domingo, 31 de maio de 2009

A VÍTIMA É O CULPADO >> Eduardo Loureiro Jr.

Alberto Ruggieri - corbis.comE eu que pensava que era o mordomo. Nossa cultura falante e extrovertida sempre desconfia dos calados e misteriosos. Mas o culpado, vejam só, era a própria vítima. Por trás daquela carinha triste -- de dar dó -- estavam as mais perversas intenções, desconhecidas até dela própria.

Hoje as vítimas não me dão mais pena, mas me fazem achar graça. E quando a vítima não é sonsa -- e nem lhe passa pela cabeça que ela é que é a culpada -- aí rio a valer. É como uma daquelas comédias antigas em que o palhaço flerta inconsciente e desajeitado com o perigo.

Quando alguém faz carinha de pobre coitado, eu já começo a armar meu sorriso. Quebrou o pé porque pisou num buraco? Perdeu o emprego numa demissão coletiva? Foi largada pelo marido ingrato? Tá com vontade de processar a prefeitura, pedir indenização, exigir pensão? Chega, gente. Eu não posso rir demais senão me dói a barriga.

Parei de assistir aos telejornais porque prefiro outro tipo de comédia -- mais positiva. E, mesmo rindo, a exposição constante injeta na gente o gérmen da vitimização. Quem é que consegue assistir ao noticiário todo dia e não se sentir vítima da crise mundial, das falcatruas, das politicagens, da bandidagem, do imposto de renda, das catástrofes?

Vítimas coisa nenhuma! Culpados! Se está incomodando, dói justamente onde a culpa é nossa. E vai continuar doendo enquanto não largarmos a culpa e assumirmos a responsabilidade.

Não aguento mais ver alguém bancando a vítima, reclamando da mulher, do vizinho, do chefe, da prefeita, dos congressistas, do presidente, da vida, do destino... e de Deus, então? Como reclamam de Deus! É um tal de "ai, meu Deus" pra cá, "meu Deus, o que foi que eu fiz pra merecer isso?" pracolá... Vão tomar conta da própria vida, meu povo. Eu não caio nesse chorinho besta de vocês, não.

Caiu, levanta. Perdeu, recupera. Errou, conserta. Morreu, reencarna ou ressuscita. E vamos deixar o mordomo trabalhar em paz.



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sábado, 30 de maio de 2009

INQUIETAÇÕES [Sandra Paes]

Me pego tamborilando os dedos sem melodia ou ritmo. Não há um pensamento sequer que justifique essa arritmia. Não, não procuro uma música pra justificar o tamborilar. Tem gente que rói as unhas, olhares fixos na batida de falta diante do gol, à espera de uma vitória para seu time de futebol. Nem isso... Não me treinei pra ser torcedora, daquele tipo que anda pra lá e pra cá, fala alto com o locutor ao longe e diz palavrões para o técnico que do lado de fora também anda pra lá pra cá - e berra: “Seu ****!”

Também não é esse o contexto. A televisão pode estar ligada com qualquer um falando sobre o tema de sempre: tragédias, queda da bolsa, queda do dólar, justificativas diversas pra abandono, fome, perda total de casas, não importa se por devastação de águas, bombardeios, tornados ou outros desastres provocados pela briga incessante entre os países. Também não é isso...

Descubro que há uma água que corre desmedidamente no banheiro, vinda de algum lugar. De novo? Deixaram a descarga vazando e nem tiumps? Sim, parece que é. E lá vou eu de novo ligar pra portaria e pedir providências pra evitar o desperdício. E, de novo, a mesma coisa, a desinformação do porteiro sobre o assunto e a atitude de sempre: nenhuma! Vai ficar pro dia seguinte.

E de repente: eureka! É isso.

Estou inquieta porque não suporto mais esperar para soluções no dia seguinte. Não sei que pressa é essa. Mas conviver com o arrastar do jogo democrático, a manipulação financeira por todos os lados, os abusos de tempo, a ignorância crassa dos atendentes por telefone e essa coisa que não anda porque as pessoas estão fisgadas por um sistema deliquente, me deixa inquieta.

Não assisto aos shows sobre “respostas certas” a serem dadas pra perguntas idiotas valendo alguns cifrões, mas, de novo, o mesmo jogo da provocação e da espera.

Foi assim com as paqueras, com os flertes de outros tempos, com o resultado de exames, da prova escrita nos concursos diversos pra bolsa de estudos em alguma instituição, sem falar nas filas de espera para pagar contas, mostrar que se é capaz de estar em dia com os credores, mesmo diante de greves bancárias intermináveis e toda essa especulação ridícula em torno de o que fazer quando não há onde pagar o que se deve.

E lá se foram anos e anos de espera pra isso e etc., pra nada. No final das contas, é sempre a mesma coisa: como manter os idiotas andando em círculo pra justificar a existência e se divertir no intervalo com qualquer bobagem.

Sim, a inquietude cresce e vai se transformando em ira ao me perceber como um ratinho em laboratório de pesquisas correndo numa rodilha pra mostrar pro observador o que fazer com meu comportamento condicionado. E eu ainda penso. Ainda cogito que tudo isso é loucura controlada mesmo, vejo toda a arapuca e vem outra angústia. A de não saber como sair dessa roda tosca, porque de vida nada tem, é apenas o prorrogar da neurose humana em nome do progresso e do avanço tecnológico e da distribuição de renda.

Aahhhrrrggg! Que fartão!

Não dá mais pra ver todos os carros engarrafados, os malucos de carteirinha se comportando direitinho pra não perder pontos e ter o direito de ficar transitando duas horas a mais por dia só pra ir pro emprego e ainda dar graças a “Deus” por ter onde se engarrafar. Afinal, vai ter dindim pra entrar na fila e pagar contas e dizer a si mesmo que a vida vai bem. Vai dar até pra tomar uns chopps com os amigos e ainda ver o time e torcer e ficar inquieto de novo - mas dessa vez por uma boa causa. Afinal, o time pode entrar pra final do campeonato.

E daí?

Há quantos anos os ratinhos motorizados vivem na mesma rodinha pra depois se aposentarem e viajarem pela televisão, visitando todas as paisagens que mostram nos diversos programas bem editados sobre os lugares mais fascinantes do planeta?


É tudo a mesma coisa: cria-se a inquietação e procura-se mantê-la em alto nível de disposição porque, afinal, se não houver inquietudes, como manobrar as esperanças e os discursos de melhora de vida?

Mas que vida? Esse programa ridículo de brincar de casinha, brincar de proprietário e pagar uma baba pelos títulos e rótulos que dizem que o carro é seu, a mulher é sua, o homem é seu, o apartamento é quase seu, e a vaga na garagem talvez possa ser sua.

Arghhh! Amanhã sai o resultado da biópsia e com ela a sentença de vida limitada, ainda um pouco mais. E tem gente que ainda acha que a vida é uma maravilha!

E como diria meu poeta português:- “Me sinto presa num manicômio sem estar num manicômio.” E esse estar entre, esse quase que não se esvai...



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sexta-feira, 29 de maio de 2009

ME ENTERREM COMO RIMBAUD >> Leonardo Marona

Hoje eu li um sonho. Ontem à noite eu vi um sonho. Hoje eu vou escrever um sonho. Começar dizendo que os sonhos são tão inúteis quanto um tostão nas mãos de um bêbado. Ou uma abóbora aos pés de uma Cinderela. Ou um livro na frente de um intelectual de esquerda dos 20 aos 30 anos. Os melhores sonhos escritos duram uma eternidade, sempre além de quem os sonhou. Leiam algumas histórias fantásticas de algum velho barbudo fantástico e vocês vão entender. Ou então não vão entender. Meu último sonho eu não me lembro. O que me lembro não foi o último e só sei que estava grávido. O lado bom era o barrigão. O lado ruim, as palpitações, os chutes no céu da boca, as tripas torcidas e os jatos de merda pelos poros. Noutro sonho, que me lembro vagamente, era comido por crocodilos famintos. Começaram pelas pernas. Atenderam aos meus suplícios. As pernas, as pernas! Se forem um dia me matar, comecem sempre pelas pernas, de modo que eu não possa fugir. Sempre que puder fugir vou fugir. Não tenho os punhos para a glória. Mas quando se lê um sonho é inevitável se sentir tão ridículo quanto aquele que o escreveu. Portanto, que me matem e me enterrem como Rimbaud, ou então me deixem apodrecer em paz!

Não, não... Nada é nada perto de um tudo tão virulento. Eu sou nada a parte dos meus sonhos. Não almejo nada, só desejo a carne, o espírito me tapeia. Odeio me olhar no espelho e comprovar o tempo escorrendo pelas mãos com as minhas primaveras derretidas. Não vejo ninguém gritar mais. Quem grita!? Ou então gritam demais, como desesperados de tanta resignação. Não vejo ninguém rezar, tenho medo de igrejas, tenho medo de deus, já tropecei lá dentro e saí xingando os céus, enxugando as dores. Dei comida na boca de monstros internos eternos. Ademais não quero me decepcionar com alguma coisa que não consigo ver. Precisaria estar totalmente louco antes. Talvez daqui a pouco chegue no ponto. Talvez nunca mais alguém passe dessa cova morna de idéias velhas. E ninguém precisa fechar uma mão com a outra e olhar pra cima para ter alguma coisa. Existem contratos. E onde estão os visionários? Quem vai pôr na reta dessa vez? Nada de novo! Ah! O sono... E que faço eu aqui imitando poetas? Não serve. Nada. Não deveria botar as mãos nessa tesoura. Mas estou cortado por dentro, existe um bicho ácido na minha garganta, descendo, festejando, mostrando os dentes pro centro da coisa toda. O bicho diz: Eu vou lá, eu vou lá! Sinto a corrosão leve e persistente. Sinto ela vindo, me fazendo duvidar da tristeza, me dando mesas de bar cheias de nada além de palavras de auto-aprovação. Provar idéias. Não quero ninguém me olhando. Quero o zero, o simples, uma rede bem longe, embalada pelo vento. Uma mosca dormindo no meu dedão do pé. Quero o belo que eu puder cheirar. Quero as horas de desatino. Quero um riso que não se segurou. Quero um peido longo sozinho. Olhar e não falar. Escrever e riscar depois. Jogar fora. Cuspir coisas com carinho. Quero uma mecha de cabelo, uma virada de pescoço em câmera lenta, um lençol branco, uma caneca de barro fumacenta sobre uma toalha listrada às cinco da manhã. Quero dizer que te amo e o quanto te odiei. Quero gritar ao mundo que não sou nada, que não presto, que meu valor é nulo, que meus pensamentos lutam comigo desde que me ponho a lavar a cara diante do espelho até a hora em que rezo para sumir e vejo a morte sonambular. O que adoro? As coisas rápidas, que são eternas. Pensamentos ligeiros agarrados pelas pontas dos dedos. Ferrões na testa. Abraços pelos ombros. Canções sicilianas. Um olhar, apenas um olhar sincero, firme, certeiro. Levantar as bainhas das calças e chutar a água do mar sem camisa. Que se dane, me chamem do que quiserem! Quero exatamente isso. Quero que me chamem logo. Que me chamem pra mesa. “Ô, guri! Tá na mesa!”. E vejo a fumaça dançar. Cheiro a tentação cítrica, sinto a salvação pequena e tímida se aproximando. Então me aproximo. Na mesa: uma terra morta e um código de barra. Uma boca aberta vazando larvas que virarão insetos que comerão nossos braços que se tornarão outros insetos cabeludos gigantescos que se comunicarão através de grandes olhos e longas antenas até o fim dos tempos. E nada dirão a não ser “que seja...”. Uma pinóia!

