domingo, 31 de janeiro de 2010

VIDA FEITA DE CASAS >> Eduardo Loureiro Jr.

Ludmila Tavares / Flickr.com

Essa semana, deixei mais uma casa para trás. Foi a décima terceira em 39 anos de vida, uma casa a cada três anos, e descobri que uma vida pode ser contada por meio das casas em que se mora.

Minha primeira casa, em Fortaleza, tinha um pátio interno e um piso quadriculado, feito um tabuleiro. Talvez tenha sido a melhor das minhas casas, embora toda a memória que eu tenha dela venha de algumas fotos tiradas logo após o meu nascimento e no meu primeiro aniversário. Eu morava com minha mãe e meus tios e tias; meu pai estava concluindo a faculdade na Paraíba.

Quando minha primeira irmã nasceu, pouco menos de dois anos depois de mim, nós já morávamos em outra casa. Dela só há duas ou três fotos. E parece uma casa pequena. Deve ter sido uma época de limitação para mim: menos espaço e uma pessoa a mais para dividir a atenção de meus pais. A principal imagem que tenho dessa casa é um tanto irreal, e não é da casa em si. Lembro de passear, nos braços de meu pai, ao redor de um quartel que havia nas proximidades. Mas minha memória, e isso é que é irreal nela, não é da criança, mas de alguém sobrevoando a cena, como se meu espírito voasse enquanto eu era carregado por meu pai.

Só lembro de estar andando na terceira e na quarta casas. Eram casas vizinhas. Chegamos em uma e, pouco depois, mudamos para a outra. Eram casas iguais, penso até que conjugadas, como se fossem dois lados de um espelho. A foto que tenho foi tirada na parte da frente, numa calçadinha, eu abraçado com meu cachorro Black, numa época em que eu ainda não tinha alergia a pêlos de animais. Essa foi a casa mais marcante de todas, minhas primeiras lembranças de praticamente tudo vieram de lá. Foi a primeira casa de minha família: pai, mãe, eu, irmã; só nós. Foi a casa do primeiro carro: um fusca caramelizado. Foi a casa dos primeiros amigos de rua: suco com recipiente plástico no formato da fruta, guerra de mamonas, partidas de ludo. Foi a casa da primeira televisão, do primeiro filme memorável ("O velho e o mar", na Sessão da Tarde), da primeira copa (a partida vendida do Peru para a Argentina e o golaço de Nelinho contra a Itália). Foi a casa das primeiras brincadeiras sexuais com... (deixa pra lá). :) Foi a casa do primeiro macarrão, que lembro comer direto do escorredor. Foi também, e principalmente, a casa do primeiro grande medo: um possível conflito com os colegas de rua, que eu bloqueei completamente da memória, me fazia ter pesadelos frequentes e repetidos de perseguição.

A quinta casa representou um alívio em relação aos pesadelos e aos colegas de rua. Era uma casa grande, afastada do centro da cidade, em frente a uma espécie de vacaria, vizinha a uma pequena favela. Era uma casa grande, eu tinha um quarto só meu, que eu só dividia com um primo que vinha brincar comigo nos finais de semana. A casa tinha uma piscina estreita e comprida, de uns 12m². No final de tarde, eu saía à rua e jogava futebol com os netos da dona de uma mercearia. Algumas vezes, eu tinha que ajudá-los a terminar varandas de rede que a sua avó fazia para complementar a renda. Ali eu briguei (de murro) pela primeira e única vez na minha vida, e ainda lembro da sensação boa de vitória (ou teria sido um empate?) enquanto tomava meu banho e me livrava da terra. Naquele mesmo banheiro, eu me masturbei pela primeira vez, quase sem querer, sem saber o que estava fazendo. Foi a casa em que fiquei mais tempo, por volta de sete anos, e foi a casa em que nasceu minha segunda irmã, a criança mais bonita que já vi.

Por volta dos 14 ou 15 anos, voltamos para mais perto do centro. Mais uma casa grande, onde aconteceram algumas coisas (descobri a MPB, comecei a tocar violão) e quase aconteceram outras: meu quase primeiro namoro. Foi a minha primeira casa ponto-de-passagem: entre colégio, aulas de ingês e grupo de jovens, eu passava menos tempo em casa. Era para essa casa que eu voltava a pé, de madrugada, após perder o último ônibus que passava próximo à casa da minha primeira mais importante namorada.

No ano de meu pré-vestibular, fomos para a casa em que meus pais moram ainda hoje: um apartamento na verdade. Embora menor que as últimas casas, eu amei a experiência do apartamento. Morei ali durante toda a época de faculdade, quando descobri uma outra casa que não era a casa de meu pais: o pátio interno da universidade. Uma casa para o dia, outra casa para a noite. Naquelas duas casas, eu fui aos extremos: tive minha primeira depressão consciente e vivi o dia mais feliz de minha vida até então. Naquelas casas foi que comecei a escrever realmente, em que comecei a compor realmente. Foi ali que conheci boa parte de meus melhores amigos e foi ali que conheci minha primeira mulher.

Minha primeira casa de casado era um apartamento pequeno mas bastante aconchegante (tirando a barulheira que um clube vizinho fazia aos domingos). Ficamos lá apenas um ano, mas foi um ano de uma simplicidade espetacular: primeiro fanzine, primeiro livro, primeiro computador. Sei que houve momentos difíceis naquele apartamento, mas quase que não dá para lembrar. Eu numa rede azul à beira da janela, minha mulher sentada num sofá estranho e confortável. Muita música, muita música.

Deu até pena mudar, já no ano seguinte, para a próxima casa, próximo apartamento, que era enorme. Mas lá também havia o mais importante, que era a convivência com minha mulher, os projetos, os amigos e uma surpresa: o nascimento da sobrinha de minha mulher, que conviveu muito com a gente, e que tenho em meu coração como uma filha. Ainda hoje eu poderia estar morando ali, e ainda hoje eu seria feliz, mas aconteceu de eu querer me separar pelo poder de uma paixão.

Foram oito meses em que morei em quatro lugares diferentes: a casa de minha avó (que sempre foi minha casa sem ser minha casa), uma pousada próximo ao mar (que é meu projeto de casa definitiva), a casa de praia da família (que é a varanda da minha casa eterna) e o apartamento em que fui morar com minha paixão, minha princesa encantada. Aquele foi o momento da minha vida em que as coisas mais se misturaram. Eu estava destruindo minha vida ao mesmo tempo em que realizava um sonho. Aquele tempo daquelas quatro casas consecutivas são para mim uma referência quando preciso tomar algumas decisões na vida: aquele tempo me fornece o parâmetro do valor de um sonho realizado e da importância da constituição de uma família. Ao final daqueles oito meses, voltei para minha mulher e para minha casa. No meu coração, para sempre. Mas no coração da minha mulher, quatro anos depois, bateu a separação e aquela já não era mais a minha casa. Foi então que eu senti que a casa da gente é o corpo da pessoa que a gente ama.

Depois de alguns meses na casa de meus pais e na casa de praia, a cidade não comportava mais minha dor e aceitei um convite para trabalhar e morar em outro lugar: Teresina. Enquanto procurava apartamento, fiquei na casa de uma prima-tia. Uma casa que me matou um pouco a curiosidade do que deve nos acontecer após a nossa morte. Cheguei lá morto após a separação, e fui cuidado por um bando de anjos que aliviou as feridas de minha alma. Consegui um belo apartamento, que dividi com o primo que me acompanhava nos finais de semana da infância — até que ele casou e fiquei novamente sozinho. Naquela casa, eu nasci de novo aos 35 anos. Foram dois anos e meio do que eu só posso chamar de paraíso: trabalho, amigos, amores, caminhadas, escritos, canções.

A gente sabe que amadureceu quando faz não apenas o que nos dá retorno imediato. Com um grande aperto no coração, eu aceitei o convite de um amigo, dos tempos do pátio interno, para me mudar para Brasília. De um lado, eu me sentia como uma criança naquele programa do Sílvio Santos. "Você troca o calorzinho de Teresina, um trabalho com horário flexível, um apartamento espaçoso, uma rotina perfeita, amores e canções pela secura de Brasília, um trabalho de dois expedientes no ministério, divindindo um apartamento de dois quartos, sem tempo nem espaço para fazer o que você quer?", "SIIIIIIM!" Mas, por outro lado, eu me sentia adulto pela primeira vez, tomando uma decisão que eu sabia que era a melhor, embora não parecesse assim a princípio.

Na nova casa, em Brasília, revisei minhas lições de repartir, de viver na limitação, de ter a casa do tamanho de um quarto. E seria injusto dizer que, ali, fui qualquer coisa menos do que feliz, principalmente depois que pedi demissão do ministério. Ali descobri que minha casa pode ser em qualquer lugar do mundo (em Firenze, por que não?), porque minha casa é onde estou, onde descanso em paz, onde estou à vontade. E foi dessa casa que saí esses dias, foi à sua porta que repeti um ritual que realizo desde a minha oitava casa: a mão na maçaneta da porta principal, o corpo imóvel, os olhos levemente umedecidos, o pensamento em prece, a boca sussurrando "obrigado, obrigado".

E cá estou eu, escrevendo de minha nova casa, que pode não ser a última casa física, mas que desejo que seja a última casa emocional. Que, com minha mulher e sua filha, eu possa estar sempre em casa, que possamos realizar os sonhos e constituir a família ao mesmo tempo. Que o espaço e o tempo nos sejam amplos, que encontremos casa no corpo um do outro, que percebamos que nossa casa verdadeira está em cada um de nós e que murmuremos todos os dias palavras de agradecimento.




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sábado, 30 de janeiro de 2010

O RELÓGIO [Debora Bottcher]

O relógio de pulso estava parado. Às nove horas, um minuto e treze segundos do dia sete, ele estancara no tempo.

Ela nunca saberia se da manhã ou da noite ou mesmo de que mês. Não notara. Desacostumada a horários, nunca se guiava por seus próprios relógios. Às vezes, até se surpreendia de que já era hora do almoço, de ir para casa, tão tarde e ainda não adormecera, tão cedo e já estava acordada... Quase nunca se atrasava, mas era guiada por um sinal interno, qualquer coisa como a posição do sol ou o brilho da lua...

Mas o relógio, de desconhecido valor - já que nunca vira outro igual em nenhum lugar -, a acompanhava por todos os cantos do mundo, onde quer que andasse. Gostava dele...

Agora, na penumbra do quarto, olhava-o sobre a mesinha da cabeceira... Era domingo. No dia anterior percebera que ele não mais funcionava. Alcançou o telefone e ouviu a telefonista digital informar: “sete horas e quarenta e dois minutos”... Ela chegara em casa no meio da madrugada e quase não acreditou que dormira tão pouco.

Continuou olhando o relógio, quieto sobre a madeira escura, silencioso, ponteiros inertes, despreocupado.

Lembrou-se do dia em que ele viera para ela. Era um dia comum... Nenhuma data especial para ganhar um presente. Não se tratava de nenhuma comemoração e nada havia na expressão do momento que justificasse o gesto de alguém chegar trazendo nas mãos uma caixinha de veludo branco, pequena e delicada.

Mas lá estava ela, a mesa repleta de papéis espalhados, os telefones tocando, a confusão geral de uma manhã - ou será que era à tarde? - tumultuada de compromissos sempre inadiáveis, a bagunça extraordinária que conseguia fazer com suas responsabilidades, quando, no meio do caos, viu a porta de sua sala abrir-se e o rapaz que a recepcionista anunciara como alguém com uma encomenda para ela, entrou e sorriu.

