terça-feira, 31 de agosto de 2010

MANUAL DA MULHER PODEROSA
>> Clara Braga

Extra! Extra! Foi lançado o manual passo-a-passo de como deixar o homem que você ama aos seus pés! Sua publicação foi em formato de livro e eu comecei a ler essa semana. Já está à venda e fazendo sucesso entre a mulherada. O nome do livro é Por que os homens amam as mulheres poderosas? Já ouviu falar? Se sim, ótimo, mas se não, não tem problema, eu explico. O livro é um guia para que as mulheres chamadas boazinhas, que segundo o livro são as que acabam como capachos nos relacionamentos, se tornem poderosas e consigam ter um relacionamento saudável, onde ninguém manda ou controla ninguém, o casal apenas se completa e se ama!

Não li o livro inteiro ainda, mas não tem problema, pois nas 10 primeiras páginas você já tem uma pancada de lições que deve aprender o mais rápido possível para se tornar o tipo de mulher que tem os homens aos seus pés. Fiquem atentas, peguem caneta e papel, vou colocar aqui algumas lições que eu já li e que são muito, muito simples! Você só tem que ser simplesmente 100% segura de si, e ser segura não significa não ter problemas e questionamentos, significa que você simplesmente sabe lidar como ninguém com todos esses problemas e os questionamentos simplesmente nunca irão te abalar. Outra lição muito simples, você não pode estar sempre disponível, isso demonstra que você é carente, você simplesmente não pode ligar demais, simplesmente não pode mandar muitas mensagens, simplesmente não demonstre estar 100% conquistada pela pessoa, ao se vestir não pense em agradar a pessoa, simplesmente pense em agradar a si mesma, simplesmente sem se preocupar com o que os outros vão dizer, afinal você está simplesmente 100% feliz com todas as roupas do seu guarda-roupa! E, depois que você conseguir seguir todas essas regras muito simples, eu irei lhe dar os meus parabéns, pois você acabou de comprar sua passagem sem escalas diretamente para Marte!

Se alguém aqui coseguir me apontar uma mulher que consegue ser sempre 100% segura de si, que nunca passou horas na frente do espelho tentando cobrir uma espinha horrível, ou que não teve crise na frente de um armário cheio de roupas e reclamou que não tinha nenhuma, ou que nunca tentou um penteado novo que ficou um desastre, ou que nunca dormiu e quando acordou se sentiu 10kg mais gorda ou então alguma que já passou por qualquer uma dessas situações citadas e soube lidar perfeitamente com ela, sem se abalar ou descabelar nem um pouco, por favor me avise, pois nós temos que ir rapidamente para a televisão e avisar que sim, nós estamos definitivamente sendo invadidos por seres extra terrestres.

Realmente deve ser muito fácil se apaixonar por uma pessoa que é 100% segura de tudo, elas são realmente fascinantes, chamam a atenção e, acredite, chamam a atenção porque são muito, muito raras! Mas não pense que a autora do livro não pensou nisso, ela sabe que não é fácil mudar e se tornar uma Deusa, por isso colocou no livro uma solução, também muito simples como tudo que ela escreveu. Para quem estiver com dificuldades, anotem essa dica também: Procure a ajuda de um terapeuta! Corrijam-me se eu estiver errada, mas se todas as mulheres levarem esse conselho a sério, vamos precisar de mais terapeutas no mundo!

Ainda vou terminar de ler o livro, mas não vou me assustar se na última página estiver escrito algo como "pegadinha do Malandro"!

Partilhar

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

A LOUCA >> Kika Coutinho

Dizem que, quando nasce um bebê, nasce uma mãe e, com ela, a culpa.

É verdade. A culpa é a amiga íntima de toda mãe. Mas eu vou além. Digo que, quando nasce um bebê, com a mãe nasce uma louca. Uma louca, tantã, pirada, biruta, uma maluca, enfim.

Ou quem poderia ser normal com um recém-nascido nos braços? “Shhh” é o grunhido da louca. Toda mãe de bebê já passou horas fazendo “shhh”. Fazemos “shhh” pro bebê dormir, fazemos “shhh” para o marido quando ele abre a porta, chegando do trabalho: “Shhhh, nem pense em falar no tom de voz normal!”. Sussurramos já em guerra. É uma guerra permanente essa maternidade recém-adquirida.

O volume de tudo tem que ser muito baixo. “Assista televisão no mudo. Se quiser”, bradam algumas – entre cochichos, claro. “Não, não, não, não dê descarga, não!”, imploram outras, correndo na ponta dos pés até o banheiro, o marido tentando ser higiênico. Mas não pode. Não pode dar descarga, não pode ligar a TV, o telefone tem que estar desligado e ai de quem deixar o celular no volume “ao ar livre” dentro dessa casa.

Loucas. Somos loucas.

O cuidado com o neném também reflete a insanidade: “Tem que pôr pra dormir desse lado. Isso, mas sem chacoalhar. Mas você tá pondo muito rápido, tem que bater nas costinhas dele. Não, não assim, tem que bater fazendo conchinha com as mãos, assim!”. Ai, ninguém sabe fazer nada direito, pensa a louca, sem notar – nem de longe – a própria esquisitice.

A louca tem dificuldade de aceitar intromissões. Se a babá sugere tal método, ainda vá. Se o marido sugere, ignoramos. Se a sogra sugere, pronto, acabou-se o mundo. A louca sabe que tem, ali, diante dela, outra louca, em plena ação.

Quando nasce um bebê, nasce uma louca. A louca chora em circunstâncias improváveis. Chega da maternidade, vê o bebê ali, na cadeirinha, e chora. Não se sabe se é de alegria, medo ou insanidade pura. Chora, simplesmente. A louca também ri fora de hora, enxerga coisas que ninguém mais enxerga e ouve vozes que ninguém ouve: “Juro que ela balbuciou mamã. Juro!”

A louca faz mandingas estranhas, passa planta nos seios, aperta o umbigo da criança de um jeito xyz, e assopra a moleira do bebê quando ele engasga. Será que é tipo uma respiração boca-a-boca através da moleira? Pergunto eu, louca, enquanto me mantenho ventilando a cabecinha da minha filha, que tosse sem parar.

E os pensamentos? A louca não pode mais ver filme, assistir documentários e – dependendo do grau de loucura – nem o jornal. Tudo aquilo pode lhe acontecer ou, pior, aos filhos. E se eu morrer? Pensa a mãe biruta por horas. E se eu morrer agora, que tô segurando o bebê na banheira? Ele vai cair e se afogar? Eu soube de uma que dava banho com pouquíssima água para a criança não se afogar, caso a mãe morresse no meio do procedimento. E se eu morrer dormindo, e se eu e meu marido morrermos de assalto quando formos comer uma pizza? Quem vai amamentar nessa madrugada? E de manhã, bem a mamada da manhã que ele gosta tanto, pensa a louca, ensandecida. "Mãe não pode morrer", me disse uma louca, dia desses. Verdade. Depois que temos filhos, não podemos mais gripar, cansar, dormir, adoecer, muito menos morrer.

Não. Nossos direitos são limitados, cerceados, bloqueados. Nos resta, então, ser loucas, piradas, birutas e tantãs, oras!

www.embuchada.blogspot.com
www.soumchazinho.blogspot.com


Partilhar

domingo, 29 de agosto de 2010

SONHO DE DICIONÁRIO >> Eduardo Loureiro Jr.

Dia desses, ganhei um presente tão exótico quanto um sorvete flambado ou um guarda-chuva de renda. Tratava-se de um dicionário de sonhos. O exotismo está na esdrúxula combinação. Cresci ouvindo de meu pai que o dicionário era o "pai dos burros", fonte de esclarecimento, repositório de definições precisas. E, durante as minhas noites de criança, fui aprendendo — muitas vezes com pesadelos — que os sonhos eram misteriosos e indecifráveis.

Como não se recusa um presente, ainda mais um presente sobre o qual se tem curiosidade, aceitei com satisfação o dicionário de sonhos, sem saber que começaria a usá-lo já no dia seguinte, quando sonhei que roubava um sapato, e não um sapato qualquer, mas o sapato-fone de Maxwell Smart.

No sonho, eu havia pedido emprestado ao atrapalhado agente americano seu par de sapatos. Ele havia aceitado me emprestar apenas o sapato do pé esquerdo, pois o do pé direito era o sapato-fone, por meio do qual ele poderia ser chamado a qualquer momento pelo seu chefe da CIA. A cena do sonho focava o sapato esquerdo na calçada, em close, e depois abria para mostrar Maxwell Smart tentando pular um muro calçado apenas com o sapato direito. Nessa hora, eu lhe roubava o sapato-fone e saía correndo com os dois sapatos na mão. Na cena seguinte, eu já estava calçado e pulava meu próprio muro, rapidamente para que o próprio Maxwell — ou um outro engraçadinho qualquer — não me roubasse os sapatos.

Eis o sonho. Enigmático, incompreensível, esfíngico. Perfeito para eu inaugurar meu dicionário de sonhos.

Como sou uma pessoa tanto onírica quanto enciclopédica, nutria esperanças de encontrar um verbete assim: "Roubar um artefato de um agente secreto = inveja profissional". Mas não havia tal verbete feito exatamente para o meu sonho. Tive que dividi-lo em partes.

Encontrei primeiro o verbete roubar, e devo confessar que jamais acertaria intuitivamente no significado de tal ato em sonho: Receberá uma jóia de presente. Fiquei animado, mas com um certo sentimento de culpa. Ando mesmo precisado de uma jóia ou qualquer coisa que eu possa converter em dinheiro, mas roubar — mesmo em sonho — não está no meu dicionário de princípios éticos. Pensei até na possibilidade de devolver os sapatos ao agente secreto na próxima oportunidade, ou seja, no cochilo da tarde, mas desisti quando li o verbete devolver objetos roubados: Terá insônia por algum tempo. Entre ganhar uma jóia de presente e ficar com insônia, preferi a primeira, mesmo com o alto quilate da culpa.

Fui em busca de outra parte do meu quebra-cabeça. Dada a associação do pé com o pênis, fiquei conjecturando se o sapato representava preservativo, mas não estava relacionada ao sexo a definição do dicionário dos sonhos. Sapatos: Não encontrará obstáculos para alcançar a meta. Como fossem sapatos de homem, o dicionário acrescentava: O êxito nos negócios virá mais tarde. "Mais tarde?! Por que não agora?" A ganância já estava tomando conta de mim. Controlei-me. Enquanto tardasse o êxito nos negócios, eu iria sobrevivendo da jóia que ganharia de presente. Mas a coisa foi se complicando e, na batalha entre o caos do sonho e a precisão do dicionário, o primeiro começou a mostrar sua força. Ter sapatos pretos (como os do agente secreto): maus tempos estão chegando. Depois da jóia, com certeza. Eu não deveria gastar demais logo após ganhar o presente. Mas os maus tempos viriam antes do êxito nos negócios — ou seja, seriam temporários — ou chegariam já depois da bonança? Que mais poderia me dizer o dicionário?

Folheei apressado as páginas, já preocupado em encontrar "pular muro = vontade de trair a esposa", o que não ficaria muito bem para um recém-casado como eu. Realmente, no verbete pular, dar um pulo significa Você é muito incoerente nos assuntos sentimentais. Mas incoerência interior não se traduz necessariamente em traição, o que me tranquilizou, ainda mais depois que li o significado de pular sobre um obstáculo. Já que não havia pular sobre um muro, o mais correto mesmo é que eu aceitasse o augúrio: Receberá notícias alegres. Um final feliz para o meu sonho, o que muito me aliviou.

Como tenho mania de concluir, resolvi fazer um pequeno resumo da interpretação: Ganharei um valioso presente que me auxiliará a suportar temporários maus tempos até que o êxito se estabeleça em meus negócios e, mesmo sentimentalmente incoerente, receberei notícias alegres.