Não posso continuar assim. O que acontece quando se acabam as palavras? Vou dizer o que acontece. Você é obrigado a inventar outras novas ou terá que engolir o próprio vômito e chorar, arrancar os cabelos, meter o dedo no próprio olho, pedir perdão aos céus, ficar louco. Quero distância, mas quero que me amem. Quero pedir desculpas, mas quero que se fodam. Quero me matar, mas adoro o sol com vento frio. E são tantas pessoas que estão passando aqui por dentro! Todos me pisoteiam, me cospem na cara, mas eu sinto apenas a massagem e o néctar. Perdão. Por todas as vezes que te olhei prostrado diante da janela, a mão na testa, o tronco torcido, chupado pra dentro, o pavor impenetrável que me calava. E me calei. Nunca disse nada. Engoli, engoli, engoli. Estou explodindo. Mas não posso mastigar a vontade dos outros. Quero a infância. Quero os jogos de sabão, o esconderijo dentro das almofadas, a maçã da tarde, os refúgios das árvores, a mão ajeitando a franja sobre os olhos, o secundo beijo, a terceira foda, o oitavo amigo. Chega de provações e aprovações! De que servem? Quantas chances nós temos para sermos felizes? Quantos tiros pra mandar pra cima? O que acontece quando falar em felicidade se torna algo ridículo, infantil, pejorativamente romântico? Felicidade, amor, carinho, tête-à-tête, compaixão, salvação, ombro-amigo. Soa como lixo amassado. Como um choro calado por um cano de espingarda na boca. Temos que cavucar lá dentro se quisermos encontrar a saída. Mergulhar profundidades imensas, sentir a lava quente borbulhar perto da bunda, buscar pedaços de ouro torcidos no intestino, jogar longe o bumerangue. Ou então, a resignação. Deus está com sono. Está cansado. Precisa de um dono. Deus precisa de um substituto mais prático. Deus...

E me aproximo da fumaça que exala de cima da mesa e as pessoas riem e enchem taças de vinho e têm as bochechas rosadas e os olhos pequenos e brilhantes e estalam os dedos e explodem garrafas no chão – gargalhadas! – e se apóiam uns nos outros. Quando um cai e espreme o cenho o outro levanta, estica os pêlos dos olhos e faz biquinho. Os suspensórios estão soltos atrás das cinturas, camisetas brancas sem mangas manchadas de vinho e paz. As cadeiras rangem no chão de granito. Músicas, punhos, veias, palmas de mãos, suor, sonoras entoadas, dança russa, tombos, beijos guardados na bolsa. Cassavetes à siciliana. Rapidamente consigo enxergar a saída. É como a caverna do dragão. A fumaça cheira acre, as pessoas são alegres, claras, me amam e não querem nada. O mundo dura dois segundos diante dos meus olhos. E de novo as palpitações. Tiro a camisa. O umbigo para explodir. Um alienígena para nascer. Na fumaça da mesa consigo ver o pai. A mãe sou eu. O pai é a fumaça – cheira a velório; boca murcha, olhos fechados por dedos de unhas sujas, velhotas em volta, rindo, esperando o próximo natimorto. O nascimento está tão próximo da morte, o pai da mãe, que um cheira a bunda do outro e dá tudo na mesma no fim, nascer ou morrer. Felicidade ou tristeza. E… Hum... E... Hum... E... Hum... E vapt-vupt-vazou. Sangue, cheiro de ferrugem, desmaios, charutos, ós-meus-deuses!, um troço sem pés, sem mãos, sem cérebro, só olhos e desespero. A civilização sai da minha barriga e eu sou a culpa da humanidade em mim.


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quinta-feira, 28 de maio de 2009

UMA HEROÍNA MODERNA >> Kika Coutinho

Era um típico sábado de verão em São Paulo.

O cenário era a praça Vilaboim, um lugar de calma e tranqüilidade dos descolados da cidade. Lá, nas mesinhas que ficam na calçada, jovens e famílias conversaram, petiscando e cervejando alegremente até que, como um típico dia de verão, o sol deu lugar à chuva e, num instante, grandes pingos caíam do céu. Foi aquela correria, todo mundo entrando nos bares, garçons levando as mesinhas, mulheres protegendo a chapinha, homens protegendo as cervejas. Nesse imbróglio, um pai foi correndo buscar o carro para a esposa e os bebês – gêmeos – que ela tentava esconder sobre a capa do carrinho.

Foi aí que o fato se deu. O homem chegou com o carro e estacionou na frente do bar, um lugar proibido, apenas para abrir o porta-malas, guardar o carrinho, ajeitar as crianças nas cadeiras pregadas no banco de trás e, por fim, abrigar a esposa que, a essa altura, já estava encharcada. No entanto, nesses rápidos segundos, uma senhora de amarelo apareceu com um bloco na mão. Sim, era a guarda do trânsito, uma CET, um amarelinho como dizemos nas bandas de cá. Ela começou a multar o carro do homem que, entre o carrinho e cadeirão, tentava explicar, ele estava só buscando a família, era um minuto, estava chovendo, as crianças estavam gripadas, rapidinho, já estava acabando. Mas a senhora estava irredutível e mantinha-se dizendo que lá era proibido e pronto, ele não poderia estacionar, nem por uns minutinhos, e ela ia multar sim, senhor.

Uma pequena multidão que se amontoava dentro dos bares começou a prestar atenção no assunto, alguns ousaram gritar, outros pediram paciência, a multidão estava definitivamente contra a lei e a favor da família, não importa o que a senhora dissesse. A coisa foi tomando proporções maiores, enquanto uma moça jovem, que se escondia da chuva embaixo de um orelhão, observava tudo com um olhar diferente. Ela cutucou um manobrista, murmurou qualquer coisa e decidiu agir. Foi rápida como um raio. Num instante, numa fração de segundo, correu em direção à senhora CET que, bem nessa hora, gesticulava com os braços para cima, empunhando seu bloco de multas maquiavélico. Não foi possível contar até três. Um, dois e pronto, a menina simplesmente arrancou o bloco da mão da senhora e continuou correndo, sumindo dentro das árvores da praça. A multidão, atônita, fez um segundo de silêncio e, antes que a dona do bloco conseguisse abaixar as mãos (já vazias), o público começou a aplaudir: “Uhu, boa, boa, é isso aí!”, gritavam, rindo, eufóricos, enquanto a senhora de amarelo saiu também correndo atrás da menina. Mas não havia mais jeito. A multidão já havia se manifestado e muitos correram juntos, no meio da chuva, confundindo a vilã e tornando-se cúmplices daquela desconhecida, cúmplices daqueles dois bebês e daquela pequena família que, a essa altura, ria com gosto, abrigada dentro do carro, ainda no lugar proibido.

Soube depois que a menina se escondeu em uma farmácia da praça. Parece que o farmacêutico levou a moça para aquela casinha da injeção e ela ficou lá, trancada, vendo todas aquelas multas que nunca se concretizariam, por quase uma hora.

Ainda hoje, ela continua a passear na praça e ficou famosa. Todo mundo a cumprimenta, pergunta o que houve com o tal bloco de notas, e ela jura que jogou no lixo, mas, claro, no lixo reciclável do Pão de Açúcar ali do lado. Porque, afinal de contas, ela é uma menina muito, muito correta e afeiçoada às boas práticas sociais. Ninguém discorda.

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quarta-feira, 27 de maio de 2009

URGÊNCIAS >> Carla Dias >>

Quando vários acontecimentos atropelam meu momento, chamo o evento de “tudo ao mesmo tempo agora”, que pode até ser título de livro que ainda não li, mas para mim também é a combinação de palavras que melhor expressa a urgência para a qual nem sempre estou preparada.

Eu estou acostumada às urgências do cotidiano. Consigo me adaptar ao tempo do mundo e cumprir meus horários, e apesar de não ir com a cara do calendário, aceito minha condição de gente e marco ponto. Raramente me atraso para os compromissos, acontece até, frequentemente, de eu chegar adiantada e ficar à toa, vendo a banda passar.

Descobre-se muito sobre a vida vendo a banda passar.

Mas como dizia, as urgências cotidianas não me cutucam, porque eu as executo no piloto automático, como acho que deve ser, senão as importâncias acabam sendo direcionadas para o que nada mais é do que uma ferramenta para a sobrevivência. E simplesmente sobreviver, sem seguir adiante e abraçar a vida, sem viver a vida, para mim é o mesmo que cair num sono sem direito a sonho.

As urgências que me escaldam, me deixam avariada, caminhando na frigidez das horas que não passam, dos finais de semana de molho, dos insignificantes desvelos, são as urgências emocionais. Como naquele dia em que levantamos com a sensação de que até o fim dele apenas nos arrastaremos se não encontrarmos um riso que nos inspire a sorrir, ou dentro de nós mesmos, uma réstia de alegria que, assoprada na boca, autora dos primeiros socorros da boa vontade, ganha nosso dentro e mina esperança.

As urgências estampadas na saudade, na fragilidade da presença, nas rezas para Deus e os mundanos, e aquelas que transitam pelos desejos que nascem proibidos, mas que, secretamente, confiam às possibilidades seu destino.

Encarar as urgências cotidianas, de quem perde o ônibus e corre que corre para não perder a hora do trabalho, e tem de lidar com o chefe num monólogo-bronca, ele que jamais saberá que você se atrasou pela urgência emocional em carne viva de se trancar no banheiro e chorar cinco minutos as dores de uma vida inteira. E então se recompor, compor um motivo outro para caber no roteiro da desculpa que dará. A urgência dos que cirzem palavras para dizer quão importante é aquele ou aquele outro negócio, apesar de não acreditar nele. Dos que vendem, compram, doam...

