quarta-feira, 30 de junho de 2010

A MÚSICA DELAS >> Carla Dias >>

Ah, que o universo da música continua a me incitar pensamentos. Definitivamente, sem a música meus escritos seriam monocromáticos.

Agora, por exemplo, estou ouvindo Orchestre Del Tango de Fleurs Noires, um grupo formado por argentinas e francesas, dez mulheres que são ótimas instrumentistas, com um repertório com canções de jovens compositores, como Eduardo Acuna, Víctor Parma e Gerardo Jerez Le Cam, compostas especialmente para o trabalho delas. O tango, que sempre foi conduzido por homens falando sobre as mulheres, agora conta com um belíssimo e forte trabalho de mulheres falando sobre elas mesmas, e todo sentimento que envolve o universo feminino, através de canções com arranjos belíssimos e dramáticos, que tão bem cabem no tango.

FLEURS NOIRES

http://www.myspace.com/fleursnoires

A Fleurs Noires é composta por Andrea Marsili (Piano), Veronique Rioux (bandoneon solo), Carolina Poenitz (bandoneon), Eve Cupial (bandoneon), Anne LePape (violino solo), Andrea Pujado (violino), Solenne Bort (violino), Caroline Pearsall (violino), Veronica Votti (cello), Anne Vauchelet (baixo acústico). Como convidados, participam as cantoras Debora Russ e Sandra Rumolino, e o percussionista Joel Grare.


Outras mulheres vêm fazendo belos trabalhos no cenário musical, e muitas delas são brasileiras, como Eliana Printes, que considero uma intérprete de primeira, com bom gosto ao compor e ao escolher compositores para o seu repertório.


ELIANA PRINTES

http://www.myspace.com/elianaprintescantora


Outra intérprete talentosa e que merece a atenção dos interessados em boa música é Ceumar, a mineira que, desde o ano passado, mora em Amsterdam, na Holanda. Já escrevi sobre ela aqui e inclui na minha crônica o vídeo de uma canção que eu adoro, Oração do Anjo. E tenho de pedir aos interessados que dêem uma olhada na página da moça, no Myspace e ouça a versão dessa canção com um trio de jazz. Linda que só! Mas para não ficar só na conversa...

CEUMAR

http://www.myspace.com/ceumar



Achegando-nos ao Amapá, encontraremos essa peculiar intérprete, que representa tão bem sua região, incluindo em seu repertório grandes nomes da música amapaense. Seu novo disco “Eu sou caboca” é uma delícia de se ouvir. Patrícia nos leva a uma viagem musical em nuances, o ritmo envolvente, a sua voz abarcando nossos sentidos.


PATRÍCIA BASTOS

http://www.myspace.com/patriciabastos


Saindo do Brasil, novamente, tenho escutado uma instrumentista interessantíssima. Dominika Maria Bonk saiu da Alemanha e hoje vive na Itália. Estudou a música Renascentista e entre os instrumentos que toca está a vielle medieval, que me soa bela e inquietante. Para os que se permitirem explorar o universo musical, na página do Myspace de Dominika há a Sound of Vielle 2, e abaixo segue um vídeo dela acompanhando Aronne Dell’Oro (voz e violão).


DOMINIKA MARIA BONK

http://www.myspace.com/dominikamalia


Para fechar, Markéta Irglová, que participou do filme Once - Apenas Uma Vez, com Glen Hansard, da banda irlandesa The Frames. Markéta nasceu em Valasské Mezirící, República Tcheca, e hoje vive na Irlanda. Toca piano e violão e também é compositora e cantora.


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terça-feira, 29 de junho de 2010

FALTA DE GENTILEZA NÃO, FALTA DE NOÇÃO!
>> Clara Braga

Outro dia fui a uma festa com uma amiga da faculdade e outros amigos dela. Como eu não conhecia os amigos, fiquei mais na minha, não falei muito de início. Mas eles eram muito legais, tão gentis que eu fiquei até impressionada, me trataram muito bem e me fizeram ficar bem à vontade, em pouco tempo eu já conversava como se eles fossem meus amigos de infância. Quando estávamos indo embora, depois deles terem agradecido a minha companhia (ninguém nunca agradeceu minha companhia antes), eu comentei com minha amiga que eles eram diferente de todas as últimas pessoas que eu havia conhecido, eram muito legais, e foi aí que minha amiga me disse algo que me fez ficar pensando por um bom tempo. Ela disse que todos os amigos dela eram assim, e que ela achava que na verdade eu é que conhecia as pessoas erradas e acabei me acostumando com a falta de gentileza! Nossa, essa foi forte, acostumar com a falta de gentileza, como seria possível?

Fiquei com isso na cabeça, mas não demorou muito pra eu perceber que ela tinha razão, e ao mesmo tempo entender o porquê de eu ser acostumada com pessoas um pouco grossas.

Esse final de semana foi aniversário da minha madrinha, e os meus tios do Rio de Janeiro decidiram vir a Brasília para comemorar o aniversário dela aqui. Fazia uns bons anos que eu não os via, sempre nos desencontrávamos, quando vieram pra cá eu não estava e assim por diante. Como é de se esperar, as pessoas mudam, e se você fica muito tempo sem as ver é normal que se assuste com a mudança ou pelo menos que esteja preparado para encontrar a pessoa um pouco diferente.

Cheguei no aniversário e lá estavam eles, cumprimentei e depois fui dar os parabéns para minha madrinha. Quando voltei para a mesa e me sentei, meu tio fez o seguinte comentário para a minha tia: "Pouco não, muito!" Para mim era um comentário totalmente sem contexto, e infelizmente minha curiosidade não me permitiu ficar calada, acabei perguntando pra minha tia o que aquele comentário queria dizer. Foi ai que eu percebi que a falta de gentileza está na minha própria família e que não entender as coisas às vezes é melhor para nossa própria auto-estima! Meu tio tinha comentado que eu estava muito mudada, então minha tia disse que era normal, eu tinha crescido, pintado o cabelo e engordado um pouco. Então ele disse: "Pouco não, muito!"

Qualquer pessoa sabe que é extremamente deselegante dizer a uma mulher que ela está um pouco gorda, agora dizer para a sua própria sobrinha que ela está muito gorda é o cúmulo da falta de noção! Infelizmente, minha mãe me deu educação, educação essa que não me permitiu mandá-lo bem para aquele lugar nesse momento, mas vontade não me faltou!

Agora se esse tipo de comentário vem da sua própria família, como esperar que o resto do mundo seja gentil? Fica difícil...

Pra terminar eu só queria dizer que esse meu tio envelheceu pra caramba, tá a cara do meu falecido bisavô! E se isso soar como uma certa forma de vingança, não estranhem, é mesmo!

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segunda-feira, 28 de junho de 2010

SOBRE DUAS RODAS II
>> Albir José Inácio da Silva

[Sobre duas Rodas, parte I]

O pedal bateu duas vezes na minha canela enquanto eu empurrava o problema pela calçada. Não senti dor. Não sentia nada. Não raciocinava. Só precisava andar de bicicleta. Era a encruzilhada da minha vida.

Passei o pé por cima do quadro e sentei no selim. A perna de apoio tremeu e pensei cair de lado. Respirei várias vezes, mas faltava ar. Ninguém por perto, conferi. Disposto a cair, impulsionei o corpo pra frente. Só deu tempo de apoiar o outro pé. Mais uma tentativa e desta vez coloquei os dois pés nos pedais. Duas voltas e de novo o pé no chão. Botar o pé no chão me impedia de cair. Isso quase me emocionou. Repeti as duas voltas no pedal por quatro ou cinco vezes, mas ainda estava insolúvel a questão de permanecer em equilíbrio.

Foi quando percebi que não estava sozinho. O garoto sentado no meio-fio falou comigo. Pele e roupa cobertas de poeira, ele tinha a cor da calçada, por isso não o tinha visto.

- Quando cair pra cá, vira o guidão pra cá. Se cair pra lá, vira o guidão pra lá.

Mais um impulso, duas voltas no pedal e, em vez de apoiar o pé direito no chão, viro o guidão pra direita. A bicicleta se inclina pra esquerda e repito a operação pro outro lado. Ando alguns metros em ziguezague, até que o curso se estabiliza. No final da alameda, ponho os dois pés no chão e respiro fundo com o coração aos pulos. Então é isso?!

Fiz a volta, montei de novo e pedalei até onde estava o menino. Ele apenas balançou a cabeça como se dissesse: “Viu como é fácil?”. Repeti o trajeto algumas vezes e, quando parei, já sabia andar de bicicleta. Soube que o garoto morava por ali e aproveitava umas voltinhas quando os fregueses não completavam o tempo. Paguei mais uma hora pra ele e fui embora.

Houve outras importantes conquistas na minha vida: vestibular, empregos, graduações, pós-graduações e coisas que comemorei na época e de que já nem me lembro. Mas nada se compara a andar de bicicleta. Tive muitos e grandes mestres pela vida a fora, mas suspeito que não teria chegado até eles se não fosse aquele garoto empoeirado.

Suspeito também, embora não tenha me debruçado ainda sobre o assunto, que em “virar-se para o lado em que se está caindo” há mais coisas do que sonha minha vã filosofia.

Mas duas rodas são favas contadas. Preciso agora encontrar um menino que me ajude com o monociclo. E com a asa-delta.

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domingo, 27 de junho de 2010

VUVUPENISVAGINAZELA
>> Eduardo Loureiro Jr.

"Silêncio, por favor,
enquanto esqueço um pouco a dor do peito...
Hoje eu quero apenas uma pausa de mil compassos...
Quem sabe de tudo, não fale.
Quem não sabe nada, se cale."
(Paulinho da Viola)

É muita vuvuzela para meus ouvidos bossa-nova.

E não estou — ainda — falando das cornetas sul-africanas. Falo mesmo da fala, do falatório, da verborréia, do disse-me-disse, da conversa, da eloquência, da língua, do blablablá...

Um homem fala, em média, 2.000 palavras por dia. A mulher, 7.000. Isso por baixo, porque há outras pesquisas que apontam placares ainda mais dilatados a favor — ou contra — as mulheres. Esses números só me levam à conclusão de que eu não sou nem homem nem mulher, porque se falo mais de 1.000 palavras por dia, já sinto a boca seca e os lábios rachados do esforço. E me dou por feliz se passo um dia inteiro em completo silêncio, sem pronunciar nem "bom dia", nem "por favor", nem "saúde", nem "obrigado".

Mas a verdade é que as mulheres falam mais, bem mais, do que os homens, e não é preciso fazer pesquisa para constatar tamanha obviedade. Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça. Eu já não tenho mais ouvidos para isso.

A culpa de tudo, claro, é de Deus. Ao criar os seres humanos, ele deu o falo apenas aos homens e compensou a falta nas mulheres com a fala. Embora eu não duvide que Deus, se perguntado sobre o assunto, vá dizer que ele apenas atendeu a uma reclamação das mulheres — ou seja, elas já falavam demais antes mesmo dele lhes conceder esse "privilégio". É a velha história de quem nasceu primeiro, a fala ou a reclamação.

