domingo, 30 de agosto de 2009

HOMENINO >> Eduardo Loureiro Jr.


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(Para ouvir antes, durante ou depois da leitura.)


Qualquer homem é mais homem do que eu. Eu ainda sou menino. Menino que, olhando pelo buraco da fechadura, deu de cara com um espelho e se viu — menino — olhando pelo buraco. Menino que se percebe menino. Homem ainda não.

Mais homem do que eu é aquele que faz barulho com uma britadeira e me arranca de meu sono. Mais homem do que eu é quem faz rua, casa, poste, mesa. Operários em construção são mais homem do que eu. Desempregados com família pra cuidar são mais homem do que eu. Aquele que trabalha dois expedientes é mais homem do que eu. Quem trabalha um turno extra, então, é ainda mais homem do que eu. O jovem descuidado que engravida a namorada, e casa, é mais homem do que eu. O homem comum, burocrático, da casa pro trabalho, do trabalho pra casa, é mais homem do que eu. Até o homem que sente raiva da mulher, e bate nela, é mais homem do que eu. Até o mendigo que pede, até o ladrão que rouba, até o golpista que frauda é mais homem do que eu. O homem que dá a bunda é muito macho pra mim. Mesmo o homem que muda de sexo é mais homem do que eu.

Não se iludam com meu jeito. Eu não me iludo mais. Com a simpatia, com o mistério, com as palavras. São travessuras de menino. Não caiam na rede que eu armo, e em que estou deitado. Tranquilidade que nada! Preguiça, das brabas. Não se encantem pelo canto meu, sou só eu no meu canto com trejeitos afeminados de sereia. Minha inteligência, minha gente, não resiste a uma prova: é tudo malabarismo de ideias. Não façam mais parte dessa trama, me deixem só no palco pra ver se eu desenredo. Parem de aplaudir. Será que não veem que é tudo esquisito: o som, o tom, a cor? Menino vestido de gente grande, adulto interpretando um menor.

Sei — em teoria, sempre em teoria — que a vida não é tão fácil quanto a alheia me parece nem tão difícil quanto a minha de que reclamo. Mas ainda não peguei o jeito. Tudo que não quero é tão fácil que o que eu quero mesmo beira o impossível — e me abismo. Como as pessoas trabalham, como casam, como têm filhos? Não sei. Não tenho a mínima ideia de como conseguem isso. Já nasceram sabendo, fizeram treinamento ou vão só seguindo o exemplo? Parece que gente aprende com gente, mas aí é que está. É justamente isso que não entendo e não acerto. Como é que gente se dá com gente? Como é que conhece, conversa, se envolve, se entende, se compromete?

Quando acordo, me sinto roubado do sonho de que lembrei. Se não falo com ninguém — que dádiva! —, a vida até parece boa. Estou à vontade na distância do que escrevo e na impessoalidade do que consumo. Mas gente mesmo, de verdade, o olho, o olhar, a palavra... Ai, que medo! Gente pra mim é fantasma. Fecho a porta, me deito, me enrolo, me durmo pra me livrar desse mundo. Menino, menino, menino... que entre um sono e outro faz de conta de gente grande.

Eu só vi agora, mas me custa crer que qualquer de vocês não tenha visto. Confessem! Vocês sabiam que eu sou menino. E por menino sempre me trataram, até com bondosa gentileza para com o maravilhoso mundo do Bobby aqui — Bobby Filho, sempre. E quando eu não devia ouvir qualquer coisa, falavam na língua do P, desconversavam, me mandavam arrumar o quarto. E quando se aborrecem, ainda hoje, me põem de castigo, excluído. Pensam que me importo? Fico com raiva, claro, mas no fundo gosto. Dentro do quarto, estou livre de gente. Sou só livros e discos e filmes.

Vamos lá, confessem, me joguem na cara: "Sim, já que você perguntou, é isso mesmo, você não passa de um menino." Estou esperando... me digam! Ein? Ein?! Ein!

Ou será que vocês não são adultos, são só meus amiguinhos, pobres crianças também?



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sábado, 29 de agosto de 2009

ATORES [Sandra Paes]

— Quem vem aí?

Abertura da peça Hamlet. A pergunta inicial já me remeteu a uma resposta além do texto. Quem representa quem?

Na vida, fingimos que somos apresentados. Desfilam uma série de atributos para nos emoldurar. Descobri recentemente que sempre ponho uma moldura mais valiosa em torno da pintura. Valorizo por demais, assim, cada apresentação e, talvez, por isso mesmo, fique à espera, como um leigo, sentado no teatro da vida, do descortinar de personagens através de textos e cenários marcados.

Shakespeare atravessou os séculos. Ainda hoje, os ditos atores profissionais tremem diante da possibilidade de encarnar um de seus personagens.

E de novo: — Quem vem aí?

Afinal, a frase, em si mesma, é magistral. É sempre assim a cada batida na porta, a cada toque de telefone. A cada virada de pescoço num ambiente qualquer.

Não sei quando e por que ficamos desavisados — estado esse que parece ser o melhor para os enredos começarem, atando ou desatando nós.

Nos dramas de todos os dias, Hamlet começa a toda hora a cada istmo de silêncio. A entrada de alguém nos põe em cena. O que representamos ou pensamos que apresentamos não deixa de ser um enredo. E disso fez-se o teatro, dos gregos aos suntuosos palácios ou salas de governo com seus cargos, todos preenchidos por atores de primeira grandeza que fingem nos representar.

Esses atores, sempre muito bem pagos, desempenham os mais diversos papéis, de eficiência, de logro, de vilões diversos, de protagonistas do bem comum, de defensores da lei ou promotores de uma nova fala diante de um drama social maior, como uma crise financeira e a ameaça coletiva de perda de poder de consumo.

Ser ou não ser não é mais uma questão. Canastrar ou não passou a ser o mote presente no palco da vida. E toda a platéia a pagar ingressos caros para ver de perto quem empresta seu ser a representar melhor uma figura ou um figurante.

A arte de representar ganhou palcos mundo afora. Multiplicam-se os textos, as falas marcadas, compostas por redatores mis em cenários preconcebidos, caríssimos, só pra manter o faz-de-conta de que está tudo bem e o espetáculo continua.

E nós ainda assistimos a adolescentes — esses seres com caras de quem procuram a si mesmos — fanaticamente se rasgando por esse ou aquele ator ou artista que os figura atrás de sons e efeitos especiais. Vale tudo e de tudo na arte de iludir a vista e enriquecer a percepção. Vale — e vale muito — pagar a pule de um desses burros de carga que foi agraciado com o título de ator reconhecido. Que saga!

Toc, toc! — Quem vem lá?

Alguém sabe? No drama real, não esse escrito por Shakespeare, ainda procuram-se respostas. E nessa busca nada oracular, nem ousamos admitir que estamos perdidos, entre títulos de nobreza, pobreza, ativos ou títulos podres.

A multiplicação da diversidade na arte de diversar, e divertir, ganha contornos milionários e miseráveis. E em tudo isso, a arte e a realidade cruzam suas pernas e nos confundem em sua cópula nem sempre orgástica, nem sempre fértil. E ainda dizem que o espetáculo não pode parar.

Eu ando cansada de tanta cena, tantas caras e bocas, e não consigo ver o texto real, a fala nua, a face crua, sem a câmara (de preferência), sem esse clique no olhar que revela que sabe estar sendo visto e julgado por sua performance.

Ah, pelo menos nos palcos as cenas são dirigidas com nomes impressos em programas, os personagens são revelados por pessoas cujos nomes são expostos em algum cartaz. Na vida, esse enorme palco diverso, vou me confundindo a cada dia, a cada cena, a cada show, e já nem sei se gosto do que vejo, do que participo. Quem me dera que as cortinas realmente fechassem!

Afinal, quando é que a gente se livra da existência do personagem que fazemos desde o dia em que nos deram um nome, uma filiação, um local de nascimento e uma carga de valores como cartas a serem jogadas em cenários que nem sempre conhecemos muito bem a locação?

Não sei quem é meu diretor, nem sei ao certo se sou autora de meu próprio texto. Se escolho nomear Deus como o pai de todas as obras, tenho que lhe dar crédito pelas óperas diversas com tudo que o homem como coadjuvante vem performando.

De cara por espelho, nesse instante, de rosto pálido e com pouca luz, não me reconheço — nem me sei! De tanto atuar para ter um lugar no palco da vida, seja lá o que isso significa, começo a perceber que não preciso ser atriz, nem meretriz — uma mera atriz. Mas sinto a vida me cobrando a atuação e a dor de saber que gostam quando represento o papel que me atribuíram, quando eu apenas quero fechar as cortinas — e pra sempre...



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sexta-feira, 28 de agosto de 2009

OS ÚLTIMOS INSTANTES DE TIM BUCKLEY >> Leonardo Marona


É com extrema dificuldade que acendo o cigarro. Não sei ainda o que está me matando. Penso nos cabelos loiros de meu filho, sei que também ele não escapará, terminará com as calças encharcadas e o estômago inchado de peixes. Minha mulher, ela nunca me entendeu, e apenas isso facilitou o nosso amor. De outra forma não haveria amor, esse élan, não haveria afinal este cigarro na boca. Só os imbecis fumam sem motivo. Adoraria ser um imbecil. Palavras tão gastas quanto a lâmina que decepou Garcia Lorca. Imagino as mortes sempre a facadas.

O frio que faz, sei que não vem de fora. Apenas sei que chove, foram muitas gotas, sinto as gotas escorrerem pelos meus cabelos. Tão bonitos eram os meus cabelos. Fartos e volumosos. “Você parece o Tim Buckley”, ela dizia. Onde estará ela? Tanto tempo não nos vemos. Ou será que foi ontem? Repentinamente me vem a imagem de Dostoievski se agachando para apanhar a pena, rumo à última hemorragia. Dostoievski tinha as pernas curtas e a testa larga e andava sem mexer os braços ou dobrar os joelhos, como se ainda estivesse com as correntes em volta do tornozelo na Sibéria. Imagino como seria Dostoievski sem camisa, os ossos do tórax protuberantes, as costas curvadas em eterno suplício epilético.

Tento com toda a força – que de todo modo míngua – lembrar a besteira que fiz, a música que não completei, estrofe mal lavada. Não queria cantar mais, talvez seja isso. Morre-se quando se deixa de cantar, e eu não queria cantar mais.

Mas não estou morrendo, não é possível. Apesar da respiração dificultosa. No mais, sinto-me tão bem. Tento alcançar a infância, milenar tradição dos moribundos. Lembro da época em que brigávamos demais. Os motivos se despedaçaram, o cancro permanece. Ficava tão deprimido que lia continuamente Carta ao Pai, do Kafka, e dizia que ela era o motivo de toda desavença. Precisamos todos de um motivo, uma carta que seja, que nos cuspa à face. Acredito que as pessoas enlouqueçam por terem muitas opções, inclusive a Carta ao Pai, do Kafka, como concreto para a desavença.

Engraçado ter alcançado o papel. Parece algo pressuposto, que se tem que fazer. A embriaguez me impede de pensar direito, e nem bem tenho muito o que dizer, mas sinto-me levado a dizer qualquer coisa – talvez que a embriaguez seja apenas um assumir sem ironia.

Se o cérebro funciona à toda, o corpo hesita. Veste a roupa, meu amigo, veste a roupa e sai. As pernas usam patins e não escolhem a direção. Palavras nunca foram o suficiente e aqui estou, sem palavras, explicando coisas que se contradizem.

