sábado, 28 de fevereiro de 2009

PEDACINHO DE SAUDADE [Maria Rita Lemos]

Pois é, o carnaval terminou, mas eu ando saudosista ultimamente; por isso, essa semana, pensei em meus carnavais da infância. Fui jogada para o passado, para a Praça Toledo Barros, mais especificamente para um domingo de “corso”... (sabem o que é isso? Quem não sabe pergunte à mãe, ao pai ou talvez aos avós...)

Papai enchia o carro com a família — não me perguntem de que marca ele era, que já estou dando dicas demais da idade... sei que era azul marinho. A gente levava, nos braços, sacos de confete e serpentina que papai comprava dias antes na Casa Paulista, do sr. Natalino Drago, e fazíamos a festa, minhas irmãs, meu irmão, mamãe, papai, vó Santa e eu, cantando as velhas marchinhas junto com o rádio do carro.

Não faltava o lança-perfume (naquele tempo podia), cujo único pecado — era só o que eu sabia — era quando se jogava no olho de alguém — não podia, porque ardia demais. Só isso. Vim saber dos outros usos dessa substância bem mais tarde, no banheiro de um clube, no meio de um baile, quando me ofereceram um cheirinho — que recusei, menina inocente que era (muita gente ainda duvida, mas eu era, sim; as aparências enganam). Ainda mais no carnaval!

Voltando às noites de corso, bom era descer do carro em volta da praça, procurando o Perigoso, com seu eterno guarda-chuva e a cara amarrada — aliás, eu só perdi o medo dele na adolescência. Eu não entendia por que as pessoas riam tanto do e para o Perigoso, eu o achava triste, tão triste que ele me dava vontade de chorar, coitado, abandonado no altar — talvez fosse a veia de escritora já pondo as manguinhas de fora. Do Perigoso eu não ria, morria de pena e de medo.

Minha personagem predileta era a Geni — quanta saúde, que sorriso aberto, cada dente brilhando. Num tempo em que nem existia o clareamento químico, a Geni tinha todos os dentes, e todos se iluminavam em seu sorriso. Eu nunca vi a Geni fora do Carnaval e, às vezes, pensava que ela ficava encantada no resto do ano, para só ressurgir nos dias de folia.

Havia o carro do Rei Momo, quase sempre com as mesmas princesas, a gente gritava pedindo serpentinas e confetes, e era uma festa quando alguém do carro ouvia e jogava, olhando para nós, o confete que também era pedacinho de saudade.

Depois do tempo do corso, mais na beira do passado, vieram os desfiles das escolas. Lembro-me bem da disputa acirrada entre Dendê e Bandeira Branca, e das baterias de bairros, dos poucos e populosos bairros de Limeira, há cerca de quarenta carnavais! Havia mulheres de biquíni, com fantasias que hoje sei que eram pobres, mas que na época enchiam meus olhos infantis com seu brilho... e como sambavam aquelas mulheres anônimas de idades indefinidas e sapatos de saltos altíssimos! As mães e pais de família (todo mundo era “de família”, até hoje me pergunto o porquê disso) faziam cara de escandalizadas(os), puxavam os filhos pequenos para trás, mas não tiravam os olhos dos peitos e bundas que saltavam dos biquínis reduzidos, com certeza só usados nos carnavais.

Acho, hoje, que sensuais de verdade eram aquelas mulheres anônimas, de uma seminudez corajosa que já não se faz mais. Até porque as escolas de samba de hoje, mais interessadas no dinheiro que no samba, já não têm mais nada que possa ser despido, com toda a sensualidade que o despir-se requer. A nudez dos seios não é mais novidade para ninguém, bem como a exigüidade dos tapa-sexos, cada vez tapando menos, cada vez mexendo menos com as testosteronas alheias, porque o que é muito visto acaba sem graça. Não sei se sou a única a sentir isso, mas para mim há uma tristeza enorme na nudez da Sapucaí. Talvez tenha começado, essa tristeza, quando a telinha da TV mostrou o pé de uma mulher anônima, que sambava apesar do sangue escorrendo pela sandália altíssima, com uma fivela que devia estar torturando. Sangrava e ela sambava e ria em sua nudez quase total, talvez o último desejo fosse jogar longe aquele sapato, algoz dourado, e chegar logo ao final daquela agonia.

Tenho saudade, sim, dos carnavais de minha infância. Como me entristeço, também, em saber que muitos estrangeiros vêm ver nosso Carnaval mais interessados nas bundas das brasileiras do que em nossas belezas tantas...

Enfim, o Carnaval passou e espero que quem gosta tenha curtido. De minha parte, li muito, coloquei a correspondência digital em dia, cozinhei, descansei, para começar tudo de novo — porque os dias dessa festa passaram voando, e as coisas no Brasil, como dizem, começaram agora, depois da quarta-feira de cinzas.



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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

BAUDELAIRE DE MAU GOSTO >> Leonardo Marona

O velho estava sentado em suas partes de baixo escutando um adágio de Baden Powell numa antiga vitrola encharcada de madeira, embrenhado num trecho fidedigno de Charles Baudelaire, situação que, com um punhado de falsidade e bastante exagero, o fazia estremecer de pânico, alguma coisa a ver com um antigo ditado, talvez de Pascal.

Ao mesmo tempo o velho pensava em como terminar uma tripa solta de texto largada como ferida, sem perceber o distúrbio paralisante que Baden provocava quando acrescido de uma prosa curta de Charles Baudelaire, de modo que sentiu algo lhe escorrer pelo queixo, como saliva, ou sua própria imaginação fugindo de si como fumaça, como se ele próprio fosse uma guimba em brasa – os dentes no copo, olhando.


Ouviu grunhidos sufocados, pessoas se lamentando no seu pulmão. A música atravessou a leitura e ele olhou para o lado. A velha ao lado parecia uma orquídea envenenada, gemia pensamentos incompletos, lábios incompreendidos de branco, golpeava o ar dramaticamente, como costumava fazer sempre, por nada ou muito pouco.


O velho já havia aberto, cerca de dez minutos, uma garrafa de vinho uruguaio de seis reais e cinqüenta centavos, vinho parecido com sangue venoso, o mesmo que parecia ter tomado o corpo da velha ao seu lado, na mesma guerra, ou parecida. De modo que o aviso do fim da vida lhe obrigou a golfar e manchar as cuecas.


Enquanto se limpava viu a velha se arrastar até o banheiro, ainda tossindo muito, cabelos brancos como gotas aposentadas. Derrubou o livro no chão e seguiu a luz, esquiando em meias. A velha estava sentada – canelas marcadas com estrelas rarefeitas – no chão do banheiro, abraçada à latrina.


“O que foi?”, ele disse.


“Vou vomitar”, ela disse.


Inclinou o corpo e forçou o vômito, mas nada. Mesmo assim a cena era muito repugnante: a velha de camisola encardida, peitos decaídos como anjos demitidos, implorando à privada. Por isso o velho teve que voltar imediatamente ao quarto, onde reparou nos pingos de sangue no assoalho: seu nariz. Tonto, se atirou na cadeira. Viu a velha como um espectro esparramando-se na cama ao seu lado – convulsionando-se como um inseto virado de barriga para cima, com as patas esmagadas por um chinelo infantil.


Foi a primeira vez na vida que lhe veio com tanta força a palavra morte.


A velha começava a roxear, veias como alienígenas incubados na pele da testa.


“Estou morrendo”, a velha disse finalmente e com esforço, mas sem gaguejar e olhando o velho nos olhos, “os dela tão bonitos”, ele pensou, “violetas”. As mãos da velha em volta do pescoço esturricado, os olhos como a preparação para um salto ornamental de notas baixas.


O velho olhou para a velha e também achou que ela estivesse morrendo. Segurou seus braços e pôde sentir a pulsação de algo prestes a estourar.


A velha dizia palavras sem muita conexão, mas basicamente católicas. O velho foi correndo até a sala, o que quer dizer se arrastando. Atravessou a sala para apanhar sua boina, e o cão epilético, sem rabo, verrugas, oito comprimidos diários, feliz, lhe abanou o rabo.


O velho saiu como estava até a rua: cuecas azuis estampadas com estrelinhas e luas brancas, sem camisa, despenteado, sem cabelos. Correu até a avenida central sem conseguir coordenar o raciocínio, então lhe veio um trecho do “Mau Vidreiro”, de Baudelaire:


Há naturezas puramente contemplativas e perfeitamente inaptas para a ação que, no entanto, sob uma misteriosa impulsão, agem por vezes com rapidez de que se julgariam incapazes.


Isso lhe deu coragem para se atirar na frente de um táxi no meio da avenida central. O taxista não tinha cabelos, mas se comportava como se tivesse. Parecia assustado como se tivesse cabelos, mas não tinha. No banco de trás havia uma mulher escondida por sacolas cheias de detalhes assaltados por grifes, as sacolas e a mulher, ela pintada de batom como um palhaço, ou como uma mulher mesquinha recém chegada à alta sociedade.


“Sai do carro”, disse o velho de cuecas, “tem uma pessoa morrendo”, as mãos sobre o capô.


“Vai te fuder!”, gritou o taxista, finalmente como quem não tem cabelo.


E arrancou com o carro.


O velho voltou correndo, ...vidros que tornem as coisas mais belas..., bastante desnorteado, sentindo marimbondos no seu peito, pernas tentáculos, a marreta do vinho na têmpora, ...mas que importa a eternidade da danação para quem encontrou num segundo o gozo infinito? A velha... Então precisou sentar.


Acabou encontrando um ponto de táxi, onde havia um táxi, outro saindo. O táxi que havia estava vazio e era antigo. Havia um homem sentado de costas numa cadeira de náilon lendo o jornal. Seus bigodes diziam algo um pouco vago sobre o seu caráter.


"Amigo, preciso fazer uma corrida", disse o velho.


“Estou ocupado”, disse o taxista, virando a página do jornal.


“Tem uma pessoa morrendo. Roxa, sem ar”, disse o velho.


“Puta que pariu!”, disse o taxista por trás da cortina de bigodes.


Fechou o jornal, entraram no carro, levaram a velha para morrer no caminho até o hospital e, para o velho, até o fim daquele dia, tudo aquilo parecia algo de muito mau gosto escrito por Charles Baudelaire.



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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

ÓCULOS >> Ana Coutinho

Desde criança eu usei óculos. Desde muito, muito pequena. Na minha lembrança mais antiga, há sempre um par de óculos em meu rosto. Ora um pequeninho, ora de gatinho, ora colorido, ora um quase invisível como dizia a minha mãe, tentando amenizar o peso de uma miopia altíssima no rosto de uma menina de 7, 8 anos.

Os óculos eram como uma extensão de mim. Eu tomava banho com eles e cheguei mesmo a dormir e acordar com os vidros diante de meus olhos. No banheiro, um dia, lembro-me que resolvi tomar banho sem óculos e, quando saí do chuveiro, não distinguia o que era uma calça jeans pendurada no toalheiro da toalha, logo ao lado. Eu devia ter uns 6 graus na época, não lembro. Não havia tecnologia que tirasse o aspecto de fundo de garrafa dos meus óculos e, quando eu fiz 12 anos, ganhei, enfim, minhas lentes de contato.

