domingo, 29 de março de 2009

A LÔRA E OUTROS MISTÉRIOS ITALIANOS
>> Eduardo Loureiro Jr.

Meu amor que me perdoe, mas passo quase todo o meu tempo, aqui na Itália, pensando na loura. Ou, em bom cearensês, na lôra.

Já são dez dias de viagem, e nenhum deles se passou sem que me falassem da lôra. É, de longe, a pessoa mais citada na Itália. Como o pessoal de Fortaleza chama a prefeita Luizianne de "lôra", pensei até que fosse o caso também aqui. Mas os prefeitos -- aqui se diz "sindaco" -- de Roma, Bologna e Firenze, as cidades por que passei, são todos homens. De todo modo, deve ser uma pessoa famosa, famosíssima, porque se fala na lôra em todas as situações, das mais triviais às mais formais. É a lôra pra cá, a lôra pra acolá. Talvez seja uma dessas mulheres modernas, mulher-macho-sim-senhor, independente, que trabalha três expedientes, bem-sucedida. Mas, às vezes, um homem diz "a lôra" e não fala mais nada, fica com o pensamento suspenso, e nesses momentos eu imagino que a lôra talvez seja uma mulher formidável, feminina, linda... quem sabe uma artista de cinema.

Ontem fui ver um filme, "Diverso da chi?", "Diferente de quem?", e cheguei a pensar que a Claudia Gerini fosse a lôra: ao mesmo tempo, uma mulher moderna, uma fêmea formidável e uma artista de cinema. Mas nunca se sabe se o cabelo dela é apenas pintado. E contra essa hipótese está o fato de que mesmo crianças, ou mendigos de rua, falam sobre a lôra. Não sei se a Claudia Gerini é tão conhecida assim. Então continuo minha busca da lôra.

Esse não é o único mistério aqui na Itália. Hoje mesmo, no café da manhã, eu pedi um pão e a mulher que me entregou o pão acrescentou:

-- Burro?

O sorriso e a gentileza dela não me deixaram pensar, nem por um momento, que ela estivesse me xingando. Foi quando lembrei que as culturas têm hábitos alimentares estranhos. Eu mesmo comi lhama no Peru. Os tailandeses comem insetos. No Brasil, em Belém, se come pato. Então era aquilo mesmo: a mulher queria saber se eu desejava botar burro no meu pão. Quando estou viajando, gosto de experimentar a comida local, e quase disse à mulher "si, burro per favore", mas lembrei que estou tentando me tornar vegetariano e disse "non, grazie".

Outra coisa estranha é que os italianos são fixados em pianos e pregos. Pianos, tudo bem, é até de se esperar de uma civilização que produziu grandes nomes da música clássica. No hotel mesmo em que eu estava em Bologna, o atendente disse que meu quarto ficava no terceiro piano, embora eu não tenha conseguido ver o piano nos três dias em que estive lá. Agora, pregos... Que fixação mais estranhas essa! Todo mundo quer prego. Você não consegue entrar ou sair de um restaurante, de uma lanchonete, de uma sorveteria ou de uma loja qualquer sem que lhe perguntem pelo prego. Se eu fosse empresário e resolvesse abrir um negócio na Itália, seria, sem dúvida, uma fábrica de pregos. Assim que eu vir uma loja de material de construção por aqui, entrarei e comprarei uma mão cheia de pregos. Se é prego o que os italianos querem, prego é o que eles terão.

Agora, mistérios à parte, tirando a lôra famosa e invisível, o burro que se coloca no pão, os pianos escondidos nos hotéis e a falta generalizada de pregos, devo dizer que a Itália, até aqui, tem me parecido um bom país. O que me dá ânimo para continuar a viagem, que só terminará em maio. Quem quiser pegar carona, pode acompanhar meu diário de viagem aqui.

NOTA DO EDITOR:
Não nos responsabilizamos pelas ideias veiculadas nos textos de nossos cronistas, principalmente aqueles que são completamente ignorantes. Em respeito ao nosso leitor, fornecemos um pequeno glossário de palavras italianas:
- Allora > então
- Burro > manteiga
- Piano > plano, andar
- Prego > por favor, não há de quê



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sábado, 28 de março de 2009

MENINO ANTIGO [Cristiane Maria Magalhães]

O menino não descia as escadas, ele escorregava pelo corrimão de madeira quando os outros não estavam vendo. Os outros eram sempre as pessoas grandes: a avó, o pai enorme, a mãe e Nhanhá. O pai era tão grande e tinha uma voz tão alta que o menino não chegava perto do pai, não. Será que pé de pai bravo mata menino arteiro? A mãe, com a barriga enorme novamente, vivia sempre cuidando do irmão mais novo ou enfiada na cozinha com Nhanhá. “Menino não pode”, “menino não faz”, “menino não grita”, “menino não corre”, “menino não sobe”. O menino aprendeu a conviver com um monte de “não”. Aprendeu também a criar para si um bocado de “sim”, debaixo e em cima dos abacateiros, na margem e dentro do riacho, fingindo que voava na gangorra do pé de manga, vendo estranhos desenhos de assombrações nas nuvens, pulando com os bezerros no pasto molhado de sereno. E o menino corria só pela casa grande inventando brinquedos e amigos. Seria o mais velho de vários irmãos e irmãs, mas ele ainda não sabia. Como primogênito, herdou toda a repreensão e a inabilidade das pessoas grandes e todo o espaço do mundo para correr e toda a imaginação possível para fantasiar na sozinhez dos lugares vazios e toda a alegria de um menino daquela idade crescendo livre na cidade do interior.

O menino ficou aprisionado na casa grande. Os irmãos vieram, cresceram, cada um seguiu um rumo, os pais mudaram – tornaram-se mais brandos com o tempo, ficaram mais doces com os netos, viraram palhaços para os bisnetos. E o menino não cresceu. O menino corria e descia o corrimão da casa grande sempre escondido, esperando pelo “não” . E se escondia debaixo da cama de Nhanhá com a lata de doces feitos pela avó, com o risinho no canto da boca e o ouvido atento aos passos das pessoas grandes que se vissem diriam o habitual “não”. A avó morreu há muitos, muitos anos, e o menino ainda deitava a cabeça no colo dela nas noites de tempestade e se encolhia feito um gatinho enquanto a velha passava as mãos em seus cabelos cantando cantigas tão antigas que ele nem sabia repetir. E o menino adormecia no colo quente da avó, embalado pelas canções de outras infâncias.

A casa mudou, foi pintada, reformada, construíram anexos, tiraram um quartinho dos fundos, trocaram a varanda de lado. Virou lugar de veraneio para a família. E o menino ainda vivia na casa antiga e só descia as escadas escorregando pelo corrimão, sempre atento, esperando pelo “não” das pessoas grandes que nem existiam mais.

Houve uma época em que o menino congelado no tempo e a casa que continuava a mesma por décadas, viveram histórias que nem existiram. Transformaram-se em cenários e protagonistas de aventuras ambientadas naquele tempo que era só deles. E foram lidos por meninos pequenos e grandes mundo afora.

Muitos anos se passaram quando o menino começou a se ausentar da casa grande. Ele, que nunca tinha saído dali durante quase um século, queria roubar a lata de doces, mas desaparecia antes de chegar à despensa. Tentava alcançar os abacateiros, mas eles ficaram muito altos, muito longe e embaçados. O rosto das pessoas grandes piscava e desaparecia, ele não conseguia mais enxergá-las por inteiro. Como era mesmo o cheiro da mãe? E os desenhos daquele vestido que a avó vestia sempre? Depois de um tempo, o menino passou a aparecer apenas em flashes rápidos, em relâmpagos que não completavam nem uma partida de bolinha de gude. Um dia, como uma bolha de sabão, ele desapareceu e não voltou mais.

Palimpsesto

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sexta-feira, 27 de março de 2009

QUINZE MINUTOS >> Leonardo Marona

Hoje vai ser em quinze minutos. E o que podemos esperar de amanhã senão um pouco mais, um pouco mais de quinze minutos, para podermos ao menos nos situar no esgoto, polir os trapos iluminados, aceitar a própria esfinge e, enquanto pudermos, permanecer no limite do que se mostra impenetrável dentro de cada um? Mas quinze minutos é tudo o que tenho agora e, algum dia, quem sabe, será também de vocês, que agüentarem até o fim... Um espaço para uma baforada calma, tentar alguma coisa com a segunda sinfonia de Beethoven, mas está tudo seco demais e os ônibus que passam pelo Cosme Velho trazem fantasmas que não conseguem migrar, seguir a longa viagem, e para eles o que são quinze minutos? Para mim eu sei que os quinze já não nove minutos, em breve serão menos e terei que deixar isso aqui como está, sem maiores retoques ou bravatas, apenas um outro momento deslocado do seu destino inerte para ser, enfim, inútil porque teve um fim concreto, mas permanece como espaço vazio entre as coisas. Os ônibus continuam, eles têm mais tempo e também a chance de uma verdadeira tragédia. Agora faltam sete, começo a coçar a cabeça, olhar muitas vezes para o relógio. Mas não tenho relógio. Roubaram o tempo que comprei tão caro, com pele gasta e álcool puro. E tudo o que sinto vontade de dizer são coisas bobas, que há muito amor desperdiçado pelo medo, que os verdadeiros olhos são dos cães e das crianças – queria um sorvete agora, um balão colorido – mas quando penso no assunto acabo perdendo dois preciosos minutos, porque escrevo uma longa frase, não consigo desenvolver nada dentro dela e preciso apagar, então ainda dizer que precisei apagar, e não me restam de repente nada além de cinco minutos e a decisão urgente a tomar, seguir adiante com os pés na brasa, largar os vícios e pedir carona, mas só consigo pensar que Beethoven devia estar mesmo ainda muito confuso em sua segunda sinfonia, pensando na possível desfeita de Napoleão, que não ouvia música, e essa coisa e tal... Mas as mãos dobraram-se e o cigarro se apagou. Rio de Janeiro, mais uma sexta-feira de sol. O sol nos vê de cima e suspira sem esperanças. Não podemos mais aproveitá-lo. Mas com três minutos ainda há tempo de formular uma bela tese. Enlouquecemos a cada dia para reconhecermos a nossa própria falência dentro de um meio absurdo, para podermos sentir a culpa do que não se perpetua e, aos mais dóceis, rir um pouco também, ver o caos com ternura e muito de nós mesmos, a cada passo na escuridão das vontades, um segundo antes do ponto final.


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quinta-feira, 26 de março de 2009

A CRISE >> Ana Coutinho

Todo mundo fala tanto na crise, que eu me sinto um pouco constrangida de dizer que não a conheço. Ou, talvez, ela sempre tenha vivido comigo, a danada, e por isso não a estranho.