Há dias em que o sol está tão forte e a luz é tão bonita, que não resta mais nada para nós. É horrível, ele revela sem rodeios a desgraça da contradição humana, o mito de Ícaro talvez. Queremos a luz, queremos ser luz, ou ao menos olhar para ela, mas quanto mais perto dela estamos, mas inadequados nos sentimos. Como alguém que, mesmo não sendo muito feio, perto de alguém lindo, torna-se horrível.

Talvez eu seja mesmo Tim Buckley, já que tenho marcas azuladas nos meus braços e pernas. De fato, sou Tim Buckley diante das pedras que se dissolvem em mágoas e blues com gemidos falhos. Há um homem na minha frente. Parece conhecido, parece miragem. Ele se afasta de repente, se afasta e esconde alguma coisa. Talvez o vício nos transforme em alguém que se parece com alguém que vagamente conhecemos, e somos nós. Talvez a morte, essa coisa doce.

Sinto vontade de ir atrás do homem que há pouco estava na minha frente, dizer a ele que não terá tudo sozinho, que preciso de mais, um pouco mais para ser menos vagamente o que já não reconheço. Mas ainda está nítido na memória: “Você se parece tanto com Tim Buckley”, me disse ela, uma vez. A memória de repente é isso. Lembrar de quando éramos parecidos com o que já não somos.

Maldito sol, melodia que estoura os tímpanos, que nos arrasta na direção do tempo. Uma queda no tapete e é tudo. A última visão da cópula entre pássaros. Coçar a cabeça, lembrar o antigo gesto, sonho de mulheres e homens duvidosos. Somos as cinzas de uma nova era. Coçar a cabeça e, de repente, cair. Cair irremediavelmente, atingir por fim o método. Beijar o sol com escorbuto. Dizer te amo, deixar. Rimbaud.


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quinta-feira, 27 de agosto de 2009

A DOR DA DÚVIDA >> Kika Coutinho

Marília era uma colega de trabalho que logo tornou-se grande amiga.

Eu lhe contava as minhas esperanças e sonhos, meus anseios e preocupações, e ela, um bocado mais velha do que eu, contava-me de suas dores e frustrações, suas tentativas fracassadas e seus problemas sem fim.

Marília passava por um casamento muitíssimo conturbado e tentava com unhas e dentes manter aquela relação, já tão desgastada. Eu, que era uma menina jovem e solteira, sentia um misto de pena e admiração por aquela mulher. Ela era brava como uma leoa protegendo os seus filhotes, enquanto o marido, que eu conhecia mal, não manifestava a mesma força e gana para manter aquele amor.

Foi numa manhã ensolarada que Marília chegou com uma excitação diferente: “Você não vai acreditar!”, ela disse, meio que animada, meio que chocada. “O que foi?”, perguntei, entusiasmada. “Achei uma coisa no bolso dele, achei!”. Ai meu Deus – eu gelei diante do fato. Marília correu, me chamou até o banheiro e lá, ambas assustadas, ela tirou da carteira um pequeno papel, um pedaço de uma embalagem plastificada que eu nunca decifraria de onde viera. “O que é isso, mulé?” perguntei, aflita. “Fala se não é um pedaço de uma embalagem de camisinha!”, ela me respondeu, certeira. Fiquei entre a minha dúvida e a certeza dela: “É?”, perguntei-lhe, indecisa. Marília dizia que era, que era e que era. Logo concluiu que não era à toa a distância, as reuniões até tarde, a frieza incondicional — mesmo que ela tentasse um aquecimento global — entre os dois... Estava tudo ali, ele a traía e isso mudava completamente a disposição de tudo.

Será que ela devia lutar? Será que ainda valia a pena insistir na terapia? Será que deveria ainda perfumar-se e cuidar-se para aquele homem que, afinal de contas, vivia um — ou vários — casos extraconjugais? Enquanto Marília tinha certeza, eu peguei a tal embalagem e sentenciei: “Amiga, isso pode ser tanta coisa.... Olha, é um pedacinho de nada...”. Ela lembrou-se de achar o tal papel depois que ele voltara de viagem. Havia passado dois dias fora e voltara com um pedaço de uma embalagem de alguma coisa, só poderia ser isso, ela dizia ainda sem querer acreditar.

Tivemos então a idéia mirabolante. Vamos checar. Vamos a uma farmácia, um supermercado e vamos ver se tem alguma embalagem do que quer que seja que bata com esse seu minipapel aí. Vamos? Ela não titubeou. Abandonamos o trabalho com pretexto de vida ou morte — o que, de fato, não era mentira — e lá fomos nós. Eu e minha amiga entramos no Carrefour, achamos a parte dos preservativos e, pasmem, nenhuma batia com aquele pedaço de embalagem. Nenhuma. Ela começou a ficar na dúvida, enquanto eu tentava a parte de alimentação. Confesso que não era craque em camisinhas, mas sabia tudo de ruffles e, para mim, aquilo era um pedaço da embalagem de alguma batatinha chips.

Já estávamos quase desistindo quando, de repente, eu achei. Aquele instante de surpresa foi como acertar no alvo de alguma coisa, um pernilongo que eu matei, um tiro bem atirado, uma foto em seu instante exato. "Achei, achei", eu gritava com um pequeno pacote de amendoim nas mãos. Isso mesmo, um pequeno pacote de amendoim, desses que distribuem em avião, era exatamente a prova do crime que minha pobre amiga tinha em mãos. As cores, o formato, eu encostei o pedaço dela no pacotinho e não restava dúvida. Saí correndo para encontrá-la — ainda nos preservativos.

— Amiga, amiga, achei! Olha, amiga, não era nada daquilo, era amendoim! — eu gritava, animadíssima, no corredor do Carrefour. — Ai que bom, que bom, ele não está te traindo, olha, não está — eu repetia, numa euforia desmedida, quando ela, muito séria, pegou da minha mão o pacotinho e, reconhecendo que o maior pecado do marido fora aceitar os amendoins que de certo lhe ofereceram no avião, disse simplesmente:

— Que pena...

Eu me assustei de início, fiquei ali paralisada sem entender o que era óbvio. Foi ainda dentro do Carrefour, enquanto caminhávamos para a saída, caladas, que eu me dei conta de que, às vezes, tudo que queremos, desejamos e esperamos é — apenas — o pior. Nítido e claro, diante de nossos olhos, o pior, sem nenhuma sombra de dúvida.

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quarta-feira, 26 de agosto de 2009

FELIZ... POR QUE NÃO? >> Carla Dias >>


Uma pessoa nasce desastrada à beça. Então, não consegue andar pela sala sem tropeçar nos móveis, ou sem perceber, na idade incerta das coisas da vida, que errou a mão ao abrir as cortinas, e o fez justo em dia cinza.

A pessoa nasce de atravessado, por isso parece não caber em lugar nenhum... Nem mesmo detrás dos livros, dentro da tela da televisão, debaixo do edredom, na caixa do correio.

Enquanto caminha pelo calçadão, onde ficam as lojas populares, o sonho se acomoda num futuro distante. Logo adiante, como se não tivesse dado três passos, este mesmo futuro - barba branca, fé desbotada, olhar encalhado – lhe confidencia: aconteci.

A pessoa nasce desembestada, ansiosa de um jeito quase insano, como se cutucasse precipícios, como se de lá, do fim sem fim, pudesse contemplar melhor os fogos de artifício. Como se a realidade tivesse sempre que ser a das distâncias.

Quem nasce e depois renasce, dia após o outro, remoça benquerer?

Essa pessoa acreditava que jamais sentiria a felicidade desacompanhada do medo, por desmerecimento, incapacidade de trançar as finas e tempestuosas veias dos acontecimentos, criando um retalho de beleza. Pelo receio de se deixar levar, feito criança, que acredita que todos os dias serão igualmente seguros. Que todos os dias serão guardados pelos cuidados dos seus pais que a levantarão do chão a cada tombo, sem pestanejarem.

E hoje sabe que felicidade é uma dona esperta, que só pega pela mão quem a deseja de fato, e nunca fica para sempre, mas só passa de vez em quando, como a tia que mora fora da cidade e nos traz doces quando nos visita, e também roupas diferentes, livros de histórias divertidíssimas. E somente a espera pela volta dela já inspiradora de alegrias, elas que são os cachos desses cabelos esvoaçados da felicidade.

Essa pessoa aqui está feliz de um jeito diferente. Não é mais a tia quem espero, não mais as tardes de sábado com os melhores filmes na televisão, para ajudar o tempo passar com encanto. Hoje me encanto pela capacidade de um ser humano acalentar a alma do outro. E nem precisa muito... Nesse momento em que tudo parece complicado só para facilitar a vida da gente, me pego acreditando mais e mais na humanidade. Ver o sorriso das pessoas me deixa sorrindo... Vê-las - queridas que são - compartilhando vitórias, me faz sentir tão vitoriosa quanto. Se elas separam um tanto do tempo delas para enfeitar o meu; se mudam de geografia para participar da minha conquista, fazer o quê? É só deixar a Dona Felicidade entrar, gargalhando, completamente despudorada e sem medo de entristecer.

Imagem: Jander Minesso >> www.flickr.com/photos/tantofaz

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domingo, 23 de agosto de 2009

A ESTRANHA >> Eduardo Loureiro Jr.

Eduardo Loureiro Jr. e Carla Dias - foto de Rubia EliasCheguei de surpresa. Bom, pelo menos essa era a minha intenção.

Não gosto de surpresas. Considero um roubo de expectativa. Quem faz uma surpresa tira, do outro, o prazer de esperar. E quantas vezes o prazer maior é justamente esse prazer dos pais que esperam o filho -- principalmente o primeiro -- por quarenta semanas. O prazer da criança que caminha até a sorveteria antecipando os sabores. O prazer do jovem se preparando para o show de seu ídolo. O prazer dos namorados que se arrumam para o primeiro sexo. Tudo isso acontece sem surpresa, mesmo que haja outras pequenas surpresas envolvidas -- porque sempre há. Quem faz surpresa guarda só para si esse prazer. E eu nunca quis ser um estraga-prazeres.

Mas com o Tempo -- esse senhor surpreendente mesmo quando não nos rouba a expecativa (como é que ele consegue isso?! -- aprendi que o meu gostar não é o gostar do outro. A gente dá uma coisa não para receber a mesma. Esse é o problema da Pena de Talião ("olho por olho, dente por dente"): é simplesmente impossível retribuir o igual com o igual, e qualquer tentativa parece ridícula, algumas vezes cruel. Por que haveria de receber peixe aquele que dá peixe? Peixe, ele já tem. Quem dá amor e quer amor de volta é um impostor: diz que dá aquilo que nem tem. A Justiça, assim com maiúscula, irmã do Tempo, também maiúsculo, não cai em círculos viciosos, avança sempre, num processo que é uma mistura de toma-lá-dá-cá com desconta-lá, e que ainda está muito distante de nossa compreensão. Com os gostos também é assim: se não gosto de surpresas, não preciso privar delas as pessoas que gostam.

Então cheguei de surpresa. E no prazer que eu tive ao esperar pelo momento exato da surpresa, momento de imaginá-la em detalhes, ela teria sido assim... Eu chegaria e ela estaria com a cabeça abaixada, corpo curvado sobre a mesa, com uma caneta na mão autografando um livro. Quando a pessoa à minha frente recebesse de volta o seu exemplar, eu estenderia à escritora o meu, e sorriria. Ela ficaria suspensa em um pensamento, De onde o conheço?, depois piscaria os olhos e retornaria ao automatismo típico do que fazia: receber o livro, colocá-lo sobre a mesa, levantar a capa, pegar o pequeno papel com o nome da pessoa para a qual deveria ser feita a dedicatória. Ela leria meu nome, apertaria os olhos com força -- feito quem não está enxergando direito --, olharia para o papel novamente, confirmaria que o nome era mesmo aquele, levantaria a cabeça, olharia para mim, pensaria Mas você não deveria estar aqui!, falaria Mas você me disse que não poderia vir! E eu diria: Surpresa!

