sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Lição de um pescador matuto a todos os pais do mundo >> Leonardo Marona

Foi nas intermediações do Portal do Curral, praia selvagem de mata virgem onde os escravos eram empilhados em porões que submergiam ao sabor das marés afogando os com mais sorte, hoje uma praia deserta com cheiro de sangue africano onde turistas espanhóis de bochechas vermelhas e pêlos raspados nas juntas fazem bacanais de despedida à vista dos pescadores que atracam os barcos e esperam pelo fim do gozo com sabugos de cana-de-açúcar entre os dentes, olhos desconfiados que nunca viram tetas brancas, e havia no meu barco um pescador do tipo bem rústico, pés esfolados com unhas sujas, barba áspera como a casca de um abacaxi, e ele trazia com ele no barco duas crianças, seus filhos, às quais dava ordens curtas e diretas como “fecha a boca senão engole os dentes”, “rapaz, vou dar murro de mão fechada na tua cara se não ficar quieto” e outras um pouco mais delicadas como “te deixo em casa trancado sozinho, peste”, e estávamos todos à bordo do Não Temas, havíamos acabado de passar por um forte construído pelos portugueses em 1531, depois de sangrenta batalha contra a tribo dos Gueréns, exímios guerreiros, e talvez as explicações históricas estivessem dando sono a um dos filhos do pescador, o menor, ou então ele chorava de manha, para chamar a atenção do pai, preso ao seu rádio de pilha na proa, enquanto que o filho mais velho ficava calado, sorriso capeta na boca, chupando o bagaço de cana que o pai tinha acabado de dispensar, e quando o mais novo finalmente parou de chorar, pulou na água de cabeça, correu até o topo do primeiro cajueiro, colheu um bem maduro e vermelho e pulou de volta na água, onde mergulhava ao mesmo tempo em que chupava o caju e quase se afogava para a tranqüilidade do pai que parecia disposto a deixar o menino fazer suas coisas sozinho e da sua maneira, mesmo que fosse se afogar sozinho, e quando o caçula voltou à embarcação apenas com a castanha do caju na mão, ainda havia um rastro de sal que lhe cobria as bochechas por debaixo dos olhos e então muito quieto ele se esparramou na rede que balançava no ritmo da náusea de Netuno e dormiu imediatamente com uma das mãos dentro da calça e a outra com o dedo na boca, quando o mais velho, indignado com a vadiagem do caçula, começou a implicar, chutando a rede com força, sempre o bagaço de cana na boca que impedia que víssemos seus dentes e o semblante de risonha perversidade.

O rapaz pardo de chapéu de folha de bananeira e sem os dois dentes da frente desancorava o Não Temas enquanto me apontava muito atenciosamente os abundantes cajueiros que cobriam o portal, com cajus amontoados no mesmo galho, suplicantes para serem recolhidos, muitos apodrecidos de tanta fartura, como alguns alemães ricos de viseira na segunda praia, e lá longe eu via a praia onde era possível cobrir o corpo com argila para hidratar a pele e evitar o tempo, quando distraidamente ouvi o pescador embrutecido pelo sal e pelo sol dizer uma das coisas mais sensíveis que já ouvi, não é claro pela forma como falou, mas pelo conteúdo da frase simples que dirigiu ao filho mais velho quando o mais novo voltava a chorar por causa dos pesados chutes nos flancos:

- O menino tá quieto, você deixa ele quieto.

E o mais velho parou de chutar a rede e jogou o bagaço de cana fora.

Acredito que se metade dos pais do mundo entendesse o que aquele pescador quis dizer, os homens teriam talvez um pouco mais de vida útil na Terra.


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quinta-feira, 29 de outubro de 2009

O BERÇO >> Kika Coutinho

Eu já sabia que estava grávida, e já o sabia há cerca de uns 6 meses. A barriga já apontava para o mundo, já não me deixava passar em vãos médios, já chegava primeiro do que eu em qualquer lugar.

Por tudo isso foi que estranhei a mim mesma, quando me vi surpresa com a chegada do quarto do neném.

O porteiro interfonou que tinha um caminhão de móveis com entrega e, até aí, tudo bem. Mandei subir. Rapidamente os entregadores batiam à minha porta e um deles, o mais alto, foi logo perguntando:

— Onde vai a cômoda? — mostrei-lhe o quarto e o canto reservado para a nossa pequena cômoda.

— Ok — ele continuou. — E onde vai a cama?

— A cama, claro, logo ali — indiquei a parede reservada para o sofá-cama que receberia os visitantes da nossa filhota.

— E o berço? — pronto. Foi aí que o negócio pegou. Quando ele falou a palavra berço, um instante de pânico me invadiu. Cama e cômoda são móveis corriqueiros, todo mundo já recebeu um ou dois na vida. Estamos todos habituados às camas e às cômodas, como estamos habituados aos armários, aos sofás, às poltronas, tudo pra lá de normal. Mas berço? Quem é que tem um berço na própria casa? Eu nunca tive. A não ser quando eu mesma dormia em um e, mesmo assim, nem tenho certeza se isso já aconteceu.

O rapaz me olhava, firme, e perguntou mais uma vez:

— E o berço? Vai onde?

Eu não conseguia lhe responder. Dei um riso nervoso e falei que tanto fazia. Imagine, falei assim, como se fosse óbvio: “Tanto faz”. Ele se virou e começou a montar a cama.

Eu, assistindo a tudo, já estava trocando o riso pelo choro. Meu Deus, vai ter um bebê aqui, nessa casa, no quarto ao lado do meu. O que vou fazer com ele, como vou segurar, como vou fazer para dormir, para comer, para chorar ou para não chorar, como vou cuidar de um bebê, eu, que mal consigo manter uma samambaia por mais de uma semana?

O entregador me olhou de novo e eu dei uma soluçada. Os outros entregadores, todos, viraram-se para mim quando eu enxuguei a primeira lagriminha. Um silêncio ensurdecedor tomou conta do quarto, e eu saí de lá correndo.

Fiquei um pouco na sala, sentada no sofá olhando para a barriga. A barriga estava lá, a Sofia mexia-se dentro dela, e o berço estava no quarto. Então era tudo verdade? Não era uma brincadeira? Não eram só as roupinhas e os presentes? Não eram só os ultrassons e aquele barulho de chuva que o médico jurava ser o coração da minha pequena criança? Não era só a idéia? Não era só sonho e poeira? Não. Não era. Meu Deus, onde eu estava com a cabeça, pensei, num instante, já me recriminando pelo meu próprio pensamento. Vai que ela escutava. “Alô, alô, tem alguém aí?” cochichei perto da barriga, pra ver se ela estava prestando atenção. Nada, nem sinal. A não ser o berço. As marteladas da montagem começaram e eu fui lá assistir. Prendi o choro enquanto ele juntava o estrado, ajustava a rodinha e formava ali um berço de verdade. Tamanho natural.

Por fim, quando ele estava finalizando a montagem, agachou-se para ajeitar qualquer coisa no móvel, e foi aí que todo meu pensamento poético desapareceu para reparar, de repente, no cofrinho que formou-se logo acima da calça jeans do rapaz. Ele estava tão concentrado analisando o berço por baixo do estrado que nem notou, mas eu não consegui deixar de pensar: “Meu Deus, que cofrão!”. Tive vontade de pedir ao outro moço uma moeda de um real, pra jogar ali, mas fiquei sem graça e, quando dei por mim, estava soltando uma gargalhada. Eles me olharam mais uma vez, certamente achando que estavam na casa de uma doida varrida: que mulher era aquela que passava do choro à gargalhada em frações de segundos? Tive até a sensação que os rapazes apressaram-se a terminar o serviço, tamanho o desconforto que a minha risada, já constante, devia estar causando.

Eles foram embora meio ensimesmados, me olhando de soslaio quando eu corri para ver o quarto mais uma vez, agora sozinha — ou melhor — com ela, que pulava sem parar dentro da barriga. Ali, apoiada a um berço vazio, entre a gargalhada e as lágrimas, dei razão aos entregadores. O sentimento era confuso, o quarto era lindo, os chutes fortes e, eu, sim, uma doida varrida — claro...

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quarta-feira, 28 de outubro de 2009

A PESSOA MELHOR >> Carla Dias >>

Eu tento ser uma pessoa melhor.

Fui educada para sempre buscar essa pessoa melhor que me garantiram mora em mim. Quando acordo, meu piloto automático desembesta a buscar essa pessoa melhor que parece residir em todos nós, como fosse um animal de estimação com o qual compartilhamos todos os nossos segredos

Meu animal de estimação varia, de acordo com o meu destempero ou deslumbre vigente. Há dias em que ele é a televisão, mas em outros ele dá de ser a outra eu com quem filosofo constantemente sobre o motivo de a máquina de lavar fazer tanto barulho e quase pular pra casa da vizinha, ao final da centrifugação. Quando ela começa com aquele escândalo, eu fecho a porta da área de serviço e tapo os ouvidos com as mãos. São alguns minutos de tortura para mim que, naquele momento, não me acho uma pessoa capaz de ser melhor, mas apenas a vizinha sem noção com a máquina de lavar precisando de reparos...

Como a minha vida anda precisando.

Pelo o que entendi, ser uma pessoa melhor é dar de dez na pessoa que fomos ontem. Mas com tantos altibaixos que carregamos vida afora, como sabermos que o melhor de anteontem é pior do que o de ontem e ainda pior do que o de hoje? Sei não... Sinto-me levemente enganada pelo meu melhor. Ele usa máscaras, às vezes tropeça, aposto que enche a cara de fascínio pelo bandido, enquanto deixa o mocinho escapar dos seus afetos.

Depois de um tempo, compreendi que a minha pessoa melhor - essa estranha que me habita sem que dela eu saiba corretamente o endereço – depende das pessoas melhores alheias para ser efetivamente melhor. Entendeu? Nem eu... Quem foi a primeira pessoa a se tornar uma pessoa melhor e ser promovido ao cargo de fonte de onde pessoas melhores em potencial bebem de seus ensinamentos?

Eis o mistério da pessoa melhor.

Minha pessoa melhor de estimação às vezes se aborrece com a rotina e sai para passear. Então que eu fico acreditando, enquanto ela bate perna por aí, que sou capaz de mudar o mundo, como se houvesse esse botãozinho mágico que lê somente a digital do meu dedo indicador e o de mais ninguém. Depois, já cansada de carregar o mundo nas costas, minha pessoa melhor se manda e eu fico com os desapontamentos, louca para que a minha pessoa pior assuma a direção da minha vida e mande minha pessoa melhor catar coquinho!

Durante muito tempo, pensei que tivesse nascido sem a minha pessoa melhor, como quem nasce sem um membro do corpo. Então, fui viver a vida do jeito que me cabia... “Se te derem um limão...” Os ditos populares, se sabiamente dispostos, até poderiam se transformar na minha biografia, e aposto que na de muitos por aí.

A verdade, ou ao menos a que me cabe, é que a pessoa melhor na qual devemos nos transformar está longe de ter apenas momentos de bondade ou ideias geniais sobre como consertar aquilo que cada um de nós entortou durante a jornada da vida. Para poder olhar em seus olhos, nós, seus donos amestrados pelo medo de dizer, fazer, compreender e mais uma porção de verbos capazes de retratar medos, temos de não só sorrir e sermos simpáticos, presentes, conscientes. Também temos de tomar decisões difíceis, acordar o carrasco que há em nós, vez ou outra. Desopilarmos nossos sentidos e até cultivarmos certo egoísmo. Pensarmos em nós mesmos sem que seja em busca de outra pessoa.

