quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

ATÉ O JARDIM >> Carla Dias >>

Durante 2008, deixei registrado aqui no Crônica do Dia tantas e tantas importâncias. Dos shows e filmes que assisti, as tiradas dos sobrinhos; conquistas, percepções, apaixonamentos, decepções, poesia.

De certa forma, o Crônica foi meu diário de bordo, onde tatuei parte de quem sou... Uma parte realmente necessitada da palavra escrita e lida; do compartilhamento com os leitores. Em 2008, aprendi alguns truques de sobrevivência, entre eles um que me ajudou a enfrentar algumas barras: o dane-se.

Permiti que se danassem questões que não eram realmente minhas, apesar de afetarem minha vida. Dei um belo dane-se a elas e fui me virar com as conseqüências, descobrindo que, muitas vezes, melhor é bancar a louca mesmo e sair andando.

Neste último dia de 2008, não tenho uma lista de coisas que fiz e que deveria ter feito, mas ficaram na promessa. Trago, sim, um sentimento estranho de quem sobreviveu, mais do que viveu, a este ano, e que isso foi fundamental para que descobrisse alguns alentos e me desprendesse de vários rótulos que, percebi, andava colecionando.

Perceber é algo bom. Por exemplo, percebi, enquanto escrevia as linhas acima, que ainda há muito a ser vivido. Que experimentar é base da criação; que desejo profundamente que certas coisas – aquelas que posso transformar – mudem de cara, cor e rumo. Que posso e devo me concentrar nessas mudanças, se quiser ter sobre o que falar e o que viver em 2009, 2010, 2011, 2012...

2008 para mim foi um terreno pronto para o cultivo. Lá eu resolvi plantar flores que, acredito, darão em um belo jardim. E sem bancar a preguiçosa, porque isso eu não sou mesmo, quero mais é deitar na rede e me deslumbrar com a beleza desse jardim que, uns e outros, podem até chamar de 2009.

É o que desejo a todos no ano que chega: jardins dignos de serem contemplados. E também o que diz a canção abaixo:


Isopor
(Élio Camalle/Kléber Albuquerque)

Que a luz da lua escorra
Pela pele, pelos pêlos
E que raios de sol
Embaracem seus cabelos
Que a vida lhe dê muita saliva
Pra lamber sonho em carne viva
Que seu riso não tenha o mínimo pudor
Que os ventos soprem sempre a seu favor
Que você encontre a cama feita,
A mesa farta , a casa em festa
Que a boa estrela grude no meio de sua testa
E que o mal tenha paredes de isopor
Tudo de bom... Tudo de bom.



ISOPOR - Kléber Albuquerque


Imagem: Carlos Drexler



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terça-feira, 30 de dezembro de 2008

FELIZ 2009 -- Paula Pimenta

Estou indo viajar em poucas horas. Comecei a escrever uma crônica de retrospectiva anual, mas não deu tempo de terminar. Não deu tempo de terminar quase nada nesse ano que passou e eu nem vi. E agora o outro já está chegando e eu queria tanto que demorasse só mais um pouquinho, porque eu tenho um certo medo dos anos ímpares, já que os meus anos pares sempre são melhores. E 2008, apesar da pressa, foi tão bom pra mim... consegui quase tudo que eu desejei.

Fiz muitos shows no primeiro semestre (apesar de quase nenhum no segundo), escrevi várias cartas de amor, dei muitas aulas, fiz alguns amigos novos, viajei demais (São Paulo, Cabo Frio, Brasília, Uberlândia, Varginha e Buenos Aires), lancei meu livro e ele já me deu mais retorno do que eu jamais esperei, ganhei muitos presentes (dentre eles um notebook e - ontem - um carro novo). Amei demais. Rezei demais. Chorei demais também. Mas não posso esquecer dos muitos sorrisos.

E agora esta última viagem do ano, que eu nem estou com tanta vontade de fazer, porque eu acho que ela não vai chegar nem aos pés das outras todas. Mas mesmo assim eu comprei a calcinha cor-de-rosa de sempre, pra não deixar de acreditar que independente do quanto 2008 tenha sido bom, 2009 pode ser melhor. Eu gostaria que isso só dependesse de mim. Pena que eu sou o tipo de pessoa que não consegue ser feliz sozinha.

Feliz 2009 pra vocês! E que nossa vida seja sempre como uma crônica com final feliz...


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segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

CRIADOR E CRIATURA >> Carla Dias e Eduardo Loureiro Jr.


— Você não pertence a esse lugar...

— Foi você quem me convidou.

— Mas você não percebeu? Não se sentiu deslocado?

— Quem manda aqui é você.

— Engraçado... Sempre achei que fosse o contrário...

— Eu mando aí, no seu mundo.

— Tá bom, tá bom... Vá um pouco mais pra frente.

— Não do lado daquela ali!

— Mas não sou eu quem manda?

— Você poderia mandar ela sair de lá.

— O que o assusta nela?

— Prefiro você.

— Apesar de não poder tocá-lo, apenas mudá-lo de lugar?

— Você podia entrar aqui.

— Desajeitada do jeito que sou, te derrubaria lá embaixo... E lá é meio perigoso, sabe?

— Aqui não há como se machucar.

— Há sim... Se eu entrar e gostar, desejar ficar...

— Lembra daquela história?

— A que eu não soube contar?

— O que lhe deu?

— Faltou o ar... Engasguei... Achei que fosse morrer.

— Morra, na próxima vez.

— Curioso é que pensei em morrer agora. Devo?

— É só vir até aqui.

— Você não é diferente do que imaginei...

— Ela não gostou de você estar aqui.

— Não consigo convencê-la a partir e viver em paz longe daqui.

— O que ela faria se eu lhe beijasse?

— Se sentiria como quem perde o chão... o gosto.

— Você não manda mais aqui.

— Não... Eu já pertenço a este lugar.

— Seu beijo...

— É seu...

— Ela sumiu.

— Sentiu-se fora do contexto.

— Você está diferente.

— Acho que me perdi dos parêntesis... É liberdade?

— Preciso ver à distância para avaliar.

— Que distância seria essa a nos separar?

— Vou ver você do seu mundo.

— Sinto medo por isso... Se gostar de lá...

— Parece bom aqui.

— Me vê?

— Você parece pequena.

— E onde ela está? Daí ela é tão...?

— Sinto saudades dela.

— Ela está me rondando...

— Ela está apenas vindo para cá.

— Vocês vão me abandonar aqui, não vão?

— Você mereceu isso.

— Achei que quisesse meu beijo...

— Ele já tem os meus beijos, queridinha.

— Ele tem minha vida nas mãos...

— Sinto muito, eu preciso lavar as mãos agora.





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domingo, 28 de dezembro de 2008

AS CASAS DE 2008 >> Eduardo Loureiro Jr.


Há quem não goste de retrospectivas. Mas eu não sou da turma do "pra frente e avante, sempre". Gosto de retrospectivas. Quando a gente olha pra trás de vez em quando, as coisas fazem mais sentido. Mas há que se saber olhar pra trás. Não é olhando de qualquer jeito que se percebe o sentido do que foi vivido.

Na família de minha mãe, nos aniversários redondos, fazemos uma retrospectiva da vida do aniversariante. Esse ano, por exemplo, tivemos dois aniversários de 70 anos. A retrospectiva de Tia Antomária foi feita a partir de um acróstico, forma poética que ela gosta de usar. Para cada letra de seu nome, nós puxávamos uma série de lembranças. Já no aniversário de Tia Ângela, que gosta de fazer crochê, foi a encenação de uma conversa entre uma linha e uma agulha que guiou a lembrança dos momentos mais marcantes de sua vida.

E este 2008? Que forma posso dar às lembranças desse ano em que aconteceu tanta, mas tanta coisa, e muita coisa importante? Pensei em fazer um registro mês a mês, mas tanta coisa aconteceu na virada de um mês para o outro — um grande encontro romântico de janeiro para fevereiro, uma mudança de residência de março para abril, uma despedida de um amigo querido de maio para junho — que descobri a inutilidade da divisão exata do tempo. Optei então por uma retrospectiva astrológica: apresentar o ano de 2008 de acordo com os temas das 12 casas que dividem o mapa astral, os 12 setores da experiência humana.


CASA 1 - O CORPO
Pela primeira vez em minha vida, estou deixando meus cabelos crescerem sem qualquer intenção de cortá-los num futuro próximo. Cabelos têm a ver com liberdade e vitalidade. A melhor explicação para o crescimento de meus cabelos foi dada por mim mesmo, num poema que escrevi — cantando para não esquecer — durante uma viagem de carro de Fortaleza para Teresina:

Meus pensamentos de mar,
não posso mais escondê-los.
Na praia da minha testa,
as ondas dos meus cabelos
rebentam — pedra e espuma —,
ressaca dos meus desejos.



CASA 2 - O DINHEIRO

Durante esse ano, parei de acreditar que o volume de dinheiro é diretamente proporcional à quantidade de trabalho. Para se ganhar mais, não é preciso trabalhar mais, como eu pensava. Hoje, se em algum momento penso que estou precisando de dinheiro e me vem a idéia de que tenho que trabalhar mais para consegui-lo, dispenso o pensamento. Claro que é necessário algum trabalho para que o dinheiro venha, mas não adianta trabalhar mais para ganhar mais. Não sei exatamente como acontece, mas o fato é que, pensando assim, tive o melhor ano financeiro de minha vida até aqui: não deixei de fazer nada por não ter dinheiro. Descobri que o dinheiro é só uma das materializações do Valor, e que se valorizarmos mais a nós mesmos e aos outros, o dinheiro aparece com facilidade.


CASA 3 - OS ESCRITOS

Eu sempre achava muito estranho quando um escritor dizia que ouvia seus personagens falando. Aquilo me parecia absurdo, impossível, coisa de louco, de maluco. Personagens não existiam, eram inventados. Não poderia haver nada que um personagem dissesse que não fosse a voz do próprio escritor. Bom, isso foi até eu começar a ouvir meus próprios personagens falando durante este ano. Hoje, meu processo de escrita é muito mais um processo de audição do que qualquer outra coisa. Eu basicamente transcrevo o que ouço e descrevo o que vejo. E quando não faço isso, como agora, fazendo esta crônica retrospectiva, tenho uma certa sensação de que não estou escrevendo verdadeiramente. Agora, para mim, a escrita real não é mais a arte da escrita propriamente dita, mas a arte de escutar. E, além de minha crônica semanal, tenho sentado, ouvido e escrito pelo menos uma nova história infantil por semana.


CASA 4 - O LAR

Sempre achei que passaria toda a minha vida em Fortaleza. Tanto que fiz mestrado e doutorado por lá. Não havia nada, em lugar nenhum, que me prometesse alguma coisa que eu não pudesse encontrar em Fortaleza. Quando eu era criança, certa vez minha mãe arrumou uma mala para que eu e minha irmã fôssemos passar uma semana de férias no interior do Ceará, na casa de uma tia. Na hora de entrar no ônibus, falei para minha mãe que não iria. Minha irmã e minhas roupas foram, eu fiquei. Quando, por motivo de fuga afetiva, me mudei para Teresina em 2005, para mim só havia duas possibilidades: permanecer para sempre em Teresina ou voltar para Fortaleza definitivamente. Em abril deste ano, acabei vindo para Brasília. Após uma semana, eu já me sentia familiarizado com a cidade. E tive uma sensação estranha, inédita, de que eu poderia morar e me sentir bem, confortável, em qualquer lugar do mundo — Alasca incluído.


