domingo, 28 de fevereiro de 2010

DEPOIS É QUE É >> Eduardo Loureiro Jr.

"O bom macarrão não precisa ser ruim para quem lava a panela."
(Albir José da Silva)


O que me chamou a atenção pela primeira vez foi um simples — e até saboroso — macarrão.

Eu estava passando um final de semana com uns dez colegas de escola numa casa de praia. Tinha 17 anos e não sabia cozinhar um ovo. Propuseram que eu lavasse panelas e pratos. Achei justo. Eu só não esperava que o fundo da panela de macarrão viesse com uma crosta queimada de aproximadamente um dedo de espessura. Nos longos minutos daquela minha lavagem, eu decidi que aprenderia a cozinhar e que deixaria trabalhosos fundos de panela para os outros lavarem. Mas, passada a raiva, desisti da vingança e apenas coloquei em minha cabeça que sempre comeria, cozinharia ou faria qualquer outra coisa  pensando no trabalho que aquilo daria não apenas durante, mas também depois.

Foi numa salinha do Theatro José de Alencar que aprendi que havia um nome para aquilo: pós-produção. Foi dez anos depois do episódio do macarrão, e eu já nem me lembrava mais do meu propósito de pensar sempre no depois. Eu era um jovem sonhador, fazendo "quatrocentos mil projetos que jamais são alcançados". Eu queria fazer coisas — que quase nunca davam certo — e tinha que me preocupar, antes de mais nada, em viabilizar minhas ideias. O que fazer com o resultado delas ainda não era uma questão para mim. Mas quando a professora explicou o que era pós-produção, me voltou tudo à mente: todo o depois.

Os ditados populares sabem das coisas: "quem não pode com o pote não pegue na rodilha", "ajoelhou tem que rezar". O depois vem cobrar seu preço, não há nada sem consequencias.Sonhar e realizar é maravilhoso, mas depois é que é...

Tem também uma historinha zen em que o discípulo, ao final do jantar, pergunta ao mestre o que fazer para atingir a iluminação. O mestre pergunta: "Já terminou de comer?" O discípulo diz que sim. E o mestre complementa: "Então vá lavar o prato". Uma irônica bordoada de pós-produção.

Foi então que decidi ter uma vida simples — por vezes saborosa. Passei a evitar qualquer coisa que desse mais trabalho depois do que antes ou durante. Isso incluía crostas em panelas, manchas no chão e nos lençóis, imprevistos de viagens, juros de empréstimos, desvarios em paixões e qualquer coisa que terminasse com aquela frase batida do grilo falante interior: "Agora aguente".

Com o tempo, meu grilo falante se converteu, ele mesmo, num monge budista em votos de silêncio. Não lhe dou mais motivos para tagarelar, afinal "é melhor prevenir do que remediar". Ando leve, minha pisada quase sem rastros. Não entro de chinelas no banheiro para não misturar pó com água e ter de lavar o chão mais de uma vez por semana. Faço ovos cozidos para não enfrentar a gordura de uma frigideira. Guardo palavras ferozes e amargas para depois não ter de me arrepender e pedir desculpas por as haver dito.

Sei que tudo isso talvez esteja muito errado, que o certo talvez seja lambuzar-se, sujar-se, errar, ferir. Que o medo do depois pode anular o antes e, principalmente, o agora. Que temos mesmo é de lidar com nossas crostas, enfrentando-as com valentia. Que a tentativa de manter-se a salvo só pode resultar em isolamento, em manias, em idiossincrasias, numa pálida imagem das grandes potencialidades do ser humano. Pode ser, pode ser...

Pode ser que essa paz que eu desejo e busco, esse sabor que eu provo nas pequenas coisas simples, limpas e sem novidade, essa leveza que eu carrego sem que me pese coisa alguma, pode ser que tudo isso seja ilusão e que a realidade seja mesmo essa coisa atroz, voraz, de gritos, de luta, de estresse e de cansaço.

Confesso ser incapaz de ser outra coisa nesse momento. Sou escravo de pensar que aquilo que eu sujo eu devo estar preparado para lavar, que aquilo que escolho devo estar preparado para aguentar, que aquilo que digo devo estar preparado para assumir, e que, se outra pessoa o faz por mim, trata-se de uma delicadeza, de uma gentileza, que eu jamais deveria tomar por outra coisa que não circunstancial, temporária, algo a ser agradecido mas não repetido, muito menos esperado.

Hoje sei fazer meu próprio macarrão, até para duas ou três pessoas. E se alguém, agradecido, se oferecer para lavar a panela, resolverá tudo em dois ou três minutos sem esforço. Sei que é pouco, quase nada. Que há gente por aí fazendo coisas mais dignas e importantes: salvando vidas, construindo prédios. Que minha vida direcionada a um depois de baixo impacto é uma brincadeira de criança diante das questões dramáticas da humanidade. Não sou daqueles que vão se meter em destroços de inundações, terremotos e epidemias. Não sou o herói, não sou nem mesmo o homem, o humano.

Vida pequena é a minha. Vida de quem não mais acumula, mas se desfaz. Vida de quem vai chegando ao fim do ciclo e sabe que o resultado tem que ser zero, que não deve haver saldo, positivo ou negativo. Vida de quem pouco sonha porque pouco dorme. Vida de velho quase bebê. Vida sem dívida para pagar depois.

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sábado, 27 de fevereiro de 2010

A PREGUIÇA DO BAMBU [Sandra Paes]

Domingo no parque. Tarde azul com vento frio nos envolve ao sair do carro. Eu, com os pés molhados dentro do tênis, depois de cair no lago de peixinhos. Simples assim. Piso na pedra da borda que balança e me joga dentro d’água. Mas como sou tipo gato, caio de pé. Até quando minhas “sete vidas” vão durar? Penso em silêncio diante das gargalhadas pela cena inesperada e, fatalmente, cômica.

Mas agora é outro momento. Rever os jardins japoneses, respirar ar puro, lembrar como é estar vivo de fato. Sim, porque os últimos acontecimentos no ano passado, por vezes, me tiraram o senso. Essa coisa boa que é simplesmente sentir, respirar e dar graças por poder fazê-lo e contemplar tudo à nossa volta.

No jardim japonês — um belo parque num bairro fundado por japoneses no século 17, aqui na Florida —, volto à casa. Lá tenho aquele gostinho de brincar outra vez como criança, imaginaçao solta a cada parada e a cada visão de árvore que parece especialmente plantada ali apenas pra realçar meu apetite de beleza e natureza.

De repente, uma parada súbita. Um certo grupo em torno de uma jovem, vestida pra festa, em seu delicado traje azul violeta e sua juventude pictórica refletida num rosto impressionista debaixo do chapéu que compunha seu traje de debutante. Paramos todos diante dos transeuntes.

A menina do chapéu lilás rouba nossa atenção por um momento e me transporto ao tempo dos pintores impressionistas lá em Paris, num dado picnic, talvez a sentir o mesmo que senti nesse instante. Quem sabe?

Continuamos a caminhar e eu, quase flutuando, me recordo do tempo em que nadava nos céus. Sim, porque céu azul como esse é para se nadar. Braçadas lentas, meneio de cabeça leve a contemplar lá do alto a paisagem difusa lá debaixo. Comento com minha amiga sobre essa visão quase desejo e ela sorri por assimilar o pensamento.

“— Quem sabe dia desses poderemos apenas pensar e as imagens e sons do que sonhamos sejam transportadas simplesmente para a mente do outro como num filme desses que a gente coloca com adendo nos nossos emails?” — esse seu comentário, comungando de meu sonho de nadar no céu azul, me deixa em regozijo.

No passeio de um jardim japonês tudo é válido e concreto. De repente, meio ao silêncio misto com sons de vozes ao redor, ouço um espreguiçar, desses que a gente experimenta quando deita na rede, à tarde, quase anoitecendo, depois de um almoço feito em fogão de lenha. O corpo pende lentamente e a rede lança um som de preguiça, dessas cheias de poesia e encanto: nhec, nham, nehc, nham...

Olho lentamente à busca do ser lânguido que ecoa novamente: — Nhec, nham, nehc, nahmmm... Quem será?

Ergo a cabeça em busca de um pássaro ou algo que seja. Quero saber quem, a essa hora da tarde, me deita tal preguiça. E ei-lo: magnifico, junto a seus companheiros, numa dança de rede de nordeste, a balançar. Um dos altivos bambus num grupo de uns seis ou sete, naquela touceira, a mostrar que também eles parecem sentir preguiça. Sorrio em sinal de cumplicidade e seguimos a caminhar.

Lembro-me das lições de ikebana, aprendidas há anos na Igreja da Rua Itabaiana. Aprender com as plantas, todas elas, a ler o vento, seus sinais e códigos, apreender com os galhos e seus movimentos o que a natureza fala naquele instante, e saber com delicadeza a nos comportar como eles em seus reinos magníficos. Os bambus nos revelam a resiliência e a flexibilidade. Em sua altivez, jamais perdem a humildade de saberem se curvar e mesmo diante de tantos desafios podem nos sussurrar, mesmo sem conhecerem Macunaíma: “— Ai, que preguiça!”

A natureza me refaz as conexões cerebrais. Reaviva a memória essencial e fala ao meu peito, agora manso, que amar e cultivar a amizade é do reino de minha riqueza íntima. Tão nobre quanto a beleza do jardim onde hoje pouso minhas pegadas e impressões, mesmo com os pés molhados e gostosamente fresquinhos.

Mais uns passos e chegamos diante da exuberância dos bonzais. Não resisto, e abraço com gosto uma das arvorezinhas. Ela me chamou, eu juro! E quando vou ver quem é... surpresa: uma jabuticabeira brasileira! Jamais pensei que pudesse haver uma jabuticabeira em forma de bonzai. E não deu pra evitar os tempos de menina a subir na árvore cheia de frutos e sentir a vida sem sabê-la.

E parece que é assim mesmo. Viver a vida exclui o saber. No momento em que se vive, apenas se registra, em todos os sentidos, o almagama de quem passa e experimenta. O resto são códigos dos homens em nome de se fazer históricos, cheios de selos e etiquetas.

Eu fico com a preguiça do bambú que ainda ecoa em mim seu sussurro sábio de altivez, resiliência e humildade: — Nhec, cnhec, nhammmmm...


Imagens: Jardim Japonês, Sushicam.com; Paz Interior, Artenara; Caminho de Bambu, Getty Images

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L'AMORE NO >> Leonardo Marona

"orgulho do papai"

o suicídio foi marcado no primeiro dia
a fogo, ferro e, vá lá, algumas rosas,
estas que, nós bem sabíamos, jamais
agüentariam o mau tempo do adeus,
mas mesmo assim nós lambíamos
estas rosas de plástico como filhas,
e no fim chegou o dia, ficamos eu
e a corda e o penhasco e a árvore,
você se foi, fugimos ao combinado
e de ti, desculpe amor, roubei a foto
que guardarei na carteira, e daqui
a vinte anos, quando perguntarem,
responderei: essa aqui é a minha filha.


