segunda-feira, 29 de junho de 2009

VIA DOLOROSA >> Albir José Inácio da Silva

Podia ser um dia comum, mas não era. Não para ele. Não acordou, porque não tinha dormido. Amanheceu. Chegou a hora. Vestiu-se, ouvindo a própria respiração. Olhava a porta e via além dela: a sala branca e fria que nos últimos dias invadiu seu sono. Lá estaria daqui a pouco. Não merecia isso.

No caminho, ouviu seus passos como um tambor distante a marcar o tempo. A vida podia ter sido diferente. Nunca recebeu muita coisa da vida. Fazia o possível, o que sabia. Não era uma pessoa especial, mas também não era nenhum monstro. Não merecia aquilo. Recebia conselhos, mas apoio nunca. De nada adiantava pensar essas coisas agora. Pareceu-lhe que todos o olhavam. Uns com pena, outros com indiferença, mas nenhuma solidariedade. Uma solidão como nunca tinha sentido. Se pelo menos sua mãe estivesse aqui, segurando sua mão.

Sabia de pessoas que entravam ali sorrindo, desafiavam os presentes com o olhar e enfrentavam com dignidade aquele momento. Não era o seu caso. Nunca foi muito corajoso e não ia ser agora. É um absurdo, com todo o avanço da ciência, que ainda não houvesse maneira mais civilizada. Quis gritar, mas a voz não saiu, respirar já estava difícil. Tentou uma oração: — Pai nosso que estais no céu, venha a nós o vosso ventre... — desistiu.

O garrote fez inchar a veia enquanto ele olhava a luz branca do teto. Não sentiu a agulha no braço. Só na alma. Um suor gelado escorreu pelo corpo. A vista escureceu. — Morri?, pensou.

— Acabou — disse a mulher de branco. — Viu como não doeu?

Saiu à a rua e o sol era mais brilhante. Sua vida não era tão ruim, afinal, e hemograma não é o fim do mundo. Nem é todo dia.

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domingo, 28 de junho de 2009

EU SOU ASSIM >> Eduardo Loureiro Jr.

Presentemente, eu sou assim. Até sou também o que já fui um dia, mas ainda não sou o que um dia serei. Não conto com o ovo no cu da galinha. Eu sou assim.

Eu sou assim. A alegria de acordar com o sol e a tristeza de ser despertado. A insônia criativa que acende a madrugada e o dormir cedo, antes das dez.

Eu sou assim. A preguiça da rede sempre armada e o pé no sopé da montanha, pronto para a escalada.

Eu sou assim. O melhor lugar é a casa, sem nem vontade de ir na esquina, e a passagem comprada para dar a volta ao mundo e conhecer suas sete maravilhas.

Eu sou assim. O silêncio pelo silêncio, sem vazios nem meditação, e a comunicação instantânea: os e-mails que às vezes não voltam, mas que sempre vão. O autismo mudismo e a verborragia escorregadia.

Eu sou assim. O homem só. Um homem só, bendito entre as mulheres. E o misógino que mais as odeia quanto mais as entende.

Eu sou assim. O romântico incorrigível e o sangue frio. Romeu Tuma e Romeu Montéquio.

Eu sou assim. Só penso naquilo e, quando estou naquilo, não penso.

Eu sou assim. O eremita isolado no topo do mundo e apenas mais um na multidão. O pretérito poético do passado e o futuro científico da ficção. Os grupos e grupos de amigos e meu único e velho umbigo.

Eu sou assim. O pai do filho que nunca tive e o nunca filho do pai que me teve.

Eu sou assim. O labirinto intrincado e o sempre aberto pátio. A garra da águia e o canto do pássaro.

Eu sou assim. O Judas que ajuda e o Pedro que pedra. O contentamento com as minúcias e o desagrado com os noventa e oito por cento.

Eu sou assim. O menino traquinas e o velho gagá. O professor que sempre aprende e a criança que dá aula.

Eu sou assim. A palavra que emenda e a palavra que corta. A palavra que arranha e a palavra que alisa. O cuspe na cara e o beijo na boca. A barba por fazer e a cara de bebê. O cabelo comprido e o cabelo raspado. A careca de herança e as sobrancelhas fartas.

Eu sou assim. O computador e a analogia. A crônica aguda e o lápis desapontado.

Eu sou assim. A fusão com o outro até o meu próprio esquecimento e eu mesmo virado do avesso. As asas do anjo e os dentes do vampiro. Renascido no inferno e padecido no céu.

Eu sou assim. O cão e o gato. O que assusta e o bonito.

Eu sou assim. A cabeça nas nuvens e o detalhe da programação. O estudo do plano e a liberdade do improviso.

Eu sou assim. O isso e o aquilo.

Eu sou assim. A poesia na hora da prosa, a prosa manchando a poesia. A pele e o osso. A flor da pele e o espinho do osso. A declaração de amor e o "vai catar coquinho".

Eu sou assim. Pão-duro e pau mole. Miolo mole e cabeça dura.

Eu sou assim. A tese e a antítese sem síntese. Dou-lhe uma, dou-lhe duas... três é demais. A polêmica esganiçada e o tanto faz. O carrasco de quem não merece e o salvador de quem não precisa. O parteiro e o suicida.

Eu sou assim. O homem mais fiel que existe e a atração irresistível pela mulher que passa. O amor à primeira vista e a paixão que só chega dez anos depois. O olhar do tarado e os olhos de moça.

Eu sou assim. O livro infantil e o vídeo pornográfico.

Eu sou assim. Vapores expansivos de Júpiter, anéis restritivos de Saturno. Aos turnos, aos turnos. Eu sou o Sol, o Sol, o Sol, o Sol, novo, crescente, cheio, minguante. E sempre a mesma Lua.

Eu sou assim. O chão sempre limpo para os pés e a meleca secando na fricção dos dedos.

Eu sou assim. A-sim. O sim e sua negação. O não do sim, o sim do não.

Eu sou assim. E não assado. Presentemente, eu sou assim.

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sábado, 27 de junho de 2009

VALE QUALQUER RAIZ [Monica Bonfim]

E aí ela espalma a mão na testa e diz: "Ave Maria", com um sorriso entristecido. E isso três ou quatro vezes no meio da conversa, enquanto olha em volta com olhos ávidos para ver se alguém está olhando a cena e se interessa pela pobre moça sentada.

Desvia a energia inteira que tem para o chacra básico... E aí apresenta todos os sintomas da "aflixota" básica: caça (literalmente) um homem dentro de uma boate, abraça todos os conhecidos (gente que não a vê há séculos e nem sabe direito quem ela é) pelo prazer ínfimo que obtém com o abraço fugaz, se apresenta para gente que não a reconhece só faltando dizer o CPF do outro... É como se gritasse: me veja, me dê importância, me ame, por favor.

Se cerca de gente aflita e ansiosa porque tem que sair de casa, tem que ver a rua, tem que buscar um par. Gasta horrores com sapatos e bolsas, mas não compra um livro. Não dá uma volta no shopping sem sair com mil roupinhas, mas não vai ao cinema. Me contou 10 vezes a mesma coisa da viagem que fez ao Nordeste (exatamente o que deu errado) porque não tem assunto.

E não adianta eu mandar todos os textos que eu tenho sobre auto-estima, dizer que, pelos problemas que ela passou, teria que, no mínimo, fazer uma terapia com alguém competente ou procurar se dedicar a uma linha espiritual -- ou ambas... Ela prefere se fazer de vítima e tomar calmantes.

Pior... Considera uma meta todos os adereços ou roupas que eu visto, até minha comida, porque acha que eu estou "dando certo", tendo êxitos em minha vida pessoal. Então procura copiar, e ultrapassar, a minha casca.

Eu sei que já estive nesse mundo... Talvez num paralelo não tão brabo porque minha autocrítica grita mais alto, ou talvez meu orgulho, que era um substituto pobre para auto-estima, já que o risco da rejeição superava longe o prazer do abraço fugaz. Além disso, eu nunca tive grana para ficar comprando roupas e sapatos e coisas que tais só para suprir minhas carências... Comer era mais barato -- e aqui cabe uma risada.

Mas me dá uma tristeza tão grande ver alguém nesse estado, que vocês nem imaginam... E o único remédio para aflixota é auto-estima -- não tem outro, não tem jeito. Enquanto o toque físico for o que se acha que pode preencher o enorme vazio que se sente por dentro... Adeus. Vai-se fazer cenas em público, falar alto para chamar a atenção, grudar no primeiro pobre coitado que olhar, insistir em relações doentes, achar que o sujeito que está olhando pro outro lado se apaixonou perdidamente e tem gente que até acha que recupera amigos gays... ai, ai, ai.

O grande problema que fica é que a gente, que já saiu desse buraco -- sem trocadilhos -- sabe que só se sai sozinho, que o máximo que se pode fazer é tentar achar as palavras mágicas que vão conseguir dar um tranco na criatura... Aquilo que vai fazer ela despertar para o valor que tem.

O difícil é achar quais são essas palavras... O difícil é saber que, se as acharmos e se falarmos, a dor que vão causar (tranco só acontece com dor mesmo, não tem jeito) vai doer na gente também.



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sexta-feira, 26 de junho de 2009

