segunda-feira, 30 de novembro de 2009

LAUDICÉIA >> Albir José da Silva

Laudicéia sentia o bafo quente que entrava pela janela. A blusa azul-claro do uniforme estava azul-escuro e colada no corpo. Tinha sede que a água morna da garrafa pet não saciava. Quarenta minutos com vontade urinar e o ônibus sacolejando no engarrafamento. Finalmente entra na Avenida Atlântica e um vento fresco chega do mar. Um mar azul e branco, comprido que não acaba mais, como se não houvesse ônibus engarrafado, quente, que não chega nunca, e passageiro desaforado. Se pudesse aproveitava esse sinal, saía sem se despedir do motorista, e entrava no mar. Molhava de água fria e salgada a roupa já úmida de suor e esvaziava a bexiga nesse marzão, com um gemido de alívio. Se pudesse, mas não pode.

Não pode porque pela manhã deixou a filha com febre que durou a noite toda. Sua mãe também tossia já há uma semana. Fica até pensando se a febre não tem alguma coisa a ver com a tosse. Lá ficou apenas um litro de leite pela metade e um pouco de arroz. O pedido de vale foi negado de novo. “Só na semana que vem”, disseram.

O sol começa a se esconder mas o calor não diminui. Em frente à boate Help, mulheres e travestis sorriem com saias e shortinhos que parecem revelar muito mais que os biquínis na areia. Estão ali felizes, donos da calçada. Ninguém os incomoda. Ouviu dizer que algumas dessas raparigas chegam a ganhar quinhentos reais por noite. Ela não ganha isso num mês. Até que ainda é jeitosinha, apesar do sofrimento. Uma escova bem feita e não fica devendo nada a essas loiras. Pensa que nem seria difícil: tinha encontrado cada peste de homem na vida – pai, padrasto, tio, marido - que não era possível que na rua fossem piores. E sua filha teria leite, e sua mãe teria remédios.

Tão logo o ônibus saiu da praia eles entraram. Um encostou no motorista e ficou lá, falando baixo. O outro gritou com ela. Que entregasse o dinheiro todo. Que entregasse a bolsa também. E o celular. - Não esconde o dinheiro não, se não vai morrer! Foi pegando as notas, algumas caíram, e ele gritando. Não demorou muito tempo, saíram. Quando deu por si, sentiu as lágrimas no rosto, o coração batucando no peito e a molhadela que descia pro sapato.

Que droga! Agora não sairia às oito, umas três horas na delegacia, só chegaria em casa de madrugada. Nem sabia como é que a filha tinha passado o dia, o telefone sem carga. Agora nem telefone, nem documentos. Preferia que o motorista não desse queixa nenhuma. De que adianta? Amarrou uma blusa na cintura e levantou.

Saiu da polícia por volta de meia-noite. Pensava na filha e tinha fome. Já nem lembrava de boate e de calçadão, quando ouviu a proposta, o convite ou seja lá o que o idiota estava dizendo, e que começava por “leãozinha”. Fechou os olhos, contraiu os lábios e rugiu:

- Tu me respeita, cabra, que eu não sou tua mãe não! Fez sinal para o primeiro dos muitos ônibus que ia pegar até chegar em casa. Na janela, agora, pela segunda vez hoje, rolam suas lágrimas. Ela reza pela filha e pede perdão a Deus pelos maus pensamentos.

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domingo, 29 de novembro de 2009

LIVROS QUE AINDA NÃO ESCREVI
>> Eduardo Loureiro Jr.


Sou platônico até em relação à escrita. Apesar de ter seis (ou sete) livros publicados, fico idealizando mesmo é aqueles que ainda não escrevi...

AS TRÊS DEUSAS. Esse é um livro sobre os três tipos básicos de mulher que os homens procuram: a deusa do amor, a deusa da beleza e a deusa da sabedoria. O livro tem três partes. Na primeira, são apresentadas deusas do amor, da beleza e da sabedoria em várias culturas diferentes. Na segunda parte, discorro sobre os três princípios relacionados a essas deusas: deusa do amor, princípio da satisfação; deusa da beleza, princípio do sonho; deusa da sabedoria, princípio do realidade. Na terceira parte do livro, apresento três textos ficcionais baseados em minha experiência afetiva e sexual com mulheres que representaram para mim os princípios-deusas do amor-satisfação, beleza-sonho e sabedoria-realidade.

AERONAVES NO PÁTIO. Esse é um livro escrito em parceria com meu caro amigo interno do pátio Fabiano dos Santos. Quando eu morava em Fortaleza e ele em São Paulo, descrevíamos um para o outro, em nossas cartas, mulheres lindas, lindas, lindas que encontrávamos. Essas cartas têm um forte teor de fantasia e de erotismo. Algumas delas foram publicadas nos fanzines do nosso grupo literário e musical, Os internos do pátiO. Uma das descrições foi num aeroporto, e essa mulher-avião descrita inspirou o título do livro.

Lembrei desses dois livros ainda não escritos porque hoje pela manhã, participando de uma mesa-redonda (que nunca é redonda) sobre leitura entre pais e filhos, me veio a ideia de escrever mais um livro que talvez não seja escrito tão cedo...

LER PRA QUÊ? Esse livro tem por objetivo destoar do coro de promoção da leitura que está tomando conta do Brasil. Seria composto de vários pequenos ensaios-questões: a promoção da leitura deveria ter preferência sobre a promoção da dança ou da música? Mesmo considerando a importância da leitura, por que se deveria fazer qualquer trabalho de mediação (escolar ou não) no sentido de desenvolvê-la? Por que ninguém chama a atenção para o aspecto anti-social da leitura, que é uma prática essencialmente individualista?

E esse monte de livro que só existe na minha cabeça também está me lembrando de um monte de crônicas não escritas, das quais eu tenho apenas apontamentos de ideias. Mas essas crônicas platônicas ficam para uma próxima ocasião.




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sábado, 28 de novembro de 2009

OCULTOS [Debora Bottcher]

Às vezes, ela se sente moradora de uma casa de cartas de baralho sob um telhado de vidro onde há reflexos que refletem o que não existe... Às vezes, ela julga que está sendo mordida por uma cobra morta e sente o corpo arder, inchar, ir-se no delírio de um segundo antes de amortecer... Às vezes, ela tem saudades de alguém que nem sabe quem é e fica tentando divisar uma imagem que não tem expressão em cada lugar por onde passa. Sonda as flores, toca as brisas, se encanta com as abstrações. Às vezes, ela tem a impressão de que alguém tem saudades dela...

Tem dias que mudam nossas vidas... Tem dias que enganam: prometem um desastre e terminam bem — ou vice versa. Tem dias em que é insuportável viver.

Ela se debate, perde-se entre a lógica e a ilusão: uma mente que desconhece o sossego. Descobre que há pessoas para quem se precisa dizer pouca coisa; outras, com quem se pode ficar sempre em silêncio. E outras para quem por mais que se fale é quase impossível se fazer entender...

Sabe que há desejos que são fáceis de realizar e outros que abandonamos na estrada, deixamos à beira do caminho porque começam a figurar-se difíceis, sem sentido demais. Há desejos que nunca são realizados e vivem ao nosso encalço: esses, roubam a alegria.

Há sorrisos... Ela observa sorrisos que são a pura diversão e tornam o semblante juvenil, criança; outros camuflam a ironia, a maldade, o desprezo, a mentira. Observa sorrisos que retratam a amargura e percebe que, na incapacidade de revelar sua mágoa, são a maneira mais exótica e bonita de ser triste.

Ela vive noites em que uma leveza salta sobre seu espírito e a leva aos delírios do sonho; outras que a fazem descer ao abismo da insônia, mordaz, escuro labirinto de onde não consegue sair. Há noites que são bem comuns e ela pode descansar na tranqüilidade ausente de qualquer disposição afetiva...

Gosta das chuvas. Há chuvas que caem macias sobre nossa pele e brincam marota com nossa lembrança devolvendo-nos à infância; há garoas que levemente nos umedecem e só vêm para refrescar o calor. Mas há tempestades que arrastam tudo ao redor feito um vulcão em erupção: essas revelam a ira dos céus.

Ela aprende: há sentimentos que chegam como madrugada calada, sorrateiros, repentinos, para iluminar nossos olhos, brilhar nosso riso e durar tanto quanto dura uma cascata de fogos de artifícios; outros chegam mansamente, devagar, um dia após o outro e se instalam para ficar. Mas há sentimentos que oscilam entre a calmaria e a destruição e chegam apenas para semear a dor...

Lê muito e descobriu: há livros que contam lendas que penetram em nossos poros e nos faz participantes de algo que não nos pertence; há livros que não nos atingem por mais belas que sejam suas palavras, por mais sabedoria que encerrem, por mais ilustres que seus autores possam ser. Mas há livros que contam nossas próprias histórias, onde podemos ler nosso próprio destino, espelho que nos olha diretamente nos olhos e nos faz olhar para a verdade que, às vezes, desejamos esquecer...

Conhece as lágrimas... Há lágrimas que simplesmente correm pelas faces sem causa aparente, insondável motivo, terrivelmente inúteis; outras são a verdadeira expressão do que transpassa no interior. Mas há lagrimas que ficam contidas na alma, engasgadas, presas na garganta e na incompreensão de si mesmas.

Ela já esteve à mercê dos medos... Há medos infundados, temores imaginários sem qualquer razão de ser; há medos reais, inquietações que nos deixam despertos, ansiosos, eternamente alertas. Mas há medos cravados em nós, eras que cavalgamos num passado remoto, tempo que a memória apagou e a intuição insiste em lembrar...

Há mistérios, pensamentos, músicas, escritos, segredos, ecos... Vozes que o universo sussurra, semente que os ventos depositam na sensibilidade humana. Há vida por detrás da vida, antes e depois dela. Na excitação inocente que feito sombra nos persegue, há o vazio oco das coisas que são, das que não são, das que podem vir a ser...

Há o Amor...



