sábado, 31 de julho de 2010

ENVELHECER [Debora Bottcher]

Andei pensando sobre isso que é envelhecer.

Um fato, antes de qualquer coisa. Algo que não se pode mudar, estancar, retardar: envelhecemos e pronto. A questão, nesse momento, é quando envelhecemos.

Todos os dias nos olhamos no espelho. O rosto que se reflete no último olhar da noite, é o mesmo com o qual nos deparamos pela manhã - um pouco amassado, talvez com olheiras, quem sabe mal dormido, mas ainda assim, a mesma face.

Não se percebe, de um dia pra outro, uma linha de expressão nova, uma ruga diferente, um fio de cabelo esbranquiçado que até então não existia.

O processo, embora vagaroso, quando descoberto soa repentino: envelhecemos todos os anos acumulados entre o ocaso e a alvorada. É um segundo e você se vê com outra casca: ficou pra trás o viço da pele, o brilho acentuado dos olhos, o rubro dos lábios. De repente, tudo é palidez - e saudade... Outro você o olha através da imagem...

Esse é o jeito mais simples de caminhar entre as eras - e, você sabe, envelhecer é a única maneira de não morrer jovem.

Mas eu me lembro de duas ocasiões em que pareci envelhecer dez anos em algumas horas: foi o susto e a dor do que eu chamo de tragédias sem sentido. Isso hoje me somaria vinte a mais nos meus quarenta e dois.

Acontece que só enruguei por dentro. E se hoje vou cumprindo o ritual do tempo, na sua cadência impossível de apressar ou atrasar, minha alma vai percorrendo o caminho inverso: quer ser criança - pura luz! -, enquanto o corpo anoitece...

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sexta-feira, 30 de julho de 2010

MONK >> Leonardo Marona

Favor lerem este texto ouvindo Thelonious Monk.

1. Monk’s Dream

Uma rodada de dados – “Willie “the Lion” Smith é a cabeça do meu pau!” – então ele ergue as calças e se manda pela janela. Um tiro lhe trespassa o colarinho da camisa. Consegue ainda salvar o trompete. Cai em cima de uma montanha de lixo. O lixo se espalha pelo chão. Nosso homem agora deve mais de 50 mangos e por isso não pode morrer. Tosse. Sangra a palma da mão. Um mendigo se acorda, deitado no chão (parecia sonhar): “meu irmão, por que não dá o fora?”. Nosso homem leva a mão ao chapéu de feltro de duas bandas. Impressionante como é fácil substituir palavras de contato. Agora ele grita para o mundo da rua dos esgotos abertos – o mesmo primeiro movimento põe toda relação a perder, toda convenção – na direção de uma sacada. Um mulher grita de volta mais alto, com a voz muito esganiçada. Diz as coisas mais terríveis. Mais um homem se apaixona. Bate na porta. Esmurra. Tosse. Sangra a palma da mão. Tateia os bolsos. Num deles acha uma pétala de rosa. Abre as duas mãos e olha dentro de cada uma. Uma pétala de rosa numa, sangue coalhado noutra. Bate na porta. Olha de novo pras mãos. São tão parecidos, pétala e sangue... Ninguém mais atende suplícios logo pela manhã, e ele se deita no corredor, onde acorda sem roupas, a pétala do lado, e sem um rim, o rim ruim, suturado, com um bilhete escrito: “seu rim segue amanhã pela manhã para a Costa do Marfim”.

2. Body & Soul

Tudo começa com um homem entrando num prédio feito de tijolos. Passa por duas meninas e um sujeito. Uma das meninas esfrega a língua na orelha do sujeito. A outra fica ali olhando, segurando o queixo. O homem passa por ela. Se olham. Ele vira para trás depois que passa. Ela ainda está olhando, com o pescoço virado e um beiço mordiscando o outro. O homem tropeça numa quina e cai de peito no chão. O casal pára de se beijar e começa a rir. O homem se vira, já não sabe mais como rir. Dói seu maxilar. Abriu um corte no queixo. Sangra sem medida. Se levanta, um joelho ralado sangra também. O casal ri e ri, constrangido, mas de cara cheia. A menina que sobra (menina perdida, bondosa, excluída) fecha os beiços (fulano batendo os joelhos com as mãos, pingos de suor no chão) e uma lágrima lhe escorre pelo pescoço. O homem sorri insosso. O tempo diminui a marcha, como quando acontece a paixão. Um sorriso e uma lágrima. E não está aí o resumo do sentido? O homem sobe para casa no elevador. Mora no sétimo andar. Sai e vê o elevador descer até o térreo. Fica olhando pro mostrador do elevador. Primeiro, segundo, terceiro, quarto, quinto, sexto... Ele espera. Um carro freia bruscamente na rua. Do basculante do corredor interior do andar, uma gorda com cinzas para bater no cinzeiro, veias cinzas nas dobras das pernas, corta um pão francês em três fatias, debruçada na pia da cozinha. Numa vitrola, toca Rosiere “Shadow” Wilson na bateria. Ele vira a chave de casa e olha pra trás. Três policiais aparecem com um mandato de prisão por porte de entorpecentes. O homem olha pro seu melhor amigo, sentado aplicado estendido no sofá no apartamento vizinho. É o maior pianista que já se viu. Seu vizinho. Na porta. Porta aberta. Cheio de gênio e de droga.

3. Bright Mississipi

Um saloon em Clarksdale com porta vai-e-vem. Lá dentro toca uma jazz band. Banjo, realejo, gaita, guirlandas presas nos sapatos, piano. “Não é fácil fazer os acordes parecerem certos”, resmunga o pianista, depois de um gole no gargalo, com a mão apoiada na cauda do piano. Homens falam alto, comem almôndegas com molho de tomate e entornam eggnogs com Jim Beam. Só negros, menos o atendente, um negro mestiço, misturado com italiano, chamado Louis Pandovanni. Lá fora os brancos já voltaram para suas teses e causas. É a chamada “hora dos animais noturnos”. Outros homens, no balcão, tomam cerveja de trigo e falam sobre a chegada da chuva e as plantações de algodão. Suspensórios soltos. Seria um ano bom. Um pouco de serragem cobre o lugar de modo que os negros ficam mais claros e tudo parece mais claro do que é. O rapaz da gaita de repente tomba e cai de boca no chão, as pernas por cima das costas. Os homens todos se levantam e riem e batem palmas e os pés no chão. Um homem sobe numa das mesas. Lá fora tudo que céu azul é sul. Outro puxa uma faca na sombra clara do azul da poeira humana. Dois homens gritam “what da hell!”. A banda pára de tocar. Não se sabe ainda de onde vem o sangue. Até que um negro de bigode ralo corre na direção da porta e outro um pouco mais gordo, de cavanhaque, tomba com um rasgão debaixo da orelha, mas sorrindo com os olhos arregalados. Alguém enfia uma ficha na juke box: “Boogie Chillen”. Arrastam o homem morto dali. Dois ou três sinais-da-cruz. Um amém. Os negros voltam a girar os olhos por trás das suas canecas, desconfiados, esperando a chuva. Amanhã será a mesma coisa.

4. Five spots blues

Não conheço ninguém. Essa é, realmente, uma decisão difícil de se completar sozinha. Aqui ao lado tem um cara gritando que “ano que vem tem que votar no José Serra, não tem melhor”, enquanto eu e uma menina que deve ser muito boa de cama defendemos que o dever político deve ser voluntário, sem remuneração, sem salário, sem sigilo. Ela bebe mais rápido do que eu. O prédio é oco por dentro e sólido por fora, como o resto do mundo. É difícil ouvir o coração bater quando... Ali estou eu, essa menina se inflama, limpa coisas, faz pães para todos, se vê no direito, bate o garfo no prato, “camaradas, comida!”, fala com muito controle sobre coisas incontroláveis. Isso encanta. Ela brinca com o erro, erra pelo comprometimento amuado. Uma hora as cervejas todas estão quentes, a polícia chega de repente, mas eu estou preso ao parapeito, um sujeito se aproxima de mim: acha que sou do tipo que dá boas respostas. Pergunta: “o que você acha que tem do lado de lá?”. Respondo a ele: “acho que você acerta os ponteiros do lado de lá”. O sujeito chora debruçado no parapeito. Vidro de cima a baixo. Andar muito alto. Os carros rodam lá embaixo. Ele me agarra pelo pescoço: “minha prima se suicidou daqui!”. Fico mamando minha cerveja: “por favor, se for fazer isso espere eu sair”. “Você não gosta da altura?”. “Acho que bicho sem asa tem que ficar no chão”. Naquela noite vi uma estrela de cinco pontas pintada em laranja por uma menina chamada Mercedes Callaghan. A estrela aponta para o sul. A silhueta se forma sob uma palheta de cores. Me sinto estúpido. Confundo a orla de Ipanema com a Lagoa e até aí está tudo bem. Olho pra linha da montanha lá longe e penso na linha de uma mulher que me ame. Não posso suar porque tenho um curativo na testa, em cima do olho esquerdo, que vai me deixar um quelóide depois de sarar.

5. Bolivar Blues

Este é um cara que anda assobiando, com as chaves na mão, procurando mulheres na rua. Não consigo imaginar outra coisa senão seis latas num papel pardo, cigarros de filtro amarelo, cabelos penteados para trás, dentes azuis de vinho. Ele não se lembra onde deixou seu Plymouth 61, mas se lembra que foi num areal, local proibido. Achou uma mulher para se casar e duas para se divertir no caminho de trás pra frente que fez três vezes até encontrar o buraco onde enfiar a chave. E isso não tem nenhuma ambivalência, fora a lua, as estrelas, o céu, o reflexo dela nos braços de outro através da parede de vidro, vinho quente, quer dançar comigo? Não, diz o poste na calçada.

6. Just a Gigolo

Ou conta dinheiro ou bate na porta ou cavuca a orelha com a unha grande do dedo mindinho. Lembra de coisas como o pêlo macio colado no lombo de um cavalo de madeira num dia muito frio numa casa arquitetada em estilo bávaro em alguma cidade da Região das Hortênsias. Ele passava a mão nos pêlos do cavalo de madeira. Sua mãe sorria. Seu pai batia fotos. Ele acenava com seu casaco quadriculado de jeans. O que teria acontecido nesse meio tempo, pensa enquanto bate à porta. Mas antes que alguma coisa caia no chão ou responda, a porta se abre, ele recebe mais duas ou três notas, ajeita seu chapéu coco, mete as mãos nos bolsos, não sabe se ri ou se chora ou se apenas vai embora. Então serve um copo de stinger e outro de bicarbonato.

7. Bye-Ya

De repente, alegre, de repente triste, de repente sozinho. Os passos não dizem mais do que tropeços e sorrisos conseqüentes. Ele segue atrás dela. Olha no fundo do seu Martini mais seco do que a vontade de beber. Ela não está ali. Que patético um homem negro, meio mulato, quase pálido, sem religião, de lábios negros e cheios, procurando moedas no chão com as calças pelo meio das panturrilhas. Passa na frente de uma barraca indiana onde um indiano limpa os olhos com um pano esfarrapado cor-de-passado. (Círculo luminoso esfumaçado de gordura. As bocas soltam vapores de cansaço). O indiano cheira azedo, suor nas sobrancelhas, ele todo evapora. Nosso homem levanta as calças, que agora cobrem os sapatos, bate a camisa amassada, metade pra fora das calças, mau hálito na palma da mão, arranhões de unhas pintadas em vermelho pela metade na base do queixo, nenhuma lágrima, desculpa, cara de susto ou respaldo etílico. Escolhe um frango tandoori, na verdade leva três pedaços. Parecem três corações cor-de-lembrança-em-frangalhos. Um chutney de manga numa compota, na mesma hora em que um cão vadio passa lhe abanando o rabo, com a língua de fora. O indiano olha, enxota: “da próxima vez vira lingüiça!”. O cliente joga um pedaço de tandoori para o cão. Ele pára, cheira e vai embora. O rádio continua tocando e o mundo inteiro dorme.