Pediu que assinasse o formulário que descansou à sua frente e colocou sobre a mesa de vidro o embrulhinho. Rabiscou seu nome, agradeceu-lhe devolvendo o sorriso e ele se foi.

Ela tinha uma reunião e, apressada, pegou rapidamente as pastas que necessitava e saiu deixando esquecido algo que não lhe chamara a atenção e, portanto, não era importante, podia esperar...

O escuro se espreitava pelas brechas quando ela voltou, exausta e aborrecida. Pousou sobre a mesa o copo de água que segurava e começou a arrumar a papelada que se comprimia no espaço de sua organização.

Foi então que esbarrou na caixinha, derrubando-a no chão. Abaixou-se e pegou-a. Por um relâmpago de luz que piscou em sua memória, refez o instante em que tal objeto fora deixado ali.

Observou-a fechada em suas mãos, parecendo estranhamente hipnotizada, uma energia oculta tomando conta do lugar, um frio repentino pairando na ausência de barulhos de uma empresa vazia.

Colocou-a sobre o vidro e recostou-se na cadeira, quase querendo tomar distância, como se estivesse diante de um perigo iminente.

Olhou a escuridão através das persianas imaginando que horas seriam... Respirou fundo e, parecendo possuidora de uma coragem sobre humana, moveu o fecho dourado levantando vagarosamente a pequena peça movediça.

E lá estava, olhando para ela, o relógio. Um relógio prateado que anunciava a meia noite. O ar pareceu faltar por um instante, ela descompreendeu o significado de tudo, alegria e susto palpitando sua alma.

Tirou-o de seu conforto e segurou-o delicadamente junto ao peito, um tesouro descoberto no deserto, um mistério além da sua imaginação. Nenhuma identificação, nenhum bilhete...

Levantou-se, temerosa e estremecida, apoiando-se na janela para divisar o início da madrugada, perdida em suas luzes e sons.

Em cada facho de iluminação que entreviu tentou adivinhar em que ponto da cidade se escondia quem lhe enviara um marcador de tempo.

E foi sem surpresa que deu-se conta de que, naquela manhã, já se iam cinco anos desde então e ela ainda não descobrira...

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sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

ÚLTIMA ESPERA >> Leonardo Marona

Não demore a chegar, meu amor. Sinto tanto medo agora, hoje acordei chorando, coisas estranhas estão acontecendo por aqui, tenho um embrulho para te entregar. Acordei chorando, com a boca costurada, estava sozinho ouvindo uma balada – é como eles chamam – tão triste a tal balada, tão bonita e tão triste e eu nem me lembro o que ela dizia, mas tinha o veludo do sentimento agressivo que se acomoda nas veias endurecidas. Acho que todos merecemos uma daquelas paisagens de filme de bang-bang, todos merecemos um cafuné de vez em quando, uma saliva inesperada. Ah minha vida, portanto não demore! Estão todos de partida, ficarei aqui: te espero. Gostaria de sentir um peso forte de esmagar o peito agora, sentir faltar a respiração, num segundo você entra pela porta, estou de braços abertos, roxo sem ar, você apenas sorri – você tem esse poder de apenas sorrir – você simplesmente sorri para mim e, veja bem: eu não esperava nada, não havia nada combinado, não estávamos escritos nas estrelas, seria uma surpresa a cada vez e, imagine, sem esperar por nada ganharíamos tudo, a satisfação plena do desejo sem pecado. Não posso suportar tanto mais, a música já vai acabando e eu nem mesmo comecei. Agora venha já, sentimento profundo de cabelos curtos como o das revistas de comportamento, venha de muito longe gesticulando sem discrição, venha como um missionário sem pátria, e leve-me para longe dessa terra que se encolhe sobre si mesma, que se ajoelha diante de um inimigo morto. Se deus ama apenas os que não pensam, façamos a vontade de deus por um minuto e entre por aquela porta, na minha direção mais uma vez. Pode ser com sotaque paulista, pode ser sem precaução, pode ser com risco de germinar uma surpresa inconstante, pode ser num banheiro minúsculo, faremos dele um lugar onde caber. Mas por que tanto atraso, por que ainda te espero? Bem devia era cortar os pulsos e descer para comprar flores. Creio que foi muito fundo dessa vez, me sinto tonto, as coisas ganham beleza repentina, não sei se tem volta. Talvez seja só cansaço, cansaço da espera. Vou dormir um pouco, há música outra vez, quem sabe assim você não chega mais rápido, sem que eu perceba. As cobertas vermelhas, da cor do meu amor.


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quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

UGA, UGA >> Kika Coutinho

Eu não sei você, mas eu fui criada para ser uma pessoa inteligente, meio intelectualizada, educada, animal racional mesmo.

Passei a vida aprendendo que deveria trabalhar, estudar, ser educada com as pessoas, segurar arrotos, puns, raivas, gritos e nunca, nunca, palitar os dentes, por exemplo.

Cresci aprendendo a não gritar com os outros mesmo se estivesse louca de ódio, a não agir impulsivamente, a não grunhir, a falar baixo, a segurar o elevador para quem viesse chegando e a sorrir doce para o vizinho — mesmo sem vontade.

Embora sejamos animais, crescemos educados para sermos intelectuais e passamos a vida nos fantasiando de saltos altos, maquiagens, gravatas e outros adereços de gente inteligente.

Só que um dia ficamos grávidas e, logo, descobrimos que somos macacas. Exatamente, somos macacas de brincos e batom.

Quando o neném nasce, piora e a gente se sente vaca. Não naquele sentido pejorativo, não. Nos sentimos vacas rainhas, deusas vacas, como se fôssemos vacas na Índia. Mas, ainda assim, é estranho passar os dias a alimentar seu pequeno bezerro e acreditar que a vida, tal qual conhecemos, continua.

Continua nada! A vida humana acabou e nós entramos no reino animal. O cabelo penteado deixa de ter importância, os batons passam a ser acessório de outra pessoa — uma macaca que ainda não sabe que é macaca — e a vida passa a ser como numa floresta: engatinhamos até o nosso filhote, damos o peito, ninamos, limpamos o cocô dele (para que ele pense que é humano também), dormimos um pouco, bem pouco, e nos alimentamos com frutas e verduras — se estiverem brotando no chão de nossa casa, pegaremos com as mãos e assim comeremos.

Viramos instinto puro e é o nosso instinto de mamífero que nos diz por que chora essa nossa cria, por que grita e do que é esse grunhido que ela emite.

Mal consigo me lembrar do dia em que eu usava excel, sabia a cotação do dólar, passava blush e rímel.

Eu não sei você, mas eu virei bicho. Assumo que sou um espécime menos evoluído que o humano, uma macaca de 1.65m que veio aqui nesse mundo para parir, criar seus filhotes e, assim, preservar a espécie. Todo o resto, todo o resto que me ensinaram a vida toda, é mentira pura. Uga, uga!

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quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

SENTIDOS >> Carla Dias >>


Sentido é o que buscamos quando nos falta chão ou há o desejo de se efetuar mudanças significativas na vida. Mas também pode ser apenas o que se propõe: direção. Mas ‘sentido’ é uma palavra com tantos significados, como somos nós, os seres humanos, que fica difícil defini-la sem um contexto.

Por exemplo:

O sentido do tempo é o adiante e o avante, não há nele o que ande para trás, mas quando olhamos álbuns de fotografias... O sentido do tempo se vira do avesso, seus olhares se tornam nostálgicos. E o até então sem sentido passa a fazer todo o sentido do mundo.

A violência não faz sentido, mas vítimas, e não adianta me mostrar planilhas, dados e mais dados, a essência da estatística, o porém da História. Violência será sempre algo completamente ausente de sentido para mim e sem o menor tato para a compaixão e a temperança.

O sentido da paixão são os holofotes e os fogos de artifício despontando no céu dos nossos desejos. Autores de apaixonamentos se permitem perder o rumo e o medo. Saem andando por aí, sentindo a cabeça avoada e o coração apertado.

Há dias em que acordamos desprovidos de sentido e então se perdem quase todos os significados da palavra. Não sabemos o que fazer e brotam segundos sentidos no nosso dentro, formando um jardim de interrogações. Deixamos de fazer sentido pouco depois do café da manhã e nos esbaldamos na sensação de não sabermos aonde ir.

O sentido das coisas pode ser o mesmo das pessoas e das ideias. Pode habitar o coletivo ou o pessoal e intransferível, e morar nos benditos frutos de inspirados ventres, amém, magnólias e margaridas e trovões.

Há sentido naquele que perde o sentido para que o rumo caiba na sua necessidade de aprendizado. Às vezes, a coisa-sentimento não faz sentido, mas por isso mesmo é o melhor para a coisa-pessoa.

E se o arco solta a flecha e ela muda de rumo é por estar na hora de um novo alvo. As flechas libertárias são sábias e surpreendem os sentidos dos arqueiros.

O sentido da luz é o abismo, pois quem mais poderia lhe clarear o olhar?


www.carladias.com


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terça-feira, 26 de janeiro de 2010

FALANDO DE VOCÊ
>> Felipe Peixoto Braga Netto

“Belo Horizonte foi a maior surpresa da minha vida. Permitiu-me ver no Brasil coisa que jamais esperei: uma cidade à qual coubesse, com absoluto rigor, a classificação de bela”. 
(Monteiro Lobato)


Um dia escreverei um guia de Belo Horizonte. Um roteiro lírico. Um convite ao leitor para descobrir comigo ruas, praças, bares e bairros. Enquanto não faço isso, vou me distraindo pensando no que me faz gostar de você, Belo Horizonte.

Porque gostar é engraçado. O que nos faz gostar de alguém? Você pode sempre racionalizar a resposta, mas verá, no fundo, que não é tão simples assim. Há sempre algo que não se explica, mas se sente. Ou que se sente mais do que se entende. O que define o amor é algo indefinível, com o perdão da péssima frase.

Seria bom (seria?) se pudéssemos pôr uma certa ordem no amor. Gostar de alguém que tenha essa e aquela característica. Mas as coisas não são assim. O que nos faz gostar de alguém é um conjunto de fatores até certo ponto incontroláveis.

Mas estou fugindo do tema. Quero falar de você, Belo Horizonte. Quero saber o que me faz gostar assim. Será o fim de tarde tão azul? Serão aquelas árvores, tão gentis, que parecem mães imensas oferecendo compreensão?

Há momentos, convenhamos, que Belo Horizonte exagera. Não precisava tanto. Me diga, precisava essa manhã tão luminosa desperdiçando beleza? Precisava essa gentileza comovente que os trabalhadores, especialmente os mais humildes, carregam com alegria? Precisava lembrar, a todo instante, que Deus existe e que aquele pássaro amarelo e preto é um de seus irreverentes embaixadores anônimos?

O pessoal fala tanto em paraíso... Não quero contar vantagem, mas isso aqui para mim está bom. Mais eu não mereço. Desconfio até que mereço menos. Enfim, sou suspeito, não nego. Se Belo Horizonte fosse processada, eu não poderia depor a seu favor. Seria daqueles que os juízes chamam de suspeitos. Um ser desprovido de isenção. "Se somos íntimos? Sim, excelência, confesso que sim. Belo Horizonte me conhece melhor do que eu. Ela sempre me perdoou. Mesmo quando eu não merecia perdão."

Minha tese é que Belo Horizonte é o Rio dos anos cinqüenta. Tem charme, delicadeza e uma certa ingenuidade. Tem aquilo que encantou o mundo no passado. Claro, falta o mar. Mas o mar aqui é interior. Há tantas formas de mar, meu Deus, aquele molhado é só o mais óbvio.

