sexta-feira, 30 de abril de 2010

CARTA PARA TAÍS >> Leonardo Marona


clique na imagem acima para ler a carta.
a seguir, basta usar o zoom e... voilà!







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quinta-feira, 29 de abril de 2010

OS 3 PEDIDOS >> Kika Coutinho

Eu estava muito concentrada, de olhos fechados, quando a pessoa já foi dando o segundo nó. “Péra!”, eu gritei. Queria mentalizar com calma. Tinham me dito que aquela fitinha do Senhor do Bonfim era infalível e que, para cada nó, eu poderia ter um desejo. No primeiro, com o pulso esticado enquanto uma amiga amarrava para mim, do alto dos meus oito anos, eu mentalizava com força: “Casa da Moranguinho, Casa da Moranguinho, Casa da Moranguinho." Queria muito aquela casa... Quando permiti que ela desse o segundo nó, parti, ainda em silêncio, para o próximo pedido: “Banco Imobiliário, Banco Imobiliário, Banco Imobiliário”. Respirei, abri os olhos e disse “Está bem”, liberando-a para o último nó, quando eu voltei a cerrar os olhos pensando: “Coleção do pequeno pônei, pequeno pônei, pequeno pônei”.

Pronto. Eu olhei para o meu braço e admirei a fitinha do Senhor do Bonfim com os três nós que reluziam meus desejos mais ardentes, em breve esses sonhos se realizariam.

Ah, esses eram meu principais problemas. Além de, claro, tirar 6 na prova de matemática, não pegar recuperação, poder passar o sábado no térreo brincando ou a última figurinha daquele álbum.

Alguns anos se passaram e, prestes a me casar, eu tinha de cortar um bolo, quando alguém gritou: “Faz um pedido”. Fechei os olhos com força, e pedi que a minha cerimônia de casamento fosse lindíssima. Que as flores estivessem no lugar, que a comida estivesse quentinha, que o padre não faltasse, que a música estivesse animada. Lembrei-me daquela criança com a fitinha amarrada nos braços e achei-a uma pequena tola. Ela achava que tinha problemas, mas não imaginava o que era ter de organizar um casamento, contratar buffet, DJ, coral, decoração. Eu sentia-me cansada e estressada, isso sim era problema.

Hoje, quatro anos e um filho depois, também olho para aquela jovem noiva com desdém. Que boba eu era. Achava-me tão atribulada, sentia meus ombros pesados e cansados e, afinal, quais eram os meus problemas? Do que eu reclamava? Ah, se eu pudesse me ver hoje... Ah, se aquela noiva enxergasse a mulher na qual se transformaria apenas alguns anos depois... Enquanto passo madrugadas acordada cuidando do meu bebê, penso que era ridículo eu achar que tinha problemas. Eu era uma menina jovem, magra, livre. Saia para jantar, ia para a praia quando queria, cinema, teatro, roupas. Quais eram mesmos os meus problemas?

Agora, passeando com a minha filhota no parquinho, tenho que ficar atenta àquela tossinha dela, pensar se mamou bem, se vai dormir direitinho, e, ao mesmo tempo, lidar com a volta ao trabalho, com as contas, com a babá, com a empregada, a depilação, aff, uau, quantos problemas, eu suspiro fundo.

De repente, ainda no parquinho, uma senhora de bengala se aproxima de mim, olha para o carrinho e diz: “Que gracinha”. Eu agradeço quando ela, se apoiando na bengala, sorri, complementando: “Que vida boa, né?”. “Ah, é verdade... mama e dorme” respondi, concordando. “Não, não a dela. A sua...” A senhora falou, batendo de leve no meu ombro e soltando uma risadinha. Fiquei ali, parada, sem resposta. Assisti enquanto ela se afastava para longe, devagar, andando com dificuldade, certamente pensando no quanto foi tola quando era jovem, talvez com o seu bebê pequeno, sentindo-se uma mulher cansada e cheia de problemas...

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quarta-feira, 28 de abril de 2010

MANOEL EM MIM >> Carla Dias >>

Manoel de Barros é um poeta que me conquistou sem precisar sorrir aquele riso largo de poesia escancarada. Lembro-me do primeiro poema dele que li e me deixou meio abismada, com a alma boquiaberta. Do livro “O retrato do artista quando coisa”, garimpado de um editorial que não me lembro qual, dizia o poema: “Se a gente falasse a partir de um córrego/a gente pegava murmúrios.” E “Só as palavras não foram castigadas com a ordem natural das coisas./As palavras continuam com seus deslimites.”

Os próprios títulos dos livros de Manoel de Barros são instigantes, provocam a vontade do receptor de sua poesia de endoidecer para descoisificar a si e descobrir que ser ou não normal não vem ao caso, mas sim ser, simplesmente e com todas as complicações que cabe a cada um de nós.

Em momento tão calcado na realidade explícita, os reality shows pipocando, nos mostrando histórias inventadas para rezarem verdade inventada, e histórias dissecadas sem cuidado qualquer. Nesse momento de necessidade de estar na pele do outro, de ter direito de votar em para que ele seja isso ou aquilo, só me vem o desejo de me aprofundar na realidade alternativa do destempero do tempo. Embrenhar-me na locomotiva estacionada nas nuvens, só para sobrevoar o lugar-nenhum onde sorrisos moram em masmorras, à espera de pícaros heróis que irão resgatá-los e espalhá-los pelo mundo. E como diz Manoel de Barros: “Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:/a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca.”

Acredito que o poeta seja desses que pegam a realidade e a enfeitam com sutilezas e carinho as cruezas e as dolências... Contanto que elas digam assobiando, porque assobio é música. Há quem pense em criar uma orquestra de assobiadores tresloucados para assobiar a discografia dos Beatles. Ouvi dizer...

Uma das verdades é que a liberdade que a poesia oferece é das arrebatadoras. Seja no olhar moleque de um adulto Manoel de Barros ou na melancolia de um Rimbaud. Os poetas tecem cenários nos quais os que passam perdem olhar e coração, perdem a si e se perdem com gosto.

Alimentar a alma não basta... É preciso, depois da comilança, exercitá-la, colocá-la para caminhar e, ao ver navios, decidir uma viagem inusitada. É preciso que a alma tenha a sua identidade para que não deixe de cochichar nos nossos ouvidos a poesia, essa amante inquieta, fascinante, que traz escrito na barra da sua saia o segredo que nós, reles humanos, passamos a vida a buscar. E por não o encontrarmos, o inventamos, cada hora de um jeito.



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segunda-feira, 26 de abril de 2010

RIMAS, ABRAÇOS E CURATIVOS
>> Albir José da Silva

Dia de luz, festa do sol, e o barquinho a deslizar, Copacabana, céu e mar. Sol quente, areia quente, água fria, vou entrar. Tá cheio de criança no mar, que m’importa se eu não sei nadar?

E na cadência da pobre rima fui andando e corrompendo a obra de Bôscoli e Menescal, água na canela e precaução, tudo é paz, tudo é verão.

Dois passos à minha frente, uma senhora, cabelo vermelho nas pontas, braços estendidos para o mar e uma voz solene:

- Vem, meu filho, vem me dar um abraço! – se não falava com as pessoas a sua volta, também não se importava que ouvissem.

É o Rio de Janeiro: quando tudo está bom, alguma coisa tem de acontecer ou o tédio se instala. E aconteceu aquela invocação. Trocaram-se olhares, risinhos, alguns gargalharam, outros apontaram o cabelo vermelho, e assim estabeleceu-se a cumplicidade entre desocupados à procura de uma vítima. Dei mais alguns passos e me senti pertencendo à malta. Ria, enquanto pensava, e cometia novas rimas, se era ecologia, religião, filosofia, lirismo ou psiquiatria, o que levava alguém a convidar Netuno para um abraço.

Não pensei por muito tempo. A onda explodiu no meu peito e eu caí sentado. Com o susto, inspirei com força e a água entrou pelos sete buracos da minha cabeça, como diria Caetano. Era o começo das dores. A areia embaixo de mim começou a fugir e eu fui atrás dela, arrastado sobre outras camadas que também se moviam para o fundo. Pela fricção percebi que já não havia mais o tecido de proteção entre mim e o chão e, pela ardência, imaginei a água se tingindo de vermelho. Como a areia, a água também voltou para o fundo e me descobriu a cabeça. Mas não durou muito.

Outra onda me atingiu e eu me senti numa lavadora. Batia a cabeça, às vezes o pé, o ombro se arrastava e subia, e agora eram as costas, e eu girando, sem saber se já estava no fundo do Atlântico ou a poucos metros do calçadão. Estiquei braços e pernas tentando encontrar o chão. Mas onde estava o chão?

O chão ia continuar desaparecido ou surgindo em forma de lixa por muito tempo. Muitas sacudiduras depois, muitos litros de água salgada no estômago e quem sabe no pulmão, o mar se cansou e devolveu seu brinquedinho à areia. Outras ondas ainda me alcançaram, mas me permitiram ficar lá, de bruços, guinchando para respirar. A água foi generosa, pois se afastou a lycra para melhor me esfregar no chão, ela própria se encarregou de recolocá-la quase no lugar. Esse quase provocou risos e piadas, mas evitou linchamento por ato obsceno.

Divertiram-se as pessoas, depois foram cuidar de suas vidas porque nem estabacado na praia eu merecia toda essa atenção. Com a dignidade que me restava, tentando encobrir uma escoriação mais ridícula, puxei pra cima a lycra cheia de areia, e fui para casa.

Até hoje não sei se irritei o mar, a bossa-nova, ou os dois. Isso aconteceu há alguns anos e tenho voltado regularmente à praia. Nessas ocasiões, estendo os braços, confiro se ninguém está me observando e repito discretamente:

- Vem, meu filho, vem me dar um abraço.

Pode ser que não tenha nada a ver, mas, como fazem Chico e Vinícius, “eu, que não creio, peço a Deus por minha gente”.

E a verdade é que,
depois desse cuidado,
ainda peco pela rima,
mas nunca mais
morri afogado.

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sábado, 24 de abril de 2010

O BEM E O MAL [Debora Bottcher]

A imensa troca de percepções que se faz nesse espaço surpreende e faz pensar. É como o abrir-se do olho do furacão: uma roda-viva de considerações - todas pertinentes, ainda que sob prismas diversos. Então, talvez seja interessante polemizar um pouco sobre a expiação dos erros - se é que isso existe.

Há algum tempo, li do escritor judeu Harold S. Kushner o livro "Quando coisas ruins acontecem a pessoas boas". Muito polêmico, o autor questiona o onipotência, onisciência e onipresença de Deus: ele acredita no acaso irrestrito dos acontecimentos.

Isso nos remete à idéia de que nada tem alvo definido, tudo é obra da coincidência; não há destino nem predisposições, muito menos sorte ou azar. Para ele, a teoria de que os maus pagam por seus erros, não existe: estamos todos à mercê das tragédias, em completa igualdade.

No preâmbulo, tem um texto de Henry Sobbel que sintetiza a idéia:

"Existe uma aleatoriedade no Universo e a natureza é moralmente cega. Desta forma, não é Deus que causa a tragédia, a doença, o sofrimento. Um terromoto ou uma bomba não distinguem entre pessoas boas e ruins. Nem o câncer. Nem o derrame cerebral. Não são atos de Deus: são atos da natureza."

