quinta-feira, 30 de abril de 2009

O melhor da Disney >> Kika Coutinho

Eu tinha cerca de 10 anos quando uma das minhas melhores amigas, filha dos meus padrinhos, anunciou que ia pra Disney. Foi uma alegria. Ela completou dizendo que a mãe dela, minha madrinha, queria levar-me junto. Houve um movimento em casa, uma falação. Minha madrinha ligava, meus pais tentavam, mas tinha uma coisa de visto, uma coisa de quarto, uma coisa de dinheiro que, no final, não deu certo a minha ida. Ela iria, minha grande amiga iria, e estava feliz por isso.

Embora eu a visse radiante, eu sabia que ela queria que eu fosse também e, talvez por isso, eu não me sentia triste. Meus desejos, na época, eram pequenos e simplórios. Neles, não havia Disney, nem avião. Todo espaço do meu desejo era preenchido por revistinhas da turma da Mônica e umas horas brincando do térreo. Estava bom assim -- como a infância é auto-gratificante, não?

Aconteceu que ela foi, despediu-se de mim e, muito rapidamente, voltou. Chegaram em casa todos, ela e os pais -- meus padrinhos -- poucos dias após terem regressado da Disney. Lembro-me perfeitamente da imensa alegria que senti ao ir encontrá-los, na sala de casa. Quando cheguei lá, por um instante, fiquei paralisada. Ao lado da minha madrinha, que sorria encantadora, havia uma enorme sacola, branca, cheia, lotada de presentes para mim. Na minha lembrança, hoje, a sacola batia no meu ombro, mas reconheço que esse dado pode não ser fidedigno.

Eles me abraçaram, carinhosos, e eu olhava fixo para a sacola. Dentro dela, uma porção de cacarecos. Qualquer coisa como chicletes, orelhas de mickey, chocolates, bonequinhos, chaveiros, brinquinhos, uma infinidade de porcarias faziam o meu coração saltar dentro daquele pequeno corpo. “É pra mim?”, eu repetia o tempo inteiro. “Tudo pra mim?”. E eles diziam que sim, com tanta alegria e satisfação, que eu sentia aquela sala pequena para tamanho encantamento. Eu não me lembro de nada, absolutamente nada de concreto que tinha dentro daquela sacola. Provavelmente, esses brindes não duraram mais de um mês no meu quarto, já farto de brinquedos, mas o olhar de contentamento da minha pequena grande amiga, por detrás dos óculos de gatinho que ela usava, nunca mais saíram da minha memória. Ainda hoje, quando eu penso em dar um presente para uma criança, lembro-me daquela tarde, daquela quantidade de amor que transbordava pelas beiradas, em todos os participantes daquele efêmero momento.
Até hoje, eu não fui pra Disney, mas não sinto dor. De uma forma ou de outra, para mim é muito claro que mesmo sem nunca ter estado lá, há anos, eu já conheci de perto o melhor da Disney...

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quarta-feira, 29 de abril de 2009

STAND - OS MOÇOS DA MÚSICA >> Carla Dias

O mais interessante sobre a internet é poder usá-la como uma eficiente ferramenta para encontrar o melhor daquilo que apreciamos. Se você tem a mente aberta, pode até mesmo expandir o universo das ideias e alimentar a própria alma apenas fazendo uma busca sobre um assunto específico sobre o qual gostaria de saber um pouco mais. Você também pode fazer o que quase todos vêm fazendo: ‘googar’ suas curiosidades.

Não há lugar mais democrático. Claro que nós também precisamos aplicar bem a nossa capacidade de julgar, pois a internet abriga o melhor e também o pior.

Conheci alguns grandes músicos e escritores, através da internet. Muitos deles se tornaram bons amigos, e desde então, a linguagem artística deles tem feito parte da minha vida.

Às vezes eu os encontro… E às vezes eles me encontram.

Uma das bandas mais bacanas que conheci nos últimos tempos– obrigada internet! – foi a irlandesa Stand, formada por Carl Dowling (bateria/percussão), Alan Doyle (voz/guitarra), Neil Eurelle (voz/baixo) e David Walsh (guitarra/teclados).

A primeira canção da Stand que ouvi foi Slave to the weekend. Tudo sobre ela me surpreendeu e continua a me fascinar. A letra me faz refletir sobre o tempo que gastamos sendo apenas um esboço da pessoa que poderíamos ser. E da envolvente melodia à bateria sincopada de Carl, essa música remete à sensação provocada por um salto no escuro. E não posso deixar de mencionar que acho a voz de Alan perfeita para esta combinação de boa música e inerente letra.

Alan e Neil dividem os vocais principais do repertório da banda. Na expressiva Hang me, Neil faz o vocal principal, permeado por suaves backing vocals que ajudam a criar uma atmosfera quase melancólica. Outra grande canção é Walking with ghosts, mas há muitas delas na biografia musical da Stand, como Dressed to kill (não consegui deixar de lembrar do fantástico filme, de Brian De Palma, Vestida para matar!), Questions, Retro Generation, e a belíssima Laying Low.

Você pode escolher a sua preferida...

Stand - Slave to the Weekend



Clique AQUI para ter acesso à letra Slave to the Weekend.


David e Carl são os principais letristas da banda, mas todos os integrantes contribuem com esse fazer. Junto com Neil, eles formaram a Stand. Logo depois, David convidou Alan para se juntar a eles. Alan é primo de David, quem já estava familiarizado com sua forma de cantar, antes de lhe convidar para fazer parte da banda.

A Stand está em estúdio, gravando o próximo disco, mas já lançaram cinco deles: Correspondent (1999), Beautiful Grey (2001), Intervals (2002), Transmissions (2005) e o vigoroso Travel Light (2007).

Hoje em dia, qualquer um pode ser rotulado artista se tem as ferramentas de mídia certas trabalhando a seu favor, assim como um bom patrocinador, o que acaba gerando muito dinheiro para os envolvidos neste processo. Sucesso é bom, assim como o dinheiro que ele gera, mas o público sabe quem vem para ficar e acredito que a Stand é uma dessas bandas que estão destinadas a fazer parte da história cultural, porque sua música é genuína, poderosa e está muito claro que esses moços realmente gostam do que fazem, o que é um ingrediente essencial.

A Stand vem trabalhando muito para levar sua música ao mundo, usando a internet como parceira, assim como tocando em outros países, como fizeram nos Estados Unidos, em março passado.


A Irlanda pode ser o lugar de origem da Stand, mas certamente o mundo é o palco que eles merecem. Quem sabe o Brasil não possa vê-los por aqui futuramente.


Confira informações e músicas da Stand:

Site Oficial: www.standland.com
Myspace:
www.myspace.com/standland
Reverb Nation: www.reverbnation.com/stand
Facebook: www.facebook.com/stand4

Stand - Little Sweet Lucifer



Clique AQUI para ler a versão em inglês desta crônica.


www.carladias.com
www.osestranhos.com
http://talhe.blogspot.com




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terça-feira, 28 de abril de 2009

CAMPANHA ELEITORAL -- Paula Pimenta

Queridos leitores e colegas do Crônica do Dia, peço a vocês licença para repetir minha crônica de duas semanas atrás (atualizei apenas alguns detalhes). O caso é que agora eu estou na final do concurso de composição (tema da crônica passada) e ela está mais atual do que nunca! Obrigada pela compreensão!

Quando eu tinha uns nove anos, adorava escutar "A Turma do Balão Mágico" e outros conjuntos infantis (naquela época se chamava “conjunto” o que hoje em dia a gente chama de banda) dos anos 80. Mas um dia, na casa da minha avó, eu estava brincando no quarto do meu tio e vi um disco (naquela época se chamava “disco” o que hoje em dia a gente chama de CD) e adorei a capa. Uma moça de vermelho sentada na escada e três caras em pé, com cara de “soldadinhos de chumbo”, atrás. Apaixonei-me pelo disco de tal forma que meu tio resolveu me dar, mesmo sem ser disco de criança. Decorei todas as músicas, e quando uma delas começou a tocar nas rádios, eu cantava junto feliz da vida aquele refrão, talvez o mais conhecido do tal conjunto até hoje: “Uuh... eu quero você, como eu quero...”

O "Kid Abelha" ficou bem famoso depois dessa música. Vieram outros vários sucessos e eu continuei fã, como sou até hoje. Porém, alguns anos depois, a banda sofreu uma modificação. O baixista/vocalista, por algum motivo que eu até hoje não sei, resolveu sair e montou outra banda. E eu virei fã também do “Heróis da Resistência”. A banda emplacou inúmeros sucessos nas rádios no final dos anos 80, começo dos 90, mas depois de alguns anos, infelizmente, sumiu.

Muito tempo depois, já perto do ano 2000, fiquei sabendo de um show imperdível. Leoni – o famoso baixista/vocalista do Kid-Heróis – e Leo Jaime – outro ícone da minha adolescência, em versão acústica – juntos. Foi um dos melhores shows da minha vida. O teatro não estava muito cheio e eles cantaram tudo o que a platéia quis ouvir, todos os sucessos do Kid, do Heróis, do Leo... e eu acabei descobrindo o que já deveria saber há anos... o Leoni era o compositor das músicas mais legais do Kid Abelha, aquelas todas que a gente sabe de cor e canta como se já tivesse nascido sabendo. Virei fã. Mais do que eu já era. A partir dessa época, o Leoni começou uma carreira solo muito bem sucedida. Lançou vários CDs e tem muitos e muitos admiradores espalhados por esse Brasil afora.

Contei essa historinha toda para introduzir um pedido que farei agora aos meus leitores. O Leoni tem um site que eu acompanho desde que comentou a respeito em um show dele que fui em Arraial do Cabo, no começo de 2007, ao pôr-do-sol, na praia. Inesquecível é pouco. Através desse site, o Leoni interage com os fãs pelos fóruns, disponibiliza músicas inéditas, fala dos próximos shows, conta dos futuros projetos e faz muitas promoções. Não tive como não participar de sua atual promoção. Ele compôs uma melodia e criou um concurso, para que seus fãs escrevessem a letra. Com essa iniciativa, ele espera encontrar um parceiro para sua música. Eu escrevi uma letra. Tinha que gravar um videozinho cantando. Eu gravei. Só que tanta gente se inscreveu (60 ao todo) que o Leoni resolveu fazer seis “paredões” para tirar 10 finalistas. Eu fui a vencedora do meu paredão e agora estou na final. Gostaria de pedir cinco minutos do tempo de vocês pra votarem em mim... Cada pessoa pode votar apenas uma vez. Para tal, é preciso se cadastrar no site dele. Em seguida, chegará no e-mail cadastrado um link de validação. Depois é só ir nesse endereço:
http://leoni.com.br/videos_composicao_final.php e clicar na bolinha ao lado do meu vídeo.