Choverão críticas raivosas. Não mereço tanto... É só uma opinião vagabunda. Se eu fosse vocês, não me incomodaria com ela. Mesmo porque daqui a pouco mudo de opinião, aí vocês vão ficar com raiva de uma coisa morta, vê se vale a pena...

Eu só quero dizer, Belo Horizonte, que gosto de você. Gosto demais. Quem mais traz esse discreto charme sutil nas pequenas, nas grandes coisas? Nem todo mundo vê, é verdade, mas aí o problema é deles, não seu. Eu diria até que te amo, mas já gastaram tanto esse verbo que ele não traduz a coisa bonita que acontece aqui dentro quando a gente se encontra e eu, um ser tão sem graça, fico imenso, quase feliz.




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domingo, 24 de janeiro de 2010

PASSADO PRESENTE >> Eduardo Loureiro Jr.

Eu vivo no presente, mas bem que poderia viver do passado. Presente é coisa que a gente desembrulha o tempo todo; passado já está desembrulhado, para o bem ou para o mal, para o gosto ou para o desgosto. Presente é cheio de surpresas e exige decisões, pequenas e grandes; passado é transparente, sem enfeites.

O passado é como o filho pródigo que retorna — humilde — após uma vida desregrada, e o Pai o recebe com alegria, festa e abundância. O outro filho, o presente, reclama invejoso. Esteve sempre ali, ao lado do Pai, trabalhando, suando, fazendo o que devia. Presente é salário; passado é herança.

Todo mundo traz o passado em casa, no canto de um armário, no fundo de uma gaveta, num baú, numa caixa de sapatos, num esconderijo. Passado feito de fotos, de cartas, de fitas-cassete, de disquetes, de marcadores de livros. Há quem traga o passado no peito, na calmaria ou no sobressalto do coração. Há quem o tenha na ponta da língua, feito palavra, gíria, provérbio, canção, bênção, maldição até.

Hora que passado escapa, retorna à consciência, é faxina, é bota-fora, é mudança. O passado vem humilde, com cheiro de mofo, infestado de ácaros, amarelado, ressecado, amassado. O filho-presente tenta dizer "bem feito, que vá cuidar dos porcos", mas o Pai se alegra e manda parar o trabalho, preparar a festa, matar uns tantos bois. Alegria de ter de volta o que estava perdido.

O passado já está resolvido. Até a dor, que rasgou não apenas o papel, que trincou não apenas o porta-retratos, que danificou não apenas o arquivo... até a dor, resolvida, é como o vinho: quanto mais antiga, melhor.

Tesouro. Ouro da tez que contempla a herança. Mais nenhuma decisão a tomar, nenhum risco a correr, nenhum susto a tomar. O passado bem passado é o boi suculento que o Pai mandou preparar. Dá pra viver só disso: relembrar, refazer o quebra-cabeça dos fatos só por brincadeira, rir de sonhos tolos,  admirar genialidades que o presente de então estragava com projetos e força de vontade. O passado é a força da verdade, a realidade sem projeção.

Ah, eu bem que poderia viver do passado, mas aí ele seria presente re-embrulhado e complicaria o descomplicado. Melhor é complicar-se no presente atual, trabalhando, suando, fazendo o que se deve — plantando distraído, no presente, o passado do futuro que um dia vai chegar.




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sábado, 23 de janeiro de 2010

O TIME DO CORAÇÃO [Ana Gonzalez]

Quando ele nasceu, estava escrito: certamente seria do meu time. Eu acompanharia seu crescimento, ele ganharia uma camiseta e aprenderia todas as palavras que designassem o time do coração da família, seus jogos importantes, jogadores especialmente dotados, gols históricos, enfim todo aquele conjunto que faz a alegria dos torcedores de qualquer time. No caso, era o Corinthians Paulista.

Mas a criança nasceu em São Paulo e foi morar em Ribeirão Preto, distante de mim muito chão e tempo. Mesmo assim, ele ganhou uma camiseta corinthiana das pequeninas que se caracterizou por algum tempo como aquela do time do coração da avó. Combinava com ele.

Mas ocorre que, no desenvolvimento desta história, a criança amada encontrou amiguinhos. O mais querido deles, aquele escolhido, o preferido, cuja família o aceitara também de coração, entraram na história. Isso não seria nada sério, estranho ou digno de nota se eles não fossem são-paulinos.

Ora, não deu outra. O pai do amigo preferido entendeu a situação e fácil, fácil, matou os sonhos da avó de maneira fatal. Comprou uniformes são-paulinos para os dois amigos. Completos: calção, camiseta e meia. Tudo de acordo. E foram todos ao campo assistir à disputa de um jogo que o São Paulo fez no campo da cidade. Que criança suportaria tamanha pressão? Ele virou são-paulino. Eu confesso que achei jogo baixo, mas nem poderia dizer isso a ele. Coisas da vida. Não dava para eu fazer mais nada. Já estava decidido.

E daí que amarguei algum tempo muito sentida, mas ainda tentando seduzi-lo para a simpatia corintiana — eu não tinha desistido. Até que um dia aconteceu algo inusitado.

Eu estava em sua casa e ele chegou com um amiguinho da vizinhança. Perguntei qual era o jogo que estava acontecendo, ao qual eles assistiriam. Era São Paulo contra o Palmeiras. E ele torcia para o Palmeiras. Pensei ter ouvido mal, mas, ao olhar para a dupla de chuteiras e calção sujo e carinhas cansadas, senti que não ia ter sucesso em pesquisar por meios racionais. Para uma corinthiana como eu, qualquer time é melhor do que o Palmeiras. Nunca o Palmeiras, nunca mesmo. Mas, naquele dia, eu achei música para meus ouvidos essa declaração. Estranhei a verde preferência, mas era uma abertura nova que se dava no cenário. Aos poucos, senti que eu poderia ter esperanças.

O tempo passou e ele não aceitava ainda ser corinthiano. Mas já não parecia tão são-paulino, como no início.

Até que um dia chegou feliz em minha casa e me contou com ares de novidade que havia uma notícia para mim: o time de sua preferência era o Barcelona! E quis ir à internet me mostrar como era lindo o desenho do novo time. Tive que lhe fazer uma cópia. Sic!

Fiquei desolada, mas achei interessante... Na verdade, não sabia o que pensar. Cabeça de criança... Mas, com certeza, o mundo infantil é fantástico!

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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

HEMINGWAY >> Leonardo Marona



É uma pena que eu não possa, com indisfarçável vaidade, dizer que a história que se desenrola a seguir é um autêntico exemplo da escola fantástica, celebrizada por nomes de peso como Edgar Allan Poe, Guy de Maupassant ou Roberto Bolaños, o famoso Chespirito. De fato, seria muito mais natural e menos cansativo se eu pudesse afirmar tal coisa, ou pelo menos, atuando, conseguisse suavizar as conseqüências trágicas dos acontecimentos seguintes. Mas preciso ser honesto, em primeiro lugar com você, leitor, que ainda não me deixou a escrever como um português, a mim mesmo. É em respeito a esta cortesia que iniciarei, sem mudar nenhum detalhe, mas na tentativa de não me esticar em floreios franceses, este algo extraordinário relato que me deixou assim, escrevendo a esmo sem nem mesmo conseguir sair do lugar.


Antes de tudo, é muito importante dizer que tenho apenas nove dedos nas mãos. É este um importante dado referente à minha personalidade pretensamente humilde, mas que no fundo esconde uma ambição desmesurada, a que me agarro como o parente falido se agarra à herança inesperada. Portanto, com enove dedos, é natural que eu seja um pouco dissimulado. Está aí um presidente da república que não me deixa mentir. Portanto, aqui estamos: nove dedos.


Outro dado fundamental: sou tabagista, mais especificamente maconheiro. Vocês vão entender a importância disso ao longo desta breve narrativa – espero que durem até lá.


Minhas ambições são desmesuradas, meu trabalho é bem modesto. Eis uma forma de alimentar a grandeza, e só tem grandeza quem precisa de pouco, além do que, ao mesmo tempo, é preciso aplacar a vaidade, maior inimiga dos que, como eu, falam muito e, agora me dizem, vêem coisas. Mas estão todos enganados!


Sucede que trabalho numa livraria, isso mesmo, vendo livros às madames e aos homens de muitos músculos, que levam cachorros pequenos para passear. É um trabalho na maioria das vezes agradável, mas muito freqüentemente causa tédio. E o tédio, como se sabe, é a grande bússola do nosso tempo.


Portanto estava eu entediado, anotando palavras sem ordem no papel, quando achei que era hora de largar o trabalho para fumar um baseado, o que explicitava claramente uma inclinação ao vício e à depressão. Saio eu da livraria, vou até o beco onde outros coitados enredam cada um seu próprio desespero. Algumas vezes fiz amizade nesse lugar. Não digo amizade: companhia. Umas pessoas tatuadas que falavam demais e eram muito magras. Sempre dizia a elas que achava incrível que pessoas tatuadas e tão magras pudessem conversar animadamente com um gordinho feito eu, semi-careca.


Ir ao beco havia se tornado um hábito, algo como coçar o topo da cabeça enquanto se lê, ou assassinar platéias nas matinês do cinema. Uma forma de perseguir o tédio e, ao mesmo tempo, enganar a si mesmo. Eu sabia disso desde o princípio, e não parecia menos interessante do que constituir uma família ou receber uma condecoração. Mas eu não imaginava o que aconteceria, quando tudo parecia estar na mais perfeita harmonia, embora às vezes burocrática, devo admitir.


Reparem nisso: agora me chamam de louco, mas eu já tive as minhas preferências intelectuais. Aquilo que atira para todos os lados e não diz exatamente a que veio. É lógico, eu lia Hemingway, muito, o tempo todo. Na verdade, sempre me achei parecido com o Papa. Tinha a certeza de que, com a barba branca, que não tardaria, poderia ser confundido com ele na rua, ou quem sabe até participar de um festival de sósias. Vocês provavelmente querem saber por que falo de Hemingway. Vou dizer num minuto.


Estou aqui nesta clínica toda branca, mas sei muito bem que tudo não passou de mágica, talvez satânica. Acontece que, num belo dia, estava eu sozinho no mesmo beco, que eu na época chamava de O Beco da Sanidade, terminando meu servicinho sujo e batendo as calças para voltar ao trabalho. Larguei a bagana e, quando virei a esquina, ali estava uma aparição, era um bebê, uma cabeça larga e as sobrancelhas muito nítidas numa expressão bonachona, era Hemingway ainda bebê e ele passou no seu carrinho de bebê e só faltou um charuto na sua boca para eu pedir um autógrafo, “por favor, Hemingway, sei que você ainda não escreve, quanto mais entende, mas, faça o favor, assine aqui”, e ele estava sendo carregado por um casal contente, magro, sadio, que em nada parecia o pai suicida de Ernest ou sua mãe vadia. Aquele não podia ser, portanto, apenas um filho. Era uma mensagem sutil, um sinal oculto sem precedentes.


Cheguei lívido ao trabalho. Discutimos em grupo qualquer coisa sobre um seqüestro de um pseudo-intelectual, mas eu realmente não prestava atenção. Estava tomado por aquela imagem tão rápida, tão sem explicação, subitamente tão feita para mim. Tive sonhos úmidos mas, quando acordei, calcei os sapatos da mesma forma, assobiei as mesmas músicas durante o banho, mantive as minhas mesmas pequenas expectativas, e estava contente assim, outra vez.