Que notícias alegres são essas, fiquei me perguntando. E quando, na noite seguinte, sonhei com um desconhecido — alto, quase um gigante — que me apertava a mão, corri para o dicionário...

Mas fique tranquilo, não aborrecerei ainda mais o estimado leitor com essas esquisitices. O alarme do bom senso toca estridente. Hora de acordar. Fim.



Partilhar

sábado, 28 de agosto de 2010

AGOSTO [Maria Rita Lemos]

Agosto vai chegando ao fim, inaugurando o segundo semestre com seus derradeiros dias. Mês comprido, de cachorro louco, tempo de empinar pipa, que no meu tempo era sem cerol.

Agosto derruba as derradeiras folhas das árvores, desnudando-as despudoradamente. Despidas, elas parecem envergonhadas, em meio aos ipês amarelos e roxos, esplendorosos em suas vestes de gala, prenunciando a primavera. Em agosto, ainda, crianças e adolescentes voltam às escola, em bandos ruidosos, tal qual andorinhas retornando, após o inverno, à pátria de sua origem.

Agosto é tempo de avaliar, revisar, re-planejar. Tudo aquilo que foi programado lá atrás, quando o ano vinha nascendo, conta com agosto para um acerto de contas. Gosto desse jeito, que só agosto tem, de segunda chamada no vestibular anual da vida. O que não foi feito no primeiro turno, porque se planejou mal ou muito, pode ser mantido ou cancelado em agosto. Desta vez pra valer, senão só no ano que vem, que a gente nem sabe se vem.

Agosto tem o dia da “pindura”, do advogado, doutor das leis dos homens; tem o Dia dos Pais, tem até o Dia do psicólogo, mestre das mentes, bem no finzinho do mês. Agosto de mudança, transformação, nova chance, reciclagem. Eu ouvia sempre, em menina, vovó dizer que o mês de agosto leva folhas e vidas para seu ritual de renovação...

“Quando caem as folhas, levadas pelo vento de agosto, muita gente aproveita e vai embora junto”... Era uma das crenças de minha avó, que também partiu bem a seu gosto, como uma vela que se apagou mansa e quieta, num agosto distante.

Foi também num dia lindo de céu lavado, num finalzinho de agosto, que o primeiro amado meu fez sua travessia para outro plano. Lembro-me bem de que o dia raiava deslumbrante, lá pelas bandas da Santa Casa, onde eu vi, pela janela, que os ipês caíam de tantas flores, indiferente à dor das despedidas.

Agosto tem festa de pipas dos meninos, cruzando as ruas dos bairros humildes ou, em menor número, dos condomínios fechados, tocadas pelo vento. Vento gostoso de agosto, que toda vez que chega forte me cheira a expectativa, coração batendo forte, quem sabe chega a gosto tudo o que a gente sonha, o que se espera, ou tudo o que espera a gente. Tempo de trocar, renovar, reviver.

Agosto, na vida de quem é de bem com ela, tem até a vantagem do nome. A-GOS-TO, descendo macio boca abaixo. Sem a aspereza de abril, nem o som anasalado de junho. Bom de falar, agosto. Já pra quem tem, nos meses da vida, mais mau humor que sorrisos, agosto vem exatamente a gosto. Para todo mundo, porém, de mal ou de bem, não dá pra escapar de agosto. Há que curti-lo, então. Ainda que pensando, para se consolar, que a cada dia desses longos trinta e um, mais próxima estará sua grande e famosa vizinha, a estação maior, a primavera de nossas vidas.

RECADO: Aproveito para abraçar fortemente todos os psicólogos e psicólogas, que festejam o seu dia, ainda que cada um por si. O Dia do Psicólogo é comemorado, em todo o Brasil, no dia 27 de Agosto. Que Deus nos ilumine a todos, e ajude-nos, cada vez mais, a exercer nossa profissão com dignidade e sabedoria.

Partilhar

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

TOMEI UM UíSQUE COM O FANTASMA DO BADEN POWELL E TOM JOBIM ERA O GARÇOM
>> Leonardo Marona

E o medo? O problema todo foi eu ter me matado com uma faca afiada no meio do estômago e não ter conseguido ficar de pé para ver toda a cena linda que se sucedeu. Eu passei andando por mim. A faca escorria sangue da lâmina pro punho, do punho pro antebraço, do antebraço pro cotovelo, e dali pro chão e pro fim do começo. E eu parecia ávido. Como se quisesse coisas, finalmente. Como se aquilo tudo fosse um tipo de busca por coisas que um covarde não pode ter em vida. Porque vida é uma covardia em si.

E daí eu olhei pro lado e me vi ali, estirado no chão, lambendo meu próprio sangue, dores irreversíveis, as mesmas de sempre, com gosto de mercúrio e relâmpagos — os céus se fecham de vez em quando. Quando você quer se abrir, por exemplo. E eu não quero falar sobre isso. Juro que não.

Acho que morri a mim mesmo para falar das coisas que importam. Adoro escrever mas odeio admitir isso. Adoro esticar os olhos, coçar a boca, enrolar o cabelo como se isso agitasse as idéias — seja lá o que for, agitava, já não agita mais nada agora que tem minhocas saindo das minhas orelhas e larvas fazendo uma festa do cabide dentro da minha boca. Gosto de fazer tipos rápidos e escorregadios. Depois olhar com os olhos brilhando para aquelas pessoas que realmente importam (realmente importam — todo mundo só devia se preocupar com isso), e sentir quem importa realmente ou não. Um tipo de provação que me excita. E falar em deus, um sujeito que só está ali quando você pede alguma coisa, e normalmente quando você pede algo a ele é porque no fundo você tem certeza de que precisa ser correspondido desesperadamente. E tudo pra mim ou é desesperadamente ou é a morte. Então, pra que serve deus? Não, isso nunca. Aqui o deus sou eu e o deus está morto; não o do Nietzsche, que continua fazendo aliados das margens do Hudson aos confins da Cracóvia. E eu continuava com a faca na mão saindo fora de mim mesmo, me olhando no outro canto, lambendo meu próprio sangue em gargalos e procurando velhas lembranças.

Meus ídolos são o Kerouac e o Lautréamont. Só li o primeiro. O segundo lerei finalmente quando for me matar outra vez. E digo “finalmente” porque assim será quando eu ler o conde: um final de mil amplitudes. Cabe aqui dizer que estive lendo o Campos de Carvalho, “um oásis cheio de desertos por todos os lados”. E isso significa o quê? Que as pessoas que vivem ficam malucas, impreterivelmente. E é sempre uma questão de escolha: viver impreterivelmente ou morrer com uma medalha no peito e sanguessugas aos pés. Eu, por exemplo, resolvi casar comigo mesmo e viver feliz pra sempre, por isso enfiei uma faca na barriga e saí andando e procurando coisas no meio do mato. Hemingway queria parar de comer para entender a arte dentro do Louvre — acho que ninguém nunca conseguiu isso por lá. Eu preciso morrer mais quatro vezes ainda para conseguir o inconseguível, e ainda assim corro um risco danado de acabar me levando a mim mesmo para o pronto-socorro. Txingado! Adoro gritar em castelhano quando estou morto. QUANDO ME CONVÉM ME DESESPERAR SINCERAMENTE. E, no mais, tenho vergonha ao me ver tão debilitado, tão sóbrio e tão lúcido e tão por um fio, como sempre é para quem sente e não pensa em muitas convenções. Até porque não sabe. Ou não conseguiu enquanto podia ainda respirar e fazer valer uma cédula de cinqüenta mangos num puteiro chinfrim qualquer. E gosto quando uma pessoa olha pra mim e diz: vai com deus, meu filho. Tenho dois motivos pra isso. Um é o “meu filho”, que de fato nunca fui de ninguém, a não ser do sujeito que me pisava o pé e depois mordia a própria boca com os olhos baixos para me amar. E da grande índia com boca de prato, que me lavou as costas como a um bom marido. Dois é o “fundo dos olhos” no “vai com deus”, que se trata da verdadeira questão universal. Os Fundos dos Olhos.

E de repente cruzou o meu caminho de pedras um bode barbudo, me dizendo amém. No exato minuto em que fiquei na dúvida se tinha que ter realmente me dado uma facada no estômago, ou no peito.

***

Esperava encontrar mais do que isso quando pudesse me ver de verdade, mesmo que estirado e com uma cerimônia religiosa de formigas saúvas nas minhas narinas. Mas a mata era bonita, as árvores dançavam com suas copas e, em algum lugar longe dali (como sempre foi aliás), o vento entrava debaixo da saia de Mirela. Minha jamais minha Mirela. Nunca a teria mesmo, a não ser que eu não fosse eu mas Eu Mesmo naquela época. E se não estivesse agora com uma lâmina suada me coçando a ponta do intestino.

Me lembro que a tia Sônia, tia Sônia verruguenta do ginásio dos prazeres, estava perguntando à turma de babaquinhas irreversíveis que éramos “o que gostaríamos de ser quando crescêssemos?”. Carlos Cabeção disse lobinho aos sábados e mentecapto aos domingos; Baliú disse astronauta em Rio das Ostras; Araripe, o neto do Grande Filólogo, disse matador de gramáticos; Barciella disse pescador de botas num canal podre do Leblon. Eu falei que queria ser uma daquelas velhinhas de fila de banco, daquelas que causam pânico odioso nos que por elas são ultrapassados, tudo por causa de mais varizes e mais tempo perdido. Nunca imaginei que agora seria uma delas, finalmente. “Finalmente”, agora, significando para sempre.

Meu amor começou logo depois de ter acabado para sempre. Vou explicar. Uma pena que ninguém mais neste mundo seja capaz de entender. Os últimos três que eram capazes estão morrendo agora, neste exato minuto, para renascerem daqui a dez mil anos, na era das baratas voadoras. Foi quando eu enfiei meu nariz ranhento dentro da boca de Mirela, e ela dormia pavorosamante linda numa das tardes em que estudávamos juntos para as provas da vida — as provas que inventaram para nos cancelarem do mundo. Foi ali que tudo começou. Mas tudo já tinha acabado dois anos antes, ou dois mil anos, quando alguém disse pela primeira vez que o amor valia a pena.

Os meus planos eram simples: estando desesperado, faça o que lhe der na veneta. E eu juro que segui tudo exatamente como me mandaram Shakespeare, Fante, Goethe e Winston Churchill. Faltou alguém? Faltou sim, mas dele eu não vou falar porque senão periga dizerem que sou parte da nova literatura inspirada Naquele-de-quem-não-falamos, como no filme que vi ontem à tarde, pouco antes de me matar pela décima terceira vez. Portanto, sacudi Mirela pelos ombros quando a primeira gota de Mim Mesmo me escorreu pelo queixo. Ela, maldita querida, amor de merda, abriu os olhos já me tascando um beijo na testa, ao qual eu repliquei enforcando o seu pescoço. Depois ela me abraçou e ficamos como dois bichinhos apaixonados, daqueles que não sabem das barbaridades que se fala por aí sobre a paixão. Daí eu disse a ela que ia me matar e então decidimos tomar um sorvete antes de retomarmos os estudos. Se vestiu na minha frente, mesmo estando trancada no banheiro, mas dali onde eu estava era possível, com alguma possibilidade doentia, ver suas costelas esticadas quando ela pôs a blusa e mordeu os lábios. Então eu mesmo me meti num short e fomos andando.