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sexta-feira, 27 de novembro de 2009

PARATI >> Leonardo Marona

se te visto com meus olhos você diz que é errado, mesmo assim li teu texto, não com os olhos mas com a boca, pouco antes de por causa da falta, de mãe me doeu você ter me mandado embora daquela maneira mesmo que eu tenha engolido teu texto assim como hoje engulo este porque neste pensamos ao mesmo tempo no mesmo poeta percevejo das horas vadias vazias que se foram para sempre deixando para trás apenas meu resto e teu rastro na ferrugem da banheira que secava momentos durante os quais passeávamos juntos no parque e contávamos mentiras baixinho deitados sobre o lençol velho e fajuto, você vomitava gomos de cacau enquanto eu forjava seriedade castradora até que você me soprava música numa língua inventada pela minha orelha sem pensar em nada a não ser dois sendo um mesmo e andávamos sem as mãos dadas porque éramos fortes o suficiente ou pensávamos enquanto esquecíamos o quanto era injusto ficarmos juntos precisando tanto cada um de si mesmo enquanto olhávamos casais de braços dados, com seus semblantes tranqüilos e desesperados, e ríamos porque eles eram tão assustadoramente assustados quanto nós mas nós preferíamos ficar sozinhos juntos porque assim o susto dava mais frio no bucho cheio de barulhos quando deitava minha cabeça no teu estômago frágil e dormia e sonhava que estava sonhando um sonho rápido como a vida já que no fundo mesmo sonhando não era capaz de sonhar pois não sobrava o tempo que já tinha gasto pensando no que fazer contigo ali do meu lado sendo que eu estava tão longe que esquecia do sonho sonhado dentro do sonho, como disse uma vez Edgar Allan Poe com relação à ilusão vital dos homens, quando por fim eu acordava e percebia que o homem que era eu e que estava te vendo dormir ao meu lado no fundo era mais um sonho medonho dentro do sonho no sonho da vida porque de olhos abertos não era possível te ver dormir já que “fui embora, tenha uma boa tarde, para sempre” melhor que o sonho bom e portanto esquecido como nos esquecemos de repente de nos dar bom dia e os beijos mordiam a palidez dos rostos na forma de dias nublados que foram ficando maduros e duros e escuros porque afinal esperávamos pelo futuro sem tempo de perder tempo passado juntos porque afinal lá fora o mundo é curto e enorme e pode quem sabe te escolher como trunfo ou arrancar teu pé, mas tardes que agora tardam as tardes saíram do armário caro e, claro, não é do final do sol que se vive, como o sol que apagou quando pensei no mesmo poeta enquanto comia uma folha de alface, quem diria eu, comendo alface, mas não se preocupe porque o alface não tinha o sal que você pensou sem o sol na caneca debaixo do braço no momento em que pensei nos teus pés tortos perto da minha boca miúda medrosa engolindo pequenas pedras plantadas por cactos sem água quando lágrimas se ocupam da culpa por molhar a fronte falsa da tristeza e olhos púrpuras já não maquilam mais tuas certezas já que não são o bastante para manter a diferença próxima, mas tuas pupilas me lembro que as via da cor daquela rosa de plástico quebrada como as rosas que estavam no poema em que pensamos juntos, tão longe você de mim, tão para sempre ou talvez fosse apenas um ventre, sim, era mesmo um ventre preso por cordas e havia a palavra “lasso”, a ridícula palavra “lasso”, e talvez o poeta e o poema que eram teus apesar de meus – não fossem, os dois, escravos do oposto do posto que ocupas no meu intestino – fossem para outro projeto de pantufas lado a lado na beira da cama e é claro que isso importa mas não tanto a ponto de te perguntar por que aquelas rugas na testa do violão solista que corta notas enquanto escrevo no branco com o ponteiro das horas, “depois de ti não aprendi mais nada”, ainda espero ansiosamente por tuas curvas calamitosas, por mais que tua espera não seja por mim, por mais que tua lembrança tenha me reinventado no esquecimento, imagino porque estou vivo – ou isso é a morte? – mas se ainda consigo escrever quer dizer que talvez esteja mesmo morto pois só os mortos para a vida conseguem escrever sobre ela como um fantasma que vigia de cima dos telhados manchados da tua lembrança em tantas garrafas de vinho de mesa que misturado ao meu sangue ralo me faz passar vergonha quando lembro que você me negou uma só vez para sempre – coisa que nem Pedro fez com Cristo! – e disse em seguida para arrombar ferida que eu jamais seria capaz de amar alguém e, com toda razão, sem porém, jogou pela janela uma pomba branca depenada sem asas que até então atendia por “meu coração” e caiu bem perto de um homem negro de terno sem uma perna no ponto de ônibus das almas vagas como o poeta que no poema, momentaneamente, como num pesadelo disfarçado de sonho no som do sino pensou contigo e comigo através de mágica, e estamos tão longe um do outro e presos neste momento gruta em que o céu se me nega porque só vejo o erro do teu reflexo me dando língua e eu precisava tanto te dizer que não sei o que você precisa ouvir por isso digo tudo e não digo nada porque de fato sei da dificuldade de ser o mesmo quando as coisas não saem como queriam os outros que me diferem de mim mesmo e se eu pudesse estar em vários lugares ao mesmo tempo sem ser visto em nenhum lugar estaria agora te vendo escondido entre teus cabelos e tua nuca e teu cheiro avinagrado de coragem por mais que agora, enquanto escrevo esta bobagem pensando que pensamos juntos por um tempo no mesmo tempo do fim das horas do mesmo poeta e na mesma tristeza, por mais que essa tristeza já estivesse chumbada em mim desde o dia em que você veio e foi, por mais que tua mão na minha imagem seja não mais que mais tarde parte tua de mim do que antes cedo era nem meu mesmo ainda, mesmo assim gostei de saber que andas lendo coisas boas e que ainda pensas na morte da mesma forma carinhosa que eu.



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quinta-feira, 26 de novembro de 2009

VOCÊ TEM FOME DE QUÊ? >> Kika Coutinho


Em uma das tantas tentativas de dividir o mundo em dois, diz-se que existem as pessoas que vivem para comer e as que comem para viver. Foi lá pelos 15 anos que eu notei que faria sempre parte do primeiro grupo. Notei que isso poderia ser um problema quando namorava o namorico dos adolescentes e meu doce príncipe perguntava, naqueles momentos de silêncio compartilhado: “No que você está pensando?”

Pronto, ali iniciava-se meu drama. Ele certamente esperava que eu dissesse que estava pensando na gente, no nosso futuro, nos lindos olhos dele ou qualquer coisa assim, mas, sempre que ele perguntava no que eu estava pensando, eu estava pensando em comida. E ficava ali, meio sem graça, respondendo que não estava pensando em nada, só pra não dizer a verdade. Eu fazia um charme e dizia: “Em nada não...”. Ele nunca aceitava. Vai ver imaginava que eu estava pensando em outro, o que seria muito pior. Seria? Seria pior do que dizer a verdade. Às vezes eu ensaiava a honestidade: “Ai, amor, estou pensando em um bife acebolado, bem tostadinho, hummmm”. Mas sempre temi que ele me achasse uma draga. Claro. E segui disfarçando a minha fome.

Mais tarde, já macaca velha, ainda tinha que fingir. Nos jantares românticos, os namorados sempre sugeriam dividir a sobremesa e eu, envergonhada, aceitava. Depois ficava lá, disfarçadamente raspando o pote, tentando controlar o incontrolável até que puxava para mim a cumbuca e tentava resgatar aquele último fio da calda de chocolate. Perdia a noção da gentileza e do romantismo, acho até que cheguei a afastar alguns pretendentes por essa volúpia desmedida.

Quando, alguns anos atrás, conheci um rapaz que sugeriu duas sobremesas, ao invés daquela maldita ideia de duas colheres e um potinho no meio, sorri satisfeita. Devorei inúmeros sorvetes, bolos, pudins e, enquanto ele assistia a tudo sem relar no meu doce, eu soube que aquele era o homem da minha vida, e nos casamos.

Talvez por isso, talvez por ter pautado tantas coisas importantes da minha vida pelo prazer da refeição, eu tenha ficado tão chocada com a declaração da Fernanda Montenegro no Fantástico, algumas semanas atrás. A Patrícia Poeta pergunta, docemente, se ela mima muito os netos. E ela, fina e elegante como sempre, responde apenas que faz alguns agrados. "Que agrados?", pergunto eu, do lado de cá da tela. E a atriz responde: “Às vezes libero um arrozinho branco, um pão branco....”. Para tudo. Eu entrei em choque anafilático, acho. São os fins dos tempos, diria Opash. As crianças comem arroz e pão integral e, de certo, rúcula e chicória. Não que isso seja ruim, mas, por um instante, achei que ter como mimo especial da vovó arroz branco e pão francês, torna o mundo um lugar preto e branco, vazio e quase que inóspito. E um chocolatinho? Uma taça de sorvete? "Hã? Choco o quê?", ouço as crianças me responderem, lindas, saudáveis; magras, claro. Talvez eu esteja errada. Talvez eu deseje essa saúde e vitalidade para os meus filhos também, mas ter nascido numa época de Bis e bolinha de queijo sem cobranças me faz pensar que a vida desses pequenos que nascem no mundo do gastronomicamente correto pode ser menos doce e saborosa do que a nossa. Talvez seja também menos gordurosa, menos calórica e menos cheia de colesterol ruim. Talvez.

Mas, quem sabe por eu estar velha, cansada e grávida, insistindo no prazer do sabor, num jantar regado a pizza, coca-cola e uma sobremesa só para mim, brindo às coisas boas que posso deixar para os próximos paladares, esses pobres coelhos que estão vindo depois de nós...




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quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O QUE NOS FAZ QUEM SOMOS >> Carla Dias >>

Acontece frequentemente comigo. Uma música, um filme, um livro, uma fotografia, uma pessoa.

Há períodos em que me apego a um, mesmo sem deixar de lidar com os outros. E a sensação que isso provoca é tão boa que já me vi tentando, em vão, logicamente, fazer a mágica acontecer. Mas esse um me pega de jeito e não o contrário. É uma surpresinha emocional que acontece, vez ou outra, e me faz reavivar a alegria de acreditar que somos feitos de mais do que planos, projetos, rótulos, desapontamentos. Que há espontaneidade das boas em nós, e ela é que nos tira do desfecho de nos transformarmos em marionetes do que reza, nem sempre com sabedoria, a realidade nua

Com uma única música eu sou capaz de passar dias com o coração transbordando, abarcado por emoções diversas. Nem sempre são canções de amor, na verdade, muitas vezes são canções sobre o que nos leva a reconhecer o amor: respeito, companheirismo, fé na liberdade e em cada batalha travada pacificamente por ela.

E uma pessoa pode mudar o meu rumo, apenas sendo ela mesma, sem frases de impacto ou com a grandiosidade dos seus pensamentos estampada na simplicidade da sua oratória. Conquista-me aquele que sabe dizer as coisas que sente sem torná-las vedetes, como se somente ele sentisse aquilo. E também aquele que sabe dizer em silêncio.

Engraçado como tantos outros experimentam de sentimentos que julgávamos inéditos e particulares. E não fosse assim, não nos reuniríamos em favor de grandes causas, nem mesmo resolveríamos as pequenas, porém incrivelmente complexas questões. Apesar de a nossa identidade emocional nos definir únicos, ela é formada por sentimentos quase sempre compartilhados. O que dói em mim pode doer em você. O que me faz feliz, pode lhe dar motivos de sobra para compreender a vida de uma forma mais branda e positiva.

Há magia na vida, não? A despeito de todos os seres encantados, dos crentes em espíritos ou a ausência deles, e até dos mágicos de cartola. Naquele olhar que observei, ainda semana passada, havia ali tantos motivos para acreditar nessa magia que agrupa benquerenças e desejos. No livro que folheei e me fez ler o mesmo parágrafo várias vezes, não por não compreendê-lo, mas porque havia a beleza na crueza das palavras. A fotografia estampada na exposição que quase ninguém visitou. Ainda o filme da menina e do dublê.

E a canção...



www.carladias.com



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terça-feira, 24 de novembro de 2009

PERIGO: CASAMENTO
>> Felipe Peixoto Braga Netto


Casar é perigoso.

Eu nunca afirmo nada sem provas, então vamos a elas.

Ontem, caminhando à noite ali pela região hospitalar, estava calor. Sabe aquela igreja que fica em frente aos hospitais? Pois bem, havia um casamento, havia convidados, noiva, noivo e até padre. Não sei se foi o calor, não sei, mas o noivo, caminhando para o altar, achou melhor cair, e caiu mesmo. Caiu tão caidamente que se machucou. Levaram o pobre para o hospital em frente. Foram todos, até o padre. A noiva também, de vestido e tudo. E eu, fiel repórter que sou, afirmo que até onde soube o noivo se feriu gravemente, e talvez não houvesse mais casamento.