Então me aparecem as vuvuzelas africanas, que me irritavam no início — não me irritam mais. Descobri que as vuvuzelas são apenas a expressão material da distorção sonora que infesta a humanidade. A vuvuzela é falo e fala. Se existe a lenda de que o falo dos africanos é maior do que o das outras raças, é de se imaginar — com terror, evidentemente — quão maior é a fala das africanas. E, antes que me acusem de racismo, digo que isso foi só um bobo exercício de lógica: não acredito na supremacia fálica — de falo e de fala — de africanos e africanas. Esse exagero acústico se apresenta em todas as cores, roupas e tipos de cabelo.

As vuvuzelas que eu criticava — pobres coitadas, compridas e barulhentas — não são nada comparadas às vuvupenisvaginazelas que escuto desde criança. Como falam as pessoas! ("Falam demais por não ter nada a dizer", disse o não menos verborrágico Renato Russo.) Já são 39 anos, quase 40, aguentando esse zumbido ensurdecedor todo santo dia.

Hoje compramos água, dizem que um dia teremos que comprar ar. Eu estou mais preocupado com o dia em que teremos que comprar silêncio, porque justamente esses dias, mesmo eu estando com meu extrato bancário mais para boi garantido do que para boi caprichoso, mais para encarnado do que para azul, eu teria feito um empréstimo de bom grado, mesmo a juros altos, para comprar um pouco de silêncio se eu tivesse encontrado o produto à disposição. Mas está em falta. Então cá estou com meus ouvidos latejando do tanto que se fala.

Eu lhes juro que neste momento, e pelos próximos quinze dias, a única coisa que eu ouviria de bom grado seria "Para ver as meninas", do Paulinho da Viola, na voz do Jards Macalé.



Estou com um desejo de mulher grávida por uma praia deserta. E não precisa nem ser praia, se for deserto, mas deserto mesmo, desertinho da silva, já considero meu pedido atendido. Enquanto isso, façam-me um favor: soprem uma vuvuzela quantas vezes quiserem no meu ouvido, mas nem pensem em acionar as suas vuvupenisvaginazelas. As vuvuzelas de plástico são mais sinceras que as de carne em sua intenção de incomodar. E nesses dias está valendo mais um inimigo declarado do que falsos amigos.

Silêncio, por favor.




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sábado, 26 de junho de 2010

ABRAÇAR [Maria Rita Lemos]

A senhora, sentada à minha frente, estava visivelmente tensa.

Era uma pessoa de meia-idade, com problemas muito sérios de relacionamento, envolvendo o marido, filhos e filhas. Aliás, esses eram as primeiras vítimas de seu problema, que poderia até ser diagnosticado como distimia (uma espécie de mau humor crônico), mas não eram as únicas pessoas que sofriam com os distúrbios dessa senhora, que chamarei de dona Maria. Sendo professora, como era, dá para perceber que os pequenos (ela dá aulas no primeiro grau) também recebiam os respingos de sua forma de ser e atuar no mundo.

O sol da manhã batia em meu rosto, portanto levantei-me para cerrar um pouco a persiana. Fazendo esse movimento, toquei em seu ombro, sem querer, e a reação foi muito forte: ela emitiu um movimento, involuntário mas visível, um gesto brusco de sobressalto e até de certa repulsa, pelo simples fato de minha mão ter tocado em seu ombro, por fração de segundos.

Percebi – e apontei isso a ela – que dona Maria não gostava de ser tocada. Quase chorando, ela confirmou, e disse que era essa uma das dificuldades que tinha em amar e receber amor, ao menos fisicamente falando. Não importava o sexo de quem a tocasse, ou a cumprimentasse com um beijo ou abraço, dona Maria sentia repulsa e repelia manifestações físicas de afeto.

Nossa capacidade de dar e receber carinho está diretamente relacionada aos modelos afetivos que tivemos na infância. Aprendemos a abraçar quando somos abraçados, aprendemos a repelir abraços quando somos repelidos. O medo de tocar alguém está em linha direta com as vivências afetivas e/ou sexuais indesejáveis, mesmo que inconscientes. Para essas pessoas, com o perfil de dona Maria, que na infância tinha também severos traumas sexuais, qualquer contato físico pode ter conotação erótica. Em nossa sociedade, infelizmente, os toques que são dados nas crianças consistem, muitas vezes, em puxar, empurrar, conduzir ou, muito pior, bater.

Entre adultos, mesmo que sejam amigos, os toques físicos são também pesados e medidos: apertos de mão duram poucos segundos, beijos não envolvem pele e boca, muito menos olhares: limitam-se a muxoxos simultâneos no roçar de bochechas, quando mais rapidamente melhor. Os homens, quanto muito emocionados (em enterros, casamentos e aniversários), capricham em “espancar as costas”... quanto mais tapas, e mais ruidosos, acreditam que estão expressando mais ainda seus sentimentos. Pobre ser humano, quanta coisa para mudar, ainda, quantos grilhões ainda nos retêm prisioneiros!

Quando alguém “ousa” chegar mais perto, abraçar mais longa ou apertadamente, ou solta a alma na carícia das mãos, no mínimo será tachado como excêntrico, para não usar outros adjetivos. Até mesmo a sexualidade, infelizmente, vem sendo apartada do afeto e dos vínculos. Sem amor, sem laços, o sexo fica sem graça, insosso, sem brilho. Vazio.

Em reciclagens que fazemos periodicamente em análise transacional e terapias corporais, temos que vivenciar diversos exercícios de toques, massagens, dar e receber afeto, sem qualquer conotação erótica (inclusive os pares ou casais são separados para essas atividades). Estamos tão presos aos nossos (pré)conceitos que mesmo psicólogos mais experimentados a princípio sentem-se tímidos e constrangidos, e reagimos retesando o corpo ou rindo, quando o exercício consta em tocar lentamente o rosto de um(a) colega, dar ou receber seu “colinho” como se fôssemos bebês outra vez, ou simplesmente olhar para o outro, profundamente, tentando enxergar a alma. Tudo é feito lentamente, sem pressa, com a intenção de experimentar o prazer do calor humano, quebrar barreiras e aprender a dar e receber mais naturalmente. Só treinando percebemos o quanto somos rígidos, o quando nossa cultura nos endureceu, por fora e por dentro, o quanto aprisionamos o que temos de melhor para dar.

Fazer contato físico com as pessoas é, talvez, a mais rica e eloquente das comunicações humanas. No entanto, somos todos subnutridos dessa forma maior de doar-nos. Quer um exemplo, aqui e agora? Pare essa leitura e abrace, agora mesmo, onde estiver, a primeira pessoa que encontrar, dizendo apenas que ela é importante, insusbstituível. Se estiver perto de alguém amado(a), não esqueça de dizer desse amor. Poderá ser chamado de louco ou olhado como se fosse, mas aos poucos sentirá que vale a pena começar a mudar essa história.

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sexta-feira, 25 de junho de 2010

DELICATO MA NON TROPPO
>> Leonardo Marona

dedico este poema à seleção de futebol da Itália


não sei se é o vento fresco do início do inverno,
misturado ao calor aconchegante de um domingo
pela manhã, sem ressaca alguma, a não ser aquele
contumaz estremecimento estranho por todo o corpo,
que às vezes me leva a falar sozinho noutra língua
e além de tudo, é claro, muita saudade mas não
exatamente de alguém, saudade de uma sensação,
como se eu fosse um homem das cavernas e sentisse
como um homem das cavernas, a ponto de bater
a cabeça nas rochas, mas agora, talvez, por causa
de um monte de coisas juntas ou talvez apenas seja
porque no rádio, sempre nas manhãs de domingo,
existe um programa com as músicas que lembram
nossos pais e avós e todas as namoradas do mundo
e as coisas incontidas do coração, mas agora não há
estrada imediata, há apenas uma longa curva, mas
pelo menos as crianças gostam de mim e sorriem
com minha bela cara de idiota assustado, menos, é claro,
o filho do vizinho e isso eu nunca entenderei por quê,
mas acho que talvez seja porque ele será muito rico
e já me olha com desconfiança, como quem poderá
um dia roubá-lo e é bom mesmo ele ficar de olho aberto
desde agora, mas a mim me importa apenas acordar
nesse domingo de vento veloz e fresco e com muito sol,
e eu acordo e engulo um cigarro no outro e me dói
a garganta e sei que perderei minha voz assim e gosto
do perigo e fico com medo de perder a voz e apago
o cigarro no meio porque preciso da voz para quando
estiver feliz poder cantar no banho e ter coisas bonitas
e feias para dizer a pessoas conhecidas ou estranhas,
e penso que terei em breve uma irmã que se chamará
Marina e Marina Marona será o nome de uma nova
Anita Garibaldi e eu acho que Dorival Caymmi
ficaria feliz com esse nome e faria uma bela canção
cheia de trocadilhos para ela, mas ali está meu pai
porque o rádio toca a “Primeira canção da estrada”
do Zé Rodrix e eu sei, pai, que você tinha apenas 17 anos
e agora temos talvez menos anos ainda porque a vida
explode por dentro e por fora e já não temos todo
esse controle pretensamente humano e, de fato, nunca
amei a ponto de fumar um maço de cigarros apenas
ouvindo música e lendo e além do mais acho que deve
haver mesmo alguma coisa muito errada comigo
para eu ter virado assim um sujeito que escuta
Peninha e Erasmo Carlos e se emociona muito,
com os pêlos do corpo eriçados e se mantém assim,
dançando sozinho no meio da sala de um teatro
sem espectador e é claro que me sentir assim é algo
inevitável quando decidi ao acordar que se deve
apesar de tudo continuar a viver, mas tudo no fundo
se resume à vontade ancestral de te foder outra vez.


www.omarona.blogspot.com

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quinta-feira, 24 de junho de 2010

FIM DO RECREIO >> Fernanda Pinho


Eu estava na quarta série e estudava num colégio de freiras. Eu adorava estudar naquela escola, tanto que fui muito feliz ali durante onze anos. Era a escola perfeita, não fosse por um detalhe: a supervisora. Ela não era freira, mas era temida. E parecia gostar disso. Prezava pelos, ditos, bons costumes, muito mais que as próprias freiras que, raramente, incomodavam aos alunos com alguma advertência esdrúxula.

Já a supervisora, certou dia, adentrou minha sala da quarta série e, sem mais nem menos, nos aplicou uma penalidade: uma semana sem recreio! Susto, murmúrios, burburinhos e vontade de chorar (não era pra menos: quando você está na quarta série a pior coisa que pode acontecer na sua vida é ficar sem recreio). Até algum aluno, mais valente, ter coragem de exteriorizar a aflição de todos, embora a voz quase não tenha saído: "Mas por quê?".

A penalidade não parecia fazer sentido algum e o motivo menos ainda: "Para que vocês aprendam a se respeitar e nunca mais fiquem em posição de acasalamento de animais, no meio da quadra". Sim, gente, ela falou exatamente assim. Ainda sou capaz de ouvir sua voz emitindo cada uma dessas palavras que, para nós, soou como uma frase dita num idioma estrangeiro. Ninguém entendeu nada. Quando a insensível supervisora se retirou da sala, a professora, que parecia estar a par do assunto, tratou de esclarecer.

