sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

“whitman=pessoa+beckett” >> Leo Marona

Quero dizer e repetir e repetir e dizer mais uma vez. Que importam as convenções do tempo, a boca funda da esperança tardia? Quero partir os ossos antes que seja tarde, resgatar o brilho no fundo do que um dia se fez criança e hoje não lembra e se vira do avesso e morre, sente a pele descolar, os olhos repuxados pela goela do absurdo. Mas sinto qualquer coisa por dentro envergonhada do estertor, a caixa que pensa se compele, então uma sensação de algo súbito subindo pela garganta e que não pode sair porque são milênios de mentiras e precisamos das letras. Mas quero dizer e dizer e repetir. Repetir que não quero ter que dizer coisa nenhuma e repito. É necessário mais que uma forma, mais que um conteúdo, benzina, um precipício, é necessário acima de tudo o ímpeto desesperado de repetir e dizer mais uma vez e dizer de novo e mais alto, não gritar, lançar os olhos para fora das órbitas, espremer o mundo sobre a retina, repetir a tauromaquia da visão turva em vermelho, com o espeto no dorso, ainda assim derrubar os muros da arena, expulsar os vendilhões, ludibriar os sicofantas e, às crianças, sorvetes de marfim. Ah como eu queria poder dizer e repetir tantas e tantas vezes sem usar a substância do ar, não para me fazer entender apenas, mas para me entranhar da idéia de me entregar ao impulso sem ordem que move as coisas no espaço. Ah tão bom seria gritar cheio de veias “Daqui pra fora, políticos, literatos, comerciantes pacatos, polícia, meretrizes, souteneurs, tudo isso é a letra que mata, não o espírito que dá a vida. O espírito que dá a vida neste momento sou EU!” Mas não me assusto se acordar sentindo um aperto no peito sem que se encontre uma boa explicação para isso. Às vezes ocorrem uns reacertos nos subterrâneos da nossa mente que não alcançamos, então é preciso soltar a linha, quebrar as portas à chave, é preciso esbravejar e fazer tudo com fome, nunca se esbaldar, do contrário, deixar a fome roer para então dar o bote, chegar à ponta do animal para resgatar o sentido do que fazemos ainda e não sabemos mais. Gritar mais alto e ser tudo que gera e alimenta e apodrece, ser ao mesmo tempo o padre e a catedral em chamas. Repetir e, quando o derrubarem, repetir outra vez. Negar-se qualquer causa em prol do sacrifício contínuo. Eis tudo o que deve ser feito diante da roda enorme. Errar ou não errar é apenas um detalhe. No jogo de corpos humanos vale bem mais o pulo.


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quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

NÃO, BRIGADA >> Ana Coutinho

Meu marido diz que tenho os olhos maior do que a boca. Discordo solenemente, mas sou abrigada a admitir que tenho alguma dificuldade em dizer uma frase corriqueira, tola, dita por todos ao menos uma vez na vida: “Não, brigada”. Deve ser algum bloqueio, algum trauma de infância, algum carma a ser enfrentado. Chego a invejar aqueles que conseguem, diante de uma bandeja de brigadeiros, dizer, sem nenhum esforço aparente: “Não, brigada”.

Dizem assim, “brigada”, sem o “o”, porque faz parte do seu dia-a-dia negar algo que não lhes interessa. A mim, não.

Sou incapaz de dizer "não, brigada" para um pedaço de frango do prato alheio, para um gole de coca do colega, para um quadradinho do chocolate do outro. Também tenho dificuldade em negar experimentar uma blusinha básica, uma sapatilha nova, ou uma voltinha pra tomar um café. Se me perguntam, talvez por educação, “Ana, vou tomar uma café, quer?”, eu levanto e vou. Não tomo café, mas vou – e, às vezes, chego a depositar o café no copinho, só pelo prazer de segurá-lo quentinho nos meus dedos, ficando depois com aquele problema nas mãos, o café dentro do copinho de plástico, sem destino fácil.

Embora o problema maior seja com alimentos de forma geral, também tenho dificuldade com outras coisas. Se o cabeleireiro me diz que franja pro meu rosto é ótimo, até nego uma vez, mas torço pra que ele diga de novo, para que então eu possa dizer minha frase favorita: “Vou experimentar”.

Experimentar, experimentar, experimentar. Não é disso que é feita a vida? De experiências? E tudo é experiência. Uma empadinha de abóbora, para mim, pode ser uma experiência única e me sinto absolutamente inquieta e angustiada se não souber que gosto tem aquela coisa estranha que alguém me oferece, normalmente com um sorriso no rosto.

Quanto mais esdrúxulo, mais me interessa. Se o maître diz que tem um pato delicioso, lá vou eu pedir o pato e me arrepender loucamente depois, enquanto imploro que meu marido ceda-me um pedaço de seu habitual frango grelhado. Nem passa um dia, ainda no mesmo jantar, todas as sobremesas do cardápio me parecem interessantes. Tudo, tudo me interessa, com exceção de cigarro e drogas ilícitas em geral, posso dizer que sou incapaz de pronunciar as palavras mágicas: “Não, brigada”. Por essa razão, já tentei transformar bolinhas de queijo e sorvete em drogas ilícitas. Raramente consigo. E se meu companheiro não partilhar da minha rara negativa e resolver aceitar, perde o dele para mim em questão de segundos.

A vida por vezes torna-se tão irresistível em de suas novidades que me sinto sempre aquém do que posso ter. Sempre encantada com uma nova possibilidade, com um novo jeito, um novo gosto, uma nova tentativa. O preço desse encantamento pode ser uma franja horrorosa, um pato esquisito ou uma blusa encalhada no armário. Meu consolo é que o preço da não tentativa, o preço pago por aqueles que conseguem viver sempre com o mesmo filé com fritas, pode ser ainda mais imensurável.

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quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

SENTINELA >> Carla Dias >>

Que o mundo me confunde quando cenário das investidas de desnaturadas pessoas e seus sentimentos amontoadinhos, amontoadinhos... Em corações socorridos pelas desilusões e visões distorcidas. E sei que, do lado de lá ou acerca de alguma curva por aí, alguém pensa a mesmíssima coisa e eu estou incluída nessa leva de pessoas. É como olhar/ser o verso ao avesso ou o revés do contrário, mas chegar ao mesmo lugar, enquanto lá já estava, e chegar sem memória e repetir o erro, mas sabe lá se é erro ou acerto; partir sem se despedir do feito.

E veja que também ando sem saber dizer o que deve ser dito; cabisbaixa, sem saber sentir o que deve ser sentido; com vontade visceral de colo, cafuné, proteção, e de gritar borboletas para que elas voem pra bem longe carregando esse grito - que é pedido de encantamento. Desejo lânguido de esse grito se enroscar nos cabelos de quem outro seja lá. Provocar gargalhadas miúdas no som, como se estivessem escondidas da tristeza.

Houvesse manual para desenfiar o pé das dúvidas, acredite, eu não saberia utilizá-lo.

E que me vem Manoel de Barros: “Com pedaços de mim invento um ser atônito”.



A T Ô N I T O ** // SER?



Já pensei que não sou, por isso tantas coisas acontecendo sem realmente acontecer. Se eu não sou o ser que sou, quem é? Quem quer? Quem me será?

Mas voltando ao mundo, ele que vem me deixando cada vez mais reticente ao abrigar transeuntes seduzidos por enganos dos descabelados, porque, desculpe, mas em nome dos santos, dos deuses, de Deus, não se humilha, vocifera, trucida... Isso é coisa de gente ser humano desprovido de humanidade mesmo! Ao menos, creio eu, em uma das poucas certezas que tenho, penso que amar acolhe compreensão, tolerância, capacidade de se sentar ao lado do outro e permitir que a conversa seja clara, justa. Penso que delegar ao outro, aos santos, aos deuses, ao Deus a autoria da nossa crueldade, é das mais altas sacanagens e, além do mais, não cola.

Esse mundo que nem alcanço num abraço, do qual conheço tão pouco, pouquinho que só; por onde vagueiam meus pensamentos, através dos postais e álbuns virtuais daqueles que foram até lá conferir a beleza, a vastidão e a realidade que é diferente da minha. Nele também caminham os desorientados, que embrulham abismos para presentear aos que lhe desafiam. Nele e logo aqui, bem do lado... Se olhar pela janela, vai saber se não os alcanço.

Alcanço você?

E se olhar para mim? Para dentro do dentro do dentro? Quais olhares eu encontrarei? Que mundo verterei aos berros?

Quando criança, eu achava que o mundo era um lugar onde eu não estava; que somente quando pudesse tomar ônibus sozinha eu o encontraria. Que no dia em que minha mãe fizesse minhas malas, e me mandasse cair no mundo, eu saberia da sensação de assoprar os cabelos dele, como o vento fazendo um campo inteiro de trigo dançar ao seu toque.

A gente acha cada coisa quando é criança, não? Cada coisa boa de se achar.

Além do mais, pela minha mãe eu ainda moraria com ela, que nunca teve mala e chorou no dia que saí de casa... E já nem era mais criança.

Mas confesso que, da menina querendo embarcar nessa aventura de mundo, resta tanto que, vez ou outra, eu me encaro no espelho da infância. Ainda espero, sentada no banco do ponto de ônibus, aquele que pare para que eu embarque nessa jornada. E essa sensação me faz crer que, apesar das ações descabidas de muitos de nós, detalhadamente noticiadas pelos jornais, telejornais, revistas, fofocas na hora do café da tarde, o mundo abriga pessoas capazes de atos dignos, de afetos legítimos, de assumirem a autoria de suas próprias vidas e receberem dos outros, dos santos, dos deuses e do Deus somente o que realmente a eles cabe oferecer.

E aceitar tais oferendas é celebrar a legitimidade de quem somos nesse mundo.


Imagem: www.unprofound.com por Michael Anthony





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domingo, 25 de janeiro de 2009

QUEM TIVER OLHOS... >> Eduardo Loureiro Jr.

Eduardo Loureiro Jr. / Praia do Paraíso - CEAh, esse nosso olho que vê o mundo mas não vê a si mesmo. E que ainda pensa que se vê quando se olha no espelho.

"O essencial é invisível aos olhos", escreveu certa vez o Exupéry. Por vezes, fechamos os olhos e enxergamos tudo. O ser é visível ao olhar. Mas o ser não se resume ao corpo, tampouco o olhar aos olhos.

Somos capazes de ver, ao vivo, o que acontece nos lugares mais distantes do mundo. Basta sentar em frente a uma televisão. Mas estamos desprovidos de aparelhos para o caso de querermos ver, também ao vivo, o que acontece no lugar mais íntimo do mundo: nosso próprio ser.

Uma amiga escritora falou que não sabia que profissão atribuir à personagem principal do novo livro que estava escrevendo. Eu brinquei com ela:
— Qual a idade da personagem?
— Cinquenta e poucos anos.
— Com essa idade, acho que ela já é capaz de dizer pra você qual é a profissão dela, caso você pergunte.

O ser que sou possivelmente responderia a perguntas também, mas o ser que penso parece não estar muito interessado: prefere ficar imaginando a ter certeza.

Eu quero saber a minha cor, ou cores. Quero saber do meu movimento. Onde termino eu e onde começa o outro? Qual a cor, ou cores, dos outros?

Já imaginaram olhar para uma pessoa e ver os pensamentos dela? Ver fumacinha saindo da cabeça de uma pessoa que está com raiva mesmo se ela for uma mestra na arte de esconder o que sente? Testemunhar a luz fugindo do próprio corpo numa situação de medo?