Mas não foi assim que aconteceu. Como sou inexperiente em surpresas, cheguei cedo. E as surpresas chegam sempre depois da hora marcada. Ainda tentei folhear uns livros, menos pelo vício antigo de namorá-los, e mais para retardar a ida até os fundos da livraria, onde ela deveria estar se fosse mesmo tão pontual quanto eu a imaginava. Nesses dez anos, eu não podia fazer outra coisa senão imaginá-la. Nesse tempo, eu aprendi a contar com suas palavras pelo menos uma vez por semana. Todos poderiam falhar, e todos falhavam, até eu falhei. Mas você não. Você tinha que estar sempre ali, ajudando minha imaginação a fazer de você uma mulher que nunca se atrasa em sua beleza de palavras. Para quem se vê, assim frente a frente, uma pessoa se veste de roupas. Você, que eu nunca tinha visto, sempre se vestia de palavras. Até para mim mesmo, que sei da verdade, parece uma mentira. Como é possível conhecer alguém há dez anos e não conhecê-lo pessoalmente? Até a pergunta parece falsa, e melhor seria: Como é possível conhecer alguém pessoalmente há dez anos e não conhecê-lo fisicamente? Como assim? -- perguntaria alguém distraído que pegasse a conversa pela metade. Vocês estão falando daquele filme, Nunca te vi, sempre te amei? É incrível como muitas vezes são os distraídos, os loucos e as crianças que falam a verdade. O amor não é, fundamentalmente, esse sentimento romântico com que a gente aprendeu a reconhecê-lo. Sim, pode haver romantismo no amor, ou não. O fundamental é o sentimento de confiança, a certeza de estar ali, e estar sempre. Quem ama assim, ama com justiça. Dá sua presença, não precisa pedir. É assim o meu amor por você. Se não fosse assim, que outra coisa você poderia ser senão uma estranha? Nós dois o próprio título desse seu primeiro romance, Os Estranhos. Afinal, além das palavras escritas em nossos textos e das trocas de e-mails, tínhamos apenas uma conversa telefônica -- em seu aniversaário, lembra? -- e fotos.

Eu poderia ficar esperando mais um pouco, mais um muito. Mas fiquei preocupado com você. Já passavam 10 minutos da hora marcada para o início do lançamento do livro. Não havia quase ninguém no fundo da livraria. Aproximei-me por solidariedade, para ver se você estava mesmo lá, se estava bem mesmo sem as pessoas estarem ali na hora marcada. Fingi olhar livros. Fui caminhando e olhando. Até que lhe vi. Você estava bem. Talvez levemente nervosa -- o que era natural devido à importância da data --, mas bem. E havia duas ou três amigas com você. Tudo tranquilo. Eu poderia voltar para a frente da livraria e retornar mais tarde para encenar o meu papel: você à mesa, eu de pé, o suspense, o reconhecimento...

Mas você estragou tudo. Me reconheceu antes, quando eu dava meia-volta. Você olhou pra mim, com seu livro na mão, a mochila pendurada no outro ombro. Eu viera direto do aeroporto. Certas coisas ainda me parecem incríveis. O avião por exemplo. Você acorda, toma vitamina, resolve pequenas coisas em casa, sai para uma caminhada, retorna, toma banho, almoça, cochila... Aí você entra num avião e, menos de duas horas depois, o céu muda, o tempo muda, o ar muda. Você não está mais em Brasília, está em São Paulo. A um táxi de uma pessoa que você conhece sem conhecer há dez anos.

Então você antecipou a surpresa que eu ia lhe fazer e o surpreendido fui eu. Feito um menino que é pego instantes antes de enfiar o dedo na cobertura do bolo de chocolate. Feito o namorado que se recompõe às pressas porque os passos do pai da namorada se aproximam da sala. Feito o escritor que escreve o que jamais escreveria, tomado pela vontade da personagem.

Você não disse nada, não falou meu nome. Teria mesmo me reconhecido? Eu também não tinha o que falar, não consegui ter o que falar. Simplesmente fomos para o abraço. Um simples abraço. A encarnação do abraço, e do beijo, escritos em tantos e-mails. Carla para Eduardo e Eduardo para Carla agora tinham textura e cheiro. Você me deixou com suas amigas. Fiquei ali com elas. As pessoas parece que estavam só esperando pelo nosso encontro para aparecerem, e você, como anfitriã, tinha que dar atenção a elas. Eu ficaria lhe olhando a meia distância, lhe espiando, voltando a narrar como se você fosse uma terceira pessoa...

O mundo dela é feito de palavras. Não, não compreenda que o mundo dela está reduzido a palavras. É que as palavras dela compõem um mundo que realmente existe. Estar ali, próximo a ela, é estar entre suas palavras e perceber-se uma delas. Lá estavam suas amigas, seus parentes, os personagens de suas crônicas. Lá estava o compositor/cantor que eu só ouvi e passei a gostar por ela tê-lo apresentado a todos nós, seus leitores, nas suas palavras de quarta-feira. Lá estavam muitas outras pessoas -- que sucesso de lançamento! -- que só poderiam ser personagens de seus contos e romances. Algumas parecia mesmo que moravam dentro de uma gaveta ou numa pasta de computador. E lá estava também eu, duvidando de minha própria existência. Seria eu um personagem de Carla Dias?

Mesmo sendo seu personagem, eu seria ainda um personagem escritor. E lá parecia estar também o meu mundo, palavra transformada em gente. Uma de suas amigas tinha uma amiga. Pergunto-me se essa amiga da amiga era mesmo real. Ou seria apenas a personagem sedutora do personagem escritor da escritora? Houve um tempo em que eu escrevia diálogos entre desconhecidos, estranhos (olha eles aí novamente) que se esbarravam no meio da rua, que falavam qualquer coisa um para o outro e daí começavam a se seduzir mutuamente. Pois a amiga da sua amiga, depois de algumas taças de vinho, recusou novo oferecimento do garçom dizendo:

-- Se você colocar mais vinho em minha taça, vai ter que me levar pra casa.

-- Será um prazer.

Sim, eles eram meus personagens. O lançamento do primeiro romance da escritora incluía, além de petiscos e bebidas, a simulação, a encenação de personagens, e de personagens dos personagens. Ou seriam os personagens em si, sem simulação ou encenação, eles mesmos? Que mundo era aquele, meu Deus?! Para onde havia me levado aquele avião?

Retornei à realidade quando chegou... não sei como devo defini-la, isso já me gerou problema em outra crônica, mas digamos que chegou a minha querida e amada amiga que o apagão aéreo de uns três anos atrás me deu de presente. Ela e o namorado meio que me diziam: existe outro mundo além do mundo do além. Era hora de sair da livraria. Mas meu livro ainda não tinha sido autografado.

Peguei a fila e, minutos depois, lá estava eu de pé e ela sentada, cabeça abaixada, corpo curvado sobre a mesa, com uma caneta na mão autografando um livro. Eu fui o próximo. Estendi-lhe o livro. Ela perguntou se eu já havia me visto ali, no final do livro, nos agradecimentos. Ainda não, eu disse. Mas eu senti que me encontraria ali, no livro, antes dos agradecimentos. Eu sempre me encontro nas suas palavras, mesmo que a sensação mais frequente seja a de que eu estou me perdendo. Depois de escrever com uma caneta prateada sobre a página preta, ela se levantou, arrodeou a grande mesa de madeira e me deu um novo abraço. Um abraço para os próximos dez anos?

Algumas horas depois, antes de dormir, apaguei a lâmpada, liguei a lanterninha e abri Os Estranhos. Eu estava ali, na página 8: "Ninguém o abordava, pedia licença. Ninguém o interrompia. Ninguém o alcançava." Eu sempre fui estranho.

Desliguei a lanterninha e dormi.

Agora acordei pra contar essa história, da estranha que eu, enfim, abracei; do encontro com a estranha que, enfim, me alcançou.



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sábado, 22 de agosto de 2009

DE VITUPÉRIOS [Monica Bonfim]

Li, num livro do Lobato quando criança, que “louvor em boca própria é vitupério”. E acho mesmo de uma total falta de educação ficar um sujeito se autoelogiando o tempo todo.

Acontece que nos tempos que andam, darlings, o pessoal anda achando que a propaganda é a alma do negócio, ou seja: significante de autoestima é ficar se autoapreciando em alto e bom som.

Eu até acho que, em termos profissionais e pessoais, há que se dar uma de galo de vez em quando: fez um gol, tem mais é que comemorar mesmo, e sair cantando o feito. Mas é o feito, não o autor do feito, entendem? Uma conquista, uma vitória (até sobre si mesmo) há que ser sempre comemorada — mas é o fato, é o fato... Ainda acho que tem que deixar a platéia gritar: “o Autor... o Autor”. E aí o autor tem que fazer uma cara de alegria e certa modéstia, e agradecer o elogio feito PELOS OUTROS.

O problema é que eu tenho uma falha: quando não é exagerado demais — porque aí fica ridículo —, eu acredito piamente. Talvez seja porque, sendo próxima a pessoa que se autoelogia, eu acabo por ouvir tanto que acredito compulsoriamente, ou então porque sou indulgente com meus amigos. Ou talvez seja porque esse enaltecimento de suas próprias qualidades me parece uma audácia tão grande — a mim que me critico o tempo todo e que me deprimo quando derrapo nesse policiamento — que penso que deve ser verdade, porque senão... senão o mundo se acaba: como é que alguém tem o despudor de se arriscar a ser desmascarado desse jeito?

Mas as máscaras andam caindo e isso vem acontecendo tanto que andei me lembrando de Dumas quando, descrevendo seus três mosqueteiros, acerca de Portos fala que a única coisa que não se pode fazer é “acreditar em todo bem que ele diz de si mesmo”. E eu acreditei... eu acreditei...

Ah! Não na propaganda enganosa de desempenho dos gaviões da noite — ou do dia. Não nas juras de amor eterno dos sedutores eventuais. Mas nas afirmações de conduta e caráter dos pseudoamigos, na propaganda de índole e integridade dos autodenominados cultos, na autoestima propagada dos aparentemente bem-sucedidos.

O vento de Iansã anda fazendo com que, como D´Artaganan, eu ande me enrolando nos capotes e dando de nariz nas costas dos boldriés dos muitos Portos de minha vida: os ditos são bordados a ouro na frente, mas de tecido comum atrás.

É... O mundo está mais cheio de despudorados do que parece e eu que, como Pessoa, “tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas”, ando pisando com os dois pés na jaca da minha inocência: como é que eu fui acreditar?



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sexta-feira, 21 de agosto de 2009

A SEGUNDA FRASE >> Leonardo Marona

Hoje estou do tamanho do mundo. E, é claro, o mundo não cabe em mim. Estou do tamanho de algo que não cabe em mim portanto, e isso é patético. Sou como o resto de uma comida renegada mesmo pelos cães. Me dói por isso estar tão tomado por algo que ultrapassa os poros. E sem arma suficiente. Sem gritos e gemidos sobre uma evolução calma. Estar do tamanho do mundo então não passa de uma mentira. E, como eu, mentimos muitos. Ou seja, não tenho nem para mim o Milagre de Pedro, o Milagre da Exclusividade. Estou à beira do mundo e a sensação é de Gepeto à beira da boca enorme. Por exemplo, a segunda frase deste testamento tornaria a primeira genial. Mas acabei por perder a segunda frase, e tudo foi por água abaixo. E agora, como uma lasca descolada de uma parede horrível, despenco para o fim do parágrafo, porque a idéia inicial foi amputada.