Ela escolheu sabor cheese cake com framboesa, como sempre fazia, e eu escolhi sabor lágrimas ao molho pardo, meu preferido também. Chupei o sorvete pensando se dessa vez usaria cordas ou giletes ou fornos a gás, e ela me perguntou de repente o que eu faria se ela dissesse que me amava. Fiquei sem ar durante a vida toda a partir dali. E até hoje, perdão, até ontem os médicos ainda insistiam que era apenas uma bronquite crônica. Mas, logo antes de chorar um novo sorvete de lágrimas ao molho pardo, eu disse a ela que, se ela dissesse que me amava, eu simplesmente, sem pensar em mais nada, porque aquilo seria a coisa mais necessária em toda a minha vida, enfim, eu simplesmente diria a ela que...

Rufus chegou com a turminha do barulho eterno. Barulho de molas soltando de trás do Fundo dos Olhos — lembram deles? Pois então, Rufus chegou com seus milhares de centímetros a mais que eu, com sua carroceria impecavelmente bem formada por cima dos ombros sólidos de jogador de futebol profissional que dirá isso até os cinqüenta e sete anos para as meninas de treze na praia de Ipanema enquanto será apenas mais um adepto do Vô-vôlei. Pegou Mirela pelo braço, puxou-a num canto, estapeou-a, fez com que ela engolisse suas lágrimas com um dedo na sua cara e a levou dali em seguida. Mas Rufus morreria antes dos dezoito, assassinado com um tiro por um garoto magro numa bicicleta de oito marchas. E eu diria foda-se, Mirela, ele te batia, enquanto ela chorava. E então perderia meu começo novamente. Por isso fui para casa e escolhi me matar com os Boêmios Errantes do Steinbeck, o que durou pelos próximos dez anos.

E todo dia era o dia seguinte em que eu entenderia a paixão e falaria do amor. Até que ele apareceu no meu caminho: o bode bigodudo ruminante que dizia amém.

***

É incrível que isto esteja acontecendo: o amadurecimento total, que resulta na morte dos valores e de você mesmo, é claro. Aí alguém pode me dizer: puxa, você amadureceu. E se eu não tivesse me esfaqueado e não estivesse na frente de um bode barbudo, eu diria: vai à merda! Quem amadurece é maçã! Mas estou na frente dele. Então começo de novo a lembrar dos velhos tempos de anteontem. Uns com tanto e outros com tão poucos. Parece um ditado banal, mas é a mais pura verdade. Fiquei uns anos me culpando por existir. Depois olhei pros lados e vi que tinha um montão de gente pensando a mesmíssima coisa. Passei então a me culpar por não existir, o que de fato sempre aconteceu. Um medo enorme de ficar cego e certo e depois sozinho. Não queria morrer com o controle remoto na mão. Daí a facada fulminante e os olhos sem amor algum. Estou enfraquecendo. Se vocês pensam que morrer é uma escolha, tentem só. Um mato sem cachorro, até aí tudo bem, mas um bode?! Olhei pra ele e ele me ofereceu uma cenoura. Falei que tinha aprendido a viver sem os vegetais. E ele me disse que era por isso que eu estava morto. Você é deus ou é o demônio?, perguntei. Amém, ele respondeu. E então decidimos disputar para ver quem é que babava mais. Ganhei logo na segunda rodada e comecei a me desesperar novamente de alegria, como aqueles sujeitos que ficam felizes porque sabem que dura bem pouco, tanto ou mais do que a tristeza, porque a felicidade na verdade é mais insossa. O demônio faria alguma coisa quanto a isso, disse a ele. Então ele me respondeu: esqueça as malditas convenções, porque senão não haveria motivo nenhum para você ter se esfaqueado. Pensei bem e vi que tinha que dar uma gorjeta ao diabo para que ele se mandasse. Fucei a bolsa que levava no ombro e constatei que só o que eu tinha era a minha coleção de botões de madrepérola da copa de setenta e um tesão danado. Mas não ia foder o diabo. Fiz isso em vida a vida inteira. Então falei do medo e ele me falou da cruz. Daí falei da vontade de perder para não precisar disputar e ele me falou da pena. Então disse que não sabia mais do que falar e então ele me falou que, já que era assim, eu poderia voltar a viver. Mas a vida me traria de volta a falta, eu choraminguei. Ele dobrou as orelhas e me falou que nada mais era a falta quando nunca se teve absolutamente nada. Falei tudo bem, depois dobrei os dedos atrás da bunda para não ser punido pela sorte. E então disse a ele que eu não precisava ter medo, por isso tinha. Pedi licença e fui vomitar no mato. Ele me seguiu e lambeu o vômito com vontade. É do que se alimenta o diabo, pensei. Mas o teu deus se alimenta das mortes e das vidas, foi o que ele me confidenciou. Me obrigou em seguida a assinar um termo confidencial de aceitação póstuma de mim mesmo, o qual eu assinei como Marona Brás, mas vi que fui erradamente registrado como Mario Brós. Aliás, isso me lembrou outra história: quando a literatura acabou pra mim.


***

Me lembro que o meu pai me olhou e disse: ou o video game ou a festa. Era justo, mas eu o odiei por isso. Talvez porque fosse justo demais. Enfim, fiquei com o video game de botões coloridos. Apertando seus botões me veio pela primeira vez a vontade de prazer, que resolvi imediatamente esfregando meu “tico” (a maneira carinhosa que minha avó me ensinou para tratar meu próprio pau, o que já não era mais muito viável a partir dos quinze anos) no travesseiro. Nada saiu de lá de dentro, e eu ainda fiquei com uma tremenda dor nas bolas. Depois disso, toda hora em que via a princesinha sendo resgatada do castelo do sr. Troppa (ou Koppa) pelo Mario ou por seu irmão Luigi, e percebia que as barras da sua saia levantavam e abaixavam no ar, toda vez era a mesma coisa. Até que um dia veio um negócio branco de lá de dentro do tico que eu não sabia o que era, mas tinha a certeza de que era o castigo pelo pecado capital me trazendo a conta. E não tinha ninguém com quem eu pudesse falar sobre o assunto, porque eu simplesmente não falava. Mas lembro que foi aí, antes de me matar pela segunda vez, que a literatura toda foi direto do meu travesseiro para o beleléu.

***

A noite já caía e, pra mim, o dia já subia enquanto eu vagava à procura de mim mesmo por entre as árvores e os espinhos, mais espinhos do que árvores. A noite sempre me trouxe o dia dentro da bolsa, como um presente de tia, e durante o dia eu estive sempre em algum lugar que não era nenhum lugar importante pra ninguém, nem pro senhor pai todo poderoso, nem pra minha orientadora educacional, ou pro psicólogo que era igual ao Freud sem ser o Freud, mas sim um filho da puta com uma barba como a dele dizendo sempre que o meu tempo psicológico tinha acabado quando eu começava a falar que ia me suicidar — e ele mal sabia que eu ainda tinha mais nove vidas para dar cabo. Só que eu já andava havia horas e não conseguia encontrar meu corpo em lugar nenhum. O máximo que achei foi um padre de batina estendido de boca aberta, com uma garrafa de vinho vazia ao lado, no mesmo lugar em que eu morri esfaqueado. Ele dormia e parecia feliz e contente por ter o fim do mundo em suas mãos. E ele era eu. Eu mesmo de batina.

Minha primeira reação foi avançar no seu pescoço e dizer que ele era o culpado, afinal, é bem fácil xingar padres, ainda mais se você for um deles também. Ele rapidamente se desvencilhou, me olhou furioso e disse:

— Eu estou aqui pra te lembrar daquele dia que você xingou deus na igreja. Assim, do mesmo jeito que está me xingando agora.

— Porra! Eu tinha uns dez anos e tinha tropeçado no banco na hora que o padre mandou sentar. Se você estivesse lá de barriga pra cima com um monte de carolas falando mal dos outros à tua volta, aposto que faria a mesma coisa.

— Tudo bem, mas eu sou o diabo — disse eu mesmo de batina.

— Ah, não! Você de novo?! Porra, dá um tempo, cara.

— Amigo, você está no purgatório. Queria o que, uma cesta de café da manhã com cachos de uva? — eu mesmo de batina me respondeu.

É, eu tinha que concordar com ele.

— Mas você vai ficar me atazanando pra sempre agora? — perguntei pra ele.

— Não. Tem uma fila aqui. E ela está bem grande. Já estão reclamando de falta de espaço na ala dos poetas e dos homens-bomba.Você vai acabar saindo fora rapidinho.

— Vocês dividem as pessoas por alas aqui? É isso?

— Se não fizéssemos nenhuma divisão isso aqui não seria o purgatório. Seria o inferno.

— E qual é a minha ala, então?

— Ala dos imortais.

— Ah-ah! Como assim, ala dos imortais?

— Onde ficam os homens de grande alma.

— E pra onde vão os outros? Os de alma pequena?

— Esses vão pr’um lugar parecido com um carnaval fora de época.

— Com mulheres e tudo o mais?

— Com mulher e tudo o mais.

— Ah! Foda-se! Morrer e ainda por cima ter que ficar ouvindo axé é foda. Prefiro ficar olhando pra mim mesmo de batina.

Pi-pi-pi-pi-pi-pi-pi-pi-pi! Um alarme apitou.

— Olha, vai andando que chegou a sua vez.

— Andando pra onde?

— Vai reto por ali — o diabo-que-era-eu-mesmo-de-batina apontou então para uma outra trilha de pedras. Tudo ali que não era de mato era de pedra.

Andei alguns metros quando vi uma cabana com um monte de ruídos vindo de lá de dentro. A maioria deles era composta por barulho de vidro quebrando, poesias gritadas aos gargalos e insultos da pior espécie — que se confundiam com as poesias gritadas aos gargalos. Vi que aquilo só podia ser algum tipo de sacanagem muito bem bolada do diabo, quando, ao abrir a porta, reparei que estavam todos ali dentro. Todos os Grandes. Fiquei um pouco desconfiado no início, quando vi o Oscar Wilde agarrando a Ana Cristina César.

Havia um bar feito metade com madeira, metade com espelhos no final da cabana. A cabana era maior por dentro do que por fora. Segui de esgueira e contornei uma mesa de sinuca, esbarrando sem querer no James Dean bem na hora da bola oito. No caminho ainda consegui dar um tapa na careca do Bogart, o que sempre foi um sonho meu — e, afinal, no purgatório não se vendem perucas. Quando vi, antes mesmo de chegar ao balcão, Marlon Brando surgiu no meu pescoço e o Bogart me cercou com os punhos cerrados e apontados para mim. Talvez este seja o único momento da minha não-existência em que eu tenha preferido estar num carnaval fora de época — pensei.

Apanhei um bocado. Me botaram as cuecas sobre as calças e então me liberaram. Segui andando um pouco tonto, me apoiei no balcão do bar, levantei minhas calças e pedi uma taça de Fundador. Prontamente o garçom — que era o W.C. Fields — me atendeu, ainda me alcançando um pano de prato para enxugar o sangue que escorria da minha boca. De repente ouvi um violão ressonando como se estivesse sendo espancado com enorme delicadeza. Como se fosse uma sadomasoquista com prendedores nos seios. De repente a música parou e ouvi alguns aplausos e outros gritos indefinidos e assovios e choros desesperados. Só sei que uns trinta minutos depois eu estava numa mesa tomando uísque com o Baden Powell, e o Tom Jobim era o garçom. Do outro lado da mesa, um Cartola sem nariz dedilhava uma caixinha de fósforo completamente fora do ritmo da música, mas certamente muito bêbado e feliz. Como o resto todo, menos eu, ainda. Pixinguinha colhia rosas no mato. Olhei para o Baden Powell e, muito comedidamente, perguntei:

— Sr. Baden, por que o Tom Jobim está nos servindo?

Ele nem me olhou. Esperou um minuto e disse:

— Aqui os novatos são maiores que os veteranos. É uma regra antiga.

— Eu não sabia dessa regra.