As coisas estão acontecendo a todo momento e nós só vemos corpos e objetos. Perdemos os anjos que cruzam o céu — talvez até boiando de costas. Não damos pelos beijos que as pessoas trocam só com os olhares. Desperdiçamos os arabescos do vento. Quanta coisa sem ser vista!

Deve ser estranho, para os seres imateriais, passarem despercebidos. Quem me assegura que não há aqui, ao lado do computador, uma fadinha trocando de roupa — de luz — completamente despreocupada: "O Eduardo não está nem vendo mesmo."

Ah, nossas vidinhas privadas, escondidas. O banheirinho, a paredinha, a portinha, a chavinha, a roupinha, o corpinho. Somos crianças brincando de desaparecer debaixo de um lençol. Quem está além do lençol continua nos vendo, nós é que nos tornamos cegos para a presença deles.

Como sou cego de meus leitores! Que sei deles? Um pouco, quase nada, pelos comentários que fazem. Mas da maioria deles não conheço o buraco da fechadura da porta do corpo: o sorriso. E em que medida também me revelo? Será que minhas palavras não são apenas roupa barata, folha de parreira cobrindo as vergonhas?

O cego é, antes de tudo, cego de si mesmo. E cega os outros de si. Quem se arrisca ainda, feito namoradeira, a se pendurar nas janelas da alma, vendo e sendo visto? É divertido ver um grupinho pequeno preso dentro de uma casa monitorada por não sei quantas câmeras? Sim, é divertido. E não seria ainda mais divertido permitir que imagens de si se tornassem públicas? Que importaria se ela soubesse que a saudade em mim vai crescendo? E se ele soubesse que eu leio seu belo livro de poesias enquanto faço cocô? E se ela soubesse que me incomoda sua fala prolixa mas que, vez por outra, me dá vontade de calar sua boca com um beijo? E se ele soubesse que tenho ciúme de sua mulher e filho, e gostaria de tê-lo amigo dias sem fim? E se ela soubesse que o seu sorriso, embaixo de seu chapéu, salvou um dia que corria o risco de estar perdido? E se ele soubesse que eu desconfio que ele está apaixonado por mim? E se ela soubesse que é tão parecida com a mulher que amei um dia que eu gostaria muito de poder abraçá-la de vez em quando, sem nenhuma segunda intenção?

Ah, seria tanta luz que só fechando os olhos. E foi isso que fizemos: fechamos os olhos. Mas a luz que tiramos daqui continua lá, atrás do lençol dos olhos. E eu quero, eu quero, eu quero enxergar.





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sábado, 24 de janeiro de 2009

A NADADORA UCRANIANA E AS ESCOLHAS DE NOSSOS FILHOS [Maria Rita Lemos]

A briga ocorrida entre Mikhail Zubkova e sua filha Kateryne, 18 anos, ocorrida há alguns anos no Campeonato Mundial de Natação de Melbourne, na Austrália, acabou em pancadaria e foi globalizada para todo o mundo, via net.

Qualquer pessoa pode ver a surra do pai e técnico na filha, inclusive em vídeos, cabendo todos os tipos de comentários. O xis do problema é que Kateryne, campeã na modalidade costas, já havia ganho várias medalhas em outras competições, mas não foi muito feliz nessa prova de Melbourne, e por isso a jovem ucraniana foi espancada por seu pai, Mikhail, que não se conformou com o desempenho da filha.

Um dos comentários feitos dizia respeito ao fato de que Kateryne revelou que nunca quis ser nadadora, só se conformando aos árduos treinamentos com o próprio pai para agradá-lo. Lembrei-me disso quando estava, nesse fim de festa de ano-novo, conversando com minha neta Paloma (16). No meio de outro assunto, ela me disse que estava em dúvida sobre terminar o curso de técnica em Nutrição, que começou no início de 2008, ou terminar o curso médio, do qual está no último ano, fazendo, no outro período, um cursinho pré-vestibular para prestar o ENEM e tirar boas notas, de sorte a conseguir vaga numa faculdade pública de Moda, em São Paulo, que é seu sonho dourado.

Pega de surpresa, pedi para pensar um pouco, mas nem precisei de muito tempo. Pouco depois eu já lhe dizia que ela é que resolveria o que achasse melhor e teria nosso apoio, isto é, meu e de toda a nossa família, para o que desse e viesse. Claro, dentro de nossas possibilidades. Falei sabendo que ela, uma menina dedicada aos estudos, madura e valorosa, fará o que realmente sonha, e lutará por isto. Lembrei-me, no mesmo momento, da pobre Kateryne, campeã triste que não teve o direito, pelo menos não até o Mundial de Melbourne, de decidir seu destino.

Não sei o que houve depois, os noticiários só publicam os escândalos, mas tomara que o pai dela tenha entendido. Ou que ela tenha tido a coragem de seguir em frente, lutando pelo que deseja.

Na verdade, a expectativa e a influência das famílias em relação ao futuro profissional dos filhos é um fato verdadeiro que começa muito antes da adolescência, nos anos que a antecedem, quando o(a) jovem forma sua personalidade.

O que deve ser pesado é se essa influência é positiva ou não. No primeiro caso, a família escuta o filho e providencia o necessário espaço para a sua informação, de forma que ele conheça todas as profissões possíveis e descubra seus saberes e quereres. Negativa é a influência familiar, consciente ou não, que direciona o jovem para aquilo que acredita ser o melhor para ela.

Pode até ser uma profissão “genética”, como chamamos em linguagem técnica as que passam, por gerações, de pais para filhos, sem ninguém procurar saber se Joãozinho quer ser médico como o pai, administrar aquele grupo, mega ou pequeno, ou sonha calado em ser músico ou ator. Mesmo que movidos pelas melhores intenções, os pais ou seus substitutos podem achar estar fazendo o melhor para o filho(a), encaminhando-o para as profissões “de futuro” (que é isso?), ou ainda, e principalmente, para as que são melhor remuneradas, ou oferecem melhor “status”. Ou ambos.

É urgente lembrarem-se de que esses podem ser os valores da família, não necessariamente os de João ou Maria, seus filhos. E que a imposição deles vai ser um peso grande, que talvez não deem conta de levar, ou o façam, mas sejam maus profissionais, ou pessoas amargas.

Uma atitude que ajuda os pais, nessa hora de ouvir os filhos sem interferir, apontando sem decidir por eles, é um exame da própria consciência: será que eles mesmos estão na profissão que queriam? Tiveram a oportunidade de escolher, ou foram no embalo também, e hoje sonham com o que poderiam ter sido ou feito mais prazerosamente? Essas reflexões me fazem lembrar de três anos atrás (credo, já se passou tanto tempo?) quando fui levar meu filho à sua nova moradia em Ouro Preto, até hoje a mesma de quando ele ingressou no curso de Filosofia pela Universidade Federal dessa cidade mineira.

Eu, que ainda tenho a mesa que foi de papai no consultório, e pensava às vezes em deixá-la de herança também para meu filho, como já a usa minha filha também psicóloga (por vocação), tive que fazer cara de paisagem ao pensar em quanto talvez meu filho tenha que penar como professor de Filosofia (“sofressor”, como diz pessoa querida) logo em Minas Gerais, meu estado natal, porque para São Paulo ele já avisou que não volta. Enfim, é o que ele quer. Termina no próximo ano seu bacharelado em Filosofia, e já está engatilhando o mestrado.

Não é exatamente o que tínhamos pensado para ele, mas quem somos nós para pensar por e para ele? Somos apenas os arqueiros, como diz Khalil Gibran, dessas flechas em direção ao futuro que são nossos filhos e filhas. Certo que não era o que pensávamos. No entanto, o brilho dos olhos de meu filho, nas poucas vezes que vem a Limeira, cheio de “dreads” em seus longos cabelos cacheados, camisetas amassadas e livros de Filosofia, na mochila me diz que agimos certo. Ele escolheu e está feliz, é o que vale.

Quanto à Kateryna, ela pode ter fracassado no Mundial de Melbourne, mas foi campeã ao nos ajudar, como pais e mães, a refletir sobre quão odiosa pode ser, para nossos filhos, o pensar e sonhar por eles.



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sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

É mesmo algo muito raro >> Leonardo Marona

Eu queria ao menos por uma vez ser coerente. Dizer sem pecado as belezas do mundo. Queria ver as cores cada uma no seu lugar. E que o sangue não me assustasse tanto. Queria sentir prazer em acordar dormir acordar levantar deitar segurar a ampulheta virada para baixo. Eu queria que o sol me dissesse qualquer coisa de “continuemos então de mãos dadas”. Que a poesia recolhesse meus órgãos para um local seguro, longe do monstro sem forma que me apedreja. Ah, como eu gostaria, por um dia, uma hora, tratar os seres humanos como iguais e amar a mim mesmo tanto que seria possível gostar de um igual a mim. Mas o mundo exige certa dose de brutalidade. É algo estritamente necessário para a separação dos grãos. Com um metro e setenta de altura, segundo o laudo militar, minhas chances são tão ínfimas quanto as de Napoleão. Mas só de ver e sorrir por simplesmente estar vendo, apenas reagir às manifestações da terra como se tudo fosse importante e estivesse no seu devido lugar, “ver por outro prisma”, apenas romper com a idéia preconcebida ainda dentro do cerne. Queria finalmente olhar, e ver. Ver tudo e não esperar nada porque estaria vendo realmente tudo, mas, moralmente, a idéia de não esperar nada me assusta e me aproxima de cometer uma atitude qualquer impensada. Queria, queria, queria. De que adianta falar que adoraria provar a doçura de cada pessoa, lamber os dedos que tocaram o favo e dar de provar da substância a qualquer um? De que adiantaria mais essa interrogação? Queria, sim, queria olhar para vocês e não precisar escrever nada, pensar em vocês como página branca mais bonita. Queria um texto branco para ninar meu pavor de continuar com essas perguntas vazias e essa adolescente insubordinação. Mas estou perdendo a batalha, sinto-me cada vez mais como qualquer um. Apenas não me esqueci. A memória é o que nos impede de aceitar totalmente. E tenho um repentino ímpeto de pular da cadeira, vestir a calça mais velha, entrar no primeiro boteco e olhar a todos nos olhos e que nesse único movimento todos os órgãos transbordassem por dentro de cada corpo. E as doenças seriam bem-vindas e os aleijados e os mal-cheirosos e até mesmo os crápulas incorrigíveis abraçariam a mesma causa. Que comoção seria a tomada das ruas, os chocalhos nas mãos das crianças e as bebidas divididas por pessoas que pela primeira vez se olhassem. Mas, em vez disso, a confusão da sensibilidade leva à propagação da dor. E nas ruas ninguém se olha, mas todos esperam algo de algum lugar. Um meteoro, um dilúvio, qualquer coisa que as faça sacudir a carcaça para aceitar mais. E esperando envelhecemos distantes uns dos outros. E velhos nos tornamos cada vez mais parecidos. As crenças vão se transmutando em horríveis carrancas, as expectativas cada vez mais ácidas e menos humanas. Vivemos as cascatas de uma troca de pele inédita. Queria a doçura, de fato, queria a poesia funda de alguém que respirasse mais alto. Mas os ídolos envelheceram e representam o outro lado. Estamos sozinhos e procuramos ajuda em pleno sol. Corpos em chamas que não chamam atenção. São dúvidas que não serão respondidas, a carne dura do tempo achatado por hipóteses remotas. E vivemos às custas dos que possuem tudo e não têm nada. E nem mesmo a língua pátria está mais do nosso lado. Acabaram com os acentos, os pontos hesitantes, os travessões intransponíveis, as vírgulas lispectorianas. É um tempo duro de notícias temerosas e praias cheias. Nossas pernas agüentam ainda mil quilômetros, mas temos um buraco no peito, que não é tuberculose, não é amor ferido, não é piedade, não são leituras equivocadas ou buscas rudimentares. Existe um desaparecimento ao lado de cada um. Aos delicados, deve-se dizer: cuidado! A poesia não é mais a poesia que salva uma vida. A poesia agora quer tomar o espaço da vida. Já tomou. É mesmo algo muito raro não se perder a ternura.