E, cá entre nós, a pessoa melhor na qual podemos nos transformar é a de hoje mesmo, porque carece da vivência para se esbaldar naquilo que acredito seja o real teor da pessoa melhor de cada um: a sabedoria.

Talvez o segredo seja ser a melhor pessoa possível no momento, e não apenas a pessoa melhor que nos deixa tão distantes das importâncias.

Imagem: © George Grie

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terça-feira, 27 de outubro de 2009

QUE BICHO EU SOU?
>> Felipe Peixoto Braga Netto

"Não sei por que sujeitam os introvertidos a tratamentos. 
Só por não poderem ser chatos como os outros?"

Mário Quintana


Chego atrasado à reunião. Entro, a passos constrangidos, na sala. Estão reunidos num grande círculo. Meu atraso é obviamente percebido. A contragosto, cumprimento todos, com um vago bom-dia, e me sento. Então falam de quê? Um sujeito, barba e cabelos grisalhos, compara-se a um macaco. Antes que eu possa ordenar as ideias, os olhos da reunião voltam-se ameaçadoramente pra mim, perguntando que bicho eu sou.

Não achei muito elegante a pergunta. Isso lá é coisa que se pergunte assim, à primeira vista, a um honrado desconhecido? Balbuciei defesas, e a moça, que se proclamou facilitadora, não facilitou muito as coisas:  

Todos nós temos um animal oculto. Com qual você se identifica?

Pego de surpresa, não quis me comprometer. Disparei cachorro, bicho neutro, sem conexões freudianas perigosas (acho), nem lá nem cá, nem rei da selva nem fresco que nem o tamanduá.

Escolhas feitas, a facilitadora, conhecedora dos mistérios da alma humana, completou:

— Agora vem a parte mais importante. Cada um de vocês vai estar representando, aqui na frente, o animal escolhido.

Ai... Arrependimento. Nunca lati, nem nas mais secretas fantasias sexuais. E latido é coisa séria porque, se sair fraco, desafinado, compromete a honra do cidadão honesto. Tem que ser um latidão, forte e decidido. Sinceramente, eu não estava com vontade de latir, quanto mais em público. Ai, meu Deus, por que não escolhi o bicho-preguiça, tão simpático, tão na dele, alheio ao mal-estar mundial?

Eu quis mudar, mas a dona não deixou. Disse que isso ia ao encontro das regras. Pensei em ponderar que então não haveria problema, mas desisti.

Fiz uma piada, dizendo que era um cão mudo, mas ninguém riu. A situação piorou visivelmente. Latir depois de uma piada fracassada é suprema humilhação. Pensei em simular um desmaio, mas, naquela altura, ficaria falso, acho.

Entre o latido e o desmaio, fiquei com o primeiro, e lati sem convicção. Qualquer vira-lata de bom coração, se me visse naquela ocasião, haveria de se solidarizar comigo, com meu latido vagabundo.

Voltei, com o rabo entre as pernas, pra cadeira, feito cão sem dono.

Minha vida de cão triste não demorou muito, pois a facilitadora atacou:

— Agora vocês vão estar me dizendo o que passou pela cabeça de vocês. Só assim descobrimos o verdadeiro eu.

Ela, tão engraçada, quis começar comigo, a facilitadora do inferno. Ah!, me esquece... Vai procurar javali, vai namorar elefante, que diabo! Essas coisas, eu só pensei. Disse, na verdade, outra. Falei que foi uma experiência única. Que coisa espantosa!, exclamei. Me conectei com camadas submersas do ser. Ao latir, senti aflorar meu lado selvagem, deixei vir à tona capas de agressividade reprimidas no disfarce do dia-a-dia. Porque a sociedade...

Ah, os olhos dela brilharam de satisfação:

— Sim, sim, é isso mesmo, é isso aí!

Ah, sou outro, reconheço. Obrigado, obrigado. Que Deus guarde, em bom lugar, as facilitadoras, facilitando-lhes o caminho. Para bem longe, quem sabe...

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domingo, 25 de outubro de 2009

O FUTURO >> Eduardo Loureiro Jr.

Stella Brazil - FlickR.com

O futuro é uma coisa misteriosa e fugidia que a gente alcança um pouquinho a cada dia, mas que permanece sempre e grandemente inalcançável por mais que a gente avance.

Você deve conhecer a expressão déjà vu, o já visto, e talvez já tenha experimentado o sentimento de, em uma nova situação, ter a sensação de já ter visto, sentido ou visitado aquilo. Mas não deveriam inventar também uma expressão para a sensação de não ter experimentado ainda, uma espécie de encore vu, ainda não visto, algo que sentimos ou vemos, mas que não nos aconteceu ainda e que, por não ser parte do passado, só poderia ser uma indicação do futuro? Ou seria apenas o presente alucinatório nos pregando uma peça?

O futuro se anuncia de muitas formas. Pode ser um sonho, daqueles de que a gente acorda e se sente roubado de algo que tem mas que, quando desperta realmente, percebe que nunca teve; e tempos depois o sonho acontece. Ou então pode ser um desejo — esse sonho acordado — que, por termos concebido em vigília, sentimo-nos compelidos a fazer acontecer por qualquer meio que seja, e o futuro desejado acaba mesmo acontecendo. Pode ser também uma fala de oráculo, esotérica ou não: uma leitura de mão ou de mapa astral, ou a simples intuição de um amigo — ou nossa mesma — de que tal e tal coisa vai acontecer; e algumas vezes acontece tal e qual.

Um futuro que se revela antecipadamente traz sempre um risco: a perda do presente do presente. Seduzidos pelo presente que será nosso no futuro, estamos sujeitos a desdenhar os presentes garantidos, já recebidos, do próprio presente. Outras vezes, a revelação antecipada do futuro é essencial para que não nos percamos, para nos guiar, nos nortear.

Embora o futuro previamente revelado ainda não tenha chegado — e vivê-lo antecipadamente consista na forma mais arriscada de perder o presente —, a vivência imediata — aqui e agora — do futuro é também a forma mais certa de materializá-lo. Qual a justa medida, então, entre a aceitação do presente do presente e a realização do anúncio do futuro?

Aí é que vem a surpresa. Como diz o compositor Antônio de Pádua,

O futuro se pressente
no que a gente guardou.
Pois diz o velho ditado,
um ensino cristalino:
a chave do seu destino
se encontra no passado.


O passado contém a história de nossos futuros realizados e não realizados. O passado é como uma figura pontilhada de passatempo que já está com os pontos todos ligados. Revendo o passado, podemos reconhecer os caminhos do nosso traço. No passado que a gente esqueceu, nas ligações pretéritas que a gente não percebeu, estão nossas limitações de enxergar claramente o futuro. É preciso saber enxergar o espelho — que não mente — para poder visualizar a bola de cristal sem ilusão. Quem não vê o passado não vê o futuro.

Entre o passado que se tende a esquecer e o futuro que periga iludir, melhor mesmo é praticar o olhar com o presente. Cultivar a atenção feito quem pesa objetos numa antiga balança de dois pratos. Se o braço do passado está mais baixo, reforcemos de sonhos o prato do futuro. Se o braço do futuro está pesando mais, cuidemos de reforçar de lembranças o passado. Quem quiser equilibrar a própria vida, tem que se tornar o fiel da balança.



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sábado, 24 de outubro de 2009

O IOGURTE [Carla Cintia Conteiro]


O primeiro incidente que me chamou a atenção e me fez ligar os pontinhos foi a declaração de um sujeito que faz o maior sucesso no circuito ongueiro. O ex-traficante Feijão diz para quem quiser ouvir que o que o fez entrar para o crime foi ver geladeira de traficante cheia de iogurte. Não que ele passasse fome, mas a coalhada industrializada jamais entrou em seu humilde barraco. Depois de virar o chefe de Acari, ser preso, condenado e, segundo afirma, reabilitado, Washington Rimas, nome como Feijão foi registrado, agora tem o iogurte de seus filhinhos pagos por Cacá Diegues e quem mais se interessar em ouvir sua história de superação.

Tem tempo que digo que não é a miséria mas o desejo incontrolável por aquele tênis de marca, provocado pela publicidade feroz que fomenta certos desvios nos jovens. Pelo menos no urbano sudeste brasileiro, onde numa hora de aperto sempre se pode apelar para vender biscoito Globo ou pipoca de saco cor-de-rosa no sinal ou na praia. Isso gera horas de debate com aquele pessoal que congelou uma certa imagem da pobreza, vendida por aí em prosa e verso. São fisgadas nessa armadilha pessoas que ainda conectam, por exemplo, samba com morro. Perderam o bonde do funk. Imaginam o morro como o retratado nas propagandas governamentais, em que os “artistas que representam situações reais” vestem-se como os favelados do filme “Orfeu da Conceição”, de 1959(!).

Esse tipo de gente fica surpresa quando vê a pesquisa da WCF-Brasil sobre prostituição infanto-juvenil revelar que 65% das vítimas crianças e adolescentes entrevistadas usam o dinheiro para comprar bens de consumo, como celulares, tênis e roupa, e 30% usam seus proventos para comprar drogas. Arroz, feijão e carne é pouco. Eles querem iogurte.

Muitas vezes quem assiste à matéria sobre aquela atleta da Rocinha, que anda angariando medalhas por aí, deixa o embaçado das lágrimas, a música sob medida para emocionar e os agradecimentos derramados a pais e treinadores no primeiro plano encobrir, na sala da residência da menina, o computador, a TV e o gigantesco aparelho de som. Quem troca pódio e caderno por escopeta e pó quer iogurte.

Quando eu morava sozinha, deixava a chave com a faxineira de toda confiança, segundo me recomendaram. Ela deixava a casa um brinco. Mas o macarrão com frango, a carne com batata ou o que quer que fosse que eu deixasse separado para ela preparar para seu próprio almoço estava intacto. Em compensação, só encontrava aquele queijo especial pela metade. Da bandeja de iogurte comprada na véspera, nem a embalagem.

Outro dia, um moleque me parou no supermercado e pediu que eu pagasse pela tetrapak de iogurte que ele tinha nas mãos. Falei com ele que pagaria por um litro de leite e uma bisnaga, mas para iogurte o dinheiro que eu tinha não dava. Ele me disse que eu podia deixar pra lá:

— Tia, tu é pão-dura bagaraí.

Os empreendedores de fundo de quintal, mais ousados e mais próximos da realidade do povão, foram os primeiros a perceber o apelo do iogurte. Qualquer giro pelo comércio popular vai demonstrar que o sabor de maior sucesso entre as balas, picolés e sacolés deixou de ser aquele de cor e sabor artificialmente vermelho ou rosado que chamam de morango. Agora o rosa é mais cremoso e o nome é iogurte. Se quiser vender, tudo tem que ter sabor iogurte.