Perguntei para o meu marido da nossa crise. Ele insiste em dizer que nunca tivemos. Mas já tivemos, sim. Só eu, contabilizo duas. E sou especialista na mais grave dela, que carinhosamente chamo de crise da tosse.

Começou uma noite qualquer, uma noite normal, quando ele não conseguiu dormir: “estou com uma tossinha chata”, disse, levantando-se na madrugada.

Voltou em alguns minutos e eu achei que estivesse melhor, mas quando meus olhos já estavam fechados, lá vinha: “cof, cof, cof”. Eu, como uma boa esposa, sugeri um mel, me ofereci para fazer um chá, falei doce e calmamente com ele, esperando que adormecesse, mas não aconteceu. Durou horas, talvez a noite inteira, mas acabamos por adormecer, quase de manhã. Dia seguinte, fui logo perguntando:

– Ô, que tosse essa noite hein, amorzão?

– Pois é. Mas já passou, viu? Não tô com nada.

Ufa. Meus ombros até relaxaram, eu dormiria, enfim.

Porém, quando a noite chegou, qual foi a minha surpresa ao notar que o homem curado, são, inteiraço, voltou a tossir. E – pior – a tosse era ainda mais alta. Levantava, voltava, tossia, virava pra um lado, pra outro, tossia mais, enquanto eu enlouquecia, tentando meditar: “Dalai Lama, Dalai Lama, Dalai Lama”. Nada funcionou. Eu só tinha duas opções, bater na cabeça dele com o abajur, ou levantar. Escolhi a segunda. Ofereci chá, mel, massagem, até dinheiro eu ofereci pra ele, mas nada – nada resolvia. Foi uma noite inteira em claro. De dia, com olheiras, esbravejei: “Pô meu, assim não dá né, Lin!” Ele, resignado, disse que estava morto de cansaço, mas sentia a tosse curada. “Sei...”, resmunguei sem saber o que me esperava. Comprei um xarope, por via das dúvidas. A caixa prometia alívio imediato. Imediato é que não seria, porque eu só descansaria à noite. Acontece que, ainda naquela noite, ele tossiu. E o xarope que produzia alívio imediato quase foi lançado pela janela. Alívio imediato pro bolso do fabricante, né? Eu esbravejava enquanto ele tossia. A tortura continuou, noite após noite esse homem tossia, tossia, tossia. Eu não sabia mais o que fazer. Já tinha sido educada, carinhosa, sedutora, louca, já tinha gritado e saído do quarto. Houve uma noite, inclusive, que comecei a chorar. Ele tossia e eu chorava: “o que foi, amor?”, dizia entre um cof-cof e outro. “Naaaada”, eu respondia, entre lágrimas, torturada pela privação de sono e pensando que, meu Deus, as pessoas diziam que casamento era difícil, por que foi que eu não acreditei?! As estatísticas sempre haviam escancarado o número de divórcios e eu, no meio da madrugada, me via como mais um número, dos jornais. “Tivemos uma crise”, diria aos amigos. “Todos os casais tem crises, eu sei. Mas essa, essa foi muito grave”. Se perguntassem se foi traição ou tóxico, eu responderia, lamentando: “Quem dera....” foi muito pior.

Em alguma madrugada qualquer, fomos até farmácia e, em pânico, imploramos algum remédio que funcionasse. Eu sei que o certo era ir ao médico, mas a gente precisava de alívio IMEDIATO, entende? O farmacêutico nos entregou uma caixinha, e advertiu: “Esse remédio é muito forte, tem de ter cuidado”. Cuidado quem tinha que ter era o meu marido. Eu já havia pulado da hipótese do divórcio para a hipótese do assassinato, o que não ocorreu, graças ao remedinho maravilhoso. Foi a minha primeira noite de sono em semanas. Ele tomou o comprimidinho e, menos de uma hora depois, capotou. Fiquei tão impressionada que cheguei a checar se ele não tinha morrido, coitado. Será que assassinei, sem nem saber? Não, ufa... Era só o começo do fim da pior crise de todos os tempos. Essa, sim, não foi marolinha não...

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quarta-feira, 25 de março de 2009

DO OUTRO LADO DA JANELA >> Carla Dias >>

Ao invés de ler a pessoa numa olhada, como dizem fazer super bem muitos dos que conheço, prefiro chegar manso, perceber peculiaridades... Como as várias que habitam a existência dessa pessoa de quem conheço a cadência de cada passo, assim como a inconstância da sua jornada. Disse-me, outro dia, que era seu jeito de mudar as coisas já que, sozinha, jamais mudaria o mundo; que para as ações solitárias é preciso requintar a ilusão e que, ao encontrar outros, essa obra de arte emocional certamente faria seu papel coletivo.

É verdade que assistir ao show da humanidade alheia também cria vínculo com cenários difíceis de se apreciar. Como a pessoa que faz tantas coisas avessas ao que seria benéfico a ela e aos que o cerca, acreditando completamente que sabe mais do que todos a respeito, portanto é juiz, detentor do poder de resolver as questões fundamentais e que dizem respeito não só a ela, mas a outras pessoas. Nessa hora, tento manter a cabeça no lugar e o coração mais brando. Apesar de todos nós termos nosso momento de puxar para si a capacidade de decidir o que deveria ser uma decisão fundamentada por tantos, dureza é ver uma pessoa tomar para si essa função, sentindo-se mártir, padecendo a incapacidade de delegar definições. E raramente isso não provoca desafetos.

A construção de nós mesmos é lenta e nem sempre nos permite enxergar o destino. Eu, particularmente, acho que ela não tem fim, nem mesmo quando o fim da gente chega. Perpetua-se com nossos espíritos que, creio eu, têm mais o que viver, depois daqui.

Encarei fartas dissonâncias humanas, nesses últimos dias. Eu mesma assumi a autoria de muitas delas. Mas olhei de perto, sabe? Feito criança curiosa, ainda na fase das interrogativas. Nesse tempo, assisti telejornal com displicência de quem se fartou das tragédias. Emudeci diante do sorriso indisposto daquele que bradou - a voz atordoada - a dor imensurável de se perder o direito de comer, beber, trabalhar, viver, estudar, sonhar, amar... Um punhado de verbos fundamentais vetados pela miséria ferina destinada a tantos.

Para abrandar a melancolia crescente, observei o menino correndo pra lá e pra cá lá no parque. Tentei imaginar atrás de que, mas ele me percebeu. Aproximou-se e, antes que eu contasse uma história a mim mesma sobre ele, começou a falar sobre a sua capa de herói, que a mãe comprou na “loja bonita da rua de casa”; que iria salvar o mundo das garras do homem mau “que gosta de machucar gente e bicho e carros de corrida e tem cara de tatu”; que gostava de “sorvete de chocolate, bolo de chocolate, biscoito de chocolate, leite de chocolate”, e que aprenderia a voar, mas só “quando for grande”, porque o pai disse que “homem só pode voar depois que aprende a dirigir carro e tira carta”.

A mãe do menino, que nos observava de longe, aproximou-se e sorriu a certeza de qualquer adulto: é bom quando ainda achamos possível separar o bem do mal, o certo do errado. Quando os heróis sempre aparecem em tempo de acabar com o vilão.

Passei esses dias contemplando pessoas, meu passatempo favorito. Houvesse me empenhado, quem sabe, teria me tornado antropóloga, psicóloga, ou um bem-te-vi morando do outro lado da janela de alguém; olharzinho afinado feito o canto.


Site: www.carladias.com
Talhe - Blog:
www.talhe.blogspot.com




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terça-feira, 24 de março de 2009

ANAlisando o BBB -- Paula Pimenta

Não sou fã de televisão, se a minha está ligada, provavelmente é algum filme que está passando nela. As notícias eu leio através da internet e há vários anos não vejo novela, não tenho a menor paciência para seguir uma história que dura vários meses, sou ansiosa, preciso saber logo do final. Porém, um programa me faz quebrar essa resistência: sou completamente viciada em Big Brother.

Todo começo de ano é a mesma coisa. Procuro saber o nome de todos os participantes antes mesmo do primeiro dia, imagino de qual deles irei gostar, já no começo percebo quais merecem a minha torcida e geralmente mantenho minha preferência durante os três meses que duram o reality show. Fazer com que eu saia de casa às terças, quintas e domingos (dias de paredão, prova do líder e indicações) no horário do programa, é muito difícil. Torço mais pelos meus preferidos do que pelo Brasil na copa do mundo.

O time deste ano, na minha opinião, não foi muito bem escalado. Não entendo como no meio de tanta gente que manda vídeo para concorrer a uma vaga, os ‘olheiros’ da Globo conseguiram escolher pessoas tão sem sal. Mas vício é vício, não desanimei, continuei assistindo e aos poucos vi que eu estava um pouco enganada. Uma das participantes tem muito tempero, sim. Comecei a observá-la mais de perto e, hoje em dia, a defendo a ponto de já ter quase batido boca na rua com uma mulher da torcida adversária.

Eu gosto da Ana. Muitos dizem que ela é uma menina mimada, sem noção, egoísta, mas eu só consigo enxergar uma pessoa verdadeira, que não finge ser o que não é, como a maioria dos outros participantes.

Imagine-se no lugar dela. Você está calmamente andando pelo gramado da sua casa, de repente você pisa em um formigueiro. Qual a sua reação? A minha, pelo menos, seria chamar alguém pra exterminar com urgência aquelas formigas, antes que elas entrassem pela minha casa e, por sua vez, me exterminassem. Amo animais, me sinto mal se tenho que pisar em uma barata que seja, mas um caso desses é de matar ou morrer. E foi o que a Ana fez. Na impossibilidade de chamar alguém especializado pra acabar com a farra das formigas, como ela agiu? Resolveu tomar providências por ela mesma. Alguém falou que sabão em pó servia para matar formigas. Ela foi lá e colocou sabão no formigueiro, sem pensar que isso causaria algum tipo de prejuízo aos outros participantes. Na verdade, acho que ela pensou foi no bem estar geral da casa, naquele dia foi o pé dela que as formigas atacaram, mas no seguinte poderia ser o de qualquer outra pessoa. Ninguém enxergou isso. Só viram uma menina fútil gastando sabão em pó.

Outra situação para se imaginar. As pessoas que moram com você não ligam muito para limpeza. Todos os dias você vai ao tanque e lava os panos de prato, mas os indivíduos continuam sujando, sem se preocupar em lavá-los na sequência. Se não for você, os panos vão ficar engordurados pela vida inteira e na hora que você tiver que usar, alguém já usou antes e deixou tudo sujo. O que você faz? Eu faria o mesmo que a Ana fez. Lavaria uns panos e os esconderia, para quando eu fosse lavar a minha louça ter com o que secá-la. E aí já taxaram a pobre Ana de individualista.