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quinta-feira, 29 de julho de 2010

O PIANO >> Fernanda Pinho



E então eu estava novamente no meu quarto com piso de taco, parede rosa e cortina branca com casinhas vermelhas. A cama de cerejeira já estava danificada pelas figurinhas do álbum da Xuxa que eu decidi colecionar na cama, e não no álbum. A cama estava no meio do quarto, como esteve até minha irmã nascer. E, ao seu lado esquerdo, meu brinquedo preferido. Amei muito minhas panelinhas, minha bicicleta, minhas Barbies. Mas nada que se comparava ao que sentia por ele, meu pianinho de cauda. Era lindo, uma miniatura perfeita de um verdadeiro piano de cauda branco. Ao revê-lo, corri para perto dele com a euforia de quem vê um amigo sumido. Sentei em seu banquinho e, embora já com 1.80m de altura, fiquei perfeitamente acomodada. Pena que ao tocar numa das teclas acordei. Mas acordei feliz com o reencontro, embora tenha durado tão pouco. Sonhei com meu piano pela primeira vez, em mais de duas décadas. Provavelmente, alguma parte adormecida do meu inconsciente despertou depois que encontrei na academia uma amiga da minha mãe que frequentava muito a nossa casa, naquela época. Ela foi uma das tantas pessoas que presenciaram minha relação de afeto com o pianinho. Passava horas diante dele, batendo em suas teclas sem a menor harmonia. Minha mãe, sempre fascinada com piano, nem se irritava com o barulho. Achava lindo que, desde tão cedo, eu já tivesse descoberto uma vocação.

Quando fiquei um pouco grande demais para um piano em miniatura, minha mãe me matriculou numa escola de música, para aprender a tocar num instrumento de verdade. O professor era o Pedro, um músico virtuoso que ensinava todos os instrumentos para as crianças do bairro. Minha primeira tentativa de ser uma pianista de verdade durou exatos três meses e tudo o que aprendi foi a primeira parte de Pour Elise. Digo "aprendi" por falta de termo melhor. Aprender eu não aprendi coisíssima nenhuma. Nem mesmo a excelente didática e a paciência de monge do professor conseguiram enfiar na minha cabeça os significados de cada símbolo da partitura. Na minha cabeça só existia: tecla preta, tecla branca, mindinho, anelar, dedo médio, indicar e polegar. Tudo o que eu fazia era decorar a sequência. Mindinho branca, anelar preta, polegar e indicador brancas e assim por diante. Ficava tão concentrada no meu método que mal conseguia ouvir a melodia que eu produzia. Por fim, cansei e pedi pra sair.

Minha mãe, claro, achou que fosse só uma crise. Afinal, eu era um talento. Nasci amando piano, não poderia desperdiçar minha vocação. Algum tempo depois, lá estava eu de volta à sala do Pedro. A segunda tentativa durou menos ainda: um mês. Decorei mais umas sequências de dedos e teclas e já podia tocar Carruagens de Fogo. Mas o que me interessava mesmo na escola de música era ver os alunos das aulas de bateria. Eu chegava a invejá-los. Mais por vontade de não tocar piano do que por vontade de tocar bateria. Consegui escapar mais uma vez. Só que a vida não é assim tão simples e houve uma terceira tentativa. Dessa vez durou um único dia e então eu me rebelei. Era preciso verbalizar, já que ninguém parecia compreender: eu não gostava de tocar piano, eu não me interessava por piano, eu não tinha paciência para piano e, mais que tudo isso, eu não tinha talento para o piano. Mas onde foi parar aquele amor todo pelo pianinho de cauda? Foi aí que eu entendi a origem de todo o mal-entendido e tratei logo de esclarecer: eu amava meu piano de cauda porque imaginava que ele era uma máquina de escrever.


Foto: http://www.sxc.hu/


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quarta-feira, 28 de julho de 2010

ONDE ENCONTRAR A POESIA >> Carla Dias >>

Às vezes eu me perco na poesia alheia... Modéstia minha: eu o faço com frequência, uma frequência atinada pela curiosidade sobre como bate o coração do outro.

Como bate o seu?

Em qual desfecho, compasso, taquicardia?

Na poesia, os opostos não se atraem, se completam, e quase sempre, não se dão conta disso. Talvez aí more a beleza dela.

E a poesia que se esconde no cotidiano? Como a da cena do menino atravessando a rua, agarrado de um jeito no braço da mãe, engolindo um medo virado, desespero cravado no olhar. Não sei se ele teme perder a mãe ou se ser atingido por um carro... Seja como for, essa poesia é dolente, mas só até chegar ao outro lado, pés na calçada, o moleque respira tão aliviado, abraçando as pernas da mãe que lhe beija a cabeça.

A poesia que nos faz manter os olhos no outro, observando seus gestos, ouvindo atentamente as palavras que saem de sua boca, aprendendo com a experiência dele, transformando-o em guia, dando-lhe permissão para cortejar a nossa alma.

Mas há quem encontre poesia onde a maioria jamais encontraria sequer interesse, nos desmandos, no descaso. E desse cenário caótico, como diria o poeta-músico-poeta, “flores crescem no asfalto, debaixo dos meus pés”.

A poesia do SMS extraviado pela falta de saldo no pré-pago, que chega ao destinatário dias depois do envio, e cai tão melhor no momento do que caberia antes. É como se uma divindade tecnológica tivesse mexido os pauzinhos, melhor, os fiozinhos e chips e conexões, e esse monte de coisinhas que nem todos entendem muito bem, mas das quais abusam até.

A poesia da ausência é a tecelã dos mistérios. Sobre a densidade do sentimento ela se deita de tão farta das banalidades, ansiosa pelos lamentos e pelo frenesi da felicidade. É uma poesia extravagantemente bipolar, das que se apaixonam pelas imperfeições.

Perco-me na poesia da canção: “Would like to dance around the world with me?”, sim, eu quero! Vamos? Um, dois, três e quatro, dois pra lá, dois pra cá, dois sorrisos miúdos encontrando duas gargalhadas histéricas. “I remember thinking/Sometimes we walk/Sometimes we run away”, e estaco os pés nesse solo de contradições, embaraçando-me nos cabelos da fuga. Ainda assim, “I’ll back you up”.


I'll back you up - Dave Matthews Band





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terça-feira, 27 de julho de 2010

FÉRIAS EM FAMÍLIA >> Clara Braga

Crianças são seres engraçados e peculiares. Eu adoro criança, acho engraçado como cada uma tem seus medos bobos, sua forma de chamar a atenção, suas birras, etc. Eu fui uma criança chatinha. Não que eu lembre da minha infância toda, mas a minha família faz questão de não me deixar esquecer.

Normalmente as famílias, quando se reúnem, lembram nostalgicamente o quão lindos eram os netos e filhos quando eram pequenos, contam história engraçadas e se divertem. Se eu disser que minha família não faz isso eu estaria mentindo, ela até faz, mas só até chegar a hora de lembrar da minha infância. Ninguém tem pudor, eles não medem palavras pra dizer o tanto de escândalo que eu fiz, o quanto eu nunca precisei de motivos pra começar a chorar como se o mundo estivesse acabando, o quanto eles tinham certeza de que eu nunca na vida teria amigos e assim por diante.

Recentemente, em uma dessas reuniões, eu fui apresentada a uma história nova da minha infância. Enquanto lembrávamos saudosamente do meu falecido avô, minha prima solta o nada amigável comentário: "Não sei como sou sua amiga até hoje, você é culpada pela única bronca que eu levei do nosso avô!"

Esse tipo de comentário já nem me surpreende mais, mas confesso que fiquei curiosa pra saber o motivo da bronca. Em um estilo bem dramático, típico de novelas mexicanas, ela me contou que em uma das férias que passávamos juntos no Rio de Janeiro, ela estava conversando com meu irmão sobre os ossos do corpo humano, quando teve a infelicidade de dizer: "Por exemplo, todo mundo tem fêmur, não é Clara? Você tem um fêmur!" 

Eu, que estava por perto sem a menor pretenção de participar dessa conversa chata, que nem entender eu conseguia, fui incluída no assunto da pior forma possível! O que diabos no mundo é um fêmur? É o sucessor do bicho-papão ou do boi da cara preta? Não tive dúvidas, fui correndo e chorando (como em todas as histórias da minha infância) contar pro meu avô que minha prima estava me acusando de ter um fêmur sem eu ter feito nada! Não deu outra, meu avô deu uma bronca nela, afinal, ela é a mais velha, tinha que tomar conta de mim e não ficar me assuntando com essas palavras que parecem que vão te engolir!

Fico triste em ver que ela se chateou tanto com essa situação, mas pra falar a verdade, se eu fosse meu avô, não teria brigado com ela por ter me assustado, brigaria com ela por estar passando férias no Rio de Janeiro e ficar falando de ossos. Se fosse hoje em dia, eu até entendo, afinal esse assunto está mesmo bombando por lá, mas há mais de 10 anos? Qual era a intenção dela? Ser ortopedista? Perita do IML? Devo dizer, a bronca foi muito bem dada. É isso, vovô, mandou bem!




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segunda-feira, 26 de julho de 2010

E AGORA, COMADRE?
>> Albir José Inácio da Silva

Estou escrevendo para dar notícias do povo daqui e também pra me desabafar. Saiu umas coisas no jornal e eu fiquei muito indignada. Diz que tem lei agora que não pode mais bater em criança, dar palmada, beliscão, puxão de cabelo, nada, nenhum ensinamento. Com as crianças do jeito que estão, como é que elas vão ficar?

Professora já não podia bater há muito tempo. Desde o meu tempo de escola. Lembro de mãe fazendo escândalo na escola porque a professora tinha beliscado o filho dela. A minha mãe não, se eu apanhasse na escola ela até gostava. Dizia que a escola também tinha que ensinar porque os maridos já não ajudam em nada e a gente depois é que tem que aturar menino malcriado.

Se a gente não bate, eles vão apanhar na rua e, mais tarde, da polícia. É melhor a gente bater, que a gente bate com amor. Às vezes tem que bater com mais força porque eles vão se acostumando e crescendo, mas é só enquanto eles precisam. Se a gente não corrige, o que é que vai ser deles?

O filho de Giza, por exemplo, andou com gente errada e agora é viciado em negócio de droga. E ela bateu muito nele. Imagina se não batesse, agora ele tava na cadeia. Já o Dico, da Conceição, ficou um homem bom, trabalhador, mas quem conheceu sabe que ele era o capeta. Só melhorou mesmo a custa de muita pancada. No mês passado teve umas coisinhas com a polícia, mas foi só por causa de bater na mulher. Acho que não se deve bater na mulher — que mulher não é filha — mas aquela até que mereceu. É preguiçosa e gastadeira.

Eu apanhei muito de pai, de mãe, de avô, de tia, de todos que ajudaram a me criar, mas foi na medida certa. Nunca matei, nunca roubei, e olha que não me faltou raiva nem necessidade. Nunca usei nenhum tipo de droga, e olha que não me faltam problemas nem gente pra oferecer. Mas eu não quero saber disso. Todo dia tomo meu remedinho pra dormir, e o antidepressivo pra passar o dia, e pronto. Vou levando a vida como Deus quer. Fico pensando o que seria de mim se não fosse o chinelo, a vara de marmelo e o chicote. Nem gosto de pensar.

Sou uma pessoa de bem, comadre. Não conheço bandido, ladrão, traficante, assassino, mas posso garantir que o que faltou pra eles foi surra. Não tiveram ninguém que ensinasse. É de criança que se aprende. Quem vê o menino assim, com carinha de anjo, jeito de bichinho, não imagina que diabo pode virar, se não tiver as asinhas cortadas a poder de vara.

Outro dia veio uma me falar desaforo porque eu disse que o garoto dela ia virar bandido. Quis me jogar na cara que o meu filho morreu de tiro da polícia. Aquele não foi culpa minha, ele apanhou muito, mas não foi suficiente. É que ele era doentinho e não aguentava muita pancada. Mas o que eu pude, eu fiz.

Bem, comadre, vamos ver aonde vai parar esse mundo. Se foi bom até agora, é porque a gente podia ensinar as crianças. Vamos ver o que vai ser daqui pra frente. Lembranças pra todos.




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domingo, 25 de julho de 2010

O EGOÍSTA E O INDIVIDUALISTA
>> Eduardo Loureiro Jr.

É fácil reconhecer o egoísta. Ele é aquele que, indignado, corado, colérico, chama outra pessoa de — adivinhem — egoísta. A pessoa que é chamada de egoísta não tem nada de egoísta, normalmente é individualista.