E parece que vivemos todos assim. Reparo nos mortos que ainda se mexem. Esses que entram de muletas nos ônibus, com paralisia infantil. É claro que há um dostoievsquianismo nisso tudo, mas há também um sentido hipócrita antropológico. Quero saber como vivem os que vieram antes de mim, anos luz. Enquanto me preocupo com meus restos artísticos e faço questão de não dar valor ao Animal Enorme, que me alimenta com esmolas e ri, outro fez escolhas mais raras, entre o corpo e o Corpo Maior, ficando por inteligência com o corpo, e pela inteligência sendo engolido pelo Corpo Maior, bem mais faminto e de boca mais ampla.

Não são poucas as vezes que sinto vontade de coçar os olhos. Perder a segunda frase é um trauma perfeito. Porque as segundas coisas todas são as descartáveis, que revelam a falta de preparo para a primeira. E só o que resta são contradições.

Preciso fazer algo, preciso falar alguma coisa genial. Isso me torna automaticamente tão patético quanto um travesti com pretensões de passarela. Ao mesmo tempo sinto dor e, obviamente, me refugio nisso, e nisso erro as palavras, porque se tem algo que sei, é que isso não é novidade nenhuma, e milhares de pessoas fazem isso ou usam isso melhor do que eu. Mesmo falar em termos qualitativos assim com tanta naturalidade que me deixaria ainda mais longe do ponto inicial, da segunda frase que me fez sentar aqui.

As coisas se misturam, acendo um cigarro no outro, sou qualquer um em pânico. Na sala, as mulheres conversam. Sinto que, sem mim, se dão uma com a outra melhor. As mulheres se dão bem, desde que não haja um homem por perto e elas possam, depois, se atacar pelas costas. Agora ficaram quietas, talvez tenham lembrado que estou aqui, bem ao lado, mas noutra dimensão. Teve uma época em que dizia isso com orgulho: “Outra Dimensão”.

As idéias talvez estejam acabando, fumo o cigarro num trago difícil, sinto engulho, percebo que estou me desvirtuando. Outro dia chegou perto de mim alguém que me lembra uma máquina humana, que freqüenta as festa e ainda é talentosa, ou seja, que com certeza almeja a perfeição. A ela eu dizia sempre, desde que nos conhecemos, sei lá por que motivo, que era um ator de teatro, e falávamos sobre teatro, um assunto que abomino. Portanto lá estava eu, falando sobre minha última peça, sobre como eu me sentia fadado a carregar uma cruz inumana. Então ela, que era uma apresentadora de TV famosa, me disse: “Você não se cansa de fazer a mesma coisa todos os dias?”.

Aquilo me matou, e me colocou pela primeira vez no mundo, que agora era uma coisa maior, e eu não estava dentro dele, ou melhor, estava, mas era um resto pútrido. Veja bem: eu mentia pelo bem da alma e da cruz encaminhada por séculos de provações empertigadas. E aquela mulher queria pouco, tudo que lhe dessem, e funcionava com habilidade insuspeita na busca da perfeição.

Já não quero falar no assunto, me entedio, o tempo passa rápido demais. Por delicadeza perdi minha vida. Eis a frase que inaugura o trauma dos muito humanos. E aí está um garoto, um arquétipo de olhos queimados, uma síndrome de verdade anterior que deve e será desprezada.

Finalmente reparo num detalhe que, só por um momento rápido, parece muito importante. Não tenho as duas pernas, tudo em volta é branco. Sou, portanto, um homem de poucos movimentos. Impossível não vir de imediato a frase que ouvi a vida inteira: “Nossa, como você é agitado”, hiperativo, diziam. Sem movimentos, reparo, sou obrigado a pensar, não me resta mais nada, até que enfim, estou com a boca torta, mas, pela primeira vez, me sinto pleno. Não há mais compromissos, a não ser pensar na morte.

Sempre gostei de enfermeiras, não tenho direito a uma. Muito pobre, tenho o que mereço. Meu pai terá a essa altura seu segundo filho. Dirá a si mesmo, enquanto a esposa dorme vendo um filme na televisão: “Que posso fazer? É tentar outra vez”.

Acabei de participar de um jogo no qual você escolhe certas atitudes e no final de dez situações é dito o livro que você seria, se fosse um livro. Façam vocês também:
http://educarparacrescer.abril.uol.com.br/leitura/testes/livro-nacional.shtml

Eu fui Memórias Póstumas de Brás Cubas, que de fato é o melhor livro do Machado de Assis, porque é o único com um argumento original, o de um homem que já morreu e falará de si mesmo. Talvez seja a única posição viável para um homem falar de si.

Minha namorada – hoje nos chamamos marido e mulher – acabou saindo com a opção A Paixão de GH, o enigma feminino de Clarice Lispector. Ela ainda teve outras três opções, em ordem: O Alquimista, do Paulo Coelho; Antologia Poética de Carlos Drummond de Andrade; Morte e Vida Severina, do João Cabral de Melo Neto. Agora que sei disso e não tenho mais pernas, quero me casar com ela, definitivamente. Muito mais pelo Paulo Coelho, é claro. No entanto, percebo que já sou casado; talvez seja ela ali, encostada no branco, cama, enfermeira, parede, sonhos esquecidos. Sem pernas percebo que ainda é possível fazer muitas coisas.

Qualquer um pode perceber que esta é a historia de um homem sem pernas que, finalmente, descobriu um caminho. Um homem sem olhos que, num relance, apalpou a carne. Mas falemos de fotos, acredito que ouça alguma coisa acerca disso. “Essa aqui é bem bonita, ele tão novo, ruivo, com a camisa do Grêmio”. Esta com certeza não pode ser minha mulher. Já me conheceu com a peruca do tempo, warholiana, quando não me interessava mais por futebol e respondia desinteressadamente a todas as perguntas. Às vezes me lembro que bebia, e queria questionar as perguntas. Mas isso era raro, acabava com um mijo na cama. Um beliscão na cervical, e percebo que estão me virando, mexendo em meu cadáver proposto por Brás Cubas. Aliás, não tive opções a não ser Brás Cubas, Brás Cubas e nada mais. Aquilo era uma afronta, ia muito mal, eu falava mal sobre Machado de Assis nas ruas e no trabalho, quando, é claro, era capaz de andar. Mas, engraçado, mesmo sem pernas, aqui neste cenário todo ele branco, ainda contínuo patético, e de uma forma estou vivo. Talvez seja esse o sentido da existência. A procura da segunda frase, que de todo modo não virá.

http://www.omarona.blogspot.com/


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quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Vou deixar a rua me levar >> Kika Coutinho

A história é verídica. Eu tinha acabado de criar o meu primeiro blog, que se chamava Estações ou algo assim. Do alto dos meus 20 anos, escrevia sem parar e, para decorar o blog, escolhi uma foto linda que achei na net. Eram umas árvores de outono, com folhas amarelas no chão. Enfim, uma belíssima paisagem.

Lá pelas tantas, recebo um e-mail em inglês de uma senhora que se dizia a fotógrafa da imagem que eu usava no blog e, como eu o fazia sem a permissão dela, deveria depositar na conta XYZ uma quantia de X dólares. Eu tomei um susto, mas, como mal tinha real, ri de pensar que ela imaginava que eu teria dólares.

Respondi me desculpando e explicando que não poderia pagar-lhe, mas tiraria a imagem, já que ela não queria que eu a usasse. Não demorou muito para que a mulher me escrevesse novamente, propondo um acordo. Ela pesquisou meu nome na internet e, achando que só existia uma Ana Carolina no Brasil, concluiu que eu era uma cantora famosa e que tocava guitarra em muitos shows pelo meu país. Dessa forma, ela gostaria de receber um CD meu, porque também tinha ouvido falar muito bem da música brasileira e o meu CD, portanto, poderia ser o pagamento pela foto que eu usava. Dessa vez, eu ri muito com o e-mail. Eu, que mal sei segurar um violão, não tinha nem reais nem dólares, estava sendo confundida com a Ana Carolina.

Não titubeei. Juntei um pouco do que eu tinha, fui a uma loja de CDs e comprei o último da cantora. Peguei o endereço da minha fã americana no e-mail e fui ao correio. Lá chegando, ainda fiquei alguns minutos no balcão, decidindo o que escreveria. “With love, Ana”, eu ensaiei em um papel de rascunho como seria a minha assinatura de famosa. Já pensou se ela quisesse um show meu? Poderia me indicar para o estádio da cidade dela, e eu iria, claro. Chegaria lá arrebentando no “Vou deixar a rua me levar”, um dos hits da cantora. Ups, um dos meus hits. Eu já estava assumindo a personagem, me imaginando no Central Park ao lado da Madonna: “A revelação Brasileira” seria a manchete dos principais jornais, o Zeca Camargo cobrindo tudo.

Acontece que a verdade, como sempre, é bem menos interessante do que a imaginação. Eu não assinei o CD, apenas mandei com um bilhetinho e, em casa, escrevi um longo e-mail explicando a ela o mal entendido.

Passaram-se alguns dias até que viesse a resposta. Ela escreveu, agradecendo a minha honestidade e principalmente o CD, que tinha feito enorme sucesso na casa dela. Enviou, anexo ao e-mail, um link para o catálogo dela de fotos, e pediu que eu usasse quantas quisesse, sempre que precisasse. Eu obedeci, mantive a foto de outono no meu blog, mandei fotos minhas, recebi outras tantas da família dela, e ficamos amigas, enfim.

Aquela senhora talentosa, que parecia ser uma mulher briguenta e rabugenta, tinha um marido de anos, filhos jovens e uma conversa muito boa.

Eu desisti de cantar no Central Park, certamente não conhecerei Madonna, mas essa história tola, tonta, me faz pensar por que destinos que poderiam dar tão errado, atitudes que poderiam gerar brigas e desentendimentos, tantas vezes tomam a contramão das coisas e, simplesmente, terminam bem.

É comum nos perguntarmos o contrário, buscarmos respostas por aquilo que deu errado, mas, de repente, aquela jovem fotógrafa me fez questionar aquilo que sempre esquecemos de pensar: “Por que o bem, afinal, também nos acontece?”

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quarta-feira, 19 de agosto de 2009

DIZ, BEATRIZ >> Carla Dias >>

Foto: Julia Moraes

Recebo muitos e-mails de pessoas envolvidas com arte, escritores, músicos, fotógrafos... E confiro tudo o que recebo. Separo o que me agrada, num primeiro momento, e me aprofundo, cultivando sintonia. O que colho, logo adiante, é o gostar genuíno ou a constatação de ter sido apenas um deslumbre momentâneo.

Quando se trata do gostar genuíno, ah, eu fico feliz! Porque, pensem bem, não é fantástico quando encontramos algo ou alguém que faça a nossa alma sussurrar - sonsa que só - ao nosso corpo todo: isso é bom e faz bem?

Bom... Bem...

Foi assim que conheci o trabalho de uma cantora, compositora, atriz e poeta que não necessita dos meus préstimos para ser (re)conhecida, mas como gosto de partir o pão e dividir, com os agregados do meu afeto, os pedacinhos, vou falar sobre ela hoje.

De Beatriz Azevedo eu ouvi a música e mais de uma vez. Li os poemas, as mensagens sobre os seus fazeres artísticos que caiam na minha caixa postal.

Foto: Roger Sassaki

Ontem, recebi um flyer de divulgação do 3.33 , com estreia marcada no Festival Internacional de Curta-Metragens de São Paulo. O roteiro e a direção são de Sabrina Greve, e os poemas e a trilha original musical são de Beatriz. Assim percebi que já passara da hora de fala sobre ela.