Ainda tentei resistir a elas. As pessoas me incentivavam a usar, mas eu não me incomodava de viver com aquele trambolho sobre o nariz. Era comum os amigos de meus pais dizerem: “Quando ela ficar mocinha, vai querer... Deixa ela ficar mais vaidosa pra você ver”. Dito e feito. Um belo dia, resolvi aderir a elas com empolgação e não as soltava mais. Não ia sequer à portaria de óculos. Tirava as lentes para dormir, mas as esquecia em meus olhos algumas noites, era uma maravilha... Foi só quando eu fiz 20 anos que a cirurgia começou a ser popular. Eu já tinha passado dos 7 graus exigidos por lei para que o convênio cobrisse o procedimento e, portanto, depois de uma maratona de perícias, foi-me concedido esse direito.

Ainda posso sentir o cheiro do hospital quando entrei na sala de cirurgia. Eu ia fazer uma vista e, depois de alguns dias, voltaria para fazer a outra. Minha mãe esperava-me ansiosa do lado de fora, quando eu tentei convencer meu médico: “Faz as duas hoje, vai?”. “As duas?” ele me respondeu, surpreso. “É, de uma vez, acaba rápido” – eu estava quase implorando quando ele topou. Disse para eu me apressar antes que mudasse de idéia e lá fomos nós. Foi tão rápido, e eu me sentia tão imensamente feliz que não consegui notar qualquer incômodo.

Não preciso fechar os olhos para me lembrar da expressão de minha mãe quando saí andando da sala de cirurgia, toda serelepe, com dois tampões transparentes de acrílico, um em cada olho, anunciando: “Ele fez as duas, ele fez as duas!”. Sua expressão era de terror: “Meu Deus, as duas!?!?!”. Ela estava assustada e eu, eufórica, era impossível conter o meu riso de alegria e exaltação...

A imagem que mais profundamente cravou-se em minha memória daquele dia foi quando saíamos do hospital, juntas. Ela tentava segurar a minha mão para me auxiliar a atravessar a rua e eu respondi, com uma emoção absolutamente nova: “Não precisa, mãe. Eu enxergo, eu estou vendo, estou vendo!”

Passaram-se semanas, talvez meses para que eu me adaptasse a viver sem nada sobre o meu rosto. Foram inúmeras as noites em que acordei no meio da madrugada e, notando que enxergava as horas no relógio ao lado, corria para o banheiro pensando: “Meu Deus, dormi de lente, de novo!”. A alegria de me perceber sem lente, já diante do espelho da pia, para mim era um susto tão bom, como se fosse um novo presente a cada noite, a cada piscada, a cada milésimo de segundo enxergando.

Foi preciso 20 anos da minha vida para que eu enxergasse o valor de ver, simplesmente ver, ainda que embaçado, ainda que fosco, ainda que desfocado, foi ali que eu percebi como era bom abrir os olhos. Decidi nunca mais fechá-los.

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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

O SILÊNCIO >> Carla Dias >>


Se eu pudesse fotografar o sentimento que me acompanha, talvez de mim saísse um inquieto oceano. Se pudesse fazer do sentimento uma obra de arte, preencheria vales com misteriosas galerias.

O que há, afinal, dentro do meu dentro? Ao abrir a boca há os dentes. Ao tirar as roupas há o corpo... E se me abrissem o peito?


As perguntas afloram, enquanto caminho pela cidade. As pessoas se atropelam sem se importarem com o outro. Estranho esse mundo que não para diante de tantas dúvidas... Estranho e admiro.


Por isso o meu silêncio...


Hoje eu improviso outros sons: a respiração, os passos cadenciados; até os olhares em busca frenética por horizontes têm lá o seu barulho. Como este que me consome: o que há além do ponto onde encontro a mim mesma?


Ouço o silêncio, tão clara e cruelmente.


Quero corpo que não seja este que já se rendeu ao cansaço. Quero-o de felicidade plena, e que me acompanhe, enquanto caminho por fora de mim, analisando cuidados necessários, as ausências e presenças.


Pensando... Enquanto inventavam a bomba atômica, a maioria de nós plantava sonhos. E eles eram de uma paz que ainda haveremos de reconhecer no mundo.


A sabedoria alheia revelou que ultrapassei as metas que estabeleci. Ultrapassá-las pode ser tão fácil, mas a engenhosidade está mesmo em concebê-las. E se hoje me dói a fatalidade de algumas escolhas que fiz, é de dolência de aprendizado.


Que leveza essa que saboreio; a boca seca, as faces rubras. E meus pés tocando o chão do mundo, lavando-se nos rios que eu pensara não mais existir.


Redescobertas são rituais cordiais com a nossa humanidade.


As pessoas não me olham nessa necessária partilha de espaço. Lado a lado, consumimos a solidão dos acompanhados. E as questões prevalecem, perfilando uma sabedoria tão quieta, que só é possível apreciar nos fins de tarde, o silêncio no talo.


Você pode ouvir o que diz o silêncio?

Imagem: Jim / Unprofound

Site: www.carladias.com
Talhe - Blog:
www.talhe.blogspot.com




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domingo, 22 de fevereiro de 2009

A FOLHADA BOLACHA DO SER
>> Eduardo Loureiro Jr.


As pessoas mudam. Nem sempre para melhor.

Veja o meu caso, por exemplo. Antigamente era comum eu ouvir de meus poucos e bons amigos: "Eduardo, eu o achava tão antipático quando o conheci!" Pois eu mudei. Embora não seja uma pessoa muito falante, já passo uma primeira impressão mais positiva, simpática. Meus amigos continuam bons, e agora são muitos.

Você sabe o que um boné disse para outro boné?
"-- Bom, né?"

Pois era o que eu me dizia até um dia desses: conhecer mais pessoas, fazer mais amigos... bom, né?

E você sabe o que o boné disse para uma caixa cheia de bonés?
"-- Muito bom, né?"

Ser uma pessoa mais simpática... muito bom, né?

Mas essa história de usar boné às vezes dá um calorão na cabeça. Ao invés de poucos amigos simplesmente comentando uma antipatia que já era passado, e que não havia impedido a amizade, agora ouço muitos amigos reclamando sutilmente: "Eduardo, você era tão simpático quando eu o conheci!" E adianta eu dizer que já melhorei bastante, que eu não era simpático de jeito nenhum e que meus amigos devem se contentar com essa minha pequena simpatia inconstante? Isso é o que dá acostumar mal as pessoas -- acostumá-las ao nosso bem.

Eu poderia ser como Álvaro de Campos, do outro lado da rua, à frente da tabacaria:

Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.

E em mim são tantas as máscaras. Sou feito bolacha folhada, camada por camada, desfazendo-se nos dedos e na boca. Caiu-me primeiro a antipatia. E agora é preciso que a simpatia também caia.

Oswaldo Montenegro foi o primeiro a morder a concretude crocante de minha simpatia:

Quantos defeitos sanados com o tempo
eram o melhor que havia em você?

De vez em quando sinto uma saudade esfarelada de meus defeitos: vontade de deitar na rede da preguiça, de isolar-me em meu silêncio por dias seguidos, de perder tempo assistindo a um jogo de futebol, de soltar os cachorros quando alguém tenta espiar pela fresta do muro, de pensar só em mim, em mim, em mim...

Bons tempos aqueles em que eu era tão ruim que qualquer coisa de bom que eu fizesse era celebrada. Agora que estou melhorzinho, qualquer coisa errada que eu faça é logo chamada a atenção.

E no entanto não há volta. A bolacha é varrida do chão ou dissolvida na boca. A vida segue: um mal que vem pro bem, um bem que vem também pro bem, mesmo que por tortuosos olhares que parecem tortuosos caminhos.

No filme Asas do Desejo, pode-se ouvir a voz do narrador:

Quando a criança era criança,
Ela caminhava com os braços balançando,
Ela queria que a ribeira fosse um rio,
O rio, uma torrente
E uma poça d'água, o mar.

E Rilke nos leva além da criança:

Quando eu era criança, falava como criança,
Pensava como criança, raciocinava como criança.
Desde que me tornei homem, eliminei as coisas de criança.
Hoje vemos como por um espelho, confusamente;
Mas então veremos face a face.
Hoje conheço em parte, mas então conhecerei totalmente
Como eu sou conhecido (o eu que sou eu, não mais serei...)

Conhecer-se totalmente como se é conhecido. A transparência. O gosto bom da bolacha na boca, antes de escovar os dentes.





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sábado, 21 de fevereiro de 2009

CARNAVAL [Debora Bottcher]

"Quanto riso! Oh! Quanta alegria! / Mais de mil palhaços no salão..." (Trecho de 'Máscara Negra', de Zé Kéti)

Quase todo mundo com mais de 30 anos teve uma infância e/ou adolescência que vibrou ao som das marchinhas de carnaval.

Para mim, a Festa do Rei Momo sempre teve um inexplicável ar de melancolia. Máscaras e sombras desfilando, abrindo passagem para a orgia. A nudez vestindo-se de luz e purpurina, brilhando e despertando sensações – aquelas que ficam guardadas nos sótãos da alma, o ano inteiro escondidas... Fantasias...

Atrás da maquiagem, dos véus e das cores, pode-se ser quem quiser: o palhaço, a bailarina, o pirata, a feiticeira, o índio, a cigana, o super-homem, a fada madrinha. Cada um vende seu sonho e vive sua loucura, despido de cotidiano, alheio à preocupação.

Dos salões de baile às avenidas, a mentira é soberana: ela governa os cinco dias do ano em que tudo é permitido. A quarta-feira - e só depois do meio-dia - é que aciona o botão da realidade novamente.

Eu me lembro das nossas noites de carnaval. Meu pai, diretor de um clube de elite em Campinas, tinha mesa especial reservada. Vestida a caráter - e isso quer dizer Odalisca, Havaiana, Bruxa ou Mulher-Gato -, eu cruzava a entrada principal de braço dado com ele, muito antes da idade permitida de fato, para freqüentar os bailes luminosos.

Acho que era mais nisso que residia o encanto pra mim: burlar as regras. Porque, na verdade, não posso dizer que efetivamente me divertia. A música muito alta, depois de umas duas horas, começava a me incomodar; o empurra-empurra também não me deixava confortável, assim como os excessos (de bebidas e afins).

Tudo isso ia me deixando um tanto cansada. Eu me sentava então num dos degraus da imensa arquibancada de concreto, bem lá no alto, para observar a desordem instalada: rostos borrados, corpos suados, adereços em frangalhos. A beleza inicial desvanecida, perdida entre confetes e serpentinas.

De longe eu avistava meu pai tentando me encontrar no meio da confusão. Peguei-me pensando agora, enquanto escrevo, se em algum momento ele adivinhava que eu não estava lá - já que quando eu retornava para junto dele, nunca estava desgrenhada como a multidão. Às vezes, dançávamos juntos no espaço próximo às mesas: isso era bom - seu riso aberto, a alegria nos enlaçando.

Mas eu ainda era jovem (ia completar 18 anos) quando o carnaval perdeu completamente o glamour e eu não quis mais ir aos bailes. Meu pai, que era muito festeiro, tentou me convencer a mudar de idéia e se entristeceu um pouco quando não me dissuadiu - e eu só o acompanhei mais uma única vez depois disso, em 1998, quando ele, já em fase terminal, quis dar uma última olhada no que chamava de 'a maior festa do ano'.

