciso que eles sejam equilibrados pela razão e pelo bom senso. É preciso usar esses amigos, chamados razão e bom senso, não para fugir de nossos medos, mas sim para com eles acender a luz de nossas emoções e tomar contato com aquilo que tememos. Nesse momento, lembro-me de mamãe, e peço desculpas aos meus leitores e leitoras por tantas vezes em que falo em meus pais: é que aquilo que aprendi com eles, escola nenhuma me ensinou. Ou seja, as escolas deram nome e forma àquilo que eles me ensinaram desde pequena. E mamãe dizia, sempre, que muitas vezes o medo é maior do que aquilo que temos que fazer. E que quando encaramos e fazemos, o medo parece ridículo! E não é que ela tinha razão? Em outras palavras, ela estava dizendo o que os compêndios de psicologia dizem com outras palavras, ou seja: acenda a luz e encare seu medo, em vez de fugir dele... de repente, aquilo que mais tememos pode não ser tão temível assim! O importante, para não deixar que os medos nos carreguem, é tirar o peso dos ombros, relaxando, confiando na vida e tendo certeza de que coisas boas virão, se esperarmos por elas. Não temos que assumir responsabilidades por ninguém, basta-nos as nossas próprias limitações... cada um pode e deve viver sua vida. Inclusive as pessoas que mais amamos. Saber isto e viver isto já alivia, e muito, o medo em relação aos seres amados. Talvez seja o momento de perguntar: tenho medo do quê? De perder prestígio, amores, amigos? Bem, quem gosta realmente de nós não está preocupado com nosso prestígio, ou com o que temos, mas sim com o que somos e com o que significamos na vida deles. O mundo não vai desabar se soltarmos os problemas, se descansarmos deles, pelo menos daqueles que não são necessariamente nossos.

Vale, também, um momento de reflexão e questionamento: será que estamos fazendo o que realmente gostamos, estamos vivendo a vida que escolhemos, ou nossa vida é apenas aquilo que querem de nós, que escolheram para nós? Se a resposta for a alternativa "b", o medo com certeza está presente. Quando se vive pelos outros, no modelo do que querem de nós, é claro que o medo é maior, até o momento em que uma doença vem e nos faz parar com tudo. Aí as pessoas que esperam que façamos tudo por elas vão aprender a se virar sozinhas, com certeza. Tomara que não precisemos disso para reagir e perder o medo de fazer o que queremos e ser como gostaríamos!

Coragem não é apenas aquilo que se faz "por fora", os atos de heroísmo que implicam salvamento de outras pessoas, atos de bravura, que saem nos jornais e são elogiados. A coragem verdadeira começa dentro de nós, no momento em que acendemos a luz da razão sobre nossos medos, e eles deixam de ser tão ameaçadores. A coragem autêntica nos impele à mudança, a uma nova forma de ser, talvez mais solta, com certeza mais feliz.

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sexta-feira, 24 de setembro de 2010

MORENO >> Leonardo Marona

A diretora teatral Marisa Sovaripe saiu do teatro antes do início do terceiro e último ato. A estréia estava perdida. Do início ao fim foram gaguejos, erros de iluminação, pessoas bufando e bocejando alto, um celular que tocou duas vezes, sendo que na segunda vez a pessoa atendeu. De cima da arena ela olhou para as caras dos espectadores e viu claramente que deveria ter dividido a peça em dois atos, talvez um. Três tinha sido um erro amador. Luca Borindelli, o grande ator de voz rasgada, coração frágil e fígado cinza, havia sucumbido duas vezes em cena. Na primeira, a reação dos demais atores foi tão espontânea que a platéia primeiro riu histericamente, depois aplaudiu de pé, quando as luzes se acenderam para os gritos de “não posso mais!” e “vou morrer!” de Borindelli, espatifado e com as mãos em volta do pescoço, azul do queixo pra cima, ao pé da coxia. Na segunda vez, passou mal e vomitou, justamente na cena crucial do segundo ato: a guilhotina de Danton. Luca tinha recebido uma terrível notícia às cinco da tarde do dia da estréia. Descobriu que o filho que vinha sustentando com uma pensão mensal de 15 milhas há dez anos, mesma idade do pivete e do bom tempo que se manteve longe de Vandinha, mãe das 15 milhas, na verdade não era seu filho, mas sim de um tal Janjão, que tinha aparecido do nada com um exame de paternidade, decidido a assumir a criança. “Bem na estréia! E não podia esperar mais um dia pra descobrir que é um otário? Justo na guilhotina...”, pensava Marisa no pátio do teatro, fumando um cigarro e chorando discretamente.

De repente saiu pela porta Rony Andrazzo, ator, conhecido pela famosa cena de sexo anal explícito que fez na versão brasileira de Half Body Jobs, e também por ser um homossexual assumido, apesar de admitir que só consegue gozar com mulheres. Marisa viu que ele vinha na sua direção. Olhou então para uma quina qualquer e pegou o celular na bolsa. Apertou uns botões e colocou o fone no ouvido para ver se Rony passava direto por ela sem dizer nada. Não queria encarar ninguém agora, quanto mais um ator, ainda por cima afetado e bem-sucedido. Mas Rony veio direto na sua direção, tímido mas irredutível. Tirou um cigarro e esticou na frente de Marisa enquanto ela dizia que “tudo bem, a gente fecha com o Abel e mete no cu daquelas putas do Le Bronx!”, com o dedo pra cima e cinzas presas nos cabelos. Virou, viu Rony com a mão esticada, tampou por um segundo com a mão o fone, “Rony, um minuto, sim?”, acendeu seu cigarro e voltou a falar. “Isso... Sim... Claro... Umas vagabundas! Tudo ratazana, mau caráter! Isso... Faz isso e depois me liga”. Desligou e não chegou a rir para Rony, nem perguntou da peça.

- Nossa, Marisa, o Luca... Meu deus... O que foi aquilo?

- Responde você... Que também é ator, e também é bicha.

- Afe! E tu viu o que aconteceu lá na tua terra?

- Hum...

- Moreno, mulher! A cidade foi alagada ontem, você não soube?

- Não. Já faz tanto tempo... Nem sei mais de Moreno.

- E tu vai lá no Amalfitana encontrar a classe depois daqui?

- Não. Eu já encontrei a classe e vou com ela pra casa dormir e quem sabe, se a classe permitir, fazer a Maitê injetar novocaína na minha veia.

- Quem é Maitê?

- Minha aranha camelo que eu trouxe do Iraque, quando passei as férias.

- Não sabia que você tinha passado as férias no Iraque...

- Nem eu. Senão você acha que eu teria ido?

Marisa deu dois tapinhas na bunda de Rony – que deu dois pulinhos nas pontas dos pés –, então foram quatro mãos em quatro bolsos e saíram do teatro andando, um do lado do outro. Foi aquela típica situação incômoda, quando uma pessoa se despede de outra que já não quer mais ver por ora, mas as duas vão para o mesmo lado. Foi o que aconteceu. Exceto que Marisa parou no primeiro pega-bêbado, logo na esquina, e pediu uma dose de conhaque e um suco de manga. Rony seguiu adiante e entrou num táxi. Essas bichas e esses motoristas de táxi, pensou Marisa com a cara murcha e os ombros curvados sobre o balcão, quando seu conhaque chegou. Tomou de um gole. Lembrou do vômito de Luca em cena. Quase vomitou também. Tampou a boca mas sentiu a quentura do conhaque lhe descer pelas narinas. Seu suco de manga chegou. Os olhos choravam sozinhos e a boca bebia rápido. Essa é uma combinação perigosa, pensou. Olhou para o céu. A impressão era de que as estrelas estavam mais distantes e mais vermelhas. Muito vermelhas. Indo para longe. O universo em expansão. A lambda de Einstein. Marisa ficou tonta e foi dormir.

Virou a chave, entrou e se jogou no sofá da sala antes de pensar. Depois pensou e isso sempre fede, mas não chega a tanto. Era merda. Merda de gato. Levantou furiosa para pegar a escova e o desinfetante.

- Gata prostituta! – esbravejou para dentro do quarto.