Para os que se despedem as urgências são dolentes. E em momentos de “tudo ao mesmo tempo agora”, há também as urgências sonsas... Aquelas que sabemos tinham de correr até a linha de chegada, mas que caminham a passos de tartaruga até o seu desfecho, esticando a jornada até, crentes de que, chegando lá, vão se esbaldar em alívio.

www.carladias.com
http://talhe.blogspot.com



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domingo, 24 de maio de 2009

À MODA DE UM TESTAMENTO
>>Eduardo Loureiro Jr.

Lucas Landau - Flickr.com
E se esta não fosse apenas mais uma crônica de domingo? E se fosse a última? E se daqui a uma hora e meia eu perdesse completamente a memória, desaparecesse ou simplesmente morresse? O que eu deveria escrever se esse fosse meu último registro escrito, se fosse por meio deste texto que as pessoas compreenderiam minha partida inesperada e toda a minha vida?

Talvez fosse bom eu deixar um testamento. Mas eu tenho tão pouco... Os livros e os jogos -- eterna companhia e aprendizado -- para a sobrinha. Os escritos -- substitutos dos filhos que não tive -- para a família. Os computadores -- extensões do corpo e da mente -- para a mulher. As roupas e os órgãos -- incluindo os olhos castanho-esverdeados -- para doação. Mas os testamentos são muitas vezes uma tola tentativa de continuar participando quando não se pode mais participar, de compensar algo que ficou por ser feito. Ser a companhia, o aprendizado, os filhos, a extensão, o agasalho e o auxílio que não se quis ser em vida.

O que se pode deixar quando se vai partir? Uma idéia, uma mensagem? Que tenho eu pra dizer além do que qualquer sábio já disse: "amem, amem, amem... amém"?

Poderia dizer que não fui de vez, que nos reencontraremos em outra vida ou em outra dimensão. Poderia dizer que não é nada disso, que o fim é o fim, e que é melhor vocês nem se preocuparem com a minha pessoa. Poderia pedir desculpas pelo que fiz ou deixei de fazer. Poderia dizer "esqueçam a literatura, o que importa é a mensagem" ou o contrário: "esqueçam a mensagem, o que importa é a literatura". Ou então:

"Vou fazer uma mágica. Querem ver como eu consigo me fazer desaparecer?"

E assistir ao riso de incredulidade de vocês, depois ao olhar de espanto, depois à respiração de ansiedade, depois às palavras de desespero, depois aos urros de raiva, depois ao silêncio de desencanto, depois ao suspiro de aceitação.

E eu tentaria aparecer novamente com um grande sorriso no rosto, dizendo "gostaram da mágica?", mas já seria tarde demais.




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sábado, 23 de maio de 2009

O CASARÃO [Carla Cintia Conteiro]

Ouvi tanto a vida inteira sobre a responsabilidade na escolha do par com quem se irá dividir a vida. Alguns falam de amor, paixão, companheirismo. Outros, nem um pouco românticos, destacam que importante mesmo é ter a seu lado alguém cujos defeitos se possa tolerar. Sabido é que não se pode ser estabanado no momento da decisão, pois há também que se considerar o pacote que pode vir junto, com ex-esposas rancorosas, filhos chatinhos, sogra intragável, cunhados abusados, enfim, uma família que não é sua, mas vai ser bastante familiar. Com sorte e boa estratégia de colocação, vão estar todos a uma distância confortável que não dá para vencer até sua casa de chinelo, nem precisarão vir de mala. Entretanto poucos levam em consideração as pessoas com quem provavelmente vão conviver e de quem, quando se aproximam, normalmente sabem pouquíssimo ou nada a respeito: os vizinhos. Na loteria de convivência, diria que esta é a aposta mais cega. Os meus, por exemplo, eram péssimos.

Quando mudei para cá, muitos já estavam. Na verdade, soube nome de poucos deles, mas ouvia seus gritos, suas gargalhadas, seus urros que importunavam a todos ao redor esfregando nas nossas caras classe média o que a falta de educação e cultura pode ocasionar no senso de cidadania. Bebiam, brigavam, produziam lixo, alimentavam cães sarnentos, criavam os filhos, atraiam roedores e insetos e festejavam nuns casarões abandonados aqui perto. Eles tinham fuso horário diferente do meu e do da maioria trabalhadora da humanidade. Estavam sempre mais ativos nas tardes de domingo em que eu queria sossego ou competiam com os morcegos nas madrugadas.

Alguns se diferenciavam por pouco de mendigos, uns trabalhavam como ambulantes, quebravam galho lavando ou fazendo pequenos consertos em carros ou qualquer outro sub-emprego. A nobreza daquela ralé era composta por alguns porteiros da vizinhança. Assim, esses vira-latas humanos ocupavam um enorme espaço no meu dia-a-dia, numa representação bastante viva e inevitável de O Cortiço, de Aloísio de Azevedo.

Uma noite, acordei com gritos diferentes dos usuais e, ainda enrolada no sono, farejei fumaça. Abri as cortinas e pela primeira vez testemunhei in loco os horrores de um incêndio. Fiquei tão perplexa com o desespero alheio que custei a entender que meu lar também estava ameaçado pelo fogo. O sentimento de solidariedade por aquelas pessoas que me irritavam tanto era inédito, mas real. Felizmente ninguém morreu ou se feriu. Durante dias, fui envolvida por seus dramas: bebês sem fralda ou mamadeira, menina sem caderno, ninguém tinha o que vestir. Como é duro ter quase nada e ficar com a roupa do corpo.

As coisas, mesmo as mais terríveis, se ajeitam, foi o que aprendi com aquele episódio. Aos poucos, alguns dos antigos vizinhos recolhidos em abrigos municipais ou em casas de parentes foram voltando e transformando os casarões em um acampamento, um arremedo tétrico de lar. Na parte mais frágil, mais devastada pelo incêndio, era pior. Acomodou-se por lá uma gente estranha, ainda mais barraqueira, dizem até que capazes de crimes. Não sei, não vi.

Foi durante minhas férias que bateu a fiscalização. Soube de ouvir dizer que mandaram todo mundo embora e todos, claro, fizeram ouvidos moucos. Contudo, na última semana, fui novamente despertada por um movimento incomum bem cedinho. Da janela, vi o quase sempre tímido poder público mostrar o que pode quando quer. Polícia militar, guarda municipal, assistência social, defesa civil, fiscalização sanitária, conselho tutelar, Comlurb, Light, todos de uma vez chegaram para acabar com a ocupação ilegal dos prédios condenados. Foi uma correria entre os moradores para salvar seus poucos tesouros. O restante foi parar nas caçambas nas dezenas de caminhões de lixo que se revezavam.

No segundo dia, começou a demolição. Em pouco menos de quatro horas, os três casarões estavam no chão. Trabalhando 24 horas por dia, antes do final da semana tinham retirado todo o entulho e cercado o terreno. Paz, enfim.

Agora, que diabos faço com esta preocupação sobre o que há de acontecer com aquelas pessoas? Por que não consigo esquecer daquela mulher grávida, a mesma quebra-barraco que me agredia com seus escândalos sem hora, subindo desesperada no caminhão de lixo para tentar recuperar roupas e brinquedos da filha, agarrada por PMs e guardas, carregada para o carro do SAMU?

Então, é preciso louvar as iniciativas para finalmente colocar a cidade nos eixos, linda e tinindo como ela merece, mas não podemos deixar de pensar nas pessoas. Não podemos nos contentar em apenas tirá-las de debaixo de nossas vistas. Precisamos de um plano para tentar recuperar o que nunca tiveram e oferecer alguma perspectiva para o futuro. Porque, mesmo habitando buracos inacreditáveis, são gente, e quero crer que quem decide pensa neles diferentemente do que nos ratos que correram para todos os lados enquanto aquelas paredes se desfaziam em pó.

Fotos da autora.

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sexta-feira, 22 de maio de 2009

HOMEM DE NEANDERTAL >> Leonardo Marona

O que se sabe é que o homem de neandertal foi extinto porque não tinha medo. Se jogava em qualquer buraco, abria espaço com os próprios punhos, tinha crença numa linha reta, inescapável. Todos morreram, invariavelmente, por não terem medo. E nos dizem diariamente: “Vamos, não tenha medo”. Repetimos diariamente os gestos do homem de neandertal. Primeiro abrimos as gavetas erradas, de lá tiramos a venda com que falece o nosso discernimento. Vestimos a venda e cuidamos da pele; para não envelhecer, vejam só! As carnes demoram em nossos estômagos, precisamos invadir as cavernas mais escuras, buscar uma ilusão de marfim e azul ciano. As frutas são sensações rápidas, beijos gelados na testa em chamas. Mas dos nossos corpos sumiram os pêlos, uma radioatividade secular enegrece os nossos pulmões e dá de comer a bactérias caninas. Nossa fome nos leva aos encontrões pelas ruas, rumamos pelo espaço curto em busca da distância comprida. Desempenhamos tarefas cotidianas que são como pular em buracos em meio a disputas doentias. Nosso tempo se passa aos gritos surdos, gritos altos, que não se escutam. O que se sabe é que o homem de neandertal não tinha sexo definido, um coleguinha já disse que ele até dava o cu. O pobre homem, decapitado de sua evolução primal, bate nos peitos, grita duas frases e pula, sabe-se lá onde vai cair, muito menos ele sabe se vale a pena pular. Algo lhe espeta a nuca, o peso de séculos e mais séculos de graves senhores comidos pelo câncer, olhando de braços cruzados, esperando o veredicto do “pular-às-cegas-em-terreno-aberto”. Não há veredicto. Destemidos, quantos abutres já não se alimentaram da vossa carne? Chegou a hora de sentir medo, de ser humano? Levantar e deitar num liga-apaga de movimentos todos secundários, como que descolados: corpos sem milagre. E lá vamos nós, os de queixo prognata que não sabem segurar flores ou comer com garfo e faca. Destemidos perderemos a cabeça e ganharemos páginas provisórias. Ah, como sentimos medo! Carregamos um peso de corpos empilhados em tempos ancestrais. Compramos, sim, flores, a simpatia de um amigo, os votos de um povo. Vivemos em bando, o contato da carne nos diverte. O que não se sabe é sobre aquilo que não cabe mais, que não desgruda dos ossos e faz tremer durante o sono. Essa herança maldita, de se desdobrar em mil desconhecidos para não chegar a lugar algum. Essa cruz de repetição mitológica aos domingos e durante a semana, símbolos que se atropelam atraindo nossos cotovelos aos parapeitos venenosos. Ah, como sentimos medo! Seguimos e nos acostumamos facilmente com as dores de estômago, com os romances russos que falam sobre homens com mais rugas do que nós, nós os que pulamos e temos medo e somos o elo perdido entre espécies dizimadas. Pulamos com medo, caímos, olhamos para frente, sorrimos, olhamos para trás, voltamos ao pavor. Os olhos espremidos por solas grossas de coturnos sombrios já não se mexem e pedem, suplicam qualquer coisa. Mas o tempo exige sua dose de penhascos e pulsos vermelhos. Fizemos o possível, nascemos esperando chances das quais fugimos, por tédio. Não podemos esperar por mais nada, não temos mais pernas para andar sem ver a borda. Temos medo, acabaram nossos penhascos. Somos homens de neandertal sem a sorte das salas patéticas dos museus da história humana, pequenos fatos feitos a tinta e lascas e muita prostituição. Nossos pêlos, cancerígenos, foram comidos pela febre antiga, que corrói as espécies até que seremos apenas almas e uma história sem parágrafo, fim, começo, nada além de uma página e toda a aridez do universo conspirando aos risos contra o nosso sacrificado destino de ter que perdurar, sem escapatória, perdendo membros, sem respostas, ganhando vultos, dissecando a ternura como um cadáver meigo, realizando feitos em altas rotações, para IMENSAS corporações. Que boa seria a extinção se ao menos tivéssemos de volta a luta válida, o impulso cego que move a vida em direção ao núcleo fragmentado. Mas uma névoa cai sobre a cena por dentro da mata e um clarão entra por cima da névoa, entre árvores milenares, e não se sabe se é uma dádiva ou o fim de mais uma era, não temos mais as estacas de madeira e as mãos peludas. Os dentes são podres, mas há doenças, existem as aparências e objetos de disfarce. O medo. Ele está em toda parte, no esbarrão na esquina movimentada, nos beijos secos em noites sem áudio, nos pedidos de casamento e nas cartas de amor. Está, principalmente, na hesitação que leva ao ódio a palavra de carinho. E com medo morremos de medo, sonhando morremos de tédio, agindo entediamos os sonhos, e sem medo morremos, como morreram os homens de neandertal.