Sei de quem cantou Beatriz... Mas eu não sei cantar, então, escrevo sobre.

Da voz eu gosto... Tem essa coisa mansa, grave, dizendo ideias e sentimentos aos bamboleios do canto. Quando ouvi as canções do seu CD Alegria, lançado pela Biscoito Fino, também percebi um talento danado para colocar a poesia na música. Sem contar a pluralidade: Alegria tem de tudo um pouco, mas esse tudo é tão bem trançado, e aos poucos, que não maltrata a cadência do álbum. E tem a sutileza da música, vide Abraçar o Sol, mas também, em um momento e outro, há uma fome danada pelo ritmo, como na bacanérrima Relicário.

Adorei os poemas que estão no site de Beatriz, principalmente A flor azul do silêncio, através do qual a moça se refestela em possibilidades que não as já conhecidas: “não pertencer a panelinhas / cozinhar as tripas da poesia / no caldeirão dos bruxos / namorar o crepúsculo / trair o espelho e o tempo...
Beatriz Azevedo não precisa que eu insira seu currículo nessa crônica, pois já tem seu canto e sua voz ecoando nas salas e almas certas. O que posso é colaborar com a jornada, indicando as ruas que vocês podem seguir para chegarem a esses lugares onde ela abriga sua arte e conta sua história:

www.beatrizazevedo.com.br
www.myspace.com/beatrizazevedo

No show lançamento do CD Alegria, em São Paulo.
Foto: Maristela Martins

E por aqui eu fico... O coração passeando pelas caixas postais desse mundão. E como diz Beatriz naquele outro poema, vou "perder o trem perder a hora perder a conta".


http://www.carladias.com
http://talhe.blogspot.com





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domingo, 16 de agosto de 2009

VOZES >> Eduardo Loureiro Jr.

Edvard March - Corbis.comTenho uma quedinha por vozes. Tudo bem, confesso: tenho uma quedona; uma não, várias.

Ano passado, quando eu ainda trabalhava no MinC, tive que ligar para todas as secretarias de cultura do Brasil em busca de algumas informações. Era uma tarefa chata, repetitiva:

— Olá, meu nome é Eduardo Loureiro Jr. Trabalho no Ministério da Cultura. Estamos elaborando um catálogo referente ao centenário de morte de Machado de Assis e gostaríamos de saber se vocês realizaram ou pretendem realizar algum evento comemorativo relacionado ao tema.

A resposta também não variava muito: às vezes, "Sim"; às vezes, "Não". No máximo, aquele velho e irritante: "Você pode aguardar um pouco na linha? Vou transferir a ligação para o setor responsável."

Eu estava em minha vigésima ou vigésima primeira ligação, repetindo as palavras como se fosse uma máquina, quando me atendeu aquela voz:

— Boa tarde. Secretaria de Cultura. Fulana. Em que posso atendê-lo?

Eu já nem reparava mais para qual DDD estava ligando, mas ali não havia dúvidas: sotaque mineiro. Uma voz feminina que me fez tropeçar, cair e bater com a testa no chão:

— Ahn?! Ein?! Como?! Sim, meu nome é Edu, não, Eduardo, É do ar do Pátio, não, Eduardo Lorêro, Lou-rei-ro, trabalho no link, não, no MinC, estamos fazendo uma catarse, não, um catálogo sobre o Fernando Pessoa, sabe aquele poema "Quando eu não te tinha / Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo. / Agora amo a Natureza / Como um monge calmo à Virgem Maria"? Não, desculpe, é um catálogo sobre Machado de Assim. A morte dele. Não, ela já está morto há cem anos. Você têm algum evento programado? Pode me mandar o convite e a passagem? Desculpe, não é nada disso. É muito mais que isso. Você sabe... eu... você...

— Boa tarde. Secretaria de Cultura. Fulana. Em que posso atendê-lo? — a voz repetiu, sem qualquer tom de irritação.

E só então percebi que minha boca tinha ficado muda com a queda, que aquelas palavras todas tinham acontecido apenas na minha cabeça. Levantei-me, respirei fundo e falei meu texto decorado só pra receber a pior das respostas:

— Você pode aguardar um pouco na linha? Vou transferir a ligação para o setor responsável.

Eu disse "tudo bem", mas queria mesmo é ter dito "que voz maravilhosa você tem! Nunca ouvi uma voz tão linda! Posso ir até BH para conhecê-la? Você quer se casar comigo?"

É uma questão de segurança nacional, de manutenção das instituições mais sólidas de nosso país, de preservação da família... Uma mineira não pode falar ao telefone com outro homem que não seja seu namorado ou marido. Aquela voz dengosa vai se enroscando no ouvido da gente e a gente corre o risco de esquecer de si, dos compromissos, do trabalho, do casamento. Nessas horas fica claro, óbvio, patente, que Minas já foi mar há milhares, talvez milhões de anos. A prova são as sereias que continuam lá, derrubando homens na falta de navios para afundar.

Mas isso não é uma crônica sobre mineiras. Voltemos às vozes...

Semana passada, também por motivos profissionais, mantive contato telefônico com uma mulher que não era mineira mas Pelamordedeus! Valha-me, Nossa Senhora! Valha-me, Nosso Senhor Jesus Cristo. Estávamos resolvendo um problema, algo que necessitava de uma solução urgente, mas que eu desejava que se prolongasse indefinidamente para que eu pudesse continuar ouvindo aquela voz. Quanta graça! Seus leves sorrisos faziam cócegas na minha imaginação... Se ela fala desse jeito ao resolver um problema, como é que falará quando estivermos na penumbra do cinema, num bosque, no quarto? Pena que a dona da voz era tão eficiente que resolveu o problema em cinco minutos.

E a Ceumar, gente?! Não bastasse ser mineira, ainda é cantora. Sem exagero, faz quase dois anos que escuto a mulher quase todo dia e não me canso. Tudo bem que os arranjos ajudam, mas e quando ela canta — a capella — "olha pro céu, meu amor, vê como ele está lindo"... Eu olho pro céu de Brasília sobre a minha cabeça, olho pro mar de Fortaleza dentro da minha cabeça, olho pra você, Ceumar, meu amor, e realmente você é linda. E lá estou eu falando sozinho de novo, caidinho por uma voz.

Dia desses, li um artigo em que o autor aconselhava as pessoas a procurarem parceiros que tivessem o rosto bonito. O autor defendia que era preferível um rosto bonito a um corpo bonito, já que olhávamos com muito mais frequência para o rosto de nosso parceiro do que para o seu corpo. Faz sentido. Eu, particularmente, acrescentaria que — mais do que beleza facial — deveríamos colocar beleza vocal no topo da lista de escolha. Afinal, muitas vezes não estamos nem olhando para o rosto de nosso parceiro: ao telefone, no cinema (olhando para a tela), no carro (olhando para a rua), no escuro do quarto... nosso contato é mais auditivo do que visual.

Só não vale usar a beleza da voz com intenções ilícitas como fazer cobrança de cartão de crédito ou discutir relação. É como desmascarar um Papai Noel para revelar um pai barrigudo qualquer. Ou como desfigurar um bichinho de pelúcia para que ele faça o papel de espantalho. Voz bonita só deveria estar autorizada a cantar e a sussurrar no pé do ouvido.

De fato, mesmo correndo o risco de erro gramatical, ouso afirmar que o feminino de falo é fala. Se no homem fica bem o membro duro, potente; na mulher fica melhor a voz macia, suave.

E agora me deixem atender aquele telefone que não para de tocar. Talvez seja uma mineira.





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sábado, 15 de agosto de 2009

DE ESTEREÓTIPOS [Monica Bonfim]

Te economizando a ida ao dicionário, diz o Houaiss que estereótipo é “idéia ou convicção classificatória preconcebida sobre alguém ou algo, resultante de expectativa, hábitos de julgamento ou falsas generalizações”. Uau... uau... uau...

Pois acabei de entrar em casa, tirei os sapatos, pus os pés na mesinha de centro e tomei um mate gelado com limão, enquanto minha secretária para assuntos domésticos estava passando roupas na sala (é atualmente o lugar mais fresco da casa com a chegada do verão amazonense) ouvindo U2 enquanto dança e me pede o CD emprestado para ouvir na casa dela no final de semana. E comenta que ela gosta mais de dançar que as filhas dela — que estão adolescentes e ela cria sozinha, trabalhando em dois empregos. Aproveitei a oportunidade para perguntar por que ela tinha tirado os CDs de pagode que eu estava ouvindo no final de semana. “Pagode, doutora, só quando estou bebendo... ”.

E semana passada eu estava numa reunião cheia de senhores engravatados quando toca meu telefone, eu dou duas ou três instruções ao meu faxineiro e, quando desligo, vem a pergunta:

— Desculpe, doutora, mas a senhora estava falando com quem?
— Meu faxineiro.
— A senhora tem um faxineirO? — o
“o” foi com maiúsculas mesmo.
— Tenho sim, claro, por quê?
— Mas ele é gay?
— Não, não é. É heterossexual convicto, pai de filhos e eu que não ponha moral em casa porque senão ele e a passadeira se conhecem em sentido bíblico.
— Mas ele lava suas roupas?
— Não, meu caro, quem lava roupas é a máquina... ele só põe a roupa na máquina.


Não vou contar o desdobramento (aliás ridículo) do diálogo porque é óbvio: para o conceito machista do “doutor” que comigo discutia, um homem não se presta a ser faxineiro a menos que tenha tendências femininas.

Já eu acho que toda casa tem que ter um homem, nem que seja mediante pagamento. Querem saber se sou capaz de pintar paredes, fazer extensões de telefones, usar furadeiras? Sou, amores, mas nessa altura do campeonato — aliás, como já lhes disse — tenho humildade suficiente para encarar o fato de que, apesar de ser capaz, não sou eficiente na matéria e acho melhor chamar quem sabe. Meu faxineiro é o rei da eficiência nessas matérias: instala aparelhos elétricos (os eletrônicos sou eu), conserta coisas, pinta paredes, varre a casa, encera os móveis, lava as paredes, põe a roupa na máquina e ainda faz serviços externos para o meu escritório de vez em quando.

Mas aí eu olhei para mim mesma e fiquei rindo: solteira, 48 anos, um cachorro... Oh! céus! Já teve um desavisado que achou que eu ficava os finais de semana com um paninho na mão limpando bibelôs... AAAAAAAAAAAAAAAAARGH!

E na sexta passada, saio eu para comemorar uma vitória jurídica de uma amiga que representei e que, como eu, gosta de vinho, e no lugar em que bebíamos se aproxima um sujeito que pede para sentar à mesa. Como ele foi educado, nós consentimos, mas aí ele resolveu chamar um amigo. E o amigo... Ai, ai, ai. Na quinta vez que ele me interrompeu no começo de uma frase, a minha paciência — que já tinha nadado na primeira garrafa de vinho e começava a se afogar na segunda — foi para o brejo e disse a ele que o assunto estava ótimo antes dele sentar, e que se ele não tinha vindo para acrescentar nada e só para interromper o papo ele podia se retirar. Duas mulheres bebendo num bar têm que estar catando homem? Mas que absurdo!

Para vocês verem, senhoras e senhores, quão limitada é a ótica de quem rotula a vida e as pessoas segundo padrões preconcebidos e falsas generalizações: meu faxineiro não é gay, minha empregada não gosta de pagode e eu, heterossexual desde criancinha e solteira, continuo achando que antes só que mal acompanhada.