PLÁGIO BARATO DE CAIO FERNANDO ABREU >> Leonardo Marona

Você me fala do meu poema sobre Zelda Fitzgerald, você fala de mim como se eu fosse um touro corajoso e pronto para qualquer capa vermelha, você diz que sou algo que “impulsiona, rebela, explode”, diz que sou lindo, “um homem lindo”, e não que isso seja tudo o que preciso ouvir alguém dizer, até porque reconheço bem essa sensação de formigamento quando nos sentimos presentes de alguma forma na vida de alguém, sei quanto tempo dura, reconheço que, daqui a minutos, estarei outra vez batendo com a cabeça na parede e ouvindo Tim Buckley. Principalmente, sei da minha farsa, e ter amor em sabendo a farsa: não há dádiva maior. Mas você fala e isso é tudo o que importa. Você fala, te imagino de olhos fechados e unhas pintadas, a tinta descascada e os sonhos comidos pela peste, mas os olhos mantêm aquele brilho fundo de uma ternura metálica. E, então, você fala. Fala que vai musicar meu poema chamado Zelda Fitzgerald, a mesma que pegou fogo na cama de um sanatório enquanto o marido se gabava com desconhecidos desdentados e era roubado em bares imundos: “Sou o maior escritor americano vivo”. Mas que importam Zelda, Scott, se agora posso reconhecer com leveza a mentira da intensidade, porque é por estar completamente vazio que li com beleza a carta em que você falava. Falava sobre uma viagem ao sertão-sul do Ceará, “no pé da chapada que leva até Pernambuco”, falava de um determinado português que encontrou por lá e que era a cara do seu ex-namorado – “o amor da sua vida” – e que pediu a este completo estranho, cuja lembrança ilegítima uma vez amara (nossa, isso ficou tão Charles Dickens!), mas eu digo isso, ainda que não reste muito das minhas unhas negras e eu seja apenas um proletário que perde um filete de ternura a cada carregamento de perdão à casa dos acorrentados, mas importa agora enquanto te respondo apenas QUE VOCÊ AMAVA, porque neste português desconhecido de quem você ouviu meus poemas “em Sintra, em Lisboa”, e nele você não via nada, mas sentia a mesma coisa que da outra vez também não viu, porque o que importa mesmo não se vê. Sim, compreendo, o português recitaria meus poemas, você poderia ouvi-lo de outra forma que não a sua e, veja bem, nem mais sei quem escreveu os malditos poemas, já que – imagine! – a surpresa pela forma da tua emoção diante da emoção alheia para mim é dizer a frase: “Veja o poema tomando forma própria, não sendo mais meu (essa miséria sem cordão umbilical) que é o ideal de qualquer coisa que se possa decalcar em árvore ou tornar-se crime”. E agora será inevitável segurar o passo e engolir o choro, já que Tim Buckley insiste com “Blue Melody” e eu nem bem comecei minha terceira cerveja, mas ainda leio o que você fala, veja bem, “eu LEIO o que você FALA”, são coisas com asas e âncoras sutis, são cílios bem-feitos no rosto de um decapitado, de uma beleza como nos quadros pré-religiosos; e você lembra que em algum lugar ainda é verde, “muito muito muito verde” e você diz que eu deveria comprar uma passagem azul e ir lançar meu livro nesse verde todo, e ainda tem o fato de que você também está com seu livro na prensa e roendo as unhas, e então de alguma forma somos um grupo de unhas descascadas, roídas e ainda têm as viagens que precisamos fazer, você diz: “Precisamos viajar para divulgar o livro, além do que é divertido”, e fala das expectativas sobre Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Salvador; fala sobre um carinho especial por Salvador – e quem não tem? – e que as coisas vão mal, as olheiras crescem sem vergonha, as luzes piscam e cegam nosso discernimento seletivo entre restos nobres; você fala também do sol, da sorte, de imagens pulsantes, cobertas por uma lava negra, prato cheio para lâminas e poemas óbvios; fala de coisas que se pode esperar já que não estão em lugar algum. Aqui Tim Buckley acabou. Mas eu “mantenho o som da sua voz nos meus ouvidos”. Ou, pelo menos, algum ouvido, nem que seja para despejar algo queimando.


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quinta-feira, 25 de junho de 2009

CABELOS AO VENTO >> Kika Coutinho

Ela morava no 2º andar e eu no 4º. Ela tinha cabelos compridos e encaracolados. Eu tinha cabelos médios e lisos. Ela era mais cheinha, e eu, magricela. Mas ela era esperta e extrovertida. Eu era mais envergonhada e tola. Ela devia ter uns 6, e eu devia ter uns 7 quando tudo aconteceu.

Ela me chamou para ir brincar lá na casa dela, e eu fui. Quando entramos no quarto da TV, já estava tudo montado. Uma cadeira, tesouras, revistas. Eu era a cliente, ela era a cabeleireira. Sentei-me na minha cadeira enquanto ela, sempre muito falante, começou a me explicar sobre os cortes da moda, o estilo, a beleza. Eu aceitava, calada. No meio da falação, notei que a tesoura na mão dela era de verdade, mas não reagi. O natural aconteceu. Ela, a cabeleireira de 6 anos de idade, começou a cortar o meu cabelo. Eu sabia, dentro de mim, que aquilo não estava certo, mas não falava nada. Assistia cair no chão os longos chumaços de meus cabelos, com uma sensação de estranheza e impotência. Ela estava tão empolgada, e agia tão depressa, que eu não conseguia me expressar. Lembro-me que estava com o dente da frente mole, quase caindo, e só o que fazia era senti-lo balançar na minha língua, bem quietinha, enquanto minha amiga se esbaldava.

O corte foi radical, mas rápido. Ela tirou todo, todo o meu cabelo. Cortou até o talo, deixou só aquilo que uma tesoura não conseguia mesmo tirar.

Quando, no final, tal qual uma profissional dedicada, ela trouxe um espelho, eu tomei um susto. Quase que me lembro da minha cara assustada diante de uma menina sem cabelos que eu vira no meu reflexo.

“Você cortou tudo? Você cortou de verdade!” Eu disse, indignada.

Ela, com certo arrependimento, entregou-me a tesoura: “Corta o meu então?”. Sentou-se confortavelmente na cadeira e esperou que eu me vingasse. Mas eu, uma tola menina boa, não tinha coragem. Queria vingar-me, sentia dentro de mim uma enorme raiva, mas não era capaz de mover as minhas mãos para arrancar-lhe os cabelos também. “Vamos, corta! Pode cortar!” ela dizia, sabendo do meu sofrimento. Eu tentei obedecer, mas foram poucos e curtos os fios que lhe tirei. Nem aparecia nada. Era uma demonstração de covardia, aqueles ralos fios que saíam na tesoura, tão leves que eu nem os notava no chão, misturados aos meus.

Foi enquanto eu lutava comigo mesma, para ser esperta e vingativa, que a campainha tocou. Ouvi a voz da minha irmã mais velha, que dizia ter vindo me buscar.

Senti um alívio de encerrar aquela tortura, e corri para a sala. A expressão de horror dela quando eu apareci na porta está cravada na minha memória até hoje: “Kika!” ela gritou. Eu tentei explicar, mas fui logo dizendo que era ela, a outra, que tinha feito isso. A menina, safa, saiu retrucando que eu também tinha cortado o dela. Nada adiantava. Minha irmã berrava, talvez até chorasse de raiva e indignação. Pegou-me pelo braço e levou-me embora, fazendo um escândalo sem tamanho.

Ainda chamou a mãe da menina, brigou com ela, enquanto eu ficava calada, sentindo um dente mole na língua...

Logo o dente caiu e, quando outro nasceu no lugar, os cabelos já estavam crescendo, como que para mostrar-me que, ainda que seja doloroso, tudo pode, de fato, crescer de novo depois de lhe ser arrancado. Nunca mais esqueci a lição.

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quarta-feira, 24 de junho de 2009

A FELICIDADE.EXE >> Carla Dias >>


O que é a felicidade?

Seria um clique e a execução descarada da nossa necessidade de sorrisos, abraços, cafezinhos, vinhos e comida boa, cafuné, compreensão?

Quando recebi a notícia de que o novo disco do compositor, violonista e cantor Élio Camalle teria o título de A FELICIDADE.EXE, antes mesmo de me esbaldar nas definições tecnológicas, peguei-me namorando as metáforas, saboreando a ideia de haver esse jeito virtual de clicar em emoções executáveis. Mas claro que ele já tinha pensado nisso antes:

Ela me abriu a janela e disse: clique aqui e seja feliz! Foi o que eu fiz, cliquei.
(Programa)

Como seria experimentar um programa que nos ensinasse a ver a vida através de frames de felicidade?

Eu suspeito das pessoas felizes em tempo integral. Admiro profundamente as que sabem saborear a felicidade sempre que ela aparece. Por isso mesmo o A FELICIDADE.EXE me soou íntimo. Quem ouve o disco passa pelos altibaixos oriundos dos tradicionais sentimentos cravados na alma do ser humano, passando pelo abandono e pelo encontro, pela percepção clara de que a poesia gargalha, enquanto se debulha em lágrimas.

Que raio de amor é esse que me pegou sem prévio aviso, sem dinheiro e sem filtro solar, sem os meus óculos escuros?
(Festa da Solidão)

Sábado passado, fui à Casa das Rosas, esse espaço cultural super bacana que fica na Avenida Paulista, aqui em São Paulo. Fui assistir ao show de lançamento do CD A FELICIDADE.EXE e, claro, dar um abraço no amigo que não via há um tempão, o pai do Théo.

Tu, revelando o filho de um tempo atrás, eu, construindo o pai que um dia serás.
(De pai pra filho)

Élio Camalle é um dos meus compositores preferidos, mas também aprecio, e muito, o instrumentista. Ele faz o violão cantar o número de identidade, e falo de número de identidade musical! Também gosto demais da sua voz a cantar sua poesia que, mesmo dolente, remete à esperança de compreensão e regalo.

Deus da minha necessidade, da minha imaginação. Deus da minha cidade, do pavor de morrer cedo, do medo da solidão, vim aqui lhe confessar: dia desses fui feliz, vi que era lindo o mar.
(Dúvida)

Mesmo quando o artista enfia o pé na irreverência, há uma sutileza abastada de tramóias para nos pegar no pulo. Ele brinca com a palavra para abordar seriedades, e o faz como o menino que gosta de estilingue e tenta, diariamente, acertar uma estrela, mas só para que ela venha a Terra lhe fazer companhia.

Vou viajar pro beleléu, morar na casa do chapéu. Onde Judas perdeu a sola do pé. Vou sem saber pra onde vou. Vou longe! Vou desaparecer do mapa, tomar um chá de sumiço.
(Longe)

A felicidade é uma dona indecisa. Às vezes, ela medita milênios sobre meandros, só para decidir, bandeando para a urgência, a quem atenta e a quem atende. Sobram, então, a alegoria dos corações partidos, amores intrincados, as volúpias domesticadas.

Se seu amor foi embora, amanhã é outro dia. A dor dá asas, a gente voa sem geografia. Inda que doa, dá à pessoa sabedoria.
(Amplificador)

Entre uma canção e outra, encontrei uma bela declaração de amor para fazer quando o desejo já passou a rasteira na gente:

Benfica comigo, cola o teu umbigo no meu. Benfica comigo, cola o teu umbigo nu no meu umbigo.
(Neguinha Monamour)

E a necessidade de encontrar alguém que não parta ou nos parta ao meio de tanta espera:

Hoje eu quero alguém que combine comigo, que tenha a cara, rara metade de mim.
(Caso)

Élio Camalle teceu um disco que pode até usar e abusar dos termos da tecnologia que assola nossa modernidade, mas o manteve nas beiradas de uma ironia sedutora e atemporal, debruçando-se no bom e velho olhar de quem compreende que a maioria das novidades são reinvenções e que nem sempre estamos preparados para a melhor das versões da realidade.

Cortei os pulsos da tarifa telefônica; apaguei a conta de luz; tirei seu nome do meu RG; e pus a corda no pescoço da segunda-feira.
(Felicidade)

Para quem gosta de enveredar por novos caminhos, o A FELICIDADE.EXE é um bom rumo a se tomar. Conhecer o trabalho de Élio Camalle, partindo desse disco, pode ser uma jornada bem interessante. Há outras canções neste álbum que não citei, assim como faixas interativas. Porém, depois deste, permita-se sentir tentado também a conhecer os discos anteriores. Há muito a ser apreciado na discografia desse compositor.




Agora que vocês conhecem um pouquinho de algumas letras do FELICIDADE.EXE, confiram a página de Élio Camalle no Myspace para conhecerem a música:

http://www.myspace.com/eliocamalleoficial


Imagens: 1) Capa do CD - 2) por Alessandra Fratus - 3) por Gabriela Moraes - 4) por Michele Andrade

http://www.carladias.com/
http://talhe.blogspot.com/



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domingo, 21 de junho de 2009

PIRATA FANTASMA >> Eduardo Loureiro Jr.

