quarta-feira, 31 de março de 2010

AFORA >> Carla Dias >>

Eu saio sei não pra onde quando estou nesse tipo de momento. Tipo o quê?, você perguntaria, tivesse voz que viajasse no tempo e voltasse exatamente neste momento em que rabisco, em toques no teclado, a minha crônica-reflexão.

Seria essa a pergunta? Ou seria apenas um pedido para viajar nessa comigo? Bom, seja bem-vindo de qualquer forma. Questionando ou compartilhando.

Posso lhe contar assim, ao pé dos olhos que desnudam as letrinhas digitadas para minha crônica-frenesi, esse momento está desarrumado como que necessitado de absolutismos nos quais jamais acreditei, e aí moram as dúvidas e os temores. De tão atrapalhado, me colocou de castigo, a cara pra parede, o olhar desbotando feito imaginação de pintor que esqueceu como pincelar sentimentos na tela vazia. À espera sabe de quem do que e do quando.

Momento feito esse, de acordo com alguns, é quando nos permitimos endoidecer um tanto, de jeito que não se cabe mais nas convenções estabelecidas por nós mesmos, antes de ontem, quando os planos tinham importância, as listas faziam sentido.

Libertário, não? Efêmero, também.

Estou fora da casca, do castelo de cartas, das mansões de areia, dos barracos de vento, das arquiteturas planetárias. Aqui fora meus pés vagueiam com suas asas postiças, leveza emprestada, levando-me para essa viagem ao interior que não é do estado. Não são às estradas que me lanço, mas ao espaço que me separa – lonjuras afiadas – da jornada de reconhecimento dos meus próprios desejos.

Falo dos desejos que escondemos de nós mesmos quando mudar requer uma energia que não sabemos de onde tirar.

É um quero-quero desandado esse meu, um desamparo da superfície, enquanto sou mantida imersa em repouso pelo peso do que desconheço, apaixonando-me homeopaticamente pelos saltos. Sonhando com o catapultar aprisionadores sentimentos.

Estar fora é adentrar precipícios e amansar as quedas. Sabotar medos. É lamber a bisbilhotice dos abismos e angariar força para se segurar às beiradas. E dependurada nesse fim de mundo que me habita, os pés balançando suas asas, sedentos pelo passo, pelo salto, pela queda livre, saboreio traquinagens. Fora da certeza alicerçada por crenças emprestadas, eu construo possibilidades simples e tão importantes. Possibilidades que são como alamedas pelas quais ainda não caminhei, enfeitadas com belezas às quais nunca fui apresentada.

Como a beleza de estar fora do centro e poder espiar dos cantos. De construir pontes no ar para mais agradáveis travessias.


Imagem: Juja Kehl >> http://www.flickr.com/photos/juja_kehl



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terça-feira, 30 de março de 2010

QUE FIQUE BEM CLARO!
>> Felipe Peixoto Braga Netto

Aqui jaz um grande poeta.
Nada deixou escrito.
Este silêncio, acredito,
São suas obras completas.
(Paulo Leminski)

Não sei quem disse que conhecer pessoalmente um grande escritor é sempre um fator de desapontamento. Também não sei por que andei pensando nisso hoje, sem razão que justificasse. Justificada ou não, a frase é verdadeira.

Primeiro, nós, leitores, exageramos na mão, fantasiando, bobamente, a figura do escritor. Depois porque os escritores são mesmo – claro, com as exceções que toda regra que se preze tem – uns sujeitos pessoalmente sem brilho, apagados, às vezes espantosamente mudos. Mudos? Sim, porque eles falam pelos livros e creem (não sei se corretamente) que estão desobrigados dessa coisa realmente cansativa que é a palavra oral.

Maldade minha. Não é isso. Sei que não é isso. O que há, de fato, quase sempre, é uma absoluta incompatibilidade do escritor com a expressão oral. Lembro Drummond, Rubem Braga, Clarice Lispector... E tantos outros que seria mais sensato citar as exceções, e não a longa fila da regra.

E não será isto mesmo? O escritor escreve porque, falando, não é lá essas coisas. Busca naturalmente formas privilegiadas de expressão. Mal comparando, é como o cego que desenvolve tão sutil talento para a música, compensando num sentido a ausência do outro.

Comigo já aconteceu, duas ou três vezes: encontrar pessoalmente sujeitos cuja escrita admirava profundamente. Eu os admirava e, no contato pessoal, que lástima! Que estranho abismo! Ou não escreveram nada daquilo, pensei, ou são uma brincadeira da natureza.

Ingenuidade minha. Claro que escreveram. Se fossem sujeitos loquazes e encantadores, despachados e bem relacionados, aí sim, deveriam despertar suspeitas acerca da autoria dos escritos. Mas sendo esquivos, desconfiados, levemente rudes, tudo certo, são mesmo, em certo sentido, escritores completos.

Não faço apologia da esquisitice. Apenas constato que a natureza apenas muito raramente concede várias graças simultâneas a um sujeito. Se é belo, não será o mais inteligente. O mais inteligente não será o mais sociável. O mais sociável não será o mais arguto. E por aí vai. Claro, claro, há exceções. Reconheço que sim. Só, porém, como falei antes, singelamente confirmam a regra.

Não foi Mário de Andrade quem disse que existe em geral nos artistas uma incompetência formidável para viver? E quem atira pedra na afirmação? Porque, puxa, é assim. Duvido que Joyce soubesse trocar uma lâmpada. Desconfio que Machado não tenha sido, na vida social, um sedutor. Acho que Rosa não era um tagarela, que despejava poesia nos outros.

Mas isso aqui não é um artigo erudito sobre a escrita, e sim uma crônica vagabunda sobre a minha escrita. Diferença grande. Já que o assunto sou eu, aproveito (se o leitor me dá licença) para saber umas coisas sobre mim, já que quase nunca respondo minhas perguntas. Alego falta de tempo, mas é outra coisa. Não costumo dar muita bola para os chatos inconvenientes, especialmente quando o chato sou eu.

Que fique bem claro: escrevo para ser amado! Escrevo para que me conheçam e, quem sabe, gostem de mim. É isso, e é tudo. A história, amigos, é velha e vulgar, mas verdadeira. Para ficar num único exemplo, cito Mário de Andrade: "Minha convicção é que não tem artista que não artefaça para ser amado, e já falei que quebrava a pena o dia em que deixasse cair dela uma frase que não tivesse a intenção de buscar pra mim um benquerer através desse mundo".

Portanto, se eu algum dia desmentir isso – que escrevo para ser amado, com um convicto ponto de exclamação –, estarei bêbado. Ou fingindo. Se isso acontecer não acreditem, porque a verdade é a que digo hoje, que estou com vontade de sinceridade.

E tem mais: escrever é confessar que a vida não basta. E não basta mesmo. Não, pelo menos, para esses infelizes, os escritores, que reinventam a vida que não podem viver. Escrever, para essa gente, é uma gentileza (necessária) do destino, porque, sem isso, ficariam furiosos, ou seriam, na melhor das hipóteses, doidos mansos. Não que não sejam. Mas exorcizam os piores demônios por aqui, na complacência da folha de papel.

(...)

Deus, a originalidade não é deste mundo. Escrevi os parágrafos acima há uns meses. O que leio hoje? O velho Pessoa dizendo o que eu disse, antes de mim e melhor do que eu. Obviamente. Toma, Fernando, que a palavra é tua: "A literatura, como toda arte, é a confissão de que a vida não basta". Satisfeito? E eu pensando que a terra era virgem. Vou ao silêncio. É o que me resta. O que não sei dizer é mais importante do que o que digo. Hein? Já escreveram isso também? Puxa, nem calado sou original...

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segunda-feira, 29 de março de 2010

ÁGUAS DE MARÇO >> Albir José da Silva

São Paulo continua molhado com as águas de janeiro e fevereiro e seus arquitetos já revisitam conceitos mais úmidos como o de palafitas. Chovem tempestades de março e candidatos de sempre. Mas São Paulo não pára e providencia casas para os desabrigados, cargos para os candidatos e cracolândia para os viciados, enquanto espera por outros ventos.

No Rio, o que chove é bala e autoridade perdida divulgando estratégicas informações por descuido. Agora os traficantes informados terão de se armar para enfrentar a polícia, a milícia, as outras facções, o disque-denúncia, os agentes duplos e triplos e a concorrência no transporte, no jogo, no fornecimento de gás e na televisão paga. É duro ser traficante no Rio!

Brasília, sempre a última a saber, descobriu que também fuma crack. Nascida para ser perfeita, seu problema continua sendo o que vem do Rio, de São Paulo, de Minas, do Sul, do Norte e do Nordeste: drogas e candidatos que, diga-se de passagem, são coisas diferentes. Por lá, afastado e preso o governante, corre-se o risco de que continue mandando mesmo sem mandato através do eleito pelos que ainda não foram punidos.

O lado do Pacífico em latinamérica amarga terremotos no chile e outras manifestações temperamentais de el niño e sua irmã bipolar. Treme, ainda, o continente com soluços de ditadores saudosistas que fecham jornais e prendem editores pelo crime de discordância.

Para o pobre Haiti, que já sofreu com terremotos e diplomatas faladores, março reserva George Bush – um flagelo governando, invadindo ou visitando, conforme registros recentes da história – que se apressa em limpar a mão depois de cumprimentar um haitiano.

Ninguém sabe o que Bush vem fazer na América Latina, mas especula-se que traz proposta de monarquia para este pedaço do planeta. Os países passariam a ser províncias e Bush, imperador, daria ordens de uma capital a ser escolhida entre as cidades que tivessem menos negros, índios, e outros defeitos comuns nestas plagas.

Construiria campos de concentração para os maus e dissidentes e daria títulos de propriedade na Amazônia para os bons e amigos. Crack, maconha, cocaína e corrupção seriam proibidos. O álcool, em compensação, estaria permitido para todas as idades, inclusive para o sono dos bebês, em substituição a camomila, casca de maçã e outros venenos. A tortura só poderia ser feita por especialistas, equipe multidisciplinar com médicos, psicólogos e capelães, para evitar danos irreversíveis ao paciente. Aulas de tiro seriam ministradas na educação infantil, mas com balas de festim do maternal até o jardim de infância.

Branqueamento de pele, à Michael Jackson, seria direito do cidadão, pago pelo SUS, que também ofereceria escova japonesa, marroquina, inteligente, de chocolate e demais procedimentos essenciais. As outras doenças, simples manifestações demoníacas, seriam atendidas nos centros internacionais de milagres, por meio de correntes, descarregos e outras curas menos invasivas.

Bush, em campanha, já teria solução para todos os problemas que nos afligem e alguns que ainda nem identificamos. Um assessor lhe sugere o slogan “Depois da tempestade vem a bonança”. Outro, bajulador, prefere “Depois da tempestade vem o Bush”. O estadista e poeta, de olhos no futuro e na história, decide: “Depois da tempestade vem a bushança”.

Vade retro! Que abril nos redima, nos lave a alma e enxugue os olhos.

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domingo, 28 de março de 2010

BÊNÇÃO, PAI
>> Eduardo Loureiro Jr.

Bênção, pai, para eu fecundar. Para eu arriscar, entre milhões, ser ou não ser o escolhido para continuar a linhagem de teu nome. Para eu ser expelido e correr, correr, correr, até meu objetivo final. Sua bênção para eu aterrissar nesse planeta. Bênção, Pai.

Bênção, pai, para eu nascer. Bênção para eu rasgar a mulher no sentido inverso ao qual a penetraste. Para eu inundar o mundo com meu grito, minha nudez e meu sangue. Sua benção para o meu espírito respirar o ar da vida. Bênção, Pai.