Aquilo a que ela chamava de "posição de acasalamento de animais" era o que nós chamávamos de "estrear toco novo", uma brincadeira mais conhecida em outros lugares do Brasil como "pular carniça". Aparentemente, ficar agachados, e em fila, era errado, sujo e feio. Proibido, enfim. Eu e meus amigos só não entendíamos o que poderia haver de errado naquilo. Embora os fatos tenham sido parcialmente esclarecidos, uma dúvida cruel ainda martelava em nossas cabecinhas: "Afinal, o que é acasalamento?".

Ninguém sabia e ninguém queria perguntar para um adulto. Se eu perdi uma semana de recreio por ficar em posição de acasalamento, certamente não deveria ser algo que minha mãe gostaria de saber. Fiquei remoendo a questão até que, num santo dia, assisti a um episódio de Família Dinossauro que falava sobre a dança do acasalamento entre os seres jurássicos. Pronto! Que alívio! Tudo estava esclarecido: acasalamento era uma dança de dinossauros!

Levei a novidade para minhas amigas mas, peraí, qual é o problema de fazer dança de dinossauros no recreio? Droga! A dúvida não apenas ainda estava lá como estava se tornando um monstrinho cada vez maior.

A semana passou, voltamos a ter recreio e coloquei o monstrinho para dormir. Com a suspensão da nossa brincadeira preferida, arrumamos outra que tinha o simpático nome de "açougue". Formávamos um túnel humano e, um de cada vez, deveria passar pelo túnel correndo, levando socos e pontapés dos colegas. O irônico é que brincar de "açougue" podia. Mas "estrear toco novo", de jeito nenhum.

Só alguns anos depois, quando eu já estava no ginásio, é que minha ficha do acasalamento, finalmente, caiu. Não fiquei feliz nem aliviada com o esclarecimento da dúvida de tanto tempo. Pelo contrário, fiquei triste e angustiada. Era como se eu estivesse rompendo, definitivamente, com aquela fase em que ficar de quatro no meio da quadra significava apenas ficar de quatro no meio da quadra.

No dia em que eu descobri o que era acasalamento, eu passei a fazer parte de um mundo onde existia medo, vergonha, maldade, imoralidade e indecência. A dúvida, aquele monstrinho, foi embora e levou junto a minha criança.


www.blogdaferdi.blogspot.com

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quarta-feira, 23 de junho de 2010

LIVRO OU FILME? >> Carla Dias >>


A sua vida daria um livro? Um filme?

Um livro eu sei que a de muitas pessoas que eu conheço daria. Isso porque elas fazem questão de me dizer que a vida delas daria um livro, que eu deveria escrever sobre os revezes das suas biografias. A maioria delas fala isso de verdade, querendo mesmo que eu as entreviste e escreva um livro sobre elas, porque acreditam que são sobreviventes.

Algumas delas realmente o são. Outras ainda não sabem o que é viver uma experiência valiosa.

Eu gosto de ouvir as histórias que essas pessoas têm para contar, e acho que muitas delas dariam sim ótimos romances. Porém confesso que gosto da ideia de, se um dia decidir biografar alguém, que seja uma pessoa pela qual, antes de tudo, eu tenha me apaixonado pela história de vida. Que ouvi-la seja também uma experiência de descoberta para mim. E que assim eu possa misturar a prosa da vida dela com a poesia que ela me inspira.

Como eu já disse, eu realmente sou uma boa ouvinte, mas acho que é por invejar um pouco aqueles que vão contando tudo, despudorados que só, querendo mais que as suas palavras sejam publicadas em folhetins. É que, quando se trata do mais profundo do que sinto, da realidade das minhas escolhas, do fundamento das batalhas pessoais que travo, não consigo verbalizar. E quando tento fazê-lo, juro, parece tudo piada, mesmo sendo sério.

Sorte minha conseguir escrever histórias, inventar caras e bocas para os meus pensamentos. Nem sempre essas histórias são as melhores, as mais excitantes, mas ainda assim este é um ótimo exercício de fé, porque nem tudo é meu, nem tudo é inventado, muita coisa é emprestada. E ao me apoderar dessas situações, ou mesmo me inspirar nelas para dar vida a uma das minhas histórias, agradeço profundamente a oportunidade de tê-las conhecido.

E também conheço um e outro dos quais as vidas, certamente, dariam não apenas um livro, mas também um filme baseado nele. Pessoas tão apaixonadas pela construção das suas histórias, e tão dignas de usufruírem da loucura dos sábios. Aquelas pessoas que o fazem desejar apenas ficar por perto, pode ser em silêncio mesmo, pois a presença delas já diz tanto. Que nos pequenos gestos e cotidianos afazeres promovem uma série de mudanças a sua volta. Não são perfeitas, nem pretendem ser, são inteiras nos seus desejos.

Perguntei ao meu sobrinho, de cinco anos, o que ele gostaria de ser quando crescer. Nós, os adultos, fazemos esse tipo de pergunta para recebermos respostas graciosas, porque é bonitinho quando a criança diz que quer ser bombeiro, professor, médico, e imaginamos aquele meio metro de pessoa vestido com os respectivos uniformes. É uma fantasia de muitas crianças, das quais os adultos participam, ainda que inconscientemente. Porém, o meu sobrinho me disse, com a maior tranquilidade e certeza da sua resposta, que quer ser adolescente quando crescer. É isso... Não quer ser um adulto, ter uma profissão que encanta logo cedo. Ele quer ser adolescente, não pular etapas, apenas ser.

Talvez aí more o segredo dessas muitas pessoas que dariam livros e filmes baseados nesses livros. Elas não pulam etapas. Suas vidas são vividas na intensidade e mansidão que lhes cabe. Elas aceitam o que a vida oferece, e então transformam esses acontecimentos em cenas de uma vida que é delas e de ninguém mais. Nem dos livros, tampouco dos filmes.

Vai saber... De repente uma ou duas historias da sua vida pode dar em uma canção... Ou em canções.




Something
Composta por George Harrison para Patti Boyd




Layla
Composta por Eric Clapton para Patti Boyd



www.carladias.com.br



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terça-feira, 22 de junho de 2010

REALIZAR UM SONHO NÃO TEM PREÇO QUANDO SEU PAI TEM UM MASTERCARD >> Clara Braga

Sábado de manhã, céu super azul, um dia lindo como há muito eu não via. Não tinha como não ser um dia perfeito para que eu realizasse um dos meus incontáveis sonhos.

Acordei meio tarde, como normalmente acontecia antes de eu começar a trabalhar aos sábados, tomei aquele banho para acordar e comecei a me arrumar. Coloquei uma roupa bem fresca para aguentar o calor do dia que seria longo e fui para o tão famoso almoço em família. Esse era um almoço especial, pois minha vó estava indo passar um mês na Europa, então queria se despedir, não sabia como iria ficar um mês sem ver as filhas e os netos. No almoço era aquela bagunça, todo mundo anotando as encomendas no guardanapo, e minha vó, coitada, se perguntando como ela ia fazer pra dar conta de carregar aquilo tudo, parecia que todo mundo tinha esquecido que ela — mesmo não parecendo — já era uma senhora de idade.

Apesar de sermos só 4 aqui em casa, tivemos que ir em dois carros, pois eu teria que almoçar rapidinho e sair correndo para ensaiar com a minha banda, não ia poder ficar para a famosa fofocaiada pós-almoço. Como eu, sempre enrolada, fui a última a terminar de me arrumar, minha mãe e meu irmão foram na frente para buscar minha vó e meu pai ficou esperando, extremamente impaciente, eu terminar de me arrumar, assim ele poderia me ajudar a carregar algumas coisas da minha bateria até o carro.

Assim que entramos em meu carro e eu dei a partida, o ponteiro da gasolina mal subiu. Eu tinha que ir para muito longe, não tinha outra opção, eu teria que abastecer, e esse foi o momento em que eu me toquei de que poderia estar perto de realizar um dos meus sonhos.

Fiz um certo charme pro meu pai, falei que eu era uma estudante até então desempregada, não tinha como manter meu carro sozinha, gasolina estava cara e como eu divido carro com minha mãe, espero sempre ela abastecer para usar, mas naquele dia não teria jeito: ou eu usava meu dinheiro quase inexistente ou contava com a boa vontade do papai.

Pai que é pai pode até fazer cara feia, mas no fundo não resiste a um bom charme cheio de argumentos. Quando ele disse: "Sim, eu encho o tanque do seu carro, minha filha", meu coração disparou e eu percebi que era verdade, eu estava mesmo muito perto de realizar um dos sonhos que eu só achei que realizaria quando fosse muito, muito rica, ou seja, nunca!

Em poucos minutos, eu já estava no posto, o que era muito importante, afinal, se demorasse, podia ser que a gente tivesse que empurrar um carro com uma bateria dentro até o posto. Quando o frentista começou a caminhar em direção ao meu carro, eu me via naquelas cenas de filme hollywoodiano em que tudo acontece em câmera lenta: ele vinha andando calmamente, segurando aquela flanelinha na mão, enquanto eu ia tirando a chave da ignição para entregar a ele. Já sentia o meu momento acontecendo, aquela palavra que eu sempre quis dizer e nunca pude já estava quase pulando para fora da minha boca, meu coração batia cada vez mais rápido, estava mesmo acontecendo! Quando o frentista chegou ao lado do meu carro e disse: "Boa tarde, vai botar quanto?", eu entreguei a chave a ele, tendo sempre em mente que o cartão que ia passar não era o meu, então sem titubear eu disse a famosa palavra que eu sempre quis dizer em um posto e nunca cheguei perto de dizer: COMPLETA!

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segunda-feira, 21 de junho de 2010

NÃO ME ACOSTUMO >> Kika Coutinho


Dia desses foi Dia das Mães. Alguém, no elevador, perguntou-me se eu já era mãe. Sou, respondi sorridente. A pessoa deu-me os parabéns e foi embora. Como se isso fosse normal. Fiquei lá, dentro do elevador, sem nem saber pra que andar ir diante de tamanha banalidade. Como que a pessoa não se surpreendeu? Como que achou normal? Como que não gritou: “Pombas, você é mãe! Caraca, que bacana!” Isso para não falar palavrões enormes, que exprimiriam melhor o susto. Não. A pessoa acha que é normal ser mãe. Dizem que é. Mas eu não me acostumo.

Não me acostumo a ver-me naquele bebê. Não me acostumo a ver que ela tem o nariz do pai, os meus olhos, misturou os nossos traços tão bem e fez-se outra, sem ser totalmente outra, porque é um pouco de mim também. Quem é que juntou isso, quem desenhou essa mistura, criou na minha barriga, com meus órgãos, meus líquidos, com minhas nojeiras todas, esse bichinho tão bem criado?

Não me acostumo com o berço no quarto vizinho ao meu, o choro à noite, o riso repentino. Não me acostumo com o milagre que me chama a cada amanhecer, balbuciando sílabas soltas: ba-pa-ma-ba-ba... “Ela disse mamãe!”, penso, orgulhosa, sabendo-me tola. É que não me acostumo.

Não me acostumo com as mãzinhas estendidas, pedindo colo e saciando-se em mim, agarrada a mim quando, enfim, para de chorar. Ela para de chorar em mim. Em mim que não sou nada nem ninguém, mas a bichinha acalma-se e aquieta-se, agarrada a mim. Uma pequena tola é a minha filhota... Talvez por isso eu não me acostume.