Outro caso. Você participa de um jogo. A cada semana alguém tem que sair. Alguns participantes se unem e fazem uma espécie de ‘panelinha’, não votam entre si, e por isso sempre te colocam na berlinda junto com as pessoas que você mais gosta. Com isso, você tem que ver cada um dos seus amigos ir embora e fica cada dia mais sozinho. Eu também choraria, espernearia, chutaria o vestido, gritaria e me consideraria perseguida. Mas para quem implica com ela, isso tem outro nome: birra.

Além disso, é visível que a Ana é uma pessoa boa. Tantos participantes e com quem ela foi se enturmar? Com alguém que tem idade para ser avó dela. E ela cuidou da Naiá como se esta realmente fosse sua parente. Na época em que vivemos, onde os velhos são tratados com preconceito, deixados de lado, considerados inúteis, isso só mostra a boa índole da Ana.

Quer mais ainda? Pois a Ana é defensora dos animais. Impossível não me identificar quando a escuto contar dos bichos perdidos que já resgatou, dos sete cachorros que tem em casa e da vontade de comprar uma casa maior que caiba todos os animais que ela quiser.

Depois de tudo isso, se ela não ganhar quem vai fazer birra sou eu. E deixo a televisão de castigo. Pelo menos até o ano que vem, quando o BBB10 começar.


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segunda-feira, 23 de março de 2009

A DEMISSÃO >> Albir José Inácio da Silva

- Amanhã não entro mais por esta porta. Depois de tantos anos! Não, não vou pensar nessas coisas de suicídio. Não é a primeira injustiça nem será a última. Bem que vi os olhares, todos já sabiam e ninguém me disse nada. Isso prova que não existem amigos. Não há solidariedade nem em casa. Vão dizer que já esperavam, que a culpa é minha. Até minha mãe é capaz de falar que me avisou. O cretino do Nildo, se souber, é capaz de achar que eu não sirvo mesmo pra nada. E a Zuleica? Se falar alguma coisa, desmancho na hora. Capaz de ainda dizer que estava comigo por pena. Oh cambada! Eu devia ter saído antes. Aprendido a fazer outra coisa. Foram anos de dedicação, vestindo a camisa. Já era de se esperar: quem trabalha direito não tem valor. Vê se algum puxa-saco vai pra rua. Precisava era ganhar na loteria. Aí eles iam ver. Todos eles!

As palavras saíram assim, sem oxigênio. Depois desencurvou quanto pôde a cervical e disse que ia procurar emprego. Disse que devia ter estudado mais. Tinha gente que estudava. Mas ele às vezes não sabia a lição, não sabia o caminho, não sabia se vestir. Fazia o que podia mas sempre queriam mais. Como se ele não bastasse. Como um devedor. Passou a vida devendo. Sua mãe queria mais, a namorada queria mais, o patrão queria mais. Faltava nele alguma coisa. Os anos passavam e ele quase passava de ano. Quase arranjava um emprego ou arranjava uma quase namorada. Ouviu, animado, que era normal, que estudava, tinha emprego e namorada como todo mundo. Chegou a acreditar que era verdade, mas sempre soube o que ia acontecer. Perdeu emprego, amigos e namorada. A família já não o andava querendo mesmo. Pensando bem, nunca teve muito essas coisas. Ia continuar vivendo, só não sabia exatamente pra quê. Tanto esforço para organizar uma vidinha mais ou menos e agora isso. Vai procurar emprego, mas já sabe o que vão dizer. Sabe como vão tratá-lo. O mercado está ruim até para os muito bons. Não que ele não seja bom. Mas não tem tido sorte. Tem um tipo de gente que se dá melhor. As pessoas acreditam, valorizam. Não sabe se é genético, mas ele está sempre se arrastando. No trabalho e na vida. Talvez seja espiritual – já lhe disseram isto. Precisa descobrir.

Não afasta os pensamentos de autopiedade. Encharcado da humana angústia original, o único consolo é ter pena de si mesmo. Uma pena abrangente, compreensiva, que só ele mesmo poderia se dedicar. Pena do que não foi e do que não pode ser. Pena porque não foi nem pode ir. Duvida que alguém tenha tanta empatia, sabe exatamente do que precisa. Ninguém o justifica melhor. Um sopro quente vai-lhe enchendo a alma e uma dignidade o invade. Achou-se. Que venham os acusadores, ele se compreende e se abençoa.

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domingo, 22 de março de 2009

QUANDO A GENTE PENSA QUE ENLOUQUECEU >> Eduardo Loureiro Jr.

É horrível escrever sobre qualquer coisa quando todo o seu pensamento, e até mesmo o seu corpo estão se ocupando de uma outra coisa. Não, não é sexo. É frio.

Existem alguns ditados sobre Roma – “Quem tem boca vai a Roma”, “Todos os caminhos levam a Roma” – e até mesmo um trava-línguas – “O Rato roeu a roupa do rei de Roma” –, só não entendo por que esqueceram de comentar que aqui faz um frio de secar a boca, de evitar a caminhada e de tornar qualquer roupa dura demais até para um rato.

Tudo bem, talvez essa não seja a forma mais romântica de lhe dizer que estou em Roma, mas com certeza é a forma mais românica: friamente.

Ultimamente tenho imposto a mim mesmo passar por algumas situações desconfortáveis. Não que eu seja masoquista, eu apenas penso que só obterei o melhor pela via do sofrimento, la Via Crucis – deve haver uma rua com esse nome aqui em Roma. Tá, tudo bem, eu sou masoquista. Mas o frio foi só um efeito colateral, eu estava pensando numa situação desconfortável mais frequente e previsível em minha vida: conviver com pessoas.

Poucas coisas tiram tanto minha energia quanto gente. Pior que pessoas, talvez só doenças. Sim, pode parecer estranho que uma pessoa que não goste de pessoas – ei, eu não disse que não gostava de pessoas, mas tudo bem, é mais ou menos isso mesmo –, mas voltando... pode parecer estranho que eu esteja à frente de um site coletivo há dez anos. Garanto que não há paradoxo nenhum nisso. Se eu tivesse de conviver pessoalmente, cara a cara, com Carla, Claudia, Leonardo, Debora, Ana... esse site não mais existiria e vocês não estariam lendo isso agora.
O problema é que um dia percebi que, se eu sou uma pessoa que não gosta de pessoas, então eu não gosto de mim mesmo. E é muito difícil você não ser amado justo pela pessoa que teria todo interesse em lhe amar. Então resolvi me impor essas situações desconfortáveis, essas convivências com pessoas, com o objetivo de me amar.

Por exemplo, agora. Onde pensam que estou? Num tranquilo quarto de hotel? Não, não, não. Estou num albergue, escrevendo esta crônica enquanto Ignácio, um argentino, assoa o nariz, e Marco, um alemão, toma banho. Ainda tem Deishi, que provavelmente não se escreve assim, um japonês que ainda deve estar batendo perna por Roma. Estamos dividindo um quarto, ou seja, dois beliches, quinze metros quadrados e um banheiro. Isso é tão desafiador para mim quanto é desafiador para um alpinista escalar o Everest. Eu mereceria ter meu rosto nos telejornais, inclusive os italianos, só por essa façanha.

A verdade é que, tirando os naturais, frequentes, inevitáveis e irritantes aspectos de conviver com outras pessoas, normalmente são experiências enriquecedoras e, até mesmo agradáveis, principalmente quando elas já se passaram e acontecem apenas em minha memória. Um peido só fede no presente, um bêbado só incomoda no presente. Peidos e bêbados, para citar apenas dois problemas da convivência humana, perdem seu efeito e sua força no passado.

Não sei por que estou lhe contando isso agora. Talvez porque eu esteja tão longe que nem seus pensamentos ruins sobre a minha pessoa irão me atingir. Cruzar o Atlântico não é fácil, mesmo para pensamentos. Mas creio que o motivo principal de estar escrevendo agora é porque, quando nos desafiamos em demasia, chega o ponto em que pensamos que enlouquecemos. E não existe meio melhor de expressão da loucura do que as palavras muitas e, desculpem o pleonasmo, loucas. Dizer que não se gosta de gente é realmente uma expressão verbal à altura da minha loucura. Depois das palavras muitas – qualquer um de vocês pode constatar isso indo a um hospício – vem o silêncio, o louco silêncio.

Parece que é ele que está se aproximando agora.

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sábado, 21 de março de 2009

DITOS POPULARES [Sandra Paes]

Outro dia me peguei pensando sobre o uso e origem de algumas expressões. Tenho uma amiga que está sempre citando um ou outro e percebo que desconheço muitos deles.

Por exemplo: "A cavalo dado não se olha os dentes." Será que alguém hoje em dia dá algum cavalo pra alguém? Me parece coisa do tempo do império isso ai. E olhando para algum caso, em algum ambiente ainda ouço: "Quem semeia vento colhe tempestade." Essa é dificil de localizar.

E fiquei curiosa ainda mais: quem ainda hoje usa no seu corrente falar ou escrever os ditos populares?

Há algumas expressões que, lembro bem, ouvia minha avó falar. Coisas que nunca mais ouvi. E me pego surpresa ao ver programas como novelas de adolescentes, onde literalmente sofro pra entender o que dizem. Não gosto de gírias - de maneira geral, nunca as usei e agora então, nem me dou conta mais do que se usa.

Afinal, idioma muda com o tempo, com os hábitos, com os convivios, com as descobertas e com as turmas. Sinto que não sei mais o que é realmente popular ou não.
E ainda mais quando, vez por outra, vejo uma apresentadora de televisão que frequentemente usa tais ditos. O mais intrigante deles pra mim é: "A voz do povo é a voz de Deus."

Quem será que cunhou isso? E na medida que a voz do povo se faz tão manipulada pelo marketing e pela mídia de forma geral, o que será que Deus tem a ver com isso? E, aliás, de quem Deus falam?

Penso nos versos de Gilberto Gil na canção "Se eu quiser falar com Deus..." e se para ouvir a Deus há que se ouvir o povo, gente do céu!, como fica tudo tão complicado, não?

Vai se esbarrar em conceitos de escolhas, corredores de possibilidades, pesquisas de opinião, livre arbítrio - que de livre nada tem de tantas regras e leis espalhadas por aí -, e mais toda a vigilância possível da moralidade vigente ou subjacente.

Num mundo onde se fala apenas em crise, em corte de gastos, em novos rumos de vida, em economia de água e de espaço, em apertar os cintos, onde os governos nada governam e bandidos assaltam até os quartéis em busca de novas armas e munições, o que seria mesmo popular?

No meu tempo de garota, arrastão era nome de música. Hoje é nota de jornal para se referir a assalto coletivo. Será que virou também um dito popular? Nos tempos em que Buzios ainda tinha ruas de terra, ver o arrastão era acompanhar de perto o trabalho dos pescadores puxando as redes e ainda participar disso. Hoje, se alguém disser, vai ter arrastão na praia, indica perigo. E fico logo pensando que teria que aprender um bom número de jargões e ditos populares apenas pra visitar minha cidade natal, quiçá ter que viver nela.