Bênção, pai, para eu sobreviver. Para eu beber o leite da tua mulher, para monopolizar seu tempo e seu colo. Sua bênção para eu receber sem ter, ainda, que dar nada em troca. Para eu ser tua criança. Bênção, Pai.

Bênção, pai, para eu crescer. Para eu andar descalço, jogar bila, jogar bola, subir em muro, subir em árvore. Sua bênção para eu lhe acompanhar no bar, no estádio, no templo, no pensamento. Bênção, Pai.

Bênção, pai, para eu conhecer. Para eu aprender a ler e a jogar xadrez. Sua bênção para a matemática e para as piadas. Para o chá e para as palestras. Bênção, Pai.

Bênção, pai, para eu lutar. Para eu defender meus direitos com minha voz e com meu corpo. Sua bênção para a minha boa lábia e para minha justa raiva. Para eu ser como Tu. Bênção, Pai.

Bênção, pai, para eu me apaixonar. Para eu desejar primas e tias. Para me tocar, me endurecer, me saciar. Sua bênção para a primeira cantada, o primeiro beijo, a transa inicial. Para eu fluir na força vital. Bênção, Pai.

Bênção, pai, para eu amar. Para eu andar de mãos dadas com a mulher que eu escolher, para abraçá-la e cuidar dela, deixando que ela também cuide de mim. Sua bênção para o casamento exterior e interior. Bênção, Pai.

Bênção, pai, para eu trabalhar. Para eu tirar as lições do que não gosto e criar o que desejo. Sua bênção para eu suar, correr, queimar pestana e neurônio, inventar, tecer. Para eu transformar eu em mim mesmo. Bênção, Pai.

Bênção, pai, para eu ser pai. Para eu estimular meus alunos, leitores e clientes a serem eles mesmos. Para que eu seja todos e todos sejamos um. Sua bênção para que minha semente caia em solo fértil. Bênção, Pai.

Bênção, pai, para eu envelhecer. Para que eu crie intimidade e amizade com o tempo. Sua bênção para que eu tenha saudade do que já foi, alegria pelo que é e esperança pelo que haverei de fazer vir a ser. Para que minha vida seja eterna. Pai, me abençoe.

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sábado, 27 de março de 2010

DA VIDA [Debora Bottcher]

"Encarar a vida pela frente... Sempre... Encarar a vida pela frente, e vê-la como ela é... Por fim, entendê-la e amá-la pelo que ela é... E depois deixá-la seguir... Sempre os anos entre nós, sempre os anos... Sempre o amor... Sempre a razão... Sempre o tempo... Sempre... As horas."

(Virginia Woolf)


Aconteceu naquele dia em que ela foi buscar uma das filhas na escola e a criança demorou-se um pouco: foi o tempo exato para uma solidão se instalar trazendo imagens que ela insistia em esquecer.

Numa outra ocasião, aconteceu enquanto ela se perdia no trânsito vagaroso: a música distante invadiu tudo ao redor e ela se viu dançando à luz da lua, numa noite sem fim que nunca mais existiu.

Teve uma vez que ela comprou flores e as espalhou pela casa. Quando seus olhos pousaram nas pétalas coloridas, um arco-íris rodeou a sala e um campo abriu-se à sua frente: trigo e girassóis, o destino deslizando no riso inocente de dois jovens felizes que desenhavam o futuro pelas brechas de sonhos possíveis.

Aconteceu uma vez em que ela estava no hospital, aguardando atendimento por causa de uma febre que não cedia. Uma angústia sem razão, quase uma dor - que não era física.

Depois, as lembranças e sensações silenciaram.

Então aconteceu de novo, alguns anos depois. E, daquela vez, ela não soube precisar se foi um rosto, o cheiro da chuva, um som, se foi o vento, um avião riscando o céu. Talvez tenha sido a menina vendendo balas no semáforo, o dia nublado, o marido ao celular.

Foi quando estava a caminho do supermercado, numa tarde mansa de outono, que rompeu-se a inquietação e ela reconheceu: sentia saudades do primeiro amor. E a certeza veio com uma enxurrada de lágrimas: ela cometera um erro e não era possível voltar no tempo...

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sexta-feira, 26 de março de 2010

NADA MUITO ROMÂNTICO >> Leonardo Marona

A melhor coisa de se mudar é acabar com as bebidas da casa, esvaziar as garrafas. Ana fazia isso e limpava a testa – um gole largo e uma mão na testa; gole, testa... As coisas começaram a se amontoar no meio do quarto-sala no Leblon. Era bom ver aquilo feito. Era ótimo deitar sobre o colchão sem cama, direto no chão, com aquelas bolotinhas maravilhosas de massagem japonesa espantando as dores das costas como moscas na carne podre.

Dependendo de como você deixa suas coisas, elas viram um monte de entulho. Daí bate uma certa vontade de se derreter por alguma coisa grande e dura. Ana esperava a vida bater na porta, olhando pela varanda, cuspindo no toldo encardido do vizinho, jogando baganas nos pombos que trepavam em cima do toldo. E eles trepavam com toda a classe, quietinhos, um em cima do outro, como duas pantufas de inverno. A vida não bateu na porta, mas alguma coisa o fez.

Toc toc. “Toc toc é o caralho, toca a campainha, porra!” Um roupão cor de vinho semi-aberto só porque era a bicha do andar de cima. Pelo toc toc dava pra saber que tinha saído uma briga com a outra bicha – o homem bicha da relação. A bicha entrou e ligou a tv. Ana queria romantismo, mas ganhou uma bicha olhando pra tv e reclamando de alguma ardência na rodela do cu, “olha aqui, ó...”, e o negócio do romantismo ficaria pra depois, bem depois. Eram três vinhos, dois pela metade e um de um gole só, já meio enferrujado e com uma colherinha no gargalo para sei lá o quê. A bicha era só rodelas de cu assadas e reclamações conjugais... “Ai, o Armando não pára em casa...” E Ana: “Você também não, porra”. E a bicha: “Mas eu só faço isso porque ele faz primeiro”. E Ana: “Se for assim, ninguém come mais ovos no café da manhã”. E a bicha: “?”.

Eram três vinhos, uma Viborowa pré-outubro-de-1917 na ilusão dos corpos e quem sabe algumas latinhas de cerveja. Dava pro gasto. Dava pra fazer o quarto-sala virar de cabeça pra baixo e dava pra dançar de cabeça pra baixo também, ou escorregar no chuveiro e morrer sentado. Mas não era nada muito romântico, uma bicha sentada na tua cama vendo tv, comendo meleca e roendo as unhas do pé. Era uma bicha careta. Nada de mulheres, JAMAIS! Nunca havia cheirado um bacalhau fresco. Nunca havia ficado com badalhoca presa por uma semana entre as unhas. Jamais tinha olhado um cuzinho liso. Poderia confundir uma vagina com um sovaco. Ou poderia confundir uma vagina com um pau encabulado. Esse tipo de bicha é tão perigoso quanto dois poetas recitando Maiakovski trancados contigo num elevador pra quatro pessoas.

Ana procurou se distrair olhando pra frente e não vendo nada além do reflexo dela e da bicha no vidro da janela. Pouco abaixo, a tv rodava e a bicha ia e vinha do banheiro, andando como um caubói em cima do cavalo, mas sem cavalo. A bicha bebia e falava e Ana bebia. Nos canais eram as mesmas porcarias pra ganhar dinheiro rápido. Risadas perecíveis e caras de nojo dão o maior IBOPE. E a maioria das pessoas “pra valer” calcula tudo em números de audiência. 20% no campo afetivo era algo que dava pra se levar adiante numa boa. Abaixo de 15 a corneta começava a apitar. A bicha tava com uns 13 pontos. Ana não conseguia raciocinar assim e continuava trocando os canais. Um pouco de tesão na bicha ela talvez tivesse, mas a humilhação ao pensar neste tesão acabava prevalecendo, e cansava um pouco. Não era nada mau, um cara encorpado, barba grossa, que poderia arranhar tuas costas enquanto te metesse por trás. E o melhor era pensar em tudo isso e poder ficar pelada na frente da bicha e a bicha na frente dela. O Roupão semi-aberto já estava três quartos aberto. Um peito mostrava a sua comissão de frente como algo vermelho-escuro, grosso, de uma polegada e com um furo no meio. Pra bicha era como se fosse o peito de um senhor gordo e safenado. Ana tinha vontade de abrir as pernas e a bicha permitiu que ela fizesse isso com os olhos. A bicha falava tão alto que não dava pra se levar muito a sério. Ana só tinha amigos bichas e amigas fanchonas. Vivia do teatro. O meio teatral mexe demais com a libido das pessoas e quem olha de vez em quando em volta acaba enchendo o saco ou sentido um certo nojo ou sensação de queda do cavalo. Sabe, do tipo Paulo Autran num boquete pro assistente de iluminação antes de entrar numa cena de beijo na boca com a Tônia Carrero, numa adaptação de Samuel Beckett. Você tem que ter os culhões do tamanho de uma bergamota pra se manter intacto. Entrar na onda é para sempre.

Ana não conseguia entender como a bicha falava tanto e tão rápido. E adorava falar das mulheres, mulheres isso, mulheres aquilo, só que ela era como aqueles adolescentes de escolas particulares cheias de mato, filhos de pais ex-bichos-grilo que falam do Dostoievski como se fosse o Zé da esquina. Não valia a pena escutar nem muito menos respeitar alguém que gostava de falar de mulheres, mas não tava a fim de se queimar de vez em quando na caldeira delas. Ficar de castigo antes de cometer o crime, sabe esse negócio?

Tinha um canal de sexo 24 horas pay-per-view. Algo como “Jorrada nas estrelas”. A bicha ficou motivada porque quando você assume que não é uma pessoa classificada como uma pessoa dentro das estatísticas, então você pode despirocar de vez sem grandes problemas. Dr. Sporra lambia uma buceta de cabelos crespíssimos e lábios roxos – uma negra de cabelos alisados até a bunda e olhos com lente de contato azul – e enfiava uma garrafa de champanhe lá dentro. O champanhe estava fechado, dois rapazes com roupas exóticas e apertadas entraram e apresentaram seus documentos, fazendo a bicha lembrar do seu próprio elemento fálico e Ana olhar pro lado sem saber se gostava daquilo ou não. Assistir a um filme de sacanagem com uma bicha careta que nunca havia comido uma mulher na vida, mas adorava falar mal delas, é uma cena engraçada de se imaginar. Ser parte da cena é outro negócio. Pau lá dentro, pau lá fora, e a bicha ficou realmente animada. “Ai, Ana, você se incomoda se eu me tocar um pouquinho? Não, né? Tô tão carente... E, afinal, somos amigas, não somos?... Hein?”. E Ana: “...”.

Um creme de massagem para os pés fez o trabalho na parte masculina da bicha. “Olha o tamanho daquele troço!”, ela dizia pra tv e continuava se massageando como se aquilo tudo fosse uma sessão de terapia em conjunto para ninfomaníacos não-ortodoxos. Ana bebia e sentia um pouco de cócegas lá embaixo. Se roçou um pouco na cama, depois foi pro banheiro e usou o chuveirinho do bidê durante uns cinco minutos. Nada muito romântico, uma bicha velha com um pau de 16 centímetros se roendo pelo Dr. Sporra na tua cama, do teu lado, vendo “Jorrada nas estrelas”, usando o teu creme de massagem para os pés no pau e falando mal das mulheres. O filme acabou e a bicha também acabou e seu telefone celular tocou enquanto ela ia se limpar. “Armando!? Tá, tô subindo... Olha, Ana, já vou, tá? Obrigado pelo ombro amigo.” E Ana: “Ombro amigo...”.