No dia seguinte não pensava mais no assunto. Estava tudo definido assim: se eu não pensar mais no assunto, ele vai se dissipar naturalmente. Mas, no entanto, aconteceu o contrário. Resisti bravamente à correção, espatifei-me de alma lavada numa lama antiga. Mas amava aquela aparição, era algo que, eu sabia, exclusivamente avaliava o meu comportamento, o meu destino.


Nada aconteceu nos próximos três dias, e eu tentei de tudo para que acontecessem coisas. Passava a manhã mastigando pequenos biscoitos de trigo, imaginava, com seriedade, uma estratégia universal para conquistar os Estados Unidos da América. Estratégia inútil, eles já foram conquistados. Sinto que sou bem mais velho que o tempo, isso me assusta. Sinto que olham para mim, chamo de canto um colega. Ele mesmo ri, tem poucos dentes, é um mau sinal.


No dia seguinte, tudo parecia perfeitamente normal. Eu havia me levantado, como de costume havia lixado os calos dos meus pés. Deve haver algo errado com a minha pisada na terra. As solas dos sapatos estão sempre desgastadas, e eu sempre tive a impressão de que isso tinha a ver com um certo apavoramento em se estar no mundo. Eu tinha essa estranha mania de me colocar em situações sofríveis para treinar o que eu chamava de minha “raça de vida”. Então deixava sempre a geladeira totalmente vazia, e talvez também por isso eu trabalhasse numa livraria, para treinar minha humildade, sorrir para gente muitas vezes pior do que eu, para me sentir bem com isso, bem por agüentar sorrindo. Portanto, eu pisava as calçadas como quem pisa em ovos, como quem desvia das minas explosivas de Angola. De todo modo, no dia seguinte, eu estava no trabalho outra vez, batendo meu cartão feito um proletário, dez ou quinze minutos atrasado, fumando meu cigarrinho toda vez que enchia o saco, e não pensava muito bem em nada, até que...


Até que vi outra vez, voltando do antro, e achei enfim que a coisa toda era algo pessoal, reservada a uma doença específica, uma neurose da cabeça, como se diz. Vejam bem: eu não me iludia. Saí do antro de maconha outra vez e, dessa vez, justo quando não pensava mais no assunto, quando assobiava e pensava em ter quem sabe um encontro romântico, então lá estava ele, Hemingway, adolescente, como o garoto com talento que escreve para o jornal da cidade pequena. E, assim como o bebê, ele olhava para mim nos olhos, fixamente. As sobrancelhas quase juntas, a cara quadrada, os cabelos cor de petróleo, o riso debochado dos que farão além do normal.


Não cheguei a correr, mas precisei desviar imediatamente a atenção daqueles olhos, e dei um pique, no que um segurança local chegou a me segurar pelo braço, achando provavelmente que eu havia sido mordido por algum bicho.


- O senhor está passando bem?


Saí correndo, ofeguei, entrei no banheiro, esperava por sabe-se lá o quê, tranquei-me lá. Perguntaram se havia acontecido algo, e foi só aí que as coisas começaram a degringolar de forma fatal. Os lábios brancos, a pele de veludo molhado, não havia como, simplesmente, dizer que não havia nada.


- Não aconteceu nada, uma pressão baixa.


Daí em diante eu era como um cadáver abandonado num matagal, apodrecendo, esperando bicho. Pouco falava com as pessoas, os cabelos começaram a despencar da cabeça, mesmo os banhos foram diminuindo, até que, no fim das contas, eu tomava banho uma vez a cada três dias, em pleno verão. Apenas uma coisa não mudava em nada. Cada dia, voltando do antro, havia uma nova aparição de Ernest Hemingway, alguém com chapéu de pesca, um sujeito com uma boina e um charuto na boca, uma barba branca numa cara larga, coletes de safári, até mesmo um sujeito com uma vara de pesca, saindo sabe-se lá de que buraco, até isso eu vi.


Mas então veio o dia em que eu não vi nada, e aquilo já era o ópio, a cocaína. Quando não vi nada eu era como um viciado em estado de tremelique a quem se nega uma dose. Eu pedi ajuda na rua.


- Por favor, preciso de ajuda, por favor...


- Sim, meu senhor, o que foi?


- Eu não vi... Hoje eu não vi Ernest Hemingway.


- Ernest Hemingway, meu senhor? Você quer dizer o escritor americano?


- Sim! Você sabe... Todos os dias...


- Se eu não me engano, ele se matou há muito tempo, com um tiro na boca.


- Sim, é claro! Aí está! Mesmo assim, todos os dias... Todo santo dia! E hoje não, hoje não vi nada!


- Meu senhor, o senhor está branco, meu senhor, alguém ajude!


Não me perguntem como terminou essa patética cena. Graças a deus eu não lembro de nada. Quando acordei, havia três pessoas à minha volta, e o ambiente cheirava mal. Estávamos na cozinha da livraria. Minha gerente, pela primeira vez, passava a mão delicadamente sobre a minha testa.


- Foi só um desmaio. Você está bem?


No mesmo instante, me senti magnífico. Talvez aquilo fosse tudo o que eu gostaria de ter ouvido a vida inteira: “Foi só um desmaio, você está bem?”. Sim, eu estava ótimo. Mesmo assim, fui liberado mais cedo para casa.


Me disseram que eu poderia ficar uma semana sem ir ao trabalho. Alegaram algo como “estafa mental”, “anemia”, ou algo parecido. Foi uma semana terrível. Eu lia sem atenção alguma, escrevia poemas de amor barroco e sofria de amor por mulheres que via de longe. Eu era como um Proust heterossexual e sem talento.


Estava felicíssimo no dia em que voltei ao trabalho. Receberam-me, de fato, como se eu tivesse perdido uma perna na guerra. Lembro-me que ganhei até mesmo um pão doce, terrível, cheio de frutas cristalizadas, e aquilo me levou a, discretamente, vomitar no banheiro. De todo modo eu não tinha nenhuma alucinação, e aquilo estava bom.


Assim passaram-se dias, como nas novelas ruins. Eu fumava o meu cigarrinho, era extremamente simpático com os idosos, irônico com as senhoras frígidas, mas atraentes, e atendia mal as mulheres muito bonitas, como uma forma de proteção. Não pensava em touradas, vinhos em odres, pesca esportiva em terreno espanhol. Pensava em ter uma vida mais saudável, parar com tudo que me atrasa, ser simpático, prestativo aos amigos. Outra vez tinha cor, dava bom dia às madames com raposas nas costas, cheguei mesmo a passar por situação constrangedora:


- Acho que sua neta está precisando ler isso, em vez das bobagens que todas as meninas lêem, livros sobre vampiros, essas coisas.


E entreguei a ela o quê? Um livro de Ernest Hemingway: Paris é uma festa. Fiquei tão feliz com isso que disse ao colega desavisado:


- A mulher queria levar “Julie e Julia”, e acabou levando Hemingway!


Aquilo mostrava plenamente que a situação não só não estava no fim, como inclusive culminava num mesmo ponto doentio, diriam, eu digo canônico. “É importante vender Hemingway no lugar dessas bobagens”, eu dizia a mim mesmo, sorrindo no espelho, triunfante, mas sabia muito bem que um triunfo pequeno, muito comemorado, antecipa momentos ruins.


Assim estava eu mais uma vez no antro. Fumei como aquele que sabe que está no corredor da morte, e mesmo assim faz a última refeição. Saí atento, mas forjando calma. Andei, levei mais tempo em meu trajeto. Olhei as vitrines das lojas, flertei com as outras empregadas, sem culpa. Eu amarrava os sapatos, vejam bem. Eu estava desatento quando me empurraram, fecharam a rua. Pessoas corriam sorridentes, parecia um grande acontecimento.


- O que houve ali?


- Um assalto a banco, um assalto armado.


Pronto. Eu precisava sair dali. Mas a polícia havia chegado, se pavoneava como de costume, sem resolver jamais a situação. As coisas começavam a me dar medo outra vez, de uma outra forma, e isso era ótimo. Medo de levar um tiro, de correr e tropeçar, ser esmagado pela massa, desmaiar outra vez, não havia nada melhor. Eu não podia olhar aquilo. O sangue me dava desmaios, e um tiro, qualquer nervosismo inesperado me faria vomitar entre estranhos.


Mas pelo menos não havia Hemingway, nem sinal dele, e isso me fez crer que talvez tudo não passasse de uma predisposição momentânea à identificação. Mas o erro foi achar que estaria, apesar de tudo, do cerco, da polícia, das gargalhadas sorridentes de pessoas ensandecidas, que estaria tudo para bem mim... Digo, depois da questão. Eu achava que mesmo com tudo isso era melhor do que ter visões e passar mal por uma idolatria juvenil. Nessa hora eu realmente acreditava que tudo não passava de uma armadilha da moral. Mas foi bem aí, no contrapé da confiança que, me desvencilhando da multidão, eu vi.


Um sujeito passou correndo, vários sujeitos passaram correndo, um milhão. Eu não queria ver nada, mas estava preso e, a essa altura, já pensava em paranóias. Fui tão empurrado de um lado para o outro que, num belo momento, virei a cabeça, como se eu fosse o apóstolo Pedro no momento da terceira negação.


Eu vi rapidamente a cena, aquilo parecia algo que, naquela situação, só eu poderia fazer. Tentei disfarçar os olhares sobre a minha pele branca, sobre a minha tendência branca, sobre, em suma, a brancura do meu ser. Não podia com sangue. Mas a gritaria era inviável.


- Que isso?! Um cara rouba o banco... Então mete o cano na boca. Que loucura! Que horror!


Aquilo, digam o que quiserem, dizia respeito a mim. Mas não entendi direito.


- Um assalto? Cano na boca?


Era perfeito demais, fora do tom, catastrófico. Eu estava de repente ali, olhando de soslaio. Havia realmente um sujeito sentado num banco. Diziam que era um assalto, não parecia. Ele estava exatamente de frente para um grande público, parecia com medo, suava. Estava sentado numa cadeira de balanço entre o ato falho e a incompreensão. Aquilo me fazia sentir mal. Olhei finalmente para a cena do crime, não agüentei mais.


A coisa toda seria uma piada não fosse... toda ela... tão feita para mim!


Não era uma situação propriamente dramática. Havia ali apenas um sujeito que desistia da sua obrigação, preferia morrer a se entregar. A primeira coisa que vi foram os chinelos do homem, e que era um homem magro, com o tornozelo fino, os olhos de gazela. Eu vi primeiro os sapatos, porque ele era um homem ridículo. Identifiquei-me com ele, eu não era nenhum alienado. Não saberia ler em espanhol numa roda de bêbados, não saberia bailar com um touro. E eu estava na frente de um sujeito que achou que soubesse, mas não podia, e confundiu sem querer saber com poder, o que é bem típico de quem tem pais covardes.


O que importa – um à parte às filosofias – é que se dê ou não um tiro na boca. O resto já não é nada, dado um certo momento torna-se algo desimportante.


No fim das contas não teve jeito, o sujeito estourou os miolos, o cano na boca, lagos profundos do Michigam, a solidão da impotência, ele estourou os miolhos com um tiro na cara, e isso foi muito rápido, tanto quanto a abordagem mais enfática da polícia, os gritos de deleite e a aglomeração repentina, todos em cima do sujeito sem cabeça. Mas o meu problema exatamente era que houve um estouro de cabeça, e uma espingarda na mão.