Claro, clicar na bolinha ao lado do meu vídeo é apenas uma sugestão... vocês podem votar nos outros, se acharem que a letra deles é melhor, estou aqui só fazendo a minha campanha eleitoral. Muito obrigada desde já aos meus eleitores! Não prometo nada que eu não possa cumprir, apenas cada vez mais letras que – se possível – se encaixem em melodias...



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segunda-feira, 27 de abril de 2009

ATCHÓINC >> Maria Rachel Oliveira

A epidemia começou quando a primeira pessoa espirrou e, ao mesmo tempo, curiosamente, se deu conta que não reagia como queria às coisas; mas sim como achava que deveria – o que faz uma grandessíssima diferença. A OMS (Organização Mundial de Saúde) ainda não diagnosticou se o agente causador da epidemia é uma mutação genética do vírus Procrastinum Crônico Culpus – originado da igreja católica, ou se há a possibilidade de uma combinação inédita de dois vírus em um só; a saber: História de Autoboicote e Preguiça Mesmo. Fato é que Q. T., a provável primeira pessoa contaminada, tinha, nos minutos subseqüentes ao primeiro Atchim, gostado muito da videoaula de alongamento que tinha assistido – e feito – via Youtube e prometera a si mesma – realmente – estabelecer uma rotina. Transmitido por uma forma ainda desconhecida pela OMS, tudo indica que a infectada subseqüente tenha sido I.B., a professora de Power Stretching que vestia um collant rosa shocking, cujo vídeo foi publicado no Youtube à sua revelia.

– Eu realmente cheguei em casa mais feliz naquele dia, e, depois de espirrar, por alguma razão que não consigo entender, acabei dando um beijo de boa noite no meu marido e em cada um dos meus filhos – conta I. B., que há muito tempo havia estabelecido uma rotina em que não se tinha tempo para nada, especialmente para as coisas mais importantes.

A rotina da família da professora I. B., parece, mudou muito desde então. Em poucos minutos, todos em sua casa espirravam e, também, conversavam – coisa que não faziam “não me lembro nem desde quando”, disse o marido J.B. que, de tanto resmungar em resposta às coisas, tinha se esquecido da última vez em que isso teria ocorrido.

Em menos de duas semanas o vírus mudava, com um simples espirro, todos os que estavam a menos de 3 metros do agente-transmissor. E a OMS estima que em aproximadamente 4 meses a população já sorriria mais vezes por dia.

-- X --

Essa seria a crônica que Rachel gostaria de escrever. Mas a realidade é que, desde semana passada, não se fala em outra coisa que não as epidemias de picaretagem, com ênfase nas passagens emitidas – até pelo Gabeira! – e na gripe suína, uma espécie de gripe forte e que causa morte em pacientes jovens e aparentemente saudáveis, com idade entre 20 e 50 anos.

Nesse último caso, a autora não consegue deixar de pensar numa espécie de ironia divina. Os que ainda não tem 20 talvez ainda tenham chance de crescer diferente da vara. Os que já passaram de 50 talvez não mudem porque já têm injetada na veia as dissonâncias de caráter – mas talvez, por não procriarem, o Criador tenha considerado que não fazem tão mal assim à humanidade e decidiu poupá-los.

Só duas coisas não encaixam:
- O Gabeira não tem mais de 50 anos?
- O espirro da gripe suína faz ‘Atchóinc’?

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domingo, 26 de abril de 2009

O CONHECIMENTO DO AMOR
>> Eduardo Loureiro Jr.

Amar é querer conhecer e dar-se a conhecer. Por isso durante a paixão, que pode ser o início do amor, os enamorados fazem-se tantas perguntas e recontam a própria vida como se estivessem ditando sua biografia para um ghost writer. Se os primeiros momentos do amor são tão encantadores, é justamente porque as duas pessoas são um mundo novo, vasto e inexplorado uma para a outra.

E assim poderia continuar por toda a eternidade se... a gente não matasse o amor.

O amor começa a morrer quando perdemos a vontade de conhecer ou paramos de nos revelar. Normalmente acontece quando achamos que já conhecemos o outro suficientemente e, daquele ponto em diante, já podemos emitir um bom julgamento sobre ele, já podemos mesmo dizer o que ele pode mudar para ser melhor. Substituímos o mundo novo, vasto e inexplorado por um mundo exaurido, pequeno e envelhecido. Até mesmo as perguntas que fazemos não têm mais o próposito de conhecer, mas de verificar se o outro continua sendo do jeito que a gente pensa ou quer que ele seja.

Também pode acontecer do amor começar a morrer quando damos nós mesmos por prontos. Quando não encontramos, em nós mesmos, nada que pareça ser digno de ser compartilhado. Então paramos de nos dar a conhecer, repetindo para o outro sempre a mesma versão de nós mesmos -- ou ficando em silêncio.

O nascimento e a morte do amor são mais visíveis numa relação entre duas pessoas, mas pode se dar com um animal, com um livro, com um assunto, com um hobby... No meu caso, está acontecendo com uma cidade: Firenze.

Passei quatro semanas em Florença e quanto mais a conhecia mais tinha vontade de conhecê-la. Saí ontem de lá, e há uma dezena de lugares que eu vi só de passagem e gostaria de entrar, pessoas que desejo conhecer, comidas que quero provar... Vontade também de me dar a conhecer, de me fazer amigo, de escrever, de conviver... Amor em seu mais belo início.

Com as cidades, penso que sou um amante mais esperto do que com as mulheres. Não sou afoito, não quero conhecer tudo o mais rápido possível. O Rio de Janeiro, por exemplo, essa maravilha também apaixonante... Só fui conhecer o Cristo Redentor lá pela minha quarta visita à cidade, coisa que qualquer turistinha de meia-tigela faz logo no primeiro dia.

Deixei muito pra ver em Firenze. Deixei abertas as portas do amor. À distância, vou cultivando o pouco que conheci. Qualquer dia desses, qualquer ano desses, retorno e amo um pouco mais, pergunto um pouco mais, me mostro um pouco mais.

Florença é uma cidade que dá vontade de pedir logo em casamento -- linda, simples e inteligente --, mas eu vou que vou com calma.

Mais notícias de Firenze e da Itália no meu blog de viagem.



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sábado, 25 de abril de 2009

UP [Cristiane Maria Magalhães]

Quando Davi nasceu, minha irmã levou Lívia para conhecê-lo ainda na maternidade. A mãe do Davi trouxe-o até o vidro que separava a sala de espera da parte interna do hospital e ali os primos se conheceram. Lívia, na sabedoria dos seus dois anos, deve ter acreditado que se tratava de uma de suas bonecas: queria carregá-lo e cantar para ele. Na hora de ir embora, ela não se conformava em deixar o pequeno no hospital: “Minha Davi, pega a minha Davi e a tia Lulu, mamãe”, ela gritava fazendo um escândalo. Hospital é lugar de injeções e muitas outras torturas, ela deve ter pensado, pois já havia experimentado muitas delas. Como deixar ali a tia Lulu e o seu bebezinho? Desejo não satisfeito, Lívia teve que se contentar em voltar para casa sem a “sua Davi”.

Crescemos e saímos vida afora sem entender muitas coisas. Vamos seguindo no piloto automático que alguém – nunca se sabe exatamente quem – programou. Sigo sem entender como homens e mulheres, dezenas deles, se enfiam numa academia e carregam pesos repetidamente para moldar o corpo que receberam já pronto, totalmente de graça. Horas e horas perdidas para ter de volta o peso e a rigidez dos 20 anos. Que academia me devolve a inocência desta mesma fase? O avaliador físico sabe de gorduras e massas – boas e más –, mas nada me diz sobre os deliciosos amores platônicos que deixei, todos eles, antes dos meus 25 anos.

- Seu peso está ideal para a altura e não apresenta riscos à saúde, mas esteticamente precisamos remodelar alguns quilinhos. Nada que cinco dias por semana de atividade física não resolva.

Quais aparelhos de ginástica restabelecerão ao mesmo tempo a estética dos sonhos dos meus 20 anos? Quero o fogo, a emoção e as dores do primeiro amor - e do segundo e do terceiro... Será que os reconquistarei naquela sala onde as pessoas pulam freneticamente em cima de um jump? Onde se recupera a naturalidade das amizades da infância sem julgamentos, sem medos, sem preconceitos?

Ouço e vou fixando as modalidades, todas com nomes em inglês, tentando decifrar qual delas me devolverá o que perdi: jump, pump, step, spinning, gap, fitt, tem até um tal de “up local”. Ei, eu quero dar um “up” na minha memória, será possível? Espero apagar as cicatrizes das experiências geradas pelos erros e recuperar a ingenuidade que tinha quando estava na sua idade, senhor avaliador físico. Assim, vou ter de volta a coragem que preciso para me jogar por inteira e não colocar apenas os pés no raso e no transparente, como faço agora.

Ultimamente, com a iminência da chegada dos 30, foi que me dei conta que em alguma página do passado ficou perdida a minha infância, sem que eu soubesse onde nem quando. Certamente devo ter feito, também, escândalos a cada vez que tiravam “minha Davi” e foi assim que aprendi que para muitas coisas incompreensíveis não há solução. É preciso calar e seguir adiante. E se for em silêncio, sem reclamar, tanto melhor para as pessoas ao redor. Às vezes elas até nos presenteiam com afagos e cafunés se seguimos incompreendidos, mas cantando. E numa destas em que não contestei, pluft!, me roubaram a infância e o prazer de saborear uma bala de jujuba ou me lambuzar inteira com uma manga linhenta bem madura, daquelas em que o caldo escorre pelos cotovelos manchando toda a roupa.

Já que a cartilha não me deixa opção, talvez eu escolha uma modalidade de atividade física com idioma nacional, em que reaprenda a pular bem alto para conseguir ir buscar, eu mesma, aquela fruta mais madura, bicada de passarinho, que fica nas copas das mangueiras.