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quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

A MANADA >> Ana Coutinho

Mulheres são os bichos mais coletivos que existem. Muito mais do que uma manada de búfalos ou do que uma passeata de pingüins, mulheres são ótimas em bandos e nunca consigo entender os que dizem o contrário.

Pensei nisso recentemente, quando eu e uma amiga resolvemos aproveitar uma liquidação. Ouvimos dizer de um bazar, a loja que amamos estava fazendo um megabazar, num megagalpão com tudo por – no máximo – 90 reais. Não precisamos perguntar se uma queria ir, não precisamos falar sobre horários ou logística, e não houve sequer um “se”. Assim que ouvimos a notícia, não precisávamos nos olhar para saber o que fazer. Eu peguei o guia no porta-luvas e comecei a procurar a rua. O lugar era longe e demoramos a chegar. Mas isso não era nada perto do que viria a seguir. Assim que nos aproximamos, percebemos uma fila de mulheres que se amontoavam em linha reta, recostadas em um muro, em pé, na calçada. Só poderia ser ali, claro. Estacionamos, entramos na fila e lá ficamos por um longo tempo. As mulheres, todas, falavam sobre o que haveria ali, do lado de dentro. Éramos crianças no portão da Disney, cada uma tinha uma notícia diferente para alarmar: “Nossa, minha prima tá lá dentro, disse que tem uma arara só de tricots?” Meu coração gelou: “Séééério?!”, gritei. “É, é verdade, tenho uma amiga que veio ontem e disse a mesma coisa. Mas ela ficou duas horas e meia pra pagar”, respondeu outra. Duas horas e meia me soou um pouco estranho, mas estava interessada nas nossas correspondentes, do lado de dentro. “Diz que vestido de festa está de 900 por 90 reais e as calças sociais de 300 por 30”. Engoli em seco, ficando na ponta do pé pra ver se enxergava o lado de dentro. “É tudo assim”, explicava uma adolescente, “eles tiraram os zeros e mantiveram o primeiro dígito. Minha cunhada é vendedora aí, e ela que me contou.” Entre uma notícia e outra, acompanhávamos as pessoas que saíam. Todas cheias de sacolas, nos sorriam animadas, algumas até davam tchauzinho enquanto tentávamos decifrar suas sacolas, suas expressões, seu olhar de satisfação ou não, como fazemos com os que saem do cinema antes de nós. Eles conhecem o futuro, são aqueles que sabem o que vamos sentir e viver, são o que seremos em algumas horas e isso lhes dá uma posição de estranha vantagem, além de nos invadir de ansiedade e pressa. Enfim, chegou a nossa vez. Já do lado de dentro, uma nova fila para preencher o cadastro da loja. Quem já tinha cadastro tinha que ir pra fila confirmar o cadastro. Tudo bem, já tínhamos uma vista panorâmica do paraíso e isso refrescava a nossa condição. Ainda tivemos tempo de armar uma estratégia. Minha amiga me olhou e disse: “Você vai pra direita e eu pra esquerda.” Ok, respondi. “E tudo o que você gostar pega dois que eu posso querer.” Ok. "Você foca em roupa de festa e eu no dia a dia, pode ser?". Está bem, eu confirmei. “Você vai de metralhadora e eu de pistola automática, tudo bem?” Brinquei, encerrando a conversa, e correndo pra dentro do espaço.

Foi então que bateu uma decepção inicial. Espalhadas em um enorme galpão, todas as roupas que ninguém quis no último ano – que é tempo à beça pra vender o que quer que seja. Ainda assim, havia um estranho feitiço pelo qual estávamos todas alucinadas. Cada uma pegava três peças de uma vez, jogava uma de volta, corria pra arara seguinte, se impressionava com o preço e assim ia. Até que descobriam que o lugar não teria provador e, antes mesmo de fazerem uma cara triste, notavam um grupo fazendo cabaninha para uma moça. Mais adiante, uma se escondia, só de calcinha e sutiã, atrás dos vestidos de festa. E, lá no fundo, depois de atravessar todo o espaço, dezenas de mulheres nuas, se trocando aos olhos dos seguranças do lugar, e de alguns poucos maridos, que tinham ido fazer não sei o que ali. Era impressionante, mas, ao mesmo tempo, era contagioso. Eu hesitei um instante antes de tirar a blusa pra provar um tricot, mas o segurança que estava ao lado fez um sinal de positivo com a cabeça, dizendo: “Não tem problema. Estou aqui há oito horas, já me acostumei.” Olhei para as outras mulheres, de calcinha e sutiã, e disse para ele: “Mas qual o problema? É tudo biquíni, estamos todas de biquíni, não é?”. Ele riu e, antes de responder, eu complementei: “Aliás você pode não saber, mas somos todas homens. Desencane.” Ele – e elas – riram e começamos a provar as coisas. Provamos as nossas, as das outras mulheres, e as que encontramos no chão. Se o segurança tirasse o paletó, eu iria provar. Todas faziam esse ciclo. Experimentavam as que escolheram, as que as outras escolheram, as que encontravam, e até o casaco que eu tinha vestido de manhã entrou na roda uma hora, ao que eu tive que gritar: “Ei, ei, ei, esse não, esse é meu” e a mocinha ainda me respondeu: “Xi, já vi umas três experimentarem, é uma graça”. Os seguranças opinavam, riam, até indicavam uma ou outra peça, quando se sentiam mais à vontade. Passaram-se horas quando decidimos que era hora de irmos embora e resolvemos olhar a fila do caixa. Uma onda de desânimo me abateu. Não pode ser, eu pensei. Nem nos piores dias de Hopi Hari ou Playcenter – já que eu estava na minha Disney – eu tinha visto coisa igual. Nunca, nunca. A fila dava voltas e mais voltas, e as mulheres lá, com as suas sacolas lotadas de roupa no chão, recostadas sobre seus pés. Andavam dois passos carregando as sacolas, voltavam a colocá-las no chão. Algumas reviam as roupas, olhavam bem, pediam opinião a outra e as penduravam ao lado, naqueles elásticos pretos que organizavam a fila. Ainda assim, ainda com essa cena de terror, ninguém fez nenhuma pergunta. Nos dirigimos à fila, caladas, prostradas, como se não nos restasse opção.

Foi lá, nas duas horas e tanto de fila que tudo isso me veio à cabeça. Observei alguns poucos homens aterrorizados. Outros prostrados. Um assustado com a esposa que insistia em que ele subisse o zíper da blusa que ela vestira sobre a própria roupa, tornando inviável que o botão fechasse, mas ela insistia, enérgica: “Vai, amor. Sobe, pô!”. Ele tentava responder, mas não conseguia, estava até suando, o pobre, tamanha força e – talvez – pavor. Até tentou reclamar, meio que sem graça, meio que bravo, meio que bocó, enquanto tentava atender o pedido da mulher. Os homens, esses tolos, nunca seriam capazes de um movimento tão insano quanto esse. É insano, é enlouquecedor, mas é o que somos. Pensei em Hitler e em como ele foi bom para atrair multidões a fazerem coisas absurdas. Procurei-o por ali, porque éramos todas súditas de uma louca e impiedosa lei, que não sei bem o que diz, ou o que prega, mas que nos faz assim, esse movimento estranho de termos que fazer o que todo mundo ali está fazendo. É como se um inconsciente coletivo nos movesse, ou algum movimento de imitação mesmo, como sugeriu minha amiga, quando tentávamos refletir sobre o que acontecia naquele ambiente, quando tentávamos, em vão, adquirir uma gota de consciência em meio a búfalos que apenas seguem uma manada. Foi a passos de tartaruga que chegamos ao caixa, e qual não foi a nossa surpresa ao notarmos que o sapato que levávamos não tinha o seu par. Era apenas um pé, o outro era outro número e não nos serviria de nada. Ela, minha brava companheira, coitada, fez uma expressão de horror quando se deu conta. Era quase que a sua única peça aquele sapato, e não tínhamos enfrentado tudo aquilo pra morrer na praia. Foi um movimento conjunto. Imploramos pra vendedora nos dar alguns minutos e seguimos, um sapato numa mão e a outra se agitando ao tirar tudo da frente em busca do outro par. Perguntávamos sem parar se alguém vira e, em meio a esse movimento quase que autista, uma moça que limpava o lugar nos interrompeu, calmamente, mostrando o pé que precisávamos ali, na sua mão, ao lado da vassoura. Ok, não era exatamente o mesmo número. Um era 38 e o outro 39, mas minha amiga jura que tem mesmo um pé maior do que o outro e corremos pra voltar na caixa, que nos recebeu sorridente.

Quando saímos dali, horas e horas depois de entrarmos, com as mãos cheias de sacolas e os pés latejando de dor, ambas, de novo sem falarmos nada, soltamos um suspiro abafado. Eu cheguei a gritar de alívio. Dei um berro de catarse enquanto atravessava a rua. Era como se tivéssemos saído da prisão, mas quem nos condenou àquela detenção não foi ninguém senão nós mesmas. Loucas, contagiadas, inebriadas, mulheres. Não está certo, no entanto foi isso que me fez pensar que ninguém – ninguém mais – poderia mover o mundo, fazer a economia girar, gerar frutos, filhos, dinheiro, alegria, poder e pavor para todo um planeta senão nós mulheres. Ainda que tenhamos um pé maior do que o outro.

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quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

FAZENDO MEU FILME >> Carla Dias >>


Ano passado, assim que a companheira de Crônica do Dia, Paula Pimenta, anunciou o lançamento do seu livro, o “Fazendo Meu Filme”, me bateu de pronto a vontade de lê-lo. Depois de alguns dias, fiz a compra num site e o recebi na mesma semana.

Atrapalhada do jeito que sou, somando a criação de sei-lá-quantos projetos para aproveitar possibilidades, o meu trabalho aqui no IBVF e a correria que o final de ano promove, acabei deixando que essa vontade se atrapalhasse toda nos meus afazeres diários, e a leitura ficou pra mais adiante.

Mais adiante chegou junto com minhas férias e jurei que delas a leitura não passaria. Sendo assim, equipei-me com aquele cafezinho fresco que muito me apetece e fui cuidar de ler o livro.

Eu li, aqui mesmo, a crônica “A História Do Meu Livro”, da própria Paula, falando sobre como nasceu o “Fazendo Meu Filme”. O processo de criação de uma obra é sempre do meu interesse e, quando se trata da literatura, me causa curiosidade saber sobre a relação que o escritor mantém com seus personagens.