David Alvarez Montalbán - Flickr.comTem coisas que nem mais existem, mas continuam a assombrar as pessoas.

Algumas vezes, de maneira inofensiva, como nos ditados. Tem muita gente que diz que pegou o bonde andando, embora nunca tenha visto um bonde na vida. E tem aquela turma que insiste em dizer que lhe caiu a ficha, embora já faça mais de 10 anos que os telefones públicos são a cartão. Tudo bem, cada doido com a sua mania, desde que não nos obriguem a pegar bonde — andando ou não — nem a virar orelhão de museu.

Que tal os piratas? vocês já viu algum pirata sem ser nos bailes de carnaval? O último pirata de verdade já deve ter virado pó dentro de alguma cova na Inglaterra, mas o pessoal insiste com essa história de pirataria.

Segundo a terceira definição do Aurélio — o dicionário, porque o estudioso também já nem existe mais —, pirata é o "indivíduo que comete pirataria, que não respeita os direitos de autoria ou de reprodução que vigoram sobre determinadas obras ou produtos (literários, musicais, de informática, etc.), seja produzindo ou utilizando cópias ilegais dessas obras ou produtos." Ou seja, o pirata perdeu o chapéu e o tapa-olho, e pra mim não tem mais graça. Entre a primeira definição clássica — "bandido que cruza os mares só com o fito de roubar" — e a terceira definição atual, existe a segunda definição, que é de ligação: "ladrão, gatuno". Então, resumindo, pirata hoje seria aquele que rouba o patrimônio alheio, produzindo ou utilizando cópias ilegais de obras e produtos.

Perfeito. Tudo certo. Já que o inimigo foi definido, caça aos piratas! Para a prancha com eles!

Mas a coisa não é tão simples assim, porque sendo o pirata alguém que desrespeita direitos que vigoram na sociedade, então não vale a definição do Aurélio apenas, há que se consultar também a lei, no caso do Brasil a lei anti-pirataria nº 10.695, de 01/07/2003. O que falta no Aurélio, e que está presente na lei, é uma frase repetida nos três parágrafos que caracterizam a pirataria. Nas três caracterizações, está escrito: "com o intuito de lucro direto ou indireto".

O quarto parágrafo fala de uma exceção, "a cópia de obra intelectual ou fonograma, em um só exemplar para uso privado do copista, sem intuito de lucro direto ou indireto", e indica limitações ao direito autoral presentes em outra lei, a de nº9.610, em seu artigo 46 (vocês podem ler aqui).

Então se trata de uma questão econômica e o maior prejudicado — supõe-se — é o autor da obra. Calma, calma, não vamos colocar o carro na frente dos bois — afinal quase não há mais carros de boi. Vejamos alguns casos, façamos alguns testes pra verificar nossa habilidade em reconhecer a pirataria e o pirata...

CASO 1. Uma gangue de falsificadores faz cópias de DVDs e as vende por um quarto do preço. Ah, essa é fácil: pirataria da grossa!

CASO 2. Uma editora faz mais cópias de um livro do que aquelas que, em contrato, ela combinou com o escritor. O escritor não recebe percentual algum sobre a venda das cópias a mais. "Como assim?!", você vai dizer, "não sabia nem que isso existia." Pois é, meu caro leitor, isso aí existe mais do que bondes, telefones a ficha ou carros de boi. Pirataria da fina...

CASO 3. Usuários de internet compartilham, gratuitamente, arquivos de músicas e de filmes. Tá certo, quase todo mundo já baixou uma musiquinha aqui ou ali, mas vamos admitir que é pirataria, certo? Ou não?! Se pensarmos no Aurélio, na produção e na disponibilização de uma cópia não autorizada, é pirataria. Se recorrermos à lei que pune o intuito de lucro direto ou indireto, o pirata escapa, ou tem a pena amenizada. Pirataria duvidosa essa.

Mas o que é que se pirateia mesmo? A obra? O registro da obra? Ou o suporte da obra? Pergunta besta, né? Ou então complicada demais... Perguntando de outra forma: o que se pirateia é o texto (trabalho único do escritor), a edição (acrescido o trabalho do editor) ou o livro (incluindo-se o trabalho do impressor)? Se eu copio um livro inteiro e o vendo — alguém lembrou das xerox das universidades? —, a pirataria é suja como água suja. Mas e se alguém escanear, digitalizar o livro, e vender o arquivo? E se não vender, se distribuir gratuitamente? Estaria ainda cometendo pirataria contra o impressor ou apenas contra o editor e o autor, já que não está em questão o livro em si, de papel? E as livrarias que, com o intuito de lucro indireto, permitem a possíveis compradores ler um livro inteiro na loja, sem comprá-lo? (Eu mesmo leio muitos livros infantis — inteiros — em livrarias.) Nesse caso a livraria não estaria pirateando, se não o impressor e o editor, pelo menos o autor, que teve seu texto distribuído de graça?

Labirinto intrincado esse, não? Vamos dar uma pausa então para um cafezinho, ou para o recreio...

Hoje um amigo me enviou um e-mail com um texto do Luís Nassif sobre o aniversário de 65 anos do Chico Buarque. Belíssimo e emocionante texto. Chegou bonitinho na minha caixa postal. Ganhei o texto de graça. Quem pagou por ele? Talvez o portal iG, de onde o Nassif é colunista. Suponho que o iG quisesse que eu — e toda a torcida do Flamengo — visse o banner que está na página onde o artigo foi publicado. Mas eu não vi o banner porque meu amigo, ao invés de me mandar o link, enviou o texto limpo e cheiroso direto para a minha caixa postal. Meu amigo cometeu pirataria? Sim!!!!!!!!!!!!! Não!!!!!!!!!!!! Coisa de criança na cabine acusticamente isolada de um antigo programa do Sílvio Santos.

Isso me faz lembrar das velhas fitas-cassete, em particular de uma que um outro amigo meu gravou pra mim há uns 15 anos. Que seleção maravilhosa de sambas e MPB! Foi ali que ouvi, pela primeira vez, "Para ver as meninas", do Paulinho da Viola, na voz do Jards Macalé. Naquela época os piratas ainda estavam desexistidos, então — se não houver culpa retroativa — não cabe nenhuma suspeita de pirataria sobre esse meu outro amigo.

O que há de comum entre o e-mail com o artigo do Nassif e o cassete com a música do Jards Macalé é que eu não teria lido o artigo nem ouvido a música se meus amigos não tivessem feito essa reprodução — talvez ilegal. Eu não era um consumidor em potencial nem do portal do Nassif nem da gravadora do Macalé. Por isso, sorrio ironicamente diante daquelas estatísticas que dizem que a indústria cultural perde não sei quantos bilhões de dólares com a pirataria. Pode até perder alguma coisa, mas não são esses bilhões alardeados, não. Contabilizar esses bilhões é como contar com o ovo no cu de uma galinha que — no mais das vezes — é galo. Muita gente compra produto pirateado porque é barato. Se fosse algumas vezes mais caro — como é o caso do produto original — não compraria.

No final do ano passado, quando o Sol estava fazendo seu passeio anual de 30 dias pela Casa 12 de meu mapa astral, a casa do isolamento, época em que tudo que tenho vontade de fazer é me trancar num quarto e ver filmes, baixei — via internet — uns episódios de algumas séries de TV. O que vi mais foi Heroes. Tirei duas conclusões. Primeira, dificilmente eu teria pego o seriado numa videolocadora — pra começo de conversa, com o Sol na casa 12 eu não teria nem saído de casa. Segunda, hoje posso até pegá-lo numa locadora (ainda não fiz isso porque é o seriado é viciante), e, além disso, faço propaganda dele (pelo menos da excelente primeira temporada, que foi o que vi) sempre que estou numa roda de amigos e a conversa é seriados.

A distribuição não autorizada, principalmente a que não tem intenção de lucro, pra mim funciona como o artigo e o cassete que ganhei de meus amigos: ela abre a possibilidade de conhecimento, ela serve como experimentação, e, a médio prazo — senão a curto prazo mesmo —, tem um impacto positivo para aqueles que foram supostamente lesados ou pirateados.

Nós estamos vivendo em uma época estranha, de transformação de modelos, e é importante ficarmos atentos para não pegarmos bondes que não circulam, derrubarmos fichas que não existem e caçarmos piratas que não assaltam.

O bom senso aqui talvez seja marcar colado os que objetivam lucrar com o trabalho alheio (ah, se o Karl Marx ainda existisse), e dar o benefício da dúvida àqueles que só querem compartilhar a alegria de ler um bom texto, ver um bom filme ou escutar uma boa canção.

P.S.: Para os amigos que preferem minha prosa poética à minha prosa prosaica, deixo um prêmio de consolação.



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sábado, 20 de junho de 2009

DE JOVENS E VELHOS [Monica Bonfim]

Pois esta semana eu li que “envelhecer é o único meio de não morrer jovem”. Mas acontece que, na outra aba, vi duas mensagens de amigos para mim: a primeira de um homem, mais velho que eu, me chamando de “menina” e a segunda da filha de uma amiga me chamando de “Moniquinha”. Considerando que eu estou beirando os 50 (faço 49 em um mês), fiquei a pensar se concordo com a frase inicial.

Modéstia à parte, não sei se graças à genética ou ao fato de que me resolvi muito bem, minha aparência — isso dito por um gato de 25 anos — não ultrapassa os 35, e atente-se para que não gosto de maquiagem, tenho uma imensa preguiça de usar cremes, e minha plástica foi na barriga.

A idade me deu mais respeito por mim mesma, me deu o exercício de impor limites a mim e aos outros, e esse círculo de proteção talvez tenha se tornado o ingrediente de longevidade: respeito por mim e pelos outros faz com que eu durma muito bem, obrigada. Amo meus amigos e minha família, mas minha casa é realmente meu castelo: eu vivo muito bem dentro da minha própria pele, minha companhia me é ótima.

Não tenho a menor vergonha de ser menina, mas não me faço de infantil — curto mesmo minhas responsabilidades. Sorrio mais e franzo a testa para pensar, jogo charme para aplainar os caminhos, elogio porque é bom ver coisas bonitas nos outros, mas “chega” é “chega” mesmo.

O espírito da coisa é resolver, e o que não pode ser resolvido por mim é entregue à Divindade para que o faça. Talvez seja exatamente esse encontro com minhas impossibilidades que tenha me mantido assim: um dia serei tão sábia que conseguirei resolver tudo, mas agora não sou. Portanto, tudo o que ultrapassa o meu “tamanho” é entregue para alguém “maior” do que eu. E entregue de verdade, com vontade.

Ser jovem por dentro é ser humilde. Nossa juventude morre a cada dia se deixarmos, se não cuidarmos, se não injetarmos alegria em nosso dia-a-dia, se de vez em quando não a ressuscitarmos com um choque direto no coração para que ele volte a pulsar.



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sexta-feira, 19 de junho de 2009

O HOMEM ABSURDO >> Leonardo Marona

É preciso enfim fazer a passagem, dar o passo curto resultado da mendicância vacilante na escuridão dos termos conhecidos.