Enquanto esfregava o forro do sofá, um vulto apareceu por debaixo da mesa. Era uma sombra congelada com um rabo que parecia uma cobra atiçada, para frente e para trás. Marisa parou de esfregar, fez silêncio, mas não se virou imediatamente. Esperou até que a sombra do rabo parasse de ir para frente e para trás. Então se virou de supetão e agarrou uma gata malhada com as duas mãos, apertando com firmeza. – Gata vagabunda... Fora daqui! – e jogou a gata pela janela do apartamento. Era no primeiro andar e a gata caiu de uns cinco metros de altura, mas em pé e sem fazer barulho. Marisa terminou de esfregar sua poltrona, viu que tinha 32 ligações não atendidas no seu celular, que ainda estava silencioso, entrou no banho, tocou uma siririca e foi se deitar. Sexo pela metade só faz pensar na outra metade, concluiu nua e deitada, enquanto começava a greve dos carneirinhos que pulam cerca pra gente dormir contando. Chorou mais um tanto e adormeceu sobre uma poça de baba com lágrimas no travesseiro.

E lá está Marisa com doze anos, as meias puxadas até quase os joelhos, num aquário enorme e cheio, onde casas, charretes, pedaços de carne pendurados, corais de igreja, zabumbas e mercearias bóiam em volta da sua cabeça.

Agora Marisa tem 12 anos e está andando de mãos dadas com a irmã mais velha para descobrir os caminhos do comércio de Moreno, enquanto cada dupla do resto dos seis irmãos desempenha uma outra função. Um filhote de veado chamado Bambi está trancado no quarto de Marisa, comendo seu jogo de cama, já que a nova casa não tem quintal. Marisa e a irmã já rastrearam o caminho da farmácia, a duas ruas à esquerda e uma esquina de casa, da mercearia, a cinco postes de luz entrando na primeira à direita, da padaria, duas paralelas para trás da casa. Na volta, Marisa tagarela sem parar enquanto a irmã mais velha apenas resmunga e esfrega o nariz com a manga da camisa. Passam por uma casa com um belo quintal e cinco anões de jardim, apenas cinco, com uma branca de neve derrubada no chão, sem o nariz de gesso. De dentro da casa ressoa uma espécie de cravo mal tocado e um canto sacro num tom monótono e constante, com umas guirlandas se batendo. Algumas pessoas vestidas de preto comem e bebem caladas em pé no quintal. Marisa entra correndo sem dizer nada à irmã mais velha que, mantendo a linha, não diz nada também e fica na cerca.

Lá dentro está um caixão aberto, com um homem dentro. Não há ninguém na casa além de uma mulher com um lenço preto sobre a cabeça. Marisa espia de longe e logo de cara se impressiona com três coisas na mulher: seus cabelos, muito loiros e pintados de um forte amarelo; suas unhas, vermelhas, compridas e pontudas demais para um enterro; seu choro, o mais alto e compulsivo que já ouviu. A mulher chora, se debruça no caixão, se levanta e passa as mãos com aquelas unhas enormes e vermelhas pela cara. A viúva se chama Dorinha. Tem três filhos: Jairo, 12, é o mais velho e o mais chato, diz que quer usar farda a todo custo e cospe nos irmãos. Francisco, 10, é o do meio e já meio afeminado, diz que vai ser político; Rômulo, 8, é o caçula, afeminado como Francisco, mas ainda não sabe o que isso quer dizer. No caixão está o pai das crianças e corno convicto, Cândido Ramalho.

Agora passaram-se seis anos. Jairo usa a tão sonhada farda e fala como um robô programado sobre “regras da empresa” e “métodos de conduta”, na porta de uma fábrica de meias. Continua chato. Francisco é presidente do grêmio estudantil, mas gosta mesmo é do carnaval de Olinda, onde pode dar sem culpa para quem lhe der na veneta. Rômulo ainda não sabe bem que é um efeminado, mas todo dia enfia a tampa do condicionador na bunda e senta no chão, e depois deita na cama chorando. Dorinha agora está noiva depois de três maridos, todos negros de um e noventa, que morreram menos de um ano depois de cada separação, o que deu a Dorinha o apelido de Cova Rasa nas bocas miúdas e malvadas da cidade. É uma mulher de traços horripilantes, apesar de se enfeitar toda com cores muito carregadas nos lábios e olhos, os cabelos agora exaustivamente alisados e alaranjados, e as unhas muito compridas e pontudas que ainda fazem Marisa abrir a boca toda vez que olha. O novo marido de Dorinha se chama Satanás. É um negro de um e noventa e seis, um faz-nada, um encostado simpático que traz sorvete para os garotos de tarde e tem um Opala 71 com o estofado de pelúcia numa cor laranja gritante, que Francisco apelidou de Carruagem de Fogo. E toda tarde os garotos da rua vão até os portões de suas casas e gritam, assim que Satanás dobra a esquina: “Lá vem o diabo com sua Carruagem de Fogo!”.

O veado de Marisa criou chifres e teve que ser “solto na mata”, como disse seu pai. Marisa passou dois meses chorando abraçada nos trapos onde Bambi dormia. Dado que no sertão não há mata, dali a dois meses uma ossada foi encontrada por um vizinho e, pelos chifres, todos sabiam que se tratava do que sobrou de Bambi. Fizeram um enterro solene, o pai de Marisa vestiu fatiota e tocou a marcha fúnebre numa corneta que mantinha dos tempos da infantaria. Mas Marisa não apareceu. Nem os meninos de Dorinha. Nem Dorinha, que não era muito bem vista na cidade. Ou melhor, ela era muito bem vista, sim, todos os homens, por mais feia que fosse, queriam entrar na sua casa. Mas em Moreno as mulheres batem nos homens como um executor romano, então poucos se arriscavam.

As brigas entre Francisco e Jairo eram cada vez mais violentas. O irmão mais velho não admitia que Francisco fosse, como chamava, “um pederasta fio de rapariga!”. E sempre que Jairo o chamava disso, Francisco se ofendia e entrava no pau, não exatamente do modo como havia imaginado desde pequeno. Marisa tinha que separar as brigas e normalmente apanhava também. Um dia Dorinha puxou Francisco pelo braço e o sentou numa poltrona na sua frente.

- Chico, meu filho, tu é pederasta ou não é? Por que não se resolve de uma vez? Pensa que eu nasci ontem?

- Isso não interessa, maínha. O que eu não admito é que o Jairo chame a senhora de rapariga.

Dorinha deu um sorriso franco, mostrando sua chapa reluzente de dentes postiços, e abraçou Francisco que, muito sensível, desatou a chorar.

- O teu irmão Jairo é um chato... Puxou paínho... E tu puxou a mim.

Um pulo no tempo e estamos no carnaval. Todos já voltaram para suas casas e muitos dormiram mesmo dentro das fantasias. Marisa acorda com a claridade de um lampejo na sua janela, cuja sombra dança pelo teto do quarto. Levanta de um pulo e olha um garoto correndo para fora de casa, em chamas, com as mãos para cima, ainda na sua fantasia de padre presbiteriano. O fogo na casa está alto. O garoto se joga no chão e se debate no silêncio absurdo da noite sertaneja. O barulho das madeiras se entortando e das brasas crepitando se junta aos grilos e sapos. Marisa demora para entender o que é aquilo que vê da sua janela. Coça os olhos, que ardem com o impacto do fogo alto. O garoto ainda se debate no chão e ninguém aparece para ajudar. “Mas não é a casa de Dorinha?”, grita Marisa assustada. E corre para acordar os pais. O garoto em chamas é Francisco. O resto da família está morto. Pelo laudo ainda se dá a presença de dois homens negros e altos, um fantasiado de diabo, encontrado ao lado de Dorinha na cama, e outro de cangaceiro, que estava debaixo da cama. Francisco está vivo, mas com oitenta por cento do corpo carbonizado.

Meses depois foi divulgada a origem do incêndio. Um cigarro aceso, certamente na mão de Francisco enquanto dormia na poltrona da sala, portanto, o único que teve tempo de correr, por estar mais perto da porta. Marisa se mudaria dali a meses sem se despedir do amigo, sem saber como fazê-lo. Nunca mais tocariam no assunto. Francisco se suicidaria anos mais tarde quando, numa eleição para prefeito, o oponente mais direto traria à tona a história do incêndio alegando que “um homem que mata sua família por negligência não tem responsabilidade para governar Moreno”. A imprensa marrom rapidamente tomou o assunto como manchete, e Francisco foi perdendo votos e a estima. Por onde passava ouvia os murmúrios das carolas fofoqueiras: “lá vai o Homem Tocha” e “que absurdo, pederasta e ainda por cima botou fogo na mãe e nos irmãos” e “dizem que a mãe era uma rapariga e que o irmão mais novo também era pederasta” e “Ai, deus me livre e guarde!” e sinais da cruz. Muitos sinais da cruz. Francisco correndo em chamas. O esqueleto de Dorinha com as unhas pintadas de vermelho. A Carruagem de Fogo de Satanás.