“Tchau.” “Tchau.” “Smack.” “Smack.” Ana abriu, fechou a porta, voltou pra cama, com os dois bicos do peito em chamas e o tédio comendo pelas beiradas. Desenlaçou o roupão, trocou o canal de sexo-pay-per-view por um Cary Grant, que arrasava mais uma loirinha deslumbrada com látex até o cérebro, e então Ana se masturbou, com uma garrafa vazia de vinho, delicadamente, languidamente, sofregamente, pensando em garanhões alados e cus assados. O lado bom de se mudar...

www.omarona.blogspot.com

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quinta-feira, 25 de março de 2010

PROMESSAS DE MÃE >> Kika Coutinho.

Se ao casarmos nos comprometemos com coisas tão grandiosas como fidelidade e amor eterno àquele estranho que está diante de nós, por que o ritual não se repete para um filho, para uma filha?

Deveríamos. Anotar e falar aos quatro ventos o que queremos e o que acreditamos para essa relação. Eu, devagar, tenho feito a minha lista individual daquilo a que devo comprometer-me todos os dias para com esse pequeno bicho que mama em meu peito. Não é fácil. Porque já me sinto cansada e sem forças, e ela tem apenas alguns meses. Mas é disso que é feita uma relação, não é? De um amor que sobrevive “apesar de”.

Apesar de tudo, prometo que estarei atenta a você, minha filha querida. Apesar dos letreiros luminosos da rua, apesar do barulho infernal da cidade, apesar das inúmeras solicitações do dia-a-dia, eu ainda olharei para você com toda a atenção e o amor que você merece.

Apesar de toda névoa que a vida irá dissipar entre nós, ainda assim irei vasculhar no escuro quem você é, o que te faz feliz e o que te assusta, o que te faz triste e o que te torna alegre ou confiante.

Eu prometo, minha querida, que mesmo quando eu estiver cansada e exausta, irei buscar fundo na memória o quanto te desejei e o quanto tua presença me tornou uma pessoa melhor e mais completa.

Eu prometo que apesar dos teus erros e das tuas malcriações, não esquecerei tua nobreza e tua vontade de acertar. Irei lembrar-me de te elogiar e de te incentivar, ainda que a vida me ocupe de broncas e castigos.

Eu prometo que não jogarei em ti os meus traumas e os meus desejos. Eu prometo que não vou culpar-te pelas minhas escolhas, pelos meus erros e pelas minhas frustrações. Eu quero muito te isentar do que for doloroso da minha maternidade. Isso é possível?

Eu prometo respeitar quem você é, mesmo que seja diferente de tudo o que eu desejei para ti. Eu prometo me preocupar mais contigo do que com os vizinhos, eu prometo que vou ouvir o que você disser mais do que me preocupar com o que os outros dirão.

Eu prometo estar inteira quando estiver contigo, mesmo que não sejam todas as horas do dia.

Eu prometo te enxergar, filha, e ainda que a tua verdade me assuste, não vou fechar meus olhos.

Eu prometo, sobretudo, fazer de mim mesma uma pessoa inteira e feliz, para que você não tenha que arcar com as minhas frustrações ou com o meu mau-humor. Eu não vou jogar em ti o fardo dos meus preconceitos.

Eu prometo que, embora haja obrigações, embora haja responsabilidades e contas a pagar, acharei sempre uma brecha, pequena que seja, para te dar carinhos e beijinhos, para fazer cócegas e risos junto com você, mesmo que o dia esteja chuvoso lá fora.

Eu prometo te tornar livre, mesmo querendo te aprisionar a mim.

E, quando você tiver o seu coração partido e eu não puder colar seus mil pedacinhos, prometo que respeitarei a tua dor e não vou nunca desdenhar ou diminuir o teu enorme sofrimento.

Eu prometo dar atenção aos teus desenhos, à tua pasta de papel de carta, ao penteado das tuas bonecas, à tua agenda e às tuas provas. Serão muitas provas pelas quais teremos de passar, minha filha.

E, por fim, eu prometo amar-te e respeitar-te, todos os dias das nossas vidas – até que a morte nos separe.

www.embuchada.blogspot.com

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quarta-feira, 24 de março de 2010

LUCINA: + DO QUE PARECE >> Carla Dias >>

Tudo pode ser mais ou menos do que parece, mas raramente igual. Pode desparecer só para enganar aos distraídos, e depois encantá-los com desvelo.

“A vida é mais do que parece”, dizem os religiosos, os sábios e dizem as avós, enquanto cozem delícias e engolem dolências.

Nesse mais que jamais dá a cara assim, de graça, que pede uma atenção honesta para se despir diante do nosso entendimento, encontramos um sem número de motivos para brincar de despir aparências. Por detrás dos outdoors nos quais nos estampamos para sobrevivermos à rotina, da lógica necessária para que o pão nosso de cada dia esteja na mesa quando os filhos se levantam para o café da manhã, há esse lugar que não pertence à pressa. É da preguiça do observador, da mansidão do interessado, da necessidade do ser humano.

Quando ouvi, pela primeira vez, o disco “+ do que parece”, da compositora, violonista e cantora Lucina, senti-me chegando a esse lugar privado, mas escancarado quando estamos prontos para encará-lo. Esse lugar no qual as sutilezas imperam, onde o sorriso faz a diferença, onde são torneadas a intensidade e a beleza das benfeitorias da vida.

“+ do que parece” vai além de ser um disco. É um apanhado de sentimentos amparados pelo olhar de quem sabe catar poesia no diariamente, de quem dá voz aos desejos, à catarse, às conquistas, aos silêncios inebriantes. De quem não deixa escapar as importâncias.

Em parceria com Zélia Duncan, amiga e co-autora das nove composições que compõe “+ do que parece”, Lucina talha a essência do desaprender o óbvio e buscar o que há por detrás, o além, o logo ali, naquele lugar do outro e de nós mesmos aonde jamais iríamos não fossemos inspirados a fazê-lo. Sendo assim, esse disco nasce como uma inspiração... Das boas inspirações.

As letras são de uma candidez que nos envolve sem pressa. “Seus olhos de jardim pousaram em mim/Seu olhar de floresta/invadiu minha tonalidade modesta de castanho” (Olhos de Marte). Mas tão bela quanto às letras é a voz do violão de Lucina, ritmada, floreando nuanças, pincelando cenários. E a própria voz da artista entra em cena, desfiando a conquista certa do ouvinte.

“+ do que parece” é um disco muito bem executado, com músicos afinados e composições belíssimas. Vale se permitir conquistar por ele. Lucina é uma artista que vem contribuindo com a música de uma forma muito especial. E que assim continue.

Meu amor, você sabe


Trechos do show + do que parece






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terça-feira, 23 de março de 2010

O JARDIM
>> Felipe Peixoto Braga Netto

Daqui do 11º andar, vejo o jardim. A casa é antiga, de linhas clássicas, e eu a conheço bem daqui de cima. Está cercada por prédios, mas resiste com dignidade. É uma parte bonita de passado que não contradiz o presente. Vejo esse telhado vermelho, vejo a curva da escada, vejo e acho bonito.

Mas bonito mesmo é o jardim. O dono nem desconfia, mas ele já é um pouco meu. Quando estou cansado de escrever ou mesmo triste, venho para minha pequena janela (onde ninguém me vê) e vejo o jardim. Vejo rosas vermelhas, rosas brancas e até – vejam só – rosas rosas.

Parece mentira, mas na capital mineira, nesse apressado século XXI, tão  digital e tão sabido, existe uma casa com galinhas que passeiam felizes na sombra da árvore. Galinhas – juro por Deus – que nunca ouviram  falar em terrorismo. Galinhas sem opiniões a respeito do aquecimento global. Se me contassem, talvez não acreditasse, mas olha ali, leitor, está vendo?

Bonito, não? Também acho. Tem gosto de infância, um pomar cheio de verdes coisas saudáveis, um pedacinho de eternidade que de tão bom parece inventado. Além das rosas, há outras coisas verdes e coloridas que dá gosto de ver. Olho uma, olho outra, fico admirado com a  criatividade alegre de Deus.

Também me admira – justiça seja feita – esse honrado trabalhador que já aprendi a aplaudir: um jardineiro. Nunca o vi de perto, acho que nunca o verei. Não importa. Aposto que ele ama o que faz. Em toda  profissão, em toda atividade, há quem faça por fazer e há quem faça por amor. Precisa dizer que as plantas sabem a diferença?

O jardineiro, sempre calçado de sandálias e amor, distribui carinhos às amigas verdes, que retribuem em várias cores. Às vezes me assusto: corta corajosamente pedaços que eu não cortaria. Sabe o que faz: dias depois eles renascem – ainda mais fortes, ainda mais belas. Só tenho vontade de dizer obrigado, muito obrigado. Eu vejo o jardim e descanso. Às vezes, rezo. Aprendo que o tempo muda tudo. Menos o que é
eterno.

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domingo, 21 de março de 2010

SÓ TEM UM >> Eduardo Loureiro Jr.

Relacionar-se é fácil, inclusive afetivamente, desde que cortemos os problemas pela raiz. E os problemas básicos de todo relacionamento são dois: exigimos que o outro seja como nós em nossas (supostas) qualidades e desejamos que os outros sejam salvadores de nossas faltas.

Pode ser uma coisa tão simples quanto a posição do papel higiênico. Quem acha que deve sair pelo lado de cima faz questão que o outro posicione o papel de modo que ele saia pelo lado de cima. Pode ser uma coisa mais complexa como as atribuições de cada um na relação: quem bota gasolina, quem faz as compras, quem chama para o sexo ou para a conversa. Um fica tentando que o outro cumpra as funções que o primeiro julga corretas. Pode até ser uma coisa para além do relacionamento: a maneira como o outro trata e se relaciona com terceiros (parentes, amigos). Dá problema quanto um exige que o outro faça as coisas do jeito que o primeiro faria.

Não bastasse o outro ter que ser igual a nós, ele também tem que ser — ao mesmo tempo — diferente de nós, para cobrir as nossas falhas e necessidades. O outro tem que cumprir compromissos que fomos nós que assumimos, tem que atenuar carências que vêm lá da nossa infância (para não entrar no polêmico assunto de vidas passadas), tem que ser o SuperMouse, meu amigo, que vai salvar-me do perigo. Também dá problema quando queremos que o outro banque Papai, Mamãe, um super-herói ou mesmo Deus.

Isso me faz lembrar a história da mulher ambiciosa, que minha avó, Vó Izolda, conta:



Nos relacionamentos, continuamente recebemos do outro algo que desejamos. Mas estamos sujeitos a dar o já recebido por certo — muitas vezes damos o recebido por pouco, por muito pouco —, e pedimos cada vez mais do outro: que ele seja igual a nós, e que seja diferente de nós. O final dessa escalada de petições — desse querer ser Deus  por meio do outro — é o mesmo da história de minha avó: "Deus só tem um."

Esse "um", na minha compreensão, não é o Deus exterior, mas o Deus interno, o si-mesmo. Só tem um que pode nos atender em tudo que necessitamos, desejamos e pedimos. Esse um é cada um de nós mesmos. Se cortarmos pela raiz o mal de querer do outro aquilo que nós mesmos temos que nos dar (a subsistência, o valor próprio, a auto-estima, o amor), então o relacionamento não terá mais problemas. Será o feliz encontro de dois uns que não se exigem, que recebem com alegria o que vem do outro justamente porque daquilo não mais dependem. Tudo será fácil, extremamente fácil, pra você e eu e todo mundo viver junto.