Não pensem vocês que os grandes empresários ficaram atrás. Depois de gastar milhões de dólares para ouvir as cada vez mais poderosas classes C e D, chegaram à conclusão de que essa turma frequenta suas lojas em shoppings e descobriram, por fim, o que eles querem. Assim, ao chegar a uma loja daquela rede de cosméticos onde antes batia ponto exclusivamente a classe média, ou seja, os criados a Danoninho, para comprar aquele mesmo produto que você já usa há anos, uma vendedora com sorriso ensaiado e simpatia forjada vai perguntar se você já conhece a nova linha de produtos. Você vai responder que não, que está com pressa, que só veio mesmo pegar seu creminho. Mas ela foi adestrada para ser insistente. Vai abrir o pote. Vai sacudi-lo primeiro diante dos seus olhos para você ver como a cor e a consistência são iguais às de um fermentado lácteo. Vai, finalmente, enfiar o pote no seu nariz para você conferir que, ao adquirir tão fantástico produto, estará levando para casa a certeza de sair diariamente besuntada como uma porção de granola, cheirando a leite azedo, mergulhada no iogurte.

Iogurte é a última fronteira rumo ao eldorado burguês.

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sexta-feira, 23 de outubro de 2009

SEGUNDO POEMA TODO TEU
>> Leonardo Marona

entra na casa, esta casa onde, por tantas
vezes, entraste sem perceber e, cada vez
mais dentro, saías de vez, mas agora não
sabes mais como sair – olha bem os móveis,
sente o peso das horas que, pela primeira vez
se apresentam arreganhadas, feitas de tecido
sem graça, soma de farrapos – mas olha bem.
não serão mais tuas estas horas, as paredes
te dão as costas, as portas de correr emperram,
estás sozinho onde tantas vezes disseste
a ti mesmo: “estou completamente sozinho”.
mas agora que estás, então não dizes nada.
percebes o ridículo: falas na segunda pessoa.
espera um pouco à porta, não olhes para dentro
do quarto pequeno, onde te espera à toa o corpo.
o ventilador roda noutra direção, e ali está ela,
que espantava as hienas e falava com mil sóis.
não te diz respeito o lugar para onde tantas vezes
fugiste sem pés de uma realidade seca, infame.
adeus ao quadro de Chagall, ao homem flutuante
em frente à Torre de Paris, adeus, Neal Cassady,
Kerouac, que primeiro te ensinou o abraço e,
acima de tudo, adeus aos braços, que se abrem
murchos para uma nova vertigem seca, sem pulo.
de costas para o muro ficas parado, voltas à porta:
não há mais porta, os caminhos se afunilaram
em gargantas abertas por navalhas de ferrugem.
não serão mais tuas estas horas e, em breve,
não serão mais tuas estas lembranças, nem tu
serás mais de ti mesmo, pobre órfão fugitivo.
ficaram algumas marcas de amor pelo chão,
agora ficam aqui lágrimas irreconhecíveis,
sabe-se lá de que são feitas, mas escorrem
como tudo o mais escorre para fora, adiante.
adeus, incensos baratos à meia-noite pálida,
adeus às cortinas prateadas que escondiam
um segredo só nosso, e nem mesmo nosso.
adeus, cigana de tantos dentes – diga adeus.
adeus, Elis Regina, pintada por Andy Warhol.
adeus, mesa feita de um antigo baú, adeus,
bares de esquina, cartas invisíveis de amor,
viagens não realizadas, concretizadas na cama,
até um dia, Bairro de Laranjeiras, vinho chileno,
adeus à toda intensidade da carne crua cansada.
“o mais profundo é a pele”, você dizia imitando
Paul Valery, mas agora adeus, Paul, adeus pele.
ela que se encolhe agora na cama, sonhando
com tempos talvez mais leves, mas, meu amor,
se a vida não foi leve para nós, foi por dádiva,
porque somos os que podemos agüentar o peso,
somos os beneficiados com o espanto e a cura.
principalmente, agora, adeus, manta africana,
com que ela te recebeu pela primeira vez,
jogando em seguida a chave pela janela.
aqui está a chave sobre a mesa, e dos dois
restou um livro de poemas, um livro médio,
um poema só dela, dos que fazem chorar,
e a chave do peito, essa que não devolverás,
essa que de tanto abrir e fechar fez carne viva
do que antes chamavas miséria, mas agora
chamas primeiro grito, susto que não se diz,
e não falarás mais nada, apenas amarás a ela
em preto e branco, como nos filmes antigos.

www.omarona.blogspot.com

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quinta-feira, 22 de outubro de 2009

QUAL É O SEU RITMO ? >> Kika Coutinho

Você pode não ter notado, mas a vida é feita de ritmos. Você pode até não se ligar muito em música, não entender os gêneros e as notas — como eu não entendo — mas todos os seus problemas poderiam ser traduzidos por desencontros musicais.

Se você é calmo e tranqüilo, anda num ritmo meio bossa-nova, por que vai procurar alguém no baile funk? Uma pessoa bossa-nova há de ter problemas com uma pessoa funk.

Se você anda meio ligado no 220, tem um pique total, deve ter um perfil rock'n'roll. Então, me conta, por que vai se meter a trabalhar numa empresa pública, toda lounge? Não vai dar certo. E isso não tem nada a ver com gosto, mas com perfil.

Suas brigas em casa, com a família, certamente têm um problema musical por trás delas. Filhos adolescentes costumam ser dance, ou pop rock, ou techno. Os pais, coitados, normalmente já pra lá do Tango, meio Valsa, nunca nem ouviram NX Zero, como é que acompanham essa dança, serve dois pra lá dois pra cá? Pra dar certo há de se ter semelhança, não tem jeito. Conheço pais e filhos que se dão muito bem porque ambos são samba. Não que gostem de samba, não tem nada a ver, podem até odiar. Mas vivem assim, nessa cadência, nesse ritmo meio leve, meio alegre, meio bambinho. Podem se dar bem com um bossa-nova, até com um jazz, mas nunca com um techno.

As relações amorosas descambam porque não se ouve a música um do outro. Sabemos o que o outro gosta de comer, como gosta de se vestir e até o que gosta de ouvir. Mas nunca notamos como ele vive, se anda num ritmo Bob Marley ou num ritmo Madonna. Ainda que ele ame mesmo Roberto Carlos, note como vive. Em que cadência andam seus passos, como se movimentam seus gestos, qual a dança de suas escolhas, que passos segue o seu ritmo, afinal? Aprenda quem é o seu parceiro e aprenda quem ele poderá ser porque mudamos o tempo todo, claro.

Quando somos mais jovens, é natural que nosso ritmo seja de alguma música mais popular e, conforme envelhecemos, nos tornamos mais clássicos, talvez mais eruditos. Podemos fica meio blues, meio jazz, podemos. Mas dificilmente seremos velhinhos a la música eletrônica. E isso influi em tudo. Ou deveria.

Não vá a um restaurante sertanejo se você está rock'n'roll. Não compre uma blusa latina, cheia de salsa, se você anda se sentindo totalmente tango. A não ser que seja intencional. Você pode precisar da sua amiga pop rock caso se sinta no meio de um fado português, isso pode. Pode pedir que seu marido seja um pouco mais merengue e salsa caso esteja vivendo como um CD de gospel. Pode, claro. Mas que seja momentâneo, que seja lúcido, que seja escolhido.Não adianta brigarmos com o ritmo do outro, não adianta tentarmos tocar um violino se gostamos mesmo é do estilo brega do Wando. Não adianta. É preciso tocar-se em um ritmo parecido, achar-se em notas similares e dançar juntos passos que caminhem para o mesmo lugar. Não importa em qual palco vocês vivam, quem seja a sua platéia, é o seu ritmo que irá determinar o sucesso desse show.

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quarta-feira, 21 de outubro de 2009

A MENINA E O AMANHÃ >> Carla Dias >>

Falava ao telefone com a minha sobrinha que estava num daqueles dias em que criança traça futuro, sabe? Ela me contou, com todos os detalhes, quem pretendia ser – e o que faria - quando crescesse.

Dessa vez ela seria somente uma mulher adulta que compraria uma casa bem grande onde ela coubesse com o marido, o filho, a avó... Ela achou melhor que a avó (minha mãe) morasse com ela, porque, nas palavras dela “não fica esse sofrimento de ter que tomar ônibus e ir de lá pra cá o tempo todo”. Sim... Elas são muito unidas.

Pensei em como gosto de andar de ônibus. Claro que, aos quase quarenta anos de idade, num momento em que todos sabem tudo, eu não ter aprendido a dirigir parece meio indigesto... Mas para os outros. Não há quem possa com uma viagem de ônibus e o mp3 tocando as mais-mais da sua vida. A seleção de sentimentos.

Ela continuou falando, na verdade, estava mais para um monólogo. Disse que eu poderia morar lá também, mas que cobraria um “aluguel” de menos de 1 real, só para pagar as contas de água, luz, telefone... E que com os 1.000 reais que ganharia – ela não contou como – compraria um carro maravilhoso para a avó.

Também fui criança que prometeu a adultos. Quando moleca, disse a todos da família enorme que tenho que ganharia bastante dinheiro e os tiraria de onde morávamos na época, que teríamos água encanada, telefone, ônibus que nos levasse até quase a porta de casa. Crianças não deveriam fazer promessas, porque mesmo com as melhores das intenções e trabalho duro, pode ser que não dê para pagar a promessa. E de uma criança esperançosa podemos nos transformar em adultos frustrados por não termos alcançado o futuro que desejamos aos que amamos.

Não consegui cumprir a promessa infante, mas fiz de tudo para dar o menos de trabalho possível à minha família. Ainda hoje, quando as ruas do bairro já foram asfaltadas, há água encanada nas casas e quase todos conseguem ao menos pagar as contas do mês por esforço próprio, essa minha promessa aparece nas conversas, como uma piada ressentida. Acho que, no fundo, eles acreditaram na criança que fui mais do que neles mesmos.

Quando consegui uma brecha, disse a ela que não deveria pensar nessas coisas. “Criança não tem de fazer contas, lindinha”. Entre uma frase e outra minha, ela lançava um profundo “Ah, tia... Mas...”. E eu insistia: “Você tem de estudar, ler bastante que é bom, brincar, ser feliz. Você é muito pequena pra pensar nisso.”

Foi então que ela, impaciente e levemente frustrada por eu ter cortado a conversa adulta, meio chorosa até, disse o seguinte:

“Eu não entendo! Pra atravessar a rua sozinha vocês dizem que eu sou muito pequena, mas se eu faço alguma travessura, vocês dizem que eu sou grande! Não entendo mais nada!”

Vindo de uma menina de nove anos de idade, a constatação pode provocar gargalhada – que foi o caso, só que a engoli -, mas também assusta. Ela não estava errada na constatação, porque restava à adulta que a ouvia explicar, de um jeito que se entendesse, que a vida é assim em qualquer idade, que há o que podemos fazer/viver e o que não é possível. Acontece que a adulta disponível – eu – ficou sem palavras e, quando voltou à conversa...

“Mas é assim mesmo... Olha, a tia que tem muito mais idade que você, também pode isso e não pode aquilo.”

Quando ela sente que está sendo enfrentada, a voz fica rascante, os falsetes se apresentam. E assim, nesse frenesi, ela me disse: “Então agora vou ter de pensar como se tivesse... Quantos anos você tem, tia?” “Trinta e oito...”, respondi. “Tia, vou ter de pensar como se tivesse 38 anos de idade?”

Nem pensem que ela gosta mais de fazer contas e pensar um futuro com marido e filhos e casa do que ler um bom gibi. Lembro-me dela quando lia apenas as feições das figuras do gibi, antes de aprender a ler. Também adora ouvir uma história inventada na hora. Às vezes me leva à exaustão de tanta variedade que pede num mesmo dia. Inventar cansa.