Marisa acorda num pulo bastante suada. Fica um minuto até recobrar a consciência. Levanta e vai até a cozinha. Umas seis da manhã e a vida está morta nesse horário, mesmo no rosto de quem sai às ruas. Ela bebe três copos cheios d’água. Bebe tão rápido que um pouco escorre pelo seu queixo. Os olhos de Marisa estão pequenos e turvos, congestionados de lembranças ruins. Suas mãos tremem. Ela se senta à mesa da sala e abre o jornal. Larga o jornal na mesa. Leva a mão ao peito. Está descompassado. Torna a abrir o jornal. Na editoria cultural sua peça está sendo escorraçada, com uma foto de Luca Borindelli em close chorando estendido no palco com as mãos na frente da câmera e o título: “Peça mal montada termina em papelão”. Ela joga o jornal com toda força uma, duas, três vezes na parede. Ele cai no chão já bem amassado. Ela apanha, aperta na mão e bate com força a mesma mão na parede, umas cinco vezes. Depois se entrega à mesa com os braços e chora. Ouve arranhões na porta do apartamento. Abre a porta e lá está sua gata malhada, olhando para ela com seu rostinho redondo, as pupilas estreitas, a mancha escura na ponta do nariz, espreguiçando-se com timidez. A gata solta um miado como se dissesse “tudo bem, mama, estou aqui”. Depois entra com o rabo espichado e se esfrega na perna de Marisa, que fica ali parada, olhando para baixo. A enchente de Moreno trouxe de volta os incêndios da vida de Marisa. Só resta a ela agora preparar o café.


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quinta-feira, 23 de setembro de 2010

PUTARIAS DA VADIA SÁDICA >> Fernanda Pinho

Acabo de ler "Travessuras da menina má", de Mario Vargas Llosa. E, preciso dizer, foi com muito custo que cheguei às últimas páginas do romance. E não é que eu não tenha gostado do livro. De jeito nenhum. Ele simplesmente furou uma fila enorme e já se acomodou entre meus cinco livros preferidos. E é justamente por isso que demorei tanto para terminar. Quando eu gosto muito dos livros eu o economizo. Não quero me desapegar e chego a um ponto de - acredite - ler duas míseras páginas por dia pra fazer durar mais. Mas - a vida tem dessas coisas - o livro chegou ao fim. Às lágrimas, tive que me despedir da menina má e de Ricardo, homem que a amou uma vida inteira. Não há muito o que eu possa dizer sobre a menina má pois, tanto no livro quanto na vida de Ricardo, ela nunca deu muitas explicações sobre quem era, de onde vinha e para onde ia. E, assim, viveu durante décadas. Entrando e saindo da vida do pobre Ricardo, que sempre ficava aos pedaços a cada vez que ela resolvia cair no mundo novamente, sem dar uma satisfaçãozinha que fosse. Ela aprontava. E Ricardo sabia disso. Ela não prestava. E Ricardo sabia disso também. Sabia porque o que ele sentia por ela não era uma paixão. Era amor e o amor, ao contrário do que diz o senso comum, não é cego coisíssima nenhuma. O amor enxerga muito bem, mas releva o que vê. O amor é essa capacidade de se entregar ao outro apesar de. O ótimo e eufemístico título do livro de Mario Vargas Llosa é praticamente um spoiler, porque traduz tudo o que vem por aí: a história do amor de um homem por uma mulher. Um amor tão grande que ele é capaz de considerar todas aquelas putarias, sacanagens e mentiras como meras travessuras. Para ele, aquela vadia, amoral e imoral não passa de uma menina má.


Guardadas as devidas proporções, essa reflexão me lembrou de um episódio do seriado Friends, no qual o personagem Ross decide fazer uma lista enumerando os defeitos de Julie (a mulher com quem ele está namorando) e outra igualzinha para Rachel (a mulher que ele ama). A lista de defeitos da Rachel flui rapidamente. Sem titubear, Ross consegue enumerar defeitos físicos e psicológicos que vê na mulher que ele ama desde a adolescência. Para a lista de Julie, no entanto, ele encontra mais dificuldade. Porque ele a acha linda, fofa, inteligente, engraçada. Para ele, Julie só tem um defeitinho filho único. Unzinho só: ela não é a Rachel. E, se ela não é a Rachel, ela não basta. A Rachel é o ser amado e o ser amado pode ter quantos defeitos forem. O ser amado pode tudo.

Nós amamos uma pessoa por tudo o que ela é. E o que ela é inclui seus defeitos. Ninguém explica e ninguém entende o que faz a gente amar aquelas manias, aqueles desvios de caráter, aquele rosto sem muita harmonia. A gente ama e pronto. Mesmo que aquela pessoa não faça nosso "tipo". Esse negócio de "tipo", aliás, é o papo mais furado do universo. Você pode até se sentir atraída fisicamente por morenos, altos e meio nerds. Mas se o amor escolhe pra você um loiro, baixo e meio hippie você vai aceitar feliz e nem vai pedir recall. O amor é assim. Pelo menos é o que eu acho. Certeza eu não tenho de nada. E o que me consola é saber que ninguém tem.

www.blogdaferdi.blogspot.com


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quarta-feira, 22 de setembro de 2010

HISTÓRIAS E TEMPORADAS >> Carla Dias >>

Uma amiga me disse que eu só gosto de séries de televisão que acabam na primeira temporada. Em parte, ela está certa, mas apenas em parte.

A verdade é que, assim como o cinema, não tenho pudores ao escolher as séries para acompanhar. Ao assistir o primeiro episódio, eu já sei se vou continuar ou não a me embrenhar no tal enredo. Mas o problema realmente não sou eu ou todas as outras pessoas que também ficam loucas da vida quando uma série que adoram não passa dos doze episódios.

Na verdade, trata-se do que disse Joey Elliott, vocalista da banda Def Leppard, na sua passagem pelo programa Live from Abbey Road. Antes, uma banda tinha uma margem de três discos para se posicionar e no quarto estouraria. Hoje, elas não chegam sequer ao terceiro disco se não dão lucro. O mesmo acontece com as séries de televisão: elas não têm tempo de serem desenvolvidas.


Obviamente, nem todas as canceladas são fantásticas e prejudicadas pela urgência de ibope. Algumas são ruins mesmo! Mas eu adoraria saber o que viria a seguir nas vidas de Jacob Hood, o cientista da série Eleventh Hour, interpretado por Rufus Sewell que é um ator de primeira linha, ou se haveria mesmo outro apagão em FlashForward. Adoraria ver o Dr. Jack Gallagher (Chris Vance) analisando outros tantos pacientes na clínica psiquiátrica, enquanto lida com seus próprios demônios, em Mental. Queria muito saber aonde acabariam os publicitários de Trust Me, série que contava com o talentoso Tom Cavanagh, que participou das séries ED e Love Monkey, e Eric McCormack, que fez muito sucesso vivendo o gay de Will & Grace. E a série que mais lamento não ter passado de 16 episódios é Moonlight. Para mim, entre as séries com vampiros nos papéis principais, Mick St. John (Alex O’Loughlin) e sua insistência em manter seu lado humano, era o que mais prometia.

Joey Elliot está certíssimo... Quatro é um número interessante para quem aposta no que tem nas mãos. Mas na urgência que rege a modernidade, tudo tem de ser para ontem, o que é uma pena, pois acabamos perdendo a oportunidade de conhecermos não apenas boas séries de televisão, grandes discos, livros fantásticos, mas também de compreendermos que nem tudo, tampouco todos, precisam ter aquela forma que os encaixam nos primeiros lugares das grandes listas dos mais-mais. Sem contar que gosto é o tipo de coisa que varia descaradamente de um para outro. Meu gosto não costuma ser frequentador de top list.

O que a minha amiga não percebeu é que também adoro algumas séries que tiveram apenas duas temporadas. Mas o bom é a força que a internet nos dá quanto a isso. Antes, dependíamos da reprise nas emissoras de televisão, mas hoje temos a internet. Então, tudo vira arquivo e pode ser acessado. Podemos olhar para trás e decidirmos o que realmente era bom.