Falo com certo tom irônico e sinto culpa porque, afinal de contas, pareciam boa gente, devem ter se esforçado para pagar tudo aquilo, casar é caro. Além de perigoso.

Na mesma ocasião, soube de outra prova irrefutável.

Nesta mesma cidade, isso faz algum tempo, houve casamento. Esse pelo menos aconteceu, o padre cumpriu seu dever. Mas, depois do casamento, costuma haver festas. E não se pode comemorar nada antes que o jogo acabe, todo mundo sabe. Na festa o noivo começou a se sentir mal. Na verdade já estava se sentindo assim antes. É falta de açúcar, alguém acusou. Come esse docinho aqui. E o noivo comeu docinho. E todos comeram e beberam. O mal-estar do noivo, porém, não gostava de doce, pois continuou. E lá foram levar o noivo para o hospital, vários amigos de terno, aquela coisa de certo modo divertida.

Chegaram, o hospital achou que era só bebedeira de rapazes, tudo ficaria bem.

Não ficou. O noivo decidiu morrer minutos depois. Parada cardíaca.

Eu falei, casar é perigoso.




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domingo, 22 de novembro de 2009

ENCHIMENTO >> Eduardo Loureiro Jr.


Para um homem, é difícil acreditar que o tamanho do pênis não importa. E eu só acreditei porque comprovei na prática. As mulheres que tive nunca reclamaram do tamanho do meu pênis, embora eu não o considere grande. Claro que uma ou duas delas queriam que o pobrezinho chegasse a regiões que ele jamais alcançaria sem algum tipo de prolongamento artificial, mas nada que abalasse minha auto-estima nem o prazer delas.

Mesmo com essa insegurança, que parece ser comum a muitos homens, nunca me ocorreu fazer com que "ele" parecesse maior do que realmente é por qualquer outro meio que não fosse o natural: a excitação. Mesmo sem ser gigante pela própria natureza, meu companheiro de cama costuma ficar apertado dentro da calça ou do calção, e seria cruel apertá-lo ainda mais colocando algum tipo de enchimento.

Para mim, a principal prova de que tamanho de pênis não importa é que tamanho de seio ou de bunda também não importa. Pelo menos não na hora H. Claro que na idealização, no sonho, o tamanho importa. Não vou mentir dizendo que seios fartos e bunda abundante -- com o perdão do pleonasmo -- não chamam a atenção nem despertam o desejo, mas, na hora do vamos-ver, existem coisas mais fundamentais ao prazer.

O importante é que não haja surpresas. Se vejo que a mulher tem peitos ou bunda pequenos, já vou para a cama considerando isso. Difícil é quando, devido a algum tipo de enchimento, nós, homens, vamos para a cama com uma mulher que não tem metade do peito ou da bunda que aparentava. Dependendo do dia, a decepção beira a raiva e dá vontade de se masturbar com a calcinha ou o sutiã esponjado, bem na frente da mulher que nos enganou.

Mulheres com pouca bunda e com pouco peito, vocês não precisam fingir o que não são. Há bundas e peitos lindos de todos os tamanhos e tenho certeza de que há homens capazes de reconhecer sua beleza. Vocês, que reclamam tanto da infidelidade masculina, hão de convir que aparentar peitos e bunda maiores é uma traição: ao outro e a si mesmas -- como são todas as traições. Então realcem seus atributos de outra maneira. Peitos e bunda, mesmo pequenos, podem ser muito atraentes com o tecido certo, com a cor apropriada. Nós, homens, queremos amar vocês, e não os seus enchimentos.




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sexta-feira, 20 de novembro de 2009

TENSÃO DO RECIFE >> Leonardo Marona



"os viciados"

eles já não precisam mais de nós
nem mesmo no Harlem americano.
sedentos e pálidos caminhamos,
cheirando a caramelo, nós os que
se atiram cegos na primeira chance,
e se arriscam por trás de pilastras.
peço a gentileza de atravessarem
em silêncio, em reverência retirem
todos os seus chapéus e escarrem
no chão pela passagem meteórica
dos que suportam a terra nas costas.
não pensem que vieram de longe,
estão nos quartos, cheirando a mofo,
atraídos ainda pela prima vertigem.


"elegia do recife"

faça-me escrever em lágrimas,
recife, e limpe toda a incompreensão
da saudade forçada nas virilhas.

serei agora forte, como tuas ruas
semi-asfaltadas, os paralelepípedos
da tua dor, onde enfiei em sangue
a âncora do meu tesão, nos corais.


"rúbia"

você me
olha sem
querer
nos olhos
e já não sei
se tenho
olhos para
ver nos olhos
o que não
vejo mais.


"luana"

existem narizes que codificam a existência.
e não são só narizes, são olhares ávidos
em direções opostas, e além do nariz,
há também o cabelo, que não é um cabelo,
mas a Mata Atlântica, e aqui está a vontade
reprimida de se lhe fazer num grande coque,
olhar a nuca que anuncia graves presságios
e tombar na cama, como se fosse apenas
mais um nariz, e a pérola por dentro da boca
explicaria a poeira cósmica que justificaria
toda flor entre dentes, qualquer ato de amor.


"maracaípe"

tem coisas que os olhos vêem,
o coração não pode mais sentir.

que tristeza é ter
a felicidade nos braços
e a síndrome de tempo algum.

existem momentos
em que não existimos,
somos o parado da existência.

e o tempo é só um sem ruído
que regurgita nas entranhas
do esquecimento.


"recife antigo"

sou marinheiro encalhado,
cheguei aqui aos pés da besta.

há anos querendo
voltar para Santos.

sigla comum é L.P.P.:
loira do pentelho preto.

aqui me transformei
num autêntico boquinha de cais.

aqui, enfim, reparei
que só se pode amar
o que for passível de
ser destruído em pó.



http://www.omarona.blogspot.com/

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quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Querida Sofia,


Você ainda não sabe, mas a cidade está ficando muito diferente.

Hoje mesmo, aqui embaixo, no prédio, começaram a enfeitar as árvores. Os shoppings já estão todos iluminados e coloridos, puseram árvores enormes dentro deles, com laços e pisca-pisca diversos. As luzinhas colorem e embelezam a noite de São Paulo.

E sabe o que isso significa?

Isso significa, filha, que você está para chegar... E a cidade — não, a cidade só não — o país, o mundo inteiro, está enfeitando as árvores e as ruas com luzinhas brilhantes para recepcionar você.

Logo que eu soube que estava grávida, lá para abril ou maio, eu pensei: "Quando ela chegar, vai ser uma festa". E está sendo mesmo. O curioso é que eu não avisei o zelador que você estava chegando, não falei nada para o prefeito nem para os donos dos shoppings, mas eles devem ter visto o tamanho da minha barriga, e logo imaginaram. Eu bem que achei que o porteiro cutucou o faxineiro aqui do prédio a semana passada, quando me viu. Não pude escutar bem, mas, de certo, um falou pro outro: "Aí, olha o tamanho da barriga, a Sofia deve estar chegando, vamos arrumar tudo, mano, manda buscar as luzinhas aí, pra arrumar o prédio pra garota..." E assim foi. Depois, sabe como é, a notícia se espalha... Um falou para o outro, que falou para o outro, que falou para o outro e todo mundo já ficou sabendo. Agora, em todo lugar tem pinheiros enfeitados com luzes e laços. As cores que a maioria escolheu foram vermelho e verde. Laços e bolas enfeitam as árvores, é uma maravilha de se ver, filha. Outro dia, vi, pela internet, que Nova Iorque também está iluminada, acredita? Não pensei que a notícia fosse chegar tão longe, mas, para você ver o quanto é especial, Sofia, até lá eles iluminaram as árvores, enfeitaram as portas das casas. Não faço idéia de como descobriram, mas hoje em dia as notícias correm muito depressa, tem internet, informações online, também tem meu blog, né? Alguém deve ter visto, um brasileiro que mora lá, não sei, e foi contando para os outros. Falou da nossa história, falou da sua chegada, ao que todo mundo se emocionou e tratou de tornar o mundo mais bonito...

Não demore, querida, mas também não venha cedo. Tem prédios que estão começando agora. Eu tratei de deixar escapar que ainda faltam uns 15 dias, para todo mundo se programar. E eles estão correndo, Sofia, estão trabalhando à beça, embaixo de sol.

Quando voltarmos da maternidade, nós três, eu vou acenar para as pessoas e mostrar para você que beleza que ficou o mundo, inteiro arrumado, inteiro preparado, só para te ver chegar... Talvez você ainda não entenda bem, mas há de abrir os olhos pequenos para todo esse encantamento, e há se sentir aí, bem no fundo do peito, o amor que guardamos, eu, seu pai, a sua família, e todo mundo, todo mundo mesmo, até nos Estados Unidos e na Republica Checa, até na Itália e na Conchichina, todo o mundo, inteiro iluminado e enfeitado, cheio de amor, só para ver você chegar...



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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

A MULHER, A MENINA E O DUBLÊ
>> Carla Dias >>

Era uma vez uma mulher com a cabeça bagunçada de tantos pensamentos, cobrando-se atitudes, concentração, a prática de tomar decisões e responder mensagens, desatolar os projetos em pauta, exorcizar algumas culpas e por aí vai. Ontem, de tão cansada, essa mulher, ao chegar em casa, tomou um banho e se deitou na tentativa de dormir e parar esse barulho todo na cabeça. Não deu certo.

A mulher, ouriçada com essa ansiedade que não sabe de onde vem, recorreu ao controle remoto e ativou sua amiga noturna: a televisão. Quem sabe um seriadinho curto e alegrinho, bobinho, daqueles para arejar, não a ajudaria a cair no sono.

Fato é que essa mulher, que tem dias de doida de pedra, meus amigos, como ontem, não estava preparada para um filme que encontrou na televisão, depois de um tempão zapeando. Mas quem disse que há realmente como nos prepararmos para as sensações que são surpresas? Ou mesmo para as que já sabemos quando chegarão, devido às circunstâncias com data e hora marcadas? Bobagem essa de pensar que é possível controlar os espasmos emocionais... Ao menos para quem ainda se emociona.

Essa mulher meio sem noção, morrendo de vontade de participar de algum programa de sonoterapia pra ver se consegue dormir uma noite e descansar, colocou o controle remoto de lado, mas porque se encantou de cara pela menininha do filme, que estava no comecinho. Aquele sorriso, o jeitinho de quem sabe de tudo e mais um pouco.

A mulher não gosta de assistir filmes dramáticos que envolvam crianças. Pensa que adulto colhendo consequências é natural, mas criança não. Um amigo dela disse que isso também é consequência da vida das crianças, cortarem um dobrado, sabe? Mas nem sempre dessa... Talvez seja apenas o restinho de conta que têm de pagar dos débitos de outras vidas. E entre a vida em riste e a espiritualidade, a mulher escolhe pensar que essas crianças que sofrem o diabo, e nem sempre nos filmes, são mais fortes do que ela é capaz de imaginar.