Talvez ela cresça, conquiste um bom marido e tenha um belo filho, e minha mãe vá morar com ela. Até lá, ela saberá que com 1 real de “aluguel”, cobrado de quem morar com ela, não pagará as contas da casa, assim como um carro que custa 1.000 reais não é lá grande coisa, então vale mais a pena andar de ônibus e metrô. Até lá, talvez muitos de nós, adultos, possamos compreender que, às vezes temos de pensar como uma menina de nove anos... Com a mesma bondade que ela é capaz de ter, apesar dos melindres e da falta de conhecimento do real valor das coisas, e da fragilidade das promessas.

E deixo as palavras de Rubem Alves para quem quiser cultivá-las em seus jardins: “A vida não pode ser economizada para amanhã. Acontece sempre no presente.”

Imagem: A little girl carrying flowers / Henry Raeburn


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terça-feira, 20 de outubro de 2009

CHOCOLATE ENTENDE DE MULHER
>> Felipe Peixoto Braga Netto


— Você não entende, eu estou enorme, não está vendo?

Não, eu não estava. Juro que eu não via. De enorme, ali, só uma vontade tola que não contei, não podia contar. Mas o que importa é o que ela achava, já está provado que homem não entende de mulher.

Se minha opinião valesse alguma coisa — e eu já sei que não vale —, arriscaria, baixinho: Mulher também não entende de mulher. Pelo menos não nisso de magreza. Minha gente, sinceramente, essas magras modelos sem graça que vocês acham lindas, não são. Vou repetir: não são.

Não queiram ficar assim, por favor. Relaxem, menos chá-verde, uma honesta cerveja de vez em quando é permitido, não mata. E preservem. Preservem a Amazônia, a camada de ozônio, a biosfera, mas preservem também as curvinhas, por favor. O planeta agradece.

Há quem veja duendes. Há quem veja fadas. Há quem veja quilos a mais. Mulheres, em especial, têm talento para isso. Enxergam inconcebíveis quilos inexistentes onde você, por mais que olhe, não enxerga nada. Para as mulheres, amor é importante, trabalho é importante, ser feliz é importante. Mas importante mesmo é ser magra.

E outra coisa (está tarde, preciso ser franco): homem que é homem não dá a mínima para celulite. Então, meninas, esqueçam esse pavor, esse trauma, essa terrível tragédia que não mata nem fere. Não conheço nenhum amor, até hoje, que morreu por causa da celulite.

A vida, gente, não é feita só de espinafre. Há lombos, lasanhas e tropeiros que esperam por nós. Tudo bem, acelga com tofu deve ser uma delícia, mas eu prefiro as ervas mediterrâneas. O manjericão, por exemplo. É leve, saudável, com uma pizza ao lado fica muito bom.

Comer direito dá tanto trabalho que não sobra tempo para mais nada. Ela me diz que fundamental, agora, é comer banana verde. Pode ser nanica, maçã ou prata, mas tem de ser verde. Não pode ter nem um fiapo amarelo, não pode ser uma banana adolescente. A banana verde tem pré e pró-bióticos (eu não perguntei, mas deve ser algo fantástico).

O segredo, ela conta, é cozinhar em panela de pressão, com casca. Depois, descascar e bater no liquidificador. Assim, ela pode ser deliciosamente misturada a sucos de frutas, ou ao que você preferir. Há quem prefira juntar uma porção de banana verde para cada prato. Eu não prefiro nada. Fico me imaginando saindo de casa com uma penca de banana verde nas costas, um liquidificador, uma panela de pressão, fazendo contas no restaurante. Não daria certo.

Chocolate, ao contrário, sempre dá certo. Sim, porque a única coisa que acalma, de fato, uma mulher, nas crises sentimentais mais graves, é uma caixa de chocolate. O resto até tenta, mas não consegue. Promete, mas não cumpre. Chocolate entende de mulher.

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domingo, 18 de outubro de 2009

CADÊ A PROSA ENCANTADORA?
>> Eduardo Loureiro Jr.

Noelia Quirós - Flickr.com

Tenho uma amiga me cobrando a prosa encantadora. E me ocorreu que a gente, muitas vezes, não se relaciona com as pessoas realmente, mas com uma imagem delas gravada em algum momento da relação.

Nós estamos continuamente em mutação, mas, mesmo quando percebemos isso em nós mesmos, é difícil reconhecer no outro, e continuamos a nos relacionar com uma pessoa que já não está mais lá exatamente. Como a mudança é geralmente lenta, esse desvio no relacionamento é imperceptível durante um bom tempo. A cobrança vem quando o novo outro, já bem modificado, entra em desacordo com o outro que nós gravamos, então começamos a cobrar que ele corresponda à imagem inicial.

A mudança, por vezes, nem é definitiva, é cíclica. Feito as estações do ano. Quantas vezes queremos sol quando o tempo é de chuva, frio quando é época de calor!

O problema, que nunca está realmente no outro, deve estar na nossa relação conosco. Possivelmente gravamos de nós mesmos uma imagem que fica desatualizada, por assim dizer. Então não é apenas a prosa que não é mais encantadora, mas é a própria pessoa que lê que não é mais tão encantável. Aí ficamos feito pingo d'água reclamando sol, gota de suor desejando cobertor.

Mas mesmo sendo isso verdade — que minha amiga está menos encantável —, devo assumir minha parte: minha prosa está mesmo desencatada. Que posso fazer? Minha prosa encantadora vem de eu mesmo estar encantado, e eu não estou. Coisa que estou é outra coisa que ainda não dei nome: feito bebê crescendo na barriga. Vou esperar nascer — e ver a cara — pra só depois batizar.

Enquanto isso, sou isso. Que outra coisa posso ser? Sou como um livro fechado. O livro aberto tem um fio que a gente acompanha, um fluxo, um enredo. A gente vai lendo e seguindo. Um livro fechado tem tudo junto, sem tempo. O que, pela leitura, é passado, presente e futuro, pela não-leitura não é tempo, é espaço: não é mais história, é geografia. É quando a gente deixa de ser encanto, em ritmo, em música, e vira em mapa. Mulheres, em geral, não gostam de mapas. Homens, normalmente, lidam bem com eles. Mulheres são do tempo, homens são do espaço.

Bom é quando espaço e tempo, homem e mulher, mapa e encanto se encontram. É paixão, é amor, é sexo, é casamento, é união. Mas não está sendo. Minha presente condição é não estar. Sem desespero, sem alarme, sem cobrança. Não estou.

Minha prosa agora é cartográfica: mapeia sentidos. O que sinto? O que penso? Onde há aglomerados? Onde há desertos? Quais as elevações? Quais as depressões? De onde para onde flui a água das emoções? Que rotas precisam ser sinalizadas? Que estradas precisam ser criadas?

Quando o mapa estiver pronto, eu me ponho novamente em jogo, em movimento. Até lá, estou sem canto: sobrevoo, lá do alto, os muitos cantos da minha alma lá embaixo.



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sábado, 17 de outubro de 2009

PAPO DE ÔNIBUS [Ana Gonzalez]


Eu subi no ônibus e me sentei na primeira cadeira do corredor que encontrei, cansada e contente por não ter ficado em fila. Havia um senhor de cabelos grisalhos na janela. Assim que o ônibus saiu, ele começou. Imenso, este ônibus, disse. Concordei. Preferia ficar quieta e levar minha pequena jornada em silêncio, mas ele ainda falou algo a que não dei atenção. Ele não se importou e, poucos segundos depois, continuou puxando assunto.

— Quanta gente ao mesmo tempo vai nele. Mais de mil pessoas.

Ops, será que ouvi mal? Um exagero. Não, acho que ouvi mal. Mas ele continuou em várias considerações sobre tamanho de ônibus e população. Logo depois, mudou o assunto.

— Fez quatro anos em março que ele me apareceu da primeira vez. De lá pra cá, mais três vezes. Jesus mudou minha vida.

Imaginei que seria mais uma pessoa que se convertera pela força da fé.

—- Eu não sei ler. Jesus não quis que eu aprendesse. Mais de cem mensagens eu já entreguei que ele mandou. A Igreja hoje tem às vezes só cinqüenta. A senhora é evangélica?

“Não sou.” Se eu fosse, talvez pudesse entender o que é entregar mensagens. Ele continuou em sua discreta incontinência verbal: “Na terra não podemos consertar o mundo. Jesus pode. Ele me ensinou. A bíblia é sagrada.” O cheiro de guardado do blazer de lã não combinava com os sapatos marrons.

— Não aprendi a ler porque Jesus não quis. No ano passado o pastor ficou doente e desenganado. E com as orações ele ficou bom. Sou do Ceará. O povo que vai da Alemanha para o Japão gasta menos tempo que o que vem do Ceará.

“Não aprendi a ler porque ele não quis.” Essa frase repetida doeu em mim. Muito. Talvez tanto como nele próprio.

De repente, fez-se uma ligação entre eu e aquele desconhecido. Ele não era mais um cidadão no ônibus, passageiro anônimo da cidade grande. Era companheiro da triste sina de uma vida difícil, também perdido entre os ônibus. Eu estava sofrendo por imaginar a situação de um desejo interrompido — ferida aberta — e sua atitude respeitosa à autoridade. Eu estava rendida á solidariedade humana através de uma dor.

Era um drama de alguém que se perguntava coisas, procurava comunicação e expressão para as aflições de sua alma curiosa. Alívio para sua insatisfação, cobertura de uma defasagem entre sua expectativa e a realidade. Não podia dar continuidade a seus pensamentos renitentes. Poderia se perguntar: por quê? Mas, não. Parava antes das possibilidades, numa espécie de aceitação, loucura mansa. Delírio? Ele não se dava o direito de questionar por que Jesus não tinha permitido a ele a leitura. Ele que se preocupava com as distâncias do mundo.

Papo de ônibus é assim. Surpresa que, em meio à corrida do dia-a-dia, nos apresenta o ser humano em sua tragédia. Trágico era ele querer ler e não poder investir contra o que no seu imaginário — a autoridade máxima da hierarquia de sua religião — o impedia de ler. Dentro dele não havia espaço para nada diferente disso. Quem sabe? Uma revolta, um questionamento. Uma pedra na mão. Nada. Havia uma parede enorme de inconsciência entre ele e a realidade. Injustiças de um mundo mau. Um desperdício. Um analfabeto funcional em tudo na vida. Um quase. Um projeto mal acabado. Tão desajeitado. É assim.

Imagens: Andy Warhol, Quadro; Tadeu Jungle, Olhos Proibidos


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sexta-feira, 16 de outubro de 2009

FILOSOFIA DE QUINTA >> Leonardo Marona

Só seria capaz de ter respeito por mim mesmo no momento em que me odiasse. Mas gosto de mim em silêncio, como aquele pai que, no último dia do ano, revela “eu te amo, meu filho”. Engraçado passar esse tempo todo sem escrever e de repente, tentar a possibilidade do esquecimento, da ferrugem, da incapacidade de sentir a dor que move. Movo? Sim, há mudanças farejando a carne, há movimento, mas ele existe primordialmente pelo medo cultivado, pelo medo que é a única sensação que tenho de estar no mundo. Quando fico sem escrever muito tempo, arranjo mil desculpas: há um maníaco me perseguindo com ameaças de me cortar fora as mãos. Há uma separação de amor lamentosa, e qual separação lamentosa não é de amor? Há uma casa na colina e a febre da cabana que pode tomar meu corpo. Mas é tudo subterfúgio. Quero esticar a corda para reconhecer o material de que é feita. Se estourar, direi a mim mesmo: era uma corda vagabunda, preciso arranjar outra. Mas talvez o que impele seja realmente o pequeno valor da corda arrebentada: meu verdadeiro amor, o amor do que se partiu porque era frágil, inepto. Porque só reconheço a mim mesmo na fraqueza; forte me torno a imagem de toda ameaça sofrida.