Cada um de nós tem seus próprios conceitos - normalmente superarraigados - sobre o bem e o mal. Também tenho os meus e eles sempre deram conta de uma justiça infalível: a Lei do Retorno, soberana. Não posso crer que ela não exista: fica sem sentido, pra mim, um mundo sem uma justiça maior - e nem falo de Deus exatamente (porque cada um O concebe à sua maneira) -, mas da vida. Tem que haver um mecanismo universal que, de alguma forma, pune a maldade e enaltece a bondade (de algum jeito, qualquer jeito).

Entendo que fazer o bem beneficia a nós mesmos, mas seria terrível saber que quem faz o mal pode vir a ser premiado com a randomicidade e nunca receber de volta o que semeou.

Li o livro por curiosidade. Talvez faça sentido, mas a mim não convenceu. De toda forma, podem ser hipóteses a considerar...

Você... O que acha?

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sexta-feira, 23 de abril de 2010

A MADRUGADA DOS ESCRÚPULOS >> Leonardo Marona

Às duas e cinqüenta da manhã, Samantha Liu entrou no banheiro da Pizzaria Guanabara para retocar a maquiagem. Entrou assobiando a Aquarela do Brasil. Nas mesas, do lado de fora, mais ou menos a mesma cena de sempre. A cena Baixo Leblon de sempre. Mesas com uma média de cinco pessoas dentre as quais uma tem o dinheiro e paga a conta e as outras são agregadas ou puxa-sacos e riem e bebem sem parar.

Assim que Samantha meteu a cara no espelho, a ponta do nariz quase no vidro, o buço esticado pro batom, ouviu uns ruídos de dentro de um dos toaletes. De repente a porta explodiu na parede e uma mulher que um dia deve ter sido loira, mas que estava com o cabelo verde no momento, apareceu sentada na tampa da privada. Suas olheiras iam quase até os pés e ela tinha uma nota de 1 real enrolada e um espelhinho de bolsa numa mão. Havia outra mulher ali dentro com ela, mas estava muito escuro e Samantha não teve muito tempo para refletir, porque a loira logo atacou.

— Sua puta! Não tá vendo que o banheiro tá ocupado, porra!?

Samantha tentou de tudo para ignorar a mulher e continuou com a Aquarela. Mexeu um pouco nos cabelos pr’um lado e pro outro, sacudiu um pouco a franja e, quando se virou para ir embora, levou um murro mata-rato da loira, que parecia fora de si, com os dentes trincados. “Que isso, sua maluca?!”, foi o que Samantha pôde dizer quando sua cabeça veio abaixo. Agora dava para ver melhor a mulher que estava lá dentro junto com a loira: era uma morena gorda que vestia uma calça de magra e por isso parecia ainda mais gorda. Chispou pra fora do banheiro. A loira se agarrou nos cabelos de Samantha, que não conseguia ver nada e nem mesmo reagir. Dois ganchos no meio do nariz, um pouco de sangue espirrou. “Agora você tá me escutando, sua vaca?”, gritou a loira. “Agora você tá prestando atenção?”.

Samantha juntou as forças do chão e segurou a loira pelos cabelos. As duas estavam fazendo a mesma coisa. Uma puxando a outra pra baixo até que as duas se encolheram sobre os joelhos e caíram sentadas. A loira se mexia muito e chicoteava com o corpo, o que dificultou um pouco a vida de Samantha. Mas ela ganhou alguns pontos quando conseguiu agarrar a cabeça da loira com um alicate de braço e começou a forçá-la na direção do encerador de sapatos, ao lado da pia. Fizeram bastante barulho. A loira chutava pra todos os lados e cuspia pra cima e parte escorria pelo queixo. Samantha arrastou a cara da loira por um tempo no encerador de sapatos, até que dois garçons invadiram o banheiro e seguraram as duas. Samantha imediatamente se conteve e olhou pro espelho ajeitando os cabelos e o colar de marfim. Tinha ficado um risco horizontal de sangue bem no meio do nariz. “Tirem essa maluca daqui!”, disse Samantha. “Ela tava cheirando no toalete e me atacou. Tinha outra com ela, que fugiu correndo”. “Lídia, garota, outra vez a mesma coisa?”, disse o garçom que segurava a loira pelos braços. Ela estava morta como um boneco de pano. Morta e murcha, com os olhos virados pro nada. “Ah, foda-se Túlio. Foda-se tudo. Vou pra casa”, disse a loira. E saiu soltando uns tapas no ar, com a cara amarrada.

Escoltaram as duas lado a lado pelo bar. Ninguém nas mesas nem mesmo virou o queixo. Brigas entre mulheres eram freqüentes ali. Uma vez a Vera Fischer fez o papel que dessa vez tinha sido da loira. Mas com a Vera Fischer a polícia teve que aparecer, porque, afinal, era a Vera Fischer. Enfim, egos estufados e muita coisa pra dizer ao mesmo tempo dão nisso.

***

Raoul Lopez odiava ser chamado de Raoul López. “É Lôpez, porra! Lôpez!”, dizia sempre, vermelho de raiva. Era quase sempre assim que as brigas começavam. Ou então por causa de uma risada na hora errada, que nunca era a hora errada pra ninguém, só pra ele. Escritor maluco excêntrico, daí pra pior. Vivia da melhor forma possível, como se o último dia fosse o próximo. Claro que, pra isso, tinha uma companheira que limpava as sobras da festa: Gilda. Gilda, à moda antiga, era uma daquelas de cabelos cacheados caindo na testa. Uma daquelas que usam boinas no verão e assopram cigarrilhas por aí. Das que lêem Clarice Lispector e querem falar sobre os seus suspiros quando ninguém quer ouvir.

Vinham virando a esquina, Raoul e Gilda, cinco e dez da matina, e os únicos barulhos eram o das árvores e dos sapos. Sapos? Raoul foi procurar os sapos. “Onde estão esses malditos sapos que não param de fazer esse barulho infernal? Ficam peidando pela boca!”. Se agachou na grama, perto de um canteiro de árvores, e o risco da bunda apareceu pra fora das calças. Gilda bufava e olhava pros céus. Sempre fazia isso quando não tinha nada e nunca nada tinha vindo de lá de cima. Mas ela não sabia fazer outra coisa a não ser olhar pro céu e dizer que não sabia bem o que estava sentindo, isso quando brigavam feio, dia sim, dia não.

— Vamos, Raoul, não tem sapo nenhum, meu amor...

— Fica quieta, porra! Estou bem perto.

— Você viu o que a Samantha Liu falou do seu romance, querido? Querem publicar.

— Sei. E depois vão querer também lavar as minhas cuecas, imagino.

— Você devia dar uma chance às pessoas. A impressão que me dá é que não quer nada pra você mesmo.

— Olha aqui, mulher, não está vendo que estou cheio de terra entre as unhas? — e levantou as unhas do canteiro, uma cara de louco sem chance, quando bebia sem precisar parar era com essa cara que ficava.

— Mas, Raoul! Se alguém quer publicar o teu livro, você tem que se mostrar mais interessado. São pessoas legais, que se preocupam com você.

— Você sabe qual é a merda toda com esses teus amigos riquinhos de cachecol e camisas coloridas? Eles não vêem a diferença entre um insulto e um elogio. São vazios, não têm nada dentro dos olhos. Não viveram nada, passaram os anos em primeiras classes ou vendo pinturas nas paredes, mas não conhecem o mundo de verdade. Não conhecem nada que se mexa, vivem de coisas paradas, coisas prontas. Isso mesmo que tenham viajado por todo o canto. Te olham mas não estão ali de verdade. Pra eles não faz a menor diferença. Pra eles o que importa é o teu currículo. E é aí que eu entro. Vou às festas, cuspo neles e eles continuam acreditando em mim. E você, Gilda, acreditaria se eu dissesse que acabei de pegar o filho da puta? Olha como é GRANDE!

Raoul arrancou com força as mãos do canteiro, as duas cheias de terra úmida, bem na cara de Gilda, que deu um pulo pra trás e caiu de bunda no chão, os cachinhos aloirados como molas saltitando na frente da testa. Ninguém passou na rua enquanto isso tudo aconteceu. Raoul ria como um vinil arranhado rodando de trás pra frente. Tossia convulsivamente e suava no buço e no pescoço. Parecia que um bicho ia sair de dentro dele e essa era a hora em que Gilda ficava assustada e começava a chorar. “Ai, meu deus! Você precisa ir ao médico, Raoul! Vai morrer com essa tosse, não vê? Olha como fica vermelho!”. Então veio pra cima dele e o enganchou pelo sovaco para levá-lo dali. “Porra! Você tá sempre me tratando com se eu fosse um aleijado!”. E essa era a hora em que o próprio Raoul começava a chorar e a demonstrar seus sentimentos. Um monte de minhocas mortas para todos os lados. E, daí pra frente, ele daria um jeito de dizer o quanto desprezava o pai de Gilda, os amigos de Gilda, a vida calma de Gilda, sua resignação, e mais uma porção de gente que, ela jurava, gostava dele e se importava com ele.

— Ora, e daí que eles se importam?! Você vai numa missa e o padre diz, Orai, irmãos. Depois você fala com ele dentro de uma caixa de fósforos e ele diz que você está perdoado por ter matado seu patrão com um ferro de passar roupa na cabeça. E você acha que ele realmente se importa contigo quando diz que você está perdoado? Balela!

— Não, Raoul, você tá vendo tudo errado. Quem foi que falou no meu pai e nos meus amigos? Estamos falando de nós dois. Há alguma coisa muito errada conosco...

— O quê?

— Não sei direito o que é. Mas dói muito.

— Ah! É sempre a mesma coisa. Você fica por aí choramingando e não sabe nem mesmo por quê! Olha, e se eu disser que não acredito em você? Que não acredito em uma palavra que você diz?

Gilda tinha juntado as lágrimas dos olhos com o ranho do nariz, e o bico que se formou debaixo da sua boca era alguma coisa que desfigurava completamente seu rosto e fazia Raoul pensar em que tipo de buraco tinha se metido com aquela mulher neurótica e profundamente deprimida. O que os mantinha grudados um no outro? Desespero. Medo de serem abandonados no mundo. Essas coisas. Mas eles raramente falavam nisso. Não havia por que perder tempo falando sobre um tiro na alma. Para Gilda era mais fácil dizer que não sabia direito o que era. E para Raoul era mais fácil não dizer nada.

— Olha, Raoul, acho melhor darmos um tempo. Preciso pensar. Você vai pra sua casa que eu vou pra minha. Precisamos ficar uns tempos sem nos ver, porque eu já não agüento mais isso todo dia. Você vira um bicho quando bebe e parece que eu não te conheço quando isso acontece. Parece que eu sou a sua última opção.

— Inferno! Olha, se dermos um tempo vai ser um tempo pra sempre, entendeu? A vida tá uma merda e as pessoas pedem um tempo, como se um tempo fosse resolver alguma coisa. Um tempo é pra sempre, entendeu, Gilda? Pra sempre! E nunca mais quero te ver, porque simplesmente não me emociono mais com o teu choro.

Raoul sentou num banco em frente ao canteiro no qual estava antes de quatro procurando o sapo. Começou a limpar uma mão na outra enquanto falava sozinho. Gilda não parava de chorar e, do mesmo jeito, veio se sentar ao lado do seu amor. Ficaram quinze minutos sem falar. Raoul olhando pra frente, procurando o nada completo, e Gilda olhando disfarçadamente pros olhos de Raoul, como que de baixo pra cima, procurando alguma coisa que tivesse sobrado daquele que a tinha pedido em casamento e havia lhe dado um buldogue de pelúcia, batizado de Chernenko, com uma carta de amor escrita à mão, “para sempre”, segundo a carta.