CASA 5 - A CRIAÇÃO

Não, 2008 ainda não foi o ano em que tive filhos. Se eu tivesse que lamentar esse ano por algum motivo, seria esse. Mas eu escrevi tanto — e histórias são como filhos — que me valeu de consolo. E eu tenho a Julia, que é uma linda menina como se fosse sobrinha, linda sobrinha como se fosse filha. E eu tenho o Crônica do Dia, que também é uma espécie de filho e que, assim como a Julia, completou 10 anos em 2008. E também coloquei no mundo — por meio de uma entrevista televisiva e de um artigo numa revista especializada — a Astrodramaturgia, que talvez seja a forma como serei lembrado daqui algumas décadas: como o Pai da Astrodramaturgia.


CASA 6 - O COTIDIANO

Quando eu era criança, mesmo sendo um excelente aluno, acalentava a fantasia de que os dias deveriam ser diferentes, de que a distribuição das atividades durante a semana deveria ser invertida: por que não irmos à escola apenas dois dias e passar cinco dias vivendo um grande "fim de semana"? Comecei o ano de 2008 assim e, quando vim para Brasília para trabalhar no Ministério da Cultura, tive meu tempo roubado. Foi o suficiente para um pedido de demissão. Agora os dias voltaram a ser meus, não têm mais hora marcada. Posso fazer o que quiser, no dia em que quiser, na hora em que quiser. 2008 talvez seja lembrado como o último ano em que tive de dar expediente.


CASA 7 - OS RELACIONAMENTOS

Eu adoraria dizer para vocês que, em 2008, encontrei a mulher da minha vida, que estamos namorando, que noivaremos e casaremos em breve. Mas ainda não foi dessa vez. Os relacionamentos têm sido generosos comigo, mesmo os que não dão certo têm dado certo. Tenho aprendido o que há para aprender. E tenho guardado o bem-querer pelas pessoas com que me relaciono. Em alguns casos, quando a outra pessoa também aprendeu o que tinha de aprender e também guardou o bem-querer, temos ficado amigos. E é maravilhoso ser amigo de alguém que nos é tão íntimo, com quem partilhamos um dia a nudez do corpo e continuamos a compartilhar a nudez da alma. Então só posso ser grato às três mulheres absolutamente incríveis — uma delas, maravilhosa — que me deram a honra de conhecê-las este ano.


CASA 8 - O SEXO

Em relação ao sexo, eu sempre me senti meio mulher: para mim, sexo tem que ter sentimento, afeto. Foram raríssimas as vezes em que me envolvi em algum tipo de sexo casual, e nenhuma delas aconteceu em 2008. Este ano, algumas vezes, tive até que negar o sexo, mesmo quando ele tinha afeto. Negar a alguém o prazer sexual, principalmente a alguém querido, não é fácil, mas foi necessário algumas vezes em 2008. Das vezes em que me permiti, e graças a Deus foram muitas esse ano — embora talvez menos do que minhas parceiras desejassem —, tive o prazer, literalmente, de experimentar sensações inéditas ou há muito adormecidas. De todo modo, contrariando a crença de que os escorpianos são uma espécie de máquina sexual, devo dizer, e continuar dizendo, que, para mim, mesmo quando o sexo é bom, como foi esse ano, melhor ainda é o aconchego, o abraço, o amolego, o cochilo e o acordar de cara com a pessoa amada.


CASA 9 - AS VIAGENS

Quem diria que eu, o menino que embarcava bagagens mas não se embarcava, viraria um viajante e que até começaria a gostar disso? Viajei muito esse ano: Acre, Bahia, Pernambuco, São Paulo; duas vezes para o Rio de Janeiro; e mais trajetos do que pude contar entre o Distrito Federal, Ceará e Piauí. Viajar ainda me dá uma certa ansiedade antes e uma absoluta ressaca depois: preciso de alguns dias para voltar ao normal, e alguma vezes nem consigo voltar ao normal. Mas o durante tem sido sem sustos: de surpresas, de alegrias. Tanto que está decidido e planejado, só falta comprar a passagem: ano que vem irei à Itália e concretizarei a profecia de um antigo poema meu:

Não sou Pacífico.
Sou Atlântico,
Mar Tenebroso.
Quando atravessar,
ganho um mundo novo.



CASA 10 - A VOCAÇÃO

Já pensei em ser muita coisa na minha vida. O mais antigo desejo vocacional de que me lembro é ser vendedor de pipoca. E confesso de que ainda não desisti inteiramente de ser dono de uma banca de revistas: uma banca enorme, com espaço para armar uma rede dentro, e com um sistema self-service, em que os próprios clientes pegam a revista e depositam o pagamento em uma caixa registradora; tudo para que eu fique só deitado, lendo. Mas em 2008 ocorreu-me que estou vocacionado para três atividades: o ensino, a escrita e a astrologia. Este ano, quando me perguntaram o que eu fazia, eu que sempre tive dificuldade em preencher minha profissão em formulários, pela primeira vez respondi com convicção: sou professor, escritor e astrólogo. Foi nesse ano que me descobri completamente à vontade em sala de aula, mesmo diante de um excessivo número de alunos. Foi esse ano em que lancei dois novos livros, e escrevi duas dezenas de outros. Foi esse ano em que perdi a vergonha de oferecer meus serviços astrológicos. O ano em que atendi à voz da vocação.


CASA 11 - OS GRUPOS

Não há nada tão paradoxal em minha vida quanto isso: sou uma pessoa de temperamento retraído, assemelhando-me muitas vezes a um ermitão (nos últimos três dias, só mantive conversação com duas pessoas), e, no entanto, gosto bastante de participar de grupos e eles têm um papel importantíssimo em minha vida. Ainda na graduação, demos início a um grupo chamado Os internos do pátiO, que ano que vem completará 20 anos, e que é formado por poetas e compositores. E já são 10 anos de Crônica do Dia, esse grupo de escritores que tenho a honra de articular. 2008 me deu um novo e importante grupo de presente: a Casa de Autores. Somos 22 escritores que moramos em Brasília e que, com o auxílio de uma encantadora dona de uma distribuidora de livros, estamos abrindo e criando espaço no mercado editorial.


CASA 12 - A ESPIRITUALIDADE

Tudo de que falei, tudo que aconteceu em 2008 não faria sentido para mim se não fosse pela espiritualidade. Quanto mais o tempo passa, mais fica claro para mim que o sentido dessas coisas todas que nos acontecem não se resume a essa vida neste querido planeta. Somos espíritos, nos desenvolvendo na direção da luz, da paz e do amor. Considero-me privilegiado por dispor de dois instrumentos valiosos de desenvolvimento espiritual: o Pathwork e a União do Vegetal. Neste ano, confirmei para mim mesmo a importância desse caminho. E ainda recebi o presente de participar de algumas sessões de Constelação Familiar, uma forma de terapia breve altamente impactante e eficaz. Pela Constelação Familiar, parei de me culpar por meus retiros de ermitão, e me permiti vivenciar papéis que também fazem parte de mim ao auxiliar na Constelação Familiar de outras pessoas. Sou grato por tudo isso ao mundo real que nos parece invisível.

*

Eu lhes falei que era muita coisa. E mesmo tendo apresentado essas tantas casas de 2008, fica a sensação de que ainda não disse tudo. Por exemplo, não falei de música, dos dois estúdios em que gravei, do CD de composições próprias que preparei para meu sobrinho, das apresentações na Bienal do Livro de São Paulo e na Feira do Livro do Distrito Federal, das muitas músicas que fiz, dos meus parceiros, das minhas musas... Ah, quanta coisa boa! Graças a 2008, que me deu tanto.

E que seja bem-vindo 2009. O ano que tem a delicada missão de dar continuidade a tanta coisa boa que começou em 2008. Que você, meu desde já querido ano novo, tenha bastante disposição e paciência para cumprir sua missão.






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sábado, 27 de dezembro de 2008

ADEUS PROLONGADO [Sandra Paes]

Final de ano. Suspiro de alívio retido antes da contagem regressiva. Nunca uma data ficou tão marcada e tão ansiada. Celebrar o ano novo, seja ele do aniversário, seja ele do ano terrestre, dá, pelo menos pra mim, um bafejo de esperança, uma vontade de começar de novo, embora saiba em grande parte do meu córtex que a virada do dia ou do ano é apenas uma convenção simbólica.

Outro dia, me peguei dizendo não sei pra quem: - Você sabe que nosso calendário é fruto de um decreto papal, não sabe?”, querendo dizer que o ano novo fazemos quando de fato decidimos que ele comece.

Embora saiba de todos os hábitos e promessas, listas de mudanças, vontades disso e daquilo, me surpreendo com certos requintes tais como gente que come doze uvas de joelhos no virar da meia-noite e pede para cada uva um desejo a se cumprir a cada mês. Há quem brigue se não comer uma sopa de lentilha ou ainda quem perca o humor se não tiver semente de romã para começar o ano com dinheiro na carteira e nunca faltar grana.

Já vi de quase tudo nas “honrarias” das entradas de ano novo.Tudo em nome de se despedir do ano anterior, de deixar pra trás o que foi de ruim, e sempre prometendo e apostando em novos hábitos, novos sonhos, novas metas.

Eu sempre curti essa festa. Sempre achei maravilhosa essa simbologia do novo, do zerar tudo, essa sensação incrível de pôr um pé no porvir. Talvez por isso mesmo hoje me pego já ansiosa pra me despedir desse ano 2008.

Eu, que sempre fiquei avessa a despedidas, sempre resisti à sensação de ficar com o adeus, sem entender muito bem o porquê dessa coisa, me flagro super-ansiosa pra me livrar de 2008. Paro pra pensar por que, é claro, e constato o óbvio: a gente gosta de se livrar do que não gosta.

E me lembrei de uma fala de Chico Buarque, numa entrevista com Maria Bethania, em que ele dizia que cantar não fazia parte das três coisas que ele mais gostava de fazer, porque o que se gosta de viver, você não quer que acabe.

E quem dera que a gente pudesse mesmo passar uma borracha e apagar o que se viveu como quem apaga o rascunho da redação! Na vida não há rascunho. Esse rio que apenas corre para frente, sem saber se há planícies mansas ou abismos a enfrentar, não nos dá a chance de voltar ao nascedouro, de circular em torno de uma pedra, fazer uma volta e refazer o percurso. O que está feito está feito, e o que não se fez não se tem a chance de repetir, pois o caminho é outro, a paisagem e as circunstâncias também. E isso, talvez, é o que me estanca ou me faz pensar que assim fiquei, no final de ano.