Dá um cansaço só de pensar. Meu tempo de adaptação e a vontade de me fazer parte de um todo onde sou uma peça que sobra, andam lentos e escassos. E ainda há que se perseguir a felicidade. Listas de cuidados com a pele, com o trânsito, com a alimentação, com a qualidade da água que se banha e se bebe, com as pessoas com quem se fala, com as companhias telefônicas, com os provedores de serviços de internet, com os abusos de cobranças bancárias, com a qualidade dos produtos nos mercados e ainda, fiscalizar a saúde, os exames anuais, etc. Onde se esconde a felicidade diante de tudo isso?

O que me fez lembrar mais um outro dito popular, esse muito citado pela minha saudosa mãe: "Felicidade é como um guarda-chuva, sempre está onde a colocamos, mas nunca estamos onde a pusemos." Mais ou menos isso, apenas pra dizer que acabava sempre tomando chuva nos finais de tarde no verão, por que sempre deixara o guarda chuva em casa, mais cedo.

Agora, olho a televisão e vejo a cidade de Sao Paulo totalmente alagada. Ruas inteiras devastadas e dezenas de pessoas desabrigadas e sem ter onde morar mais, por conta de uma tempestade de verão. Vale o que esse ditado diz sobre a felicidade?
Não tem guarda-chuva nem dito popular que ajude a amainar os tempos de agora. A violencia abunda até na natureza. E o povo nada diz sobre o que Deus acha de tudo isso.

Vou aposentar meu vernáculo.

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sexta-feira, 20 de março de 2009

VINTE E SETE ANOS >> Leonardo Marona

hoje estou tão distante
do meu próprio nascimento quanto
estou distante do meu pai,
que tinha a minha idade
quando eu nasci.

e nunca estivemos tão longe.

é a era de aquário, eles dizem,
e eu fico satisfeito, nadando
sozinho no meu próprio vidro.

mas o que faz dois distantes,
creio não ser a falta de amor,
mas talvez uma escassez por dentro,
alma vendada diante do penhasco,
que move a parte aventurada do espírito,
cachorro Buck voltando a galope
da expedição que lhe rendeu essa distância
(essa tamanha juventude violentada no chicote),
arrastando sozinho o trenó e outros cães mortos,
que pesam e talvez seja porque a morte
é um perder peso que pesa tanto
sobre os que sobram, sempre os de ternura impávida,
envergonhados do choro que não é emoção contida,
é um espaço feito faca entre corpos de ferro,
é isso que permanece e que não compreendemos,
talvez um desperdício demasiado de vontade cega,
um não saber reter a vida como fonte interminável,
uma coragem literária que murcha na fila do banco,
no lançamento de poetas iconoclastas e com bafo,
no pasto com vacas como as dos potes de requeijão,
no amor, na percepção nítida de que algo em nós
está se afastando, se escondendo para depois voltar
com força, provavelmente em hora inesperada,
quem sabe quando pensarmos outra vez dois juntos,
a carne remota, as políticas que já não interferem:
acho que isso é o que torna as pessoas distantes.

esse estado de se estar de algum modo flutuando,
esbarrando na realidade como algo inverossímil
e ao mesmo tempo prático demais – ah meu pai! –
e você estaria daqui a pouco esperando, como eu,
pelo desconhecido que viria de um ventre ameríndio,
com cara de chinês, quatro quilos e oitocentos gramas,
e apenas aquilo seria a nossa cruz: aquele peso todo.


http://www.omarona.blogspot.com/

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quinta-feira, 19 de março de 2009

OS PERNILONGOS >> Ana Coutinho

Eles voltaram. E voltaram com tudo. Parece que, a cada ano, ficam mais fortes. Pois eu acho que deveríamos aprender com os pernilongos. Que tipo de treinamento fazem? Como conseguem sobreviver por todas as gerações, enlouquecendo a todas elas, apesar do avanço tecnológico, do aquecimento global, das células tronco?

Os pernilongos surgem como o Natal. Quando a gente vê, já chegou. Mas é ainda pior do que o Natal, porque se pode evitar. Como uma gravidez indesejável, há tantas formas de nos livrarmos dos seus zumbidos infernais, por que meninas cada vez mais novas ainda ficam grávidas? É a mesma coisa. Mesmíssima. É fácil, fácil, fácil, mas não é tão fácil assim, né?

O Protector da tomada, dizem que dá câncer. Já ouviu isso? Não tem comprovação científica, mas, venhamos e convenhamos, não há comprovação científica pra milhares de coisas óbvias, né? Tem a tal raquete, super na moda de uns tempos pra cá. Mas se você compra a chinesa, ela pifa ou acaba a pilha bem naquela noite insuportável. Pronto, é a camisinha que furou... “Mas com tanta informação!”, dirá uma mãe desavisada...

Eu achei outro dia um produto desses, de tomada, que dizia que emitia um ruído que afastava os pernilongos. Nossa, até que enfim, vibrei! Sem câncer, sem picadas, sem zumbido. Pra mim, né, que eles iam sofrer com o tal ruído. Será que o ruído era correspondente ao zumbido infernal que eles fazem em nós? Um gosto doce de vingança invadiu a minha boca.... Hummm, eu deixaria aquele negócio na tomada por toda uma vida, pra eles verem como é bom pra tosse um zumbido fino no ouvido. Mas eles têm ouvido? Fui pesquisar e a minha descoberta foi chocante: só os pernilongos fêmeas que fazem o barulhinho, e elas são afastadas pelo barulho do macho, que era simulado pelo meu aparelhinho milagroso. Não titubeei: Enfiei o troço na tomada com toda a minha força e, já deitada, pensava nas “meninas” correndo e dizendo uma para as outras: “Tá cheio de homens, fujam, fujam, fujam!”. Elas decididamente são diferentes das humanas...

Acontece que não levou 5 minutos até que zzzzzzzzzzz, ai que ódio: “Fia %$&*#!”, levantei e gritei com toda a minha força. Pelo menos eu sabia xingar na concordância certa, era uma fêmea, e o aparelhinho milagroso é uma enorme furada. Praticamente uma pílula de farinha. O ruído dos homens, definitivamente, não afugenta mais ninguém...

Antes de desistir, ainda olhei o spray no armário e pensei em matá-los com duchas de Protector. Grande coisa. Se elas não tinham medo de seus parceiros, aguentariam o veneno... Capaz ainda que eu é que tivesse que sair do quarto por conta do cheiro.

Acabei por desistir. Resignada, parabenizei as “meninas” em voz alta, e fui pra cozinha comer...

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quarta-feira, 18 de março de 2009

O LIVRO DA CLAUDIA FOI AO TEATRO >> Carla Dias >>


Nem ficar
que o bicho come
Nem correr
que o bicho pega
O negócio é espreitar
pra ver se o bicho cansa.
Claudia Letti


Sexta-feira passada foi 13. Não tenho nada contra sexta-feira, tampouco contra o 13 que até considero um número de sorte, já que única vez em que ganhei coisinhas de rifa foi porque escolhi 3 números que na soma davam 13. E na sexta-feira 13 de fevereiro foi tudo certo... Diazinho do bom!

Mas a semana passada, tive minha primeira quase terrorista sexta-feira 13...

O dia foi daqueles em que a gente pensa em pedir a conta do mundo. Eram tantas coisas para resolver e uma Carla só que não sabia se andava pra frente ou dava pulinhos pro lado. No decorrer do tal dia, teve até quem me insultasse com uma coleção de frases feitas. A tentativa de culpar a mim pela falta de responsabilidade própria, valendo-se de clichezinhos que vou te contar, me irritou tanto que passei o dia sem conseguir engolir nada. Afinal, mais bacana é quando você pisa na bola e assume. Tentar passar seu erro para outro o torna um verdadeiro imbecil aproveitador.

À tarde, recebi o livro da Claudia, a Dona Letti. Já o esperava, e ele chegou no meio dessa doideira. Ele passou o resto da sexta-feira 13 sobre a minha mesa, empacotadinho. De vez em quando, eu olhava pra ele e ficava muito a fim de abrir e conferir a capa! Mas achei melhor não, porque me conheço... Sou das que desembrulham a bala e a joga na boca!

No comecinho da noite – eu descabelada, cansada, a fim de enfiar a cabeça num buraco -, caiu uma chuva daquelas. Vocês sabem que eu amo uma chuva... Daquelas, então! Fiquei uns cinco minutos olhando para ela, rebelde, bonita. Eu sabia que, enquanto eu contemplava a chuva, a cidade estava se encharcando. Morro de culpa, mas...

Eu tinha um compromisso na sexta-feira 13 à noite. Eu e um casal de amigos, Paulo Renato e Raquel, combinamos de assistir a peça Querido Mundo, no Teatro Gazeta. Eu adoro essa peça e acho que os atores, Maximiliana Reis e Jarbas Homem de Mello, fazem um trabalho lindo com o texto do Miguel Falabella e da Maria Carmem Barbosa. Mas para saber mais sobre esse meu afeto, e vale saciar a curiosidade cultivada, clique AQUI.

Dei sinal, o ônibus parou, eu certa de que a sexta-feira já estava mais para sábado. Subi no ônibus e o motorista, olhando para o outro lado, sem me dar a menor bola, decidiu fechar a porta, enquanto eu ainda estava segurando nela, no meio do caminho para, efetivamente, entrar no ônibus. Só não fui expulsa dele, com direito a um belo tombo, porque depois de fazer laboratório de jogo de cintura durante todo o dia da sexta-feira 13, decidi que não seria ignorada pelo motorista de ônibus.

Entrei... Sentei... Cheguei ao teatro quinze minutos depois, contrariando a expectativa óbvia de que Sampa estaria empacada por conta da chuva.

Como cheguei cedo ao teatro, abri a bolsa, saquei de lá o envelope ainda lacrado, arranquei de dentro dele o livro da Claudia Letti, estaquei na entrada do teatro e comecei a ler. Nesse momento, que julguei seria o meu de paz do dia, as portas do teatro se abriram e de lá saíram muitas pessoas, público da peça anterior a que fui assistir. Eu que sou moça meio bicho do mato, senti-me afetada pelo falatório, gente pra lá e pra cá, fumando seus cigarros, comentando seus agrados. Não por fazerem o que faziam, mas sou daquelas que não sabe estar só no meio de muita gente desconhecida.

Diabo de sexta-feira 13...

Concentrei-me no livro, na leitura transeunte das palavras da Claudia Letti. Na poesia ou na prosa, a moça diz de um jeito pungente as façanhas da vida e as do ser humano também. Vez ou outra, meu olhar escapava do livro só para ver se meus amigos se aproximavam. Esperar é algo que me desperta o desejo claro de escapar do tempo e adiantar relógio. Pena que sou apenas um ser humano que consegue - tão só - cumprir horários.