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sábado, 20 de março de 2010

CONFORTO [Carla Cintia Conteiro]

Sempre lembro daquela discussão do Seinfeld com o George sobre a adequação de usar agasalhos de ginástica no dia-a-dia. George argumentava que eram muito confortáveis. Seinfeld dizia que não serviam justamente por isso. Passavam a ideia de que para aquela pessoa não restava nada além do conforto. O conforto como a última barreira antes do nada absoluto. Em programas de TV que fazem transformação no visual das pessoas, as moças e senhoras que serão salvas da ruína estética sempre defendem seu estilo inicial como confortável. Não é raro que os apresentadores se referiram àqueles trapos como “I gave up” dress (vestido “desisti”) ou “I have no sex” suit (conjunto “eu não transo”).

Leio sobre o Avatar blues, a depressão pós-Avatar. Algumas pessoas vão assistir ao filme e voltam para casa arrasadas, porque jamais verão ou viverão coisas como aquelas mostradas na fita. E eu penso sobre o que essas pessoas andam fazendo das próprias vidas, com quem se relacionam, aonde vão, com o que preenchem seu tempo de passagem por esta Terra. Certamente não são criaturas ricas em seu íntimo. Devem estar comodamente vestidas ou despidas em seus acolhedores casulos domésticos, entupindo-se com sua comfort food.

A tentação do conforto é grande. Quase tanto quanto suas melancólicas contra-indicações. Sentir-se confortável numa roupa deselegante, num emprego desestimulante, que paga mal, mas é seguro, num casamento morno, numa vida medíocre é meio caminho andado para a infelicidade. Para ser feliz, o ser humano precisa ter seus neurônios desafiados, seus sentidos estimulados, sua curiosidade atiçada. Parar em algum ponto e achar que ali está bom é péssimo. Quem não pedala, cai da bicicleta. Ou desce a ladeira de ré. Carpe diem, portanto.

Conheço pessoas exaustas que são incapazes de dizer o que fizeram entre o momento que abriram os olhos pela manhã e o instante em que se recolhem confortavelmente à noite. Estão vivendo no piloto automático, todos os dias iguais. Vão aos mesmos lugares, encontram as mesmas pessoas, falam sobre os mesmos assuntos, comem as mesmas refeições e assistem aos mesmos programas na TV. Sentem-se miseravelmente infelizes e nem sabem direito por que ou o que as incomoda. Derretem-se na flacidez da alma. Culpam filhos, pais, cônjuges ou toda a humanidade por não lhe darem carinho, apoio e atenção, quando quem lhes está faltando com amor são elas próprias. Que interesse é esse que querem suscitar se não se fazem interessantes?

Ao receber sua estatueta, na cerimônia do Oscar, o diretor de efeitos visuais de Avatar disse: "O que nós fizemos com Avatar foi pegar coisas que estão aí fora no mundo o tempo todo e torná-las maiores, mais brilhantes. Toda nossa inspiração veio do mundo real, e eu queria encorajar as pessoas a saírem e olharem para essas coisas".

Pode ser que tudo o que se precise seja perceber a vida por si mesmo, experimentando com os próprios sentidos e não através do filtro da Internet, da TV, dos jornais e revistas. Deixar um pouco de lado o luxuriante sofá, a poltrona que já se amoldou a curvas corporais cada vez mais roliças, a cadeira com apoio para os braços, rodinhas e encosto para a cabeça. Abrir a janela. Sair porta afora. Esquecer o carro em casa e liberar a atenção para observar a paisagem, as pessoas, o que acontece em volta. Descobrir um corpo com músculos e uma mente viva, que pensa sozinha e tira suas próprias conclusões. Abandonar a languidez passiva. Dispensar o conforto diário e arriscar umas bolhas nos pés, uns calos nas mãos, uns sustos, umas lágrimas diante de um milagre cotidiano, uns lampejos de inspiração...

Desconfortar-se, desconformar-se, por fim, ser!

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sexta-feira, 19 de março de 2010

O POETA >> Leonardo Marona

Esta história, eu sei, já deveria ter sido contada. Mas me sinto ainda extremamente preso a ela, de modo que seria sempre parcial, em meu favor, ao lembrá-la. Depois percebi que guardá-la por isso seria burrice. Serei parcial agora, e sempre, enquanto sempre for agora.

Na época eu bebia muito. O resto é bem fácil imaginar: rondava as sinucas e os antros mais chinfrins até o fim da noite. Normalmente eu me tornava melancólico a partir de certa hora, e isso me levava para um lugar dentro de mim onde eu me sentia de certa forma confortável, cheio de ódio e senso de dignidade. Um lugar de muito sofrimento e amor próprio, de confusão sobre o sentido da dignidade. Normalmente eu acabava embrutecido, vomitando palavras desconexas num caderno de bolso, apenas para me sentir algo valioso, e isso era bastante estúpido e excêntrico para a maioria das pessoas – eu incluso – ainda mais com o aspecto deplorável que eu podia apresentar ao final de certas noites mal-sucedidas no meu não tão estranho jogo de esconder.

Tais idéias nebulosas sobre mim mesmo, as mais egoístas e extremadas, atraíam todo tipo de canalha, mulheres da vida, bêbados intratáveis, pequenos contrabandistas atormentados pelo consumo do próprio vício e alguns poetas ensebados. Impossível, no entanto, determinar o talento dos poetas, uma vez que eu também me considerava um poeta e estava inseguro quanto a mim mesmo: uma velha desculpa para a preguiça. E quando se está inseguro, ou preguiçoso, é impossível ser honesto.

Os poetas sempre foram tipos difíceis de classificar, afinal. Como a maior parte da poesia feita, pareciam todos um truque barato. Bons poetas poderiam ser ótimos canalhas ou corolas de igreja, os chamados “papa-hóstia”. Ao mesmo tempo, péssimos poetas poderiam ser cafetões disfarçados. Em suma, não havia no que se basear. E, normalmente, quanto mais uma pessoa me impressiona pelo seu intelecto, mais me assusta pela sofisticação da sua maldade. E puro intelecto é maldade pura.

De qualquer modo, eu também era considerado um poeta pelos meus mais chegados, e o que significava isso? Era mais ou menos a forma como eles esperavam que eu me comportasse: de maneira delicada e tacanha, com muita acidez e intensidade, de preferência com alguns rompantes dramáticos, mas sem perder a elegância. Eu, é claro, desempenhando o papel nos conformes do sistema, tentava negar tudo como um verdadeiro poeta, e dava os maiores vexames. Falava alto e cuspia, derrubava copos, chorava em ombros estranhos e, muitas vezes, entrava no sopapo por alguma divida de jogo – mesmo que eu nunca jogasse jogos de azar, pois sempre me pareceram redundantes.

Éramos na época alguns poucos amigos ainda. Havia os gêmeos, o diplomata e a “irmã mais velha”. Embora eu detestasse sinuca e não soubesse, por bondade, segurar um taco, ficava por ali, feito mosca varejeira, no balcão do boteco de fachada néon. Aquilo era um reduto de servidores públicos aposentados, punguistas com artrite e garotos de programa drogados demais, acompanhados de velhas viciadas ressequidas e vestidas com trapos, que dançavam até de manhã ao som de Jerry Adriani na juke box e seriam capazes de conversar contigo aos perdigotos sobre a crise dos mísseis em Cuba ou as crianças assassinadas da Chechênia. Aparentemente os motoristas de táxi eram os vendedores de cocaína que, por algum motivo secreto, também trocavam a droga por caixas leite. Os jogadores de sinuca mais velhos pareciam esconder alguma coisa quando olhavam para você.

Havia ali, como eu disse, uma juke box. Àquela altura da madrugada vocês podem imaginar o tipo de repertório. Basicamente música sertaneja e evangélica. Aquilo era bastante moderno. Um bar onde havia brigas freqüentes, onde uma vez vi um senhor de idade ser espancado por um selvagem de não mais que trinta anos com um soco inglês. Onde passavam droga e havia uma banca de apostas para os cavalinhos. E, basicamente, o que se ouvia lá dentro eram canções pregando esperança e boa ordem. Músicas de reabilitação e paz com Jeová. E que paz enlouquecida era aquela na qual vivíamos e de que tanto sinto falta?

Minha percepção das coisas ficava bastante afetada com a bebida e a fumaça. E era exatamente por isso que eu me sentia mais e mais perceptivo. Segurei uma das mesas de sinuca para os meus amigos, que estavam do lado de fora conversando sobre a passagem do tempo no cinema malaio. Então um senhor de certa idade se aproximou, com um olhar meio malandro, meio ordinário, e espremeu minha mão na mesa com a barriga, dura feito pedra.

- Meu bom jovem, você parece um rapaz loquaz – ele disse em seguida.

Tirei a mão debaixo da barriga dele e massageei cuidadosamente com a outra mão.

- O senhor percebe... A mesa já foi ocupada.

- Escuta, garoto, que tal ir lá colocar mais uma música, comprar um sorvete?

Havia uma cicatriz enorme atravessando o seu rosto e a unha do seu dedo mínimo era maior que as outras. Já haviam me dito uma vez para tomar cuidado com sujeitos com a unha do dedo mínimo maior que as outras.

- Tudo bem, mas o senhor vai jogar contra quem?

- Contra quem pagar – e me jogou uma ficha de música.

Você poderia ficar falando com um sujeito como este durante horas e ainda assim não saberia sobre o que ele está falando. Então resolvi aceitar a sugestão, apanhei a ficha no ar e pus para tocar uma música antiga que falava de crimes de amor e chuva. O velho levantou o chapéu na minha direção e disse:

- Nunca se esqueça, garoto: “a genialidade não anula a medula”.

Sorri de volta sem entender mais uma vez, pensando que talvez aquilo ficasse bom num poema do Manoel Bandeira (já que qualquer coisa ficava boa nos poemas do Manoel Bandeira), e fui até o balcão atrás do meu braço de ouro líquido. O que significava tudo aquilo? Aquela fumaça se esvaindo de vidas desmembradas em pequenos pedaços e aquelas mulheres com sinas definidas, emagrecidas pelo tempo. Aquelas pessoas que pareciam flutuar pelo mundo e que ninguém via. Não porque houvesse algo melhor para se ver. Mas justamente porque não havia algo melhor. Então não se via mais nada. Éramos pessoas aviltadas com problemas de insônia, cigarro após cigarro em becos sem saída, atrás de restos que nem os ratos haviam se dignado a aceitar. Éramos gritos entrevados enlaçados em espíritos penados, birras acumuladas em tempos de chuva forte, bocas mastigando bocas e ruminando algemas invisíveis em cubículos que diminuíam conforme os dias passavam. Não havia uma revolução ou uma guerra ou um partido ou um tirano ou uma ditadura em quem pudéssemos pendurar o cabide de uma culpa herdada, e que medisse nossos esforços. Vagávamos todos, imponderáveis, tolos, rumo a dias melhores, rumo a potes de ouro e duendes pegajosos. Dias melhores que nunca antes nem depois foram vistos desde que recebemos o peso da nossa tradição secular suplicante. Dias vivos apenas nas cores esmaecidas da nossa percepção deslocada.

Eu desenhava figuras geométricas no caderno. Antes havia feito um rapaz enforcado.

- Com licença, você é poeta, certo?