"fim de partida"

agora, prometo, calarei minhas chaves,
deixarei escorrer, dolorido, todo visco.
me arrancaram os corrimões infalíveis
e a memória antecipa-se aos acordos.

nada mais de gritos de veludo, os tiros
de festim tornaram-se balas de ponta
metálica, como o gosto no fundo do sexo
que não fornece mais ao cúmulo armas
necessárias para perpetuar com cismas
o que cansamos de matar com nomes.

agora você já vai bem longe, sumiram
os precipícios em cuja beira dormíamos
calmos, o vento parado anuncia cortes,
não mais, porém, os cortes renegados
pelo que no fundo doía de dor legítima.

esquinas não receberão mais as ancas
do que borbota como lava, mas já não
queima, porque somos agora carvões
abandonados ao fogo leve da partida,
e quem sabe voltaremos, quem sabe
um dia não acenderemos como brasas
para deixar a carne ainda crua dentro,
por mais que, fora, a pele não responda.


"crime passional"

é preciso ter muito amor,
para enfim matar o amor,
para, não sobrando nada,
termos pelo que morrer.

é preciso não saber nada,
matá-lo como um viciado
atrás do que já não enche
mais o coração desatento.

não se espera a enchente
que arruinará as cidades.
engolimos água e fomos
obrigados a ver os peixes.

uma vez vistos os peixes,
estamos arruinados, não
há nada a fazer, o amor
receberá a faca na nuca.

necessário, infelizmente,
aos com muito amor, ir
na direção do que espera
ainda quente, respirando
com dificuldade horrível

e meter a faca até o fundo
e tirar o sangue, lamber
a faca aos prantos, afinal,
só se mata o que se quer
para sempre vivo, em nós.


"assassinos também mandam flores"

porque você é a ideia mais perfeita de deus,
porque me bato nas paredes, quero gritar
nas ruas, porque não importa a chuva, a falta
de luz na cidade, os mortos pobres do Haiti,
porque estou aqui, pensando o que eu faço
com essa mulher que vai embora enquanto
eu ficarei com toda essa maravilhosa carga
de quem tocou no fogo azul incomensurável
que não chega a queimar a pele, mas deixa
marcas do que teimamos em não chamar,
jamais chamar de amor, porque não sei mais
chamar o que me chama cada dia mais perto
enquanto perdemos os dias, exaustos, loucos,
e aqui morro de asma na calçada de teus pés.


"declaração fulminante"

vemos o necessário apenas
e a escuridão total facilita.
digo baixinho, quase mudo,
coisinhas delicadas, choro,
e sei que você entende tudo,
porque não ouve nada: olha
babe, como te amo no escuro.
o amor só é possível assim.


"taís"

com a barba vermelha banhada em sangue,
dirijo-me à gruta da tua vontade liquefeita.
os olhos já não esperam a carne do vacilo,
o corpo treme, mas as mãos, enfim, unidas
massacram com delicadeza tua pele úmida.
tento falar das coisas do amor, mas tu fechas
com tua mão minha boca e exiges um pouco
do veneno cotidiano que nos salva e arrasa
as paredes do tédio diário, e nós estamos ali,
nos banheiros apertados, agarrados à volúpia
que não exige palavra, mas sim o desperdício
com o qual faremos a comunhão das espécies
e pularemos etapas, nos graduaremos ciganos,
não precisaremos talvez mais ter que começar
os poemas com as barbas banhadas em sangue.
estaremos tortos enfim, para sempre esgotados,
e nosso sorriso satisfeito calará todos os poetas.


"l'amore no"

forte como o sol, hoje arrancarei tua roupa
e, vagarosamente, penetrarei por um segundo
no teu âmago, como diria Leopardi, te farei
dizer meu nome aos sussurros, o dedo fundo
na tua boca úmida, nossa respiração obscena
envergonhará os versos, arrancará toda asa.
seremos o delírio árabe, e as sirenes trarão
os mortos pelo êxtase, e a completude viva
do cansaço, do sol sufocante, do suor morno
compartilhado entre estranhos serão a nossa
força, nossa diáspora, nosso pistão de ferro.
e desatentos, desditosos, iremos com braços
dados, em meio aos turistas de outras línguas,
enquanto nós, os perenes, diremos baixinho
na única língua do amor: no, l’amore no.


"chuva"

a felicidade tem
esse lado ruim:
quando acaba
a gente fica
triste.


www.omarona.blogspot.com

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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

A ENTREVISTA >> Kika Coutinho

Juro que achei que fosse fácil. Com essa coisa de crise, recessão, quem é que não ia querer ser babá? Ainda mais assim, de uma bebezinha tão linda quanto a minha, oras.

Pois bem. Armei-me com alguns telefones e iniciei a minha peregrinação:

— Alô? Oi Socorro, tudo bem?, meu nome é Ana, estou procurando uma babá.

— Ah, pois não, estou mesmo procurando emprego.

— Vamos marcar uma entrevista? Moro aqui, do lado da praça.

— Claro...

A moça chegou. Simpática, jeito bom, esperta. Quando entramos no terreno de salário, tomo um susto. “Quanto?”, pergunto. Ela confirma... Opa... Como é que eu posso dizer a ela que também quero esse emprego?

— Se você achar uma vaga, pode perguntar se tem duas?

— Como? — ela não entendeu. Nem era tão esperta assim, consolo-me, enquanto a acompanho até o elevador.

A cena se repete algumas vezes, até que mudo a minha abordagem no telefone:

— Alô? Você quer ser babá?

— Quero sim.

— Quer ganhar quanto?

Bom, quando a resposta era satisfatória, eu passava para entrevista pessoal. Nem sempre a resposta é clara. Conceição, diz apenas:

— Depende..

— Ai, ai, ai, depende do que, mulé?

— Ah, é melhor a gente conversar pessoalmente, eu vou ver como você me trata e ai a gente decide isso. – Opa, gostei dela.

— Claro, claro. Quando você pode vir aqui?

— Onde você mora?

— Perto da praça.

— Ah, o local é bom pra mim... Posso ir amanhã às 14, mas você... Ai, te chamo de “você” ou “senhora”?

— Humm, pode me chamar de “você” mesmo.

— Por que você é jovem, é? Posso perguntar a sua idade?

— Claro, tenho 31.

— Ah, e a neném?

— Ela tem 2 meses – estava começando a me sentir incomodada. Quem devia fazer perguntas não era eu?

— Nossa, idade boa, eu gosto de cuidar de bebês...

— Sei... — eu já estava esperando a próxima pergunta.

— E é só você e seu marido?

— É sim – respondi, me ajeitando na cadeira.

— Que bom! E vocês dois são de São Paulo mesmo? — gente, ela é quem estava me entrevistando!

— É somos de São Paulo, sim. – agora eu estava preocupada em dar as respostas certas.

— Hum, eu sou do Pernambuco – a moça tentando fingir que ela era a entrevistada.

— Ah, que bom – eu estava puxando o saco dela?

— Ah, então tá... Daí eu vou aí e já conheço vocês, né? Tem outra moça trabalhando na casa, tem?

— Tem, sim.

— Hum – ai, ela não gostou, eu devia ter dito que não.

— Mas ela é muito boazinha, viu? — tentei consertar.

— Tá certo, então, vou aí as 14, né?

— A hora que você quiser — eu estava quase implorando. O que era aquilo?

Antes de desligar, tive o ímpeto de dizer que estava muito animada com a possibilidade de trabalhar com ela. Ainda bem que não disse. E ainda bem que ela não apareceu. Mais uma entrevista na qual fui rejeitada.

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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

JURAMENTO >> Carla Dias >>

Juro pela fragilidade da minha própria humanidade que tentarei não sucumbir às juras decoradas dos pequenos livros de memórias alheias aprisionadas às frases feitas. E que vou cavar buracos nas paredes, até que a luz engravide de presença o vazio dos quartos, requentando deslumbres devotados ao anseio pela recriação.

E recriar amiúde desalentos para que não falte matéria-prima aos poetas e aos autopiedosos.

Juro que sucumbirei aos sorrisos a cada recorrente espasmo de desalegria, transformando a prostração - oriunda do avassalador desconserto de quem nada sabe sobre si que dirá sobre o outro – no primeiro passo da dança tão aguardada. Mas que fique registrado que as desalegrias enfeitam o chapéu da intensidade, assim como a sua antagônica companheira:

A alegria de enxergar de olhos fechados as margens do corpo, as bordas do espaço, a mansidão da respiração. O vazio instalado em meio às multidões.

Juro não deixar de dar de comer e de beber aos sonhos, e os cuidarei ainda que tenha de niná-los à escuridão do sentir dos carcereiros que se divertem apregoando um poder que jamais desejei ter. E a cada sonho darei um nome que me lembre os que me esperam lá fora, depois das orlas, acima dos templos, nas beiras dos afagos.

E que vou vasculhar cada canto nu em busca da veste que caiba nesse coração que é meu, mas que às vezes me parece do mundo, vagabundeando nas mãos dos amores vãos, bancando o dândi, o entendido, o que se safa e sofre escondido para não alvejar de discordâncias e incômodos os que o cercam.

Juro não desflorestar princípios, assassinar percepções ou trancar todas as portas e as janelas do fascínio. E jamais tapar os poros de onde minam os perfumes e as conquistas, embalados num desvairado sabor afã. E que vou dormir, nas noites de inverno, embrulhada em silêncio, pairando sobre jardins secretos, reverberando a língua das sonatas, contracenando com o índigo do futuro no plural, que é para mantê-lo em aberto, pai das opções.

Juro materializar o amor sempre que possível: gestos, oferendas, dedicatórias escritas em guardanapos, lágrimas na nuca acompanhadas de beijos. Amparo no abraço, candura nas palavras, a fraternidade da companhia. E pontes para aprender a atravessar lonjuras.

Eu juro cada juramento e mais de uma e duas e três vezes. Nem sempre de forma solene, às vezes gargalhando baixinho. Juro pela umidade das coisas-sentimento, pela rivalidade entre quem sou e o que sinto, pela camaradagem entre as dores e a infância de quando ainda sequer pensava em construir a mim, do tijolo ao tombo... Do tombo ao voo... Do voo ao desalinho... Do desalinho à catarse.


www.carladias.com




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terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

EU GOSTO E PRONTO
>> Felipe Peixoto Braga Netto

Eu gosto de sol, gosto de árvore, eu gosto de cerveja. Não, não há nenhuma relação óbvia entre os três, eu só queria dizer que gosto de cerveja, mas estava com vergonha de dizer assim, dizer só isso, sem outros gostares juntos.