Se você não entendeu, provavelmente você é um egoísta. Se deu um risadinha irônica, provavelmente é um individualista. Se apenas compreendeu, impassível, você é um santo. Não trataremos de santidade nesta crônica. O único propósito das palavras que seguem é esclarecer o egoísta que ignora sua própria condição...

O egoísta é aquele em torno do qual o mundo gira ou deveria girar — na visão do próprio, é claro. Ou, nas palavras do Houaiss, alguém que "subordina o interesse dos outros a seus próprios interesses". O egoísta é sutil, pois parece interessado nos outros. Porém é um interesse interessado mesmo, de quem quer que os outros se submetam a si. O egoísta é um grande controlador que tenta mover os outros como se esses fossem um conjunto de peças de um jogo. Como jogador, o egoísta acredita que sabe, melhor que ninguém, o rumo que deve dar às peças. O egoísta se acha generoso. E é mesmo benevolente, sempre disposto a transmitir sua energia às pobres peças letárgicas, que ficariam paradas a vida inteira se não fosse a generosidade do egoísta. Mas basta que uma das peças resolva se movimentar por conta própria, e em sentido diferente daquele que o egoísta pretendia, para que o egoísta tente forçá-lo a se corrigir.

Aqui entra o individualista. Aquele que, ainda segundo o Houaiss, "afirma sua individualidade pela independência de ações e pensamento". O individualista é aquele para quem cada um é um mundo girando à parte, conectado aos demais mundos por um equilíbrio delicado de repulsão, atração e gravidade. O individualista é adepto do "cada um na sua", é um macaco perfeitamente adaptado ao seu galho. O individualista é Fernando Pessoa, sob o heterônimo de Álvaro de Campos: "Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade./ Assim, como sou, tenham paciência! / Vão para o diabo sem mim, / Ou deixem-me ir sozinho para o diabo! / Para que havemos de ir juntos? // Não me peguem no braço! / Não gosto que me peguem no braço.  Quero ser sozinho. / Já disse que sou sozinho! / Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!  " O individualista é aquele que aprendeu a conviver consigo mesmo, que pensa que não precisa de ninguém e, por consequência, deduz que ninguém precisa dele.

Então se encontram o egoísta e o individualista. O individualista, que pensa bastar-se a si mesmo, não entra no jogo de mover peças do egoísta. O egoísta, ao encontrar alguém que não consegue submeter sutil ou abertamente, vocifera a sentença: "Seu egoísta, você só pensa em si mesmo". Não, não é verdade que o individualista só pense em si mesmo. O individualista pensa em muita gente, todo mundo separado, com encontros eventuais. A fala do egoísta é que está pela metade. O egoísta, se tivesse noção de seu próprio egoísmo, diria assim: "Você só pensa em si mesmo quando deveria pensar em mim." Mas isso pareceria ridículo até para quem não tem consciência de si. O individualista, se tem alguma disposição para a briga, assume aquilo que não é e responde seco: "Só um egoísta poderia reconhecer outro." Mas o individualista-padrão normalmente deixa passar, dando apenas dois passinhos para trás para se livrar da saliva fumegante do egoísta.

Do que foi dito acima, não se pense que é impossível o convívio entre o egoísta e o individualista. Podem conviver bem, muito bem até, desde que respeitando-se o seguinte. O egoísta reconhece o direito do individualista pensar e agir por si mesmo, desde que não fique espalhando essa doutrina por aí, o que levaria a uma diminuição do número de pessoas dispostas a se submeter ao egoísta. O individualista faz vistas grossas e deixa o egoísta continuar brincando o seu joguinho com as pessoas dispostas a isso.

E assim estão os dois combinados.



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sexta-feira, 23 de julho de 2010

UM TE AMO ANTES DO FIM
>> Leonardo Marona

Nunca morri de amores por casamentos. Eles são realmente inacreditáveis. Por conseqüência direta, nunca acreditei muito em todo aquele amor matrimonial, braços cruzados bebendo champanhe, gordinhas desesperadas atrás de pedaços de buquê. Ao observar um casório, tinha quase sempre a impressão de que o noivo precisava de uns conselhos. Não sei bem por que, mas a noiva nunca precisava de conselhos; as mulheres sempre sabem o que fazem. De qualquer modo, um casamento me consumiria a manhã e a tarde de sábado e isso deveria ser desagradável para qualquer um. E eu tenho certeza de que tinha umas cem pessoas pensando nisso enquanto amarravam os sapatos. Mas, de fato, minha cozinha parecia o campo de Auschwitz e eu não tinha um puto. Achei que, nesse caso, um casamento seria uma boa oportunidade para encher bem a pança com aquela mistura maravilhosa de petiscos e cerveja. Só podia ser coisa de brasileiro mesmo: petiscos e cerveja. Entendo porque os europeus bebem e comem pra caralho e estão sempre com cara de satisfeitos. Eles comem que nem uns bichos, até entupirem as veias, e depois tomam um galão de vinho e digerem aquela merda toda dormindo. Depois acordam e voltam a dominar o mundo. Nós, brasileiros, comemos churrasco e tomamos cerveja. O churrasco endurece a merda como cimento e a cerveja nos faz suar e ver bolinhas de vertigem saltarem da retina. Depois continuamos sendo dominados que nem gado. Uma coisa deve ter alguma relação com a outra... Enfim, era um casamento diurno. Que bela bosta! Casar de manhã deve ser ainda pior que casar à noitinha. Você nem bem sabe o que está fazendo de manhã e a cara está tão dobrada de travesseiro que todo mundo fica feio, inclusive os noivos. Talvez essa seja mesmo a hora mais “honesta” para se casar.

E lá ia eu com meu kit-casório: um blazer surrado e já quase cinza, ainda que eu dissesse que era preto, justo na cintura e largo nos ombros – o lixo do lixo da moda –, as meias de linho combinando, uma calça jeans também quase cinza – esta era mesmo dessa cor, comprei assim não sei por quê –, com um cinto destoante bastante surrado e com um buraco a mais improvisado para me apertar bem os culhões e me fazer ficar com a fisionomia ideal para um casamento. Completava o figurino um All-star preto e branco, esse sim, saído da caixa, cheirando a borracha fresca. E por isso estraçalhando meus dedos do pé. O cabelo era o de menos. Cedo ou tarde, depois do banho ou depois de uma surra, estaria sempre com jeito de que acabou de sair de dentro de um capacete. Eu sempre chegava de moto nos lugares, mesmo que nunca tivesse andando numa.

A cerimônia era da família dela. Do lado católico da família dela, para ser mais exato. Mas o lado judeu estaria lá também, porque judeus não perdem uma festa. Adoram dançar com as mãos pra cima, estalando os dedos, pontas de pé, barriga p’rum lado, barriga pro outro, e adoram também discordar de tudo com uma delicadeza cínica. Novos judeus, minha gente! Só que antes da comilança tem sempre aquela balela de juramento para vida inteira, para sempre amar você, nunca te trair e morrer ao teu lado com tifo... Fazer o quê? Qualquer coisa tem seu lado ruim e seu lado péssimo, até mesmo os casamentos.

Estava um sol de fazer testas brilharem e a minha era um espelho d’água. As gotas escorriam por dentro da camisa – já pra fora das calças – até inundarem a cintura, e eu sabia que chegando em casa teria alguma roupa para lavar ou jogar fora. Eram gotas escorrendo pelas costelas, por trás das costeletas, fazendo trilhas pela anatomia das orelhas, acumulando-se todas no cavanhaque. Sorte minha que a igrejinha estava lotada e tive que esperar do lado de fora. A família dela, entretanto, preferiu se espremer para tentar ficar numa posição em que todos pudessem reparar na sua presença. De lá de fora dava para se ouvir o padre. Era um velhinho muito faceiro que parecia mais um bebum jogador de dardos e comedor de amendoins do que uma pessoa que diz amém todos os dias.

Do casamento em si eu não vi nada e sabia bem pouco. Sabia apenas que o noivo era um jovem botânico sulista – daí o churrasquinho de petisco – e a noiva era uma baranga que não parava de chorar e se empanturrar. Ainda assim o noivo era só sorrisos, louco para trepar até os olhos virarem na lua-de-mel em Cuba. É incrível como o amor eterno custa caro. Se bem que o passeio de balsa devia estar incluído no pacote, até Miami. Tinha ouvido também alguma coisa sobre o cenário da cerimônia. Era a casa de campo de uma bicha famosa, que foi um grande paisagista e artista plástico, até morrer espancado por ladrões de galinha que erraram de propriedade, mas acharam que tinham que bater no sujeito até o fim por que ele dava a bunda e não reclamava. E a cada quinze minutos a parte judia da família dela se chegava pra perto de mim e falava que tinha uma peça extraordinária do tal artista na porta de casa. Olha! É assinada, assim como essa e essa e essa..., ela apontava pras paredes e fechava os olhos, dizendo o que deveria dizer pra se gabar à sua moda. Depois de um tempo, a parte judia passou a dizer isso a cada cinco minutos, um modo de me lembrar dos seus malditos azulejos para sempre, principalmente quando eu fosse dirigir-lhe a palavra, no que podia sentir o cérebro tilintar. No mais era muita sede e suor e, no meu desespero, já cogitava lamber meu próprio suor para matar a sede – uma idéia estúpida e salgada.

O padre era de um novo nicho de padres que vem crescendo bastante: os padres engraçadinhos. Para cada salmo e conselho de vida havia uma piadinha, que arrancava da platéia risos forçados e fazia os afrescos das paredes da igreja se afrescalharem também. Eu já estava começando a alcançar meu estágio de maior irritação do dia, que acontece por volta do meio-dia, quando o sol está reto e com raiva. Saí de perto, já que não faria nenhuma falta ali mesmo, e fui passear no bosque, literalmente falando.

Passei por alguns poços secos e alguns outros com poças d’água cheias de mosquitos barrigudos e vitórias-régias pequenas e magrinhas. O lugar parecia meio abandonado, mas talvez fosse isso que o tornava atraente pra mim. Desci por um caminho de pedras e acabei dando num lugar mudo, por isso resolvi gastar um pouco mais de tempo lá. Não havia nada, apenas um banco de pedra lisa, um enorme painel lateral de azulejos feito pela bicha azarada e um cão vira-lata e manco com a pata traseira direita amputada, mas que parecia mais satisfeito do que eu e se mexia por ali como dono do pedaço. Era como o paraíso deveria ser: um lugar agradável nas primeiras horas, mas que se torna insuportavelmente perfeito depois de um tempo, quando pedimos umas férias no inferno. Mas mesmo assim era melhor que lá em cima, junto das gargalhadas forçadas pelo padre, dentro da igreja que derretia. Deitei no banco de pedra e fiquei ali, com os braços atrás da cabeça e as pernas cruzadas, tentando me livrar da razão. Antes de fechar os olhos e virar um nada, reparei que, sobre aquela maquete de paraíso, corria um pequeno fluxo d’água – sustentado por um teto cimentado –, que terminava numa queda um pouco mais à frente e que se podia ver virando de leve a cabeça. Era uma beleza ver as águas disformes afastando-se e juntando-se de novo, antes de virarem vapor. Ficaria ali para sempre, até as minhocas me levarem com elas. O som da água correndo eternamente e o alívio que a pedra gelada provocava nas minhas costas me transformaram num santo. Meus pensamentos eram os mais leves que já tinha tido e, depois de alguns minutos, eu nem mesmo sentia meu corpo. Era a primeira vez em muito tempo que ele não reclamava de nada, nenhuma dor nas juntas, nenhum embrulho no estômago ou pontada de tosse. É claro que não seria para sempre, mas eu achava que fosse o céu me levando embora e torci para que fosse isso mesmo. Só voltei a abrir os olhos quando ouvi o mundo me atormentar outra vez, com um barulho de gente chegando. Foi quando vi que nada era pra sempre, nem o céu nem o inferno, muito menos minha sorte de paz.