— Por que acha que Rimbaud escreveu aquilo tudo tão cedo?

— Aí é que tá, sr. Baden. Eu não sou nem o cheiro do Rimbaud.

— Então fique quieto ou vá pro carnaval fora de época, ora.

— Tudo bem. Mas o sr. me parece ter muitas regalias por aqui, ao contrário do Tom. E ainda assim, é um puta veterano. Com todo o respeito.

— Não. Não sou veterano nem novato. Sou um fantasma que ficou no meio do caminho.

— O Lautréamont também está aqui?

— Não. Isidore ainda está se tratando das dores. Ele e um monte de gente.

— E quanto ao sr.?

— Eu ainda sou responsável por produzir as dores. Não sei fazer outra coisa.

— Pois eu acho o seu trabalho de primeiro nível, sr. Baden.

Pedi licença e saí dali. Mal virei num corredor que dava nos banheiros e um senhor de cabelos brancos, óculos enormes de grau, largas costeletas e com uma cara murcha veio na minha direção e me parou com a mão no peito. Na outra mão tinha uma garrafa de uísque pela metade. Olhou pra mim enfurecido e falou:

— Morra!

— Mas eu já morri — respondi a ele.

Ele então se afastou um pouco e me examinou com os olhos enviesados e a cara inclinada. Me alcançou a garrafa.

— Porra! Então você já sabe o que tem que fazer.


www.omarona.blogspot.com


Partilhar

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

RUPTURA E CONTINUIDADE >> Fernanda Pinho



Faz nove anos desde que eu saí do colégio e, naturalmente, muitos dos conceitos que aprendi ali ficaram esquecidos ou estão guardados em algum lugar da minha memória que não acesso nunca. Há ainda as poucas coisas das quais nunca me esqueci e aquelas que só fizeram sentido quando cheguei a este ponto ao qual convencionamos chamar de vida adulta. Aliás, acho “vida adulta” um conceito muito vago e talvez eu devesse escrever sobre isso um dia. Um dia que não é hoje, pois hoje quero falar sobre outra coisa.

Hoje quero falar sobre a aula de História do professor Cleiton, que nunca se limitou a nos fazer decorar datas e fatos e, portanto, nos ensinou muitas coisas que eu só compreendi agora que sou... adulta (é, detesto admitir). Cleiton gostava de provocar a reflexão e incitar o debate. Ingênuos que éramos, poucas vezes mordíamos a isca. Mas me lembro muito bem dele – não raramente – escrever essas duas palavrinhas no quadro e nos fazer pensar sobre elas: ruptura e continuidade. Sob o prisma da sua disciplina, ele queria nos fazer identificar momentos da história da humanidade em que, diante da possibilidade de escolha, os homens optaram por romper ou continuar. Mesmo sem entender exatamente o porquê, eu conseguia observar que quando a opção era pela ruptura, a longo prazo, os resultados eram melhores para a sociedade. Chega a ser óbvio, afinal, se chegamos a uma situação onde é necessário fazer uma escolha, é porque as coisas não vão tão bem assim. E se não está tão bem, por que continuar? Porque continuar é mais fácil. Não existe ruptura sem caos, e poucos são aqueles interessados em revoluções de qualquer ordem.

Me saí muito bem nas provas do Cleiton, mas o que só entendi anos mais tarde é que esse negócio de ruptura e continuidade são conceitos determinantes para a história do mundo, para a história do nosso país (pra isso que existe eleição) e para a nossa própria história. Descobri que quanto maior é nossa capacidade de romper, maior é o nosso potencial de felicidade. Por que existem pessoas que passam anos trabalhando numa empresa que não suportam, anos vivendo um casamento infeliz, anos cercado por pessoas em quem não confiam? Simplesmente porque não têm coragem de provocar ruptura. E dá para entender. Romper dói demais e falo por mim que tenho pensando no assunto desde que, pela primeira vez na minha vida, provoquei uma ruptura. Por minha conta, sem tentar saber o que se passava com o outro. Eu estava numa situação que me fazia mal, eu estava sofrendo. Então, como num loop de montanha-russa, eu fechei o olho e fui. E vou dizer pra vocês: a vertigem é das brabas. Não é fácil suportar as consequências de uma ruptura que você mesmo provocou. Ainda não me recuperei do caos, mas sei que é daí que virá a ordem. A tristeza hoje tem um latifúndio na minha alma mas, paradoxalmente, sinto um orgulho imenso por ter me feito esse favor. Antes agora do que depois. E recomendo: experimente romper você também. Rompa com a má vontade, com o desrespeito e com o desamor. Rompa com a solidão a dois, com o chefe intransigente e com o amigo da onça. Rompa com o cartão de crédito, com a balança e com a tecnologia. Rompa com as más notícias, com a fofoca e com suas deduções.

Rompa, porque como diz uma frase que li outro dia, e que resume tudo isso o que eu precisei de tantas frases pra dizer: “Não existe prova maior de insanidade do que fazer a mesma coisa, dia após dia, e esperar resultados diferentes”.

Claro, a vida também tem daquelas coisas que merecem continuidade. Mas isso também é assunto para outra crônica.



Partilhar

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

A VIDA ESTÁ NALGUM LUGAR >> Carla Dias >>

Milan Kundera disse que sim, que a vida está em outro lugar, ao menos para o personagem central do livro de sua autoria que leva este título. Aliás, este é um dos meus livros preferidos.

Quando a nossa vida está em outro lugar, analisamos pratos que já experimentamos, e os que desejamos experimentar, enquanto nos alimentamos do que nos foi servido. Dialogar sobre passado e futuro, ignorando o presente, o exercício do agora, é uma forma muito eficiente de não estarmos onde deveríamos, e posso citar uma serie de exemplos que em nada tem a ver com comida.

Olhar por cima dos ombros do presente também é uma forma quase pueril de evitar se olhar no espelho da transformação. Hoje somos a soma do que vivemos com as buscas que se esparramam em um futuro que não pode ser programado, mas certamente pode ser sonhado.

Sonhar costuma deslocar nossa realidade, assim leva a vida para outro lugar, de um jeito romântico, quase pueril. Porém, não há como nos atirarmos às páginas de livros de contos de fada e vivermos assim por muito tempo. E nem digo isso pela improbabilidade de nos mudarmos para condomínios inaugurados nas páginas dos contos dos Irmãos Grimm. Digo isso pensando na necessidade natural ao ser humano de saber o que vem após os finais felizes.

Essa inquietação, esse desejo de saber o que há por detrás do olhar benevolente, do sorriso apaziguador, das palavras doces, é o que nos torna curiosos sobre o outro. O que realmente nos leva a nos interessarmos pelo outro.

A vida está em outro lugar quando amamos personagens, ao invés de pessoas. Quando decidimos que o currículo de alguém é sua autobiografia, que a única frase que ouvimos sendo dita por este alguém é o resumo de tudo o que pensa e sente. Quando decidimos que nada está certo: corpo, voz, jeito, sentimento. E quando acontece com a gente, quando nos julgam de forma a sequer se aproximarem de quem realmente somos, não permitindo a existência de oportunidade para que mostremos a nossa real identidade. O que nos dói ou que nos cura. Aquilo que nos emociona e o que fere.

A vida está em outro lugar quando nos tornamos espectadores das nossas próprias biografias. Quando falamos sobre nós, o tempo todo, na terceira pessoa, ou somos incapazes de compreender o valor de assumirmos as consequências das nossas escolhas.

E quando ela está no lugar que lhe cabe, a vida é uma coisa...


NALGUM LUGAR - ZECA BALEIRO
(Zeca Baleiro, Augusto de Campos, E. E. Cummings




Partilhar

terça-feira, 24 de agosto de 2010

AH, A INOCÊNCIA >> Clara Braga

Nesse final de semana foi a primeira vez que minha banda tocou em um pub sem dividir palco com ninguém, tocamos sozinhos a noite toda. Na hora é tudo muito bom, claro, é uma experiência que a gente sempre quis ter, mas para isso tivemos que ensaiar muito e, claro, colocar mais e mais músicas no nosso set list. A hora de decidir quais músicas tocar é sempre um sofrimento, cada um quer uma música diferente, não gosta da música que o outro escolheu e vira uma confusão. Até que todas as músicas já estejam escolhidas leva muito, mas muito tempo.

Em uma dessas discussões das músicas que tocaríamos surgiu a idéia de tocarmos Mamonas Assassinas. Eu confesso que a princípio fui a única que ficou meio relutante, não achei que teria muito a ver com o resto do repertório, mas como fui voto vencido acabei tendo que desenterrar meu CD dos Mamonas lá do fundo do meu baú.

Enquanto ouvia as músicas só pensava o quanto pode ser bom ter a inocência de uma criança ou o quanto pode ser ruim também. Eu podia jurar que as pessoas morriam de rir de Mamonas Assassinas porque eles se vestiam engraçado, o vocalista fazia uma voz diferente pra cantar e porque eles tinham uma variedade de letras incrível, que ia desde uma simples volta ingênua no Chopis Centi até o Mundo animal. Que outra banda consegue falar de assuntos assim tão diferentes em um só cd? Nossa, eles eram realmente incríveis! É claro que algumas besteiras você sempre entende, quando eles falam do robocop gay por exemplo, acho que a palavra gay já está bem falada, já dá para todo mundo entender. Agora quando eu ouvi à música Vira-vira, aí sim eu me perguntei como minha mãe deixava eu não só ouvir, mas também dançar essas músicas!

Vamos analisar algumas frases da música: "Fui convidado pra uma tal de suruba". Pra mim suruba era um lugar onde as pessoas faziam uma festa tranquila, com bebidas e música, e conversavam, SÓ conversavam. "Depois de uma semana, ela voltou pra casa toda arregaçada, não podia nem sentar!" Nossa, coitada da Maria né, foi pra tal da festa que fica na Suruba e ainda apanhou, tá toda machucada a pobre coitada. "Me passaram a mão na bunda e ainda não comi ninguém". Tudo bem que passar a mão na bunda é algo que não se faz, mas também não precisa virar algum tipo de canibal e comer a pessoa porque ela fez isso, briga com a pessoa, os mais fortes e esquentados até batem na pessoa, mas comer eu realmente nunca tinha ouvido falar em ninguém que fazia isso! "Tu ficaste tão bonita monoteta, mas vale um na mão do que dois no sutiã". Monoteta?...

Bom, a música mesmo tem várias outras frases que eu não entendia, mas eu também não teria nem como explicar o que eu entendia. Acho que, na verdade, eu nem me preocupava muito com isso, só queria mesmo curtir! Mas agora fico me perguntando: será que eu era a única ou ninguém da minha idade realmente entendia?

Partilhar

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

O CANDIDATO I >> Albir José Inácio da Silva

“Pela saúde, pelo calçamento, pela água, pela escola e pela fé, vote Adailton da Birosca”. Era reconhecidamente um lutador por essas causas. Mesmo os desafetos que reclamavam da honestidade da sua balança, dos juros nas contas penduradas, dos produtos vencidos e, coisa de invejosos, até de incêndios em eventuais concorrentes, tinham de reconhecer seu envolvimento em todas essas áreas. Bem, quase todas, porque em coisas de fé sempre manteve distância para não criar amarras de um lado e ressentimentos de outro. E isso, se era bom para os negócios, não era nada bom para a campanha.

De sua tribuna, o balcão onde passava o dia e parte da noite atendendo os fregueses, exercia sua liderança. Sobre aquela madeira velha e manchada já conseguira centenas de assinaturas para pressionar as autoridades. E foram os próprios fregueses que o convenceram: se já fazia tanta coisa pelas pessoas, imagine quando estivesse na Câmara. Não podia fazer isso com eles. Não podia desamparar seus irmãos.