As primeiras cenas desse filme a fizeram lembrar de outro, um daqueles que, vira e mexe, ela aluga para assistir de novo. A Cela (The Cell/2000) é dos que a inquietam, mas ao mesmo tempo enche seus olhos de fascinação pelas imagens e de inquietação pela trama. Ela não sabe o título do filme que assiste, afinal ele é um acidente na rotina dela, mas depois, junto ao Santo Google, ela descobre o motivo de pensar no outro filme: o mesmo diretor, o indiano Tarsem Singh, quem sabe imbuir a realidade com a fantasia sem torná-la incômoda, frouxa.

Enganou-se a mulher sobre aquele ser um filme leve, dos que fazem dormir. Minutos depois de ela sintonizar o canal, apareceu o Lee Pace, ator que ela admira muito, e então ela ficou mais animada. Lembrou-se dele naquele seriado muito bacana: Pushing Daisies.

O santo Google lhe contaria também, depois de assistir ao filme, que o título dele é “The Fall”, mediocremente batizado no Brasil como “Dublê de anjo”. Tudo bem que a trama fala sobre dois pacientes de um hospital, o dublê, Roy Walker (Lee Pace) que, depois de viver uma perda muito das sofridas, empenha-se em se tornar um suicida, e essa menina que adora ouvir histórias fantásticas, uma fofa (desculpem, mas a mulher não conseguiu se segurar e, ao assistir uma das cenas, disse baixinho: que fofa essa menina!), mas “Dublê de anjo” dói no coração.

Catinca Untaru, que vive a menina Alexandria, nasceu na România, e desde muito pequena, cultivou um profundo interesse pelo fantástico e pelas lendas, tornando-se uma contadora de história convincente, o que é claro na sua participação em “The Fall”. Aos quatro anos começou a fazer aulas de inglês e o seu sotaque é uma das delícias desse filme. O ritmo da contadora de histórias menina é de uma graça que dá vontade de entrar nesse sonho ou trazê-lo para a nossa realidade. A mulher doida-varrida concorda com tudo isso.

Enquanto Alexandria se encanta com a história de bandidos e mocinhos que Roy lhe conta - e que aparece na telinha sendo protagonizada por eles mesmos –, e ele aproxima do seu encontro com a morte, ambos criam um universo de cores, medos, sutilezas, capaz de encher os olhos dos mais durões de lágrimas.

A mulher assistia ao filme, mas não conseguia se libertar dos pensamentos de antes. A alma ficou condoída por Alexandria e Roy, mas também por si mesma. E a mágica estava lá: os personagens na televisão e ela quase lá, ao lado deles.

O que mais fascinou a bagunçadinha da mulher em “The Fall” foi que, apesar das cenas tão comuns aos blockbusters sobre reis, conquistadores, tiranos, bruxos e por aí vai, trata-se de uma criança lidando com um adulto suicida... O filme é tenso, apesar de todo colorido, e dolorido, mas também catártico e gracioso. E deu um nó na alma dela que, mais tarde, migrou para a garganta.

Dramas com crianças a deixam emocionalmente exausta. Mas assim como outro filme que lhe veio à mente, “O labirinto do fauno”, a beleza da história contada em “The Fall” e a sutileza e talento de seus protagonistas, enchem de vida o que seria o túmulo da coragem de se sentir feliz, sempre que possível, apesar de todos os infortúnios. Desalento não desabona a alegria.

Quem estiver com mente e coração disponíveis a embarcar numa jornada de lágrimas e belíssimos sorrisos, pode fazer como essa mulher fez: pegar na mão de Alexandria e na de Roy e seguir adiante.



A mulher continua meio ensandecida, mas depois de ontem, percebe com mais clareza que tudo o que precisamos para compreender que a vida vai mais adiante do que podemos imaginar é de bons contadores de histórias.

E passei por aqui para contar a história de uma mulher que precisava muito dormir, mas acordou. Os olhos voltados para a fantasia que se embrenha na nossa realidade.

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terça-feira, 17 de novembro de 2009

ACABA NÃO, MUNDO
>> Felipe Peixoto Braga Netto


Dizem que em 2012 o mundo vai acabar. É uma pena, eu tinha bons planos para ele. Não para o mundo, com eme maiúsculo, mas para o meu mundinho mesmo. Pelo menos o mundo vai acabar numa data bonita, numa data especial: em 2012 faz dez anos que cheguei em Minas. Merecia placas, fogos, explosões. Opa, que dizer, nem tanto, vai que o mundo tá ouvindo e leva a sério...

Acaba não, mundo! Pensa bem. Eu sei, há coisas feias e más, se eu fosse você de vez em quando também ia querer explodir. Mas veja o outro lado: tem eu, tem a Praça da Liberdade, tem as filhas de Minas, tem tanta coisa linda por aí. Acabar assim, sei não, é desperdício, não acha?

Afinal de contas, eu nem fui assim tão feliz ainda... Eu sei, eu sei, sou meio ingrato, mas isso não é motivo para acabar tudo, é? E os filhos que ainda não tive, eu boto onde? Porque eu certamente teria se você não fosse tão radical assim. E seriam pessoas legais, você sentiria orgulho.

É verdade que, você acabando, acabariam também alguns problemas: eu não veria mais o Galo perdendo, não sofreria regime toda segunda (que dura até terça, no máximo), não pegaria trânsito. Mas alguém pode argumentar: "Tanta música bonita, tanto filme bom, tanta viagem que a gente não fez..." Pois é, eu também acho, concordo.

Acaba não, mundo! Deus não ia gostar, garanto. Essa sua rebeldia juvenil não fica bem em alguém, desculpe, tão velho. E Deus, você sabe, criou tantíssimos mundos, são muitos irmãos navegando por aí. Por que logo você vai fazer isso?

Está bem, não vou insistir. Não falo mais nisso. Mas se você quiser muito acabar, promete deixar Belo Horizonte sobreviver? Promete mesmo?! Ainda bem. Só ela não, também eu, é preciso alguém para apreciar a paisagem. Apreciar sozinho não tem graça, né? Deixa também o meu amor, vai ser preciso continuar a espécie. Eu nem queria grandes tarefas, mas fazer o quê? Sobrou pra mim.

Combinado?

Do amigo Felipe, futuro Adão.



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segunda-feira, 16 de novembro de 2009

A CANETA >> Albir José da Silva

Fico esperançosa com a nova folha limpa. Quem sabe agora vai? Já começou tantas vezes. Eu ficava animada com a determinação com que era empunhada. De repente, num gesto brusco, tudo riscado. Já perdi a conta das folhas amassadas.

Por que ele não insiste? Por que não acredita? Tem ótimas idéias. Até eu fico inspirada. Sinto vontade de continuar o texto sozinha. Vejo mil possibilidades...

Eu queria não me importar com isso. Se faço o meu trabalho, por que me preocupar com os outros? Por acaso alguém me cita ou pensa em mim quando lê alguma coisa? Nunca falhei, nunca borrei o papel, nunca manchei a roupa de ninguém – isto devia me bastar!

Três palavras, ...quatro, ...a mão está firme, escrevendo rápido. Já são duas linhas e parece que vai continuar. Aleluia! Não pare! Quem já escreveu meia página tem o que dizer. E este personagem pode render muita coisa. É só acreditar...

Traiçoeiramente a mão esquerda vai puxando o papel antes mesmo que eu me levante. Vou deixando um risco involuntário na folha que vai ser amassada. Minha ponta cai desanimada na superfície áspera da toalha.

Contraio-me com todas as forças e tensiono a mola, atirando a tampa no olho deste idiota que deveria ter sido pintor. Desde que eu não fosse pincel, é claro.

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domingo, 15 de novembro de 2009

BROXEI >> Eduardo Loureiro Jr.


Nunca me aconteceu antes. Eu juro. Não que eu seja assim um sujeito infalível, mas quando se trata daquilo — ou disso — a verdade é essa: eu nunca havia falhado antes. Dava uma, duas... Mais de duas não, porque não vou mentir. De três em diante, só futebol de antigamente e orgasmo de mulher — se a gente acreditar no que elas dizem —, mas umazinha eu sempre garantia. Não precisava de muita coisa pra ficar a postos — se é que vocês me entendem. Tem gente que precisa de um bocado de estimulação, tentando pegar carona no ato alheio. Comigo não. Se está na hora, eu boto o time em campo e mãos à obra. Não que eu faça automaticamente, burocraticamente, feito quem bate ponto ou cumpre meta de desempenho. Nada disso. Faço por prazer, puro prazer. Fazer sem prazer é feito comer bombom com papel, e não estou me referindo a camisinha. É bom se precaver, tomar cuidado com o que vai daqui pra lá e com o que vem de lá pra cá, embora pensar nisso seja um pouco broxante. Será que foi isso: a expectativa, a vontade de agradar, a ansiedade de, talvez, não satisfazer? Nessas horas, é melhor deixar de lado o pensamento e ir com a emoção. Tudo bem, emocionalmente a gente está sujeito a exagerar, pegar pesado, ferir, ofender, mas o outro não é mais o mesmo, hoje reclama mais da escassez do que do excesso. Claro que todo mundo quer flores, mas, se faltar flor, é bom que tenha pelo menos um tapa na cara. Emoção forte parece ser a droga mais automedicada pelos anestesiados em geral — todos querem qualquer coisa que drible a mesmice. Surpresa, então, é fundamental. Se não maravilhar o outro, prepare-se para a insatisfação, para as cobranças: "Por que você não... isso? Por que você não... aquilo? Você deveria... Da próxima vez... Se você não..., então eu... Tá pensando que eu sou o quê? Você não é mais o mesmo de quando lhe conheci." É broxante ouvir — até pensar em ouvir — essas coisas. "Não vem com desculpa..." Tudo bem, tudo bem, sem desculpas, admito, falhei, mas foi a primeira vez, pega leve, sou réu primário. Nunca me aconteceu antes. Eu juro. Fiquei sem inspiração. Só consegui dar essa — crônica — rapidinha.



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sábado, 14 de novembro de 2009

O LUGAR DO SAGRADO [Sandra Paes]

Faz pouco tempo uma rede aberta de televisão brasileira lançou uma série com o nome de “O sagrado”.

Fiquei entusiasmada pela novidade. Ando enfadada com todos os programas de humor sem humor algum, a repetição crônica dos mesmos temas, mesmas caras e o enfadonho estilo de autopromoção, como um programa contínuo de narcisismo, pra mim inútil e totalmente desnecessário.

Sim, sou uma pessoa fora de moda. Não faço parte do quadro da popularidade das pesquisas, não ouço Madonna e me confesso encolhida diante dos sons de rock and roll nos autofalantes dos carros ou em qualquer outro espaço. Aquela batida, tipo bate-estaca, me deixa fora de centro e, de fato, me dá a sensação de desalinho dos chakras. O mundo anda barulhento demais para o meu gosto e o que se expõe nas vitrines me parece sempre uma ode quase que ridícula — pra ser delicada.

Faz tempo não experimento algum entusiasmo com relação a programas de entrevistas, até por que os entrevistadores parecem sempre tão medíocres a falar em torno de coisa nenhuma com um ar de total falta de entendimento sobre o assunto abordado.

Tenho quase sempre que reduzir o volume na hora das divulgações dos noticiários porque os locutores parecem ficar um tanto quanto exagerados em seus tons de falar sobre fatos corriqueiros, sempre em torno de roubos, desordens, crimes, violências e outros tais que parecem só interessar mesmo aos fazedores de pautas marrons.