Um homem se aproximou, cigarro na mão, disse algo que não entendi. Baixei o livro, olhei para ele e sorri meu sorriso deslocado: “como?”. E ele deu mais uma olhadinha no livro, “eu sei qual é o fim... quer que te conte?”. Sorri o meu sorriso ‘te peguei’ e “não, obrigada... são tantos os finais...”. Não contente, ficou do meu lado: “É auto-ajuda, né?”.

Né... Né... Né...

Respondi que não, “poesia e prosa”, e ele disse: “Ah...” e ficou por ali, com seus amigos e um cigarro atrás do outro. Mais tarde, me confidenciou que tinha de fumar, antes de assistir ao espetáculo, senão daria aquela vontade impossível de ignorar, bem no meio da festa. Eu que não fumo, quase soltei um “ah, eu sei... é igual quando não fazemos xixi, antes de sair de casa, e ficamos com vontade cinco minutos depois”. Mas achei que seria informação demais para o momento.

Meus amigos chegaram, assistimos ao espetáculo que, assim como as três vezes anteriores em que o assisti, foi lindo que só. Ri muito nessa comédia sobre gente tentando se descobrir capaz de superar tragédias e se permitir caminhar com a felicidade.

Minha trágica sexta-feira 13 acabou quando comecei a ler o livro da Claudia, amansou mais ainda quando meus amigos chegaram, e me fez muito feliz com a história do espetáculo. Fui dormir em paz, quase sem rastro do dia que me tirou do sério, me fez repensar o que ando fazendo da vida, me fez sentir nada bem-vinda ao ônibus Pompéia 478P.

Em tempo... Falarei mais sobre o livro da Claudia, o que foi ao teatro comigo, numa próxima crônica.

Site: www.carladias.com
Talhe - Blog:
www.talhe.blogspot.com



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terça-feira, 17 de março de 2009

PALAVRAS RASCANTES >> Claudia Letti


Existem palavras e expressões que grudam, tal qual aquelas músicas que nos perseguem da manhã à noite, penduradas que ficam em nossas cordas vocais enquanto zunem na nossa cabeça. Se for uma música antiguinha ou antigona, menos mal, mas quando é um sucesso recente, ruim e popular, aí só recitando mantra pra desfazer o feitiço. Mas eu falava em palavras. Tem sempre uma palavra ou uma expressão da moda que invade todos os textos, papos, anúncios, comerciais de tv e, consequentemente, a nossa cabeça.

Há alguns anos, todos os que queriam ser executivos, empresários ou afinados com o que quer que seja isso, carregavam em suas pastas, além da papelada e dos contratos, um monte de Paradigmas (que vem do grego Parádeigma, segundo soube, e que significa "modelo"). Pois não seria tão mais fácil usar palavras como modelo ou padrão, que expressariam a mesma coisa e são muito mais simpáticas do que usar Paradigma? Mas alguém deve ter escrito um livro em defesa – ou acusação – do Paradigma e ele padronizou todo mundo na tentativa de quebrá-lo. Quebraram tanto o tal do Paradigma que hoje, de tão craqueladinho, coitado, quase nem aparece mais.

Foi antes ou depois que os Quixotescos Consultores perseguiram o Paradigma que veio a Reengenharia? Não havia por onde escapar dessa que significa(va), noves fora, reformulação. Como a Paradigma, a palavra Reengenharia também estava na maleta dos executivos, ansiosos para obter mais lucro de suas empresas. E pra fazer a Reengenharia funcionar, reinventaram a cooperação que então passou a se chamar Sinergia, que grudou por um tempo e não se sabe se realmente cooperaram entre si. No fundo, Reengenharia e Paradigma, para uma leiga como eu, parecem ser a mesma coisa, só mudaram o corte do cabelo.

Os holofotes também se voltaram para o Desenvolvimento Sustentável. O camarada não sustentava nem a si, mas sabia exatamente a hora e o local de falar de boca cheia sobre o tal. Todo mundo falava, mas fazer que é bom... E no rastro dele vieram os desenvolvimentos econômicos x ambientais x versus. E dá-lhe responsabilidade social, biodiversidade, meio-ambiente; um Tsunami (outra que grudou) de palavrinhas bonitas e politicamente corretas – expressão que também entrou na roda e pegou mais do que o “a nível de”. Até chegarmos na palavra Biocombustível, que promete ser tão efêmera quanto a moda e que um pessoal das antigas conhece por beterraba e cana de açúcar. O tal do Desenvolvimento Sustentável teve seus dias de glória e grudou. Difícil foi pegar. Até hoje.

Meio ao mesmo tempo desse desenvolvimento que parece que não se sustenta, o mundo se transformou numa aldeia global. A palavra Globalização agarrou gregos e troianos, e quem não era globalizado não inspirava respeito na sua própria aldeia. E com esta palavra vieram outras, logo atrás na passarela das contagiosas: dinâmica, interatividade, diversidade. Todo mundo sabia tudo de todos e o que acontecia lá era como se estivesse acontecendo aqui. Globalizaram tanto que, de fato, conseguiram, e uma crise que acontece lá mela tudo por aqui também. Me admira que ninguém tenha quebrado o paradigma da palavra e feito sua reengenharia para colocar outra mais sofisticada no lugar de "crise". Agora querem desglobalizar na base da Sinergia pouca meu pirão primeiro, mas a aldeia virou um grande cortiço e não vai dar pra manter cada um no seu quadrado...

Repare que estou me esforçando para não colocar no mesmo balaio as palavras e expressões old fashion, as menos elegantes do “tipo assim” (já saindo da coleção de 2009) e o “veja bem”. Nem vou falar que a velha, boa e muito útil palavra "sim" não existe mais, se transformou no “com certeza”. Também pudera, nesta crise sem ter certeza quem vai acreditar que o sim é um sim?

Depois desse desfile de brechó, não posso deixar de exibir uma palavra nova que, acredito, será uma tendência para a próxima estação. Dia desses, eu que não entendo nada de vinho mas fui comprar por questões circunstanciais, escutei (uma dúzia de vezes) de alguém que parece entender da bebida tanto quanto eu, a palavra Rascante. Diante da minha total ignorância, o atendente da loja gentilmente me explicou: Rascante é quando o vinho "pega" na garganta.

Ou seja, se é Rascante, já grudou.

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segunda-feira, 16 de março de 2009

UMA PETRÓPOLIS E 166 MARIAS
>> Maria Rachel Oliveira


(Palácio de Cristal - foto Márcio Pregal)

Pois que 16 de março é o aniversário de Petrópolis, onde nasci e onde moro até hoje – apesar de algumas tentativas de abandono malsucedidas. Acho que a cidade está fazendo 166 anos. Digo acho porque foi impossível checar rapidamente a informação com uma simples googlada – como aliás se resolve praticamente tudo ultimamente. Uma das maiores falhas do município é justamente a qualificação dos profissionais de algumas áreas, entre elas, da Comunicação – e não foi possível encontrar essa informação na página da Prefeitura.

Soube, não me lembro bem em que momento, que a cidade começou a nascer quando nosso então Imperador Dom Pedro I, que ia do Rio de Janeiro para Minas, olhou lá nossas matas e achou um lugar aprazível para parar e apreciar o clima ameno e a vegetação exuberante da região. Bem ao estilo da Coroa, logo tentou comprar a fazenda onde havia se hospedado, na região do distrito hoje conhecido como Corrêas (então fazenda Padre Correia). Não conseguiu, mas acabou convencendo o proprietário do quinhão de terra vizinho, e da Fazenda do Córrego Seco deu de nascer minha cidadezinha querida. Bem ali, no Museu Imperial (onde matei uma meia dúzia de aulas passeando pelo jardim), a menos de um quilômetro da minha casa.

Se desde a minha adolescência, minha Petrópolis já não é a mesma, nem a vida e nem o mundo o são, em igual medida – nem iguais permanecemos nós, ainda bem; espantoso se fôssemos. Já mudei e mudaram-me tanto que já começo a namorar de novo com a idéia de deixar a minha terra. Resultado, talvez, de um mix de preguiça misturada com praticidade e um certo dó.

Dó de desatar esses laços que foram feitos com as delicadas lembranças que só os primeiros olhos vêem e as primeiras emoções sentem. Como por exemplo, o Palácio de Cristal, onde eu acreditava – e ainda hoje duvido se não – que à noite bailavam príncipes e princesas. Quando me convencer por um lado ou outro, decido.

Até lá vou caminhando pelas sombras de suas grandes árvores, fotografando a Catedral, passeando de pedalinho pelo lago do Quitandinha e assistindo ao pôr-do-sol do Parque São Vicente. E - quem há de saber - se isso é um reencontro ou uma doída despedida. Até lá há ainda há muitos dias a se celebrar. Algumas Petrópolis. E muitas Marias.

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domingo, 15 de março de 2009

MÃE NATUREZA >> Eduardo Loureiro Jr.

Aline Belfort - Flickr.com

Depois do agito de ontem, hoje tudo está mais calmo.

O casal que passou a noite em claro, talvez de festa em festa, bebendo e falando alto, deixa as ondas molharem a saia e a calça. O trio de amigos, também vestidos para a noite que já se foi, troca a embriaguez arriscada por ingênuas cambalhotas no raso.

Eu caminho à beira-mar, no início da manhã, ainda com cara de quem acordou há pouco: sandálias numa das mãos e camiseta jogada sobre o ombro. De calção de banho, eu sou o estranho em meio a trajes de festa e farra.

O mar acalmou também. Ontem ele estava cheio de não-me-entres. Ondas quebrando umas atrás das outras, ao mesmo tempo, demarcando território, provocando medo. Hoje parece que Deus resolveu passar a ferro a superfície do mar: água lisinha de lago. De mar, apenas a renda sutil das ondas — uma de cada vez —, quebrando já pertinho da areia. Entrei, saltei o muro suave de espuma e fiquei naquele lugar tranquilo de mar, antes da onda rebentar. Deu até pra compor pequenos versos mentalmente:

Quando o mar cala
o vento fala.

*

A onda faz silêncio
antes de quebrar.

*

O mar
— sereno —
finda
na praia
— do futuro —
com estrondo.

Até o meu amor, minha mulher, que ontem era ruidoso silêncio, hoje resolveu amanhecer com suaves palavras. "Depois da tempestade, a bonança" — bonito é o dia em que o que é ditado torna-se vivido.

— É preciso mesmo isso tudo?

— Sim, meu filho, é preciso.

— Mas, mãe, eu não tenho paciência.

— Pois, meu filho, tenha pelo menos coragem.

Hoje a vida se desdobra atendendo a pedidos. Penso, logo existE. O pensamento vai acontecendo coisas: uma carona, uma conversa, uma crônica, uma visita, uma comida.