Resistiu quanto pôde. Não pensava em política, a não ser para criticar. Uma corja de aproveitadores que nada fazia pelo povo. Quando se empolgava, convencendo os clientes a fazer barulho na frente da Prefeitura, sempre desancava os políticos, “essa raça de abutres”. Como é que ia agora enveredar por esse caminho?

Mas, tanto insistiram, que ele prometeu pensar. E pensou. Numa trincheira adequada, talvez pudesse fazer muito mais por aquela gente. E não seria mais um arruaceiro, um criador de casos. Seria um legítimo representante do povo, investido nos poderes que lhe outorgavam a Constituição e outras coisas bonitas mais. Saberiam o que é um homem público

Tinham todos de concordar que, mesmo sem mandato, já conseguira muita coisa. Não veio a escola, mas veio a professorinha que dá aulas numa salinha atrás da igreja. Não tem posto de saúde, mas tem visita de médico e enfermeira, a cada quinze dias, na farmácia. Não conseguiu calçamento, mas pó de pedra foi jogado nos lugares mais cheios de lama e onde já não passava carroça. Ainda não havia água encanada nas casas, mas torneiras públicas foram instaladas em alguns lugares.

Só em assuntos de fé não tinha nada ainda para ostentar. Embora tratasse todo crente com respeito e cortesia, embora ouvisse pacientemente as admoestações, conselhos e bênçãos que sobre ele derramavam, nunca se interessou de fato por essas coisas. Por outro lado sabia que, sem apoio das lideranças religiosas, sua candidatura não tinha chance.

Procurou primeiro o Padre Jonas, porque ele era o mais marrento. Adailton, embora batizado, só frequentava a igreja nos casamentos, batizados e enterros. Já percebera os olhares enviesados do padre e, por isso, chegou todo sorrisos.

- Seu padre, a sua bênção. Sei que o senhor, assim como eu, é uma pessoa muito preocupada com a gente daqui e por isso venho colocar a minha candidatura a serviço da nossa paróquia.

- Nossa paróquia não, que o senhor não bota os pés aqui há muito tempo. – disse o padre, azedo.

Adailton xingou intimamente o pároco, mas manteve o sorriso.

(Continua aqui.)

Partilhar

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

NÃO ENCHE, ESTOU COM FRIO >> Fernanda Pinho



Há algumas semanas venho acompanhando pelos noticiários da tevê e pelas notícias dos meus amigos que moram em outros estados a queda vertiginosa da temperatura. Em Santa Catarina nevou! Em São Paulo as pessoas estão saindo de casa com quatro agasalhos. E até os termômetros do Rio de Janeiro ficaram muito, muito abaixo dos 40 graus habituais. Eu, pra não dar zica, nem comentei muito o que estava acontecendo aqui em Belo Horizonte: calor em pleno inverno. Apenas agradeci mentalmente por morar nesse paraíso climático. Mas o inverno já estava com quase dois meses e, na última segunda, deu-se o inevitável: amanhecemos num frio dos infernos. Sim, dos infernos. Nem vem que não tem, que isso não pode ser de Deus. Acho que, inclusive, a primeira parte da Divina Comédia poderia ser o Inverno de Dante.

Eu sei que sou minoria, pois cada vez que emito essa minha opinião tenho que aguentar as reações exacerbadas das pessoas dizendo que eu sou louca, que eu sou do contra e blablablá. Mas o fato é que eu odeio inverno e nenhum dos argumentos dos seus amantes - a maioria, eu sei - me convence. Peguemos o maior deles, repetido exaustivamente por quem curte um friozinho: inverno é bom pra ficar deitado, debaixo das cobertas, vendo filme, tomando chocolate. Ok. Eu também acho mas, infelizmente, eu não tenho essa vida mansa. No inverno eu faço exatamente as mesmas coisas que faço o ano inteiro: saio pra reuniões, saio pra entrevistas, saio pra academia, saio pra ir ao banco, saio pra ir ao médico. Enfim, eu preciso viver! Coisa que pra mim é impraticável com a temperatura lá embaixo. Porque pra viver eu preciso me arrumar. E me arrumar se torna inviável quando meu cabelo está espigado, minha pele seca, minha boca rachada, minhas pernas desbotadas e meu nariz um pimentão (aliás, acho uma judiação que ainda não tenho inventado uma roupinha pra nariz). Pra viver, eu preciso me vestir e nem adianta tentar me convencer de que as roupas de inverno são mais elegantes. Se você acha elegante andar todo empacotado, parecendo um colchão amarrado ao meio, me desculpe, mas o problema é seu. Pra viver eu preciso tomar banho. E é deprimente ter que reunir forças pra conseguir tirar a roupa e deixar o chuveiro pingando cinco gotas, pra não cair gelado. E mais deprimente ainda é ter que sair do chuveiro. E pra viver eu preciso sair do chuveiro. E de casa! E me dá vontade de chorar quando eu sinto aquela rajada de vento gelado cortando meu rosto. Quando noto meus fios de cabelo, ainda úmidos, endurecendo como estalactites. Quando nove em cada dez pessoas com quem me relaciono estão com gripe ou algum problema respiratório. Pra viver eu preciso me relacionar com gente. E no frio todo mundo se recolhe. As pessoas andam a passos apressados, com os braços cruzados, afoitas por um ambiente mais aconchegante. No frio são todos introspectivos e individualistas. Querem mais é chegar em casa e tomar seu chocolate, sozinho, debaixo das cobertas.

Não vou negar. O frio tem seu charme. Deve ser legal ver a neve cair de dentro de um chalezinho nos Alpes Suíços. Mas, veja bem, eu não estou, nunca estive e talvez nunca estarei na Suíça. Então eu me limito a me preocupar com a minha realidade. E a minha realidade é: sobrevivo no inverno e vivo no verão. E nem tentem me persuadir dizendo que isso é porque eu não conheço o calor de verdade. Conheço sim. Já estive no Rio de Janeiro, no nordeste do Brasil e em Resplendor (uma cidade no leste de Minas, onde você sua até dentro do banho). E vou falar com vocês: nunca fui tão feliz como nesses lugares. Nunca me senti tão acolhida, tão aquecida, tão em casa. Porque eu amo o sol e ele me ama também. E acho uma tremenda cara-de-pau que os calorentos que repudiam o verão fiquem procurando uma frestinha de sol pra se aquecer nesses dias frios. Sai pra lá que o sol é meu por direito. Eu que o amo e o defendo 365 dias por ano. Não prefere o frio? Então fica aí na sua sombra.

Não é impressão. Eu realmente estou invocada que o inverno tenha resolvido aparecer por aqui. Mas quando o verão chegar, com sol rachando, corpos suados, cores vibrantes, chinelos, vestidos curtinhos, pessoas na rua, cerveja gelada, lembrem-se de mim e da felicidade plena que estarei sentindo nesse momento.

p.s.: Eu sei que falar de clima parece falta de assunto. E é mesmo. O inverno me deixa assim: sem assunto e sem humor. Por isso o texto pode ter soado um pouco áspero e frio. Tá vendo? Se frio fosse bom, não seria sinônimo de hostil.



Partilhar

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O PEQUENO MUSEU DE MIM... >> Carla Dias >>

Quando a Carmen me disse que a sua exposição teria este título, confesso que me bateu, e não pela primeira vez, uma vontade de roubá-lo para criar um poema e dá-lo a ele. Mas ao invés disso, divaguei a respeito, até chegar o dia de ela vir ao Brasil e apresentar a exposição “O pequeno museu de mim e outras histórias”, aqui em São Paulo.

Carmen Novo é artista plástica e jornalista, com especialização em Museologia. Realizou diversas exposições no Brasil, em Cuba, em Portugal e na França, onde vive, desde 2003. Como jornalista, os trabalhos que desenvolveu estiveram sempre ligados à cultura, à educação e a projetos sociais com a arte como tema.

Como artista plástica, uma das funções de Carmen é expor sentimentos através das suas criações. O que mais me admira nas obras dela é a forma como esboça esses sentimentos. Há um flerte entre o caótico e o deslumbrante, como na instalação “De tudo fica um pouco”.

Ultimamente, tenho notado o apaixonamento dela pela fotografia, levando para tal forma de registro do olhar o que também enxerga nas suas obras artesanais. É um encontro de linguagens, uma forma de tê-las num mesmo espaço, dizendo os sentimentos com propriedade e sutileza.

Sábado passado, fui à Galeria Quarta Parede para conferir “O pequeno museu de mim e outras histórias”, exposição de fotos em preto e branco, instalação e vídeos.

A exposição fotográfica “A vida das coisas” desperta uma série de sensações, como se estivéssemos contemplando retratos emocionais. As fotografias são capazes sim de contar histórias, através dos sorrisos, dos olhares, das máscaras, até mesmo através do cenário desolado, bagunçado pela ausência. Cada imagem tem sua própria história.

“O pequeno museu de mim...” também trata das coisas que se tornam essenciais para nós pela importância afetiva que delegamos a elas. Trata da biografia dessas coisas que não são apenas coisas, mas coleções de lembranças. Os vídeos exibidos tratam com muita sutileza do assunto. Eles construídos através da combinação de depoimento de donos de objetos fotografados pela artista. Esses depoimentos se tornam, então, a trilha sonora deste filme sobre objetos tão peculiares que cultivam zelo e benquerença nos seus donos. E ao percebermos a diversidade dos objetos, também compreendemos a diversidade das emoções que eles provocam nestas pessoas.

A instalação “Para guardar nossas lembranças” atiçou o meu desejo de adivinhar a narrativa escondida na obra. No fundo de pequenas latas metálicas, Carmen colocou fotografias de lugares, pessoas, animais, criando um cenário de possibilidades. São 32 latinhas fixadas na parede que, ao observá-las de perto, me davam a sensação de proximidade, porque era como se eu olhasse por um olho mágico, alcançando um lá fora que não era o meu, mas sim desse lugar misterioso, e ao mesmo tempo agradável, criado pela artista.

Pensando bem, “o pequeno museu de mim” é um título muito bom para um poema, mas acontece que a poesia dele já se encontra na construção de Carmen Novo. É no museu construído pela sua arte que vive essa poesia graciosa, capaz de despertar no observador a sensação de visitar um lugar no qual as coisas têm a vida que damos a ela.

O pequeno museu de mim e outras histórias - Carmen Novo
Galeria Quarta Parede, São Paulo/SP
Até dia 25 de agosto
Informações: galeriaquartaparede.com

Carmen Novo: carmennovo.pagesperso-orange.fr


carladias.com





Partilhar

terça-feira, 17 de agosto de 2010

MINHA MAIS NOVA DESCOBERTA
>> Clara Braga

A vida está definitivamente cada vez mais louca! Muita coisa para fazer, muito trabalho, a cabeça ocupada com milhares de coisas e, quando se senta para escrever, nada vem! É muito mais fácil sentar para escrever quando já se sabe sobre o que falar, mas sentar sem uma ideia e tentar puxar do nada, como eu gosto de fazer às vezes, pode ser meio frustrante quando nada de interessante aparece. As únicas coisas que vêm em mente nesses momentos são as aulas que se deve preparar, os trabalhos que devem ser entregues na data certa, os compromissos, as aulas a serem assistidas, mas nada realmente muito interessante que dê vontade de escrever e colocar no mundo para que todos vejam.

Escrever, para mim, é isso mesmo, é tirar algo de dentro de mim e jogar para o mundo, para que todos compartilhem isso comigo. Não vou aqui ousar dizer que é um processo parecido com o parto, pois eu mesma nunca passei por essa experiência, mas que é um processo muito íntimo isso é. E é exatamente por ser tão íntimo que eu não me permito escrever de qualquer forma.