Então Gilda falou:

— Raoul, eu vou indo, então. Não sei o que te dizer depois de tudo isso.

— Por que você tem sempre que dizer alguma coisa?

— Ah, deixa pra lá. Estou confusa e essas brigas todas me parecem sem o menor sentido.

— Gilda, o teu problema é que você quer moldar as pessoas pra que elas fiquem da maneira que você quer. E ninguém é da maneira que a gente quer. Eu não serei o que você quer que eu seja porque eu não consigo mentir pra você. Não vou ficar fingindo uma coisa pra você. Não vou passar a sorrir de graça e não vou enrolar um cachecol no pescoço pra “me enturmar”. Que se dane isso! Se quer alguém de mentira, compre um boneco de encher! Eu sou de verdade! Se estiver mal, vou ficar mal, se estiver bem, você vai saber disso também.

— Bom, eu estou cansada de saber. Acho que é isso. Cansada de um marido que muda a cada copo que entorna.

— Então tudo bem. Estou cansado disso também. Cansado de ter que ser outra pessoa pra você não chorar. Se quiser pode ir embora e nunca mais apareça. Arrume outro cara pra te enrabar pelas costas, que nem esses babacas com quem você vive saindo. Eu não quero saber mais. Sou frio como uma pedra. Você conseguiu. Você me deixou assim.

Gilda sentou no banco. Parecia um tipo de fim. Raoul se levantou, os dois olhando pra frente, pro nada. “Eu vou indo então”, disse Gilda com os olhos implorando pra que Raoul fizesse alguma coisa contra isso. Não fez nada. Nem disse nada. Simplesmente enfiou as mãos nos bolsos, baixou a cabeça e começou a andar pra frente. Gilda ainda ficou um tempo ali, parada, sentada, enquanto Raoul dobrava a esquina.

Não foi pra casa. A casa agora era dela. Até que ele não tivesse mais nenhuma opção e precisasse voltar com o rabo entre as pernas. Parou num orelhão e discou. O cartão tinha apenas cinco unidades. “Sim?”. “Liu, que porra é essa de ficar dizendo que vai publicar o meu livro? Você sabe que isso não é verdade”. “Raoul?! Você já viu a hora?”. “E que tem ela?”. “São seis da manhã! Eu já tava deitada”. “Então eu vou até aí deitar contigo”. E desligou. Sobraram três unidades.

Bateu na porta com a mão. Nunca usava a campainha. Samantha Liu abriu apenas meia porta. Vestia um roupão de seda cor de marfim amarrado pela cintura. Dava pra ver que tinha passado os últimos dez minutos escondendo as olheiras em algum canto.

— Samantha, já te disse um milhão de vezes que você não precisa desse pó todo na cara. Fica parecendo um palhaço.

— Você não veio até aqui me insultar, veio?

— Não. Vim ver você.

— Onde está Gilda, teu talismã?

— Você deve saber me dizer. São amigas agora, não são?

— Conversamos sobre o teu livro. Foi só isso.

— Escuta: vai me deixar aqui fora, no frio?

Abriu a outra metade da porta e Raoul entrou. Sempre entrava como que olhando pros lados, isso porque a casa de Samantha Liu era cheia de coisas para se olhar nas paredes e em cima do aparador: troféus, fotos com escritores famosos, long plays raros, quadros protegidos por grossas camadas de vidro e uma enorme estante cheia de livros aparentemente intocados. Raoul sempre se dirigia à estante, em parte por força do hábito, em parte porque não se sentia confortável naquela casa. Era rica demais para ele e parecia feita sob encomenda.

— Escuta, Liu: algum dia você pretende ler um desses livros?

Ela veio por trás e o beijou na nuca. Ele virou e segurou suas nádegas com as duas mãos espalmadas, e depois meteu a língua dentro da sua boca. Ficaram um tempo rodando, depois Raoul a largou no chão e foi até a janela. Ficou parado ali, olhando pra rua.

— Já tem gente saindo de casa. Eu acho isso inacreditável. Sábado de manhã, seis da manhã, e tem uns putos saindo pra andar na praia de moletom. Quanto tempo a mais vale isso? Você faz jogging também, Liu?

— Eu tenho uma esteira ergométrica. Escuta: querem publicar um conto teu na Confissões Cuspidas. Vão te pagar 150 pratas. É pra semana que vem. E o editor quer te conhecer. Ficou muito entusiasmado com o texto teu que eu mostrei pra ele.

— Qual texto?

— Aquele do cara que fica com o pênis ereto e não consegue mais baixar... depois que conversa com uns amigos sobre sexo tântrico.

— Ah, esse! É o tipo de coisa que vende. E esses editores adoram uma putaria. Aposto que ele não falou nada daquele em que eu dizia que era o melhor desde Dos Passos.

— Não, desse ele não falou nada. Acho que não conhece Dos Passos.

— Nem eu, mas e daí?

Samantha virou e foi até o balcão do bar que ficava no canto da sala, perto da cozinha. Encheu uma taça de Dry Martini e jogou uma cereja dentro. As cerejas ficavam num pote de vidro polido ao lado. Raoul se virou com o barulho que veio de lá.

— Seis da manhã, mulher! Já vai começar?

— Eu bebo pouco. Você sabe disso. Quer alguma coisa?

— Pepsi-cola. Tem aí?

— Tem Coca. Serve?

— Então me dá um uísque. Puro.

— Seis da manhã, homem! Já vai começar?

— Sem essa pra cima de mim, oquei? Você faz muito bem o tipo bebo-socialmente-das-seis-às-seis-depois-caio-vomitada-num-canto. Não se bebe Martini, querida. A menos que você tenha muito medo de admitir que é uma alcoólatra.

— Vai à merda, tudo bem?

— Estou aqui.

— Não sei como a Gilda te atura.

— Ela não me atura. Me mandou passear. Escuta: o que é isso inchado no teu nariz.

— Uma vagabunda. Me deu um pau lá no Guanabara.

— Você não acha que tá um pouco velha pra brigar em bar?

— Acho que não. Bati nela também. Enfiei a cara dela no encerador de sapato.

— Ótimo. Então estou bebendo com uma assassina às seis da manhã. Isso é excelente.

Raoul largou o copo, se aproximou e agarrou Samantha novamente pelas nádegas. Suspendeu a mulher no ar e foram para o banheiro. Alguma coisa os afastava do quarto. Talvez fosse o compromisso. Talvez fosse algum tipo de escrúpulo. Raoul sentou na privada tampada e Samantha veio por cima, de costas pra ele. Ele beijou seu seio pelo lado das costelas e ficou acariciando o bico do outro com uma das mãos. Liu era daquelas que gemem baixinho, que têm vergonha de gemer. Ficaram o tempo todo na mesma posição. Liu apenas manobrou o pau de Raoul pra dentro do estacionamento coberto de pêlos aparados. Quando ele entrou, ela soltou o ar com força e dobrou a cara. Ele fez com que ela abrisse as pernas com uma mão sob sua coxa. Ela então apoiou um dos pés na beirada da banheira e ficou quicando sobre Raoul. A tampa da privada escorregou uma vez, mas eles não podiam mais parar. Samantha virava e lambia a cara de Raoul, para demonstrar seu prazer. Sua língua estava gelada e isso era um bom sinal. Uma língua gelada numa mulher solitária significa prazer extremo. Mas ele sempre odiava quando lambiam sua cara. Só que nunca fazia nada porque senão perdia a concentração.

O problema todo foi ter ficado ali dentro muito tempo depois de gozarem. Exaustos, culpados, perdidos. Isso servia para Raoul, para Samantha jamais. Pelo menos não que ela soubesse ou admitisse. Era uma “mulher segura que trepava com quem quisesse”. E o que fazem os homens seguros? Depois de uns cinco minutos descansando, ainda na mesma posição, um encaixado no outro em cima da privada, Samantha saiu de Raoul e uma gosma horrorosa de esperma acumulado grudou na coxa dele. “Que nojo!”, gritou Raoul. “Olha isso aqui!”, e apontou pra gosma na coxa. Gilda limpou a gosma da coxa de Raoul com uma tira de papel higiênico. Depois lavou os copos e foi se deitar. Raoul dormiu na sala. O mesmo motivo que o fazia transar com Liu no banheiro o fazia dormir na sala.

***

Gilda ainda estava um pouco inchada quando o telefone tocou. Era Lídia implorando para encontrá-la. E o amor eterno ficaria para a próxima novamente.


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quarta-feira, 21 de abril de 2010

POST-IT >> Carla Dias >>


"Life is what happens to you,
While you're busy making other plans"
John Lennon



Recordo-me como fosse filme antigo que assisti, mas sem prestar muita atenção, lamentando a distração ao ver em que final ele foi parar. Recordo-me de algumas poses que, moleca, achava que era coisa de gente grande, então não precisava compreender.

Recordo-me do silêncio quase absoluto das minhas emoções. Quando elas ainda engatinhavam, eram alimentadas por outros, porque ainda não sabiam comer de garfo ou colher. Hoje também uso a faca.

Às vezes, essa recordação é apenas um zumbido baixinho, que atazana um pouco a minha concentração. Como quando estava nessa reunião, ouvindo as mil e uma peripécias comerciais do orador, ciente de que ele trabalhara um tanto para que nossos arranjos comerciais dessem certo. Mas não pude evitar...

Enquanto ele dizia e eu não ouvia, as mãos suadas dele descansando sobre as pernas, e as minhas distraindo as folhas do bloquinho de post-it, certamente pensando por elas mesmas sobre as palavras que desejavam rabiscar. Enquanto ele dizia estratégias eu não as ouvia, na minha cabeça outras ideias faziam festa. E se eu simplesmente me levantasse e fosse embora, sorrindo, porque não sou de deseducar? Se eu simplesmente me desconectasse desse momento e fosse dar uma volta pelo mundo, entregue às surpresas que tantos dizem haver detrás da porta de saída?

E se?

Quem nunca navegou nessas águas?

Mas enquanto ele continua, tão enfadado com o seu próprio monólogo, permaneço onde estou, rabiscando casinhas, árvores e palavrinhas soltas nas folhas do post-it. E penso: poderia escrever um livro inteiro em vários bloquinhos de post it, em diversas cores e tamanhos, colar suas partes em diversos lugares para que as pessoas pudessem encontrá-los e buscar pelo seu começo, meio e fim, encontrando algo muito mais especial: umas as outras.

Uma das professoras de História que tive, na época do colégio, dava suas aulas de um jeito tão apaixonado que não havia como não aprender. Além do mais, tratando-se de História, nada mais lógico do que contá-las, ao invés de nos fazer decorar páginas e páginas de um livro. Havia aquela paixão que fazia os seus olhos azuis brilharem e seus cabelos ruivos e espalhafatosos balançarem todos. Estudar História com ela era quase o mesmo que viajar para aqueles lugares, pertencer àquelas diferentes épocas.

Ouço o moço dizer que melhor mesmo é aplicar meu esforço no que sou capaz de fazer, e não ficar me danando com as experiências. Então, distraio-me com suas mãos sendo jogadas ao ar, como fossem gaivotas endoidecidas.