Dezembros sempre foram um marco de dor e de adeus para mim. E não só o adeus ao ano que se vai, mas inúmeros deles. Em dezembro me despedia da escola e dos amiguinhos dali; em dezembro entrava o vazio da longa espera para voltar ao convívio do meu grupo social nos tempos de colégio; em dezembro vinham os balancetes das empresas e o suspense sobre os salários, e se haveria ou não corte nas empresas no próximo ano; em dezembro, o pior dos suspenses: a angústia da espera de Papai Noel e a dúvida se ele iria atender ao meu sonho. Em dezembro, minha mãe se foi, de forma inesperada e muito dolorosa para mim. Em dezembro, as chuvas sempre arrastam casas e desabrigam milhares; em dezembro, se contam as moedas pra se tentar presentear alguns e excluir tantos outros de sua lista de presentes e agradecimentos; e em dezembro, nos pomos de joelhos pra agradecer a via crucis da vida e contar as bençãos que nela recebemos.

Ë sempre o ritual do adeus que precede o novo. E acho curioso que a igreja católica tenha cunhado a celebração do nascimento de Jesus também para dezembro, para trazer esperança aos aflitos, que se multiplicam em progressão geométrica, independente de raça, cor ou credo, visto que o mundo desanda.

Nunca um ano foi tão cheio de revelações e revoltas como esse 2008. Nunca vi a televisão tão ocupada de noticias trágicas, de escândalos familiares, financeiros, políticos, jurídicos, amorosos e pessoais. Revejo toda essa enxurrada que assola a tantos, e choro. Choro sem controle, choro a dor da mãe Terra tão maltratada, choro pelos bebês abandonados em lixeiras, choro pelos abandonos nos hospitais, choro pelo desamparo das mães que perderam seus filhos de forma trágica, por violências incontidas, por abusos e desrespeitos, choro pela perda da harmonia e da segurança nos lares e nos trabalhos todos. Choro de alma que caracteriza a cicatriz que trago no peito desde tempos imemoriais e que vez por outra se abre, sempre que a vibração da perda da esperança e da ilusão que sonhar ainda é bom me pega desavisada.

Ah! 2008… Que ano tenso, que tempos de reconstrucão tão difíceis. Você trouxe a eleição de Obama como sinal de mudança, e também a necessidade de mudança de credos, mudança de atitudes, de valores essenciais, mudança de DNA, sim, para que saiamos do egocentrismo, da ganância, da competição que modula todos os nossos sistemas, do educacional, ao político e econômico.

Quero ousar sonhar que a cooperação seja a tônica do ano novo. Que os lares sejam de todos e não apenas o lugar onde a mãe se desdobra pra manter a ordem e a harmonia. Que as escolas mostrem um novo paradigma na avaliação dos alunos, a força e o ganho da cooperação e não o incentivo inútil e fugaz ao poder do primeiro lugar - denominador da derrota de tantos, da sede de vingança, da opressão sem sentido, da fundação da humilhação e da baixa auto-estima.

Ouso sonhar que o mundo que sempre sonhei desde menina comece agora , já!- porque está muito difícil e é longa a demora dessa passagem, como a agonia de um parto pesado. A cada dia mais uma contração revelando mais uma avassaladora corrupção, mais uma falência institucional, mais tantos desalentos derrubando as ilusões que sustentam nossas instituições já tão falidas.

Como crer em justiça onde as sentenças são previamente compradas? Como crer na capacidade de adquirir um bem, se as instituições que controlam o curso do dinheiro estão quebrando? Como crer num sistema criado para manter a saúde de seus segurados, se as companhias não hesitam em deixar na mão os que mais precisam? Como crer no bem - propriamente dito - se o mal mostra sua cara todos os dias e a toda hora, revelando que não sabemos nos despedir de nossas ilusões?

Ainda se corre pra comprar um carro novo e ficar preso no trânsito como qualquer outro. Ainda se corre pra pegar as liqüidações abertas e ficar com as contas penduradas nas paredes e as compras acumuladas nos armários. Ainda se corre para se praticar a filantropia de enviar sacos e sacos de doações para desabrigados e ver caminhões saqueados.

Quem precisa mesmo de tudo isso?

Meu olhar está cansado e as janelas de minha alma querem se fechar sem tempo pra se abrir até que esse prolongado adeus se finalize. E que esse adeus seja real, mais do que simbólico, e que não precisemos de desamparos tsunâmicos pra efetivar a concretude de que tudo passa, tal como nosso calendário e todas as ilusões que o tempo semeia.


Imagens: Father Time and Shirley Temple "Clock In", 1937, Bettman; Woman Holding a Crystal Ball, Roy Botterell; Hands Holding Seedling, Robert Llewellyn; Pearls Wrapped Around Champagne Bottle, Fancy

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sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

DOIS >> Leonardo Marona

"metamorfina"

agora que invento teus olhos
agora que sei que és de outro
penso: sendo assim és minha
porque eu sou outro em mim.

agora sou não doente de sim
escorado em planos secretos
concretizados na perspectiva
da tua foto sobre a cabeceira.

agora a hora agoura a agonia,
outro em mim tão eu sozinho
acomodou tua falta no escuro.

sinto que perdi meu rastro em ti
indo levaste o outro que em mim
sendo teu não, conhecia meu sim.

***X***

"laços de bronze"

pai...
quando vi os olhos de bronze
de Drummond e Mário Quintana
num banco da Praça da Alfândega
ouvi sinos – talvez de uma igreja
e me lembrei de um domingo
quando engolimos calados nossa ceia
porque afinal era domingo de natal
e depois, já na rua, lembrei também
que estávamos bêbados e sentimentais
e você falou comigo através de ombros
sobre um texto meu que tinha lido
sobre você e sobre seu próprio pai.

e me lembrei que você enxugava os olhos quando voltei do banheiro
e comemos arroz amarelo com tempero indiano e peixe ao sal grosso
e que o garçom te conhecia pelo nome, o que me deixou feliz.
lembrei de tudo atravessando a praça sob olhos de bronze,
inclusive daquelas frases silenciadas por soluços de fome
e, além destas, coisas tão importantes quanto pequenas,
quanto o silêncio que as cobriu de pó sobre nosso baú.
lembrei também de como estou longe agora
do abraço que nunca te dei conforme os braços tremiam
porque queria um abraço mais longo do que a verdade.
lembrei também de que quando saímos do restaurante
– bêbados e sentimentais, assobiando uma canção antiga italiana
para que palavras indefinidas não estragassem o momento mágico –
passamos por um sinal vermelho por volta da meia-noite de natal
e um menino de rua se aproximou com um pacote de balas e lágrimas negras
e você deu a ele uma nota de 50 reais e então fomos embora em silêncio
como se estivéssemos ambos envergonhados por não ter feito algo melhor.

então chorei no meio da praça
(eu a criança que cavou a esperança na calçada)
como se fosse eu mesmo aquele menino de rua
que olhava pela janela do carro
duas pessoas que se amavam
sem saber como lidar com isso
a não ser de forma natural,
o que significa deixar o saber de lado.
e sei que Drummond talvez julgasse isso mal
e que talvez Quintana preferisse falar de sapatos,
mas foi preciso escrever isso para adocicar meus passos,
pois meus olhos tentam burlar tua falta mas ardem como sal,
pai...


http://www.omarona.blogspot.com/

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quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Queridos amigos, >> Ana Coutinho

Pois não foi que chegou? E eu, esse ano, fui tão desatenta que nem lhes desejei o habitual feliz Natal, tão cansada que me sentia. Não justifica, eu sei, mas é o que tenho para oferecer-lhes hoje, bem hoje, o dia mais especial do ano.

De certo é alguma coisa da idade que me tornou assim, preguiçosa e desanimada. Logo eu que sempre escrevia-lhes no início de dezembro, silenciosamente, falando da minha alegria e empolgação com as luzinhas, as cores, a fraternidade, enfim.

De repente, sinto-me cansada. Cansada é pouco. Sinto-me exausta. E exausta dessa forma, não tive forças para desejar-lhes tudo aquilo que merecem.

Vocês, amigos queridos, que merecem ter tido uma linda noite de Natal sim, mas, mais do que isso, merecem ter tido lindas noites comuns, lindas noites de verão, lindas noites no inverno, aquecidos por aqueles a quem mais amam. Merecem ter um dia lindo hoje, dia de Natal, mas, mais ainda, merecem ter tido dias e dias lindos no decorrer dos anos, ao quais possam lembrar-se com prazer, e alguma saudade.

São eles, os dias comuns, que talvez tenham me tornado cansada - e quiçá amargurada.

Os dias comuns são as veias da mesmice e é disso que a vida é feita, não queridos? De mesmices. Podem apregoar por aí que mudemos o caminho todas as manhãs, escovemos os dentes com a mão oposta à de sempre, cortemos os cabelos, mudemos, mudemos e mudemos. Não adianta, amigos queridos. A vida está impregnada de rotina, de mesmice, da claridade do dia à escuridão da noite. Não conseguiremos nos livrar do “de sempre” e, portanto, não há solução diferente daquela comum também... Transformar o de sempre no melhor. Transformar a mesmice em qualquer coisa mais ou menos boa, mais ou menos saborosa, mais ou menos alegre. Não há outra solução, não há outra alternativa. Não dá pra esperamos o Natal, o ano-novo, as férias, o carnaval, ou os meus 40, 50 anos. Não dá. Porque não é de grandes marcos que a vida é feita. É de pequenezas. Sutilezas quase invisíveis às quais nunca damos bola.

É delas que falo, amigos, e é isso que desejo.

Que, nesse tempo mágico que é o final de ano, vocês possam refletir sobre os pequenos momentos de cada um. E, quem sabe, tomem decisões importantíssimas como abraçar mais a sua esposa, beijar seu namorado com mais atenção, ou elogiar mais vezes a constante delicadeza da sua mãe.

Que a gente se cobre menos e se aplauda mais. Que sejamos menos rigorosos com tudo, até com a depilação. Que possamos beber um gole de vinho ao final de um dia cansativo e que sejamos bravos e corajosos para nos dirigirmos com amor aos que amamos de fato.

Isso deve acontecer, queridos, para que sobrevivamos. Isso é necessário para que continuemos razoavelmente bem.

E eu, que ainda me sinto exausta, desejo sempre encontrar uma fagulha de força e inspiração para abrandar as marteladas diárias desse tempo que – ao menos por ora - me é tão pesado e maçante.

Também espero – talvez mais do que tudo – ainda haver tempo antes de tornar-me totalmente ranzinza, preguiçosa e rabugenta...

Um feliz Natal a quem ainda viver...

Todo meu carinho,

Kika.

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quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

O NATAL É UM QUINTAL >> Carla Dias >>

A menina quer ganhar um pintinho no Natal, ignorando completamente que, quando crianças, minhas irmãs, primas e eu não podíamos ouvir o barulho do berro do homem do megafone, que corríamos com as garrafas nas mãos, das quais, dedicadamente, tomáramos todo guaraná, dias antes.

Trocávamos garrafas vazias por pintinhos... O que poderia ser mais terno? Dar algo vazio e pegar uma vidinha na mão, frágil, mas bem nervosinha, porque eles bicavam mesmo!Depois vinha a fase difícil: dar-lhes nomes e cuidar deles. Corríamos atrás dos pimpolhos, babadores nas mãos, mamadeiras, gritando seus nomes: Piupiu, Zezinho, Cocoricó, Adalberto (?)... Queríamos que os filhotes fossem nossos, mas quê! Eles se escondiam e sabíamos que, numa hora ou outra, eles atravessariam a cerca e debandariam pelo quintal do vizinho.