Um desses dias, em uma dessas minhas crises de sentar para escrever e não conseguir, depois de me sentir péssima, de ler vários textos para me inspirar, assistir filmes, ouvir músicas e o que mais eu pudesse fazer, acabei lembrando de uma das várias partes interessantes da palestra que a Martha Medeiros fez aqui recentemente. Ela contou que diariamente recebe vários e vários e-mails de pessoas perguntando para ela como que se faz para virar uma grande escritora. Até ai tudo bem, acho que em algum momento todo mundo que escreve já pensou em ser um grande escritor. A verdadeira questão desses e-mails que ela recebe está no fato de que a maioria das pessoas que fazem esta pergunta que não quer calar são meninas com seus 14,15 anos. Então ela disse que sempre responde a mesma coisa: "Primeiramente, vá viver!"

Essa frase não poderia ter feito mais sentido pra mim do que fez nesse momento de desespero pelo qual eu passei. A verdade é que não adianta nós — que gostamos de escrever sobre coisas da nossa vida, coisas que fazem parte do nosso codidiano — só dependermos de uma coisa para ter assuntos para escrever, nós mesmos! A gente precisa viver, dar chance para que as coisas aconteçam, estar espertos para ver essas coisas acontecerem ao nosso redor e tirar delas o melhor possível.

É bem verdade que no momento em que minha ficha caiu e eu percebi isso tudo, meu problema continuou existindo, ele não foi resolvido de imediato e eu não comecei a escrever como se fosse Chico Xavier psicografando. Pelo contrário, percebi que para resolver meu problema eu não poderia continuar sentada na frente do computador 24h por dia fazendo trabalhos. Alguma hora eu teria que sair dali e viver. E é por isso que hoje vim aqui compartilhar essa grande descoberta que eu fiz nessa útima semana, e ao mesmo tempo aproveito para fazer uma apelo geral: Primeiramente, vivam!

Partilhar

domingo, 15 de agosto de 2010

O PARAÍSO >> Eduardo Loureiro Jr.

Estive no Paraíso e voltei para contar a história. Não, não se preocupem, não morri nem passei por uma experiência de quase-morte. Uma das coisas surpreendentes sobre o Paraíso é que não é preciso morrer para ir até lá.

E o leitor que não pense que se trata de uma pegadinha, que eu, ao final da crônica, vá dizer que estive num bairro de Belo Horizonte ou numa cidade de Santa Catarina. Paraíso é o que não falta, eu sei, mas aquele de que estou falando, e onde estive, é aquele paraíso que se supõe utópico, difícil de ser atingido.

Uma primeira coisa notável sobre o Paraíso é que ele, em praticamente tudo, se parece com a Terra. Posso até dizer que o Paraíso está na Terra, faz parte dela.. Materialmente falando, é assim como um Sítio do Picapau Amarelo, com direito a vovós bordadeiras e contadoras de histórias, cozinheiras espetaculares, sábios viscondes, emílias tagarelas, meninas de nariz empinado e homens valentes. No Paraíso, há árvores frutíferas de toda espécie, incluindo um pé de quincoa, que eu desconhecia. Mesmo que não se veja, o mar está próximo, e a qualquer momento pode surgir o Capitão Gancho.

Como veem, o Paraíso não é a monotonia que alguns — sem muita imaginação — presumem. Em matéria de animação, o Paraíso não deve nada à Terra, da qual faz parte, como eu já disse.

Outra ideia falsa sobre o Paraíso é que lá se vê Deus face a face, e se conversa com santos. Nada disso. Para quem não O via, Deus continua invisível e, para quem não dialoga com eles, os santos continuam incomunicáveis.

O leitor há de perguntar então que raio de paraíso é esse, qual é a vantagem. E eu lembro que no Paraíso há caramanchão e rede armada na varanda. Embora também haja pequenas rãs e uma ou outra barata, sem contar as osgas. "Grande coisa", dirá o leitor, "isso eu tenho na minha casa de praia". Sim, já lhe falei que o Paraíso é próximo ao mar.

"Qual a vantagem então?", insiste o leitor. E a resposta é simples, embora talvez seja incompreensível para alguns: no Paraíso, não há projeção. "Sem cinema, nem pensar", dirá o leitor cinéfilo. Mas não é disso que falo. O que está ausente no Paraíso é a projeção de que fala a psicanálise: "mecanismo de defesa que consiste em atribuir a terceiros ou ao mundo que o rodeia os erros ou desejos pessoais".

A impossibilidade da projeção é essencial para a identidade paradisíaca do Paraíso porque a única coisa capaz de estragar o Paraíso somos nós mesmos, a gente, os seres humanos. O Paraíso é bom como está, nós é que tentamos deturpá-lo, projetando nossas imagens sobre a cenografia já perfeita do Paraíso.

E que fique claro que, se a projeção está ausente do Paraíso, é apesar das ameaças constantes de seus visitantes, como eu mesmo. As pessoas chegam ao Paraíso e, por hábito, danam a projetar. Projetam medos em bichos, perigos em árvores, culpas nos outros visitantes. Fazem, enfim, o que costumam fazer em qualquer outro lugar da Terra. A diferença é que, no Paraíso, há os guardiães da clareza. Ao primeiro sinal de projeção, eles já alertam o visitante de seu procedimento enganoso, ilusório: "Esse receio é seu, essa ansiedade e essa responsabilidade são suas". Após ouvir dois ou três alertas desses, o visitante já vira Natureza, sem pecado e sem perdão, e torna-se ele próprio um guardião que não permite que nada seja projetado em si.


Os dias no Paraíso passam assim: em clareza, ânimo e abundância. E, quando é hora de voltar, embora se sinta uma certa saudade antecipada, percebe-se, com otimismo, que o Paraíso é só um experimento, um laboratório de leveza e alegria que merece ser espalhado por toda a superfície da Terra. Sem sermões ou pregações, sem ameaças ou condenações, sem receitas ou mandamentos, apenas evitando projetar e receber projeções para que a poluição visual daquilo que é nosso e que atribuímos aos outros, e ao mundo, vá se desfazendo e revelando a beleza que está por trás de nossos ilusórios cartazes e outdoors. A real beleza de si, dos outros e do mundo é o Paraíso bem à nossa frente.

Partilhar

sábado, 14 de agosto de 2010

FACES DO AMOR [Debora Bottcher]

"Sabe qual é o meu sonho secreto? Que um dia você perceba que poderia ter aproveitado melhor a minha companhia. (...) Ainda creio que você, quando eu menos esperar, possa me chegar com um verso em atitude." (Fernanda Young em “Aritmética”)

E então: valerá a pena viver uma vida inteira à espera de um amor impossível? De um amor que é lembrança e miragem no pensamento de alguém? Para quem seremos imagem distante, recordação nebulosa de uma época que ficou parada no tempo?

A história dá conta de muitos amores assim. De entregas que só a morte amenizou. De sentimentos que nenhuma distância desfez. De lágrimas que, dia após dia, cultuaram saudades insondáveis...

De repente, penso nas pessoas solitárias, aquelas em busca de um amor. É uma longa e árdua caminhada - encontrar um par não é tão fácil como se pode supor.

Eu costumo dizer que são os semelhantes que se atraem - ao contrário da regra de que os opostos é que se complementam. Depende... Há tantas variáveis nesse contexto, que só mesmo a convivência pode provar.

Entre o fel e o mel do dia-a-dia, conseguir que o amor sobreviva aos impasses, dores, frustrações e derrotas particulares, é uma vitória ímpar.

Mas fato é que hoje insistir pertence ao passado: o amor é emoção descartável, passível de troca ao primeiro impasse, ao mais leve dissabor, a mais suave ventania.

A intensidade é outra, outros também são os propósitos. O mundo moderno nos deu tanta impaciência, que não cabe mais em nossas vidas nenhum tipo de estagnação.

De toda forma, por mais que seja amargo e doloroso o desencanto das perdas e a frustração do amor sem retorno, a pergunta que me faço é se eram felizes nossos antepassados - com sua imensa profundidade -, ou o somos nós - com essa superficialidade latente...

Partilhar

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

OITENTA >> Fernanda Pinho



Lembro dela nos ensinando a desenhar. Sempre girassóis, margaridas e cravos, seus desenhos favoritos. Lembro dela costurando roupinha para nossas bonecas, na máquina a que chamava carinhosamente de Maria Chiquinha. Lembro dela nos proibindo de dormir de cabelo solto, sob o risco de sermos sufocadas durante a noite. Lembro dela fazendo sonhos para comermos com café, e da sua falta de paciência para fritá-los até o ponto. Ficava sempre um pouco cru por dentro e ela os chamava de pesadelos. Os pesadelos eram os melhores sonhos do mundo. Lembro dela fritando bife e, esses sim, sempre passavam um pouco do ponto. Ficavam deliciosamente queimadinhos. Lembro dela nos advertir que não podíamos vestir calcinha sem passar, pois podiam estar contaminadas com ovos de mosquito. E se vestíssemos - pasmem! - o mosquito poderia nascer do ovo e entrar para dentro de nós! Lembro dela nos assustando com seus causos fantasmagóricos. Por sinal, muito mais críveis que a história do mosquito na calcinha. Lembro dela nos reunir toda tarde para assistirmos Passa ou Repassa. Uns torciam para a equipe verde. Outros torciam para a equipe amarela. E ela torcia para o Celso Portiolli, seu muso. Lembro dela enfrentar a prole de atleticanos e bater o pé dizendo que bom mesmo era o "ameriquinha". Lembro de sua mania de acender o fogão e jogar o fósforo para trás. Mania da qual ela não se desfez mesmo depois de conseguir a façanha de incendiar a cozinha. Lembro da epopeia que era cada vez que ela cismava de ir para a casa de um dos filhos. Arrumava as malas e sua inseparável frasqueira. "Agora eu vou". "Não vou mais". "Ah, vou sim". "Pensando bem, desisti". No fim das contas, ela sempre ia e ao chegar lá: "Quero voltar". Lembro da vigilância com o qual caminhávamos com o medo de pisar sem querer em seu pé enfermo. Lembro de quando ficou tempos de repouso depois de uma cirurgia. Fez colares de miçanga para a família toda. Alguns, gigantescos. Fazia e desfazia. Seu manto de Penélope para ajudar o tempo passar. Lembro dela tentando me ensinar a fazer ponto-cruz. Com paciência, já desconfiando da minha inabilidade. Lembro do bolso sempre cheio de balas e da mania de guardar dinheiro embaixo da lata de arroz. Lembro da insistência para que todos que entrassem em sua casa aceitassem um cafezinho. Lembro da mania de mudar os móveis de lugar e de arranjá-los sempre em disposições inusitadas.

Lembro de tudo e tenho a certeza de que ela, ainda que silenciada pelo Alzheimer, também se lembra. O olhar com o qual ela olha para mim e todos os seus não é um olhar de quem desconhece quem vê. É um olhar que ama quem vê. Ela, que não por um acaso, nasceu Maria. Com a estranha mania de ter fé na vida. Não por um acaso, foi rebatizada de Branca. A mistura de luzes de todas as cores. Não por um acaso, nasceu leonina. A nossa leoa brava e materna. Não por um acaso, nasceu baiana. Estreou na vida.

Ela, que não pode me ler, mas pode me sentir. Meu amuleto da sorte. Minha estrela guia. Minha vó Branca. Há oitenta anos lembrando a quem está ao seu lado que a vida é boa como um sonho com café.

Foto: http://www.sxc.hu/
www.blogdaferdi.blogspot.com


Partilhar

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

DE MUDANÇA >> Carla Dias >>

Quando mudo de casa, primeiramente, bagunço tudo. Não sou muito cuidadosa porque me pego ansiosa demais sobre como serão as coisas no de agora em diante. Em todas as vezes que me mudei, minhas roupas trafegaram pela cidade em sacos de lixo de 100 litros... Os discos, não... Nem os livros, os copos, tampouco os vidros de perfume.