Comecei a suar de maneira assustadora, desfaleci. Tentaram me ajudar, dei bordoadas por todos os lados, saí correndo como um gato recém-nascido debaixo de chuva forte. Não pensei em mais nada e, confesso que, desde então, os pensamentos tem sido cristalinos, de modo que desconfio deles. Mas uma coisa é certa: fiz o que me restava fazer.


Corri até a livraria, segui até a gerente, me agarrei no seu colarinho e gritei com fúria:


- Eu achei que nunca mais veria, mas eu vi! E dessa vez eu vi a espingarda!


- Do que você está falando? Não quer um pouco d’água?


Ela tentou me controlar com a mesma iniciativa de antes, a mão na testa, as palavras de compreensão. Eu estava indócil, me lembro que derrubei o bebedor com as mãos, e muita água foi derramada, e muita gente entrou na cozinha, onde fiquei como um louco, tentando me fazer entender, virando os olhos, marcando o meu destino. Mas eles não entendem que não existem tantas coincidências. Eles não entendem o que dizia aquela espingarda, aqueles miolos contorcidos. Eu murmurava coisas e era difícil, realmente, entender o caso sem nenhum desdobramento, sem nenhuma satisfação plausível.


Agora estou aqui, tratado como inválido, e sei que não demorará muito para que ela, A SITUAÇÃO REAL, volte a me atormentar. Mas na hora apenas tentavam me convencer de que eu estava nervoso demais, de que, numa cidade como a nossa, não era para tanto caso e que, em suma, suicídios eram comuns. Mas aí eu derrubei mais coisas e, quando me dei conta, havia pessoas de branco em volta. Nunca me esqueço de quando me levaram. Não fazia mais tanto calor na cidade, as pessoas estavam muito calmas, as coisas estavam paradas. Os enfermeiros que me carregavam eram dóceis e até mesmo sorriam para mim. Eu estava louco, eles queriam dizer, eu estava louco e minha testa levaria, muito provavelmente, uma forte descarga de choque. Pensei nisso quando vi um fio de alta tensão desencapado, a rua cinza, o povo com a fisionomia de um fim de guerra. O fio fazia faísca na calçada e, pendurado no fio, um tênis velho de criança, amarrado pelo cadarço, quando enfim me levaram, e agora estou aqui, e me sinto bem.



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quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

ESPAÇO PARA O AMOR >> Kika Coutinho

Eu estava na sala de parto, assustada e ansiosa, muita gente trabalhando e eu parindo, quando, em um segundo, o médico ergueu para que eu visse o bebê que acabara de tirar da minha barriga. Tomei um susto. Eu sabia que isso ia acontecer, tivera pelo menos nove meses pra me preparar, mas ainda não acreditava. Não tinha nenhum truque, ninguém escondido embaixo da maca já preparado com um bebê na cartola, nada. Foi de mim mesmo que ele tirou, eu vi. Acontece que, quando notei o bebê ali, cinza, melecado, olhos se abrindo para o mundo, saiu de mim um soluço. Não chorei. Dei um único soluço e perguntei insistentemente se estava tudo bem.

Eu sentia o estranhamento da anestesia, a pressão de alguém costurando minha barriga, a preocupação de que o bebê fosse perfeito. Eram tantas, tantas coisas para sentir, que não houve espaço para aquele amor de que ouvimos falar.

Sim, há de se ter espaço para o amor, há de se ter um lugar vazio onde você pode encaixar, docemente, um punhado de amor.

Eu já amava a minha filha, mas não sabia. E não notava porque não havia condições de notar nada em meio àquelas luzes e àquele caos que é um parto — ao menos aquele era.

Mais tarde, quando já respirava e sentia meu coração inundar-se de alegria, amor e afeto por aquela criaturinha cinza, pensei em quantas pessoas não conseguem amar por pura falta de espaço.

Há tanto a ser feito, na vida. Há trabalho, há violência, há abdominais; um carro pra consertar, um documento pra assinar, tanto, tanto, que nem sempre sobra espaço para o amor. Ou, então, mesmo que os afazeres não sejam tantos, o coração pode estar tão inundado de mágoas, traumas, amarguras, que nessa enchente de decepções não há brecha para o amor. O amor sucumbiu, foi expulso pela água suja das inundações. Saiu boiando como um sofá velho quando a dor tratou de encher tudo e ocupar todos os cantos dessa casa velha.

Talvez por isso tanta gente sinta falta de amor. O amor pede paz. Não muita, um pouco que seja, porque é a paz que esvazia de tribulações a morada do amor.

Há de se esvaziar a si mesmo das ocupações, das pré-ocupações, das mágoas e dos cansaços, para que ali caiba amor.

Há de se apagar um pouco as luzes, diminuir um pouco o volume do rádio, talvez desligar a televisão e respirar um pouco mais calmamente, um pouco mais tranquilamente, para que o amor passe, ainda que por uma fresta pequena, para acomodar-se aí, nessa casa limpa e espaçosa.

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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

NESSA TARDE >> Carla Dias >>

Dos pés caminhando sobre a areia da praia, das mãos tocando as cores das frutas sobre as bancadas das barracas da feira. E do encanto do menino pelo gosto da manga. Da praça vista do banco em fim de tarde. E de uma porção incontável de conchas. De quem se levanta para dar lugar à mulher que no útero traz a esperança em forma de pessoa, ou na alma traz a experiência. Da boca mascando o tutti-frutti que se transforma e estoura em gargalhadas. Dos pelos arrepiados pelo susto provocado durante o filme da sessão da tarde. Do cupuaçu em bombom. Da bondade sem autoria. Das lágrimas derramadas por quem chega e por quem parte e por quem fica e por quem sequer conhecemos. Da intimidade do beijo de língua e de se chorar na presença de outro. Do corpo em movimento que é dança, das estrelas de papel crepom e da arquitetura dos sonhos impossíveis sendo adaptada às possibilidades. Das pernas balançando dentro da água, das ondas provocadas nessa água, da água que cai feito chuva sobre nossas cabeças quentes. E das canções de amor perpetuadas por corações partidos, dos amuletos de sorte, do até que a morte os separe ou da vida que os una. Dos gatos e sua tara por novelos de lã. Do vento arqueando bambus e do palhaço estendo a mão à criança sorridente. Da falta de dentes por falta de idade e das pontes que ligam o aqui ao lá. Do passado tatuado em fotografia. E das manhãs frias que fazem brotar chocolate quente, do ponteiro do relógio que para apenas para nos dar mais tempo. Do viés do vestido da menina que remete às rotas de fuga dos toques. Da textura da pele de quem se despe dos medos.

Assim me veio o sentido da delicadeza nessa tarde.

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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

EU ATÉ DIRIA MAIS SE VOCÊS NÃO ESTIVESSEM OLHANDO
Felipe Peixoto Braga Netto

Um dia serei feliz?
Sim, mas não há de ser já:
A Eternidade está longe,
Brinca de tempo-será.
(Manoel Bandeira)

Andei uns meses, talvez quase um ano, longe do mar. Agora estou aqui, de volta a esse cenário familiar — essa estradinha rústica, essas barraquinhas na praia, esse inconfundível mar. Venho com meu irmão, o que aumenta o prazer do retorno. Sentamos à sombra, num ponto mais alto da praia, pedimos uma cerveja e ficamos conversando vagamente bobagens e fiscalizando a cor do mar.

Estou feliz com esse ritual. É simples e banal, mas cheio de emoções boas, de prosaicos prazeres relembrados. Logo chegam uns violeiros, e são gentilmente repelidos por nós, que não estamos para ouvir loas. Penso em lhes dar uns trocados, mas vejo que não tenho. Fica pra próxima!

Observo-lhes (são dois), vejo-lhes os rostos sofridos queimados de sol, as roupas simples e gastas, o olhar de cansaço e desânimo. Cantam, próximos, para uma mesa cheia. Ninguém lhes dá olhos ou ouvidos. A mesa é insensível e grosseira. Não lhes fazem, sequer, um sinal para que parem; eles cantam, cantam e a mesa continua a conversar entre si, alheia à abordagem. Cantam, em vão, para rostos indiferentes. Depois de uns minutos do grotesco espetáculo, um dos violeiros para – ainda junto à mesa – olha para os lados e não tem coragem de ir embora. Esse sol absurdo, essa miséria aguda, essas pequenas humilhações diárias... Sinto nele o cansaço dos séculos. Fico com vergonha. Não sei bem de quê. Olho pro outro lado. Sempre faço isso.

Uma moça, muito bronzeada, com contornos de montanha gentil, não deixa muito espaço para essas dores. Passa, próxima, rumo ao chuveiro. Terá o que, dezenove anos? É linda, está visivelmente satisfeita com seu bronzeado e com a vida, traz a graça leve de uma existência feliz. Já tinha quase esquecido esses pequenos prazeres ingênuos de mar e de sol — como é bom ver mulher bonita de biquíni! É uma mistura de prazer com leve aflição.

Ver mulher bonita de biquíni dá trabalho; trabalho dá fome; eis que ficamos com vontade de comer. E comemos uns honrados acarajés, uns preclaros peixinhos fritos — com tomates e cebolas devidamente presentes — até, depois, meu irmão se aventurar nuns siris cheios de patas, mas preferi repetir o preclaro peixinho — que estava muito bom!

E o bom mar nos convidava para um banho — achei deselegante recusar. Mergulhei, muitas e tantas vezes, querendo compensar meus dias de distância. O mar agradeceu a consideração e combinou com o sol, no fim de tarde, um suave espetáculo de beleza esplêndida, acho que só para mim.

Eu, em confortável cadeirinha que me deixa quase deitado, exercendo a nobre função de vigiar o pôr-do-sol, acho a experiência humana na Terra algo muito bonito e certo, acho que os planetas, nessa sublime confusão celeste, vão muito bem, os pingüins do Alasca não podem estar mal, o Brasil não faz feio e até minha vidinha, essa coisa freqüentemente estúpida, é, pensando bem, bem simpática. E diria mais, se vocês, mal-humorados, não estivessem por perto olhando.




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segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

REDAÇÃO >> Albir José da Silva

Passeio No Zoológico

No sábado eu fui no zoológico com meu pai minha mãe e meu irmão. O Nero não foi porque ele tem medo de bicho grande e come bicho pequeno. Come não que ele só come ração. Mas ele corre atrás e grita muito. Grita não, late, que ele não é gente. Tem gente que late, mas não é que late, é que está imitando cachorro. Tinha uns cachorros lá mas não foi gente que levou porque lá não pode levar cachorro. Era cachorro da rua. Mas não quero falar de cachorro porque já falo muito de cachorro porque é o único bicho que eu tenho.

Aqui em casa tem cinco pessoas mas só uma é cachorro. Ele fica sempre junto com a gente. Menos na mesa, que ele não senta, porque não pode comer com a gente porque é bicho. Só se a gente se distrair – aí ele come o que está na mesa e sai correndo e fica escondido até acabar de mastigar. Ele é um cachorro bonzinho mas nessa hora ele fica meio safado. Mas eu não quero falar de cachorro porque lá tinha muitos bichos diferentes.

O leão por exemplo é muito diferente do cachorro porque o leão come cachorro e o cachorro não come leão. O cachorro come ração e coisas que ele consegue roubar da mesa. Mas eu quero é falar do zoológico. O macaco só come fruta. Cachorro não come fruta, só come picolé de fruta na mão da gente. A cobra é um bicho muito ruim porque ela come bicho vivo. Comer bicho todo mundo come, mas vivo é muita maldade. Queria ver se ela ia gostar se alguém comesse ela viva. Ainda bem que o Nero não come ninguém vivo. Pelo menos eu acho.