Sei que a vida humana não é apenas isso. E onde estaria a chance de se criar algo a ser passado na telinha que de fato elevasse de alguma forma meu espírito que anda cabisbaixo, encarnado, com tantas propagandas em torno de como sustentar o corpo pra se prolongar a longevidade?

Céus! Viver mais apenas pra esticar mais dias em torno das mesmas coisas? Cadê o toque do sublime? Eis que surge uma pequena chance. Um seriado sobre as religiões no mundo, onde as pessoas depositam sua fé ou sua tentativa de encontrar Deus.

Mas, é claro, tinha que haver um porém. Todo os programas ruins vão para o horário nobre. Não podendo suportar a paupérrima programaçao de fim de semana, tendo que aturar horas a fio programas onde o público é chamado de galera (cá entre nós, que horror!), fica ou sobra a constatação cruel que a busca da sabedoria não pode ser encontrada nesse veículo tão fascinante que é a televisão.

O lugar do seriado Sagrado foi colocado às seis da manhã, isso depois de procurar muito, porque a propaganda, muito escassa, fala que o programa vai ser veiculado logo depois do telecurso.

Agora, antes do telecurso, tem todas as repetições das novelas dramáticas, em torno do mesmo tema de sempre, e a repetição dos programas do horário dito nobre, aqueles com cara de preenchimento de linguiça, sem trema e sem tempero nenhum. Me sinto exposta à condição de inteligência parca, sem nenhum senso crítico, e me perguntando: por que temos que engolir essa gororoba?

Agora, ficar esperando até cinco e pouco da manhã pra ter acesso ao Sagrado é de uma profanice a toda prova. Mas dá mesmo pra ficar inquieta. Por que será que nesse mundo tão vasto o lugar do sagrado tem que ser sempre o último? As anorexias, as bulimias, o jogo perverso das relações conjugais, os roubos governamentais, as formas mais diretas de propagar o mal e suas façanhas sempre ganham muito espaço e muito tempo de exposição.

Sim, minhas escolhas não constam dos cardápios oferecidos, nem minhas preferências são expostas nas vitrines por aí. Não tenho vícios ou adicções, e por isso mesmo me torno ainda menos popular.

Posso me considerar socialmente excluída? Começo a pensar que sim. Faz tempo que ando querendo saltar do planeta exatamente por estar cansada de procurar e não encontrar, é claro, continuidade na sustentação da leveza de ser.

E o que se paga de impostos e outras coisas mais, vendendo nosso tempo de viver, só pra se ter onde pôr a cabeça e alimentar a carne, suas vestimentas e direito de ir e vir? Faça a conta, se ousar. É toda a sua vida.

Ou somos todos muito bons atores, ou todos muito ridículos e deficentes mentais e emocionais pra continuar sustentando todo esse sistema falido e falível.

Valha-me Deus!

Procura-se um lugar onde o Sagrado está e fica. Esse pode ser meu anúncio de busca de trabalho real. Alguém sabe?

Deixo o rastro da inquietação básica que me faz rolar como uma pedra em meio a tantas outras de enchentes devastadoras. Será que sou eu? Dá pra desconfiar desse incômodo contínuo. E, ohhhhmmmmm! E de novo e, mais uma vez, pra segurar as ondas que rolam no abdômen denunciando uma tsunami de emoções não controladas.

Os seriados americanos continuam recheadíssimos de crimes, as hipócritas cortes de justiça (essa coisa imperial que ainda existe) que fazem todo teatro pra convencer os sensos de jurados de que suas percepções sobre verdade e mentira podem funcionar.

E, quando não é isso, todas aquelas produções de carros em velocidade, psicopatas à solta, produzindo toda série de barbaridades e os contínuos ensinamentos de como usar drogas de todos os tipos com bastante closes para deixar bem claro nas mentes da audiência as receitas doentias.

E eu, ainda à cata do que seria o momento do Sagrado, constato, depois de uma noite de espera, que o dito espaço é de dois minutos. Isso mesmo. Se pegar pegou, senão trate de se alimentar de venenos e ainda correr atrás da felicidade. Será que não tem mesmo um governo malévolo atrás de tudo isso? Sim, porque chamar a isso de gosto de audiência não dá pra engolir, não.

Dizia Jung que quem olha pra fora sonha e quem olha pra dentro acorda. Eu já não sonho mais, nada desejo tampouco, e isso é no mínimo triste, porque para o que o mundo vem ofertando em suas vitrines, eu passo. Meu controle remoto não tem a tecla delete.

Talvez o lugar do sagrado tenha ficado em algum cantinho do meu cérebro, do meu coração, tentando reter o dom de contemplar a beleza e a paz do silêncio que ainda sei fazer...



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sexta-feira, 13 de novembro de 2009

A NOVA INQUILINA >> Leonardo Marona

Dela só sei dos objetos, uma foto com chapéu, alguns livros de pintura, muito Julio Cortázar e, até certo ponto – e temo que isso venha a se tornar um passatempo um tanto contumaz –, me satisfaz saber que ela existe, em calcinhas para lavar e pontas de cigarro, nada mais, até aqui.

Não saber de sua pele me dá a chance de navegar por suposições agradáveis. Será que ela inclina levemente a cabeça para a direita quando sorve o café – adoçado ou puro? Poderíamos, fico imaginando, nos comunicar perfeitamente em códigos ausentes, diagnose do sentido, feixe de imagem improvisada?

Confesso: gostaria muito que ela deixasse as calcinhas penduradas na torneira do chuveiro, depois de lavá-las. Não exatamente por fetiche, mas por segurança. Talvez haja algo de maternal nessa vontade: é provável.

As coisas foram se acumulando pela sala, como um corpo desaparecido que habita os confins de uma intimidade violada mesmo antes de se estabelecer. É tudo muito confuso. Ela anda, bebe líquidos, acumula pequenos bibelôs, tem jeito de quem gosta de ter carinhos sutis com objetos pequenos.

Mas, preciso dizer mais diretamente sobre o caso, estou desfalecendo por causa desse impasse cortaziano: o saber que se está no que não se pode ainda ver, rodar esquisito em volta do tema sem tocá-lo, no entanto, em fogo, aí está a doença do descobrimento forjado e aí está o prazer máximo dos cheiros, da invenção dos sons. Dirá ela bom dia como qualquer um? Por exemplo: olhará ela para os olhos ao brindar com aguardente? Talvez o fato de não saber de nada seja o único fato que permita perguntar a esmo, delicadamente.

Cansado. Cansadíssimo. Ontem mesmo, não consegui entrar na casa. Incomodava muito o fato de que a fantasia poderia ser estraçalhada a qualquer minuto, então seria tomar um café, enrolar um cigarro em papel propício, falar sobre influências, desejos de amor e paz. Girar em espiral pode se tornar extremamente perigoso a partir do momento em que não se reconhece mais nenhuma outra estrutura mais objetiva entre dois seres humanos. Estarei eu prestes a me tornar um personagem de Cortázar, que gira em torno da fera conforme os quartos vão se apequenando? Terá se tornado um vício fazer perguntas sem desejar qualquer resposta, ou pior, sabendo que no fundo qualquer resposta limitaria imediatamente o interesse por qualquer pergunta?

Dormi ontem, enfim, no hall de entrada, não consegui dar o passo, quebrar a espiral. Estou a pele e osso, mal consigo raciocinar. Funciono pelos cheiros, pelos objetos, pelas escolhas do espaço ocupado. Que modo terá ela de ajeitar o cabelo no topo da cabeça, enquanto morde a língua e se concentra para, por exemplo, manusear um estilete?

Olharei pela fresta antes de entrar. Melhor que isso: dormirei para sempre no corredor. Não posso vê-la, seria um suicídio, estabeleci regras morais iminentes, que me arrancam dos pés o movimento fulminante. Ver demais seria um crime premeditado, preciso ser um detetive honesto. O bom detetive não vai pelo caminho mais fácil, vai pelo caminho mais amplo. Repito para mim mesmo a frase vinte e cinco vezes. Há um espelho no corredor e, para minha surpresa, já não sou mais eu mesmo diante do espelho. Reparo que ganhei certa espessura na barba, os olhos se descoraram em cinza, cresci muitos centímetros. Os ossos estalam por dentro da pele e sinto ganas de tomar um chimarrão. De repente falo belga, francês, ouço jazz, brinco com soldados de chumbo num pátio imaginário. Vou virando, em suma, bem mais Julio Cortázar do que eu mesmo. “E que surpresa ela não terá”, penso, “quando olhar para mim e souber que escrevi seus mais ternos sonhos, quando reparar que o nosso não-encontro violou minhas antigas feições, que sou o mestre samurai, o anti-herói tímido da literatura castelhana?”.

Sinto que um desfecho seria pôr, demasiadamente cedo, tudo a perder. Preciso funcionar dentro dessa nova moral inaugurada, o que significa, acima de tudo, não vê-la jamais, para poder pensar nela e, conseqüentemente, em mim. Precisamos, afinal, agir de acordo com a angústia de não ser possível saber. Mas saberei dela pela água nas plantas, saberei dela por uma máquina de escrever, saberei dela pela janela entreaberta, saberei um cacto, os livros de arte, saberei os objetos. Transformar tudo numa busca material sem precedentes, e tudo ficará tranqüilo por um instante, e poderei dormir como se, não a conhecendo, pudesse me colocar em estado de igualdade com ela, já que não conheço também a mim, nem muito menos a Julio Cortázar.


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quinta-feira, 12 de novembro de 2009

A TOALHA >> Kika Coutinho

Era uma tarde de verão e, talvez por isso, havia tanta gente na piscina da academia. Quando a aula acabou, o vestiário ficou lotado de mulheres, a sua maioria muito jovem, lutando por um chuveiro à sombra.

Para guardar o meu lugar, tratei de pendurar a minha toalha no primeiro chuveiro que vi e, só aí, fui buscar meu shampoo e afins. Deixei a mochila da academia no armário, e voltei ao chuveiro reservado. Estava tudo normal na minha cabeça, um banho quentinho, um vestiário cheio e eu sempre meio atrasada pra alguma coisa que nem lembro o que era. Já estava do lado de fora, me secando, quando notei a pequena confusão. Uma menina, adolescente pra adulta, dando um piti porque tinha sumido a toalha dela. “Ai, que gente estressada”, eu pensei, secando o cabelo e assistindo à confusão. A menina falava sem parar, que tinha deixado a toalha dela — azul — pendurada no chuveiro, foi na sauna um minutinho e, quando voltou, não estava mais lá, a toalha, e ela precisava tomar banho, e como ia fazer, e que absurdo uma academia daquele nível com as toalhas desaparecendo, enfim. Ela tava tão nervosa que nem falava o plural direito. Era uma tal de “uma acadimia cara dessas e as toalha tudo desaparecendo?!” que eu quase fui lá, falar pra ela: “Amiga, uma acadimia cara dessas e tu não me sabe nem falar os plural direito, mulé?!”. Mas não falei nada, me secava pensando que absurdo aquele daquela nega guardar o chuveiro enquanto ficava na sauna, daqui a pouco iam vender os lugares, ia ter guardador de chuveiro igual vaga na rua, que horror, quem mandou ela se achar espertalhona? Bem feito, se ferrou.