Olhei e vi um homem, melhor, um hominídeo com péssimo aspecto físico e semblante esquizofrênico, que parecia assim um poeta, por motivos óbvios. Uma flor na lapela e bafo. Não respondi nada. É o melhor modo de lidar com poetas. Então ele disse mais uma vez:

- Um poeta, muito bem... Vi logo que era... Pelo caderninho pautado.

- Olha, cara, eu só estava desenhando...

- Escuta bem: leia Rilke. É o maior poeta de todos. Leia Rilke antes e depois do banho. Leia Rilke na privada, durante as refeições, até no escuro, leia Rilke. Decore as elegias, afague seus anjos e suas esfinges, mas leia no original!

Ele mesmo não devia ler Rilke há muito tempo. Quando dizia mais uma vez “leia Rilke”, escorregou no que parecia ser o jantar devolvido de alguém, e tive que recolhê-lo. Coloquei o homem sentado num banco e ele imediatamente abraçou o balcão e pediu duas cervejas. Como um raio, se recompôs e serviu nossos copos. Não parecia comandar os próprios movimentos. Seus olhos tinham qualquer coisa de muito mal esclarecida. Tilintavam como gelo num copo de uísque. Pareciam mais próximos da origem das coisas que os olhos da maioria. Mas estavam próximos demais. Pareciam enlouquecidos justamente por isso.

Ele falava sem parar. Falou quase a noite toda sobre a métrica de Rilke, sobre como era necessário escrever poemas como quem esculpi uma pedra, e que eu deveria me preocupar com as cores de cada palavra ao compor versos. Ele dizia assim mesmo: “compor versos”. Parecia um sujeito muito antigo, mas não tinha ainda 30 anos.

Bebi muito na conta dele aquela noite. Meus amigos já haviam pagado as suas e as minhas e estavam saindo, quando eu disse que ia ficar, que tinha conhecido um poeta, um poeta de verdade, e que ele estava pagando as cervejas. Eu falava com uma ingenuidade pouco convincente, e nem eu mesmo acreditava em mim.

Meus amigos então foram embora e disseram para eu tomar cuidado. Ele que tome cuidado, eu disse, e apontei para o homem, que entornava todas no balcão. Sentei ao lado dele, ergui meu copo e disse com solenidade:

- Um brinde à poesia!

Sem me olhar ele disparou um tapa violento no meu copo, que estourou na parede. Os jogadores ergueram seus tacos, os bêbados acordaram, a garçonete molhou um cliente e a música repentinamente, como tudo naquela noite, acabou.

Os olhos do homem ficaram ainda mais vidrados, mas escureceram por dentro e em volta. Ele se curvou ainda mais no banco, como se espinhos lhe perfurassem a pele. Alguma coisa parecia perto de explodir dentro da sua cabeça. Alguma coisa que não era dele e também não me pertencia, mas que de alguma forma havia sido colocada entre nós. Ou a falta de muitas coisas. Ou tudo isso reunido. Seus olhos ficaram brancos e seu rosto, embotado.

Eu resolvi sacudi-lo pelos ombros e perguntei o que estava acontecendo, dando-lhe tapinhas na cara. Mas ninguém pergunta a um louco o que é a loucura esperando obter uma resposta coerente.

Ele apenas me olhou e disse, salivando pelos cantos da boca:

- Fique aqui. Não vá embora. Vou pegar um pouco de cocaína. Eu compro mais cerveja. A gente bebe lá em casa.

Então pensei, “foda-se Rilke”, e saí para vomitar na calçada. Depois fui para casa, poeticamente, e sonhei com frases coloridas.


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quarta-feira, 17 de março de 2010

MEDO >> Carla Dias >>



O medo é de dormir na luz.
Lamento ter sido indiscreto
com minha dor e discreto com minha alegria.
Fabrício Carpinejar


Tenho medo do silêncio que antecede o grito, o passo que precede o tombo. Temo os que engolem a verdade logo cedo, no raiar do dia, num breakfast de usuras, chegando à noite acreditando completamente nas mentiras paridas.

Inventar verdades é correr o risco de se tornar crédulo com as insinceridades.

Sou temente às gargalhadas engasgadas, ao usufruto da palavra amor, enquanto borbulham mágoas na alma trincada e na indiferente. Almas cambaleantes, ultrajadas, invisíveis ao amansamento. Um casal de lacrimogêneos desastrados que dançam insones sobre os cacos de si mesmos.

Sou temerosa de não fechar os olhos durante a noite, de alimentar a vigília, evitar os calmantes, beber do bule o café.

Sim... Sou da era do bule, e de gravar LPs em fitas K7 para dividir com os amigos as canções que me comoviam. De adorar o cheiro de creme Nívea impregnado na minha mãe, crendo que toda mulher adulta exalava aquele perfume, e que um dia aconteceria comigo. E sou contemporânea: reeducação alimentar, evitar transgênicos, um emprego e mil tarefas.

Temo a agonia inspirada no que sequer compreendemos, sendo burlada a real necessidade de se esmerar no fazer cotidiano. E de jamais ser convidada a construir uma vida diferente da que vivo, onde terei de aprender a dividir a mim, não apenas prateleiras, gavetas, compartimentos do armário, mas a mim... E meus sonhos, meus planos, minhas paixões.
Meus medos.

Resta saber se você me dará a honra de acreditar que, apesar de todos os medos, eu sigo, adaptando-me se possível, escandalizando-me quando não. Vivendo a mutação do sentido da minha própria existência. Hoje temo, amanhã virarei ao avesso. E se abro a boca para verbalizar lamentos, é apenas o esvaziamento que se faz necessário.

Eu temo não me fazer entender nas importâncias. E quem não tem esse temos, certamente tem a minha admiração.


Imagem: from Unprofound web site by Mokhtar

www.carladias.com


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segunda-feira, 15 de março de 2010

LIGAÇÕES PERIGOSAS >> Albir José da Silva

- Boa tarde, bem vindo ao nosso atendimento, o valor de sua conta é de cento e oitenta e dois reais e noventa e quatro centavos e o vencimento é dezessete de março de dois mil e dez. Se deseja informações sobre nossos produtos, digite dois. Se deseja comunicar pagamento de fatura, digite três. Se deseja mudança de plano ou cancelamento, digite quatro. Se deseja falar com nossos atendentes, digite cinco. Cinco. No momento todos os nossos atendentes estão ocupados.

Consegui falar com alguém depois de duas horas e quarenta e sete minutos e vinte e nove tentativas. E não foram mais porque a maior parte do tempo eu fiquei repetindo para os moradores do Rio de Janeiro que não era do Salão Flor de Cupuaçu e que a minha voz não estava mais grossa porque eu não era a Genalva. Expliquei tudo isso à Maria Júlia logo que ela me disse: - Repita o número do seu telefone com DDD por favor, obrigado pela confirmação, em que posso ajudá-lo? Contei que há quatro dias a cidade me liga marcando pé e mão com francesinha, escovas orientais de frutas com chocolate e depilações exóticas. Ontem ligaram às três da manhã perguntando se tinha horário pra limpeza de pele, o que me fez desconfiar da seriedade desse salão. Não tenho feito outra coisa além de atender telefone e tentar falar com a senhora ou outro maldito atendente que me resolva esse tormento, já que tenho pago com fidelidade pelo direito de ser infernizado por esta empresa e seus milhares de clientes que também devem ser clientes da Genalva no Flor de Cupuaçu - aguardei ofegante, mas veio o som de ocupado substituindo a voz fanhosa de Maria Júlia e eu entrei em desespero.

Muito desespero depois, digitei cinco, musiquinha chata e bastou dizer o número com DDD para ser informado que não poderia falar com Maria Júlia, mas ela, Lúcia Helena, poderia me atender desde que, é claro, eu repetisse o meu problema. Comecei diferente: disse que estava indo a uma loja da operadora dela e que tinha muito medo de que alguém saísse de lá de ambulância e eu de camburão. O impacto foi bom porque Lúcia Helena ficou em silêncio e eu continuei. Falei do martírio que já durava quatro dias, do Salão Flor de Cupuaçu, das noites sem dormir, das milhares de ligações que recebi, das centenas de ligações que fiz para a operadora, das dezenas de números de protocolo que anotei e da ironia das promessas de solução imediata que recebi de atendentes e supervisores.

Lúcia Helena fez sua voz mais aconchegante: - Eu estou tentando lhe ajudar, mas para isso é preciso se acalmar. Não adianta ficar gritando no telefone porque não vai resolver nada, entendeu, Dona Genalva?

Taquicardia e um grande esforço pra respirar. Vejo o Celular se espatifando no chão antes que a vista escureça. Ouço mais um baque. Ouço vozes que se aproximam, se misturam, mas não entendo o que dizem. Ouço uma sirene. Já não ouço nada, penso.

Penso que não serei mais Genalva. E sorrio porque não vou poder estar pagando a fatura de cento e oitenta e dois reais e noventa e quatro centavos que vence no dia dezessete de março de dois mil e dez.

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domingo, 14 de março de 2010

AS VIDAS DE UM HOMEM
>> Eduardo Loureiro Jr.

A Vinício de Moral


Só mesmo estando fora de seu perfeito estado mental para afirmar que vida só tem uma. Só mesmo chamando urubu de meu louro e whisky de cachorro para acreditar que uma vida é tudo que nos cabe.

Não, não falo aqui de reencarnação. Não preciso apelar para existências além da memória para afirmar o óbvio: são muitas as vidas de um ser humano.

Também não me refiro à renovação celular completa que faz com que, a cada sete anos, tenhamos um corpo completamente novo, com todas as mitocôndrias ainda crianças brincando de bola no pátio interno das células.

Tampouco falo do sono ou do sexo, essas pequenas mortes que nos deixam o corpo prostrado e, em seguida, revigorado.

Falo de passar dois dias numa cidadezinha pequena e encantadora chamada Pirenópolis, não pensando em outra coisa além de livros. E depois voltar e encarar a caixa de entrada com mais de cem e-mails de trabalho. E o beijo da mulher amada.

Falo de passar quatro dias numa casa cearense à beira-mar sem viver nada além de família, amigos e meditação. E depois retornar ao suposto mundo real. E para o abraço da mulher amada.

Falo de passar uma semana entre ensaios e gravações, no ambiente acusticamente isolado de um estúdio. E depois reouvir buzinas e motores. E a risada da mulher amada.

É dessas vidas que falo. Das pequenas vidas de alguns dias que um homem pode ter. A princípio, parecem descanso, ilhas de férias na rotina da realidade. Mas com o tempo percebe-se que as ilhas é que são a continuidade — de terra — enquanto a água, que parecia tão real, é que tem a matéria dos sonhos. O sonho da mulher amada.

Eu, aqui na metade da minha vida, carrego minhas muitas vidas nas costas como quem leva um mochila azul e verde de cá para lá e de lá para cá. Vidas feitas de letras e notas, inspirações e silêncios, mares e montanhas.

E enquanto vou e venho dessas muitas vidas, enquanto tomo banho quando chego ou antes de sair, enquanto troco de roupa para ficar mais à vontade ou para aparecer socialmente, enquanto o avião, o barco, o carro atravessam o ar, a água, o chão, fico pensando que não deve ter cartório no céu e que não há firma reconhecida de Deus que não seja a alegria de viver. E que o poeta que negava as muitas vidas, ele próprio as vivia — mesmo fingindo não o saber.



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sábado, 13 de março de 2010

MISTURA [Debora Bottcher]

Há pessoas que vivem nas sombras, um paraíso onde a luz, por mais clara e necessária que possa parecer, escurece mais.

Há pessoas que guardam em si um interior soturno: bem no fundo, vozes e sons que o mundo lá fora é incapaz de compreender... Para quem a solidão se faz mãe, protetora incondicional dos medos.