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sexta-feira, 24 de abril de 2009

DISCOTECA >> Leonardo Marona

Os pés dizem tudo que o coração esconde. Passo na rua olhando para baixo e todos pensam que estou triste, ou que acabei de matar alguém. Gosto de imaginar que as pessoas possam ter essa impressão, de exalar um odor assassino, por mais que as pessoas dificilmente venham a ter qualquer impressão honesta. Afinal, uma impressão honesta custa caro – e só com hora marcada.
O que ocorre é que pelos pés imagino um mundo melhor, mais bem definido. Uma unha encravada, um coração partido. Um dedão esfolado, tempo demais à beira do abismo. Duas unhas descascadas, um amor descuidado. Unhas bem pintadas e polidas, traição ao marido. Unhas lisas, bem feitas, mas sem tinta, tentativa de rever os pecados. Pés de dedos finos e esbranquiçados, com canelas mortas de pele quebradiça, cocaína em frente a um aquário com um peixe morto de fome. Calcanhares... Bom, nesse caso o apaixonado sou eu.
A barriga da perna me faz pensar em filhos, aquelas criaturinhas formidáveis que estragamos porque pensamos se estamos fazendo o certo, e só o que conseguimos é reprimir aqueles olhos enlouquecidos, aquelas caras lisas, enormes, que obviamente acabam se escondendo em algum lugar – normalmente no bolso do jaleco de algum psiquiatra com mau-hálito e brotoejas no pescoço.
Mas hoje, quando saí de casa, o dia estava dublado, de uma dublagem iraniana numa repetição contínua de movimentos desesperados. Talvez fosse uma danceteria, onde os pés comprovam que os corações enlouqueceram. Sofro do que chamo de Síndrome dos Sintomas Incorporados. De fato é mais difícil ser triste impunemente quando há uma criança desnutrida contraindo cólera na Faixa de Gaza.
Há perguntas que sempre tive a curiosidade de fazer, mas tenho dificuldade com as palavras. Do tipo: você pode ao mesmo tempo querer o meu bem e ficar perto de mim, ou é possível ficarmos juntos enquanto quisermos o bem?
No fim pegamos umas mentiras, disfarçamos de verdade, e temos utopia, mitos, vida e morte, e dançamos.


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quinta-feira, 23 de abril de 2009

O SPRINT FINAL >> Kika Coutinho >>

Todo corredor já viveu a experiência. Quem não é corredor viveu também, mas, talvez, desconheça o nome. Explico: se você decidir correr uma maratona, meia maratona ou 5kms, quando chegar no final, você sentirá que está esgotado. De alguma forma, enquanto seu corpo e suas pernas imploram pra parar, você saberá que falta 1, apenas 1km. É nessa hora, é justamente quando você acha que pode passar mal, morrer e ser atropelado pelos outros corredores, que você enxerga - talvez ainda um pouco longe - a linha de chegada. Aí, contrariando todos os órgãos do seu corpo, ao invés de parar, você faz o inesperado e corre mais. Acelera os seus passos movido por uma energia até então desconhecida, encanta seus pés e sobre eles atinge o seu recorde de velocidade.

Eu nunca entendi bem essa força. Nunca acreditei nela, mesmo sabendo-a real. Eu sempre duvido que ela me seja presenteada, mas, contrariando todas as expectativas, ao ver a linha de chegada, normalmente uma faixa amarela no alto, essa força inédita me invade e então, movida por ela, dou o meu sprint final. As últimas passadas são as mais demoradas e as mais velozes.
E assim o é para todo mundo, inclusive os não-corredores. Pode ser os seus últimos dias em um trabalho que odiava. Não agüentava mais, estava insuportável, os dias eram infinitos em sua chatice cinzenta, mas, avistando o fim ali, a meio período de um aviso prévio, você pode encontrar um gás desconhecido e dar seu sprint final. É difícil, talvez o momento mais difícil do percurso, mas é quando avistamos o fim de um tormento que ele deixa de ser um tormento. É antes, é naquela linha tênue que divide o fim da dificuldade do começo do desejo, que mora a tal felicidade. Não é no desejo completo. Não é na plenitude do descanso, horas depois da corrida. É na doce visão de que o descanso está pra chegar. É naquele pequeno instante em que ele chega, você respira e dá uma golada de gatorade. É ali, nessa fração de tempo, que habita com mais intensidade a nossa alegria de uma conquista.

O seu gatorade pode ser uma reforma que está pra terminar, e quando ela tornar-se um transtorno maior do que você poderia supor, é justamente aí que você verá que não falta tanto assim e, afinal, ainda tem um gás. Ele é o seu sprint final.

O “não agüento mais” é uma farsa. Você agüenta. Talvez nem devesse, talvez devesse entregar-se à exaustão e permitir-se parar antes do fim. Talvez. Há os que são contra o sprint final. Dizem que, se você não agüenta mais, deve terminar a corrida andando, ainda que a passos lentos. Mas isso será ainda mais doloroso e longo, acreditem. Outros vão mais longe e pregam a desistência. Encerre a corrida, o importante é participar, saia pelo canteiro à esquerda, encoste-se a uma árvore e relaxe, você deu tudo o que podia. Deu mesmo? E o sprint final? Cadê?

Pois eu, ainda com dor nas pernas, digo que caprichem no seu sprint final. É ele que te leva mais longe do que você pensava agüentar. É ele quem te mostra que você é, afinal, mais ainda do que pensa que é. Ele te dá um toque de herói, de mágico, de superpoder. Sim, você tem superpoderes. Brinde-os com Gaterode no final.

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quarta-feira, 22 de abril de 2009

ELE NÃO ESTÁ... >> Carla Dias >>

A gente faz isso o tempo todo... Acredita piamente que pode ser, por que não?

Porque não.

Qual moça não caiu na armadilha do “ele está a fim de mim”, apesar de tudo ir contra e estar claro que ele não está? Qual pessoa não se armou de insistente pensamento positivo em busca da comprovação do que não era?

“Ele não está tão a fim de você” (He's Just Not That Into You/2009) é um filme adaptado do livro de Greg Behrendt e Liz Tuccillo, consultor e redatora-chefe da série Sexy and the city. Eu havia escutado um buchicho sobre o filme, mas não fazia idéia de que estava em cartaz. Fui ao cinema com duas amigas e uma delas comentou sobre ele, então embarquei... O que foi ótimo!

Tirando o bate-papo na sala – gente, por favor, se quiser bater papo não vá ao cinema! – o filme foi uma grata surpresa. Gosto muito da combinação romance e comédia, mas o filme tem de ser convincente e este está no ponto.

“Ele não está...” fala sobre o universo romântico e os tropeços que levamos até compreendermos que não há regra quando o sentimento entra em ação. Apesar de abordar diversos relacionamentos e suas peculiaridades, é a personagem Gigi (Ginnifer Goodwin ) quem incorpora a mulher moderna que deseja – profundamente – ter um relacionamento sério, com direito a romance, então busca em todos os seus encontros o homem certo. Na sua busca, ela idealiza os parceiros, lê sinais de forma completamente avessa e encontra Alex, aquele que decide doutriná-la sobre como entender quando os homens não estão a fim das mulheres.

Outras histórias são costuradas a partir da de Gigi, como as de suas amigas Beth (Jennifer Aniston ) e Janine (a sempre fantástica Jennifer Connelly). Beth mora com Neil (Bem Affleck) há sete anos, mas não são casados e conclui que ele nunca a pediu em casamento, porque não gosta realmente dela, então decide se separar, ainda que Neil insista que seu amor é verdadeiro, apesar de não ser partidário do casamento. Janine é casada com Ben (Bradley Cooper), um belíssimo homem que encontra uma belíssima mulher, Anna (Scarlett Johansson), pela qual se apaixona. Ele luta contra o crescente desejo por Anna, lembrando-se do compromisso com Janine, um casamento derivado de um relacionamento da época da faculdade. Anna também se apaixona por Ben, apesar do amor que um amigo cultiva por ela. Conor (Kevin Connolly), o amigo, é o encontro de Gigi que a leva a conhecer Alex.

Mary (Drew Barrymore) também aborda um fato curioso... Antes, bastava checar a secretária eletrônico e pronto... Já sabíamos que aquela pessoa não havia ligado. Hoje, temos de verificar a secretária eletrônica do celular, de casa, e-mail, Myspace...

“Ele não está...” é um filme divertido e curioso, pois nos enxergamos nele em diversos momentos, principalmente nas loucuras e excessos. Apesar de ter diversos personagens, é muito bem definido, dando o ritmo necessário para que várias histórias sobre o mesmo assunto sejam contadas de forma que acabamos por compreender o quão insanos podemos ser quando se trata de amar e ser amado.




Site: www.carladias.com
Talhe - Blog: www.talhe.blogspot.com



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domingo, 19 de abril de 2009

AS LÍNGUAS DO AMOR
>> Eduardo Loureiro Jr.

A quem devemos amar? A quem se parece conosco? A quem se nos opõe ou complementa? Ou a quem nos transforma e desafia?

Eu, por muito tempo, amo e convivi, com uma mulher que era como eu: silenciosa. Alguém para quem eu poderia dizer, sem qualquer, exagero: “minha solidão se sente acompanhada”. A pessoa perfeita para estar acompanhado sem necessidade de deixar de estar só. E de vez em quando me pergunto por que não foi para sempre.

Mesmo sabendo que talvez jamais obtenha a resposta – ao nível do coração – para esta pergunta, também de vez em quando me vem um esclarecimento súbito, um relâmpago brechando a noite...

O italiano é um idioma que guarda muita similaridade com o português. E me fez lembrar da minha relação com a mulher que se parecia comigo. Porque o italiano e o português são muito símiles no silencio da compreensão. Mas, na hora de falar, as diferenças se fazem notar. É uma relação desconcertante porque é praticamente perfeita em seu silêncio, mas é escorregadia em sua comunicação. Fantasia-se que há uma unidade, que as duas são uma língua só, mas, ao falar, descobre-se que não são. Em italiano, ragione e cuore não rimam como razão e coração rimam em português.

Quando leio, no silêncio do quarto, deitado na cama, a língua italiana me beija com carinho, me faz um cafuné, me amolega os pés. Quando saio à rua, num ristorante, num negozio, ah... para onde foi o meu amor? Quem me parecia tão fiel trama vinganças.

A falsa amizade das palavras italianas e portuguesas me faz pensar que é mais fácil amar uma japonesa, uma normal, uma oposta. Mas eu, que sou louco por natureza, embora muitas vezes pareça uma pessoa certinha, sei que o oposto seria demais – ou de menos, porque a gente também se acomoda na diferença do outro e acaba não mudando a si mesmo.