*Outros textos e idiossincrasias no http://www.omarona.blogspot.com/

*Quem quiser comprar o livro "pequenas biografias não-autorizadas" (poemas - 7Letras, 2009), favor enviar mensagem para leomarona@gmail.com (para ganhar um belo desconto!)



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quarta-feira, 20 de maio de 2009

ANTES DE NÓS HOJE >> Carla Dias >>

Domingo passado, uma amiga muito querida veio me visitar, e enveredamos por lembranças desde a época em que nos conhecemos. E aí já se contabilizam vinte e três anos.

Eu e a Fátima estudamos no mesmo colégio, em Santo André (SP), o Américo Brasiliense. Caímos na mesma classe no primeiro ano e - indo contra a minha total falta de capacidade de fazer amizades, que na época dava um banho na atual -, nos demos bem logo de cara. Daí para dividirmos a fileira das carteiras, os trabalhos, o lanche na hora do intervalo, as mágoas e as alegrias, enfim, foi um pulo.

Nossa amizade inclui algumas aventuras... No bate-papo domingueiro, a Fátima relembrou do dia em que a carreguei para o show do Bon Jovi, em janeiro de 1990. Veementemente, passional como sempre é, ela frisou que era o Hollywood Rock, não o show do Bon Jovi... E era mesmo, mas para mim era o show do Bon Jovi! Também disse que eu a usei... Que a escolhi porque ela sabia chegar ao estádio, pois assistia a jogos de futebol com o pai, e eu não sabia chegar até a esquina. Verdade de novo... Mas a boa é que a amigas como nós se permitem alguns abusos desses, principalmente se eles prometem diversão e cumplicidade.

Depois do show, tomamos um ônibus até a estação de metrô Anhangabaú, mas quando chegamos lá já estava fechada. O jeito foi fazer o que centenas de outras pessoas fizeram: sentamos na escadaria do Teatro Municipal e esperamos. A Fátima deitou no meu colo e dormiu, e eu arrumei um papel e uma caneta e escrevi. Não me lembro das palavras, das nuanças do poema, mas sei que retratava aquela sensação boa que sentia no momento. Até hoje a Fátima guarda esse poema, escrito num pedaço de papel de embrulho daqueles cor-de-rosa, representando minha gratidão pela companhia.

O Hollywood Rock não foi a única aventura musical para a qual empurrei minha amiga. Teve também o dia em que ela foi comigo, de trem e metrô, para um estúdio, se não me engano, em Santana. Havia esse guitarrista, gente boníssima, que me convenceu a tocar um dia com ele. Eu estava sem banda, não era muito fã do estilo da banda dele (punk rock), mas estava com tanta vontade de tocar que lá fui eu... Carregando a Fátima junto... A Fátima me ajudando a carregar caixa, pratos e pedal. A Fátima não quis ficar no estúdio de ensaio, “muito barulhento”, ela disse. Ah! Essa é uma das vantagens de ser amiga dela... A Fátima sempre diz o que pensa.

Ela dormiu na recepção, enquanto eu me descabelava naquele ritmo desembestado. Depois fomos para casa e nunca mais toquei com uma banda de punk rock, mas carreguei caixa, pratos e pedal outras vezes no trem e no metrô.

Apenas para constar: nada contra o punk rock... É só uma questão de usar a roupa mais confortável. A minha roupa está mais para o tradicional rock’n roll, a batida sonsa do samba canção, os acessórios do funk.

A nossa conversa no domingo não se baseou somente nas aventuras. Aqui eu posso registrar somente as minhas, mas eu também embarquei nas dela. Falamos muito também sobre as pessoas que éramos na época do colégio, de como ela gostava de ir em casa e comer arroz e ovo frito, de como éramos mais ousadas nos sonhos, desconectadas de tanta sofreguidão na hora de tomar decisões, nas domingueiras no 1º de Maio. Nós gostávamos de sair para dançar aos domingos! Hoje isso é raro... No meu caso é nulo.

Eu disse que tudo isso parecia muito distante, como se tivesse sido vivido por outra pessoa, não por mim. A resposta da Fátima é o que justifica essa crônica, porque achei que ela me ajudou a me desfazer da indiferença que ando dedicando a quem me tornei. Ela disse, e tomo a liberdade de expor nas minhas palavras, que se lembrava de tudo como se fosse ontem, que fazia questão de poder revisitar aquele tempo, a pessoa que era naquela época, a leveza que havia ali, porque era ela sim, éramos nós, não somos outras, apenas mais adultas, feridas, sábias e tolas, felizes como escolhemos ser.

E me sinto orgulhosa de mim por ter sabedoria para escolher amizade tão sincera.

Há vinte e três anos eu a Fátima somos amigas, e apesar de nos vermos menos do que gostaríamos, sabemos poder contar uma com a outra. E quando nos encontramos, gosto de ouvi-la falar sobre a paixão que tem por História, de como relembra nossas aventuras, de como nos enxerga naquele e neste tempo.


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domingo, 17 de maio de 2009

CRÔNICA DE QUE NÃO LEMBREI INTEIRO
>> Eduardo Loureiro Jr.


Quando a Terra era pequena, quase nada, quando ainda estava na barriga, alguém lhe deu um forte abraço e ela ficou — nos pólos — achatada.

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Cresci juntando um tesouro: deveres de casa velozes, leitura dinâmica, frases curtas, longos longos silêncios... ... ... Meu tesouro de tempo.

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Maturidade é fruta madura no pé, não está ali pra se exibir — bonita — mas pra se comer.

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Quando a gente já tem muito, não pode mais se dar ao luxo de só receber.

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Neste mundo, onde tudo é pra ser visto, quanto mais me vejo eu, mais cego eu me sinto.

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Tesouro agora é brilho de olhar.



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sábado, 16 de maio de 2009

ELA ERA IMENSA [Ana Gonzalez]

A bandeira era imensa. Eu não poderia dizer seu tamanho nem metragem, porém imagine que o lugar onde ela deveria chegar era um mastro de concreto de dezenas de metros de altura no meio de uma pequena praça no centro de São Paulo. Imaginei seu vôo lá no alto.

Uma fotógrafa acompanhava sua lenta subida. Descobria ângulos especiais enquanto uma dúzia de pessoas, entre as quais alguns soldados de alguma corporação, lhe fazia companhia. Havia também um carro de bombeiros e o seu pessoal. E uma ou outra pessoa em janelas dos prédios à volta, como eu, espiavam a tarefa de colocá-la nesse lugar tão alto.

Eu havia parado na passarela de pedestres que liga o canto do Vale do Anhangabaú ao terminal de ônibus da Praça das Bandeiras. Recostei o antebraço no parapeito e me debrucei um pouco para ver até onde ia o mastro por onde ela começava a subir. Vai demorar, pensei. Içá-la não vai ser fácil. Fiquei. Acomodei melhor o braço para descansar do peso da bolsa grande e cheia de papéis e outras coisas, que agora – com o peso - pareciam simples tranqueiras. Coisas de mulher.

O sol das cinco da tarde batia nos prédios da praça entre a Avenida Nove de Julho e a 23 de maio, num canto pequeno e movimentado por trânsito que naquele momento ainda corria solto. Sem a paradeira do tráfego de final de dia. Abria-se um céu naquele canto. E eu nunca tinha percebido aquela minúscula praça apertada. Quase ridícula. Sem vegetação, com um resto de grama que sobrara neste inverno atípico, quente e seco. Fiapos de grama renitente. Sobrevivente, vocação nordestina.

A bandeira subia devagar, muito devagar no mastro redondo, enorme e forte que afinava enquanto se dirigia ao azul do céu. Um mecanismo elétrico a elevava. E eu imaginava: como será ao abrir-se ao vento?

De repente, lembrei-me do hino. “Salve lindo pendão...”. “A grandeza da Pátria nos traz...” Aprendi todinho quando estava na escola. Cantávamos no pátio para comemorar o seu dia.

Ela merece. Essa que sobe devagar merecia um batalhão de crianças cantando. Foi difícil aprender. Todos desafinavam especialmente num trecho. A professora tinha muita paciência. Nós também tínhamos com ela num merecimento mútuo. E todos saudávamos o pendão nacional.