AS MINHAS SÉRIES PREFERIDAS
Canceladas ou não


24 Horas
7th Heaven
Ally McBeal
Angel
Bones
Boston legal
Boston Public
Brothers & Sisters
Californication
Castle
Chuck
Cold Case
Commander in Chief
Criminal Minds
Crossing Jordan
CSI: Crime Scene Investigation
CSI: Miami
CSI: NY
Cupid
Dark Angel
Dead like me
Deep Blue
Dexter
Drop Dead Diva
ED
Eleventh Hour
Eli Stone
ER
Everwood
Flashforward
Friends
Fringe
Ghost Whisperer
Glee
Gravity
Grey's Anatomy
Grounded for Life
Heroes
House M.D.
How I Met Your Mother
In Plain Sight
Isis
Joan of Arcadia
John Doe
La Femme Nikita
Law & Order: Criminal Intent
Less Than Perfect
Lie to me
Life Unexpected
Lost
Love Monkey
Medium
Men in Trees
Mental
Miami Medical
Moonlight
My Boys
NCIS
Nip/Tuck
Numb3rs
Parenthood
Party of Five
Private Practice
Providence
Pushing Daisies
Rubicon
Samantha Who?
Saturday Night Live
Sex and the city
Shark
Sienfiled
Six feet Under
Strong Medicine
Studio 60 on the Sunset Strip
Supernatural
Tell me you love me
Terminator: The Sarah Connor Chronicles
The Big Bang Theory
The Cleaner
The Dead Zone
The Forgotten
The Good Wife
The Incredible Hulk
The Mentalist
The Middle
The New Adventures of Old Christine
The O.C
The Philanthropist
The Pretender
Third Watch
Touched by an Angel
Tru Calling
Trust Me
Two and a Half Men
Ugly Betty
White Collar
Will & Gracie
Witchblade
Without a Trace
Wonder Woman
Wonderfalls
X-Files

E um pouco de Def Leppard...









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terça-feira, 21 de setembro de 2010

O TEMPO DO TEMPO >> Clara Braga

Esses últimos dias têm sido tão corridos que eu nem tenho visto o tempo passar, é tanta coisa pra fazer que o dia parece ter 12h e não 24h. Eu sei que é comprovado, o tempo é sempre o mesmo todo dia, mas atire a primeira pedra quem nunca sentiu o tempo passar mais rápido ou mais devagar.

Com certeza não fui só eu, afinal, quantos historiadores e filósofos já escreveram sobre o tempo? Desde a época de Platão, o tempo já é um tema famoso! Quantos filmes têm o tempo como tema principal? E na música então, Cazuza mesmo já dizia que o tempo não para, Caetano Veloso tentou fazer um acordo com o tempo, Renato Russo disse que temos todo o tempo do mundo e também que não temos tempo a perder, enfim... muitos outros também já escreveram sobre o tempo, mas eu nem preciso ir tão longe assim, quem nunca recorreu àquela famosa frase quando já não sabia mais o que dizer a um amigo: "Com o tempo tudo se resolve".

Acho que eu sei por que o tempo é tão famoso e intriga tanto o homem, é porque não podemos controlá-lo, ele sempre vai passar da mesma forma todo dia, a gente não pode fazer o tempo passar mais rápido nem podemos correr do tempo, mas ninguém me convence de que o tempo passa da mesma forma quando eu estou na sala de espera do dentista. Tenho certeza que nessas horas alguém aperta o botão "slow motion".

Às vezes, eu também gostaria de poder voltar no tempo, não pra mudar alguma coisa, mas pra viver alguns momentos novamente. Duvido que exista alguém no mundo que nunca quis reviver um momento.

Mas, enfim, deixando toda essa filosofia de lado, eu só sei que o tempo é o todo-poderoso que tem a solução para todos os problemas de todas as pessoas, só que leva tempo até que a gente leve ele a sério.

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segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O CANDIDATO III >> Albir José Inácio da Silva

CONTINUAÇÃO DE:
O CANDIDATO I
O CANDIDATO II

— Vou bem, mas por minha conta e risco, e se dependesse de certas pessoas eu tava linchado e morto e enterrado porque eu sei muito bem que é naquela sua birosca que se inventam coisas contra mim. Até de crime já me acusaram, mas meu santo é muito forte e é preciso mais do que meia dúzia de fofoqueiros, desocupados e filhos de rapariga pra me derrubar — falou o pai-de-santo.

Adailton respirou fundo e se desmanchou em explicações. Muito pelo contrário, sempre defendia o Babalorixá dos maldosos comentários sobre sua transvialidade. Também nunca acreditou naquela história de roubo de bodes e galinhas que a maledicência teimava em divulgar. Sua avó fora do candomblé. Não vendia no seu estabelecimento artigos pras oferendas e artesanatos? Não mandava bebidas pras festas do terreiro? Vinha justamente colocar sua candidatura a serviço daquela casa, e era seu compromisso promover o respeito pelos cultos de matriz africana. Por que, Pai Tibúrcio, essas quatro pedras na mão?

Tibúrcio não queria falar, com medo de cadeia por calúnia já que não podia provar, mas tinha certeza que aquele salafrário ali na sua frente mais o outro, ladrão de gravata e bíblia na mão e dono da igreja milagrenta, tinham botado fogo de madrugada na sua cabana com todos os santos e guias, coisas de relíquia que vinham de sua avó. Quando acordou já não conseguiu salvar nada. Mas soube, por mais de uma pessoa, que o pastor cansou de dizer que Deus ia destruir com fogo a casa do diabo que era como chamava o terreiro. Falava isso nas igrejas e na loja de Adailton, que com tudo concordava. Agora vem com essa história de candidatura.

Estudaram-se em silêncio, remoendo cada um suas razões. Detestavam-se. Mas a venda em consignação de artigos religiosos e artesanato era interessante para ambos. Para o pai-de-santo, nesses dias difíceis, acabava sendo a única renda. Principalmente agora que a igreja milagrenta resolveu lhe fazer concorrência, copiando os descarregos, os passes e até as promessas de trazer em três dias a pessoa amada. Por seu lado, além da questão comercial, Adailton precisava de apoio político. Não era momento para brigas. E Pai Tibúrcio desafiou:

— Muita coisa tem que mudar, Seu Adailton, antes que este terreiro faça propaganda de vosmicê. Vamos ver como é que se comporta, daqui pra frente, esse defensor da liberdade religiosa!

Um quarteirão inteiro de mármore, vidro e aço. Era assim a nova sede da IMIV — Igreja Milagrenta Interplanetária dos Vivos, com guaritas nos quatro cantos e dúzias de empregados. Irritado com a revista, Adailton acompanhou o segurança até o gabinete do pastor. Pastor, Professor, Doutor, Bispo, Missionário e Apóstolo Habacuque de Tarso, que nesse momento gravava programas para rádio e televisão.

— Salve, reverendo, a paz seja convosco. Venho pessoalmente comunicar-lhe minha candidatura, em homenagem à parceria que sempre desenvolvemos no interesse dos nossos irmãos.

(Continua aqui.)

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sábado, 18 de setembro de 2010

OS LIVROS DA BIBLIOTECA
DE GUIMARÃES ROSA
[ANA GONZÁLEZ]

Na época da faculdade, não cheguei a estudar muito a obra do mineiro das veredas do sertão. Eram muitos os desvios pelos quais me embrenhei naqueles tempos. Todos muito úteis para as descobertas e os sustos de alguém que saíra da adolescência para a idade adulta sem nenhuma formação política.

As assembléias dos movimentos estudantis nos fundos do prédio da Maria Antônia. Os excedentes na entrada da faculdade todos os inícios de anos. Bombas molotov nos corredores e na rua. A lingüística e o estruturalismo. Palavras de ordem ecoavam dentro de mim. Era suficiente. Eu não sentia falta de nada. Em meio à agitação, li, estudei, segui interpretações interessantes, mas não com o empenho que o autor mereceria da minha parte. Guimarães Rosa ficou sempre como um respeitado autor que eu nunca entendi muito bem.

Até que recentemente descobri um conto em que ele faz alusões explícitas à astrologia. A notícia chegou junto a citações de outras obras. Fui atrás. Descobri um grande livro de um estudioso alemão sobre a metafísica de G. Rosa. Pouco a pouco, depois de centenas de páginas, tudo se explicou.

Um grande palco se abriu ante meus olhos como se as dificuldades de compreensão daquele universo roseano tivessem rapidamente se resolvido. Eu tinha achado a chave para entender suas complexidades. Na empolgação, fiquei sem dormir algumas noites, quando descobri que sua biblioteca estaria depositada num instituto perto de mim. Fui lá.

Só tive acesso no primeiro dia a cerca de duzentas fichas do total de mais de três mil. Um sonho. E isso pode não fazer sentido nenhum para a maioria das pessoas, nem a emoção que senti ao tocar nos livros. Eles tinham estado nas mãos de Guimarães Rosa, eram sua escolha. Manuseados e, possivelmente, anotados por ele. Eu queria saber por onde ele andara, por que livros, por que ideias. Como construíra o conjunto de seus pensamentos que o levaram a certas descobertas sobre a linguagem? Como se isso fosse possível... Eu sei que meus desejos extrapolam o bom senso.