Fato é que o tom da amargura que me invadia desde os primeiros tempos, foi se agigantando e eu me dei conta de que não havia fantasia capaz de burlar aquela desencantada emoção. As cinzas da quarta-feira me consumiam muito antes de tudo começar e eu pensei que estar quieta durante aqueles dias, era o jeito certo de acalmar o interior melancólico sem razão.

Talvez tenha sido um certo Pierrot. Talvez a minha Máscara Negra. Quem sabe uma enrustida saudade, um beijo que nunca aconteceu. Ou a lágrima que ficou engasgada e assim desmanchou de vez a ilusão.


Imagens: Carnival Mask, Luca Da Ros; Carnival Masks, Eye Ubiquitous; Carnival, Venice, Italy, Guenter Rossenbach


Expressões Letradas

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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Poemas para dançar ciranda >> Leonardo Marona

Era melhor jogar fora as máquinas, esquecer os vestígios poéticos, não mais abrir o livro sagrado de cetim, queimar o caderninho de anotações. Assim eu me sentia, porque Alice havia chegado e Alice havia partido, mas a presença posterior de Alice em mim permanecia um mistério, um oco incompreensível.

Ela apresenta já na porta do bar, enrolada num cachecol com uma camisa xadrez de flanela e os cabelos recém cortados, uma poderosa meticulosidade aliada a um charme quase infantil, de quem nem mesmo sente que abala, mas no fundo sabe.

Isso é aparentemente revoltante. Como se não restasse mais nada que lhe pudesse tirar o centro da ação, fazê-la tremer as pernas, e eu já tremia há mais de meia hora enquanto ela não chegava. Estava nervoso, sem saber o que falar com uma garota mais nova do que eu, de uma outra geração (seis anos são quase dez), então decidi chegar antes para reler sua Dobradura (Ed. 7Letras), que tinha acabado de sair do prelo, o primeiro filho dela, ela que era ainda tão jovem, mesmo o corpo ainda em formação, tão parecida com o que seu "Retrato" havia pintado, com os pés realmente grandes em comparação ao resto do corpo aparentemente frágil.


Mas é só aparência porque Alice é do tamanho do seu pé, com a inquietação das unhas roídas até o talo. É tudo pura locomoção de gato, sobre o que ela escreve bastante, aliás, gatos, sua postura indiferente, plácida, levemente superior justamente porque não se importa em ser humilde.


Não pude ver as sardas sobre as quais dizia seu poema, mas percebi a postura elegante de uma dama requintada, que aprende piano desde cedo (ela, de fato, tocava Bach aos sete anos) e tem a risada que leva a mão à boca com leveza, quase com rubor. Mas não é contida, de forma alguma. Alice lembra logo de cara uma espécie de Sylvia Plath que se salvou ouvindo Lou Reed.


É tudo mentira, na verdade. Ela me fazia tremer porque seus poemas eram realmente femininos, não exatamente fortes, mas com aquela pungente sinceridade juvenil situada um tom acima da percepção comum, e isso me distanciava automaticamente de sua realidade, em seguida me atraía, nesse movimento de embriaguez que se sente às vezes com alguns poetas, uma sensação de barco bêbado que se sente com Rimbaud, Nerval, Byron, Apollinaire, Lautréamont, essa turminha.


Os poemas de Alice são pequenas centopéias de caramelo. Felizes ou tristes, não são amargos, não são de chumbo. Eu havia lido, relido o livro, e tinha a sensação de que era algo pequenino que eu poderia guardar sem medo de quebrar dentro do coração. Eu queria cuidar daqueles poemas, levá-los para passear e andar de ônibus, apresentá-los timidamente às pessoas como quem diz: “Olha, é realmente uma menina, mas os textos, bom, os textos, enfim, são uns textos do tipo, são textos de menina, mas não quero dizer que, enfim...”.


E assim eu seguia sem saber o que dizer. Era tão boa a sensação pós-leitura, como se algo que ganha vida estivesse em movimento para um centro comum. E então era como se, de alguma forma, eu retomasse uma certa melancolia da estranheza que, normalmente, se perde ainda no final da infância, e talvez até Alice tenha perdido, mas ela se lembra de pequenos fragmentos claramente, como a sensação dos adultos em movimento nos interiores das casas de tias velhas, ou o enorme espaço que tinha o banco de trás do carro, onde podíamos dormir placidamente e onde hoje nos apertamos em corjas embriagadas.


Infância, eu havia tido uma infância. Mas não me lembrava dela direito, ou escolhi me esquecer. A poesia de Alice, para um burro velho, que era como eu me sentia perto dela, chega, no seu auge, a causar constrangimento, pois me revela algo que há muito tempo já havia me cegado. Eu amava aquele lirismo como um condenado a quem se atira um pão doce.


E de repente chega Alice, pede perdão pelo atraso que não houve, senta-se, vira um pouco os olhos, como que à procura de algo. Eu olho para o rosto dela como que procurando nele a menina que volta da aula de natação, ou a jovem estudante e dedicada ao trabalho com seus livros de Emily Dickinson, Elizabeth Bishop e Ana Cristina César. Uma estudante que tem um sorriso de encolher os olhos, e seus olhos tem qualquer coisa de naturalmente encolhida, levemente inclinados para baixo como quem chorou há pouco.


Era para mim um vôo arriscado demais me deixar levar por aquilo. Seria o fim da entrevista, mitificar a figura dos vinte anos de Alice Sant’Anna. Além do que era ridículo, um homem barbado, a essa altura do campeonato, sofrer de tensão porque vai entrevistar uma nova poeta do momento, de apenas vinte anos. Aquilo pateticamente ecoava dentro da minha cabeça: “vinte anos, vinte anos, você não tem mais vinte anos”.


Aquele mergulho na desconhecida ternura de alguém que teve uma infância feliz e fala com clareza sobre ela, que parece ter uma vida promissora, toda aquela aparente convicção sobre o caminhar das coisas, sobre a naturalidade da concretização dos objetivos, aquilo era massacrante para quem já não se sentia mais tão confiante assim. “Vou desmontar essa convicção”, eu dizia a mim mesmo antes de ela chegar. Então ela chega e eu me esqueço de tudo.


Ela senta e eu pergunto se não quer beber alguma coisa. Pedimos o cardápio. Eu falo “Peça o que quiser, é por conta do jornal”, tudo mentira. Ela olha, olha e olha o cardápio. “Nossa, eu não sei o que pedir. Viu como sou confusa?” É como se ela precisasse negar certa tendência a estátua que existe nos primeiros encontros.


Aquilo para mim é um alívio e me faz estalar os dedos debaixo da mesa. Fico feliz porque, de graça, Alice Sant’Anna, esse enfant complexe carioca, me entrega de lambuja uma característica mais profunda e que diz bem mais sobre sua poesia de andar pelas ruas atrás de pequenos farelos de cenas sentimentais apenas ao olhar alheio, simples acontecimentos do dia-a-dia que nos remetem a algo básico: a confusão mental de quem ainda quer tudo e não sabe de nada. Mas quer de um jeito como se fosse um suspiro, do jeito que soa a suave simpatia no sorriso de olhos levemente caídos e, por isso, tão surpreendentes, destoando da presença firme e do jeito elegante e um pouco desajeitado com que se encaixa na cadeira e discute sobre onde devemos posicionar o gravador.


“Olha, a minha voz é terrível”, ela diz, “acho que você pode colocar bem aqui na frente, assim, ó”. Certo seria deixá-la posicionar o gravador para sempre, onde quisesse, sem interferir. Isso seria melhor do que falar qualquer coisa. Mas é preciso estragar tudo quando se é humano.


Dá a impressão de que tudo sai como jogo de amarelinha nos movimentos de Alice. Seu jogo de linguagem é o que gira em torno da cena, o olhar tímido, privilegiado, que vê por debaixo da mesa, faz um risco de giz no chão, sintonia fina de mundo quase imaginário. Onde todos vêem solidão inescapável ela é capaz de ver “dois astronautas indo comprar pão”. Essa é a magia que certamente vai oprimir os olhares engessados, e quem sabe fará o favor de quebrar-lhes o gesso.


A poesia dessa menina de uma timidez que se permite ousar – “Não sou tímida, quem disse que eu sou tímida?” – nos diz que tudo deve adquirir um incrível senso de normalidade. Então, ela me explica apenas com os olhos, levando o copo à boca, qualquer coisa poderá assumir uma grandiosidade própria.


Mas o mais difícil era saber o que dizer a ela. Eu havia anotado quarenta e seis perguntas das mais descabidas num caderno enquanto ela ainda não havia chegado, e estava realmente começando a perder a cabeça quando ela finalmente chegou. Depois que ela sentou eu não sabia mais nem mesmo o que estávamos fazendo ali.


A única pergunta que me vinha à cabeça era algo como: “O que você pensa acerca do Gato de Botas?” A situação começava a ficar realmente difícil, quando ela decidiu pedir “apenas uma água” e eu abandonei o chope e desci um degrau até a vodca nacional. Então duas meninas dessas contratadas por empresas frigoríficas se aproximaram com amostras grátis de pequenos sanduíches de mortadela com pão francês. Aquilo deu uma esfriada nos ânimos e pude até ser engraçadinho.


As mulheres vieram com seus cestos de pães e Alice me perguntou discretamente o que deveríamos fazer. Eu disse “Ora, comer os sanduíches”. Então as mulheres chegaram bem perto e nos ofereceram o pão com mortadela mais novo do mercado. Eu disse “Dê os dois a ela, que ela está faminta”. Todos rimos e Alice me deu um tapa de leve no braço. Aquilo era inesperado, um tapa de leve no braço, e de algum modo serviu para alguma coisa.


Depois começamos a conversar sobre o enfadonho mercado editorial. Alice trabalha como assistente de edição, além de escrever algumas orelhas para os livros da Editora Alfaguara, que têm proliferado como coelhos nas melhores livrarias da cidade. Falamos um pouco sobre o romantismo esmorecido dessa profissão, sobre a faculdade (Alice cursa, hoje, o mesmo curso de Comunicação que eu fiz há seis anos).


Falamos também sobre Haruki Murakami, escritor japonês ocidentalista de quem ela gosta bastante. Eu lembro então de Yukio Mishima, escritor japonês orientalista de quem eu gosto bastante. Ela diz que não conhece, mas com certeza vai procurar, falamos então um pouco sobre os nomes que daríamos aos nossos filhos, e com esse tipo de trivialidade seguimos até o fim do encontro.


Porque essa menina de toque delicado e trejeito de secundarista veio para nos lembrar dos pequenos gestos simples, das coisas que jogamos brutalmente dentro de um armário escuro quando dizemos que isso é amadurecer. A poesia de Alice se disfarça de algodão, mas é mão dada em ciranda, a mão leve que mostra o outro lado à cabeça ensimesmada. Vem sorrateiramente e se instala no vão entre a emoção e a capacidade forjada de se emocionar, adquirida pelo adulto. É cura para espíritos envelhecidos que tocam a mesma nota. Na verdade, erro chamá-la simples. Melhor seria diagnosticá-la minimalismo do enorme. Alice agarra as lascas de pão que ficam pelo caminho de uma cidade-princesinha-caótica. Os poemas bem ali, entre as montanhas, flutuam como sombrinhas de Mary Poppins. E de repente não me sinto mais envergonhado, sou mais um velho salvo.