Um romance pré-datado que fosse história sem explicações, mas não bem um romance, já que um romance trata de coisas concretizadas numa determinada ordem de tempo.

Um romance portanto sobre o não concretizado, sobre os momentos de hesitação em que sentimos a lâmina da faca no ventre e pressionamos ainda mais, e damos o passo contraditório na direção do absurdo.

Um romance sobre o peso fátuo do concreto nas veias, talvez sobre raposas presas nas armadilhas naturais da terra, a terra com minúsculo sobre a qual pisamos com dureza e fria coragem. Tudo tão arcaico quanto um homem nu sentado, refletindo diante do espelho de uma casa desconhecida.

Mas por que o homem nu, sentado? Porque é preciso admitir a idéia anacrônica de que ele estava à procura de si mesmo para avançar, seguir ao próximo erro com a delicadeza rude das crianças espantadas. E tudo já tinha sido dito milhares de vezes no passado. Mas a verdade é que não sabíamos pôr em uma só linha passado presente e futuro. Era tudo uma enorme seqüência de cenas já acontecidas dentro do nosso esquecimento ou até mesmo – e por que não admitir? – em vidas pregressas. De qualquer forma, podemos também admitir que não há o uno germinal, que une tudo, mas, para cada uno, um tudo germinal, que expande a unidade até chegar-se a dúvida, que é o esplendor.

Mas nada disso importa. De que vale viver? É a única questão pertinente e não à toa os parisienses são melancólicos até o osso. Não, esquecer. Engolir experiências inimagináveis, deixar-se guiar um pouco pela pele. A tese é a antítese do gene. Mas vale o silêncio revelador quase nunca atingido e somente possível através da subestimada fantasia. Fora dos berços fantasmas e da constituição do inferno. Fora também das veias concretas da filosofia que, partindo do pressuposto de que nada é provado, permite-se a tudo provar. O filósofo dizia que as coisas, elas não se explicam por uma única unidade de coisa mor, mas por todas as coisas. Como disse, nada disso importa mais agora, enquanto ainda estou dentro do redemoinho e forço a minha desatenção e isso torna mais agradável a passagem insegura. Agora nu, sem explicação, aqui estou eu e não sei mais como ponderar o que desejo e o que assassino por culpa transferida ao acaso. Aqui estou nu, deitado numa cama de muitos dias, como que à espera de algo indecifrável, que me mantém dentro dessa vil maquinaria de repetição até a nulidade completa dos sentidos. E de alguma forma existe a luta desequilibrada em que damos poucos socos, levamos muitos até quase darmos cabo, e de alguma forma arranjamos motivos ainda para sorrir sem dentes, acenar sem mãos, batizar sem fé. O mundo gira, é o que se sabe. E isso parece ter sido suficiente para a nutrição de toda espécie de genocídio. E de onde afinal vem esse repentino desejo de morte? De que mórbidas histórias nos alimentamos quando éramos crianças, pelo que apenas os olhos da individualidade vilipendiada podem sangrar? Desempenhamos diariamente a metafísica do humilhado. Em procura de algum sinal de algum nexo... Deveria ser possível abdicar do cérebro, essa massa maligna constituída de vermes, que só atrai o imponderável.


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quinta-feira, 18 de junho de 2009

O QUE MUDA NA MUDANÇA >> Kika Coutinho

Talvez a humanidade se divida mesmo em dois grupos de pessoas. E podemos identificá-los em uma mudança — de casa, de cidade ou de vida.

Alguns são capazes de fazer de uma mudança apenas uma mudança. Outros, os incapazes, fazem da mudança uma história, uma saudade, uma terapia — ou quase.

Os primeiros são os racionais. Conseguem encaixotar as coisas, limpar os armários, empacotar as roupas, separar as miudezas com a praticidade de um matemático: “Aqui, cabem mais 3 sapatos, passa essa louça para mim, pega a etiqueta, essa cômoda cabe exatamente naquela parede, cadê a trena?”

Outros, os mais incapazes, são lentos. Porque, cada vez que embalam um prato, embalam também o jantar: “Aquele, que fizemos aqui, lembra? Aquilo que a gente cozinhou juntos, aquele que queimou, aquele que rimos sem parar, aquele que estava ruim, aquele que estava bom, aquela noite que estava fria, aquela outra que esquentou...”

São chatos esses, os incapazes. Devem ter até alguma dificuldade de medir, calcular, compreender. Porque ali, onde cabe a cômoda, não tem só um metro. Tem aquela roupa nova, o seu sapato pisando no meu, meu paletó que enlaça o seu vestido, como era mesmo a música do Chico?

Para alguns, a mudança é prática. Jogam tudo lá dentro e seguem em frente. A vida é para isso, né? É para ser seguida. Caminhada que ora parece curta, ora longa demais. “Vem, vamos embora, já tá tudo aqui, vem logo, o caminhão vai ser multado”, é o racional chamando o incapaz. O tonto do incapaz que ficou lá dentro, achou um brinco embaixo da pia: “Meu Deus, tanto que procurei esse brinco, estava aqui então! Esse brinco que eu ganhei naquela manhã de sol, ainda na cama, quando ele fez aquele café da manhã de Dia dos Namorados”. Ai, essa tola irá encaixar o brinco na orelha, olhar-se mais uma vez no espelho e lembrar de cada acontecimento naquela casa já vazia, sentir-se mais uma vez uma princesa encantada em sua cabana romântica. Mas a cabana é um apartamentinho sem móveis, tão vazio e, ao mesmo tempo, tão cheio de lembranças.

Quando se muda, esse leva consigo a nostalgia, a saudade, um pequeno pedaço de vida que viveu ali numa casa tão cheia de histórias e vida. Pode até não ser tristeza, mas é um apego. Não, nenhum apego às roupas, aos sapatos, aos quadros. Disso, cuida o prático. Ele checa se tudo foi embalado bem, cuida para que não se estraguem os móveis e olha atentamente para a quina da parede. Ele cuida do que existe e está certo. O outro, o romântico, cuida do que nem existe mais. Cuida de guardar consigo os momentos melhores, as pequenas alegrias, os grandes alívios, o conforto e as conquistas celebradas ali, vividas ali, naquele pedaço de concreto, agora já vazio. O tolo tenta segurar com toda força cada instante de felicidade, cada pequena bobagem que formou esse tempo. Tenta segurar a poeira, o invisível, aquilo que não se segura e nem se mede. Por isso, talvez por isso, o tolo seja o tolo. Tenta segurar entre os dedos a água, a areia que lhe escorrerá das mãos uma hora ou outra.

Enquanto o racional transfere a net, a eletropaulo e a telefônica, o incapaz procura os números para tentar transferir um bocado de emoção, uma pitada de surpresa, alguns quilos de alegria. O tolo pede o protocolo, tenta discar o nove para falar com o atendente, solicita aos céus, a Deus, ao Procon, que possa levar consigo aquilo que nunca, nunca, poderá ser guardado e nem embalado — ainda que na mais fina cristaleira.

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quarta-feira, 17 de junho de 2009

DESAFINADA NA FICÇÃO C. >> Carla Dias >>

Ontem assisti ao filme “O dia em que a terra parou” (The Day The Earth Stood Still), lançado em 2008 com roteiro de David Scarpa inspirado no roteiro de Edmund H. North para a versão cinematográfica lançada em 1951. Edmund H. North se inspirou no conto “Farewell to the Master” do escritor de ficção científica, Harry Bates.

Se tantas pessoas se inspiraram de forma grandiosa com a idéia de um extraterrestre vindo a Terra e ameaçando a nossa existência para preservar o planeta, talvez possamos nos inspirar a pensar um pouco sobre o que o filme aborda, de forma mais próxima da nossa realidade, porque apesar de transbordar fantasia (vai saber...), o filme toca em pontos cruciais, como o questionamento sobre quem é o responsável pela humanidade... Por cada um de nós. Obviamente, não é nenhum presidente, nem mesmo um ícone religioso. No meu entendimento com essa questão, só posso pensar que todos somos responsáveis, o que nos leva à certeza de que esse cuidar somente será válido mediante uma união entre seres humanos, e não pela unificação de siglas, delimitação de áreas, fortificação de gangues especializadas em vender histórias adaptadas aos preconceitos e desrespeitos mais populares.

Mas isso não é nenhuma novidade, não é mesmo?

Na realidade, o filme em si me deixou querendo respostas para as perguntas do extraterrestre. Se eu fosse cineasta, me arriscaria a um segundo remake, mas dessa vez construindo a história de forma que as perguntas fossem respondidas, ainda que as respostas não fossem as corretas.



Não gostei do tal robô-extraterrestre. Apesar de saber ser ele importante para a trama e que, certamente, o foi na versão de 1951 e o mesmo serve ao conto, na minha visão a credibilidade do tema se perdeu. Não houve como não me lembrar da época em que assistia Spectreman na televisão. De tão tosco, o seriado era bacana. Mas em um filme que discorre sobre a seriedade de forma densa e tensa, fica difícil não soltar um belo “o que diabo esse treco está fazendo aí?”, quando o robô-extraterrestre aparece. Acredito que a criatividade poderia ter construído uma boa metáfora para o gigante em questão.

Não é uma crítica ao filme, até porque quero assisti-lo novamente, depois de assistir o anterior e ler o conto. Na verdade, é apenas uma visão embaçada de uma pessoa que nunca foi além na ficção científica e que foi - e continua sendo - fã da série Arquivo-X. Esses lugares desconhecidos, os seres que não somos nós que já nos estranhamos... O surreal misturado com o real e palpável pode dar crias fantásticas.

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“Inimigo Meu” (Enemy Mine/1985) é uma prova de que a ficção científica pode ser poética. Este é dos filmes mais queridos, que me encantou profundamente e de tal forma, que sempre volto a pensar sobre ele, apesar dos mais de vinte anos que me separam da primeira vez que o assisti. Para mim, este filme trata com respeito o fato de que somos capazes de compreender o diferente quando estamos abertos a isso, até para que seja possível que se faça o mesmo por nós. E que é preciso saber o motivo de nos tornarmos inimigos de uma ideia, pessoa ou até mesmo de um país, assim como é preciso aceitar que nem sempre há um motivo para a oposição, portanto, para que semeá-la gratuitamente?


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www.carladias.com
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domingo, 14 de junho de 2009

DO CORAÇÃO >> Eduardo Loureiro Jr.

© Al Francekevich/CORBIS.comDe vez em quando sinto uma saudade besta de um tempo antigo quase feliz.

Por exemplo, quando eu escrevia o que me passava pela cabeça. Ou abria um livro de provérbios ao acaso, pegava a primeira frase em que batia os olhos e escrevia uma crônica. Ou parodiava o texto diário do Luís Fernando Verissimo. Ou disparava críticas contra políticos e autoridades em geral. Ou carregava nas palavras, ironizando as idiossincrasias dos outros. Bons tempos aqueles em que escrever era uma aventura inconsequente -- e eu ainda tinha direito ao trema.