Eu já estava quase no fim, secando entre os dedos dos pés, parcialmente vestida, quando, de repente, vi que num chuveiro vazio, tinha uma toalha pendurada, igualzinha à minha. Que engraçado — pensei. Olhei melhor e vi as letras “NO” bordadas na toalha. Cheguei mais perto, e lá estava bordado em letras grandes: BRUNO. A toalha que era igualzinha à minha tinha o nome do meu marido bordado nela, que coisa né? Eu ainda estava tranqüila quando resolvi ver a toalha melhor, de perto e, num susto, constatei que aquela toalha ali, seca, pendurada no chuveiro, era a minha mesmo. Mas, então, por que eu estava me secando com aquela outra toalha que, na verdade era... Azul? Ai, meu Jesus, não acreditei. Eu entrei no chuveiro que a menina tinha reservado pra ela, peguei a toalha dela e, o pior, me sequei todinha com esse trapo que eu nem sei onde foi que ela pôs... Tive um instante de pânico. Pensei em jogar dentro de um armário, fechar e sair correndo, rápido, rápido, eu tinha que ser rápida, já estava chegando no armário, quando... “ACHEI!” Que voz estridente tinha aquela mocinha. O vestiário todo parou e olhou para mim, que paralisei por segundos. Eu estava com a toalha dela na minha mão, mirada para o armário, um pé de havaiana, o outro vazio, a calça posta e a blusa só enfiada no pescoço, uma situação humilhante. Fui virando, assim, devagar, tentando ganhar algum tempo: “É... É... é sua?”, falei, sem jeito, baixo — quase sussurrando. Ela correu na minha direção e arrancou da minha mão, emendando: “Você usou, está molhada!” Mas o que essa guria tava pensando? Claro que usei ué, eu estava molhada, a toalha seca, no meu chuveiro, usei, oras... “Então, mas, então...’, eu repetia sem cessar, a voz engasgada que não saía, até que tive uma ideia e gritei: “Então cadê a MINHA toalha?!” Quando você não consegue se defender, acuse, é a lei dos fracos, mas eu era fracote mesmo ali e só queria me salvar daquele bando de abutres que me olhavam, fuzilando. Alguma estraga-prazer, sem noção, logo mostrou o chuveiro vazio:

— Não é aquela a sua?

— Aquela... Aquela está escrito Bruno! — eu falei, muito brava, porque achei que estava intimidando a multidão com a minha voz que resolvera ficar firme...

— E você não conhece nenhum Bruno?

— CONHEÇO! — gritei, vendo que estava tudo perdido. Eu estava perdida, socorro, como fazia pra sair dali, simplesmente?

Ficou um silêncio no lugar e eu, tentando abotoar a minha calça, fui andando com um chinelo só até o chuveiro vazio, peguei a toalha seca e entreguei para a menina, determinada:

— Então você usa essa, que tá seca, e leva também essa, molhada. E pronto, ué... — Falei como se fosse óbvio, como se eu fosse a chefa dela, de forma que ela não reagiu nem bem nem mal, ficou calada, segurando as duas toalhas nas mãos. Meu Deus, a dela era azul e a minha branca, como eu não notara?

Voltei ao meu lugar, achei a outra havaiana e liguei o secador, pra fazer algum barulho e disfarçar que as minhas mãos tremiam. Logo, outra menina ligou outro secador, outra outro, e a vida foi voltando ao normal. Eu suava em bicas tentando puxar a blusa pra baixo, no minuto seguinte.

Não calcei o tênis, não sequei direito o cabelo e estava pensando numa forma de pedir a minha toalha de volta quando notei que a menina, quase sádica, secava atrás da orelha bem com a letra U, do bordado feito com tanto carinho. “Credo, vai ver que ela estava toda encardida, eu é que não quero meu marido com a urucubaca dessa daí”, pensei saindo de lá, dando a toalha por perdida, e ainda pisando firme, pra manter minha frágil pose de má...



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quarta-feira, 11 de novembro de 2009

NO ESCURO > Carla Dias >>

Passamos, naturalmente, porém nem sempre com a graça necessária, pelos revezes da vida moderna. Da velocidade com que produzimos facilidades ao susto que tomamos ao nos darmos conta de que ontem foi janeiro e hoje estamos em novembro. O tempo e as conquistas se misturam.

Ontem saí do trabalho e em vinte minutos estava em casa. Deu tempo de comer alguma coisa e assistir ao esquisito episódio de um dos meus seriados “quase” preferidos. Na minha lista de afazeres da noite de terça, espremiam-se vários isso e aquilo. À noite é quando coloco a minha vida pessoal em dia, o que inclui lavar, às vezes passar, limpar, ouvir música, ler, escrever... Sonhar... Fazer nada.

O apagão de ontem, que chegou a tantos estados se achando, mostrou-me como ando desarmada no quesito “fazer o quê?” Explico...

Depois de assistir ao tal seriado, minha lista dizia para eu começar a leitura de um dos livros sobre televisão e cinema que um amigo me emprestou. Também estou com dois filmes emprestados e um deles tinha de ser assistido, afinal, são livros e filmes emprestados e têm de ser devolvidos. Também precisava, nem que fosse por mais uma horinha, trabalhar em um site que estou construindo. Isso, de acordo com aquela listinha, me ajudaria a resolver pendências com direito a aprendizado e prazer.

Mas aconteceu o apagão... Primeiro a tevê apagou de vez, mas a lâmpada do corredor, que estava acesa, liberava uma luzinha tênue, deixando o lugar com cara de boate. Obviamente, recorri às velas, agradecendo por passar por essa escuridão em casa.

Claro que à luz de velas é possível se ler livros, isso sem contar que notebook tem bateria, e por algum tempo poderia trabalhar no site e até começar a assistir um dos filmes. Se quisesse música, o celular me proveria com estações de rádio ou o mp3 player com a seleção da vez.

Não fosse a correria e, assumo, a mania de deixar a mim pra depois, seria fácil ler o livro à luz de velas. Mas preciso de lentes novas para os óculos e ficar doze horas olhos nos olhos com a tela do computador já fragilizou minha capacidade de curtir essa versão romântica do livro antes de dormir à luz de velas. Senti uma falta da lâmpada acesa...

Sem conseguir ler um livro, resolvi trabalhar no site... E logo que liguei o computador fiquei brava comigo mesma por não ter carregado a bateria. Tinha só uns minutinhos de lambuja. Desliguei o dito e peguei o celular... Mas claro que não tinha rádio pra tocar pra mim. Então, recorri ao bom e velho mp3 player e descobri, de vez, que preciso prestar atenção no que não ando fazendo, pois a pilha já era.

Claro que, assim como a maioria de nós, vivo na certeza de que o que temos é para sempre. Mesmo tendo ciência de que essa é uma certeza provisória. Coloco nas mãos das facilidades – muito bem-vindas, obviamente – a maioria das ferramentas para meu lazer, para meu prazer e para as minhas necessidades.

Fiquei olhando pela janela, a correria de quem se sentia medroso debaixo de tanta escuridão. E sem ter o que fazer, fui me deitar, mas não contando com virar do lado e dormir, já que estou na fase da insônia. Fiquei olhando pro teto, pensando na vida, escutando os barulhos vindos do mercado em frente de casa, que continuava na ativa, pois lá tinha gerador.

Poetizei a existência de um gerador na minha área de serviço...

E cantarolei algumas músicas, parte delas, na verdade, porque raramente decoro letra... Ou poema, ou o que seja. Sou péssima decoradora: de casa e de textos diversos. Sentindo extremamente perdendo tempo com nada, reconquistei algumas lembranças, como a de quando minha avó contava histórias em dias de escuridão como esta que nos pregou uma peça numa terça-feira. Ou minha irmã cantando, na falta da tevê e do rádio. Tias contando histórias, ora verdadeiras e ora inventadas. E o chá mate acompanhado de bolinho doce de minha mãe, eles que quase sempre apareciam com as faltas da companhia de energia.

Continuo com a lista gritando o que devo fazer, mas tudo bem. Vou fazendo aos poucos, como dá e como posso, de acordo com o que sinto, e com o que a vida permite. Sempre à mercê da companhia de luz, de água, de internet, de telefonia, de ônibus...

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Não dá pra deixar passar como se hoje fosse dia de apagão:




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terça-feira, 10 de novembro de 2009

O MAR E OS MINEIROS: A PROVA QUE FALTAVA
>> Felipe Peixoto Braga Netto

"O mar, meu filho, é uma espécie de saudade..."
Guimarães Rosa

Não haverá estudo decente sobre a alma mineira que exclua o mar. O mar, paradoxalmente, é algo mineiro. É algo que participa da psicologia de Minas. Não, claro, no dia-a-dia dos mineiros. Mas nos desejos distantes traduzidos naquele leve desabafo: "ah, se eu estivesse..."

Achei engraçada uma publicidade que vi tempos atrás: belas fotos de lugares típicos de Belo Horizonte. Só que atrás de todos eles havia, para espanto e prazer, o mar. Foi uma vingança divertida contra a natureza.

O leitor já presenciou um encontro do mineiro com o mar? Eu já. Abandona-se tudo: roupas pelo caminho, carro na calçada, mãe no hospital. Tudo passa, na lógica sedenta de sal, a ser secundário e pouco importante frente às azuis possibilidades marítimas.

O mineiro, conformado porque é o jeito, agora deu para zombar do mar. Li numa camiseta, dia desses, a seguinte frase: "Eu tenho pena do mar porque ele não banha Minas". Eu também tenho. E também achei simpática a brincadeira. É uma forma de dizer: "Tudo bem, você não me quer, mas não sabe o que está perdendo"... Soube depois que a ideia é antiga, lá do século dezenove. Já em 1891, Otávio Ottoni dizia em canção: "O mar suspira porque está longe de Minas". Será? Será Minas, velho mar, a causa dos teus suspiros?

Mas é fato que o mineiro se trai ao falar do mar. Logo ele, tão reservado e contido, se desmancha em excessos, revela saudade. Paulo Mendes Campos diagnosticou: "O mineiro é um marujo ao qual retiraram o mar". Maldade com o marujo mineiro. Mas lhe fez bem. Essa combinação de montanhas fez desse povo uma coisa única, dignamente bela. Talvez por isso o poeta, certa vez, tenha dito: "O mar de Minas não é no mar. / O mar de Minas é no céu, / pro mundo olhar pra cima e navegar / sem nunca ter um porto onde chegar."

Por que falo disso hoje? Por isso...

Eu vi, eu vi no sábado passado, 7 de novembro de 2009. Sabe esses programas de televisão que passam no final de semana e em que a família sorteada ganha casa nova, prêmios incríveis, passa por uma transformação notável? Pois estava lá uma humilde família mineira. A mãe, pedreira, e os cinco filhos. Além de um tio dos meninos.

Resumo do diálogo:

— Vocês ganharam uma casa nova toda mobiliada!

Reação da família: — "Êêê (baixinho).

— Vocês ganharam um carro e duas motos!

Reação da família: — Êêê (baixinho).

— Vocês ganharam uma conta corrente com trinta mil reais.

Reação da família: — Êêê (baixinho).

— Vocês ganharam uma viagem para conhecer o mar!

Reação da família: pulos, gritos, explosão de lágrimas dramáticas e muitos abraços!

Juro que não é piada. Eu minto sim, mas só às vezes.



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domingo, 8 de novembro de 2009

SONHOS TORTOS >> Eduardo Loureiro Jr.

Héctor Sánchez - Flickr.com

Só pra vocês terem uma ideia...