“Fazendo Meu Filme” é um livro cativante. Quem já passou dos dezesseis, idade da personagem central da trama, a Estefânia, que gosta mesmo é de ser chamada Fani, não precisa se preocupar. A cadência com a qual Paula conduz a história acaba nos levando a interagir com situações e emoções atemporais. Os cenários mudam com o decorrer do tempo, mas as encanações, o desejo e o medo de viver determinadas experiências, a confusão, a amizade, a distância e o amor estão lá... Entre outros tantos badulaques emocionais.

Confesso que ficou impossível não pensar nos meus dezesseis anos de idade - que já ficaram bem lá atrás e faz tempo! -, ainda que tenha sido tão diferente essa época do que conta o livro. Mas Fani acaba promovendo essa viagem com um jeito alto astral (apesar dos chororôs) que nos contagia. Daí para misturarmos nossas próprias lembranças com a história dela fica fácil.

Gostei muito da forma como a comunicação entre os colegas de sala e amigos próximos aconteceu. Apesar de ter achado tão bacana os bons e velhos bilhetinhos durante as aulas, os telefonemas quase histéricos na hora de contar as novidades, são as conversas por MSN entre Fani e sua amiga Gabi que garantem diversão, independente se o assunto é sério ou não. Aliás, o tom bem humorado que Paula agregou ao texto só fez deixá-lo ainda mais atraente ao leitor.

As citações de filmes que abrem cada capítulo, além de acentuarem a paixão de Fani pelo cinema, também servem para atiçar a curiosidade do leitor sobre o que virá a seguir.

A menina que. ao se inscrever em um intercâmbio, tem sua vida bagunçada,e a cabeça mais ainda, mergulha em uma série de questões nas quais muitas meninas da idade dela esbarram. Esse novo olhar com o qual Fani observa o mundo a amedronta e, ao mesmo tempo, fascina. Pensar em ficar distante, durante um ano inteirinho, da família, dos amigos, dos filmes que coleciona, do país, da paixão secreta e daquela que realmente importa, faz com que essa menina se aproxime da mulher que se tornará, compreendendo que na vida é possível desempenhar o mais belo dos papéis, criando seu próprio filme.

“Fazendo Meu Filme” pode ajudar, de uma maneira muito agradável, a muitas adolescentes a compreenderem suas encanações, assim como perceberem que é legal dar presente personalizado, ouvir música, tomar sorvete, ir ao cinema, reunir os amigos em casa... E também pode levar os adultos a uma jornada divertida e reveladora no país da doce Fani.

Confira: www.fazendomeufilme.com.br






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domingo, 18 de janeiro de 2009

SINAIS >> Eduardo Loureiro Jr.

 Marry Me - Michelle Lehman
Veja você que coisa mais estranha...

Primeiro foi uma mensagem no celular. Uma mensagem antiga que reli ao apagar uma mensagem nova. Eu guardo algumas mensagens antigas de celular porque aprendi a namorar com bilhetinhos — numa época em que não havia celular. Minha primeira namorada pra valer sempre me escrevia bilhetinhos de amor, e eu também passei a escrever bilhetes de amor, e depois poemas, para ela. Essa minha namorada me deu certa vez um marcador de livros — talvez venha daí meu gosto por marcadores de livros — que ela mesmo fez com um pedaço de cartolina amarela. O marcador, retangular, tinha as bordas aredondadas, suaves ao toque, e um laço de fita rosa, preso em um orifício feito com aquelas maquininhas de perfurar papel. E, como se não bastasse tanta delicadeza, minha namorada ainda escreveu, com sua letra também arrendondada, um trecho de um poema daquele que se tornaria meu poeta preferido — Fernando Pessoa — sob heterônimo de Ricardo Reis:

Colhamos flores.
Molhemos leves
As nossas mãos
Nos rios calmos,
Para aprendermos
Calma também.

Ainda guardo comigo esse marcador de livros de mais de vinte anos, assim como guardo a tal mensagem de celular que tem poucos meses e que diz assim: "Será que terei que desenhar o caminho de volta?". Que jeito mais bonito e espirituoso de alguém dizer que está com saudade! Quando reli essa mensagem, eu não vi as palavras, vi a imagem dessa mulher desenhando, numa folha de papel, eu num canto da folha, ela no outro, e a diagonal preenchida por setas e pontilhados. E esse foi o primeiro sinal.

Depois foi um sonho. Ah, os sonhos... Quando eu fazia faculdade, me impressionava muito uma pichação frequente nos muros de Fortaleza: "SONHOS... ACREDITE NELES." Aquelas três palavras, escritas em vermelho e letra de forma tinham um quê de mistério, pois diferiam das pichações politizadas a que eu estava acostumado. Parecia escrita com a mesma tinta e com a mesma letra, mas não se parecia em nada com "ABAIXO A DITADURA" ou "FORA FMI". "Acreditar nos sonhos?! O que isso quer dizer?", eu me perguntava. Acreditar nos sonhos é como acreditar num bêbado. É como acreditar em Vinícius — "Eu sei que vou te amar POR TODA A MINHA VIDA" — mesmo sabendo que ele se casou 10 vezes. Sonhos são tão confiáveis quanto o sonhador. E eu tenho dúvidas quanto à minha confiabilidade em relação ao sonho que tive. Eu acordava — no sonho — e percebia, antes mesmo de abrir os olhos, que minha ex-mulher estava comigo. Minha ex-mulher, que se separou de mim há pouco mais de quatro anos e que faleceu há pouco mais de dois anos, tem o hábito de me visitar em sonhos. Normalmente, são visitas agradáveis. É bom revê-la, sentir seu cheiro, tocá-la, conversar com ela. Dessa vez, quando eu tentei abrir os olhos para vê-la, ela não permitiu. E quando tentei tocá-la, ela segurou meu pulsos. E lá estava eu deitado em seu colo, sem puder vê-la ou pegá-la. Na cena seguinte do sonho, ela estava já na sala, saindo, e eu correndo atrás dela. Na sala havia também um astrólogo, e uma mulher chegando. A mulher argumentava fortemente com o astrólogo, e eu percebi que eu era o motivo da argumentação: a mulher estava exigindo que eu me casasse com ela. A sua exigência não era desesperada, tinha mais o tom de quem tem direito a alguma coisa e quer que esse direito seja reconhecido. O astrólogo virou para mim e disse: "O pedido é legítimo". E me lançou aquele olhar de "agora é com você". E esse foi o segundo sinal.

Então veio a carona. Eu sempre fui uma pessoa muito recolhida, introvertida, caladona, ensimesmada. Sou capaz de ficar dias sem me comunicar com ninguém. Até pensei em ser monge, mas as tentações do conforto venceram. Há alguns anos, as caronas se tornaram uma forma de sociabilidade pra mim: para um ermitão em vias de recuperação, é de grande auxílio adequar-se ao horário dos outros, aos seus ritmos e trajetos. E é também uma oportunidade de conversar. Existe uma pesquisa científica que diz que cada ser humano fala, em média, 16.000 palavras por dia. Para vocês terem uma idéia do que esse número significa, esta crônica, que já está me parecendo longa, excessivamente prolixa, tem até aqui 671 palavras. Segundo essa pesquisa, uma pessoa "normal" fala 23 textos desses durante o dia. Impressionante como as pessoas falam! E olha que deve ter gente falando mais do que isso, usando as palavras que eu não uso — é raro o dia em que falo mais de 1.273 palavras. Então caronas fazem com que eu use algumas das milhares de palavras a que eu tenho direito e que vivo poupando. Mas a carona que interessa aqui não tem a ver com palavras. Eu estava mais calado do que de costume — nem cantei, e olha que gosto de cantar com o carro em movimento. A pessoa que me deu carona precisava acompanhar outra pessoa, dirigindo seu próprio carro, até em casa. Eu fui junto, embora minha quadra ficasse bem antes. Para minha surpresa, o carro que acompanhávamos estacionou numa quadra conhecida. Levando em consideração que o Plano Piloto de Brasília tem mais de uma centena de quadras residenciais, aquilo tinha cara de coincidência, como se a mulher que mora ali tivesse desenhado o caminho de volta. "Coincidências", diz minha amiga e mestra Luiza de Teodoro, "são as rimas da canção da vida". E esse foi o terceiro sinal.

Pouco antes de eu começar a escrever esta crônica, ainda sem assunto definido, veio o filme. Aos domingos, eu escrevo e depois almoço. Mas como hoje acordei mais tarde do que de costume, resolvi almoçar primeiro. Eu tenho um hábito antigo de comer em frente a uma tela sempre que estou só. Mesmo quando estou sozinho num self-service, gosto de assistir ao movimento das pessoas como se fosse um filme, um noticiário, um musical... Antigamente, minha tela domiciliar era a televisão. Desde que me mudei para Brasília, é o monitor do computador. Enquanto o macarrão ferve, procuro algo interessante para assistir: uma reportagem que passou na TV, um clip, um trailler, um documentário num site de vídeos, ou ainda um filme. Deixo o vídeo carregando enquanto faço o molho do macarrão. O Youtube tem um canal de "cinema" que exibe curta-metragens de vários lugares do mundo. Em meus almoços, já assisti a pequenos filmes geniais — e a algumas bombas, claro — entre uma garfada e outra. Hoje eu poderia ter visto os gols da Copa São Paulo, poderia ter conferido o Globo Repórter de sexta-feira (fiquei curioso sobre a terapia do riso, de que uma amiga minha me falou), poderia ter visto seguidamente, em loop, a versão ao vivo de Mart'nália cantando "Don't worry, be happy" (genial!) ou poderia ter assistido ao trailler de "Ponette" (filme antigo indicado por outra amiga). Mas resolvi digitar "screening" e o Firefox, inteligente que só ele, me mostrou o link do canal de cinema do Youtube, que eu não visitava há mais de um mês. A página inicial mostra um filme aleatório, escolhido entre aqueles atualizados mais recentemente. O vídeo que foi sorteado pra mim tem o título de — veja só! — "Marry me" ("Case comigo"). Parece brincadeira. E é — brincadeira das mais sérias. O filme é sobre uma menininha linda que decide se casar com um menininho egocêntrico ("eguacêntrico", como diria ingênua e sabiamente um outro menino que conheci esses dias). O problema é que o menino do filme está mais interessado na própria bicicleta do que na menina. Pense numa menina que faz de tudo — lindamente — para chamar a atenção. E pense num menino monossilabicamente cego. O final do filme — que só vê quem tem paciência para assistir aos créditos — é feliz e cômico. E esse foi o quarto sinal.

Não, caro leitor, não adianta você me dizer que não entende inglês: eu não vou contar o final do filme. Até porque eu ainda não decidi.





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sábado, 17 de janeiro de 2009

PELA CASA, PELA MEMÓRIA [Ana M. M. González]

Ele entrava pelos cantos todos e hoje viaja pelos túneis de minha memória. Era um cheiro, um aroma forte e bom. Quente. Saía dos muitos pães doces que se inventavam todos os finais de ano. Para mim, ele começava antes, quando minha avó se punha a amassar a farinha com a receita tradicional da família. Eu já adivinhava que ele estaria a dançar junto com a música e todo o movimento que se daria pela casa. Era um cenário completo, com sonoplastia e personagens. Castanholas e solados de vozes nas canções típicas e populares, selecionadas pela tia de cabelos alourados. Os elementos dessa narrativa não precisavam mudar.