Quero observar as anotações e os sublinhados. Serão dele mesmo? Somente quem gosta muito de ler talvez entenda essas particularidades do caminhar pelas páginas desses livros. Pelas palavras e frases, pelos diálogos que se estabelecem dentro dos entre-espaços de tinta, num universo de tipos de letras, tamanhos de parágrafos, de cheiro e de cores empasteladas de papel muitas vezes, amarelecido.

A proximidade com esses livros me aproxima de sua metafísica que se torna quase geográfica. Dão-me outros recursos para adentrar no seu sertão, nos cerrados e morros de sua linguagem, pelas veredas de suas metáforas. Mas, tenho também a sensação de invadir um território sagrado, de intimidades como se eu pudesse devassar um lugar proibido.

E, estou ainda no começo. Há muitas fichas ainda a serem escaladas. Há muitos livros a desencavar. Depois dessa arqueologia, haverá um universo inteiro de sertão a desbravar.

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sexta-feira, 17 de setembro de 2010

HEMINGWAY JAPONÊS - E GAY
>> Leonardo Marona


Uma coisa precisa ser dita ao se falar de Yukio Mishima (1925 – 1970): ele escreve como pensa. Apesar de quase óbvia, essa combinação é muito rara, tendo em vista que o ser humano não é óbvio.

Mishima incomoda a cabeça de qualquer um que, por não saber nada do que realmente acontece, acredita saber o suficiente, concorda ou discorda com a cabeça, e segue a vida.

Suas indagações acerca da pobreza da existência humana, as máscaras de um teatro grotesco, erguidas diante da perversão social, derrubam o leitor feito enxurrada, e foi sorte eu ter me levantado outra vez depois de terminar suas Confissões de uma Máscara (Companhia das Letras, 1949, 199 págs.).

Ele simplesmente cava, cava, cava sem parar. E quando o sangue é despejado diretamente sobre os ossos, então ele quebra os ossos, e é só então que ele sente seu verdadeiro prazer.

Yukio Mishima usa palavras como quem usa argila. Sua relação com a moral e com o bem e o mal é tão intrincada que é simplesmente impossível saber exatamente até onde ele é capaz de descascar a cebola. Às vezes suas indagações atingem um ponto tal, que espera-se, olhando para os lados, que caia uma enorme pedra na nossa cabeça, como um castigo místico executado por um ente secreto, que nos esconde o fundamental das coisas.

Mishima vai ao fundamental das coisas. Um dia um amigo disse para eu ler Murakami, segundo ele, o Hemingway japonês. Ignorei meu amigo na hora, não lembro o que estava lendo ou mesmo se queria ler. Agora me deparo meio sem querer com esse livro de Mishima, usado também por alunos de psicanálise nas universidades.

Como Hemingway, Mishima aborda questões de um universalismo doloroso, obriga o leitor a dar conta do fardo de viver a vida sabendo antecipadamente que sobre a Terra nada é certo ou controlado, a não ser o nosso rumo inapelável à falência do corpo, e que tentar corrigir o que jamais poderá ser correto é cinismo e flagelação ecumênica. Mishima ensina o que é ser humano sem se basear em qualidades, mas sim nas sensações vitais, as que normalmente deixamos em segundo plano.

Para terminar, ambos não souberam reverter o xeque-mate que inventaram: Mishima e Hemingway. Suicidaram-se de forma bizarra.

Hemingway deu um tiro na boca com uma espingarda, que precisou disparar com o dedão do pé, pouco após ter ganhado o Prêmio Nobel. Mishima desde criança queria morrer de forma heróica, trucidado vivo de alguma forma. O fato de não ter sido convocado para a Segunda Guerra devido à saúde muito frágil foi motivo de profundo desgosto. Suicidou-se segundo a tradição samurai (seppuku), rasgando a barriga com uma espada e depois sendo decapitado.

Mais exibicionista que Hemingway, deu cabo à própria vida na frente de uma multidão, a quem antes fez discurso patriótico pela restituição da monarquia, solenemente ignorado. Acredita-se que Mishima tenha preparado seu suicídio por um ano.

Agora, deixo vocês com um pouco do inigualável japonês kamikaze:

“O ideal universal de beleza das esculturas gregas também se aproxima da semelhança entre homens e mulheres. Não haverá aí um sentido oculto de amor? Será que nos recônditos desse amor não se anima o desejo inalcançável da exata semelhança entre os amantes? Não seria essa a ambição que move as pessoas e as conduz à trágica alienação de desejar que o impossível se torne possível a partir do extremo oposto? Em outras palavras, sendo o amor entre duas pessoas incapaz de se tornar semelhança mútua, não existiria um processo mental mediante o qual elas buscam enfatizar sua dessemelhança, valendo-se disso como uma forma de flerte? Infelizmente, ainda que alcançada, a semelhança mútua não passará de ilusão momentânea. E isso porque, mesmo que a menina se torne audaciosa e o menino, reservado, em algum momento eles se cruzarão a caminho do extremo oposto, ultrapassando o ponto almejado em direção à outra margem – ao além desprovido de parâmetros.” (Confissões de uma máscara, pág. 69)





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quinta-feira, 16 de setembro de 2010

AMOINTERNET.COM.BR >> Fernanda Pinho


Embora todas as anotações das minhas entrevistas estejam bem aqui, no meu bloquinho de papel, e embora eu redija todas as minhas matérias no Word, não consigo trabalhar se meu computador não estiver ligado à internet. Vício, dependência, sei lá, chamem do que quiser. O fato é que o texto só flui se eu tiver a certeza de que, a qualquer momento, posso buscar uma informação antiga no meu e-mail, checar a aplicação de uma palavra na gramática on-line ou incrementar meu material com alguma pesquisa no deus Google. Se a Velox inventa de entrar em manutenção na região - o que acontece com mais frequência do que eu gostaria - danou-se! Nem tento desembolar o serviço. Largo tudo pra lá e me pergunto desolada: como os repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein conseguiram investigar o caso Watergate e levar um presidente americano à renúncia sem internet? Como era possível ser jornalista sem internet? E vou além: como era possível viver sem internet? Sinceramente? Não sei e nem quero saber.

E nem adianta me olhar com essa cara feia, como quem diz: "você é uma louca que não sabe valorizar as relações reais, o contato físico e blablablá". Ai, humanos, por que temos que ser tão radicais? Por que sempre temos que escolher um lado? Por que insistir nessa divisão entre real e virtual? Eu é que não ouso optar por um só, fico com os dois e vivo muito bem assim. O mundo virtual e todos os aparatos que ele oferece facilita, e muito, minha vida real. E quanto mais a minha vida real acontece, quanto mais gente eu conheço, quanto mais eu me relaciono, quanto mais eu viajo (e aqui só estou falando de situações físicas) mais eu preciso do suporte virtual.

Só entende do que eu estou falando quem já sentiu o estômago gelar ao ver subir a plaquinha "Fulano acabou de entrar", no MSN. Quem já chorou litros lendo o e-mail de uma amiga que te compreende tão bem que nem parece estar a um Brasil inteiro de distância. Quem descobriu pelas fotos do Orkut a careta nova que seu primo de cinco anos, que agora mora na praia, aprendeu a fazer. Porque o fulano, a amiga e o primo existem na sua vida e existiriam mesmo que não houvesse a internet, mas a internet vem com esse plus da emoção no meio do expediente. Mexe com os sentidos, te desperta a vontade de ir atrás deles, abraçá-los, beijá-los. E é o que você acaba fazendo. Porque eles são tão reais quanto os sentimentos que as ferramentas virtuais são capazes de provocar.

Outro dia alguém me perguntou pra que que serve o Twitter e eu não soube explicar. Ou melhor, eu não quis explicar, porque não é assim tão simples. Não dá para fazer uma pessoa qualquer entender que o Twitter serve para eu saber que a Laís, lá em Curitiba, terminou sua monografia. Que a Sam, lá em Fortaleza, está participando da organização de uma festa pra um de seus amigos. Que a Thatha, lá em São Paulo, tem aula de pole dance hoje. Que a Taka, lá no Japão, foi passear no Sea Paradise. Que a Jujú e o Cláudio, lá em São Paulo, foram assaltados. E a quem interessa tudo isso? A mim, que sou amiga dessas pessoas e não quero perdê-las de vista. Quero saber o que acontece todos os dias para que, quando a gente se encontrar pessoalmente, nada entre nós tenha se perdido. É por isso que eu gosto tanto da internet.