O que será que elas dizem?

Ainda bem que há pessoas que se interessam pelo que são capazes e ponto. Que conseguem ser específicas, diretas, fazer com que aconteça. Para a decepção desse moço, que parece gente boa, acertado com suas escolhas, eu sou das que adoram experimentar, que não me adapto fácil ao definitivo. E gosto de quem conta histórias por ter se apaixonado por elas.

Penso: uma biblioteca de post-it...

Houve esse moço que saiu de uma reunião chatíssima e foi para casa, ele estava absurdamente chateado. Chegando lá, encontrou a quarta página do terceiro capítulo do segundo livro que chegou ao primeiro lugar colado na porta da geladeira. Apertou os olhos e leu... E tudo mudou. Mudou de um jeito que ele jamais imaginaria ser esse tudo capaz de mudar. Mudou no susto e ele gostou. Ele não deixou de ser quem era. Apenas adicionou às suas certezas um pouco de flexibilidade. E agora ele as vê assim: dançarinas.

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domingo, 18 de abril de 2010

A PONTE DA SAUDADE >> Eduardo Loureiro Jr.

"Gratidão é a memória do coração."
(Antístenes)

"Sempre hei de recordar esteja onde for
Daquele jeito simples que me conquistou
E que só nos dá beleza em cortesia"

(Validuaté)

Não sei por onde começar. Mesmo sabendo que é tarefa de um escritor se organizar e só levar ao leitor uma versão que o conduza de um ponto a outro, como se fosse uma ponte, não sei por onde começar, tampouco onde quero chegar.

Talvez baste dizer que fui feliz, e aqui é preciso diferenciar dois tipos de felicidade: a felicidade instantânea, fugazmente eterna, de caráter transcendente, e a felicidade cotidiana, prosaica, humana.

Já fui feliz das duas maneiras. Fui feliz durante poucas horas, numa felicidade que não ouso sequer desejar que se repita um dia — não sei se um ser humano merece ser feliz assim, tão completamente, mais de uma vez na vida.

Também já fui feliz do outro jeito, no miúdo dos dias. Quando fui feliz desse segundo jeito, eu costumava caminhar, todos os dias, pela manhã ou à tarde (às vezes pela manhã e à tarde) na beira do Rio Poti em Teresina. Minhas primeiras caminhadas tiveram a companhia de meus anfitriões na cidade: Arimatéia e Graça, Ari e Gracinha. Em conversas amenas, eles me falavam da cidade que tanto amavam e na qual eu estava chegando após uma separação que só posso comparar a uma morte terrível. Eu era uma espécie de zumbi chegando a Teresina no início dos B-R-O brós: setembro de 2005. Enquanto Gracinha me dava o tão necessário colo, curando-me as feridas com seu carinho e com suas gargalhadas, Ari me ensinava seu humor pequeno, diário, com rápidas tiradas, algumas delas geniais. Foi ele que me falou das BRs. Não, nossas conversas não giravam em torno de questões rodoviárias. BRs eram as balança-rabos, as mulheres que também caminhavam na Av. Raul Lopes. Os rabos, que fique bem claro, eram os rabos de cavalo dos cabelos longos que balançavam de um lado para o outro enquanto as mulheres caminhavam ou corriam. Havia um trecho em que o calçadão estava reduzido devido a uma construção: "Ponte estaiada de concreto protendido", dizia a placa. E eu disse a mim mesmo: vou procurar no dicionário o que é isso. Mas nunca procurei.

Após um mês, aluguei meu próprio apartamento junto com um primo querido, que também estava a trabalho em Teresina. Comecei então uma rotina cuja atividade mais esperada era caminhar na Raul Lopes. Muito do que acontecia em outros espaços — na universidade, no centro espírita, no shopping — retornava à Raul Lopes da melhor maneira que as coisas podem retornar: no encontro com as pessoas. Embora minhas caminhadas solitárias fossem maravilhosas, seja ouvindo ou fazendo música, bom mesmo era quando eu encontrava alguém para caminhar. Nossas conversas quase nunca eram sobre temas banais — política, meteorologia, fofocas. Entrávamos mesmo — com a fala — era na alma e no corpo da gente. De conselhos espirituais a orientações sexuais, de cânticos a cantadas, da vida encravada feito unha ao prazer desmedido de paixão. E, sempre que passávamos pelo meio do calçadão, tínhamos que parar um pouco a conversa para passar, quase em fila indiana, pelo ponto em que a calçada estava reduzida devido à construção da ponte, que parecia estar parada.

Alguns meses depois, eu me sentia completamente à vontade na cidade e na minha vida. Eu havia ressuscitado. A literatura e a astrologia, que eu havia abandonado durante a depressão pós-separação, começaram a retornar. Meu primo se casou, e fiquei sozinho num grande apartamento: um palácio, um mosteiro, um estúdio, uma rede com a mulher amada, uma panela com baião-de-dois, uma varanda com violão, uma janela com vista para os relâmpagos da Chapada do Corisco e para a rua que a chuva fazia virar rio. E o calçadão da Raul Lopes, a apenas 200 metros, era uma continuação do meu pequeno paraíso. Os caminhantes já não eram mais os mesmos. Em quase dois anos, o entusiasmo para o exercício físico devia ter diminuído. Agora eram outros os estranhos que eu via quase todo dia na beira-rio. E eu lá, todo dia, batendo meu ponto de suor, leveza e alegria. Eu e a construção da ponte estaiada — que eu continuava sem saber o que era —, que eu já desconfiava que não ia acabar nunca.

Chegou um ponto em que eu pensei que jamais sairia de Teresina. O ponto foi quando minha ex-mulher morreu e eu quis voltar para Fortaleza para ficar mais perto de nossa querida sobrinha, de apenas oito anos. Nesse ponto, eu consegui não ser aprovado em um concurso no qual eu era o único inscrito. Foi uma mensagem clara: "Não saia daqui." E eu fiquei, pensando que era pra sempre. Continuei caminhando, entre estranhos e amigos, na Raul Lopes, passando todo dia em frente à ponte cuja construção não tinha fim.

Alguns meses depois, um grande amigo me convidou para trabalhar em Brasília, e eu resisti o quanto pude, dividido entre o pedido do amigo e o meu conquistado paraíso. Indo e vindo na Raul Lopes, fazendo meus oito quilômetros diários, eu queria ficar, mas algo em mim insistia no convite de meu amigo. De um lado, "não saia daqui", do outro, "está na hora de ir".

Até que um dia, longe do calcadão, bebendo chá, a verdade veio a mim como uma estrela cadente: "Vá". E eu, obediente à clara voz interior, decidi ir. Sair de Teresina foi como fazer o próprio parto às avessas, talvez seja melhor dizer que foi como fazer um aborto. Tive que me desfazer do útero quente do apartamento, tive que dar a má notícia para tantas e tantas pessoas queridas, tive que cortar o cordão umbilical do calçadão à beira-rio da Raul Lopes. Naquele momento, aquilo para mim era um ato de cega loucura, de uma confiança total — e talvez ingênua — numa coisa sorrateira chamada destino. Foi como abandonar uma ponte em contrução.

Poucas semanas, muitas lágrimas e um poema de despedida depois, eu estava em Brasíla. E a verdade é que, em nenhum dia, me arrependi. Aqui realizo novos trabalhos, aqui faço novos amigos, aqui conheço, um pouco mais a cada dia, a mulher que é meu amor, com quem decidi viver, de papel passado, de aliança no dedo, de disposição para construir essa ponte tão necessária entre dois seres humanos. Teresina, em sua generosidade, não era apenas um porto seguro, um paraíso terrestre. Teresina construiu em mim um cais, plantou em mim a árvore do conhecimento, que eu posso levar para qualquer lugar. Teresina, essa cidade com nome carinhoso de mulher, me amou com o desapego das almas evoluídas.

Faz dois anos que estou em Brasília. Fui a Teresina uma ou duas vezes, a trabalho, logo após minha mudança, e o tempo foi pouco para tantos amigos e para tantos quilômetros de Raul Lopes. No peito, a vontade de retornar com mais tempo, com mais calma, como se Teresina me cantasse com os versos de Wisnik: "Vê se encontra um tempo pra me encontrar sem contratempo por algum tempo."

Esses dias, Gracinha, minha prima segunda, minha anfitriã teresinense, minha segunda mãe, me mandou umas fotos. Essas fotos...





E o ar seco de Brasília não foi suficiente para impedir meus olhos de se transformarem em poças d'água. A ponte, a ponte, a ponte... Meu coração bateu, repetindo: a ponte, a ponte, a ponte... E eu, sem recorrer a dicionários, descobri finalmente o significado de ponte estaiada: é essa ponte com cabos que parecem raios, essa ponte solar. Raios de sol, raios de céu; calor e relâmpago sobre o Poti, esse rio de chocolate quente sob o céu das nuvens mais bonitas que existem.

O nome é Ponte Estaiada Mestre João Isidoro França, em homenagem ao homem que projetou as primeiras ruas de Teresina, em meados do século XIX. Mas para mim, esse fortalezense, agora residente em Brasília, que ama uma cidade como a gente só costuma amar pessoas, a ponte estaiada terá outro nome. Um nome que me permitirá atravessar a distância apenas pronunciando-o. Um nome que é, ele mesmo, uma ponte entre um corpo distante e uma alma presente. Um nome que liga o lado de cá ao lado de lá, uma ponte entre eu e Teresina. Um nome que vale por uma carta, por um telefonema. Um nome que é passagem de ida e volta, sem nem precisar ir, já que de lá, de certa forma, nunca saí. Um nome estaiado, sustentado por raios delgados e indestrutíveis de lembranças. Um nome que pode ser gritado, com letras garrafais, em manchete de jornal, e que também pode ser sussurrado no meio da noite, durante um sonho de felicidade.

Bela ponte sobre o belo rio dessa bela cidade, enquanto esse raio de vida me sustentar, para mim serás — sobre o rio quente dos meus olhos d'água — a Ponte da Saudade.



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sábado, 17 de abril de 2010

ONDAS [Debora Bottcher]

Todo mundo passa por fases em que, de repente, uma enorme onda parece descer sobre tudo e a vida perde o compasso: o amor (geralmente do outro) acaba e o romance finda; o trabalho desanda, a saúde baqueia, os amigos desaparecem, pessoas queridas morrem, você bate o carro, fica sem dinheiro. É uma sucessão de tragédias pessoais, acondicionada a uma terrível solidão se instalando pelas bordas: você está consigo mesmo e tem mesmo é que tratar de sair do buraco de areia em que foi enterrado - com que força, só você será capaz de saber.

Mas tem épocas em que, por um milagre vindo não se sabe de onde, nenhum contratempo nos assalta. Os dias transcorrem em profunda tranquilidade — manhãs, tardes e noites constantemente ensolaradas, não importa quanto chova ou faça frio lá fora. Aliás, lá fora passa a ser um lugar distante — onde tudo continua a acontecer sem, curiosamente, nos atingir. Não há aborrecimentos nem sombras — parecemos até personagens de um filme perfeito, com script de final feliz sem passar sequer pelas tramas intermediárias.

Pode ser que essa segunda temporada seja um prêmio, um presente do universo, por conta da primeira safra — que é a mais natural. Sim, porque comum mesmo é ter a vida, senão inteiramente, pelo menos meio de pernas pro ar.