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sexta-feira, 14 de agosto de 2009

OS ALIADOS DO COSME VELHO >> Leonardo Marona

E descendo o Cosme Velho, rumo à História forjada ia você, poeta emotivo e irônico cheio de espinhas e com intensas, delicadas perturbações, de alguma forma cantarolando sua canção exclusiva em na sua própria cabeça, num ritmo que tornasse possível prosseguir andando, assobiando para os pássaros, enquanto tocava o sino, o sino das seis da tarde e as senhoras brotavam da Igreja São Judas Tadeu, com suas cruzes e olhares perversos para pequenas delicadezas, e você, mago prodígio, assustado com a vida madura cuja boca abria e o hálito era terrível, você vinha vindo descendo a rua, pensando em Machado de Assis, O Óbvio, pensando em como odiava Olavo Bilac.

– Um novo emprego, pois muito bem. Um novo emprego não deve ser letal...

Inadequadas lembranças de quando ouviu certa melodia, certo murmúrio ao pé do ouvido... Numa boate talvez, quem sabe...

– Aí, gordinho, larga o bigode! Perdeu!

Larga o bigode? Primeira imagem: uma clavícula muito magra, tensa, borrão expressionista no olho da noite que se anunciava. Não mais de quinze anos, altíssimo, subnutrido. Não sabia se eram as mãos grandes, marcadas por veias famintas e muito grossas, roxas de apanharem e baterem, não sabia se era aquilo ou talvez o olhar que, assustado, se torna ameaçador, causava excitação, como se mais alguém houvesse descoberto o seu segredo mais íntimo, conservado em anestesia nas rodas sociais e empregos temporários, na vida temporária. Talvez o pânico misturado à hesitação o tivesse feito parecer ridículo, como o homem de Dostoievski, com as pernas curtas demais para o tronco, os joelhos que não conseguiam se dobrar porque ainda sentiam o efeito das correntes de ferro siberianas. Ainda mais naquela distância de filme de caubói. Olavo Bilac versus Harold Pinter. Olavo Bilac, eu te odeio.

– Seu filho da puta – disse o pivete.

– Não tenho nada.

– O celular.

– É muito velho.

– Dá, seu merda!

– Tudo bem.

Inevitável, sentiu-se frustrado. Do outro lado da rua algumas pessoas mordiam com curiosidade as orelhas umas das outras. Nesse momento nosso herói pensou numa vaga conversa que havia tido, como tantas outras vezes, bebendo e contando moedas, com uma amiga que fazia ciências políticas, uma das muitas. Algo sobre a impossibilidade da justiça entre os homens. Sobre a guerra como prova de que estamos vivos.

O garoto subnutrido, no entanto, não acreditou imediatamente. Ficou parado e sem forças diante da inesperada letargia absoluta. “E que bondade, meu Deus, e que bondade?”, pensava consigo o jovem mais promissor de sua década, transtornado repentinamente com um problema absolutamente secular, preso a uma arapuca mundana, precisando criar asas, mas onde estavam as asas? Amputadas. Anoitecia vergonhosamente.

– Passa, senão te furo – disse o pivete.

– Mas você já pegou.

Rato em panela quente, saiu correndo ladeira abaixo, era inverno, seis da tarde, a luz do céu como um grafite, havia porteiros e pessoas com sardas, pedintes aos montes nas calçadas discutindo violentamente, crianças saindo dos colégios, estrangeiros aglomerados na estação do bondinho.

Um porteiro se aproximou. Finalmente, um voto de caridade, enquanto o poeta permanecia pasmo, bestificado: “Não era mais do que eu garoto, um subnutrido”. Ainda bem, alguém lhe ofereceria um pouco de alma, um antebraço à causa patética, que é bastante a causa de cada um de nós.

– Seu viadinho! – gritou o porteiro, velho com pêlos nos ouvidos, fã de Erasmo Carlos.

– Mas, meu senhor, se eu acabei de ser assaltado!

– Imbecil, viadinho, maconheiro! Como deixou um pivete... – aproximava-se o velho, justiceiro dos traumas divinos.

E descendo o Cosme Velho, bruxo sem capa ele apanhou, “viadinho de merda, filho da puta”, e desceu mais um pouco, andando com as mãos, os pés ao vento, talvez um pouco de sangue para algum poema, certamente o frio árido dos olhares aglomerados, inquiridores infinitos que parece que são os próprios olhos da natureza diante da armadilha que a nós foi imposta, de não ter o direito de descer uma ladeira até em casa e ser devidamente assaltado por alguém menor do que você – aliás, era uma bela clavícula aquela, magra, rija – e, mais incrível, ter a certeza de que aqueles, os espancadores, eram seus aliados. Inevitável, lhe veio a imagem de Dostoievski, como um Cristo, invadindo o cassino em Baden-Baden, lançando ao chão as fichas dos atemporais vendilhões do templo. Ele era Dostoievski e no fundo sabia que era parte de uma contradição perene.

Antes de perder os sentidos sobre a calçada preta e branca, pintura de bossa nova, balbuciou: “E são estes os nossos amigos”.


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quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Dos desejos das grávidas >> Kika Coutinho

Não é que me dê nenhum desejo especial. Não, não dá. O que sinto, pra falar bem a verdade, é desejo de tudo o que eu vejo.

Estão fui à padaria, e já tinha comprado o que precisava, quando passei pela vitrine dos quitutes. Imediatamente, tive um desejo incontrolável pelo pão de queijo. “Moça, esse pão de queijo está bom, é?” Ela responde que tinha acabado de sair, e eu não hesitei: “Me dê 100 gramas, fazendo o favor”. Enquanto ela depositava os pãezinhos no saco, não pude deixar de ver as mini-coxinhas ao lado. Pronto, de novo aquele desejo incontrolável. Meu Deus, tenho que andar com aquela coisa de cavalo nos olhos — sabe? — que não te deixa olhar para o lado. “Moça, dá pra pôr uma coxinha aí dentro?” Ela sorriu e tascou o salgadinho no saquinho. Quando já estava pesando, foi que vi, ao lado da coxinha, uma bandeja superapetitosa de bolinhas de queijo. Não que eu quisesse comprar 100 gramas de bolinha de queijo, não, eu só queria uma, umazinha daquela ali. Acho que é uma sensação meio de cleptomaníaco, sabe? Você precisa ter aquilo a qualquer custo. Implorei pra ela: “Escuta, sei que é um pouco chato, mas não rola pôr uma bolinha de queijo aí nesse saquito, não?” A moça ficou sem graça: “Aí você está me complicando”. Ai meu Deus, gelei: “Mas, moça, finge que caiu, esbarrou na bandeja e caiu uma, você nem viu... Caiu, ops, caiu”. Ela sorriu, mas não cedeu. Tentei uma última cartada: “Olha só, moça, eu vou te ajudar, todo mundo pode deixar cair uma coisa, e, de repente, ninguém nem vai te notar, quer ver?” Eu falei e, em seguida, plaft derrubei o porta-guardanapo e o porta canudo no chão, com tudo. “Ai, desculpe, desculpe, eu ia falando enquanto abaixava para pegar e tentei olhar de rabo de olho a moça, ainda dei uma piscadela pra ela entender a deixa, mas nem sei se a coitada viu.” Ela estava rindo muito quando me devolveu o saquinho.

Eu, quase que emocionada, não sabia se ela tinha posto a minha bolinha de queijo ou não. Senti medo de abrir o saquinho e não encontrar, ali, a bolinha de queijo. Demorei a abrir com medo da frustração. Carreguei aquele pequeno pacote como quem carrega seus mais finos cristais e, enquanto ainda não sabia o que havia dentro, sentia uma mistura de esperança e pavor tão forte que quase desejei não abrir nunca o saquinho da padaria.

Foi só no carro, já sentada no banco do motorista, que criei coragem... Abri, olhei devagar, e qual não foi a minha surpresa ao notar que tinha a coxinha e mais duas bolinhas de queijo. Duas! Eu repeti em voz alta, como que compartilhando com a minha pequena filhota a alegria de existir gente boa nesse mundo. Devorei o quitute que, mesmo frio, era o mais saboroso de todos os tempos.

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quarta-feira, 12 de agosto de 2009

ESTOU PARA... >> Carla Dias >>

A temperatura das palavras a perturba...


Fosse apenas um arruaceiro, dedicado a emparelhar sentimentos vãos - e lançá-los contra os muros do óbvio -, talvez ela não mastigasse nesse tempo o amargor, enquanto encaracola uma mecha de desassossego.

Arrancada que foi da (in)tranquilidade que lhe cabe, agora conta nuvens nos dedos: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7... O mundo para e, em vez de descer, enquanto lhe é de direito, ela pisa firme no solo da teimosia e da curiosidade. O que está no avesso assanha o seu desejo em esperar para ver.

Ela: estática. E a chuva cai nas suas faces, que amparam o cansaço dos anos que foram e dos que virão. Ela é assim: ora se atrasa e ora se antecipa, atrapalhando-se com os rompantes da própria existência, como quem prende o dedo na porta e cala o grito, o olhar simulando uma diversão pálida.

Creio que sempre teve esse algo com a temperatura das palavras, como aquelas que ela guarda na memória, desde os arrabaldes da infância, ditas pelas vozes da mãe, das tias, da avó: Que Deus lhe guarde.

Deus a guardou nessa caixinha colorida com laço cor de arco-íris. Em suas mãos, Ele depositou o segredo das coisas mais simples, para que ela pudesse se alimentar de experiências o cotidiano ao vislumbrar a ingenuidade. Só que, no seu coração, Ele tatuou labirintos, onde ela se perde nas noites longas demais da conta ou quando acossada por inusitados acontecimentos.

Nessa caixinha colorida, com laço cor de arco-íris, ela aprendeu a reza, esfolou os joelhos de tanto se ajoelhar. Puiu os dedos de tanto desfiar rosário. Em dias de sol, esconde-se debaixo de tampas de papel machê e molda solicitude. Quer ser desabrigada, dia desses. Desabrigada de sair pelo mundo sem destino, mas com o olhar atento à novidade refletida no horizonte, em tom de desobrigação.

A temperatura da palavra estampada em sua pele. Questiona sempre se os que a cercam realmente sabem sobre o que está tatuado em sua tez. E se eles compreendem que a tez é a cortina que separa o público das atrações principais.

Ela já sequestrou entendimentos, mas isso não deu certo. Desentendeu-se com ele em dois tempos, feito um samba de Cartola. Anda inquietada com a volatilidade das canções de amor, das preces e das bênçãos, da inegável necessidade de alento, companhia, fé, improvisação.

Improvisa um tamborilar sobre a mesa da cozinha. Um tamborilar esgarçado, de preocupação impertinente com a temperatura das palavras. Lá fora: tantos graus de um verão narcisista. A temperatura preferida dos que fogem para as praias, dos que ficam de molho em piscinas, dos que tentam se refrescar aos baldes d’água. A beleza para os que fotografam dias de sol para as revistas de turismo.

Dentro dela, a temperatura é a tecida pelas palavras: um inverno a toca, despudorado esse tal, e a faz pensar em cenários outros que não os veiculados em telejornal ou em comerciais de cerveja e refrigerante. A temperatura é a das palavras à sombra de tantas outras, gélidas, de um jeito bom, de quando se toma banho quente depois de tomar chuva, para então se enfiar debaixo das cobertas e assistir televisão, até cair no sono.

Badulaque tem temperatura da alegria e da alegoria. Distração é coisa morna dentro da gente. Paixão? Essa tem de correr das rimas.

A temperatura das palavras a perturba por pura oscilação. Por teimar em pertencer às estações da alma dela. Dela que insiste em levar a vida como quem anda em linha reta, ainda que, por ousadia de qualquer entidade dedicada a cutucar alma, ela acabe por contar nuvens como quem conta pétalas de flor colhida na quentura das emoções.

Perturbar-se é necessário.