Depois dessa faina de organizar as mesas e amassar os ingredientes, os pães iam para o forno. Alguns para o forno da cozinha. A maioria para a padaria do bairro, cujo dono emprestava grandes assadeiras, onde eram arrumados os pães por assar. Quantas? Não sei, não saberia dizer, porque meus olhos de criança se distraíam em meio à multiplicação dos pães, enfileirados pouco a pouco nas mesas da cozinha e da copa, com minha avó a formar as tranças para adultos e bonecos para os netos. Bonecos e tranças eram pincelados com gema de ovo e salpicados com açúcar cristal por último. Depois desses ingredientes prosaicos eles se transformavam. Voltavam do forno quentes e dourados, com muitos brilhos. Coisas do tempo do forno. Coisas da avó.

A massa continha erva-doce, os pequenos bonecos levavam uvas-passa no umbigo e nos olhos. Eram feitos para os netos, em número certo, dez ao todo. Carregavam dentro da massa o carinho que a avó punha em todas as fornadas. Os amigos que visitavam a casa sempre saíam com esse presente possivelmente desejado o ano inteiro. Era reinstalada a cada ano essa tradição do avô que, orgulhoso de sua posição na comunidade espanhola, fazia o papel político de boa acolhida das visitas a quem presenteava com alegria, chistes e pães perfumados. A música andava também pelos corredores, junto ao calor de tudo. Solidão nenhuma cabia por ali.

Será que eu fantasiei um tanto cenário e personagens? Depois de tanto tempo, a memória ganhou licença para qualquer seleção imaginativa e livre. Talvez eu esteja me perguntando agora: “onde estão todos?” A vida anda. Os cenários mudam e também as personagens e cenários em nossas narrativas de vida.

Mas a memória guarda aquela repetição que todo ano cumpria o ritual da fundação da natalidade, do espírito da comunhão. A família, que não era religiosa, nessa época marcava o clima do renascimento. Era então preciso também reiniciar a cada ano o fazer o pão, em meio ao receber as visitas e ao distribuir o presente. Era preciso fundar a todo ano a família, a amizade e o Natal.

Escuto as risadas das crianças. Sinto o movimento da casa. Vejo meu avô de perfil contando casos antigos. Persigo pelo ar o cheiro do pão doce. Ele ainda paira em minhas narinas. Vejo minha avó andando pelos corredores compridos da casa. Ela ainda acende a luz em minha caminhada a cada final e começo de ano.



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sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

OUTRAS BIOGRAFIAS >> Leonardo Marona

“walt whitman”

permita-nos mergulhar de cabeça
na fonte e nos arbustos densos
de uma nova delicadeza revoltada
– nós também precisamos passar.

fomos por muito tempo presas
assustadas, engolindo os erros
acumulados pela fé decapitada.
e por muito tempo ficamos fora
dessa tal “Grande Equalização”.

por favor, deixe-nos passar agora.
falo por nós e não só por mim,
pois, como eu, são, foram muitos.

não nos deixe, delicadeza, voltar
à casa, infestados e desprovidos
desse líquido seminal que, cegos,
chamamos de amor entre os seres.

você, velho libidinoso, que vê
bondade em tudo – mas a visão
será somente do poeta – você
nos abriu os corpos paralisados
diante de um precipício lento.

nós somos os das entranhas malogradas,
aglomerados em redomas achatados por
grandes perdas – enormes corporações.

muitos falaram, inclusive você, por nós,
não duvidamos de suas boas intenções.
mas nunca um de nós falou por nós e já
não podemos mais esperar, abre já a porta
portanto sem demorar mais e nos arranque
de todo esse equivocado, antigo sacrifício.

você tocou o primeiro clarinete de fogo.
deixe-nos sair do fogo, recuperar a casa.


“blaise cendrars”

passa arrastando-se diante de mim
o homem arrasado sobre muletas.
na cara de dor o sorriso constante
contrasta com sonhos de caverna.
a perna tomada pela gota, a pata
bem mais que um pé fere a visão.
além eunucos equilibram pastas
diante da cruel visão do concreto.
com a pele curtida de sol, assada,
ele não tem uma perna, o alfinete
prende a boca da calça sem perna
e, curiosamente, está bem vestido.
o homem pode ser Blaise Cendrars
voltando aleijado da viagem infeliz.
como Blaise, esse infeliz sem perna
havia viajado muitas vezes e ainda
viajaria outras muitas mais, apenas
que eu, do outro lado da rua, nunca
poderia compreender o que faz um
homem viajar tantas vezes e assim
permanecer além do tempo, como
alguém que inventou o muito longe:
os maníacos cavadores de confins.


“william zanzinger”

hoje eu sou William Zanzinger,
sozinho, ultrapasso os pórticos
de Dante e sigo com passo reto;
matei a menina com violência,
bêbado, tenho as costas quentes,
na rua alguns posam estupefatos
– não sabem muito bem o que é
estar por um triz, assim, a queda
diante dos olhos, o discernimento
há milhas do pensamento inútil
de puxar o porrete para mais perto,
perto demais do ato que me faz
ser hoje antigo algoz dos tempos,
carregador da cruz de todos nós,
assassino inviolável, perturbação
que melhor seria tentar o suicídio,
mas alguns homens não escolhem
perder ou ganhar, eles não sabem
mais receber nada, e eu sou agora
William Zanzinger ultrapassando
os pórticos e ele está hoje morto,
William Zanzinger, e sobre mim
nem ao menos fizeram uma canção*.


*Lonesome Death of Hattie Carroll (Bob Dylan)



www.omarona.blogspot.com

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quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

O BOLO >> Ana Coutinho

Ela era uma tia-avó de quem eu gostava muito. Era uma velhinha e eu, uma criança. Lembro-me dessa senhora, sempre magrinha, sempre com vestidos de flores miúdas, sempre com as costas um pouco curvadas. Para mim, ela tinha nascido daquele jeito. Nunca tinha sido criança, nunca tinha sido jovem, nunca, nunquinha tinha tido 13 anos como eu. Até os velhos a chamavam de tia. Ela era a Tia Biela e, se todos a chamavam assim, decerto esse era o seu nome completo.

Tia Biela era sozinha. O marido morreu muito jovem e o único filho também, pouco tempo depois. Eu mesma duvidava que essas pessoas tivessem existido. Via os álbuns cinzas, tão desbotados. Sempre uma foto dela com as irmãs em uma cachoeira. Dizia que aquela foto era da juventude dela. Mas, com aquele desbotamento todo, eu ficava intrigada que, na foto, ela estivesse igual a hoje, ao vivo, ali na minha frente. Mais uma confirmação: Tia Biela nascera assim...

E as nossas visitas semanais a ela tornaram-se tão habituais que eu nem questionava se tinha mesmo vontade de ir. Íamos, simplesmente. Eu e minha mãe, caladas, no carro, até que estacionávamos na ruazinha e o zelador já vinha falar conosco. Ele passava um relatório de amenidades para a minha mãe. Dizia se a tia estava bem, se ele a vira naquela semana, se pagara o condomínio, ou qualquer coisa assim. Subíamos no elevador antigo de um prédio antiquíssimo, e ela nos recebia com um meio sorriso. Sempre ansiosa, enquanto sentávamos ela ia até o fundo do corredor, abria o armário e tirava uma caixa de BIS, fechadinha, inteira para mim. Era a minha alegria. Eu segurava aquele BIS, como seguro hoje na Corello uma sandália caramelo, linda. Com a diferença de que o BIS já era o meu, enquanto a sandália eu só finjo que é, por alguns minutos, justamente para lembrar-me da alegria fugaz que a Tia Biela me proporcionava.

As visitas eram sempre absolutamente iguais, até aquele dia.

Era aniversário dela e eu estava em casa. A minha mãe ligou, falou parabéns e depois passou o dia dizendo que devia ir lá, visitá-la, mas tinha isso pra fazer, aquilo outro e estava tão cansada, enfim. Ainda era dia quando ela foi ao meu quarto e disse: “Ah Kika, vamos lá, sim. Tadinha, é tão sozinha a Tia Biela, a gente faz uma visitinha rápida e vai embora....” Eu não hesitei. Calcei meus tênis e fomos. Tudo estava como de hábito até ela abrir a porta. Tia Biela sorriu o seu sorriso cotidiano; tão curvada com seus sapatinhos baixos e o cabelo arrumado para trás. Ela nos chamou para entrar, e foi ao darmos o primeiro passo dentro da casa que notamos: a mesa estava posta. Alguns pratinhos, de louça branca, talheres e guardanapos intactos sobre a toalha rosa. Antes que pudéssemos dizer qualquer coisa, Tia Biela se justificou: “Ah, eu tinha feito um bolinho, achei que alguém pudesse vir, mas acabei de guardar na geladeira, vou pegar, peraí, sentem, sentem”. Enquanto nos ajeitávamos no sofá velho, nos entreolhamos e eu me dei conta, pela primeira vez na vida, do que era ser sozinha. Isso não era só uma frase, não era uma constatação, era uma realidade tão dura e cruel que cheguei a sentir uma pontada fina no estômago enquanto fazia força para segurar o meu pedaço de bolo. Tia Biela serviu-nos o primeiro pedaço de seu bolo de chocolate caseiro.

Eu a imaginei passando esse dia, enquanto preparava a própria festa. Ela passara a manhã preparando um bolo, enfeitou a sua casa com toda dedicação e carinho, encheu o seu tempo vazio de uma rara alegria enquanto arrumava a toalha, lavava a louça já em desuso, preparava o bolo com cuidado e atenção. Ainda com as costas curvadas, ainda com passos curtos e lentos, a Tia Biela dedicara seu dia aos seus, que certamente não tardariam a chegar. Acontece que ninguém chegou. E nós, eu e a minha mãe, quase não fomos. Por pouco ela teria de dar o bolo pro porteiro, jogá-lo no lixo ou assisti-lo apodrecer por dias seguidos, diante de si, como que vendo seu próprio tempo esvair-se de si mesma...

Ficamos lá por pouco tempo, mas dedicamos a ela o que tínhamos de melhor. Escutamos tudo com atenção redobrada, sorrimos o nosso melhor sorriso, dedicamos o que não sabíamos dizer, o que não poderíamos fazer. A vida era injusta e eu levara 13 anos pra descobrir isso.

Aquele instante tão curto, efêmero, havia feito alguma coisa dentro de mim. Compartilhar aquele momento simples, tolo quase, foi para mim uma das experiências mais significativas de toda a minha vida. Nem o primeiro beijo, nem olhar-me de noiva no espelho, nem a torre Eiffel brilhando com luzes de Natal... Nenhuma lembrança me emociona tanto quanto a mesa da Tia Biela, a toalha rosa coberta pela sua melhor louça, seu meio sorriso disfarçando a decepção — não de uma tarde, mas de uma vida inteira.

No caminho da volta, a idéia de que quase não fomos me corroía por dentro. E, tendo experimentado um bolo de chocolate tão delicioso, eu ainda não conseguia entender por que tinha ficado com aquele gosto tão amargo na boca...

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quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

JORNADA DA ALMA >> Carla Dias >>


me percorro em vielas
as setas me apertam
eu sou o parafuso solto do presente
Zeh Gustavo


Há dias em que não consigo evitar e, como se levitasse, deixasse a roupa-carne no armário, sobrevoasse reticências, dou de tentar descobrir o que as omissões trazem sob suas asas.

Freqüentemente, nada descubro. Nada sobre aquele tudo que, a princípio, incitou minha curiosidade. Mas durante o caminho sempre tropeço, tombo, caio. A cara no chão nos ensina tanto, principalmente a beleza que há em elevar o olhar.

Elevo o olhar...