Não me acostumo com peito que vaza leite, alimento da minha cria, minha própria cria, saída de mim. Às vezes, confesso, corro até o espelho do banheiro e abaixo um pouco a calça jeans para ver a cicatriz da cesárea. “Então é verdade?”, digo para mim mesma, espantada. “Ela saiu mesmo por aqui”, respondo entre o susto e a alegria, o impossível que se fez possível em mim. Como?

O impossível se fez em tantas de nós...

Olho no shopping, as mulheres que arrastam os seus rebentos pelas mãos e tento tornar usual o milagre: “Olha" – repito para mim mesma – "aconteceu com todas elas. É normal, é real, é até banal”, tento convencer-me para, em seguida, diante das pequeninas mãos que agarram meus dedos, assustar-me: “Meu Deus, é um milagre”. Volto à mesma ladainha.

Porque não me acostumo. É uma mão tão pequenina, uma orelhinha tão bem desenhada, uma bebê já cheia de impaciências e quereres. Mas, oras, não fui eu quem fiz? Não fui eu quem pus no mundo, como é que quer viver por si só, como é que quer pegar a colher agora? Pois quer. E, logo, vai querer pegar a mochila sozinha, vestir-se sozinha, quem sabe dirigir e viajar... Meu Deus, logo vai estar entrando na perua da escola, a acenar-me com as pequenas mãos: “Tchau, mãe”, dirá, sorridente, minha pequena cria. Dirá, sem saber que me rasga o coração dar-lhe asas, me rasga o coração fazê-la independente, mas, eu sei, rasga-me ainda mais o coração impedir o seu voo. Que sinuca de bico em que nos metemos. Que ideia maluca essa. Criar o que é seu, sem que seja seu. Amar o que é você, sem que seja você. Não. Definitivamente não me acostumo.




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domingo, 20 de junho de 2010

SARA, MAGO >> Eduardo Loureiro Jr.


"Você escreve tão bem que faz a gente concordar com coisas que, examinadas de perto, descobriríamos não ser verdade", foi o que me disse meu orientador de mestrado após ler uma das primeiras versões de minha dissertação. Achei curioso o comentário — até o tomei por um elogio, mas só hoje me ocorre que talvez não tenha sido.

Alguns anos depois, já com um diploma de doutorado na gaveta, foi a minha vez de pensar a mesma coisa sobre um outro escritor, o Leonardo Marona, que escreve aqui no Crônica do Dia: O Léo escreve tão bem que faz a gente gostar de coisas que, se avaliássemos bem, não deveriam ser gostadas.

Há poucos meses, aconteceu novamente, ao ler um livro de José Saramago, "Caim". O cara escreve tão bem que a gente perde a noção de que está lendo uma série de absurdos.

Curioso é que há algo de comum em nossos sobrenomes: Loureiro, Marona e Saramago. São todos enganadores.

Loureiro é uma árvore cuja origem é explicada na mitologia grega. A ninfa Dafne, já cansada de tentar fugir do assédio amoroso do deus Apolo, pede a seu pai, Peneu, que a livre de tal situação. O pai então a transforma numa árvore, o loureiro. Apolo, que não pôde ter Dafne como mulher, escolheu o loureiro como árvore sagrada, levando sempre consigo um ramo de louros. Ou seja, o loureiro se refere a uma fuga por encantamento, a uma tentativa bem-sucedida de engano dos deuses.

Marona remete a mar, ao seu movimento contínuo e enganador. O mar que é calmo após a rebentação. O mar calmo que esconde buracos, depressões, mesmo perto da praia. O fundo alto-mar, cheio de mistérios. O mar dos monstros e das sereias. O mar que atrai e seduz. O mar que trai e mata. O mar pequeno, a praia, com o qual lidamos no dia-a-dia. O mar longo a se perder de vista. O mar correnteza que nos leva a naufrágios.

Saramago traz em si a magia, o ilusionismo, essa forma sedutora de engano. E bem que poderia ser também Saramágico, o engano pela distração, o driblar da atenção, a armadilha para os olhos. Enquanto o outro vê o que o mágico quer que o outro veja, o mágico faz outras quase invisíveis que dão um resultado inesperado para o espectador desatento.

Loureiro, Marona e Saramago são enganadores, cada um em seu estilo. Sofrem da doença do ardil.

Ontem Saramago morreu. A "múltipla falha orgânica", de que fala a nota oficial, trata-se do estado final dessa doença degenerativa do engano. Enganou a nós, leitores, com maestria, mas não conseguiu enganar a morte, essa leitora mais experimentada.

Marona e Loureiro já estão avisados. Embora não sejam enganadores a ponto de ganhar um Prêmio Nobel de Literatura, estão brincando com fogo, soltando balões de São João perto do Morro dos Cabritos. Mais dia menos dia, chegará a vez de também eles prestarem contas de seus ilusionismos.

A essa hora, no Tempo sem horas, sara o mago de sua terrena doença. Seu médico talvez seja, por ironia, o deus em que ele não acreditava. Marona e Loureiro continuam doentes de mar e de árvore. Ficam aguardando o dia em que a morte lhes mostrará — sem ciladas de palavras — a sã verdade.




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sábado, 19 de junho de 2010

ASSUNTOS PARA DEUS RESOLVER
[Maria Rita Lemos]

Estávamos conversando, minha amiga Maria e eu, e ela me falou de sua filha, que está estudando muito longe, e fazendo escolhas que ela teme que possam prejudicá-la. Distante de sua menina, que aliás já é uma mulher, Maria (nome fictício) estava realmente muito preocupada com sua filha Denise, que estuda numa Faculdade Federal, muito longe, fora do nosso Estado. O máximo que pude dizer à minha amiga, depois que ela uivou como uma loba e usou quase a caixa inteira de lenços de papel que forneci, foi dizer a ela: “Pelo que estou sentindo, esse problema você tem que colocar na prateleira de A.P.D.R.”

De repente, Maria parou de soluçar e me perguntou que prateleira era aquela. Eu respondi com uma lição que aprendi com minha mãe, enquanto ela estava ainda neste mundo. Quando confidenciávamos com ela algo cuja solução fugia do nosso alcance, ou seja, uma situação sobre a qual nada podíamos fazer ou que já fizemos e agora não estava mais sob nosso controle, ela dizia, com toda a sabedoria que lhe era peculiar: “Se já fez tudo o que podia, coloque o assunto na gaveta chamada A.P.D.R. e aguarde”. Diante de nossos rostos curiosos, ela explicava, pela milésima vez: "É a gaveta chamada Assuntos Para Deus Resolver. Deixe lá, tente não se preocupar. De vez em quando, algum sinal vai lhe ser dado, no sentido de que Deus está agindo. Preste atenção a essas indicações, e siga-as. O Criador está cuidando."

Realmente, existem momentos em nossas vidas em que nos sentimos impotentes e perdidas. Tudo o que podíamos fazer foi feito (essa é a primeira pista na procura de soluções). No entanto, tendo feito tudo, ainda não conseguimos solucionar o problema. Numa primeira fase, quando isso ocorre, nos sentimos aflitas, a ansiedade atinge níveis perigosos. Passamos noites insones, tentamos de todas as formas, perdemos a paciência e até a compostura, blasfemando e nos desesperando, mas a solução não chega.

Sentimos que estamos impotentes, emocionalmente “engessadas”. É como se estivéssemos presas num labirinto, correndo para todos os lados, sem encontrar saída alguma. Para fugir à dor e à insegurança que essa situação nos causa, acionamos os mecanismos de defesa que nós todos temos, felizmente, e nos preservam da total desintegração de nossos egos. Com essas defesas, tentamos construir, dentro de nós, sentimentos que anestesiem a dor.

Maria estava usando essas defesas quando me contou que, ultimamente, procurava nem telefonar para a filha, para não se angustiar ainda mais, impotente para agir. A partir desse mecanismo de compensação, temos duas vertentes de sentimentos: ou caímos em depressão (que, no fundo, é a negação da angústia ou sua assimilação em estado crônico) ou nos adaptamos ao que está acontecendo, por mais que nos custe essa última atitude.

Para ajudar nesse momento de impotência, para a qual não há nenhum Viagra, nem fármaco algum vai resolver, é preciso reconhecermos a limitação. Esse é o maior aprendizado. Não somos deusas, embora às vezes nos coloquemos assim. Mesmo com a missão de mãe, conforme conversei com Maria, muitas vezes não podemos fazer escolhas por nossos filhos, bem como em muitas outras situações nada há que possamos fazer, senão orar e esperar.

Lembrando sempre que as coisas não vão acontecer no nosso tempo, mas no de Deus, muito diferente do nosso. Resta-nos respirar fundo, relaxar e colocar na tal gaveta APDR. Isso não significa “fugir do problema”, mas apenas reconhecer nossa impotência e deixar vir à tona a fé em um Ser Superior, que a tudo assiste e em tudo está presente em nossas vidas.

Nessa “gaveta” cabem todos os tipos de problemas: perda de entes queridos — para a morte ou para a vida; falta de tempo para fazermos o que gostamos; injustiças contra nossa pessoa; preconceitos que não podemos enfrentar; doenças do corpo ou da alma, nossas ou de pessoas a quem amamos; desemprego; rejeição... enfim, a lista é muito grande.

O grande segredo vem por etapas: em primeiro lugar, saber que realmente a gaveta APDR existe e está à espera de nossas angústias. Depois de acomodarmos essas fichas na gaveta citada, cabe-nos tentar ser felizes, apesar do que está havendo, apesar de tudo. Não levar as coisas muito a sério, e lembrar-nos sempre de que tudo muda e o Tempo é o melhor remédio para tudo (Voltaire, aliás, disse uma vez que “o Tempo é o segundo nome de Deus”).

Nessa importante tarefa de adaptação, resta lembrar que nenhum problema é totalmente insolúvel, quando na gaveta certa. Perder um amor pode significar que ele não era tão importante assim. Lidar com uma doença incurável, nossa ou de um ente querido, aperfeiçoa nossa sabedoria e nos faz valorizar a saúde. Se não temos tempo nem dinheiro, nem ambos, podemos fazer disso um motivo para usarmos nossa criatividade.

Enfim, sempre há luz no final do túnel, desde que não estejamos tão deprimidos que não possamos enxergar saída alguma. Não é preciso muita coisa para sermos felizes: a conversa gostosa com uma amiga, observar um pôr-do-sol, aproveitar a manhã de domingo para uma caminhada, tomar banho de chuva, enfim, são coisas que, enquanto os problemas estão no arquivo APDR, podemos fazer para aquecer nossas almas.

Relaxar, confiar e saber que Deus está agindo não é fácil, mas pode ser o melhor ou o único caminho a seguir. Pelo menos no momento em que nada mais há que possamos fazer.

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sexta-feira, 18 de junho de 2010

NADA E TUDO >> Leonardo Marona

Olhou para ele e disse: “gosto de você porque você é tudo e nada ao mesmo tempo”. Ele não entendeu. Mas gostou. Anotou num papel. Depois se amaram violentamente por debaixo das cobertas, como em qualquer casa de família, depois da meia-noite, quando as crianças já estão dormindo, com as orelhas grudadas atrás da porta.