E, em meio a essa tempestade de pensamentos, sinto-me feliz ao lembrar que estou amando uma mulher-aventura para quem sou também um homem-aventura, uma mulher-desafio para quem também sou um homem-desafio. Sem a ilusão de já sermos iguais, sem a ilusão de sermos tão diferentes. Um amor com perspectivas de esquina, com palavras de cruzamento. Um amor que conhece e respeita as diferenças. E sabe reconhecer o limite das línguas, adotando sempre que necessário – e humildemente – a simplicidade dos gestos.

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sábado, 18 de abril de 2009

LIMITES.COM [Maria Rita Lemos]

Uma das queixas mais freqüentes dos pais e educadores, quando se refere à utilização do computador pelos filhos (crianças e adolescentes), diz respeito à dificuldade em colocar limites. Principalmente quando se trata de utilização da Internet, a geração jovem parece flutuar, mais que navegar, nas ondas mágicas que a leva aos mistérios do mundo cibernético, e tudo o mais fica esquecido: horários, outras atividades, obrigatórias ou não, convivência familiar; até mesmo cuidados higiênicos e alimentação parecem ser relegados a segundo plano.

Há uma atração quase inexplicável que toma conta de nossos adolescentes (e de muitos adultos também, sejamos francos) quando eles descobrem a magia das salas de bate-papo, dos blogs, do orkut e de outros canais de relacionamento. Nesse ambiente discreto e aconchegante, sem sequer precisar trocar de roupa nem depender de horário, pode-se continuar as conversas que começaram na escola e a saída interrompeu; pode-se conhecer gente de todas as partes do mundo, conversar, namorar, e até ir além disso, com os recursos de câmeras, microfones, etc.

Diante de uma rival tão poderosa e sedutora quanto a Internet, a imposição de limites por parte dos pais e educadores, embora imprescindível, é sempre muito desgastante, e cria problemas crônicos e desagradáveis no relacionamento familiar, sobretudo entre pais, mães e filhos(as). Pesquisas recentes, feitas aqui mesmo no Brasil, dão conta de que algumas crianças e adolescentes passam de seis a oito horas diárias diante do computador, e isso acarreta problemas na escola, como sono, falta de atenção, dispersão, desinteresse.

Também na convivência familiar os problemas se estendem: não há mais diálogo, os cuidados higiênicos e os horários de alimentação começam a ficar prejudicados - no ponto em que o adolescente não mais se alimenta adequadamente, preferindo fazer refeições rápidas diante da telinha.

Para entender esse aspecto do conflito pais X filhos, acredito que seja importante passear um pouco no passado, mais especificamente nos anos setenta, quando a busca pela liberdade sexual, o advento da pílula anticoncepcional, o movimento "hippie" e a generalização das drogas começou a influenciar as mudanças comportamentais da família. Todos essas novas formas de vivência, aliadas às mudanças de configuração familiar, talvez tenham sido confundidas com uma mudança de valores. Diante de tantas novidades, pais, mães e educadores(as) sentiram-se perdidos; perdemos, nós mesmos, os limites.

Quando falamos que nossos filhos não têm limites, que não conseguimos estabelecer limites, esquecemo-nos de que também nós não os temos: compramos compulsivamente tudo o que nos é empurrado como necessidade, ficamos prostrados diante da TV depois de um dia em que também trabalhamos mais do que poderíamos ou deveríamos; isso também nos impede de brincar ou conversar com os filhos, não encontramos tempo para ouvir nossas crianças e adolescentes, e, diante desse cenário, compensamos com ovos de Páscoa cada vez maiores e mais recheados, os últimos lançamentos de brinquedos e video games, etc.

Enfim, somos pais e mães sem limite, queixando-nos de que não conseguimos estabelecer os mesmos limites que não temos. Não queremos autoritarismo, longe de nós sermos ditadores e "coronéis", mas quando já não sabemos o que fazer temos duas saídas opostas: ou "deixamos para lá" (isto é, nossos filhos venceram pelo cansaço) ou arrancamos o fio da tomada e, pronto, estamos conversados (estamos mesmo?).

Minha amiga Lúcia contou sua experiência, que passo a meus leitores (as) porque também a adotei, e parece estar surtindo resultado. Lúcia, como todas as mães e pais de filhos "informatizados", sofria com a rebeldia de sua filha adolescente, Priscila, igual a todas as outras, ou pelo menos à maioria quase absoluta, que não aceitava as regras e limitações de horários e "sites"seguros. Por sua vez, Lúcia, ao chegar do trabalho, deu-se conta de que também ia para seu próprio laptop e dedicava horas seguidas à sua tese de mestrado. O primeiro passo, para reeducar mãe e filha, foi dado: minha amiga passou a limitar o seu tempo e o de Priscila no computador. No tempo que sobrou, começaram a fazer coisas juntas: jogar damas, ver filmes escolhidos por ambas... No entanto, quando a jovem estava no bate-papo e o horário de dormir chegava, começavam as frases de sempre: "peraí", "só um minutinho" (que se transformavam em horas), etc. Nessa altura, Lúcia descobriu que poderia programar o computador, como se faz com a TV, para desligar automaticamente a um determinado horário, e então Priscila passou a ser avisada pela telinha: "seu computador será desligado em cinco minutos". Pronto. Era o tempo suficiente para ela se despedir de todos (as) no MSN, sem grandes crises.

Da mesma forma, minha amiga programou o micro para funcionar a partir de determinado horário, que coincidia com o final do jantar, o que eliminou seu uso durante o dia. Começou a sobrar tempo para socialização com a família, para ler, sair com amigos(as), estudar, etc.

Se você se interessou por esse método, o endereço da empresa que o implantou é limites.trait.com.br. No entanto, já vou avisando, como avisei Lúcia também: pessoalmente, eu tentei entrar e a página não abriu... será que algum(a) adolescente andou mexendo por lá?

Independente dos bloqueadores externos, nada pode substituir nossa responsabilidade, como pais e mães, de estipular o que é bom ou não para nossos filhos. Ninguém nem nada pode fazer o nosso papel no momento de estabelecer as limitações em tudo na vida deles. Só assim faremos a nossa parte em promover o desenvolvimento de adultos felizes e responsáveis, bons administradores de suas vidas. Além disso, estaremos educando nossos jovens dentro da modernidade, sem abrir mão de ferramentas como o computador e a Internet, que abrem caminhos para os relacionamentos saudáveis, o intercâmbio e o conhecimento de tudo o que se passa no mundo.



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sexta-feira, 17 de abril de 2009

VOVÔ CONFÚCIO >> Leonardo Marona

Sempre que termino um poema sinto uma incontrolável vontade de respirar o ar de Cubatão. De repente me vejo munido de armadura e espada, estou com uma daquelas sandálias de mil laços dos antigos gladiadores romanos. Ultimamente, tenho escrito poemas apenas para poder respirar o ar perfeito de Cubatão. O poema virou um refúgio para puxar fundo o ar e soltar um longo suspiro. Tentei isso na rua, não deu certo. A rua é apenas poluída demais para se puxar fundo o ar e, no fundo, não há mais ar e a disputa com os ônibus e caminhões com motoristas de muitos dentes chega a ser digna de um mito grego. O poema acaba sendo o oxigênio negro que um puxa para poder assobiar para dentro de si no meio do trânsito infernal e das pontes quebradiças, dos empregos de expedientes incertos e nas cabines de amor. Depois do poema eu serei um pai a dar banho no meu filho. Quero olhar para trás e dizer: “meu deus, como você fazia bobagem, meu amigo, uma atrás da outra”, com o sorriso dos que descansam, mas não param. Depois do poema eu serei o escritor sentado em sua mesa de vime, em frente ao mar caribenho, com um chapéu de pano, desses que os velhos usam para se proteger do sol, e algumas recordações silenciosas de amores truculentos. Depois do poema nada mais de gritos, tiros na noite, dedos nos olhos, saliva nos pelos do peito. Depois do poema a calma, a precipitação voluntariosa, a entrega ao que surge como pano constrangedor, a transparência luzidia da visão de um deus do instante. Depois do poema finalmente os erros sem arrependimento, a risada descansada própria dos muito puros, a vontade de dizer “somos todos meteoros”. Depois do poema um soco, uma caricatura amortecida de peles repuxadas. Mas Vovô Confúcio me avisa que os poemas só perduram se estiverem no limite do meteórico, e que o intelecto é fogo sobre tora madeira, e nós somos madeira, ele diz, Vovô Confúcio, e nós temos o fogo mas não temos o controle, mas temos, sim, o controle, Vovô insiste e abençoado seja ele, que sabe por nós o que deveríamos saber, e não é capaz de interferir em nossa dor.


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quinta-feira, 16 de abril de 2009

REMAR E BOIAR >> Ana Coutinho

Não fui eu que inventei a expressão. Achei no site dela, em algum momento em que ela falava sobre o desgaste de um trabalho duro, e a alegria de um dia a mercê do vento.

Acontece que nunca mais me esqueci da soma dessas duas palavras e, vira e mexe, enquanto estou remando, remando muito, imploro que o vento me ajude e deixe-me boiar por alguns segundos. Explico: remar e boiar. Remar é trabalhar, boiar é descansar. Remar é fazer força, boiar é relaxar. Remar é enfrentar chefe, boiar é brincar com o filho. Remar é fila no supermercado, boiar é o sofá. Remar é o Jornal Nacional, boiar é TV Fama. Remar é pensar, boiar é esvaziar-se...

Há casamentos que são mais remar. Outros, deliciosos, são feitos de boiar. Mas todos os relacionamentos, todos, exigem as duas atividades. Na hora de ceder, brigar, ou simplesmente aturar, somos remadores fortes. Remamos quando respiramos fundo mesmo diante da toalha molhada sobre a cama, remamos quando damos explicações longas para problemas pequenos, remamos quando disfarçamos os gastos, ou quando murchamos a barriga. Já na hora de brincar, rir e rachar uma pizza, costumamos boiar encantados. Boiamos quando nos aconchegamos no braço alheio, boiamos quando rimos de uma piada idiota, boiamos quando dançamos, sozinhos, numa pequena sala vazia...