Sempre gostei. Não gosto de outra bebida. Detesto uísque. Não tomo pinga. Tudo bem, a única infidelidade é um vinhozinho. Mas só para acompanhar uma massa ou, às vezes, num jantar romântico. Gosto mesmo é de cerveja.


Na Europa, no verão, toma-se sorvete. Aqui se toma cerveja. Está certo? Não sei. Mas por que não fazer os dois? Toma-se uma cerveja e depois um honesto sorvete. Vivemos no mundo do pluralismo, gente, é preciso aprender a não discriminar. (Ah, falando nisso, também gosto muito de sorvete, tem um perto lá de casa que é ótimo, um dia vamos lá).


É uma bebida que agrega. Talvez pelo fato do álcool da cerveja ser menos agressivo que o das outras bebidas. Quem bebe uísque, vodca, é muito mais solitário que quem bebe cerveja. Não sei, mas acho que as outras potencializam o que é depressivo. A cerveja, ao contrário, agrega, diminui as restrições individuais, a dificuldade de socialização. Claro, desde que sem exageros. Quem perde o chão fica chato e perigoso.


Em Minas, e eu acho isso bonito, as meninas (algumas) também bebem cerveja, também gostam. Claro que só é certo fazer isso comigo, sem minha presença é arriscado, fica perigoso e talvez feio.


É, acho que é só isso que eu tinha a dizer. Quase nada, você viu. Era só uma pequena homenagem lírica à cerveja. Acho até que ela combina com Belo Horizonte. É, combina. De tarde ou de noite, num boteco com mesas na calçada, debaixo de uma árvore gorda, tomando cerveja e pedaços de sol. Ah, é bom, faz bem, não é errado não.


E nessas horas você pode, ninguém proíbe, pensar nela, fazer planos, achar que sua vida será bonita e boa. Pode até ser que não seja. Mas é bom se enganar um pouquinho assim, é um engano inocente, não faz mal a ninguém.

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sábado, 20 de fevereiro de 2010

DOS MAIS VELHOS [Monica Bonfim]

Eu sou do tempo em que a gente crescia ouvindo que devíamos respeitar os mais velhos. Eu chamava até as primas de minha mãe de ”tia” e “senhora”. Os “mais velhos” sempre tinham razão, por motivos aparentemente insondáveis. Os mais velhos tudo sabiam e sua quilometragem na vida dava, automaticamente, um sentido de certeza absoluta aos seus comandos e vaticínios.

Mas eu também fui ensinada a pensar e questionar, então, num determinado momento, acho que minha cabeça de criança atribuiu uma sabedoria implícita — embora inexplicável — às atitudes dos mais velhos, até porque me diziam que quando eu crescesse (no início) ou ficasse mais velha (depois que minha estatura começou a aumentar muito rápido) eu iria entender.

Assim, acabei por atribuir, muitas e muitas vezes, quase uma visão profética às atitudes dos mais velhos que, naquele momento da minha vida, não faziam o menor sentido lógico ou, de fato, demonstravam apenas mesquinhez, orgulho, vaidade e ciúme. Não me parecia possível que aquele mais velho, com tantos anos vividos, não tivesse aprendido algo, não tivesse a percepção da realidade, não tivesse humildade para admitir que não sabia, que estava inseguro e com medo. Então, aquela atitude, naquele momento, seria explicada para mim, num futuro, quando as conseqüências daquele ato, aparentemente vil, apareceriam, como flores perfumadas.

Acontece que o tempo passa, por óbvio, para todo mundo e, inclusive, para mim. Então fiquei eu esperando que a afamada sabedoria implícita dos “mais velhos”, tão decantada em minha infância, também caísse como um manto sobre os meus ombros. Por certo não fiquei sentada esperando isso e, como a vida ia passando, fui tratando de aprender o que podia, e repetindo lições quando falhava, até aprender alguma coisa.

Mas aquele instinto da certeza absoluta que era atribuído aos “mais velhos” nunca me apareceu: eu continuo me sentindo insegura, triste e carente, às vezes. Continuo tendo que ultrapassar meus limites, meus medos, meus preconceitos. Continuo tendo que vigiar minha vaidade, meu orgulho, meu egoísmo. Tenho que botar meu gênio sob rédeas curtas, meus amigos, porque o passar do tempo me deixou mais paciente para algumas coisas, mas muito mais impaciente para outras. Minha ansiedade ainda é descarregada no meu vício — eu adoro — de fumar.

Conseqüentemente, agora que eu estou quaaaaaaaaase também uma “mais velha” (o meio século bate à porta), digo aqui para vocês baixinho que perdi o respeito pelos mais velhos. Não sei se porque os acho quaaaaaaaaaase meus iguais — e se têm 20 ou trinta anos mais do que eu e ainda não se consertaram... sinto muito — ou se porque cansei de esperar que as flores perfumadas aparecessem.

Enfim: o manto de sabedoria ainda não aquece meus ombros, mas talvez os óculos de leitura tenham me feito enxergar melhor as coisas...

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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

EPIFANIA NOTURNA ANTES DO INCÊNDIO >> Leonardo Marona

para você, Lispector, que nasceu com a cura
Ao virar a página 84 do livro, sentiu calor e sono, era bolor e como que um entorpecimento de anestesia. Um sentir exagerado, os lábios inchados. Como um medo mortificante de finalmente entender sem precisar ponderar. Reparou que sangrava. Que diferenças têm o sangue e a vida? Era sua vida que escorria. Era o teto do quarto, claro de idéias, idéias selvagens, indomáveis, azuis e alaranjadas, e ela precisava escolher uma delas para flertar com ela até adormecer. Apanhou o caderno onde anotava suas paixões secretas, suas táticas miseráveis de aborrecimento. Anotou no papel:

O peso dos dias tem sido, não, não há didatismo aqui, não aqui, o didatismo é apenas uma forma de reconhecer a verdade quando se precisa – para forjar um cume, ou um crime – de um vasto continente de cismas tectônicas. Falemos então o que não é verdade, o que não é nada senão uma potência fugidia e desequilibrada. Escrevamos um texto leve hoje, eu junto àqueles por quem fui designada “aos prazeres e às dores”, aqueles que me comandam quando a alma esvazia a carne, e nada mais existe para que tudo possa ser vislumbrado e silenciado pela falta de sentido e pela paz.

Olhar muito tempo para uma coisa significa fazer desaparecer a coisa, tornar-se a própria coisa. Eis a raiz da fragmentação dos corpos, da fusão dos mesmos e, em suma, do tele-transporte das almas, a que damos a denominação precária de amor; para outros, visão. Mas poucos entendem o amor que existe por baixo de todas as cascas do amor. Eu mesma entendo somente as cascas do amor. Mas conheço quem descascou o amor até se tornar o amor e, portanto, sem se reconhecer como tal, ser reconhecido por aqueles em quem se refletia. São os agentes de Clarice Lispector que esvaziam minhas gavetas de madrugada.

Mas este é um texto leve, pretensioso, fadado portanto a alguma expectativa de retorno da parte que me escreve nas vértebras, e é por pensar na minha pessoalidade que eu me confundo com os espelhos nas ruas, tropeço e largo a linha fictícia da minha realidade singular de dor e prazer, e transbordo o amor que carreguei como um camelo por desertos sorridentes de ódio. Estava tudo bem claro: “sou mais aquilo que em mim não é”, o amor esse indizível, sem cascas, irreconhecível, impessoal, o amor que é a maldição de quem ousou fazer dele moeda de troca, pobres corsários! O amor que não é feito de reconhecimento ou troca. O amor que é o amor e meio. O amor que é leve como o fim.


Vela-cortina-chamas, por traz da grama prateada, os olhos injetados de um terreno seco, em fundo vangoghiano a mão enrugada de quem um dia soube, agarrada à cauda dos sonhos com um lápis de ponta quebrada.


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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

A MADRUGADA >> Kika Coutinho

Quando eu era jovem — ups, mais jovem — frequentei algumas baladas na noite de São Paulo e achava que aquilo era muito emocionante.

Casei-me e, tendo minha filha, pensei: “Acabaram-se as noitadas, as emoções da madrugada ficaram no passado”. Ah, que tolice. Eu não sabia que as emoções das madrugadas estavam apenas começando.

Ter um bebê é como ir — obrigatoriamente — a uma rave, toda noite.

Imagine que você pode não estar afim de festa, pode estar com preguiça, cansado, sonolento, mas é obrigado a ir à balada. Pior, a balada vem até você. Toda noite uma rave, é assim que me sinto com a minha pequena notívaga.

Ao invés de rímel, pijama. Ao invés de salto alto, pantufas. O ritual noturno repete-se, com algumas diferenças da balada. Não pago nada para entrar nessa festa, ou melhor, não pago diretamente, mas, mensalmente, essa rave custa-me uma pequena fortuna.

Também não recebo a festa sozinha, não; meu marido compartilha comigo das noites intermináveis desse clube e, juntos, descobrimos os dissabores da madrugada.

Normalmente iniciamos achando que tudo vai se sair bem. É só mais uma horinha e ela cansa, pensamos. Mas ela não cansa. E nós, sim, cansamos a beça. Quando passam-se duas horinhas desse primeiro momento, já precisamos revezar. É como se um achasse um sofazinho pra sentar, enquanto o outro é empurrado pra pista. Nossa, quanta fumaça! — eu diria na balada. Em casa, repito baixo: “Nossa, quanto xixi!”, e lá se vai mais uma fralda. Meu parceiro da noite faz uma pergunta inocente: “É normal vazar xixi?”. Eu acho que é, mas, no meio da noite, tudo o que é normal pode não ser. A madrugada tem outras cores, um cigarro pode não ser só um cigarro e um guaraná pode ter um "boa noite, cinderela". Ai, eu queria tanto tomar um "boa noite, cinderela", penso, antes de apavorar-me: Será que xixi demais pode ser algum problema? Ih, e tem cocô! Puxa, que cocô mole, acho que ela está com diarréia. Tiro meu cúmplice de sua poltrona: “Amor, põe a mão aqui, veja se ela está com febre”.

Hum, tá quente, ele responde sem pensarmos que está quase 40 graus em São Paulo. Achamos um termômetro. Tentamos. Trinta e seis é febre? Acho que não. Esse termômetro tá funcionando mesmo? Deve estar.