O mais curioso, no entanto, é que temos uma tendência em pensar que, quando tudo vai mal, é assim mesmo: há algo em nós que administra melhor o caos que a calmaria. Quando as coisas vão bem demais, a gente se pega, vez ou outra, sobressaltado, à espera do que vai acontecer — ah!, alguma coisa tem que acontecer! — a fim de nos roubar a paz — que, geralmente, sem que se dê conta, foi arduamente conquistada.

Não é raro surpreender-se assim, na contramão, espreitando pelas brechas, tentando antever a esquina do tropeço em que, por engano ou descuido, se possa fazer um retorno às avessas — e ser pego pela onda novamente.

Será que nunca é possível relaxar? Quando é que a gente vai aprender a ser simplesmente feliz? Que medo é esse que nos governa?

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sexta-feira, 16 de abril de 2010

O SEGUNDO ENCONTRO >> Leonardo Marona

Estou achando que deveria ter ido ao médico. Está quase em carne viva. Só não está mais viva porque me falta um pouco dela, não exatamente da vida eu estou falando, mas dela, um pouco mais a fundo que a vida, sim, aquela para quem, agora, me resta falar: “Então não conseguimos mais nem mesmo tomar uma cerveja”.

A frieza impressiona, mas sorrimos. Sorrimos mais do que temos. Sorrimos como se fosse foto. Somos foto. Restam os flashes de uma emoção partida em pequenas nomenclaturas como, por exemplo, “emoção partida”. Adoramo-nos, com medo. Nada poderia estragar a imagem duramente aceita do melhor de cada um.

Todas as mulheres ficam mais bonitas quando se separam. Algumas perdem os maridos em calamidades, estas não sofrem tanto, tem o aval de serem comuns. Foi quase como se visse uma mulher bonita, loira pintada, magra, boa postura, ereta, com belos pés também, e uma verdade impenetrável, nalgum ponto rente à minha verdade secreta, ponto que, infelizmente, não reconhecemos quando estamos chorando.

E já não choramos, aceitamos com sorrisos um vazio sereno. As perguntas não poderiam ser mais sem graça, mas você nunca as esquecerá justamente por isso. Parecem irreais, e que você é você mesmo pela primeira vez, falando uma chatice atrás da outra e também se lamentando em excessos silenciosos, porque algo tão irreal não poderia jamais acontecer com outra pessoa senão você, apesar de acontecer com todo mundo.

Um cigarro na boca, você infla as bochechas quando traga, não sabe fumar. Gosta porque considera charmoso. Mais lá na frente vai dizer que, pelo mesmo motivo, gostaria de usar óculos. “Tenho uma cara grande, os óculos ficam bem”, pelo que ela riria muito mais do que parece ter algum dia rido ao seu lado. Isso é ao mesmo tempo desagradável e caloroso, então você estala os dedos, antiga mania em momentos de pânico.

Ela havia pedido claramente na partida: “Queria apenas uma coisa, que você não fumasse. Você tem asma, vai morrer”. Agradava muito o jeito como ela tratava a morte, assim como um pedido de perdão quando se esbarra em alguém na rua. “E a vida?”, criminosamente ela pergunta. “Vai bem”, e você gostaria que isso fosse apenas um revide, mas é mais do que isso, é o que te restou, apenas um “Vai bem”. Ela ri demais. Parece uma imagem que um dia você poderia ter tido se o relacionamento tivesse durado mais tempo. Na verdade, mal sabe você que vai durar para sempre. Você vai procurar, quem sabe, outras mulheres, abandonará a si mesmo à deriva como um pequeno canalha, mas será sem a ingenuidade de querer encontrar o que sabe que vai e precisa encontrar: o retorno à emoção abandonada, que é o motivo pelo qual todos nos apaixonamos.

Você virando parte da minha literatura, talvez seja a única forma possível para deixar o meu corpo. Quanto mais distante, mais o amor aproxima os seres sem ternura – já não somos os mesmos, envelhecemos mal. Tenho medo da cor nova do teu cabelo, da leveza forjada da tua boca arregaçada de dentes, o vestido novo presente-da-mãe, as perguntas difíceis, “E a vida?”, as frases duvidosas, “Saudade da tua pele”, o alcance antecipado de uma regularidade sentimental que nunca foi o nosso forte.

Ela não ligará jamais, enviará mensagens de vez em quando: “Consegui colar o pau do chinês do nosso casal kama sutra. Mesmo com nove graus de miopia, consegui”. “Outra coisa: nasceu mais uma violeta, agora são cinco”.

Mas você é tão pequeno que não aceita tal tipo de delicadeza como atitude física, mesmo assim escreve sobre ela com ansiedade e displicência. Você fuma dez cigarros porque faltam braços para abraçar tantos ossos, pedaços de erros partidos pelo chão. “Lua cheia”, diz ela. Você não entende nada sobre luas, mas tem a perfeita noção de que aquela não é uma lua cheia. Você pode vê-la pela metade, querendo sair para a luz, sem sucesso. A lua é como nós, mais uma representação limitada de algo que deseja ir mais longe, que iria com todas as forças, que de tanta força cai voluptuosamente, mas agora essa quase frieza transbordante de sorrisos, essa absoluta negação de toda dor que sentimos juntos, e que por pouco válida foi ao menos nossa, ela ficou no canto, a dor, esperou nossa passagem maquiada.

Estávamos tão sozinhos, certamente eu, o mais solitário ser humano que existiu, olhando para você, de costas e com os cabelos loiros esvoaçantes e se mexendo sem parar, fazendo poses e com as mãos afetadas por súbitas inspirações mitológicas, canastrice da pior espécie, como se fosse uma estranha literatura roubando a minha dimensão. E eu te neguei, meu amor. Eu te olhei como se fosse outra mulher e disse baixinho: “Daria com certeza uma bela foda”. Éramos ventríloquos num circo falido, bufões sem esperança de risada ou ao menos um porre.

De fato, braços e pernas vez em quando se esbarravam em meio à catástrofe das palavras entrecortadas, um sempre atrasado com relação ao outro, o que demonstrava que não estávamos bêbados, de maneira alguma. “Faz oito meses”, “Faz seis meses”. E o que fazer com os dois meses perdidos ou anulados, os dois meses que se tornaram o tempo vazio entre as partes? Fazer um segundo encontro. De qualquer modo, havia dois meses entre as duas compreensões. “Mas eles estavam ali, foram sentidos devidamente”, eu dizia a mim mesmo entre os dentes. “Não me lembro desse tempo todo, acho que eu te amava mais do que você a mim, vai ver foi isso que deu a diferença”.

O retorno repentino aos comentários sobre a lua e sua arcaica maquiagem interpretativa me deixou realmente preocupado. Ela apenas cuidava, passava a mão nos cabelos, os novos cabelos loiros. O que havia mudado em mim? Talvez eu tivesse menos cabelo, de qualquer forma jamais o teria pintado: é preciso viver o luto sem disfarce. “Acho que você cresceu alguns centímetros”. Ela sempre gostou desse tipo de ironia barata, era o seu forte, minha armadilha predileta e ela sabia. Mas aquilo não era mais para nós, e nos comportávamos com a alegria meio histérica de quem recebe a última refeição – e como ela é deliciosa! – antes de ser executado na cadeira elétrica.

Tínhamos a linha esticada ao máximo, e os músculos cansados. Ríamos como o idiota que acabou de matar alguém sufocado com um travesseiro, quando se reclina e acende um cigarro, finalmente aliviado, estupidamente sem pressa, no local do crime. Por um tempo, um tempo breve, não contamos os segundos para nada, demos alguns tiros para o alto, comemos vorazmente e discutimos sobre a mentalidade doentia dos apaixonados, dizendo “pobrezinhos”, e morríamos de rir.

“Mas isso foi há muito tempo”, “Não acho que seja tanto na verdade”, e de repente, assim de súbito, como nos filmes mal-dublados que passam à tarde na rede aberta, não havia mais como resistir àquela terrível ironia sorridente, àquele movimentar frenético de pernas, às mãos que se abanavam com um leque, os cigarros devorados em contra-abdução. Talvez, então, ambos tenham se dado conta. Quantos murros, cuspes, ovos jogados com violência nas paredes encardidas do quarto-sala que se tornava aos poucos claustrofóbico, um conto amassado e jogado no lixo de Julio Cortázar, quantos pequenos coelhos, aliás, mas do tipo com dentes pontudos, não precisamos vomitar para nos mantermos livres das garras do amor, esse amor destrutivo que cultiva o câncer, esse amor convulsivo apenas nas bocas de urna, esse amor quase despótico dos bem-aventurados – e então, finalmente, nos damos conta.

Não há nada errado conosco, somos apenas gotas frias num oceano de lava, nossos corpos escoriados na altura dos joelhos e arroxeados nas juntas percorreram já um longo caminho, estão exaustos, acabados, mas não sabem parar. Sabemos e podemos talvez até demonstrar às vezes, encolhidos nos banheiros e banhados em suor, o amor das entranhas arruinadas, o amor liberal da monotonia, podemos até mesmo ensinar o amor das grandes metrópoles, esses que se passam entre cabelos novos e comentários desatentos sobre uma lua indiferente. Mas então chega um dia em que nos apaixonamos, caímos nos erro de emparelhar o cérebro com o corpo, e cometemos tudo o que saberíamos e, portanto, não deveria servir, deveria ser lixo, mas dizemos que não, que vale a pena, mesmo o lixo. E só o que nos resta, e mais nada, são os segundos encontros.


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quinta-feira, 15 de abril de 2010

PROVA E RECOMPENSA >> Kika Coutinho

Algumas religiões dizem que a vida é puramente prova e recompensa. Você passa por provações e é recompensado depois. Como na escola: Fez a prova, passou, ganha nota 10 e sai de férias. Simples assim. Não sei se essas religiões estão certas no que diz respeito à vida como um todo, mas, com relação à maternidade, eu diria que acertaram em cheio.

Filho é pura lei de prova e recompensa.

Você passa uma noite em claro com seu bebê. Prova. Das mais duras. Quase amanhecendo e, de repente, ele te abre um sorriso enorme. Recompensa. Pronto.

Você aguenta horas com ela no colo, tentando fazer dormir e se perguntando se essa é a melhor forma, se é isso que a encantadora de bebês recomenda, se foi isso que a sua amiga fez, se era aquilo que a manicure ensinou. Será? Será? Quando consegue, enfim, você deita cansada, se perguntando por que a sua neném não obedece os livros, porque ela é assim, porque eu sou assim, será que um dia isso vai passar, meu Deus, o que vai ser de mim, ela vai acordar daqui a duas horas, socorro. Prova, ai que prova difícil. De repente, ela dorme uma noite toda. Você acorda com um chorinho e já é dia claro, uau, que alegria. Dormiu com a prova e amanheceu com a recompensa.

Você passa dias e dias ensinando o bichinho a mamar no seu peito, sofre com as rachaduras no bico do seio, acha que nunca vai conseguir, até que, um dia, ele puxa direitinho e o peito parou de doer. Melhor ainda quando o pediatra diz que tá engordando super bem. Plim, plim. Recompensa duas vezes.