De certa forma, ainda escrevo o que está dentro de mim, descondenso o leite a partir de uma simples frase, admiro o Verissimo, questiono autoridades e carrego palavras. Mas agora tem o meu coração...

Hoje em dia a pressão dos dedos sobre o teclado tem o ritmo lento de 68 batimentos por minuto. Já não é possível escrever sem que as palavras venham, mesmo que ensanguentadas, do coração. Como as que se seguem...

*

Deve ter começado com as discussões que eu presenciava de meus pais. No princípio, eu fechava a porta do quarto. Depois, além de fechar a porta, comecei a ouvir música. Em algum momento, passei a escrever.

O recolhimento, a música e a escrita são isso para mim: a fuga de uma discussão. Diante da elevação de vozes, da oposição de argumentos, das reclamações, das ofensas, fugir tornou-se uma especialidade. Não que meus pais brigassem tanto assim, porque se eles fossem mesmo constantes em suas discussões, eu seria um iluminado monge, um músico virtuoso ou um escritor genial. Como vocês mesmos podem comprovar, eu não sou. Talvez eu tenha me saído melhor na fuga em si. Fujo com um talento que me permitiria desafiar qualquer outro fujão, mas minha habilidade de fuga é tão pura e elevada que fujo até mesmo desse confronto entre pares.

Fujo das pessoas, porque onde há pessoas existe já a semente da discórdia, da diferença entre os corações. Minha mestra Luiza às vezes reclama que eu, nos encontros do pátio, prefiro a música à conversa. A explicação é essa, Luiza. Eu fujo. E quando o Fábio toca junto -- tornando-se meu cúmplice --, a fuga é perfeita.

Se eu tivesse de pagar algum carma e precisasse escolher uma limitação física, escolheria a surdez. O paraíso pra mim não precisa nem mesmo ser bonito, basta ser silencioso. Quem quiser me irritar basta fazer barulho. A paz pra mim -- acho que já escrevi isso antes -- é mais um deixar de fazer algo do que propriamente um fazer alguma coisa. Não é reivindicação, é aceitação.

Sempre que encontro minhas pessoas queridas, procuro colocar o máximo da minha afeição naquele momento. Porque não sei quando vou vê-las de novo, porque nem mesmo quero vê-las de novo tão cedo. Sou um fugidor fingidor, e até que me saio bem -- embora tenha estragado um pouco os planos ao confessar o crime nesta crônica.

Com as pessoas que convivem comigo todo dia, não há muito como fingir: troco a fuga grande por dezenas de fugas pequenas: para o banheiro, para o computador, para a cama: silêncio, silêncio, silêncio. Penso que a fala é supervalorizada -- mas sou eu sozinho contra uma humanidade inteira, e tagarela. Desconto a pouca fala nas muitas palavras escritas. Não que eu escreva muito bem, mas eu escrevo muito. Escrevo quando quero, você me lê quando quer. Cada um na sua. Não há contato, não há possibilidade de discussão. A escrita flui, a música é ambiente e a porta está sempre fechada -- meu paraíso particular.

De vez em quando arrisco um movimento pra fora -- uma aparição, um encontro, um evento --, mas vou sempre com meu paraquedas e minha rede de proteção: o retorno previsto para minha casa quarto, meu quarto casa.

*

Já faz tempo que é assim, e é difícil pensar que um dia, talvez, não seja. Mas pode ser que um dia eu sinta uma saudade besta do tempo antigo quase feliz que é agora.



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sábado, 13 de junho de 2009

MOTIVO + AÇÃO [Sandra Paes]

Dia desses me peguei sondando a vida. Diante de todas as vitrines que a televisão, a internet, as lojas e toda a mídia abrem, me quedei parada. E uma parada seguida de um muxoxo, quase um enfado.

Passei a limpo as vivências dos últimos tempos - até porque muitas delas não alcanço mesmo -, lendo um parágrafo de um livro chamado “Mind”, em que o autor dizia que nossos sistemas de crença é que mobilizam o desejo.

Achei interessante o pensamento. E, é claro, quando algo me chama a atenção, tendo a parar para averiguar o que se passa em mim. Descobri que não ajo por agir. Lembrei-me de minha cara de sei-lá-o-que diante da janela da academia, onde todo mundo dentro de uma vitrine pedala, sua, levanta peso, na maior. E como as pessoas falam com um certo gosto que “malham” e até se explicam: faço pra manter a forma, faço porque preciso cultivar a saúde, faço porque gosto. Sou do tipo que não faz se não acredita. E esse axioma caiu feito uma luva - pelo menos para mim.

E comecei a me ligar nas atitudes das pessoas. O behaviorismo ficou mais presente. Essa corrente psicológica virou ciência e uma ferramenta de promoção de tudo ou quase tudo. Faz-se a propaganda, abrem-se crenças, vontades, desejos e isso gira a roda das ações. Todo sentido bem engrenado em tudo.

E a multiplicação de todas as ações, muitas vezes ocultando os motivos que as geraram. E o famoso “não sei por que fiz isso” não gera mais surpresa e até fica quase um lugar-comum.

O homem vai se distanciando a largos passos de si mesmo, me parece. O comando das rodas do “por que não” conduzindo tudo. A escolha fica como consequência dessa pressão quase que invisível sobre as mentes de todos e os pondo a se mover como os ratinhos de laboratórios diante do olhar perspicaz dos pesquisadores. Parece louco? Pode até ser para você, mas para mim esse verde já não ressoa como “verde que te quero verde” do Garcia Lorca.

Será que é isso mesmo? Ou se sai pra se divertir, para encontrar pessoas, para fugir de algo, para encontrar alguém, para consumir algo, ou a vida fica pa-ra-li-san-te. E cheia daquelas cobranças: “Você precisa sair mais, buscar algo para ficar feliz, porque essa coisa de viver isolada não é boa não.” Volta e meia ouço um ou outro comentário sobre isso, ou a tal semelhante frase: “Onde você anda que sumiu? Nunca mais te vi por aí...” É tudo tão igual que apenas sorrio. E a resposta regular e verdadeira: "Em casa."

Ando muito na minha companhia. E de tanto responder isso, percebi que minhas ações são para dentro mesmo. Me convidaram para fazer um workshop sobre uma nova técnica de cura e tal. Abro o site sugerido e assisto a um vídeo com milhares de pessoas num salão. Foi o suficiente para desistir de cara. Sair de casa para outra cidade para encarar uma multidão, seja num estádio ou no salão de um hotel, para falar sobre algo que não compactuo, nem pensar mesmo.

Seletividade sempre fez parte do meu caminhar nessa vida. E agora ainda mais. Não chego a ser partidária do Sartre achando que o inferno é o outro, mas o jogo dos encontros tem regras quase que pré-estabelecidas, onde o que se troca são ações sem motivos, claros ou não.

E ao declinar o convite para o workshop percebi mais uma vez que meus motivos não se coadunam com os das pessoas. Eu não costumo me mover por dinheiro, para me vender com caras e bocas, para caçar alguém com formato predesenhado, ou simplesmente para ver o que vai dar. E isso não é uma crítica, é uma constatação.

Saio para ir ao mercado porque tenho compras para fazer. Vou ao mall porque também tenho um motivo claro. Visito um amigo porque sinto saudade e quero o conforto de expressar meu afeto e trocar isso. Escrevo porque algo internamente mexe com meus neurônios e preciso alinhar as idéias e as emoções.

Talvez eu seja um tipo de bordadeira. Vou fazendo passo a passo a composiçao de meu trajeto e nem por isso sinto que vivo a vida totalmente. Ela sempre parece transbordar e minha taça é um pequeno cálice para delicados goles e apreciação lenta. Passei da fase da passionalidade - onde até o mergulho em águas revoltas era algo extasiante.

Hoje, olho para as águas tépidas da piscina e penso nos cabelos recém-tratados e exito antes de um mergulho. O ‘pra que mesmo?’ passou a me acompanhar quase que diariamente e me sinto mais leve e bem mais feliz assim. Até porque responder a todas às reações de cada ação praticada é muito cansativo e eu estou querendo saber como é ser irresponsável. Não ter que dar qualquer resposta passa a ser um motivo quase que silencioso.

Psshhhhh! Não espalha, tá?




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sexta-feira, 12 de junho de 2009

O MASOQUISTA >> Leonardo Marona

Começo sabendo que não estou preparado. De fato, é tudo o que sei, e isso não mudará até o final. Pensando bem, sabendo disso – e todos, no fundo, sabemos – me pergunto se deveria prosseguir. O que faz prosseguir? Desgosto, o chumbo nas idéias, o lodo na consciência. Este conhecimento não deve ficar impune. Portanto, abrir as janelas: a surda indiferença da solidão de um feriado de Corpus Christi. Penso: minha indiferença é sorridente – eis todo o mau. Se ao menos fosse nauseante, vomitariam aos meus pés, queimariam placas com o meu rosto, falariam de mim aos pés de ouvido, escondendo as orelhas com as costas das mãos. Sem ter o direito a nada disso, volto ao preparo, já que começar desse modo, assim, totalmente nu, me parece ultrajante. A vocês também – os amorosos – tenho certeza.

Agora começa a chover e isso nem bem é um conto de Raymond Chandler. Não há poodles, não há madames, não há néons falhos, garrafas de uísque, sangue. O som da chuva é de um anarquismo em volume progressivo, como uma escadaria russa. Os carros quando passam tentam dar realismo à cena, mas eles também não sabem para onde vão. Um ar amarelo de piada ruim cobre o apartamento de um cômodo. Estou aqui, não estou preparado. Dois parágrafos e isso é tudo o que sei.

Se não está preparado, penso, vá fazer algo para o que foi preparado. Há coisas a serem feitas, afinal: leituras importantes, crimes à luz de velas, há um mundo todo a ser desvendado, mexa-se agora! Patético. Minha náusea cheira mal e, no exato momento em que tomo conhecimento de mais este detalhe, percebo que a vizinha ao lado coloca uma música na vitrola. Vitrola, sempre aos feriados. Ela escuta Bee Gees. Eu detesto Bee Gees, que são como eunucos fazendo amor.

Fazer amor: está aí uma idéia inescapável que, no entanto, não podemos tocar. De repente a idéia um tanto comum de nunca ter amado me assusta e sinto ganas de dizer “sinto ganas”. Pronto, deveria ser o suficiente, mas, com Bee Gees tocando, nada é. A vizinha, será que ela dança enquanto escuta Bee Gees? Hoje li um escritor dizer que ser escritor foi sua segunda opção. A primeira era dançar como Fred Astaire. O que ele quer dizer com isso? “Vocês vêem, sou um embuste, mas, no fundo, minha alma é de poeta”. Não mais pobre coitado do que eu. Ainda rico. De onde virá a idéia de riqueza? De um merecimento por qualidade de espírito. Certamente que estamos muito longe desta que, talvez, tenha sido a primeira idéia sobre a coisa toda. Hoje dizemos: “Olha aqui, sou um sujeito CHEIO DE ESPÍRITO”. Dizemos alto, com convicção. Afinal, a riqueza estará condicionada aos que apresentam “qualidade de espírito”. Isso fica melhor entre aspas. Imagino o tal escritor, como ele dançaria: embriagado, quase gordo, com roupas sob medida e o rosto vermelho, na cidade com chão de paralelepípedos, onde será recebido com pompas para a feira literária internacional. Mas por que escrevi algo assim, se comecei decidido a, sinceramente, singelamente, dizer apenas: não estou preparado.