Calma, calma, calma, repito como um mantra, enquanto a música eletrônica me ensurdece os ouvidos. Como chora alto a minha menina... As horas passam, ofereço o peito e temos uma trégua. Estamos no bar e alguém nos deu água. É só meia horinha, mas é um alívio sair da muvuca, não? Quando o peito esvazia, de novo somos empurrados para a pista lotada. Já não consigo respirar, está muito alto esse barulho: “Putz-putz-putz-putz-putz-uééééééééé”, é uma sirene? Ela está engasgada? Estou enlouquecendo. Será que tinha mesmo um "boa noite, cinderela" no meu guaraná? Tomei guarná? Uéééééé, uééééé. O bar fechou e decido fazer uma mamadeirinha pra ela. Tento sair da escuridão da balada, acendo algumas luzes, o choro fica distante, parece que fui tomar um ar. Na cozinha, sinto-me do lado de fora da boate, respirando por alguns instantes. Logo, chega meu companheiro, assustado: “Olha o que saiu do nariz dela!” e me mostra um tequinho verde, caca pura. “É uma caca de nariz, amor”, respondo com a sanidade de quem saiu da rave. “É normal?”, ele pergunta, ainda ofegante. “Do meu nariz sai caca, do seu não?”. Ainda me resta algum humor. Ele sorri, eu respiro. Se estamos conseguindo rir, ainda há esperança. Deve ser porque o sol começa a despontar lá fora e nossa pequena rave, logo, nos dará uma trégua. Ela dorme e eu penso em pedir o carro. "Vamos?", convido olhando pra ele. "Vamos", ele responde, me puxando pela mão.

É dia em São Paulo...

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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

UMA CARTA >> Carla Dias >>


Meu amigo,

Tarde quente nessa cidade que cata cinzas dessa quarta-feira. Fantasias no guarda-roupa da alma, colhendo pó de anteontem, um relicário de mazelas e belezas. E eu espiando as coisas de ser aqui desse canto, as extremidades da aurora sambando as canções de amor e dor de Alice Cooper. O rock batucado nos tamborins sedutores de sentidos, depois descansando no corpo das alfaias.

E então, o silêncio faz falta.

A noite que se despediu teve de mim a companhia dos olhos arregalados. Aproveitaram o carnaval para arrumarem as calçadas, entupirem o estoque, pilharem comilança. Então, o supermercado em frente recebeu caminhões barulhentos nas madrugadas silentes de feriado prolongado, caprichando em seu samba enredo na noite de ontem. E eles gritaram até: os caminhões e os moços entregadores. Enquanto isso, meu sono se perdeu de vez de mim, exausto com a festança das noites anteriores: caminhões, gritaria e falta de respeito para com aqueles que usam as noites para dormir.

Poderia colocar a culpa da minha distração de hoje no fato de não ter pregado os olhos, da cabeça doendo o barulho todo, mas não... Falta-me a coragem para construir um equívoco. O que me tira de hoje, meu amigo, vem de antes das clarabóias enfeitadas com coloridos lenços, promovendo a dança da nuança, os tons e semitons, dégradé. Vem de antes das madrugadas à mercê da sinfonia do ronco dos motores. E até mesmo de antes dessa que visto hoje.

Distraio-me com a intemperança da saudade do que jamais toquei, sorvi, provei. E de saudade eu me resvalo na cortesia das lembranças inventadas.

Inventada, aprecio quem se achega e me oferece o bálsamo da boa conversa, a fiada e a afiada, premissa das profundas, de quando dizemos levezas até tocarmos o ponto nevrálgico, onde tudo dói para que, depois do dito e do sentido, desmistifiquem-se as dolências, restando o perfume: bálsamo. E nas trincheiras dessa profundeza destoante sejam paridas as conversas sobre o amor das compreensões.

Sei que dirá que sou das que misturam o amor com as revoluções, até na vida inventada. Mas também sei que o amor é pai e mãe das revoluções, pois assopra paixões na alma da gente. Das românticas e das libertárias.

Acomodo-me nessa tarde quente, vestindo a capa da funcionária nada exemplar, que faz mil e sei lá tantas coisas ao mesmo tempo, resolve problemas, decide questões, mas ainda assim se sente pequena demais diante da grandiosidade dos feitos. Na hora da cria, de parir presente nessa realidade que unge o tempo, não me sinto autora, mas uma espectadora distraída.

Mas sabe no que mais penso, nesse momento, meu amigo? Na ostra e no vento, e nas superfícies sem fim para se correr de todos e ser pego por si no bemol da felicidade. E na multidão de marionetes recebendo, das mãos da vida ao vivo, a alforria.

E girassóis... Sempre penso em girassóis.



Cuide-se bem... Daquele bem de benquerença e cuidado. Porque, meu amigo, a gente às vezes se esquece em cada canto de nós mesmos...

Carla.


PS.:


"A ostra e o vento" © Chico Buarque



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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

FANTASIA >> Albir José da Silva

Tudo planejado há uma semana. A cabeça trabalhou rápido quando ouviu que poderia ajudar na obra e receber o dinheiro na sexta-feira: uma roupa nova - que nem precisava ser nova – da feirinha da igreja, uma sandália branca, um chapéu de palhinha e um cordão dourado que viu na feira por oito reais. E um dinheirinho no bolso até quarta-feira pra cerveja, o angu à baiana e um churrasquinho, se alguma mulher valesse a presença.

Acordou cedo, sentindo a agitação do carnaval, mas ficou triste ao lembrar do bolso quase vazio, apenas uns trocados que sobraram do almoço da semana. Trabalhou duro, mesmo com a perna doente, e agora o dono do trabalho desapareceu.

Desceu até o Largo do Estácio e, de passagem, perguntou ao Pernambuco pelo patrão desaparecido. O outro gritou com ele que também era empregado e não sabia de nada. Quitério teve certeza de que o Paraíba embolsara seu dinheiro.

Passou no boteco. Antes o português gostava dele. Nos bons tempos pegava fiado e pagava direitinho. Depois que ficou na pior nem pode mais entrar no estabelecimento. Não chegou a completar o pedido. “Suma daqui, ó filhote de assombração...” gritou o ex-amigo.

Foi andando pela Mém de Sá e dobrou pra Tiradentes. Mancava por conta do atropelamento recente e do gesso que tirou com uma semana porque o pé estava ficando roxo. No Largo de São Francisco sua bexiga doía de cheia. Encostou na parede da Faculdade, como faziam muitos outros foliões, fechou os olhos e abriu a calça.

Sentiu a borrachada que o jogou no chão. Saiu de lado, ainda sem levantar e ouviu o PM: - Agora tem lei anti-mijo, se fizer de novo vai em cana. Os outros, que estavam no muro, também se afastaram, mas ninguém apanhou. Só ele. Sentiu a ardência no braço e nas costelas e viu o vergão que se levantou. Uma lágrima de ódio escorreu e ficou secando no rosto preto de poeira.

Atravessou a Rio Branco e notou que estava faltando um chinelo. O asfalto derretido agarrava-se à sola do pé. Sentiu sede, gostaria de uma cerveja, mas isso lhe custaria quase todo o dinheiro. Pediu uma caninha da roça, de cinqüenta centavos, num copinho plástico de café. Reclamou alto que estava “batizada”, que era água pura, e levou um empurrão do mulato de olho vermelho.

Já na Cinelândia, olhou no espelho do Banco e viu sangue que descia pelo pescoço. Com certeza bateu a cabeça quando foi “esculachado” pelo PM. Não podia andar por aí assim. No chão, viu um chapéu-cone que alguém abandonou. Ajeitou como pôde o cabelo branco, ralo e sujo. O bico caiu de lado escondendo o pescoço com o sangue já seco. A lágrima na poeira do rosto parecia maquiagem. E ele achou bom. Um pierrot. Nunca se vestira de pierrot. Não é que agora tinha uma fantasia!

O coração bateu acelerado e ele percebeu que era o ritmo da bateria do Cordão do Bola Preta. Quitério teve certeza que o seu carnaval começava. Apenas começava.

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domingo, 14 de fevereiro de 2010

MINHA FOLIA >> Eduardo Loureiro Jr.


Parece que é Carnaval. Não estou de todo certo, mas ouvi falar. Em algum lugar, longe da minha vista e de meus ouvidos, deve haver foliões mais ou menos embriagados. Alguns, a essa hora da manhã, devem estar curando a ressaca com mais bebida. Em Aracati, estão todos na praia de Majorlândia. Em Olinda, subindo ou descendo ladeira atrás de um bloco de nome estranho.

Se eu não tivesse outro motivo para desgostar do Carnaval, bastaria uma foto antiga de um menino gordo vestido de pirata: chapéu, tapa-olho, cara de poucos amigos, colete, banhas e calça. Ainda existe gente que tem saudades da infância...

Aqui em Brasília, se alguém quiser, suponho que seja possível "brincar" o Carnaval. Você tem que ir atrás, não é como em outros lugares em que a "brincadeira" vem até você — lembrando sua outra denominação: entrudo. Podem falar o que quiser de Brasília, mas aqui, mesmo nesses dias, se liga o rádio e se ouve música, Música.

Sei que estou bancando o chato, que melhor seria bancar o folião, mas minha folia, minha loucura (Comprenez vous?) é outra. Também tem bloco, também tem canção, também tem fantasia, mas minha folia é outra. Minha loucura é pensar que posso ser tudo que quero ser. E sou pirata e pierrô e arlequim. Não me travisto de mulher, porque mulher já sou. Me embriago de água da torneira até arrotar. Abro a tampa verde do frasco que fica sobre a pia, com água do mar, e mergulho, dou cambalhota, pego carretilha.

Que são cinco dias de loucura? Depois do Carnaval, todo mundo volta para a sua sanidade e eu ainda tenho mais trezentos e sessenta dias para pirar. Todo dia, bêbado desse mundo, penso loucamente que esse mundo é tudo. Não é. Esse mundo é todo fantasia, todo cenário, carnaval que só a morte de cinzas pode acabar.

Sim, minha loucura é viver em outro mundo que não esse, ser outra pessoa que não essa, escrever outra coisa que não aquela que eu mesmo escreveria. Minha folia é não ser eu mesmo, sem artifícios: mascarado sem máscara, embriagado sem álcool, travestido sem roupa. Sendo o que não sou: elevador de santo — tanto baixa quanto sobe.

Carnaval é matinée, é vesperal. Na festa que vale, noturna e diuturna, dou baile, dou balão. Dou banho de cuia quando o assunto é ser outra pessoa, outro Pessoa.

"— Quem é você?"

Não vou dizer. Adivinhe se gosta de mim.



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sábado, 13 de fevereiro de 2010

DOS TIJOLOS [Monica Bonfim]

Alguém me contava, outro dia, um final de um filme — se não me engano dirigido pelo Mel Gibson — onde alguns índios numa praia não viam a aproximação das caravelas; o único que enxergava os navios era o pajé.

E lembro que em “Ilusões”, Bach faz seus personagens discutirem sobre isso: “Vivemos mesmo no mesmo mundo uns dos outros? É relevante para nós o que apavora os outros? Chegamos a enxergar a barata que deixa a outra apavorada? Vemos a loja que não está mais lá?”

Outro dia passei por uma construção que minha memória não registrou seu adiantamento: esse prédio já estava aí deste jeito anteontem quando eu passei? Tenho a teoria (não creio que seja original) que nossas dificuldades são muros que nos impedem de enxergar o óbvio; uma coisa assim, tipo antolhos de cavalos... Só nos deixam enxergar uma parte da realidade. Ou talvez essa dificuldade de enxergar algumas coisas seja uma forma de nossa mente se defender da quantidade de informações que podemos processar sem o reboot do sono: enche o RAM, tem que reiniciar, senão trava mesmo.