Você resolve que vai ensinar sua filhota a dormir no berço. Fica lá, ao lado, debruçada, fazendo shh ou cantarolando. Conforme vão passando as horas, vai batendo o desânimo, o sono, o cansaço. Dói a coluna e a consciência: Será que era isso mesmo? Será que não é melhor continuar no colo? Será que pego? Será que saio do quarto? Deixo sozinha, chorando? Prova, prova, prova. De repente, em um instante, ela dorme; profuuundo. Uma alegria vai te invadir, não é? Parabéns: recompensa.

O bebê não faz cocô, chora de cólica, se torce e retorce. Dá-lhe choro, colinho, bolsa de água quente. É madrugada e você está no google: “Cólica + bebê”. Te dói a dor da criança, e o seu cansaço. Vamos tentar a massagem de novo? Shantala, shantala, eu tenho um livro de shantala, onde estava mesmo? Ai, meu reino por um cocô quando: prrrrrrrrr. Eba, recompensa fedida junto com risadinha gostosa.

Choro e sorriso, reclamação e abraço, cansaço e gargalhada. Prova e recompensa. Dor e alegria, desafio e conquista. A primeira febre e a primeira palavra, o primeiro antibiótico e o primeiro passo. Prova e recompensa.

Pode demorar, pode não ser instantâneo, mas a matemática funciona. Ora mais provas, ora mais recompensas. A vida me parece justa, mesmo que seja de madrugada... O dia não tardará em raiar, recompensa à vista...

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quarta-feira, 14 de abril de 2010

DESAPEGOS >> Carla Dias >>

Desapegar-se é um processo que envolve dolências, ao menos para mim. Se durante muito tempo cultivei desejos, reverberei afeto por algum projeto ou pessoa, certamente assumir que é hora de deixar passar não é fácil. Entro no dial da catarse, do exorcismo que sempre é a contragosto.

Ao mesmo tempo, é esse meu desjeito para o desapego que vem garantindo que muitos dos meus relacionamentos, em todas as suas vertentes, não desabem por falta de paciência, que é a ciência da descoberta. Porque sei que não sou das pessoas mais fáceis de lidar, que não sei dizer o que escrevo. E nem todos aceitam a importância dos bilhetes.

Desapegar-se da tarde de outubro de 1994, ou do palco mais feliz no qual já estive. Das orlas banhadas pelo mar das dezoito horas e tantos minutos. Da tempestade à mercê de conversa que não temia a fúria da natureza. Dos brincos de quando eu os arquitetava, do cartão da biblioteca precisando de segunda via. Do olhar marejado do moço, azul de um jeito que nem te conto. De momentos colecionados em fotografias.

Desapegar-se não é expulsar da lembrança, mas diminuir o poder dessa lembrança sobre quem somos no agora, colocando-a no lugar que lhe cabe: o passado. Tampouco é se desviar das importâncias que colecionamos vivendo as nossas rotinas.

Desapegar é permitir que as pessoas partam da gente sem que nos sintamos desistindo delas ou de nós mesmos. É abrir mão de planos nos quais despendemos tanto tempo e energia, mas aos quais jamais pertenceu a realização. E não domesticar as desculpas a ponto de torná-las calços de apegos que só fazem ocupar espaço na alma da gente. Espaços que deveriam pertencer ao que chega, ao que nos transforma.

Desapegar-se é como despir-se de alguns sonhos, desentranhar labirintos. Esvaziar-se de expectativas vãs para abrir as janelas de si e deixar que entre: a vida em movimento.

Imagem: Carmen Novo > http://pagesperso-orange.fr/carmennovo

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segunda-feira, 12 de abril de 2010

DELEGACIA DE MULHERES
>> Albir José da Silva

— É aqui, comadre, delegacia de mulheres. Diz que não é que nem as outras não. Aqui eles acreditam. Não ficam rindo da cara da gente, não. Quem atende é mulher também, sabe o que a gente passa.

A comadre era Dona Minervina que foi pedir ajuda, manhã cedo, na sua porta e contou, desesperada, a noite sem dormir.

— Espero, Dorinha, espero.

Há muitos anos, quando o marido Joca ainda era ruim, ela foi numa delegacia reclamar e quase foi presa. Foram logo perguntando "o quê que a senhora fez pra apanhar do seu marido?". Jurou que nunca mais entrava naquele lugar.

— Mas agora é diferente — animou Dorinha. — Tem lei que não pode mais bater. Vamos entrar.

A delegada olha para o rosto sofrido de Dorinha:

— O que foi que ele fez com a senhora?

— Não foi comigo, não. Nem foi o meu marido — que Deus o tenha — que era um homem muito bom. Era difícil ele me bater, sempre cumpriu suas obrigação e ainda me deixou casa e pensão de viúva.

— Então foi a senhora — virou-se para Minervina, não menos sofrida. — Conte o que aconteceu que eu hoje ainda não prendi nenhum covarde que gosta de bater em mulher.

— Também não é comigo, não. O Joca já foi muito safado, me batia duas vezes por semana, mas hoje está diferente.

— Tá mesmo — confirmou Dorinha. — Pode até ter seus casos lá na rua, que isso a gente sabe que tem mesmo, mas nunca mais tirou sangue dela, nem deixou marca pros outros vê.

Acrescentou que se ele ainda dá umas sacudidas nela é tudo dentro de casa, sem escândalo. Além disso, não deixa faltar nada, nem arroz, nem feijão. Ajudou a criar as crianças e dá até presente pros netos.

— É outro homem, hoje, o Seu Joca.

A delegada começa a se mexer na cadeira:

— Então... qual é o problema?

Minervina começa, num tom solene:

— É minha neta Estefânia, que mês passado foi pra Bahia na casa da minha irmã. Pois minha criança chegou ontem pendurada num sujeito de cabelo grande e cheio de trancinha, que arrastava ela, a mala e um tal de berimbau. Chegou perguntando: "E aí, voinha, o que que tem pra comê que eu tô roxo?" Arriou a mala, comeu que nem um boi, foi pro botequim e ficou lá tocando música e dando pernada de capoeira. A mãe de Estefânia, que é uma mosca morta, disse que não podia fazer nada porque a menina gostava dele.

A velha senhora diz que acendeu umas velas pra Santa Rita e foi pra cama ver se conseguia dormir. De madrugada a coisa esquentou:

— O desgraçado passou a noite batendo na menina. E é por isso que eu estou aqui. A senhora tem que tomar uma providência, doutora — e a vovó cruza as mãos sobre a mesa, esperando providências.

A delegada vai perdendo a calma:

— Mas onde está a sua neta? Por que ela não veio? Se foi agredida, deveria estar aqui, tem que fazer exame de corpo de delito. Ela é maior de idade e tem que fazer ela mesma o registro de ocorrência.

— Ah!... mas ela não quer vir. A senhora não sabe o que é mulher enrabichada? Apanha e ainda gosta. De manhã, desceu abraçada com o carrapatento, como se num tivesse acontecido nada. Mas eu sei que ele bateu nela.

A delegada, reunindo um resto de paciência:

— Como é que a senhora sabe? A senhora viu?

— Ver, não vi. Mas escutei. Ela tava gemendo muito, como se tivesse sufocada, com uma voz tremida, inda falou "meu rei, você me mata!"

Minervina conta que ficou desesperada. Subiu correndo as escadas do sobrado e ainda escutou o safado: " morre não, neguinha, cê gosta que eu sei", com aquela voz mole de baiano. E tome mais barulho, parecia que o quarto tava se quebrando todo, a cama batendo na parede. A anciã diz que gritou: "Minha fia, o quê que se assucede?" O barulho parou e a neta enfeitiçada gritou: "Que foi, vovó? Vai dormir, pelo amor do Bonfim!".  A avó se desesperou. Aonde chega o feitiço. A bichinha apanha, mas não quer ajuda. Não! Era sua neta! Se não fizesse nada, ela acabava morrendo como se vê todo dia na televisão. E é por isso que estava ali, naquela cadeira.

Acostumada a situações complicadas, a autoridade sente que não está avançando e capricha.

— Dona Minervina, já lhe ocorreu que sua neta podia estar... namorando?

As duas amigas mostram indignação e surpresa:

— Namorando?!

A delegada tenta de novo:

— É... fazendo amor.

Minervina despertou primeiro:

— A senhora apanha quando está namorando?

E Dorinha completou:

— O seu marido bate na hora da saliência? A senhora é polícia e não faz nada?

Na saída, Dorinha ainda houve a reclamação:

— Tá vendo, comadre, sua delegacia de mulher não adiantou nada não. Eu acho que, pra ser preso, só se ele pegar ela de pau.

— Nem assim, comadre. Nem assim.

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domingo, 11 de abril de 2010

UMA COISA >> Eduardo Loureiro Jr.

Às vezes, tem uma coisa.

Se fosse no olho, eu saberia: um cisco. No pé: um espinho. No rim: uma pedra. Mas agora tem uma coisa que eu não sei o que é, onde é.

Se faço qualquer coisa, sinto-a como um incômodo constante. Se paro, na tentativa de percebê-la, ela se esconde. É uma coisa em movimento que para quando paro.

Porque a gente tem sempre alguma coisa a fazer. Por que a gente tem sempre que fazer alguma coisa? A vida, às vezes, é um quebra-cabeças que a gente jura que está faltando peça. Não adianta se dar ao trabalho de montar uma imagem esburacada que só aparece inteira na imagem na tampa da caixa.

Será que tem uma coisa ou é uma coisa que está faltando?

No olho, eu saberia: um colírio. No pé: um carinho. No rim: um alívio. Mas agora não tem uma coisa que eu não sei o que é, onde é.

Se for coisa que tem, talvez resolva ficar imóvel, paciente, fingindo que o que há é coisa que não se sente quando se para.

Se for coisa de não ter, talvez comida resolva. A não coisa pode ser fome de alguma coisa, embora outra coisa que não aquela que a comida só irá distrair.

Pode ser coisa de escrever. Coisa que ao mesmo tempo tem e não tem, é e precisa ser, verbo ainda desencarnado.

Pode ser qualquer coisa, e eu aqui de besta catando agulha no palheiro, correndo o risco — na melhor das hipóteses — de furar o dedo ou então só ficar me coçando de alergia o dia inteiro.

Sim, pode ser alergia. Não na pele, na epiderme, mas muito abaixo da endoderme, lá onde o vazio se esconde, embrulhado por nossa carne. Uma alergia na alma, talvez.

Sim, eu sei o que fazer. É só pegar o dia de ontem e catar incômodos — mais fáceis de achar que agulhas em palheiros. Mas estou com preguiça. E, como diz um amigo, "preguiça não se desperdiça".

Então é isso: preguiça, um pecado capital. Não uma coisa que não é querendo ser. Mas uma coisa que já é tentando não ser mais. Uma tentativa de morte. Um suicídio de algum tipo. Um mergulho sem pulo. Um desmaio já deitado. Um sonho esquecido.

Só uma coisa que, de vez em quando, dá na gente.

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sábado, 10 de abril de 2010

DEUS MORA NOS DETALHES... [Debora Bottcher]

Eu era muito pequena quando comecei a me embrenhar pela cozinha da fazenda da minha avó enquanto minha mãe e suas irmãs preparavam almoços, jantares, cafés, num interminável movimento na mesa grande de madeira maciça, o fogão à lenha em constante ebulição, chama e fumaça, aventais, colheres de pau e caldeirões, a falação - todas juntas ao mesmo tempo - e muito riso, numa deliciosa intimidade.