Partida em cima de partida, e ainda falta tanto tempo pra voltar pra casa. Vou caminhando à beira-mar dos dias, catando pedrinhas de saudade e lembrando trechos de um poema antigo:

O mar é maior.
Andar na praia
até cegar o sol.
Até ser longe demais
para voltar.
Até não ter
como atravessar.
Até parar.

Deixando pegadas, adquirindo pegada. Na casa da Mãe Natureza, tem colo, engatinhado, queda, caminhada, choro, estripulia, chocolate, dor de barriga. Mãe Natureza, mesmo quando viaja, deixa a comida, mas tem que tirar da geladeira; deixa a luz, mas quer que a gente acenda; deixa a alegria, mas tem que limpar a sujeira.

E o dia amanhã talvez volte a ser de agito. Que seja, ou que não seja. Eu amanhã talvez ainda continue a ser calmo. Que seja-não-seja. Filho crescendo à imagem da mãe, vou aprendendo a transparecer a sua-minha Natureza.




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sexta-feira, 13 de março de 2009

os malditos não choram ou elegia ao pão de cada dia >> Leonardo Marona

dedicado a John Coltrane e Tia Mulata


pão beijo na boca padaria madrugada café na cama ereção matinal namorada filé com fritas tédio fugidio declínio cama levita uivo desejo pálido copula evita destino trágica relação mutante orgulho cálido ovulação andar sobre o pus do sangue presságio casamento.

pão bebum no ralo da sinuca bafo de pinga punho escarro fétido na cara tapa de quem parece própria cara lavada amarga verniz da morte acalentada acende desfiladeiro armas e corações partidos copos de vidro mesas onde brindávamos tudo até o fim da noite amizade nada.

pão passo firme no assoalho ímpeto de mãos vazias prantos pavor pecado bafo frio cigarro longas unhas curvas túmulos dos teus desejos medonhos sonhos cultivados para sempre serem roídos ombros contrações latentes do teu sorriso sujo guardado junto do teu contato em esponjas de sol luz de banho sob olhar preguiça que guardava costas até noite quando sinais repetem sonhos que se repetem inúteis sem tuas sardas sinos no meu travesseiro.

pão trás leva esconde pecado perdão diário de dó de ló mentiras e alho no ritmo do vai e vem no nó da aureola do diamante intacto recente maculado a cada pão que sopra hálito diabo nas orelhas maltratadas por razões entranhas estranhas ao próprio diabo que é você mesmo com um saco de pão nas mãos voltando pela madrugada cara lavada perfumada outra para cair nos braços da mesma maior pecadora que aceita recolhe cacos das fatias de amor sobra da devassidão.

pão eterno cúmplice único a quem não precisamos jamais perdoar por seus farelos ou pedir perdão pelos sacos escuros onde os guardamos à noite quando só as formigas se mexem para sempre abandonados capachos da dor a quem muitos murmuram destinos e pecados.


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quinta-feira, 12 de março de 2009

DUAS RODAS >> Ana Coutinho

Já tinha passado da hora. Eu já era grande demais para precisar das rodinhas traseiras da bicicleta. Então alguém – que não lembro quem – tirou as rodinhas da minha bicicleta e anunciou, para quem quisesse ouvir, que a partir de então eu só andaria de bicicleta se fosse como gente grande – ou ao menos não tão pequena. Eu, boba como sempre, fiquei calada e abandonei a bicicleta. Abandonei porque me sabia fadada ao tombo, ao fracasso, a uma inevitável e dolorosa queda, a qual eu evitaria o quanto fosse possível. Mas o marasmo da infância faz mesmo maravilhas...

Era um dia de sol em São Paulo, quando eu passava horas sem fazer nada no térreo. Estava entregue ao ócio há tempo demais, o que me impulsionou a descer à garagem e buscar a minha bicicleta, sem nem saber bem o que eu iria fazer com ela. Não precisou muito tempo paquerando a minha magrela para que eu resolvesse tentar. Foi num susto, um enorme e longo susto que notei: eu conseguia andar sem as rodinhas. Ainda me lembro da emoção desmedida que tomou conta de mim. Eu mal conseguia controlar a minha respiração, andava em círculos sem parar, encantada com a minha habilidade, como se, de repente, eu estivesse falando fluentemente inglês ou – melhor – como se tivessem me sido dadas enormes asas e eu pudesse, num instante, voar.

Mas eu estava sozinha e qual é a graça de conseguir voar se ninguém pode te ver? Comecei imediatamente a gritar, lá do térreo: “Mããããããããe!” Ela não ouvia. Tentei de novo e de novo, sem sair de cima da bicicleta, sem parar de pedalar em círculos pequenos, como se, parando por alguns segundos, eu pudesse perder o encantamento de saber e, talvez, não conseguisse mais repetir aquele feito incrível. Demorou um pouco para que a minha mãe aparecesse na janela acenando. Eu, imediatamente gritei com uma euforia sem tamanho: “Olha, mããããe! Eu estou andando sem rodinhas, sem rodinhas mããããe!”. Ela deve ter dito qualquer coisa como parabéns, deve ter sorrido e acenado para mim, enquanto eu me esforçava para andar e olhar para cima, equilibrar-me e exibir-me.

A alegria continuou, mesmo quando eu comecei a notar que havia algo estranho. Talvez tenham sido os círculos, talvez o fato de ter ficado olhando pra cima, talvez a conquista inédita e preciosa, mas aconteceu que eu comecei a sentir-me mal. Subi correndo e, muito depressa, comecei a vomitar. Nunca mais na vida vomitei com tanto gosto e alegria. Ainda me lembro da empolgação, mal contendo o riso, enquanto a minha mãe dizia: “Tá vendo, foi ficar rodando, olhando pra cima, isso que dá!” E eu, sorridente, só sabia repetir abaixada no chão frio do banheiro: “Eu consegui, mãe. Eu consegui, você viu? Eu consegui!”

Hoje, tantos anos depois, muitas vezes me sinto como aquela menina quando alcanço uma conquista. É bem verdade que poucas conquistas foram tão importantes quanto essa, mas ainda as pequenas, as conquistas tolas do dia-a-dia, me dão vontade de gritar e anunciar.

Acho mesmo bem provável que passemos a vida toda tentando ter a atenção e o amor que recebemos quando criança. Talvez, independente da nossa idade, todos – absolutamente todos – queremos nos descobrir capazes e vencedores, apenas para poder gritar, com toda a força de seu pulmão: “Olha, mãããããããe, eu consegui!”

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quarta-feira, 11 de março de 2009

ESPELHOS >> Carla Dias >>

As duas últimas semanas foram, no mínimo, curiosas. Durante esse período, jurei quatro vezes que seguiria a dieta, direitinho, para ficar bonita para o tipo de espelho que não tenho em casa. Contei pra vocês? Tenho espelhos para não apreciar reflexo de mim.

Um fica no quarto e é redondo, pequeno, velhinho, e eu o guardo como lembrança de superações. Mas isso em nada tem a ver com me olhar nele e me sentir linda que só. Atrás desse espelho, na moldura de cortiça, há rabiscos de alguém muito querido sobre isso: superação. Antes de chegar lá, essa pessoa escreveu sobre sua solidão atrás do espelho. Não consegui me desfazer dele.

O outro espelho nem meu é... O do banheiro, alugado com o apartamento, onde olho para mim, já saindo, todos os dias, só para saber se não estou descabelada.

Quando pequena, gostava mesmo era do reflexo meu na Represa Billings, quase quintal de casa; no tanque cheio de água para banho de refrescar da tarde quentíssima, nas grandes bacias que antecederam o chuveiro elétrico. Na verdade, não era o meu reflexo que importava, mas a forma como a água o despenteava, deixando minha imagem com um movimento que me agradava muito mais do que a linearidade que as pessoas teimavam em dar à imagem da outra, sem saber sequer se elas concordavam com ela.

Adolescente, tive uma penteadeira no quarto, herdada de minha mãe, na fase de querer me transformar em adulta de vez. À noite, olhava para o espelho suspeitando de que nele havia algum tipo de magia. Além de chamar relâmpagos para dançar e depois explodir em caquinhos, ouvi dizer que se olhasse no espelho, com a luz apagada, veria o reflexo dos espíritos que me acompanhavam. Por mais sedutora que me parecia a ideia de que o espírito tem uma jornada muito maior do que, na carcaça, podemos imaginar, o medo de me saber tão capaz de ir além do espelho me fazia recuar.

Antes de dormir, ficava em pé perto do interruptor, fechava os olhos e depois corria pra cama, garantindo que meus olhos não alisassem o espelho, durante o caminho.

Os espelhos d’água sempre me fascinaram de uma maneira muito intensa. Se me largarem à beira de uma poça de água, é capaz de eu ficar por lá um bom tempo, observando como o vento vem e reescreve a figura dela. Essa capacidade de mudança e, ao mesmo tempo, de se adequar ao espaço que lhe cabe no momento, tem um poder sobre a minha transformação – ou lapidação – pessoal. Sou uma pessoa melhor por conta das poças d’água que a vida permite observar, pular, secar, à escolha dessa freguesa aqui.

Talvez haja um espelho por aí que não seja cruel como o da bruxa da Branca de Neve, porque, pense bem, ver-se sempre linda, bonequinha, sabendo que basta puxar a máscara e não somente as rugas entrarão no palco, mas também essa coisa letal de acreditar que a imagem refletida deve ser sempre impecável. E durante essa ilusão de que o espelho, aquele enorme fixado na porta do armário ou na parede quarto, é o sábio que abarca a identidade da beleza, perde-se a capacidade de olhar a si mesma com a sutileza da compreensão da própria humanidade.

Sei que nunca tive espelho para comprovar quando e se fui bonita, ou quando e se deixei de ser. Engraçado que você só sabe que é depois de ter sido, o que acho um pleonasmo temporal. E depois que foi, sabe Deus se conseguirá ser novamente, ou se o novo ser que cultivou caberá no espelho-modelo da sociedade. Para mim este espelho-modelo não serve, nunca quis caber nele, tampouco aplico suas regras às outras pessoas. Porém, é fato que seus cacos doem debaixo dos pés até de quem duvida da existência dele.

De vez em quando o espelho me dá uma canseira... Não os d’água... Esses eu gosto de namorar.

Site: www.carladias.com

Talhe - Blog: www.talhe.blogspot.com



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terça-feira, 10 de março de 2009

DOENÇA INCURÁVEL (parte 2) -- Paula Pimenta

Parece castigo. Exatamente um mês atrás, escrevi uma crônica falando da minha paixão por cachorros. Nela, contei a história de cada um dos seis cachorros que temos em casa, expliquei que muitos deles não foram planejados, e que não duvidava que daqui a pouco aparecessem mais, já que eu não consigo ver um cachorro carente e olhar para o outro lado. Aposto que foi praga de alguém que não gosta de animais (já que eu chamei esses de “sem coração” na tal crônica), porque agora – apenas 30 dias depois – temos mais um habitante canino por aqui.