Mas, enfim, o cerne da conversa é: quanta coisa ficamos sem enxergar na nossa vida? Quanta coisa nos recusamos a enxergar até que as fichas começam a cair e acabamos por nos perguntar se tanta coisa ÓBVIA estava ali tão clara o tempo todo e como é que não tínhamos visto aquilo. O amigo que nunca foi tão amigo assim, o namorado que jamais foi fiel, o empregador que teimava em não reconhecer nossos méritos, as relações eternamente doentes que alimentamos diariamente... Tanta coisa que a gente empurrava para debaixo do tapete e criava justificativas, desculpas tão esfarrapadas, que hoje a gente pensa que não engoliríamos aquilo se alguém nos contasse.

Pior ainda são os defeitos claros e óbvios que a gente tem, que não tolera nos outros e que teimamos em não ver... Quantas vezes somos mesquinhos ou egoístas ou mesmo pouco generosos com os outros e conosco mesmos... Ai, ai...

Tantos muros que temos a derrubar para enxergar melhor a nós e à nossa vida, não? O problema são os tijolos... Os tijolos que voam na hora que resolvemos que vamos derrubar os muros... A gente sempre se machuca.

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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

DA JANELA DO TREM, COM LENÇO NA MÃO >> Leonardo Marona

Um ano não conclui nada: a ficha cai num segundo. Estamos no ano de 2010, e o que falam para mim de mais importante é: “Acabou a época da loucura, agora começa o milênio” – acho isso patético, porque meu desespero continua antigo. Forneço “esticas” na mesa do bar: é claro que eu sei de menos. Mas quero voltar ao assunto, ao rock que ainda vive, independente de mim, ele está à beira-mar. Estamos todos ali, nos dando adeus para sempre.

Amo aquilo de que padeço: eis a grave questão: acredito ainda no heroísmo inseguro. Obviamente já falaram sobre isso melhor do que eu, mas será que todos esses gênios, ao colocarem o corpo junto ao corpo furtivo, à droga inesperada no auge da boca, na gengiva mais tênue, no fluxo fixo do sangue, entrando nos banheiros minúsculos para fazer filhos fisicamente desejáveis, mas não desejáveis porque acabou o comunismo real, será que estaríamos, neste ponto específico, realmente tão longe dos nossos desejos, tão longe quanto, diríamos assim, dos nossos próprios corpos?

Não, agora paguei dez reais, sinto o desejo pulsar, direi o que quiser. Estou no meio do calor, com as virilhas solitárias, obviamente elas estão carentes, do contrário não estaria aqui, errando as palavras. E alguém muito próximo poderia dizer: “Você usa sempre as mesmas palavras, virilhas, secreções, as mesmas dobras e a mesma umidade que existe, indiscriminável, entre as coxas”. Sou mais um cara à beira do cadafalso, levando isso a sério, eis outra palavra ensinada por Piva, o diretor dos covardes.

Te odeio, Roberto Piva, quero que você morra. Sei que não tens planos para sua própria saúde, foi isso o que você planejou, fora a beleza absoluta que azucrina os nervos, e por isso em volta de ti os outros, “bem vividos sem ópio”, se lançam em chamas, em matéria de jornal, em venda de peixe, favorecendo você: O QUE NUNCA QUIS. Mistério louco esse de nunca se querer, e no fim querer tudo, quando se está, por fim, quase seguro, quase evangélico, numa cama, e não se pode – um assim – mais nada, e no entanto sente-se o gosto. Portanto, Piva, meu caro, você sabe que isso não vale nada, não vale nem mesmo o minimizar dos toques nas teclas, cada vez mais milho prestes à compaixão perene. Essa compaixão não é nobre, parece vulgar inclusive, se alguém der alguma atenção a ela, mas ela não é baile funk, ocupação civilizada.

Não é algo esse pressuposto do suicida sem talento, que no fim fala alto demais e espera, como o cachorro magro, valente por algo pelo qual um deva morrer, sem osso ou lance de sorte. Devo morrer por outros motivos, por isso estou aqui, como um drogado que sobrou na festa mais antiga, a mais esperada, a que acabou. Falo aqui do motivo pelo desejo de morte, a carne mais mundana (não digo “desejo da morte”, seria leviano assim, com artifícios literários de atenção). Gostaria de, no fundo, falar a sério “sobre”, “com” o problema. Eu vejo as pessoas, ainda assim. Vejo e, normalmente, finjo, digo “não gosto das pessoas”, mas é importante que, na verdade, e não sei bem por que se usa essa expressão tão idiota, “na verdade”, gosto tanto delas, das pessoas, que sou capaz de me amputar por qualquer uma. Não posso com o cigarro, fumo fazendo careta porque filhos se tornaram orçamentos. Será que tudo isso, inevitavelmente, não leva ao caos?

Escrevo sem parar, termino em vírgulas, interrogações, tenho amigos inteligentes, o que farei da minha vida? Estou aqui, torto na cadeira de quem amo, é o que sei, e isso é tão pouco. Vê-se a pessoa a que se ama deitada praticamente babando e seria de gosto dizer tantas coisas a essa pessoa. Tantas coisas com exclamação. Mas não se diz nada, baba-se, somos civilizados, disfarçamos, damos um jeito. Engraçado, existe todo tipo de geração codificada. A minha, eu diria, “dá um jeito”. Isso é triste, faz compreender. O que faz compreender é triste, aprende-se rápido. Espero não ser um sujeito obsessor, dos que despertam sorrisos e matam. Faço todo o esforço para ser exatamente assim, mas acho na contrariedade a única filosofia, e a isso, de modo medíocre, me apego. Estou sempre às voltas com alguma coisa, está aí o pretexto incorrigível, a cura ridícula, inescapável, que me faz sorrir, encantadora. Seria capaz de, diante de deus, ser um brocha inveterado, sexual do tipo “pau pequeno”, mas nunca diante de quem amo, como você – agora pela primeira vez falo “você”, com todo o medo do mundo, e não é pouco, admito, o medo que sentimos. E falo “sentimos”, porque sei que cada um sente do seu jeito e, na melhor das hipóteses, estarei fazendo amigos em desespero, como aquela última hipótese viável, farei amigos para me sentir bem, e farei bem isso, serei o que dá um tapinha no braço e diz: “Acho que já foi o suficiente, vamos embora”, bem assim mesmo, exato como assim, para sempre falando sobre como proceder, o medo tomando as veias em asma, sendo elas (as pessoas) indo, ou nunca sendo, e ela (a asma) nunca falhando, e isso tudo, infelizmente, é o que menos importa.

Importa apenas o quanto um se emociona, é nisso que se acaba o chão, é nisso que fazemos asneiras, ouvimos suspiros convincentes, nos enganos, e isso é tão bom. Perder a capacidade de se enganar é perder a ideologia, e é disso que, por incrível que pareça, se vive, dessa perda, e nada mais. Não me considero, no que me diz respeito, um sujeito sem ideologia. Sou relativamente honesto. Tenho inclusive um apartamento, em Porto Alegre, lugar que engana pelo nome, pela aparente facilidade da alegria, coisa comum. O apartamento foi bem avaliado, venderei-o bem. Tenho medo, no entanto, de quão pouco isso me importa, e não sou burro, mas sinto que me faltam arestas, maneiras como me fazer entender, sinto falta de alguém que ature os meus vacilos, como criança, que já não sou mais, mas sou – e disso me envergonho: não sou um fanfarrão.

Eis o momento de dizer a verdade, se chegou – pretensão minha – alguém até aqui. Agora ajeitarei a coluna no escuro e não terei mais medo, serei apenas um cavaleiro pago, em busca da távola redonda que, de fato, pouco importa – mais importante é a armadura que se pode usar, ou a escuridão dos termos. Organizarei, depois de lamber, prometo, minhas feridas, de modo que pareça tudo necessário para alguém. Quero, no fim, alcançar a importância das coisas sem importância: aí está a caridade negada, aí estão os gritos de amor, assim te amo.

Agora, continuarei com as minhas anotações. Digo, se Einstein se dava a devida importância, isso, ele sabe, deveria servir até mesmo a um boçal. É só isso que mata as pessoas: agora fico um pouco mais velho, e concluo. A vergonha de se dar ou não se dar a importância que se merece, ou não, mas se dar, isso mesmo, os que se dão indicam as setas que, nunca se sabe, talvez sejam as últimas. Por isso não negar nada. Nem mesmo a falha do companheiro que, se vê, não é mais o companheiro de que se fala, mas cada um tem a sua loucura, e tem o seu nível de gelo e derretimento, a depender da mentira que um impõe a si mesmo.

Voltando às notas, portanto, para terminar essa chatice, a que me atenho como o pai ausente de uma criança com asma. Estamos sempre às voltas com alguma coisa, isso mesmo, chamamos de coisa o que nos rege, alguma sensação de perigo gostosa que nos tira o fôlego e nos faz tombar de amor no meio da calçada, forjando o panico como os amorosos sem escrúpulos, os loucos a quem se diz, quando morrem: “Era um bom sujeito”. Mas no fim sobra sempre, e isso é algo importante de ser repetido, como fosse algo didático, sobra sempre algo, alguma noção exata, alguma noção calma e quase, me arriscarei, festiva, de que é preciso agarrar algo, por medo, pelo que fazemos do amor enquanto ele está intacto, enquanto ele nos dá adeus feito uma tia distante, das que dão sungas apertadas no natal e só rezam por culpa, enquanto choramos com todo o peso que não é nosso e é, no fim, só nosso, porque, se ninguém mais quiser, você vai ter que lidar com isso, de forma passiva, eu aposto, talvez transferindo coisas para lugares amenos, onde nos sentimos seguros, e assim destruiremos os lugares amenos e nos manteremos com esse algo, essa esfera imperfeita, essa insatisfação, é como chamam os católicos, mas não o suficiente da palavra “insatisfação”, muito mais um movimento cheio de sorrisos, pelo qual ficaremos, enfim, sós, como nos romances que nossas avós mortas nos ensinaram enquanto morriam enfiadas num banheiro fumando sua última enfisema pulmonar, enquanto gostaríamos de, no fim, dizer tantas coisas bonitas, mas é como se não pudéssemos, mesmo sabendo: esse é o jogo. Talvez cobrirá (ele, o jogo, ela, o algo) o calor da natureza como um chefe com úlcera, talvez dirá, um dia, a nós: “Meus queridos, olhem bem, não há porque sofrer tanto, vejam os gênios, o que, depois de um tempo, eles fazem por causa, só por causa da solidão”.