Disse tudo por causa da vizinha. Uma velha, verrugas, pigarro glacial, migalhas soltas pelo caminho, gritos de “puta, safada, ordinária, pusilânime" (vejam bem, pusilânime!) em direção à cadelinha Lucrécia. Saudades do comendador e do lanterninha do cinema, com quem aprendeu a roçar no muro. A chuva parou. A vizinha, eu podia vê-la descendo as escadas para o baile do clube finlandês em Penedo. Será que ela sabe, como eu, que não está preparada? Será que agora, sem dentes, com esse hálito quase infantil dos quase mortos, será que com Lucrécia “puta, ordinária, pusilânime” ela saberia mais? “Sai daqui! Fora! Não tem nada pra você aqui! Puta! Ordinária! Pusilânime!" Um cãozinho pequinês. Eu sei, Lucrécia, eu sei.

A chuva aumenta, ela é o açoite do ciclope tirano que recém acordou. Eu mesmo deveria esquecer de tudo, me preparar melhor, acender o cachimbo, espremer um olho, me enrolar no roupão, soletrar palavras com as mãos juntas atrás do corpo, andando pela semi-sala. Progredir numa carreira qualquer, conversar sobre as amenidades do coração, estudar as formas invisíveis, ouvir as massas famintas, ser violento, sorrir aos pobres, vestir camisas com mensagens de boa conduta, matar com carinho, burlar pequenas regras, ser o laranja do PT, ficar sem palavras diante do discurso óbvio, repeti-lo debaixo do chuveiro. Em suma: ser. Mas não apenas ser. Audácia desmembrar Shakespeare. Mas existe – ele saberia disso – uma nova questão.

Não posso, não posso, me resta andar pelo apartamento de um só cômodo. Virá a beleza com um copo de conhaque? Virá o bruto com a saliva bovina? Virá o literato com a mensagem de prêmio? Virá a décima sinfonia com a chuva ácida? Todos carregam uma espécie de câncer na garganta. Sentimos isso na troca infernal de olhares constrangidos quando nos esprememos no metrô. Estamos de baixo da terra e nos olhamos como quem diz: “Que vergonha encontrá-lo aqui, nesse estado, vestido desse jeito, rumo a um lugar que nem mesmo pode ver se aproximando”.

Podemos cometer o crime e aí está o mote de toda ação literária. Eu por exemplo, que agora acendo velas, estalo os dedos, vejo Paris pela janela, chamo os dez cavalos e começo a bater as teclas como pistões de um carro ancestral, de motor barulhento e boa aceleração, com alto consumo de combustível, um pouco pesado, mas, se bem limpo, formidável para curvas íngremes e quedas perenes. E num minuto nem sei mais sobre o que me jogo mas pouco importa, é preciso ouvir o ritmo que vem do longo estalo dos tempos, então bato firme nas teclas como o moribundo desesperado que acertaram pelas costas, o louco faminto, espasmódico por reconhecer de alguma forma a batida do próprio coração, dolorido a ponto de esperar pelo que – e isso ele já sabe – tardará além da conta pois o que não sabemos somos nós e, diferentemente do pensamento, temos pernas e nos puseram ainda sobre duas patas. Portanto as costas doem. A chuva, mais forte, mais forte, desempenha a Santa Inquisição.

Como num filme de Carlos Teodoro Dreyer, o júri entra no cômodo apertado. Carregam armas e pequenos animais de pluma. Onde é capaz de parar a criatividade inútil? Isso é algo realmente importante, difícil de saber. A vizinha finalmente cede aos encantos da realidade maquiada. É possível escutar a voz de Maysa Matarazzo, com as bolsas dos olhos inchadas, um sorriso triste porque, como muitos, tendo passado a vida toda falando de amor, nunca amou ninguém ou nada.

O final do feriado é uma vertigem aguda e somos todos pobres, de posses ou espírito, no frio atípico de uma cidade católica cheia de bundas químicas e batinas eretas, quinze graus lá fora e nenhum sentimento. Resta esperar pelos abutres, cortar o corpo em mil pedaços, arrancar com os dentes as vísceras, os olhos guardar nos bolsos, porque não sabemos para onde apontava o corpo de Cristo quando o perguntaram, não temos como saber, não sobra tempo, é preciso, um dia após o outro, não saber para continuar procurando e isso só pode, é claro, ser uma piada de mau gosto e, brancos ou pardos, de veias verdes, saltadas, os olhos fundos, de uma longa agonia, esperamos em silêncio o raio ou dilúvio que será nossa prova de que, enfim, algo faz sentido, de que existe algum movimento na direção de algo fatal, irreversível, sem direção. E a cada dia que não se realiza plenamente – porque simplesmente é preciso se contentar quando há pontes e penhascos e bilhões de degoladores sorridentes e cheios de bons votos – temos que nos inclinar mais, o tempo diz isso e não há o que se possa fazer. E os emburrados de poucas palavras não são de grande serventia: derrubaram das colinas os sábios delinqüentes. É o fim do período das mágicas, dos arquipélagos de marfim, da passada malandra de uma canalhice temática. Hoje é preciso funcionar e não sei como, não me sinto preparado. Sou um louco entre criminosos, estamos de mãos dadas, temos esperança, fazemos qualquer negócio. Estamos nos aviões que se perdem em alto mar, a cinco quilômetro de profundidade. Tivemos os corpos tragados, fizemos a viagem ruim. Vivemos onde padres galãs ficam milionários cantando músicas sobre deus e fazem sucesso com senhoras que, no fundo, gostariam de foder com deus. É preciso admitir tanta coisa, pensar e desistir de tanta coisa, que qualquer coisa serviria agora, qualquer luz de cozinha, qualquer bala de festim. I love Paris in the morning. Eu também, Maysa. Mas não sei, não posso, não quero continuar. Vou continuar.


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quinta-feira, 11 de junho de 2009

A pelinha >> Kika Coutinho

Acontece todo inverno. Os lábios ressecam, viram pelinhas duras e irresistíveis, tal qual papel-bolha. Quem consegue não estourar?

Eu passo inverno com a boca machucada, solta uma pelinha e sinto um misto de alegria e tristeza. Vai doer, mas vou puxar. Seguro devagar com meus dentes e, sem que ninguém note, arranco. “Ai”, falo para mim mesma, "para que fui fazer isso?" Por estupidez, de certo. E é assim na vida, não é?

Quantas dores causamos a nós mesmos em nome de um possível benefício?

É assim no amor. Principalmente no cruel e frio amor não correspondido.

Uma amiga de quem gosto muito vive essa dor. Sabe que não vale a pena, sabe que ele é um canalha, um cafajeste, mas dá-se sempre a chance de mais uma saída, mais uma tentada, um último telefonema. Sabe que vai doer. Talvez ele nem apareça, mas arruma-se toda e encanta-se com a imagem apaixonada no espelho. Os minutos ao lado de seu amor são doces e breves, um encanto, sempre seguido de uma dor. Ela vive um instante infinito de calma alegria quando está nos braços de seu príncipe para, em seguida, ver o tempo bom já finito, e sofrer tal qual no inverno congelante, onde não há cobertas que cheguem. O amor não correspondido é o mais terrível dos frios, um inverno longo e gelado de onde, parece, nunca poderemos sair. Ela sofre, chora. "Por que fui fazer isso?", pergunta-se diante do coração sangrando. "Por que fui acreditar, por que fui me arrumar, por que gastei todo esse dinheiro com roupas, por que toda essa maquiagem, por que o perfume novo, por que a esperança, por que, por quem, por quê?" Ela se maltrata e se vê agora, estúpida, diante do espelho. Burra como só uma mulher apaixonada pode ser. Burra como só uma ansiosa diante da pelinha solta no lábio...

Depois disso, sempre jura que vai evitar. Olha o telefone tocando e joga consigo própria. “Não vou atender, não vou atender”, diz firme, como se passasse manteiga de cacau na boca. Em seguida, quando ele liga de novo, já é o lábio seco, a pelinha, tentadora, muito perto dos dentes. Ela hesita: “Se tocar mais uma vez, é porque é para eu atender, se tocar só mais essa vez, mais a próxima, é o destino se tocar de novo..." "Alô!” ela diz, já com o coração aos pulos. É a dor do amor. Mas que duro é um amor de desencanto, um amor de sofrimento, um amor de mentira. Ela secdelicia com a voz dele, com os elogios, com as brincadeiras, mas sabe que, em seguida, estará sangrando arrependida.

Por que fazemos isso? Por que roemos unha, por que fumamos, por que nos entupimos de doce, por que diabos arrancando essa maldita pelinha toda vez, por que mordemos a língua, a boca, sempre naquele lugar já machucado, por que morremos de amor, sempre com aquele sonho, já tão cansado?

Talvez porque sejamos otimistas. Mais do que qualquer animal, somos insistentemente tolos. Ainda bem que há manteiga de cacau e ainda bem que há edredons... Cedo ou tarde, daremos valor ao que pode, em algum momento, nos curar...

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quarta-feira, 10 de junho de 2009

HIATO >> Carla Dias

Há esses dias em que girar a chave e sair de casa requer mais do que o reflexo da rotina, porque os ônibus ficam barulhentos demais, os faróis enrubescem sempre que você está acompanhada da pressa, tão acanhados pela sua presença. As pessoas esbarram em você para lembrá-la que as ruas não têm dono, apesar de sempre haver quem tente domá-las e reinar nas suas esquinas. Há quem confisque quarteirões apenas para que o temam.

Dia feito esse, com muito trabalho e confusão, em que os apontadores fazem falta, por isso mesmo parecem ter sido sugados da sua gaveta e também do planeta; o corretivo não consegue corrigir as imprudências, nem mesmo apertar repetidamente a tecla DEL é capaz de colocar suas ideias em pratos limpos. E parece que todos os telefonemas que você atende são para lembrá-la das suas falhas. De como você não foi capaz de finalizar isso ou aquilo.

A conta na ponta do lápis, a soma de despesas e a subtração instantânea dos ganhos. Em certo momento da vida, a gente se torna profissional em contabilizar o que falta, e jogamos essas informações naquele cantinho que, mais tarde, terá nome de meter medo: vazio.

Em dias assim, a gente se apavora por não ser o que todos esperam que sejamos. Por não atendermos a todos os desejos como se fossemos o gênio da garrafa, depois de um upgrade, e que tem o dever de atender a todos os pedidos sem titubear.

As folhas coloridas dos blocos de anotações, as esferográficas preferidas, as pastas para arquivar documentos importantes... Importâncias trancafiadas em dados colhidos e controlados através de formulários preenchidos pela necessidade. As luminárias novas da sua sala, o número da carteira de identidade no aviso de recebimento do correio. Os endereços postais pelos quais jamais passará.