Levantei rápido, como se babasse demais, e os pés fizeram um contra-peso tal em relação ao resto do corpo que se ergueram juntos me transformando numa gangorra humana. Foi um modo ridículo de se levantar, mas não esquentei muito porque vi que o sujeito que se aproximava limpava terra dos joelhos e vinha de dentro do mato, bem atolado mesmo. Era quase completamente calvo, bastante magro, chupado e ossudo, com as orelhas enormes e redondas e felpudas. Andava de forma estranha, como uma garça com sono, e devia ter uns vinte e tantos anos. Na hora vi que era um sujeito que, como eu, não acreditava em casamentos e, como eu, devia estar com a barriga roncando e o céu da boca implorando por álcool gelado. Era bem como eu e imaginei se eu poderia estar tão mal quanto ele. Eu não era tão magro nem tão calvo e isso já pareceu o suficiente. Poderia encará-lo de igual pra igual, portanto, já que era eu que estava na vantagem. Começamos com aquelas perguntas desnecessárias, que se respondem por si próprias, mas que nos dão tempo de pensar em coisas melhores para dizer. Eu fui o primeiro a ser babaca:

- Também veio pro casamento?

- Não, vim catar umas minhocas. – O sujeito ainda batia os joelhos com as mãos, olhando pra baixo, e falava tão sério que eu quase me ofereci para ajudá-lo.

- Hum... É da parte do noivo ou da noiva?

- Da que tiver mais grana – inclinou a cabeça torta pro meu lado e riu pela primeira vez, arreganhando uns dentes que, na sua boca insignificante, pareciam mais numerosos que o normal. – No momento sou da parte do noivo. Na verdade sou amigo do sobrinho do noivo, que é mais velho do que ele, aliás. é uma putaria mesmo... Mas eu vim mais pela carne do que por qualquer outra coisa. – Eu já sabia, mas não disse nada sobre a carne.

- Você gosta desse mato todo aqui?

- Você gosta de fazer perguntas, pelo visto. É algum tipo de pesquisa?

- Não. É que eu não tenho nada melhor pra dizer. Na verdade, queria ficar sozinho, por isso vim pra cá.

- Igualmente.

Igualmente? Quem responde uma pergunta – seja ela qual for – com Igualmente, ou tem mais de cem anos ou é um escroto sacana.

- Você deve ser botânico também, imagino. Que nem a maioria dessa turma aí de cima. Vi a maneira que chegou. Pelo mato. Bastante original. – Tinha que me impor de alguma forma; como sempre, escolhi a forma errada.

- Não sou botânico, sou professor de inglês.

- Uma boa escolha, trabalhar com línguas... Deve ser bastante gratificante... Ainda por cima é um emprego honesto e deve dar pra cerveja do mês. Bela escolha... Mas você não tem cara... Nunca diria que você é um professor assim, te olhando de primeira... – Estava me enrolando de vez.

- Dava aula de inglês pr’umas putas em Copacabana – ele disse, aparentemente sem mudar de expressão, mas talvez tenha ficado um pouco chateado em falar da peculiaridade da sua licenciatura e isso era o tipo de coisa que te envergonha, mas te dá um certo prazer masoquista em dizer.

- Hum... Então é melhor ainda, porra! Você tem a garantia de pagamento que muitos queriam poder ter.

- Aham. E eu vou morrer por causa disso. Sabe como é... Tem umas doenças que se pega nessas merdas e aí não tem volta. AIDS... E o pior é que eu nem sou viado.

- Sei... Cheque sem fundo, né? Mas talvez não seja tão ruim.

- Tão ruim? Eu acordo mijado de sangue todo dia.

- E eu mijado por uma puta todo sábado.

- É, talvez não seja tão mau. De qualquer forma, tenho ainda alguns dias.

- Porra, e você ainda perde tempo num casamento?! Isso sim é ruim... Pelo menos na minha opinião é uma merda.

- É que eu achei que seria uma boa morrer durante um casamento.

- Certamente seria uma maneira bem sacana de roubar a festa. Mas você tá pensando em morrer hoje?

- Não, não tenho coragem de me matar. Mas achei que ia encontrar alguém aqui pra fazer isso por mim.

- Ah, bom! Então é melhor ir procurar logo antes que o padre diga amém e o arroz comece a decolar.

- Eu já achei.

- Suponho que seja eu então... Ou o cachorro perneta.

- Ele não quis me ajudar. Além do mais, tá mais fodido do que eu. – E escancarou de novo sua arcada cheia de dentes, dessa vez de um jeito melancólico, com os olhos baixos. Impressionante o senso de humor do sujeito. Talvez sejam os delírios que precedem a morte. Ou que levam até ela.

- Mas por que achou que fosse encontrar alguém logo aqui?

- Vi você lá em cima. E vi que você tava de saco cheio dessa lengalenga que tá acontecendo lá em cima. Então pensei que pudesse querer um pouco mais de ação.

- E matar uma pessoa é o tipo de ação que você imaginou pra mim... Realmente é a minha cara.

- Sério, você me ajuda ou não? Posso sair e achar um monte de gente que faria isso, com prazer até.

- Você não tem uma mulher que possa fazer isso por você? Uma puta quem sabe... Eu ia preferir que uma mulher me matasse. Elas fazem isso conosco a vida inteira, afinal. Nada mais justo...

- Minha mulher me largou quando eu fiquei careca e decrépito. Acredita que ela disse que não era por causa da doença, mas porque não agüentava olhar pra minha cara?

- Delicada, a tua mulher. Mas vai entender as mulheres... Vai MORRER querendo entender elas! Quer dizer... Foi mal.... Eu não quis dizer... Que merda, tô suando pra cacete.

- Não tem nada, não. Também, pouco importa. Vou morrer porque VOCÊ vai me matar – e puxou de dentro da blusa uma arminha prateada, bem afrescalhada, que parecia uma pistola de atirar flecha. – As mulheres só me foderam a vida inteira! Elas são malucas! Nascem malucas! Não entendem nada! E algumas ainda pioram!

- E as que melhoram perdem a graça. É um beco sem saída, irmãozinho.

- Faz sentido. Mas e então, vai segurar a arma ou não?

- Porra, tira isso daqui! Não posso ver essas merdas. Elas brilham demais no sol. E imagina só o barulho. Pensa bem, ia ser uma correria do caralho e tá quente demais pra isso. Vamos pensar noutro jeito... Que tal as pedras, lá embaixo? Eu posso te empurrar, se você realmente quiser. Seria uma morte mais trágica e bem mais grandiosa desse jeito. O que é que você acha?

O magrelo respondeu com um enorme pomo de adão que subiu e desceu com uma onda seca de saliva e seu foco fugiu na direção da queda d’água uivante. Sem dizer nada, mas dizendo muito com os olhos, andou com as mãos para trás até a beirada, parou um metro antes e ficou ouvindo o urro das águas. E elas faziam pouco dele com seu assovio. Como se aquilo tudo não passasse de uma balela suicida. Eu permaneci imóvel e algo em mim – algo que eu nunca tinha experimentado – começou a fervilhar, me fazendo afogar a respiração. Ele ia topar. Eu ia detoná-lo por escolha dele. Ele ia sumir de vez e nunca mais ninguém falaria daquele magrelo de olhos profundos. Talvez as putas se sentiriam um pouco culpadas e fariam um dia de luto. E suas roupas pretas e justas atrairiam mais fregueses imbecis que gozariam a vida no lixo.

- E então? Você não precisa me avisar de nada – ele disse, ainda de costas. – Chega devagar e dá um empurrão. Eu vou ficar aqui, de braços dados. A vista daqui é linda. Você tem que ver, cara... Quando você quiser... Estou pronto.

- Espera um pouco. Eu preciso me concentrar. Sabe como é, tem algum tempo que eu não faço nada do tipo. Mas pode relaxar. Aproveita a paisagem que eu vou daqui a pouco.

- Na verdade... Nunca pensei... Mas tô nervoso. Morrer é uma merda mesmo, até que se desaparece de uma vez – e começou a chorar de leve. – Cara, nem perguntei o teu nome. Queria saber o nome de quem vai me matar.

- Espera aí, cara! Quem vai se matar é você mesmo! Eu só sou o veneno, o instrumento... Além do mais, qual a diferença saber o meu nome? Dizem que lá pra onde você vai todo mundo se chama bau-bau de qualquer jeito... Saber o meu nome não vai te adiantar mais pra nada.

E a cena estava assim: nós dois, eu bem atrás, de frente, ele bem na frente, de costas. E os dois falando como se lixassem as unhas num salão. Ele estava apavorado. Gaguejava um pouco quando disse:

- Você poderia dizer que me ama antes?

- Não.

- MAS POR QUÊ?! – Ele virou e agora já chorava pra cacete e se esgoelava. Eram as últimas forças. Se eu não me mexesse logo o sujeito morreria de desgosto, o que seria bem mais doloroso, talvez pra mim, pra ele certamente. Mas eu tinha que dizer por quê.

- Primeiro, cara, que eu não te conheço pra te amar. Segundo que eu não sei o que é amar muito bem. O que eu experimentei no gênero não foi lá essas coisas. Portanto, dizer que te amo seria o mesmo que dizer SINTILASQUINATO pr’um dromedário, ou seja, não ia significar merda nenhuma, nem pra mim nem pra ti, antes que você me pergunte o que é SINTILASQUINATO... E, terceiro, se eu te amasse, não conseguiria te empurrar. Não me dou tão bem assim com a Dona Morte, sabe, jogamos em times opostos. E eu chuto o cu dela toda vez que me aperto. É como se eu estivesse te fazendo uma camaradagem, podemos considerar dessa forma... Você compreende? Hein? Ouviu?

Deu de ombros como se qualquer coisa servisse. Seu rosto era uma laranja chupada. Não falaria mais nada. Qualquer coisa seria um alívio depois de tanto palavrório sem sentido. Ele continuava de costas – a cabeça baixa – e a nuca exposta agora implorava por um empurrão, mesmo que não houvesse barulho fora o das águas, que faziam uma torcida ansiosa.

Saí correndo e empurrei com força, mas tampei os ouvidos e fechei os olhos em seguida, correndo para trás como um cagão. Nem tão cagão assim. Tinha feito a vontade do sujeito e era como se a vontade dele servisse pela minha própria. Não vi se ele gritou ou se me xingou, nem vi os miolos soltos lá embaixo, dançando com os mosquitos.

Também não pensei em culpa e, talvez por isso, quando voltei para o casório lá em cima ninguém reparou em nada de diferente. Acho que não reparariam nem se eu tivesse mergulhado numa banheira de sangue e aparecesse com uma faca de açougueiro entre os dentes. Todo mundo só queria saber do arroz que era repartido em pequenos punhados, menos a parte judia que só queria saber dela mesma e dos seus azulejos. Tudo como estava antes. Mas o sol mais baixo um pouco. O casal faceiro era um sorriso gigantesco com pernas brancas que engolia arroz cru. Algumas velhinhas de chapéu abriam a boca de vez em quando: Ai! Vocês sabem que eu não posso com casamentos!... E na hora que começaram com As Bachianas... Ui! Vocês sabem que não consigo me segurar com As Bachianas!...

Normalmente eu riria por dentro e me roeria por fora ao ouvir algo do tipo: uma velhinha se enxugando e falando das Bachianas. Mas dessa vez não. Pensei naquele magrelo que pediu amor na última hora, antes de se estourar nas pedras. Talvez seja normal querer ouvir um último Te Amo antes de sair fora. Talvez até nessa hora precisemos de uma dose de engano. Na verdade dizemos sempre Te Amo pra alguém bem mais pensando na resposta desse alguém do que no Te Amo que dissemos. O amor significa pouco no fundo, e é por isso que precisamos dele: porque no fundo precisamos de tão pouco quanto o que ele pode nos dar. Ou talvez não seja nada disso.


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quinta-feira, 22 de julho de 2010

ALEGRIA CRÔNICA >> Fernanda Pinho

Queridos, começo com uma confissão. Adiantada que sou, sentei para escrever minha crônica de quinta dessa semana na segunda-feira. Não tive dificuldade em encontrar um assunto. Ao contrário de todos os outros dias, em que as milhares de possibilidades me atormentam, naquele dia um único assunto monopolizava toda a minha existência: minha tristeza. Eu estava triste, muito triste por motivos que já não vêm mais ao caso. Essa crônica não é aquela outra que ficou prá trás, afinal.