Mas isso tudo é só porque não precisamos chegar muito fundo para reconhecermos a completa falta de esperança: olhar ao redor arranca as cabeças. Mas agora, falando em cabeças, penso em ti, meu amor, naquela parte preciosa que te envergonha quando digo “meu amor”, veja que coisa mais complicada. E, na verdade, o nome “esperança” é falso. Somos apenas o que não somos, o resto jamais nos interessa, ao contrário, ser o que se é nos entedia, e somos verdadeiramente – e apenas aí – capazes de nos agarrar ao que não tem esperança alguma, do contrário seríamos fariseus, empresários, sofistas empanados, e disso resultam os saudáveis momentos de desespero e dissipação dos quais faremos um castelo frágil que impressionaria apenas um antagonista de Kafka, porque no fundo sabemos o que dizem os ternos e a polidez, mas o que importa é que só então estaremos vivos, viçosos mas vivos, e você (agora falo em você pela segunda vez) vai voltar, você falará para a minha pele “saudades de ti”, e que pobre pele cheia de dores será essa que te acolherá até o nojo, de olhos abertos, sem frouxidão? – se não será essa mesma, que ouve música baixinho enquanto tenta escrever algo a sério, mesmo mordendo a boca, porque a boca que mordo agora é a minha e, triste conclusão, morderemos todos nossas bocas como velhos diante do neto autocentrado, e no fundo esperamos – nossa única esperança – pelo que vai embora. O lenço cai sobre os trilhos a quinhentos por hora. E nos vemos assim: soltando fogos e abrindo os pulsos diante do trem sem volta.


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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

MÃES >> Kika Coutinho

De todas as lições que aprendemos quando somos mães, talvez a mais importante delas não tenha relação com o seu próprio filho.

Quando eu voltei da maternidade, assim que cheguei em casa, muito assustada e cansada, chorei. Foi o meu marido quem consolou-me com todo seu amor e carinho.

Aos poucos, ele voltou a trabalhar enquanto eu tentava — muito sofregamente — voltar a viver. Logo no início, mandei um e-mail para uma amiga, já mãe. “Socorro” era o título. Ela não demorou a me ligar e a me acalmar. As amigas que não eram mães ligavam para as que já eram, e eu comecei a receber telefonemas de pessoas estranhas, que eu não conhecia.

A cunhada de uma amiga, mãe de uma pequena menina, apresentou-se para, em seguida, dizer: “Eu sei o que você está sentindo, mas logo vai passar...”.

Numa lista de internet, mulheres que eu nunca vi me escreviam oferecendo-se para vir em casa, explicando com detalhes como massagear o seio para o leite descer, como segurar a bebê para a cólica passar, quais os truques nas horas intermináveis que ela chorasse.

Uma prima de uma prima me escreve diariamente com sugestões de rotinas, horários e possibilidades de atividades que acalmam os bebês, compartilhando da sua história para tornar a minha história mais bonita.

E não são só as dificuldades que nós, mães, compartilhamos. Quando minha bebê sorriu pela primeira vez, eu quis contar a elas; quando minha pequena filha dormiu uma noite toda, vibrei com minhas novas e desconhecidas amigas — algumas das quais eu sequer sei que rosto têm.

É meu marido quem cria comigo a nossa filha, não tenho dúvida disso. Mas é um exército de mulheres, mães, amigas, fortalezas vivas que ensinam-me, todos os dias, a árdua e doce tarefa da maternidade.

A vida tornou-se mais generosa depois que me tornei mãe, não só pelo sorriso iluminado da minha pequena Sofia todas as manhãs, mas pela emoção de ver-me alvo de tamanha generosidade e companheirismo.

Ainda há quem não acredite na amizade verdadeira entre mulheres. Que bobagem! São as mães, meus amigos, que movem esse mundo. Educando suas crias para fazerem do planeta um lugar melhor, e educando-se mutuamente para fazer de suas vidas uma vida com ainda mais sentido e alegria.

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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

TOP NINE >> Carla Dias >>


Admiro muito o John Cusack, não só pelo seu talento em atuar, mas também pela escolha dos seus projetos e pelo seu trabalho como produtor, que inclui o ótimo Nossa Vida Sem Grace (Grace is Gone/2007), no qual também participa como ator.

Apesar de não ser frequentador da roda dos galãs, Hollywood se orgulha dele. Mesmo em blockbusters como Queridinhos da América (America’s Sweethearts/2000) e 2012 (2009), percebe-se que não o moldaram ao gosto do que se espera para os personagens que interpreta. Há originalidade nas atuações de John Cusack.

Assisti, novamente, ao filme estrelado por ele e baseado no livro de Nick Hornby, Alta Fidelidade (High Fidelity/2000). É um filme muito bacana, bom em vários aspectos, como na participação de Jack Black e direção de Stephen Frears. Este filme traz o personagem interpretado por Cusack, Rob Gordon, traçando um paralelo de seus amores e as mazelas da vida adulta, através de listas de hits da música. E decidi fazer como Rob Gordon: selecionei os cinco filmes estrelados por John Cusack que mais me marcaram. Aí está o meu Top Five:


5º lugar
Meia-noite no Jardim do Bem e do Mal
Midnight in the Garden of Good and Evil/1997
Diretor: Clint Eastwood


4º lugar
Os Imorais
The Grifters/1990
Diretor: Stephen Frears



3º lugar
Quero ser John Malkovich
Being John Malkovich/1999
Diretor: Spike Jonze

2º lugar
Ensinando a Viver
Martian Child/2007
Diretor: Menno Meyjes


1º lugar
Matador em Conflito
Grosse Pointe Blank/1994
Diretor: George Armitage

Agora, me vejo numa bela enrascada, porque um Top Five não me permite citar todos os filmes de John Cusack que mais gosto. Se pensarem bem, fiz um Top Seven, porque Nossa Vida Sem Grace e Alta Fidelidade são demais! Mas se puder chegar ao Top Nine... Incluo também Tiros na Broadway e Identidade.

Para quem não conhece esse ator ou não assistiu aos filmes listados, sugiro que o façam, pois há momentos históricos nas obras que seguem. Eu vou revê-los no carnaval... Uma boa dose de John Cusack ao som dos tamborins.





www.carladias.com

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domingo, 7 de fevereiro de 2010

HOJE FOI ANTEONTEM >> Eduardo Loureiro Jr.

Às vezes, me sinto desconfortável quando escrevo com antecedência uma crônica que só será publicada alguns dias depois. Gosto da sensação de escrever no final da manhã de domingo e publicar a crônica imediatamente, como quem lança o anzol na água e fica esperando, quieto, aparecerem os peixes dos comentários.

Quando escrevo antes, como hoje, com dois dias de antecedência, sinto-me falso porque vocês vão ler, no domingo, uma emoção requentada, que talvez já não seja mais a minha emoção. Sei que meu motivo é justo — estarei viajando, sem acesso à internet, sem acesso nem mesmo a telefone celular — mas, se isso anula a culpa, não desfaz o sentimento de perda da relação quase imediata com vocês, leitores.

Então fiquei aqui pensando o que eu escreveria se escrevesse só daqui a dois dias. É certo que não terei tempo para isso, estarei com outros colegas escritores planejando mais um ano de atividades da Casa de Autores. E, como sempre digo, reunião se define como um encontro de pessoas para falar de coisas que estariam fazendo se não estivessem reunidas. Com a literatura não é diferente: escritores reunidos não escrevem.

Esses dias, andei mesmo pensando em parar de escrever. Solicitar ao menos uma licença para o chefe do Crônica do Dia, que sou eu mesmo, pedir-lhe que arrume outra pessoa para me substituir por uns tempos. (Algum leitor-escritor aí se habilita?). Algum de vocês já fez algo de que realmente gosta, mas que incomoda as pessoas? Não, não estou falando de determinados tipos de música — e não vou nem identificar o estilo para não incomodar ainda mais gente. Falo de coisas simples, banais. Não, também não é tirar meleca do nariz, que, por mais inofensivo que pareça e seja, incomoda deveras certas pessoas. Falo mesmo de coisas que podem até ser bonitas: feito dança, pintura, literatura, música. E não falo no sentido de artistas vanguardistas que incomodam com suas quebras de normas. Falo de um bolero qualquer, de um retrato, de um conto tradicional, de uma canção de amor.

Porque essas coisas bonitas que a gente faz de vez em quando — aos domingos, por exemplo — deveriam servir para embelezar a vida, para alegrar as pessoas, para animar, para gerar encontros. Mas nem sempre é o que acontece. Beleza às vezes presta um desserviço à paz da humanidade, e não falo aqui das mulheres que passeiam de saia pelas tardes, presas fáceis do vento que tem feito esses dias, e que distraem os pedestres e motoristas que, até então, estavam concentradíssimos em seus percursos. Falo, por exemplo, de um pôr-do-sol que despertasse não admiração, mas raiva. Já imaginaram um pôr-do-sol despertar raiva? Pode acontecer. Não é nada absurdo. Uma flor pode despertar espirros. O sexo pode matar, gente. Não é porque a coisa é boa que está isenta de malefícios.

Então tenho pensado se minha escrita não está fazendo mais mal que bem, se não é menos arriscado trocar a literatura pela meleca no nariz (que eu também gosto de praticar). Com essas duas horas que economizo no domingo pela manhã (hoje, excepcionalmente, na sexta-feira à noite), eu poderia fazer coisas mais nobres e inofensivas: aguar plantas, fazer as compras da casa, passear com minha mulher no parque, ler o jornal, telefonar para a família e para os amigos. A gente, quando está bem intencionado, normalmente pensa que tem que fazer algo, mas pode ser que o caso seja justamente o contrário: é deixando de fazer que a boa intenção se cumpre.

E no domingo, quando vocês estiverem lendo, talvez se produza um paradoxo: eu terei parado de escrever, mas como escrevi antecipadamente, vocês continuarão me lendo. Fiquem atentos ao que pensam e sentem enquanto me leem. Sentem-se mal? Engolem em seco, têm o coração apertado? Estão vendo? Faço-lhes mal. É o caso mesmo de pensar em parar.

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sábado, 6 de fevereiro de 2010

TEMPO [Debora Bottcher]

Chegar aos setenta anos e olhar para trás. Saber: finalmente, tudo passou e o que resta tem sabor de espera... A espera sombria da Morte... O silêncio...

Tons de cinza mesclando o azul dos seus olhos, um emaranhado de vida esquecida... Rugas... A pele marcada nunca será como a alma... Lá, as cicatrizes ainda rasgam-se escorrendo amarguras... Muitas saudades...

Um amontoado de anos perdidos, sobrepostos, amassados e jogados ao chão... Imenso cansaço...

Perdas... Tantas, que perderam-se de si; tantas dores que o coração cessou de bater; tantos sonhos dispersos que, muito cedo, se parou de sonhar: todas as emoções foram ancoradas em folhas de papel, um sem número de Diários descansam agora nas caixas do sótão... Segredos... Algum dia serão revelados? Quem terá tamanha curiosidade para desvendar centenas de páginas com letras incompreensíveis de ler? E de entender...