Soube sua história tempos depois. Um projeto republicano que despertara protestos dos monarquistas. Seu mentor fora Raimundo Teixeira Mendes e contara com a presença de muitos nomes. O pintor francês Debret, o belga Louis Cruls diretor do Observatório Nacional, amigo do imperador, Benjamim Constant e até Augusto Comte que participou indiretamente dela. O desenho de suas estrelas passou por uma polêmica tendo recebido críticas de ordem técnica. Estrelas acima ou abaixo da faixa? Versão invertida? Enfim, questões astronômicas pouco visíveis para nossas leigas perspectivas. Na verdade, poucos imaginam que as estrelas estejam lá por questões astronômicas e não estéticas. Tudo nela, cores, estrelas, linhas, palavras vale para construir uma imagem, símbolo de nacionalidade. Deve ter sido mais fácil na bandeira norte-americana, com a disposição das estrelas em prateleiras, como descreve um amigo meu.

Hoje, neste momento – confesso que em outros também -, eu contava com uma experiência menos nacionalista e mais estética. Invadia-me uma sensação quase sublime. O pano parecia sedoso e era de um verde, um amarelo e azul inigualavelmente bonitos. As estrelas nem eram percebidas em meio a tanta cor.
Contraste de um vivo imenso. Na verdade, nem apareciam e perdiam-se nos panos, dobras, por onde meu pensamento também se deixava ir. Iriam surgir talvez somente à noite, quando então o breu pudesse lhes dar espaço.

Ao chegar ao topo do mastro, ela pende. Vai voar, enfim? Ensaiou uns passos. Seu pano imenso revoluteou, as dobras trocaram de lugar. Volteios mágicos. Depois parou. Descansou, repousou no estático de sua majestade. Outro dia, talvez. Ainda não hoje. Com mais vento. Muito mais força de vento para fazê-la voar. Como será então o seu voar?



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sexta-feira, 15 de maio de 2009

MA VIE EN ROSE >> Leonardo Marona

Este é seu, você que me chama de branco. Você que fala com o sol e tem milhões de protetores cósmicos, você redoma viva do meu bom-senso, este aqui é todo seu, minhas lágrimas que escorrem, e todas as lágrimas são de alegria e tristeza, sem distinção, mas este aqui é só para você, essência duradoura do meu rasgar de pele. Quero ouvir por muitos dias suas rezas sentada feito Buda com a janela aberta e o vento nas cortinas. Quero, sim, dormir de conchinha porque é quando somos todos os casais. Quero também te entregar meu discernimento raso, meu copo tão cheio de peso tão morto. Nós somos os carbornários, meu amor, as avalanches usam braços invisíveis para nos arrastar sem olhos. Mas agradeço, agradeço pela nossa comunhão de corpos, nervos e dores. Agradeço por cada pedaço arrancado na tentativa absurda de querer estudar o inqualificável. Agradeço por La Vie en Rose na versão de Grace Jones. Obrigado pelas noites dignas de Henry Miller e pelos ataques súbitos de emoção, por mergulhar com olhos ávidos no sopro convulso. Você que abre espaço com os próprios punhos. Você que tem fé nos sonhos e carrega a peso de uma filosofia ancestral. Você que me mostra cartas e jogos com moedas. Você fonte propulsora de energia rítmica. Você que me fala das mitologias chinesas e tem um riso que é puro marfim. Podemos estar sem braços, mas temos que nos dar as mãos. Não se esqueça, meu amor, nós somos os carbonários, os carregadores de verdades que ninguém quer saber. Não levaremos nada desse mundo, viemos para dar, nós somos o mercúrio diante da febre. E das manchas perpétuas da nossa existência crescerá a coisa pura, sem discrição.


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quinta-feira, 14 de maio de 2009

Das irritações cotidianas >> Kika Coutinho

Você está lá, comendo o seu pão de queijo delicioso, talvez recheado de requeijão, talvez puro, mas o momento é de absoluto prazer. Chega alguém. Um amigo, um parente, um inimigo. Você, gentilmente, oferece um pedaço. Pausa. Parem a cena um instante e avaliem, qual a pior resposta que podem receber, desse visitante incômodo que veio só lhe dizer um “oi”? “Aceito, claro”, seguido de um esticar de mãos e uma babada no que sobrar do seu quitute. Pode parecer ruim, mas, o meu mais profundo pavor não é esse. O que me gela o coração, nessas horas, é se a pessoa pegar o pão de queijo e disser, quase que solidária, “Ah, você não quer mais?”. Pronto. Você terá de dizer: “Não, não, eu quero sim, te ofereci só um pedaço.” Ou, se for mais tímido e resignado, aceitará: “É, não queria mais mesmo”, e terá seu dia arrasado por perder o melhor pedaço dele.

Mas o sol nasceu para todos e, um dia, você experimentará o contrário. Saia para jantar com o marido, com um amigo, ou amiga, tanto faz. A noite está ótima, o cardápio é tentador, você fica em dúvida entre um prato ou outro, pede um, ele pede outro. Tudo corre bem, até que chega o jantar. O garçom vem, erguendo os pratos no alto, a sua boca começa a salivar quando ele desce aquele mais saboroso, mais apetitoso, hum, era bem isso que eu queria, você pensa quando, de repente, nota que esse é o do seu parceiro e, na sua frente, é colocado aquela pasta sem graça. “O que foi mesmo que eu pedi?” é a pergunta que não quer calar diante de uma noite sem conserto

Embora tolas, são muitas, muitas, as bobagens que estragam o nosso dia. Telemarketing é clássico. Mas alguns comentários impertinentes e inevitáveis começam com a nossa ação. Você liga para o seu banco para fazer uma transferência. Depois de digitar milhares de números, o banco te identifica e, solícito, sai falando o seu saldo disponível, cheque especial e etc. Quem perguntou? Você pode até não querer saber, oras. E, falando em impertinente, quer coisa pior que vendedora que fica atrás de você na loja, o tempo inteiro, para depois concluir, sem ser chamada: “É calça social que você quer, né?”. Ainda nessa caso, você pode dizer que não e sair da loja. No entanto, há irritações diárias e inevitáveis para as quais apenas uma atitude muito drástica teria algum efeito.

Uma amiga me contou que tem uma colega de trabalho, uma menina nova e linda, que, um belo dia, resolveu deixar um cachinho de seu cabelo solto, caído na testa, como um pega-rapaz mesmo. Era para ser um dia bom, minha amiga estava entrando no escritório feliz, quando se deparou com a menina ali, sentada no seu computador, sorridente, com o cacho caído na testa. Parou, olhou e teve vontade de avisar, como se acabasse de ver uma alface no dente da colega, mas, em menos de um segundo notou que o pega-rapaz estava ali de propósito, saltando aos olhos escuros da menina que, certamente, estava orgulhosa da grande invenção do dia. Acontece que isso tornou-se um incômodo. A menina bonita ficara feia e cafona, agredira-se com os próprios cachos e não se pode ficar passivo diante disso. Minha amiga, coitada, levantou diversas vezes durante aquele dia, ensaiou um jeito de avisar a menina que aquilo não era certo, pensou mesmo em cortar a mecha como que por engano, ou como que surtada, ou fingindo que tinha TOC, ou qualquer coisa assim. Não conseguiu. Todos os dias, entra no escritório preocupada e tenta evitar o contato visual com a outra, de forma que não se sinta tão mal pelo constrangimento voluntário que a pobre menina se impôs. Ela, a minha pobre amiga, jura que o restaurante. o pão de queijo perdido ou a vendedora são fichinhas perto daquela mecha molenga e irritante no rosto de sua vizinha de mesa...

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quarta-feira, 13 de maio de 2009

DO OUTRO LADO DA PORTA >> Carla Dias >>

Um amigo, certa vez, mostrou-me um roteiro de um curta que escreveu. O que me lembro dele é da incapacidade de o personagem girar a chave, abrir a porta e sair daquele universo que criou para si mesmo. O tempo todo, o personagem acha que aquela chave não existe, percebe-se numa prisão, mas ela está lá, ao alcance dele, enquanto o mesmo pede por socorro, para que alguém o tire dali.

Todos nós temos a capacidade de criarmos esse cenário de aprisionamento. Não é preciso ser infeliz para fazê-lo, basta se manter estático, não desejar sair do lugar, seja esse lugar abrigo para tristezas ou para alegrias. A falta de nuanças na vida da gente é das prisões mais receptivas, e nos recebe e acomoda sem mesmo percebermos entrar nelas.

Eu tenho uma coleção nada modesta de prisões, que acredito alimentar diariamente apenas ignorando a versatilidade da vida. O que me permite sair para o sol diário, passar apenas algumas horas na solitária, é a certeza de que quando não conseguimos fazer um movimento que nos dê a liberdade necessária para experimentar a vida, a própria nos dá um belo pontapé e nos manda sair andando. Nem sempre é fácil essa transição, mas certamente é construtiva.

Não consigo deixar de pensar nas coisas que deixei de fazer porque me senti compelida a acreditar não ser capaz. Olhando para trás, não é apenas um passado de tentativas vãs que me espia, mas sim a contemplação daquilo que independente de tempo e ainda pode fazer parte da minha biografia. Porque certos desejos são atemporais e dependem da sabedoria adquirida a cada prisão para serem realizados. Yin e yang.

A prisão nossa de cada dia, do esmero em não contrariar os fortes, saber lamentar os fracos; de cair no descontrole por ser contrariado, e até mesmo a sapiência que não é bem recebida e cuidada. Prisões são cantinhos onde guardamos as necessidades que não temos coragem de suprir, as frases que somos incapazes de proferir, as ideias e projetos que nos metem medo. É lá onde guardamos as belezas, os lugares, os sentimentos que queremos jamais deixar de sentir, mas que ali emudecem, empoeiram, são estancados. Proteger demais é aprisionar.

Acredito que um pouco de ousadia caia bem durante a liberdade, porque nos nutre de certa coragem para girarmos chaves, destrancarmos portas e cairmos no mundo. E ao voltarmos às prisões de cada dia – grades enfraquecidas – possamos vislumbrar o momento em que elas desabem: folhas despencando das árvores no outono.

Imagem: Jander Minesso

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domingo, 10 de maio de 2009

CRÉDITOS QUASE FINAIS
>> Eduardo Loureiro Jr.

Olhar retrospectivamente costuma deixar as coisas mais claras, e nos vem a tentação de achar que tudo poderia ter sido diferente – melhor – se apenas tivéssemos feito isso ou aquilo. Dizemos para nós mesmos “se fosse hoje, eu faria assim” ou, o que é ainda pior, “da próxima vez, farei assim”.