E, no trabalho, não é diferente. Normalmente trabalhar é remar arduamente, mas alguns trabalhos têm longos períodos boiando. Não é o meu caso. No meu trabalho, sinto-me remar até arder os braços. Fazer planilha no excel é remar, reportar relatórios mirabolantes é remar, dar explicações de horário é remar muito. Às vezes, algumas vezes, tenho um almoço tão leve e divertido com as amigas que, mesmo no escritório dos campeões de remo, sinto-me boiar por uma curta hora. Acontece. Mas há um ou outro sortudo que vive de boiar. Sério, existe gente que ganha para boiar, e esses devem ter os braços fracos, mas o coração aquecido. Outro dia, ouvi dizer de uma moça que a profissão dela é “conversadora”. Sim, ela organiza e realiza conversas. Aquilo que a gente faz no cafezinho, correndo, é o dia-a-dia dela. Boiar levemente, sob águas mornas - inclusive.

Mas esses representam uma pequena minoria. Há também aqueles que nem trabalham, mas esforçam-se tanto em tudo o que fazem que chegam ao fim da vida sentindo seus braços dormentes de tanto remar. Tantos que passam a vida toda remando, com os filhos, com a família, com a casa, com o trabalho, seja lá o que for trabalho. Tornam-se cansados e, nos casos mais tristes, desaprendem a boiar. Viram amargurados e mesquinhos. Se, por ventura, pegam-se boiando num almoço de domingo, quase que assustam-se com o peso leve do corpo, dentro da água. Não raro voltam a mastigar a sua alface com a mesma apatia de antes. Sim, porque comer alface, para a maior parte das pessoas, é remar. Já chocolate, hambúrguer, sorvete e macarrão, isso é boiar com sabedoria. Curtir é boiar. Preocupar-se é remar. Navegar sem destino na net, lendo blogs até perder a hora, é boiar um pucadinho. Fazer imposto de renda é remar. Achar um eletricista, um encanador, um marceneiro, é ser um mestre do remo - quase que um primeiro lugar. Eu ainda estou a milhas de distância desses atletas. Mas aprendi a boiar com uma leveza sem tamanho.

Sim, porque se remar precisa ser aprendido, boiar também. É outro aprendizado, outro formato, mas é necessário aprender, porque não é qualidade de todo mundo boiar. A felicidade, essa danada, é dom de alguns, conquista de outros, e utopia para tantos. Já o remo, ah o remo é dado a todos, em algum momento da vida.... Se você ainda não recebeu o seu, atente-se. Logo terá um remo nos braços e, quando a correnteza estiver forte, você só pode remar ou boiar. Caso contrário, é afogar-se na certa...

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quarta-feira, 15 de abril de 2009

DESAPRISIONAMENTO >> Carla Dias >>

A moça tem esse olhar desolado, porque perdeu o rumo da casa que nunca teve, onde hoje moram alguns autoproclamados deuses a debocharem da ingenuidade dessa figura de faces rosadas.

Saltimbancos, desertores da benevolência, esses deuses carnavalescos e traquinas se sentam à beira do destino, sacando batatas Chips de saquinhos barulhentos, atazanando a sessão de vivência da moça, que ainda pensa que o barulho todo vem do apartamento ao lado, da falta de disciplina nos estudos do vizinho tentando se tornar violinista.

Como se não bastasse, eles gostam de criar desejos na alma dela, e a maioria de realização inalcançável, como o amor denso, intenso e urgente que se pegou sentindo pelo moço que sequer conhece, ou a vontade inerente de salvar o mundo do problema que não sabe qual é.

Sem conseguir se tornar a amante ou a heroína, desafiada pelo enviesado humor desses deuses solitários que, para curar as próprias feridas, divertem-se à custa da sorte dela, a moça caminha tão lentamente, como carregasse pesada cruz, e os pés estivessem amarrados, encurtando doloridamente seus passos.

Os tais deuses, estes que lambem beiços pela capacidade da moça de sentir como eles jamais sentirão, decidem em uma partida de truco qual será autor da próxima agonia dela, enquanto alvejam seu sono com cenas inéditas e de tristeza tão profunda, que lágrimas lhe escapam dos olhos fechados, mantendo-a prisioneira das galhofas deles.

Mas nasceu este dia, entre os dedos do universo, bem no momento em que ele bocejou e se espreguiçou. A sonsice desse momento, infestada de bom agouro, despertou a moça para o tempo. As desafinadas cordas vizinhas pareciam lhe açoitar, mas desta vez num ritmo cadenciado e desprovido de vieses, assim quase pôde sentir a música lhe roçar as costas, gentilmente.

Um sorriso lhe escapou, seguido da tontura provocada pelo sapatear dos deuses inconformados por terem perdido a hora, permitindo que a moça sentisse o que não estava no menu deles. E gritaram desventuras, esbravejaram indecências, a moça rodopiou sobre os calcanhares, num passo desengonçado de dança injuriada. E ela rezou um poema de Quintana num rosário de silêncios, ruminando a religiosidade dos que se sabem benfeitores apesar do sentimento escravizado em encalços de resmungos.

Os deuses sabotadores, mal amados lambendo a crueldade, trançavam os cabelos da moça no fim da tarde, enquanto cantavam rimas de inutilidades e sofreguidão. E a alma dela, enquanto sentia os dedos ásperos lhe cutucarem a nuca, saiu para passear por aí, bem longe da casa onde viviam os capangas que se denominaram deuses à base de trapaças.

Nas cordas tesas do violino vizinho, a moça se deitou para experimentar a vibração da desafinada música que ensaiava apegos. De longe, vinha a falação irritada dos deusinhos que pensavam em jogos, impunidades, desafetos para perturbá-la e trazê-la de volta ao aconchego de suas habilidades impiedosas.

Mas a moça, cansada das brincadeiras sem graça dos deuses infelizes, permaneceu embrenhada nas cordas do violino, os ouvidos atentos aos efêmeros momentos em que elas entoavam a beleza do som, momentos estes suficientes para alimentar sua alma de esperanças.

Após um concerto dissonante, a moça fez as malas e, sem dar adeus, mudou-se da sua não-casa para a casa ao lado, para um relicário no canto da sala, onde se ajoelha, diariamente, e reza um poema de Quintana em rosário de silêncios, pouco antes do concerto do violino. E há tanta ternura na mudez dessa moça que os deuses falseados agora a olham de longe, emburrados, mãos lambuzadas de desolação.

E dói em cada um deles a ausência da moça-títere.

E se esbalda a moça amparada pelas cordas do violino... Sem amante para amar, sem mundo para salvar, mas acompanhada pela liberdade aprumada.

Imagem: Henri Matisse - Interior with a violin

Site: www.carladias.com
Talhe - Blog: www.talhe.blogspot.com



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terça-feira, 14 de abril de 2009

CAMPANHA ELEITORAL -- Paula Pimenta

Quando eu tinha uns nove anos, adorava escutar "A Turma do Balão Mágico" e outros conjuntos infantis (naquela época se chamava “conjunto” o que hoje em dia a gente chama de banda) dos anos 80. Mas um dia, na casa da minha avó, eu estava brincando no quarto do meu tio e vi um disco (naquela época se chamava “disco” o que hoje em dia a gente chama de CD) e adorei a capa. Uma moça de vermelho sentada na escada e três caras em pé, com cara de “soldadinhos de chumbo”, atrás. Apaixonei pelo disco de tal forma que meu tio resolveu me dar, mesmo sem ser disco de criança. Decorei todas as músicas, e quando uma delas começou a tocar nas rádios, eu cantava junto feliz da vida aquele refrão, talvez o mais conhecido do tal conjunto até hoje: “Uuh... eu quero você, como eu quero...”

O "Kid Abelha" ficou bem famoso depois dessa música. Vieram outros vários sucessos e eu continuei fã, como sou até hoje.

Porém, alguns anos depois, a banda sofreu uma modificação. O baixista, por algum motivo que eu até hoje não sei, resolveu sair. O Kid Abelha virou um trio. E esse baixista montou outra banda e virou vocalista dela. E eu virei fã também dos “Heróis da Resistência”. A banda emplacou inúmeros sucessos nas rádios no final dos anos 80, começo dos 90, mas depois de alguns anos, infelizmente, sumiu.

Muito tempo depois, já perto do ano 2000, fiquei sabendo de um show imperdível. Leoni – o famoso baixista-vocalista do Kid-Heróis – e Leo Jaime – outro ícone da minha adolescência, em versão acústica – juntos. Foi um dos melhores shows da minha vida. O teatro não estava muito cheio e eles cantaram tudo o que a platéia quis ouvir, todos os sucessos do Kid, do Heróis, do Leo... e eu acabei descobrindo o que já deveria saber há anos... o Leoni era o compositor das músicas mais legais do Kid Abelha, aquelas todas que a gente sabe de cor e canta como se já tivesse nascido sabendo. Virei fã. Mais do que eu já era.

A partir dessa época, o Leoni começou uma carreira solo muito bem sucedida. Lançou vários CDs e tem muitos e muitos admiradores espalhados por esse Brasil afora.

Contei essa historinha toda para introduzir um pedido que farei agora aos meus leitores. O Leoni tem um site que eu acompanho desde que comentou a respeito em um show dele que fui em Arraial do Cabo, no começo de 2007, ao pôr-do-sol, na praia. Inesquecível é pouco. Através desse site, o Leoni interage com os fãs pelos fóruns, disponibiliza músicas inéditas, fala dos próximos shows, conta dos futuros projetos e faz muitas promoções. Não tive como não participar de sua atual promoção. Ele compôs uma melodia e criou um concurso, para que seus fãs escrevessem a letra. Com essa iniciativa, ele espera encontrar um parceiro para sua música.

Eu escrevi uma letra. Tinha que gravar um videozinho cantando. Eu gravei.


Só que tanta gente se inscreveu (60 ao todo) que o Leoni resolveu fazer seis semi-finais para tirar 10 finalistas (e aí vai ter a grande final). O que eu queria, era pedir cinco minutos do tempo de vocês pra votarem em mim... Cada pessoa pode votar apenas uma vez. Para tal, é preciso se cadastrar no site dele. Em seguida, chegará no e-mail cadastrado um link de validação. Depois é só ir nesse endereço:
http://leoni.com.br/videos_composicao_paredao05.php e clicar na bolinha ao lado do meu vídeo.

Claro, vocês podem votar nos outros vídeos, se acharem que a letra deles é melhor, estou aqui só fazendo a minha campanha eleitoral... Muito obrigada desde já aos meus eleitores! Não prometo nada que eu não possa cumprir, apenas cada vez mais letras que – se possível – se encaixem em melodias.