Aliás, quintal era o que não nos faltava...

O menino pediu um pássaro de Natal, sem se importar se ele teria plumagem fashion ou, como disse um amiguinho certa vez, ele fosse um verdadeiro “vira-latas” com asas. Disse que adoraria ter uma pipa que não precisasse ser empinada; das que era só soltar que ganhava o céu.

Desde muito cedo o menino foi de apreciar liberdade. Aliás, liberdade era o que não nos faltava no quintal lá de casa.

Todo Natal, eu e meus primos e primas pegávamos a fila da felicidade. Ela ficava num centro social do bairro onde morávamos. Era nesse dia que encontrávamos, fora da escola, todos os nossos amiguinhos, e apostávamos quem ficaria com o brinquedo que o outro pegou no ano anterior. E não importava se as rodas dos carrinhos não rodavam ou se as bonecas não mexiam olhos, pés e mãos. Era tão divertido estar ali e saber que, logo mais, nossos brinquedos se misturariam lá na sala de casa. Nós nos misturaríamos, entre brinquedos, cafés e bolos fictícios, feitos por cozinheiros que mal saíram dos cueiros.

Na frente da casa da vó e do vô tinha um pinheiro de verdade, alto pra caramba, que enfeitávamos na época do Natal. Não tinha banquete, muito do que usávamos vinha do que tínhamos no quintal. E não podia faltar cuscuz no menu, tampouco manjar na sobremesa. Nós acreditávamos que ao comer o manjar estávamos bebendo vinho feito adultos... E nos divertíamos com isso até!

Mas um dos momentos mais emocionantes para nós, crianças envolvidas com os mistérios do Natal, era após o almoço, quando nossas mães montavam uma bancada no quintal e colocavam lá toda a louça suja (éramos uma família muito grande). Enquanto lavavam louça, elas cantavam, feito um coral, e sorriam lindamente, como poucas vezes é possível sorrirmos, durante a vida. E sempre, pouco antes de terminarem, chovia... A feição de nossas mães tomando chuva, apenas reforçava nosso desejo de crescermos logo só para podermos tomá-la também.

Depois, tudo se acalmava. Ainda comíamos as sobras da ceia de Natal durante alguns dias, o que para nós era comida especial, porque representava esse momento em que todos os adultos se reuniam, apesar das diferenças; que nós, as crianças, apesar da disputa pela balança do quintal, desamarrávamos a cara e brincávamos de tocar felicidade.

Tomei muita chuva lá no quintal. Ainda hoje, saio do trabalho em dia de chuva e não abro o guarda-chuva. Deixo que La banhe minha alma e, delicadamente, me leve de volta ao Natal desse quintal que é minha infância.




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terça-feira, 23 de dezembro de 2008

A ORAÇÃO DO PAJÉ >> Albir José Inácio da Silva

Desde fins do século passado, ventos ecumênicos têm aproximado cristãos de alguns inimigos históricos. Nessa onda é que o arcebispo convidou para a festa de Natal lideranças de cada religião que conseguiu encontrar. Assim vieram bispos, rabinos, líderes muçulmanos, pastores, babalorixás, monges budistas e até um pajé. O pajé foi o último a ser lembrado porque religiões animistas não têm lá muito prestígio. Além disso ele não tinha e-mail, fax nem telefone. O pajé venceu muitos quilômetros de selva para estar ali. Em compensação, os anfitriões concederam-lhe a honra de pronunciar a oração antes da ceia. O pajé, que começava a conhecer o mundo através de aulas gravadas de telecurso, fez a sua prece, provavelmente cometendo algumas injustiças.

"Ó grande Tupã que sabes todas as coisas, venho te pedir ajuda para estes irmãos confusos reunidos aqui hoje para celebrar o nascimento de Jesus. E que parem de se agredir como têm feito desde que se entendem por fiéis.

Que cristãos não matem muçulmanos em cruzadas pela posse de túmulo vazio, já que Cristo ressuscitou.

Que muçulmanos não massacrem cristãos, judeus, ateus e quem mais estiver no onze de setembro.

Que cristãos não exterminem judeus no holocausto em nome da superioridade da raça.
Que judeus não massacrem muçulmanos em Gaza, em campos de concentração iguaizinhos aos alemães.

Que cristãos católicos não matem cristãos protestantes em noites de São Bartolomeu.
Que cristãos protestantes não chutem mais os santos cristãos católicos.

Que umbandistas não sintam mais vergonha de declarar sua religião ao censo.

Que cristãos não chamem mais de demônios os deuses do candomblé.

Que todos sejam perdoados por suas maluquices fundamentalistas.

Que todos sejam perdoados por atribuir à vontade de seus deuses essas maluquices.

Que Jesus, Maomé, Jeová, Buda e os Orixás se encontrem no paraíso e tracem um plano para que seus fiéis egoístas achem uma forma de convivência e respeito mútuo; descubram uma maneira racional de obedecer aos mandamentos contidos em todos os livros sagrados e não ao ódio instilado em seus corações pelos que transitam hipocritamente por qualquer religião com o único objetivo de satisfazer interesses pessoais.

Que os amigos sorriam confiantes de poderem ter a religião que quiserem, ou nenhuma, porque vão continuar amigos.

Que compreendamos que respeito às diferenças não é virtude, é dever de quem se pretende humano."

Feliz Natal!

Que possamos todos participar da festa cristã. E das outras também.

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domingo, 21 de dezembro de 2008

ponto final >> eduardo loureiro jr

no começo da escrita não havia ponto ou vírgula o texto era um rio que corria sem que se pudesse perceber as correntes o sentido do texto era revelado por um leitor verdadeiro sacerdote que fazia a ligação entre o verbo da palavra e a carne do mundo lia quem sabia reconhecer as pausas a mensagem estava entre as palavras com o tempo criaram-se os sinais de pontuação .:?,!; para uniformizar o sentido já que diferentes intérpretes realizavam pausas também diferentes mas então veio a poesia e desfez o trabalho dos sinais na poesia cada palavra não diz apenas o que se quer dizer só pela poesia deus pode ser filho de deus e a poesia mesmo sem versos ou rimas inventou pausas nos textos e embaralhou as palavras e cada um lê como respira uns profunda e lentamente outros leve e saltitantemente tem poesia na bula de remédio altas doses e uso a longo prazo no cartaz pregado no poste seu amor de volta na fala da mulher suor lágrima e água do mar poesia está onde se pausa onde se pousa antes da continuação do vôo está em parar de bater as asas e deixar-se levar pelas correntes invisíveis do ar poesia não precisa ser longa para ser grande poesia poema não se lê se cria quando se pára para respirar palavra se esconde do olho na voz no gesto viver é assim mirar o rio pausar o rio sem que ele pare para respirar e pausar a si que mira o rio e nele adentrar ser corrente corrente corrente e abrir-se em sentidos quando alguém lhe pausar



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sábado, 20 de dezembro de 2008

O PRESENTE DE NOEL [Maria Rita Lemos]

Uma chuva miúda começou a cair, quando José distribuiu as últimas balas da sacola a crianças sonolentas, cansadas da confusão e da mistura de sons, naquela noite de véspera de Natal.

Pelo movimento da rua, que foi diminuindo de repente, José calculou que passava das dez horas. A chuva caía fininha, e ele só pensava em chegar à sua casa, na periferia, a tempo de levar alguma coisa para as crianças. Se os filhos estiverem acordados, José pensava, abririam hoje mesmo o carrinho e a boneca que conseguiu comprar para eles, além do panetone e da tubaína. Só restaria comprar um frango assado para o almoço de amanhã, e estaria tudo certo, o resto das coisas gostosas da cesta de Natal que ganhou da loja ficaria para o Ano Novo, porque o emprego de Papai Noel acabou esta noite. Amanhã será outro dia. Amanhã...

Felizmente, deu certo esse emprego temporário de Papai Noel que conseguiu no grande magazine; deu para tirar um troquinho, porque, agora, ele não podia se esquecer de que era mais um brasileiro desempregado. E tinha também uma boquinha a mais em casa, que no começo do mês nasceu a caçulinha Daiane, e os dois mais velhos tinham que continuar a comer. Além do mais, no Ano Novo iria ter material escolar para providenciar; a dona da casa a quem ele pagava aluguel, por sua vez, não ia querer saber se José tinha sido demitido.

Então ele se lembrou: o pior é que fora dispensado logo no comecinho do mês, pouco depois de nascer Daiane. Depois de doze anos como soldador daquela empresa, nem doze minutos foram precisos para que, de repente, lhe mostrassem a porta da rua, ele e mais dezoito companheiros. Redução de custos, disseram, corte de funcionários mais antigos.

De repente, ele se lembrou do pedacinho do poema de Drummond, que aprendeu na escola e gravou um pedacinho, por causa de seu nome: “... e agora, José? A festa acabou, o povo sumiu, a luz apagou, e agora, José?...”

Agora é enxugar o rosto, tirar essa roupa calorenta, o capuz e a barba, que o linha quatro vai passar daqui a pouco e ele não pode perder... ou já teria perdido o ônibus para casa?

José correu ao vestiário, trocou a fantasia de Noel por sua calça de brim e a camisa que ganhou da mulher no aniversário. Tadinha da Cida, ficou tão preocupada com o desemprego... foi graças ao anúncio que ela leu, na casa onde fazia faxina, que ele soube daquele 'bico' de Papai Noel. Agora a festa pra todo mundo começou, mas a dele acabou. Não adianta chorar pelo leite derramado, José pensou, enquanto as lojas iam fechando, uma a uma, e o centro da cidade ia ficando deserto, a não ser pelos bêbados e prostitutas. Assim mesmo, até eles eram poucos na rua nessa noite.

José encarou a chuva, e soube no ponto que seu ônibus já passara - e nem pararia, estava lotado. O negócio é ir a pé, na chuva fria e fina. No caminho, na Catedral toda iluminada, já tinha começado a Missa do Galo. José entrou, por falta do que fazer, e ficou olhando para o presépio, aquele menino de sempre, de todos os anos, meio encardido já, mas os olhos continuavam brilhando... E as pessoas continuavam ao redor dele, rezando, rezando. José ajoelhou e pediu um emprego. Duvidava que o Menino fosse atender, ainda mais antes do Ano Novo, mas pediu, e ficou quieto, esperando. No altar, o coro cantava alegremente: 'Nada é impossível se em Deus a fé tu tens'... será?

José saiu da igreja. Apertou o passo, a chuva já não era tão miúda. Caminhava depressa, pensando nas fichas de emprego que preenchera nas últimas semanas... nem uma resposta, nada...

Abriu o portão e seu cão o saudou, alegre. Não sabia que era Natal, que era aniversário de Jesus, nem sabia do desemprego de seu dono.

José entrou na cozinha humilde e viu que todos dormiam: Cida e Daiane, a filha bebê, estavam no sofá, cochilando na frente da TV, que mostrava a Missa do Galo - em Roma talvez. As crianças maiores estavam na cama.