Sobre minha cabeça, pairam bênçãos da infância, de quando ainda beijava as mãos das minhas avós, tias e de minha mãe. “A benção”... “Deus te abençoe”. Deus me abençoava, diariamente, através das vozes daquelas mulheres, num cântico que me abraçava a alma. Dava gosto ter nascido mulher, pensar que, adiante do tempo, também eu teceria cânticos e vestiria de desejos de boa sorte o dia das minhas meninas.

Adotei palavras e as tomei por cria.

Deus as abençoe.

Levanto-me sacudindo a poeira do desejo de descobrir. O vento tateia as folhas que dançam tango. A música é miúda, mas intensa. Parece vir de longe, daquela lonjura que nos espera, porta aberta, mesa posta, prataria do desconhecido.

Despida de mim, olhares alheios não alcançam minha imagem. Hoje sou cheiro, teor, tom. Sou de ser sentida não observada. Estou observadora e ciente de que, de longe, nos aproximamos ainda mais das importâncias.

Fechar os olhos e partir em viagem ao dentro é de importância térmica, já que aquece o coração. E no dentro, caminhamos por câmaras, esses lugarezinhos escondidos, que sempre relutamos em visitar, porque nos mostram o quão sós nós somos. Mas também nos recebe de braços abertos, sugerindo uma jornada da alma.

A alma, vez ou outra, cambaleia. Houve dia em que ela não quis aprender com a experiência e se permitiu repetir erros. Chorou esse dia inteiro, sangrando dolências e escrevendo poesia descarada, onde nada rimava por ter embebedado de assimetria cada promessa acreditada. Depois se aquietou e sorriu esperanças.

Há dias em que não há como evitar. Um café, um livro, uma música, uma saudade de doer até, e eu saio de mim, do meu tempo, das minhas certezas.

A jornada da alma me leva aonde sempre quis estar. Onde antes jamais soube chegar.

Imagem: www.unprofound.com por neglekt





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domingo, 11 de janeiro de 2009

AQUELE QUE FAZ ANJO VOAR
>> Eduardo Loureiro Jr.


Eu gosto de pensar que se não tivesse trocado o curso de Engenharia Elétrica pelo de História, há 20 anos, eu não teria conhecido Fabiano e Manu, nós não teríamos formado Os internos do pátiO, o patio.com.br não teria sido criado, o Crônica do Dia não existiria e eu não estaria aqui escrevendo para vocês — o que seria uma pena.

É bom olhar para trás e perceber que tomamos a decisão correta. Embora isso nos deixe um pouco desconfiados em relação às decisões erradas: não teremos uma nova chance?

Sim, parece haver outras chances. E a prova é que Fábio, que é da minha idade, e que formou-se em Engenharia Elétrica, tornou-se um interno do pátio, trazido por seu irmão Roberto, o menino da psicologia que fisgamos enquanto tentávamos pescar as meninas da Psicologia. Se eu tivesse feito Engenharia, haveria a esperança de eu ter chegado ao pátio pelas mãos dele.

Eu poderia ter conhecido Fábio nos corredores da Engenharia, mas o conheci, alguns anos depois, no bosque da Pedagogia, onde, uma vez por semana, os internos se reuniam para ler poemas próprios e alheios à luz de uma lanterna. Fábio não me chamou a atenção naquela primeira noite. Ele é uma daquelas pessoas pelas quais levei anos para me apaixonar.

Fabiano reconheceu Fábio primeiro. Fez para o tímido baixista um poema vestido de canção:

Fábio toca baixo.
Fábio toca muito baixo.
Como quisesse fazer criança dormir.
Como quisesse fazer anjo voar.

Enquanto fazíamos canções, Fábio fazia linhas melódicas complementares no baixo ou no violão. As notas que Fábio arranjava para as nossas músicas eram meninas da Psicologia — lindas, lindas, lindas — que se rendiam surpreendentemente aos nossos poemas de queixo caído.

Mas Fábio sempre teve essa mania besta de ser um engenheiro dos mais trabalhadores. Quando traço meus planos do que vou fazer quando ganhar na mega-sena acumulada, sempre incluo um diálogo imaginário que é mais ou menos assim:

— Fábio, quanto você ganha por ano?
— $$$$,$$.
— Pois eu lhe pago cinco vezes isso para você passar pelo menos os próximos cinco anos dedicando-se exclusivamente à música.

(Vocês não conhecem o Fábio, então, para terem uma idéia, pensem que é o mesmo diálogo que eu teria com a Carla Dias — aqui do Crônica do Dia —, trocando apenas a música pela literatura.)

O sempre pontual e metódico Fábio, cheio de cuidados e flanelas com seus instrumentos musicais, revela sua genialidade nos improvisos. Fábio toca lindamente quando escuta uma música pela primeira vez. Não sei como ele consegue isso. É um milagre, um milagre que se repete sempre. Não acreditam? Escutem isso:


Sempre que venho a Fortaleza — estou aqui agora —, reúno os internos para um "pátio", o nome que damos aos nossos encontros, que não mais acontecem no pátio da universidade, mas na casa da Luiza, da Nininha ou do próprio Fábio. Luiza, nossa ex-professora, eterna mestra e amada amiga, de vez em quando reclama que a gente só fica tocando e não conversa. E minha desculpa é um verso de Manu, feito para a própria Luiza: "O nosso amor, Luiza, tem que ser vivido de forma musical". Se eu não precisasse de desculpas, diria apenas: "Eu quero ouvir os sons que o Fábio faz o máximo de tempo que eu puder."

Fábio finge que toca seu violão quando, na verdade, está tocando é as cordas de meu coração. E é um toque tão terno, e ao mesmo tempo tão firme, que eu de vez em quando me desconcentro e esqueço a letra e os acordes de minhas próprias composições. Feito nessa canção:


Hoje é aniversário do Fábio. Às 16h, os internos estarão em sua casa, onde ele nos receberá ao lado de sua esposa Jariza e de sua filha Clarice. Nós faremos um pátio de muita música — tudo bem, um tanto também de conversa — e viveremos nosso amor por algumas horas. Meu gravadorzinho estará registrando tudo e, por trás da voz de Clarice, brincando animada no meio da sala, um dia, no futuro, vocês poderão ouvir o som que faz o nosso interno coração quando ele sai pelo pátio da nossa boca.





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sábado, 10 de janeiro de 2009

TEMPO DE INCERTEZAS [Sandra Paes]

O sono já não me alimenta. O dia tampouco. Para sair ao sol há que cuidar-se um pouco mais - ficam aquelas mensagens subliminares sobre aquecimento global e o perigo que o sol se tornou.

Passear livremente já não mais. A indústria do medo plantou o chip da contração em meu livre caminhar. Um olhar dividido entre a paisagem e o transeunte que se aproxima, não relaxa, dispara mais adrenalina anunciando o medo do assalto. Não é preciso haver o assalto, o medo dele já detona no sistema neurológico todos os condicionamentos um dia anunciados por Pavlov.

Ter passeado pelo Japonese Garden, no sábado, me revelou, pela paz ali revivenciada, que perdemos o pé na caminhada frugal do dia-a-dia. Voltar de jardins datados de séculos atrás mostrou que, mesmo como um espaço de mostra em forma de museu - lugar onde se conserva a memória de algo que já foi - essa “loucura” dos tempos atuais não me apraz.

E me pergunto: - “E isso é viver?”

Que corredor de Gaza imitamos todos os dias nas calçadas das praias, nas cidades de menos habitantes, nas filas à espera de um atendimento pra alguma queixa, um serviço não feito, uma conta a pagar, uma explicação a mais a ser dada pelo telefone, onde se espera e espera em torno de... não sei o que fazer.

Viver em tempos de contínuas incertezas mina a nossa base de segurança. Resta o refúgio na alma que nos surpreende volátil, querendo voar, e isso só se torna possível durante o sono profundo e sonhos mirabolantes, quando não atingidos por pesadelos – esses moldados pelos gritos de desespero em outras partes do planeta, ou mesmo vindo dos seriados de TV ou de todas as novelas que giram em torno d0 poder dos psicopatas e seus comparsas.

Oh, céus! Quando vou ter simplesmente o direito de ser pacífica, romântica, crédula, esperançosa de fato, sem vísceras que ardem, músculos que pesam, de tanto sustentar um peso invisível? Esse, de estar no mundo simplesmente.

Me pego num cansaço grego, daqueles tão antigos quanto os tempos em que Sócrates caminhava pelas montanhas ao redor do Mediterrâneo e tentava mostrar que viver poderia ser diferente.

Vejo a vitória de César ainda hoje. A força do estado e seu poder vampiresco de sacar impostos, em nome de prometer e jamais cumprir com segurança, saúde, abundância e ética.

Sinto uma saudade mais do que nostálgica, como se soubesse bem lá no íntimo que houve sim um tempo de pomos dourados, uma vida de risos fartos e faces coradas, de longas horas de amor e almoços seguidos de preguiça - o bom hábito de cultivar o hedonismo e a arte como forma de gratidão genuína.

Estou cansada dessa corrida desvairada em nome de “fazer dinheiro” para pagar contas que nunca se pagam, de um status falso em nome do título de proprietária disso ou daquilo.

A sensação profunda de estar em um corredor sem saída me revela na carne o drama dos palestinos, os peregrinos dos desertos, os atingidos em cheio pelas cheias tsunâmicas dos últimos meses. Isso sem falar na tal “crise” do câncer capitalista.

Ainda de quebra tenho que reaprender a escrever minha própria lingua, com mais um decreto sobre ortografia que dita novas normas para grafar o que penso, quando penso e decido expor tais pensamentos.

Fica o desânimo. Com o significado real da palavra: sem alma. Sinto meu espírito se evadindo cada vez mais, esquivando sua presença na manifestacão da corporeidade, e eu ganhando peso como forma de persistência em ficar na materialidade.

Já nem sei mais o que é isso visto que tudo se evade e quase evapora. E ainda assim, esse torpor, esse calor privado a mostrar que tem um sol que arde em mim e queima meus desejos outrora chamados sonhos, à procura de um espaço pra se concretizar. Quem me dera ser do tipo que devaneia. E, vivendo disso apenas, não se retêm ocupações nem preocupações com toda e qualquer contabilidade. Não se contam as horas, as datas, essas fatias de tempo que, de tão incerto, se tornou paralisante até dos relógios. Os meus deram pra parar de madrugada, justo na hora em que meu coração dispara e a pressão se altera querendo que eu salte da cama, do corpo, disso que chamam a luta diária, e eu juro, jamais constou da minha lista de preferências. Se é que ainda posso dizer que isso é real.

E sou intimada a confessar que ainda não faço escolhas. Mesmo que digam que vivo num país livre. Eu não sou um país, não sou uma bandeira, nem uma nacionalidade. Não sou um gênero privilegiado e não acredito em cidadanias. Não comungo com os ideais ilusórios de todas as políticas vigentes e ainda sinto que as regras poderiam ser simples e reduzidas a 10. Dez pra tudo. Até pra fechar uma reunião de trabalho. Sim, por que não? Nossos pensamentos são rápidos como a luz, por que não se poderia ter a boa vontade de determinar todo e qualquer assunto em pauta pra ser fechado em 10 minutos? Pra que ficar tanto tempo em torno das mentiras sinceras ou falsas demais? Pra que ainda investir tanto em vaidades, em alcances tão forjados? Pra que investir tanto em tantas guerras? Eu não compreendo e ainda me recuso a concordar com tais princípios ocultos em cada acordo ou discurso.