Dois dias depois de tê-la escrito, reli, para ver se estava tudo certo para postar aqui e, minha nossa, percebi que estava tudo errado. Eu sou totalmente errada quando triste. Era um texto feio. Sem a menor chance de tornar-se um texto bonito, ainda que passasse por zilhões de edições. Sua essência era feia. A dor, o medo, a dúvida. Mas sua feiúra não vinha daí. Vinha do fato de eu não saber escrever quando estou triste. Quantos e quantos escritores e poetas se alimentaram da tristeza para escrever obras primas. Eu não sou assim. Primeiro porque não sou uma escritora, tampouco uma poeta. Sou nada mais que uma moça intrusa que força amizade com as palavras. Segundo porque a tristeza não me estimula a nada. Quando estou triste, não há nada que me interesse nesse mundo. Não adianta me fazerem uma festa, me levarem para a praia, me darem roupa nova, me preparem um delicioso pudim de leite, me escreverem uma carta. Eu não vou ficar alegre (mas, amigos, que fique claro: isso não significa que vocês não devam me fazer uma festa, me levar para a praia, me comprar uma roupa nova, me preparar um delicioso pudim de leite e me escrever uma carta. Não custa tentar, né?).

Fico imprestável. Faço tudo mal feito. Não me disponho a fazer bem feito, aliás. O resultado são textos medíocres, embora profundamente sinceros. A ex-crônica de hoje nasceu de uma verborragia. Um vômito de palavras acompanhado de lágrimas que caiam sobre o teclado com a mesma frequência dos dedos frenéticos. Nasceu assim, feia. E sem a menor intenção de ser bonita. E acho bom que seja assim. Acho maravilhoso que eu seja medíocre e imprestável quando triste. Do contrário, eu mergulharia na tristeza para conseguir matéria prima para meus textinhos. Mergulho perigosíssimo. Eu não sei nadar.

Não fico alegre quando realizo grandes feitos. Na realidade, realizo grandes feitos quando estou alegre. Sendo assim, deletei a crônica triste e tenho deletado aos poucos tudo o mais que diz respeito a ela. Como sempre faço. Questão de sobrevivência.

Comecei com uma confissão e encerro com uma adivinhação. Tenho certeza que tem um versinho martelando nas cabeças por aí: "é melhor ser alegre que ser triste, alegria é a melhor coisa que existe". É, vamos beber da fonte do Poetinha. Esse, sim, sabia das coisas.

Foto: eu no auge da alegria dos cinco anos. Vou perder uma coisa dessas? Mas nunca!

http://www.blogdaferdi.blogspot.com/

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quarta-feira, 21 de julho de 2010

ACONTECE QUE ACONTECE >> Carla Dias >>

Quando passamos por uma experiência que mexe não apenas com a cabeça da gente, mas principalmente com a alma, fica difícil sintonizar a rotina, voltar ao nosso próprio universo.

Acredito que isso aconteça nas nossas vidas, vez ou outra, para nos lembrar de que pode sim haver momentos de plenitude, quando a alegria não nos deixa apreensivos, por esperarmos que ela fuja de nós, antes de podermos conhecê-la melhor. Quando sentimos que, quando ela partir, deixará boas lembranças, as quais poderemos sempre revisitar.

Momentos como este têm muita importância para mim, já que sou das que raramente os alcança. Minha alma é tão inquieta que, boba, perde com frequência a leveza dos acontecimentos. Mas quando consigo me permitir ficar onde está a leveza, a experiência é das raras.

Engraçado é que, com esta permissão para ficar, vem também a vontade de partir, de seguir adiante. Não conheço muitos lugares desse mundo, tampouco o mundo que cada um deles pode desvelar. Ao mesmo tempo, é como se este mundo viesse a mim, constantemente, e beijasse minhas faces, mandasse notícias, não permitisse que dele eu nada soubesse.

Então, sinto saudade de onde nunca estive.

Esse lugar onde me perderia em horizontes, nas noites mais frias, no silêncio das necessidades cotidianas. Onde a vida transitaria com menos pressa, desfilando pensamentos nascidos há tanto tempo, mas jamais explorados, anteriormente. Onde café com leite acompanhado por biscoitos de chocolate faz todo o sentido. E dormir é muito mais fácil, como uma viagem agradável a um universo que visitamos apenas de olhos fechados, justamente para enxergarmos melhor o que andava enevoado, enquanto caminhávamos por autodecasatos.

Imagem: Wassily Kandinsky

www.carladias.com

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terça-feira, 20 de julho de 2010

AGONIA DA PO**A >> Clara Braga

Um dia desses estava conversando com um colega meu e ele disse que minha próxima crônica deveria se chamar "agonia da porra". Bom, até ai tudo bem, o problema foi que ele não me disse nada mais que isso, não me contou por que estava agoniado nem o que ele esperava de uma crônica com esse título.

Eu poderia chegar aqui e escrever sobre qualquer coisa, afinal, o tema é livre, mas eu fiquei com esse título na cabeça e comecei a pensar o que faz as pessoas ficarem agoniadas hoje em dia, ou pelo menos o que me deixa agoniada. Esperar telefonemas importantes, esperar resposta de emprego, ficar presa no trânsito tendo hora pra chegar em algum lugar, tentar escrever e nada interessante vir à mente, precisar muito usar o banheiro e não ter um perto, não ter roupa para usar em uma ocasião especial, ficar curiosa, ligar para alguém e cair na caixa postal, talher arrastando no prato, giz fazendo barulho no quadro, esperar chegar a hora de encontrar alguém com quem você quer muito estar, internet fora do ar, celular sem bateria... enfim, eu poderia listar muitas outras coisas, mas o que me chama a atenção é que hoje em dia jogar filha pela janela, assassinar os próprios pais, matar a amante e outros tantos crimes absurdos que acontecem diariamente já não deixam ninguém mais agoniado. Todo mundo já está tão acostumado a ligar a TV e ser bombardeado com esse tipo de notícia que já nem se abala mais, pelo contrário, 5 minutos depois da notícia a internet já está bombando de piadas sobre o caso.

Não estou aqui pra dizer se isso é certo ou errado, nem criticar ninguém, até mesmo porque eu também conto por ai as piadas que escuto e repasso os e-mails que recebo. Eu estou aqui pra dizer que eu tenho minha própria teoria para explicar o porquê dessas notícias terríveis não afetarem mais as pessoas. Talvez eu não consiga explicar o porquê de não afetar todas as pessoas, mas com certeza eu tenho uma teoria para explicar a minha geração.

Bom, vamos lá, eu tenho vinte e um anos. Se você for direto ao túnel do tempo e checar quais eram as celebridades que estavam bombando entre as crianças da minha época, você vai acabar esbarrando na tão famosa dupla Sandy e Junior. Tudo bem, eles não têm culpa das músicas que cantavam, até mesmo porque muito antes de serem capazes de entender o significado das músicas eles já eram famosos. Agora, crescer ao som de Maria Chiquinha não pode ser bom para nenhuma criança.

A música é sobre a Maria Chiquinha que andou indo pro meio do mato com outro e o Genaro viu, agora a Maria Chiquinha está enrolada e fica arrumando um monte de desculpas pra se explicar. Lá pelas tantas, o tal do Genaro perde a paciência e diz o quê? "Então eu vou lhe cortar a cabeça Maria Chiquinha, então eu vou lhe cortar a cabeça" Bom, só daí a gente já pode tirar a primeira lição que estava sendo passada e absorvida pelas crianças, se sua namorada, ficante, esposa ou afim começar a te enrolar, não perca tempo, corte logo a cabeça e resolva todos os seus problemas! E se você acha que a música não piora, espere pelo resto. Assustada com o que Genaro falou, Maria Chiquinha pergunta: "Que cocê vai fazer com o resto, Genaro, meu bem, que cocê vai fazer com o resto?" E então Genaro responde: " O resto? Pode deixar que eu aproveito!" Ou seja, não contente em ser um serial killer, o Genaro é uma pessoa extremamente perturbada, aliás, se aproveitar de corpos decaptados é um tipo de perturbação que tem nome, chama-se necrofilia! Agora me diz, depois de crescer ouvindo isso, tem como ainda se espantar com o noticiário?

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segunda-feira, 19 de julho de 2010

A FÁBRICA >> Kika Coutinho

Essa noite, quando a Sofia adormeceu no meu colo, aproveitei para fazer nela uma inalação básica.
Ali, naquele quarto escuro, meu marido esperava que terminássemos quando eu perguntei pra ele aos sussurros: “Não é inacreditável que foi a gente que fez esse bicho?”.

Ele fez que sim com a cebeça, pensativo. Eu continuei, ainda cochichando: “Pensa bem, amor, ela não existia. Dá pra acreditar?”. Ele, como não sabe sussurar direito, respondeu com a cabeça que não, não dava mesmo pra acreditar. “Será que ela não existia mesmo? Será que é verdade essa história de óvulo, espermatozóide e, de repente, uma criança?”. “Acho que é verdade, sim” ele respondeu, bem baixinho, me levando a sério demais.

A inalação acabou, ela dormiu e eu estou até agora me perguntando se não seria muito mais factível que essa coisa toda fosse uma farsa. Alguém fabrica os bebês, põe uma sedação na gente, e, depois, faz a gente achar que nós que fizemos, claro.

Pra mim, é muito mais óbvio que exista uma fábrica subterrânea, um porão tecnológico onde os bebês sejam montados com um monte de gosma ou, até, com massinha, não sei. Depois dão uma injeção na massinha que ela ganha vida. À noite, quando todos dormem, um caminhão traz esses seres pra cá, devem ter uma arminha que solta a sedação e ninguém acorda quando eles entram. Trazem o bebê e criam – com a própria fumaça – a imagem que vai para a nossa memória. Não é óbvio?

Para mim, eles não só trazem os recém-nascidos como vão trocando, às vezes, quando a criança vai crescendo. Sim, porque achar que nós, adultos, com esses corpos grandes e desengonçados, éramos, de fato, um bebê fofo e tão pequenino, é ridículo né? Claro que não, né gente? Eles trocam a criança por outras maiores de tempos em tempos. Já reparou como a gente se surpreende às vezes: “Nossa como ficou diferente seu neném, em uma semana mudou tanto!”. Ainda vou criar coragem pra responder: “É que é outro bebê. Eles trocam, de tempos em tempos” Não tenho certeza, mas desconfio fortemente que reaproveitam os bebês que recolhem. Me pergunto onde está o bebê que eu fui um dia. Eles não cometeriam a ousadia de reaproveitá-lo aqui, na minha casa, como minha filha né? Será que não? Tem muito pai e mãe que têm filhos iguaizinhos ao que foram quando pequenos. Humm, eles são realmente ousados, devem usar os mesmos bebês sim, principalmente se notam que os pais são distraídos. Daí fica aquele monte de vó e tia dizendo: “Nossa, impressionante, é igualzinho a você quando era bebê, idêntica...”. Errr, é o mesmo bebê gente, não notou?

Não. Ninguém nota, ninguém. Mas agora cansei de ficar calada e resolvi abrir o jogo.

Imagine, óvulo, espermatozóide que depois vira bebê, dentro da nossa barriga ainda por cima! Ai, como é que a gente caiu nessa lorota gente?

www.embuchada.blogspot.com

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sábado, 17 de julho de 2010

UM PROBLEMA DE TODOS [Debora Bottcher]

Nos últimos dias, as páginas dos noticiários dão conta da história que envolve o ex-goleiro do Flamengo e uma de suas namoradas - sim, porque a todo momento aparece uma nova mulher ligada a ele, o que a mim soa incrível. E a mídia aproveita a audiência que tais ocorrências provocam no público, pintando o quadro com requintes mais para segurar a audiência do que para expor o real problema que está no fundo de todo esse sensacionalismo.

E, no meu entender, independente dos envolvidos (e do caráter deles), o foco principal do 'evento' em questão, que daqui a alguns dias será novamente esquecido, é a violência contra a mulher.

Você sabia que a cada QUINZE SEGUNDOS uma mulher é atacada no Brasil, e que uma em cada quatro brasileiras sofre com a violência doméstica? E que, apesar da Lei Maria da Penha, existem somente 274 juizados especiais de violência contra a mulher - para 5.600 municípios? Você sabia que, segundo estimativa da Anistia Internacional, pelo menos uma em cada três mulheres ao redor do mundo sofre algum tipo de violência durante sua vida?

Sim, o tema é complexo e denso. E você deve estar pensando, ao ler essas considerações, que isso não é com você, pois passa longe da sua família, amigos, dos seus conhecidos. Ledo engano. A maioria das vítimas, também segundo pesquisas de órgãos internacionais, não reporta a violência - por vergonha ou medo. Portanto, é possível que alguém na sua família, ou no seu círculo de amizades, passe por isso sem que você imagine.