Tá bom, tá bom. Não é só por isso. É também para rever as aberturas de novelas antigas e os clipes que passavam no Fantástico nos anos 80. É para jogar tarot on-line e ver o que as cartas pensam sobre fulano de tal. É para prospectar clientes para minha agência. É para reencontrar velhos amigos. É para comprar livros nos sebos virtuais. É para fazer novos amigos jogando buraco on-line (ok, quem faz isso não sou eu, é meu pai. Mas acho tão legal que resolvi me apropriar do fato). E também para causas menos nobres como fuçar o Orkut do cara que me esnobou na adolescência e delirar de alegria ao ver como ele está acabado.

Sou fiel à internet de segunda a sexta, porque quando chega o fim de semana eu vou me encontrar com as pessoas e fazer os programas que passamos a semana toda articulando... pela internet, claro.



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quarta-feira, 15 de setembro de 2010

CAMINHO >> Carla Dias >>

Todos os dias eu faço o mesmo caminho para ir ao trabalho. Sigo a pé pelas ruas, às vezes dobro à esquerda, em outras, sigo adiante só para mudar a paisagem. Mas lá na frente: à esquerda.

Nessa andança, vejo algumas pessoas todos os dias. Uma delas é uma senhora, sessenta e poucos anos, que caminha, logo cedo, treinando os passos que já não dá mais com a mesma desenvoltura de alguns anos. A cada cinco passos meu, ela consegue dar um. Não há viço nessa mulher, estranhamente, sua fisionomia nada diz. Ela apenas caminha, exercitando movimentos que, em algum momento de sua vida, não precisavam ser relembrados... Aconteciam, de acordo com o desejo dela.

Há também um casal de japoneses, velhinhos, que assim como a mulher sobre a qual falei, sobem a avenida, enquanto eu a desço, exercitando-se. Sei bem que a idade pede tais exercícios para que nosso corpo entenda que ainda há muita vida nele. A mulher solitária não reconhece isso... Seu passeio é dolente. Mas o casal, eles têm o fôlego dos sábios, de quem busca, a cada passo, o adiante.

Durante a jornada de chegar ao trabalho, acabo sempre sendo escolhida para as urgências alheias. Como a dessa mulher que, vez ou outra, eu encontro. Um dia, ela se enroscou no meu braço, deixando-me ainda mais consciente da sua baixíssima estatura, dando-me a impressão de estar ao lado de uma criança, e disse que tinha de chegar à igreja do outro lado da avenida, mas estava com medo de não conseguir sozinha. Eu a levei até lá, enquanto ela desfiava histórias sobre si e suas crenças. Outro dia, eu a vi dependurada no braço de outra pessoa.

Mesmo caminhando com fones de ouvido, a música no talo, sou parada com frequência. Na maioria das vezes, as pessoas vão dizendo o que têm de dizer, sem se darem conta de que ainda estou com fones de ouvido. Uma vez foi no ponto de ônibus... Uma senhora parou perto de mim e começou a falar comigo, mas eu só notei um pouco depois, quando me virei e a vi ali, porque eu estava escutando música e não o que ela dizia.

Tirei os fones... Ela me contou a vida do seu gato, de como ele se sente só quando ela está longe, que apesar de doente, é uma boa companhia. Para mim a história parecia a dela, porque logo a mulher começou a dizer que, vez ou outra, se sente muito só, que anda com a saúde ruim, tem de andar com a ajuda de uma bengala. Durante toda a conversa, eu só emitia alguns sons de concordância, de compreensão e de surpresa. Minha única fala foi “meu ônibus chegou, boa viagem para a senhora”. Aquela mulher não precisava de uma faladora, mas sim de uma escutadora. E eu escutei.

Não me lembro de ter contado a minha história a qualquer pessoa que já me abordou nas ruas, nas lojas ou nos pontos de ônibus. Lembro-me, na verdade, de pouco dizer. Desde sempre, sou uma escutadora, com boa margem de paciência para que estranhos contem o que os aflige ou os alegra, porque não são apenas mágoas, desespero e dolências que levam as pessoas a conversarem tão abertamente com estranhos. A alegria também... E já fiquei sabendo de nascimentos, casamentos, reencontros. Já parabenizei, sem mesmo saber a quem.

A cada dia, a vida me surpreende mais, trazendo-me essas pessoas que, por solidão ou incapacidade de conter a ansiedade, dividem comigo suas tragédias e conquistas. E também aquelas que, em silêncio, passam por mim, suas histórias em evidência nos passos, nos traços, num caminhar pela cidade.


www.carladias.com

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terça-feira, 14 de setembro de 2010

NÃO SEI, SÓ SEI QUE FOI ASSIM
>> Clara Braga

Se me perguntar, juro, não vou saber dizer como aconteceu, a única coisa que posso dizer agora é a famosa frase: "não sei, só sei que foi assim".

Lá estava eu achando que aquele dia seria apenas mais um dia comum, quando recebo uma ligação em meu celular. A simpática moça que me ligou disse que eu havia sido presenteada por um conhecido com uma limpeza de pele. Se eu bem me lembro do preço de uma limpeza, sei que não é barato, logo achei que era um presente bem interessante. Marquei meu horário logo para o dia seguinte e lá fui eu fazer a tal da limpeza me achando o máximo.

Quando cheguei, fui recebida pela simpática moça que me ligou. Ela veio até a porta me receber e eu logo vi que ela usava um broche no vestido, mas minha miopia não me deixava ler o que estava escrito nele. Ela foi se aproximando, eu fui começando a distinguir algumas letras até que finalmente consegui ler: "Eu amo Herbalife!".

Não podia ser verdade, aquilo era uma cilada, a limpeza seria com produtos Herbalife. Não podia ser, eu precisava correr, mas já era tarde demais, ela já estava me segurando pelo braço e me colocando sentada na cadeira. Antes de começar a limpeza, ela fez uma palestra sobre como eu deveria mudar meus hábitos alimentares para que minha pele ficasse mais bonita, e para isso eu deveria tomar os chás e shakes emagrecedores da Herbalife. O mais impressionante é que ela realmente me convenceu a mudar meus hábitos alimentares sem nem me perguntar antes como eram os meu hábitos.

Para refrescar meu dia quente, ela preparou um chá gelado e começou a limpeza. Entre uma máscara facial e outra, ela me mostrava o antes e o depois dos clientes dela, e eu mal pude perceber que ela já estava pegando a fita métrica para me medir. Dai em diante, já não tenho mais muitas lembranças, sei que conversávamos, ríamos e assistíamos ao Vale a Pena Ver de Novo como se fôssemos melhores amigas, e ela continuava a me convencer a mudar meus hábitos alimentares.

Depois disso, a lembrança que tenho é a de que saí de casa feliz para fazer uma limpeza de pele, sem maiores pretenções e também feliz com meu peso. E voltei para casa já seguindo uma dieta rígida, onde eu troco duas refeições diarias pelo tal do shake — díga-se de passagem, eu voltei para casa com dois potes. Não sei como aconteceu, não consigo explicar, ela era muito convincente.

Não sei que tipo de preparação a Herbalife deu para aquela mulher, mas sei que ela tem certeza absoluta de que qualquer produto Herbalife pode mudar sua vida para sempre. E não sei como, mas por algumas horas, ela me fez acreditar nisso perfeitamente.

Ao final, ela pediu para eu preecher uma lista com 10 nomes e telefones de pessoas que eu achava que estariam interessadas em fazer a limpeza de graça. Aquela era a hora da minha vingança, indiquei os 10 nomes. Portanto, amigos e família, aguardem que vocês serão as próximas vítimas da Herbalife e, se vocês não se cuidarem, daqui a pouco estarão fazendo dieta junto comigo ou até mesmo vendendo produtos e usando broches. ABRAM O OLHO!

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segunda-feira, 13 de setembro de 2010

O LIVRO DO DOMINGO >> Kika Coutinho

Era um domingo. Domingos são sempre assim. Ou muito úteis, ou – o mais comum – absolutamente inúteis. Pois aquele foi útil.

Depois de navegar na internet, ver twitter, facebook, google, emails, entrar em blogs e páginas que eu não me lembrava mais como tinha ido para ali, resolvi rever os meus prórprios arquivos e dar um lidinha no que já tinha escrito. “Vou dar um pouco de ibope pra mim mesma”, pensei, eu que vivo dando pinta nos blogs alheios e achando que todo mundo tem textos sempre muito bons.