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segunda-feira, 13 de abril de 2009

Diploma não é a resposta. A resposta é a pergunta. >> Maria Rachel Oliveira



E voltou à baila o tema de ser ou não ser o diploma de jornalismo obrigatório para o exercício da profissão. Não fosse este um país onde a lei de oferta e de procura privilegia, em geral, a mão-de-obra mais barata em detrimento da qualidade – fora raras exceções – eu talvez nem me incomodasse tanto com isso. Acontece que, se sequer os jornalistas vem sendo devidamente treinados para exercer a profissão, que dizer daqueles que chegariam desavisados de outras áreas?

Claro, há quem vá argumentar que o jornalismo não é o mesmo de antigamente. Não, não é. As agências de notícias se popularizaram de tal forma que o que grandes veículos buscam, a grosso modo, é alguém que receba o texto de determinada agência – que é a mesma que envia para todos os outros grandes jornais – e o reescreva pra ficar mais com a ‘sua cara’ e não com a da Associated Press ou da BBC. Essa uniformização da informação, a meu ver, é ainda mais gritante no que diz respeito à mídia online. Outro dia mesmo estava refletindo como as notícias são, cada vez mais, as mesmas.

Quando eu entrei na faculdade, em 1991, internet ainda era uma coisa pouco conhecida, e estávamos longe desse conceito da globalização da informação. Computador também era um bicho esquisito, uma geringonça que tinha uma tela preta, e a gente escrevia em um tal de DOS, que vivia ‘dando pau’. Ainda sou capaz de me lembrar do meu primeiro, na redação do finado Jornal dos Sports. E do curso que fiz, no emprego seguinte; de ‘Windows’ (Hein?).

Naquele tempo, o jornalista ainda era aquele cara (ou aquela cara, tanto faz) que via um fato que podia virar uma notícia e corria atrás, da melhor forma, para descobrir o quanto pudesse. Sabia distinguir uma informação relevante de uma irrelevante e transformar aquela maçaroca em um texto – que não seria simplesmente um aprofundamento de qualquer coisa que uma agência tivesse mandado pronta ou resultado dos eventos que todo mundo cobre, todo mundo vê e, não necessariamente, interessa a todo o mundo. Querem um exemplo? Fashion Week. Todos os veículos falam dessa porcaria que, interessa a o quê, 10 porcento da população? Fora o chá de Glorinha Khalil na televisão por dias e dias. Isso para não mencionar as mesmas pesquisas da BBC pipocando em todos os veículos online.

Os jornais abriram tanto o leque de informações que fornecem que, excetuando-se as notícias regionais, as manchetes e os cadernos de cultura noticiam basicamente a mesma coisa de forma distinta. Não tem mais sentido ler um e outro, comparar pontos de vista. Tá uma coisa homogênea e chata pra diabos a tal da mídia ultimamente.

O que um jornalista – com diploma ou sem diploma – aprende, ou deveria aprender, é a ter faro para fatos, a distinguir o que é notícia do que não é. O novo, que o jornal de ontem não vale nada. Isso é o que se deveria ensinar. A buscar a notícia que não foi dada, o ângulo que não foi visto, correr atrás da peça do quebra-cabeça que falta.

Ninguém leva em conta que discutir a obrigatoriedade do diploma não é simplesmente discutir se jornalista sabe ou não escrever. Infelizmente cada vez menos jornalistas escrevem bem, a exemplo do resto do mundo, que como menos lê e menos precisa escrever, desleixou também e agora é um festival de erros crassos pra todos os lados. Só deveria se chamar jornalista aquele que traz por dentro a sede de perguntar.

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domingo, 12 de abril de 2009

ALVORADA >> Eduardo Loureiro Jr.

Quando perguntaram se ela cantava, ela respondeu:

-- Não canto, só encanto.

Gosto de acreditar que aquela foi a primeira vez que ela disse aquilo, e que o havia inventado naquele exato momento. Mas seria genial mesmo se ela já tivesse dito ou preparado antes, porque o que há de verdadeiramente genial nessa frase é que ela é verdadeira.

Ela encanta. Como me encantou no primeiro dia em que a vi de perto. Eu a ajudei a levantar-se e, durante dois segundos, olhamo-nos fixamente nos olhos. Nunca fez tanto sentido para mim a expressão "amor à primeira vista", porque era uma vista próxima e simultânea. Um amor à primeira vista correspondido, um evento raro.

Seu nome, em italiano, quer dizer "a primeira luz do dia", o "princípio". E foi assim para mim: a primeira luz do dia após muito tempo de sono e de sonhos.

Eu tenho uma tendência a sonhar muito com mulheres. Sonhar dormindo e, principalmente, sonhar acordado. Olhar uma mulher que nunca vi antes e começar a sonhá-la, e começar a sonhar uma vida com ela. Sonhá-la plena de qualidades, sem defeitos. Uma mulher perfeita, uma deusa. Sonhar com ela uma vida inteira a dois, uma vida paradisíaca, feliz para sempre.

Mas, pelo menos no meu caso, o sonho nunca sobreviveu à realidade. Alguns de meus amores platônicos até que têm qualquer coisa de infinito, mas todos os que tentaram se tornar reais ganharam um ar trágico ou amargo. Meus amores que já nasceram reais, sem influência de sonho, sempre foram mais felizes.

Com o tempo, fui aprendendo que relacionar-se com o outro é, antes de tudo, relacionar-se consigo mesmo. Era a mim mesmo que eu sonhava quando pensava estar sonhando uma mulher. E quando descobri isso, não apenas com o pensamento, mas também com o sentimento, foi que pude ver a primeira luz do dia, um novo princípio.

Meu amor não pode ser mais de sonho, ou predominantemente de sonho. Tampouco pode ser um amor do outro, ou predominantemente do outro. Meu amor é amor real de mim mesmo. E se é à "primeira luz do dia" que amo, é porque me sinto, eu mesmo, essa luz e esse dia. Não amo a ninguém que não a mim mesmo. A diferença é que já não sou mais do mesmo tamanho.

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sábado, 11 de abril de 2009

BEIJO [Debora Bottcher]

Sempre foi...

Basta mergulhar o coração no vale da ilusão para enxergar um beijo do outro lado da janela. Agarra-se a um floco de neve e o derrete. Depois, dança com os pássaros do gelo, enquanto estes procuram, na essência dos galhos, um lugar para se aninhar e enfrentar a noite. É possível sentir-lhes o prazer enquanto agrupam-se em torno do afago carinhoso da madeira acolhedora - o que certamente os ajudará a suportar o frio que congela qualquer intenção, o menor gesto.

Ela olha para a imagem que se mostra através dos vidros: há um pássaro tão preto como a neve branca, e um pássaro branco mais negro que a escuridão que habita nos ramos congelados das árvores que, também indefesas, a contemplam através do invisível.

Os olhos ariscos das aves fixam-se na mulher que os olha... Brilhantes...

Há beijos de todos os tipos, cada qual com seu desejo secreto, fonte de energia - positiva ou não.

O crepúsculo vem descendo seu manto. Ansiedade... Ela passa as noites brincando de adormecer: acorda muito tempo depois para constatar que passaram-se quinze minutos, vinte, meia hora... Só um segundo...

Eventualmente, aventura-se à madrugada fria tentando acolher-se nas mãos que regem o tempo. Dirige por estradas, escuridão à frente, medo e incompreensão acenando: não sabe o que fazer consigo mesma.

Há muita gente por perto: sua alma é lenta para a alegria do mundo... Sua sensibilidade aguçada capta tudo ao redor e entrevê sombras - nada mais...

Observa o tempo avançar perdida em seus pensamentos, questionando-se, tentando encontrar o eixo. Nada faz sem pensar um sem número de vezes - e nunca tem certeza se o que está fazendo é o certo. Apesar disso, adapta-se facilmente a tudo: ter e não ter, esse lugar ou qualquer outro, essa idéia ou aquela.

É passiva - não acredita na necessidade de ser de outro jeito: a vida tem seu curso natural e ela acha que pouca coisa se pode efetivamente mudar... Só não se ajusta muito às pessoas - suas atitudes, suas palavras, suas máscaras, seus sons...

Mas há um beijo que lhe foi dado na memória e se instalou: é parte da sua história. O beijo que os pássaros carregam na liberdade de seu vôo em céu aberto: indecifrável intenção...

Agora o está devolvendo: esses seres imersos na imensidão o levarão ao destino... Não importa se há sol ou brumas, se mar revolto ou rios calmos, se silenciosos lagos ou insondáveis desertos: o infinito que se esconde por trás das asas, abarca a vastidão inteira do universo.

Ela tem uma única certeza: o beijo que brinca nas geleiras do vento, cavalgará, veloz, para pousar, sereno, no perfume de alguém... Sonhos...

Foi agora... Será sempre...

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sexta-feira, 10 de abril de 2009

HÍMEN COMPLACENTE >> Leonardo Marona

Foram pra cama e o negócio começou devagar. Brás com 58 anos, bolsas de gordura debaixo dos olhos, meia garrafa de uísque no estômago, pêlos demais, brancos e pretos, todos juntos, no peito, saindo pela gola da camisa. Joyce com 23, ainda virgem, nunca tinha visto um pau a não ser em revista – e que tipo de mulher virgem de 23 anos compra revistas com fotos de paus? – é o que Brás poderia pensar. Mas preferiu cair de boca. Ensinar a ela como se faz. Ficaram uns quinze minutos enrolando as línguas perto da garganta. Brás gostava de ler o Lautréamont, o Edgar Poe e o Georges Bataille: uma turma pervertida. Joyce gostava de ir ao shopping com as amigas, pegar sol no posto 9 e assistir a shows do Sandy e Júnior pela tv. E de mensagens. Gostava de mandar malditas mensagens de texto pelo celular, a noite toda, enquanto Brás tentava engrenar no sono.