Essa é uma das minhas melhores memórias da infância: eu ficava maravilhada com essas cenas de fim de semana, feriados e datas especiais (havia muitas delas, inclusive fora do calendário oficial).

A porta dava para a margem de um rio onde os homens se sentavam para pescar e as crianças normais (meus primos) brincavam numa gritaria (espantando os peixes gerando natural indignação entre os 'pescadores' de plantão) que a mim parecia muito distante - acho que cresci antes da hora, minha inocência voltada para outras descobertas.

Ali, certamente, eu mais atrapalhava que ajudava, querendo sovar o pão, enrolar (e roubar) o brigadeiro, bater o bolo, furar o pernil com um garfo que era maior que eu - tudo ajoelhada no imenso banco de madeira ou pendurada sobre a mesa. Mas ninguém reclamava: eu era o xodó das minhas tias e avó, a única neta loura de olhos azuis (herança do meu pai) - o que, naquela época, encantava uma família onde o castanho e o negro eram soberanos (hoje, é minha sobrinha de quinze anos que ocupa esse lugar, desafiando a morenice do meu irmão e cunhada).

Mas foi assim, nesse tumultuado meio de cheiros e afazeres, que desenvolvi a arte de cozinhar - e bem, modéstia à parte.

Já adulta, descobri que esse é um ofício que, mais do que semear sabores, induz ao agregar: é à mesa onde as pessoas mais se deliciam. Beliscando aqui e ali, o tempo passa, a conversa nunca se desencadeia, somos mais unidos - uma curiosa confraria, o alimento um tesouro.

E durante a vida toda, a qualquer hora que chegam em minha casa, eu ponho a mesa e não há exceções: todo mundo se acomoda em volta dela e se deixa ficar - não importa se distribuo pães e frios ou um manjar dos deuses.

E sempre me surpreendo com a degustação dos que aqui se achegam e dou graças por ter crescido entre mulheres tão encantadoras, que plantaram em mim a semente de, mais do que satisfazer ao paladar, espalhar, entre os que quero bem, a união e o prazer de saciar o corpo e, especialmente, a alma.

Não raro, a gente se pergunta por que veio ao mundo. Se prestar atenção aos detalhes, não escapa de descobrir...

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quinta-feira, 8 de abril de 2010

O CÚMPLICE >> Kika Coutinho

Era um dia normal, eu tinha feito a minha filhota dormir sua sonequinha da tarde e, depois de colocá-la no berço, de bruços, saí do quarto. Nem meia hora se passou quando eu ouvi o chorinho dela, acordando. Voltei lá e tive uma enorme surpresa. No berço, minha menina me olhava, acordada, de barriga para cima.

Fiquei alguns segundos em choque. Eu tinha certeza de que ela estava de bruços, eu a deixara de bruços, como ela estava de barriga pra cima? Meu Deus, ela virou! Foi a resposta que dei a mim mesma, em pensamento. Ela virou! Ela tem só quatro meses, mas ela vira sozinha, não acredito! Eu ri, animada pela conquista da minha menina que ainda olhava para mim, um bocado perdida, certamente sem entender como ela mesma havia feito aquilo. Corri pela casa para compartilhar com alguém a minha alegria.

Na cozinha, a empregada fazia o almoço e nem se mexeu quando eu gritei: “Rose, ela virou!”. Falei mais uma vez, achando que ela não tinha entendido: “Ela virou Rose, virou sozinha!”. A moça me olhou, segurando uma colher de pau e disse, simplesmente: “E ela voltou a dormir ou não?”. “É, não... Não voltou.” Eu respondi sem graça, fingindo que nem tinha mesmo muita importância aquilo...

Voltei para o quarto, frustrada. Quando meu marido chegou em casa, se aproximou e perguntou o que houve: “Amor, ela virou!” falei, reconquistando a empolgação... Ele, no mesmo instante, deu um grito que chegou a me assustar: “Virou?! Como foi? Ela virou mesmo? Como foi?” Pronto. Alguém tinha compreendido o evento. Ele, aquele homem que comemorava nossa pequenina conquista, era meu cúmplice nessa vida.

Ele, que compra chupetas erradas, que se atrapalha numa fralda muito cheia, que entra em pânico quando ela chora de madrugada, ele, que erra e acerta cheio de amor, era meu grande cúmplice nessa jornada.

Foi em um instante, naquele minuto único, que eu notei: Não se pode ter um filho sem ter um cúmplice. Não é necessário que seja seu marido, seu namorado, não. Mas é preciso ter um cúmplice. Alguém que vai vibrar por coisas banais, que vai comemorar atitudes tolas e rotineiras, alguém disposto a passar noites em claro e dias escuros, alguém que irá discutir com você sobre a cor do cocô e quantidade do xixi. Alguém, alguma pessoa nesse mundo que irá, um dia, entender a grandiosidade sem tamanho de coisas muito, muito pequenas como, simplesmente, uma menina que se vira sozinha de barriga para cima...

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quarta-feira, 7 de abril de 2010

GARGALHADAS E AMOR >> Carla Dias >>

Eu adoro comédias românticas, o que para mim são como contos de fada contemporâneos... Se não forem filmes de Tim Burton, pois aí os contos de fada tomam outro rumo. As fadas endoidecem um pouco...

Eu adoro Tim Burton e comédias românticas. E When Harry Met Sally. Será que vou adorar Alice no País das Maravilhas? Vamos ver, Tim, se a sua Alice e o seu Chapeleiro Maluco me ganham.

Comédia, na indústria do cinema, é algo com muitas facetas, de acordo com quem cataloga – ou seja lá o termo técnico usado – os filmes. Mas nem tudo está na tela do cinema. Comédias românticas acontecem nas nossas vidas quando, por exemplo, notamos alguém no supermercado, no ponto de ônibus, na fila do banco e achamos um charme um gesto dessa pessoa que passou despercebido para as outras ao redor. E que se não fosse nosso interesse pelo autor dele, o tacharíamos de bobo, inconveniente.

Às vezes, a comédia romântica é um leve drama, se é possível haver drama com toques de leveza. E o chororô que começa logo na primeira cena e se estende até o epílogo da trama, prefaciando um final feliz, nos faz rir por dentro e pensar: “Chora não... vai dar tudo certo”.

Comédias românticas foram feitas para os finais felizes, mesmo quando o autor faz os personagens levarem altos tombos e se machucarem um tanto. Não há como se desviar do olhar manhoso do último encontro dos protagonistas, ou dos suspiros quando nos lançam a ideia de que, o tempo todo, aquela não era a moça certa para o moço bacana. A certa é a bibliotecária, a coadjuvante, aquela com quem ele conversa, uma vez por semana, e são essas as conversas mais inspiradas que ele anda tendo. Aquela que não foi notada como a outra protagonista, que entrou para arrebentar, mostrando-se ativa, altiva e perspicaz. Aquela que chega ao silêncio do outro não fazendo barulho, mas compondo a canção de amor que um dia será deles, quando ele notá-la.

Todo romance tem a sua comédia e o cinema tem feito bem o trabalho de expor essa nossa condição de românticos e patetas. Mas se engana aquele que pensa que nas comédias românticas há apenas diversão e cenas de amor. Há cenas de desamor, também os desafetos se mostram, as desfeitas, o lado B que torna o amor mais risível do sorridente.

A comédia é uma ótima maneira de se abordar limitações ou mesmo diferenças que, ao contrário do que grita a torcida, é mais um benefício do que uma maldição. Mas há que se ter talento para conduzir essa paródia, pois a comédia romântica pode se tornar uma tragédia grega cinematográfica se roteiristas, diretores e atores não estiverem em sintonia. É preciso que haja a mesma mágica dos dramas, dos filmes de ação, dos infantis, a sutileza dos filmes de fantasia. É preciso incluir os melhores ingredientes para nos fazer brindar a nossa própria realidade embaralhada naquelas quase duas horas da realidade inventada com as nossas verdades.

Uma das comédias mais bacanas, que está entre as que eu assisto, sempre que me dá vontade de revisitar os meus afetos, é Feito Cães e Gatos (The Truth About Cats and Dogs/1996), com direção de Michael Lehmann, também diretor de episódios de séries de televisão como True Blood e Californication, e roteiro de Audrey Wells, também roteirista e diretora do gracioso Sob o Sol de Toscana (Under The Toscan Sun/2003).

Feito Cães e Gatos é um filme sobre diferenças e notações. Sobre o olhar que lançamos ao outro. Janeane Garofalo, que interpreta Abby Barnes, uma veterinária que tem um programa de rádio que trata de cuidados com animais de estimação, é a mulher inteligente e com predicados que interessariam a qualquer homem, mas ela se acha não muito atraente. Ben Chaplin interpreta Brian, ouvinte que aparece na rádio para agradecer Abby pelos conselhos que tanto o ajudaram com o seu cachorro. O problema é que, antes da visita, por telefone, Abby descreve a si mesma, fisicamente, como a sua vizinha, Noelle Slusarsky, interpretada por Uma Thurman, uma modelo belíssima e desajeitada. Então, Abby pede a Noelle que se passe por ela.

Tem sim um quê de Cyrano de Bergerac, de se colocar as qualidades em um embrulho muito mais atraente. Mas acredito que muitos de nós passamos por situações semelhantes e cada um viva e relate suas experiências de maneira diferente. É essa forma de contar a história, de torná-la sedutora que torna um filme bem feito.

Quem sabe, dia desses, a sua comédia romântica se espreguice até rasgar a casca dos dramas. E assim você possa viver entre gargalhadas e amor, tirando de letra as dificuldades. Eu espero que sim... Sabe por quê?

Adoro comédias românticas... Mas os contos de fada contados por Tim Burton, não se esqueça, eu também adoro.





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terça-feira, 6 de abril de 2010

EU PAREÇO ESCRITOR?
>> Felipe Peixoto Braga Netto

Aconteceu faz uns anos. Ali, naquela livraria do cinema, pertinho da Praça da Liberdade. Ando sozinho pela praça e depois resolvo dar um pulinho despretensioso na livraria. Folheio os livros que estão no balcão principal quando vejo – coração bate mais forte – um cuja capa me parece familiar. Um homem, de costas, sem camisa, com chapéu de palha, entrando no mar, acompanhando por seus dois filhos – um garoto, um pouco mais velho, e uma menina, mais nova, de maiô vermelho.

Deus, é o MEU livro. Acho que nunca o tinha visto assim, não vou negar que senti um raro prazer estranho. Puxei conversa. "E aí, meu velho, como vai? Puxa, entre os títulos principais, hein? E a vida? Anda comendo direito?". Folheio meu filho e vejo que ele está bem, sadio e corado. Com todas as páginas, capa e título intactos. Quem são esses amigos, pergunto?

Depois de resmungar uns monossílabos (filhos não gostam de perguntas de pais), o deixo em paz e continuo o passeio – discretamente, claro, espio de rabo de olho para saber se ele não vai longe (a vida anda perigosa). Não passa um minuto – juro! – e uma menina, nem bonita nem feia, magra, de olhos claros e cabelo preso, entra na pequena livraria. Folheia displicentemente um livro de história da arte bem bonitão, larga e pega quem? Eu sei que o leitor está me olhando torto, com ar de "ah, sei...", mas por Deus que ela pegou "As coisas simpáticas da vida". E passou um tempão com ele na mão, passeando entre suas páginas...