“Você é liberal, faz o meu tipo. Tenho nojo de certos homens. Contigo é só excitação”. Ele não entendeu, mas dessa vez pelo menos fingiu que entendeu. Beijaram-se torrencialmente e depois fizeram as pazes por uma briga da qual nenhum dos dois se lembrava mais, por mais que os dois chorassem copiosamente, até que ela se lembrou: “Foi quando você me confundiu com outra na calçada do edifício”.

“Gosto de extremos. Beijaria você na boca agora, mas o que me interessam são os teus demônios internos”. Ele não entendeu novamente, mas dessa vez se aborreceu. “Não tenho demônios nem anjos internos”, disse a ela. “Sou apenas isso que você está vendo e, em breve, nem isso”.

Ela mudou de assunto, era melhor:

“Sonhei que estava pulando pela janela. Duas vezes na mesma noite. Na segunda vez eu conseguia voar. Na primeira foi lona”. Ele esperou um pouco e não disseram nada. Depois ela disse outra vez: “Sonhar com a própria morte é sinal de sorte”. Ele finalmente entendeu, logo depois de ver pela janela um tênis amarrado pelo cadarço num fio de alta tensão. Despediram-se debaixo de uma chuva fina, as mãos dadas, o céu vermelho do final de um verão.

Ela voltou correndo para casa, fugindo dos respingos e da libido aprisionada. Ele atravessou a rua e morreu atropelado por um táxi. O taxista não parou para prestar ajuda e chorou dali a cinco minutos, com a cabeça encostada no volante, parado num terreno baldio. Ninguém sabe se todos eles tornariam a se encontrar no céu.


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quinta-feira, 17 de junho de 2010

OH, MY DOG! >> Fernanda Pinho


Conviver em sociedade é uma tarefa árdua. Principalmente quando você sofre de algum problema que te diferencia da maioria esmagadora das pessoas. Sei o tamanho desse fardo porque convivo com isso desde que me entendo por gente. Em todas as relações que fui estabelecendo ao longo da vida, tive que trabalhar essa minha diferença, e é triste concluir que não evoluí muito. Acho que meu problema é grave. Gravíssimo. Não sei lidar com cachorros.

E não estou falando de homens de caráter duvidoso. Com esses eu aprendi a lidar muito bem. Falo mesmo dos caninos. Poodles, schnauzers, labradores, beagles, pugs, vira-latas, que sejam. Não tenho a menor destreza para interagir com eles e, normalmente, me vejo passando por situações constrangedoras por conta dessa inabilidade. Afinal, aparentemente, 99% da população gosta de cachorro e sabe muito bem o que fazer quando um deles quer cruzar com a sua perna. Me entendam! No meu caso, não é que eu não goste. Eu só não sei o que fazer quando um deles quer cruzar com a minha perna ou pular em cima de mim ou dar lambidas no meu rosto.

Com os cachorros que já me conhecem há tempos, a relação se tornou até fácil (depois de muito custo). Parece que eles, enfim, entenderam que eu não sei brincar e nem forçam amizade comigo. Mas quando é um cachorro novato, que nunca me viu, é sempre o mesmo suplício. O bichinho lá pulando em cima de mim, o dono dizendo que ele é um fofo e não morde e eu lá: sem saber onde enfiar a mão, sem saber se pulo também ou fico parada, sem saber como controlar os espirros por causa dos pêlos e, principalmente, sem saber o que dizer. Porque, sei lá, cachorros não falam. Tudo bem, eu já reparei que os outros humanos conversam com seus cachorros, em português e tudo (de preferência com vozinha infantil). Eu poderia até arriscar alguma coisa mas, tem outro problema: não tenho assunto! Sobre o que se fala com um cachorro, gente? Sobre essa vida de cão, que tá osso pra todo mundo? Não rola!

Talvez eu devesse tentar contar a eles minha primeira e única experiência canina da vida. Eu era muito pequena e meu pai apareceu lá em casa com um dobermann também muito pequeno. Ele era pretinho, tinha orelhas em pé e o rabinho cortado. Entendedores de cachorro, me desculpem se essa descrição foi redundante. Eu realmente não sei se todos os dobermanns são assim. O meu era. E eu gostava dele. Principalmente porque meu pai deixou que eu o batizasse, já que eu adorava dar nomes para todas as coisas. E eu o batizei...de Thunder Cat. Até hoje eu não entendo muito bem essa passagem da minha vida. Onde estavam meus pais, meus primos, meus tios, meus vizinhos, meus professores porque, meu Deus, ninguém me avisou que meu cachorro chamava gato! Mas Thunder Cat não devia entender inglês, pois não se abalou nem um pouco. Cresceu firme e forte, num ritmo muito mais acelerado que eu. De modo que nem eu, nem ninguém em minha casa, sabia mais como continuar interagindo com ele. Resultado: ele acabou sendo transferido para o sítio de um amigo, que era uma dessas pessoas que sabem conversar com cachorro fazendo vozinha infantil e tudo. 

Fiquei triste porque eu não sabia lidar com o Thunder Cat, mas gostava dele. E é isso o que acontece entre eu e todos os cachorros do mundo. Não sei se vocês notaram, mas é o que eu estou tentando dizer desde o início. Gosto tanto que um dia me arrisquei para salvar um deles. Foi numa avenida aqui perto de casa. Eu vinha andando pela calçada, quando avistei aquela bola branca parada no meio da rua. Era um poodle, não tive dúvidas. Afinal, é a única raça que eu sei reconhecer. Olhei para o poodle, olhei para a esquina e vi o sinal dos carros se abrir. Com aquele impulso que move os que gostam muito de cachorro (porque eu gosto!), corri para a frente dele e fiz sinal com a mão para que os carros parassem. Pararam. E eu fiz o cachorrinho caminhar até a calçada aplicando-lhe pequenos chutinhos. Cheguei em casa, orgulhosa do meu ato heróico, e liguei para minha amiga Lili (um dado para que vocês entendam porque eu liguei para Lili: ela é uma pessoa que tem seis cachorros e quinze gatos). Contei todo o caso com requinte de detalhes ao que, para minha surpresa, Lili reage cheia de indignação por eu não ter carregado o poodle no colo. Tentei argumentar que tecnicamente nem foram chutinhos. Foram, na verdade, leves cutucões com o pé. Nada feito. Ouvi da Lili um sermão sobre como lidar em caso de quase atropelamento de cachorros. Não sei se aprendi, pois o destino ainda não me colocou diante de outro teste desses.

Espero ter aprendido, pois quero ser uma boa dona para os labradores que pretendo ter um dia. Sim, queridos, eu ainda não desisti. Vou ter meus cachorros, nem que eu tenha que recorrer a um curso de adestramento de humanos.

www.blogdaferdi.blogspot.com

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quarta-feira, 16 de junho de 2010

MERCEARIA >> Carla Dias >>

Sinto-me fascinada pela palavra mercearia. Não sei por que, mas ela anda me soando de um jeito meio nostálgico nos últimos dias.

Quando eu era criança, minha mãe fazia nossas compras em mercearias, não em supermercados. Naquela época, supermercados eram equivalentes a shopping centers e, como não tínhamos como comprar nossos jeans preferidos, naquela loja bacana, sabe?, bem, passávamos longe deles.

Frequentemente, eu e minha irmã mais velha íamos à mercearia com a caderneta na mão, na qual o Seu Zé, dono do estabelecimento, marcava nossas despesas, que pagávamos mensalmente. Ele sempre perguntava pela minha avó, pela minha mãe, sabia quem éramos, porque nos viu crescer comendo suspiro cor-de-rosa, comprado na mercearia dele.

Na mercearia do Seu Zé, comprávamos arroz, feijão, óleo... O óleo ficava em um grande barril e era bombeado para garrafas de vidro vazias que reutilizávamos, enquanto elas aguentavam, ou até nós, as crianças do quintal, afanarmos as tais para trocar por pintinhos...

Pintinhos eram nossos bichinhos de estimação. Sofríamos vendo que, depois de cuidá-los com tanto carinho, vendo-os tão amarelinhos correndo pelo quintal, até ficarem marronzinhos de brincarem no chão de terra, eles não resistiam e morriam.

Fizemos muitos enterros de pintinhos, naquela época.

E adorávamos comprar doce na mercearia: maria-mole, pé-de-moleque, paçoca, apesar de lá também termos comprado a maioria dos nossos cadernos, lápis e borrachas usados no primário e no ginásio. E linhas e agulhas para as nossas mães costurarem os detalhes das nossas roupas para dançar quadrilha, criadas a partir do que tivessem à mão, como a que minha mãe fez para nós com as cortinas da sala.

Acho que por isso, às vezes, sonho vestidos esvoaçantes e coloridos pendurados em varões, abrindo caminho para aquele vento teimoso que entra pela janela.

Na mercearia comprávamos itens essenciais para a vida de uma pessoa: em dias de criança, precisando parar de correr ao banheiro a cada minuto, nada como a maisena juntada com água e limão. Em dias mais bondosos, nossas mães colocavam uma colherzinha de açúcar na mistura, e aí o ruim até ficava gostoso.

Agora o ruim que era ruim mesmo tinha nome: Emulsão Scott! Óleo de fígado de bacalhau... Ai, nem gosto de lembrar.

Eu morria de curiosidade sobre como seria estar do lado de lá do balcão do Seu Zé. Quando ia à mercearia para comprar mortadela, apertava a caderneta no peito, tentando conter a curiosidade. O que descobri é que curiosidades como esta foram eficazes na minha infância, porque aprendi a respeitar limites e aguçar a imaginação. Naquele tempo e naquele lugar, eu era apenas a menina com a caderneta na mão, dizendo bom dia ou boa tarde ou boa noite, esperando que fossem marcados os preços do leite, do pão, dos ovos, para que voltasse para casa ainda mais curiosa do que nunca, imaginando o universo que se escondia do outro lado do balcão, ele cheio de personagens heróicos, domadores de tristezas, aprendizes da felicidade.

A mercearia ainda existe. O Seu Zé já não comanda o balcão, e vive debruçado na janela, observando a vida, talvez como eu a observava quando moleca, curiosa sobre o que haveria do outro lado do balcão: com curiosidade e zelo.

Mercearia pode ser esse lugar onde os secos e os molhados se encontram, como desertos e mares se abraçando, a estação das chuvas visitando a das secas. Os avessos que alimentam a imaginação dos que se sentam diante do óbvio e trançam sua definição em um tanto de possíveis cenários.

Minha mercearia tem cheiro de jasmim, recebe deuses, dá guarida aos sentimentos, eles que dormem nas prateleiras e nos baleiros. Nela amparo as guarnições necessárias: beijos, árias, abrandamentos. Nela educo o meu sem-tempo, enganando rugas e cabelos brancos, e segurando a mão da menina que fui só para sentir a vitalidade de quem ainda está à espera do acontecimento que mudará tudo: o olhar, o gosto, o toque. As esperas.