Há pessoas para quem a alegria é tão simples como o vôo terno de uma borboleta cálida. O Amor se figura algo com fronteiras além dos limites, salto no abismo raso da essência que se faz vida.

O que importa para a maioria, para esses não faz o menor sentido. Dentro deles mora a contradição, o inevitável, o assombro diante de tudo. Os espelhos revelam fantasmas: quando olham-se bem dentro dos seus próprios olhos, não têm, nunca, certeza de saber quem são ou mesmo que aquele brilho pálido seja o real reflexo de suas verdades.

Desconhecem a mentira: são suaves demais para ela, quebram-se diante desse precipício que beira o inferno da morte dos sonhos, da desilusão rasteira, do desencanto das lágrimas.

Há pessoas que têm a alma regada a uma esperança que apenas se insinua, e que de tão pequena, se faz gigante. Que escondem no sorriso calmo um vulcão em constante erupção.

Há pessoas que, eventualmente, divagam na loucura e nem sabem ao certo sobre o que pensam, sobre o que falam, sobre o que escrevem através dos silêncios de tantas paredes que as rondam...

Algumas dessas pessoas se misturam em mim...

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sexta-feira, 12 de março de 2010

FLORES >> Leonardo Marona

Eu peço perdão, será cuspido dessa vez. Eu mal consigo acertar as teclas, posso te dizer que quase morri, mas fui salvo, pelas flores. Não, isso não é poesia barata. São flores com cheiro, as brancas as mais bonitas, quase frígidas, sensatas; as vermelhas, quase fecharam o elevado, elas gritavam muito, e todo mundo percebeu. E eu estava num lugar perigoso, sem ninguém para realmente dizer: “Veja bem, este é um lugar perigoso, vamos embora”, mas não devo aqui, tremendo, usar interrogações, talvez nunca mais.

Eu estava com as flores na mão, todo mundo dizia em volta, mentira, e todas as mulheres diziam: “São flores belíssimas”. Mas na hora do escuro ninguém disse nada e estava eu, na periculosamente famosa Praça do Rio Comprido, esperando o taxi, com as flores na mão. Me disseram antes, amigos: “Se eu te visse no meio do nada com flores na mão, e tivesse uma arma, te dava um tiro”. Mas nada disso aconteceu, e quero explicar, pois eu juro, é importante.

Em primeiro lugar, eu nunca recebi flores. Ou seja, quando as vi chegando, olhei fundo para mim mesmo e fiz a piada: “Ora, muito obrigado, loucura”. Mas havia também um outro ser humano, no entanto, olhando na minha cara e pedindo a minha assinatura: o entregador das flores. Eu demorei a dar a minha assinatura e, vou dizer um negócio, mesmo quando assinei, assim mesmo pensei: “Você é importante, um beijo, Leonardo Marona”. Eu estava fazendo isso por desprezo e para rir um pouco. E acreditem, quando se tem medo, rir ajuda muito.

Mas na verdade não havia desprezo nem piada, e isso seria a minha salvação, pela primeira vez. Quer dizer, estamos sempre esperando alguma coisa que nos salve, uma contradição, algo a que se debruçar como erro límpido, e dessa vez foi você, através das flores.

Sei dormir muito bem para o lado esquerdo, mas meu braço esquerdo me dói a ponto de eu querer amputá-lo. Alguém lúcido diria: “Bobagem, lida-se com os problemas e continua-se vivendo, e ponto final”; e essa pessoa teria razão.

Mas aqui não falarei – não dessa vez – da razão. Falarei de como fui parar, tarde demais, na Praça do Rio Comprido, e de quanto isso é perigoso, a certa altura da noite, na escuridão asséptica do Rio de Janeiro, e de como, ainda assim, recebi flores. No elevador, os desatentos decretaram o anjo: “Essa flor, essa vermelha, cheira tão bem!” E havia, além de tudo, uma mulher bem magra. Poderia dizer “bastante magra”, mas não direi isso: direi “bem magra”. Uma mulher magra e alta e que poderia, com dificuldades, ser uma pessoa feliz. Mesmo assim, havia algo de errado, de fatalmente incompleto nela, tanto quanto em mim, principalmente sem conhecer ninguém, na praça, com medo. E com essa menina magra eu fiquei maior, simplesmente porque ela tinha medo e, fatalmente, ela seria uma boa foda, mas sobre isso também não falarei – não aqui, aqui não cabem pontos de interrogação, as frases devem sair afirmativas –, a não ser que eu dissesse baixinho, e para o meu próprio raciocínio (o que não aconteceu): “Que estranho é ver alguém a quem se ama como alguém a quem não se conhece”.

Era exatamente como eu me sentia, buquê na mão, o medo na espinha, tão tarde e eu com tantos sorrisos, com tantos desaforos a dizer, calado. A cara até se mexe, o resto do corpo se entrega a perguntas do tipo: “Não se sente bem”; mas é óbvio que não, as interrogações tornaram-se obsessivas, e nem bem sou um poeta integral, digamos que eu tenha lampejos, e gostaria tanto de cheirar as flores, parar, beijar, apenas ofegar, deixar que o corpo dissesse qualquer coisa, mas faz quase um mês – e não vejo você. Você que é você, mas nunca pediu nada, e sempre deu.

E agora me enviam, delicadamente, flores pelo correio. E essas flores são o que, apesar de tudo, me salvaram na ausência de afeto, no meio da praça escura, onde não vendem mais nada, e nada vem.

Sabe que, meu amor, até eu mesmo cheirei as flores. Pensei: “Devo cheirá-las. Elas são para mim”. E é tão estranho, para mim, ter algo de meu, e que eu possa cheirar. Mesmo durante o caminho eu chorava, a coisa mais óbvia, mas eu parecia realmente um cavalheiro: envelheci. Mas por nenhum momento – e este foi meu anjo – eu esqueci que tinha na minha mão flores vivas, as quais cuidarei até se fazer o silêncio dos ossos das flores, aquele desconhecido, repentino, surpreendente, que não é o nosso, até que, como o caule da margarida imponente eu me quebre, para deixar bem claro que não há marfim: só há o corpo, avariado.


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quinta-feira, 11 de março de 2010

SESSENTA POR CENTO >> Kika Coutinho

Eu estava deitada na maca, a barriga já saliente, e o médico passando aquele aparelho como um pincel deslizando o gel gelado pela minha pele. “Vamos saber o sexo?”, eu perguntei ansiosa. Ele sorriu e disse como se fosse a coisa mais banal do mundo: “Acho que é uma menina.”. Eu paralisei por um instante. Uma menina? Ele logo alegou não ter certeza, disse que era sessenta por cento de chance de ser menina, mas só iríamos saber na próxima consulta.

O número não saiu mais da minha cabeça. Sessenta por cento? Eu pensava o dia todo: Sessenta por cento, sessenta por cento, sessenta por cento... Se fosse uma médica e não um médico, ela nunca viria com um percentual. Coisa mais masculina dizer estatística. Uma mulher teria dito de outra forma, sorrido de outra forma, usado outra expressão.

Pensei na diferença entre homens e mulheres e em como as meninas são cobradas de serem lindas, inteligentes e — ainda nos dias de hoje — prendadas. Senti um aperto no coração. Será que eu poria mais uma mulher no mundo? Mais alguém a sofrer a pressão por um corpo perfeito, mais alguém a ter que se dividir entre o trabalho, o marido e os filhos? Mais alguém a amar loucamente e ter seu coração partido? Sessenta por cento, meu coração já estava partido por ela. Se eu tivesse uma menina, como ensiná-la a não sofrer pelos homens, a não se cobrar demais, a não se culpar muito, a não morrer de cólica todo mês?

Não havia jeito. Sessenta por cento de chance de estarmos encrencadas. Eu e ela. Minha menina sem nome, que viria se os sessenta por cento estivessem certos, teria um caminho árduo pela frente. Pobrezinha, eu pensava angustiada.

Quando voltei na próxima consulta, ele, o médico homem que me atendia, sorriu ao ver a imagem na telinha do ultra-som. “E aí?”, perguntei com o coração aos pulos. Ele fez um instante de silêncio e, nesse único instante, uma imensidão de pensamentos me invadiu. Sessenta por cento de chance de ser uma guerreira, uma pessoa de bem, uma filha que irá ter filhos, ensiná-los também a amar e a sofrer. Sessenta por cento de chance de ser alguém que irá educar meninas e educar meninos. Sessenta por cento de chance de ser uma sortuda que verá um dia a sua barriga crescer, sentirá seu coração transbordando de amor e de alegria e, quando chorar, se sentirá movida por uma força e uma empolgação que só é dada às mulheres. Sessenta por cento de chance de ser alguém em evolução. Alguém que há tão pouco tempo atrás não poderia votar, não poderia trabalhar, não poderia opinar. Alguém que revoluciona o mundo em silêncio há muito tempo e, com barulho, há pouquíssimo tempo. Alguém que conquistou muito, mas que — ao contrário dos homens — ainda tem muito a conquistar. Sessenta por cento de chance de ser uma menina, e eu iria explodir de alegria. Meus olhos já estavam molhados, eu já sabia quando o médico sorriu mais uma vez, também feliz, e afirmou categórico: “É uma menina.”. Cem por cento. Eu não poderia me sentir mais feliz.

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quarta-feira, 10 de março de 2010

AMORES & SÉRIES >> Carla Dias >>

Eu era – e continuo sendo – fã de carteirinha da série Arquivo X (The X-Files), criada por Chris Carter. Torcia para que Mulder encontrasse sua irmã, ainda que ela tivesse se tornado uma extraterrestre. Também cruzava os dedos para ver se, em algum momento, a Scully sorriria sem parecer que estava sofrendo, sabe?

Mais do que tudo, uma legião de fãs torcia para que os protagonistas desenrolassem logo o romance que estava no ar e entranhado nos acontecimentos mais bizarros que eles presenciavam juntos. Eventualmente, isso aconteceu, mas ainda assim, tudo era muito esquisito.

Eu sei... O amor é uma coisa de louco.

Os improváveis casais têm sido tema de muitos filmes, livros e seriados. O amor fácil é comédia, o mais denso é drama, e se misturarmos a isso um pouco de suspense teremos Bones.

Nunca imaginei que um dia assistiria a uma série de televisão sobre resolver crimes através dos ossos da vítima... E achá-la fantástica! Mas a vida é assim, surpreendente, e ainda tem a ciência.

A Dra. Brennan (Emily Deschanel) e o agente especial do FBI Booth (David Boreanaz) são o casal não-casal mais casal que eu já vi. Ele é um homem que acredita em Deus e ela na ciência e isso tem sido assunto recorrente nas cinco temporadas da série, com momentos hilários de discussões muito interessantes. O toque cômico da série torna suportável acompanhar as investigações. Ossos, lembram? Nem sempre eles vêm limpinhos.

Bones é do mesmo criador de CSI, Josh Berman.

Quem se lembra de Dawson’s Creek, série criada por Kevin Williamson na qual o Dawson (James Van Der Beek) era o menos interessante? Joshua Jackson, o Pacey, já era muito mais bacana naquela época. E então, ele cresceu e apareceu. Lembro-me de um filme bem interessante do qual ele era protagonista, escrito e dirigido por Kevin Noland. Americano foi o primeiro filme com Joshua que assisti, após o fim da série. Desde então, tenho o apreciado cada vez mais como ator.

Despido do Pacey e assumindo o papel de Peter Bishop em Fringe, Joshua Jackson compõe outro casal que não é casal, mas tem tudo para ser, e só Deus – e os roteiristas – sabe no que isso vai dar.