Mas dessa vez ia ser. Brás montou por cima e começou a varrer as calças de Joyce vagarosamente para baixo. As calças eram as mais justas que já se tinha visto numa mulher. E a última vez que Brás teve qualquer relação com uma menina de 23 foi quando sua filha veio visitar, trazendo o namorado de 40. “Brás, querido, faça devagar, sim?”. “Tudo bem, Joyce, querida. Vamos devagar, bem devagarinho”. Brás dizia que a amava e que gostava de passar o tempo com ela sempre que ela vinha com esse papo de amar e passar o tempo. Ele não pensava em nada antes de dizer isso. E estava gostando do negócio de comer uma buceta virgem depois de... Nunca o tinha feito antes. “Brás, você apaga a luz, querido?”. Brás teve que desgrudar a cara que estava enfiada no meio das pernas abertas de Joyce, fazendo o trabalho por cima da calcinha rosa de renda. “Meu deus... Tudo bem”. Apagou a luz e voltou. Olhava pra cima de vez em quando, enquanto passava a língua. Joyce de olhos fechados e lábios apertados. Porra, não era virgem merda nenhuma! Sabia o passo-a-passo todo. Joyce pediu que Brás metesse, “devagarinho, sim?”.

- Merda, Joyce. Uma virgem não fala assim.

- E como fala uma virgem, então, Brás?

- Não sei. Não fala nada. Fica com medo. Mas não pede pra meter.

- Ah, querido, vem cá.

Agarrou Brás pelo pescoço e o puxou de volta pra cama. Ficava se contorcendo toda que nem uma cobra debaixo dele, ainda de calcinha e já sem sutiã. Luz baixa. Brás olhou pela primeira vez os peitos de uma menina de 23 anos. Esperava mais do que aquilo. Pareciam usados. Depois a colocou de quatro e meteu a cara dentro da sua bunda. A bunda, esta sim, tinha 23 anos exatos. Ficou ali enquanto Joyce gemia. Pediu que Brás metesse de novo. Brás sacou a pistola de carne de dentro da samba-canção e deu um tiro por entre as pernas da menina. Joyce afogou a respiração e começou imediatamente a rebolar. A hora da verdade. Brás ficou esperando o sangue escorrer para o lençol. Ele tinha que vir uma hora. Tinha que jorrar. Só que nada veio, e Joyce começou a gritar de prazer. Até que Brás gozou, sem conseguir se concentrar, e se jogou no canto da cama, com os cotovelos apoiados nos joelhos.

- Que foi, querido?

- Gozei antes da hora.

- Não tem problema, querido. Foi bom mesmo assim.

- Bom uma ova! E você não é virgem merda nenhuma.

- Tem razão. Você acabou de me comer.

- E cadê o sangue? CADÊ O SANGUE AQUI?! – Brás apertou o lençol entre as mãos, quase chorando de raiva.

- Querido, qual a importância disso? Pelo amor de deus!

- Qual a importância disso?! A importância é que você mentiu pra mim!

- Não menti, não.

- Cara de pau.

- Eu era virgem. Até aparecer você, querido.

- E o que você fez com o sangue que tinha que ter saído daí de dentro?

- Não poderia sair.

- Como assim?

- Tenho o hímen complacente.

- Que porra é essa de hímen complacente agora? Conversa fiada!

- É verdade. Isso quer dizer que eu posso transar até mesmo com um hidrante e nada vai sair de dentro de mim. Isso é o que chamam de hímen complacente.

- É algum tipo de doença?

- Não! Que isso? Que doença, o quê!

- Uma deformidade, então. Você é deformada.

- Nada mal pr’um velho que nem você.

- Sua puta!

- Pelo menos eu sou uma puta de 23 anos. E você é um velho brocha de 58.

- Eu vou te matar!

Brás levantou da cama, rodando com a mão perto da orelha de Joyce que, ao se esquivar, caiu em cima dos joelhos no chão. Ficaram dando umas voltas na cama, um atrás do outro, até que Brás sentiu o peito e estacou, sem ar, se escorando na parede com o cotovelo. Joyce riu com uma risada de escárnio que nenhuma virgem jamais seria capaz de dar, a menos que num conto do Trevisan. Enquanto isso Brás sentou no chão com a mão no peito e a cara apertada. Então Joyce se aproximou.

- Ai, Brás! Desculpe. Nunca mais vamos brigar, sim?

- Sai daqui sua vagabunda! Eu arranjo uma bunda melhor que a sua em cinco minutos. Piranha mentirosa!

E deu outro tapa violento que passou no vazio, fazendo peso suficiente para que caísse de volta no chão. Uma fina gosma escapou da sua boca com o esforço do movimento.

Joyce saiu correndo, desceu as escadas chorando, passou pela recepção do motel e pediu que alguém subisse no 503 para ajudar um homem que estava tendo um enfarte ali. O recepcionista quis saber mais detalhes, mas Joyce saiu como um jato. Ele então subiu e encontrou Brás estendido com uma mão no peito, tentando tirar algumas pílulas de um frasco de vidro com a outra, umas tantas espalhadas pelo chão.

- O senhor precisa de ajuda, senhor? – perguntou o recepcionista, um jovem alto numa fatiota, com os cabelos crespos chupados para trás.

- Sim. Você poderia por favor enfiar esse abajur no meio do cu? – disse Brás, de olhos fechados.

O recepcionista ajudou Brás a se levantar e o colocou na cama pelos braços. Brás deu um cuspe na cara dele e mandou que trouxesse uma garrafa de Jim Bean imediatamente. O recepcionista ficou um tempo sem saber o que fazer. Depois tirou um lenço do bolso e começou a enxugar o rosto.

- Não ouviu o que eu disse?! O uísque, porra! – esbravejou Brás, e novamente a gosma escapuliu da boca para o tapete.

O recepcionista disse que poderia pegar, mas que precisava do cartão de hospedagem de Brás para descontar o Jim Bean da registradora do motel. Brás disse que levasse sua valise e só voltasse com o uísque na mão.

O recepcionista escorregou escada abaixo, pulando de lance em lance. Parecia um tipo de gincana quando você via um recepcionista tão dedicado como aquele. Voltou correndo com uma garrafa de Jim Bean e o celular de Brás na mão.

- Senhor, o seu celular estava apitando lá embaixo.

- Me dá isso aqui – disse Brás, arrancando o celular da mão do menino. – Deixa o uísque na mesinha e chispa fora.

Jogou uma nota de dez na porta do quarto. O garoto foi até a porta, agachou, pegou a nota, olhou para dentro do quarto e sumiu.

Brás pegou o celular. Uma mensagem de texto. Mais uma. Tinha mais de quarenta acumuladas. Todas bem parecidas. E todas da mesma pessoa.

“Querido, estou em ksa e só te mandei essa mensagem pra dizer que te amoooooo demais. E não estou zangada. Bjo, Joyce”.

Ele sabia como era um pé no saco escrever mensagens no teclado de um telefone celular. Sabia como devia ter demorado cinco minutos só para que Joyce escrevesse a merda da mensagem. Três minutos só para o “te amoooooo demais”, simplesmente para dizer que gostava dele. E gostava dele. Talvez não fosse virgem. Talvez Brás esperasse demais dos outros, porque sentia que a vida estava se diluindo a cada minuto e precisava de alguma coisa de verdade se mexendo perto dele. Mas se uma pessoa escreve “te amo” com seis ós no final, alguma coisa tem nisso. Brás deu um forte trago no Jim Bean, deitou na cama, as mãos atrás da cabeça, fechou os olhos e sorriu até pegar no sono. Um homem não pode ter tudo. E pelo menos era melhor que um marca-passo enfiado no coração.


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quinta-feira, 9 de abril de 2009

O Computador >> Ana Coutinho

Eu devia ter uns 11 anos, não mais do que isso. Era década de 80 e meu cunhado, que acabara de voltar de uma viagem de trabalho à Alemanha, relatava a todos os familiares, na mesa de jantar: “Lá, todo mundo tem um computador. Sabe, um desses, pequenos?”. As pessoas se entreolhavam, incrédulas: “Como assim? Computador, desses que a gente vê nos escritórios, em uma sala longe?”. "Isso" - ele respondia com uma empolgação contagiante – “cada um tem uma daqueles nas suas mesas. Cada um tem um, todo mundo tem um computador, entende?”.

As pessoas ficaram impressionadas enquanto ele continuava, prevendo que, um dia, isso aconteceria no Brasil. Cada um teria o seu próprio computador, as pessoas sentariam em mesas longas e o papel iria acabar. Eu, calada, comendo ovo frito, pensava para que serviria isso. Um troço tão pesado, por que não dividir? Para mim, era a mesma coisa que cada um ter a sua televisão, imagine o transtorno disso... Mesas longas com as televisões enfileiradas, para que cada um pudesse ver o seu canal predileto, sentados em filas também, mãos baixas, olhares fixos.

Acontece que eu estava errada e ele, certo. Com exceção do término do papel, as previsões dele se concretizaram muito mais rápido do que qualquer um poderia imaginar. Quando, 10 anos depois, eu entrei no mercado de trabalho, já tinha o meu próprio computador, e era apenas uma estagiária. Os chefes tinham notebooks, as máquinas incríveis que olhávamos meio de rabo de olho, porque queríamos fingir que era natural. Não era. Aliás, até hoje, não acho natural que cada um tenha o seu computador. Não acho nada, nada natural aquele escritório lotado, as mulheres fantasiadas de saltos e os homens fantasiados de gravata. Se tinha que haver um traje obrigatório, por que não pijamas? Ou, se era pra ser fantasia, porque não piratas e princesas? Ou, muito melhor, bruxas.

Hoje, quando assisto à vida nos escritórios, ao stress, às mentiras, às aparências, sempre penso que é ridículo nos enquadrarmos na raça animal. Que animal? Que animal, por mais estúpido que seja, iria chorar escondido numa casinha apertada do banheiro? Que animal iria lotar a cara de pó para parecer mais jovem? Qual deles iria querer a caneta mais chique ou iria dependurar gravata nos seus pescoços, todo santo dia, sem que fossem obrigados a isso? Eles são mais inteligentes do que nós. Nunca aceitariam esses faróis imbecis que a cidade insiste em colocar para piorar ainda mais o trânsito. Sempre que vejo um novo farol, com a típica fila de carros à espera da luz verde, desejo ser um gorila, pular sobre todos os carros da frente e, escalando o poste do farol, arrancar a luz vermelha com minhas grossas patas e babar em todo mundo que estiver abaixo... Normalmente, quando chego nessa parte do pensamento, o farol abre e ando um pucadinho. Bem pouquinho mesmo. Apenas o suficiente para desviar o pensamento e lembrar que, talvez, tenhamos até certa grandeza. Quem sabe sejamos mesmo superiores em algumas coisas, até porque nenhum animal, nunca, suportaria buzina e coca-cola e ar-condicionado por tanto tempo, como só nós - os inteligentes - somos capazes de fazer.