Em cima da mesa, José achou um envelope, que tinha seu nome... O remetente, no envelope, era da maior firma que ele preencheu ficha para soldador... será? O nome era o seu mesmo, José Donizete de Souza. Era ele. E agora, José? Com as mãos trêmulas, ele abriu a carta. Era isso mesmo. Tinha que comparecer com os documentos no dia 26 às 8 da manhã para o exame médico... Fora admitido como soldador. Não era um grande salário, mas tinha registro e assistência médica, para começar estava maravilhoso.

José olhou para a mulher e a filha adormecidas, deitou a cabeça nos braços, e deixou o choro chegar, pensando no menino do presépio. Como era mesmo a música que eles estavam cantando? “Nada é impossível se em Deus a fé tu tens...” e ele, que nem se sabia capaz de tanta fé, chorou, chorou, até adormecer. Diante da TV ligada, diante de sua mulher e filha. Diante da vida que se abria, linda como uma noiva, para o José que também foi Papai Noel, naquela inesquecível véspera de Natal.

Imagens: Man in Santa Costume Commuting on Subway, Tim Pannell; Nativity, Pascal Deloche

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sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Pequenas Biografias Não Autorizadas >> Leonardo Marona

“Napoleone di Buonaparte”

foram-se as baionetas imaginárias,
baixaram a meio pau as bandeiras,
deitaram a correr o velho infame.
os heróis acabam sempre nas ilhas,
os verdadeiros impérios do oriente
foram roídos pela decadência, e tu
estás gordo, a riscar velhos mapas.
muitos se dizem você no hospício,
o mundo ainda é o das debilidades
e mendigos provocam ira nas ruas.
precisávamos talvez da tua loucura
para encarar de frente o apodrecido
e remover as manchas da nossa fé.

que constantinoplas foram precisas
para alcançar o centro de si mesmo?
Novo Prometeu, agora bem sentado
atado em uma rocha onde um corvo
lhe rói as entranhas, e ali o homem,
as entranhas da democracia furiosa.
a imaginação faz perder as batalhas,
você disse, e amou, e foi pra guerra.
você tornou incrível nossa verdade,
depois trancafiou o Marquês de Sade,
e quanto não ficou trancafiado em ti,
homem interditado, líder soberano?
o que vem do fogo para o fogo torna.

***

“Lady Day”

nanicos pisaram as gardênias
nascidas da pedra e do suor
e mesmo o solo esmorecido
ajudava a situar a precoce
figura de mulher em que vibra
dor dos séculos, sinos da terra.

entre brancos e pretos, a filha
amante preciosa, pele de visom
sem saber que poucos homens
poderiam ouvir a verdade bruta
sem pasmarem com o derrame
de tanta violência, tanta ternura
como dizia aquele outro poeta
que morreu de acidente e afinal
você tantas vezes quase se foi
que agora me parece fácil falar
assim como de alguém a quem
se pode verdadeiramente amar
por estar morta e por isso dentro
de cada um que por tantas vezes
quase se foi e não sabe onde está.

mas eles fecharam as cortinas
os nanicos que cospem moedas.
mesmo assim ali há uma fresta,
uma luz cansada tremula ainda.

não foi mesmo possível, Billie
corrigir o coração dos homens
escapar ao terror a cada esfinge
mas essa luz cansada é a prova
de que onde houver amor e fome
haverá aquela música de marfim
essa brutal melancolia africana
para lembrar que vivemos muito,
muito pouco, e não temos demais.

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quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

MAS AGORA EU SEI >> Ana Coutinho >>

Eu ainda me lembro bem daquele dia. Estava frio, mas eu sentia meu corpo suar. Estava nervosa e feliz de uma forma que nunca, nunca mais consegui sentir igual. Lembro de olhar meu namorado ali, no altar, esperando por mim, e ter tido um instante de susto. Ele me olhava com tamanho amor e ternura que meu coração aqueceu-se subitamente.. Lembro-me tão bem, que nem parece fazer já quase 3 anos.

Hoje, assistindo a essa menina que eu fui um dia, tomo outro susto. Como tive coragem? Eu nem conhecia bem aquele rapaz, namorávamos há menos de um ano, onde era que eu estava com a cabeça? Foi uma loucura, um desatino mesmo. E tenho uma sorte do cão de ter sido tão feliz nessa loteria. Porque é, de fato, uma loteria. Mas é hoje que sei disso.

Eu achava que sabia naquele dia. Mas agora é que descobri. Descobri milhares de coisas de lá pra cá.

Eu sabia que não seria só bom. Dizia, entre sorrisos, que sabia que casamento não era só bom, que teríamos dificuldades e tal. Mas eu não sabia do que estava falando. Hoje eu sei. Hoje eu sei que "altos e baixos" não é só uma expressão comum, saída de uma revista de celebridades. "Altos e baixos" é a verdade. São dias de uma enorme alegria e contentamento, e, outros, de uma tristeza e solidão sem precedentes. Eu sabia que teria de aturar muita coisa. Sabia que teria de abrir mão. Mas era só palavra. Hoje eu sei o que é mesmo. Hoje eu sei que abrir mão é uma aporrinhação daquelas, dá muita preguiça, dá raiva, dá até vergonha, mas é tão difícil quanto necessário diante dessa escolha. É uma escolha, eu já sabia. Mas é uma escolha diária, uma escolha que, vez ou outra, te faz hesitar e respirar fundo. Por que foi mesmo que decidi isso? Não é uma pergunta de outra, de um livro ou de uma amiga de uma amiga. É uma pergunta que te corrói por dentro e te faz chorar até perder a voz. Hoje é que eu sei.

Hoje eu sei o que significa mesmo a preocupação do amor. Isso eu nunca imaginei. Nunca imaginei que o amor me tornasse mais tensa, mais alerta. O amor triplica a sua preocupação porque a possibilidade de ver o outro em apuros te torce o estômago de angústia. Hoje eu sei que amar é preocupar-se, e é viver uma vida sempre um pouco aquém da felicidade completa, justamente por ver — à luz da realidade — que a felicidade é efêmera e fugaz. Foge-te das mãos. Não controlarás nada nem ninguém: deveriam ter escrito isso na pedra quando inventaram os 10 mandamentos. A dor de não controlar cada minuto dessa vida, tão minuciosamente sonhada, pode reverter-se em esperança, o mais necessário dos ingredientes dessa viagem maluca a que nos propomos. Ah, a esperança. É ela quem nos segura nos baixos, é ela quem nos cala quando queremos gritar, é ela quem segura nossos braços quando — sim — queremos socar. Mas a esperança, esse bem tão precioso, também é conquistada. São as pequenas alegrias que a constroem. São as atitudes mínimas, essas que por pouco não são invisíveis, que te fazem feliz. É uma piscadela no meio da multidão, uma respiração no meio da noite, um carinho em meio à secura. São essas pequenas jóias cotidianas que fazem tudo valer a pena. E isso eu também não sabia. Que a intimidade chata e inconveniente é a intimidade que nos torna cúmplices e amigos. Eu não sabia o quanto podemos ser amigos e amados, mesmo sendo tão imperfeitos. Eu nunca imaginei, nunca, na vida, que a alegria de reconstruir o que parecia perdido pode ser ainda maior do que construir de primeira, o que já era esperado. Eu não sabia que mesmo durante a TPM, mesmo com a raiva, mesmo com as irritações cotidianas, uma piada poderia tirar tudo do lugar e trazer alma nova para a situação. Eu não sabia o valor de uma piada bem colocada, até casar-me. Eu não sabia o valor de um telefonema, o valor de um carinho, ou como poderia ser bom ver a porta da sua casa abrir-se — antes mesmo de colocar a chave na fechadura — com um sorriso de amor e saudades. Eu não sabia que poderia ser tão bom, tão real e tão acolhedor. Eu não sabia o que era sentir-se aquecida em pleno inverno. Mas agora eu sei.





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quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

A ÁRVORE DOS SONHOS >> Carla Dias >>

Comprometo-me a vagar pela casa vazia, varrendo melodias pra debaixo do tapete. Solfejando sentimentos castos; cantarolando de repentes como fosse destino desatinado. E também a ficar a sós pouco antes do grito histérico que sai de quem necessita.

Quem sabe até rodopio pra ficar tonta de tanto lamento, depois sapateio pormenores e entremeios. Misturo tudo que é pra endoidecer, mas dessa vez, à noite.

Eu adoro a noite.

Pode acreditar que passarei dançando pelo fio da navalha só pra recortar alegorias. As cores, estandartes, concertinas a me lembrarem desse carnaval precedente de quarta-feira a catar as cinzas. A fênix bêbada de boteco, de farra pura, já não renasce... Perpetua-se por pura preguiça.

E minha boca sempre aberta, apesar da palavra engasgada.

Mas calo a mudez num reverberar de palmas, pois a estrela da noite aponta no céu, os cabelos trançados por anjos. Sapateio bisbilhotice e curiosidade pelo universo que habita outros cantos, aquém desse meu. Barulhenta que só, aproximo-me do tempo como se pudesse tocar meu nariz no dele.

Em tempo: borboleteio por quilômetros e quiálteras. Escutei em uma música que ‘a árvore dos sonhos morreu’. Coisa de morte me rouba a voz só para reverberar temperança onde não deve. Nas raízes: arapongas, canções de ninar, alforrias, fertilidade, chão, razão. Nos galhos: asas, piruetas, liberdade, vento lambendo folhas, folhas em queda livre.

Pendurarei pares de sonhos nos galhos dessa árvore e ela há de se encher toda de vida. Suas raízes oferecerão origem aos itinerantes; suas folhas dançarão as danças dialéticas, emblemáticas, catárticas. A sombra acolherá os que necessitam de descanso, ressuscitando o seu viço e fazendo a corte à realidade. Seduzirá o mais reticente e lhe dará voz.

Na árvore dos sonhos moram os meus... São inquilinos os meus sonhos, e cuidam da casa, da alma, do quintal de quem sou. Acompanham significados para que eles não percam o passo, a hora, a vitalidade. Se me olhar bem nos olhos, verá que as imagens que lá passam são as do cinema dos sonhos... Mesmo enquanto a vida cobra lógica e polidez, eles adoçam nossas bocas; fazem-nos buscar a palavra perdida com gosto de afeto.

Foto: Jennifer Renee

www.carladias.com



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domingo, 14 de dezembro de 2008

O MENINO-LUZ >> Eduardo Loureiro Jr.

Resolvi antecipar meu Natal e visitar o aniversariante antes que a casa ficasse lotada de visitantes de última hora.

Ainda não havia me ocorrido visitá-lo. A gente às vezes não atina com certas coisas óbvias, e acaba cometendo absurdos: por exemplo, um aniversário em que a maioria dos presentes são trocados entre os convidados, muitas vezes até na ausência do aniversariante.

Após mais de dois mil anos, esperava encontrá-lo um tanto idoso, de cabelo e barbas brancas, mais parecendo o pai que o filho. Para minha surpresa, ele tinha a aparência de uma criança entre um e dois anos. E confesso que não sei como se tornará um homem moreno de cabelos castanhos e encaracolados, porque o menino é branquinho de cabelo liso e preto.