Quem conseguirá descobrir nos ideogramas rabiscados o interior de uma mulher que por todos os seus anos viveu encerrada num mundo à parte, num lugar próprio, cenário criado por sua ausência de esperança e de compreensão da vida ao redor?

Ela não teve filhos e o Destino nas linhas de suas mãos não tinham muitos traços de caminhos felizes.

Seus dedos tatearam no escuro, escalaram paredes de pedras, arderam entre as areias das praias, mas não tocaram os céus. O rosto de Deus era sua loucura, seu devaneio, sua grande ilusão... Uma mentira...

As considerações de vida das pessoas que conheceu e amou, nunca foram as suas... Sentiu-se sozinha por muito tempo, por todo tempo imersa no “para sempre” à beira de um “nunca mais”... Fantasias...

Assim viveu...

Nunca conseguiu expressar o que lhe ia por dentro. Todo mundo sabia mais do que ela sobre tudo, menos sobre o que realmente importava. E sobre ela, na verdade, ninguém nunca soube nada.

Do alto de si mesma olhava para o mundo sem nenhum encantamento, exceto aquele próprio dos que conhecem a verdade que está por trás do que se mostra. Poucos enxergam...

Mas agora a velhice ao seu encalço. Sua solidão lhe fazendo companhia. Os dias se apagando nos segundos do relógio de parede... Os minutos, as horas... Amanhecer e anoitecer no fim...

Criança de novo, imersa na inocência cheia de sonhos que nunca encontrará. Os pesadelos da noite esquecidos num canto do quarto, ela mesma sentada num canto do quarto olhando para aquela que, no escuro, só entrevê sombras.

E se despede... Dos seus fantasmas, da sua dor, do seu passado... Se despede do único homem que amou – e o único pelo qual foi verdadeiramente amada - para em breve reencontrá-lo... Se despede da Morte, sua maior inimiga, para ser acolhida por ela, calma e tranquila, todos os medos enterrados nos anos que se esgotam...

Agora, tudo se acaba para de novo começar...

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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

DEVANEIOS ÀS VÉSPERAS DE UM ENCONTRO >> Leonardo Marona

empato comigo mesmo quando quero vencer a marcha simples do afeto e minha raiva, por mais que sim, não, não cabe, não sou grande o suficiente para morder lábios que não sejam imaginário sangue, e para encarar a própria faringe minha carcaça se apega fácil demais e odeia rádio que se ouve só, e, como Mozart, queria sair por aí perguntando “você gosta de mim?” e poder chorar por uma réplica negativa ou ter uma crise convulsiva se alguém tocasse uma nota de trompete, mas tudo supera a delicadeza e por isso só malucas se aproximam de mim do mim que não é meu, infelizmente, mas gostaria de dizer, ainda assim, para impressionar minha própria fragilidade: “dos trinta filmes que realizei...”, “de fato, dos 15 contos de minha última antologia...”, ou bocas em dúvida por causa de avenidas mudas, tortas, ou espertas demais, ou bichas sérias, o que não me ajuda muito na relação entre o que eu quero e aquilo que eu tenho na minha frente, sem saber no fundo do fato, de fato, que se passa na minha cabeça – isso é apenas uma cabeça? – quanto mais daquela menina com uma rosa falsa presa na orelha, que sorri ainda menos do que eu, e eu a amo, mais porque gosto da palavra que do significado que, burramente, ninguém soube definir assim como se define uma parede branca, sem saber que talvez o amor que já soa ridículo assim quando eu escrevo seja apenas uma parede branca e a mosca morta petrificada na parede branca que eu posso chamar de amor seja eu sem saber que você também tem sua parede, mais falta de amor do que amor em si, já que é tão fácil falar de amor, como se vê aqui.

não que eu goste. mas não também que eu use roupa preta e cabelo com goma, saiba usar a pelve ou camisa de botão aberta florida com cinto de couro, ou um espeto cromado fincado no queixo, ou que dance e abrace todo mundo como se fosse um pretexto para morrer. não consigo extremar sentimentos, respeito seu ritmo ausente de mim. A menos que caia na grama para ser carregado por um senhor barrigudo que parece com o pai que inventei agora e já me tapeou com um sorrisinho sórdido: o que nunca aconteceu e seria meu sonho.

fora o sonho, minha vontade sempre foi beijar uma mulher mais pesada do que eu. ninguém entende isso por isso eu não explico isso, mas é um tipo diferente de enigma sensual. somos iguais no que me diz respeito e nos difere: no caso a dor de ser gordinho. minha cabeça é gorda, sobra gula. pego nas banhas dela como sonhasse com meu próprio desfecho sorridente.

será que sou infeliz? palavras.

se todos bocejam, não me venham falar de chatice. falemos então sobre vaidade.

eu diria: a vaidade é apenas aquilo que se desprende de ti quando você está pensando em outra coisa que você pensa que é a maneira como as pessoas te vêem mas é de fato apenas você mesmo vendo, mas prefiro dizer: “fique aqui”. você diria: “nem pensar”. eu diria então: “você tem uma bela irmã mais nova” ou “como você vai?” você me estapearia. Carlos Drummond responderia: “mal, obrigado, minha irmã é careca”. e diríamos todos “te odeio”. como é estranho e rápido conhecer uma pessoa quando você já inventou ela (seria horrível ter que escrever corretamente aqui) desde o começo.

eu minto
que não consigo
dizer o que sinto
mas sinto
que não consigo
dizer o que minto.

não sei terminar essa
e para dizer a verdade
estou nervoso como o diabo
porque ela me espera
debaixo da marquise
e eu não sei onde estou.


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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

QUANDO EU ERA PEQUENA
>> Kika Coutinho

Quando eu era pequena, gostava de descobrir coisas tolas do mundo.

Passava séculos olhando o relógio digital, esperando pelo pequeno instante em que o número do minuto iria mudar, para ver como se dava a mágica. Ficava ali, os olhos abertos, concentrada na frente do relógio e, estranhamente, no raro instante em que eu piscava, pronto, o número mudava e eu perdia o grande acontecimento. Até hoje não sei como se dá a troca de um dígito para o outro, no relógio.

Quando eu era pequena e acordava no escuro, sentia muito medo e aflição, porque pensava que poderia ter ficado cega. Quando eu era pequena e acordava no escuro, tratava de procurar uma luzinha qualquer, uma sombra, uma imagem que me mostrasse que minha visão ainda funcionava e...  não, eu não estava cega. Em compensação, quando eu era pequena e dormia com alguma iluminação, dessas bem fraquinhas que confundem a gente, os móveis e a desorganização do quarto sempre formavam monstros na minha imaginação.

Quando eu era pequena, deitava no banco de trás do carro e meu corpo não alcançava a outra janela.

Quando eu era pequena, usava óculos e fazia tudo com eles. Da televisão ao banho, meus óculos de gatinha não me largavam.

Quando eu era pequena, brincava de escolinha, sentava todas as minhas bonecas em uma fila, colava papel sulfite no armário à frente delas e, lá, fazia a minha lousa. Eu era a professora aplicada, a líder exigente, a dona da sala e da situação.

Mas, quando eu era pequena, odiava os adultos que queriam conversar ao telefone e ficavam puxando assunto, da mesma forma que odiava quando alguém dizia: “Você sabia que é linda?”. Eu não entendia bem a pergunta e também não entendia quando me perguntavam se eu tinha dormido bem, porque eu sempre pensava que não poderia saber se foi bem ou mal, eu estava dormindo, oras.

Quando eu era pequena, gostava de tirar casquinha dos meus machucados, gostava de desenho na TV, odiava comercial e salada, mas adorava o gosto doce do nescau, no fundo do copo de toddy.

Quando eu era pequena, dançava na frente do espelho, chorava na frente do espelho, fazia poses ridículas na frente do espelho, como se meu mundo fosse aquele, minha própria imagem refletiva diante de mim.

Eu estava me conhecendo, descobrindo minhas facetas, minhas lágrimas e meus risos. Eu estava tentando descobrir quem era e, hoje, olhando para trás, noto que nunca consegui. A não ser quando não sabia, e fazia xixi de tanto rir por qualquer tolice. Quando eu era pequena.

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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A EXPERIÊNCIA >> Carla Dias >>


“Experiência é uma professora brutal, mas você aprende.
Meu Deus, você realmente aprende.”

C. J. Lewis


Na teoria, percebemos que somos pessoas capazes de derrubar quase todos os obstáculos que vivemos na prática. E não que essa capacidade seja apenas uma ilusão, mas é que, na teoria, somos mais ousados e desprendidos. Na prática, sentimos falta das facilidades.

Hoje, batendo na porta dos quarenta anos de idade, posso dizer que tenho dentro de mim um Banco de Teorias, que visito frequentemente para ver se alguma delas está pronta para cair no mundo.

Outro dia, reli um poema antigo que só, que diz muito sobre quem eu era bem antes de quem sou hoje. Diz tanto que me envergonhei de ter deixado aquela pessoa lá trás, guardada no meu banco particular, trazendo para a prática somente o que dela era fácil de carregar. Ao mesmo tempo, as experiências que escolhi para viver me soaram ousadas em muitos aspectos, assim como a maioria das que me escolheram deram de me doer aqui e ali.

O grande barato da teoria é que ela alimenta o nosso espírito. Quem já se pegou dizendo “se eu fosse... eu faria...”? E quantos não levaram esse pensamento adiante e se tornaram... e fizeram?

A teoria pode ser o que se propõe: um esboço do que se pretende pôr em prática. Ou pode se tornar uma mistura eloquente de planejamento e sonho.

De qualquer forma, a experiência é a chave de tudo. Experimentar o que escolhemos e o que nos escolhe. Aprender com as situações cotidianas que, ainda ontem, eram apenas teorias. E, obviamente, as experiências nem sempre são das mais agradáveis. Mas, por mais brutal que possam ser, há sempre um aprendizado entranhado nelas.

Aldous Huxley disse: “experiência não é o que acontece com um homem; é o que um homem faz com o que lhe acontece.” As experiências não são apenas as dos laboratórios, dos cientistas, oriundas das práticas dos alquimistas. E se não sairmos da teoria, de vez em quando, seremos apenas pessoas aceitando o que a vida propõe e fazendo absolutamente nada com esse aprendizado. Seremos baús transbordando de teorias, com práticas ressequidas a sua volta. Seremos inexperientes e tolos, alvos fáceis para a intolerância.

Imagem: The Alchemist por Sir William Fettes Douglas

www.carladias.com



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terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

SAUDADE DO CÉU >> Felipe Peixoto Braga Netto

"A morte não
existe para os mortos."
(Carlos Drummond de Andrade)

Eu acredito no céu. Não falo nesse aí, azulão, em cima de nós, por onde passeiam os aviões. Falo em céu mesmo, céu de criança, aquele para onde vão as pessoas boas quando morrem, ou pelo menos assim mandam dizer às crianças.