Em nome da ganância e dos lucros a qualquer preço, ainda se pratica todo e qualquer tipo de crime contra a vida, contra a paz, contra a harmonia e, definitivamente, isso só gera mais incerteza, mais dores, mais angústias e desesperos.

Não dá mesmo pra parar? Tô querendo saltar do mundo e vai ter que ser com ele girando mesmo.



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sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

ALIEN >> Leonardo Marona

Se não podemos abraçar, não há por que discutir, não há por que guerrilhar, enfim, não há por quê. Enquanto houver um motivo, um que seja, como cor rompendo o asfalto quente, enquanto houver um motivo que seja para ser, haverá guerra, haverá discussão e mortes e alojamentos fantasmas. Em compensação, se não houvesse mais como ser, em nenhuma hipótese ou partícula, seria o fim de toda guerra, de toda hipótese deliberadamente criminosa, de tudo aquilo que suga permanentemente e não devolve nada. Sem abraço, enfim, sem que as pessoas consigam de alguma forma atingir a imprescindível pieguice de dar as mãos, não haverá mais aquilo que faz o mundo ser, não haverá mais o motivo real pela disputa, não haverá mais a discórdia, porque estaremos longe e longe estaremos calmos, tão calmos como no fundo do mar. Os homens ainda guerrilham porque sabem que ainda é possível abraçar. A visão do abraço é a visão do equilíbrio. Como homens são pêndulos, o equilíbrio é sempre algo furtivo, que causa nojo. Sentimos nojo. Sentimos nojo, ponto. Afirmando isso podemos saber que a bondade poderia ser uma perfeita análoga ao equilíbrio. O equilíbrio, como todos sabemos, causa nojo. O que restaria então à bondade? Mas temos o cérebro, esse ilustre vilão desconhecido. Nosso algoz não é capaz de nos deixar ser os animais ainda semi-selvagens que viemos para ser. Então nos induz a tornar de novo ao equilíbrio ensaboado. Passamos horas dos nossos dias vendendo equilíbrio, mostrando aos outros na rua “olha só, estou bem equilibrado agora, veja que beleza, que maravilha de harmonização”. Mas a noite é a falta de luz e onde há falta não há equilíbrio. Talvez por isso os mísseis fossem lançados sempre à noite. Talvez por isso as pernas só fossem amputadas pela manhã. E de repente não conseguimos mais nos conter, estamos a caminho de casa mas nada parece muito cômodo, nada parece se aproximar de algo familiar. Mesmo aqueles a quem acenamos, mandamos beijos do outro lado da rua. Seres estranhos, todos. Bom mesmo teria sido aceitar o mais difícil: ser deixado no meio da rua sem dinheiro, ir andando a pé, gastar as solas em causa própria. Mas ficas. Persistes no equívoco e orgulhas-te. Essa frase ficou realmente terrível! Olho para mim mesmo e não tenho a menor idéia. Impossível adivinhar o que há por trás da pele. Isso começou como discussão tácita e já periga desandar. Sinto que estou copiando clamorosamente o estilo de Graciliano Ramos. Por que tanta secura, meu deus? Dizem que abraçamos por causa de deus. Dizem também que matamos por causa dele. Eu vejo de outra forma. Deus é uma ferramenta, uma palavra em alto-relevo que se pode quase pegar. Mas não passa disso. Deus é uma semi-ocultação de uma solicitação tendenciosa. Queremos ser salvos, mas não todos, não sempre. Afinal, o que acontece depois da salvação? Permanece a antiga dúvida. Olho pela janela e vejo que, depois de muito tempo, faz sol, os carros voltaram a passar embriagados de raiva, o diálogo entre as buzinas muito mais real que o diálogo entre os humanos, e me sinto aterrorizado. Não vivi ainda quase nada: algumas mortes mal recebidas e alguma vida que transborda sobre o fogo único. Mesmo assim sinto medo como se conhecesse o mundo. Quem conhece o mundo sabe que há sempre pouca chance. Eu não conheço e sinto como se soubesse. Tenho pouca chance e não sou mais tão novo para dizer que isso não me apavora. O sol brilha forte como um velho sem compaixão. Se soubesse alguma coisa poderia dizer “veja bem, isso aqui e mais isso aqui, eu poderia dizer que sei razoavelmente bem”, então ao menos não estaria tão deslocado, estaria inserido, automatizado, poderia assim perfeitamente atingir a reflexão positiva e “apenas viver”. Mas saber alguma coisa leva a uma sentença mais lenta ou mais rápida, mas não menos destrutiva. Gostaria de falar mal de muitas pessoas. Descontar tudo em cima delas. Mas de que serviria descontar em quem sabe tanto quanto eu? Disfarçamos bem. Damos a mão às senhoras cegas, tomamos café com o dedo mínimo voltado para cima, esperamos diariamente pelo milagre, nossa fatia de misticismo chulo. Podemos decorar tabelas ou mesmo desempenhar a criatividade repentina. Além do mais existem os gramados, as montanhas e os antidepressivos. Em suma, está tudo à mão. O problema é, como dizia o filósofo que morreu na curva, que tudo está à mão, mas nada pode ser explicado. E acontece que somos feitos de uma natureza que, expandida, tende normalmente às questões do saber. E como isso é uma ladainha demorada preferimos encher os bares, enriquecer obesas famílias portuguesas e repressoras, lotar os estádios dos aplausos enlouquecidos, comprar armamentos e subir fronteiras imaginárias. E quando nos damos conta somos o poder que se torna retorno à infância não aproveitada. E estamos mais uma vez explodindo postos de gasolina, pulando de penhascos, assassinando indiscriminadamente formigas como se fossem leões africanos, ou mesmo os filhos desnutridos de uma tribo violada. Falar em guerra? Como é interessante participar desse teatro, onde todos se olham e se acusam e esquecem tudo pelo que o ser humano já passou para chegar até aqui, que é lugar algum, que é lugar onde não sabemos por que exatamente continuar, mas um zunido dentro da nossa cabeça nos diz que é preciso persistir, que um dia a sorte virá, que a justiça virá, que não haverá mais separação entre riqueza e pobreza, seremos um embrulho para presente dos infernos, e não mais precisaremos temer o fim do mundo, ele estará aconchegado como um feto nas nossas barrigas.


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quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

SAI DA FRENTE QUE ATRÁS VEM GENTE >> Ana Coutinho >>

Eu estava fazendo compras de Natal quando percebi. Enquanto a vendedora ia me trazendo os modelos de biquínis, senti uma estranheza nela, mas não sabia ainda o que era. A menina tinha uma pele muito lisa, grandes olhos azuis e algumas sardas na bochecha bronzeada. A voz dela era muito particular, uma voz fina, bastante infantilizada e foi aí que dei conta: eu estava diante de uma criança. Tomei um susto inicialmente, mas disfarcei. Não era à toa que ela me trazia os modelos maiores, com as laterais mais larguinhas e comportadas, claro, eu era uma velha, seria uma ousadia pedir um biquíni de lacinho, nem sei por que não pedi um maiô preto de uma vez por todas. Resolvi experimentar as peças e entrei no provador, me refazendo discretamente do choque. Quantos anos aquela menina tinha? 18? 19? Meu Deus, são adultos esses que recém-nasceram pouco antes do novo milênio que acabou de começar? Lembrei-me, na hora, de uma brincadeira da minha infância – do século passado – em que as crianças que vinham correndo gritavam para as mais lerdinhas: “Sai da frente que atrás vem gente!”. Nossa, como correram esses jovens. Eu devo ter sido derrubada mais de uma vez, lerda do jeito que sou, nem sei como foi que me levantei... O passar dessa raposa, a quem chamamos de tempo, é quase que uma piada. Uma enorme gozação. Não nos damos conta de que os anos estão se esvaindo, escorrendo por entre nossas mãos frouxas e calejadas. O tempo, ah, o tempo. Que grande vilão ele se tornou. Olhei-me no espelho luminoso do provador. Não havia dúvidas, os biquínis de lacinhos já estavam proibidos há algum tempo. As tirinhas, essas apertadas, são crimes bárbaros, como a legislação não fala nada a respeito? Olhei de relance a criança que me trazia mais um modelo – dessa vez inteiro em preto –, sorridente, cheia de si. Ah, ela não sabia, coitada. Quase que senti pena da menina. Porque me vi ali, nos olhos dela. Eu também fui uma menina cheia de vida, cheia de encantos, magra e insatisfeita com tudo o que a vida me dava absolutamente de graça. Era grátis aquela pele, era grátis o corpitcho, era grátis a agilidade, eram grátis todos aqueles dias longos, horas compridas enquanto eu assistia à novela das 6, depois à das 7, pulava pra outro canal no jornal e, então, voltava para pegar a das 8. Era grátis a alegria ingênua, quase que tola, das amigas que riam sem parar por uma noite inteira, trancadas num quarto qualquer, enquanto falavam de meninos ridículos que eram príncipes aos nossos olhos de plebéias. Era grátis tudo o que hoje me sai por um preço - muitas vezes - bastante salgado. Hoje, custa-me manter a balança abaixo dos 60, custa-me correr até a esquina, custa-me subir dois lances de escada, custa-me até o prazer. Sim, o prazer, esse bicho fugaz e efêmero que já foi até um pouco inconveniente, fora de hora e propósito, agora pede-me um dia calmo, pede horas tranqüilas e a cabeça vazia, para então - talvez - dar o ar da graça. Aquilo que era prêmio virou castigo. O sol, de grande amigo passou a bandido. E eu que ficava horas e horas deitada, pensando na vida e passando óleo enquanto rachava debaixo do sol do meio-dia. Óleo, vejam o pecado. Hoje, óleo é crime inafiançável. Nem sei se é permitido vender isso ainda, deve ficar na prateleira dos fuzis de guerra, claro. A menina me observava pela fresta e arriscou palpitar: “O preto ficou lindo!”. Ela disse genuinamente. O preto era mesmo a melhor opção. Peguei sem pestanejar e, quando disse adeus àquela jovem criança, o mundo já me parecia diferente. Não que seja triste ou penoso, ao contrário. Sei que há mais para se ver, há mais de nós mesmos por dentro das nossas roupas, e agora eu sei como o tempo, esse danado, embora nos tire os biquínis estampados de lacinhos, nos oferece os pretos acompanhados de um chapéu de palha, entre algumas outras gentilezas que essa velha raposa ainda nos oferece se mantivermos os olhos atentos...

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quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

A CAIXINHA DE LÁPIS DE COR >> Carla Dias >>


Terei de lidar com cores, ainda hoje. Na verdade, elas andam sondando a minha vida há algum tempo. É pedido de mãe, tias, amigas para que eu aposente o preto e faça colorir meu vestuário, e se puder, o incremente com estampas alegrinhas.

Certo dia, o pedreiro que cuidada da obra do imóvel onde trabalho pediu licença para me fazer uma pergunta pessoal. Eu dei de ombros, afinal, quão pessoal poderia ser uma pergunta de alguém tão distante da minha realidade? E então, ele me perguntou “você está sempre de luto?”

Verdade... Eu já o conhecia de outras obras, de outros trabalhos. Em fato, agora, acho até que menosprezei a capacidade de ele já ter reparado em mim com aquele estranhamento à monotonia do outro, que sempre se repete. E apesar das gargalhadas que dividimos, da minha eterna defesa “eu AMO usar preto... é gosto, não luto”, ficou uma outra pergunta no ar:

O que tenho de enterrar de vez pra seguir adiante?