Só nós dois na livraria. Eu a uns três metros dela. Ai meu Deus... Digo ou não digo? O prazer foi embora e em seu lugar chegou – sempre chega – uma antipática dúvida. Que eu faço? Pensei em comprar o exemplar e lhe dar de presente. Seria elegante. Pensei em chegar perto e dizer: "Me disseram que esse livro é horrível". Seria irônico, sabe-se lá aonde isso ia dar. Pensei até: "Olha, você não vai acreditar, mas eu sou o autor". Em carne, osso e modéstia. E nem com identidade eu estava, vejam só como a vida é injusta.

Fernando Sabino reclamava que não tinha cara de escritor. João Ubaldo Ribeiro foi barrado num evento em que daria uma palestra porque não teve jeito da moça da recepção acreditar que ele era ele. Eu tenho certeza que ela acharia que era uma cantada baratíssima e... um dos principais talentos que me falta, mas me falta de modo brutal, é esse de puxar conversa com desconhecidas. Por que, Deus, por quê?

E olha – lá vem o leitor com cara de "hoje em dia se mente tanto..." –, olha que ela, percebendo que eu a estava observando, ficou meio que me olhando, entrava e saía da livraria, entrava de novo, talvez esperando que eu a abordasse, dissesse algo surpreendente e gentil.

Como acaba a história? Ora, leitor, deixa de conversa. Não acaba, claro. Ela foi embora – não comprou o livro – e eu, depois de algum tempo, também.

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sábado, 3 de abril de 2010

DAS PONTES DE CADA UM [Debora Bottcher]

"Num universo de ambigüidade, esse tipo de certeza vem uma única vez, e nunca mais, não importa quantas vidas você atravesse." (Roberto Kincaid, As Ponte de Madison)

Foi outro dia que assisti, mais uma vez, As Pontes de Madison.

O livro, presente de uma amiga há alguns anos, como sempre, traz passagens que podem ser sentidas com mais intensidade, mas o filme é igualmente belo.

Meryl Streep e Clint Eastwood fazem um casal perfeito e a história é uma dessas que, nesse momento, vou simplificar e julgar debaixo de conceitos e valores menos emocionais. Sim, porque, no fundo, o filme versa também sobre traição.

Não tenho certeza se já o tinha olhado sob esse prisma: normalmente, o amor se sobrepõe aos sentimentos menores. Mas fato é que talvez por já tê-lo visto tantas vezes, lido trechos do romance outras tantas e me emocionado sempre, peguei-me olhando-o com mais praticidade.

O romance entre Francesca Johnson e Robert Kincaid durou apenas quatro dias. Aproximadamente, noventa e seis horas nos muitos anos que viveram separados - antes e depois desse encontro.

A decisão de Francesca congelou esse tempo em suas memórias e isso permaneceu intocável até o fim de seus dias, elevando ambos a uma perfeição que poderia não existir: sem passar pelo cotidiano, sem a rotina e seus entraves, eles não sofreram nenhum desgaste - só ausência e saudade. E para ela, um pouco de culpa.

A traição é uma das quebras mais sérias de confiança entre duas pessoas - passível de superação, sem dúvida, mas uma terrível ruptura.

Fiquei pensando: será melhor passar uma vida inteira sem saber sobre ela - como no caso de Richard Johnson, o marido de Francesca? O fato de se ter uma vida conjugal morna e sem grandes paixões pode redimir desse desvio? Explicá-lo? Quando tal ação pode ser abrandada: quando se ama a terceira pessoa e a entrega não foi apenas uma aventura? Pode o (des) amor justificar a traição?

O filme e o livro são recordes de bilheteria: o mundo todo - eu inclusive - se encantou com a moça de Iowa (de 45 anos) e o fotógrafo hippie (no alto dos seus 52) vivendo a experiência de beleza incomum de um amor que durou décadas enclausurado no silêncio das páginas de três diários. Enaltece-se a atitude de Francesca por permanecer junto ao marido e os filhos para preservá-los, abrindo mão do homem amado.

Mas eu fiquei pensando que talvez não tenha sido apenas isso: sendo uma história verídica, com realidades insondáveis mas não inventadas, talvez ela tenha tido medo; talvez o risco fosse grande demais, afinal; talvez ela tivesse dúvidas e preferisse a segurança de sua fazenda no meio do nada a angariar terras além das cercas onde nada mais era certeza.

O desconhecido pode nos paralisar. É sempre mais fácil continuar com o que conhecemos; arriscar um salto no escuro é só para os muito corajosos - às vezes, pode ser mais simples viver com o que poderia ter sido, o que não se viveu - porque isso nos protege de qualquer frustação. E o sonho, tal como em As Pontes de Madison, fica intacto da maneira como foi concebido.

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sexta-feira, 2 de abril de 2010

BONSOIR, POUR TOI >> Leonardo Marona

Sinto sufocar a boca que me consome. Essa talvez seja a frase anotada em cardeninho pré-adolescente. Isso talvez seja o que me faça, com olhos doces, impedir um atropelamento viável, que talvez fosse bom, inclusive para a comoção geral. Estranho agora dizer a mesma coisa de sempre: que penso em ti até roer-me em osso, que penso no peso da nossa carne em atrito, na perda sem explicação das células a cada movimento abjeto, inseguro, cheio de paixão, e caganeira no dia seguinte.

E você, de repente, parece algo concreto, como a pedrada que despedaça famílias calmas enquanto rumam aos comícios demorados. Subi com vários erros a colina. Veja bem: eu havia feito compras para o cheiro próximo, a primeira refeição do dia. Mas, como diz a música, a distância não tem meios de tornar o amor compreensível. E, obviamente, nós também não.

Talvez seja engraçado. Falamos um monte de coisas mas, no fundo, pensamos em pequenos assuntos. Algo como “Será ainda possível se emocionar com um corpo suplicante?”. Mas não devemos perguntar nada. Perguntar, mais do que nunca, exige performances estéticas de ilusão e paz. A interrogação: Será a crise do sinal o único compreensível e, ao mesmo tempo, indesejável problema?

Estamos brochas em meio ao tempo. Não vai demorar muito até que viremos frases não anotadas, pressupostas em aulas ruins da antropologia do Homem. Isso é irreversível, e vemos os garotinhos inquietos nos dizerem coisas do amor, nas quais – nos disseram – não devemos acreditar. Mas fazemos nossa base em terrenos de brigas entre gangues. E não são gangues do tipo “Torço para o Flamengo, estou bem comigo mesmo” – são coisas mais estranhas, largadas no fim do jogo, e não pensem que quando você está ali no canto, sentindo que é a última pessoa no mundo, não exista uma pessoa com um pescoço mais bonito do que o seu, dizendo mesma coisa, desempenhando alegorias do corpo nas quais não acreditamos apenas porque temos medo.

E existe um milhão de coisas que poderiam fazer você pensar: “Estou apenas deslocado e, na verdade, quem não está?” – mas é mais bonito e arriscado desempenhar a falsa bravura do conhecimento irreversível, em termos de “espécies falhas”, vendo as compras feitas nas sacolas desvanecerem-se em siglas tão secas quanto o silêncio feito diante do câncer raro, irremediável.

Mas somos homens e, afinal, existem os olhos verdes e, é claro, uma certa comoção contida a cada encontro inusitado. Mas daí a isso fazer parte da nossa vida, para isso é necessário ser argentino: e ser argentino é bonito, mas é errado, quando um sabe, e não é.

Argentino ou não eu subia delirante as calçadas coloridas. Os ônibus faziam o barulho de uma terra abandonada por ciclos esparsos. Subi sem ver no primeiro, como sempre costumo fazer com tudo. A chance do erro sem volta mobiliza a paz da ação repentina. Dentro do ônibus, eu e minhas compras, um pouco da melancolia de quem sobe até a casa como quem volta da guerra para os escombros, quase um fado de Portugal, e uns senhores retirados dos contos de Roberto Bolaño. Aquela coisa crua, se derramando em beleza perigosa, me exigia algumas palavras estranhas, alguma emoção a ser reformulada e perdida em minutos, como de fato aconteceu.

Sobe no ônibus uma magrebina, ou etíope, ou quem sabe haitiana. Estamos à beira do caos então nos olhamos todos, o tempo todo, com olhos assustados, e é só isso que afasta o amor, por isso pensamos nele, temos nele a base do nosso pecado mor. Magrebina, etíope, haitiana, o que importa é que ela também carregava compras. Ela carregava compras e eu carregava compras e éramos dois retirantes da nossa própria trajetória, ela provavelmente fugida de algum parricídio ou praga, eu sem pai ou doença, me equilibrando em corda desgastada, e além das compras ela tinha as costas formadas num triângulo perfeito, apenas peles e músculos, terminados num coque africano, e aquilo era o medo e era a exatidão do ataque, e eu estava bêbado o suficiente, e doce, para cometer as mais arriscadas demonstrações de afeto, e foi bem o que fiz quando ela, finalmente, no embalo dos paralelepípedos quebrados como dentes latino-americanos, olhou para trás.

- Ei! – ridiculamente, eu fiz.

Ela apenas olhou séria, talvez tenha sorrido quando virou outra vez para frente, mas essa é a vantagem de escrever textos literários: lida-se positivamente com o que não se vê.

- Pssssssssssssiu! – eu tentei novamente.

Nada. O ônibus começou a descer a ladeira. Achei tudo aquilo muito estranho: Como chegar ao topo da colina descendo uma ladeira? Tentei ponderar: Apenas deixe de malandragens, fique quieto, não mexa com ninguém, que o ônibus voltará a subir. Sentei, tentei relaxar o ventre contraído, os dentes bruxos, o suor corrente no couro cabeludo. Então ela se levantou, assim como se levantam os mortos egípcios frente às grandes comitivas, veio na minha direção, olhos verdes, de branco amarelado, fixos em mim, sem raiva ou carinho (mas com o quê, afinal?), as veias nuas com o peso das sacolas plásticas, desceu as escadas e virou-se.

- Bonsoir, pour toi – ela disse, eu juro que foi o que ela disse, e eu tinha finalmente minhas palavras estranhas, o mundo havia me dado o que eu necessitava e aquilo era tão raro que eu me levantei como quem emerge da apnéia, e andei de um lado para o outro do ônibus, forcei janelas, apelei para as saídas de incêndio mas, como muitos, eu não tinha forças, estava entregue aos movimentos hesitantes e às sensações estrangeiras.

E enquanto eu discutia em dialeto violento com o motorista do ônibus, nem mesmo vi que ela havia largado suas compras no chão, não vi que o que ela queria dizer era “Espero por ti desde o fim da guerra”, eu sabia apenas que a guerra não havia ainda terminado – disso ela, pobre, não sabia – e talvez por isso ela chorasse, uma leve lágrima desértica pela maçã do rosto, e talvez por isso eu me debatesse, infrutífero, porque sabia que de uma guerra só saem mortos e encurralados, “pobres como ratos”, diria o poeta, mas ela disse apenas Bonsoir, pour toi, e quando dei por mim percebi que aquele era, sim, o ônibus errado, então eu mesmo chorei porque aquela guerra não era minha, aquelas palavras estranhas não eram para mim e eu teria que lidar outra vez com a normalidade dos dias, e eu queria tanto para mim, aquela guerra, aquelas palavras estranhas, porque às vezes precisamos mais do que apenas trocar de ônibus. É preciso, às vezes, encher-se pela metade em muitos copos de plástico, que ninguém mais vai usar.


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