Tem quem ainda vá além e se ache no direito de sugerir a outras pessoas – alegando conhecimento de causa – que procedam desta ou daquela maneira simplesmente porque seria assim que procederia agora. Por vezes não admitimos que os outros cometam nossos próprios erros. Dificilmente nos ocorre, ao recapitular qualquer coisa, que tudo pode ter ocorrido da melhor maneira possível, e isso inclui – às vezes, especialmente – aquilo que parece não ter dado certo.

Esta é a derradeira crônica que escrevo da Itália, após oito semanas de viagem, e, nesses dias, me peguei pensando...

Da próxima vez, permaneço somente um mês e em um único lugar. Faço escola apenas duas horas pela manhã, e aproveito mais a cidade. No final de semana, visito outras cidades. Ficarei sempre em lugares com quarto e banheiro próprios, e, claro, com acesso à internet direto no quarto.

Quando percebo no que estou pensando, começo a rir de mim mesmo. Não porque esteja sendo exigente demais, mas porque estou menosprezando coisas importantes como surpresas, aprendizados e, principalmente, pessoas que só conheci porque eu não estava em uma situação ideal.

Claro que é bom ter conforto. É óbvio que devemos aprender com os erros e fazer melhor da próxima vez. Mas fazer melhor não é eliminar os erros, e sim aproveitá-los melhor na próxima oportunidade. Quer dizer, ser mais criativo, improvisar mais, rir mais de si mesmo, aceitar os desafios e, acima de tudo, agradecer:

- aos que ficaram em casa mas que viajaram junto nas fotos, nos vídeos, no blog de viagem, ou mais junto ainda, lhe emprestando um par de luvas, uma carteira, um casaco, um cachecol;
- aos novos amigos, verdadeiros mundos novos de olhares, gestos e sorrisos, por terem lhe aproximado um pouco mais do milhão de amigos a que Roberto, Erasmo e todos nós temos direito;
- àqueles que tinham a obrigação de lhe atender numa hospedagem ou num serviço, mas que o fizeram além de qualquer obrigação;
- àqueles que não lhe fizeram nenhuma concessão, e que lhe trataram como um deles, dando-lhe a honra – por vezes dolorosa ou desapontada – da igualdade;
- aos estranhos de que você não guardou ou nem mesmo perguntou o nome, mas que lhe deram a informação ou o auxílio salvador numa situação de perigo;
- e a toda a turma invisível que viaja no vento.

Daqui a pouco a viagem acaba, e eu gosto daqueles filmes que, depois dos créditos, mostram alguma coisa curiosa, engraçada, reveladora reviravolta. Que seja assim essa viagem. Que depois dos créditos desta crônica, ainda reste espaço nesses derradeiros dias para aqueles que só se levantam da poltrona quando a tela fica completamente branca.

A vida é uma longa viagem, tão longa que muitas vezes esquecemos de onde partimos e para onde devemos voltar.

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sábado, 9 de maio de 2009

OUVIR CONTAR [Cristiane Magalhães]

Sabe aquelas amigas que a gente conhece no final da adolescência, mas que parece que foram nossas confidentes a vida toda? Tenho a alegria de ter uma amiga assim. Tempos atrás, ela estava começando um relacionamento e me revelou um temor que a assaltava sempre que novos amores se iniciavam. O medo dela não era que ele tivesse chulé, fosse grosseirão, falasse tudo errado, que tivesse uma mãe “naja”, uma ex-mulher psicopata ou filhos pestinhas, que fosse “mão-de-vaca”, conversasse com a boca cheia, enfiasse o dedo no nariz na frente dos outros ou que fosse covarde, medroso, alcoólatra, sadomasoquista... nada disso a assustava. O que ela temia de verdade era que o assunto acabasse.

Imagina: quatro, cinco, onze meses de namoro é tempo suficiente para contar das traquinagens da infância, dos amores da adolescência e das besteiras que fazemos na juventude. É tempo bastante para conhecer sogro, cunhada, cachorros e colegas de trabalho. Neste período, revela-se o passado e as pretensões do futuro. E, segundo ela, o assunto poderia acabar. "Será?", argumentei incrédula. Assunto não acaba. Nunca vi assunto acabar... mas ponderei a situação com as considerações que ela apresentou. Se era assim, talvez o assunto acabasse. “Já contei daquela vez que fomos acampar e um amigo que havia bebido demais acordou de madrugada e pegou um galho de árvore e saiu gritando feito maluco achando que era uma cobra?” “Já, já contou sim” “Ah... hum... teve um carnaval em Diamantina que...” “Você já contou isto também”. Putz! E o tédio de não ter nada de novo para contar se instauraria entre os dois, decretando o fim do relacionamento.

Três anos depois, estão de casamento marcado. Somam-se ao currículo do casal duas viagens internacionais, em que conheceram três países diferentes, além dos inúmeros roteiros nacionais, incluindo mergulhar juntos em Bonito, subir serras, tremer de frio no Sul e morrer de calor em praias paradisíacas Brasil afora. Tudo um coladinho no outro. Contabilizam-se, ainda, três carnavais, réveillons, aniversários, natais. Os dois tem muita história na bagagem. Falta é tempo para contar tudo, sempre esquecem algum detalhe relembrado naquele próximo encontro com os amigos – amigos de um lado, amigos do outro.

Assunto não acaba quando se convive diariamente. Assunto acaba é quando se fica muito tempo sem se ver. Assuntos são feitos de pequenos detalhes que não contamos para quem esteve por muito tempo distante – somos feitos da matéria destas pequenas bobeirinhas. Ninguém fala do rádio alto do vizinho, do chilique da sogra ou das imaturidades do irmão para quem está muito tempo longe. E são esses detalhes que nos compõe.

Pense na seguinte situação: você reencontra aquele amigo de infância com o qual compartilhou décadas de bons momentos, mas que se mudou para longe há seis anos, e se falam, esporadicamente, naquelas listas de e-mails que não dizem nada. O que acontece? “Meu amigo querido, quanta saudade!” “Quanto tempo! Lembrei de você tantas vezes, senti muito a sua falta, sabia?!” “É, eu também” “Mas aí, o que me conta de novo?” “Pois é, rapaz, casei, tive dois filhos” “Dois, cara?” “É, a mais velha está na escolinha até.” “Como está sua família: sua mãe, seu pai, aquela sua irmã?” “Você não soube? Ah, .....”. E assim o assunto prossegue durante uns 40 minutos, no máximo, contando as “coisas grandes” que aconteceram nos últimos cinco anos: quem morreu, quem casou, quem se formou, quem trocou de emprego. Um conta, outro conta e, quarenta minutos depois, o assunto acaba.

Como assim o assunto acaba? Não pode acabar! É o meu amigo de infância, que comigo fez tanta bagunça e compartilhou segredos e descobertas. O assunto acaba, inevitavelmente, acaba, fatalmente acaba. Fica aquele constrangimento de mãos, sem saber onde colocar, o que mais perguntar. Não faz sentido contar aquilo tão íntimo que te aflige nas noites insones, do curso de alemão, das chatices da sua mulher, da beleza dos desenhos das nuvens. Não, não faz sentido algum, este “cara” nem o conhece mais. Como ele vai entender a pessoa que você se tornou se não compartilhou as pequenas e inevitáveis mudanças que se processaram diariamente? Vocês são dois desconhecidos com um passado em comum. Apenas isto.

É preciso estar muito junto para se ficar mais junto ainda. É preciso contar sempre e ouvir sempre, para não parar de contar nunca. O bom desta história é que tem assunto novo acontecendo a todo o momento e, se um amigo antigo quiser ser um amigo novo, de novo, é só ficar bem juntinho e não parar de contar nem de ouvir, que rapidamente o assunto volta. Afinal, assunto não acaba, o que acaba é a intimidade, mas esta é outra história.


Palimpsesto



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sexta-feira, 8 de maio de 2009

EFEITO DA SOMBRA DE UMA MARIPOSA >> Leonardo Marona

Estava pronto para – não estava pronto – escrever o que não havia conseguido presenciar com a devida entrega, quando reparou na sombra de uma mariposa pousada sobre seu travesseiro e aquilo era, só poderia ser uma anunciação de que algo cobriria novamente suas expectativas com gracejos e reduziria as teorias sobre a substância de deus e da ordem e da moralidade a doze balas de tédio no peito de uma senhora que carregava compras e foi coberta pelas cinzas as mesmas que fizeram com que sua substância transitória – agora que se lembrava da senhora na rua, além das ruas da senhora na rua, do seu tranqüilo desprezo e das suas unhas aquilinas – se encarregasse de tardes autenticamente vagas e fundas quando se pensa por quanto tempo os pregadores serão foices e os pacifistas o boca-boca das novas epidemias sociais e, nesse meio-tempo, entre a vontade e a necessidade no duto da liberdade limitada pelo amor que é chumbo e culpa e bem pouco liberdade, ora pensando no pó de vidro que sufocou Espinosa, sentiu a carne lhe coçar e arder nas costas, e de repente (não mais que de repente: uma citação) penas ultrapassam-lhe os poros, penas brancas e úmidas da cor de uma alucinação pura, os olhos enchem-se de areia fina, farinha de tudo em volta às voltas com dunas e precipícios teletransportáveis e ele havia deixado de amar coisas importantes simplesmente porque tudo parecia importante e um começo precisava ser estabelecido com cuidado e urgência, ele havia odiado por puro capricho olhando para céus superestimados, ele havia tentado sussurrar timidamente no ouvido de deus o que nem mesmo os grandes poetas conseguiram ecoar de suas cachoeiras submersas, ele havia falado com sotaque carregado de impurezas a língua das nuvens – e havia se encharcado dos seus dias de sorte cinzenta, com sua essência universal e seu mistério pré-temporal – que o afastava dos homens sendo ele como nuvem, constante e vagarosamente distante, cada vez mais longe... E de longe ele poderia finalmente amar os homens, entender suas convenções e seu ódio, porque, encharcado de vendavais noturnos, já não havia ódio ou amor nas suas entranhas, já não havia entranhas, e também não era paz, era um estar de olhos arregalados no escuro, era o chumbo da passagem repleta de distrações e exaltações hesitantes, a linha bandida entre trincheiras habitadas por soldados expatriados que assinam as cartas das famosas garrafas perdidas em alto mar: era portanto cálido que ainda fosse possível pensar em sombras e solidão, era portanto um vício esse tal jeito de olhar inclinado para o céu, ele só tinha carinho e passagem para oferecer, pertencia às pedras que lhe bloqueavam o caminho, não era nada que se pudesse afixar em síndromes operacionais, nada que corresse para um determinado ponto de desencanto ou sorte, como nuvem ele era sobre-humano, como humano um fardo de lágrimas – com a leveza do mercúrio maquiava as estrelas com pó-de-arroz, essas rainhas de cabaré, agentes fúnebres da doença inaugural que, quando extinta (e é a favor da sua extinção que lutamos dia após dia pelo bem-estar social), será o fim de mais uma era apenas de passagem, num gigantesco rito cósmico de passagem substancial, fogo e amor e Carlos Drummond de Andrade, e ao reparar na sombra que alçava asas sobre as fibras trançadas do seu travesseiro molhado de guerras mitológicas, da sua atual posição de nuvem enclausurada por cordilheiras enfeitadas com fios desencapados, pensou em como a era das mariposas havia passado – pobres asas melancólicas de um mundo corroído por parasitas refinados e cegos bem-intencionados – sem que a esta incrível forma supra-histórica restasse qualquer rasto de ordem das coisas, a não ser essa ordem à prestação vendada com hipocrisia sob a forma de deuses com bigodes irados, então ele chorou como chora um ser humano diante da cruz noturna de cada dia a menos – onde estão os dias a mais, quem os monopolizou? – lágrimas nem salgadas nem doces, lágrimas neutras, infelizes mas conscientes – e de que adianta se, enquanto isso, alguns demônios vendem almas no atacado e outros hibernam ao som do tique-taque de todos os corações sedentos, desnorteados.