Comecei lendo um, outro, ajustando uma coisinha aqui, outra acolá e, de repente, vi que não iria terminar nunca. Quantos arquivos... pensei, contando quantos tinha. Noventa? Cem? Cento e quantos? Meu Deus, como eu tinha escrito! Quanto tempo gasto, quantos domingos, segundas, terças, quantos dias e tardes de verão, frio, calor, perdidos escrevendo. Claro que eu estava engordando, pensei. Alguém que tem mais de 100 textos não pode estar magro, coisa mais sedentária do mundo, essa de escrever.

Quando foi que eu escrevi isso? Eu trabalho em outra coisa, ganho meu sustento de uma empresa, deixa eles saberem que eu tenho sempre uma tela de word, escondida atrás daquela de excel aparente. E pra quê? Pensei. Pra me entender, me exibir, extravasar ou falar, simplesmente? Mas, poxa, poderia fazer isso tudo num combinado terapia + shopping e academia. Estaria mais magra, pelo menos.

De repente pensei que poderia juntar isso tudo em um livro. Era um pensamento audocioso que me beliscava. Um livro, eu? Quem vai querer ler? Quem vai se importar? Bom, isso eu não sabia, mas já tava tudo lá, afinal o que que custava tentar. Eu me respondia, uma parte minha era auto-ajuda; a outra, autoderrota. Shiniashiki vencia dentro de mim: “Vamos lá, acredite em você, você é capaz!”. E eu me mantive procurando como poderia fazer isso, mas a verdade é que só conseguia lembrar-me da minha infância, quando eu tentava vender livros usados no elevador do meu prédio.

Oras, se ninguém comprava excelentes livros de uma menininha simpática de óculos, nos anos 80, como eu ia querer vender a idéia de publicarem o meu próprio, quase 30 anos depois, sem nenhum cursinho de marketing ou vendas na bagagem. Não, não ia.

Foi aí que, em um outro domingo, achei o site da Agbooks. Você não paga, não pede, não precisa nem falar nada. Só trabalhar. Tem de juntar tudo, paginar, ajustar, formatar, ter uma capa, uma foto, um resumo, enfim, labutar no seu próprio livro, mas, se eu tinha feito 100, nisso eu devia ser boa, afinal.

E assim foi. Tomando forma tal qual minha filhota no útero. Um dia você via as mãozinhas, no outro o ultrassom mostrava os pés, e, assim, sem a dor do parto nem anestesia, de repente, lá estava ele, lindo e saudável.

Foi na minha licença-maternidade que ele nasceu, e eu nem chorei.

Divulguei entre amigos – e inimigos também –, e não é que o pessoal anda gostando? A parte de mim que é auto-ajuda se engrandece quando recebo elogios e – até – o pedido de outro. Pus pra vender e o danado vira e mexe aparece na lista dos mais vendidos da Agbooks. Exibido, mais exibido que a mãe, esse filhote.

Para conhecer o recém-nascido - sem encontrar a criancinha no elevador, clique aqui.

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sábado, 11 de setembro de 2010

SEMEANDO A PAZ [Maria Rita Lemos]

Em tudo o que estudei sobre Religião, incluindo toda a vida escolar em colégio católico e o curso de Teologia feito depois de adulta, o texto bíblico que mais me tocou foi e continua sendo o “Sermão da Montanha”. Todo o capítulo é muito atual e profundo, mas quero enfatizar o versículo nove: "Bem-aventurados os pacíficos; porque eles serão chamados filhos de Deus". (Mateus V. 9)

Meses atrás, a televisão dava notícias das vítimas do terremoto que abalou o Chile: os sobreviventes, a insegurança, o medo. Com certeza, estamos vivendo um tempo em que a natureza está travando um diálogo ferrenho com o ser humano, tão machucada que tem sido por ele há séculos. É como se estivesse se vingando, em todos os pontos do mundo, de diversas formas, em suas várias manifestações.

No entanto, não é sobre esse tipo de medo que quero refletir com meu leitor e leitora hoje: quero falar sobre o desejo de justiça, solidariedade e paz que enche nossos corações, de forma especial nesse início de século tão conturbado.

A grande contradição que estamos vivendo é muito clara: o brasileiro é pacífico por natureza. Não é raro assistirmos ao surgimento de comunidades onde as pessoas se ajudam, fazem mutirões para construir ou refazer espaços comuns, enfim, cada vez que uma desgraça atinge qualquer localidade, dentro ou fora de nosso país, todos se irmanam para diminuir a dor e a carência, material e espiritual, dos atingidos. Por outro lado, assistimos ao crescimento, sobretudo nas grandes cidades, da miséria, da desigualdade social e do seu efeito mais evidente, que é a violência, em todas as formas.

Essa realidade aponta para uma necessidade de que nos mobilizemos, resgatando valores que parecem perdidos, tanto no que diz respeito à Mãe Natureza, à preservação do planeta, quanto à vida familiar e social, à convivência com nossos pares.

Infelizmente, temos o péssimo hábito de fixar a atenção apenas no que é negativo. Damos muita ênfase à morte causada pela bala perdida, aos crimes, aos seqüestros, enfim, às conseqüências da violência urbana, que de tão exposta parece estar sendo banalizada. Esquecemos, no entanto, o lado positivo; a mídia, inclusive, se descuida de destacar o que é feito para mudar esse quadro, e muita coisa vem sendo feita. Talvez não tanto quanto precisamos, mas já é um começo.

Sabemos que há muitas pessoas e sociedades, organizadas ou não, ONGs, entidades preocupadas com a ação social, a cultura e a educação do povo. Tratam-se, na verdade de sementes de paz, porque um povo culto e saudável dificilmente engrossa fileiras da violência. Basta pesquisar na internet, e veremos um número cada vez maior de redes sociais e projetos que têm a paz e o bem-estar coletivo como alvo final, inclusive na recuperação ou na prevenção da criminalidade.

São passos de formiguinha, claro. No entanto, não podemos nos esquecer de que a responsabilidade por essa situação de insegurança e temor passa por cada um de nós. Se não transmitirmos paz aos nossos semelhantes, todos os dias, a todos com que convivemos, não estaremos em paz conosco, porque não estaremos centrados com nossa energia e emoções, portanto será impossível transmitir a serenidade e a harmonia que não temos.

Antes de ajudar a pacificar o mundo, há que desconstruir a violência dentro de nós, e isso se faz tentando manter a mansidão e a tranqüilidade em nossas mentes e ações, independente das circunstâncias. Difícil, eu sei, mas tem muita gente que conseguiu, e consegue. Se cada um de nós se acostumar a limpar seu quintal interior, o mundo será mais saudável.

Aquela pátria que sonhamos, onde podemos confiar no semelhante, começa sempre dentro de nós, da mesma forma que as grandes guerras começam no desprezo que possamos ter ou na maldade que façamos ao vizinho, ao familiar, ao companheiro.

Não quero parecer pessimista, até porque não o sou. Prefiro focar a atenção nas pessoas (que são muitas) dedicadas de várias formas e em vários pontos do mundo ao exercício diário da paz e da crença na bondade humana. Nosso povo, especialmente, é famoso pela alegria e pela solidariedade, e quero crer que essas qualidades prevaleçam sobre toda a negatividade.

É preciso estarmos atentos não só às desgraças exibidas abundantemente na mídia. Claro que também as assistimos, afinal não somos alienados. Mas é preciso valorizarmos também o que se diz sobre gente boa, pessoas que ainda devolvem o dinheiro alheio encontrado, gente que arrisca a vida para salvar a de outras pessoas, comunidades que se organizam para ajudar ao próximo.

É com esse espírito que vamos conseguir, um dia, restaurar a sonhada Paz neste planeta. Afinal, Gandhi deixou claro em uma de suas falas que nada mais era necessário escrever, além dos ensinamentos do Sermão da Montanha. Sobretudo, eu acrescentaria, quando ele fala da Paz.

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sexta-feira, 10 de setembro de 2010

PEQUENAS EPIFANIAS DE UM FINAL DE INVERNO RIGOROSO DESGOSTOSO DE ROBERTO CARLOS >> Leonardo Marona

Por te falar eu te assustarei e te perderei.
Mas se eu não falar eu me perderei,
e por me perder eu te perderia.

(A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector)


“no ponto de ônibus”

verdade

- você diz sempre a verdade?
- de qualquer modo eu diria que sim.

gripe

- sempre que eu me gripo meu nariz fica um saco.
- engraçado, sempre que eu me gripo meu nariz continua um nariz.

frases

- há frases ridículas quando ditas aos vinte e poucos anos...
- esta, por exemplo?