Não desafio a força da sutileza.

Moro no mesmo apartamento há mais de cinco anos. Ele precisa de uma reforma, e urgente. As paredes pedem por pintura, o banheiro por um espelho e um lugar devido para se pendurar toalhas. A cozinha exige um novo fogão e um refrigerador supimpa. O armário para as roupas, que comprei em janeiro passado, já demonstra o cansaço do pseudo bom e certamente barato.

Não vou mudar de casa tão cedo, eu sei. Da próxima vez, não usarei sacos de lixo de 100 litros para carregar as roupas, porque agora eu as cuido com um tanto mais de zelo e consideração, apesar de ainda serem peças compradas e raramente usadas, à espera do dia certo, da hora perfeita, da conexão do tecido com a majestade do destino.

Mas sinto que, dia desses, passarei a ser mais do que uma das que se esbalda em Hering e All Star. As roupas que se cuidem! Quem sabe uma Hering vermelha, ao invés de preta... Um All Star vermelho, ao invés de preto...

Como eu disse, não vou mudar de casa, mas tenho de mudar, urgentemente, de jeito de viver. E jeito de viver, nem de longe, é o mesmo que jeito de ser, tampouco se resume a nome de loja de roupa, de programa de TV, de escola infantil. Jeito de ser também é esse frasco fino, frágil, translúcido, no qual depositamos as nossas crenças e esperanças, onde se balançam nossas dúvidas e nosso conhecimento. E o mais complicado é viver tudo isso sem trair a si ou magoar o outro.

Antes que eu me esqueça... Eu adoro a minha casa, mesmo quando fica dolorido pagar o aluguel, os vizinhos tocam, repetidamente, num mesmo dia, o hino do clube de futebol para o qual torcem. Mesmo sendo um barulho danado o que vem lá de fora. É meu lar trincado, mas que me serve de abrigo, eu tão trincada quanto. Que abriga meus eus, sem resmungar.

Essa mudança que se faz necessária implica também em assumir, com graça, o tempo das coisas. Já passou da hora de decisões serem tomadas, e nenhuma será fácil. Normalmente, quando a situação não segue seu rumo, exigindo decisões sem a necessidade de se pensar demais a respeito, o processo é dolorido.

Que doa, então.

Não sei se para tal descarte usarei roupas novas, sapatos diferentes, cabelos coloridos. Talvez decore algumas palavras novas, recicle com dedicação, fale com mais propriedade sobre os meus sentimentos, passe mais tempo fazendo exercícios. Diminuir a quantidade de séries de televisão que sigo está fora de cogitação. Há coisas que não se desentorta ou aniquila.

Quando mudo de história, a leveza se apresenta. A maior parte das situações que pareciam impossíveis de se aguentar, agora são coleções desbotadas de desacertos. Desacertar também é arte na coreografia da vida, porque às vezes é preciso fragmentar para criar um mosaico, com toda a beleza, e mistério sedutor de silêncios, que nele caibam.

Estou de mudança... Depois passo o endereço novo.

Imagem: Jim - www.unprofound.com

www.carladias.com



Partilhar

terça-feira, 10 de agosto de 2010

CAMINHO DA ROÇA >> Clara Braga

Acho curioso reparar que todo mundo tem mania de dar nome às coisas, mas, depois de um tempo, nem sempre o significado que aquele nome tem continua representando o que nós gostaríamos que ele representasse.

No final da semana passada, me convidaram para ir a uma festa junina, mas, se já estamos no mês de agosto, não deveria se chamar festa junina, não é mesmo? E foi ai que eu lembrei que a primeira festa junina que eu fui esse ano foi no mês de maio, ou seja, há 4 meses que estamos tendo festas juninas aqui em Brasília!

Eu mesma não tenho a menor idéia de como aconteceu, só sei que pra mim, algum dia alguém muito inteligente teve a idéia brilhante de, no mês de junho, pegar um monte de comida gostosa que todo mundo come, dividir em diferentes barraquinhas e chamar isso de Festa Junina.

Se você gosta de churrasquinho, pastel, cachorro-quente e muitos doces, sabe muito bem que pode comer qualquer uma dessas coisas em diversos lugares pela cidade, aliás o que não falta hoje em dia é carrocinha de cachorro-quente na rua. Mas comer em qualquer lugar no meio da rua e comer em uma festa junina nunca vai ser a mesma coisa. As pessoas esperavam anualmente por esse momento em que podem comer um cachorro-quente esperando o salsichão ficar pronto.

Exatamente por não ser a mesma coisa, alguma outra pessoa muito mais inteligente, provavelmente cansada de esperar o ano inteiro por esse momento, teve uma ideia mais brilhante ainda. Começou a pegar essas festas juninas e dividir ao longo do ano, fazendo várias festas juninas fora de época. Quem nunca foi a uma festa junina no mês de julho? Ou no mês de agosto?

Só tem um problema nessa história toda, festa junina no mês de julho não é junina. E agora, o que fazer? Vamos ter que parar de fazer festas em julho por causa do nome? NUNCA! Vamos chamá-las de festas julinas! E agora, a cada ano que passa, as festas juninas ocupam mais um mês, já temos festas agostinas, maioninas, abrilinas e assim por diante. Acredito que o objetivo seja completar o ano todo, o que eu não vou achar ruim. Aliás, proponho que a gente faça isso com o Natal também, o que acham?

Partilhar

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

O GERENTE >> Albir José Inácio da Silva

Acordou cedo, o João. Era dia de visita e isso significava muito trabalho. Tinha que supervisionar a faxina, providenciar o banho dos presos e superintender a cobrança e a revista das visitas. Mas não era essa a questão. Com isso já estava acostumado. O que o atormentava é que percebeu cochichos entre dois detetives depois que atenderam o telefone. Isso sim era incomum. Normalmente João participava de todos os assuntos da delegacia. Atendia telefone, anotava recados e tomava providências mais urgentes. O que estaria acontecendo que ele não podia saber?

Tinha-se revelado um administrador zeloso. No início teve problemas, alguns presos não queriam reconhecer sua autoridade, mas logo se impôs. Outra dificuldade foram os policiais. João fazia promessas aos presos, em troca de colaboração e disciplina, mas os tiras se recusavam a cumprir a parte deles. Não queriam, por exemplo, abandonar a prática de bater em preso por diversão. Precisou de muito trabalho e persuasão para que tudo entrasse nos eixos.

Agora nenhum detento apanhava sem necessidade. O xadrez estava limpo, os guardas “arregados”, os presos tranquilos. Conseguiu até uma cela com televisão e ventilador para os que se destacavam na colaboração e no comportamento. As visitas se encaminhavam para a revista “na moral”. Pagavam, sem reclamar, uma contribuiçãozinha – coisa pequena, só pra adoçar os agentes e dar algum conforto aos presos, que todo mundo é filho de Deus.

Mas hoje alguma coisa estava errada. Os detetives continuavam nervosos tentando falar com o delegado que não atendia o celular. Por fim, o apelo quase em falsete: “Doutor, vem depressa que a coisa aqui tá feia!”. Mesmo preocupado, João não se furtou às obrigações. Distribuiu os presos para a limpeza, carceragem, gabinete do delegado, recepção e, às nove da manhã, como sempre, a delegacia estaria um brinco. Dois foram mandados à padaria comprar o café da manhã, “queijo só pros polícia, preso comia manteiga, tudo nos conforme, dentro da hierarquia.”

Antes do café, chegaram os carros. Vários. Veio também a imprensa. A delegacia virou um caos. Muitas vozes e, sobretudo, muitas perguntas.

- Onde está o delegado?

- Já está chegando, falei com ele agorinha – gemeu o detetive.

- Onde fica a carceragem?

Nesse ponto a coisa piorou. Os detetives abriram portas e gavetas como se procurassem alguma coisa. Mas quando João se aproximou com as chaves, fizeram que não com a cabeça, os braços e as mãos. Um visitante mal-encarado pegou as chaves e perguntou:

- Quem é o senhor?

- João Ribeiro das Neves, artigo 121, parágrafo segundo, homicídio qualificado, aqui há um ano e quatro meses, ainda não fui julgado, comecei na faxina, mas hoje ajudo na administração, sim senhor – disse, perfilando-se.

Quando o delegado chegou, os presos embarcavam no ônibus da Corregedoria. A algema machucava os pulsos, mas João conseguiu sorrir para as câmeras. Um sorriso desanimado, é verdade - tanto trabalho! Não percebiam que a cadeia nunca esteve tão bem? Não acabaram as rebeliões? O mundo é assim mesmo. Fazer o quê? A vida continua. Perdeu o posto, mas não a competência. Cadeia nova, novos desafios. Gostava de desafios.

Partilhar

domingo, 8 de agosto de 2010

PAU PÉ PI POW! PUM >> Eduardo Loureiro Jr.

Pai é pau. Pênis, tesão, ereção. Dureza, agudeza, firmeza. Socada, metida, penetração. Pai é pau. Madeira, tronco, lenha. Raiz, sarrafo, bordão. Cacetete, palito de dente, violão. Pai — mesmo que nasça torto e morra torto — é pau.

Pai é pé. No sapato, no pedal, na estrada.Viagem de ida e volta. Pontapé, calo, unha encravada. Pai é pé. Sustento, sujeito, suspeito. Subtento, subjeito, subpeito. Baixo-tento, baixo-jeito, baixo-peito. Pai — mesmo que tenha chulé — é pé.

Pai é π. Símbolo, número, matemática. Conta, equação, função. Exercício, problema, avaliação. Pai é π. Proporção perímetro diâmetro. Não periódico, algorítmico, irracional. Cálculo aproximativo transcendente. Pai — mesmo reduzido a duas casas decimais — é π.

Pai é POW! Papouco, castigo, peia. Explosão, barulho, onomatopéia. Herói e vilão de quadrinhos. Pai é POW! Pancada, grito, espirro. Exagero, extravagância, invenção. História, lorota, ficção. Pai — mesmo com criptonita — é POW!

Pai é pum. Flatulência, peido, traque. Olor, odor, fedor. Arroto, ceroto, bafo. Pai é pum. Natural, saudável, incômodo. Selvagem, imoral, iconoclasta. Desleixado, despreocupado, desregrado. Pai — mesmo de banho tomado — é pum.

Pai, é dia de parabéns. E, algumas vezes, noite de paramales — que também vem para o bem.