Lá tem passarinho. Eu achava que o passarinho era bonzinho e não fazia mal a ninguém. Mas o meu pai estava com uma camisa novinha e o passarinho fez umas coisas lá nela. O meu pai ficou muito nervoso olhando pra cima e falando umas palavras que a minha mãe disse que eu não posso escrever. O Nero faz isso também mas faz no chão e o meu pai pisa e suja o sapato e também fala aquelas coisas. Mas eu acho que ele ficou mais nervoso com a camisa.

O tigre assustou a minha mãe porque deu um grito quando ela estava distraída e ela ficou tremendo. Então não sei porque ela grita com o Nero se ele também fica assustado. Meu irmão não queria chegar perto dos bichos porque achava que eles iam comer o biscoito que tava na mão dele. O Nero sempre come o biscoito dele.

Tem outros bichos que eu podia falar mas vou parar porque já tem três páginas de caderno e a redação podia ter uma só. O meu pai vai ficar orgulhoso porque ele diz que eu escrevo muito bem. E olha que ele nunca tinha visto eu escrever tanta página. É que eu gosto desse assunto de cachorro, quer dizer, de zoológico.

Um beijo, tia Vera. A senhora conhece o Nero? Ele às vezes vai até a porta da escola comigo. Bem, tichau.

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domingo, 17 de janeiro de 2010

EU NÃO >> Eduardo Loureiro Jr.

redução vertical a partir de imagem de Antonio Carlos Cartejón / Flickr.com

Eu não acordo com despertador. A meleca que tiro do nariz, eu não a coloco num guardanapo. Eu não arrumo a cama. Eu não levanto com um sorriso na cara, distribuindo bons-dias. Eu não escovo os dentes. Eu não bebo café no café-da-manhã. Eu não faço de conta que estou num comercial de margarina. Eu nem me sento para comer minha granola com aveia e linhaça. Eu não tomo banho pela manhã. Eu não saio para trabalhar, eu não tenho emprego. Eu não leio o jornal. Eu não arrumo a casa; eu nem desarrumo a casa. Eu não falo até duas ou três horas depois de acordar. Eu não tenho carro, eu não tenho casa própria. Eu não tenho compromissos. Eu não tenho o que fazer. Eu não sei o que farei à tarde, ou na semana que vem. Eu não tenho planos. Eu não tenho hora para almoçar. Eu não atendo telefone no meu horário de cochilo. Eu não penso que tragédias podem acontecer enquanto estou inacessível. Eu não dou satisfação, eu não atendo expectativas. Eu não sou normal. Eu não sou tradicional. Eu não sou convencional. Eu não sou como todo mundo. Eu não sou como todo mundo quer que eu seja. Eu não sou como uma única pessoa possa querer que eu seja. Eu não sou como eu mesmo quero ser. Eu não sou como eu mesmo. Eu não sou. Eu não digo tudo que eu tenho para dizer. Eu não canto as mulheres bonitas que vejo na rua. Eu não encaro, eu não desvio o olhar. Eu não gosto de pessoas. Eu não gosto de conversar. Eu não gosto de ouvir. Eu não gosto de ser interrompido. Eu não faço hora extra. Eu não gosto de coisas ao vivo. Eu não gosto de coisas a dois. Eu não presto atenção, eu não espero, eu não fico. Eu não dou beijinho nem abracinho. Eu não faço sala. Eu não preciso, eu não compro. Eu não pechincho, eu não dou desconto. Eu não mudo o cardápio, a decoração, a rotina. Eu não faço sexo todo dia, nem toda semana, nem mesmo todo mês. Eu não vejo telejornal, eu não assisto novela. Eu não acompanho política. Eu não tenho nada com isso ou com aquilo. Eu não sei, nem finjo que sei. Eu não entendo, eu não estudo. Eu não me aprofundo, eu não me esforço, eu não me aplico. Eu não telefono para a família nem para os amigos. Eu não desejo "boa noite" nem "durma com os anjos". Eu não. Eu nem. Eu tampouco. Eu de jeito nenhum. Eu nunca. Eu, hein?

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sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

DESCONFORTO TORÁCICO >> Leonardo Marona

tenho chorado ao assistir a filmes antigos e trágicos

em tardes pretas e brancas

desvanecidas em cinzas cômicas.

tenho chorado ao ver pergaminhos tortos

formados por formigas prenhas de velhos vícios

sobre a mesa da cozinha listrada.

tenho chorado pelos espaços vazios

entre as pedras portuguesas

do centro da cidade.

tenho chorado ao consultar o dicionário

sobre o verdadeiro significado

da palavra colear.

tenho chorado mais do que o chuveiro

sobre poros d’água coleados de miragens.

tenho chorado ao ler cartas amareladas

que escrevi a mim mesmo

depois de rasgá-las.

tenho chorado ao lembrar de mãos

com unhas vermelhas e gastas

prendendo cuecas no varal de náilon.

tenho chorado ao me lembrar

de que não lembro nada

sobre nossa infância ancestral.

tenho chorado sempre que vejo alguém chorar

em silêncio escondido por mãos fratricidas.

tenho chorado ao jogar moedas de farpas

a um senhor que não movimenta mais as pernas

e vive dentro de uma caixa de papelão

– porque ele sorri mais do que você e eu.

tenho chorado por quartos escuros no meu coração

lotados de crianças enfartadas.

tenho chorado por jóqueis novatos de Belford Roxo

que ganharam os últimos dezessete páreos.

tenho chorado por pugilistas aposentados.

tenho chorado por bailarinas degadianas:

prostitutas em calos impressionistas.

tenho chorado por não conseguir evitar

a chuva tórrida de discussões hipócritas

que inunda de tédio a verdadeira mentira.

tenho chorado quando nuvens de dentes

sangram as gengivas da loucura paciente

de entregar um dossiê de rosas eufóricas

à faca azul celeste do Parque Farroupilha.

tenho chorado sentado sobre paradigmas

porque uma menina que lê à beira do lago

virou reflexo bêbado no espelho d’água.

tenho chorado porque falo e ouço falarem de amor

como se isso nos desse algum tempo a mais.

tenho chorado com falta dos meus pais

enquanto a barba cresce inadvertidamente.

tenho chorado ao ler Carlos Drummond de Andrade

quando ele diz que está preso à sua classe

e a algumas roupas vestidas de náusea.

tenho chorado por um pássaro de peito amarelo

que fez um buraco no chão de terra com o bico:

os olhos estalados por algo que não admito.

tenho chorado por tanta gente que nem conheço

que acabo vazio de tudo e, súbito, me esqueço

dessa falácia que é "conhecer a si mesmo".

tenho chorado tanto e por tanto tempo

confundindo vinho com ressentimento

e desconfiado de que talvez tudo isso

importe ainda menos aos ciscos livres:

cólicas dançarinas que norteiam o ventre

do sorriso estuprado pelos olhos do meu rifle.

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quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

EU SEI >> Kika Coutinho


Narrei aqui, por quase nove meses, a minha gravidez e as expectativas de quem está esperando um bebê. E eu sei que, agora, deveria contar do nascimento da minha filhota. Planejei, nos último nove meses, que faria isso. Assim que a Sofia nascesse eu iria fazer um texto muito emocionante, delicado e doce, contando do parto. Falaria da emoção da maternidade, da ansiedade da sala de parto, dos medos e da alegria de sentir a chegada da minha menina a esse mundo, numa noite de dezembro, um dia de calor, ou quando quer que fosse.

Eu iria falar do médico, das enfermeiras, do meu marido, da família e dos olhos assustados da bebê que eu teria, uma pequena criança tão sonhada e amada que só poderia me inspirar um texto longo e lindo. Quanta pretensão...

Eu escreveria sobre o milagre da vida, do nascimento, de cada segundo que inspiramos e expiramos sem nem notarmos que somos quase deuses, dando à luz novas vidas e perpetuando essa espécie que, venhamos e convenhamos, nem sei se merece tanto assim ser perpetuada, né?

Eu poderia discorrer sobre o dia mais inesquecível de toda a minha vida, é verdade, mas, acontece que, depois que ela nasceu, quando cheguei em casa assustada e cansada, com uma dor do caramba no corte, apavorada e desajeitada, tão descabelada, inchada, feia e com aquele pequeno bichinho nos meus braços, as palavras doces e emocionantes me foram como que roubadas. Passei o último mês entre erros e acertos, muito mais erros do que acertos, ouvindo todos os palpites, adorando e odiando cada nova dica, suportando cada novo dia, assustando-me com cada respiração. Minha, e dela também.

Passei o último mês sentindo-me não existir e, ao mesmo tempo, com uma existência intensa e cansativa. Cheguei a achar que tinha entrado em uma grande roubada, confesso. Cheguei a compreender as mães que fogem e abandonam sua vida em um instante. Mas é claro! Quem é que não foge tendo um bebê para cuidar? Quem é que não foge vendo um pequeno bebê esgoelar-se chorando diante de si, sem ter nenhuma, nenhuma idéia do que está acontecendo afinal. Quem não fugiria? Eu.

Não fugi, não me rendi, não desisti.

E, agora, quando já enxergo um vulto de quem eu era, agora que volto a ver-me quase que inteira, de pé, sem dores e sem traumas, com medos sim, e alegrias também, agora quase que me lembro da emoção do parto. Quase que me lembro das enfermeiras e dos médicos, todos empenhados em trazer minha pequena menina à vida. E eu poderia tentar, mas nunca, nunca, nunca, saberia descrever o susto e a alegria, o medo e a emoção de ver sair dali, de dentro da minha barriga, uma bebê que chorava. Uma bebê cinza, melecada, que abriu os olhos mostrando-se esperta e viva, curiosa e muito, muito corajosa.

Um milagre, que eu nunca conseguiria descrever com essas vãs palavras. Posso tentar, me esforçar, mas nunca saberei explicar essa emoção do nascimento, esse presente digno de semi-deuses com o qual fomos presenteados, nós, tolos humanos, que nem palavras o suficiente temos para as nossas próprias emoções...




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quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

POESIA CRÔNICA >> Carla Dias >>

Como sou de lua, iniciada pelas marés e dada a apaixonar pelos ventos, hoje não escreverei uma crônica, mas sim uma crônica sequestrada pela poesia. Pois há dias em que acordo assim: poetizando o barulho dos carros que passam pela avenida, dando corda ao som que invade o apartamento e que se agarra aos braços das janelas escancaradas.

Já sobre a mão agarrada ao corrimão, sinto informar que ela teme não ser tão eficaz como segurança, mantendo no chão a moça de cabeça avoada. Às vezes, ela sente vontade de soltar a moça, de lhe permitir planar pelas escadas, ou que as pise com efeito pluma. Mas basta uma escorregadela de nada e pronto! A mão se agarra ao corrimão e a moça abranda seus desejos lancinantes, como se os guardasse em envelope selado, lá naquele canto abandonado da alma.

Tirar da realidade a poesia dos becos, onde gente pinta e borda, com talento escancarado, os muros. Há mil setecentos sentimentos desenhados nesses muros. Têm uns que choram pelo o que perderam, têm outros que celebram o que ganharam e há os eternos insatisfeitos, os engraçados e os melancólicos. Há também os espectadores... Aqueles que passam pelos becos e ficam rodeados por tanto sentir, e que se perdem nas cores, quase que se misturando a elas. Alguns passam por lá e depois seguem com suas vidas. E há outros que ficam, pois não sabem partir.