Aproveitando o espaço, faço também o convite a quem interessar:





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quinta-feira, 7 de maio de 2009

Ele me ensinou >> Kika Coutinho

Ele ensinou a gostar de salada, eu o ensinei a não recusar a sobremesa.
Ele me ensinou a usar tênis, eu o ensinei a usar camisa pólo.
Ele me ensinou a assoviar, eu o ensinei a gritar.
Ele me ensinou a ser forte, eu o ensinei a ser calmo.
Ele me ensinou a correr, eu o ensinei a andar um pouco mais devagar.
Ele me ensinou a achar todos os caminhos da cidade, eu o ensinei a perder-se um pucadinho...
Ele me ensinou a fazer musculação, eu o ensinei a dormir até mais tarde.
Ele me ensinou a persistir, eu o ensinei a boa prática de, vez outra, desistir.
Ele me ensinou a gostar de trabalhar, eu o ensinei a gostar de estudar.
Ele me ensinou a ser pontual, eu o ensinei a perder a hora.
Ele me ensinou a usar o excel, eu o ensinei a ler blogs.
Ele me ensinou a comer queijo trancinha, graviola e rúcula.
Mas eu o apresentei os sorvetes Rochinhas - e sei que ele será grato por isso até o fim dos tempos.
Eu o ensinei Fabio Jr. e ele me mostrou Jack Johnson.
Ele me ensinou toda a matemática que eu sei, mas eu o ensinei um pouco do meu português.
Ele me ensinou sobre a bolsa de valores e eu, sobre as bolsas de couro.
Ele me ensinou a entender o caderno de economia e eu o ensinei poesia...
Ele me ensinou a conhecer o mundo, eu lhe apresentei a própria casa.

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quarta-feira, 6 de maio de 2009

ORAÇÃO DO ANJO >> Carla Dias >>

Quando ouvi essa canção pela primeira vez, identifiquei-me com a letra logo de cara. Depois ela sumiu de mim, mas voltou e há dias reverbera no meu dentro, como se houvesse alguém cantando na sala de estar da minha alma, fazendo ecoar as minhas próprias buscas e fantasias. Embaçando o olhar acabrunhado de quem quer comer na mão das descobertas, mas se mantém inerte.

Não permita, Deus, que eu morra/sem ter visto a terra toda/Sem tocar tudo que existe /Não permita, Deus, que eu morra triste

A terra toda tem sido as notícias que chegam por e-mail, pela televisão, pelo jornal, pelo telefone, pela boca da vizinha fofoqueira. As conversas com as tias, irmãs, com mãe e amigas, durante um café, uma coca-cola, um bom vinho ou uma caipirinha de saquê com maracujá, durante a secura, a aridez da ausência de nem sei o que pode ser.

“Dai-me a graça/de viajar de graça/por essa esfera afora/de virar uma linda senhora /Uma linda lenda”

Conheço lindas senhoras... Algumas delas sorriem com o olhar, silentes, como se guardassem os segredos das gerações que antecedem a sua. Outras são alegóricas, com suas roupas coloridas e suas gargalhadas escandalosas. E há aquelas que aprumam a confiança dos que as cercam, cerzindo roupas, enquanto emendam a confiança num futuro menos complacente com a indiferença que traveste de desimportante aquilo que é fundamental.

“Tecer cada fio da renda/Contar cada cacho/de cabelo de anjo/Transformá-lo num bonito arranjo/da mais bela canção/Tecer cada cacho/de cabelo de anjo/Transformá-lo num bonito arranjo/da mais bela canção"

É recorrente o questionamento que faço sobre as coisas que crio. Qual a importância de um poema, enquanto tantos perdem suas vidas em tragédias? E de que vale a música se verdades são caladas em pró de interesses particulares?

Às vezes, chego mesmo a achar que o que faço não tem importância alguma, que se trata somente de uma forma de passar pela vida, como quando lemos uma revista no consultório, enquanto esperamos ser atendidos. Mas então eu me deparo com o que desperta em mim um poema do Vinícius ou do Quintana, uma canção do Chico Buarque, os tambores da Índia, do Brasil, as rimas, as prosas, as imagens, as cenas, as guitarras, as cítaras, os violões, as vozes em conjunto, sons habitando um espaço que, logo adiante, chamaremos de canção.

Coisas que me despertam para o mundo que temo perder sem ter ganhado. Cair no mundo requer a habilidade de não se arrepender por partir, tampouco por ter de voltar.

“Não permita, Deus, que eu me vá/sem sorver esse guaraná /sem espalhar meu fogo brando/e acalmar a brasa do mundo”

O mundo eu às vezes interpreto como aquele lugar de lonjura imensurável, mas que podemos alcançar pulando a cerca que dá no jardim vizinho. Sempre tão longe, quase sempre tão perto, ele deseja nossos pés caminhando na sua tez. Nós desejamos seu horizonte, sua imensidão, seu cenário de diferenças que podem nos levar a tantas conciliações interiores.

Outras vezes, confesso, ele cabe inteirinho na visão daquele que caminha adiante, a vida estampada nas buscas, completamente distraído de mim, mas detentor de todo afeto que posso sentir. E nesse mundo florescem fascínios, mesmo diante da aridez.

“E aquecer mais uma vez/o coração do universo/nas contas do meu terço /nas cordas do meu violão”

O coração do universo bate apressado. Meu coração em suas mãos.


Oração do Anjo por Ceumar, de Ceumar e Mathilda Kóvak.

www.carladias.com
http://talhe.blogspot.com




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terça-feira, 5 de maio de 2009

O Borogodó das Gordinhas >> Claudia Letti

Foi observando as amigas solteiras e insatisfeitas com a sua vida afetiva (ou melhor, com a falta dela), que comecei a abrir o leque do meu "observatório" para tentar entender por que pessoas tão bonitas quanto interessantes, e que buscam realmente alguém pra namorar, continuam sozinhas. E, enquanto fui listando mentalmente as solteiras e as namorantes, percebi que as amigas gordinhas parecem estar sempre acompanhadas. A bem da verdade, não é de hoje que tenho essa cisma, amplamente fortalecida pelos suspiros de algumas das magras que, a cada vez que enxergam uma roliça bem acompanhada, não escondem a frustração em frases brincalhonas do tipo "e eu aqui, com tudo em cima... sem ninguém".

Diante deste quadro de Renoir, fui buscar uma paleta de homens variados para dar mais consistência à minha pseudoteoria, "entrevistando" 14 rapazes de diferentes faixas etárias e estados civis. A pergunta bedelhuda e sem rodeios "você namorou/casou ou namoraria/casaria com uma mulher gordinha?" rendeu 14 vezes sim, sem pestanejar. Nenhum dos "entrevistados" deixou de participar, parou pra pensar ou mesmo vacilou antes de responder. E todos, sem exceção, já namoraram ou casaram com mulheres gordinhas.

Então minha cisma não era totalmente infundada!? A segunda questão da "entrevista", que era: 'justifique sua resposta', foi ainda mais produtiva. Alguns rapazes disseram que a mulher precisa ser bonita. Tá. E que há gordinha bonita e magra feia. Ok, até aqui não temos ainda nenhuma novidade. Outros arriscaram dizer que as gordinhas são mais sensuais e outros, ainda, responderam categoricamente que elas são mais simpáticas e menos chatas do que as magras, especialmente (e a ênfase é deles) as malhadas. Hum, começava o esboço de um perfil. Nessa questão, quatro dos rapazes sugeriram que, como não chamam atenção pelo corpo, as gordinhas usam de simpatia e, geralmente, de um sorriso bonito, para fazer o contrapeso favorável nessa balança. No placar, a palavra vencedora foi "gostosa", e muitos deles afirmam que as gordinhas fazem tudo, "tudo mesmo" -- segundo palavras de um dos moçoilos --, com mais prazer.

Lembrei de Botero, outro pintor que privilegia formas femininas roliças, para não dizer formas com evidente substância, que ilustra esta crônica com sua Monalisa, e que declarou: "É importante saber de onde provém o prazer de contemplar um quadro. Para mim, é a alegria de viver combinada com a sensualidade das formas."

Então o sucesso das gordinhas é ter borogodó, é extrair da vida a alegria, os melhores sabores, seja de um prato de macarrão ou de uma dança do ventre? Pode ser. Prazer é uma palavra que combina com degustação e com calorias mesmo que o resultado seja uns quilinhos a mais. Quem se importa? Elas, as cheinhas, parecem não se importar e, desculpem-me os homens que acreditam que as meninas roliças se esmeram em sorrisos pelo contrapeso, mas o segredo é justamente o contrário. Elas é que estão seguras da sua beleza, ampla e não restrita a padrões ditados seja lá por quem. E sabemos que pessoas seguras e com auto-estima em dia geralmente são simpáticas, não se escondem atrás de atitudes defensivas e, consequentemente, sorriem mais. Não são sensuais por aprendizado ou pra chamar atenção, mas sim pela naturalidade com que sabem viver, sem culpa, o prazer de todos os desejos.

E as magras? Bem, pelas respostas masculinas, deu para concluir que, talvez, a exigência ou o perfeccionismo com que se cuidam para ter um corpo bonito e a seleção primorosa do que colocam no prato fazem-nas ser igualmente exigentes e seletivas na escolha de um parceiro. Ter vaidade e sentir-se bem é da natureza feminina, mas levar isso ao extremo pode deixar tudo meio sem gosto, incluindo aí a preferência por homens dietéticos, sem colesterol e sobrepeso, e, na hora da mordida... cadê o tempero? Pode ser isso ou nada disso? Realmente não dá pra saber.