Minha mercearia não tem balcões, mas um salão de dança. E nem meu é... Está localizado onde nada tem dono ou lugar certo. Seu código postal são cinco estrelas seguidas por três luas. No seu sótão mora o sol, mas ele raramente está em casa. Pares de fugas dividem cama e alimento nessa mercearia. E elas dizem a quem quiser ouvir, fazendo aquele drama que lhes é peculiar, que elas sempre estarão à disposição.

Sempre achei as fugas um tanto devassas.

A palavra cai da minha boca cingindo espaço. Alarga-se, dá cambalhotas. Sorri e chora ao mesmo tempo. Saboreio os seus dramas, abarcando as lembranças de quando uma mercearia não só fazia parte da minha curiosidade, mas também era provedora das minhas sobremesas.

Na confusão das crianças debruçadas no balcão, dizendo o que queriam, ao mesmo tempo, endoidecendo o Seu Zé. Primos e irmãos e amigos... Eu sempre escolhia paçoca. E sentávamos todos na entrada do quintal, adoçando nosso dia e olhando para o armazém, pensando que, amanhã, faríamos a mesma coisa, sem a noção de que o amanhã, com toda a sua grandiosidade, mudaria não só o nosso gosto pelos doces, mas também o tempo que passaríamos assim, desfrutando a companhia do outro, sonhando o futuro, enquanto esperávamos o fim de tarde, quando a temperatura ficava agradável, e era mais divertido brincar de pique.

www.carladias.com


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terça-feira, 15 de junho de 2010

APRENDENDO COM A COPA >> Clara Braga

É hoje! Posso sentir a ansiedade no ar. E olha que eu nem sou assim tão fã de futebol, mas durante a copa não tem como fugir desse clima! Todo mundo para o que está fazendo para assistir e torcer pelo nosso time, até mesmo quem não curte muito, afinal quer desculpa mais justificada que essa para dar uma pausa no trabalho? E não adianta, brasileiro é assim mesmo, é bem capaz que queiram decretar feriado caso o Brasil seja hexacampeão, assim poderiamos ter o dia nacional da ave Galvão, já que só se fala dessa campanha linda que está rolando na internet que é a "Cala a Boca Galvão"!

Mas não é só de farra que vive a copa, acreditem ou não esse também pode ser um momento de aprendizado. Como assim? É isso mesmo, se você quer aprender mais sobre a África do Sul, esse é o momento de saber tudo nos mínimos detalhes, todas as revistas, jornais, canais de televisão, artigos na internet, blogs e etc. Tudo e todos só falam da África. Mas quando começa uma partida não tem pra ninguém, o centro das atenções é o som ensurdecedor das agora tão famosas vuvuzelas. Uns querem que elas sejam banidas, outros pedem para que tenhamos um pouco de compreensão, pois elas fazem parte da cultura africana, alguns jogadores reclamam, não há como se concentrar com esse barulho todo. Enfim, bem ou mal, contra ou a favor, as vuvuzelas estão literalmente na boca do povo.

Eu, por minha vez, não queria fazer feio e ficar fora da conversa, onde quer que estivessem falando da copa e das vuvuzelas lá estava eu participando e dando minha opinião: “Poxa, mas proibir não é muito radical?” “Será que atrapalha mesmo os jogadores?” Sempre marcando minha participação com perguntas e opiniões bem gerais para não deixar ninguém descobrir um dos meus segredos mais íntimos. Confesso estar um pouco constrangida em revelar esse meu segredo aqui agora, mas verdade seja dita, até uns dois dias atrás eu não tinha a mínima idéia do que seriam as vuvuzelas! O que eu fazia era simplesmente ouvir comentários de um grupo e repetir no outro pra não ficar fora do assunto, mas a verdade é que eu não sabia do que estava falando. Bom, primeiramente eu gostaria de agradecer aos meus professores de teatro que, quando me ensinaram a atuar, tornaram possível essa minha participação em assuntos nos quais eu sou completamente ignorante, e em segundo lugar eu queria perguntar por que diabos essa corneta tem esse nome bizarro? Eu já tinha visto antes, mas chamava apenas de cornetinha de plástico, não é muito mais simples?

Mas convenhamos, nomes não são realmente o forte dessa copa na África, vocês já ouviram o nome do mascote? Pois é, o nome dele é Zakumi. Za significa África do Sul e Kumi é o numeral 10. Qualquer pessoa seria capaz de pensar que a junção dessas sílabas iria significar algo como a África do Sul é 10 ou qualquer outra coisa que se aproxime disso. Mas não! Se você pensou isso acabou de cometer um grande erro, Zakumi significa "vem aqui"! Isso mesmo, o nome do mascote dessa copa é "vem aqui". Agora quem daria um nome desses a um mascote? Só mesmo quem chama corneta de vuvuzela.

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segunda-feira, 14 de junho de 2010

SOBRE DUAS RODAS I
>> Albir José Inácio da Silva

Tudo começou na época ainda do velocípede. Caí, como caem os meninos. Não houve grandes prejuízos, só uns arranhões, mas me fizeram pensar na bicicleta. Se do velocípede eu caio, que dirá da bicicleta. Mesmo sem noções de física, desenvolvi teorias sobre a impossibilidade de uma bicicleta se equilibrar em duas rodas. Principalmente se eu estiver em cima dela.

Ainda andei de velocípede algumas vezes, sem queda, com medo no início e desinteresse depois. A única coisa que ficou foi a certeza de nunca conseguir andar de bicicleta. Quando todos os garotos tinham bicicleta, eu desconversava, dizia que não gostava, que tinha problema no joelho, que ia querer mesmo era uma moto e que bicicleta era coisa de criança.

Claro que minhas desculpas não valeram por muito tempo. Logo o “bullying”contra mim se espalhou pelos desafetos, pelos amigos e chegou aos parentes. Eu era medroso, desajeitado, esquisito e, o que era pior, desequilibrado. "Desequilibrado" me atingia com força dobrada. Além da impossibilidade de ficar sobre a bicicleta, significava problemas mentais. Nenhum xingamento dói tanto quanto aquele em que a gente acredita. E eu acreditava. Não, eu tinha certeza.

A coisa cresceu tanto que comecei a pensar que quem não conseguia andar de bicicleta não conseguiria mais nada na vida. Eu via crianças pequenas que ganhavam bicicleta num dia e no outro já estavam fazendo acrobacias. Da minha angústia ninguém sabia. Todos me achavam normal. Ninguém desconfiava do peso, da sensação de que a vida não tinha dado certo antes mesmo de começar. Eu evitava os grupos e os amigos. Porque amigos andavam de bicicleta.

O curso ginasial chegava ao fim e eu construí o impasse. Ou eu era um verme ou ia viver a minha vida. E vida significava o científico, o vestibular, a faculdade e andar de bicicleta. Mas não nessa ordem.

Um bairro distante, uma praça, loja de aluguel de bicicletas, pernas tremendo e mãos suadas. Estendi a carteira de identidade e o dinheiro.

- Só a carteira. Paga na volta.

- Mas eu só quero uma hora... nem sei se vou ficar...

- Então você só paga uma hora... na volta.

O pedal bateu duas vezes na minha canela enquanto eu empurrava o problema pela calçada. Não senti dor. Não sentia nada. Não raciocinava. Só precisava andar de bicicleta. Era a encruzilhada da minha vida.

[Continua daqui a quinze dias.]

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domingo, 13 de junho de 2010

SONHOS >> Eduardo Loureiro Jr.


Conheci uma moça bonita, meu bem,
mas foi só em sonho.

Os sonhos são uma permissão da Natureza para que experimentemos nossos medos em segurança e para que não percamos a esperança de realizar nossos desejos.

Há quem tenha sonhos premonitórios, gente que adivinha, quando está dormindo, o que vai acontecer. Eu já tive medo de que comigo fosse assim também, mas não é. Se tenho pesadelos, acordo aliviado, e, se tenho bons sonhos, acordo triste, porque nem uns nem outros irão se realizar. Então, após o desespero de ver todos os meus dentes da arcada inferior se esfacelando, como se fossem feitos de areia molhada da praia, acordo ainda assustado mas feliz, me consolando, "foi só um sonho", e, no desjejum, mastigo a mistura de granola, aveia, linhaça e mel com um prazer exagerado. Mas, da mesma forma — ou seria de forma invertida? — após o êxtase de viver a vida dos meus sonhos, à beira-mar, vivendo da escrita, acordo na minha mesma vidinha de sempre e, por mais que tente fechar os olhos e adormecer-me de volta ao sonho perfeito, o despertador insiste que está na hora de levantar para o trabalho indesejado e para o extrato em vermelho. Meus sonhos são só uma reparação — para o melhor ou para o pior — da minha realidade.

A coisa fica mais complicada quando, na sempre intrincada teia das relações humanas, os sonhos premonitórios de uns se encontram com os sonhos compensatórios de outros. Minha irmã, por exemplo, que talvez tenha herdado a habilidade da ala feminina da família de sonhar com o futuro, certa vez acordou comigo milionário. Na noite em que eu tive um sonho do qual nem me lembro, minha irmã sonhou que eu era o único ganhador da mega-sena acumulada. Até aí, tudo bem, mas minha irmã sonhou também os números com os quais eu havia ganhado e — absurdo de memória — ainda se lembrava deles. Então me responda o leitor esse enigma: Se alguém que tem sonhos premonitórios sonha algo para alguém que tem apenas sonhos irrealizáveis, esse sonho se concretiza? Na dúvida, aposto nos números que minha irmã sonhou. E, quando esqueço de passar na lotérica ou simplesmente quando não me sobra nem o dinheiro do bilhete, não tem quem me faça conferir o resultado. Já imaginou ver os seis números certos estampados e descobrir que não se é milionário porque não se apostou por esquecimento ou por falta de grana?

A exceção aos meus desconfortos oníricos são meus sonhos de voo. Quando me sonho voando — de longe os sonhos mais prazerosos que tenho —, não acordo com a sensação amarga de não poder voar. Talvez porque não seja possível, aos seres humanos, voar sem ajuda de algum aparelho, eu me conforme com a não realização de meu sonho e já o considere realizado no próprio devaneio. Se um dia a humanidade descobrir uma forma de voar apenas com a força do pensamento, e eu ainda não tiver desenvolvido individualmente essa habilidade, talvez também acorde de meus sonhos voadores com uma sensação amarga de fracasso.

Mas falo como se fosse um experto em sonhos. Não sou. E duvido mesmo que alguém seja. Sonhos são um mistério. São como filmes, mas não existe nenhum IDDb (Internet Dreams Database). Dos sonhos, não se sabe quem foi o diretor, o roteirista ou os atores. Só conhecemos os personagens e a trama, que muitas vezes se assemelham ao cinema experimental: complexo, exagerado e sem sentido.

E, para não dizer que não falei da Copa, ainda não sonhei que o Brasil será campeão. Então ainda temos uma chance.




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sábado, 12 de junho de 2010

CAFUNÉ [Sandra Paes]

Me faz aí um cafuné! Ouço o personagem dizer, de forma solícita, como se esse feito pudesse apaziguar todos os efeitos dos males causados e os danos criados naquela cabecinha grisalha.

E foi assim para ela, desde menina. O cafuné tinha uma espécie de poder mágico, algo especial mesmo. Era só o gesto de enroscar os dedos nos cabelos e fixar cachinhos no ar que tudo se amainava.