O dia traz na boca uma resma de novidades. Quem se atreve a ler da boca do dia sabe que são novidades em degrade. Se as lerem do início ao fim as coisas podem clarear, amansar, e nessa leveza revelada moram tantos desfechos que o moço as vende feito lojinha de R$ 1,99 a peça. E os clientes se afobam, com medo de perderem a chance de comprarem a própria leveza. Mas o moço gargalha, abre um sorriso feito leque, e revela que não aceita dinheiro, só beijo, abraço ou aperto de mão.

As crianças brincam no quintal da esperança sem perceberem o cansaço da dona. Só que mais do que cansaço, há entre seus dedos tanta magia que ela se mantém firme, não importa onde doa ou se a tolhem com tanta veemência. No riso das crianças, nos desenhos formados pelo balanço dos seus cabelos durante a brincadeira, a esperança encontra fôlego para se manter viva. Amiga íntima da imaginação, da pureza, das pontas das estrelas das histórias infantis, dos sapatos dos sapateadores, da infante liberdade, sempre que se sente só dá uma festa de arromba lá no seu quintal.

As horas lamentam por passarem batido pelas folgas e até tentam lhes roubar um segundo, mas sem sucesso. As folgas são tão bem resolvidas que não se permitem violar. E mesmo sendo empregadas do tempo, não há como lhes tirar a personalidade. Às vezes, as folgas fogem do chefe e vão dar festas incríveis no 15º andar da alegria.

Essa poesia crônica está de prosa com a vida.


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terça-feira, 12 de janeiro de 2010

PALAVRAS ESQUECIDAS
>> Felipe Peixoto Braga Netto

"Procura as palavras curtas, meu velho, e de preferência as velhas".
(Rubem Braga)

Para onde vão as palavras que ninguém fala mais? Vão para os dicionários, as coitadas? Ficam lá, sós e melancólicas, sem visitas, num frio asilo distante e esquecido...

Porque, é engraçado, deixamos para trás certas palavras. Minha avó, eu me lembro, elogiava dizendo: "Formidável! Que coisa formidável!". Para onde foi o formidável, Vó? Ninguém fala formidável hoje em dia...

Mocidade... Já ouviram isso da boca de um garotão? Dá pra imaginar alguém com seus vinte anos se queixando: "Ah, sei não... Essa mocidade de hoje...". Não, não dá. Só fala mocidade quem está muito longe dela.

Há uma palavra terrível que, se pronunciada, denuncia, sem apelação, o acúmulo de anos do sujeito: vitrola. Quem diz vitrola é porque é de um tempo já arranhado na memória. Essa, por favor, evite. Se por descuido pronunciar, e alguém pedir para repetir, diga: "Ham... Eu disse escola. Sim, escola! Eu ouvi esse disco na escola...".

Automóvel... Ah, como pude esquecer! Automóvel deve ser uma palavra antiga, porque nas remotas recordações de infância só me lembro das pessoas mais velhas dizendo: guiar automóvel. Hoje se diz dirigir carros, ou até veículos, quando se escreve. Mas não se diz automóvel. Ou se diz menos.

Antigamente se dizia: bêbedo. Terá sido alguma reforma ortográfica que trocou o e pelo a? Porque hoje não dá. Se você disser, por exemplo: Ah, hoje estou com uma vontade de ficar bêbedo... É bem possível que desconfiem que você já esteja.

Não vou nem falar em gírias, porque aí já seria covardia. As gírias mudam com o vento; o que se dirá com as gerações. Experimente, só experimente, não dói. Tente chamar, numa noitada (noitada?), aquela bela garota de pequena. Vamos ver se ela entende. Você chega, claro, escondendo a barriga, e diz: "Minha pequena, que tal dar um giro por esse mundo louco?". Se ela começar a rir, é sinal que sim, ela entendeu que você é um espécime em extinção, que sobreviveu à jovem guarda.

É, sentir saudades das palavras é um mau presságio. Sinal de que elas já se foram, e nós, inadequados e insistentes, continuamos no mundo, com um jeitão de gente antiga. O que não tem o menor problema. Dos males, o menor. Calados, pelo menos, vamos fingindo que estamos, claro, por dentro do que se passa e que esse mundo irado, ora, sempre foi o nosso lugar!




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domingo, 10 de janeiro de 2010

AMOR EM CORES >> Eduardo Loureiro Jr.

m vitor / Flickr.comEstou preparando uma série de crônicas sobre o tema casamento. Mas — para não assustar meus leitores do sexo masculino — vou começar falando de amor, que, como todo homem sabe, nem sempre tem muito a ver com casamento. Enfim...

Dizem que os esquimós têm mais de cem palavras para se referir àquilo que para nós é apenas branco. O que me levou a pensar que mereceríamos ter pelo menos duzentas palavras para falar daquilo que chamamos apenas de amor.

Porque o amor está na boca de todo mundo e, muitas vezes, ninguém sabe aquilo que a palavra realmente quer dizer. Ou alguém aí é capaz de me dizer o ponto em comum entre "eu amo você", "eu amo acessórios", "eu amo Frank Sinatra", "eu amo pimenta"? Ou então entre "amar o amor" e "amar os bichos"? Ou ainda entre "morrer de amor" e "matar por amor"? Convenhamos que a palavra amor está se tornando muito parecida com a palavra coisa, que serve para qualquer coisa. Mas serve mesmo? A palavra amor serve para qualquer amor?

Tudo bem, o leitor — principalmente a leitora — que gosta de discordar do cronista e não aceita ser facilmente conduzido pela prosa alheia, vai argumentar que já existem outras palavras: paixão e caridade, por exemplo. Caridade, vá lá, é uma boa palavra. Mas paixão... ah, paixão... essa palavra só não está na mesma situação da palavra amor porque não é tão fácil de ser dita em verbo. É muito mais prático dizer "eu amo pimenta" do que "eu sou apaixonado por pimenta". Então paixão não nos serve aqui — enquanto palavra, que fique claro, porque paixão, em um de seus muitos significados, é muito útil para algumas coisas como, por exemplo, virar a vida de uma pessoa de cabeça para baixo. Mas voltemos ao amor, melhor dizendo, à palavra amor.

Como inventar duzentas palavras para reduzir o fardo simbólico da palavra amor é coisa para um povo inteiro, e não para um cronista isolado, apresento um esboço, uma pequena tentativa de criação de novas palavras que aliviem a tão sobrecarregada palavra amor.

Já que comecei a crônica falando na cor branca, por questão de coerência interna da crônica, apresento-lhes o amor em palavras de cor.

Amorelho seria o amor-vermelho. Aquele tipo de amor que envolve sangue, rosas, maçãs, néon, cortinas de teatro. Então o homem que vai pegar sua namorada em casa levando um buquê de rosas, que a leva para assistir a uma peça, que na saída lhe compra uma maçã do amor e que depois a leva a um motel onde transam mesmo ela estando menstruada, poderia dizer "eu te amorelho".

Caso bem diferente é o amorelo, o amor-amarelo. Aqui estamos falando de sol, de canário, de banana. O casal que passa a tarde num bucólico piquenique, à sombra de uma árvore, ouvindo o canto dos pássaros e que até faz, de pedrinhas na grama, uma amarelinha, há de se olhar nos olhos e dizer "eu te amorelo".

Mas há quem não se amorelhe nem se amorele. Gente que vive o amorzul, o amor-azul. Gente para quem importa mais a noite, o jeans, o anis. Gente da balada, que não se ama apenas a dois, mas a dez — tudo azul naturalmente. Gente que diz, várias vezes por noite, a múltiplos parceiros: "eu te amorzulo".

E eu fico por aqui, com as três cores básicas, porque, como já falei, criar palavras — duzentas delas — não é tarefa para um homem só, ainda mais para um homem preguiçoso como eu. Deixo ao leitor a incumbência de deduzir por si mesmo mais uma dezena de amores: o amorerde, o amoraranja, o amorinza, o amoreto, o amoranco... E às leitoras, para quem um verde não é só um verde — é musgo, esmeralda, oliva, floresta, menta —, deixo o mais delicado encargo de completar as duzentas palavras que nos permitirão falar com mais propriedade daquilo que a simples e humilde palavra amor já não consegue mais dar conta.

E — se é que vocês me entendem — eu amoxo vocês.

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sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

OU OS MEUS >> Leonardo Marona

A imaginação é a memória que enlouqueceu
(Mario Quintana)


Não sei se estavam todos mortos ou se respiravam por guelras. Além disso, não saberia dizer se na minha imaginação ou dentro dos meus olhos – e qual seria a diferença? – havia uma praça árida com brinquedos feitos de troncos ou ossos, que se despedaçavam um a um como sonhos, para crianças sem pernas, mas felizes, brincarem.

A praça era filha de uma corredeira com um rio de alma enrijecida. No meio da praça havia uma árvore, retorcida como mão reumática, que era órfã do vento, pelada e seca portanto, tal qual um namibiano. Esta árvore chorava muito de frio, mas a corredeira e o rio roubaram suas lágrimas e a largaram dura na terra batida – os galhos lhe rangendo a alma – como se fosse um vendedor de camelos.

Apareci por entre folhas molhadas de inveja e desejos inapeláveis, sem avisar às estátuas humanas, que por lá circulavam com os olhos costurados, sobre o meu pequeno problema de ordem sentimental. Minhas mãos tinham as pontas de gelo, de modo que meus pés eram ralos ósseos por onde escorriam gotículas de verdades liquefeitas que a mentira, por sua vez, impunemente encerrou numa frase de efeito. E não seria a verdade apenas uma mentira faminta que se cansou de esperar e morreu?

Uma voz ecoou do esconderijo da tristeza e, aparentemente, apesar das sobrancelhas pontiagudas do pasto seco, apenas eu ouvi:

“Lá vêm os almas-de-gato!”

Olhei para cima e, das profundidades do cinza holocáustico, vi formar-se uma nuvem que se parecia muito com a minha própria cabeça, de lado, como esperando uma passagem para seguir em frente entre os montes necessitados de alguma explicação. Fiquei feliz vendo a cena e imaginando coisas irrelevantes, como uma maneira de ser nuvem, até que o barulho de muitas asas se batendo, como palmas para Maria Callas, ensurdeceu as folhas que murcharam imediatamente e rodopiaram pelo chão como em desespero ou valsa trágica. Os almas-de-gato haviam chegado, me disse um velho ruivo que, por causa do mato moribundo e do cheiro suicida ao redor, me lembrou Van Gogh, depois um avô alcoólatra de olhos inexplicáveis que cantava Lupicinio Rodrigues, depois uma fogueira com vício em cinzas.

“Quem são eles?”, perguntei ao velho.

Ele se virou como se me reconhecesse e não gostasse muito disso.

“Eles são você”, disse, “só que muito melhores...”

“Eles voam?”, continuei, intrigado.

“Garoto”, ele disse irritado, “e por acaso você nunca viu uma alma?”

“Nunca vi”, disse comigo mesmo, esperando para cima. “Elas voam então...”

O velho saiu de perto e se acocorou sobre uma pedra. Sacou um pincel imaginário e começou a traçá-lo no ar, sem tinta ou tela. Fiquei olhando aquilo, convencido de que aquele velho era mesmo Van Gogh, ou maluco, ou estava salvo. Eu sempre soube de histórias nas quais grandes personalidades ressurgiam em momentos de pouco movimento, para pessoas especiais. Mas não me convenci imediatamente de que eu pudesse ser uma dessas pessoas.