Sexta-feira passada, meu irmão estava chegando em casa, quando viu um cachorro andando de um lado para o outro em nossa rua. Ele ia para a direita, subia, rodava o quarteirão, voltava... e estava bebendo água suja de uma poça. Nessa hora, meu irmão não aguentou. Eu também não aguentaria. Colocamos o “cachorrinho” pra dentro, onde ele está até o presente momento, terça-feira à noite. Acontece que na verdade ele não é um cachorrinho. Ele é um boxer enorme! Enorme, lindo e muito manso. Estava morrendo de fome e de sede. Imaginei que o dono dele morasse por perto e estivesse desolado. Imediatamente comecei a busca, liguei para praticamente todas as casas do bairro, mas descobri que ninguém nas redondezas perdeu cachorro nenhum. No sábado imprimi vários cartazinhos com a foto dele, distribuí pelas padarias, pet-shops e lanchonetes da região, mas o telefone não tocou nenhuma vez. Em um dos pet-shops, um funcionário falou algo que já tinha passado pela minha cabeça: “Será que ele não foi abandonado? Está muito na moda abandono de cães...”

No dia em que eu publiquei a crônica passada, muita gente me escreveu sugerindo que eu incluísse crianças carentes no tal centro para animais perdidos, onde eu tenho a intenção de investir meu dinheiro, caso venha algum dia a ganhar na loteria. Só que se eu fizesse isso, não seria um centro de acolhimento para animais, as crianças passariam a ser o foco principal e aí o meu projeto perderia o sentido. Eu quero criar um lugar onde o animal seja prioridade, porque nesse mundo de humanos, eles sempre estão em segundo plano e nunca recebem o devido valor.

Outro dia li o seguinte texto no orkut de uma amiga:

Para pensar um pouco:

“Doa-se uma criança clara, olhos azuis, inteligente e bem educada. É muito dócil e se dá bem com todos. Motivo: Mudança.”


”Criança será eutanasiada se não encontrar uma família para adotá-la urgente!”

“Criança será abandonada nas ruas se não encontrar uma nova família!”

“Criança que urina e defeca fora do lugar procura um lar com família que tenha tempo e paciência pra limpar suas necessidades.”

“Estou noiva e vou me casar em dezembro. Meu noivo não gosta de crianças, então estou doando meu filho.”

Porque o espanto? Troque a palavra criança pela palavra cão e gato, assim você não se assusta com os anúncios, não é mesmo? Quem assim faz, faz em todos os campos da vida.


O texto acima reflete exatamente meu pensamento. Quem tem coragem de abandonar um animal, abandona qualquer coisa, não tem responsabilidade, compaixão, solidariedade e nem amor no coração. Já escutei casos de gente que por não querer mais o cachorro, o solta na estrada para que ele seja atropelado. Isso é muito mais do que covardia, é falta de caráter mesmo! Pena de morte pra uma pessoa dessas! Volto a dizer que me compadeço mais de cachorros de rua do que crianças na mesma situação. Se soltam uma criança no mundo, ela vai andando até encontrar alguém pra explicar a situação. Se soltam um cachorro, o que acontece? Ou ele vai ser mesmo atropelado, ou vai pegar alguma doença, ou morre de fome, a não ser que alguma louca que já tenha seis cachorros em casa resolva acolhê-lo.

Voltando ao ‘meu’ boxer, gostaria muito mesmo de poder ficar com ele, já estou completamente apegada, mas infelizmente eu ainda não ganhei na loteria e não tenho o centro dos meus sonhos para dar a ele hospedagem vitalícia. Os seis daqui de casa ocupam todos os espaços possíveis e a manutenção deles já é muito cara também. Se o dono realmente não aparecer (e já estou achando que não vai), vou ter que doá-lo. Só espero encontrar alguém que possa amá-lo como ele merece. Com apenas cinco dias de convivência, eu já estou apaixonada, tenho certeza de que ele conquista qualquer um.

Você aí, que está lendo essa crônica, já pensou em ter um boxer?
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domingo, 8 de março de 2009

À MULHER EM MIM >> Eduardo Loureiro Jr.

Ju Chang / FlickR.com
Tu, que nasceste comigo — neste tempo e no sem-tempo.

Tu, de quem fui separado por nossa vontade, que se fez minha e tua vontade, nem sempre coincidentes.

Tu, que busco desde então por todos os caminhos, muitas vezes ignorante de que só poderei encontrar-te n'O caminho.

Tu, que tens sido a minha luz quando sou sombra e a minha sombra quando sou luz.

Tu, que te escondes e te revelas em todas que encontro.

Tu, que, minha avó, pariste minha mãe. Tu, que, minha mãe, pariste aquele que muitas vezes penso que apenas sou eu.

Tu, que, tia e tia e tias, encarnaste para mim as musas de todas as artes: oratória, literatura, música, pintura...

Tu, que, minha irmã e irmã, ensinaste-me que não ser o único querido é ser mais querido ainda.

Tu, que, cada amada que amei, me encheste os olhos de encantamento; o peito, de ritmo; a mente, de versos.

Tu, que, Vênus, vieste tão próxima ao meu Sol, vestida de Júpiter, com ares e voares de Deusa e Mulher Maravilha.

Tu, que, minha sobrinha sem ser minha sobrinha, minha filha sem ser minha filha, fazes meus olhos rolarem lágrimas que eu penso — erradamente — que nem são minhas.

Tu, que, leitora, me entrelinhas em aconchego.

Tu, que revela-te em mim mesmo, e fazes com que me digam "você tem olhos de moça", "você escreve como mulher".

Tu, que atrai os homens que me acham bonito, e que ama meus amigos mais do que os amo eu mesmo.

Tu, que ri de mim quando penso que o maior é Pessoa, e me prostra com versos de Cecília: "Não me encontro com ninguém / (tenho fases, como a lua...)"

Tu, que me desesperas de esperas e me esperas com esperança.

Tu, natureza divina, que aqui a gente chama — simplesmente — de mulher.

Tu, que és o Dia, sabes que está escrito: Quando não houver mais dias, seremos renovadamente Um.





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sábado, 7 de março de 2009

MULHERES, A MINORIA DO SEGUNDO “X” [Maria Rita Lemos]

Embora nem todas as pessoas concordem, as mulheres fazem parte ainda, e praticamente em todo o mundo, de um grupo minoritário. O maior do mundo, mas também um dos mais desunidos. Para ilustrar isso, vou relatar um diálogo ocorrido há pouco tempo.

Estávamos, um grupo de mulheres, conversando sobre um palestrante que, durante sua fala, esforçava-se em dizer: os alunos e as alunas, os leitores e as leitoras, enfim, contemplando os dois gêneros. Uma das mulheres do grupo criticou sua forma de falar, dizendo que "desde que apenas um homem esteja presente, pode-se falar sempre no masculino, não é necessário acrescentar o artigo feminino para dirigir-se também às mulheres que estejam lendo ou ouvindo".

Citei esse fato, verídico, para mostrar o quanto nós mesmas, mulheres, muitas vezes nos acomodamos na condição de "seres de segunda categoria".

Todas as pessoas que pertencem às minorias enfrentam praticamente os mesmos problemas, e um deles é saber o que fazer enquanto minoria: aliar-se aos outros grupos minoritários para que, unindo forças, consigam vitórias ou permanecer distante de seus pares, aceitando o que lhes for reservado? Esta é uma das questões e nenhuma das duas atitudes está completamente correta. A meu ver, e fazendo parte, como faço, de minorias, aprendi que nada que contenha compulsões e obstinação dá bons resultados. Quando se deseja denunciar, apontar, reivindicar, seja o que for, tudo vale, menos impaciência, precipitação e autoritarismo.

Vale, aqui, uma ressalva. Quem faz parte das minorias? A resposta é muito ampla, porque há minorias dentro de grupos, dentro de estados e países. Há minorias dentro das minorias, por mais difícil que possa ser entender isso, basta pensar numa mulher negra. Minoria enquanto mulher, minoria enquanto negra. Se for atriz, então, incorpora ainda outro subtítulo das minorias...

O elemento comum das minorias é o fato de serem dinâmicas. As grandes nações de hoje poderão ser minoria num futuro a médio e longo prazo, assim como os japoneses, que já foram minoria dentro de um grupo oriental, mas já não o são. Outro exemplo claro: se considerarmos uma pessoa negra residindo em países do sul de nosso Brasil, ela será considerada minoria; mas se ela morar em Salvador será maioria - basta visitar essa terra maravilhosa.

Entretanto, nós, mulheres, podemos nos considerar uma minoria permanente, o único grupo minoritário que persiste, independente da raça, nação ou cor: estamos no grupo de “todas as mulheres”, o maior grupo minoritário, embora em algumas nações gozemos de mais liberdade e equanimidade. Há mais de um século lutamos por justiça e isonomia de direitos, porém estamos ainda longe das vitórias que almejamos conseguir. Em mais de cem anos, obtivemos vitórias, conseguindo direitos antes concedidos apenas aos homens: o direito de fazer testamento e gerir nossos próprios bens; de votar e ser votada; de pronunciar-se em reuniões públicas; de trabalhar em bancos e estabelecimentos estatais; de optar por profissões liberais.

Faltam-nos, no entanto (e estou falando apenas da mulher ocidental), receber iguais salários por iguais funções, coisa que ainda não conseguimos totalmente, bem como ter direitos de cidadania absolutamente iguais aos nossos parceiros masculinos.

A luta do eterno feminino foi muito árdua, mas nem por isso está terminada. Vários tipos de discriminações foram derrubados; a mulher suou e chorou muito para ter direito a trabalhar fora do lar sem ser diminuída em seu valor feminino; da mesma forma, as mulheres artistas muito se esforçaram para não serem consideradas, mais, como vulgares e “desfrutáveis” (ah, que palavra horrível!), apenas por terem escolhido esse caminho para suas vidas, o da arte em geral, ou terem sido escolhidas pelas artes.

Apesar de todas as vitórias, continuamos sendo minoria, e talvez isso se estenda, ainda, por algumas gerações. Somos o maior grupo minoritário do mundo, e sabemos disso. Qualquer mulher inteligente sabe, em seu coração, que é assim, e se dói com isso, sofre com isso, sente as oportunidades perdidas apenas por ser mulher. É bem verdade que houve muitas mulheres que levantaram suas vozes, se insurgindo contra isto, mas muitas outras permaneceram caladas, acomodadas, amedrontadas. Como grupo, as mulheres não fizeram revoluções nem greves, apenas movimentos pacíficos e de conscientização, como as feministas norte-americanas na metade do século vinte.