Sim, é uma bela ideia. Muito verdadeira, suponho. Digamos que ele realmente exista, lá num lugar secreto, que só saberemos quando não podermos voltar pra contar. Sim, partamos daí. O que será que lá estarão fazendo, agora, meus amigos? Não falo dos amigos conhecidos, amigos do dia-a-dia, até porque, honestamente, não tenho tantos. Já tive, mas... Não, não desviemos o rumo da vela.

Fico vagabundamente pensando: o que estará fazendo, agorinha mesmo, lá no céu, Rubem Braga. Sim, velho Braga, penso em você, com afeto viril de irmão mais novo, que não te conheceu, mas que te quer bem...

E o Paulinho Mendes Campos, teu camarada? Vocês tem se visto por aí? Há belas mulheres no céu, Rubem? E mar? Há mar no céu? Creio que tua cachacinha, tão amada, não seja permitida por aí. Mas há outras seduções, suponho, que nós, aqui do aquém-túmulo (a expressão é de Rosa), não podemos sonhar. Não é assim?

Aliás, não foi ele quem disse que ficamos todos encantados? Como é ser encantado? Assim, em princípio, me parece coisa pouco máscula. Você sabe... Nasci no nordeste. Vá lá, encantado em tese, tudo bem. Mas encantado mesmo, como é que fica? Acho que divago, não? Perdoe minhas bobagens, vou me agarrar em coisas reais.

Mulheres há, não? Tem de haver. Nem todas estão quebrando pedra no inferno, ora! Aqui entre nós, eu digo baixinho: a vida (minto, a morte), sem elas, perde o sentido. Pelo menos eu acho. É possível que vocês, anjos que são, achem tudo isso uma tolice de vivo. É possível. Nossas opiniões são elas e suas circunstâncias.

Fazer poesia no céu deve ser mais fácil. Suponho. Sabe como é, em cima das nuvens, com uma visão, digamos, mais privilegiada das coisas... Deve inspirar pra burro, não? Murilo Mendes sentenciou: não poderá ser poeta quem nunca sentiu saudade do céu. Então eu posso, porque, puxa, ando com saudade daí. Ou do que eu imagino que seja. Mas passa.

Estive pensando... Morto, imagino, tem superpoderes. Eu, quando chegar, também quero. Não, não é olhar de raio-x não. Não quero ver as anjinhas em trajes sumários. Também, que ideia vocês fazem de mim! Talvez aceitasse ler os pensamentos alheios. Isso acabaria com o dilema daquela frase clássica de Skakespeare: "Não passam de traidoras nossas dúvidas, que às vezes nos privam do que seria nosso se não tivéssemos o receio de tentar" (Medida por medida –1604/1605. Ato I. Cena IV: Lúcio).

Acho que ando mal. Citando o poeta inglês... Atribuindo-me evidentemente um ar culto, logo em frente de quem? Mortos, que tudo sabem, e veem bem a fraude que se esconde atrás desse verniz torpe.

Mas me redimo do mau proceder dizendo: estou com saudades... Saudades, bem, é verdade, não é o termo apropriado. Nem chegamos a nos conhecer, se conhecer o outro exigir apertos de mãos, conversas tolas sobre o clima, etc. É, isso não tivemos. Em contrapartida, há pessoas cujas mãos apertamos com lamentável frequência, e não nos conhecem nem, a rigor, disso fazemos questão.

Tivemos, minto, eu tive, um contato terno com vocês. Eu os estimo verdadeiramente. Nos momentos decisivos, é com vocês que converso. Pergunto: "E aí, Paulinho, que fria, não? Já esteve em situação semelhante?" E sinto uma mão amiga, um fraterno entendimento a me amparar. Ou então penso no Braga. Esse é casmurro, todos sabem. Não dá muita atenção a meus pleitos. Aprendi, porém, a gostar dele assim, com seu cordial mau humor. Não seria o Braga se fosse diferente.

Confesso? Não sei se devo... Vá lá! O que queria, queria mesmo, era escrever um livro (um livrinho de literatura!) e tê-los no dia do lançamento, na noite de autógrafos. Não precisavam comparecer sorrindo não. Podiam ir de má vontade, falando, naturalmente, muito mal do livro, incomodados com o abuso do convite. Mas queria... Desejo não se discute. Ponto final.

Se não forem, tudo bem... Nem assim ficarão livres de mim. Sim, porque os chatos também morrem. Não quero excepcionar regra tão cara a Deus. Chegarei, cheio de curiosidades de vivo, roubando-lhes o tempo (que aliás não lhes falta) – eternidade é pra essas coisas.

Há quem pense bobagens sobre a morte ("Grande lascivo, espera-te a voluptuosidade do nada", disse, certa vez, a natureza). Não, sei que não é assim. Sei que vocês estão, sim, por aí. Sei que um dia ainda lerei coisas aborrecidas, irônicas, ternas, do velho Braga. Lerei a cultura doce do Paulinho. Quem sabe um poema de Drummond sobre a distância do céu?E o Mário, esse furacão de pensamento, ágil, generoso, feliz. Onde estará?

Porque morrer... Morrer não é coisa ruim não. Isso de morrer não tem importância – explicou Mário de Andrade, já que falei nele –, o importante é viver um pouco agitando e encantando a vida. Eu, do aquém-túmulo, concordo. Também não tenho pressa. Preciso de certo tempo para desenvolver a arte.

Ah, e o Bandeira, com seus versinhos tão poesia, tão parecendo simples, e tão eternos. Anda escrevendo muito? Chega, não vou cair na tentação fácil de querer, que diabo, citar todo mundo. Ponto final. Vocês que são mortos que se entendam! (Que mania, essa minha, de querer agradar o céu e a terra!).

Eu do céu só conheço o que vi dos aviões – e reconheço que achei bonito. Espero que, no céu dos escritores, vocês tenham ganhado umas nuvens boas. Sim, porque cada um tem a nuvem que merece, não? Seria engraçado imaginar as nuvens... A do Braga deve ter uma vista humilde para o mar, talvez um lugar para pescar peixes e algumas ingênuas alegrias. A do Paulinho, como é a do Paulinho? Será que ele, fantasma bom e tímido, dá uns sustos nos vivos? É uma boa ação, pois há, aqui na terra, vivos bastante mortos, precisando de vigorosos sustos.

Ah, ia esquecendo. Quase caio duro! Estava lendo, velho Braga, por acaso, um roteiro com suas atividades intelectuais enquanto vivo (o que foi, o que não foi, os cargos que ocupou, essas coisas) e lá me deparo com uma informação espantosa. Vou transcrevê-la literalmente para que não pensem que faço graça:

"1962 – São Paulo SP – Ator do filme "Pluft, O Fantasminha", de Jean Romain Lesage, baseado em peça homônima de Maria Clara Machado".

Braga, não é que você foi ator? Mas quem diria... Eu botava a mão no fogo que não. Esse seu jeitão emburrado, pouco loquaz... Ator! Na certa você foi o fantasma, não? Era você o Pluft? Um fantasma cordial, como você diria. Então você tem experiência! É, rapaz, pensando bem você daria um bom fantasma. Esse tal de Jean Romain Lesage devia saber das coisas.

Ah, doces amigos ausentes, a terra continua o que foi, confusa e vulgar. Sim, há coisas boas – esse azul muito puro, esse mar infinito, essa lua gentil. Mas disso não falo para não inspirar saudades. Desejo-lhes (vocês merecem) o céu dos bons, com uma pontinha de saudade daqui, mas longe das pobres aflições serenas. Ah, e amigos se visitam! Como eu não chego aí logo (espero), vocês bem que podiam – de vez em quando, quem sabe – dar um pulo aqui, ver o mar e os netos, e, puxa, me ver também. A passagem não está cara e a distância não é tão grande. Não para quem pode voar. Façam isso, tomem o rumo do sul, e dêem uma olhada nessa vida sem rumo. No mínimo é uma boa ação, e fantasmas cordiais vivem disso.

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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

O SILÊNCIO >> Albir josé da Silva

Próprio e alheio, quando devido, deve ser um direito sagrado. Em situações de estresse não se deveria exigir ou dar explicações. Ou melhor, as explicações deveriam ser proibidas. Um silêncio consternado pode ser boa alternativa a explicar o inexplicável, defender o indefensável ou justificar o que não se deveria ter feito. Também não tenho conseguido ficar calado sempre que devo. Mas preciso exercitar isso. Não gosto das minhas desculpas. Mesmo quando verdadeiras, fico com a sensação de que o ouvinte está pensando: esse cara acha que eu sou idiota de acreditar numa história dessas?

A Constituição Brasileira de 1988 consagrou o direito ao silêncio. Antes dela, o silêncio podia ser interpretado em prejuízo do silente. Mais um motivo para pensar duas vezes antes de falar. A sabedoria popular sempre ensinou: em boca fechada não entra mosca. Quem fala quando deveria se calar faz péssima propaganda de si mesmo. Tenho ouvido algumas desculpas e explicações que deixam envergonhados os ouvintes.

No Congresso Nacional já vimos deputado envolvido em corrupção até a raiz dos cabelos que, quando espremido pelos seus pares para explicar milhões desviados para sua conta, afirmou: “Deus me ajudou e eu ganhei muito dinheiro”. Claro que isso não ajudou sua defesa. Por que ele não ficou calado? Por que não poupou nossos ouvidos?

A Bíblia relata que Caim foi interpelado pelo todo-poderoso quando voltava do assassinato de seu irmão Abel. Não podia ter silenciado? Em vez disso respondeu irônico: “Porventura sou eu guardador de meu irmão?”. Fico imaginando quanto isso não aumentou a divina ira.

Mas são assim os homens em todos os tempos. Mesmo aqueles que precisam ser hábeis com as palavras. Aqueles que têm por profissão falar em nome das pessoas, dos países. Os que não podem usar a palavra em vão. Nem estes conseguem manter o silêncio devido.

No auge da tragédia do Haiti, quando milhares de corpos se amontoavam insepultos em Porto Príncipe, todos entenderiam se o cônsul haitiano sofresse uma crise nervosa, chorasse ou arrancasse os cabelos. Mesmo tendo ele o dever de falar por seu país, mesmo sendo uma entrevista, todos entenderiam se tivesse ficado em silêncio. Mas ele fez exatamente o que não poderia ter feito. Disse que a desgraça de seu povo era uma coisa boa porque assim o país ficava mais conhecido. Não satisfeito, acrescentou que a tragédia se devia à macumba que muitos haitianos professavam.

Não só para os haitianos, o seu silêncio teria sido um bem para a humanidade. Agora o planeta terra terá de conviver com mais essa poluição.

Pobre Haiti. Quem tem um diplomata desses não precisa de inimigos. Nem de terremotos.

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