"sonho revelador"

um cientista maluco Prêmio Nobel
havia descoberto que de fato a pele humana
era alguns milímetros cúbicos menor
que o volume corpóreo que ela cobria,
e assim ele chegou à conclusão de que as pessoas
só eram totalmente verdadeiras nuas,
de modo que a maioria vestiu mais um casaco.

“e você, que tipo faz?”

todos fazemos tipos.
eu faço o tipo desatento
ou tipo woody allen.
adoro o tipo woody allen.

sei que as mulheres gostam.
depois que descobri isso
me concentrei no tipo woody allen.
às vezes faço tipo hemingway.
o problema do tipo hemingway:
não é muito bom com as mulheres.
mas é ótimo com animais selvagens.
de todo modo, algumas mulheres...

“o intelectual”

Aqui no parque existe um chafariz desativado onde os filhos das prostitutas vêm apanhar sol e gripe fugindo dos preservativos usados e objetos infectados cortantes aparentemente com sucesso pelo meu ângulo de visão ausente de vista.

Dia desses estava eu sentado às margens do tal chafariz mais uma vez o truque dos óculos de sol forjando uma presença solene comumente confundida com artrite.

Estava com este mesmo caderno de anotações no qual escrevo agora tentando em vão endireitar pensamentos preconcebidos quando duas dessas pequenas criaturas mais felizes do que eu pobre animal envelhecido passam um já com bastante verme na barriga e cueca vermelha de náilon o outro com aparência abatida e um pedaço de pau na mão.

Este último tão tristemente e com olhar beatífico então olhou para mim e disse:

“ô barbudo pára de estudar um pouco ô!”

“perdi meu caderno de anotações”

envelhecer é ainda
o único paradigma,
o que prova
que evoluímos pouco
e a coragem é uma lenda.


"o erro do significado"

o significado
de uma palavra
dura o tempo
que você souber
persistir no erro.

o significado
de um amor
dura o tempo
de uma dúvida
bem concebida.

o significado
de uma amizade
dura o tempo
que dois puderem
dizer não juntos.

o significado
de um deus
dura o tempo
que um homem
precisar de outro.

o significado
de um poeta
está nas palavras
que não existem
no seu poema.

o significado
de um poema
está na falta
do que não há
nas palavras.

o significado
de um erro
dura o tempo
da frase certa.

o erro somos nós.


“poesia e queda”

o tempo
é a areia
do homem.
dessa areia
uns poucos
– loucos? –
fazem castelos
onde se perdem
pelos corredores.
a poesia é sempre
a diluição do tempo.
a poesia será sempre
a queda de um castelo.

“liev tolstói”

que fetiche
ter nascido
no mesmo dia
em que morreu
Ivan Ilitch.

“celsius”

não existe febre,
é pura consciência
gelatinosa de cismas.
eu bem que gostaria,
mas não sei carregar
duas almas suicidas,
muito mal carrego
minhas próprias muletas.
a vida é um gatilho
que implora ajoelhado
por olhos sujos de pólvora
e um último suspiro
das ampulhetas.


“frase de um jogador de sinuca na Lapa”

a genialidade não anula a medula.


“amigos com sede no bar"

- É como comparar Picasso com Van Gogh...
- Mas eles não viveram na mesma época.
- Tá bom, Picasso e Dali...
- Não, o Picasso é muito melhor.
- Você diz isso sem dúvida alguma?
- Não, mas eu digo isso quase com certeza...


"hai kai"

tudo que é bom
dura pouco.
tudo que é pouco
durepox.

“ladainha”

uma pessoa imbecil
que se comporta como uma pessoa imbecil
não passa de uma pessoa imbecil.

agora...

uma pessoa atenta
que se comporta como uma pessoa imbecil e atenta
para se infiltrar no mundo das pessoas imbecis
pode ser o que bem quiser.

“Fusca Bar”

- O Tchekhov é o escritor que eu li que tem maior intimidade com a natureza.
- Que tipo de intimidade?
- Sexual.

“falação & felação”

Acontece que aquela famosa máxima do Rei Roberto Carlos – “eu tenho tanto pra lhe falar / mas com palavras não sei dizer” – não passa, infelizmente, na maioria dos casos, de uma grande cascata. Uma forma cínica de camuflar a falta de emoção com lirismo barato. Sei muito bem que alguns amigos e muitas donas de casa me julgariam mal por isso, mas não é possível ceder, depois de pensar com um pouco mais de atenção; seria vergonhoso, apesar de fácil.

Mas o que ocorre de fato é que, quase sempre, há muito pouco para se falar e menos palavras ainda para se dizer. Mas existe a vontade, esse dragão sem garganta, essa louca vontade de mergulhar na superfície, de encontrar um espelho indiferente, uma cápsula para a beleza com a qual até os livos já se aborreceram, e que portanto tornou-se anacrônica e teatral.

Talvez seja por isso que Roberto Carlos atinja em cheio os corações enregelados das melancólicas donas de casa, bonitas na sua tristeza roxa debaixo dos olhos, prateadas de perdão, debruçadas em sonhos fadados e pilhas de roupas sujas, que elas lavam desde o começo dos tempos, enquanto o outro lado sente que não vale mais a pena deixar de se enganar.


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quarta-feira, 8 de setembro de 2010

SEGUNDA-FEIRA-QUARTA >> Carla Dias >>

Confesso que minha quarta está - como a de muitos de vocês - com gosto, jeito e cara de segunda-feira. Começa que agora, já quase ao meio-dia, inicio a minha jornada de escrever uma crônica num dia que não parece ele.

No feriado, visitei amigos e depois me tranquei em casa: séries de televisão, filmes, pensamentos, endoidecimentos homeopáticos, livros, discos, alguns telefonemas e ver chuva... Essa foi a melhor parte! Meu nariz, que já parecia um ser grudado na minha cara, com problemas próprios, de tanto que doía e se rebelava. Embrenhado há tanto tempo numa renite do cão, respirou aliviado com a chuva e, então, voltou a fazer parte da minha geografia. O que faz uma porcentagem quando se trata da umidade do ar, não? Quando ela baixa até, é uma desumanidade para com os narizes.

Descobri esse canal de biografias, e assisti a ótimos programas, como um sobre pontes. A biografia de uma ponte pode ser muito mais complicada do que a biografia de uma pessoa, quando despende, pelo caminho, algumas vidas, tudo para facilitar a vida da maioria.

Mas ontem eu assisti a dois programas seguidos sobre a vida de atores dos quais sou fã. Joaquin Phoenix e Robert Downey Jr. são, na minha parca opinião, atores de primeira linha, com biografias tão desarrumadas que, às vezes, a realidade parece mais ficção, e eles parecem personagens baseados neles mesmos. Ainda assim, continuo fã de carteirinha, de assistir tudo que eles fazem, e ter paciência para que os problemas deles passem e eles voltem os bons filmes.

E assisti um episódio de Os Pioneiros... Alguém por aqui se lembra da série?

E eu dormi bastante... Não como gostaria, deitando e acordando no outro dia, mas do jeito de sempre, com mil e uma coisas acontecendo na minha cabeça deitada no travesseiro, acordando o tempo todo.

Nos meus sonhos, eu quase sempre estou trabalhando, então, é comum eu acordar exausta. Na verdade, sou das poucas pessoas capazes de se autoboicotar em sonho.

Nos meus sonhos eu sou a última a entrar no trem, a escolher a roupa, perco o bilhete vencedor da loteria, a hora, deixo os mais afoitos passarem na frente e, quando chega a minha vez, a porta é fechada. Não ganho o beijo do príncipe, mas sei coordenar muito bem os seus compromissos e, de quebra, meu ombro é dos mais populares.

E nessa quarta-feira com cara de segunda-feira eu me sinto sonhando acordada. A cabeça, ainda meio avoada, pensando em como Joaquin Phoenix voltará do seu abandono de carreira de ator, ou quando estreará o próximo de Robert Downey Jr. Fazendo o meu trabalho direitinho, mas um tanto no piloto automático.

Bom é saber que o final de semana está mais próximo do que de costume. Assim como os sonhos mais aprazíveis, nos quais sou, no mínimo, a terceira da fila. Pois é... Neste final de semana + feriado, além de ver televisão, visitar amigos, ler livros, dormir e ouvir músicas, eu fiz um upgrade nos meus sonhos. E parece que, apesar de hoje parecer anteontem, alguns deles vão acabar nas malhas da realidade.

Parecia pura preguiça de feriado prolongado, mas, na verdade, era prospecção emocional para mudanças necessárias. Viu? Sempre trabalhando...

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