Essa semana sonhei que meu time ganhava de 3 a 0, três golaços, um deles do meio-de-campo. Até me espantei, porque não sou muito de sonhar imagens, sonho mais sentimentos. Se sonho beijando, não vejo a boca, apenas tenho a sensação do beijo. Então eu podia ter sonhado apenas com o sentimento bom de meu time ter ganho, de goleada, e com três golaços. Mas não, sonhei as imagens de cada gol, com direito a replay, e acordei animado, ansioso pra ver o resultado do jogo a que eu não assisti porque fui dormir cedo na noite anterior. Para meu desencanto, o portal de notícias indicava o placar de 1 a 1. Mas, para que eu não pensasse que meu sonho tinha sido inteiramente absurdo, a manchete completa era assim: "São Paulo lidera de novo: 1 a 1 com 3 expulsos". Eu sonhei três golaços enquanto a realidade apresentou três expulsões. Isso é que é sonhar torto!

Minha família, principalmente as mulheres, costumam ter sonhos premonitórios. Minha avó e uma de minhas tias já ganharam no jogo-do-bicho devido a sonhos. Minha mãe e uma de minhas irmãs morrem de medo dos sonhos ruins que têm, pois já viram alguns dos seus sonhos bons se realizarem. Comigo é o contrário. De tanto meus sonhos não acontecerem, desisti de pensar neles como premonitórios e passei a considerá-los como uma espécie de passeio ou viagem, que devo aproveitar enquanto acontecem, ao invés de ficar esperando que aconteçam no futuro. "Sonho é feito paixão, feito sorvete, só faz sentido no presente", tenho repetido pra mim mesmo.

Seria assim também com os sonhos acordados, as pequenas fantasias? Temos que aproveitar enquanto não somos interrompidos por alguém, por um telefonema? Não, assim como há pessoas que têm sonos dormidos premonitórios, também deve haver pessoas que sonham acordadas e veem seus sonhos se realizar. A questão é saber se são as mesmas pessoas, se quem sonha e realiza dormindo também sonha e realiza acordado. Quero saber se tenho salvação, se meus sonhos acordados têm mais chance que meus sonhos dormidos. Porque passo grande parte do meu dia sonhando, envolto em devaneios de coisas maravilhosas que me acontecem, de grandes oportunidades, de milagres mirabolantes, de reviravoltas incríveis do destino. E seria bom saber se devo apenas aproveitá-los enquanto duram em meus pensamentos ou se posso ter esperança de vivê-los.

Ou será que também são tortos meus sonhos de vigília? Se três golaços são três expulsões, no diálogo entre o inconsciente e a realidade, de que maneira se tornarão palpáveis o trabalho ideal, o amor ideal, a família ideal, a vida ideal? Serão todos os meus sonhos transformados — e transtornados — na dura realidade de quase todo mundo?



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CERTO OU ERRADO? >> Eduardo Loureiro Jr.


Dá pra entender por que somos conhecidos por homo sapiens? Quantos homens, e mulheres, realmente sábios você conhece?

Deveríamos nos chamar homo certus. Porque todos nós sempre achamos que estamos com a razão. Eu escrevendo essas ideias malucas, você lendo (se está gostando, acha certo; se não estiver gostando, acha certo estar criticando), o advogado, o médico, o professor... todo mundo se acha certo. A torcida do Flamengo, e a do Vasco também.

Até quem faz a coisa errada se acha certo — basta entrevistar qualquer criminoso que se preze para ver ele se auto-inocentar de qualquer culpa. E mesmo quando o pecador assume o pecado, ele acha que está certo em admiti-lo. Ainda estou pra ver alguém que faça alguma coisa que não está certa sem nenhuma justificativa, sem defender uma ética labiríntica, sem dizer que fez porque quis — pois  fazer o que se quer é considerado certo. Se alguém dissesse que fez algo errado por um motivo errado e que desconfia estar errado de estar contando tudo, possivelmente seria tachado de louco — embora os loucos sejam justamente aqueles que parecem mais certos de si.

E, paradoxalmente, mesmo com esse mania toda de estarmos certos o tempo inteiro, a gente comete mais erros do que seria aceitável. Pelo menos é essa a impressão que dá já que a gente passa muito tempo da nossa vida tentando consertar erros, fazer as coisas direito. Esses dias me peguei querendo fazer tudo direitinho, com vontade de tornar-me um ser humano exemplar, um homem distinto, trabalhador, responsável, gentil, fiel, atencioso, cumpridor dos deveres e das promessas. Fiquei imaginando como teria sido minha vida se eu tivesse me proposto a isso — a ser certinho — mais cedo. E a conclusão a que cheguei é que, se eu tivesse sido mais certinho do que já fui, eu não teria tido vida.

Ou talvez eu esteja apenas doente e, à moda de Alberto Caeiro, pensando o oposto do que pensaria se estivesse são, mas me ocorreu que viver a vida mesmo, a vida vivida, só errando. Não só esses errinhos morais bestas, mas todos os erros possíveis. Errar na alimentação, na educação, no relacionamento, no trabalho... Errar feio até perder a vergonha, até deixar cair a máscara da hipocrisia de que somos bons, de que somos inteligentes, de que sabemos o que estamos fazendo. Não, não sabemos. Nenhuma criança sabe o que está fazendo quando está brincando, e é isso que nós estamos fazendo aqui: brincando. De tanto brincar, a criança acaba acertando, mas não com empáfia. A criança, de tanto errar, acerta com alegria. O parâmetro está bem no meio do nosso peito: um músculo batendo animado, leve, feliz. Certo ou errado, é o coração que diz.

Qual o erro que você cometeu hoje? Eu cometi o erro de escrever duas crônicas — cada uma mais errada que a outra. E o dia está apenas começando...



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sábado, 7 de novembro de 2009

TEMPO DE PAZ [Debora Bottcher]

Daí, nas tardes quentes de novembro, quando o sol arde calmo e claro, nós andaríamos sobre a areia branca da praia, de mãos dadas, calças curtas e pés descalços, roçando as ondas, juntando conchas e estrelas-do-mar para selar um tempo encantado de paz.

Bem perto das rochas, encontraríamos uma cigana, olhos brilhantes e cabelos negros, búzios sobre um xale vermelho estendido, que leria nosso destino: "Felicidade pra Sempre".

Percorrendo o caminho de volta, sorriso nos lábios e alegria na alma, o silêncio seria quebrado apenas pelo vaivém das ondas. Nenhuma palavra precisaria ser dita.

Na varanda da casa, ao pé do mar, nós nos sentaríamos no banco de madeira rústica, quietos e cúmplices, para namorar a noite enluarada invadindo o dia. Mais um dia — e nós juntos mais uma vez...

Mais tarde, uma fogueira iluminaria nossos rostos, assando peixe, pão e batata. Vinho branco. Nada mais.

E muito mais tarde ainda, sob a lua iluminada e o mar azul marinho, nós nos amaríamos na areia branca, de um jeito doce e terno, no silêncio da brisa, fundindo corpo e sentimento debaixo do manto da noite.

E quando amanhecesse, estaríamos um nos braços do outro, recebendo um novo dia nas mãos para escrever uma história que, anos depois, seria lembrada como um sonho...

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sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O QUINTO DIA >> Leonardo Marona

Sobre o que for carregado, ser sobre o que fosse nada, rir e chorar desacordado, como o filho que não nasceu, olhar mais um tempo, negar o sórdido, esperar pelo vento, abraçar o sórdido, já que o vento não veio, pensar em cactos sedentos de areia, pensar em como os cactos são como nós mesmos, metáforas repartidas com uísque nacional, escutar a manhã de Grieg num antigo desenho animado, fazer carinho no próprio carro, uma charrete enguiçada, pensando numa antiga namorada, que desligou o telefone quando quase, sem ser convincente, você disse que a amava, e não somos convincentes, afinal mas precisamos, e duramos uma noite, e rimos para cima para que tudo escorra pelo rosto, ouvimos quem sabe os sons surdos dos banheiros públicos, uma certa ternura pelas meninas da Prado Júnior, sem conhecê-las ou falar de futebol para as meninas bocejarem, ser barbado e não ter idade, pensar em Ney Matogrosso com uma faca na Pizzaria Guanabara atrás do Cazuza, pensar naquela velha letra de música, de que muitos se envergonham, “os meus amigos todos”, “i remember u well”, “u told me again”, tonight i’m Kris Kristofferson, babe, gimme a head like nobody before, e as manhãs de abril em junho, a tua imagem congelada na porta do labirinto ou no ímã da geladeira, sou eu ali desaguando no teu ombro, desaguando feito criança sem mimo, fazendo xixi na cama sem poesia, despetalado no mal-me-quer, sublinhando frases em livros de amor: “o amor será dar de presente um ao outro a própria solidão?”, sou eu então não agüentando e escondendo velhos pactos debaixo do braço, a saudade que sinto quando estamos juntos e eu vejo nos teus olhos os restos do meu sorriso morto, sou eu enfim desaguando, é a estaca dos gestos, o quarto com a morrinha de uma amizade antiga feita há minutos para sempre sós, sou eu envergonhado sem ser músico te falando sobre a dificuldade de se fazer uma canção, uma cidade bonita finalmente, assim, sem música, no silêncio compassado de uma lembrança impressionista, uma vergonha bonita afinal, porque a cidade que sempre é feia de repente ficou bonita, de bochechas vermelhas, num risco de céu o avião que passa dizendo que os homens e mulheres vírgula, sou eu envergonhado pedindo perdão a todos os poetas que estavam ali quando não virei a cabeça, e antes de desligar ela disse sem me olhar nos olhos, porque afinal isso seria banal e óbvio, mas ela disse, ela disse e parecia uma frase já dita em algum lugar ainda pulsante, uma frase repetida de tantas despedidas sem lenço, de tantos abraços pela metade, de tantos socos na parede, coceiras incontroláveis, tremedeiras lúcidas, sim ela disse, ela disse eu vou embora, mas antes ela disse, ela disse eu não te amo nem você a mim, e ela disse isso sem olhar, porque olhar corrompe, ela disse você sabe falar, você fala sem parar, você fala amor amor amor amor, você chama o que te mata, você chegou atrasado, babe, você não sabe fumar cigarro kerouacamente, dias dos namorados e eu aqui pensando num antigo tema de Paganini, pensando no que me fez chorar estranhas lágrimas cor de sépia, pensando nela dizendo: “você precisa desesperadamente de amor mas não ama ninguém”, mas há rosas vermelhas sobre a mesa, há um livro que nunca foi lido, aberto na página exata sobre a cama desfeita, há ainda o que serve para inventarmos presságios de aproximação com as pausas marcantes no fim do abraço que hesita, do beijo sonoro plágio de Sergio Sampaio dizendo: não ligue que a morte é certa, não chore que a morte é certa.


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quinta-feira, 5 de novembro de 2009

COISAS GRANDIOSAS >> Kika Coutinho

Eu nunca fiz, na vida, coisas grandiosas. Nem pro bem, nem pro mal. Não influenciei muito a vida de ninguém, não salvei alguém da morte, nunca cruzei com um provável suicida que deixou de pular da ponte por minha causa. E também nunca assassinei ninguém, nem bicho – se desconsiderarmos os insetos, de forma geral.

Nunca me aconteceu de encontrar uma criança abandonada na beirada do lago e salvar a vida dela.
Nunca salvei um gatinho doente nem mesmo adotei um cachorro que fora atropelado na estrada. Não. Nada.