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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

NO AVIÃO >> Ana Coutinho

Eu estava sentada na minha poltrona, absolutamente entretida na minha leitura, quando a comissária avisou que as luzes da cabine seriam reduzidas para decolagem. Pronto, um instante depois e eu não conseguia saber o que acontecera com o personagem do romance que eu tinha em mãos. Decidi então acender a luzinha individual, essa que fica acima de nossas cabeças, no teto do avião. Acontece que, quando olhei para cima, tive uma surpresa. A minha luzinha não estava lá. Havia uma luzinha exatamente sobre as poltronas da frente e havia luzinhas na linha exata das poltronas de trás. Onde estariam as minhas? Uma rápida pesquisa me fez notar que, talvez — e apenas talvez — aquelas da frente poderiam ser as minhas, e as de trás, seriam na verdade, dos detrás dos detrás. Enfim, inclinei-me cuidadosamente para acender a luz da poltrona da frente — porque achei que poderia ser a minha — e, assim que a lampadinha iluminou tudo abaixo dela, a moça que estava sentada na poltrona correspondente remexeu-se, teve um espasmo e acordou subitamente, olhando para mim como se eu tivesse feito a coisa mais absurda do mundo. Virou-se e lançou-me um olhar assassino, sem a menor cerimônia e com tanto ódio que eu cheguei a sentir-me tranquilizada por não ser permitido embarcar com objetos cortantes. O olhar maldoso da mulher foi tão assustador que desliguei a luzinha imediatamente, e ainda fingi que estava só me espreguiçando. Cocei a cabeça, desajeitada, simulando um bocejo, e ela voltou ao seu lugar, como se acalmada pelo meu pavor. Resignada, mas não vencida, pensei que quem sabe a luzinha de trás seria a minha. Mas abaixo dela dormia um senhor de bigodes, que sempre é uma coisa que deixa a gente meio desconfortável, de maneira que não tive coragem de tentar aquela de trás e fiquei lá, meio que me inclinando, forçando a vista, mas nada. Eu tinha pego várias daquelas balas de caramelo que as aeromoças oferecem e era só o que me restava. Comê-las uma atrás da outra, ansiosa para que o tempo passasse. Observei mais uma vez a moça da frente. Ela não precisava ter sido tão rude comigo, devia ser uma chata daquelas. Senti vontade de jogar um das balas duras na cabeça dela. Eu faria discretamente, ela tomaria um susto e quando se virasse para me flagrar, eu estaria com os olhos fechados, dormindo o sono dos anjos. Pensei, bolei tudo, mas não tive coragem, sempre fui meio ruim de mira, vai que acertava, sei lá, o piloto... Pensei também em chamar a aeromoça, só que, vocês sabem, a tripulação tem obrigação de desaparecer na hora da decolagem... Ao meu redor, todos dormiam, o que aumentou a minha irritação por ser a única a sentir-se com as mãos atadas, nas luzes apagadas, e absolutamente acordada. Foi quando, de repente, mexi a única coisa que podia, que eram os meus pés, e senti que a salvação viria. Ali, enroscada nos meus pés, estava a alça da bolsa da chatonilda, a da poltrona da frente, que, pra dormir melhor, deve ter deixado seus pertences no chão, sem imaginar que eles andariam com o avião acelerando. Sem nem pensar direito, comecei a puxá-la delicadamente para mim, até tê-la completamente sob a minha visão. A bolsa era dessas sem zíper, de forma que eu podia ver o que havia dentro. Uma agenda, uma caneta, uma carteira... a luz de repente não me fazia falta, eu via tudo e logo concluí que a chata devia ter TOC, tão organizada e metódica que era. Eu desconfiara desde o início. No entanto, constatar uma doença não me afeiçoou a mulher. Ao contrário, sentia-me tão ansiosa ali que resolvi fazer algo de útil. Jogar os meus papéis de balas, aquele monte de lixo, dentro do lixo mais próximo, que estava logo ali, a bolsa organizada da neurótica. Juntei todos dentro de uma mão e pronto, larguei dentro da bolsa, muito discretamente. Também pensei em escrever um bilhete: “Eu sou a luz sobre a sua cabeça, sua tonta!” Mas não tinha tempo, tampouco habilidade. Acabei por dar uma balançadinha na Louis Vitton Standcenter dela, para que os papéis fossem bem até o fundo. Quando devolvi a bolsa ao seu lugar, empurrando-a delicadamente com os meus pés, senti uma alegria e uma excitação renovadas. Foi em um instante, quando o avião decolava, que notei como pode ser bom ter 30 anos, mas sentir-se com o vigor e a astúcia de uma criança de 8.

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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

CADEIRA >> Carla Dias >>


Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.
Cecília Meireles

Eu morava na lavanderia da casa. Minha mãe, irmã, irmão e avó moravam na casa principal. Entre a lavanderia e a casa havia um quintal sem árvores ou flores; era de concreto. Nele moravam os varais e a tartaruga da minha bisavó, na qual eu tropecei algumas vezes, quando voltava do trabalho. Também falei com ela algumas vezes, porque queria saber o que tanto ela maquinava nos seus passeios preguiçosos pelo quintal, enquanto mastigava sua folha de alface.

Nas noites de lua cheia, lá ia eu paquerar a ilusão de emprestar brilho para colocar na vida minha que teimava em ficar desbotada. E era impressionante como esse olhar flertando com a lua me vestia de vontades... Dava um ânimo!

Em momentos como este, eu até acreditava que seria quem desejava ser e que chegaria... Sabe onde?

Lá...

No lá que freqüenta a imaginação da gente; que pensamos estar adiante, mas que damos de revisitar nas lembranças, num apaixonado passeio pelo passado. O lá dos instantes fugazes, dos lugares desconhecidos, das pessoas que haveremos de conhecer.

O lá das cicatrizes sendo abolidas com um simples gesto da felicidade.

Naquela época eu colecionava sonhos, cartazes de shows, cartas de amor, embalagens de bombom Sonho de Valsa. Colecionava muros, como os que cercavam minha casa, só para aprender a escalá-los, e também as idéias que nasciam inspiradas pelas palavras de Lobsang Rampa, Milan Kundera, Vinícius de Moraes, Gabriel Garcia Márquez, Clarice Lispector, Herman Hesse... Ah, o lobo...

E também canhotos de entrada do cinema, porque eu me atirava nos filmes que quase podia tocar a face dos personagens.

Em noites mornas, sonsas, a lua brilhando um sorriso escondido, eu colocava uma cadeira no quintal, sentava-me e apoiava a cabeça no encosto. Passava um tempo que nunca soube contar - porque fugia dos ponteiros do relógio - a pensar no amor que sentiria, no amor que sentiriam por mim; nas conversas dos amigos e amigas, as histórias da família, as nascentes das conquistas. E nas guerras que deixariam de existir, devagar, mas findariam.

Um amontoado de esperanças sem eira nem beira... Como elas devem ser: desprovidas de contornos; de limites.

Mas olhar para lá também podia acabar em angustia. Meu olhar que era da lua, deslocava-se ao infinito e o saboreava como filho temerário no qual já vinha se transformando. Encarar esse lugar me agoniava, porque não havia porto, porta, janela, fresta, buraco que indicasse entrada/saída, que sugerisse alicerce.

E se tudo despencasse?

O céu nas nossas cabeças, a lua rolando pela avenida, as estrelas se esborrachando nos sofás das nossas salas, enquanto assistimos nosso programa favorito. Mas depois me acalmava, a noite já tarde, com seus barulhos de silêncio; a lua reinando, impávida, sobre nossas cabeças.

Como eu queria, nesse meu hoje domesticado, puxar essa cadeira de questionamentos; mergulhar nas provocações do infinito...

A lua de testemunha... Lá.


Imagem: Flip Pizlo

Site: www.carladias.com
Talhe - Blog:
www.talhe.blogspot.com




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domingo, 15 de fevereiro de 2009

CADA UM TEM O MILAGRE QUE MERECE
>> Eduardo Loureiro Jr.

É a primeira vez que conto um milagre. Na verdade, é a primeira vez que um milagre me acontece. Como sou novato em presenciar e contar milagres, peço a você, leitor, a paciência de me acompanhar, sabendo que podem soar desajeitadas as palavras que se seguem a um milagre.

"Estou doida para escrever, mas completamente sem assunto", me disse a Paula Pimenta pouco antes de fazer e publicar sua crônica de terça-feira passada. Custa-me crer que falte assunto a algum escritor, então prefiro pensar que a mensagem da Paula foi só pra fazer um charminho.

Imitando a Ana Coutinho, que há dez dias escreveu uma crônica dividindo as pessoas em powerpoint e excel, arrisco afirmar que há dois tipos de escritor: o óvulo e o espermatozoide. O escritor espermatozoide diz que a atividade de escrever é mais transpiração do que inspiração, que dá muito trabalho e pouco prazer e que, muitas vezes, não chega a um resultado satisfatório. Já o escritor óvulo acredita em inpiração, nunca sofre por escassez de ideias, escreve fácil, fácil, e sempre concebe alguma coisa nova. O escritor espermatozoide está, no fundo, se queixando de que há muito espermatozoide para pouco óvulo. Enquanto o escritor óvulo agradece a Deus por poder ficar quietinho, em casa, esperando que milhões de espermatozoides disputem o privilégio de se juntar a ele.

Eu, definitivamente, sou um escritor óvulo. Nunca tive problema de falta de inspiração. Escrevo como quem bebe água. Cada vez que sento para escrever, várias ideias disputam entre si o privilégio de serem transformadas em texto.

Falo disso justamente hoje porque esta semana foi particularmente espermatozoica: pensei até em fazer uma crônica gêmea ou trigêmea. Normalmente, escolho um assunto, uma ideia, sem sentir muito pesar por abandonar todas as restantes, mesmo sabendo que muitas daquelas ideias descartadas jamais serão aproveitadas novamente. Mas essa semana está difícil, quer dizer, está excessivamente fácil...

Recebi e-mails de um casal de primos queridos. Ela declarando ser minha fã nº 1: "Que audácia a minha!". Ele dizendo: "Aqui nessa casa de pai ateu e mãe doutoranda sem disposição de ir a missa, suas palavras são nosso alimento espiritual dos domingos." Ah, que bela crônica essas declarações de amor dariam...

Mas recebi também um telefonema de minha irmã mais nova, contando-me algo que muito me emocionou. O que me emocionou? Não posso contar, pois minha irmã mais nova pediu segredo. Ah, que vontade de escrever uma crônica cheia de emoção e segredo...

Não foi tudo. Esses dias, estive viajando, e só cheguei há pouco — por isso a crônica não saiu na hora do almoço, só está saindo na hora da janta. Eu estava no interior de Goiás, participando da I FLIPIRI, Feira de Literatura de Pirenópolis. Fui com amigos escritores da Casa de Autores. Presenciei momentos maravilhosos — a peça que teve troca de público durante sua apresentação, a escritora que domou meninos levados contando uma história de cavalo — momentos que renderiam não apenas uma crônica, mas uma série delas...