Estou solto às ameaças, isso é a minha corda e o ponto da ruptura. Só sou capaz de reconhecer o que é passível de se romper. As duras revoluções só me interessam como quadros de sangue, como dignidade emprestada. Muito tempo sem e percebo como permanecem curtos os períodos de lógica. Sem escrever me deixo levar pelos mais improdutivos caminhos. Uma pedra no chão, um prato branco na mesa, um louva-deus, qualquer coisa vira um “seria isso motivo para”. Mas é na insistência da indisposição que começo a medir o peso do que sinto. Sentir demais o peso, eis quando me torno escritor. Saber que minhas mãos podem ser arrancadas e talvez eu jamais escreva outra vez uma linha, talvez seja isso que importe: precisar escrever sabendo que não é necessário.

Não é necessário e, no momento, arrumo minhas malas, um lugar muito distante fechará suas portas desconhecidas na minha cara. Gastarei minhas solas em concreto vulgar, e do atrito com a borracha farei a carga que me leva arrastado ao que não posso reconhecer, porque reconhecer seria matar. Só duro o tempo da escravidão mental, da vulgaridade das superfícies, o resto é um querer estar distante. Sou atento a tudo que sou incapaz de compreender e, quanto ao que compreendo perfeitamente, gosto de citar como o que nos faz perder tempo. As curvas, ninguém fala delas, estamos a quilômetros de distância das metas provisórias. Sobrará do outro lado da distância a flor magra que minha mão leprosa não soube erguer? Mudam as caretas, mas o que estamos escondendo permanece à altura dos olhos. Sinto vontade de escrever um absurdo lógico, algo que justifique a mentira que teimo em afastar de mim. Escrevo porque assim o tempo passa mais rápido, e pelo menos há a sensação aliviante de que ele não foi perdido tolamente, ou que, pelo menos, a tolice é uma tolice reconhecida, limitada por minutos no relógio.

Passar o tempo nunca foi meu forte. Sinto coceiras nas extremidades e acabo salivando sobremaneira. Ando. Mas só suporto andar muito, o dia todo se for o caso, em lugares mínimos. Olho bastante também, e tendo a pensar que olho para muitas coisas ao mesmo tempo, porque minha vaidade me engana com a ideia de que sou uma antena compulsória. Mas não é nada disso. Esse é o cúmulo das palavras. Elas servem para indicar algo, mas nunca poderíamos fazer nada de proveitoso com uma indicação que não surgisse do que não vemos em nós mesmos, com urgência, sem palavras. Concluindo, as palavras são a contradição do tempo e do desejo. E quem enxerga muito bem lembrará de muito pouco. Contradições de um deus minúsculo. Isso porque elas, as palavras, representam nossos desejos cristalizando-os, e ao cristalizá-los podemos vê-los, algo que era antes impossível, pois os desejos não são materiais. Então, cristalizados pelas palavras, os desejos se tornam a mala com peso que podemos jogar pela janela do trem. Maldição do escritor: só se mata o que se reconhece. O escritor, portanto, é este: seco a ponto de inventar a felicidade; mau a ponto de matá-la, com o argumento de que era uma felicidade incompleta. E conhecendo os buracos de sua própria criação, ele pode se vingar de deus.


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quinta-feira, 15 de outubro de 2009

AQUELA PROFESSORA >> Kika Coutinho

Ela tinha os cabelos lisos, acho que viviam puxados para trás, e usava óculos como toda professora que se preza (ou que se prezava, na época). Uma pele clara, uma voz macia, Tia Márcia foi a minha professora predileta. Na verdade, mal me lembro de ter tido outra, pelo menos não nessa primeira infância.

Uma vez resolvi fazer-lhe um presente, com toda a minha dedicação e carinho. E a minha idéia genial foi preencher um caderno em branco com beijos sem fim. Passei batom e iniciei a epopéia. Horas beijando as folhas em branco do caderno. Revezando algumas cores do batom, para ficar mais bonito. Limpava a boca do vermelho e passava o rosa, depois o vinho, virava a folha e continuava com o batom marrom, provavelmente tirado da gaveta de minha mãe. Depois de muito caprichar no biquinho, para que os beijos ficassem lindos e meio redondos, encapei com cuidado, escolhi uma folha bonita e escrevi o nome dela em letras garrafais: Tia Márcia. Pra finalizar, escrevi na capa qualquer coisa como “mil beijos para a professora que eu amo”, e entreguei a ela.

Hoje, tudo o que consigo pensar é que esse é o presente mais nojento que alguém pode receber. Imagine que as folhas ficaram grudentas, meio melecadas e, obviamente, deveriam estar cheia de bactérias, além de ser absolutamente inútil, é claro.

No entanto, a reação da tia Márcia foi surpreendente. Nem preciso fechar os meus olhos para lembrar-me daquele recreio, nós duas no pátio enorme da escola, eu lhe entregando, de forma singela — quase tímida — minha grande obra de arte. Tia Márcia recebeu, abriu e logo estava radiante. Sorriu e me abraçou como se ganhasse uma jóia preciosa. Ela folheava aquele caderno nojento e sorria felicíssima, repetindo que era lindo, que ela amara, demonstrando um encantamento que me encheu de alegria e orgulho. Meu presente fora um sucesso, eu tinha agradado afinal de contas. O que mais quer uma criança, a não ser agradar? Mesmo quando erra, e irrita, é agradar que elas querem.

Hoje, na minha memória, chego mesmo a achar que a tia Márcia tirou os óculos para enxugar uma lagriminha, que teimava em cair. Talvez isso seja um pouco demais, talvez seja fruto da minha memória poética, que guardou ali, naquele instante tão tolo e fugaz, um instante de completude e alegria. E disso, são capazes os professores.

Eu, na minha profissão, por mais que me empenhe, dificilmente darei a alguém esse pequeno presente de amor. Ninguém nunca falará: “Conheci uma consultora inesquecível”. Ou “A primeira analista de RH que conheci, mudou a minha vida”. Não, não existe. Essa possibilidade de cravar-se na memória do outro, tal qual uma prensa que nunca se solta, é um prêmio concedido apenas a alguns papeis. Alguns personagens que, afora todos os problemas e desânimos, são capazes de encantar-se com um caderno em branco, lotado não de só de marcas de batom, mas de amor e gratidão.

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quarta-feira, 14 de outubro de 2009

SOLICITO DESCONSIDERAR ESTE AVISO >> Carla Dias >>

O suor escorrendo nas suas faces rubras. Diria o poeta que acabara de fazer amor sem mordaças. Já o empregador o consideraria dos mais competentes funcionários. Cada um olhando de um lado, como se o homem estivesse partido ao meio.

E se apenas cavasse valas para as decisões tardias, num vaivém de enxada quase tocando o céu, antes de ser enfiada na terra?

Disseram que ele é o único que sabe de intrigante segredo. Seja o que for, deve doer o diabo, porque quem, em sã consciência, ou em consciência entortada, gostaria de ser guardião solitário de uma importância que jamais deve ser revelada?

E tem o homem de ficar na mais absoluta mudez, o voto de silêncio enfiado goela abaixo, porque se abrir a boca, se verbalizar que seja o desejo pelo doce que é seu preferido, pode deixar escapar o segredo como escorregam das nossas mãos o que não nos cabe resolver.

A moça vomita verdades às donas de casa, modelos, meninas da roça, ladrinhas de lojas de bijoux, princesas à espera de príncipes, professoras do Ensino Médio, sem se ater à benfeitoria dos bons modos. Há nela a excitação dos jogadores viciados. Seu vício, perdido nas cartas que embaralha, é ler futuro de quem nunca quis saber sobre ele. É uma alcoviteira esotérica, que melindra os descrentes, aborrece as carolas, ensandece os homens que encontram na sua habilidade fetiches que os tiram da rotina do pálido amor por suas tão corretas esposas.

O menino constrói um castelo e lagos cheios de vitórias-régias numa folha de papel, o lápis deslizando sobre o verso de uma página de um livro de matemática, logo abaixo da última lição do capítulo sobre fórmulas de adição e subtração. Ainda não sabe muito sobre os números e até se atrapalha com a tabuada, mas sabe muito bem somar e subtrair as horas que tem de esperar a mãe chegar do trabalho e levá-lo para o barraco, tirá-lo da rua, da presença de desconhecidos que tropeçam nele como se o menino fosse apenas um obstáculo em seu caminho.

Recebi essa carta mencionando que devo comparecer no banco para atualizar meu cadastro e tem de ser pra ontem. O tom fora de tom, como as correntes que impregnam nossas caixas de correio virtual - pregando que se não passarmos adiante vamos sofrer sérios abusos do destino, correndo até o risco de morrermos secos de tanta infelicidade - me fez pensar nessas pessoas tão deslocadas, e até com mais atenção em mim, já que me enquadro no deslocamento e em mais de um sentido. Já é tão complicado viver, apesar de todas as levezas, de todas as alegrias, de tantas conquistas. É difícil nos mantermos no rumo que nos leva ao melhor de nós mesmos, sem que cartas nos cheguem como, primeiramente, uma certeza de que erramos. Depois, como seres domáveis, que suspiram alívio quando lêem: “Caso já o tenha feito, solicito desconsiderar este aviso.” E na minha tolice exacerbada eu questiono o fato de você não poder responder imediatamente: desconsiderado está.

Sei que num outro momento isso não me aborreceria dessa forma, que eu encararia como apenas mais uma engrenagem do cenário comercial atual. Mas deu de eu estar pensando naquele homem... Naquela moça... Naquele menino. Há dias em que não conseguimos ser um dos dentes da tal engrenagem. Que estamos para as cartas de amor, de redenção. Para as descobertas e previsões. Para os castelos dos sonhos em versos, ainda que ele não saia do papel.

E caso você já tenha se desentendido com meu lamento desengonçado, solicito que desconsidere este aviso: às vezes o que dá na gente é vontade de sumir do mapa e morar dependurada em estrelas ou de cara com o mar.



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terça-feira, 13 de outubro de 2009

O MAIS CARO É O MELHOR?
>> Felipe Peixoto Braga Netto


Admiro esse rapaz, sem saber seu nome.

Nunca trocamos uma palavra. Não sei se trocaremos. Eu o vejo, breves segundos, quando passo numa rua lá do bairro.

Logo se vê que é um rapaz pobre, de origem humilde. Sua função, também humilde, é estacionar os carros que chegam na majestosa academia de ginástica, a mais cara, provavelmente, da cidade.

Os carros que chegam parecem helicópteros, se é que não chegam alguns helicópteros. Eu não sou bom em nomes de carros (sempre me perguntam quantos cavalos tem o meu carro e eu nunca sei, espero que sejam muitos, ter cavalos é sempre bom). Não sei os modelos nem as marcas, mas, nesse caso, não precisa.