Ele já é capaz de andar com habilidade, o que não o livra de algumas escorregadelas de vez em quando. Mas não existe praticamente nada que ele não possa alcançar, direta ou indiretamente. Os adultos brincam com máquinas e ferramentas, enquanto as crianças contam com a mais avançada tecnologia que existe: os adultos que lhes fazem todas as vontades, principalmente se você é uma criança cheia de graciosidade como é o caso deste menino.

Embora os pais tentem educá-lo na língua da região, o menino fala uma mistura de japonês com português, sem impedi-lo de inserir fonemas de inglês e possivelmente — eu não conheço bem o idioma — de aramaico. Sua fala divide as pessoas em dois grupos: o "Pá" e os "Údi". Pá se refere a um boneco de aspecto azulado, que suponho ser Deus. "Údi" são todos os demais bonecos — incluindo os adultos. Incrível o grau de síntese que ele conseguiu com a palavra "údi", pois nela já está contida a regra de ouro de fazer aos outros apenas aquilo que queremos que os outros nos façam, e também o duplo mandamento de amarmos uns aos outros e a Deus sobre todas as coisas. "Údi" poderia ser traduzido como o "um di" ou o "um diverso" — poderíamos mesmo pensar que se trata de uma forma compacta de "universo".

Todo filósofo tem suas manias, e esse menino não é diferente: fica de vigília nas madrugadas. Coisa de quem nasceu à meia-noite, já com o hábito de abrir os olhos e o berreiro assim que o dia começa — como se ele fosse o próprio Sol que precisa se aprontar, se aquecer, antes de dar o fogo da sua força pela manhã.

Ganhei a confiança de seus pais e consegui levar o menino para um passeio pelas redondezas. Mas que divertida canseira! Ou ele sai correndo sem querer segurar na mão de ninguém ou faz cara de manha pedindo colo. Não há meio-termo nem chance de ele simplesmente andar de mãos dadas com você. E pela vizinhança todos o conhecem e pedem, quando ele passa: — Luz, luz.

Aos que sempre tiveram dúvidas, eu confirmo: o menino faz xixi, faz cocô, arrota, peida, sua... Não é em nada diferente de qualquer criança, incluindo a característica infantil de deixar adultos exaustos e encantados ao mesmo tempo.

Quando voltei, já pude ver um monte de gente se aproximando — "Menos a cada ano", falou um caminhante para o outro. Mas ao invés de ficar pensando na dureza daqueles que vêm cada vez menos, fiquei foi desconfiado daqueles que sempre vêm: já não era tempo de terem descoberto que o menino, quando saímos, dá um jeito de se esconder entre as nossas vestes e seguir conosco?

De minha parte, vou tratar de mantê-lo por perto. E um dia talvez eu entenda o milagre dele ter permanecido lá e de ter vindo comigo para cá ao mesmo tempo. Criança tem cada uma, nos prega cada peça. E esse menino parece que sabe das peças, das pregas e, por incrível que pareça, também parece saber tudo de cada um de nós.

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sábado, 13 de dezembro de 2008

QUANTOS IDIOMAS VOCÊ FALA? [Sandra Paes]

Parece uma pergunta comum feita na seleção de candidatos a emprego. Parece, mas se olharmos bem de perto, pode não ser.

Entre diversas propagandas pra eficientes cursos de inglês, difundidas por toda parte, me deparo com uma outra bem sutil: a propaganda da mais nova língua planetária.Onde quer que se vá, especialmente no ocidente, depara-se com um novo idioma instituído e adotado por toda a mídia: o economês.

Só se fala em números, em cifras, em gastos, investimentos, em produtividade, em salários, em poupança, em juros, prejuízos, regras mutantes do pode e não pode. Regras pouco claras sobre o controle de sua vida, de seus movimentos, de seu poder de viver até em nome da sua qualidade de vida.

Me pergunto quando foi que começou essa ditadura numérica e toda essa avalanche de sinais sempre articulados em função de onde vai o dinheiro e do jeito que querem que você assimile isso.

E toda a população tem que aprender de uma forma ou de outra a acompanhar o modismo dessa nova língua. E todo mundo controla a “vida” dos outros pelos significados dessa língua.

Você fala economês? Mais ou menos? Pois presta atenção. Se quando sair vai conversar sobre uma liquidação, especular sobre o preço de uma passagem pra viajar nas férias, soltar vez por outra que vai dar pra aproveitar a chance de reformar a casa, ou que esta pensando se vai dar para fazer um lift pro verão, você está matriculada no curso médio do economês.

Se você se pega fiscalizando a nota fiscal das compras do mercado pra medir se gastou mais do que o mês passado, está praticando um dever de casa na prática do idioma. E o que é mais indicador do seu nível de prática: se você justifica quase tudo em sua qualidade de viver usando argumentos citando a “crise” internacional, você foi promovida na escola existencial dos falantes dessa língua.

Eu tenho tido dores de cabeça. Tive que ouvir de uma amiga que seria preciso fazer um diagnostico pra arranjar o tratamento adequado. Mais uma jargão, de outra língua derivada do economês - o cuidado com a saúde, ou melhor, com os sintomas de doenças que nem sempre fazem parte de um quadro fixo da OMS - Organização Mundial de Saúde. Até isso!

Se sua cabeça vive ocupada com cálculos numéricos, tantos por cento disso, tantos por cento daquilo e sem dar dízima periódica, apenas números redondos ou vermelhos, o cérebro começa a dar um sinal de pane.

Quem vive debaixo da ditadura da manutenção do salário, com o medo de perder o emprego por conta da ameaça da crise internacional - essa nova peste que abala o mundo, segundo os doutores do economês -, você está debaixo de outras ameaças. Todas mexendo com a segurança existencial. Ter ou não onde dormir, ter ou não condições de andar de carro, ter ou não condições de sustentar energia pra manutenção do emprego e do salário. E sem esses, fica ameaçado o casamento, o natal, o ano novo, as tão esperadas férias e até, quem sabe, a chance de ter um filho.

A ditadura do economês é a mais avassaladora forca terrorista no mundo. Corrompe de dentro pra fora, mina a auto confiança, retira o poder de respirar e dormir em paz. E a mídia não poupa seu ouvido com todos os discursos falados nesse idioma. Todo rebuscado de estatísticas e dialetos próprios pra testar mesmo seu poder de compreensão e de submissão a essa doença crônica.

Sim, porque pra mim, e isso pode ser pessoal, basta olhar para a poluição de todas as cidades, com excesso de carros em todos os lugares, e num simples piscar de olhos, constatar a inviabilidade de uma sociedade como um todo. Primeira mostra que não faço parte do grupo que conjuga esse dialeto.Não faço parte do grupo que acredita e pensa que está tudo cuidado, por conta de jargões sobre primeiro mundo, desenvolvimento, produtividade, crescimento econômico - sem olhar todos os desastres naturais ou não, decorrentes da cata de impostos pra se produzir mais poluição e mais insegurança e violência.

Não conjugo o verbo consumir. E sou cobrada de forma direta e indireta por isso.
Se não se tem carteira assinada, declaração de Imposto de Renda, conta bancária, crediários em dia, casa própria ou em planos de ser adquirida, carro na porta ou no consórcio, prestações em dia, sonhos de consumo e inserção no mercado consumidor com possível garantia de êxito, você está seriamente doente e condenado ao isolamento. Você tem que saber economês pra sobreviver numa sociedade que so fala esse idioma, senão, seu analfabetismo lhe condena. Viver no ostracismo ou na exclusão social real tornou-se a mais seria ameaça plantada por esse império.

Você tem que fazer parte do contexto dos apavorados pela crise internacional, tem que sentar nos lugares e falar sobre isso, exaurir o espírito do medo que assola a todos e se incluir no projeto de cidadania também imposto. Está na hora de participar de mais esse programa, os poupadores de energia, os conversores de colaboração pra manutenção dos poderes políticos vigentes e tudo em nome do crescimento econômico, do PIB, resultado das linhas de produção, dos índices de consumo e de circulação de mercadorias, não importa se importantes, bio degradáveis, essenciais ou não.

Enquanto isso a vida passa e você ficando mais escravo do que nunca. Já conferiu seus números pra saber se sim ou se não? Como não? Se você não tem CPF, CEP, ID, CC, ISS, PIS, PASEP, FGTS, INPS, SUS, SS, CM, RG, CEL, você não existe! E como alguém pode viver se não existe? Como alguém pode estar incluso em uma cidadania se existir equivale a possuir todos esses códigos?

Estou querendo descobrir e viver sem eles, e não quero falar economês - já ouço demais, leio demais, mas daí só falar essa língua, está muito difícil. E nenhum médico vai me perguntar no consultório quantos idiomas eu falo, apenas pra saber se estou sofrendo de dificuldade crônica de fazer parte da tribo que fala, e conjuga essa língua - a mais falada em todo planeta. E não pensar em economês tem me dado muita dor de cabeça. Literalmente. Espero encontrar a cura.

Imagens: Woman and World Map, Thomas Kruesselmann; Binary Code with Euro Sign and Dollar Sign, Joson; Burning Candle and Page from the Torah, Coleção Corbis



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sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