Ainda em Pirenópolis, recebi o telefonema de minha irmã do meio. Ela anunciou que está grávida de meu segundo sobrinho. O primeiro sobrinho, o Luís, quando soube que havia um irmãozinho ou irmãzinha crescendo dentro da barriga de sua mãe, perguntou, com a sabedoria de seu um ano e onze meses de idade: "Também tem um irmãozinho crescendo dentro da barriga do papai?" Ah, essas genialidades das crianças rendem sempre crônicas tão boas...

Mas essas crônicas ficarão todas para depois, ou para nunca, pois é impossível não escolher o milagre. E o milagre foi o seguinte.

Na pousada em Pirenópolis, de nome Casa Grande, deram-me o chalé de número 22, o mais distante da recepção, já no limite da propriedade. Com o pensamento firme em Pollyanna, eu caminhava os cem metros que separavam o recebimento da chave na recepção até a entrada em meu chalé repetindo para mim mesmo: "Que maravilha caminhar por toda esta estrada de pedras em zigue-zague! Que sorte poder passear por toda a pousada, tão cheia de plantas e flores e árvores coloridas, brilhantes e aromáticas! Que bom caminhar um pouco já que esses dias não terei tempo de fazer minha caminhada vespertina!"

E foi logo depois de girar a chave na fechadura, na sexta-feira, após voltar do café, que o céu desabou: chuva das grossas. Eu tinha dez minutos para escovar os dentes e arrumar meu material para as primeiras atividades da Feira Literária. Na recepção, eu esperaria um transporte da organização do evento, que me levaria até o cinema local: seria bom ver a chuva de dentro do carro assim como era bom ver a chuva de dentro do chalé. Mas e do chalé até a recepção? Para não aumentar o volume da bagagem, eu havia deixado meu guarda-chuva em Brasília. E nos chalés não havia um telefone para eu me comunicar com a recepção e solicitar auxílio. Eu teria que caminhar os agradáveis cem metros sob a chuva, chegando encharcado à recepção.

Foi então que resolvi rezar, pedir auxílio a Deus. Eu não gosto de aborrecer Deus pedindo coisas, sejam elas grandes ou pequenas. Mas naquela sexta-feira, não sei exatamente por que, resolvi dar uma de filho de Deus e fazer um pedido.

Estão vendo? Já estou desajeitando as palavras. Não é que eu não goste de aborrecer Deus. É outra coisa menos confessável, mas que confessarei, como retribuição por ter recebido o milagre de que vocês saberão daqui a pouco.

Eu sou filho de uma mãe extremamente religiosa com um pai absolutamente ateu. Minha mãe é capaz de mover montanhas com a sua fé e, se nunca o fez, é apenas porque não quer atrapalhar a vida dos geógrafos, dos editores de livros didáticos e dos professores de Geografia. Meu pai é um ateu tão convicto que, por não acreditar em nada, converteu-se, ele mesmo, numa criatura inacreditável. Dessa combinação ancestral, resultei eu, um ser dual, quase mitológico, à moda de centauros e minotauros, metade pai, metade mãe, meio deus, meio materialista. A melhor maneira de expressar como me sinto é dizendo que tenho uma fé do tamanho de uma montanha, mas sou incapaz de mover um grão de mostarda, simplesmente porque não acredito que montanhas e grãos de mostarda tenham qualquer coisa a ver umas com os outros.

Então foi esse crente descrente que, num descuido de ateísmo, pediu a Deus: "Por favor, faça com que eu chegue sequinho até a recepção da pousada". Nem bem ouviu isso, o descrente em mim fez uma cara de "deixe de ser besta" e começou a pensar numa alternativa: improvisar uma capa de chuva com os sacos plásticos que envolviam as toalhas da pousada. Mas bastou eu rasgar o primeiro saco para o crente em mim sussurrar: "Simplesmente confie". E foi o que fiz: larguei o saco sobre a cama e me dirigi para a porta. "Você está louco?!", gritou o descrente. "Assim vai se molhar todo. Você já passou da idade de acreditar nessas coisas. Volte aqui e prepare essa capa. Não seja irresponsável. Não existe deus nenhum cuidando para que você não se molhe. Não seja criança. Cresça, homem!" Mas talvez porque o descrente falasse muito e o crente falasse pouco, talvez por eu preferir o silêncio ao falatório, me encaminhei para a porta sem nenhuma proteção contra a chuva. Quando coloquei a mão sobre a chave que estava na fechadura da porta, à direita do chalé, olhei distraidamente para o lado esquerdo, e lá estava um guarda-chuva grande, daqueles não dobráveis, de pé no canto da ante-sala, atrás da pequena mesa redonda. Aquele guarda-chuva já estava ali antes e eu não tinha reparado? Eu não saberia responder. Tudo que sei é que o descrente resmungou alguma coisa incompreensível e o crente simplesmente agradeceu. Um milagre — o meu primeiro — havia acontecido, e eu estava muito feliz.

Foram, aliás, os cem metros mais felizes da minha vida. Eu atravessei a pousada, do chalé até a recepção, como se pisasse em nuvens, e o som da gotas de água sobre o guarda-chuva era a melodia mais linda que eu ouvia em muito tempo. Cheguei até o recepcionista e, junto com a chave do chalé 22, dei-lhe o melhor bom-dia que ele já recebeu de qualquer um dos hóspedes daquela pousada. Contei-lhe rapidamente o meu milagre: "Você não sabe o que me aconteceu agorinha mesmo? Começou a chover e..." O recepcionista, um sujeito realmente simpático, ficou um pouco constrangido ao me dizer: "Nós colocamos um guarda-chuva em todos os quartos. Chove muito aqui em Pirenópolis nessa época do ano." Então era isso. O meu milagre, o meu primeiro milagre, havia durado cem metros, aproximadamente dois minutos.

No caminho para o cinema, não conversei com o motorista. Fiquei aguentando a ironia insistente do meu descrente interior: "Só você mesmo para cair numa dessas. Isso é pra você largar de ser besta. Se Deus existisse, se pelo menos ligasse pra você, faria um milagre de respeito: interromperia a chuva apenas durante aqueles cem metros ou faria chover apenas ao seu redor, eliminando a chuva do exato lugar onde você estivesse pisando." Vendo meu desânimo, o descrente se calou, dando-se por satisfeito.

O crente, que fala pouco, achou que a situação merecia um pouco mais de palavras — três ou quatro a mais. Disse-me ele, com voz pausada e suave: "O milagre foi você ter visto o que já estava lá." Sim — eu disse. Sim — repeti. E tapei a boca do descrente que já queria retomar seu falatório. Sim, sim, sim! O milagre é ver o que já está. O milagre é uma venda que cai do olho.

E foi para isso que eu lhe escrevi hoje, meu caro leitor. Só para lhe contar — com desajeitadas palavras — da minha milagrosa alegria de enxergar.

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sábado, 14 de fevereiro de 2009

BENJAMIN BUTTON E A PRESENÇA DE SATURNO [Ana González]

Você pode acreditar que uma personagem nasce com mais de oitenta anos e morre bebê? Não dá para acreditar, a menos que saibamos que se trata de arte literária ou da mágica do cinema.

A verossimilhança da obra de ficção bem realizada faz milagres. E nossa mente deixa-se conduzir com prazer e admiração perante a obra que nos rouba a atenção.

Benjamin Button me roubou de mim mesma. A imagem de um relógio inicia o filme, com os ponteiros andando para trás. Ele representa a dor de uma perda e a fantasia do tempo que volta e recupera tudo o que não se quer perder. É uma tentativa desesperada para negar a dor do inexorável, para refazer o caminho do desejo humano. Inexorável caminho do tempo, marcha da vida. Esse relógio indica que o caminho será esse: bonito e difícil.

São muitas as personagens de toda uma vida que se movem dentro da história. Encontros e separações, figuras poderosas e humildes, todas grandiosas carregando a seu modo o drama de suas vidas. Cada pessoa sendo o que é nas circunstâncias aceitas. Assim fala a narrativa. Assim fala a vida.

Rompe-se o paradigma do tempo tal como o conhecemos, representado no personagem principal. Rejuvenescer pode ser tão perturbador quanto envelhecer. Não se trata de uma simples história de amor. O tempo saturnino é dono de toda a narrativa. É a história do tempo, de como vivemos a marcha do tempo, que por meio de ranhuras e de estranhamento nos acorda para nossa finitude e fragilidade. Não escapamos de dores e de angústia, tão humanas.

A presença do amor e da sutileza pode ser solução ou alívio para essa constatação terrível. Essa presença de várias maneiras aparece e salva as personagens. Seja na visão de um nascer do sol, em silêncio ou no encontro para ouvir a descrição do movimento das asas de um beija-flor. No sacrifício do cumprimento do dever, na brincadeira entre crianças ou no momento do amor. Por essa presença e seus significados, a vida deve valer a pena. Puros momentos de poesia.

Saturno, em toda a sua grandeza de mestre que fala a verdade da vida, vem representado na dureza e na doçura, nos vários aspectos da vida em suas dores e amores. Ao pai que rejeita seu filho é dada a possibilidade de resgate no gesto que recupera a hierarquia. À vocação da mãe que não questiona os fatos, o gesto sempre generoso. Ao artista, a glória da realização. Ao aparente desencontro na vida, a possibilidade do amor que se constrói ao longo dos anos. Às verdades que são reveladas, sentimentos paradoxais e perplexidade.

Saturno mostra-se mestre na linguagem do amor, do silêncio e do equilíbrio mesmo que por dentro de muitas dores. Para os astrólogos, ele está em seu trono no terreno do relacionamento. Pode parecer estranho, mas é a maneira como o símbolo astrológico nos fala da austeridade se complementando no amor e na delicadeza. Assim, no signo de Libra, Saturno impera e marca importância. E o filme nos fala disso tudo com poesia e beleza.

A mansidão de Benjamin, que permeia seus comportamentos, nos diz de sua capacidade imensa de não se rebelar perante a marcha dos fatos. Ele é especial, sua 'mãe' sempre soube. Esta talvez seja sua marca diferencial: o gesto amoroso perante tudo: sejam perdas, sejam alegrias. De forma saturnina, ele presentifica o símbolo do tempo e da revelação salvadora para a natureza humana.

No final do filme, o relógio do início, depois de algumas décadas de funcionamento, encontra-se desativado. Foi substituído por outro moderno, digital, que funciona de acordo com o que se espera dele. O velho relógio então é tomado pelas águas de uma inundação, o que serve para de novo marcar a fragilidade de nosso desejo e de nossos recursos contra a maioridade da vida. São águas que destroem definitivamente o desejo e a onipotência humana. A intenção do início não se sustenta. Mas houve uma revelação salvadora, aquela do amor e da poesia possível. A cada um, a sua escolha.

No meio da narrativa, à pergunta de Benjamin a respeito dos motivos de sua diferença, sua mãe adotiva simplesmente responde: “Um dia, Deus vai nos dizer”. Deus não diz explicitamente, ela sabe que Ele não dirá. Os fatos dirão, o amor e a sutileza dirão. Ela viveu essa experiência e sabe que Benjamin também viverá, pois ele escolheu o caminho do amor.