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domingo, 9 de agosto de 2009

IGUAL PAPAI! >> Felipe Holder

Não gosto muito desse negócio de dia certo pra presentear. Não tenho nada contra dar presentes de aniversário, de Dia das Mães, de Dia dos Namorados, de Natal, enfim, nada contra dar presentes com data marcada. Mas pra mim os melhores presentes, aqueles que a gente nunca vai esquecer, normalmente são os que são dados sem um motivo especial. Às vezes até mesmo sem querer.













Quarta-feira, dia 5 de agosto. Noite quente em Montreal e eu assistindo ao jogo Náutico x Corinthians na telinha do meu computador. Meu filho Eduardo tinha me chamado pra montar com ele um de seus inúmeros quebra-cabeças, mas eu respondi “Papai agora vai ver o jogo do Náutico. Tá certo?” Normalmente ele reclama, mas dessa vez ele disse o seu costumeiro “tá ceto” e foi brincar sozinho.

Jogo nervoso, Corinthians perigoso, papai preocupado. O Náutico perde um gol incrível. Vai acontecer de novo: joga bem mas não consegue ganhar. Melhor perder logo de uma vez, pelo menos a gente não fica nervoso. 40 do primeiro tempo, pênalti para o Náutico. Papai grita “pênalti!”, Eduardo olha pro lado mas continua a montar o seu quebra-cabeça. A cabeça de papai quase quebrando de tensão: “Não perde, Gilmar, não perde esse pênalti!” E ele não perdeu. Papai gritou:

— Gooooooool do Náutico! Gooooooool!

Papai saltou da cadeira. E pulou como se estivesse nas arquibancadas do Estádio dos Aflitos com todos os seus amigos alvirrubros. Imediatamente, Eduardo jogou pro lado as peças que tinha na mão e gritou de lá:

— Êêêêêêê! Gol do Nauco! Êêêêêêê!

E correu até onde eu estava, me dando a mão pra pular também. E ficamos os dois pulando na sala, sob o olhar crítico de mamãe, que parecia pensar “mas que besteira...” Mamãe inclusive chegou a dizer “seu time é Santa Cruz, meu filho”. Mas Eduardo, se ouviu, preferiu não responder. Não era a hora.

Papai continuou a ver o seu joguinho, agora na maior tensão do mundo. Treze jogos sem vitória, estava mais do que na hora de ganhar umazinha. O intervalo passou rápido. Segundo tempo e a pressão do Corinthians era ainda mais forte. Sai já o gol de empate. Papai tomava Coca-cola, tomava sorvete, comia salgadinho, comia os dedos e o tempo não passava.

Eduardo agora estava na mesa, do lado de mamãe, comendo um pãozinho. Contra-ataque perigoso. “Quaaaaase gol do Náutico!”, gritou o locutor. Papai quase pulou da cadeira e Eduardo então gritou de lá:

— Êêêêêêê! Gol do Nauco! Êêêêêêê!

— Não, meu filho, dessa vez não foi gol, não. Quando for gol, papai avisa. Tá certo?

— "Tá ceto"!

Mamãe aproveitou pra provocar:

— E o seu time é Santa Cruz, não é Náutico, não.

Dessa vez ele, não ficou calado:

— É Nauco, mamãe. Não Santa Cruz, não. É Nauco!

— Não, meu filho. Você é do Santa Cruz.

Diante da insistência de mamãe, Eduardo fez valer sua firmeza de dois anos e fechou a conversa com um enfático

— Não! É Nauco! É Nauco! Igual papai!

Mamãe ficou surpresa. Papai quase se acaba de rir. E de contentamento também.

Sim, porque papai nunca “revidou” as investidas de mamãe — que vez por outra tenta transformar o filho em tricolor — pra não confundir a cabeça dele. Papai estava dando tempo ao tempo, esperando a hora certa de tentar conquistar mais um torcedor pro seu time de coração, um aflito coração alvirrubro. E papai nem precisou fazer nada, só torcer, como sempre fez. E ele não fez mais do que acompanhar seu time nos tempos de vitórias e nos tempos — bem mais freqüentes — de derrotas.

O Náutico ganhou o jogo, e papai ganhou um presente. Um presente que vale mais do que mil gols e mil títulos. Um “igual papai”, único e inesquecível.

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AMOR PLATÔNICO >> Eduardo Loureiro Jr.

Daniel Diaz - outrosdiaz.blogspot.comExiste um lugar onde tudo ainda é possível...

Quando eu tinha dez anos, era apaixonado por uma garota alguns anos mais velha. Na época, a diferença de idade — associada à minha timidez — fez com que o amor fosse completamente platônico. Com o passar do tempo, melhorei da timidez e a diferença de idade foi perdendo importância, mas, por um motivo ou por outro, a paixão continuou platônica por um bom tempo e, depois, se dissolveu entre tantos amores de parte a parte. Mas surpreendentemente, e de uma hora para outra, as coisas mudaram...

Ontem, trinta anos após o início da paixão, justamente na semana de meu aniversário de 40 anos, eu a reencontrei. Eu tinha ido a uma exposição de desenhos do ilustrador de meu primeiro livro para crianças. Uma exposição magnífica que, além da qualidade dos desenhos, tinha uma atmosfera mágica. O curador havia conseguido organizar não apenas o espaço, mas também o tempo. Em alguns momentos, cheguei mesmo a ter a sensação de que não estava no presente, ou de que o presente em que eu estava não era o mesmo em que eu estivera instantes antes. Sou capaz de jurar que voltei no tempo, e me percebi sentado novamente na sala de espera do prédio de minha primeira editora, evitando demonstrar que eu estava muito feliz por ter meu primeiro livro publicado.

Foi na saída da exposição que a encontrei. A antiga garota dos meus sonhos — que eu também já havia visto moça e jovem — agora era uma mulher madura e não lembro de tê-la visto tão linda antes.

Talvez ainda contagiado pelo clima transtemporal da exposição, senti-me novamente com 10 anos, completamente apaixonado, embora mantivesse a consciência de que não éramos mais crianças. Quando a vi, cheguei a lembrar de um pensamento insistente que eu tinha há alguns anos, quando era casado com uma mulher com a qual pensava que passaria toda a minha vida. Mesmo bem casado — e contente —, de vez em quando eu pensava: "Jamais serei realmente feliz se não namorar fulana pelo menos uma noite". Uso o verbo namorar, aqui, não como eufemismo para o verbo transar ou para a expressão fazer amor. Eu desejava mesmo ser seu namorado, andar de mãos dadas, tomar sorvete, puxar-lhe pela cintura, declarar-me, beijar-lhe e, claro, fazer amor. Passou tanto tempo que até esse pensamento recorrente se foi, mesmo o casamento — que era pra ser eterno — tendo fim. E eu namorei uma série de outras mulheres, esquecido dela.

Até que a vi sentada naquele sofá de couro azul à saída da exposição. O sofá era tão belamente azul que parecia pintado por meu ilustrador, e fazia tudo em volta parecer preto e branco. Ou quase tudo. Os olhos dela, castanhos, também tinham o mesmo brilho que empalidecia todas as demais cores.

Quando ela me viu, falou tão baixinho que eu interpretei como um convite para me aproximar. Sentei na pontinha do sofá, enquanto ela deslizou no couro, apoiando a cabeça no encosto. Com uma voz quase inaudível, mas que, paradoxalmente, abafava todos os ruídos do saguão, ela começou a se declarar para mim. Eu, completamente surpreso, escutei meu grande amor platônico, a mulher dos meus sonhos, dizer que há muitos anos era apaixonada por mim, que lamentava nunca termos ficado juntos. E, incerta sobre se eu estava ou não me relacionando com alguém, ela me pediu — num tom de súplica — que, da próxima vez que um relacionamento meu terminasse, eu a procurasse, que eu desse uma chance para nós dois.

Não acreditei. Era bom demais para ser verdade. Pedi que ela se endireitasse no sofá, que olhasse fixamente em meus olhos e me explicasse que brincadeira era aquela. Ela se pôs ereta e repetiu tudo, não no mesmo tom de súplica, mas quase como quem exige um direito. Eu já não tinha dúvidas. Acreditava. Mesmo assim, dividi com ela um longo silêncio, como se — apenas olhando um no olho do outro — repassássemos toda a nossa vida, todo o nosso desejo calado um pelo outro durante todos esses anos.

Era a hora perfeita para o beijo. Fechei meus olhos — e ainda pude vê-la também fechando os seus. Inclinei levemente meu rosto e fui em sua direção.

Mas seus lábios pareciam não chegar nunca, nunca... e voltei a abrir os olhos.

Não havia desenhos nem sofá — nem mesmo ela. Meus olhos piscaram até admitir que eu estava em meu próprio quarto, olhando para o teto. Fechei os olhos com força, como se apertasse um botão emperrado de uma máquina do tempo, como se ainda fosse possível viajar conscientemente para um lugar onde tudo é possível — o mundo dos sonhos.

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sábado, 8 de agosto de 2009

CALEIDOSCÓPIO [Sandra Paes]

Debruçada. Semprei achei essa palavra e imagem muito estranha. Lembro-me da primeira vez, quando criança, em que experimentei seu significado. O céu debaixo das pernas parecia um convite especial a uma viagem transcendental. A cabeça de menina, por certo, não tinha os conceitos na mente, mas a visão de cabeça pra baixo revelava quase que um outro mundo.

Depois disso, as piruetas, as cambalhotas. Estar horas e horas na barra de ginástica não era, como pensavam os adultos por perto, um exercício a mais pra uma menina com vocação de ginástica. Qual o quê! Eu estava mesmo em busca do céu às avessas. Que maravilha poder não sentir a gravidade e ter o céu sob as pernas, de tantas formas e contornos que poderia fazer tantas e tais posições e prender a respiração apenas pelo lúdico movimento de estar no céu de certa forma.

Hoje, contemplando a tempestade lá fora, ouvindo ao telefone queixumes sobre os relâmpagos, me vi bebendo a chuva e em glória única diante dos trovões e relâmpagos que o céu exibia.

De novo, eu e o céu. Esse mar azul onde sonho nadar por tantas vezes. Entre nuvens que parecem flutuar, sigo sóbria e lépida, ao mesmo tempo num mergulho único, e saio banhada de luz e leveza entre as braçadas e movimentos serpenteantes que faço no puro azul do céu.

Vejo, pela televisão, momentos de cebebração pela chegada do homem à lua. Minha paixão pelo cosmos e essa vontade de alma de o virar do avesso me fez vibrar orgasticamente com a frase de Gagarin dizendo: “A Terra é azul!”.

Sim, conheci ali a inveja. Quisera estar em seu lugar olhando o planeta pela janela. Tão maravilhada quanto a menina que descobria o céu entre as pernas.

Fundei ali meu caleidoscópio. Criei ali o desejo já plantado na alma por éons de ver em miríades todas as imagens como reflexos de milhares de espelhos que tudo refletem. Dos pensamentos aos desejos. E eles nem teriam tais nomes. Na imaginação, onde todas as ações são apenas imagens, seu criador nada precisa fazer. Apenas o ato de estar sempre de cabeça pra baixo lhe dá a dimensão que tudo está certo e em seu lugar, ou seja, lugar algum.

Portanto, cessem os chamados de ofertas, de cobranças, de propostas de negócios e lucros, e toda essa conversa sobre vantagens disso e daquilo. Sou uma viajante em céu de brigadeiro, onde não há guerras nem competições de mercado, e nem se ouve falar das coisas dos homens. Essas com etiquetas de preços e valores a serem barganhados como ensinaram os velhos vendilhões dos templos e dos mercados.