Partilhar

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

MINHA CULPA SIAMESA >> Leonardo Marona

Vinha lendo, já um pouco sonolento, o que o poeta dizia: “Está da hora de falar de mim / Vamos ficar de pé!”. Daí falava sobre “rifles, canções, repastos, galanteios”, sobre barbudos com as peles tostadas pelo sol, nenhum contava mais de trinta anos. E eu também não contava pra mim mesmo mais de trinta anos. E também fazia sol na janela da lotação. Eu não era mais barbudo, só isso, fora os repastos e rifles, que também nunca tive. Mas, lá fora, as pessoas, mesmo as barbudas, não pareciam tão tostadas pelo sol, ou melhor, parecia que o sol as tinha tostado de modo que se enrugaram em traços fechados de sentidos, irreconhecíveis ao sentido... Eu dormia, quando o ônibus pulou com uma falha no asfalto e então, de novo, ali estava ela, minhas mãos tremendo sobre as folhas da relva do poeta, e ela estava tão distinta, tinha umas alças muito finas segurando os seios, um dia meus seios, no dia em que acreditei na mentira do dia, que é o próprio dia que esconde a noite, e quando vemos a noite já é tarde para uma salvação não-líquida; com as calças bem justas ela mostrava o quanto tinha se divertido no sol invernal, os cabelos curtos a abaloados pintados com tinta barata, o couro cabeludo tinha uma linha da cor da tinta no cabelo, moldada à testa. Mas ela andava firme, passo ante passo, olhava pra frente sem demonstrar medo, e tínhamos tanto medo uma vez lá atrás, tanto medo juntos é tanta coragem, pensávamos, e eu tinha ainda o mesmo medo, medo de largar a corda, medo de voltar atrás, medo de ir em frente, medo do significado de determinadas atitudes, e ela estava com as duas mãos metidas numa bolsa de feltro, e com o queixo escorava o telefone celular junto ao ombro, e falava e ria, e eu passei meio sonolento, fechei minhas poesias, não haveria mais poesia até que eu pudesse senti-la novamente, sentir seu hálito, contar suas sardas, ver seu corpo se cobrir de panos cheirosos pela silhueta de uma luz pálida, observar suas canelas tortas, desproporcionais ao resto da perna, uma outra vez. Saltei do ônibus e voltei correndo, suando, chorando... O que o poeta tinha dito sobre as auroras que o perseguiam, os fantasmas que se curvavam sobre ele, o grande Nada inicial longe de onde um dia esteve, mas que aguardava sempre, sem ser visto, em meio à bruma sonolenta, nada disso eu entendia agora que tinha pulado para fora da lotação, levando meu poeta fechado dentro de mim, atrás do que tinha se perdido para sempre, porque se perde para sempre apenas aquilo que nunca se teve, e queria entender por que, queria ver você, meu poeta, queria entender desse Nada inicial... Mas enquanto eu olhava meu reflexo através do sol na janela, poucos cabelos, pele esticada, alguma remela, me aparece a culpa, vestindo jeans, sandálias, toda ombros e nuca, cabelos em coque, passos rápidos, e eu pergunto: “para onde vai minha culpa?”, “por que me deixa aqui, te procurando no meio da rua?”. Fico que nem pirulito em boca de criança, o sol diz que há vida, minha testa escorre a morte que derrete com a vida numa palma de sorte, porque estou ainda, senão vivo, chorando sobre duas patas. Te procuro, te encontro, finalmente. Estamos tão diferentes... Não consigo olhar minha culpa nos olhos, não consigo não falar de política, quando queria dizer que ela fosse comigo numa longa viagem pro desconhecido – como diz meu poeta. Não consigo não falar de financiamentos estatais para literatura, quando queria pedir a ela que lesse de novo pra mim aquele romance sobre a pesca das trutas, nós dois mais uma vez, nuca com nuca, esperando a hora de sonhar um o sonho do outro. Não consigo não perguntar sobre como vai sua vida, quando queria que ela me desse de volta a minha, sem perguntar nada. Nos olhamos, a culpa me apresenta seu novo gato siamês, o gato aparece no meu colo de repente. Mia sem parar. Gatinho simpático. Daí me dá duas lambidas nas costas da mão, de olhos fechados. Olho pra ele, “é ela”, muito bem, olho então pra ela, a siamesa (toda olhos e pelos) entregue a mim, lambendo suas patas traseiras como uma lady, patinha esticada, língua entre os dedos, ela me ama (a siamesa) sentada no meu colo, as duas patas dianteiras paralelas sobre a minha coxa esquerda, encosta em mim seu queixo (que nome dou a isso?, eu penso). “É Nikita o nome dela”. Muito prazer, Nikita. Ela me dá uma mordidinha, como se fosse o amor (antes da culpa), então me lambe outra vez, como quem quer dizer (e não sabe como) que o amor (não vê culpa) lambe.



www.omarona.blogspot.com


Partilhar

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

MENOS É MAIS >> Fernanda Pinho



Nove em cada dez mulheres estão insatisfeitas com seu peso e, claro, eu sou uma delas. Tenho todas as neuroses femininas, por que não sofreria com a mais ferrenha? Meu peso me incomoda, me faz chorar, cutuca minha autoestima. Em dias de TPM então...sou a mais pesada do mundo. Mas chega uma hora em que a gente cansa de se lamentar e toma a decisão derradeira: fazer uma dieta! Possibilidades não faltam: dieta da lua, dieta da sopa, dieta dos pontos, dieta do sangue. No entanto, nenhuma delas, embora vendidas como milagrosas, resolvem meu problema. É que o que me pesa não é o corpo, é a alma.

Achava que esse seria um problema crônico, que eu carregaria até o fim dos meus dias. Quem já ouviu falar em dieta para a alma, afinal? Até que, numa conversa com minha amiga Thais, em que ela falava sobre seu novo lema de vida, veio a luz. Menos é mais. O novo lema da Thais virou minha dieta. A salvação da minha alma.

Decidi que era importante começar cortando aquilo o que mais me pesa. E então, Roberto e Erasmo, esses nutricionistas do espírito, me sopraram uma dica: "sei que mundo pesa muitos quilos, não me leve a mal se eu lhe pedir para cortar os grilos". É isso! Tenho certeza de que se eu conseguir eliminar os grilos da minha vida - ou cismas, já que não estamos mais nos anos 70 - ficarei consideravelmente mais leve com o tempo. Claro que não é assim tão simples. As cismas são atraentes, por isso é tão difícil se desapegar delas. E vem sempre servidas com acompanhantes tão atraentes quanto: dúvida, insegurança, medo. É difícil resistir. A cisma está para a alma assim como o carboidrato está para o corpo. Você se farta deles e depois tem que conviver com a culpa. E com a indigestão. Se bater aquela vontade incontrolável de ter uma cisminha, adotarei a mesma conduta para o consumo de lembranças do passado: a prioridade é consumir de manhã, já que terei o dia todo para me livrar daquilo. À noite, os revertérios são danosos.

Aperitivos como fazer telefonemas de madrugada, mandar e-mail ou estabelecer qualquer tipo de comunicação (eletrônica ou não) com pessoas que não se importam comigo também estão terminantemente proibidos. É difícil, mas não impossível. Se bater aquela ânsia de fazer uma loucurinha, vou ler um livro, assistir um episódio do meu seriado preferido, ouvir uma música. Funciona como barrinhas de cereal (só que é bem mais gostoso) e ainda ajuda a evitar o acúmulo de tristezinhas localizadas.

Sonhos e preocupações com o futuro são permitidos. Saco vazio não para em pé. E alma sem sonho também não. Mas tudo em excesso faz mal. O ideal é consumir sonhos um dia sim e outro não. Nos dias "não", vou tentar sossegar o espírito com sonhos de padaria.

Preocupação com o que os outros vão pensar e sentimentos por quem não merece? Esquecerei! Não tenho a menor intenção de ter uma alma obesa mórbida. Do jeito que tá já tá difícil carregar. Para não ficar aquele vazio é só eu substituir: preocupação agora só com a minha própria vida e sentimentos apenas por quem realmente se importa comigo.

Tenho certeza de que com esses cortes e substituições, em breve estarei como a música de Secos e Molhados: "leve, como leve pluma. Muito leve, pousa". Segunda-feira eu começo.

Foto: http://www.sxc.hu
www.blogdaferdi.blogspot.com

Partilhar

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

AINDA QUE NÃO TENHA BOLO >> Carla Dias >>


Eu gosto de andar de ônibus.

Uma das minhas sobrinhas fará aniversário daqui algumas semanas. Nos seus quase dez anos de idade, disse-me, ao telefone, que eu tenho porque tenho de ir ao aniversário dela, “mesmo que não tenha bolo”. Ano passado, ela fez o mesmo pedido, mas ela mora em outra cidade, caiu numa sexta, véspera do lançamento do meu livro, então dei o cano na fofa da sobrinha. Foi de partir o coração, sem contar que ano passado não havia a opção de não ter bolo.

Ainda ao telefone, imitei a voz esganiçada que ela gosta de fazer quando o assunto é importante e envolve um quê de coação sentimental. “E se eu estiver na África nesse dia?” perguntei, e ela foi logo acertando as coisas: “Ué... Você pega um ônibus e vem pra cá!”. E eu sorri, quietinha, encantada com a geografia infante. “Mas e se eu estiver na China?”, rebato. “Ah, tiiiia! Você pega um ônibus e vai até a África, e depois pega outro e vem pra cá!”.

O que mais me encanta é a distância que as crianças mantêm das pessoas e das coisas, porque para elas tudo é logo ali, não leva mais do que alguns minutinhos, cabe num abraço. Para a minha sobrinha não seria nada impossível que eu atravessasse dois países, num mesmo dia, de ônibus, só para estar num terceiro na hora de ela assoprar as velinhas... Ou não, afinal, o convite-intimação incluía um “mesmo que não tenha bolo”.

Depois da Inglaterra, parei com o “e se” e mandei um beijo, mas não sem antes ela dizer que eu podia dar um livro de presente para ela... Ou uma boneca... Ou uma roupa... Ou apenas levá-la para passar uns dias lá em casa. Enfim, além de atravessar três países de ônibus para chegar a um quarto, em menos de um dia, ainda teria de parar numa livraria... Ou numa loja de brinquedos... Ou numa loja de roupas... Ou inventar um feriado que calhasse com o dia de aniversário dela para poder trazê-la para minha casa e ler uma edição de mil novecentos e nada do livro “Emília no país da gramática”, que é fantástico, mesmo a gramática sofrendo mutações.

Desliguei o telefone, rindo sozinha, contando para as paredes que ganhei na loteria seis vezes, porque cada sobrinho meu é um prêmio. Eles sempre dizem algo capaz de me encantar, fazer-me cair na gargalhada, mesmo nas suas crises – e nas minhas - de emburramento, teimosia, enfim, eles não são perfeitos, como qualquer pessoa, mas cabem perfeitamente no meu amor de tia.

Mas o fato é que eu adoro andar de ônibus.

Nesse bate-papo com a minha sobrinha - que também envolveu certo aborrecimento, porque o irmão dela, meu sobrinho de cinco anos, rasgou a foto do Justin Bieber que ela namorava, no ônibus, voltando para casa de um passeio, e ela ficou extremamente aborrecida, assim como o irmãozinho dela, que acha o Justin um “feioso” –, caí na infância dos meus desejos, versados na minha adultice, e comecei a me imaginar andando de ônibus pela África, com paradas providenciais pelas comunidades nas quais a música e a dança predominam. Depois, o ônibus equilibrado sobre a Grande Muralha da China, meu nariz encostado no vidro da janela, os olhos engolindo a beleza do lugar. Já na Inglaterra, o ônibus estacionaria na porta da casa do Sting, que me convidaria para um chá e com quem eu teria uma longa conversa sobre a origem das suas canções.

Quando coloco os fones do meu mp3 player nos ouvidos e aperto play, a música me acompanha até a casa da minha mãe. São três ônibus, duas horas e meia de viagem na ida e outras duas horas e meia na volta. Eu nunca estive na África, na China ou na Inglaterra. No Brasil, passei apenas por algumas cidades do interior de São Paulo, a trabalho, e conheço Poços de Caldas e São Thomé das Letras, em Minas Gerais, e Foz do Iguaçu, Paraná, onde estive por conta de um casamento, há muitos anos. Também a trabalho, passei, mas de raspão mesmo, pelas cidades do Rio de Janeiro, de Salvador, de Brasília e de Curitiba. Considero-me uma órfã das viagens, mas espero ser adotada pelo desejo de cair no mundo, dia desses.

Apesar de tudo, andar de ônibus pela cidade me apetece, ainda mais com trilha sonora. Há dias em que as cenas são tão ternas, em outros, violentas. E há dias em que tudo se mistura, como se eu estivesse, num mesmo dia, passado por três países de três continentes diferentes e estivesse chegando ao quarto, ao meu lar... Ainda que não tenha bolo.

www.carladias.com


Partilhar