São carros naturalmente importados. Pelo menos a maioria. Também nada sei sobre preços de carro, mas arrisco que com o valor de alguns desses você compra uma cidade e ainda recebe troco.

Nesse oceano de mirabolantes carros incríveis, o modesto manobrista conseguiu comprar o seu. É um Kadett idoso, provavelmente já com netos, quem sabe bisnetos. Talvez tenha sido um dos primeiros carros do mundo. Tem um ar de quem já viu muita coisa nessa vida. Não sei seu ano, na certa algum outro século, um ano muito distante do agora.

É difícil dizer a cor do carro. Eu arrisco cinza sujo, talvez seja isso. Mas não é de uma cor só, é democrático, tem várias. É que a cada batida ou conserto, a parte estragada é de uma cor diferente, com a tinta, imagino, que se tem à mão.

O para-choque não é daqueles agarrados ao carro, cheio de desmesurado apego. Não. Ele está pendurado, caído, quase amante do chão. Os vidros não abrem direito, ou não fecham direito, aí é questão de ponto de vista.

Está bem, Felipe, isso é motivo para crônica? É.

É porque é bonito, levemente engraçado, o orgulho do dono. Exibe o carro velhíssimo com um ar de satisfação, de "é meu", de "eu consegui". Sempre que pode, para o carro em cima da calçada, bem em frente à academia, e exibe, majestoso, seu decadente troféu.

Decadente, claro, só para quem não sabe ver, quem tem os olhos embaçados pelas lentes de uma vida fácil. Faz a gente pensar que as pessoas felizes não têm necessariamente as melhores coisas, não é isso. Elas sabem valorizar o que têm, a diferença é essa.

Acho que ele não pensa isso, mas tinha todo direito de pensar. De pensar assim: "Como vocês são pobres! Todos os seus tesouros não pagam a alegria que sinto com esse carro velho, esse carro caindo aos pedaços que eu consegui comprar. Eu consegui!".

É engraçado, mas é também bonito.

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segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A INDESEJADA >> Albir José da Silva

"Quando a indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável)
Talvez eu tenha medo".
Manuel Bandeira


A transferência para o CTI aconteceu há duas horas. Rostos compungidos, olhos vermelhos e narizes congestionados esperam, chegam e se encontram nos corredores. Mas as olheiras informam que já dura vários dias essa situação. A peregrinação ao hospital começou há semanas com a internação. Nesse tempo, sustos, ambulâncias, telefonemas de madrugada — "Ele não está nada bem!" —, faltas ao trabalho e noites sem dormir: "Vai para casa, tenta dormir, você já ficou ontem."

O médico trazia notícias a cada meia hora. Notícias que não diziam nada. Nada de melhoras: "O neurologista está chegando para fazer uma avaliação. Temos de esperar."

Esperar é ter esperança. E ontem ele estava tão tranqüilo. Ofegante mas tranqüilo. "É, tranqüilo até demais. Pediu pra trazer as crianças, mandou devolver um livro que pegou emprestado há anos. Não gostei nada daquela tranqüilidade."

Mais trinta minutos, que pareceram meses. E outros trinta. "Estão muito quietos. Onde está esse médico?"

Veio a assistente social. Quem é o responsável pelo paciente? Entre aqui, por favor. Na sala, o médico. "Sinto muito. Fizemos o possível."

A copeira, que acompanhou tudo, viu aquela movimentação e adivinhou. Circulou entre os suspiros, as lágrimas, o choro convulso, os abraços e até os abanos a alguém que passava mal. Parou na mesa da recepcionista e comentou:

— Que pena. Eu conversava muito com ele. Era tão simpático. Falava sempre com um sorriso. Mesmo quando começou a piorar. E deixa tanta gente triste. Devia ser muito querido. Sabe, eu trabalho aqui há três anos e nunca me acostumo com isso. A gente fala com a pessoa num dia e, no outro ... Bem, é a vida. Não sei por que que eu sou boba assim... — e limpou uma lágrima.

Talvez eu não mereça, mas é assim que eu queria a minha morte. Boba como essa lágrima.

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domingo, 11 de outubro de 2009

ENTREGA-PRAZERES >> Eduardo Loureiro Jr.

Rafael Muller - Flickr.com

Vocês sabem que tenho aversão aos estraga-prazeres que são os despertadores. O despertador é uma daquelas invenções que só pode ter sido engendrada pelo filho-da-puta de um militar de alta patente que quer acordar todo o batalhão muito antes do necessário mas que, ele mesmo, quer continuar dormindo. O despertador é a terceirização do "Sentido, soldado!", é a mais pura expressão do autoritarismo e da violência exercidos sobre essa criatura frágil e inocente — quase infantil — que é o sono.

Mas, e isso não é novidade pra ninguém, há males que vêm para o bem e são justamente os reconhecidos estraga-prazeres que costumam nos surpreender com feitos agradáveis, deliciosos, memoráveis. É quando o estraga-prazer se transforma num — atenção para a novidade — entrega-prazer. Sim, sei que a expressão não existe, mas a ideia é mesmo essa: onde não se pensa que não existe, aí mesmo é que está.

Por exemplo, a vizinha ranzinza, podemos até mesmo dizer síndica, que fica vigiando tudo que você faz, e lhe denuncia na reunião de condomínio quando você, por engano, coloca o lixo seco na lixeira de lixo orgânico ou, pior, o lixo orgânico na lixeira de lixo seco; e que propõe que lhe seja aplicada uma multa só porque você colocou o som um pouquinho mais alto num final de semana prolongado em que a maioria dos moradores não estava nem em casa. Já deu pra notar a chatice da figura? Pois bem, então essa mulher que não tem nada de adorável resolve, sem mais nem menos, bater na porta do seu apartamento no meio de uma tarde de sábado e lhe entrega um potinho daqueles de sorvete, dizendo "acabei de fazer esse bolo, e não tinha ninguém com quem dividir". Aí você agradece, fecha a porta, abre a tampa do potinho, gosta do cheiro mas fica se perguntando se tem algum serviço a domicílio de identificação de substâncias perigosas, ou mesmo venenosas, presentes em alimentos doados por pessoas antipáticas. E, mesmo não tendo qualquer garantia, mesmo não estando depressivo nem com vontade de flertar com a morte, você pega um garfo, enfia no bolo e depois coloca na boca. E o gosto do bolo é a antítese dos desgostos da vizinha síndica. O bolo é a própria redenção da figura antipática da vizinha e você a perdoa, afinal toda a doçura ausente nela está concentrada naquele bolo — feito um artista que coloca toda a alegria na sua obra e vive uma vida absolutamente melancólica.

Nunca lhe aconteceu de ter uma vizinha assim? Comigo também não. Inventei isso aí só pra ilustrar. Tenho vergonha de contar as coisas reais que já recebi de vizinhas, o que não faz com que elas sejam — as vizinhas — menos síndicas ou que elas sejam — as coisas — menos deliciosas. Além da vergonha, também não costumo falar das mulheres com que tive o prazer de estar em vigília. Podem pensar que estou me gabando — o que estaria longe da verdade. O máximo que eu poderia sentir seria um profundo agradecimento, a la Willie Nelson: "I dedicate this song to all the girls I've loved before". O que me permito, ainda assim com um certo acanhamento, é falar das mulheres que tive em sonhos: nos recantos da minha imaginação acordada ou mesmo em felizes noites e tardes de sono. (Aliás, é uma mulher dos sonhos o único motivo de inveja que um grande amigo meu tem de mim. Só porque eu sonhei que namorava a Maitê Proença atrás das cortinas do Cine São Luiz, em Fortaleza. E eu admito que essa combinação é mesmo invejável, pois sonhar namorando já é suficientemente bom; dentro de um belíssimo cinema como é o São Luiz, um privilégio; e, com a Maitê Proença, chega a ser um abuso de felicidade.)

Mas não estou aqui pra falar de mulheres, e sim de despertadores. E a prova de que eles são mesmo estraga-prazeres é que alguns de vocês abandonarão a crônica agora mesmo, afinal por que eles têm se intrometer justo agora que o assunto está ficando interessante: cinemas, namoros, deusas...

E é exatamente aqui que surge a surpresa. Devido ao despertador que acabou de me tirar de meu tradicional e revigorante cochilo, devido a esse desprezível objeto é que estou escrevendo a crônica de domingo com quatro dias de antecedência, no início de uma tarde de quarta-feira. Porque os despertadores — se no mais das vezes nos roubam de um sono que poderia ainda continuar por alguns minutos, ou até mesmo horas — algumas outras vezes, mesmo que raras, nos acordam no meio de um sonho, o que poderia ser mais uma prova de sua infame utilidade, mas que pra mim, que quase não lembro de meus sonhos, tem um resultado positivo: o despertador interrompe meu sonho, mas ao mesmo tempo o entrega para mim. É aquela velha história de que mais vale um sonho pela metade na lembrança do que um sonho inteiro esquecido. E é nessa hora — que é agora — que o despertador transforma-se de estraga-prazeres em entrega-prazeres.

E se uso a palavra "prazeres" aqui, não é porque queira fazer um trocadilho mais similar à expressão original, é que o sonho do qual fui há pouco despertado foi realmente um sonho de prazer — no sentido carnal do termo. E mais não conto porque estou com o cheiro e o gosto e o suor e a saliva dessa mulher ainda frescos em meus sentidos — e falar com detalhes apenas dissolveria a sensação que tenho deles, porque se a palavra tem o poder de evocar o que estava quase perdido, é também da palavra o poder de fazer perder aquilo que já está por um triz.

E só escrevi o que já escrevi porque não fumo, nem mesmo após o amor. Meu vício é outro: tragar e soprar palavras. Às vezes, estragando prazeres. Outras vezes, entregando-os.

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sábado, 10 de outubro de 2009

PERDÃO, DIFÍCIL E INDISPENSÁVEL [Maria Rita Lemos]

Todo mundo sabe o que é perdoar. Não há ninguém que não tenha passado, ao menos uma vez na vida, por uma dessas duas necessidades: a de perdoar ou de ser perdoado. Mais do que diz a consulta ao dicionário, perdoar não é apenas relevar, desculpar ou aceitar: perdoar implica também em esquecer. Por isso é tão difícil, tão árduo, que para algumas pessoas parece impossível.

Conviver é sempre difícil, e os perdões exigidos para que as uniões funcionem são muitos e diários. Quando se trata de relacionamento afetivo, entre pessoas que se amam e querem juntar suas vidas, então, os problemas triplicam, bem como a necessidade do perdão (aliás, "dos perdões"...) As pessoas são diferentes, vêm de famílias e meios diferentes, e tudo pode ser motivo para desentendimento, desde o mau humor matinal, passando pela toalha molhada jogada na cama, até o fuso horário diferente na hora de dormir e/ou namorar. Se a gente prestar bem atenção, até perde a conta das vezes em que é necessário saber pedir desculpas, para manter a harmonia da relação.