Hoje penso sobre isso e vou eu mesma acariciar os cabelos, enrolando os dedos em forma circular como a desenhar os caracóis por fora e com isso exorcizar os “rolos” de dentro da cabeça. Deve ser essa a magia. Quando se anela cada chumacinho, tira-se assim, como nada, os nós guardados lá dentro das sinapses e, dessa forma, acalmamos a mente, regularizamos os pensamentos desconexos, porque eles se apagam e só fica uma sensação de calmaria, uma pequena onda azul mansa a acompanhar as camadas mais convulsas de até mesmo todos os músculos.

Se a gente se lembrasse do poder de entrega que o cafuné traz, o enlevo que ali se produz, a conexão invisível e poderosa que se dá, mais forte do que qualquer documento selado e carimbado... Ah, se a gente soubesse disso...

Pra que tantas ginásticas? Pra que tanta discussão? Pra quê? Pra que tanta produção na tentativa de agradar?

Outro dia ouvi e vi na televisão um pastor dizer que quando a gente ama a gente quer agradar e que Deus espera que a gente o agrade. O pobre pastor usara do recurso que dispunha pra tentar passar uma mensagem de conforto pra seus fiéis que andam abandonando seu púlpito. Esse talvez não sabe da mágica do cafuné. Será?

E olha que palavrinha mais engraçadinha... Quem será que a criou? Há quanto tempo existe isso? E por que será que nos tempos modernos corremos tanto e não usamos nunca uma fração pequena de intervalo ou mesmo sem intervalo só pra acariciar os nossos cabelos... Toque leve, dedos suaves, como quem desenha sonhos e tem um enorme cuidado em nao desmanchá-os ou deixá-los cair. Cuidados de deuses mesmo... Desses que a gente sabe que se não velar com zelo, tudo se desmancha - e isso a gente não quer de jeito nenhum.

Gostaria de poder medir o que se passa na ternura ou sua seqüência no ato de afagar os cabelos. Mas a ciência não se interessa por esse tipo de pesquisa. Investe em bombas, armamentos sofisticados pra dominar os outros, seja pelo poder bélico ou financeiro. Agora, pesquisar sobre a paz a cada dia, o que amansa os guerreiros, o que traria bem-estar e conforto diretamente pra cada cidadão cansado da batalha diária, ah, isso nem pensar.

Só eu pareço ter esse interesse. Os casais nem se habilitam mais a simplesmente namorar. Procurar de forma tranqüila e mansa algo pra descobrir o outro novamente.Assim, sem pressa nem cobranças. Sem desconfianças, sem defesas levantadas. Sim, sair do espaço de combate. Deixar lá fora tudo que possa ser desgastante e inquisitivo.

Eu aposto no hábito do cafuné. Esse não custa caro, não tem que comprar nas lojas, não precisa de altas produções, nada mesmo. É só se entregar - coisa difícil no mundo de hoje - e permitir o sonho fluir debaixo dos caracóis feitos em qualquer cabeça.

Fiquei apenas com uma dúvida: será que os carecas gostam de cafunés? Será que eles cultivam essa bendita rendição e paz, uma vez que não tem cabelos pra ser acariciados? Deve haver uma solução, porque cafunear é bom demais.

Experimente!

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sexta-feira, 11 de junho de 2010

ANTES DO SONO >> Leonardo Marona

Talvez fosse preciso um longo bocejar. Admitir a aceitação mais violenta: a que diz respeito a nossa própria carne. Um tigre de papel, perdido nos lençóis da carne. Estamos sobre um pedaço enorme de coisa que não sabemos de onde veio e na verdade é um pedaço mínimo de uma outra coisa sem referência nenhuma que gira sem direção por um espaço que por sua vez não se sabe se é infinito, finito ou realmente espaço. É impossível não pensar que estamos todos perdidos, andando por aí, criando rotas dentro de algo – chamemos de algo o que não tem nome – maior e que não tem rota alguma. Mas não tenho essa pretensão. Pretensões grandiosas são as mais mesquinhas. Perguntem a Lee Oswald ou a Oswald de Andrade. Na verdade, queria falar sobre o momento imediato como no futuro do pretérito, o tempo da desesperança poética. E hoje não precisaríamos mais do tiro que explode o sangue na parede. Não haveria mais pernas gangrenadas de pico ou dólares falsificados inflamando vaginas. Estaríamos todos sob uma espécie de couraça – a mesma que no mundo real têm os muito pobres – que nos não permitiria deixar de rir da vida de forma alguma, e nos faria ver, reconhecer o moinho, e cair, levantar, ganhar rugas, mas sempre de prontidão para se levantar outra vez, cair mais uma, ter trituradas as pernas, mais uma vez bater o pó nas calças maltratadas, vestir o chapéu comido pela traça, erguer outra vez o punho leve, quebrado de fome e sede e sono, subir outra vez o inevitável peso sobre os ombros, seguir adiante, ser a natureza das coisas em movimento num espaço onde não há lugar para mais razão, porque sabemos que é preciso retornar e não há motivo para choro, então seria possível – com esse espírito agreste de onde brota uma certa volúpia humanística – viver querendo o bem esperando ingenuamente por deus que, se existe, está tão perdido ou mais do que nós, que o criamos porque sentíamos medo, porque admitimos a natureza do medo como natureza diabólica e precisávamos ter passado sem ela, mas no meu texto no futuro do pretérito de repente estaríamos todos muito leves, sentindo a flutuação dentro da qual estamos inseridos, ouvindo algo como Stormy Weather na voz de Billie Holiday, e se ela diz “vá, mesmo assim vá, sem braços, sem pernas, sem olhos, o coração em fratura exposta, sorria de alguma forma e vá!”, então acreditamos e que venha o tempo das chuvas de outros tempos, que nos deixemos encharcar por esse espírito tão antigo e renovado, por essa encarnação alienígena que paira diante de nós, nós que nos desconhecemos a nós mesmos porque precisamos conhecer o universo, mas no meu texto enxergaríamos todos em tom violáceo e teríamos belíssimos corpos e andaríamos ao léu pelas marés arriadas e chamaríamos uns aos outros nas ruas para passear e conversar e nos apaixonaríamos uns pelos outros porque seríamos tão diferentes, mas pela primeira vez cada homem, cada mulher quereriam ter sido exatamente o que vieram a ser, apenas homem, apenas mulher, e não teríamos mais ditadores de causas moribundas, nada disso existiria, mas é claro, por isso não haveria por que sentir depressão e esse é o modo mais rápido para se ficar deprimido, o não haver motivo para, então finalmente veríamos se bem ou mal diferem tanto na essência, se fomos gerados realmente por extraterrestres e o próprio tempo é uma criação de outras órbitas, assim como a água que circula por nosso corpo é o próprio corpo estranho de que falam as mais perversas ficções. E saberemos enfim se alimentamos pequenas máquinas que alimentam outras maiores e essas alimentam outras enormes e as últimas, por sua vez, alimentam máquinas incomensuráveis que no fim fazem parte de uma estrutura ainda maior de exploração da energia de um lugar feito de gases etéreos por outra concentração maior de energia que incha, incha, transborda e então lembraríamos das nossas pequenas tramóias do dia-a-dia, dos gordos que suam enforcados em suas gravatas ou algemados à cama por sórdidos seres híbridos, e pensaríamos: “que natureza é essa da qual fazemos parte?”, e não haveria resposta, é claro, pois somos a própria resposta, e o tempo se paralisaria por um instante ou dois, pensaríamos mais uma vez sem esforço no som que faz o vento forte sobre uma plantação de trigo, a visão dessa plantação de trigo nos encheria a mente com um poderoso amarelo, e estaríamos no fim desse mínimo instante ainda maravilhados, e de repente não haveria mais responsabilidades porque seríamos parte de um outro estranho, e mais uma vez mão-com-mão, braço-com-braço faria sentido porque não seria mais uma atitude revolucionária ceder o braço, dar a mão, e seríamos portanto seres simples e sem vaidades, o som do mar ao fundo enfim como um repouso para nossas almas carregadas de concreto. Um suspiro, e estaríamos além de nós.



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quinta-feira, 10 de junho de 2010

94 OUTRA VEZ >> Fernanda Pinho


"Desde o início, eu já fiquei muito contente só de saber que o Brasil participaria da Copa do Mundo. Eu já estava preparada para perder. E principalmente para ganhar. Mas mesmo assim, eu queria mesmo era a vitória. Eu me sentia muito nervosa a cada jogo. E assim os jogos se passaram e o Brasil foi eliminando todos os países. Até que chegou a vez da Itália passar pelo Brasil. Foi um jogo de muita aflição. Tivemos que ir para os pênaltis. Foi quando o Roberto Baggio errou o chute e o Brasil inteiro comemorou a vitória. Foi muita emoção. Obrigada, seleção! Foi muito bom, pela primeira vez, ver o Brasil ser campeão".

Achei o texto acima nos guardados da minha mãe, assinado por mim, com a data de 09 de agosto de 1994. Aos dez anos de idade, eu ainda me sentia extasiada e eufórica pelas emoções proporcionadas pela magia futebolística. Foi a primeira vez que eu me senti assim e, naturalmente, também foi a única vez em que eu me senti assim. Claro, vieram muitas outras emoções com meu time e com a própria seleção, depois disso. Mas aquela foi a primeira vez, e a primeira vez só tem uma.

Embora eu tenha saído da maternidade enrolada no manto do alvinegro e passado boa parte da minha infância trajando o uniforme do Galo (meu pai custou a aceitar que eu nasci Fernanda, e não Reinaldo), foi só na Copa de 94 que eu fui entender que fascínio era aquele que o futebol exercia sobre as pessoas. Foi quando o Brasil empatou com a Suécia, ainda na primeira fase, que eu entendi como era possível que um Mineirão inteiro se calasse quando um time de fora fazia um gol aqui dentro. Foi quando o Leonardo (lindo!) foi expulso no jogo contra os Estados Unidos que eu entendi por que as mães dos juízes eram tratadas com tantos impropérios. Foi quando Bebeto balançou os braços, homenageando o filho recém-nascido, no jogo Brasil X Holanda, que eu entendi por que homens adultos se debulhavam em lágrimas por causa de outros homens correndo atrás de uma bola. Foi quando o Taffarel fez uma linda defesa de pênalti no fatídico jogo contra a Itália que eu entendi por que meu pai chegou a quebrar o lustre da sala com uma cabeçada de emoção. Foi quando Baggio deu aquela bola fora que eu entendi por que meu pai achava mais legal que eu tivesse nascido Reinaldo, e não Fernanda. E foi quando Dunga, o capitão do tetra, levantou aquela taça que eu descobri que o Brasil era o país do futebol. A gente podia ser o país do basquete, da ginástica olímpica ou de algum esporte mais remoto, como o rúgbi (a África do Sul não é o país das vuvuzelas e do rúgbi?). Mas não! Que ficassem os americanos com o basquete, os russos com a ginástica e os sul-africanos com o rúgbi (e com as vuvuzelas). Porque o futebol já era nosso — na minha vida, pelo menos a partir de 1994, quando o Dunga levantou aquela taça.