ANTES DO SONO >> Leonardo Marona

Talvez fosse preciso um longo bocejar. Admitir a aceitação mais violenta: a que diz respeito a nossa própria carne. Um tigre de papel, perdido nos lençóis da carne. Estamos sobre um pedaço enorme de coisa que não sabemos de onde veio e na verdade é um pedaço mínimo de uma outra coisa sem referência nenhuma que gira sem direção por um espaço que por sua vez não se sabe se é infinito, finito ou realmente espaço. É impossível não pensar que estamos todos perdidos, andando por aí, criando rotas dentro de algo – chamemos de algo o que não tem nome – maior e que não tem rota alguma. Mas não tenho essa pretensão. Pretensões grandiosas são as mais mesquinhas. Perguntem a Lee Oswald ou a Oswald de Andrade. Na verdade, queria falar sobre o momento imediato como no futuro do pretérito, o tempo da desesperança poética. E hoje não precisaríamos mais do tiro que explode o sangue na parede. Não haveria mais pernas gangrenadas de pico ou dólares falsificados inflamando vaginas. Estaríamos todos sob uma espécie de couraça – a mesma que no mundo real têm os muito pobres – que nos não permitiria deixar de rir da vida de forma alguma, e nos faria ver, reconhecer o moinho, e cair, levantar, ganhar rugas, mas sempre de prontidão para se levantar outra vez, cair mais uma, ter trituradas as pernas, mais uma vez bater o pó nas calças maltratadas, vestir o chapéu comido pela traça, erguer outra vez o punho leve, quebrado de fome e sede e sono, subir outra vez o inevitável peso sobre os ombros, seguir adiante, ser a natureza das coisas em movimento num espaço onde não há lugar para mais razão, porque sabemos que é preciso retornar e não há motivo para choro, então seria possível – com esse espírito agreste de onde brota uma certa volúpia humanística – viver querendo o bem esperando ingenuamente por deus que, se existe, está tão perdido ou mais do que nós, que o criamos porque sentíamos medo, porque admitimos a natureza do medo como natureza diabólica e precisávamos ter passado sem ela, mas no meu texto no futuro do pretérito de repente estaríamos todos muito leves, sentindo a flutuação dentro da qual estamos inseridos, ouvindo algo como Stormy Weather na voz de Billie Holiday, e se ela diz “vá, mesmo assim vá, sem braços, sem pernas, sem olhos, o coração em fratura exposta, sorria de alguma forma e vá!”, então acreditamos e que venha o tempo das chuvas de outros tempos, que nos deixemos encharcar por esse espírito tão antigo e renovado, por essa encarnação alienígena que paira diante de nós, nós que nos desconhecemos a nós mesmos porque precisamos conhecer o universo, mas no meu texto enxergaríamos todos em tom violáceo e teríamos belíssimos corpos e andaríamos ao léu pelas marés arriadas e chamaríamos uns aos outros nas ruas para passear e conversar e nos apaixonaríamos uns pelos outros porque seríamos tão diferentes, mas pela primeira vez cada homem, cada mulher quereriam ter sido exatamente o que vieram a ser, apenas homem, apenas mulher, e não teríamos mais ditadores de causas moribundas, nada disso existiria, mas é claro, por isso não haveria porque sentir depressão e esse é o modo mais rápido para se ficar deprimido, o não haver motivo para, então finalmente veríamos se bem ou mal diferem tanto na essência, se fomos gerados realmente por extraterrestres e o próprio tempo é uma criação de outras órbitas, assim como a água que circula por nosso corpo é o próprio corpo estranho de que falam as mais perversas ficções. E saberemos enfim se alimentamos pequenas máquinas que alimentam outras maiores e essas alimentam outras enormes e as últimas, por sua vez, alimentam máquinas incomensuráveis que no fim fazem parte de uma estrutura ainda maior de exploração da energia de um lugar feito de gases etéreos por outra concentração maior de energia que incha, incha, transborda e então lembraríamos das nossas pequenas tramóias do dia-a-dia, dos gordos que suam enforcados em suas gravatas ou algemados à cama por sórdidos seres híbridos, e pensaríamos: “que natureza é essa da qual fazemos parte?”, e não haveria resposta, é claro, pois somos a própria resposta, e o tempo se paralisaria por um instante ou dois, pensaríamos mais uma vez sem esforço no som que faz o vento forte sobre uma plantação de trigo, a visão dessa plantação de trigo nos encheria a mente com um poderoso amarelo, e estaríamos no fim desse mínimo instante ainda maravilhados, e de repente não haveria mais responsabilidades porque seríamos parte de um outro estranho, e mais uma vez mão-com-mão, braço-com-braço faria sentido porque não seria mais uma atitude revolucionária ceder o braço, dar a mão, e seríamos portanto seres simples e sem vaidades, o som do mar ao fundo enfim como um repouso para nossas almas carregadas de concreto. Um suspiro, e estaríamos além de nós.

http://www.omarona.blogspot.com/



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quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

No trenzinho da alegria >> Ana Coutinho

O programa se chamava Bambalalão e a apresentadora, Gigi. Passava na Cultura, um canal que as crianças da minha época adoravam porque as propagandas eram muito curtas. Eu, como fã da Gigi, não consegui me conter de alegria quando a minha vizinha convidou-me para ir com ela e mais algumas crianças assistir à gravação do programa.

Ver a Gigi de perto? – ou seria Silvana? – eu pulei de alegria.

No dia, éramos umas quatro crianças no carro da vizinha que, embora vivesse num corpo de adulta, parecia uma criança como nós.

Lembro-me da musiquinha que repetia incessantemente: bambalalão, bambalalão, bambalalão, bambalalão - para por fim concluir - bambalalão é o trenzinho da alegria, que carrega todo dia dentro do seu coração. Talvez não fosse isso - hoje não tem importância - a música, naquele dia, estava cravada na minha cabeça e eu não cansava de repeti-la a todo instante.

Lá chegando fomos acomodadas no que seria a platéia, um nível abaixo do palco. Não demorou muito e elas apareceram, cantando – Eu disse elas? Eram duas?

Um mundo de crianças levantou-se e, todos juntos, cantávamos eufóricos, pulando e dançando como as apresentadoras – sim, eram duas.

Se eu fechar os olhos, quase posso ouvir meu coração disparado de emoção dentro daquele pequeno corpo, que já sabia o que era ter um ídolo. Eu, uma menina franzina, sentia-me um gigante naquele pequeno estúdio, misturada a tantas crianças com os mesmos gostos e sonhos que os meus.

No entanto, o passeio não foi só feito de alegria para mim. A coisa começou a complicar quando iniciaram as brincadeiras, que contavam com a participação das crianças. Eu, menina e tola, havia sonhado com isso nas noites anteriores. Iria participar de tais e tais jogos, ganhar um brinde e mandar um beijo pra minha mãe, pro meu pai e pra você. Ensaiei na frente do espelho e tudo. Quando chegou a primeira brincadeira, porém, fui esmagada por uma infinidade de crianças que, muito mais espertas e rápidas do que eu, correram perto do palco e gritaram: “Eu, eu, eu, escolhe eu, Gigi, escolhe eu!” O palco, um nível acima de onde estávamos, ficava infestado daquelas pequenas mãos implorando por um instante de visibilidade. Claro que eu não fui escolhida para a brincadeira. Mas uma das meninas que tinha ido comigo, minha vizinha de porta, parecia ter mais sorte. Robertinha era um ano mais nova do que eu, e muito mais esperta e desinibida. Logo na segunda brincadeira, correu para o palco e agarrou a mão de uma das apresentadoras que, num instante, levou-a para cima, onde ela apareceu triunfante sob os holofotes. Eu, lá debaixo, senti-me absolutamente infeliz, uma profunda fracassada assistindo à vencedora no pódium. Robertinha ganhou o jogo e desceu saltitante com seu presente, exibindo-se para nós. Lembro-me, ainda com dor, que sorri fingindo felicidade, enquanto abracei a minha amiga.

Mais alguns jogos aconteceram, eu corria para perto do palco, juro que tentava gritar como as outras, mas parecia invisível aos olhos das apresentadoras. As crianças que tinham ido comigo pareciam todas milagrosamente iluminadas, subindo ao palco uma a uma, enquanto eu vacilava no andar debaixo. Lá pelas tantas, a minha vizinha adulta me chamou de canto e disse, com muita firmeza: “Kika, presta atenção, você tem que agarrar no braço delas, entendeu? Igual a Robertinha, agarre e grite, eu, sou eu, eu, eu, eu, não pode ficar assim, meio sem-jeito de fazer isso, senão você não vai ser escolhida!” Ela, a minha querida amiga, tinha posto seus olhos em mim e via minha angústia.

Lá fui eu então, na próxima rodada, seguir ordens da minha adulta. Tentei gritar, tentei pegar na mão da Gigi, mas aconteceu em um instante: eu me senti ridícula, fora de propósito gritando aquilo, e tive vergonha. A voz embargou, as mãos não eram tão firmes como as dos outros e minha amiga Robertinha - que se jogou impetuosa na minha frente - foi mais uma vez escolhida. Quase que posso vê-la, hoje ainda, subindo sorridente para o palco, um pé após o outro, impulsionada pelas mãos de fada da Gigi.

O passeio para mim estava encerrado. Sentei-me longe, afastada da multidão, sentindo uma mistura de humilhação, tristeza e vergonha. Eu não era como eles. Eu era mais fraca, infinitamente menos capaz e muitíssimo mais tola. Assisti à vitória da Robertinha ali, do lado de baixo do palco, prendendo os lábios para não chorar.
Nunca me esqueço da volta do programa. Todos esfuziantes com os seus brindes, enquanto eu permanecia calada no banco de trás, sentindo - talvez pela primeira vez na minha vida - como pode ser doloroso sermos, irremediavelmente, quem somos.

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quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

AMAPÁ em CANTOS >> Carla Dias >>

As saias das dançadeiras, floridas; as caixas do marabaixo e os tambores e pandeiros do batuque. O sorriso das moças... O sorriso dos moços; suas histórias de vida. Os olhares curiosos dos transeuntes, deslumbrados pela beleza da dança, do lamento, do canto.

São Paulo pode ser cinza, por conta de seus prédios e ruas, mas se engana quem a julga distante. Ela é acolhedora e recebe, de braços abertos, a todos, criando um cenário cultural eclético, rico. E foi esta a cidade que serviu de cenário para um projeto muito peculiar e, definitivamente, uma iniciativa louvável de impulsionar o brasileiro a conhecer a pluralidade cultural do seu próprio país.

A música do Amapá visitou São Paulo, de 20 a 30 de novembro, tendo como palco o SESC Ipiranga. O projeto AMAPÁ em CANTOS teceu o fio que uniu duas culturas tão diferentes, e com a graça de quem conta uma história. Talvez por isso a presença de tantos poetas empunhando violões, cantando não só a beleza do Amapá, mas também sua importância na composição da identidade brasileira. Esse lugar que abriga grupos folclóricos de marabaixo e batuque; onde a influência africana se faz presente na música e na dança.

Tive o prazer de acompanhar de perto a idealização e a realização desse projeto. O AMAPÁ em CANTOS foi um ensinamento sobre esse povo que sabe fazer música e que abraça a poesia.

O AMAPÁ em CANTOS contou com uma programação de shows com artistas amapaenses e seus convidados, vindos de diversos cantos do Brasil, numa mistura de influências e encontro de afluentes. No Amapá nascem rock, pop, blues; a fusão de ritmos com a sua linguagem regional contempla melodias belíssimas. A energia dessa música é celebrada e cuidada, abarcada por uma inspiradora poesia.

O grupo de Marabaixo fez uma performance belíssima no jardim do SESC, no primeiro dia de evento. Depois, apresentou-se em quase todos os dias, no hall de entrada, chamando o público para assistir aos shows que aconteceriam no teatro. No penúltimo dia de evento, foi o grupo de Batuque que se apresentou no mesmo jardim.

Os encontros no palco do teatro foram emocionantes. Enrico di Micelli convidou Vicente Barreto; Patrícia Bastos convidou Vitor Ramil; Juliele convidou Celso Viáfora; Marcelo Dias convidou Nilson Chaves; Cléverson Baia convidou Ceumar; Zé Miguel convidou Vital Lima; Senzalas convidou Chico Cesar; Nivito Guedes convidou Lucina; Osmar Junior convidou Zé Renato; Naldo Maranhão convidou Pedro Osmar; Negro de Nós convidou Jean Garfunkel; Verônica dos Tambores convidou Luhli; e Ronery convidou Leci Brandão. Nilson Chaves também foi responsável pela direção artística.

Uma banda fixa foi colocada à disposição dos artistas, e devo dizer que deram um show à parte. Estive presente em algumas passagens de som e ensaios, e posso garantir que, além de músicos talentosíssimos, é um grupo de pessoas que realmente se importa em fazer um bom trabalho, colaborando com a música dos compositores e intérpretes que passaram pelo AMAPÁ em CANTOS. E não poderia deixar de citá-los: Miquéias Reis (violão/direção musical), Adelbert Carneiro (baixo/arranjos), Alan Gomes (baixo), Fabinho (guitarra), Paulinho (bateria), Néo, Pires e Rosivan (metais), Nena, Valério e Diego (percussão) e Erinho (teclado). Essa turma é muito bacana, meus caros!