Quando eu era criança salvei um pintinho que eu tinha, de ser pisado pelo meu irmão. Talvez esse tenha sido meu ato maior. Também aprovei e rejeitei gente para algumas vagas, o que pode ser bastante importante. Demitir ou admitir alguém foram as minhas atitudes mais impactantes na vida alheia.

Tudo bem, dei alguns conselhos que foram importantes, indiquei gente pra morar com outro alguém, apresentei casais que se apaixonaram, essas foram, em geral, as diferenças que fiz na vida dos outros.
Minha colaboração com o mundo consiste basicamente em jogar lixo no lixo, tentar fechar a torneira quando escovo os dentes e prezar pra escolher um governante mais ou menos bom com o meu voto. E só. Nem reciclar lixo eu reciclo, que vexame.

Isso significa que, até agora, minha existência foi boa, justa, valeu a pena sim, mas, venhamos e convenhamos, não farão nenhum documentário a meu respeito do tipo “That is It” do Michael Jackson, que só vai passar por duas semanas.

Não. De mim ficariam algumas recordações, saudades, lembranças boas, esses textos que deixo por aqui e pronto. Estava bom assim, não me causava sofrimento e eu nem tinha parado pra pensar nisso até algum tempo atrás, uns 8 ou 7 meses atrás, quando, então, me vi grávida.

De repente, eu, que nunca fiz coisas grandiosas, vejo-me gerando uma vida, uma vida inteira, que pode ser banal ou não, pode ser longa e linda ou normal, ou sofrida, enfim. Eu, que me empenhava em ajudar os pobres, me achava gentil com o universo por segurar o elevador pra quem vinha vindo, e por pagar meus impostos em dia, descobri que isso tudo é bobagem. Bobagem. Bullshit, como dizem os gringos. Importante mesmo, importante a valer, é ficar grávida. Continuar a humanidade, continuar a espécie, continuar um mundo que, vamos combinar, não tá lá essas coisas de continuar.

Mas, se depender de mim, ele continuará. Se depender de nós duas, que somos eu e a minha filha, o mundo já não vai acabar, já não vai pifar, já não vai ficar vazio. Porque eu estou grávida e, daqui a 80 anos, mesmo quando eu não estiver aqui, quando talvez o planeta estiver superaquecido, quando os juros tiverem chegado na estratosfera, quando o caos estiver ainda mais caótico, vai ter gente aqui. Vai ter a minha filha, e os filhos da minha filha. Porque eu estou grávida, e isso é o que há de mais grandioso no mundo...

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quarta-feira, 4 de novembro de 2009

SENTINDO SEM SENTIDO >> Carla Dias >>

São Paulo

Um calor danado em São Paulo, meus caros. Apesar de preferir os dias de chuva abarcando a metrópole acompanhada daquele ventinho frio, também me deixa feliz a forma como o sol se despeja nesse lugar. Mas esse sol que arde quando nos toca pede balanço de ondas ou quedas d’água. Dentro dos escritórios somos enganados pelo ar-condicionado, mas caímos na real quando temos de dormir em nossas casas.

Esse dia azul me fez lembrar alguns dias que passei em São Thomé das Letras, em Minas Gerais. Lá o azul é ainda mais azul e o céu parece mais largo, mostrando até a lua como se ela estivesse pendurada na janela, feito aqueles célebres mensageiros dos ventos. Na verdade, a primeira vez que estive lá, na primavera de 1995, fiquei surpresa ao ver que as pessoas se reuniam numa parte da cidade apenas para observar a lua, assim como há um lugar perfeito para se presenciar o por do sol.

Por do sol em São Thomé das Letras por Elder Prates


Foi em São Thomé que cliquei o jardim de pedra da pousada, foto que está na capa do meu livro Azul.




Jardim de Pedra da Pousada Paraíso - São Thomé das Letras por Carla Dias

Esses dias de estar fora do meu cenário moram longe. Há muito tempo não saio das ruas asfaltadas ou das facilidades paulistanas, oferecidas pelo perfil 24 horas da cidade. E mesmo olhando lua e sol pela janela do meu apartamento, não é o mesmo de o olhar roçar a imensidão despida de prédios. Também não provoca a delícia de simplesmente parar para se despedir do sol e receber a lua. Não dá pra fazer isso com uma jornada de trabalho que termina depois das 20h.

Não se enganem... Sou urbana. Gosto de São Paulo e aprecio o que ela oferece. Adoro caminhar pela cidade em finais de semana, principalmente quando tem algum feriado colado a ele. Tudo bem que, ultimamente, tenho ficado mais em casa do que bandeado pelas ruas de Sampa. Ando olhando a cidade pela janela.

Mas voltando às lembranças de São Thomé... Quando estive lá pela terceira e última vez, em 1999, atrevi-me e encarei um medo que mantenho e se opõe à profunda fascinação que tenho pelas águas. Eu e minha tia, que me acompanhou nessa viagem, fomos cedinho para a cachoeira Eubiose. Não havia ninguém por perto, o que ajudou, porque um dos meus temores era me dar mal em público (quem nunca teve esse medo é sortudo... ou desencanado mesmo!). Namorei aquela cachoeira durante um bom tempo, até que decidi saber como era a sensação de ficar debaixo dela. Não era uma cachoeira enorme, mas suas águas tinham força suficiente para desequilibrar uma pessoa. E eu já falei sobre o meu medo da água?

Eubiose - São Thomé das Letras por Maura Pires

Quando moleca, e ainda vizinha da Represa Billings, meu pai decidiu que eu e minha irmã deveríamos aprender a nadar. Ele segurou nossas mãos, uma filha de cada lado, e nos enfiou na água, segurando por algum tempo. Não preciso dizer que nem eu, tampouco ela, nunca aprendemos a nadar, não é?

Mora aí o antagonismo que impera em parte da minha existência. O meu fascínio pela água é irrefutável, mas eu a temo com a mesma intensidade.

Lá na Eubiose, decidi que era hora de tomar um bom banho de cachoeira. Já tinha ficado debaixo da fina linha da cachoeira do Vale das Borboletas, um lugar de uma exuberância mística. Mas ali a água não tinha tanta força, ao menos quando estive lá. Na Eubiose ela caía com tanta força que o som que sua queda provocava daria um bom rock’n roll. Mas que fique registrado que ela não é profunda. Meu medo não caberia nos medos de muitos de vocês.

Vale das Borboletas - São Thomé das Letras

A sensação de ficar debaixo da queda d’água, e conseguir me segurar para não correr o risco de cair, foi catártica. A temperatura da água, a força, a limpidez... O medo se transformou em gratidão pelo momento. Na hora, pensei que uma das divindades — que muitos dizem viver em São Thomé — houvesse me pegado pela mão e me apoiado.

O fotógrafo e escritor japonês Masaru Emoto foi responsável por uma experiência em que a água foi submetida ao pensamento humano. Ele alega que as moléculas de água se comportam de forma diferente de acordo com o pensamento ao qual são submetidas. Até onde sei, não há respaldo científico para sua experiência, que foi definida como pseudociência, mas certamente é um tópico interessante. Que a água tem seus mistérios, seus fatos cientificamente comprovados, suas marés, sua poesia ou sua mania de nos fazer poetizá-la, nós sabemos.




Trecho do filme "Quem somos nós"


Comecei essa crônica falando do calor que está aqui na cidade onde vivo há mais de uma década, e pela qual tenho verdadeiro apreço. Aprofundei-me nas nuanças da água, meus medos e afetos por ela. Passei por Minas Gerais, pela espirituosa São Thomé das Letras, uma cidade que cultivou em mim a curiosidade pelas suas lendas e sua beleza.

Finalizo essa crônica com um pensamento que não estava presente quando comecei a escrevê-la, mas que me bate tão forte que se torna impossível não mencioná-lo. Um pensamento que não é meu, mas que peguei emprestado do Paulo Leminski:

acordei bemol
tudo estava sustenido
sol fazia
só não fazia sentido


Agora não faço sentido... Talvez mais tarde, quem sabe? Quando as imagens, os cheiros, as lembranças saírem para passear e me deixarem a sós comigo.

Eu ouvindo música do vento em São Thomé das Letras






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terça-feira, 3 de novembro de 2009

MONTAIGNE E ESSES BRAÇOS FRACOS
>> Felipe Peixoto Braga Netto

Não sei, não sei, mas
Uma coisa me diz
Que o teu corpo magro
Nunca foi feliz
(Manoel Bandeira)



Meu dilema é tolo e vulgar: corpo ou espírito? Não, não se trata de divagação metafísica. O buraco, como diriam, é mais embaixo. É, muito prosaicamente, o seguinte: a que devo dedicar minhas parcas horas de lazer? Eis as opções, excludentes e contrapostas: ler, e com isso aprimorar o espírito — coisa que me dá tanto prazer — ou cuidar do corpo, que vai ficando, digamos, desleixado, com essa atenção exagerada dada à leitura.

Um sujeito bruto diria: "Olha só, esse rapazinho aí não tem coisa mais importante para se preocupar não?" Não, ríspido leitor, confesso que não tenho. E confesso que nem confessaria essas coisas se não lesse, ontem, em Montaigne (sim, ando longe da ginástica) a surpreendente revelação, falando dos livros: "Têm seus inconvenientes, e alguns sérios. O espírito exercita-se com eles, mas o corpo, que não devemos esquecer, fica inativo, o que acarreta tristeza e abatimento".

Caro e sábio Montaigne: eis meu dilema. Como diria alguém do meu século, você viu tudo. E assim estou eu, triste e abatido, feliz com os livros, mas com pena de mim. Sim, com pena, porque, querendo ou não, eu também sou esses braços pouco rijos, essas pernas finas, essa barriga que começa a me envergonhar.

Ah — lembro com saudade — há bem pouco tempo não era assim! Admito: tive meus dias de atleta. Era uma beleza... nem eu (reconheço) me reconhecia. É certo que não durou muito. Mas duração é coisa relativa. E de importância duvidosa. E se o povo, que é o povo, diz que tudo que é bom dura pouco, quem sou eu para desmentir?

As mulheres, nesses dias magníficos, olhavam-me com singular admiração. Não sei se meus bíceps justificavam a admiração, mas há que se reconhecer que há, no mundo, almas generosas ou — dizendo de outra forma — mulheres para todos os bíceps. Mesmo essa generosidade, hoje, é escassa e rara. Quem sabe escrevendo não descolo umas fãs que relevem meus músculos virgens de pesos?

É que, para pesar de Montaigne, tenho estado inteiramente com os livros. Ouço ponderada sugestão: mas o segredo está no equilíbrio! Sim, equilibrada leitora, concordo. Mas eu sou um sujeito desequilibrado, daqueles, falando vulgarmente, oito ou oitenta. E mesmo que não fosse assim, não sei se teria tempo para isso. Não, não teria. A escolha se impõe.

Fico com o corpo. Sim, o corpo. Ao diabo os livros. Matriculo-me, amanhã, numa colossal academia, onde encomendarei colossais bíceps. Serei um sucesso em forma de definição muscular. Não aceitarei companhia que não discuta, com igual competência, suplementos musculares e novas técnicas para os abdomens. Também não quero saber de enervantes complicações literárias. Serei, de amanhã em diante, amplo e largo, com espaço de sobra para me caber dentro de mim.

Só espero ter o que colocar...




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