Se é real a necessidade de perdoar nas pequenas coisas do dia-a-dia, o perdão é ainda mais difícil e fundamental nos momentos mais graves, importantes, desses que balançam qualquer relacionamento, como a traição, por exemplo. E aí, como fica, quando um dos dois se esquece, ou negligencia, a promessa mútua que inclue fidelidade? Tem gente que nem quer pensar no assunto: quando se trata de traição, já tem a sentença formulada na cabeça e no coração, e a resposta é sempre negativa. Para essas pessoas, traição não pode ter perdão, porque não dá para esquecer. Se aparentemente perdoam, ao primeiro sinal de que o assunto voltou à baila, já estão triturando o parceiro com o que ele fez, jogando para fora, em todas as oportunidades, a sua mágoa.

Conheço outras pessoas, e agora vou falar de minha amiga Sílvia, que se acha uma "perdoadora" confessa. Ela sentiu a traição na pele, já faz algum tempo, com direito a flagrante e tudo. Pediu a separação, foi morar sozinha com os filhos, houve aquele tempo de mágoa e dor, mas ele pediu perdão e ela acabou voltando para a vida a dois. Segundo Sílvia, a relação já não estava boa e poderia ser ela, e não ele, a embarcar nessa aventura. O melhor de tudo é que, depois desse episódio, o relacionamento dos dois melhorou, e muito. Silvia jura que perdoou e não joga na cara de seu companheiro o que aconteceu, como muitas vezes acontece com pessoas que dizem que perdoaram, mas não esquecem jamais. Concordo com Sílvia, quando ela diz que "não existe nada, neste mundo, que seja realmente imperdoável."

Quem não perdoa, fica sendo escravo de uma situação e não consegue se libertar da mágoa que ela causa. No entanto, essa rua tem que ter mão e contramão: quem é perdoado também tem uma dívida e não pode se tornar um reincidente, ou seja, sabendo da capacidade de perdão do outro, tornar a fazer a mesma coisa, sem qualquer escrúpulo, sempre que tiver oportunidade. Não é porque o parceiro(a) é compreensivo(a) que é possível abusar do seu dom de perdoar. O ato do perdão não pode ser vulgarizado: tem que haver muita conversa, a relação tem que ser discutida profundamente (a famosa D.R., que os homens odeiam). Enfim, tem que haver uma mudança ou uma revisão no "contrato" da união. Naquele contrato que não está em papel nenhum, mas que é o verdadeiro, o que sustenta a relação. Se aconteceu uma falha, tem que estar havendo um defeito ou mau funcionamento em alguém ou em algum lugar, e temos que procurar, juntos, onde está o vazamento, para que as coisas não se repitam.

De qualquer forma, o perdão é difícil, tanto para quem o pede como para quem o concede. Quem pede perdão está se humilhando, não no sentido depreciativo, mas está exercendo a virtude da humildade. Já quem nega o perdão guarda ressentimentos, o que pode comprometer inclusive sua saúde mental e física. Já está provado que a falta do perdão, para quem o nega, pode causar várias doenças, inclusive no sistema imunológico. Por outro lado, quem perdoa se liberta. A pessoa que é capaz de perdoar completamente, isto é, passar uma esponja no passado, mostra toda sua grandeza e generosidade, e faz mais bem a ela mesma que ao outro, que foi perdoado. Perdoar é uma arte, reservada aos nobres de sentimento. Quem ama perdoa, e, consequentemente, é muito mais feliz.

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quinta-feira, 8 de outubro de 2009

MAL-ENTENDIDO >> Kika Coutinho

O ambiente é que não era propício para a conversa. Eu culpo o ambiente.

Estávamos na aula de hidroginástica. Música de fundo, na água, e um professor que gritava:

Vamos lá, pessoal! Subindo esse joelho, abrindo os braços, força!

Não era para termos começado um diálogo, mas quem começou foi ela, então isso também está a meu favor.

— Nossa, estou superdolorida da depilação.

Ops, aí toda a confusão se deu. Eu ouvi a senhora de touca cinza dizer isso. Que estava dolorida da depilação. Achei um bocado estranho o comentário, e precisei de uma aula inteira para notar que ela tinha dito outra coisa. A frase correta era: “Nossa, estou toda dolorida da musculação”. Pois bem. Com a água, a música e os berros do professor, eu entendi depilação e prossegui a conversa assim:

— Puxa, é mesmo, que chato, né?

— Ai menina, fiz ontem, e tá doendo horrores.

Nossa, ela fez depilação ontem e ainda tá doendo. Deve ter ido em um fundo de quintal, cruzes. Perguntei:

— Você fez onde?

— Aqui mesmo — ela informou, me apontando a sala de musculação da academia.

Fiquei surpresa. Na academia agora faziam depilação, e deviam usar uma cera vagabunda ainda por cima. Aão os tempos da Kaliuga, viu?

— Aqui? Aqui faz?

— Você não sabia? Faz e é ótimo!

Ai tadinha, o conceito de depilação ótimo dela tava bem ruim.

— Sei...

— Você devia fazer uma vez. Ia gostar.

Qual era agora? Ela tava me achando peluda? Olhei de soslaio pra minha axila. Mas eu fiz definitiva, como a mulher tá me sugerindo que preciso depilar?

Vamos lá pessoal empurra a água com força, chuta, chuta, chuta.

— Você faz sempre? — perguntei já com raiva.

— Três vezes por semana.

— Três vezes? — tomei um susto! Como alguém faz depilação três vezes por semana, Jesus? Ai, ela deve ter alguma disfunção hormonal, coitada. Eu já fui até me afastando daquela senhora, achando que os pêlos iam crescer ali mesmo, na piscina. Por isso ela tava sugerindo pra eu fazer, claro.

— Ah, mas precisa. Principalmente por causa do braço — ela apontou para o próprio braço, naquele pedaço meio muchibento, e eu já imaginei a axila a la Tony Ramos que ela devia ter, não quis nem olhar direito.

— Braço, perna e virilha, né? — respondi, erguendo o joelho na água.

Vamos lá pessoal, força no joelho, correndo na água, força, não perde o ritma, tá acabando!

— Virilha?! — dessa vez foi ela que se assustou. Ai, meus sais! A bicha depila 3 vezes por semana e agora vem me dizer que nunca fez uma virilha cavada?

— É, virilha. Nunca fez, não?

— Não — ela disse, meio sem graça. — É bom, é?

— Nossa, é ótimo. Devia experimentar — ela se empolgou com a minha resposta e chegou mais perto, perguntando em tom de segredo:

— Mas faz alguma diferença, assim, na hora H?

— Ah, claaaaro —– eu me fiz de entendida. — Faz sim! Fica bem melhor, vai por mim!

A senhora ficou com as bochechas rosadas, mas sorridente. Opa, dei um upgrade no casamento, pensei, me achando um pouco.

A aula está acabando:

Vamos lá, pessoal, esticando bem o braço, espreguiça e soooolta. Muito bom, obrigada, até quinta.

Palmas na piscina...

Eu já ia saindo da água, quando ela falou:

— Vou falar hoje mesmo com o meu professor.

— Como? — perguntei, sem entender qual era o tema agora.

Ela, com um sorrisinho alegre, me explicou:

— Vou falar hoje mesmo com o professor, aqui da academia, sobre essa tal musculação na virilha. Não vou perder essa não.

A senhorinha ainda me deu uma piscadela, se embrulhando na toalha e saindo, toda serelepe em busca da grande novidade que eu lhe informara, tão inocentemente.

A culpa era do barulho, claro...

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quarta-feira, 7 de outubro de 2009

SÓ O AMOR CONSTRÓI >> Carla Dias >>

Quando ele me disse que seu próximo disco teria o título Só o amor constrói, fiquei imaginando que espécie de teia ele estaria tecendo. Conhecendo a obra de Kléber Albuquerque de cabo a rabo, fã de carteirinha que sou, estava certa de que tinha gato nesse balaio.

E passei meses imaginando como seria o pobrezinho do gato. Qual a cor do balaio...

Quando ouvi o disco, pela primeira vez, o gato miou logo na primeira das 15 faixas. Lembro-me do dia em que ele disse: “Até bolero tem, acredita?”. Acreditei, mas tinha de ouvir para crer. E o bolero Só o amor constrói fez o gato correr atrás do rabo feito um cãozinho brincando de descobrir quem é. “Hay que endurecer, pero sin perder la ternura / porque só o amor constrói mas depois cobra a fatura / com juros das juras que fizeste por mim”. Pronto! Um bolero catártico e com refinada ironia.

As letras desse artista são sempre uma atração a mais na música. Esse poeta que não lança livros, mas declama em som seus poemas e os lança em discos — Só o amor constrói é o quinto de sua carreira, sem contar projetos como Umdoumdoum e Faça Virar Música — sabe dizer cantando as ironias que abarcam o ser humano ao serem impingidos pelo amor, pela ilusão e as desilusões que vêm com elas, pelo medo de amar, pelo amar em excesso, pela desconstrução emocional que nos cansa fisicamente, fazendo-nos dizer em alto e bom tom que “é apenas uma gripe”, enquanto é a alma que anda febril de tanto desejo de cair no mundo.

Em seu novo disco, Kléber faz o que sabe fazer de melhor: ele ousa. Para ousar é preciso um talento daqueles para que a obra não se torne apenas um álbum de ideias inacabadas. É preciso da naturalidade dos que realmente não se apertam por estarem em um lugar diferente do outro. De quem faz o que faz porque sim.

O disco segue com uma releitura de uma canção de Adriana Calcanhoto. Quem conhece Esquadros irá se surpreender com a roupagem ska que Kléber deu à canção. E o toque vamp do serrote de Paulo Souza cai perfeitamente.

Do ska para o samba reggae de Seis Horas, parceria com Adolar Marin. Essa faixa é de uma graciosidade entranhada na letra e também na música, apesar de mencionar a rotina e realidade daqueles que varrem calçadas, amassam latinhas e por aí vai. Apesar dos toques de realidade ferrenha, ela faz com que sintamos uma vontade danada de sair dançando com o par, cantarolando “pra viver de faz-de-conta / trabalhar pra pagar conta”. E salve a disposição para recomeçar a cada dia!

Ao ouvir Geração a imparcialidade é impraticável. O bandolim, conduzido belamente por Estevan Sinkovitz, nos leva a navegar pela letra desta canção como se desfiássemos a biografia de uma geração que muito diz sobre nós mesmos: “desde que o mundo é mundo / desde que o sol nasceu / pela primeira vez nos olhos meus / e nos olhos do pai do pai do meu pai / e nos olhos da mãe / da primeira mãe”.

Cala Frio tem coautoria de Isac Ruiz e vocal de Renato Braz. Nesta faixa, Kléber participa tocando violão e fazendo vocais percussivos. Ela conta com um arranjo belíssimo, de fazer a alma da gente se encantar: “barulho no sótão de novo / bagunça no armário de novo / boletim pintado de vermelho / de novo”.

Musicar um poema de Hilda Hilst, ainda mais um com quê renascentista, requer um tanto de intimidade com a obra. Kléber musicou a canção VIII do livro Trovas de muito amor para um amado senhor. A Vossa Casa Rosada, sexta faixa do disco, mostra claramente como a música dele envolveu a poesia de Hilda Hilst: belamente.

A declamação de André Sant’anna, logo no início da canção Já não tenho medo, nos lembra uma ladainha, no sentido religioso, apesar do peso de suas palavras. Quando Kléber entoa “já não tenho medo / já não tenho nada pra me segurar / só o vento bate no meu rosto / a cada dia nasço outro”, as palavras de André se deslocam para o fundo de cena, ganhando ainda mais dramaticidade, enquanto o canto de Kléber faz contraponto, levando o ouvinte a uma viagem interior repleta de nuances.