Passa da hora de acharmos que isso só ocorre na novela, na favela, na mídia, na casa do outro, num nível que não nos atinge. Precisamos parar de pensar que são casos isolados e incomuns. Todos os dias há MUITOS casos - com mais, menos ou nenhuma projeção da mídia. Mas todos os dias MUITAS mulheres são espancadas, violentadas, assassinadas - ricas, pobres, analfabetas, superprofissionais, mães, filhas, mulheres como eu e você, sua filha, irmã, amiga, prima, neta, sua mãe - dentro de seus próprios lares ou por alguém que conhecem e convivem.

É imprescindível que a sociedade discuta o problema com mais seriedade para corrigir pontos obscuros da Lei Maria da Penha - que, sim, ajuda, mas não resolve, pois é falha e urge uma lei mais rigorosa com punições mais rígidas e programas de prevenção - e aí eu falo de alguém que diga a uma mulher que sofre qualquer tipo de ameaça, que ela corre risco, precisa se proteger; falo de alguém que a apoie, esclareça e oriente. Que lhe diga que "NÃO, NÃO É CULPA DELA", e que se ela for espancada, ela tem que denunciar - ao invés de temer e se esconder. Aqui em São Paulo, recentemente, uma advogada também foi morta, possivelmente pelo ex-namorado, que não a agrediu fisicamente, 'apenas' a ameaçou verbalmente - fato que ela ignorou. Alguém precisava ter dito para ela estar mais atenta, e em nenhuma hipótese ficar sozinha com o agressor.

Precisamos tomar consciência de que esse é um problema de todos - mas não quando a mídia nos empanturra do tema porque acontece com gente famosa. É imprescindível uma mobilização social que reconheça a dimensão e a gravidade de tal situação, porque esse drama vivido por muitas mulheres, longe de folhetins e holofotes, é um assunto que não pode mais esperar...

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sexta-feira, 16 de julho de 2010

CONHECI UMA FEMINISTA DÉBIL MENTAL
E VAMOS NOS CASAR EM BREVE
>> Leonardo Marona

“Se você for capaz de ser um verme,
será também capaz de ser um deus”
(Henry Miller)

— Escuta aqui, Marona. O que é que você tá fazendo há horas nesse computador? Já não te pedi aquele release, hã? Quanto tempo faz isso, hein? Que porra é essa, Marona? Que bando de papel riscado é esse e que merda você tá fazendo nesse computador, além do texto que te pedi há um milhão de horas?!

Ele cuspia enquanto falava, usava uma camisa de botão salmão e tinha um N decalcado em bronze na fivela do cinto gasto. Era uma lontra estúpida e me pagava o salário do mês. Veio pra cima de mim enquanto eu dedilhava sem dar muita atenção.

— Hum, vamos ver... Que porra é essa, hein, Marona, você pode me dizer? — e meteu aquela barriga na minha frente, um cheiro de porra de anteontem saltava do seu colarinho direto pro meu desespero, como se fossem amigos. Então começou a ler, bem alto: “Ela teve dificuldade com o zíper, uma, duas vezes, depois puxou com força, manobrou a cueca e caiu de boca, enquanto Old Bull Lee gemia um pouco e entornava mais um e limpava o umbigo com o mindinho flácido”. Muito bom! — e começou a aplaudir vigorosamente com um bico enorme no meio da boca. — Então quer dizer que temos um escritor aqui... Um escritor de sacanagem, não é isso? PESSOAL, VOCÊS SABIAM QUE O MARONA TAMBÉM É UM ESCRITOR DE SACANAGEM, ALÉM DE UM PREGUIÇOSO SAFADO? SABIAM? Que merda, Marona, isso é um lixo de anteontem! Não sabia que te pagava pra ser escritor. Talvez tenha perdido alguma coisa nessa história, hein? Talvez você possa me dizer o que foi que eu perdi nessa porra dessa história, hã, que tal? Você acha que eu sou um babaca que deve ser enrolado, não é mesmo? Quem sabe você não gostaria de me ver triturado numa lata de sardinha em pleno Atlântico, hein, Marona? Que me diz disso? Você gostaria de me foder, NÃO GOSTARIA?

— Hum... Teria que consultar a minha agenda, Sr. Nilo Sérgio Alves Félix Júnior. Mas desconfio que o senhor vai ter que pegar a sua senha, assim como todo mundo. Seria mais justo, não acha? Eu acho. O senhor, se quiser, vai ter que pegar a sua senha e esperar no fim da fila...

Ele me olhou. Eu olhei de volta e sorri. Ele não. Olhou pra trás, pro lado, puxou as calças com a matraca apertada, fez um giro com as sobrancelhas e depois debruçou as duas mãos sobre a mesa, como duas toras de madeira podre. Sussurrou com raiva na forma de uma gosma branca nos cantos da boca:

— Você sabe quem fode quem aqui, não sabe, Marona? Ah, sim, imagino que você saiba...

— O senhor não gostaria de publicar o meu livro, Sr. Nilo Sérgio Alves Félix Júnior? Se fizer isso, prometo, posso pular alguns lugares na fila pro senhor. Então veremos...

— Marona, você é um plagiador de uma figa, sabia? Pensa que existe espaço pra encostados como você na indústria editorial? Já andei te observando... As merdas que você escreve, o baixo calão do teu cuspe seco e triste. E posso te dizer: ninguém quer saber de Bukowskis brasileiros. Ficar por aí salpicando tristeza nos outros e caindo pelos cantos, como se a vida toda fosse um buraco cheio de pus... Isso não vai te safar, não. Eu já saquei a tua, Marona!

— Shhh... Tudo bem, então, o senhor me desmascarou, o que se há de fazer? Agora, por favor, vê se não espalha por aí senão acaba com o meu encanto... E o que é um escritor encostado sem pelo menos um encanto? Não muita coisa, não é mesmo? Então, posso contar com o senhor? — e pisquei o olho cheio de dentes logo abaixo.

— Marona, você é um patife miserável de merda, sabia?

— Pois é... Sorte a minha... Nasci no lugar certo.

Se você fosse suficientemente desaforado ou se dissesse coisas sem sentido, ele saía fora, um pouco tonto, e passava a infernizar outro pato um pouco mais bem abotoado. Produção editorial, my ass! Era sempre do mesmo jeito. Ele levantava o dedo indicador, começava a balançar aquele troço na minha frente, espremia a boca, tomava ar em seguida, olhava pra trás uma vez, depois outra e então não dizia nada, apenas saía pro outro lado da sala. E falava do meu linguajar chulo. Cu! Por que não ânus? Mijo! Por que não pipi? Filho da puta! Por que não presidente de uma grande corporação? Não compreendo, sinceramente, por que alguém ainda se preocupa com o linguajar numa época em que a overdose que mais anda matando é a overdose de si mesmo. Como diria o Coronel Kurtz, treinamos os jovens para atirar nas pessoas, mas seus comandantes não permitem que escrevam “foda” nos seus aviões porque é obsceno. Então tudo bem. Vamos todos falar direito, ser educados, engolir a seco, chorar escondidos, limpar os cantos da boca antes de dar um gole, cruzar os talheres apropriadamente, dizer “hum...” depois de assistir a uma adaptação de Tristão e Isolda no Teatro Municipal, sorrir por aí chutando latas, assobiar hinos libertários, dizer bom-dia, boa-tarde, boa-noite, boa-viagem, sempre pensando “nunca mais volte e não me peça o da passagem”. Vamos fazer tudo por uma morte feliz, mas não existem mortes felizes.

Deu as seis e escorreguei pra fora daquele buraco feculento que nem uma bisnaga de açúcar de confeiteiro bem espremida. Eram quatro lances de escada e no segundo deles, às seis da tarde, uma mulher velha estaria sempre me esperando com a vassoura na mão, sem varrer absolutamente nada, apenas pra dizer vai com Deus, meu filho e acenar com a mão, forçando ainda mais o cansaço estampado no seu rosto. Eu dizia obrigado, sem saber qual era a da velha, se ela queria colo ou não. Devia botar o relógio pra despertar, ou me amava, ou então era doente, ou quem sabe era doente, me amava e tinha um neto parecido comigo. Sei que era mecânico demais. Às seis, pá!, descer as escadas, quarto, terceiro, segundo, Vai com deus, meu filho, Vou sim, senhora, obrigado, primeiro andar e rua.

Gostava de passar no bar da esquina da rua da editora, onde sempre tentava puxar assunto com uma mulatinha de cabelos eriçados e cotovelos esfolados, que matava o tempo lavando copos, roçando a sola do pé na panturrilha e puxando a calcinha pra fora da bunda. Mecânico também. Ninguém queria ver nada por muito tempo, então as pessoas simplesmente fechavam os olhos e começavam a apertar parafusos ou botões e rezar a Deus Todo Poderoso. Eu acordava e já sabia até em que posição iria dormir e se ia acordar gozado ou não. Isso ajudava a escrever. Eu tinha do que reclamar e isso era o lubrificante da engrenagem toda. Menos pro Dr. Sabe Tudo lá da produção editorial.

E quando eu grudava os olhos na panturrilha sendo roçada por pés grossos, ela já sabia o que seria:

— Então, Malu, eu te amo, casa comigo?

E ela voltava com o copo e com a garrafa, quando muito com um sorriso. Depois dava as costas e dizia claramente com os quadris, enquanto voltava pra debaixo da pia e dos copos sujos: Po-de o-lhar, mas não vai ba-bar. Eu dava então os meus pinotes, observava as rodas de dominó dos garçons que estavam no intervalo, formadas em cima de latões de lixo, com algumas notas e umas moedas contadas por um velho de boina, que mastigava a bochecha e anotava sabe-se lá o que num papel bem pequeno. E eram sempre os mesmos velhos, desde os tempos em que eram novos e eu era um camundongo de uma corte real qualquer. Um sujeito que usava óculos de grau, mas nunca os colocava no meio do nariz, deixava sempre preso na testa, como aqueles cantores de bandas de pagode com oito integrantes que dançam, apontam e te fazem vomitar. Mas era um velho e um velho fica engraçado parecido com um cantor de banda de pagode, assim como um velho fica engraçado com uma guriazinha ao lado de mãos dadas, seja ela sua neta ou não. Além do que, este garçom tinha a incrível habilidade de trazer maços de cigarros grudados ao sebo acumulado na testa, se você os pedisse da maneira certa. “Ô, Bacuri, um com sebo!”. O outro garçom que juntava os tijolinhos na mesa era um tamborete, dizia tudo junto, falava em blocos, e ninguém entendia uma palavra. Eu nunca soube de onde ele vinha. Os outros eram bem parecidos. Bigodes grisalhos, calças altas, maneiras antigas, cabelos para trás, pentes finos nos bolsos, lenços velhos de assoar o nariz, olhares tanto-faz. Impossível diferenciar um do outro. Podem tentar: Rua Marquês de Guarnapé, número 35, sobrado. Seis da tarde, em ponto.

Tomei a rua outra e vez e vi que, de repente, todas as mulheres olhavam pra mim. Algumas olhavam pra mim, depois pra baixo, então mordiam os lábios, outras passavam com um sorriso entalado, depois viravam pra trás junto comigo e davam uma conferida. No quê?, me digam vocês. Eu também não sei. Nunca entendi por que as mulheres olham pros homens. Deve ser pelo suor e pelas veias explodindo nos braços debaixo do sol. Algum resquício da idade da pedra, ou então são malucas. Sei que me senti bem. Me senti bem, um sujeito viril, e fiquei com medo de estar perdendo tempo, não pulando em cada cintura e dizendo que sim, que ia com ela. Com cada uma delas. Deusas abandonadas no inferno sem saber como pisar na lava quente, focas amestradas em batom encarnado e rímel, pernas curtas de cintura abaloada, pernas longas de joelhos tortos pros lados, pés, dedos, o do meio muito maior que o dedão, o dedão sem um pedaço da unha, pintado de rosa-bebê. Unhas grandes, unhas curtas, unhas sujas. Pêlos. Às vezes demais, de menos nunca é de menos. Alguns pés que te diziam me lambe enquanto passavam. Eu não usava perfume. Eu não me olhava no espelho. Eu limpava o nariz todos os dias para respirar melhor. Às vezes sem ir ao banheiro. As roupas? Eu as usava até virarem trapos. Nenhuma tinha a cor ou a textura que deveria ter. O que se passava, então? As mulheres estão sem homens. Todos se preocupam com o fim do mundo e com o próximo capítulo da novela e o próximo motivo pra beber até o chão e as mulheres já não sabem o que fazer. Então namoram com o espelho e com milhões de camadas de borracha na cara e em todo o corpo, mas isto não é capaz de segurá-las pelos cabelos e galopá-las pra valer, nem de protegê-las da chuva com a camisa, nem de dar-lhes colo ou um dedo pra chupar, muito menos de fazer coçar legal lá embaixo. Então inventam teorias, como todo mundo que não tem mais o que fazer.