Também já me perguntei se me acham infeliz por me faltar estampas. Mas ando-as achando muito mais bonitas nos tapetes, cortinas e almofadas do que nas roupas. É que elas não me caem bem por agora, mas já couberam... Já tive fase de usar todas as cores e estampas. Agora, minha casa é muito mais colorida do que já fui um dia. E, pelo jeito, se veste melhor do que eu.

Ganhei um kit mocinha de uma amiga: batom cor-de-boca (quer cor melhor que essa?), pó (ainda se fala assim?), rímel e demaquilador... ‘Demaquilador’ é uma palavra que gosto de dizer. Quem demaquila também tira máscaras? Bom, aí deve ser em outra seção, né? E sei que 'demaquilante' é o correto, mas depois que ouvi uma mocinha dizer demaquilador... Demaquilador é mais legal.


Tenho usado tais apetrechos, porque minha amiga jurou que me chutaria as canelas se me visse sem esse ‘cuidado básico’. E, vai saber se, num esquecimento, ganho o verde dos hematomas oriundos desses chutes do bem-querer. Afinal, ela é minha amiga, e quer apenas que eu me cuide melhor, fique um pouco bonita, arranje um cara bacana e viva feliz com ele. Enfim, as amigas chutam as canelas quando querem que a outra se toque que um batom nos lábios pode fazer a palavra sair mais solta; ou que um olhar mais assanhado (garotas, rímel assanha o olhar!) ajude a se vislumbrar outras paisagens.

Não pensem que sou contra as cores, porque não sou mesmo. Adoro como elas se completam num ambiente; como dão vida a um espaço. Acho de uma beleza fascinante a cor que a cidade tem, depois de uma garoinha; ou como o céu emoldura paisagens num dia de sol e frio. As cores das bochechas das crianças que brincam de pega-pega; os tons dos seus sorrisos.

Hoje entrará uma corzinha na minha vida. Não será maquiagem ou roupa nova... Anteontem, a mesma amiga que me deu o kit básico de maquiagem me ligou e disse que estava pintando as paredes da sala... Apenas duas delas, na verdade. Ela me chamou para ajudar e beber um drinque que é bom à beça, mas do qual não me lembro mesmo o nome. Só sei que me deixa meio fora de estação rapidinho e é vermelhinho.

Quando cheguei, junto com minha amiga estava um amigo em comum. A pintura, na verdade, já estava quase pronta. Eles estavam sintonizados e respingados de verde-musgo. Cheguei para a melhor parte: a farra! Algumas demãos depois, a parte mais colorida: observar o feito.

Estavam tão felizes com o resultado, que os olhos deles brilhavam. Não somente a cor, mas cada detalhe - o que aquelas paredes destacavam, o que eles adicionaram no cenário - fizeram com que ambos se sentissem satisfeitos por terem finalizado o que se propuseram a fazer e pelo resultado ter sido melhor do que esperavam.

E enquanto eles observavam o feito, eu os observava. Para mim, estava tudo azul. Meus amigos estavam lindamente felizes... E respingados de verde-musgo.

Aproveitando as minhas férias e as deles, decidimos, quer dizer, eles decidiram mais rápido do que eu, que hoje vamos colorir a parede aqui de casa. Porque mudar alguma coisa onde vivemos pode nos inspirar a mudar também a forma como vivemos.

Vai saber se na cor dessa parede, e munida com meu kit maquiagem, eu ganho coragem pra sair do luto e cair no mundo.

O mundo que, há muitos anos, minha professora de artes garantiu, ‘é uma caixinha de lápis de cor'.




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domingo, 4 de janeiro de 2009

SÍNDROME DO BOM MENINO
>> É do ar do pátio interno

ARTExplorer / flickr.comUma amiga disse que eu tivesse juízo no sábado à noite.

Bom, é sábado à noite, eu já falei com a família ao telefone e assisti a um filme da década de 40, coisas que julgo relativamente ajuizadas. Neste momento, escrevo; antecipando o texto que só deveria escrever no domingo pela manhã. E eu realmente espero que, neste ajuizado sábado à noite, pelo menos esta crônica não tenha juízo nenhum. Porque ter juízo às vezes cansa. E hoje eu estou cansado.

Eu não lembro o que me aconteceu quando eu tinha 7 ou 8 anos, mas deve ter sido algo grande, amedrontador. Porque até essa idade eu era uma criança decididamente sem juízo, que tinha em seu respeitável histórico a deserção da escola — ainda no maternal —, a habilidade de pular para cima dos pára-choques (dane-se o novo acordo ortográfico!) dos carros em movimento e — pasmem! — o hábito de desejar sinceramente a morte de alguém que me contrariasse. Permitam-me — aliás permitam-me coisa nenhuma, fica bem melhor em inglês e eu não preciso pedir permissão para seu ninguém: I was really bad.

O medo mais antigo que eu lembro é de um disco do Carequinha. (Eu tinha pavor de palhaço; talvez até ainda tenha, porque os evito desde então.) Eu pensei que era a voz do Carequinha que me amedrontava. Mas hoje, agorinha mesmo, me ocorreu que talvez não fosse apenas a voz. A voz, falada, aparecia logo após a voz cantada na música "O bom menino", cuja letra é assim:

O bom menino não faz xixi na cama.
O bom menino não faz malcriação.

O bom menino vai sempre à escola

E na escola aprende sempre a lição


O bom menino respeita os mais velhos.

O bom menino não bate na irmãzinha.

Papai do céu protege o bom menino
Que obedece sempre, sempre a mamãezinha.


Por isso eu peço a todas as crianças
Preste atenção para o conselho que eu vou dar:

(
FALADO) — Olha aqui. Carequinha não é amigo de criança que passa de noite da sua cama pra cama da mamãe. E também não é amigo de criança que rói unha e chupa chupeta. Tá certo ou não tá?
(RESPOSTA DAS CRIANÇAS) — Tááááááá!



E tem gente que acha que as crianças de hoje em dia estão expostas a muita violência ao ver televisão? Aquele disco de um supostamente ingênuo palhaço foi um presente de meus pais, e nada tinha me dado tanto medo antes na vida. Aquilo, sim, é que era violência: ter que ser um bom menino. Não poder dormir na cama da mãe, sentindo o cheirinho bom de seu lençol. Não poder chamar a irmã para brincar de boxe de vez em quando. Ter que tirar boas notas na escola... Quanta condenação para uma pobre criança. Quanto juízo! E eu aceitei tudo aquilo por medo. Medo de quê? Do Carequinha não ser meu amigo. Francamente...

Isso aconteceu há 30 anos. Eu estive, por 30 anos, inconsciente do que para mim era o ar que eu respirava: a incumbência de ser um bom menino, um destacado aluno, um prestativo rapaz, um compreensivo amigo, um respeitado profissional, um gentil amante, um encantador escritor... Chega, gente! Por um Quíron fazendo dupla quadratura com minha oposição Sol-Saturno, chega!

Eu quero a cama molhada de xixi (ou de esperma), eu quero aprontar com quem insiste em ligar errado para o meu telefone, eu quero gazear aula e esnobar o ensino do professor, eu quero ser atendido antes do idoso que tem mais saúde do que eu, eu quero dar um bom murro em quem merece (seja homem ou mulher), eu quero bater boca com Deus, eu quero ser do contra, eu quero o cheiro do lençol de minha mãe, eu quero roer a unha até o osso, eu quero fazer tudo errado. Tááááááááá?

Eu estou cansado de ser o poeta, o inteligente — o gênio até —, o delicado, o inspirado, o mestre, o guru, o determinado, o paciente, o pioneiro, o maravilhoso... Gente, eu só quero acordar todo dia sem despertador, fazer o que me der na telha o dia inteiro e à noite dormir aconchegado a uma mulher que me faça cafuné. Não há nada de extraordinário, admirável ou mesmo bondoso nisso. É preguiçoso, é egoísta e é explorador. É o que eu sou. Sem máscaras de palhaço.

E se houver algum leitor preocupado ou incomodado com tudo isso, well, eu fico feliz por ainda saber como escrever sem ter juízo.



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sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

A PREPARAÇÃO >> Leonardo Marona

Apenas vinhos baratos, por uma ressaca fraterna. Muito deve estar relacionado à forma com que um se acomoda de frente para a fera sedenta. Sim, é fundamental ajustar o espírito para receber a luz forte. Abrir as janelas, ouvir o som de lá fora, tentar capturar as nuances que se acumulam e se atropelam. Dar uma ou duas voltas pelo ambiente, tocar objetos de vidro e de metal, sentir o frio se comportar diante da pele ainda confusa, administrar a ansiedade em desenvolver pirâmides.

Que se pode fazer senão preparar o corpo, não sentar agora, tomar um copo de seja o que for, entrar em conexão com o movimento torrencial, alimentar com qualquer substância levemente venenosa o corpo, adaptá-lo ao leve, muito leve cinismo criador?

Recuar tantas vezes quantas necessárias também pode engrandecer a sujeição às idéias ainda soltas num pequeno espaço sem luz, mas cheio de calor. As janelas ainda abertas. Um calor insuportável e as plantas paradas. O som dos carros que passam pela avenida comporta uma solidão de ultraje. Os seres invertebrados da noite parecem tão felizes...

As reticências de repente assustam. Há que se ajeitar perante o assento. Barbaridade essa barba grossa, esse cabelo desgrenhado. As pernas doem, o corpo reclama em qualquer língua ancestral. Ainda mais essa repentina sensação constrangedora de faltar um Quê imprescindível. Buscar esse Quê. Vale a pena abrir as gavetas? Tudo vale a pena... Destino mais enfadonho. O de tudo valer a pena. A sensação de ser lhama da montanha gelada serve apenas para acalentar o espírito. Conhaque também. Preparar o cinzeiro, limpar as cinzas mais antigas, trazer o aparador para o charuto enrolado num excelente país escravocrata, almofadas para o assento, que por baixo se começa a pensar.

Sim, estalar os dedos um no outro, Get out of town, todos de repente, todos os dedos, roídos e sem digitais bem-definidas, todos assim sobre a mesa, abrir enfim uma garrafa, talvez seja mesmo a hora, o tic tac, tic tac, tic tac do relógio, um momento, isso não é Machado de Assis! Que dedos horríveis, pobres coitados, dedos em pânico. Cada vez mais reticente... Importantíssimo enterrar os mortos, deixá-los com sabedoria de pasto. Mas é inevitável e perfeitamente ordinária a conclusão de que talvez um belo bico de pena ajudasse em qualquer petição poética.

Carregar por que a tinta dos infelizes? Nada disso, com um bom preparo atinge-se a excelência. Frieza, e avante! Sente-se, cuidado com a postura, deixa a máquina rodar seus eixos, deixa a fúria tomar corpo. Um gole a mais ou a menos, que há de fazer contra? O principal é traçar um objetivo claro. Realizar devidamente a tarefa e recuperar a esperança das massas. Está tudo pronto, a favor de uma dialética proveitosa. Como comecei mesmo isso aqui? Era uma frase bonita. Meio sem sentido. Mas bonita. Apenas vinhos baratos, por uma ressaca fraterna. Pois muito bem. Tantas voltas para chegar de novo a isso? Ó palavras desconexas, por que nos acompanhais por becos tão sólidos e abstratos? A cabeça ereta contra o encosto reclinável, por favor, endireite essa postura, estale os dedos, deixe Julie London soltar sua voz de branca sem preconceito, e então o que dizer mais, o que dizer?


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