Ter o Dunga no comando, dezesseis anos depois, era para ser um bom presságio. Não apenas para mim, que descobri pelas mãos — e pelos pés — dele que o Brasil é o país do futebol, mas para todo mundo. O povo, no entanto, embora inevitavelmente envolvido pela magia da Copa, parece andar desacreditado. Eu — com a minha opinião de quem ainda acha o Leonardo lindo, mas que não faz a menor ideia do que seja gol de trivela — acho que não falta ao Dunga talento, competência e muito menos disciplina. Falta ao Dunga o jeitinho brasileiro, um toque de malemolência, um sorrisinho de vez em quando. Dunga, em sua missão de ser Mestre, virou Zangado. Espero que essa historinha tenha um final Feliz. Porque, como em 1994, eu estou preparada para perder. E principalmente para ganhar.


www.blogdaferdi.blogspot.com

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quarta-feira, 9 de junho de 2010

CRONICAMENTE DISTANTE >> Carla Dias >>

Começo essa crônica sem saber aonde ela vai me levar. Não há um assunto em pauta, uma inspiração, tema que fiquei ruminando, nos últimos dias. Não há um filme que assisti ou um livro que li, uma canção que escutei e que me fez pensar em dizê-la.

Desamparada pelas ideias, aqui estou, numa nudez desapropriada de pudores. Esvaziada, olho ao redor e vejo apenas objetos: calculadora, grampeador, papel, caneta, porta, cadeira, computador e os meus dedos teclando essas palavras, enquanto meu pensamento está completamente no momento, o que é raro para mim.

Não viajo em entrelinhas, não tenho taquicardia por pensar sobre os desejos que escondo até de mim. O tempo não me afoba, a temperatura está agradável, o mundo segue seu rumo sem a minha intervenção.

Tenho sede: já volto.

Voltei... Matei a sede sem precisar de poesia. Matei a sede com água como toda sede dever ser extinta. Bebi do copo, não da ausência da companhia. Engoli líquido, não o nó na garganta.

Aonde será que me levará essa crônica cronicamente distante dos meus cotidianos rompantes emocionais? Porque olhando de longe, pode-se até pensar que sou comedida, mas me observando de perto, olha, sou doida varrida com muito orgulho.

Uma doida varrida que nesse agora está lúcida de um jeito nada melodramático. Lúcida de lucidez indiferente. Então penso se devo repensar o pensamento. E o sentimento? Porque é apenas o telefone que toca, o fixo e o celular, ao mesmo tempo, e a campainha, e as pessoas dizendo assuntos que não me mantém atenta, mas apenas me distraem, enquanto o tempo passa.

Um café cairia bem...

Caiu... Fresco e quente, sem antagonismo.

E daí que o pensamento foge e vai aonde essa crônica nunca pretendeu chegar. Desarruma a casa das certezas, cutuca a impaciência, acordando a dita. Desflora a tranquilidade.

Hora de reescrever a minha identidade?

Termino essa crônica sem saber onde ela me trouxe. Vou ter de desfrutar da inquietude, revirar alguns conflitos, bebericar romance, benfeitorias, intensidade. Remexer delírios e, quem sabe, até a próxima crônica eu saiba onde estou e o que me cabe.

Imagem: Juja Kehl >> www.flickr.com/photos/juja_kehl

www.carladias.com


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terça-feira, 8 de junho de 2010

A MINHA PRIMEIRA VEZ >> Clara Braga

Lá estava eu, chegando em casa em um daqueles feriados parados que mais parecem dia de domingo. Sem ter muitas preocupações, sem muito no que pensar, resolvi sentar na frente do computador pra checar meus e-mails. Quando abri lá estava, bem ali mesmo na caixa de entrada a oportunidade de ter a minha primeira vez. Eu não ia precisar nem fazer muita coisa, bastaria apenas que eu aceitasse o convite e pronto, a data já estaria automaticamente marcada. É isso mesmo, a proposta pode até ter chegado de surpresa e me pego desprevenida, mas minha primeira vez teria data marcada.

Antes mesmo de responder, eu já tinha em mim a idéia fixa de que eu queria que acontecesse, mas é normal ter dúvidas nesses momentos. Será que estou realmente pronta? Será que sou madura o suficiente para assumir essa responsabilidade? Se eu aceitasse, teria que ter em mente que, depois da primeira vez, teria que repetir a dose semanalmente sem deixar ficar sem graça, sempre tentando coisas novas... Ah, e é bom deixar bem claro, pode ser viciante! Bom, só havia um jeito de saber se eu daria ou não conta do recado, eu teria que topar e estar pronta no dia certo!

Já na hora de responder ao e-mail, foi instantâneo: bateu aquele frio na barriga que dá quando a gente quer que algo novo nos aconteça, mas sente a pressão de querer causar uma boa impressão logo de cara, afinal a primeira impressão é a que fica. E foi com esse friozinho gostoso na barriga que eu respondi ao e-mail dizendo que sim, eu topava com certeza fazer parte desse grupo de cronistas que escrevem pro Crônica do Dia! Seria um prazer, literalmente!

Espero não fazer feio perto dessas pessoas que eu já vinha acompanhando de perto como seguidora do blog, e espero também que ler minhas crônicas seja tão prazeroso para vocês quanto é para mim escrevê-las. E pra terminar a minha estreia eu queria dizer que eu bem que tentei fugir do clichê, mas às vezes para fazer com que todos entendam o que eu estou querendo dizer, só mesmo um bom e velho clichê: A primeira vez a gente nunca esquece!

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domingo, 6 de junho de 2010

O IDEAL E O REAL >> Eduardo Loureiro Jr.

Sei que não parece, mas já fui muito exigente. Quem me vê assim, tranquilo, satisfeito com as coisas do jeito que são, não imagina o quanto eu já reclamei meus supostos direitos e clamei aos céus o atendimento de necessidades "fundamentais", sem as quais eu não poderia viver.

— Por exemplo? — o leitor, sempre curioso, há de perguntar.

Mulheres, por exemplo. Eu pensei que tinha direito a uma mulher ideal e já pedi muito a Deus que me desse uma mulher assim...

Fisicamente, apenas um pouco mais baixa do que eu. Cabelos longos e dourados (mas não pintados), quase encostando na bunda, que teria de ser grande, sem ser exagerada. Seios fartos, até com uma certa tendência ao exagero. Uma mulher esguia, não magrela. Pele macia, de fina penugem. Mãos e pés delicados, nem grandes nem pequenos. Pernas grossas, não marombadas. Olhos alternando entre o verde e o azul, de acordo com a luz do ambiente. Voz de quem canta, e que cante mesmo, e muito bem, mas sem aquele tom de impostação. Quanto mais natural o corpo, melhor. Nada de batom nos lábios, pintura nas unhas ou saltos nos sapatos. Sandálias baixas, de preferência. Perfume só se for tão sutil que parece que nem foi colocado.

Os gestos, os movimentos, são importantíssimos. A mulher deve andar feito uma bailarina e correr feito um cavalo — a perfeição está nessa graça selvagem. Embora saiba dançar muito bem, e participe de um ou dois grupos de dança, deve ter paciência comigo, que não sei dançar e que prefiro ficar só olhando. Há que se ter discrição, aqui também não fica bem o exagero. A mulher deve falar quando convidada, mesmo que seja apenas com o olhar, e há de possuir o dom da oratória escondido em uma cativante simplicidade. Mas, acima de tudo, tem que ser uma fiel amiga do silêncio.

É preciso que possua habilidades manuais: que tanto saiba costurar quanto fazer pequenos consertos. Que toque um instrumento, de preferência a flauta transversa. Que saiba fazer um bom embrulho de presente. Que cozinhe com perfeição desde um simples molho de cachorro-quente até um complexo peixe. E que, depois da refeição, a cozinha fique limpa, com cheiro de nova. Organização é primordial em uma mulher: cada coisa no seu lugar, sem mancha no chão, sem farelo na mesa, sem louça na pia. Mas, mais uma vez, sem exageros: convém deixar a cama por fazer pelo menos três vezes por semana.

Há que ser companheira: minha melhor amiga. O ideal é que torça pelo São Paulo e ainda guarde, da infância, a torcida pelo Fortaleza. Deve acompanhar, e entender, o futebol. Também o basquete, o vôlei e o tênis. E que tenha memórias de quando era uma esportista. Deve ter disposição para caminhar diariamente, seis, oito, dez quilômetros, de pés descalços na beira da praia. A saúde, claro, em perfeito estado: sem cansaço nem estresse. E nada de vícios: nem bebida, nem fumo, nem compras, nem fofoca.

Assim como é minha amiga, deve ser amiga de meus amigos: gostar de recebê-los em casa para um papo e comparecer aos aniversários. Deve compartilhar meus hobbies: ser inteligente e hábil em jogos de tabuleiro; conhecer um tanto de história da música e do cinema; ser descolada nas novidades informáticas e internéticas.

A mulher ideal lê o que eu escrevo, antes de ser publicado, e é uma perita em revisão. Não deixa passar um equívoco, mas respeita os erros voluntários de estilo. Entende as brincadeiras, as ironias, as elipses. E, acima de tudo, admira o texto, mesmo que trate de outras mulheres — tem segurança suficiente para não ter ciúmes. Além disso, escreve também com mestria, seja uma dissertação de mestrado ou um simples e-mail. E trabalha comigo em projetos criativos.

Sexualmente, gosta de fazer — e não apenas de receber — preliminares. Massageia-me do couro cabeludo até a ponta des pés — de costas depois de frente — antes de fazermos sexo. Está completamente umedecida antes mesmo de tirar a roupa. Goza três vezes em questão de vinte minutos: uma quando a penetro pela primeira vez; novamente quando a penetro depois de colocar a camisinha; e uma terceira vez junto comigo. Remexe os quadris como uma passista de escola de samba e domina a arte do pompoarismo. Molha meu peito com as lágrimas quentes de seu prazer emocionado. E ainda faz sexo anal de vez em quando. Depois do amor, deita em meu peito e fica ali. Não se levanta para tomar banho, mas adormece comigo. E me faz cafuné e me amolega todos os dias.

A mulher ideal é inspiradora como a lua, sedutora como as sereias, surpreendente como as nuvens, protetora como a Mulher Maravilha. Não tem filhos. A mulher perfeita é amiga, amante e mãe. Existe só para mim. Se adoeço, sabe tratar-me. Se erro, sabe perdoar-me. Se enlouqueço, transforma a loucura em projeto. Minha deusa escreve certo por minhas linhas tortas.

*

Tal é a mulher que, por tanto tempo, acalentei em meus pensamentos e em meu coração. O leitor vai dizer que tal mulher só existe em minha cabeça. E hei de confessar que sim, assim assim, todinha uma só, ela apenas existe na minha cabeça, mas sem esquecer de que ela é a combinação das mulheres que já conheci. Houve mesmo um tempo, o tempo quase todo de minha vida, que procurei por essa mulher, sem jamais encontrá-la exatamente assim.

Foi quando percebi que mais vale uma mulher real na mão do que uma mulher ideal na imaginação. Não mais reclamo nem clamo. Apenas amo a mulher que escolhi para mim.

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