Virei uma esquina e elas vinham vindo, de braços dados, duas meninas. Uma delas me encarou mordendo a boca — maldição! —, enquanto dizia à outra, como se eu não estivesse ali:

— AH! Ó, eu tava olhando pra esse cara e daí me lembrei que...

E as duas continuaram, de braços dados, rindo pavorosamente, provavelmente falando de algum desses babacas da televisão, ou melhor, se o sujeito se assemelhava a mim, provavelmente era algum babaca da televisão que já não aparecia na televisão há bastante tempo.

Quando parei no sinal, uma menina loira que vinha logo atrás, conversando com sua pasta, olhando pra baixo, uma daquelas que nunca viu um pau estourando com veias vermelhas e arroxeadas, parou e não me olhou. Falava com a pasta, talvez decorasse qualquer fórmula de álgebra. Ela tinha cara de álgebra, mas uma álgebra calculável. Claro, tinha uns óculos enormes e... Uma boca... Que boca! Fechada, os dentes poderiam ser menores, mas no mais era perfeita, com linhas espanholas, carne de sobra ali e nada pra mim. Fiz um teste, fui pra trás dela e fiquei bem ali, exatamente atrás, quase colado, pernas praticamente juntas, esperando o sinal abrir. Ela então olhou pra frente e ficou... Senti que empinou um pouco a bunda pra trás, como um rabo de gato no cio, que percebe a confusão e adora. Olhou então pro lado e ficou... A bundinha balançando, procurando sarna. Mas ela continuava agarrada na pasta e falando baixinho. Talvez fosse débil mental. Sem problemas. Se eu fosse um, me divertiria mais, eu acho. Poderia babar a vontade, meter a mão na bunda e cheirar depois, apontar as pessoas na rua, cuspir num afresco de igreja, e ninguém diria nada, a não ser “pobrezinho”. Tudo bem, eu passo com o “pobrezinho”. Todos te dizem isso o tempo todo, você sendo um débil mental ou não. Só que acham que o débil mental, além de débil metal, é surdo. E nada me preocuparia a não ser a hora de limpar a baba e fazer popô. Mas não tinha baba nenhuma ali, por enquanto.

O sinal abriu. Fui andando atrás dela e ela olhando pro lado. Eu parecia um daqueles babacas pintados de branco e com um nariz de palhaço que imitam os movimentos das pessoas nas ruas até serem assassinados por um psicopata de ovo virado. De repente ela parou, virou, me olhou e sorriu. Não suportei. Segurei seu braço e uma velhota me deu com o cabo do guarda-chuva na quina da testa. “Pera lá, vovó! Somos amigos!”. A vovó deu mais umas três bordoadas, então parou e olhou pra loirinha boca-aberta que não disse nada. Seu papo era com a pasta. Mas ela me olhou e sorriu novamente. E, pelo que eu saiba, eu não sou loiro, nem tenho olhos azuis, nem um metro e oitenta, nem passo creme no rosto antes de dormir e nem uso touca de tomar banho ou creme pós-barba. A velhinha tava esperando alguma reação da guria. Eu também. Finalmente, então, ela deixou escapar: “É... S...s...s... somos amigos”. A velhota se mandou, sem deixar de dizer o quanto eu parecia um marginal com meus modos e com a barba avançando pelo pescoço.

Daí a loirinha me olhou fixamente. Ela olhava como se não visse há muito tempo. Eu olhava como se qualquer tempo servisse pra nada. “Você bebe, além de conversar com a pasta?”, perguntei, procurando seus olhos que, súbito, baixaram novamente.

—eunãopossobeberporquetenhoqueestudarprumaprovaetambémnãoteconheçodireitoe... infelizmente... nãovaidar, foi o que ela respondeu.

— Vamos com calma, sim? — eu falei, empurrando o ar com as mãos. — Você tem que falar pra fora, assim, ó: VÁ-A-MERDA-E-NÃO-ME-ENCHA. Tem que articular a mordedura pra mandar babacas como eu irem pastar. Tudo bem? Vamos tentar de novo, então?

— T-u-d-o-b-e-m — ela disse.

— Ó-t-i-m-o! — eu disse.

Não perguntem por quê. Ela me deu a mão e continuamos andando. Eu me dava bem com os retraídos e adorava atazanar a vida dos saidinhos.

Ficamos um bom tempo de mãos dadas, sem falar. Andamos uns oito quarteirões. Nem eu nem ela parecíamos saber de nada. Ela parecia esperar alguma orientação. Este era o meu estado natural. De repente eu parei.

— Veja bem, eu sei que o dia está ótimo, mas temos que dar um rumo nesse passeio, não acha? Já que, pelo visto, você adora conversar, que tal uma bebidinha.

Ela continuou agarrada à pasta e aquiesceu. Fácil como isso. Sentamos e mandei descer uma.

— O que tem nessa pasta? Seu coração? — perguntei.

— não,sãounsestudossobrehomensquebatemnassuasmulheres... e... eporfavorsenhornãomemachuque...

— Êpa! Lembra do combinado? AR-TI-CU-LAR-A-MOR-DE-DU-RA. Abre bem o bocão e fala pra fora. Vamos lá.

— São-al-guns-es-tu-dos-que-es-tou-fa-zen-do.

— Estudos? Claro... E sobre o que são os seus estudos, posso perguntar isso?

— Car-ti-lha-fe-mi-nis-ta.

— O quê?! Cartilha feminista?! Garota, pelo amor de deus, você não se meteu nessa também, por favor, não diga isso. Você não pode... Seus olhos são muito bonitos... Por favor, não perca tempo com igualdades inventadas. Olha o que isso faz com você. Está se curvando... Se continuar assim, quando tiver sessenta anos vai estar cheirando a própria bunda. E você não quer cheirar a própria bunda, quer? Olha... Abraçada nessa pasta, falando sozinha, olhando pro chão...

— Te-nho-que-de-co-rar-a-car-ti-lha.

— Quem foi que te disse isso, hein?

— Do-na-Ma-til-da-a-di-re-to-ra-do-mo-vi-men-to.

— Movimento? Garota, vou te falar sério agora. Por favor, não fique chateada, mas o único movimento que a Dona Matilda conhece é aquele que entra-e-sai com o dedo no cu. Que movimento que nada! Olha só pra você. Essa camisa não é pra você. Abotoada desse jeito... Pra que isso? Acho que até em mim ficaria esquisita. Parece uma cartolina enrolada. E qual o problema entre homens e mulheres, no final? Quase nenhum. Pense bem. Não é nada pior do que com homens e homens, homens e elefantes brancos, homens e cobradores de impostos, homens e padres chupadores de pica. Os problemas são os mesmos de sempre. E eu não entendo as feministas...

— O-quê?

— As-fe-mi-nis-tas.

— ...

— Por que tanto dedo pro alto, tanta cobrança sobre abusos de poder? Elas contrariam uma natureza de poder estabelecida, cobram atitudes dos governistas, chamam os homens disso e daquilo, dizem que são uns porcos malditos, mas, no fim das contas, a maioria delas fica com a mesma cara dos homens. Com a cara de um general da SS. Querem apenas substituir merda por bosta. Dona Matilda, por exemplo. O que ela diria se te visse aqui comigo? Provavelmente te mandaria ir pra casa plantar verduras e pendurar broches em chapéus de feltro.

— elaélegal...

— O quê?! Olha o combinado...

— Do-na-Ma-til-da-e-la-é-le-gal-en-si-na-o-que-é-di-rei-to.

— Direito? Então você acha que é direito uma menina com uns olhos do tamanho dos teus, uma boca... Perdão, mas uma bela boca, cheia de carne e vida, ficar por aí conversando com uma pasta, decorando cartilhas de como reduzir os homens a cinzas, falando igual ao Robocop? Tudo isso porque a Dona Matilda disse que é direito? Escuta, precisamos dos homens e das mulheres da mesma forma, não temos escapatória. Por que você acha que algum dia se falou em mal-estar na civilização? Porque essa é a natureza das coisas. Olhar e ver apenas pernas se mexendo ao redor e correr atrás delas sem entender nada muito bem, mesmo que inventemos as mais incríveis teorias apenas pra aliviar a tensão. Se largar um pouco! Homens são crápulas e mulheres os ensinam a viver, pro bem ou pro mal. Isso é o que é... Cartilhas não vão te dar nada a não ser pastas de plástico pra conversar. Você acredita no que eu tô te falando?

— Do-na-Ma-til-da-fa-lou-pra-eu-já-mais-com-ver-sar-com-um-ho-mem-que-be-be.

— Hum... Dona Matilda falou isso também... E o que ela faz nos tempos livres, bombas de hidrogênio, bonecos de vodu?

— E-la-dis-se-que-são-a-pro-vei-ta-do-res.

— Nisso ela tem razão. Adoro me aproveitar, você não?

— ...

— Que foi, garota?

— queriasabersevocêvaimeestuprar.

— Quê? Vamos lá... Pra fora.

— Se-vo-cê-vai-me-es-tu-prar.

— Veja bem, garota, Dona Matilda tá te deixando tchu-tchu. Nem todos os caras que bebem estupram meninas com pastas. Mas vou te dizer, estupradores adoram meninas loirinhas com pastas, que não sabem falar direito. É disso que eles gostam. E isso eu aposto que a Dona Matilda não te falou. Olha, você tem um papel e uma caneta aí? Queria escrever um recado pra Dona Matilda. Você entregaria a ela por mim?

Ela me alcançou papel e caneta.

Prezada Dona Matilda,

Conheci a...

— Um minuto, garota. Ainda não sei o teu nome...

— Evelyn.

Prezada Dona Matilda,

Conheci a Evelyn, sua pupila. Gostaria de dizer que a menina é um encanto. Ter conversado com ela me encheu o dia de um azul sem tamanho, tremenda era a sua desenvoltura, seu arrojo, a garota sabia se impor e me explicou tin-tin por tin-tin do que se trata o movimento feminista moderno. Achava que iria me dizer que os homens isso ou aquilo, mas a menina não gosta de generalizações. Fiquei receoso no início, com medo de me atrapalhar, mas quando ela pegou na minha mão e a esfregou junto da sua com o mais sincero carinho, o mais altruísta sentimento de afeto que já experimentei, e me convidou para tomarmos um café, com dez minutos eu estava no céu. Rimos muito, Dona Matilda. E eu te garanto, se todas as feministas fossem como a Evelyn, se todas usassem seus cabelos de forma tão natural quanto ela, e se todas sustentassem um sorriso tão claro e com os olhos tão espremidos quanto os dela, não haveria por que existir machismos nem feminismos. Todos seriam apenas bichos do amor. Portanto, Dona Matilda, achei que seria certo comunicar à senhora que Evelyn e eu pretendemos nos casar algum dia. E que ela disse que cuidará da casa durante um mês, enquanto eu trabalharei no livro que pretendo terminar. E depois, quando o livro estivesse pronto e o dinheiro começasse a entrar, trocaríamos de posição; eu lavaria os pratos e assobiaria e cuidaria dos pássaros e da tartaruga que compraremos juntos e a qual daremos o nome de Demilus — já decidimos isso —, e ela cortaria a grama e traria o dinheiro da maneira que pudesse. Tudo dará certo, Dona Matilda, acredite nisso. E que a senhora fique certa de que deu forma, com suas pregações, à mulher da minha vida, para sempre...

Cordialmente,

Leonardo Marona.

Devolvi a caneta a Evelyn. Enfiei o papel dobrado no seu bolso da calça. Então peguei com as duas mãos nas suas bochechas e depois lhe tasquei um beijo na testa.

— Garota, me promete duas coisas? — perguntei.

— O-quê?