Fringe, criada, entre outros, por J. J. Abrams, também criador de Lost, foi apedrejada, antes mesmo de estrear, e isso nos leva à primeira série que mencionei aqui: Arquivo X. Assim como a saga Mulder & Scully, Fringe é uma série de ficção científica e ganhou o rótulo de cópia barata de Arquivo X, como se o tema fosse exclusividade dessa série. E apesar de não encher os olhos dos donos do dinheiro, Fringe já chegou a sua segunda temporada e com reconhecimento do público à qualidade do que assistem.

Peter Bishop, o filho gênio do fantástico – e gênio – cientista Walter Bishop, interpretado com primazia por John Noble, começa a arrastar suas asas para sua companheira de labuta, a durona e melancólica agente do FBI Olivia Dunham (Anna Torv), que aceita e colabora com o interesse dele. Nesse suspense de ficção científica há muito que Peter e Olivia viverem, antes de um provável e verdadeiro romance.

Independente do romance, essas séries são muito interessantes e bem feitas e valem que a gente assista e fique torcendo para um final feliz com um começo e um meio bem bagunçados.


BONES
FOX: quinta (21h00); sexta (03h00); domingo (12h00); segunda (02h00).
http://www.fox.com/bones

FRINGE
WARNER: terça (22h00); quarta (02h00).
http://www.fox.com/fringe

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terça-feira, 9 de março de 2010

SOBRE A LUA E OUTRAS COISAS QUE DOEM
>>Felipe Peixoto Braga Netto

"Ainda bem que a noite baixou: é mais simples conversar à noite.
Muitas palavras já nem precisam ser ditas.
Há o indistinto mover de lábios no galpão, há sobretudo silêncio.
Certo cheiro de erva, menos dureza nas coisas,
violas sobem até à lua, e elas cantam melhor do que eu."
(Carlos Drummond de Andrade)

Saio, à toa, de bicicleta, por esse litoral. Estamos em dias de lua cheia; ontem estava linda, mas hoje não apareceu. Não faz mal. Também eu, se fosse lua, não apareceria hoje. Ando sem vontade de brilhar. Essa paisagem noturna de coqueiro e mar é tão boa, tão alegre e leve, lembra minha infância por aqui. Gosto desse mar à noite, belo e calmo, gosto da areia da praia iluminada, desses coqueiros gentis.

Pedalo, e sinto falta do que fui. Sim, amigos, já fui um atleta. As más línguas dirão que eu corria uns sete quilômetros, mas é mentira. Corria dez, até doze em dias inspirados. Também, em frente ao mar, com uma paisagem dessas, até de muleta — alguém resmungará — e eu concordo. Ah, talvez esse fosse o ritual que mais me deliciava aqui. Eram instantes de evasão e paz.

Corria, quase sempre sozinho, às vezes com amigos. Posso dizer que eles nunca me acompanharam, e não estaria mentindo. Pelo menos tinham estilo — um deles, correndo, parecia um amante flagrado fugindo do marido, e o outro me lembrava alguém atrás do ônibus atrasado. Eu, modéstia à parte, austero e elegante, corria como se o trono inglês me aguardasse, do que aliás não duvido.

O absurdo é que esse atleta, de timbre londrino, hoje não corre, eis que seus fracos joelhos não permitem. Esses apressados envelheceram antes de mim. Pedalo e sinto leve dor. Pelo menos são joelhos leais, e não doem ao mesmo tempo. Dói primeiro o esquerdo, depois o direito. Pelo que percebi, combinaram de se alternar na gentil tarefa de doer, e parecem convictos em não parar tão cedo.

A culpa naturalmente é minha, que fui imprudente. Aprendi tarde a importância dos joelhos. Na verdade não foi bem assim. Até que cuidava deles. Um infeliz, um dia, me convidou para defender certas cores no futebol. Não sei jogar futebol. Fui. Deu no que deu: um ligamento muito bem rompido, umas dores nada simpáticas, e até uma vigorosa vaia da torcida, que não achou muito convincente minha saída — carregado — de campo.

O pior é que os médicos insistem numa cirurgia que não farei. Acho que o futebol pode passar sem mim. Eu é que não sei se passo sem minhas corridinhas, tão boas, e, afinal de contas, necessárias para deixar um homem, um quase senhor, em forma. Preciso decidir isso — o que vai ser de minha vida, digamos, esportiva.

Preciso aliás decidir tanta coisa. Se a vida vai pra lá ou pra cá. Com o tempo, nossas dúvidas vão ficando complicadas e tristes. Ah, doces dúvidas dos quinze anos... Lembro que minha suprema indecisão era se usaria ou não sunga na praia. Não sei se perdi noites por isso, mas não havia deliberação mais alta.

Eis o que me sobram dos joelhos: um ligamento rompido (cruzado anterior) no direito, e uma tendinite no esquerdo. Tudo isso agravado por esse último ano de ócio e exageros. Esse diagnóstico — tendinite — foi mais antipático, embora menos grave. Um nomezinho insuportável para uma lesão crônica, que vai e volta, sem cura possível. Ora, preferia romper logo os dois, operava e pronto, ou não operava nunca, mas sem essa insistente dor mal-humorada. Aliás, o direito está doendo mais do que seria preciso.

Os joelhos deveriam envelhecer sem pressa. Como os vinhos. Com lenta dignidade. Porque, puxa, preciso deles... Se, vamos supor, um fantasma me aparecer, como correr sem joelhos? Se um cachorro não simpatizar comigo? Se um marido me interpretar mal? Vocês veem que os joelhos são artigos de primeira necessidade. Não estão à venda, pelo que eu saiba. No entanto, tudo que eu não preciso está, em liquidação e magras parcelas. Um engano do comércio que depõe contra a medicina.

Não que ande correndo tanto. Minha vida é pacata e banal. De vez em quando, é verdade, topo um roteiro ecológico mais radical, mas só de vez em quando. Nessas ocasiões, me encho de coragem e vou, de carro, até uma cachoeira, e fico fiscalizando o fluxo do rio, umas boas duas horas, depois vou honradamente embora. Mas repito: só de vez em quando, que ninguém é de ferro!

Pedalo um pouco mais depressa. Os joelhos percebem, logo reclamam. Para que, joelhos, essa dor? Não estão gostando do passeio? Não gostam de ir por aí, vendo outros joelhos em alegre exibição? Sei não, mas se eu fosse vocês me insinuaria para aquele magnífico par (que é dos joelhos andar em dupla) que vem chegando de bicicleta. Perguntem, sei lá, se estão rompidos. Eu não entendo muito de joelhos, mas aquele par não parece nada rompido. Estão gordinhos, bronzeados, parecem capazes de romper corações, isso sim.

Se bem que, salvo honrosas exceções, os joelhos se parecem muito, o que é uma lástima. Não deve ser fácil para vocês reconhecer um amigo. Tenho, aliás, um amigo que foi joelho na encarnação passada; é incrível como se parece com vocês. Traz, na face, evidentes vestígios de seu passado. É, não deve ser nada fácil ser joelhos. Pensando bem, até compreendo esse mau humor de vocês. Vivem suportando o peso do mundo, e ainda por cima são feios, têm cara de joelho. É uma triste sina.

Olha, a lua saiu... Ilumina, belamente, o mar. Os meus joelhos não parecem alegres com a lua, o que confirma minha suspeita. São uns insensíveis, só sabem doer! Olha lá, quem vem junto com a lua? Lá longe... Sim, é ela! Minha alegria! Tímida e esquiva, é verdade, mas a única que tenho. Perdão, doloridos ligamentos, mas é tempo de eclipsar a tristeza, brilhar um pouco, afinal de contas não fica bem contrariar uma lua tão clara, que chega com vivas ordens de felicidade.



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segunda-feira, 8 de março de 2010

O DESAFIO DO PRIMEIRO TRABALHO ACADÊMICO
>> Maurício Cintrão

Voltar a pesquisar com o compromisso do registro acadêmico é muito diferente do escrever jornalístico. A afirmação parece óbvia, mas só parece. Muitas pessoas olharam para mim com espanto quando eu disse que estava com dificuldades para escrever a reflexão-síntese entregue no último sábado.

No geral, a expressão era “justo você com problemas em texto?”. É como se a intimidade com a escrita resolvesse qualquer desafio de texto por escrever. No mundo real não é assim. Dependendo da modalidade, o texto é um parto sem anestesia. Há situações em que o neném só sai a fórceps, porque não dá mais tempo para a cesariana.

O texto ao qual me refiro era um “dever de casa” sobre a disciplina “Legislação e Culturas Populares”, um dos módulos de minha pós-graduação em Cultura Popular Brasileira. O resultado ficou interessante, bem diferente do que eu desejava, mas melhor do que eu temia. Vamos aguardar a avaliação do professor, que vai dar prumo para essa prosa. Mas fiquei feliz por ter conseguido entregar no prazo.

Também fiquei contente porque comecei a desenferrujar o raciocínio. Isso é muito importante, especialmente nestes tempos de embotamento da memória e da capacidade de refletir. Seja pela falta de exercício, seja pelos efeitos da idade, eu andava meio lento, feito TV a válvula.

Para quem não conheceu, o televisor a válvula dos primórdios da TV demorava um bocado para ligar (precisava “esquentar”) e apresentava toda sorte de problemas. A imagem desestabilizava com frequência.

Para assegurar a qualidade da recepção do sinal da TV era preciso usar botões que controlavam “Vertical” e “Horizontal” no aparelho. É difícil explicar isso nos tempos em que se assiste TV no telefone celular, mas era como se a imagem vestisse pijama de vez em quando e ficasse com soluços, pulando. Um horror. Tudo branco e preto, aliás.

Não estou tão mal assim. Pelo menos sou colorido. Mas a capacidade de lembrar é prejudicada feito sinal de TV antiga. Na medida em que o tempo passa, parece que os lapsos tornam-se mais comuns. Será que é só falta de prática? Não sei, vou colocar essa tese à prova daqui para a frente, com a infinidade de artigos, apostilas, livros e documentos a ler, analisar, assinalar e citar em meus próximos textos.

O fato é que passei por grandes apuros para redigir o primeiro texto acadêmico e isso eu não vou esquecer. Feito o sutiã da adolescente na propaganda do passado*, o primeiro desafio acadêmico a gente nunca esquece.

(*) filme comercial de TV criado em 1987 pela então W/GGK, depois W/Brasil, do publicitário Washington Olivetto para o fabricante de sutiãs Valisére. É um dos comerciais com o mais alto índice de lembrança entre telespectadores da época, até entre velhinhos como eu (rs). Para saber mais, vale ler a monografia “Uma análise dos recursos persuasivos do comercial: ‘o primeiro sutiã’ da empresa Valisère”, de autoria de CINTI, Paulo; FONTANEZZIi, Renata M. M. e VIEIRA, Lucas M.

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sábado, 6 de março de 2010

COMO ANDA SEU INTESTINO?
[Carla Cintia Conteiro]

Dizem os desiludidos que as ideologias morreram. Pesquisas entre os jovens denunciam o hedonismo desenfreado. Nunca a beleza e o dinheiro foram tão valorizados. Quem pode se submete a sucessivas cirurgias plásticas para corrigir defeitos que mais ninguém vê ou busca um modelo de perfeição lapidado a photoshop. Por outro lado, já dizia meu pai, quem nunca comeu melado quando come se lambuza. As classes ascendentes entopem-se com a comida farta de que não podiam desfrutar antes e engordam, cevando as estatísticas sobre diabetes, doenças cardiovasculares e câncer.