Não quero compras nem vendas, não gosto do jogo das apostas como sintoma de vitórias e derrotas, nem pisco pela possibilidade de ganhar só pra mostrar que posso ser a tal. Entre fulano e sicrano, prefiro beltrano só porque não apareceu na opção ofertada. Esse o efeito na escala de valores de quem descobriu muito menina que a vida é apenas a possibilidade de trocentos caleidoscópios, e eu sinto muita saudade de brincar outra vez, sim, de cabeça pra baixo.

Que bom ver tudo de pernas pro ar. Que luxo quebrar com a gravidade de tudo - da Terra, dos objetos, da seriedade de temas e juízos, de tudo que se nomeia como certo e real, de todos os sintomas catalogados como forma de se cercar uma gnose e dar um diagnóstico.

Bah! Cessem os tambores dos anúncios dramáticos ou prenúncios de novidades. Pois a coisa mais certa de todas as coisas, no céu do avesso, pode ser apenas uma possibilidade e, se piscarmos os olhos, tudo se movimenta e se altera.

Por que não experimenta? Arruma a coluna e revela que, mesmo com vértebras tortas, pode-se perder o centro com alegria e ainda rir de tudo que parece esquisito por estar fora de ordem.

Desdigo a virginianice criticada em mim e apenas sorrio, porque, afinal, em não sendo fundadora da ordem, gargalho diante dos arremedos de justificativas de como deveria ser certinha e responsável.

Faço de minha vertigem cotidiana um retorno aos tempos de menina na barra em busca de uma nova visão do céu e da terra.

E per se move...



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sexta-feira, 7 de agosto de 2009

A conquista do parágrafo >> Leonardo Marona



“Por outro lado,
sempre os outros morrem”
(Marcel Duchamp)


Começo o texto por um famigerado título: “Envelhecer”. Mas é tudo mentira. Ninguém envelhece com alguma consciência. Envelhecer é perder a consciência ao falar em nome dela. Mesmo assim, duvido muito que o título permaneça até o fim deste pequeno relato. Na verdade, detesto a palavra “relato”, mas prometi a mim mesmo, dessa vez, não suprimir nada. Os velhos, afinal, acumulam coisas, “experiências”, eles chamam assim. Anoto em papéis amassados coisas sem importância, perco os dentes pelas ruas enquanto a chuva me consome, casei-me enfim, escrevi um livro, é como se me beliscasse o tempo todo. As pessoas – cada vez mais eu acredito – se casam por medo. Não que seja um inferno amar alguém. Mas só ama quem tem medo. Será que tenho medo ou, afinal, não sou uma pessoa? Os corajosos desbravam ilhas e mastigam ópio. Os medrosos se casam, compram cigarros no varejo. Não faz muito tempo eu chorava bastante, sentia uma raiva incontrolável da qual me orgulhava. Brigava nas ruas, abraçava inimigos, cuspia no chão. Os cabelos voavam com o vento e as meninas, muitas vezes, brincavam de quem-consegue-ficar-mais-tempo-sem-desviar-os-olhos. Não faz muito tempo, tratavam-me como um embusteiro, diziam: “Não há dor para tanta lágrima, trate de se mexer, arranjar um emprego”. Arranjei mil empregos, mas a força do hábito antecipa demais as emoções. A verdade deve ser sempre tratada a pontapés. Hoje sequei. Parece que sou movido por guelras de peixe. Forço o choro dentro do ônibus, enquanto faço minhas anotações ou escuto Roberto Carlos. Detesto Roberto Carlos, escuto Roberto Carlos, sou um homem moderno, detesto os que sorriem o tempo todo, usam calças compridas sem ter pernas e dizem frases importantes, jogando rosas enquanto olham o relógio. É mesmo curioso: se ao acaso me pego com a visão umedecida, se forço a dor para fora porque por dentro estou enferrujado, sei que não passa de um subterfúgio, mais uma mentira, espécie de saudosismo vazio anti-heróico. Mas logo aparece alguém compadecido, com frases imperativas e mãos frias, cheio de esperança e votos de força, suando as têmporas, não vendo a hora de se livrar de ti, tentando te levantar o ânimo, falar sobre a beleza da vida e as cores do planeta. As pessoas não valem o que comem. Basta verem alguém forjando emoção e logo montam com ela, silenciosamente, um cartel sentimental. Eu, de minha parte, escrevo apenas textos fragmentados, aforismos, receitas longas de um só parágrafo, instruções para uso, imitações baratas de Campos de Carvalho, enfim, coisas de quem está ficando senil. É, portanto, uma falácia a sabedoria que vem com o tempo. O tempo, ao contrário, nos arranca fora a sensação de ultimato, de que qualquer segundo significa uma vida inteira. E as idéias, já dizia um velho indiano muito magro, apenas adiam por alguns instantes o movimento equivocado, dado aos solavancos, os pés de um vômito bestial, beato de ingenuidade e pavor, que compõe inimagináveis genocídios, enquanto, por outro lado, ficamos satisfeitos em não falar mais com nossos pais. Quanto mais tempo passamos vendo o que não entendemos, menos entendemos e mais acreditamos que sabemos mais. Essa equação um tanto óbvia, no entanto, se dissolve quando chegamos a um velório e dizemos “sinto muitíssimo, uma perda inestimável”. O fato é que envelhecemos apenas porque não sabemos morrer. A voracidade com que me dirijo a um prato de sopa diz qualquer coisa sobre a falta de fome. Envelhecer é comer sem fome, amar sem medo, escrever sem razão, ganhar prêmios e, com um pouco de estabilidade, rir da vida. Nada muito diferente do que os internados fazem nos hospícios, portanto. Mas não quero me sentir soturno assim, com idéias demais. As idéias servem apenas quando deus está entediado. Então guerrilhamos e ele se diverte, arreganha outra vez os dentes, passa a mão na barriga. Mas preciso, hoje, lutar com os punhos limpos, ao menos uma vez. Não espero muito e tenho medo da enorme onda, mas não quero ter os pés juntos quando, enfim, rezar. Não posso mais enrolar as palavras, limpar com indiferença a ternura da minha falta de tato. Quero pés de vento para fugir de uma boca estranha que me arranca pequenos pedaços diários mesmo que, diante do espelho, apenas tenha havido uma leve inclinação dos olhos que, apesar de sadios, diria até ágeis, já viam muito pouco. O rosto envelheceu pouco, mas os olhos se desgraçaram por completo, já não fazem mágica, ganham tempo ainda fora da enorme boca. De que adianta, nesses dias chuvosos, uma capa de detetive e um poema de Pessoa? De que adianta, Pessoa, senhorzinho insignificante de bigode, disfarce pleno de coisa alguma, de que adianta, por acaso, fazer versos de punho em riste para entrar no mesmo bar todos os dias e pedir um pouco de conhaque para alimentar o câncer futuro? Pare já de dizer esses nomes importantes, exclamações de guilhotina, palavras difíceis. Tentarei fazer o mesmo, não o culpo. Não suporto mais falar da minha própria condição, mas só posso fazer isso, já que minhas mãos agora são metralhadoras que anestesiam com cortisona as frases e diminuem a dor de cabeça por um dia ou dois, às vezes por minutos, mas os pés balançam, entregam a tensão por debaixo da escrivaninha, e não há mais o que dizer sobre campos ou vidas toleráveis, não há o que falar sobre as desventuras de homens gigantes e dos pecados aprovados por carimbos ilegais. Estamos completamente sós e precisamos, apenas, conquistar o mundo. Conquistar pelo menos o parágrafo, enquanto mudam os títulos.





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quarta-feira, 5 de agosto de 2009

NECESSIDADE DE HOJE >> Carla Dias >

Quando eu era mais jovem, tinha uma necessidade tresloucada que vivia dentro de mim. À noite, ela me tirava o sono. Durante o dia, me distraía do que tinha de fazer.

Essa necessidade também teve suas fases, de acordo com o tempo do meu calendário de vida experimentada. Por exemplo, aos dez anos, eu a chamava “cadê o meu buraco?”. Sei que dar nome a algo usando uma frase, ainda mais com ponto de interrogação no final, não funciona na maioria das ocasiões. Mas, neste caso, tinha tudo a ver com os meus dez anos de idade e a vontade louca de me enfiar num buraco e não precisar lidar com as pessoas. Para mim, os adultos estavam sempre fazendo perguntas menos importantes do que a falta de ar que me pegava de jeito quando tentava entender aonde ia dar o universo.

Mais tarde, a minha necessidade era de livros. Lia tudo o que caía na minha mão, romances água com açúcar, gibis, revistas de música, álbum de figurinhas, bulas, receitas da lata de leite condensado, Herman Hesse, Vinícius de Moraes, Clarice Lispector, Richard Bach, Milan Kundera, Lobsang Rampa... Foi a necessidade por me infiltrar no universo desses escritores que me levou a pegar três ou quatro livros por semana na biblioteca da minha cidade.

Mais do que ler aqueles livros, eu ficava imaginando quem os teria lido. Aqueles números de controles nas capas, a fichinha de retirada e de entrega, os nomes que eu não sabia de quem eram, mas enfeitavam a minha imaginação. Pensava muito sobre as casas, gavetas e bolsas por onde passavam aquelas histórias. E almas... As almas que os sorviam.

Um pouco mais adiante, e a necessidade era de assistir aos filmes da promoção “pegue 5 do catálogo e fique com eles durante 5 dias”. Descobri que adorava as locadoras de vídeo, que era sempre um prazer passar um tempão vendo aqueles filmes, lendo sinopses e ficando bronqueada com títulos horríveis em português e capas que eram um pesadelo, mesmo quando o filme era “de amor”. Obviamente, isso nunca me impediu de pegar tais filmes, vide o “Apaixonado Thomas” e “O Buraco”. Ótimos filmes, péssimos títulos, capas estranhas.

Foi então que chegou essa necessidade que resolveu prevalecer. Claro que continuo querendo um buraco onde enfiar a cabeça, toda vez que tenho de lidar com pessoas que não conheço, mas acho que tenho enfrentado esse problema com mais classe do que a menina bicuda que era aos dez anos de idade.

Certamente, os livros ainda freqüentam minhas necessidades, tanto que não me bastou lê-los, por isso me atrevi a começar escrevê-los. Porém a gana é outra... Muito mais curiosa pelos detalhes, disposta a perder mais tempo em cada um deles, visitar as entrelinhas, hoje a urgência vem de outro canto. É urgência em me embrenhar pelos mistérios que os livros carregam para seus criadores.

Ando cada vez mais envolvida com esse mundo do cinema, dos filmes. Perdi completamente o pudor em relação às sinopses e às capas, e me arrisco, sem pestanejar. Às vezes, as surpresas são daquelas, como ontem, ao assistir “A Vingança de Alexandra”.

Descobri - agora adulta e mais desacautelada do que quando tinha dez anos – que a necessidade pungente e vigente é a de me acalmar um pouco... Desnecessitar. Pode parecer que não, porque sou até que reservada, mas enquanto a tranqüilidade transparece são as necessidades – que sim, hoje são muitas – que fazem baile no meu dentro. Estou sempre pensando em muitas coisas ao mesmo tempo, calculando um jeito de chegar na hora, mesmo quando ao meu corpo só resta o descanso. A necessidade de valer a pena, de conquistar afetos, de demonstrá-los claramente. E daquelas tardes de sábado regadas à preguiça da mais sonsa, a insônia morando em outra freguesia.

Desvencilhar-me da necessidade turbulenta, criada apenas para amparar o meu passeio por aquele buraco onde vivem as controvérsias da minha própria existência.

Não é a primeira, talvez não seja a última vez que requisito um descanso de mim mesma. Complicado é me dar conta de que, sendo assim, esse descanso é a atual necessidade que me tira o fôlego.

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