Há dias em que acreditamos que a alma da gente jamais se desfará da frigidez cultivada no diariamente. E a distância que tomamos dos nossos sentimentos mais caros nos leva a uma jornada de questionamentos sobre o que fazemos, aonde iremos, quem somos ou seremos.

Em dias assim, aconselho que ouça uma das suas músicas preferidas, ainda que ao seu redor estejam batucando nas teclas de seus computadores as ordens do dia, criando uma sinfonia de atas, comunicados, dispensas, necessidades nem sempre necessárias.

E que, entre uma anotação e outra, haja a notação singela, porém fundamental, de que a vida é mais, muito mais do que a sensação de asas aparadas...

Ouça uma das músicas preferidas, leia o poema em voz alta, permita-se admirar com a legitimidade do que lhe toca. E principalmente alimente a ciência de que é possível sobreviver a dias como este, sem tornar os dias seguintes apenas rascunhos do que esperávamos que fossem.

Surpreenda-se também com sua capacidade de sobreviver a hoje para viver com mais intensidade amanhã.

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domingo, 7 de junho de 2009

HOMENS BONITOS >> Eduardo Loureiro Jr.

_nyal_ - Flickr.comPara Júlio, Felipe, Fabiano, Felipe (mais um), Fábio, Felipe (outro), Manu, Felipe (mais esse) e Paulinho

Eu caminhava lentamente, distraído, quando senti duas mãos delicadas pousarem firmes em meus ombros — feito os pés de um passarinho. E quando parei, senti uma cabeça entre as minhas omoplatas — uma testa, um nariz, um bico. Eu já sabia quem era, mesmo sem precisar olhar. Era um homem bonito.

Quem me acompanha sabe que eu gosto de falar das mulheres lindas — lindas, lindas, lindas —, das aeronaves no pátio, da beleza que me intimida. Porque me apavora, a beleza das mulheres lindas, lindas, lindas é feito o estrondo quase incômodo das turbinas, o freio quase desconfortável no atrito.

Os homens bonitos são mais sutis: planadores, asas-delta. Chego mesmo a pensar que eles sempre estiveram por aí, eu é que não estava olhando na direção certa.

O homem bonito tem, antes de tudo, o sorriso. Sorri com a facilidade com que o vento sopra. Não precisa de motivos para sorrir. E, quando é preciso, gargalha. Feito criança ouvindo piada.

Presta atenção o homem bonito. Faz aquele silêncio de aluno interessado. Não reage. Aceita o impacto da novidade, da diferença e até mesmo do desagrado. Ele aprendeu — ou sempre soube — a paciência.

O homem bonito trabalha. Como trabalha! Parece que não tem descanso. Mas descansa no trabalhar. O degrau, que para um homem comum é mais um esforço, para ele é um repouso, uma pausa no se elevar.

Elevando-se em descanso, o homem bonito permanece, não arreda pé. Sabe o que não, sabe o que quer. Já está lá — faz um trailler no pensamento — antes mesmo de chegar.

O homem bonito abraça. Abraço de peito no peito. É a sua marca. E tem sempre um "eu te amo" na ponta da língua, que ele quase nunca diz para outro homem bonito ou não —, mas nem precisa: o homem bonito ouve eu-te-amos com audição canina. Ouve "eu te amo"do mendigo na esquina, da criança desconhecida, da mulher agitada e querida, do homem comum e bonito.


O homem bonito faz filhos, brinca com eles, lhes conta histórias e guarda as deles. Ser pai é sua profissão.

O homem bonito é o pátio onde pousa o avião. E é tão gentil — mas tão gentil o homem bonito — que faz o avião sentir-se maior do que ele mesmo.

O homem bonito pode ouvir, e é por isso que eu digo: eu vos amo, homens bonitos.




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sábado, 6 de junho de 2009

REAVIVANDO A CHAMA [Maria Rita Lemos]

Assim como acontece com o mar, nossos amores também sentem as oscilações, como as marés que sobem e descem. Em qualquer relacionamento, e aqui estamos falando das relações afetivas, acontecem dias ruins e maravilhosos, maus e bons momentos, tempos de tormenta e calmaria, que se alternam, como também acontece na vida de cada um de nós. No entanto, há períodos em que as coisas parecem mais difíceis, os momentos de tempestade parecem não ter fim; há momentos, enfim, em que aparentemente não resta nada, a não ser cinzas de um amor que um dia foi a luz que iluminou nossa vida.

Nem sempre, porém, o sentimento está morto: ele pode estar muito bem escondido embaixo de uma crise que parece não ter fim. É preciso diferenciar os bons relacionamentos que estão passando por uma crise dos relacionamentos que sempre foram ruins, e que, por si só, são uma crise na vida de cada um dos parceiros.

Portanto, é preciso cuidado e calma, tanto na hora de casar como na de descasar. Ambas as decisões, tanto de unir a vida à de outra pessoa, como de decretar o fim do relacionamento, devem ser tomadas com menos emoção e mais razão.

Todos sabemos que é difícil raciocinar com lógica, tentando deixar as emoções num nível secundário, quando se está apaixonado(a) ou quando se está com muita raiva, mas é imprescindível que aconteça assim. A maioria dos casamentos e dos divórcios que são decididos pela paixão ou pelo ódio correm um risco enorme de que as pessoas envolvidas se arrependam algum tempo depois. Inclusive, há pesquisas que afirmam esse fato. Então, valem algumas tentativas no momento de reacender a chama! Uma delas é quebrar a rotina. Pense na hipótese de passar um final de semana sozinha (o) com a pessoa amada.

Não precisa ter muito dinheiro sobrando, uma cidadezinha bucólica e pacata, uma estação de águas ou climática, não muito longe de sua casa, ajuda a criar momentos em que o diálogo ficará mais fácil, e haverá mais espaço para o aconchego. Em muitos casos, basta uma mochila, um hotelzinho romântico e a vontade de relembrar os tempos de lua de mel para fazer voltar o brilho aos olhos de quem já se sentiu perdidamente apaixonado (a)...

Outro truque que pode dar certo está bem perto de você. Aliás, dentro de sua casa, em alguma gaveta: é aquele álbum de fotografias, os filmes que foram feitos quando o amor era novinho, a caixa onde você guardou tantas cartas e cartões, carinhos impressos trocados em datas importantes. São lembretes, apenas, mas que sinalizam um amor que, no mínimo, existiu um dia, e ficou marcado. Tire da gaveta as fotos e filmes, e planeje algumas horas em que vocês dois, juntos, brinquem de rever tudo isso. Procurem se lembrar de quando foram tiradas, quanto tempo faz, o que vocês sentiam naqueles momentos. Pode ser que, naqueles dias, vocês tivessem apelidos carinhosos pelos quais se chamavam... Tudo isso pode entrar nessas horas especiais de recordações, é sempre uma tentativa a mais!

Também ajuda muito, para quem quer reavivar o amor, planejar uma noite romântica. Deixe as crianças com a vovó ou uma vizinha/amiga, capriche no visual, prepare-se para seduzir. Surpreenda a pessoa que você escolheu para passar o resto da vida com um jantar romântico, com seu prato e bebida preferidas. Não importa se você é homem ou mulher, ambos têm capacidade para temperar uma noite, fazer algumas horas serem especiais! Arrume a mesa com requinte, sem esquecer que ser romântico não é gastar muito nem parecer artificial. O importante é colocar amor em tudo o que se faz. Uma boa galinhada caipira, servida com amor e bom humor, vale muito mais que o mais caro caviar na mesa em que não há mais qualquer sentimento de ternura.

O dia dos Namorados está aí, bem pertinho. Talvez seja o momento certo de fazer uma avaliação no seu relacionamento com a pessoa amada. Se estiver esfriando, quem sabe esses pequenos truques podem ajudar? É preciso lembrar, sempre, que o amor é chama, e como tal precisa ser reavivado, sempre. Se pensarmos que qualquer sentimento afetivo pode sobreviver longe de sua fonte, ou seja, uma brasa pode estar sempre incandescente mesmo passando anos longe do fogo, corremos o risco de ver cair doente, até morrer, o amor que um dia nos embalou a vida.

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sexta-feira, 5 de junho de 2009

ESQUELETO DE UMA CRÔNICA >> Leonardo Marona

“Escrever passa a ser uma ação fundamental, porque dela depende a sua existência”, dizia o escritor, em entrevista sobre seu novo romance.

Chega uma certa hora e todo mundo se entrega. Os fortes se entregam, os fracos, os catadores de legumes se entregam, os ricos de grandes papadas, os vaga-lumes em festas químicas, as várias mulheres dos gigolôs, os que rodam as rotativas se entregam e, muito antes deles todos, o escritor se entrega, olha em volta, de certa forma sorri, o sangue verde entre os órgãos.

É profundamente obrigatório ao escritor, antes de tudo, se entregar sem arestas, sem forçar a caricatura que se mostra intransponível. Dizer a si mesmo: “muito bem, sei que não se trata exatamente disso, mas não há o que fazer, há que se continuar”. Pois que o escritor é, antes de tudo, um ralo por onde escoam objetos interligados em conexões instantâneas, que não permitem afinidades. E a interligação entre os objetos é a única coisa com que o escritor deve se preocupar. Acima de tudo, ele é alguém que não precisa influir, porque é parte de tudo. Ele deve se acostumar ao fato de que não haverá controle. Não haverá mãos banhadas em óleo empunhando bandeiras sifilíticas, pois que o escritor leva a hipocrisia no bolso e a falha eterna no coração suscetível. O escritor é mais que um fingidor. É um derrotado feliz, sem saída, torcendo pela falta de leito.

Agonia-se por isso, não há dúvida. Muitos morrem cedo, de tiro na cabeça ou vaidade crônica. Dizem por aí que você pode ser uma pessoa normal e escrever. Mas é claro! Assim como você pode também ser uma pessoa morta, e viver. “Importa somente deixar a situação te levar para o desconhecido”, completava o escritor, o jovem escritor, falando sobre seu novo romance.

Não havia, portanto, motivo para continuar lendo sobre o que pensava o laureado escritor. Deixar para outra hora. Não posso continuar, não quero continuar, não devo continuar. Vou continuar. Que literatura fria essa das frases exatas, glaciais, de boca reta e eficiência eqüina. Levantar, limpar as prateleiras, começar aquilo, lá atrás, aquilo que uma vez se disse e que jamais se começou: “No meio do areal interminável havia uma placa fincada em terra podre, terra onde não nasce nada, mas havia uma casa no meio do nada, havia uma truculência surda da jardineira como um bêbado atravessando o exército alexandrino. A placa apontava uma família com umbigos curiosos e galinhas misturadas a cães magros, e não havia mais nada, além da placa, nos padrões da legislação de trânsito federal. Na placa, escrito apenas: 'SOLIDÃO'”.

Repentinamente um baque. Após todos esses anos sentindo que sentia menos que os outros, que eles tinham algo como que um compartimento a mais no cérebro, que fazia com que não se afetassem com absolutamente nada e nada é aquilo que se move, ou muito pouco era capaz de derrubá-lo, a mim sereno, a barba feita, os cílios egípcios, a falta primordial daquilo que se esbanja, mas com um único sopro pode se fundar a China do novo século.