— Um: que você não vai ler este recado que eu coloquei no seu bolso até que Dona Matilda o tenha lido primeiro. Dois: que se alguma coisa, qualquer coisa mesmo, te acontecer com relação à Dona Matilda e “O Movimento”, e você tiver vontade de chorar ou se matar, em vez disso, você vai me ligar imediatamente para nos encontrarmos neste mesmo lugar e conversarmos. Aqui está meu telefone. Guarde. E então? Posso contar com a tua cumplicidade?

Estendi a mão à sua frente, para firmar o acordo, e ela começou a chorar levemente. Achei que fosse demorar mais do que isso. Depois o negócio todo acelerou e ela já segurava o rosto com as duas mãos, não deixando nenhum espaço para as lágrimas descerem. Soluçava e, ao mesmo tempo, sentia vergonha. Eu realmente não sabia o que fazer. Eu não estava soluçando, mas também sentia vergonha. Então segurei os seus braços, depois a sua cintura. Desabotoei três botões da sua camisa, soltei os seus cabelos, passei os dedos por debaixo dos seus olhos. Pude reparar pela primeira vez em como suas mãos eram finas e bonitas. Dei meu ombro e ela se juntou a mim como se eu fosse um velho cobertor da infância. Ficamos algum tempo como uma coisa só. Os soluços diminuíam e aumentavam. Ela era uma figura frágil tapeada por um mundo concreto e virulento. Eu também era, mas me fingia de durão, o que era difícil de sustentar por muito tempo. E me sentia bem por ter finalmente alguma coisa de verdade por perto, mesmo que fosse um desespero de verdade.

Falei. Sobre coisas que eu gostaria que fossem, mas não seriam nunca. Prometi a ela longos passeios por cafezais ensolarados. Pela manhã tomaríamos banhos de sol e leríamos nossos livros. Eu falaria mal do sentimentalismo suicida e das tediosas descrições naturalistas da Virginia Woolf e ela me lembraria que, sem a bebida, nenhum dos meus escritores preferidos teria escrito coisa alguma. Pela tarde jogaríamos água um na cara do outro, eu a colocaria na garupa e cairíamos esgotados sobre a grama, sob a sombra de uma pitangueira; e ela adoraria chupar as pitangas do pé enquanto eu daria cambalhotas toscas dizendo serem muito boas cambalhotas. Riríamos um bocado. E pela noite daríamos beijinhos curtos de todos os tipos e ela ficaria impressionada com o fato de que é simplesmente impossível olhar para os dois olhos ao mesmo tempo. Mas mesmo assim ficaríamos algumas horas tentando e por fim nos contentaríamos com um olho só. Depois faríamos uma guerra de travesseiros. Eu bateria pra valer e riríamos até chorar ou até que algum travesseiro estourasse. Eu leria para ela dormir nas primeiras três linhas e então, mesmo depois que estivesse com os olhos fechados e a respiração compassada, continuaria no seu ouvido sussurrando carinhos até que eu mesmo adormecesse.

Disse a ela que nada ficaria bem jamais, mas que seríamos um o escudo do outro. Ela chorava, ainda com as mãos na cara, mas agora sorria com seus dentes que poderiam ser um pouco menores, mas e daí. Por fim, me falou sobre como a vida era um gigantesco alçapão, andar por aí para ter os pés arrancados subitamente, como nos apoiávamos em galhos podres e como doía a queda. Ela não agüentava mais chorar sozinha debaixo do chuveiro. Eu já nem chorava mais. Mas quando Evelyn me abraçou e pediu, baixinho, à sua moda, que eu cuidasse dela, despejei uma lágrima quase seca no seu ombro e me senti um homem completo por um minuto completo.


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quarta-feira, 14 de julho de 2010

NÃO HÁ LUGAR >> Carla Dias >>


Novamente em suspenso...

Então que, quando me pego desse jeito, dou de fazer bobagens, coisinhas como aguar delícias interiores: ler poemas inventados no momento, beber café com a xícara quase transbordando, e às vezes até queimar a língua nesse feito, passando o dia como se a palavra tivesse sido arrancada de mim e por isso doesse tanto.

Quer passar ou transpassar?

Habitar?

Despertencer?

Agora quase eu dei de cara com o silêncio de uma pessoa que acabou de receber a notícia: não há lugar para você em mim. Fui testemunha desse desacato emocional, mas sem querer, por estar sentada ao lado, ser vizinha de tempo e de espaço.

Baixo a cabeça, respeitosamente. Quando não há lugar para nós naquele que amamos, a vida amarga uma solidão sem fim, das que nos faz perder rumo, cabeça, hora de chegar em casa, de sair da cama.

Ela ainda não sabe dos privilégios dos que não têm espaço em outro. Eles vergam mais facilmente para aguentar tempestades sem serem partidos ao meio. Esperam menos e ganham mais do que o esperado, às vezes. Então sorriem e seus sorrisos são sinceros.

Saio para um passeio psicodélico: olhar retro, passo ao ritmo do que toca no mp3 player, refrigerante nada zero, gole a gole a gole eu o zero. Não mata a sede, nem tampouco a define.

Não há como eu ser como você deseja me construir.

Não há como eu ser como desejo construir a mim.

Acabo sendo quem posso, na hora possível. Descabendo nas alianças afetivas, nos propósitos da intolerância, na benquerença arquitetada, nos padrões e no gosto de certos patrões. Não há lugar para mim em você, porque tudo em mim difere, se contorce, resmunga, exige mais versões. Às vezes emburra, se esbalda em assimetria, conta histórias para boi dormir, sente-se grata pelo falsificado: bolsa e desejo. Pinta as unhas de alienação e interpreta uma canção do Led Zeppelin, versão technotrance, mesmo preferindo a original, a escolhida para aquele dia.

Sabe qual?

Às vezes me dispo de mim, torno-me irreconhecível até para os que realmente me conhecem, para mim mesma. Essa estranha caminha ao meu lado, segurando meu braço, desprotegendo-me da boa sorte. Olha-me nos olhos, narizes se tocando, que é para que eu saiba que ela pertence a quem sou. Não somos uma e outra, mas a mistura de ambas. A terceira versão.

O mesmo acontece com você, não? Seu avesso o visita vez e outra, lembrando-lhe que haverá dias em que caberá em alguém, e outros em que alguém jamais caberá em você. Haverá dias em que escutará alguém lhe dizendo “não há lugar em mim para você” e aquele em que você dirá “entre, fique à vontade”.

Tivesse dito à moça a verdade que alimento, essa filha com a rebeldia dos temporais, quem sabe ela não tivesse entrado por aquela porta, a que dá na sensação de vazio intraduzível, de que jamais pertencerá a lugar algum, à pessoa nenhuma.

Se eu tivesse apenas sussurrado em seu ouvido, no momento em que as palavras do outro a alcançaram... Tivesse cantarolado... “These are the seasons of emotion and like the winds they rise and fall”.






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terça-feira, 13 de julho de 2010

DIARIAMENTE >> Clara Braga

Essas últimas duas semanas, eu tive o prazer de poder conferir mais de perto o trabalho de três artistas que eu já admirava muito, e agora admiro ainda mais.

O primeiro deles foi o Vander Lee. Ele é um cantor e compositor mineiro, desses que muita gente já regravou, suas músicas ficaram conhecidas em outras vozes e ele mesmo ficou meio esquecido. Mas eu devo dizer, ele é um dos melhores compositores que eu conheço. E que banda ele arrumou para acompanhá-lo!

A segunda foi a escritora Martha Medeiros. Ela veio à Brasília participar de um projeto que pretende trazer o escritor mais para perto de seu público, algo que eu considero muito importante tanto para o autor quanto para o leitor. Após a palestra, a atriz Cássia Kiss fez a leitura de algumas crônicas publicadas no último livro de dezoito já publicados, foi emocionante.

Por último, foi o percussionista Naná Vasconcelos. Ele faz a reprodução de sons que descobre em suas pesquisas pelo mundo, é de deixar qualquer um boquiaberto, é simplesmente fantástico. Sem contar que ele veio acompanhado de um outro músico que eu ainda não conhecia, mas que já virei fã, chama-se Lui Coimbra.

Bom, mas muito mais do que vender o peixe de quem nem precisa que eu faça isso, eu queria dizer que, apesar de diferentes, essas três pessoas me chamaram a atenção por uma característica em comum que é a humildade! Muito antes de serem cantores, compositores, escritores, percussionistas, eles são pessoas que vão à padaria, vão ao cinema, acordam cedo na segunda, levam crianças à escola, ficam de mau humor e tudo mais, exatamente assim como eu, você e qualquer outra pessoa. A diferença está apenas no fato de que eles amam tanto fazer algo e fazem tão bem que são reconhecidos por outras pessoas além de seus amigos, mães e avós.

A realidade que vivemos hoje em dia é tão cheia de informação, somos bombardeados diariamente, é uma realidade onde o glamour, a fama e a beleza a qualquer custo são tão cultuados que acabamos esquecendo o quão belo é simplesmente ser simples. E foram esses artistas da vida diária que me fizeram lembrar disso.

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segunda-feira, 12 de julho de 2010

SANTO DE CASA >> Albir José Inácio da Silva

Nem bem soou o apito final e Jorge estava no bar com suas certezas e premonições. Jactava-se de não perder nem mesmo para Paul, o polvo sensitivo. Antecipava resultados impensáveis até para os grandes comentaristas. No jogo do Brasil, por exemplo, “vocês acham que aquele um a zero me enganou? Desde o início eu sabia que a Holanda ia ganhar!”. Estava realmente convencido de seus poderes divinatórios.

Os amigos mostravam paciência com aquela arrogância. Agora ele predizia mais que futebol. Adivinhava divórcios no dia mesmo dos casamentos, previa empregos para quem não os queria e demissões para trabalhadores estáveis. Confirmou até uma infidelidade que já se sabia, mas ninguém tinha coragem de falar, e, fora o marido, ninguém se indignou. Mas por que tanta indulgência com o falador?

A história começou há alguns meses. Vivendo com Celina fazia já três anos, tudo o que Jorge queria era um herdeiro. Mas não tinha simpatia, novena, despacho ou corrente de oração que fizesse crescer a barriga da mulher. Jorge foi compreensivo. Entendia o problema dela, e hoje em dia tudo tinha jeito. Que ela fosse procurar o médico, ele pagava exames, tratamentos, cirurgias, o que fosse preciso. Não precisava ficar triste. Muitas mulheres tinham essa dificuldade, mas felizmente hoje a medicina fazia milagres.

Celina foi ao médico, aos laboratórios, aos psicólogos e nada. Não tinha problema nenhum.

- Que o seu marido venha me procurar – disse o médico.

Para Jorge ela disse apenas que os exames foram normais, que não havia nada de errado com ela. Não queria magoá-lo.

– Um homem tão bom – disse Celina à vizinha, sem saber o que fazer.

Uma vizinha contou a outra e a história chegou ao bar, trazendo solidariedade e paciência. Paciência para ouvir a voz roufenha, que anunciava o futuro com uma certeza irritante e, às vezes, inconveniente. Pode ser que guardassem boas gargalhadas para depois, mas eram piedosos naquele momento.

Como agora, que ele acabava de anunciar que seria pai de gêmeos.

- Mas já fez exame, Jorge?

- E precisa? Esqueceu das minhas previsões? Tão certo como a Espanha ia ganhar esse jogo. Eu não erro. Além disso a mulher andou me dando umas dicas. Mesmo sem querer estragar a surpresa, acabou me confirmando. Pediu pra limpar um quarto que estava cheio de bagulho. Disse que, se chegasse alguém, não teria onde dormir. Encostei tudo num canto e abri espaço pra cama. Mas ela, disfarçando, perguntou: “e se fossem duas pessoas?”. Chegasse alguém, duas pessoas, entenderam? Eu que já sabia, tive certeza que eram gêmeos. Aposto que a próxima coisa que vai pedir é pra comprar os berços. Alguém aqui já me viu errar alguma previsão?

Jorge ouviu as felicitações com humildade. Ia, sim, ser pai de gêmeos e tinha, sim, poderes de saber o futuro. Mas isso acontecia às pessoas boas. Era coisa de merecimento. Ia para casa, agora, que sua patroa precisava de cuidados.

Da esquina enxergou a Kombi parada e o cunhado que desceu carregado de malas e trouxas. A sogra surgiu sob sua forma predileta - um grito que fechou a boca de espanto do adivinho:

- Jorge, pega meu colchão na Kombi que eu só consigo dormir com ele.

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