Este foi um projeto que envolveu muita gente, trazendo do Amapá um grupo de quase 100 pessoas e contando com uma produção local. Foi idealizado pela Secretaria de Cultura do Amapá e realizado pela AMCAP/SECULT, o que, espero, inspire outras secretarias de cultura a seguirem esse caminho e elaborarem projetos específicos e que possam colaborar para que uma região conheça o perfil cultural do outra. A curadoria e produção local foram coordenadas pela minha amiga querida, a Drika Bourquim, pessoa que se importa muito com a qualidade da música brasileira. E aproveito para parabenizar a Andréa, o William, a Sandra, a Jussara, o Renato, o Vanderlei, o Manoel e o Nal, pessoas que encontrei no evento e sei que trabalharam para que o Amapá fosse bem recebido em Sampa.

Sugiro que visitem o site do AMAPÁ em CANTOS e saibam mais sobre o projeto e os artistas que participaram. Afinal, há muita coisa boa sendo feita por aí para não arregaçarmos as mangas e procurarmos, ao invés de apenas reclamarmos que a mídia não nos dá isso de bandeja... Vamos lá! Quem quer receber tudo de bandeja, sem aquela emoção boa de procurar e encontrar?

www.amapaemcantos.com.br

E antes tarde do que tarde demais: confesso que adorei conhecer um poeta do qual aprendi a apreciar a poesia: Joãozinho Gomes, integrante do grupo Senzalas ao lado de Amadeu Cavalcante e Val Milhomen. Quem não conhece a obra desse poeta, as canções nas quais ela figura, fica a dica.

Foto: Fernanda Serra Azul

www.carladias.com



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domingo, 7 de dezembro de 2008

LEITORA >> Eduardo Loureiro Jr.

Robin Bartholick/CorbisEu estou aqui. Sentado diante de uma tela que começo a preencher com palavras. Você está aí, com as palavras todas à sua frente. Se o tempo desse um descanso em sua mania de passar, você poderia me contar o que eu ainda nem sei que escrevi.

Então vamos inverter os papéis. Eu saio da frente do computador agora, me visto e desço até o jardim. Você me encontra lá, me dá um abraço — se já formos velhos conhecidos — ou então nos apresentamos ("Prazer, sou Eduardo.") e começamos a caminhar.

Enquanto nossos passos se acertam com uma música imaginária — ou mesmo real, "oh, darling, darling, stand by me" — você vai me contando a crônica que eu já — e nem ainda — escrevi.

Para aumentar minha curiosidade, você não começará falando da crônica em si. Falará de como chegou até ela clicando sobre um link do Google — ou de como espera por ela toda tarde de domingo. E depois dirá o que sente, como se sente. Falará das surpresas, dos encantos e das decepções (por que não?).

À beira de um outro jardim, você me chamará para conhecer o cheiro de uma flor que antes, para mim, só tinha cor. E me confessará que eu sou diferente do que faço transparecer na crônica. Se soprar um vento de sinceridade, você dirá mesmo que sou um tanto sem graça e que não sabe como de mim surgiram aquelas palavras tão bem ditas. Eu abrirei meu sorriso feito só de lábios — sem ousar mostrar os dentes — e você saberá que eu sei que você está certa.

— De onde vêm as palavras?
— Eu não sei.
— Mas você é um escritor!
— Eu me sinto mais como um leitor de primeira mão.

E você ficará pensando no que isso quer dizer. E, sinceramente, isso não quer dizer nada. E eu vou me lembrar da famosa carta aos coríntios: línguas e ciências desaparecerão, mas o amor... ah, o amor.

Você respirará fundo, e eu lhe olharei fundo. Você não terá mais vontade de falar sobre a crônica que escrevi, e eu não terei mais vontade de ouvir sobre a crônica que vou escrever. Ela já está escrita e eu só preciso de coragem para atravessar o rio às vezes turvo da memória.

Nós sentaremos à sombra daquela árvore que chove pequenas pétalas lilases, e nossos cabelos ficarão molhados de cor. Eu encostarei no tronco, você encostará em mim e meus dedos tocarão seu corpo como nunca tocaram nenhum teclado.

Adormeceremos ouvindo uma animada conversa de passarinhos, e sonharemos que as plantas e os bichos são gente e que nós somos leves feito o vento.

Quando acordarmos, você me procurará e eu lhe procurarei, mas não estaremos ao lado um do outro. E antes que a sempre ilusória tristeza se faça passar por verdade, você saberei, eu saberá que desde o sono somos um. Não mais ao lado, agora alados, asas de um outro ser.



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sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

CAOS >> Leonardo Marona

Estou à espera de qualquer coisa. Qualquer coisa que se move por perto e me apavora. Me entorta a espinha. Mas é um perto que não posso ver. Não existem milhas ou léguas que nos separam. Estamos em lugares distantes e ocupamos o mesmo espaço. Mas posso sentir seu bafo quente, sua passada larga e lenta, sinto seus dentes rangendo e algo me diz que isso não é nada bom. Digo apenas que posso sentir. Digo mais alto, algo ainda não me convence, então digo muito mais alto, e penso que perdi a razão. Posso sentir. Isso parece uma frase um tanto desesperada, de alguém insensível querendo se justificar. Sentir é algo assim tão amplo, tão vago que preciso andar pela casa a topar com móveis pontiagudos escarnecendo com as mãos para cima. Tenho um pensamento patético, no fundo de outro pensamento óbvio. O pensamento patético é: “O que estou esperando?” Ele está dentro do seguinte pensamento óbvio: “Por que demorei tanto para me dar conta de que precisava me perguntar isso?”. Fatalmente alguém há de ler isso. Se for um canalha, rirá. Um medo equivocado toma conta de mim. Bato as teclas automaticamente e elas parecem grudar-se à tela branca sem vontade, como o demônio deformado que nos persegue nos sonhos ruins. Ele nunca nos alcança, mas sempre quase nos pega, e nunca desiste de correr, assim como eu mesmo que, no sonho, vou me exaurindo, cada vez mais exausto, e começo a ver enormes castelos de areia e penso em Franz Kafka e Ferdinand Céline. Tenho medo, muito medo, estou exausto, por isso começo a fazer citações. A palavra exausto me lembra de que, no meio de todas essas elucubrações revoltantes, continuo à espera, sem respostas, nem mesmo ando, estou à deriva e minto sobre ilhas pré-diluvianas. Nenhum milagre ao redor. Tento desenhar uma andorinha no papel branco. E como seria mesmo uma andorinha? Alguma coisa deve estar muito errada. Não reconheço o que desenhei e apelo a um psicologismo cínico. Deve ser algo mais por dentro. Repentinamente sinto uma vergonha incomensurável e começo a gargalhar. Encho e esvazio copos empoeirados. Sei muito bem que as gargalhadas são muitas vezes as primeiras demonstrações de loucura segundo nossas avançadas metodologias humanistas. Devo me controlar. Os psicopatas dizem sempre a mesma coisa. Devo me controlar. E os olhos já escaparam às órbitas, o saco plástico impede a respiração. Acontece uma espécie de barulho surdo, contínuo, por dentro do ar. O barulho de algo que se aproxima. Algo se aproxima e essa é a única evidência.
O dinheiro está terminando, o país prestes a quebrar. Existem ainda alguns poucos de olhos esbugalhados, enormes papadas, verdes de ganância, por cima da carne seca. Mas são cada vez em menor número e seus dias também estão contados. Estaremos, todos, em breve nos digladiando nas ruas por comida? Não haverá mais o financiador e o financiado, ambos estarão juntos roendo os esgotos de uma belíssima cidade, uma espécie de Grécia babilônica, os restos de uma raça antiga, inusitada e sem explicação? Nada disso importa. Esta frase está fadada ao esquecimento e completo fracasso. Importa tão pouco que me esqueço a cada minuto do que se trata. As montanhas de areia se estendem diante de olhos ainda revoltados. Importa é “para frente amor, estamos vivos!”. Meu deus, recorro a ti, a que ponto cheguei? Toda satisfação é momentânea. Mas nisso é importante não pensar. Os horizontes cor de violeta repousam pavorosamente sobre a visão. E quando me dou conta estou ali, a saliva pastosa nos cantos da boca, os olhos vermelhos para fora das redomas, alguma coceira um pouco mais na direção do espírito sem controle, com o rosto colado às mil portas sem entrada, à espera de qualquer coisa que virá de súbito, arrastando as emoções a chicote, devastando as últimas ameaças do tempo.


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quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

VENHA COMEMORAR >> Ana Coutinho >>

Quer me ver feliz, me dê um convite em que tenha escrito em letras garrafais “VENHA COMEMORAR!” que eu vou. Tendo o aniversariante qualquer idade cujo número caiba apenas em um dígito, pronto. Meu final de semana está feito. Cancelo viagem pra praia, desmarco o almoço com as amigas, tudo. Minha prioridade — na vida — são as letras garrafais em colorido: VENHA COMEMORAR! Vou.

Sou abduzida por festas infantis. Ao contrário de todo mundo que conheço, eu as adoro, confesso com uma pitada de vergonha. Por isso, a propósito, deixo claro: não estou aqui falando de retornar à infância, de sermos crianças de novo e nem das festas ridículas que pessoas de 30 anos fazem vestidas de Cinderela em buffets infantis. Cruzes, não, não faço o tipo adulta tip-top que anda pra lá e pra cá com adesivos das Meninas Superpoderosas. Não.

Falo mesmo de olhar a infância daqui, do alto dos nossos inta e poucos ou enta e tantos, não importa. Falo de assistir aos pequenos tolos rirem, gargalharem até, com um palhaço absolutamente idiota aos nossos olhos, já tão fartos de imagens desse tipo. Falo — principalmente — de uma mesa cheia de docinho, frituras passeando nas bandejas para lá e pra cá, impunes, corruptas soltas nesse mundo de saladas e cenouras. Pois lá na comemoração, as bolinhas de queijo — essa representante da bandidagem que se tornou a fritura — podem satisfazer a todos nós, sem vergonha nem culpa. “Risole? É do quê? Queijo e presunto? Hummm, pode deixar um pratinho aqui?".

Onde, onde mais é possível? A festa infantil é uma trégua do politicamente correto, uma trégua do light, uma trégua do salto agulha sem precisar ser pantufa. Uma trégua para nos encantarmos um pouco com essas pessoas pequenas que trombam desajeitadas no nosso joelho quando querem correr pra pegar a lembrancinha. Sempre tem uma criança que nos chama atenção. Sempre tem um que ri mais, um que se perde, um que come a forminha do brigadeiro, um que dança de um jeito engraçado. Eles, com seus sorrisos de dente de leite, são ainda mais saborosos que os brigadeiros. Eles, que ainda acreditam em tudo, ainda riem de tudo, são legítimos representantes de nós mesmos. Assistimos a essa parte perdida do nosso inconsciente ali, do lado de fora, e vamos dizendo um para o outro: “olha aquele ali, rindo sem parar. Olha aquela, dançando assanhada, tá vendo aquela, aquela ali, de vestido de princesa? Viu? Ela não tá nem aí pro palhaço...”

É a vida se surpreendendo com o de sempre. É o encanto das possibilidades. Não há boas maneiras, não há sapato alto nem batom vermelho. Somos todos — adultos e crianças — quem queremos ser mesmo. Vem comemorar?




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