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quarta-feira, 8 de abril de 2009

SAUDADE >> Carla Dias >>

Hoje acordei com saudade do mar. O mar que não visito há quase doze anos. Não sei como alguém pode passar tanto tempo sem contemplá-lo, ainda mais quando se tem a atração desmedida pela água como tenho.

Sol em escorpião: água. Ascendente em libra: ar. Lua em câncer: água. Não sei muito sobre astrologia, mas sei que há dias em que eu simplesmente evaporo, sinto-me desprendida de tudo e todos, rondando o espaço sem tempo ou parada definida, doidivanas de plantão.

Então, pesa-me o ser e eu despenco, úmida e catártica, desvairada que só. Uma tempestade desvinculada de qualquer previsão.

E não sei nadar... Quando pequena, moradora próxima de represa, frequentadora das pescarias do meu tio, aconteceu esse dia em que meu pai decidiu que eu e minha irmã deveríamos aprender a nadar. Ele nos segurou, pequenas e acanhadas diante da escuridão moradora da água, cada uma de um lado, e nos mergulhou na represa. Foi assim que aprendi a viver com medo e fascinação pela água dos mergulhos.

Também ando saudosa dos jardins... Acho que meu ser urbano está um pouco confuso com a cara do concreto que ele tanto aprecia. Ando campestre, tocando as folhas das árvores garimpadas em quadrados rodeados por calçadas. Saudosa de um jardim... Um jardim de 1994, quando vi um pássaro beber água, enquanto chovia, o torrencial apaziguamento dos afetos murmurando agrados à minha alma. Beber água do mesmo copo. Ingerir intimidade e destravar sorrisos.

Que a saudade caminha ao meu lado, mãos tapando meus olhos, evitando que eu veja o que dizem os que chegam: dia azul, ensolarado, quente, lindo. Em mim o dia está cinza, cor de roupa preferida da saudade. Mas que saibam os que não me conhecem bem, também os dias cinzas fazem parte das minhas benquerenças.


Site: www.carladias.com
Talhe - Blog: www.talhe.blogspot.com



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terça-feira, 7 de abril de 2009

TEMAS OU NÃO TEMAS >>> Albir José Inácio da Silva

Pensei em escrever sobre mim, falando maravilhas e explicando coisas que não são tão boas. Ou escrever sobre os outros, exaltando as qualidades de quem gosto e aproveitando para execrar os desafetos.

Talvez escrever minhas dores atraísse solidariedade, mas que haveria de interessante no meu choro? Os amigos seriam um bom tema, mas há risco de não lhes fazer justiça, exaltando banalidades e deixando de perceber seus verdadeiros encantos.

Poderia falar do meu carro, coitado, tão maltratado e ainda valente, me aturando sem reclamar. Não tenho cachorro, mas poderia inventar um amiguinho fiel que me ajudasse a preencher a página.

Poderia falar da natureza, que a natureza é unanimidade, se qualquer um não pudesse senti-la melhor do que eu posso dizê-la. Poderia louvar as mulheres com argumentos de conquistador, mas sei que seria ridículo e nada original.

Outra possibilidade seria falar do trabalho, onde meu personagem transita com alguma desenvoltura e chega a convencer os outros, mesmo sem me convencer, mas sinto que isso é tedioso até para os convencidos.

Posso elogiar os filhos, na esperança de que eles assumam as qualidades sugeridas, mas sem esperança de que isso possa interessar a mais alguém.

Posso contar umas verdades doloridas à guisa de catarse, e quem sabe economizar no divã, mas quem suportaria?

Poderia bajular leitores na esperança de que me ajudem com algum comentário encorajador, mas se banir todos os escrúpulos nem eu mesmo vou me suportar. Não que ache importante escritor ter escrúpulos, mas, a exemplo da mulher de Cézar, ele tem de parecer honesto.

Como vêem, não falta tema. Qualquer coisa pode ser assunto. Também não faltam palavras, que são milhares, mas mesmo que fossem sete, como as notas, seriam infinitas as combinações. Se não falta tema nem palavras nem papel, fico pensando que talvez falte cronista.

Talvez eu seja melhor cantando. Ou quem sabe concordaremos, crítica, público e eu, que o silêncio é o melhor da minha arte.

Enquanto não tiver certeza, voltarei, se achar alguma coisa a dizer.

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domingo, 5 de abril de 2009

O QUE SE É E O QUE SE ESCREVE
>> Eduardo Loureiro Jr.

Que meus leitores não se decepcionem, -- embora seja unicamente este o motivo desta crônica: decepcioná-los --, mas uma coisa é o que se é; outra, o que se escreve. Ou, dizendo em bom português, não se pode deduzir um autor -- como pessoa -- por aquilo que ele escreve. Ou, sendo ainda mais explícito, meus textos não revelam completamente o Eduardo.

O que escrevo não é, na sua maior parte, o que sou. É um pouco do que sou, claro, mas um tanto do que fui e outro tanto do que serei. Também é o que nunca fui nem nunca serei. Ainda é o que quero ser. Ou mesmo aquilo que não me interessa ser na vida dita real, mas que é divertido ser na vida escrita.

Descobrir o que há de realmente real -- é necessário o pleonasmo -- pode ser uma tarefa estimulante de imaginação, um belo jogo intelectual ou intuitivo, mas não mais que isso. Para os que não me conhecem pessoalmente, há muita liberdade nessa imaginação de como é o Eduardo. Para os que me conhecem, há armadilhas. Quem conviveu comigo um único dia, por 24 horas seguidas, conhece mais da minha pessoa do que um leitor que nunca tenha me encontrado, mesmo que saiba de cor todos os meus textos.

O exemplo mais concreto que posso dar da ausência de identidade entre o que se é e o que se escreve foi o primeiro dia em que conheci Marisa, uma artista plástica cearense, infelizmente já falecida, que veio a ilustrar dois livros infantis meus. Marisa já conhecia meus textos, assim como os textos de meu caro amigo, e também escritor, Fabiano. Pois quando Marisa nos conheceu pessoalmente, e apenas com poucos minutos de conversa, ela falou uma das maiores verdades que já ouvi: os textos do Fabiano parecem escritos pelo Eduardo, e os textos do Eduardo parecem escritos pelo Fabiano. Numa só idéia, Marisa definiu, ao mesmo tempo, amizade e literatura. Ser amigo é ser outro. Escrever é ser outro si mesmo.

Então não creiam meus leitores naquilo que digo, conto, prometo... Ou creiam, se lhes apetece a aventura imaginativa. Mas não me venham confirmar o dito, checar o conto ou cobrar a promessa. A escrita é meu território de liberdade, o lugar onde honro o mistério de mim mesmo, onde me perco, me encontro, volto a perder-me.

A alguns, pode parecer que eu seja um farsante, um enganador. E talvez essa seja a verdade. Outros talvez percebam uma certa generosidade em me permitir não apenas ser, mas também não ser, publicamente, à vista de todos. E essa talvez também seja a verdade.

Apesar do que escrevi agora, sei que alguns de vocês ainda não se livrarão do velho vício de associar o escrito à pessoa. Alguns de vocês ainda hão de pensar que todos os textos que escrevi correspondem à minha verdade. E haverá ainda aqueles, talvez a maioria, que pense que esta crônica, que trata desse assunto, seja uma exceção à regra, que esta crônica, pelo menos esta, quem a escreve é mesmo o Eduardo em pessoa. Pois em verdade, em verdade, vos digo que nem mesmo esta crônica, esta mesmíssima, está livre da liberdade total que me dou quando escrevo. Ainda esta crônica é uma mistura do que sou e não sou, do que fui e serei, do que não quero e do que me permito.

Eu escrevo por minha conta e risco. E creio também que é por sua própria conta e risco que os leitores tiram suas conclusões.

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sexta-feira, 3 de abril de 2009

ESTÁRUA PORTENHA >> Leonardo Marona


As mulheres ali pelas bandas da Avenida de los italianos, a qual eu percorria por uma razão sentimental, andavam de mãos dadas e eu me sentia tão bem, com tanta sorte de poder ver tamanha demonstração de carinho e delicadeza em público, algo que nenhum homem é capaz de fazer, porque as mulheres de Buenos Aires simplesmente se dão as mãos ou os braços e seguem em frente olhando para o chão, como se houvesse algo de irremediável em viver sobre a terra que as impedisse de sorrir, as forçasse a aceitar.

Então cortei pela Avenida Córdoba, quebrei na San Martin, parei para tomar um trago e um ar na praça em que o general libertador aponta para onde meu desejo nunca pôde alcançar, então percebi que tinha bolhas nos pés por ter pensado demais debaixo de sol quente, porque o diabo de Buenos Aires é que o céu é tão azul quanto o azul da bandeira Argentina, mas o sol não é tão bonito quando racha o piche debaixo da sola furada do tênis velho.

Ou talvez fosse apenas o malbec tinto vagabundo de dois pesos e meio mais uma menina muito alta, não muito bonita, mas muito compenetrada no seu bloco de desenho – o que para mim é muito bonito numa mulher – sentada por ironia no Parque Mujeres Argentinas, muito concentrada nos traços de um dique que rabiscava alternadamente com os dedos finos enlaçados nos cabelos de cachos claros na ponta da orelha e a língua marcada de vinho para fora, metade mordida, saliva na ponta do dedo, pontas dos dedos esfumaçando os traços num comportamento artístico, sério e desleixado, estilo em suma, uma garrafa pela metade de um syrah tão vagabundo quanto o meu malbec ao seu lado no chão, o que nos tornava automaticamente cúmplices dentro do que tinha imaginado para mim mesmo como uma viagem agradável, imaginativa e adimensional, sem necessariamente ser todo tempo real. E quando ela franze a testa e usa a borracha, eu penso que isso significa que por mais que você queira, jamais vai conhecê-la além do que ela quiser te apresentar.

Seu lápis caiu quando ela se agachou para repousar a garrafa do seu quarto de vinho no chão. Não sei por que ela olhou para mim e não sei por que eu não pude olhar para ela, já que queria tanto ser um traço do seu rabisco, mas mesmo assim apontei para o lápis, embalado pelo vento atrás do banco, quando vi que a moça era uma estátua de mármore, o lápis era meu próprio lápis e eu estava apaixonado por uma pedra, tão quieta e pálida quanto uma portenha.


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