Imagens: Benjamin Button, Pôster de Divulgação; Saturno, Roger Ressmeyer (NASA)



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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

VINHO >> Leonardo Marona

"remorso"

às vezes
um pingo
de vinho
esquecido
na mesa
domingo
significa
a tristeza
mais que o suicídio
daquele ex
antigo amigo
proxeneta.


“desculpas de um louco”

o delírio
é quando
dão lira
ao nosso
eu lírico;
ou vinho.


“Solidão FM”

às três e vinte da madrugada
vi que as pontas dos meus dedos arroxeavam
e logo em seguida, derrubei minha garrafa.
no rádio, uma voz aveludada saudava uma ouvinte:
“bom dia, Gislaine... você está ao vivo conosco. em que posso lhe ser útil?”
depois do chiado, vacila uma voz fina e triste de mulher mal-amada, eclipsando:
“boa noite, seu Vadão...”
“sim, Gislaine, boa noite...”
“é Gisleine, seu Vadão...”
“tudo bem, Gisleine, do que você precisa?” – disse o veludo, já meio camurça.
“olha, eu queria dizer que eu adoro o programa e que escuto o senhor todo os dias.”
“muito bem, Gisleine... grato pelo carinho. mas diga o que você quer.”
“eu preciso de um marido, seu Vadão. Um que tenha entre 35 e 55 anos...
pode ser calvo, pode ser barrigudinho, não tem problema, que beba!
mas não pode ter barba – que espeta, a menos que seja comprida, macia
– que eu adoro limpar barba suja de sopa –
de preferência que fale pouco
e seja simpático a troco de nada, mas não um boca-aberta,
e que saiba limpar a mesa e não durma de meias.”
a rádio saiu de sintonia
enquanto eu enxugava o vinho
no carpete com a língua,
quando pensei em telefonar para o Vadão
e me candidatar como marido de Gislaine
– ou Gisleine –
mas tive que desistir da idéia
porque não estava dentro da faixa etária.


http://www.omarona.blogspot.com/

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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

O HOMEM E O MENINO >> Ana Coutinho

Eu estava na manicure, num salão desses bem fuleiros que atendem mulher, homem e quem mais vier.

Já estava na segunda mão, quando eles chegaram, os dois juntos. Era um homem e um menino. O homem, uns 40 anos, foi logo falando pro barbeiro: “A gente vai raspar. Máquina 1”. O menino, uns 15, baixou a cabeça, sem graça, e permaneceu em silêncio. “Os dois?” O barbeiro perguntou, olhando para a vasta cabeleira de ambos. “Os dois”, respondeu o homem, convicto. “Quem primeiro?” Houve um silêncio, antes de o homem dizer para o menino: “Pode ir, vai lá”. O menino sentou na cadeira com uma expressão tão triste e conformada que cheguei a me sentir comovida por ele. O homem batia nos ombros dele, consolando. “Cabelo cresce”, dizia, sem conseguir parecer otimista. Quando começou a passar a máquina, eu jurei que o menino ia chorar. Ele coçava os olhos, calado, nenhuma palavra. Tentava fingir que estava bem, estando absolutamente desolado. O homem, por sua vez, tentava dar um sorrisinho, mudar de assunto e disfarçar o indisfarçável: a dupla estava sofrendo horrores. Eram cúmplices, companheiros, grandes amigos e, juntos, aguentando um sofrimento desconhecido pra mim.

Comecei a me sentir triste pelo menino. Uma espécie de pavor pelo sofrimento alheio me invadiu, e comecei a questionar-me: O que acontecia? Por que aquele menino precisava passar por aquilo? Era uma maldade muito grande! Olhei-o pelo espelho e logo que o olhar dele me encontrou, eu tentei sorrir. “Nossa, está ficando bonito!”, falei a mentira deslavada com uma sinceridade surpreendente, quase acreditei em mim mesma. O menino, coitado, balançou a cabeça negativamente e permaneceu calado, como se qualquer palavra fosse fazê-lo explodir em lágrimas. Era um silêncio ensurdecedor. O homem, já sentado na cadeira ao lado, endossou as minhas palavras, parecendo imensamente agradecido: “Aí, tá vendo?” Ele disse com uma empolgação fascinante. Mas a verdade é que a gente sabia. Todo mundo ali sabia que não estava bom. O menino, gordinho, ficava com a cara ainda mais redonda conforme os cabelos iam caindo, tufos enormes ao chão. Tive vontade de perguntar. Seria alguma aposta? Tentei lembrar do campeonato de futebol, se alguém tinha perdido pra alguém recentemente, se tinha tido qualquer eleição de alguma coisa que fizesse um menino apostar com seus amigos: “Se meu time perder, eu fico careca, raspo meu cabelo com máquina 1!” Ele teria dito firme, observado pelos olhos incrédulos dos amigos. “Feito!”, responderam os outros meninos, sádicos. Será? Será que ele era assim tão comprometido? Não... Aquilo estava me parecendo mais uma obrigação. Como se ele precisasse fazer. Quando o homem já estava com a capa, e o barbeiro começava então a raspar-lhe a cabeça, pensei no pior: “Ai, meu Deus, o menino tá doente, aquela doença que nem o nome a gente fala, tadinho!” Eles se olhavam com tamanha compaixão e cumplicidade que eu deduzi que eram pai e filho assolados por uma grande tragédia. O médico teria dito: “Já raspa o cabelo de uma vez, você é homem, está calor mesmo...” O menino teria relutado até aquela manhã, quando viu o chumaço de cabelo no travesseiro. Mostrou para o pai e foram, ambos de mãos dadas, aceitar — quase que resignadamente — o que a vida lhes oferecera. Eu estava quase perguntando, juro, quase, quando a minha unha acabou.

Saí do salão e entrei no carro. Fiquei lá esperando os dois saírem. Não demorou muito e eu vi as carequinhas ali, andando pela calçada. Decidi segui-los. Se eu descobrisse onde moravam, pra onde iam, se fossem a uma festa ou a um velório, talvez a minha dúvida aquietasse. Acontece que, depois de dois quarteirões dirigindo devagarzinho, encostando na calçada, e até simulando uma ligação no celular pra não ser pega, meus personagens amados entraram — ainda a pé — em uma rua contramão. Ai, meu Deus, meu Deus, onde eu estaciono? Como eu faço pra sair daqui e ir a pé atrás deles? Não tem vaga, nenhuma vaguinha, um estacionamento, nada! Foi em um segundo, e eles tinham sumido da minha vista... O homem e o menino tornaram-se meus heróis mundanos. Ainda tenho esperança de que eles leiam a Crônica do Dia e se manifestem, para acalmar meu coração.

Mas, se nunca o fizerem, ainda assim, guardarei fundo na memória a cumplicidade e a força resignada de dois amigos. Um homem e um menino que talvez trocassem de lugar para tornar o duro fardo da vida um pouco — e só um pouco — mais leve...

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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

DESPERTENCER >> Carla Dias >>


Parto do princípio de que não pertenço.

Ao não pertencer, abro mão do currículo que temos de carregar, diariamente, como provas cruciais de quem somos e aonde podemos chegar. Mas não me iludo... Sei que se trata de um ínfimo instante a experimentar desse desapego; que provarei de goles dele durante a vida, e que há um duro trabalho a ser feito para despertencer de vez.

Despertencer de quem seria fosse o avesso de quem sou; e das branduras falseadas que nada mais fazem do que perfumar a dor ferina dos desfechos. Esse desapego pelo certo, calculado; pelos calendários e feriados; pelas portas de entrada que são travadas depois que nos engolem. As janelas voltadas ao horizonte que enxergamos feito quadro, quando deveríamos pertencer à pintura.

Os temporais domesticados.

Muitas vezes nos vestimos com amarras, como fossem redes capazes de nos livrar dos tombos, segurando-nos a centímetros poucos do chão. E então, passamos a viver assim, centímetros de distância nos separando da experiência de sentir das dores aos prazeres; a crueza afastada pelos panos finos que roçam nossa pele, disfarçados de conforto merecido, mas fazendo a vez de muros pessoais; íntimos.

Desaprendi a conjugar promessas, por isso não mais as profiro.

Desaprender é bem menos dolorido do que despertencer, porque ao desaprender destruímos preceitos incapazes de confortarem nossas solidões; desenterramos pesares que se esvanecem ao simples encontro com a nossa conscientização de como são dispensáveis. Desaprender nos permite viajar a sós e aceitar companhia no caminho; olhar o mar de baixo para cima (do fundo para o raso infinito) e encontrar uma nova versão do céu... Um céu de liquidez apaziguadora.

Despertencer atiça os demônios particulares, os convida à mesa; um jantar servido às pressas que alimenta, quase que igualmente, a coragem e o temor por uma possível incapacidade de se desvencilhar dos rótulos, dos desafetos, das limitações. Mas também despe dos véus a capacidade de nos esvaziarmos da condição de aprisionados por nós mesmos, já que nos são oferecidas tais opções com clareza que não se alcança ao lidarmos somente com um lado de quem somos. Ao cultivarmos a possibilidade de não pertencermos, vemos a nós mesmos inteiros, e podemos decidir o caminho a seguir.

Despertencer não significa se ausentar de tudo e de todos, mas se aproximar de si e de outros sem desculpas, preceitos, manobras. Sem antever e definir. É a busca pela intimidade que não intimida, mas engrandece, renova afetos.

Ao despertencer o silêncio me afaga os cabelos. A respiração é tão lenta, como se fizesse hora para não chegar adiantada ao destino; e as cores bocejam uma preguiça esbranquiçada, enquanto cada gesto tem o peso de todas as escolhas que já fiz nessa vida. E no momento mais terno desse despertar, sinto-me escorrendo pelas paredes, batucando nos telhados, abraçando prédios, pessoas, precipícios, estradas, campos; derrubando cercas, rótulos, prisões...

Feito um temporal que é impossível se domesticar.

Imagem: Perfect Storm / NASA


www.carladias.com




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terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

DOENÇA INCURÁVEL -- Paula Pimenta

P de pato
G de gato
A de animal de estimação
Cachorro, coelho e outros
Que a mamãe sempre diz não
Porque estão aqui e ali
Entre o cocô e o xixi
A de animal de estimação
M de mundo mais feliz...
(Os Abelhudos)

Quando eu tinha uns cinco anos de idade, ganhei um cachorro. Uma cachorrinha pra ser mais exata. Ela viveu só três anos, mas deixou um vírus no meu sistema que nunca mais foi eliminado. Ou, talvez, esse vírus já tenha vindo de fábrica nos meus genes, já que toda minha família sofre da mesma doença.

Sou louca por animais. Não posso ver um bicho sem sentir, no mesmo instante, uma vontade louca de pegar. Tenho que abrir parênteses aqui: inseto pra mim não é animal. Fora eles, simpatizo com qualquer um.

Em casa, já tivemos passarinho, papagaio, galo, galinha, pato, marreco, maritaca, peixe, furão, tartaruga, gato, hamster, iguana, gavião... cachorro então é a nossa perdição. Atualmente temos seis. Apenas seis porque, se dependesse da minha vontade, teríamos uns seiscentos. Tenho que explicar, todas as vezes que conto dos seis cachorros, que nem todos foram planejados. Eles foram acontecendo.