O grande segredo das mulheres sempre foi lutar para eliminar as desigualdades baseadas em seu “segundo X” sem deixar um só momento de cumprir suas tarefas, pelo menos grande parte das mulheres. Basta pensar que, se um filho de um casal adoecer, e ambos trabalharem fora do lar, não precisa imaginar muito para saber qual dos dois, pai ou mãe, voltará para casa para cuidar do filho enfermo.

Enquanto minoria por ser mulher, e enquanto minoria ainda dentro da minoria, não prego qualquer violência, nenhum ressentimento nem revolução alguma - até porque não creio que esses sejam os modos de se conseguir mudanças consistentes e permanentes. Acredito que o melhor método para que seja feita justiça às mulheres é exatamente este: prosseguir a luta, mas com meiguice, com a habitual doçura feminina, sem deixar de lado aquilo que a natureza nos dotou com tanta generosidade, como parir e amamentar nossas crias. Enquanto nós, mulheres, continuarmos nossos trabalhos ao mesmo tempo em que exigimos nossos direitos, com a firmeza necessária, vamos caminhar ao encontro da justiça que desejamos, para nós e nossas filhas.

Para concluir, quero lembrar, neste dia Internacional da Mulher, que o fato de alguém nascer pertencente ao sexo feminino é tão casual quanto nascer negro, branco ou amarelo. No entanto, a discriminação que possa ser feita a esse ser, baseada nessa casualidade, é injusta e odiosa, tanto quanto a discriminação pela raça, orientação sexual ou cor.



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sexta-feira, 6 de março de 2009

BUKOWSKI >> Leonardo Marona

Você entendeu a inveja, você diagnosticou o ódio, misturou a visão da criança com os becos de rinhas e duelos tomados pelo álcool. Você deu abrigo intelectual a uma quantidade exorbitante de farsantes, canastrões da pior espécie, com grossos cachecóis em pleno verão, namorando mulheres magras e com bafo. Eles batiam à sua porta, eu sei. Atrás de vida. Atrás de uma resposta. Não havia resposta, eles não sabiam. Você chamou a vida para dançar, você apanhou feio e nunca fez nada realmente grandioso. É por isso que você entende os homens, toda a enorme tragédia que envolve a nossa pequeneza, que se resume a muito intestino e algum coração. Muita coisa tem sido falada sobre você, seu velho. Mas tenho a sensação de que nada foi realmente falado. Você mostrou a outra face da moeda, não a face mitológica, mas a menor, a literatura de bolso, a vida em pele gasta. Por causa de você ainda continuamos, uns poucos, vendo alguma beleza na selvageria diária, algo de cotidiano em calçar as botas e partir para a guerra. Você carregou nas costas a frustração de toda uma geração engessada de acadêmicos que desempenhavam pequenos serviços com nomes complicados. Você foi o primeiro carteiro da América. A face escura de Walt Whitman. Meus contemporâneos têm atribuído ao trabalho de Charles Bukowski uma certa imaturidade juvenil, e tornou-se quase um crime evocar sua figura numa mesa de boteco. Sinto falta de poder dizer o quanto existe de verdade em seu trabalho, não se pode mais dizer isso em público, veja bem o que você se tornou. É a sina dos gênios serem regurgitados por uma sociedade hostil. Pelo menos fica impressa essa ternura destrutiva, esse lirismo violento da vida em rotação. E agora ela é de vocês, ou de quem quiser.

“a poem is a city” (Charles Bukowski)
a poem is a city filled with streets and sewers
filled with saints, heroes, beggars, madmen,
filled wit banality and booze,
filled with rain and thunder and periods of
drought, a poem is a city at war,
a poem is a city asking a clock why,
a poem is a city burning,
a poem is a city under gunsits bar
bershops filled with cynical drunks,
a poem is a city where God rides naked
through the streets like Lady Godiva,
where dogs bark at night, and chase away
the flag; a poem is a city of poets,
most of them quite similar
and envious and bitter...
a poem is a city now,
50 miles from nowhere,
9:09 in the morning,
the taste of liquor and cigarettes,
no police, no lovers, walking the streets,
this poem, this city, closing doors,
barricaded, almost empty,
mournful without tears, aging without pity,
the hardrock mountains,
the ocean like a lavender flame,
a moon destitute of greatness,
a small music from broken windows...
a poem is a city, a poem is a nation,
a poem is the world...
and now I stick this under glass
for the mad editor’s scrutiny,
and night is elsewhere
and faint gray ladies stand in line,
dog follows dog to estuary,
the trumpets bring on gallows
as small men rant at things
they cannot do.

*** tradução Leo Marona ***
“um poema é uma cidade”
um poema é uma cidade cheia de ruas e esgotos
cheia de santos, heróis, pedintes, loucos,
cheia de banalidade e bebedeira,
cheia de chuva e trovão e períodos de seca,
um poema é uma cidade em guerra,
um poema é uma cidade perguntando ao relógio por quê,
um poema é uma cidade em chamas,
um poema é uma cidade rendida por armas
suas barbearias cheias de bêbados cínicos,
um poema é uma cidade onde Deus anda pelado
pelas ruas como Lady Godiva,
onde cães latem à noite e perseguem a bandeira;
um poema é uma cidade de poetas,
quase todos um tanto semelhantes
e invejosos e amargos...
um poema é uma cidade agora,
50 milhas de lugar nenhum,
9:09 da manhã,
o gosto de bebida e de cigarros,
sem polícia, sem amantes, andar pelas ruas,
este poema, esta cidade, as portas fechadas,
barricadas, quase vazia,
desolada sem lágrimas, envelhecendo sem pena,
as montanhas rochosas,
o oceano como chama de lavanda,
uma lua destituída de grandeza,
a pequena música que vem das janelas quebradas...
um poema é uma cidade, um poema é uma nação,
um poema é o mundo...
e agora eu enfio isso debaixo do copo
para o exame detalhado do editor maluco,
e a noite está noutro lugar
e débeis damas cinzentas estão na fila,
cão segue cão até o estuário,
as trombetas trazem a forca
enquanto homens pequenos se gabam de coisas
que não podem fazer.



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quinta-feira, 5 de março de 2009

EU IMAGINO >> Ana Coutinho

Então fomos viajar no carnaval. E fomos para um lugar frio. Não, não um pouco frio, muito, mas muito, muito frio. Saímos do verão brasileiro de 30 e tantos graus e descemos no inverno americano, em algo como 6 graus negativos. Passamos 7 dias lá, aquele frio horrível, o corpo chegando a doer tamanho o gelo que entra por qualquer buraquinho dos seus mil casacos e, quando eu falava com alguém no Brasil, e dizia como estava frio, a pessoa me respondia: “Eu imagino”.

A cada vez que eu ouvia esse “eu imagino”, lembrava-me de uma amiga e de uma história que aconteceu há muitos anos: Essa minha grande amiga perdeu o pai numa morte muito trágica (que morte não é trágica?). No enterro as pessoas a abraçavam, diziam que sabiam da sua dor, que sabiam do que ela estava passando, que entendiam o que era aquilo e, lá pelas tantas, ela virou pra mim e disse: “As pessoas podem até entender o que eu sinto. Mas ninguém – ninguém – sente o que eu sinto”. Isso me marcou profundamente e, desde então, nunca mais consolei alguém com palavras automáticas como: “Eu sei que você está sofrendo, posso imaginar a sua dor, etc, etc”. A verdade é que não, não podemos imaginar o quanto está frio em outro país quando derretemos nesse calor insuportável que se faz no Brasil. E eu tive vontade de dizer isso aos meus interlocutores brasileiros: “Não, você não imagina, não. Você não sabe como é sentir isso, agora, nesse instante. Ter o seu corpo inteiro congelando, o nariz rachado, os lábios todos cortados, até o relógio de seu pulso parado, tamanho o frio que se instalou aqui.” O frio não era uma perda, um sofrimento, um lamento. Mas, como minha amiga, tive vontade de dizer: “Você não sabe da minha dor.”

A verdade é que nunca sabemos. Às vezes nem mesmo a nossa dor nos é clara, quiçá a dor alheia.
Quantas vezes não menosprezamos o sentimento de alguém, não padronizamos as nossas palavras, como fazem os atendentes de telemarketing: “Eu sei, senhora. Sinto muito, senhora. Esse é o procedimento, senhora”. Não, minha amiga, eu não sei da sua dor. Eu não sei e não consigo imaginar o que você está sentindo, e, mesmo isso sendo muito pouco, a minha dedicação em te ouvir e te acolher é enorme. Seria mais simples e verdadeiro, não?

A pedra no sapato alheio, a pimenta nos olhos dos outros, é sempre um mistério para nós. E uma das coisas mais difíceis da vida é aceitar o nosso desconhecimento, as nossas misérias, a nossa falta de noção ao lidar com quem está em apuros. Por isso, admiro os psicólogos. Admiro alguém capaz de assistir ao outro chorando por meia hora seguida sem sentir-se afobado, sem dar uma desculpa, um tapinha no ombro, saindo logo dali.

Admiro quem se cala quando não tem palavras. Admiro quem assume sua impotência, suas falhas, suas covardias, talvez. Num mundo cheio de falsos heróis e grandes gurus, admiro quem se identifica como humano, simplesmente humano.

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quarta-feira, 4 de março de 2009

EU QUERO UMA JANELA >> Carla Dias >>


“Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tú que estás numa cela
abafada, esse ar que entra por ela."
Mário Quintana


Eu quero uma janela... Sem culpa, sem vergonha, sem métrica, com ousadas esquadrias.

Quero uma janela...

Que é para compreender que a vida não passa só para pirraçar a juventude da gente. E que a felicidade não é abobrinha contada por um alguém que não tem o que fazer, além de nos encher de esperanças vazias e nos observar esgotá-las uma a uma.

Quero a janela para debruçar e esperar o tempo que for, mas que caiba no presente e tenha a habilidade de lapidar o futuro, pois estou atrasada para o passado, meus caros, ele que passou feito assopro que me distraiu até despercebê-lo. E desconhecidos não reconhecem afetos, então, quero a aventura da proximidade.

Quero uma janela...

Sem vidro embaçado, do outro lado da rua, no outro rumo do asfalto, escorregando na ponta da língua na hora do monólogo sobre tal sentimento. Que se abra em sorriso cada vez que me debruçar nela, e que de lá eu veja bem, preste atenção, que seja nossa essa canção: a dos horizontes enquadrados sendo libertados pela brandura das descobertas, como se os cenários tivessem sido derrubados e restasse somente a nudez do encantamento.

Quem não quer uma janela é porque já a tem. Quem espera por ela colhe decepções, mas resiste... Quer uma janela onde anoitecer sem o zumbido da solidão.

Debruce e veja se a deseja:




Eu quero uma janela...


Site: www.carladias.com
Talhe - Blog:
www.talhe.blogspot.com




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