Logradouro, com coautoria de Rafael Altério, foi incluída pela primeira vez no disco O centro está em todas as partes, lançado em 2003. Vale a presença dela neste disco, pois se trata de uma canção marcante, que merecia ser revisitada: “canaã, teerã, ceará / algum canto dessa terra / um chão qualquer, pois tanto faz”.


A parceria com Fred Martins rendeu a biografia desfiada em O outro eu, com as percussões de Gustavo Souza, melhor, sua “lateria”, marcando a cadência: “um outro eu surgiu em mim / num dia em que eu não estava nem aí / quando dei por mim já era / vi que era outro e que por dentro já não havia / quem outrora eu sempre fora / ou quem em mim de mim quisera”. Mas a participação de Fred Martins não se limita à coautoria da música. Ele também divide os vocais com Kléber.

Dia de Estrelas, parceria com Élio Camalle, é uma canção singela, que cultiva a sabedoria do diariamente. É daquelas que nos coloca em situações comuns — “era dia de feira / era dia de ver e de provar / era dia de feira no lugar” — apenas para que possamos vislumbrar o adiante: “e eu contava as estrelas / eu não tinha ninguém com quem contar / eu contava do brilho em seu olhar”.

Futebol para principiantes discorre sobre a paixão pelo futebol com a visão e animação de um menino pronto a chutar a gol: “o futebol é uma caixinha de surpresa / toda verdinha e amarradinha por uma linha de branca cor”.

Com introdução com som velado, lembrando um radinho de pilha, com tempero de rock’n roll dos tradicionais, Sete Faces, parceria com Chico César, garante ao ouvinte não só uma vontade daquelas de sair dançando, mas também discorre sobre as faces do amor de uma forma quase lúdica: “o amor tem sete copas / sete espadas, sete fadas / tem o amor / sete ouros, sete sinas / sete quedas sem ter dor / sete quadras, sete usinas / sete léguas de vapor”.



“um filme na tevê / um corpo no sofá / um tempo pra moer / o vidro do olhar / e a vida a passar / a vida sempre a passar / a passar”. Kléber Albuquerque e Zeca Baleiro constroem, através da canção Tevê, uma vitrine sobre quem para e espera e acaba se acostumando a assistir a vida assim, como se estivesse sempre com o olhar cravado na tevê: “comercial de xampu / cerveja e celular / modelos (mentiras) para crer / e credicard / a consumir, a consumir / a consumir o olhar / o olhar”.

Por um triz (a canção que compus ao piano nessa madrugada) é uma balada dolente sobre o quase que todos nós, eventualmente, acabamos por experimentar. Ela também intriga pela sua sonoridade. Intriga, mas isso é bom... O sequencer vintage DR-5 e o tecladinho de brinquedo que Kléber utiliza na instrumentação, casados às performances de Paulo Souza no serrote, definem o clima no qual segue a canção: “meu bem / o que será que a gente tem? Hein? / Será que o seu amor morreu, meu? / Será que só sobrou um réu: eu? / Será que a paixão virou pó? Pô! / E se era para eu ficar só: sou. / O triste é que para ser feliz / foi por um triz”.

Fechando o disco, Ponto Final, uma jazz ballad de coautoria de Danilo Moraes, uma canção requintada com letra em linguagem coloquial, gerando uma combinação agradável: “ponto final / assim no começo / quebra total / revira do avesso / pega até mal / dizer não tem jeito / hoje é normal / formar um par imperfeito”.

A alma do compositor-poeta é de inquietar quem a escuta através das suas canções. Kléber Albuquerque é referência no cenário da música popular brasileira contemporânea, mas é com ancestralidade, tirando sentimento lá de não sei quando, que digo que ele também é de outros tempos que não agora. Há uma sabedoria nele que só os que se permitem observar para enxergar além, pacientar-se para escutar profundidades, é capaz de alcançar.



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Ouça algumas canções do Só o amor constrói no Myspace:
www.myspace.com/kkleberalbuquerque

Fotos: Alessandra Fratus
www.flickr.com/photos/afratus

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terça-feira, 6 de outubro de 2009

QUEM MANDA SER ROMÂNTICA?
>> Felipe Peixoto Braga Netto

Se você ainda chora ou pelo menos se comove com certas canções, se você ainda olha, com carinho, para coisas obsoletas como a lua cheia, se você, ao conhecer certos locais incríveis, ainda pensa que irá lá um dia com seu amor, sinto muito, mas eu devo avisar: você está no século errado.

Século errado?! É, século errado. Peça o seu de volta, acho que se enganaram. Você é romântica, isso não se faz mais. Ninguém entende, é como falar chinês no Mineirão, vão olhar para você com perplexidade, talvez com pena.

Os séculos, minha amiga, mudam de idéia, mudam de roupa. O romantismo é uma roupa que não cabe mais. Fica apertada, a perna aparece, ou então fica lamentavelmente larga, grande, excessiva. Aliás, faz tempo que é assim.

Lamartine Babo, compositor que trouxe a música brasileira de volta ao caminho da simplicidade, era um romântico incorrigível. Depois de receber cartas inteligentes e bem escritas de uma jovem de Boa Esperança chamada Vera, tomou um ônibus para ir conhecê-la, embora ela tenha dito que o encontro pessoal não seria possível. Chegando na cidade, ninguém quis dizer nada sobre a identidade da garota, embora todos rissem misteriosamente ao desconversar. Disposto a desvendar o segredo, Lamartine se dispôs a conversar com a menos sedutora das moças presentes. Ela, então, revelou-lhe o segredo: a inteligente autora das cartas, por quem Lamartine estava apaixonado, era o irmão dela, professor de Latim.

Pior: toda a cidade sabia do caso, e se divertia às custas dele. O tal professor chegava a ler em público, no clube da cidade, as respostas enternecidas de Lamartine. Nem por isso o genial compositor perdeu o bom humor, censurando-se apenas: "Bem feito, Lamartine! Quem mandou ser romântico?"

O melhor é ser duro, seco, impassível. Nem faça cara feia, leitora, a culpa não é minha, é do século. Faça como aquele colunista sentimental do jornal. Conhece a história? Foi assim. Uma mulher, desesperada porque encontrou o marido com outra, escreveu para a coluna sentimental do jornal. O problema é que a coluna era escrita por um homem. Ela escreveu dizendo: "Pelo amor de Deus, me ajude! Estava indo para o trabalho quando meu carro, sem nenhum motivo, deixou de funcionar. Peguei um táxi e voltei para casa. Encontrei, perplexa, meu marido na nossa cama com uma aluna dele, de vinte anos. Por favor, me ajude!"

Resposta do colunista: "Deve ter sido falta de combustível ou a injeção eletrônica. Procure um mecânico."

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domingo, 4 de outubro de 2009

FELICIDADES >> Eduardo Loureiro Jr.

Hoje é seu aniversário. Eu queria poder lhe dar os parabéns, lhe telefonar, lhe dar um beijo e um abraço, desejar-lhe um ano novo cheio de alegria e sentido. Eu queria fazer-lhe ao menos uma crônica, mas, se você não ler o que eu escrever, será que eu escrevi realmente alguma coisa?

Há quanto tempo não nos vemos? Quinze, dezesseis anos? Sim, eu a vi uma vez, num shopping, de passagem, há uns doze anos. Você me viu? Dizem que o mundo é pequeno. Se fosse verdade, as cidades seriam minúsculas. Por que então só nos encontramos essa única vez que nem chegou a ser um encontro, foi apenas eu vendo você sem saber se você também me viu? Se o mundo fosse mesmo pequeno, você e eu teríamos nos esbarrado algumas vezes, a última há poucos meses talvez. E o seu olhar no meu talvez pudesse ter aquela alegria que a gente tem ao encontrar as pessoas que marcaram nossa vida

Eu não lembro do seu derradeiro olhar pra mim. Não lembro se foi um olhar de súplica ou de desprezo. Carrego em meu peito uma culpa que não sei se é real. Fiz alguma coisa que tenha lhe magoado profundamente? Às vezes, penso que sim. Outras vezes, penso que... sim. Mas como posso lhe ter feito algo de mau se, em minha memória, predominam alegrias dos nossos momentos? Sua farda desbotada do colégio, seus bilhetes constantes e amorosos, um trecho de poema de Ricardo Reis anotado em um marcador de livros feito por você, uma flor seca de orquídea entre as páginas da bíblia que eu usava à época, seus dedos e sua voz ao violão, o amor feito na praia, sua alegria ao receber meus poemas diários...

Suas derradeiras palavras eu recebi também num aniversário. Era um telegrama. Dizia simplesmente: "Felicidades." Havia ironia ali? Não, era eu o rei da ironia, você sempre foi rainha de coisas mais altas. "Felicidades." As felicidades começaram ali mesmo naquele telegrama. O que falar ou desejar para um amor que se foi? Felicidades. Será que vem daí a minha culpa? De receber felicidades de alguém para quem se entregou tantas outras coisas menos felizes?

Lembro de ter descoberto seu endereço, anos depois, e de ter lhe mandado um telegrama, imitando o seu gesto: "Felicidades." Havia ingratidão ali? Eu já me considerava escritor àquela altura, mas talvez ainda não seja realmente um escritor. A escritora é você. Escrever não é dominar as palavras, é ser dominado por elas. E você, que me mostrou Fernando Pessoa, Cecília Meireles e Cora Coralina, sempre foi mais dominada pelas palavras do que eu. Não era eu o poeta e você, a musa. Era você a poesia e eu a caneta das palavras que lhe dominavam. Você recebeu meu telegrama, minhas "felicidades"? Eu sei que felicidade não tem resposta, mas também não há felicidade sem resposta, sem comunicação. Eu não sabia disso à época do seu telegrama, nem do meu.

Quantas vezes me veio o pensamento de que só agora estou pronto pra você, de que se eu fosse então quem hoje eu sou, eu não teria estragado tudo. Não são os relacionamentos que não dão certo, é a gente que não está certo. Vai errando, errando... E, quando começa a acertar, a gente percebe que a sorte de principiante não serve pra quem não paga o bilhete. Você não foi, mas foi, a minha primeira namorada. Foi o meu primeiro amor. Foi os meus primeiros versos. Foi a minha primeira caminhada pelas madrugadas desertas, voltando pra casa depois que os ônibus já haviam se recolhido. Você foi minha primeira Ana de carne e osso, meu nome de estimação.

Hoje sei que você está casada e tem filhos. Sei onde você trabalha. Acompanho você feito um fã que segue um artista querido e incomunicável. Um fã que tem medo até de pedir um autógrafo. Eu já não moro mais na minúscula cidade, mas talvez o mundo um dia revele pra mim sua tão notável pequenez e você me apareça na frente, nem que seja para eu confirmar a minha culpa em seu olhar. Ou melhor que não. Que o seu olhar desfaça o meu medo infantil de ter sido ingrato com quem foi pra mim todo o bem que alguém pode ser para alguém.

Até lá, enquanto isso, vou errando e acertando, tentando largar o domínio das palavras e me deixando dominar por elas. Feito agora, quando olhei no calendário e vi que o domingo que é meu, de crônica, também é seu, de aniversário, e o coração deu um salto e os dedos começaram a fazer cócegas no teclado.

Engarrafo então essas palavras neste site e lanço ao mar da internet.

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