O Garoto foi presente para um ex-namorado, a mãe dele não quis o cachorro e eu não deixei que repassassem o pobrezinho pra qualquer um. O namoro acabou depois de dois anos, mas o cachorro está aqui há 13. O Luar foi mais ou menos encomendado. Ele é filho da Menina, minha cockerzinha que foi pro céu há uns anos e sobre quem eu já escrevi uma crônica. Só que a intenção era ficar com uma filha dela, que se chamaria Lua. Como nasceu um filho, ele virou o Luar, o cocker mais lindo e gordão que existe. Daí veio o Mr. Benjamin, um shnauzer. Meu irmão estava ensaiando com a banda em um sítio e um cachorrinho ficava sempre no meio deles, curtindo o som. Ele procurou saber de quem era e soube que o cachorro tinha sido largado lá, pois seu dono tinha tido um derrame e não podia mais cuidar dele. Alguma dúvida de que meu irmão trouxe o cachorro na bagagem? Alguns anos depois, a Menina (já citada) morreu... mas exatamente no mesmo mês, o Luar virou pai e aí foi impossível não ficar com uma filhotinha pra ocupar o espaço vazio que ela tinha deixado, e foi aí que veio a nossa Estrela. Era pra história terminar aí. Só que quando a Estrela tinha um pouco mais de um ano, acabou ficando grávida por acidente, do Luar, seu próprio pai. Dois meses depois ele virou avô... e pai ao mesmo tempo. Nasceram os sete nenéns mais lindos do mundo e a nossa intenção era vender ou dar todos eles, mas só quem é louco por cachorro sabe como é difícil tirar dos braços um filhotinho. Acabamos não resistindo e ficando com um deles, meu Godofredo Mequetrefe, o maior cocker do mundo (e com mais personalidade também). Pensam que acabou? Quase. Nessa mesma época, meu irmão foi assaltado na porta da minha casa. Daí surgiu a necessidade de comprar uma doberman, a Hermione, pra virar nossa guardiã, o que ela sabe encenar como ninguém, já que na realidade ela pensa que é uma cocker, como seus irmãos adotivos.

Não duvido que daqui a pouco apareçam mais. Outro dia mesmo, quando eu ia entrar no meu carro depois de dar uma aula, vi uma cachorrinha sem raça definida deitada bem na porta dele. Como sempre, eu me abaixei pra conversar com ela. Ela ficou meio receosa a princípio, mas cachorro sente em quem pode confiar. Ela veio de mansinho e em dois minutos já estava deitada de barriga pra cima enquanto eu fazia carinho nela. Me levantei (e ela me seguiu) pra perguntar pro porteiro do prédio da minha aluna se ele sabia de quem era, já pensando em como eu ia fazer pra convencer a minha mãe a abrir a sétima vaga, mas o porteiro falou que era dele. Que (falta de) sorte.

Sábado passado eu gerei polêmica quando disse, na mesa da casa da família do meu namorado, que eu tenho muito mais pena de cachorros de rua do que de crianças na mesma condição. Todo mundo arregalou os olhos, como se eu tivesse dito uma heresia. Mas eu expliquei: A criança pode pedir. Ela chega na janela do carro e fala que está com fome, o que sempre lhe rende alguns trocados. Já o cachorro, não só passa fome como ainda é chutado se tenta matar sua fome pedindo comida pra alguém. Por isso minha solidariedade maior é para eles. Minha primeira providência se algum dia eu vier a ganhar na loteria, será construir um centro pra cachorros abandonados. Ia ter de tudo: veterinários, enfermeiros, gente pra dar banho, gente pra dar carinho, gente pra limpar, berçário, tudo que eles precisassem. Depois que eles estivessem em ótimas condições, eu os colocaria para adoção, mas só aceitaria doar para quem realmente tivesse meios de dar uma boa vida a eles, afinal o meu centro seria equipado para eles viverem felizes durante toda a vida.

Por isso é que eu não entendo quem olha torto para animais. Pra mim (e me desculpe se você se enquadra no que eu vou dizer), quem não gosta de bicho não tem um bom coração. Alguns dizem que eles não cheiram bem, que babam, que lambem... O cheiro é culpa do dono. Ou alguém queria que o cachorro entrasse no chuveiro, girasse a torneira e se enxugasse com a toalha? Sobre a baba, claro que eles babam, mil comidas deliciosas à vista e eles tendo que comer ração. Eu também babaria. Agora, a parte das lambidas, quem reclama é porque não sabe como é gostoso acordar de manhã ou chegar em casa e receber montes desses beijos caninos. A vida fica muito mais feliz.

Como disse, nasci com esse vírus. Por sorte todos à minha volta tem essa mesma doença... e eu não faço a menor questão de me curar.


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domingo, 8 de fevereiro de 2009

C... >> ...r.


O corpo

é a casca

da ferida.

E coça.

Coça.

Coça.




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sábado, 7 de fevereiro de 2009

"ESTRUPÍCIOS, FILHOTES DE CRUZ–CREDO: MANGALÔ TRÊS VEZES!" [Sandra Paes]

E de repente solto essa ao telefone conversando com uma amiga.

Me referia ao cansaço de ter que conversar e explicar isso e aquilo aos “atendimentos de serviço telefônico...” Vixe!

Sim, essa semana, pifou tudo aqui em casa. De repente, nada de internet. Vou pegar o telefone pra saber o que é, e nada de telefone também. Eu, hein?

Outro dia, enquanto fazia algo pela casa, pus um CD pra tocar... De repente, parou. Fui lá olhar e estava escrito no visor do aparelho de som: "NO CD"! Mudei pra outro e deu a mesma coisa. O aparelho não podia tocar o que não havia dentro. Desliguei tudo e deixei passar. Estava muito ocupada pra “escarafunchar” o que houve — o que normalmente faço.

Agora, em plena segunda-feira, ficar sem comunicação eletrônica geral, estava demais pra minha cabeça. Ai é que entram os estrupícios todos. Parece dia de mercúrio retrógrado e tudo mais andando pra trás.

Fora de brincadeira: eu falei com uns cinco carinhas destes que atendem o telefone e lhe pedem um minutinho, que voltam já, e nada. Sabia claramente que se não passasse pela via crucis de explicar tintim por tintim, nada seria feito. Eles são todos treinados pra fazer o mesmo percurso. E você tem que fazer o que eles pedem pra no final ouvir a frase fatal: “Vou precisar mandar um técnico aí pessoalmente e preciso falar com o supervisor pra isso. Volto já, já.” E volta coisa nenhuma e a ligação cai e você começa tudo de novo.

Pois bem, depois de tentar um dia inteiro, consegui afinal — já quase perdendo a voz, ao anoitecer —, que um candidato a carreira de santo conseguisse marcar a visita do tal técnico: “— Pronto, dia 26 você tem um horário agendado." Contei nos dedos e teria que esperar 20 dias pra ter o serviço de comunicação restabelecido. Respira-se fundo, e emana-se a pergunta que não quer calar: “Mas tem que ser 20 dias depois?” E ele vai responder fatalmente: “Foi o que consegui, mas depois a gente vê se pode ser pra antes. Melhor pegar assim. Eu ligo pra confirmar.” E lá vou eu ter que explicar que o telefone de casa não está funcionando também e que vão ter que chamar noutro número, etc., e ponho o moço pra repetir tudo pra ficar bem claro que entendeu direitinho.

Ufa! É ou não é sinal pra se bater na madeira, tipo reflexo automático mesmo?

Dois dias depois, ligam cedo para o celular e eu mergulho pra atender ao telefone, pra não perder a ligação, já prevendo que poderia ser da companhia de atendimentos, e bingo! Conseguiram! Marcam um técnico pra amanhã! Oba! Qualquer hora está ótimo! Desligo quase aliviada porque me lembro que tenho que avisar na portaria pra mandarem o técnico subir sem me avisar por telefone por que o dito cujo não está funcionando. Mas, antes, tenho que fazer outra via crucis: saber quem vai ser o porteiro de plantão na hora da chegada do tal técnico.

Sim, porque mercúrio, quando resolve atacar, pega todo e qualquer tipo de atendentes, dos porteiros aos balconistas, passando pelos serviços de atendimento ao consumidor, aos caixas de supermercado e todo e qualquer “soldado” de plantão em qualquer porta. Até as eletrônicas. Precisa de senha ou de autorização, barghhhhh, vai ter que esperar.

Com isso, silêncio por cinco dias. Vamos aproveitar pra meditar, ler mais e refazer os hábitos e ver de perto, o quanto me tornei dependente ou prisioneira dos devices de comunicação.

Hoje em dia, sem correio eletrônico e sem telefone, não se comunica com ninguém. Me bateu uma saudade das cartas escritas à caneta tinteiro... E pensar que as relações ficaram todas em ritmo de Bill Gates, como digo: se não responder à instant message, já tá classificado disso e daquilo. E se não atender ao celular? Já foi pra cruz e não sabe. Agora, se não responder aos e-mails, aos recados da secretaria eletrônica, às instant messages, no mínimo vai perder o crédito.

Agora ficou tudo em ritmo-velocidade-banda-larga. Ou é assim ou você está lento e já tem a jugular ameaçada. Já notou o quanto nos cobram se não respondemos ao chamado celular ou não respondemos a um e-mail? E aos recados deixados na secretária eletrônica então?! Parece que a gente tem que ter um horário reservado nesse escasso dia de 24 horas só pra responder, e de preferência rapidinho, às demandas da moderna tecnologia. Isso sem falar que fatalmente pode ouvir do outro lado: “— Não era nada de importante, não, eu chamei ontem e você não ligou de volta e eu queria falar que..." Blablablá!! Regra geral, tudo totalmente dispensável.

Cultivar afetos, amizades, contatos profissionais ou outras coisas, passou a ser algo que requer até um resumée. Sim, porque as pessoas passaram a cobrar frequencia de falas, de encontros, de saídas e tal. Eu acho tudo muito esquisito, porque o padrão de avaliação passa também pela velocidade das mensagens digitais, dos chats, etc.

Não faz tanto tempo assim que os amores sabiam esperar. Porque lá dentro havia embutido o tempo que o carteiro levaria — a cavalo — pra entregar sua carta, o tempo para se degustar o chá, o tempo para se esperar a entrega das flores, o tempo de ouvir as canções românticas pela madrugada. Ainda no tempo de minha avó, quando a comunicação era mais lenta porque as distancias eram muito longas, a espera era uma arte. A gente podia restar no clima do suspiro por 20 dias. Agora, esperar um técnico por 20 dias é sinal de desespero mesmo. Sangue ferve, pressão sobe, vísceras ardem. Resposta do amado para qualquer programa tem que ser instantânea. Pra isso existe text message. E olhe lá! Se não atender ou cair na caixa postal, pronto: desastre total!

Não há nervos de aço pra isso. Eu então, que não os tenho, é um horror. Pois bem... Relaxa, menina, falo pra mim mesma. O que não tem remédio, remediado está. Outra das frases que havia aposentado. Afinal, veio o técnico, mexe daqui e dali, me olha com cara de jacaré em rio sem presas e diz: “— Vou ali buscar uma coisa e volto já.”