Há quem resista, ou pelo menos tente se sentir um pouco especial, inventando formas de postar-se acima da turba. Entre eles estão os intelectuais que teorizam sobre programas de televisão; os vegetarianos prosélitos, do alto de seus sapatos de couro; os defensores da cultura e do bom gosto em seus discursos repletos de incoerência com a norma culta da língua e vícios de linguagem; gente que diz que só no Brasil acontece isso ou aquilo sem jamais ter tirado o passaporte. É urgente expressar suas impressões sobre todas as coisas. Não que as coisas sejam importantes. Relevante é a própria opinião e, em última instância, quem a emite. O foco de todo esse povo é um só: o próprio umbigo.

Assim, foi sem surpresa que comecei a reparar, em muitos anúncios da TV, a cicatriz que todos temos no ventre como estrela, cheia de setas apontando em sua direção ou a partir dela. Não há um intervalo comercial sem pelo menos uma peça publicitária que sugira que você reflita seriamente sobre seu movimento peristáltico. Ser como um reloginho virou uma necessidade premente da sociedade pós-moderna. Quem não vai ao banheiro todos os dias, na mesma hora, há de sofrer consequências nefastas.

É simples. Quem quer conquistar alguém fala da maior paixão de seu interlocutor. O próprio umbigo é o centro do mundo de cada um, portanto, se estão todos olhando para lá, há que se criar produtos adequados ao interesse desse público. Tome o iogurte, beba o chá, engula o medicamento. Você não há de querer ficar enfezado, cheio de espinhas, estufado.

Então quem pretende cativar alguns fãs, para compartilhar do juízo que faz a seu próprio respeito, antes há que mostrar alguma simpatia. E isso anda bem difícil. Todo mundo quer estar no palco, ninguém quer ser platéia. Logo, não importa se você é uma diretora, produtora, atriz, apresentadora premiada e prestigiada. Ao encontrar conhecidos na praia, antes de assuntar sobre filhos, pais, cônjuges, trabalho e hobbies, seja esperto e pergunte:

— Como anda seu intestino?

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sexta-feira, 5 de março de 2010

ÚLTIMA FEBRE >> Leonardo Marona

Sangrar pelos poros é coisa normal, a ardência de expelir impurezas é quase dádiva, mas você, coisa impura, que não consigo expelir e carrego como um paralítico até as grutas da vontade, você é um problema de temperatura, você é doença do suor. Pois muito bem: 40 graus, tremeliques, língua de sogra. Nada vergonhoso. Deve-se morrer como se fôssemos gatos que pulam da janela atrás de borboletas.

Vou deixando pedaços de corpo pelo caminho, é bonito uma relação de troca com o mundo, uma relação física de troca com o mundo, é a única maneira de agradecermos a ele, ao mundo, e reconhecermos ao mesmo tempo a sua inaptidão com o tempo. Os pedaços ficam pelo caminho, unhas, pés, pedaços de mão, de braços e, reparo, é assim com todo mundo. O mundo todo é composto por pessoas amputadas. Veja o floricultor sem dedos, veja a freira sem vagina, veja o presidente sem cérebro, é uma coisa maravilhosa.

Deixo líquidos também, no auge da temperatura, mijo sangue, sorrio porque sei que é para poucos que chega a hora irreversível. Pessoas, sentimentos sobre pessoas, são os líquidos vermelhos, viscosos, que deixamos pelo chão. A sensação precisa tomar forma física, então os líquidos absurdos, os felinos selvagens miando dentro do peito tuberculoso, os gases em momentos impróprios, as rugas de amor, a febre, outra vez, para elevar-nos à potência de Lady Godiva, para nos fazer pegar fogo nos céus, e depois arrefecer em frangalhos – é só para isso que viemos, compreendamos isso todos.

A febre é um orgulho, uma luta injusta contra o corpo, uma forma de paixão irrecuperável. E nunca voltamos da febre, vamos até ela uma só vez, e ela permanecerá ali para sempre, agarrada às nossas marcas e vacilos. A máquina do corpo é feita de fibras, e de que são feitas as fibras? Do modo como aceleramos a máquina do corpo. Andarei pelas ruas, meu amor, prometo, com as mão na cabeça e uma arma na nuca. Assim andarei no ritmo que me será imposto, meu amor, assim não direi mais “meu amor”, direi apenas “todos nós”.

O corpo quer um pouco de circo, mas, grande erro, o coração é um palhaço sem calças, que chora ao som de Satie. Ah, mas andarei mesmo sem corpo, é para isso que vim ao mundo. Serei um espectro de ternura na noite chuvosa. Serei os clichês que, somados, trarão o arco-íris ao pote de ouro. Não tenho mais forças, mais pés, mais quadris, andarei feito gás etéreo.

Vou cair, sinto que se aproxima o momento da queda. Vou cair, é lógico, é o que acontece com quem não pensa e não pára de andar. Vou cair e, com licença, meu amor, pensarei e ti quando estender as mãos por ajuda, e ninguém aparecerá para ajudar. Sempre que não houver ninguém, pensarei em ti, meu amor. Sempre que houver alguém, compararei esse alguém a ti. Devíamos falar menos com as palavras, dizer mais coisas com os pés, com o sexo, com a língua por dentro da garganta. Assim diríamos as coisas mais lindas, fortes, as coisas sem maldade ou bondade, enfim, as coisas como elas devem ser.

Agora já estou no chão, os órgãos murchos escorrem suas últimas sonatas pelos poros. Ah, estou quase morto, como é bom! Quase morto, penso ainda, que maravilha, que pertenço ao limite máximo de ternura da vontade! Penso em ti, minha Coney Island Baby, minha Lady Chatterley, minha Maria Callas, minha Edith Piaf, minha imagem desmanchada em tantos espelhos trincados... Ajuda, ajuda, estou como um menino, pedindo ao vento coisas que os seres humanos já não podem compreender. Delírio? Dizem que é conseqüência da febre alta – tive febre a vida inteira. Na minha frente, o circo do mundo, o esgoto dos homens. Eles passam como eras violentas que, quando percebemos, não podemos perceber. Agora talvez seja o fim, mas não vou dizer a vocês, quero tanto quanto vocês que o mundo seja um pouco mau, um pouco bom, mas que não seja falsamente bom. Um pouco de maldade explícita derrubaria outra vez os antigos vendilhões. Ah, um pouco de maldade explícita nos faria seres humanos melhores, não seríamos mais tão mentirosos. Pensar que poderíamos ser salvos pela maldade, eis a grande novidade não computada pelos corpos.

Todos passam por mim, estou sangrando em bicas, vomitando hóstias, com o chapéu na mão, com as mãos arrancadas no chão de chuva forte, o chapéu firme agradecendo a passagem, ainda assim. Todos passam com expressões de pena nos rostos, pensando na próxima sessão de cinema ou no amor falido que os espera em quartos quentes de doença. Erguerei o meu chapéu lá no alto para esses transeuntes, eles terão um pouco de ternura enfim, por se apiedarem do que não pede pena e cai com força, sobre os joelhos dobrados, marcado pela fúria do corpo sem arestas, e eu me orgulharei tanto de mim mesmo neste momento, que não será difícil largar o chapéu e segurar com toda força a rosa púrpura que, do fim dom mundo e das explosões fúnebres da terra cansada, salvará a mim e a todos nós.


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quarta-feira, 3 de março de 2010

NÃO ACABOU E JÁ RECOMEÇOU >> Carla Dias

Esperávamos pelo fim do mundo, mas ganhamos algum tempo extra. O século virou e continuamos aqui. 2012 que se cuide, pois somos bons em dar rasteira em presságios. Assim como somos péssimos em equalizar importâncias.

Muitos dizem isso, outros muitos dizem aquilo. Eu digo uma coisa e você outra. Às vezes, nos encontramos na compreensão, formando essas tribos necessárias, pessoas que se estranham o tempo todo, mas que por estarem ligadas à mesma busca, permitem-se aprender com as diferenças.

Quem diria que nos trataríamos com tamanha destreza tecnológica, alugando nicknames para os nossos eus inventados? Que molharíamos os pés diante da possibilidade de um mundo caoticamente high tech? Muitos disseram, eu sei... Mas Philip K. Dirk escreveu, Hampton Fancher e David Webb Peoples elaboraram e Ridley Scott, armado com seu Blade Runner, bateu o martelo: somos diferentes uns dos outros até, bichos, gente, máquina. Diferentes de um jeito que nos torna tão íntimos que também somos quase um.

E depois dessa melancolia agradável, cultivadora de um fim de mundo dependurado no abismo das nossas tentativas de sobrevivência, queremos todos nos mudar, mala e cuia, para Pandora, arranjar um Na’vi para amar, que nos ensine a compaixão e o respeito que a nossa humanidade desbancou em algum ponto. E desejamos com todas as forças poder dormir debaixo da árvore que não se cansa de contar a história dos seus, vivermos conectados com o planeta e com o outro, direito adquirido depois de uma guerra típica: balaio de enganos e desejos pessoais.

A tecnologia, danada, mostrando o quanto é importante aquilo que ela não tem: sensibilidade para compor a própria humanidade.

E a orca veio visitar o Rio de Janeiro que continua lindo, fez aniversário, aquele abraço, que cospe balas perdidas e cartões postais, enquanto se veste para os Jogos Olímpicos de 2016.

E políticos ainda sacaneiam seus destemperados eleitores, que preferem reclamar de longe, como reclamam das enchentes sem pensar que muitas poderiam ser evitadas com gestos simples e autorais, como cuidar do próprio lixo para que ele fique bem longe das bocas-de-lobo.

E o que mais me intriga são os que choramingam um “aconteceu”, depois de revelarem que mataram por amor...

Por amor, assim como a maioria, já fiz tantas burradas, já errei a mão tantas vezes, mas não me lembro de algo que se aproxime de tirar a vida de qualquer ser humano. No máximo, mato o tempo ouvindo love songs dos anos 70, chorando e rindo ao mesmo tempo, soluçando de coração psicodelicamente partido.

A minha compreensão do amor – versão Ridley Scott, James Cameron, Led Zeppelin ou Cebolinha - não consegue creditar a ele a capacidade de exonerar a existência do outro, e ainda de forma predadora... Se é que existe uma que não o seja!

Reconheço as manhas e as artimanhas do amor. Reconheço as frustrações, as mágoas. Mas não reconheço a inspiração que muitos dizem ele ter oferecido para sua própria execução: balas, serpentinas, lâminas, pradarias, desovas.

É tudo uma questão de crédito? E mérito...

Os óculos de John Lennon, as vestes de Gandhi, o ambiente de Chico Mendes, o rugby de Mandela, e as benfeitorias anônimas que recebemos e estrelamos diariamente. A música desfiando o desejo por paz, a violência perdendo força, a natureza protegida, a liberdade ganhando o jogo.

O mundo acaba a cada feito e recomeça no segundo seguinte, a gente se equilibrando na novidade. A correria contemporânea, tão distante das tardes arrastadas do começo do século passado, quando as visitas eram frequentes nas salas de casa, não nas virtuais.

Acredito que, antes de acabar esse mundo há de começar: as pessoas descobrindo nele as importâncias que as seduzem no imaginário. Encontrando nele a possibilidade de apreciar a natureza, respeitando-a como sempre desejaram ser respeitados. Ouvindo uma canção que fale sobre a paz reconhecida, a não-violência a tiracolo, e contando com a liberdade como companhia.

E cartões postais de papel reciclado...

Image: Francesco Marino / FreeDigitalPhotos.net

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