Portanto, um baque. Maldita prolixidade, que é a fuga do foco inevitável. Chegar mais perto, portanto. Não a ponto do nojo, mas da discrição. Olhar no espelho e reparar finalmente o motivo de toda culpa como se algo errado tivesse acontecido no momento irreconhecível quando toda a coisa se desenrola, e de que chamar a coisa além de coisa?

Depois da culpa, a constatação: não sentir mais o cheiro das coisas, que não se chamam. O acúmulo do que mal pode viver. Pois no vivendo já se mata. Causa essa obstrução do nariz, o entupimento da veia real que borbota idéias constrangedoras. Mas a letra, a letra não ajuda. A letra é síndrome da falta de coragem. Bigodes postiços, a letra é lepra do que falta na alma e sobra para as traças. A letra serve para absolver ou matar, nada mais. E não se carrega o caixão nas costas com palavras preciosas.

Essa ausência ruim do acúmulo de todas as forças num segundo. O quarto fechado onde as vidas misturam suas doenças e murcham sobre os ossos. Impedir ou não o aborto anunciado? Abortar ou não a vida pelo avesso?

Mas o que me restaria se não fosse isso? O inchaço. A tentativa de abstrair-se de tudo, a inteligência mínima dos que sentem demais – e não entendem absolutamente nada.

Não há dúvida, sou um sujeito perigoso. Sempre olho para os carros das janelas mais altas esperando o calafrio que causará aquela sensação indescritível de se sentir caindo, até que se chega para trás, para se salvar, e morre-se de vez.

A negação do absurdo é meu único convívio diário. A negação e a fuga do absurdo. Mas o absurdo é como um carrossel, e eu não havíamos entendido (sic). O que foge sempre encontra seu destino. Não há perdas nem ganhos. Só a terra se alimenta no fim.

Às vezes eles dizem: “Escreva tudo. Ponha no papel o que está sentindo”. E a mim soa como se dissessem apenas: “Seja um porco. Alimente-se da sua depressão”. Mas minha vontade maior é sempre fugir. Fujo sem me levantar da mesa. Fujo com amor e não peço perdão jamais, a não ser por coisas imperdoáveis.

Mas isso aqui não é um confessionário. É um espaço onde pessoas que não se conhecem expõem suas opiniões ou mesmo devaneios, experiências pessoais ou geradas pela imaginação ou pela simples caminhada. Mas pouco importa, frase conhecida. Os olhos apontam a falha do sangue, a falta de falta. E não deixa de ser a mesma coisa, dado que tudo é uma confusão de signos e não sabemos mais nem mesmo porque ainda nos apertamos as mãos e desejamos boa sorte.

Isso não interessa nada. Todos somos autores, no fundo. Mentirosos com algum motivo e muitas explicações que não sabemos dar, mas estão lá, estampadas em nossas faces quando entramos e saímos dos escritórios e das repartições de mulheres gordas que tomam cerveja e lixam as unhas. Mas não podemos jamais parar e pensar porque isso estouraria o nosso cérebro, essa máquina feita para formular questões pela metade, que terminam como bombas de hidrogênio e membros amputados em pequenas populações chupadas até o caroço.

Balela! Isso é um endereço virtual de opiniões, como eu ia dizendo. Depois de mim, que tenho as sextas-feiras, quando, suponho, as pessoas normalmente têm coisas mais interessantes para fazer do que ler uma crônica do dia – mas depois da minha sexta-feira número 6, virá o sujeito do sábado número 7, a moça bonita do domingo 8, e eu poderia repetir uma porção de estereótipos, porque a nova rede me permite não conhecer nenhum de vocês e, ao mesmo tempo, estar com vocês. De um certo modo, isso é triste demais.
para comprar o livro "pequenas biografias não-autorizadas" (poesia, 7Letras, 2009, 86 pags.), escrever para leomarona@gmail.com


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quarta-feira, 3 de junho de 2009

PINTANDO O 7 >> Carla Dias >>

A arte brasileira é diversa. A riqueza da nossa cultura é real.

Essas frases não são de anúncio do governo, elas não se referem exclusivamente a alguma campanha de marketing ou projeto específico. Certamente, utilizam-se muito tais alegações, até mesmo em conversas casuais sobre o que é ou não palatável na cultura brasileira. O grande problema é que a maioria das ideias para melhorar esse cenário permanece na teoria.

Na prática, sim, o Brasil é berço de uma diversidade fantástica, que impregna de beleza a nossa cultura e enriquece nossa identidade através da arte que abriga. Na prática, a maioria de nós é absorvida pela facilidade do que nos chega através dos meios de comunicação e da eficácia de um marketing que cria um cenário propício para efemeridades.

Quando falo sobre artistas que admiro profundamente, pessoas das quais as criações não chegam ao grande público, não ataco a existência dessas celebridades fugazes, pois acredito que até mesmo elas têm sua importância e merecem seu espaço. O que lamento é não haver o mesmo empenho em levar ao conhecimento das pessoas o trabalho de artistas que podem, sim, ser apreciados sem serem relegados ou destinados ao baú daqueles que não se parecem com a cara do mercado.

Também acredito que se trata de um trabalho pessoal, que cada um de nós é responsável pelo que consome, física e emocionalmente. Mas se queremos popularizar sem banalizar a arte feita no Brasil, temos de olhar adiante do que nos é oferecido. Temos de aprender a procurar o que pode, certamente, enriquecer também a nossa alma.

Domingo passado, fui assistir a um musical. Achei que não fosse conseguir, porque me atrapalhei com o trabalho e não tinha me dado conta de que já era o último fim de semana da temporada paulistana. Graças a uma amiga, que já tinha dito que iria comigo, conseguimos comprar os ingressos antes que esgotassem.

Fiquei sabendo sobre este espetáculo porque um ator que admiro muito e sobre o qual já escrevi aqui no Crônica do Dia, Jarbas Homem de Mello, também era um dos integrantes do elenco do musical.

7 o musical foi minha primeira experiência como espectadora de um musical. Essa minha estreia pessoal em dia de encerramento de temporada foi das mais enriquecedoras porque dei sorte de assistir, de cara, a um espetáculo que me ganhou do início ao fim: o texto de Charles Möeller, as letras de Claudio Botelho, a música de Ed Motta, o talento inquestionável do elenco, a presença do Jarbas Homem de Mello, enriquecedora e marcante, a voz fantástica de Alessandra Maestrini, as presenças de Zezé Mota, Eliana Pittman e Rogéria, a cadência da Orquestra 7, o cenário e, claro, o teatro Sérgio Cardoso lotado.

7 é um espetáculo muito bem orquestrado. A história é interessante, tem um ritmo cadenciado, um toque cômico que cai bem às tragédias pessoais dos personagens. A música e as letras são muito bem costuradas à trama, o elenco é de primeira... Adorei ver a Susana Faini no palco.

Certamente, este musical atende à proposta de seus criadores, Charles Möeller e Claudio Botelho, referências no teatro musical brasileiro. 7 é o primeiro musical autoral da dupla e estreou em 1º de setembro de 2007 no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro. Foi um dos grandes vencedores do Prêmio Shell de 2007, sendo premiado em três das seis categorias nas quais concorria.


Uma pena eu ter assistido ao último dia de espetáculo porque, tivesse tempo, eu panfletaria sobre o musical, carregaria amigos, também estreantes nessa jornada, para conhecer esse universo. Mas acho importante que fique claro: 7 o musical foi um sucesso na sua temporada paulistana, e espero que ele volte a nos visitar. Neste caso, meu pesar é por aqueles que perderam a chance de conferir o musical. Sendo assim, vou deixar alguns links que podem interessar a quem ficou com uma vontadezinha danada de conferir o espetáculo.

Através desses links, vocês poderão conhecer um pouco mais sobre a obra, seus criadores e manter contato com a produtora responsável pelo espetáculo, mantendo-se informados sobre uma possível reestreia.

7 o musical - www.7omusical.com.br
Charles Möeller e Claudio Botelho - www.moellerbotelho.com.br
Aventura - www.aventuraentretenimento.com.br

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terça-feira, 2 de junho de 2009

ANI-VERSÁRIO -- Paula Pimenta

Outro dia, conversando com amigos, chegamos à conclusão de que existem dois tipos de aniversariantes: os que odeiam e os que adoram a data. Os que odeiam, geralmente se escondem, proíbem os familiares de dar parabéns, fingem que é um dia comum e fazem de tudo para esquecer... Já os que amam, saem por aí espalhando para o mundo inteiro. Lembro que vi uma peça (“5 X Comédia”) há uns anos, onde a Fernanda Torres fazia o papel de uma aniversariante assumida. Na peça, ela contava que fazia tanta questão de que todos soubessem dos seus aniversários, que inclusive em um deles, enquanto ela dirigia, o motorista do carro ao lado sem querer virou o rosto para ela e recebeu imediatamente um: “Hoje é meu aniversário, viu?”

As peculiaridades de cada aniversariante não param no amar ou odiar a data. Alguns ficam saudosos com a proximidade do dia. Relembram cada um dos anos já vividos e pensam que os próximos nunca serão melhores do que os passados. Outros, vêem o aniversário como um marco propício para mudanças, uma espécie de Reveillon: fazem resoluções, pensam o que vão descartar, iniciam um regime... Têm aqueles que mentem a idade. Não importa quantos anos estejam fazendo, sempre diminuem uns 2, 5, 10 anos... E também existem os que mentem para cima! Mas acho que esses últimos só fazem isso até completar uns 18...

A música “Parabéns pra você” também desperta diferentes emoções. Já repararam como alguns aniversariantes empolgam e batem palmas junto com os convidados? Outros ficam só olhando para aquele tanto de velas, pensando provavelmente no pedido que fará na hora do sopro, ou pra quem dará o primeiro pedaço do bolo, ou que não tinha necessidade daquela situação constrangedora...

Há uns anos, contei para uma amiga que eu gosto de fazer de conta que é feriado no dia do meu aniversário. Desmarco tudo, peço folga no trabalho e faço só o que eu gosto. Claro que isso não é possível em todos os anos, mas eu sempre tento, afinal, tem que ter uma compensação por ficar um ano mais velho! Acho, inclusive, que deveria ter uma lei obrigando cada pessoa a ter seu feriado particular. Nada de aulas, nada de trabalho. Um dia livre, inteiro, de presente pra você.

Tenho um amigo poeta que hoje me falou: “Versário: lugar onde se guardam os versos”. Achei lindo. Juntando a poesia dele com o significado de “Ani” – pelo latim “annus” (ano), ani-versário seria então o lugar onde todos os anos guardamos nossos versos...

Para quem ainda não adivinhou, sou uma daquelas loucas por aniversário, capaz inclusive de usar uma crônica para que mais pessoas descubram que “hoje é meu aniversário, viu?” Na hora do “Parabéns”, certamente estarei olhando para as velas e desejando que – em todos os meus próximos feriados particulares - eu ganhe inspiração para guardar versos, cada vez mais cheios de poesia...



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