Eu, que já dera o comando pra relaxar, deixei passar, claro. Levou um tempão e voltou com umas ferramentas. Na hora pensei logo — por que ele não subiu com as ferramentas antes? Provavelmente pensou que eu era uma daquelas pessoas que tiram o plugue da tomada e não sabem pôr de volta, e tal.

Abanei a cabeça pra sacudir o pensamento horroroso e o deixei trabalhar. A coisa parecia feia. Vi-o tirando tomadas da parede, puxando cabos daqui e de acolá, e pedi ajuda Divina, literalmente. Depois de algum tempo, veio pedir que eu testasse tudo. Pronto, tudo funcionando! E me explicou que teve que trocar o cabo de sinais, alguma coisa aconteceu que não passava nada. E me lembrei do dia em que o som informava que não tinha sinal de CD.

Ha umas correntes que dizem que os fantasmas habitam as tomadas nas paredes e de vez em quando aprontam coisas. Será? Minha felicidade durou um dia. Pois na manhã seguinte nada funcionava de novo. Ligo outra vez pra reclamar já afirmando que o técnico tinha vindo e feito um bom trabalho e me informaram: "— Não estamos conseguindo saber o que está acontecendo, mas parece que no seu edificio caíram varios sinais." A frase foi literalmente essa. Me senti num daqueles castelos de ponte levadiça cercado de um fosso cheio de jacarés, todos famintos, e a ponte enguiça e não sobe nem desce. Fazer o quê? Esperar...

E aí vou ligar a televisão e percebo que ela também saiu do ar. Hahaha! Sem contato com o mundo externo geral! Se Deus está querendo mandar algum recado, tá muito bem mandado: silêncio! Fica na sua! Não podia ser mais evidente.

É claro que se presta atenção a isso: no mundo de hoje, sem eletricidade e seus derivados, a vida se paralisa. Mentira! Talvez seja a hora em que ela começa. Cinco dias de jejum de tudo, então vamos mudar também a dieta alimentar. E que tal fazer novos hábitos, até os mentais? Que beleza! Dias sem saber o que se passa na TV, sem ler um e-mail, sem falar com ninguém ao telefone. Entrei na sonífera ilha.

Depois, quando pelo menos a internet e o telefone voltaram a funcionar, fui logo procurar registrar algo no blog que não mexia há meses. E aí, surpresa! O provedor também está fora do ar. Tenho mesmo que bater na madeira e repetir: cruz-credo-pé-de-pato-mangalô- três-vezes!

Já não é mais perda de sinal — é muita coisa junta. Tem algo mais do que estranho por aí. Até porque descobri que o que mais gosto de fazer é escrever e conversar. Será que sou descendente de Jó? Nahn! Não vou vibrar esse pensamento, não. Há outras formas de viver a vida com mais calma e paciência, e é isso que vou procurar descobrir. Até mais ver!



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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

A LEGIÃO ESTRANGEIRA >> Leonardo Marona


Passou o grande navio
Levando os emigrados
Que nenhum país aceita.

(“O Navio Fantasma”, Murilo Mendes)



Aconteceu uma hora quando provavelmente essas coisas acontecem.

Foi enquanto ele pensava no rinque de patinação no gelo, o estar constantemente deslizando em busca de lugar nenhum, foi neste exato momento, ele apenas virou a cabeça para o lado, um certo ângulo de sol lhe encobriu parte do rosto, e teve a idéia de abandonar tudo e se fazer natureza heterodoxa.

Cavou informações sobre requisitos e condições de sobrevivência em terras longínquas onde a morte era um privilégio. Soube de histórias sobre apostas com cossacos tatuados nos moldes da máfia moscovita. Sobre tártaros com as gengivas maiores que os dentes e hálito de moscatel.

Ouviu conversas sobre renegados por doenças insólitas que se pegam por contato de pele íntima. Sobre maus poetas avarentos que vendiam os próprios órgãos. Anões de menos membros que apostavam nos dados com “bailarinas” aposentadas, as ditas “artistas de corpo”. E todos faziam parte do exército sem nacionalidade, ao qual havia decidido se alistar no dia em que não havia comido nada pela primeira vez na vida, tão distante de si, imerso no espaço sem nome entre as coisas.

Uma vez checadas as ordens, as motivações que não poderiam ser riqueza, amor, pudor, ódio ou simples carnificina, passou a ter que, por questão de bravata e tradição criteriosa, achar determinado esconderijo em “terras turcas”, assim mesmo, entre aspas, como espécie de código analógico, senha periférica para se instalar no vácuo.

Durante a viagem, transcorrida em sala quadrada e sem janelas, resolveu ler – mesmo que isso não importasse em nada para sua motivação – o prospecto do “procedimento do guerrilheiro sem nome”, a “saga homérica de cada homem sem face”; “quer romper com seu passado e começar uma vida nova?” E ali estava tudo que de fato era preciso fazer e, de fato, todo o resto lhe pareceu de repente sem sentido.

Pensou em suas motivações reais e tudo não passava de uma sucessão de atitudes impensadas. Um negar-se constante em prol do benefício alheio. Um querer estar onde não pausa a fantasia. O poder navegar sem saber para onde por reconhecer-se finalmente desnecessário. Era no fundo um pensamento poético em alguém desesperado por ar. Pensamentos poéticos em pessoas desesperadas nunca foram de grande serventia.

Estava a caminho e não havia mais volta. Desembarcando, foi obrigado a seguir uma navalha até um lugar feito com mortes de escravos e pedras vermelhas do sangue sacrificado. Encontrou nada mais que alguns senhores de gravata apostando nos dados. Eram três, eram baixos, estufados e usavam bigode. Arfavam como quem sofresse de uma espécie de síndrome alcoólica fetal. As cabeças pontudas e as orelhas amputadas.

Quando ele se aproximou, um deles apenas enrolou o bigode, falou algo baixo ao outro, o mais vermelho. Então este puxou o chapéu para baixo e deu com o cotovelo na costela do terceiro, e se retiraram.

Havia uma série de artigos a ser diariamente recapitulada, mas rapidamente ele reconheceu que todos os seres humanos equivocados estavam ali e aquilo parecia a Babel sem nenhum charme. Não havia nenhum Nero ou Vlad Tepes. Ninguém era explicitamente assassino, porque eram todos fugitivos de algum lugar e alguma lei e alguma paixão que resultou perigosa. Eram todos às escondidas e isso dava uma aparência de tranqüilidade asfixiante ao lugar.

Ele queria apenas ter a sensação de que nada o pertencia, de que podia se perder pelas ruas e não ver nada que causasse qualquer retorno a uma sensação comum ao paladar da emoção danificada. Mas caminhar pelos becos das “terras turcas” era como caminhar fugindo de armadilhas que arrancam pernas.

Como toda “terra turca”, havia um cais. Era um cais que parecia com sede. Era quase como se dragasse as pessoas, que andavam arrumadas demais para o clima, esgarçando o colarinho, explodindo os olhos no calor. Apenas homens.

Por ali, mais adiante, começou a sentir algo muito estranho. A repetição de personagens causava uma sensação nauseante de droga pesada que se consome à revelia. Apareceram marinheiros de pele vincada que matam por um pouco de tabaco. Apareceram também outros tantos, de movimentos felinos, que atraíam principalmente os rapazes efeminados que saíam das casas de ópio contaminados e cheios de amor. Apareceram jornalistas esportivos de grossas costeletas, com os olhos brilhando de absinto e gordas dívidas.

Sem saber para onde fugir, se esgueirou pelo primeiro beco e terminou à beira-mar. A força das ondas causava um barulho pânico, trancava a respiração. Forçado para dentro da areia cinza, viu com dificuldade, a uma distância curta, um árabe vestido tradicionalmente, carregando um revólver. No entanto seria impossível afirmar com firmeza.

Titubeia ao olhar e ver apenas uma figura de árabe, como no romance do francês que não sabia dirigir, e parece que o confronto é inevitável. A sensação terrível de ver o futuro tomar conta muda também o tempo da ação, de um passado remoto para um presente imediato.

O árabe se aproxima com vigor e, sem hesitar um segundo, avança através e para a além da figura perdida de um protagonista precipitado.

Um tiro e nada acontece. Bom. Uma possível chance de ser mesmo a morte. Nada acontece, mas acontece ainda a areia. Nada acontece, mas é possível reconhecer que chove. Uma chuva escura e jorrada que rompe o espaço entre o corpo e a sorte. E já não há mais árabe. Um jovem passa, muito alinhado em roupas puídas. Ele se aproxima como um Baudelaire perto do fim. A barba rala desnivelada e as enormes bolsas debaixo dos olhos. Ainda por cima aquele crânio sem pêlo que chega a ser indecente.

Ele traz uma folha de papel e se aproxima. É manco e puxa um pigarro doentio de quem acorda muito cedo e não dorme. Olha para os lados e ajeita o cabelo inexistente como se quisesse esconder algo grave. Quando chega muito perto, percebe-se que há nele qualquer coisa de almíscar e vômito recente. Parece ter assassinado alguém há pouco tempo. Mas não parece que tenha força para isso.

- Escute aqui, meu senhor – diz o homem manuseando a carta. – Será que o senhor não percebe?

- Não, não percebo. Não percebo o quê? Mas quem é o senhor?

- Não percebe que não pode?

- Não pode? Com licença, mas, meu senhor...

- Sim, meu senhor, não pode.

- Que não se pode eu percebo. Mas não se pode o quê?

- O senhor me dê licença, tenho um serviço a cumprir.

- Pois bem.

Nosso Baudelaire provisório empunha o pedaço de papel diante dos olhos. Parece disposto a uma sentença de morte. E de repente já não há mais homem ou Baudelaire. É mais como se fosse um espelho refletido noutra dimensão. Ele fala. Uma voz conhecida, uma voz de todos os sonhos mórbidos. Mas não há sonho. O sol arde fundo por dentro já da pele sem refúgio.

- Então muito bem, pois saiba que aqui diz o seguinte, e o senhor sabe muito bem do que eu estou falando... aqui diz claramente que o senhor não pode e, não podendo, não deve ficar a esmo gastando a vida com aventuras insípidas. Diz aqui, veja bem, claramente, “o senhor deve apenas viver o que planejar e, se por ventura não tiver planos, deve recolher-se a um abrigo e definhar vagarosamente”... Muito bem dito aqui, eu digo ao senhor! É claro, nem tudo é uma maravilha de outro mundo... Alguém acaba servindo de exemplo... Uma exoneração pacífica, nada além disso. Portanto, meu senhor, veja bem, o senhor não pode, compreende? O senhor não deveria...

- Mas eu preciso. É necessário.

- É um tiro no peito, meu senhor, um tiro na cabeça!

- Pode ser, mas eu tenho que fazer, não existe outra forma.

- Muito bem, o senhor não vai.

- Como não vou, se estou fazendo?

- Veja bem, por pouco tempo.

Nosso protagonista, uma vez o fugitivo, percebe-se murcho sob a cumplicidade de estranhos. Estranhos a ele que não sabia o que estava procurando, mas que era preciso andar, cair mais adiante, andar outra vez, cair mais, reconhecer a velha gangorra, o rinque de patinação no gelo. A solução das formigas era a fórmula dos homens. A solução das aspas sobre “terras turcas”. A solução era esvair-se em sangue numa terra desconhecida. E como testemunha, apenas um Baudelaire inválido.


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