Portanto me aproximei do velho mais uma vez. Ele continuou traçando no vazio.

“Desculpe, mas preciso te perguntar...”

Ele se levantou imediatamente, sem me olhar, e subiu na árvore seca que tinha sido assaltada pela corredeira e pelo rio, seus próprios pais, como num plágio de Shakespeare. Subiu até a copa vazia muito rapidamente, a princípio sem a ajuda dos pés, como se flutuasse, e ali se aboletou feito um monge e continuou a traçar o ar com seu pincel inimaginável.

Aquilo não era possível. Me aproximei da árvore. Balancei a cabeça. Nada mudou. As palmas das asas aumentavam gradativamente de intensidade e, assustado, me joguei no chão, mesmo que não quisesse fazer isso. Alguma coisa me levou ao chão. Alguma coisa mais forte. Na verdade, o chão parecia ter se desnivelado subitamente, o que me derrubou. Olhei para cima com o rosto sujo de terra. Ali estava o velho com seu pincel fantástico, a árvore aleijada que agora parecia sorrir, o céu pequeno-burguês com um charuto na boca, as folhas dançando a mazurca. Olhei para os lados, quase surdo com o barulho que vinha de dentro do absurdo primordial. Todos os mortos haviam desaparecido. Restavam apenas ossadas de peixe, espalhadas pelo chão feito de veias furtivas. Gritei:

“Ei, velho! Quem é você? E o que está pintando aí em cima?”

Ele ria como se esperasse pelo que já soubesse. Continuou de pernas cruzadas, a barba ruiva como uma labareda fanática. Olhou para baixo depois de mastigar seu pincel delicadamente e lamber dedo por dedo.

“O problema de vocês é que não sabem esperar por nada”, disse por trás de um sorrisinho sórdido. “Por isso nunca vão reconhecer a mágica”.

“O problema é que não vejo nada”, eu disse.

“Isso porque você fala demais”, ele disse enquanto limpava a terra dos joelhos.

Desceu da árvore como subiu, fez o movimento de como se estivesse recolhendo sua palheta e sua tela do chão – mesmo que não houvesse nada ali –, olhou para mim com seus olhos de orquídeas temperamentais, tristes na sua caixa de ossos, mas tão límpidos, tão brilhantes e cheios de vida, tão nus que me pareceram mortos. Ou feitos a tinta. Ou parte de algum sonho amarelecido.

Ficamos assim por um tempo: narizes colados. Então ele apontou com o dedo para cima, ainda sorrindo como quem bebeu demais. Com a outra mão tirou o chapéu em reverência.

“Você deveria saber”, ele me disse, “que é quando se esquece que se sabe mais”.

Então uma revoada de pássaros brancos, em movimento sincrônico, surgiu do vão entre as nuvens, fez sorrir as pedras e aterrissou sobre os galhos secos da árvore deserdada. Esticaram suas asas ao mesmo tempo, para se espreguiçar, e depois se transformaram em bolinhas de algodão. A árvore seca ficou toda branca. Exatamente como a foto que um dia se apagou da minha memória sépia. E era como se eu a tivesse recuperado ali, naquele instante, por entre a hesitação do vento e a desolação dos grilos. Bem ali, no delicioso mistério das rugas do velho ruivo de olhos bonitos. Como se ontem amanhã já tivesse sido. No momento exato em que, dentro de mim, algo vago e firme se mexeu. Algo que havia adormecido na cegueira dos pedidos escritos nas linhas do medo.

O velho abriu a boca com o dedo em riste, sorriu mais uma vez, dessa vez um sorriso de dever cumprido por estar incompleto, vestiu seu chapéu de feltro e desapareceu na neblina que o acompanhava, não sem antes dizer:

“Preste menos atenção e verá tudo”.

No que senti algo me molhar os ossos, enquanto a sincronia dos pássaros enviesava os olhos do romance perdido. Depois decolaram como os garranchos do absurdo, que insistimos em não ler porque preferimos soletrar com os olhos fechados para dentro.

Andei muito, andei sozinho. Sem saber o que fazer com aquelas imagens. Sem saber onde guardá-las. Minha inclinação era anotá-las, por insegurança. Mas palavras nunca são suficientes quando se trata de olhos. Pensava se de fato alguma coisa poderia ser feita daquilo, ou de mim, ou se não passávamos da redundância de coisas não feitas. Pensava também em tudo o que havia para ser visto, em tudo o que me havia passado despercebido, porque eu tinha falado, tinha falado quando precisava escutar, tinha falado demais sobre o que me calava fundo, por medo do silêncio das coisas inauditas, que comandam os erros e as paixões. Lágrimas me rolavam pelo rosto, caudalosas e grossas como pinceladas impressionistas. Não entendia porque chorava. Não sabia para onde estava indo. Nem as lágrimas. Sentia falta delas, mal me escorriam. Sentia fraqueza, vertigem, como se tivesse respirado pela primeira vez, aos borbotões de placenta. Como se o abandono das lágrimas justificasse algo imperdoável. Algo sólido em mim que se havia dissolvido em tudo aquilo que eu não pude desejar com mais força, pela necessidade de ter.

De repente pensei que gostaria de ter sido como aquele velho pintor de fábulas, que apenas coloca o chapéu e parte sorrindo. Procurei por ele. Procurei como se estivesse procurando pela minha memória enlouquecida. Procurei pelos cantos da floresta órfã, pensando no quanto não soube esperar. No quanto palavras haviam enganado meus anseios mais legítimos.

Quando olhei para trás estava tudo cinza como um pedaço de verdade esquecido num quadro dentro de uma gaveta úmida. Havia crianças no parque, nem felizes nem tristes, apenas fadadas. Uma árvore saturada começava a dar as primeiras flores, todas implorando em vão por uma outra chance. Havia um velho de boina pintando um quadro ao pé da árvore.

Corri feito louco até o velho de boina. Era um velho pálido, magro, entrevado, um tanto gótico, com olhos fundos e distantes. Usava suspensórios esgarçados e havia uma garrafa de vinho barato ao seu lado, derrubada no chão. Mordia a língua com a testa retraída. Olhava para a árvore, depois para longe, então tirava medidas com o polegar. Contornei seu espaço para ver o que pintava. Era um menino sentado num banco de pedra. Um menino não muito bonito, mas muito atraente, que chorava lágrimas amarelas. As lágrimas iam dos seus olhos até a copa da árvore.

Olhei em volta, na busca do menino. Em cima de um banco de pedra sujo o encontrei: não tão menino, não tão atraente, parecia mal-tratado pelo tempo, meio trêmulo, com os sapatos desamarrados, as roupas esburacadas fora de estação, cercado por crianças revoltadas, fustigado pelo vento cínico, anotando num papel amarrotado umas mentiras sobre aquilo que foi perdido e que portanto precisava ser reinventado em olhos, para que ele pudesse se esquecer de como havia perdido os seus – ou os meus.



www.omarona.blogspot.com


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quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

É TARDE >> Kika Coutinho

Sei que está um pouco tarde, mas como já descumpri as minhas primeiras promessas para 2010, resolvi refazê-las, de forma mais realista.

Quanta pretensão desejar coisas grandes em um mundo já tão farto de grandiosidades. Quanta tolice desejar a mega-sena da virada quando se tem um bebê saudável e perfeito... Como eu ganhei na loteria quando minha pequena filhota nasceu, há pouco mais de um mês, resolvi pensar melhor e desejar aquilo que realmente importa.

Desejo que o elevador não demore tanto, por exemplo. Que eu não enfrente congestionamentos monstros. Que eu não pegue nem gripe nem resfriado, mas que pegue boas energias, boas liquidações, bons projetos.

Que o cabelo fique bom, esteja sempre repartido do lado certo e que sempre dê tempo de lavá-lo. Tempo. Ah, o tempo... Pode haver melhor coisa para ganhar-se em 2010? Tempo! Tô preferindo tempo à mega-sena da virada. Aliás, quem busca grana, busca, no fundo, comprar tempo. Quem quer ganhar na mega-sena quer deixar de trabalhar, deixar de ter obrigações, deixar de ir ao banco, ao Detran, ao cartório autenticar uma via de qualquer coisa. Quem quer ganhar dinheiro, quer mesmo é tempo. Tempo para tomar um banho longo, tempo para preparar um bolo, tempo para fugir da cidade, tempo para dormir até mais tarde, tempo para ver os filmes e ler os livros atrasados. Tempo para ver o sol e a lua lá fora. Tempo para viver, entender o que parece incompreensível, para aceitar o que nos é inaceitável e tempo, até, para errar e corrigir o que ainda tiver conserto.

Eu desejo tempo para estar próxima aos que amo, quando estarei longe dos que sequer gosto. Que absurdo gastarmos essa preciosidade que é o tempo com aqueles por quem não temos afeto...

Eu desejo, portanto, que meu tempo seja bem gasto com boa comida, boas pessoas, grandes amigos e maiores amores. Desejo rir até doer a barriga, pelo menos uma vez por mês, o que é bem pouco, na verdade.

Desejo dias de sol, alguns de frio — bem poucos se possível — só pra dar um charme. Desejo mesmo é vestir blusa de alcinha, vestidinhos rodados e havaianas nos pés. Desejo a pele meio bronzeada e desejo fazer as unhas toda semana, sem falta.

Desejo um beijo de boa noite a cada adormecer, um abraço apertado a cada partida e a cada volta, um longo silêncio de amor, um aconchego quente quando estiver frio, um picolé geladinho no calor.

Desejo tantas coisas importantes que, de repente, num instante, a mega-sena da virada parece uma enorme pechincha, um prêmio de consolação, uma bobagem, quando se pede toda essas preciosidades que ando querendo...

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quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

A VERSÃO DE HOJE >> Carla Dias >>

Às vezes se trata disso: dar nome aos bois, às bandas, aos bestiários. Desnudar dos nomes as esperas, os lampejos, os significados. Libertar soluços.

Minha cabeça lateja nesse momento. Depois de pares de analgésicos entre hora essa e um tanto de outras, a vista ainda nebulosa. Pudesse ficar onde estou, não mexer os músculos ou tirar os móveis do lugar, talvez o fizesse com a classe dos que compreendem vácuos, leituras poéticas para descobertas dos astrolábios, horizontes engasgados com correrias que levam a lugar nenhum.

Não sei se há sabedoria na estagnação, mas cabe nela o movimento das pálpebras, o cortejo da imagem, a trilha sonora de batuques do coração. Até mesmo o que é dito imutável se transforma (ou é transformado?), se não na sua essência, que seja através das versões que criamos para descrevê-lo. É assim, nessa certeza dispersa, na incongruência dos verbos e na irreverência dos adjetivos, que nos aninhamos à vida.

Há versões para tudo e para todos, por mais que a ciência corrobore suas descobertas, que muitos sejam transparentes em seus atos e sentimentos. É por isso que nos dependuramos na lua, que cantarolamos o vento, que juramos que o que dói vai desdoer logo, secando dos olhos do outro os mares pelos quais jamais navegaremos.

A versão que de mim rabisco, nesse instante, é das que contemplam. Janelas abertas, tetos, livros dos quais não li uma palavra sequer, canções das quais não entendo as letras. Nela cabem milhares de centenas de dezenas de unidades de tempo. Cabem metrônomos, bússolas, folhas de papel em branco. Cabem mistérios, descobertas, jornadas.

Cabe até a mim, desengonçada, o nome torto, a trilha sonora desarranjada, olhos grudados em bestiários, desnudando dos nomes as esperas, os lampejos, os significados. Libertando soluços.

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