Mas isso tudo é apenas teoria de um observatório (empírico, óbvio) e que foi montado sem puxar a brasa pra gordurinha de ninguém. Claro que minha "pesquisa" teve curta abrangência, já que foi realizada com um círculo pequeno de amigos e o mundo felizmente é grande, vasto e aceita todo tipo de gente. Portanto -- e vou até colocar um negrito aqui -- estou generalizando e toda generalização tem falhas abundantes. Estou dividindo uma sensação pessoal, reforçada por tempo de observação, e, como toda sensação (que é muito feminina, aliás), peca por carência de argumentação concreta. Tenho amigas magras muito bem acompanhadas, claro. E eu mesma sou casada e não posso ser considerada gordinha, embora precise confessar que sou como a grande maioria das mulheres: estou sempre correndo atrás de dois quilos a menos. No mínimo.

De todo modo, eu não poderia concluir esta pretensa "teoria" sem compartilhar também três das respostas que extraíram o melhor dos meus sorrisos - que não é um sorriso tão iluminado quanto o das amigas gordinhas, mas dá pro gasto:

F., casado, 40 anos, disse que sua resposta seria a mais piegas e sem graça do mundo. Mal sabe ele que esta é "a" resposta: "Sem dúvida que namoraria/casaria, desde que eu estivesse apaixonado por ela."

R., casado e cuja primeira paixão foi por uma gordinha, respondeu que "tem que ter um rosto bonito ou singular, porque o rosto é a parte do corpo de uma mulher que se vê 90% do tempo, especialmente pra quem gosta de um bom papo."

E, finalmente, a que mais me encantou foi de C., 35 anos, separado, que respondeu até com música: "amo tanto e, de tanto amar, acho que ela é bonita".

Podem suspirar, meninas. Existem homens apaixonantes e apaixonáveis para todos os gostos. Resta saber se as mulheres têm essa mesma predisposição. O que me deixa com vontade de fazer outra pesquisa, agora com elas, para que me respondam a seguinte pergunta:

"Você aceitaria ganhar 5 quilos, se junto com eles viesse o homem dos seus sonhos?"

Será que obteríamos o mesmo número de sins? Mas, daí, já seria outro papo.



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domingo, 3 de maio de 2009

E AGORA? >> Eduardo Loureiro Jr.

Lucas Cavalheiro -- Flickr.com
Já lhe aconteceu alguma vez acordar e não ter a obrigação de fazer nada durante o dia? Não ter que se levantar, não precisar fazer nada pra ninguém, não ter que trabalhar, não precisar encontrar pessoa alguma, não ter que consertar algo ou fazer compras pra casa... Um dia assim já lhe aconteceu?

Comigo tem acontecido com alguma frequência, e isso já antes de eu começar essa longa viagem. Tem dias que chego mesmo a pensar que a vida pode ser, cotidianamente, assim. Parece o paraíso. É como ganhar na loteria. E realmente há muita sorte e fortuna em viver assim.

A maior dificuldade -- e eu a tenho enfrentado algumas vezes -- é lidar com uma simples pergunta: "E agora?".

Sim, você acordou. E agora? Tudo bem: levantar, mijar, lavar o rosto, tomar café, escovar os dentes, cagar... mas e depois? O "e depois?" não é nada, acredite. A coisa fica realmente feia é quando o "depois" chega e vira "e agora?".

No princípio, a tendência é a gente repetir aquelas coisas que já faz -- desde que elas nos dêem algum tipo de satisfação: ler, caminhar, ouvir música, assistir filme, checar e responder e-mails, tocar violão, compor, escrever... Você faz várias combinações diferentes das mesmas coisas que gosta, mas a pergunta sempre vem: "E agora?"

Tudo bem, em parte é aquela culpinha básica de alguém inserido numa sociedade orientada para o trabalho. Mas mesmo depois que você toma consciência e se livra da culpa, ainda fica zoando a pergunta: "E agora?"

Tem horas que é aterrorizante ter "alguém", essa voz, lhe perguntando sempre a mesma coisa. Aí você descobre que pode, você mesmo, fazer a pergunta para a tal voz: "E agora, o que você sugere?" Dá um alívio, porque você passa a batata quente para a outra "pessoa". Você está, finalmente, livre da última coisa que lhe prendia, da sua única obrigação restante: o ter que decidir fazer alguma coisa, qualquer coisa de sua própria vontade.

Mas não é que a voz responde! Responde quase num sussurro, mas é um sussurro firme. Ela não diz "que tal se...". Ela afirma: "faça isso". E é mais aterrorizante ainda estar diante da resposta "faça isso" do que da pergunta "e agora?". Porque seria no mínimo indelicado da sua parte dizer que não, que não vai fazer aquilo. E você ainda tem medo. Medo não de desagradar a voz, ou de que ela o repreenda dizendo "mas, afinal, você perguntou pra que se, no fundo, não queria saber a resposta?". O maior medo é de que, se você não fizer o que a voz diz, você terá mais dificuldade para escutá-la da próxima vez que fizer a pergunta. Não porque a voz seja vingativa, mas porque você mesmo fechará um pouco mais os ouvidos da próxima vez.

E então você diz "tudo bem, eu faço". E faz, na esperança de que tudo se acalme em seguida. Mas o terror só aumenta, porque aquilo que a voz lhe disse parece ser a coisa certa e detona uma sequência de eventos que podem jogar você novamente naquele esquema de ter de fazer alguma coisa, não porque você seja obrigado, mas porque seria muito estranho chamar alguém pra dançar e ficar parado justamente quando a música começa.

No fundo é isso, uma questão de dança, de fluxo, de movimento.

A crônica já está escrita (com dois dias de antecedência).

E agora?

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sábado, 2 de maio de 2009

ONDE ESTÁ A NOTA, VERDI? [Ana Gonzalez]

As ondas do rádio começam a falhar. Na sintonia do meu som, entra uma melodia estranha fora do esperado. Diminuo a velocidade do carro, dou um giro no dial. Um pastor fala a fiéis e tenta salvar-lhes a alma. Não seria má idéia salvar também minha alma dos pecados do mundo. Porém, não agora. Chegou a hora do CD.

Meu carro roda pela estrada quase vazia. A paisagem continua verde, ampla, embora o céu nublado me negue a luz do sol e o azul do infinito. Qual CD escolher dos que separei? Nesse tipo de escolha é preciso atentar para um desejo determinado. Não é qualquer tipo de música que servirá. Quero algo que combine com o momento. Uma ópera de Verdi poderá compor um acorde sonante. Suas notas irão fazer agora a sonoplastia da viagem.

Chegam as personagens com suas roupas de século dezenove, coloridas. Arma-se o cenário de pesadas cortinas, praças, salões. Tudo é chamado como companhia, no que tinha sido até agora a natureza em sua imensa e bela solidão. Violeta, Alfredo e seu sonho de amor. Cenas, variações, a complexidade da vida, os paradoxos nos relacionamentos. Óperas carregam o poder imenso de trazer o mundo da experiência. Uma quantidade enorme de informação. A alegria e a química amorosa, as intrigas, o sofrimento e a esperança. Parte da grandeza e da tragédia humanas.

Essa ópera me encanta especialmente. Embora conhecida, a melodia não cansa. Melodia eterna. Vácuo no infinito. Buraco branco.

O trecho da abertura inicia lentíssimo e cresce, ma non troppo. Me impacta de novo como se fosse a primeira vez. Será que eu esqueci que era assim? Tão delicado. Relembrar como se fosse a primeira vez.

E aquela nota que falta? Em conversa com um amigo que sabe música, conversamos certa vez sobre isso. Observação que me persegue. Perguntei-lhe se havia percebido o detalhe de uma específica seqüência melódica, logo no início da abertura. No que seria a introdução. Você sabe de alguma informação a esse respeito? Será engano meu? Falta de informação técnica? Nada disso. Ele também não sabe e, talvez, nem tivesse percebido.

A seqüência de notas segue num crescendo e uma última nota, que fecharia um conjunto naturalmente organizado dentro de uma série normal, é eliminada. Aquela nota que encerra a série foi cortada. Não, não prejudica a melodia que segue e chega à seqüência seguinte, num alçar de vôo, perfeita, magistral.

Onde está a nota oculta naquele compasso? Brincadeira do compositor com a música, com os tempos do compasso. Impossível saber o que teria passado na cabeça do compositor. Não terá sido esquecimento, com certeza. Falta um sol, um mi – ou um dó? Impossível agüentar. Fica a sensação da falta e a corrida desesperada ao que vem depois. O alívio curador seguindo o que é quase um desespero no ar.

Talvez tenha sido esta a estratégia criativa do compositor. Criar o salto, o preenchimento da imaginação. E eu, no diálogo com a falta, paralisada naquele som ausente. Onde? Traço de genialidade a mexer com o ouvinte. Com a minha fragilidade. Fico na beira do despenhadeiro.

Ponho o trecho a tocar novamente. A garganta quer gritar a nota intencionalmente excluída da linha melódica onde ela deveria estar. O descanso na série seguinte não me apazigua a alma. Intervalo absurdo. E a delicadeza da ária continua.

Na memória, permanece a falta. No meu monólogo, sobra a presença do músico. Sonoplastia largamente compensatória da ausência do sol e do azul. Reticências e suspensão de ritmo. Onde está a nota, Verdi?

Imagem: 'Retrato de Verdi'



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sexta-feira, 1 de maio de 2009

PORTO ALEGRE >> leonardo marona

ah, esse passo a passo surdo-mudo,
essas ruas que são gavetas vazias,
ah, essa família em paz, silenciosa,
essa carência inútil de tocar a pele.
ah, que triste esse bar escuro, frio,
com homens apinhados em território
de madeira de lei e frases mortas.
ah, como sinto-me próximo desse
fechar e abrir de mandíbulas áridas,
enquanto gurias correm e gargalham,
passando azuis pelo parque infestado
de camisinhas usadas e lembranças
pela metade e, ah, elas vão nas ruas!
as meninas, para onde elas correm
tão rápido, meninas que gargalham?
ah, porto alegre! as meninas que mal
sabem mas, também elas, perderão
tudo isso algum dia, mesmo assim
elas correm, as meninas, a passo
firme, para frente elas seguem juntas
e para muito, muito longe de nós.

http://www.omarona.blogspot.com/



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